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CURSO: Tecnólogo em Segurança Pública

DISCIPLINA: Análise de Políticas Púbicas


CONTEUDISTA: Marcial A. Garcia Suarez
Desenhista Instrucional: Fernanda Felix

AULA 1 – Poder, Política e Violência: Uma aproximação aos


conceitos

META

Apresentar a relação entre os conceitos de Política, Poder e Violência.

OBJETIVOS

Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de:

1. Relacionar política, poder político e violência, com base em Maquiavel e Hobbes.


2. Relacionar poder e dominação a partir da teoria weberiana.
3. Relacionar poder e violência, tomando como referência os estudos de Hannah
Arendt.
4. Estabelecer uma visão crítica sobre a relação entre Política, Poder político e
Violência.

PRÉ-REQUISITOS:

Para se ter um bom aproveitamento desta aula, é importante que você relembre suas
leituras realizadas sobre teoria política. Para complementar, consulte o Dicionário de
Política de Norberto Bobbio, sempre que necessário.

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INTRODUÇÃO

A Política e o Poder: uma tensa relação

Nessa primeira aula, nosso objetivo é estabelecer os parâmetros de leitura em


Políticas Públicas e, para isso, manteremos nosso foco em dois conceitos
fundamentais, inicialmente: Política e Poder. Esses dois conceitos estão na base da
ciência política.

A tarefa de definir Política, bem como o que é Poder está, ao longo do


pensamento ocidental, entrelaçada ao próprio Processo Civilizatório e, em
assim sendo, não há como não tratarmos desses conceitos.

Nessa aula, você fará uma aproximação a esses conceitos e, para tanto, realizaremos
alguns passeios pela história do pensamento político.

1. A conceituação de Política e Poder

Afinal de contas, o que é Política e o que é Poder?

A política é a atividade humana mais fundamental. Todas as ações humanas se


revestem de um caráter político. Para cada período histórico nós encontraremos uma
determinada definição do que é Política e do que é Poder.

Figura 1.1 – Toda ação humana se reveste de um caráter político, inclusive a imagem acima.

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Você consegue identificar? As cadeiras de rodas dão a pista de como poderia ser interpretada
pelo viés político.

Autor da imagem: Jimee, Jackie, Tom & Asha


Link da imagem: https://www.flickr.com/photos/wilderdom/65444685/

Quando pensamos na Grécia Antiga e nos recordamos das cidades-estado


atenienses, principalmente Atenas, rapidamente, lembramos da democracia ateniense.

Há mais de 2.400 anos atrás já havia a difícil equação entre Política e Poder e, por
isso, é importante entender alguns significados dessa palavra.

<Início do verbete>
Politica
Com esse nome foram designadas
várias coisas, mais precisamente:
1º) a doutrina do direito e da
moral;
2º) a teoria do Estado;
3º) a arte ou a ciência do
governo;
4º) o estudo dos
comportamentos
intersubjetivos.

Fonte: Abbagnano, Nicola. Dicionário


de Filosofia. Martins Fontes. São
Paulo, 2000.
<Fim do verbete>

Outro conceito controverso na teoria política é o de Poder. E, em nosso caso, estamos


nos referindo ao poder político ou a relação entre poder e política. Quando, ao longo
destes mais de 2.000 anos de civilização ocidental, unimos as palavras Política e
Poder encontramos a condição mais complexa que existe na vida humana. Se a
política é fruto da participação dos sujeitos nas decisões, estes devem ter a
capacidade (poder) de participar delas.

Por outro lado, quando um grupo deseja impor sua vontade sobre outro necessita ter
as condições e capacidades para impor sua vontade (poder). Ao longo da história
humana, o Poder se manifesta de distintas formas na vida política e pode ser
compreendido como resultante da relação entre sujeitos individuais, entre sujeitos e o
Estado ou entre Estados.

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<Início do verbete>
Poder
Em seu significado mais geral, a
palavra Poder designa a capacidade
ou a possibilidade de agir, de produzir
efeitos.
Tanto pode ser referida a indivíduos e
a grupos humanos como a objetos ou
a fenômenos naturais (como na
expressão Poder calorífico, Poder de
absorção).
Fonte: BOBBIO, Norberto;
MATTEUCCI, Nicola e PASQUINO,
Gianfranco. Dicionário de Política.
Tradução Carmen C. Varriale... [et
al.]; coordenação da tradução João
Ferreira, revisão geral João Ferreira e
Luis Guerreiro Pinto Cascais. 6 Ed.
Brasília, DF: Editora Universidade de
Brasília, 2003.

<Fim do verbete>

<Inicio do verbete >


Civilizatório / Civilização

No uso comum, esse termo designa


as formas mais elevadas da vida de
um povo, isto é, religião, a arte, a
ciência, etc. consideradas como
indicadores do grau de formação
humana ou espiritual alcançada por
um povo.

Fonte: Abbagnano, Nicola. Dicionário


de Filosofia. Martins Fontes. São
Paulo, 2000.

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<Fim do verbete>

Para começar, é importante deixar claro que não devemos relacionar essas palavras
com as do idioma inglês, “politics” e “policy”.

A palavra politcs refere-se à atividade humana voltada à aquisição e à conservação de


recursos indispensáveis ao exercício de poder sobre outros indivíduos.

Uma segunda abordagem traz o sentido de “policy”, que se relaciona a orientações


dirigidas à decisão e, conseqüentemente, à ação propriamente dita: uma diretriz
voltada à solução de um problema prático, com benefícios a parte ou a totalidade de
um grupo. Diz respeito à cidade, àquilo que é urbano, público e social, entre outros. No
decorrer dos tempos, o significado tem sido substituído por expressões como: ciência
do Estado, doutrina do Estado, ciência política, filosofia política ou conjunto de
atividades ligadas à polis, consequentemente, ao Estado.

