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E.S.E.

, INSTITUTO POLITÉCNICO DO PORTO

INCAPACIDADE
INTELECTUAL
PARADGIMA DO SUPORTE
MARINA CANDEIAS
JUNHO DE 2013

MESTRADO: MULTIDEFICIÊNCIA E PROBLEMAS DE COGNIÇÃO


MARINA CANDEIAS INCAPACIDADE INTELECTUAL

INCAPACIDADE INTELECTUAL: O CONCEITO E A SUA


EVOLUÇÃO AO LONGO DOS TEMPOS
Ao longo dos tempos, por motivos diversos, a definição e o conceito de
Incapacidade Intelectual têm sofrido grandes alterações. Ser diferente dos outros sempre
foi algo difícil de aceitar à sociedade de cada cultura e tempo. Desta forma, a
Incapacidade Intelectual é definida fundamentalmente por cinco correntes:
Corrente Psicológica ou Psicométrica, segundo a qual o indivíduo apresenta um
défice ou diminuição das suas incapacidades intelectuais, que é medida através de testes
de QI, sendo os principais impulsionadores Binet e Simon, na tentativa de compreender a
Deficiência Mental e suas implicações. Os testes de inteligência de Binet e Simon foram
usados para classificar quem era portador desta condição. A descoberta do Quociente de
Inteligência (QI) no início do século XX, passa a ser adaptada não só para identificar
problemas de aprendizagem, mas também, identificar défices cognitivos de carisma mais
grave. O QI traduz assim a divisão entre Idade Mental e Idade Cronológica. A primeira
refere-se em termos de capacidade inteligente a par dos testes de inteligência que são
enunciados e a segunda, como o próprio termo indica, é a idade física.
Em 1916, Lewis Madison Terman, um cientista norte-americano, propôs
acrescentar ao QI, x100. A escala de QI variava entre 50-140, porém os testes de
inteligência foram aperfeiçoados ao longo dos anos e em 1949 David Wechler
desenvolveu a Escala de Inteligência Wechler para Crianças, que predomina até hoje,
tendo sofrido revisões constantes. Wechler afirma que um QI abaixo de 20 seria
debilidade profunda e um QI acima de 127 seria de sobredotação, existindo pelo meio
subcategorias de acordo com o resultado do QI.
A Corrente Sociológica ou Social, que defende que o indivíduo apresenta, em
maior ou menor medida, dificuldade para se adaptar ao meio social em que vive e para
levar a cabo uma vida autónoma.
A Corrente Médica ou Biológica, segundo a Deficiência Mental teria um
substrato biológico, anatómico e fisiológico e manifestar-se-ia durante o desenvolvimento
(até aos 18 anos).
A Corrente Pedagógica que preconiza que o deficiente mental será o indivíduo
que tem uma maior ou menor dificuldade em seguir o processo regular de aprendizagem e
que por isso tem necessidades educativas especiais, ou seja necessita de apoios e
adequações curriculares que lhe permitam seguir o processo regular de ensino.
Contudo, e mais uma vez se depreende que a Deficiência Mental atravessou e
atravessa uma enorme mutação, o QI deixa de ser fator exclusivo na sua classificação,
abrindo novos horizontes para a individualidade e desenvolvimento do indivíduo de
acordo com fatores intrínsecos e extrínsecos, surgindo assim uma outra corrente
denominada por Corrente Comportamentalista, que coloca a tónica da influência do
ambiente sobre a Deficiência Mental. O défice mental é encarado como um défice de
comportamento que deverá ser interpretado como sendo produto de quatro fatores
determinantes: 1- Fatores biológicos passados (genéticos, pré-natais, perinatais, pós-
natais); 2 - Fatores biológicos atuais (drogas, fármacos, cansaço ou stress); 3- História de
interação com o meio (Reforço); 4- Condições ambientais presentes ou outras situações
atuais. Num prisma multidimensional, o indivíduo é avaliado não só pelo QI, mas
também pela interação sujeito-meio. A deficiência mental passa assim a ser defendida
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como uma situação dependente de diversas causas, limitações que condicionam a


