História da Filosofia
Antiga
Material Teórico
Introdução à Filosofia de Platão
Responsável pelo Conteúdo:
Prof. Ms. Anderson Luis Venâncio
Revisão Textual:
Prof. Ms. Luciene Oliveira da Costa Santos
Introdução à Filosofia de Platão
• A Vida
• A Obra
• O Mito da Caverna
• Percepção e Conhecimento em Platão
·· Nesta unidade, vamos conhecer a vida e a obra de uma
das maiores referências da Filosofia na Antiguidade: Platão.
Tal filósofo trouxe temáticas novas para se pensar a forma
de interação com o mundo, além de fornecer importantes
reflexões sobre ideia, percepção, conhecimento e alma.
Cremos que vocês irão gostar muito do que vão aprender.
Atenção
Para um bom aproveitamento do curso, leia o material teórico atentamente antes de realizar as
atividades. É importante também respeitar os prazos estabelecidos no cronograma.
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Unidade: Introdução à Filosofia de Platão
Contextualização
Para iniciarmos esta unidade, sugerimos que você leia um texto explicativo sobre o Método
Socrático, mais tarde também usado por Platão.
Disponível em: [Link]
Acesso em 20/11/2013.
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A Vida
Platão, filho de Aristo e de Perictona de Atenas, de linhagem aristocrática, nasceu em 427
a.C. e faleceu em 347 a.C. Era descendente de Sólon, por parte de mãe, e descendente do rei
Codro, fundador de Atenas, por parte de pai. Como todo jovem aristocrático de Atenas, Platão
recebeu a educação tradicional: primeiramente, o ginásio, que forma um guerreiro belo e viçoso
e, em seguida, o estudo da música e dos poetas, que forma o bom caráter do guerreiro.
Você Sabia ?
Platão participou da política de sua época e, segundo alguns, teve aulas de Retórica com o sofista
Crátilo, discípulo de Heráclito. Aos 20 anos, tornou-se discípulo de Sócrates.
Ao viajar para Siracusa, conhece os pensamentos dos pitagóricos e, muito provavelmente,
através deles, o pensamento de Parmênides. Desse modo, em linhas gerais, podemos dizer que
Platão construiu sua filosofia fazendo uso da Dialética socrática para resolver o conflito entre
as teses de Heráclito e de Parmênides, além de atacar a Retórica e o Relativismo dos sofistas.
Fundou, em Atenas, uma escola denomina Academia, escrevendo em seu pórtico: “Aqui só
entram os que amam a Matemática”, muito provavelmente por influência da filosofia pitagórica.
O local em que se encontrava a Academia era arborizado, repleto de fontes, jardins. Além desse
local situado no Noroeste de Atenas, Platão adquiriu outro, no qual construiu os alojamentos
dos estudantes. A Academia perdurou até o século I a.C., e era composta de salas de aulas,
biblioteca e Musion, ou seja, um local reservado às musas, deusas protetoras do pensamento,
da linguagem e da poesia, onde eram ensinadas as ciências e as técnicas. Formaram-se, pela
Academia, importantes matemáticos, astrônomos e políticos; além disso, nela, estudou Aristóteles
por vinte anos. O ensino consistia basicamente em não transmitir doutrinas simplesmente,
mas ensinar a pensar, estimulando o espírito livre, como necessita a especulação filosófica, o
empenho na busca da verdade e formação ética e política.
As viagens à Siracusa, narradas na chamada Carta sétima ou Viagema Siracusa, foram
feitas em situações distintas. Na primeira, desgostoso com a morte de Sócrates, vai à Siracusa
simplesmente para se afastar de Atenas; nas outras duas, para formar Dião e os dois Dionísios
na ciência da virtude, isto é, na Filosofia ética e política. Viaja para fazer de um rei, filósofo, mas
sem êxito. Desse modo, como dizem alguns historiadores de Filosofia, não tendo podido fazer
do rei um filósofo, escreverá para fazer do filósofo, rei. Vejamos um trecho da Carta sétima sobre
a decadência política das Cidades-Estados gregas:
“Finalmente, compreendi que todos os Estados atuais são mal governados, pois
sua legislação é quase irremediável sem enérgicas providências unidas a felizes
circunstâncias. Fui então levado a louvar a verdadeira filosofia e a proclamar que,
somente à sua luz, se pode reconhecer onde está a justiça na vida públicae na vida
privada. Portanto, os males não cessarão para os homens antes que a estirpe dos
puros filósofos chegue ao poder ou que os governantes das Cidades, por uma graça
divina, se ponham verdadeiramente a filosofar.”