Em suma, seria uma tentativa de formulação de regras e princípios orientadores de


ações, com a finalidade de atingir determinado resultado, podendo ser utilizada com
vistas ao teste de mudanças substantivas nos diversos campos: político, econômico,
social e militar, entre outros.
Em uma perspectiva ampla, a política, pode ser entendida como a ciência ou arte de
governar o Estado. Como atores no panorama político, aqueles que governam
expedem ordens que requerem submissão e obediência por parte da sociedade.

Figura 1.2 – Congresso Nacional em Brasília – DF. O Congresso é palco de ações políticas
relativas às atribuições legislativas, de fiscalização e controle. Em um contexto amplo,
podemos entender a política como a ciência ou arte de governar o Estado.

Autor da imagem: Dal Nunes


Link da imagem: https://www.flickr.com/photos/dalnunes/3631372244/

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Quando voltadas para o ambiente interno de um país, são consideradas políticas
internas ou domésticas, enquanto ao afetarem um protagonista estrangeiro, passam a
ser tidas como externas. Cabe ressaltar que em Estados democráticos, a política
deve, ou pelo menos deveria, ser regida pelos cidadãos por intermédio de eleições e
pela participação popular nos projetos nacionais, visando à prosperidade de sua
nação.

Pretendemos, como primeiro passo de nossa análise em torno da temática das


Políticas Públicas, discutir como o conceito de Poder é tratado no campo da teoria
política e de que forma ele é definido, qual seu fundamento e quais suas premissas.

Evidentemente, não pretendemos aqui afirmar uma visão única do fenômeno, mas
indicar uma das possíveis vias de interpretação que você poderá ter para a
compreensão do fenômeno político.

2. O Poder como Desígnio

Aqui começamos nossa caminhada no mundo da ciência política.

Abordaremos autores do século XVII, passando pelo século XVIII e alcançaremos o


século XX para que possamos, ao final dessa aula, discutir, com a maior propriedade
possível, os temas relacionados às políticas públicas.

Como a extensão do campo do pensamento humano é insondável, bem como o


conjunto dos conceitos produzidos por ele, nos cabe, como primeira tarefa, delimitar o
espectro de nossa abordagem. Vamos lá?

A importância da leitura desses autores se dá pela razão de que, quando começarmos


o nosso caminho pela teoria das políticas públicas, abordaremos dois atores
fundamentais: Sujeito e Estado. Estes dois atores emergem ou são construídos pelo
processo civilizatório ocidental ao longo dos séculos que veremos a seguir e pelos
autores que estão entre os expoentes desses períodos.

Vamos começar nossa jornada com Maquiavel.

2.1 O Poder na visão de Maquiavel

Nicolau Maquiavel, pensador do século XV, surge no horizonte do pensamento


político Italiano, no qual; “O manifesto elaborado pelo autor para a nova ciência refletia
a crença de que, para poder analisar de modo coerente os fenômenos políticos, era

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necessário libertá-los das ilusões que os envolviam, entrelaçadas pelas ideias políticas
do passado” (Wolin, 1960/1974: 213, tradução do autor)

<Inicio do verbete:>
Maquiavel (1469 – 1527)
Nicolau Maquiavel (em italiano:
Niccolò di Bernardo dei Machiavelli;
Florença, 3 de maio de 1469 —
Florença, 21 de junho de 1527) foi um
historiador, poeta, diplomata e músico
italiano do Renascimento.

Link da imagem:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_Ma
quiavel
<Fim de verbete>

O pensador florentino distancia-se da tradição do pensamento político vinculado de


forma mais proeminente à tradição religiosa, a partir do momento em que afirma, que
os Estados que se encontram sob a égide do poder papal não merecem a atenção do
pensamento político e já que retiram sua força da idéia de uma divindade superior, não
correm riscos de dissolução, ou; “Em suas mordazes palavras, tais regimes mantém
seus príncipes, qualquer que seja seu modo de atuar ou viver” (Ibid, 1960/1974: 214,
tradução do autor).

O pensamento de Maquiavel volta-se sempre na direção daquilo que é imperativo para


a manutenção do Poder e, nesses termos, exclui todo elemento que não seja
necessário à conquista e a manutenção do poder. O elemento central em todo o
estudo de Maquiavel - particularmente em sua obra O Príncipe (1513) - é o elemento
individual que surge no horizonte das possibilidades e delas extrai todas as vantagens
possíveis, apoiados tanto na virtude como na fortuna.

<Início do verbete>
Virtude

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Este termo designa uma capacidade
qualquer ou excelência, seja qual for
a coisa ou o ser a que pertença. Seus
significados específicos podem ser
reduzidos a três:
a) capacidade ou potência em geral;
b) capacidade ou potência do
homem;
c) capacidade ou potência moral do
homem.

Fonte: Abbagnano, Nicola. Dicionário


de Filosofia. Martins Fontes. São
Paulo, 2000.

<Fim do verbete>

<Inicio do verbete>
Fortuna
Segundo Aristóteles, fortuna
distingue-se do acaso, porque se
verifica no domínio das ações
humanas e por isso não podem ter
fortuna ou falta de fortuna os seres
que não podem agir livremente.

Fonte:Fonte: Abbagnano, Nicola.


Dicionário de Filosofia. Martins
Fontes. São Paulo, 2000.
<Fim do verbete>

Em Maquiavel, Virtude se define como a capacidade do “príncipe” em desempenhar


de acordo com sua “fortuna” as ações necessárias para conquistar e ou manter o
poder. O Poder, em Maquiavel, será compreendido como o exercício da força no
sentido de que esta sirva aos interesses políticos do príncipe maquiaveliano. A fortuna
pode ser compreendida como a ”sorte” do príncipe em agir da forma mais adequada

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para manter ou conquistar o Poder, mas a fortuna só tem sentido se ela estiver unida a
virtude, pois essas características sozinhas não têm relevância para Maquiavel.

A conquista do poder dá-se pelo êxito na campanha e no exercício preciso de suas


capacidades de poder; “Este novo homem é o exemplo de uma época de incansável
ambição, de rápida transformação das instituições e velozes mudanças entre os
grupos de elite” (Ibid, 1960/1974: 216, tradução do autor).