adaptação do indivíduo, inferiorizando a conceção de incompetência e de condição
pessoal. Desponta-se, deste modo, uma necessidade de apoiar adequadamente o indivíduo
portador de Deficiência, uma vez que ele é compreendido na sua globalidade.
A Associação Americana de Retardo Mental (AAMR, sigla em inglês), criada em
1876, lidera o campo de estudo sobre deficiência mental, definindo conceituações,
classificações, modelos teóricos e orientações de intervenção em diferentes áreas. Dedica-
se à produção de conhecimentos e tem-nos publicado e divulgado, em manuais, relatando
os avanços e informações relativos à terminologia e classificação. Editou o primeiro
manual em 1921 e o último em 2002. Embora secular, influencia sistemas de
classificações internacionalmente conhecidos como o DSM-IV e a CID-10. Esta
Associação Americana para a Deficiência Mental (A.A.M.R.) e a OMS, reuniram as cinco
correntes acima descritas e adotaram um sistema que consiste numa conceção multidimensional,
funcional e bioecológica de deficiência mental, agregando sucessivas inovações e reflexões
teóricas e empíricas em relação aos seus modelos anteriores, onde a incapacidade é encarada,
não como característica intrínseca da pessoa, mas como o resultado do desajustamento
entre as funcionalidades do indivíduo e as solicitações dos cenários onde ele é chamado a
participar.
Depreende-se desta definição que a deficiência mental não representa um atributo da
pessoa, mas um estado particular de funcionamento. O processo de diagnóstico, segundo o
Sistema 2002, requer a observância, portanto, de três critérios: (a) o funcionamento
intelectual; (b) o comportamento adaptativo, e (c) a idade de início das manifestações
ou sinais indicativos de atraso no desenvolvimento. Para que o diagnóstico se aplique, é
necessário que as limitações intelectuais e adaptativas, identificadas pelos instrumentos
de mensuração, sejam culturalmente significadas e qualificadas como deficitárias. Alguns
parâmetros influenciam essa qualificação: (a) os padrões de referência do meio
circundante, em relação ao que considera desempenho normal ou comportamento
desviante; (b) a intensidade e a natureza das demandas sociais; (c) as características do
grupo de referência, em relação ao qual a pessoa é avaliada; (d) a demarcação etária
do considerado período de desenvolvimento, convencionada e demarcada nos dezoito
anos de idade. Os indicadores de atraso devem manifestar-se, portanto, na infância ou na
adolescência.
A partir de 2007, a então conhecida AAMR mudou o seu nome para American
Association on Intelectual and Developement Disabilities (AAIDD), facto este relevante,
pois se considerarmos a tradução da palavra Disability nas diversas versões oficiais da
CIF nas línguas de origem latina verifica-se que foram adotadas as seguintes
denominações: handicap em francês, disabilita em italiano, discapacidad em espanhol e
incapacidade em português. É evidente, então que efetuada a tradução para francês, todas
as outras línguas recorrem, de forma idêntica, utilizando um prefixo de negação à palavra
habilidade ou capacidade. Esta alteração trouxe implicações na desconstrução do
construto de deficiencia mental (mental retardation) e subsequente mudança para a
designação incapacidade intelectual (intellectual disability), pela American Association
of Intellectual and Developmental Disabilities. Assim, segundo a posição de Sarason
(1985) a noção de deficiência mental não deve ser entendida como uma coisa ou
característica de certos indivíduos, mas antes como o resultado de uma criação social
coerente com os valores e ideologias dominantes de dada circunstância histórica onde as
funções de diagnóstico e de prognóstico parecem representar operações desejáveis e
necessárias.

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Desta forma, o termo Deficiência Mental foi substituído pelo de Incapacidade


Intelectual, passando a ser utilizado a partir do momento em que se referiu a American
Association on Intellectual and Developmental Disabilities (AAIDD) - Associação
Americana para as Dificuldades Intelectuais e Desenvolvimentais, pois é a esta
associação que se deve a mudança de paradigma e a legitimação da nova nomenclatura.
“Um estado particular de funcionamento que existe baseado na interação das limitações
funcionais das pessoas e o contexto onde estas pessoas existem ou funcionam”
(Luckasson, et al., 2002, p.10). A razão desta mudança deve-se ao facto existir uma
grande contestação relativamente à utilização do termo deficiência, devido ao seu
constructo estigmatizante (Belo et al., 2008) e por, nos últimos 50 anos, se verificar uma
ausência de rigor conceptual em relação a este conceito, que coloca em enfoque a
designação de uma patologia, como sendo algo que a pessoa é e tem, de onde sobressai o
domínio Psicométrico em detrimento da importância que se deveria atribuir ao domínio
Adaptativo, na definição colocada em prática pela AAIDD e no sistema de classificação
da Incapacidade Intelectual, desenvolvido por esta, tanto as limitações como as
potencialidades -áreas fortes e áreas fracas- são enquadradas de acordo com os apoios
individualizados, o contexto comunitário, a idade do indivíduo e o seu meio sociocultural
e linguístico, no sentido de aperfeiçoar a vida do indivíduo com Incapacidade Intelectual.
A AAIDD considera que o termo Incapacidade é o mais apropriado, por possuir um
aspeto menos estigmatizante e também porque é acompanhado por uma expectativa mais
positiva quando comparado com o termo Deficiência, pela conotação negativa que este
termo possui, tanto no seu constructo como no seu uso, sendo igualmente injusto e pouco
rigoroso. Por sua vez, a designação incapacidade refere-se às limitações que fazem com
que o indivíduo esteja em desigualdade enquanto ser social. Para se afirmar que um
indivíduo apresenta dificuldades, estas devem ser vistas como o resultado de um
conjunto, onde estão incluídos o contexto e os fatores pessoais, assim como as
necessidades de apoios individualizados necessários, dado que eles são responsáveis pelo
comportamento do indivíduo e pela sua auto-determinação, assim como pelo seu bem-
estar e qualidade de vida os, apresentados pelo sujeito.
Segundo Belo (2008) e Morato & Santos (2007), no que respeita à denominação
de Intelectual em vez de Mental, verifica-se que é uma questão há muito abordada, a qual
compreende a capacidade para pensar, planear, resolver problemas, compreender e
aprender, refletindo-se nos aspetos intelectuais (verbal, numérico, espacial) que se
diferenciam quer pelo seu constructo, quer pelo seu uso, embora deem poucos
esclarecimentos acerca das relações de causalidade linear: o termo Mental é passível de
ser medido através de resultados de QI - apesar de ser alvo de críticas-, obtido através de
testes estandardizados -aplicados por profissionais-, o segundo é mais lato em termos
funcionais, dado interligar-se com a dimensão orgânica, neurofisiológica e bioquímica.
De acordo com Belo (2008),o termo comportamento adaptativo caracteriza as
competências conceptuais, práticas e sociais apreendidas pelos sujeitos, dado que são
estas que atribuem aos mesmos a capacidade para funcionar no dia-a-dia. Por
conseguinte, se houver limitações significativas no comportamento adaptativo, estas irão
influenciar a vida das pessoas ao nível da sua resposta perante uma situação concreta do
seu contexto. Portanto, o termo Incapacidade Intelectual, proporciona uma compreensão
mais objetiva e lata, pelo facto de abarcar, em si mesmo, os fatores adaptativos mais
pertinentes: “a interação pessoa e envolvimento na sua diversidade contextual -micro,
meso, macro- e respetiva validade ecológica” (Morato & Santos, 2007, p. 57).
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Presentemente continuam a realizar-se debates sobre a definição de Incapacidade