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Unidade: Introdução à Filosofia de Platão
Ressaltemos aqui três das principais ideias platônicas que percorreram a tradição do
pensamento político: (i) a relação entre virtude moral do governante equalidade do regime
político; (ii) a relação entre ciência política e direito de governar, sendo a política a prática da
justiça por aqueles que governam; (iii) a ideia de que a saúde pública depende do feliz encontro
entre o bom governante e a ocasião oportuna.
A Obra
A obra escrita por Platão é composta de treze cartas, a Apologia, o Menexeno e um longo trecho
expositivo no Timeu, e seus vinte e três diálogos. As cartas deviam ser lidas em público para um
grupo de amigos. O estilo presente nos diálogos revela toda dramaticidade própria de uma rica
e incomparável literatura, além de conter toda a profundidade de seu pensamento filosófico. A
escolha do diálogo para expressar suas ideias filosóficas se explica por três razões: (i) preserva a
forma socrática de fazer filosofia, pois no diálogo o pensamento filosófico vai se constituindo no
decorrer da discussão, cada qual expondo livremente suas opiniões e percorrendo por si mesmo
o caminho do conhecimento; (ii) é a maneira mais adequada para que as ideias sejam elaboradas
conforme o método dialético, que parte de opiniões reputadas como verdadeiras, procurando
encontrar nelas contradições, depurando-as desse modo; e, por fim, (iii) é propriamente uma
criação literária de cunho dramático, que preserva algumas características da tragédia grega, tais
quais as caracterizações do local onde se desenvolve a ação, dos participantes do diálogo, da
ação (seu desenvolvimento, conflitos e desenlace). Os diálogos são divididos em três períodos:
(i) de juventude, aqueles que ainda sofrem forte influência do pensamento Socrático; (ii) da
maturidade, aqueles que não são aporéticos como os da primeira fase; e (iii) os da velhice,
aqueles que possuem um estilo mais discursivo do que dialogal. De acordo com essa ordem de
períodos, vejamos como os diálogos estão distribuídos:
(i) Os diálogos de juventude:
Apologia: defesa de Sócrates e refutações das acusações que lhe foram feitas pelo
tribunal ateniense.
Críton: sobre a virtude e elogio da moral socrática; a filosofia como missão. Cármides: sobre
a prudência ou a sabedoria.
Crátilo: sobre a linguagem e contra o verbalismo.
Eutidemo: contra a erística, isto é, o discurso estéril e sem busca da verdade.
Eutifron: sobre a piedade.
Górgias: sobre a Retórica como discurso mentiroso, de adulação e enganador.
Hípias menor: sobre a beleza; retrato crítico do sofista como aquele que ilude.
Hípias maior: sobre a beleza.
Laquês: sobre a coragem.
Ion: sobre a Ilíada ou os rapsodos.
Lisis: sobre a amizade.
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Menexeno: sátira contra a Retórica.
Mênon: sobre a virtude e o saber (trata da reminiscência).
Protágoras: sobre o ensino da virtude.
(ii) Os diálogos da maturidade:
Fédon: sobre a imortalidade da alma.
Fedro: sobre a linguagem e a Retórica.
República: sobre a justiça e a cidade ideal.
Parmênides: sobre o ser.
Banquete: sobre o amor.
Teeteto: sobre as ciências e as artes.
(iii) Os diálogos da velhice:
Crítias (inacabado): o Estado agrário como ideal em contraste com o
imperialismo comercial.
Leis: o ideal político conforme a prática legislativa.
Filebo: sobre os fundamentos da ética.
Político: sobre o político.
Sofista: sobre o sofista.
Timeu (inacabado): sobre a cosmologia.