O exercício racional dos meios de violência é um dos pressupostos iniciais para que
possamos compreender que não podemos pensar apenas em agressividade
desenfreada. Isso porque, esta última, levaria, necessariamente, à dissolução do
poder. Devemos imaginar sempre um termo médio, onde se possam aplicar os “meios
necessários” para manter o poder.

Um exemplo do que seria o uso racional da violência indica, necessariamente, um


contexto específico político, social, cultural e religioso. Isto é, uma prática pode ser
compreendida como violenta num contexto e noutro não. A racionalidade no uso da
violência está diretamente ligada à idéia de manutenção da ordem social.

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Figura 1.3 – Tanques em Londres ao final da Primeira Guerra Mundial, 1918. Para Maquiavel,
o exercício racional dos meios de violência está relacionado à manutenção da ordem e do
poder dentro de um dado contexto sociopolítico, religioso e cultural.

Autor da imagem: Thomas Frederick Scales / National Library of New Zealand

Link da imagem: https://www.flickr.com/photos/nationallibrarynz_commons/3056450509/

Wolin afirma que, a partir de Maquiavel, as “meias palavras” foram postas de lado e o
Estado toma a frente no que diz respeito ao uso da violência como um dos
mecanismos de exercício de sua autoridade; “Porque o homem que merece críticas é
aquele que a usa para violentar as coisas e não para corrigi-las”. (Wolin apud
Maquiavel, 1960/1974: 238, tradução do autor). O que o autor trata de explorar nesse
parágrafo, é exatamente o princípio de uma economia da violência, isto é, a
racionalidade no uso dos instrumentos do Estado para a manutenção da ordem social.

Para Maquiavel, não existe a possibilidade de manutenção do poder sem o uso da


violência. Entretanto, o autor defende o uso calculado e racionalizado da violência.

As considerações que permitem analisar tal pressuposto se baseiam na percepção de


que, no campo político, seja este interno ou externo, as relações podem ser
analisadas sob a ótica de um:
• cálculo de possibilidades; e

• desequilíbrio entre as forças.

A execução de uma ação qualquer pressupõe, inicialmente e antes de tudo, a


possibilidade de que se possa realizar tal ato, o que indica que existe poder (enquanto
capacidade de ação) em alguma medida.

Considere-se que o campo político seja o espaço onde residem as possibilidades de


ação. Assim, a distância entre:

• o príncipe e seus súditos, em Maquiavel, é a diferença de fortuna e de virtude que


esse possui e os outros não.

• a autoridade e a ação, que somente pode ser preenchida pela violência. Logo, a
violência mantém o espaço de cada um determinado e seguro.

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Figura 1.4 – Tropas australianas marcham em Londres após a Primeira Guerra Mundial. A
força mantém os espaços de cada um bem definidos.

Autor da imagem: Thomas Frederick Scales/ National Library of New Zealand


Link da imagem: https://www.flickr.com/photos/nationallibrarynz_commons/3056447621/

Temos que a segurança do exercício de seu poder tanto mais será garantida quanto
mais o príncipe souber executar as ações de forma reta e rápida a fim de que possa
interromper os movimentos contrários à sua ordem.

O realismo com o qual Maquiavel aborda a questão do Poder mostra claramente que
não existe um componente de agressividade gratuita, mas que o conflito ganha uma
face racional e instrumental, isto é, o objetivo a ser alcançado deve ser encarado
seguindo as premissas que se façam necessárias – a saber: o domínio dos objetivos.

Em Maquiavel, temos o poder entrelaçado entre as capacidades individuais e o


controle do Estado (principados), controle de todo o aparato de segurança que
compõe o governo de um determinado Estado. O poder aqui se confunde com
autoridade, é poderoso o príncipe que consegue manter seu domínio, mas para atingir
tal domínio, deve possuir as capacidades necessárias para tal fim, de toda sorte que,
sua posição não seja questionada e, se for, aqui novamente retornamos a autoridade,
ele exerça o poder – violência – através de sua autoridade.

<atenção>
Portanto, em Maquiavel, o poder representa a capacidade de agir
com violência para se manter com autoridade.
</atenção>

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2.1 O Poder por Thomas Hobbes

Ao nos deslocarmos na tradição do pensamento político, dificilmente podemos deixar


de abordar Thomas Hobbes quando tratamos de poder, política e violência e seu
estudo Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil (1651).

Segundo o autor, Poder se refere a características humanas e sendo assim; (...) o


poder de um homem consiste nos meios de que presentemente dispõe para obter
qualquer visível bem futuro. Pode ser original ou instrumental. (Hobbes, 2001; 70).

O poder em Hobbes pode ser compreendido como:


• Original, na medida em que nasce com o indivíduo, força, beleza, prudência,
nobreza.

• Instrumental, é aquele adquirido ao longo da vida, mas que, sem dúvida alguma,
guarda relação direta com o primeiro. Aqui, surgem, nas palavras do autor, a
riqueza, a reputação, os amigos e os secretos desígnios de Deus.

Início do verbete:
Thomas Hobbes (5 de abril de 1588
— 4 de dezembro de 1679)
Foi um matemático, teórico político, e
filósofo inglês, autor de Leviatã (1651)
e Do cidadão (1651).

Link da imagem :
http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_H
obbes
Fim do verbete

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Mas além do poder individual, surge o poder soberano e aqui não tratamos mais dos
indivíduos e sim da figura do Soberano que surge a partir da abdicação dos
indivíduos de sua liberdade natural. Nas palavras de Hobbes; “o direito natural, que os
autores geralmente chamam jus naturale, é a liberdade que cada um possui de usar
seu próprio poder de maneira que quiser, para a preservação de sua própria natureza,
ou seja, de sua vida”. (Ibid, 2001;101)

<Início do verbete>
Soberano / Soberania

Poder preponderante ou supremo do


Estado, considerado pela primeira
vez como caráter fundamental do
Estado por Jean Bodin, em Six lilvres
de la Republique (1576).