Intelectual, contudo, todas as organizações/associações que trabalham com esta
população, se socorrem da definição da AAIDD, uma vez que esta, mais do que qualquer
outra, refere os padrões universais e a comunicação.
Paralelamente às alterações ao conceito de Incapacidade Intelectual assistiu-se
também a uma alteração de paradigma, deixando de se ver a Incapacidade Intelectual
como uma caraterística única da pessoa e passando a ser vista como a manifestação da
interação entre essa pessoa e o contexto onde está inserida (Luckasson et al, 2002; Leitão,
Lombo & Ferreira, 2008; Santos & Santos, 2007; Schalock et al, 2010).
Esta mudança de paradigma reflete-se em três elementos chave: as capacidades, o
envolvimento e a funcionalidade, denominando-se por Paradigma de Suporte (o qual
será abordado posteriormente neste trabalho) (Luckasson et al, 2002; Santos & Santos,
2007; Leitão, Lombo & Ferreira, 2008; Schalock et al, 2010).
Apesar de todos estes elementos denotarem um grande impacto na vida diária dos
sujeitos com Incapacidade Intelectual, é a funcionalidade que mais se destaca verificando-
se uma mudança de atitude ao nível dos objetivos da intervenção/reabilitação, que passam
a centrar-se na participação plena das pessoas com Incapacidade Intelectual (Leitão,
Lombo & Ferreira, 2008, e Morato & Santos, 2007). A Incapacidade Intelectual deixa de
ser vista em termos de défices, passando a ser considerada em termos de apoios
necessários à plena integração dos indivíduos (Belo, Caridade, Cabral & Sousa, 2008), o
objeto de estudo deixa de ser o indivíduo isolado e passa a ser a relação indivíduo/meio
com todas as suas exigências (Morato & Santos, 2007).
Pode-se dizer que tanto a definição como a terminologia utilizada são questões
complexas, apesar de ser consensual a noção de que a Incapacidade Intelectual implica
limitações ao nível intelectual e do Comportamento Adaptativo (CA), encontrando-se o
enfoque da sua definição nas áreas fortes, contextos e necessidade de apoios individual,
de forma a melhorar a sua qualidade de vida (QV) e a promover a sua plena participação
na sociedade (Belo, Caridade, Cabral & Sousa, 2008; Schalock et al, 2010).

O MODELO DA INCAPACIDADE INTELECTUAL


A conceção multidimensional do Sistema 2002: um modelo de cinco dimensões
A definição proposta e o modelo teórico multidimensional da AAMR (2002),
explicam a deficiência mental segundo cinco dimensões, que envolvem aspetos
relacionados com a pessoa; ao seu funcionamento individual no ambiente físico e social;
ao contexto e aos sistemas de apoio. São caracterizadas como se segue:
Dimensão I: Habilidades Intelectuais
A inteligência é concebida como capacidade geral, incluindo “raciocínio,
planeamento, solução de problemas, pensamento abstrato, compreensão de ideias
complexas, rapidez de aprendizagem e aprendizagem por meio da experiência”
(Luckasson, op. cit., p.40).
As habilidades intelectuais são objetivamente avaliadas por meio de testes
psicométricos de inteligência. A dimensão intelectual, hegemónica no início do séc. XX,
passa a constituir, no Sistema 2002, um dos indicadores de déficit intelectual, considerado
em relação às outras dimensões. Desse modo, a mensuração da inteligência continua com
muito peso, mas não é suficiente para o diagnóstico da deficiência. Enquanto no Sistema
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92 da AAMR adotava-se o valor do QI como índice de demarcação da avaliação