O Mito da Caverna
Para fazermos uma breve síntese da teoria do conhecimento em Platão, devemos atentar
para o Mito da Caverna, formulado em seu livro VII de A República. O Mito, alegoria da teoria
do conhecimento, pode ser descrito da seguinte maneira: em uma caverna, estão acorrentados
alguns homens, desde o nascimento, que não conseguem voltar suas cabeças para a entrada
da caverna. No fundo da caverna, são projetadas as sombras das coisas que passam às suas
costas, onde há uma fogueira. Se um dos homens pudesse se soltar e contemplar, à luz do dia,
as próprias coisas e voltasse para convencer os outros de que a verdade está lá fora e não nas
projeções das sombras na parede da caverna, seria considerado um louco, de tão acostumados
que estão os homens em acreditar que as sombras é que são os objetos reais. A confusão
consiste em considerar as sombras como a realidade verdadeira. Porém, um dos prisioneiros
consegue escapar e, ao sair da caverna, fica cego com toda a luminosidade com a qual não
está acostumado. Diante da dor que sente, seu primeiro impulso é retornar para a caverna.
Agora, precisará aprender a ver; tal aprendizado é doloroso. Romper com a escuridão, com a
ignorância e passar a ver, a conhecer: eis o parto da alma para o mundo real. Ao se dar conta de
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Unidade: Introdução à Filosofia de Platão
que vivia na ilusão, que o mundo das sombras é irreal, sente-se feliz e decide retornar à caverna
para convencer os outros prisioneiros do que viu. Na caverna, a escuridão agora o cega, é muito
mais difícil acostumar-se com a escuridão do que com a luz.
Você Sabia ?
Uma das passagens mais conhecidas por leigos e, muitas vezes, parafraseada na literatura mundial
é justamente o Mito da Caverna de Platão.
Ao falar do que viu fora da caverna, os outros não o compreendem e muito menos acreditam
no que diz. Sócrates inicia o Mito fazendo uma analogia entre conhecer e ver. Todos os nossos
sentidos são capazes de perceber os objetos sensíveis, mas a visão necessita da luz como
condição para que ocorra, ou seja, não bastam os olhos e as cores, a luz é quem permite que os
olhos vejam as cores e que as cores sejam vistas pelos olhos. Portanto, é graças ao Sol que há o
mundo visível, que há luz nos olhos e nas coisas visíveis. Analogamente, a ideia suprema, ideia
de Bem dá à alma e as outras ideias existência perfeita e, desse modo, graças à ideia de Bem há
o mundo inteligível. Assim como na ausência de luz não há visão, mas cegueira, escuridão, na
ausência de ideias, não há conhecimento, mas ignorância, ilusão. Para haver conhecimento, é
preciso haver libertação e iluminação.
As sombras são cópias das coisas sensíveis, portanto, apenas ilusões. A Filosofia, pela
Dialética, deve libertar e iluminar a alma que, das sombras, passa para as coisas sensíveis e, das
coisas sensíveis, para as ideias. Como a alma possui por natureza a capacidade de conhecer,
a educação, a paideia tem como função orientá-la para o conhecimento real e verdadeiro. Da
cegueira somos dialeticamente levados à luz, do mundo sensível ao mundo inteligível. Esse é o
movimento de ascensão intelectual (Dialética Ascendente) e, por sua vez, o retorno à caverna
representa o movimento de descenso (Dialética Descendente), isto é, de levar os outros a
percorrer o caminho de ida às ideias. O movimento dialético é duplo e a prática filosófica de
libertação da alma é duplamente dolorosa. A ascensão é dolorosa, quase insuportável, e o
retorno significa deixar de lado a luz e a felicidade, imposição terrível à alma libertada, para
ensinar aos outros o caminho da verdade. A questão que nos resta é sobre a seguinte árdua
tarefa do filósofo: como convencer os homens que não veem a ver, os que estão na ignorância
a conhecer?
Percepção e Conhecimento em Platão
O que é perceber e o que é conhecer para Platão? Platão expõe a doutrina parmenidiana da
percepção em seu diálogo Teeteto e a toma como sua, contra a doutrina sofística de percepção.