Fonte: Abbagnano, Nicola. Dicionário


de Filosofia. Martins Fontes. São
Paulo, 2000.
<Fim do verbete>

O poder afirmado por Hobbes é aquele de que dispõe cada indivíduo para desposar
cada coisa a seu prazer e de acordo com sua necessidade. Nesse sentido, incorre
para a condição conhecida - da guerra de todos contra todos - posto que,
dentre todas as coisas sobre as quais os homens podem demandar, se encontram os
outros homens.

O poder soberano resultante do contrato entre os homens adquire seu fundamento


através da renúncia de todos ao seu direito sobre todas as coisas. No entanto, para
que tal contrato seja mantido, no momento em que todos abrem mão da capacidade
do exercício da violência, deverá surgir um poder capaz de manter o contrato contra
aqueles que desejem subvertê-lo - o Estado.

<Início do boxe explicativo>

A ideia de da guerra de todos contra todos é uma figura de


linguagem, pois a questão gira em torno do fato de que, não havendo
lei e os recursos serem escassos, a possibilidade de um conflito é
iminente.

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Logo, para Hobbes:

“Daí, para que as palavras," justo" e “injusto”, possam ter


sentido, é necessário alguma espécie de poder coercitivo,
capaz de obrigar igualmente os homens ao cumprimento dos
pactos, mediante o medo de algum castigo que seja superior
ao benefício que esperam tirar do rompimento do pacto, e
capaz de fortalecer aquela propriedade que os homens
adquirem por contrato mútuo, como recompensa do direito
universal a que renunciaram”. (Hobbes, 2001;111)

Fonte: Hobbes, Thomas. O Leviatã ou matéria, forma e poder de um


estado eclesiástico e civil. Ed. Martin Claret, 2001.

<Fim do Boxe explicativo>

Vemos através de uma breve abordagem sobre o estudo clássico de Hobbes como o
conceito de poder adquire nuances:
• o poder natural derivando do indivíduo e de seus atributos naturais (força, beleza,
inteligência) para um;

• o poder artificial criado através do contrato que institui o Estado político e soberano
que pode, então, dispor dos meios de violência para garantir a sobrevivência
daqueles que realizaram o pacto.

Tanto em Maquiavel, quanto em Hobbes, o conceito de poder está entrelaçado com a


ideia daquele sujeito da ação envolvido diretamente nela. Eles não tratam
especificamente de um poder instituído burocraticamente, alheio às capacidades e
paixões humanas.

O poder, para esses autores, deriva, em parte, da capacidade dos atores de


exercerem a violência e possuírem a capacidade de influenciar o restante das relações
entre os indivíduos através de sua ação.

Em Hobbes, entretanto, temos a elevação do Estado político, que é o primeiro passo


para o descolamento entre a capacidade do exercício de poder (violência) individual
para uma figura burocratizada, distante do indivíduo singular.

<atividade>
Atividade 1
(Atende ao objetivo 01)

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Ufa! Talvez seja a hora de respirarmos um pouco. Se você chegou até
aqui, já percebeu que os conceitos de Política e Poder ao longo do século
XV, XVI e XVII estavam muito próximos da capacidade de exercício da
violência. Você saberia dizer o porquê disso com base em Maquiavel e
Hobbes? E em relação ao seu contexto de vida, você poderia comentar
como percebe a relação entre política, poder e violência?

Resposta Comentada:
A política, assim como o poder, são conceitos complexos e que variam ao
longo do tempo na forma como são interpretados. Nos autores que
tratamos até o momento (Maquiavel e Hobbes) pudemos perceber que
ambos os conceitos tem uma relação próxima com a idéia de violência.
Isto nos permite pensar que, de certa forma, a idéia ou a prática da
violência se relaciona com a prática do poder e da política.
Ao longo da história ocidental, neste caso estamos tratando de dois
autores clássicos do pensamento político ocidental do século XVI e XVII,
essa relação é muito clara. Para Maquiavel, a questão central está em
adquirir poder político e manter esse poder a qualquer custo. Para Hobbes,
a questão está em constituir um Estado civil no qual as pessoas tenham
garantias de sua segurança. Uma importante distinção entre os autores
está em que, para a Maquiavel a prática da violência é uma condição
imediata para a realização do poder político, para Hobbes a questão da
violência deve ser ordenada pelo Estado civil.
Ao pensarmos numa relação imediata com a nossa vida cotidiana, a
questão do Poder e da Política adquirem contornos distintos. A violência se
relaciona de maneira mais indireta com a questão da política e do poder,
entretanto essa relação se mantém. Por exemplo, quando há uma infração

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legal, o Estado civil reage utilizando os meios de coerção que dispõe na
prática da violência ou na ameaça desta. A prática da política
cotidianamente é perpassada por diversas situações que envolvem algum
tipo de cálculo sobre nossas ações e os resultados possíveis de nossas
ações, isto é, conseqüências.

<Inicio Boxe Multimidia>

Sugestão de Filme: Elizabeth: a era de ouro

Para que você possa aprofundar seus conhecimentos sobre a


relação entre poder, política e violência indicamos que assista ao
filme Elizabeth: a era de ouro. Nesse filme, a Rainha em questão
realiza o processo de escolhas políticas. Você poderá então perceber
que todas as ações são tomadas num cálculo que tem sempre, como
variáveis, a questão da manutenção do Poder e de como utilizar a
violência para manter esse Poder político.

Link da imagem: http://en.wikipedia.org/wiki/Elizabeth_I_of_England

<Fim Boxe Multimidia>

3. Poder e Dominação em Weber

Ao intitular nosso tópico com tal expressão, estamos diretamente nos referindo
a Max Weber.

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<Início do verbete>

Karl Emil Maximilian Weber (21 de


Abril de 1864 — Munique, 14 de
Junho de 1920)

Foi um intelectual alemão, jurista,


economista e considerado um dos
fundadores da Sociologia.