intelectual, o Sistema 2002 o faz pela medida do desvio-padrão. Estabelece como ponto
de definição duas unidades de desvio-padrão (2σ) abaixo da média, em testes
padronizados para a população considerada. Os seguintes requisitos são recomendados no
processo avaliativo: (a) a qualidade dos instrumentos de medida, considerando a
validade dos testes e a adequação do seu uso; (b) a qualificação do avaliador para a
aplicação e interpretação dos resultados dos testes empregados; (c) a seleção dos
informantes quanto à sua legitimidade para fornecer dados sobre a pessoa que está a
ser diagnosticada; (d) a contextualização ambiental e sociocultural na interpretação
dos resultados do processo avaliativo; (e) a história clínica e social do sujeito; (f) as
condições físicas e mentais associadas, que possam interferir nos resultados avaliativos
das habilidades intelectuais. Os critérios objetivos, próprios das medidas psicométricas
e das escalas de mensuração, são recomendados pela AAMR, porém considerados
insuficientes para o diagnóstico da deficiência mental em suas publicações mais
recentes.
Dimensão II: Comportamento Adaptativo
O comportamento adaptativo é definido como o “conjunto de habilidades
conceituais, sociais e práticas adquiridas pela pessoa para corresponder às demandas da
vida cotidiana.” (Luckasson e cols., 2002, p. 14). Limitações nessas habilidades podem
prejudicar a pessoa nas relações com o ambiente e dificultar o convívio no dia- a- dia.
Habilidades conceituais – relacionadas com aspetos acadêmicos, cognitivos e de
comunicação. São exemplos dessas habilidades: a linguagem (recetiva e expressiva); a
leitura e escrita; os conceitos relacionados ao exercício da autonomia., conceitos de
dinheiro e auto-direção. (b) Habilidades sociais – relacionadas com a competência
social. São exemplos dessas habilidades: a responsabilidade; a auto-estima; as habilidades
interpessoais, credulidade, (probabilidade de ser enganado, manipulado e alvo de abuso
ou violência), ingenuidade, a observância de regras, normas e leis; evitar vitimização. (c)
Habilidades práticas – relacionadas com o exercício da autonomia. São exemplos: as
atividades de vida diária: alimentar-se e preparar alimentos; arrumar a casa, cuidar da
higiene e vestuário, deslocar-se de maneira independente (mobilidade/transferência);
atividades instrumentais da vida diária: utilizar meios de transporte; tomar medicação;
manejar o dinheiro; usar o telefone; Competências ocupacionais, laborativas e relativas
a emprego e trabalho; as atividades que promovem a segurança pessoal (manter
relações).
A inclusão tem sido marcada pelo conceito de normalização que implica oferecer
à pessoa com incapacidade condições de vida tão normais quanto seja possível para todas
as pessoas, isto é, a sociedade deve organizar-se para eliminar barreiras e oferecer
condições para que todas as pessoas desenvolvam suas potencialidades. Isso significa:
 Eliminar serviços que criem estigmas. Por exemplo: serviço de odontologia para
pessoas com deficiência. Enquanto pessoas devem usufruir dos mesmos serviços
para qualquer cidadão comum;
 Tratar a pessoa de acordo com a sua idade cronológica. Tratá-la como criança
quando é adolescente, segundo nossa perceção e expectativa, pode influenciar
negativamente sua auto-estima;
 Favorecer o desenvolvimento das competências dando oportunidades para exercê-
-las;
 Permitir que a criança tenha acesso a bons modelos de comportamentos. A escola
regular é, com certeza, um bom lugar;
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 Melhorar a imagem social das pessoas com incapacidade;


 Favorecer a integração e a participação social de forma que possa ter boas
experiências, tomar decisões, escolher e assumir papéis sociais importantes.
A definição proposta pela AAMR (2002), afinada com o princípio de
normalização, ressalta a importância dos apoios como mediadores entre o funcionamento
do sujeito e as demandas ambientais, propiciando estímulo ao desenvolvimento e à
aprendizagem da pessoa com incapacidade intelectual ao longo da vida. De acordo com
sua intensidade, os apoios podem ser classificados como:
(a) intermitentes – são episódicos, disponibilizados apenas em momentos necessários,
com base em demandas específicas. Aplicados particularmente em momentos de crise ou
períodos de transição no ciclo de vida da pessoa, no caso de crianças que permanecem
internadas periodicamente para tratamento;
(b) limitados – são caracterizados por sua temporalidade limitada e persistente. Destinam-
-se a apoiar pequenos períodos de treino ou ações voltadas para o atendimento a
necessidades que requeiram assistência temporal de curta duração, com apoio mantido até
sua finalização, como por exemplo, quando a pessoa sofre um acidente e fica
temporariamente imobilizada;
(c) extensivos – são caracterizados por sua regularidade e periodicidade (por exemplo,
diariamente, semanalmente). Recomendados para alguns ambientes (escola, trabalho, lar),
sem limitações de temporalidade, como por exemplo, pessoas com incapacidade
intelectual que precisam de auxílio específico para aprender habilidades de vida diária,
académica ou de vida prática, possibilitando que desenvolvam repertório para garantir a
sua independência e, até mesmo sua sobrevivência.
(d) evasivos – são constantes, estáveis e de alta intensidade. Disponibilizados nos
diversos ambientes, potencialmente durante toda a vida. São generalizados, podendo
envolver uma equipa com maior número de pessoas, como por exemplo, pessoas que
necessitam de cuidados constantes e não sobreviveriam sem supervisão e auxilio.
Dimensão III: Participação, interações, papéis sociais
Esta dimensão ressalta a importância da participação na vida comunitária. Em
relação ao diagnóstico da incapacidade intelectual, dirige-se à avaliação das interações
sociais e dos papéis vivenciados pela pessoa, bem como sua participação na comunidade
em que vive. A observação e o depoimento são procedimentos de avaliação indicados
para essa dimensão, tendo em vista a consideração dos múltiplos contextos envolvidos e a
possibilidade diversificada de relações estabelecidas pelo sujeito no mundo físico e social.
O mais importante nesta dimensão é a sua semelhança com a proposta realizada pela
Organização Mundial de Saúde (OMS) na Classificação Internacional do Funcionamento
da Incapacidade e Saúde (CIF,2001; CIF-CY, 2007). É um instrumento de classificação
utilizado como complemento à CID-10. Nesse ponto, ultrapassa a visão apenas médica e
inclui a perspectiva social e ambiental. Adota, como o Sistema 2002, o conceito de
funcionalidade. A CIF organiza-se em duas partes, com seus respetivos componentes:
Parte 1: (a) funções do corpo e estruturas do corpo – referindo-se às funções fisiológicas
dos sistemas corporais (inclusive as funções mentais), bem como suas partes estruturais
ou anatómicas, tais como órgãos e membros; b) atividades e participação. Quatro
constructos estão relacionados à Parte 1: mudanças na função e na estrutura do corpo;
capacidade e desempenho.
Parte 2: (a) fatores ambientais; (b) fatores pessoais. Um constructo está associado à Parte
2: facilitadores ou barreiras existentes nos fatores ambientais. A Incapacidade Intelectual
pode acarretar problemas significativos à pessoa nos seguintes aspetos: (a) na sua
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capacidade de realizar, por impedimentos na funcionalidade; (b) na sua habilidade de