A alma, para Platão, vê algumas coisas por si mesma, conhece por si mesma, por exemplo, o ser
e a essência, e outras coisas através dos órgãos do sentido; ela percebe o dado sensível próprio
de cada órgão sensível não com o órgão mas através do órgão, enfatizando que não é o corpo
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que percebe com os órgãos, mas a alma através do corpo. Com o conceito de alma, Platão
recupera a identidade do sujeito que havia se diluído no eterno vir-a-ser heraclitiano, sendo a
alma aquela que unifica diversas sensações, como diz Sócrates, “seria bem terrível, meu rapaz,
se as diversas percepções estivessem instaladas em nós como em cavalos de madeira, sem que
tudo isso não convergisse para uma única forma, quer se lhe chame alma, quer como haja de
se chamar, pela qual, por meio dos sentidos, que são como instrumentos, experimentamos as
percepções de tudo o que percebemos” (Teeteto, 184d).Ou seja, com a alma, podemos dizer que
duas qualidades sensíveis pertencem à mesma coisa. O argumento é negativo, a saber: como
não é possível discriminar duas qualidades heterogêneas ao mesmo tempo, nem a diferença que
existe entre duas qualidades homogêneas ou heterogêneas através de um mesmo órgão, por
exemplo, não podemos perceber o que percebemos através do ouvido através da vista, e nem
o contrário é possível. Portanto, deve haver uma alma que faça isso.
Para Platão, a alma apreende os sensíveis por ter o poder de discernir o que eles têm em
comum e de diferente, e esse poder não é a percepção, mas a reflexão ou o raciocínio. Ou seja,
o intelecto conhece noções universais como a semelhança e a dessemelhança, a identidade e a
diferença, a unidade e a pluralidade que, aplicadas aos dados sensíveis, possibilitam à alma
discernir um sensível de outro. Desse modo, pergunta Sócrates a Teeteto: “qual é o poder que
discerne, não apenas os objetos sensíveis, mas em todas as coisas, noções universais tais como
as denominadas ser e não ser e aquelas outras que nós estávamos perguntando (semelhança e
dessemelhança, identidade e diferença, unidade e outros números que são aplicados aos
sensíveis) – quais órgãos você assinalará para as percepções dessas noções?” (Teeteto, 185d), e
Teeteto responde dizendo que, para as noções universais, não há órgão correspondente, pois
são contempladas pelo intelecto por si mesmo. Do mesmo modo em que a sensação de um
sensível específico não é feita pelo órgão específico, já que é o intelecto que apreenderá tal
objeto sensível, também a sensação comum, isto é, a percepção de mais de um sensível
homogêneo ou heterogêneo, ao mesmo tempo, não pode ser feita por um órgão do sentido
específico, pois, segundo Platão, é o intelecto que tem essa função de identificar o que é comum
e separar o que é diferente.
Seguindo a argumentação do diálogo,
vemos que há no homem a capacidade natural Fonte: Wikimedia Commons
de receber as impressões sensíveis simples
através do corpo, mas que tais impressões
são indeterminadas até que a alma lhes dê
determinação e que, portanto, a percepção é
simplesmente a capacidade natural de receber
os sensíveis através dos órgãos do sentido, sendo
o intelecto incumbido de retomar tais objetos e
compará-los, a fim de lhes atribuir definição, de
conhecer as suas essências. Quando Sócrates
pergunta: “E ela [a alma] não percebe a dureza
do que é duro pelo tato, e a moleza do que é
mole pelo tato?”. Teeteto responde que sim e
Sócrates continua: “Mas suas essências e o
que são, e suas oposições umas às outras, e a
essencial natureza dessa oposição, a alma, por si
mesma, tenta determinar para nós retomando-
os e comparando-os uns com os outros”
(Teeteto, 186c).
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Unidade: Introdução à Filosofia de Platão
Perceber, portanto, não é senão receber impressões sensíveis indistintas até que a alma, ao
rever e comparar tais impressões, decida por meio do raciocínio a questão e a quais outras
impressões se opõem. Se, por um lado, a percepção tem a função descrita acima e é uma
capacidade que tanto animais como homens possuem desde o nascimento, por outro lado, a
reflexão sobre o ser e outras noções universais são adquiridas lentamente pela educação e pela
experiência. Se a apreensão da verdade é a apreensão do ser, então (i) não pode alcançar a
verdade quem falha na apreensão do ser, e (ii) quem falha na apreensão do ser não encontra a
verdade, ou não pode ter conhecimento de algo. Logo, o conhecimento consiste no raciocínio
sobre as impressões e não na percepção das impressões, ou seja, “o conhecimento não consiste
em impressões do sentido, mas no raciocínio sobre elas, apenas neste e não na mera impressão
a verdade e o ser podem ser alcançados” (Teeteto,186c).