Link da imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Max_Weber

<Fim do verbete>

<início de Box explicativo>

As principais obras de Max Weber

Entre as principais obras do autor estão:

• 1904: A ética protestante e o espírito do capitalismo


• 1905: A situação da democracia burguesa na Rússia
• 1905: A transição da Rússia a um regime
pseudoconstitucional
• 1906: As seitas protestantes e o espírito do capitalismo
• 1913: Sobre algumas categorias da sociologia compreensiva
• 1917/1920: Ensaios Reunidos de Sociologia da Religião
• 1917: Parlamento e Governo na Alemanha reordenada
• 1917: A ciência como vocação
• 1918: O sentido da neutralidade axiológica nas ciências
políticas e sociais
• 1918: Conferência sobre o Socialismo
• 1910/1921: Economia e Sociedade

</fim de Box explicativo>

Para Weber, em Economia e Sociedade (1922); “Poder significa a probabilidade de


impor a própria vontade, dentro de uma relação social, ainda que contra toda

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resistência e qualquer que seja o fundamento dessa probabilidade”. (Weber, 1974; 43,
tradução do autor)

De maneira direta, Weber afirma que o poder pode figurar de diversas formas, desde
que o resultado seja a imposição de uma vontade sobre todas as outras, mesmo
havendo resistência a tal imposição.

Weber utiliza o conceito de dominação. Entretanto, antes de discutirmos essa questão,


cabe deixar mais claro a que o autor se refere quando trata do conceito de dominação.

Uma relação de dominação deve se chamar associação política quando e, na medida


em que, sua existência e validade, dentro de um âmbito geográfico determinado,
estejam garantidos de um modo continuo pela ameaça e aplicação da força física por
parte de seu corpo administrativo” (Ibid, 1974; 43, tradução do autor). Um exemplo
dessa estrutura política é o Estado moderno, tal qual o conhecemos hoje em dia.

Existem outras formas de dominação que não demandam de um quadro administrativo


burocratizado, como, por exemplo, a dominação do pai sobre a família, mas tendo em
vista o ator sobre o qual desejamos pensar, nossa atenção se volta naturalmente para
a figura do Estado.

<Início do verbete>
Estado
Em geral, é a organização política
jurídica coercitiva de determinada
comunidade.

Fonte: Abbagnano, Nicola. Dicionário


de Filosofia. Martins Fontes. São
Paulo, 2000.

<Fim do verbete>

Ao tratarmos do conceito de dominação, vemos que a condição que o torna singular e


distinto ao conceito de poder, compreendendo este como capacidade de influência de
uma vontade sobre todas as outras, reside no pressuposto weberiano de que a
dominação traz consigo tanto um grau de obediência, como de submissão e de
interesse, constituindo-se, desta maneira, uma relação de autoridade.

Entretanto, tal autoridade deverá revestir-se de outra condição além dos interesses
materiais, afetivos ou legais mais imediatos, ela deverá ser legítima para um
determinado grupo.

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De modo bastante sucinto abordamos os três tipos puros de dominação legítima a fim
de localizar mais precisamente o conceito de dominação em Weber. A dominação
pode ser de caráter:

• Legal, quando as ações levadas a termo possuem legalidade e que a autoridade


exercida pelos mandatários reside numa ordem legal. A dominação.

• Tradicional, quando a autoridade reveste-se da crença de que ela por si mesma se


legitima desde tempos imemoriais, e sendo assim adquire sua legitimidade, isto é -
é desta forma porque sempre foi assim.

• Carismática, que possui seu fundamento na crença em qualidades excepcionais de


certo ator que através destas pode exercer a autoridade sobre os outros.

Exemplos desses tipos de dominação são muito naturais. Ao pensarmos num tipo de
dominação legal, é àquela instituída por um instrumento legal, nesse sentido, quando
elegemos um mandatário está criando um tipo de dominação legal. Por outro lado,
temos a dominação tradicional a qual pode ser representada pela dominação do
paterna/materna sobre uma família. E por fim, temos a dominação carismática que
pode ser compreendida quando imaginamos um líder que é capaz de criar junto aos
seus seguidores a idéia de pertencimento àquele determinado grupo.

Nossa breve abordagem sobre Max Weber tem o objetivo de apontar a derivação que
o autor faz do conceito de poder, enquanto exercício de uma vontade sobre as outras,
na direção de um refinamento no qual institui uma justificação jurídica para o exercício
da violência e o monopólio desse exercício. Desse modo, até o momento, a condição
que permeia nossa atenção acerca do conceito de poder é sua estreita ligação com a
possibilidade do uso da violência.

<atividade>

Atividade 2
(Atende ao objetivo 02)

Nós analisamos nesse momento um autor emblemático para a teoria


política, neste caso Max Weber. Nele, nós estudamos o conceito de Poder
e os conceitos de dominação legitima, legal, tradicional e carismática.
Explique como Weber define Poder e exemplifique algum tipo de
dominação weberiana que você consegue identificar no seu dia-a-dia.

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Resposta comentada:

Definir Poder e os tipos de Poder político apresentados tem por objetivo


propor uma análise do conceito de Poder, o qual segundo Max Weber é
“Poder significa a probabilidade de impor a própria vontade, dentro de uma
relação social, ainda que contra toda resistência e qualquer que seja o
fundamento dessa probabilidade”. (Weber, 1974; 43, tradução do autor). A
partir dessa definição geral apresentada pode Weber, podemos
estabelecer que a relação de Poder alcance num último momento a
possibilidade de ser necessário o uso da violência, para que a “vontade”
seja obedecida. Por outro lado, segundo o mesmo autor, o único ator
político que possui legitimidade no uso da violência é o Estado.
Um outro elemento importante de nossa análise são os tipos de dominação
tratados por Weber: legal, tradicional e carismática, as quais fazem parte
das formas como o poder político se manifesta.
Na vida política podemos compreender e perceber tanto a realização da
idéia da legitimidade do uso da violência por parte do Estado, através da
análise de que os únicos atores da segurança pública, são atores estatais.
Por outro lado, uma idéia da dominação pode ser compreendida quando
analisamos por exemplo, a dominação legal, a qual se estabelecer pela
obediência as leis, ou a dominação tradicional, que é àquela dominação
que se dá pelo costume, nesse caso comum nas famílias onde o filho
obedece os pais e por fim a dominação carismática, bastante comum na
vida política partidária, na qual o voto por vezes num candidato se dá
menos pelas propostas políticas programáticas e mais por uma
identificação daquele que vota com àquele que é votado.