realizar, devido a limitações na atividade de um modo geral; (c) nas suas oportunidades
de funcionar no meio físico e social, devido a restrições de participação. Além de fatores
pessoais, a CIF abrange importantes domínios contextuais do convívio humano: o lar, a
família, a educação, o trabalho e a vida social/social. O Sistema 2002 da AAMR e a CIF
têm em comum a perspectiva funcionalista, ecológica e multidimensional. Esse paralelo
pode ter sido possível pela contemporaneidade de suas publicações. A associação entre o
Sistema 2002 e a CIF merece a atenção dos profissionais, por oferecerem um referencial
teórico importante para o entendimento da Incapacidade Intelectual e constituírem
instrumentos substantivos e compreensivos para o seu diagnóstico.
Dimensão IV: Saúde (saúde física, saúde mental e fatores etiológicos)
As condições de saúde física e mental influenciam o funcionamento de qualquer
pessoa. Facilitam ou inibem as suas realizações. A AAMR indica a necessidade de
contemplar, na avaliação diagnóstica da incapacidade intelectual, elementos mais amplos,
de modo a incluir fatores etiológicos e de saúde física e mental. Morato e Santos (2002), o
conhecimento da etiologia da Incapacidade Intelectual é importante para permitir uma
identificação mais rigorosa e um conhecimento mais aprofundado acerca das possíveis
razões da génese desta problemática no indivíduo. Apenas com esta identificação e
consequente conhecimento das causas se poderão adequar com precisão os meios e as
técnicas a aplicar, no sentido de atenuar as dificuldades do indivíduo. A condição
etiológica possibilita, igualmente, o entendimento das relações patofisiológicas entre as
inúmeras causas e as estratégias de pesquisa e a consequente abordagem da incapacidade,
sendo a informação epidemiológica, obtida através das deficiências, crucial para o
desenvolvimento de programas de prevenção. O momento do aparecimento da Incapacidade
Intelectual está dependente tanto da etiologia como do grau de complexidade da mesma.
Morato (2002) dá o seguinte exemplo: “uma síndrome com um fenótipo característico –
exemplo: trissomia 21- tende a ser despistada precocemente; pelo contrário a
incapacidade intelectual de etiologia desconhecida só é diagnosticada mais tarde” (DSM-
IV, 1994, citado por Morato 2002, p. 28).
Morato (2002) refere que existe uma pluralidade de fatores que poderão estar
implicados na manifestação da Incapacidade Intelectual, como sejam os fatores
biológicos, genéticos e fisiológicos, que para o autor são indissociáveis dos aspetos
socioeconómicos e de adaptação social, emocional e vocacional.
Para Fonseca (1980), a etiologia da Incapacidade Intelectual é muito distinta,
podendo subdividir-se em fatores endógenos, que incluem os fatores genéticos -atuam
antes da gestação- e fatores extrínsecos, subdivididos por sua vez em pré-natais -
atuam antes do nascimento-, perinatais e neonatais -atuam durante o parto ou no
recém-nascido- e pós-natais -atuam após o nascimento. Este autor é, ainda, da opinião
que não se podem descurar os fatores biológicos e sociológicos, acrescentando ainda que
as alterações cromossómicas e genéticas têm apenas uma pequena responsabilidade nas
causas da Incapacidade Intelectual quando comparadas com fatores biológicos, sociais e
envolvimentais, antes e depois do nascimento. De acordo com o mesmo autor, podem
existir cerca de 200 causas da Incapacidade Intelectual todas elas diferentes, relacionadas
com fatores exógenos.
De acordo com a AAMR (1992), dever-se-á adotar, no que se refere à
problemática da Incapacidade Intelectual, uma abordagem multidisciplinar,
multissectorial e intergeracional, assente em duas dimensões, a primeira baseada em
quatro grupos de fatores causais e a segunda no conceito de causalidade intergeracional.
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Os quatro grupos de fatores causais, que deverão ser todos eles implicados no processo
de classificação, são: fatores biomédicos -processos biológicos – má nutrição, alterações
genéticas, etc.-, fatores sociais -capacidade de resposta e de estimulação por parte dos
adultos-, fatores comportamentais -abuso de substâncias tóxicas por parte da mãe- e
fatores educativos -disponibilidade dos apoios educativos para promoverem o
desenvolvimento do comportamento adaptativo.
Dimensão V : Contextos
A dimensão contextual considera as condições em que a pessoa vive,
relacionando-as com qualidade da vida. Os níveis de contexto considerados estão de
acordo com a conceção de Bronfenbrenner (1979), incluindo: (a) o microssistema – o
ambiente social imediato, envolvendo a família da pessoa e os que lhe são próximos; (b) o
mesossistema – a vizinhança, a comunidade e as organizações educacionais e de apoio;
(c) o macrossistema – o contexto cultural, a sociedade, os grupos populacionais.
São considerados na avaliação diagnóstica as práticas e valores culturais; as
oportunidades educacionais, de trabalho e lazer, bem como as condições contextuais de
desenvolvimento da pessoa. São consideradas, também, as condições ambientais
relacionadas ao seu bem-estar, saúde, segurança pessoal, conforto material, estímulo ao
desenvolvimento e condições de estabilidade no momento presente. A avaliação dos
contextos prescinde da utilização de medidas padronizadas, prevalecendo critérios
qualitativos e de julgamento clínico.
A definição de 2002 da AAIDD propõe ainda que a avaliação deve ter como
objetivo o diagnóstico, classificação e definição dos apoios e do sistema de suporte. O
quadro seguinte exemplifica este pressuposto:

FUNÇÃO DA OBJETIVOS EXEMPLOS DE


AVALIAÇÃO ESPECÍFICOS MEDIDAS,
INSTRUMENTOS E
MÉTODOS DE
AVALIAÇÃO
 IDENTIFICAR A  TESTES DE
INCAPACIDADE INTELIGÊNCIA;
INTELECTUAL;  ESCALA DE
 ESTABELECER COMPORTAMENTO
DIAGNÓSTICO ELEGIBILIDADE PARA OS ADAPTATIVO;
SERVIÇOS;  IDADE
 ESTABELECER DOCUMENTADA;
ELEGIBILIDADE PARA OS  MEDIDAS DE
BENEFÍCIOS; DESENVOLVIMENT
 ESTABELECER O
ELEGIBILIDADE PARA  HISTÓRIA SOCIAL E
PROTEÇÕES LEGAIS. REGISTOS
ESCOLARES.

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 CLASSIFICAÇÃO DE  NÍVEIS DE
INTENSIDADE PELOS COMPORTAMENTO
CLASSIFICAÇÃO
SUPORTES ADQUIRIDOS; ADAPTATIVO;
 CLASSIFICAÇÃO PARA  MEDIDAS DO QI;
PROPÓSITOS DE PESQUISA;  AVALIAÇÃO DO
 CLASSIFICAÇÃO POR MEIO;
CARACTERÍSTICAS  SISTEMA DE FACTOR
SELECIONADAS; DE RISCO DE
 CLASSIFICAÇÃO PARA OS ETILOGIA;
SUPORTES DE EDUCAÇÃO  MEDIDAS DE SAÚDE
ESPECIAL; MENTAL:
 CLASSIFICAÇÃO PARA  CATEGORIAS DE
REEMBOLSO DE RECURSOS BENEFÍCIO.
FINANCEIROS.
 SUPORTE PARA  PLANO CENTRADO
AUMENTAR/DESENVOLVER NA PESSOA;
SISTEMA DE
FUNÇÕES HUMANAS;  AUTO-AVALIAÇÃO;
SUPORTES  SUPORTE PARA PROVER  ANÁLISE DO
RESULATDOS ESPERADOS; AMBIENTE TESTES
 SUPORTE PARA AJUDAR AS DE
PESSOAS A FAZER DESENVOLVIMENTO;
ESCOLHAS;  FALA/LINGUAGEM,
 SUPORTE PARA GARANTIR MOTOR, AVALIAÇÃO
DIREITOS HUMANOS. SENSORIAL;
 ESCALAS DE
MEDIDA DE
NECESSIDADE DE
SUPORTE;
 AVALIAÇÃO DO
COMPORTAMENTO
FUNCIONAL;
 PLANO DO SUPORTE
DO
COMPORTAMENTO;
 PLANO DE SUPORTE
CENTRADO NA
FAMÍLIA.

A sociedade deve, assim reorganizar-se de forma a garantir o acesso de todos


os cidadãos (inclusive os que têm uma incapacidade) a tudo o que a constitui e
caracteriza, independente de quão próximos estejam do nível de normalidade. Desta
forma surgiu, como resposta um novo paradigma: o Paradigma do Suporte.

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O PARADIGMA DO SUPORTE
Cabe, assim à sociedade oferecer os serviços que os cidadãos com incapacidade
necessitarem (nas áreas física, psicológica, educacional, social, profissional). Mas
também lhe cabe, garantir-lhes o acesso a tudo de que dispõe, independente do tipo de
incapacidade e grau de comprometimento apresentado pelo cidadão. Foi fundamentado
nestas ideias que surgiu o terceiro paradigma, denominado Paradigma de Suporte. Este
tem-se caracterizado pelo pressuposto de que a pessoa tem direito à convivência não
segregada e ao acesso aos recursos disponíveis aos demais cidadãos. Para tanto, fez-se
necessário identificar o que poderia garantir tais prerrogativas. Foi nesta busca que se
buscou a disponibilização de suportes, instrumentos que viabilizam a garantia de que a
pessoa com incapacidade possa ter acesso a todo e qualquer recurso da comunidade. Os
suportes podem ser de diferentes tipos (suporte social, econômico, físico, instrumental) e
têm como função favorecer o que se passou a denominar inclusão social, processo de
ajuste mútuo, onde cabe à pessoa com incapacidade manifestar-se com relação a seus
desejos e necessidades e à sociedade, a implementação dos ajustes e providências
necessárias para que a ela possibilitem o acesso e a convivência no espaço comum, não
segregado. A inclusão parte do mesmo pressuposto da integração, que é o direito da
pessoa com incapacidade ter igualdade de acesso ao espaço comum da vida em sociedade.
Diferem, entretanto, no sentido de que o paradigma de serviços, onde se contextualiza a
ideia da integração, pressupõe o investimento principal na promoção de mudanças do
indivíduo, na direção de sua normalização. Entretanto, isto dá-se na maioria das vezes
em complementação ao processo de intervenção no sujeito, prevendo intervenções
decisivas e incisivas, em ambos os lados da equação: no processo de desenvolvimento
do sujeito e no processo de reajuste da realidade social, então, o trabalho direto com o
sujeito, adota como objetivo primordial e de curto prazo, a intervenção junto às
diferentes instâncias que contextualizam a vida desse sujeito na comunidade, no sentido
de nelas promover os ajustes (físicos, materiais, humanos, sociais, legais, etc..) que se
mostrem necessários para que a pessoa com incapacidade possa imediatamente
adquirir condições de acesso ao espaço comum da vida na sociedade. A inclusão
social, portanto, não é o processo que diga respeito somente à pessoa com incapacidade,
mas sim a todos os cidadãos. Não haverá inclusão da pessoa com incapacidade enquanto
a sociedade não for inclusiva, ou seja, realmente democrática, onde todos possam
igualmente se manifestar nas diferentes instâncias de debate e de tomada de decisões da
sociedade, tendo disponível o suporte que for necessário para viabilizar essa participação.
Assim, as pessoas com incapacidade devem frequentar os serviços que necessitam para
seu melhor tratamento e desenvolvimento. Mas a sociedade também necessita de se
reorganizar de forma a garantir o acesso imediato da pessoa, através da provisão das
adaptações que se mostrem necessárias. Não adianta prover igualdade de oportunidades,
se a sociedade não garantir o acesso da pessoa com incapacidade a essas oportunidades.
Muitos são os suportes necessários e possíveis de imediato. Outros, demandam maior
planeamento a médio e longo prazo. Todos, entretanto, devem ser disponibilizados, caso
se pretenda alcançar uma sociedade mais justa e democrática. Não há modelos prontos,
nem receitas em manuais. Há que encontrar soluções para a convivência na diversidade
que a caracteriza, enriquece, dá sentido e significado. Há que efetivamente favorecer a
convivência e a familiaridade com as pessoas com incapacidade, derrubando as barreiras
físicas, sociais e psicológicas e instrumentais que as impede de circular no espaço
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MARINA CANDEIAS INCAPACIDADE INTELECTUAL