O conhecer é um processo absolutamente distinto da percepção, no qual a mente está
sozinha e voltada para os seres, enfim, quando ela se aplica por si só ao estudo dos seres. Em
suma, para Platão, não é possível ter conhecimento a partir do incognoscível, por isso não é
possível conhecer a partir dos dados sensíveis que, tomados em si mesmos, são incognoscíveis.
Se e somente se refletirmos sobre os sensíveis, é possível conhecê-los. Por isso, o conhecimento
está na ação do intelecto sobre os sensíveis e isto constitui, por assim dizer, a percepção para o
filósofo. Enfim, todo conteúdo perceptível, que é em si mesmo incognoscível, deve ter elementos
intelectivos para ser conteúdo cognitivo. Podemos concluir, portanto, as seguintes distinções: (i)
os conteúdos sensíveis são, em si mesmos, incognoscíveis e não é função da percepção, mas do
intelecto conhecê-los; sendo assim, inferimos que os sensíveis só podem ser conhecidos quando
governados por elementos intelectuais; (ii) os conteúdos sensíveis tornam-se cognoscíveis pelo
intelecto à medida que eles forem determinados pelas noções comuns de existência, similaridade
e unidade (ta koina); e (iii) os conteúdos inteligíveis são cognoscíveis em si mesmos e o intelecto
os conhece quando a alma se volta para si mesma. Em resumo, temos dois paradigmas: o
paradigma sofístico da identidade entre conhecimento e sensação e o paradigma platônico da
separação absoluta entre conhecimento e sensação. O paradigma sofístico pode ser resumido
em quatro partes, a saber: (i) as sensações são sempre verdadeiras para aquele que percebe;
(ii) as sensações ocorrem de acordo com a disposição da alma do paciente; (iii) a qualidade
sensível da coisa externa e a capacidade perceptiva do sujeito passam a existir no instante
perceptivo e enquanto durar a percepção. Por fim, (iv) aquele que percebe não percebe mais
verdadeiramente do que outro, mas melhor ou pior de acordo com a sua disposição de alma. O
sábio, portanto, é aquele que tem uma opinião melhor ou mais bem sucedida para si e para os
outros e é capaz de convencer de sua opinião.
O paradigma platônico pode ser resumido em três partes: (i) perceber é receber na alma os
objetos sensíveis através do corpo; (ii) apreendemos as qualidades sensíveis enquanto impressões
incognoscíveis que serão conhecidas pelo intelecto somente. Percebemos as qualidades
sensíveis, mas não as discriminamos, pois não sabemos o que são, não conhecemos as suas
essências apenas ao perceber, senão somente quando refletimos sobre a impressão recebida.
Percebemos, por exemplo, pelo tato a dureza ou a moleza, mas sabemos que tal coisa é dura
ou mole e, portanto, que tal qualidade sensível percebida pelo tato é uma qualidade de tal tipo
(dura), diferentemente de outra qualidade de outro tipo (mole), pelo intelecto apenas. Por fim,
(iii) tendo sabido o que é percepção para Platão e em que difere do conhecimento, resta-nos
explicitar qual é a sua função, a saber: a função da percepção é fornecer material para estimular
o intelecto a encontrar o ser das coisas, e isso ocorre quando o mesmo se depara com sensações
contrárias, isto é, com objetos que, ao mesmo tempo, nos conduzem a reflexões contrárias.
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Na obra República, livro VII, Platão nos diz que há sensíveis que não fazem apelo à reflexão,
e outros que nos obrigam a refletir. Os primeiros são aqueles que não nos mostram de modo
evidente certa contradição, o que é explícito no segundo caso. Todavia, como vimos, sejam os
sensíveis que fazem apelo à reflexão por aparecerem como contraditórios, sejam aqueles que
não fazem tal apelo explícito, ambos tornam-se cognoscíveis apenas pelo intelecto à medida que
são governados por elementos intelectuais.