20
</atividade>

3. Política, Poder e Violência

3.1 O conceito do Político e a teoria da exceção para Carl Schmitt

A questão que Carl Schmitt nos apresenta em seu estudo o “Conceito do Político”
(1932) permite estabelecer uma linha de análise que conduz, ao fim, a uma
aproximação daquilo que pode ser chamado uma “teoria da exceção”.

<Início do Verbete>
Carl Schmitt (Plettenberg, 11 de
julho de 1888 — 7 de abril de 1985)
Foi um jurista, filósofo político e
professor universitário alemão.

Fonte:http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_
Schmitt
<Fim do verbete>

<Box explicativo>

Principais obras de Carl Schmitt

Entre algumas obras traduzidas ao português e espanhol que


podemos destacar:

• O estatuto jurídico internacional do grande território e a


proibição da intervenção de potências estrangeiras no seu
âmbito
• La Tirania de los Valores (Die Tyrannei der Werte).
• Teoria da guerrilha (Theorie des Partisanen.
Zwischenbemerkung zum Begriff des Politischen).
• O conceito do político (Der Begriff des Politischen),
• Teologia política (Politische Theologie
• O guardião da constituição (Der Hüter der Verfassung
• "Catolicismo Romano e Forma política"
• "A Crise da Democracia Parlamentar".
• "O Leviatã na Teoria do Estado de Thomas Hobbes".
• "Terra e Mar" (Land und Meer. Eine weltgeschichtliche
Betrachtung).

</Box explicativo>

21
Carl Schmitt abre sua análise em busca do conceito do político e, para tanto, ocupa-se
em não dizer o que é o político, mas sim, estabelecer as distâncias com o intuito de
encontrar o espaço para a emergência deste conceito: “Em geral, “político” é
equiparado, de alguma forma a “estatal” ou, pelo menos, relacionado ao Estado. O
estado surge então como algo político, o político, porém, como algo estatal;
evidentemente um círculo que não satisfaz. (Schmitt, 1932/1992:44)

A conclusão que Schmitt alcança através da crítica a este pressuposto é a de que, ao


longo dos séculos XVIII e XIX, a noção de Estado se expandiu. A distinção entre o
que é político e não-político torna-se anacrônica. Isso porque existia em um
determinado momento (como no século XVIII) esferas que não se identificavam com o
Estado e, por conseqüência, com o político. Entretanto, a evolução que ocorre ao
longo dos séculos seguintes determina uma interpenetração entre o Estado e a
sociedade, o que leva a uma consequência lógica, ou seja, à politização de todas as
esferas da vida social.

<inicio do boxe explicativo>

A distinção entre o político e o não político que se tornam


anacrônica

As áreas até então “neutras” – religião, cultura, educação, economia


– deixam então de ser “neutras” no sentido não-estatal e não-político
(...) A democracia deverá abolir todas as distinções, todas as
despolitizações típicas do século XIX liberal, e ao apagar a oposição
Estado – sociedade (= o político oposto ao social), fará também
desaparecer as contradições e as separações que correspondem à
situação do século XIX(...)(Ibid., 1932/1992:47)

Fonte: SCHMITT, Carl.O Conceito do Político. Petrópolis: Ed. Vozes, 1992.

<fim do boxe explicativo>

O conceito do político necessita, segundo o autor, a definição clara de categorias,


estas levam a determinar a dualidade como elemento que fundamenta a lógica
argumentativa de Schmitt. A definição do político, não passa por uma avaliação moral,
estética ou econômica; A diferenciação entre amigo-inimigo tem o sentido de designar
o grau de identidade extrema de uma ligação ou separação, de uma associação ou
dissociação; ela pode, teórica ou praticamente, subsistir, sem a necessidade do
emprego simultâneo das distinções morais, estética, econômicas, ou outras. (Ibid,
1932/1992:52)

A definição do político na medida em que se desvia da normalização a partir de um


juízo moral, estético ou econômico, mostra-se em sua autonomia. O inimigo, segundo
Schmitt, é aquele que guarda em si a possibilidade da ameaça a existência do político
enquanto tal.

22
Dois pontos emergem desta designação da relação amigo-inimigo; a saber, a
capacidade de designar o outro como inimigo, e a condição de estabelecer um conflito
com ele, a fim de garantir sua própria existência. Cabe ressaltar que não é necessária
a ação contrária para que o conflito se realize, basta apenas que se estabeleça a
ameaça como condição primeira, para que o conflito se desencadeie.

3.2 O Poder e a Violência em Hannah Arendt

Podemos considerar a envergadura do estudo de Hannah Arendt “Sobre a


Violência” 1968, na medida em que a autora consegue distinguir diversos conceitos,
entre eles: Poder, Vigor, Força, Autoridade, Violência.

A preocupação com a definição clara do alcance que cada conceito deve ter no
conjunto da linguagem relacionada à filosofia política dá ao estudo desenvolvido por
Arendt uma significação de relevância para qualquer pesquisador que deseje
aproximar-se do estudo da violência a partir da filosofia política.

<Inicio do verbete>
Hannah Arendt (nascida Johanna
Arendt; Linden, Alemanha, 14 de
outubro de 1906 – Nova Iorque,
Estados Unidos, 4 de dezembro de
1975)

Foi uma filósofa política alemã de


origem judaica, uma das mais
influentes do século XX.

<Fim do verbete>

<Box explicativo>

As principais obras de Hannah Arendt

Entre algumas obras da autora podemos citar:

• O conceito do amor em Santo Agostinho: Ensaio de uma


interpretação filosófica.
• As origens do totalitarismo.
• A condição humana.