comum. Muito distante se está, entretanto, da implementação das adaptações,


disponibilização dos suportes e planeamento de ações que garantam o acesso imediato de
todas as pessoas aos recursos e instâncias da vida em comunidade, tenham elas
incapacidade ou não, no nível e grau que for. A inclusão social é um projeto a ser
construído por todos: família, diferentes setores da vida pública e população leiga.
Necessita de planeamento, experimentação, de forma a se identificar o que é necessário
ser feito em cada comunidade, para garantir o acesso das pessoas com incapacidade do
local e de outras comunidades aos recursos e serviços disponíveis. Não se instala por
decreto, nem de um dia para o outro. Mas há que se envolver efetiva e coletivamente,
caso se pretenda um país mais humano e justo com seu próprio futuro e bem-estar.
O esquema que se segue é a representação do Paradigma do Suporte, que engloba
os processos, avaliação e intervenção, sendo estes interativos e interdependentes, que se
denomina por Planificação Centrada na Pessoa.

PARADIGMA DO SUPORTE

AVALIAÇÃO INTERVENÇÃO

Flexível e dinâmico
PLANEAMENTO:
MAPAS DO PASSADO:
INTERVENIENTES: Planear o amanhã com
História pessoal, clínica e esperança:
Família, Técnicos de
escolar do aluno.
Educação e de Saúde. Delinear objetivos e
desenvolver talentos.
CONTEXTOS:
MAPAS DOS SONHOS
E RECEIOS: Micro, meso e
macrosistema PLANEAMENTO:
Competências, interesses,
expectativas, aspirações Implementar estratégias
individuais, necessidades e e os suportes.
medos.
TIPO DE
SUPORTE: PLANEAMENTO:
MAPAS: PLANO DE A FORÇA DOS
AÇÃO Pistas verbais e COMPROMISSOS
visuais, etc.
Definir passos da Manter o foco
intervenção, priorizando os INTENSIDADE: monitorizando os
objetivos, tendo como base progressos e avaliando
a promoção de experiências Intermitentes, limitados,
o plano de suporte
de suporte. extensivos e evasivos.
individualizado

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MARINA CANDEIAS INCAPACIDADE INTELECTUAL

CARACTERIZAÇÃO DA INCAPACIDADE INTELECTUAL


A Incapacidade Intelectual caracteriza-se por um nível de funcionamento
intelectual abaixo da média (avaliado através de testes de inteligência estandardizados,
como por exemplo, testes de QI), e por limitações significativas das competências da vida
diária (comportamentos adaptativos). Estes testes avaliam a capacidade de raciocínio em
termos de idade mental. Segundo a Classificação Internacional das Doenças (CID 10,
1996), os comportamentos adaptativos incluem:
 Capacidade de produzir e compreender a linguagem (comunicação);
 Competências da vida doméstica;
 Uso dos recursos da comunidade (saúde, segurança, lazer);
 Cuidados pessoais; competências sociais;
 Competências académicas funcionais (leitura, escrita e aritmética) e capacidade de
trabalho.
Segundo Kirk e Gallangher (1991), as crianças e jovens com Incapacidade
Intelectual apresentam várias dificuldades que estão inerentes à própria deficiência:
 Dificuldades percetivas, apresentando défices ao nível da atenção, dificuldades em
generalizar e abstrair;
 Défices de representação;
 Défices de memória a longo e a curto prazo;
 Défices na transferência de regras;
 Atraso no desenvolvimento motor;
 Défice geral no desenvolvimento da linguagem interpretativa;
 Problemas especiais nas características pessoais e sociais.
Na opinião de Brown (1991), a Incapacidade Intelectual poder-se-ia definir como
a dificuldade em aprender, na medida em que os indivíduos com Incapacidade Intelectual:
 Aprendem um menor número de competências;
 Precisam de uma maior quantidade de tentativas e de mais tempo para realizar
uma aprendizagem;
 Esquecem mais depressa e têm maiores dificuldades no processo de recuperação;
 Têm maiores dificuldades em generalizar e transferir conhecimentos;
 Têm maiores dificuldades em atividades complexas;
 Têm maiores dificuldades de síntese.
Portanto, é necessário manter um ambiente, estável e equilibrado, de modo a que estas
pessoas possam atingir todo o seu potencial.