Platão, em detalhe da Escola de Atenas, de Rafael Sanzio (c. 1510). Satanza della Segnatura.
No caso da percepção de sensíveis contraditórios, temos que o mesmo sentido recebe
sensações contrárias de uma mesma coisa. Portanto, quando umacoisa se mostra com qualidades
contrárias, como dura e mole, leve e pesada, tal impressão contraditória leva o raciocínio a se
exercitar e buscar uma definição queelimine a contradição, pois uma mesma coisa não pode ser
A e não A ao mesmo tempo. Por exemplo, no caso da percepção dos dedos: “cada um deles
parecem igualmente um dedo, mesmo o que é visto no meio ou na extremidade, mesmo preto,
ou branco, ou grosso, ou fino – isto não faz diferença.” (República VII: 523d), ou seja, quando
vemos os dedos, o intelecto não é compelido ao raciocínio, mas quando percebemos com o tato
que o mesmo dedo é mole e duro ao mesmo tempo, então, diante dessa contradição fornecida
pelo tato, o intelecto é forçado a pensar e distinguir a dureza da moleza, o que implica buscar
pelas ideias de duro e de mole. Diante dessa perplexidade, a alma apela à reflexão (logismos) e
à inteligência (noêsis) para saber se se trata de uma mesma coisa ou de duas. Um outro exemplo
é quando percebemos pela vista o grande e o pequeno misturados em uma mesma coisa, apesar
de serem qualidades separáveis. Ao contrário da visão, que vê duas qualidades misturadas, a
inteligência é levada a contemplar as duas qualidades de modo distinto, discriminando-as. Para
tanto, devemos saber previamente o que é a grandeza e a pequeneza. Temos, por um lado, os
objetos visíveis, que são as qualidades do grande e do pequeno vistas de modo indistinto, e,
por outro, os objetos inteligíveis, que é a ideia do que é grande e a do que é pequeno. Desse
modo, para percebemos objetos múltiplos e indistintos que correspondem a uma única ideia
presente na alma, ela deve reconsiderar e comparar tais objetos sensíveis entre si e com as ideias
correspondentes para defini-los. Como havíamos dito, a ideia que corresponde ao ser das coisas
(por exemplo, a ideia de grande ou de pequeno), bem como as noções universais de semelhança
e dessemelhança, identidade e diferença, unidade e multiplicidade são necessárias para que o
intelecto possa discernir os sensíveis e afirmar que uma multiplicidade de qualidades distintas
entre si pertence a uma mesma coisa. Como diz Platão, se “nós vemos a mesma coisa como
unidade e ilimitada multiplicidade ao mesmo tempo” (Teeteto, 525a), o filósofo, emergindo
do mundo da constante geração e alteração sensível, deve se utilizar da ciência do número, a
aritmética, para atingir a essência. Podemos concluir que, para que tenhamos o conteúdo do
que é um dedo, este já está sendo governado pela intelecção. Se não fosse governado, nada
disso estaria sendo dado ou conhecido. O filósofo, portanto, faz apelo aos elementos intelectuais
que governam as sensações e que permitem a elas serem conteúdos cognitivos. Em suma,
perceber requer atividade intelectual para Platão.
A percepção, portanto, é governada por elementos intelectuais, independentemente de o
sujeito notar isso ou não. Ao adentrar na atividade intelectiva, o sujeito dá as costas à percepção.
Uma vez no domínio das ideias, não faz sentido voltar à empiria. Ora, uma vez conhecendo o que
são os sensíveis com a alma, devemos deixar de lado a transitoriedade dos sensíveis presentes
no mundo e nos voltarmos para a ideia que obtivemos na busca de torná-los cognoscíveis.
Enfim, uma vez de posse da ousia (a essência) dos sensíveis, os próprios sensíveis não têm
qualquer serventia na aquisição do conhecimento.
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Unidade: Introdução à Filosofia de Platão
Material Complementar
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Referências
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Anotações
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