</Box explicativo>

23
Hannah Arendt demonstra em seu estudo uma grande preocupação com o nível que
alcançaram os desenvolvimentos dos implementos técnico-bélicos no século XX; “O
desenvolvimento técnico dos implementos da violência alcançou agora o ponto em
que nenhum objetivo político poderia presumivelmente corresponder ao seu potencial
de destruição, ou justificar seu uso efetivo no conflito armado”. (Arendt,1968/1994:13)

Pode-se dizer que Arendt dá corpo à sua análise sobre a violência a partir do segundo
capítulo de seu estudo. Localiza-se neste ponto de sua análise a primeira demarcação
do espaço de seu posicionamento teórico e de sua crítica à noção que a filosofia
política e a sociologia possuem de violência e poder.

Arendt ao lançar-se na busca pela clareza conceitual em relação aos conceitos de


poder e violência, aproxima-se de forma colateral aos outros conceitos, entre eles:
Vigor, Força, Autoridade: “Penso ser um triste reflexo do atual estado da ciência
política que nossa terminologia não distinga entre palavras – chave tais como “poder”
[power], “vigor” [strenght], “força” [force], “autoridade” e, por fim, violência.”
(Ibid,1969/1994:36)

Poder para a autora, não se resume apenas na capacidade de ação de um único


indivíduo ou a capacidade de impor uma vontade sobre as outras. A definição de
Arendt vai à direção da composição, ou seja, o Poder emerge através da composição
da relação entre os indivíduos que resolvem agir em uníssono; “A partir do momento
em que o grupo, do qual se originara o poder desde o começo (potestas in populo,
sem um povo ou grupo não há poder), desaparece, ´seu poder´ também se esvanece.”
(Ibid,1969/1994:36)

O segundo conceito sobre o qual Hannah Arendt desdobra sua análise é o conceito de
Vigor. Este elemento conceitual surge como a emergência da singularidade, ou seja, é
individual por excelência. A hostilidade quase instintiva dos muitos contra o único tem
sido sempre atribuída, de Platão a Nietzsche, ao ressentimento, à inveja dos fracos
contra os fortes, mas essa interpretação psicológica não atinge o alvo. É da natureza
de um grupo e de seu poder voltar-se contra a independência, a propriedade do vigor
individual. (Ibid,1969/1994:37)

Pode-se considerar que Arendt, apresenta como o mais “impróprio” dos conceitos,
justamente aquele que, na maioria das vezes, é aproximado ao conceito de poder e de
violência, ou seja, a Força. O elemento central sobre o qual Arendt expõe o
fundamento do conceito de Autoridade é o reconhecimento. A autoridade necessita de
reconhecimento, na medida em que sua aceitação é demonstrada pela relação de
obediência. A autora apresenta algumas possibilidades de investimento da autoridade.

A violência, para Arendt, é a expansão do vigor a partir da inserção de uma lógica


instrumental. Temos uma condição singular que pode ser pensada, o poder pode
manifestar violência, entretanto, a violência nunca poderá manifestar poder; “Onde os

24
comandos não são mais obedecidos, os meios de violência são inúteis; e a questão
desta obediência não é decidida pela relação de mando e obediência, mas pela
opinião e, por certo, pelo número daqueles que a compartilha. Tudo depende do poder
por trás da violência.” (Ibid,1969/1994:39)

Hannah Arendt conclui que; o poder é de fato a essência de todo governo, mas não a
violência. A violência é por natureza instrumental; como todos os meios, ela sempre
depende da orientação e da justificação pelo fim que almeja. E aquilo que necessita de
justificação por outra coisa não pode ser a essência de nada. (Ibid,1969/1994: 41)

A relação entre poder e violência não deve ser condicionada apenas por esta idéia de
proporcionalidade, posto que em um confrontamento direto entre poder e violência,
pode-se considerar que a violência tem em um primeiro momento a vantagem posto
que os implementos técnicos possuem características de velocidade e penetração,
diferentemente dos elementos que compõe o poder.

A preponderância da violência na política, por outro lado, gera uma condição de


perpétua instabilidade e de retornos cada vez maiores ao uso da violência, até o ponto
no qual se torna cotidiana. Temos a instauração do terror, no qual não existe a
possibilidade de uma fuga da violência, posto que, tal fuga necessitaria do abandono
da violência como fim em si mesmo; “O terror não é o mesmo que violência; ele é,
antes, a forma de governo que advém quando a violência, tendo destruído todo o
poder, ao invés de abdicar, permanece como controle total.” (Ibid,1969/1994: 43)

Arendt reconhece a violência como uma condição “natural” do homem, desde que esta
não se desenvolva através de um cálculo preciso, ou seja, que se torne um fim em si
mesmo; “Neste sentido, o ódio e a violência que às vezes – mas não sempre- o
acompanha pertencem às emoções “naturais” do humano, e extirpá-las não seria
mais do que desumanizar ou castrar o homem.” (Ibid,1969/1994:48). Estabelecer os
limites para esta humanidade, parece ser algo bastante complicado para Arendt, posto
que, a justificativa destes limites encontra seu fundamento em qual lugar? A autora
não se preocupa necessariamente em dizer onde se encontram estas justificativas,
mas sim, diz onde não devem ser buscadas.

A ênfase que deve ser dada a partir das considerações de Hannah Arendt, vai na
direção de compreender o homem como um ser político por excelência que possui a
capacidade de agir e de buscar o eterno começo de algo novo; “O que faz do homem
um ser político é sua faculdade para a ação; ela o capacita a reunir-se a seus pares,
agir em concerto e almejar objetivos e empreendimentos que jamais passariam por
sua mente, deixando de lado os desejos de seu coração, se a ele não tivesse sido
concedido este dom – o de aventurar-se em algo novo.” (Ibid,1969/1994:59)

Como conseqüência, que deriva deste posicionamento, nem o poder, nem a violência
são fenômenos naturais compreendidos sob a perspectiva de uma manifestação de
um processo vital, como coloca Arendt. Ambos pertencem à esfera do político,

25
emergem a partir da faculdade do homem em agir e buscar o começo, ou a disposição
para recomeçar.

Antes, contudo, vamos repensar nossa aula de hoje e exercitarmos um pouco de


nosso passeio histórico pelo pensamento político?