CARACTERÍSTICAS ESPECÍFICAS DOS INDIVÍDUOS


COM INCAPACIDADE INTELECTUAL E IMPLICAÇÕES
EDUCATIVAS
Segundo Quiroga (citado por Bautista, 1997), existem diferentes dimensões e
características específicas do Incapacidade Intelectual, as quais se apresentam descritas
seguidamente:

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FÍSICAS PESSOAIS SOCIAIS

 Falta de equilíbrio;  Ansiedade;  Atraso evolutivo em


 Dificuldades de  Falta de autocontrolo; situações de jogo;
locomoção;  Tendência para evitar  Atraso evolutivo em
 Dificuldades de situações de fracasso mais do situações de lazer;
coordenação; que procurar êxito;  Atraso evolutivo em
 Dificuldades de  Possível existência de situações atividade
manipulação. perturbações na sexual.
personalidade;
 Fraco controlo interior.

A evolução de um indivíduo com Incapacidade Intelectual processa-se segundo as


mesmas etapas consideradas normais no desenvolvimento e evolução de qualquer outra
pessoa, contudo a criança com incapacidade intelectual tem dificuldade em estruturar as
suas experiências.
A aquisição de capacidades percetivo-motoras não terá a mesma significação que
tem para a maioria dos indivíduos da sociedade a que pertencem. Garcia (2002) sustenta
que a aprendizagem académica dos alunos que apresentam incapacidade intelectual se
processa de forma mais lenta, uma vez que a sua metacognição e a sua auto-regulação
cognitiva são construídas de forma diferente, incluindo, a maioria das vezes, dificuldades
na criação de estratégias que possibilitem a assimilação dos conceitos e conhecimentos
mais complexos.
É também difícil comunicar com estas crianças porque, por um lado, temos de
entrar no seu mundo de objetos e representações e, por outro, no mundo das pessoas ditas
normais existe um campo de experiências que estão fora do alcance destas crianças.
Segundo Bautista (1997), esta dificuldade para estabelecer comunicação faz com que o
tipo de educação que lhes é dada seja baseada numa série de estratégias que permitam
educar a perceção, motricidade e linguagem e que consistirão no treino da capacidade
para efetuar as diferenciações e as estruturações necessárias para que as aprendizagens
escolares possam revestir-se de significado para a criança e possam chegar a ser objetos,
ou seja, possam fazer parte não apenas do seu meio ambiente mas também do seu próprio
meio. As características gerais da pessoa com incapacidade intelectual referem-se ao nível
da: atenção e concentração, que geralmente têm dificuldade em prestar atenção a
estímulos, bem como de o fazer por um período prolongado de tempo. Distraem-se com
facilidade e prestam mais facilmente atenção a coisas ou situações concretas, simples e
com as quais tem mais familiaridade. Tem dificuldade em selecionar dados, em focalizar
a atenção neles e em fixar na memória o que foi percebido, o que acarreta dificuldades em
perceber e em categorizar os estímulos do meio. Tem, portanto, dificuldade em tarefas
que impliquem a capacidade de discriminar correta e adequadamente as informações. No
que se refere à memória (Quiroga, 1997), possuem dificuldade em registar e reutilizar a
informação, tendendo a se esquecer das informações com muita facilidade. Ainda
segundo o mesmo autor, apresentam também problemas ao nível da generalização e
conceitualização, revelando dificuldade em reconhecer semelhança em duas situações
similares, em generalizar condições e regras para utilizar em situações parecidas quer em
termos de conhecimentos académicos, quer em termos de relacionamentos sociais. Além
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MARINA CANDEIAS INCAPACIDADE INTELECTUAL

disso, geralmente não consegue utilizar a informação apreendida para a resolução de


problemas. A pessoa com incapacidade intelectual revela ainda estereotipia de respostas,
apresenta, frequentemente, uma tendência para responder de forma estereotipada às
diferentes situações que lhe são colocadas. Ela tende a utilizar um tipo de resposta
baseado em processos automáticos, em vez de apresentar comportamentos adaptativos.
No que se refere ao desenvolvimento cognitivo, o indivíduo com incapacidade intelectual
revela o que aparenta ser uma “fixação em certos estádios de desenvolvimento”,
parecendo que, atingidos certos patamares, torna-se improvável o seu progresso para
estádios mais desenvolvidos. A passagem de um estádio de desenvolvimento para outro
costuma ser mais tardia do que o esperado para a mesma idade e grupo social. Morato &
Santos (2002), referem que ao nível do desenvolvimento psicomotor, apresenta
perturbações no equilíbrio, problemas na direccionalidade e na lateralidade, tem a
agilidade diminuída, dificuldade na manipulação de objetos, dificuldade de coordenação,
além de dificuldade em organizar movimentos voluntários. No que diz respeito aos
fatores emocionais, os mesmos autores consideram que os indivíduos com incapacidade
intelectual possuem, com muita frequência, uma baixa autoestima, pouca tolerância à
frustração, ao insucesso, à fadiga e ao enfrentamento de dificuldades em geral. Desistem
facilmente das tarefas, atividades e situações nas quais estão envolvidos, demonstrando
pouca persistência em geral. Ao nível da comunicação, também Morato & Santos (2002)
apontam dificuldades, as quais vão desde a articulação das palavras até à pouca
funcionalidade do vocabulário. Apresentam um código linguístico pouco estruturado e
com um vocabulário bastante restrito. Têm também dificuldades e/ou desvios na
linguagem recetiva, integrativa e expressiva. Por último, no que se refere à socialização,
devido às características acima apresentadas, há uma tendência para se isolarem e para
serem isolados do seu grupo.

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