< atividade>

Atividade 3
(Atende ao objetivo 03)

Para Hannah Arendt a relação entre Violência e Política é, de certa forma,


inversamente proporcional. O que isso quer dizer? Significa que quanto
mais violência é praticada na ação política, menos esta pode ser
compreendida como uma política, no sentido de uma ação que vise a
comunhão de interesses entre os indivíduos.

Podemos citar, neste caso, as ações de terror ou os atentados terroristas


como um dos fenômenos mais relevantes na sociedade contemporânea
que exemplificam essa ação.

Com base na idéia de que quanto mais poder pela violência menos política
temos, faça uma leitura da matéria
(http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/01/1571579-tiroteio-em-frente-
a-sede-de-jornal-satirico-frances-mata-pelo-menos-um.shtml) sobre os
atentados de Janeiro de 2015 ao jornal francês Charlie Hebdo.
Em suma, a matéria descreve que um grupo de atiradores entrou no jornal
Charlie Hebdo gritando Allahu akbar (Deus é maior). O jornal já havia
sofrido outros ataques anteriormente por publicar caricaturas de líderes
muçulmanos e de Maomé.

Com base na leitura, estabeleça a relação entre poder e violência no


episódio do atentado, tomando como referência os conceitos de Hannah
Arendt.

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Resposta comentada:

Você poderá perceber que na matéria há uma indicação clara que os


ataques são realizados por grupos que se encontram numa relação
assimétrica de poder (eles possuem menos poder político), logo, uma das
alternativas para o exercício de sua vontade e de sua prática de poder são
ações de violência com impacto midiático, isto é, atentados terroristas.
Nesse sentido, ao compreendermos que Hannah Arendt afirma que o
exercício do poder pela violência é o momento no qual a política deixa de
ser praticada. As ações de terror político são um exemplo de um fenômeno
complexo, pois ao mesmo tempo em que eliminam a prática de um
determinado tipo de compreensão política arendtiana possuem um impacto
na vida política.

< /atividade>

< atividade>

ATIVIDADE FINAL
(Atende ao objetivo 04)

A teoria política apresenta uma infinidade de conceitos e interpretações.


Para cada conceito temos várias alternativas explicativas, assim como
para cada momento de nossa vida. Na política os sujeitos se relacionam
dialogicamente, sempre buscando algum grau de compreensão ou por
outro lado, a eliminação. Em nosso curso lidamos com a questão da
segurança pública e dos diversos agentes da segurança pública, das

27
políticas de segurança pública e de suas especificidades. Nesse sentido
propomos a reflexão sobre dois aspectos de nossa aula:
- Vivemos ainda num contexto no qual cabe a frase hobbesiana de “uma
guerra de todos contra todos”?
- Em que medida você percebe os tipos de dominação weberianos no seu
dia a dia?

Resposta comentada:
A resposta a essa questão está ligada diretamente a interpretação de cada
um sobre a realidade imediata. A ideia de uma guerra de todos contra
todos propõe o desafio de se pensar em qual medida essa “guerra” se
coloca para cada um de nós todos os dias e quais as saídas para essa
situação. Num outro ponto a segunda questão propõe outro desafio, que é
o da autorreflexão, isto é, em que medida somos capazes de perceber e
identificar os tipos de dominação que enfrentamos no dia a dia da vida
política e social.
</fim_atividade>

Resumo
Esta aula foi uma introdução ao pensamento político voltado diretamente a questões
de poder e violência. Fomos de Maquiavel a Hannah Arendt, do século XVI ao século
XX, no intuito de compreender as relações que se estabelecem entre a política, o
poder e a violência. Em Maquiavel, vimos o princípio da violência como fundamento da
ordem ou de que os fins justificam os meios, desde que sejam para manter a unidade
política. Hobbes, já no século XVII, nos informou que a possibilidade de uma “guerra
de todos contra todos” deveria ser evitada e, para tanto, a solução estava em criar um
ente absoluto, o soberano, o Estado. Em Max Weber percebemos a emergência do
Estado Moderno que concebe a violência como um instrumento do Estado que possui
a legitimidade de seu uso. Em Hannah Arendt vimos a questão da violência e do
poder, sob um enfoque distinto, estabelecendo que a política se esvai quando a

28
violência entra na cena política levando ou abrindo o caminho para o autoritarismo. No
século XX, vimos que a questão era como lidar com a ordem, como estabelecer a
dominação, como criar as condições para o desenvolvimento do Estado e a
participação dos sujeitos na vida política.

INFORMAÇÕES SOBRE A PRÓXIMA AULA


Na próxima aula, veremos questões iniciais da área de políticas públicas, conceitos,
delimitações e atores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Abbagnano, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo:Martins Fontes, 2000.

Arendt, Hannah. Sobre a Violência. Rio de Janeiro: Relume Dumará,1994.

Beasley, Ryan K., KAARBO, Juliet, LANTIS, Jeffrey S.The analysis of Foreign Policy
in comparative perspective. In BEASLEY, Ryan K., KAARBO, Juliet, LANTIS, Jeffrey
S. e SNARR Michael T. (Editors). Foreign Policy in Comparative Perspective: domestic
and International Influences on State Behavior. MI, USA: Congressional QuarterlyInc,
2011.

Bobbio, Norberto; MATTEUCCI, Nicola e PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de


Política. Tradução Carmen C. Varriale... [et al.]; coordenação da tradução João
Ferreira, revisão geral João Ferreira e Luis Guerreiro Pinto Cascais. 6 Ed. Brasília, DF:
EditoraUniversidade de Brasília, 2003.

Hobbes, Thomas. O Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e


civil. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2001

Jouvenel, Bertrand de. O Poder: história natural de seu crescimento. Tradução de


Paulo Neves. 1Ed. São Paulo: Editora Peixoto Neto Ltda, 2010.

Schmitt, Carl.O Conceito do Político. Petrópolis: Ed. Vozes, 1992.

Wolin, Sheldon S. Democracy incorporated: managed democracy and the specter of


inverted totalitarianism. New Jersey: Princeton University Press, 2008.

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