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Percursos em Vieira

Luísa Lopes

Padre António Vieira


18 de Julho de 1667. Morreu um dos maiores vultos da cultura do século XVII.

Oriundo de uma família modesta, António Vieira nasceu em Lisboa. A sua avó era mestiça e
serviçal na casa dos Condes de Unhão. Talvez esse facto o tenha feito despertar para os problemas de
racismo que defendeu ao longo da vida. O destino levou-o para o Brasil aos seis anos de idade quando seu
pai foi exercer a função de secretário da Governação.

Aos dezoito anos tornou-se jesuíta e foi ordenado sacerdote aos 27. Durante esses anos foi
educado nas escolas da Companhia de Jesus e seguindo os seus ideais. Segundo se conta, terá fugido aos
15 anos de casa de seus pais, para ingressar na Companhia. Revelou-se de tal forma prodigioso que, três
anos após o noviciado, era ele o encarregado de redigir o relatório anual dos trabalhos provinciais da
Companhia, ou Cartas Ânuas, regia uma cadeira de Retórica no Colégio de Olinda e dava já catequese aos
índios.

A sua ordenação tão tardia não é de estranhar. O itinerário dos Jesuítas, desde a sua entrada na
ordem até à sua ordenação, poderia ocupar um período de tempo de dez anos. Começava-se com dois
anos de noviciado, durante os quais se desenvolvia a experiência espiritual do postulante, a provação do
desejo, o conhecimento de si mesmo e do espírito da companhia.

O noviço era guiado pelos EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS, um livrinho escrito por Santo Inácio de
Loiola, que pretendia aliar a prática da oração, à procura do discernimento e da meditação, tendo como
objectivo fortalecer o estudante no espírito inaciano e pô-lo de acordo com as práticas da ordem.
No fim do noviciado o jesuíta pronunciava os seus primeiros votos: pobreza, castidade e
obediência ao seu Superior. Oito anos depois devia reafirmar os seus votos e jurar ainda obediência ao
Papa.

Durante todo esse percurso, o jesuíta estudava filosofia, fazia um estágio de vida activa num
colégio da ordem, estudava quatro anos de teologia. Esta formação prolongada pretendia criar membros
sólidos e homogéneos, o que na opinião de alguns historiadores, servia apenas para destruir a
personalidade individual de cada membro.

Os Jesuítas eram formados segundo regras próprias. A primeira delas referia que: “A companhia
não é formada para um determinado lugar, mas para ser espalhada pelo mundo, por várias regiões e
países”. Esta presença em todos os continentes foi uma das razões do sucesso da ordem. Assim, na
América do Sul, contrariamente ao que fizeram outros missionários, os jesuítas dedicavam-se a proteger
os povos que convertiam.

A primeira carta Ânua, enviada por Vieira, de que temos conhecimento, foi escrita em 1626 e é
um maravilhoso documento sobre a violenta entrada que os Holandeses fizeram na cidade da Baía.

Vieira faz de início a descrição do que se passa no Colégio da Baía, dizendo que “é necessário
relatar brevemente como foi tomada e recuperada a cidade, e dizer também a certeza do que se passou
na realidade, para que a verdade tenha lugar e não se creiam algumas falsidades que do caso se contem ”.

Começa então por descrever a situação geográfica da cidade da Baía e os prenúncios e avisos da
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desgraça que iria suceder. Na realidade, “ alguns dias antes da chegada dos inimigos, estando no coro em
oração dois dos nossos padres, viu um deles a Cristo Nosso Senhor, com uma espada desembainhada
contra a cidade da Baía, como quem a ameaçava”.

“Ao outro dia, apareceu o mesmo Senhor com três lanças, com que parecia atirava para o corpo
da igreja. Bem entenderam os que isto viram que prognosticava algum castigo grande”.

E, de facto, assim aconteceria. Vieira descreve os acontecimentos com imenso realismo e


visualismo.

“Com a luz do dia seguinte, apareceu a armada inimiga, que repartida em esquadras, vinha
entrando. Tocavam-se em todas as naus trombetas bastardas a som de guerra, que com o vermelho dos
paveses, vinham ao longe publicando sangue. Divisavam-se as bandeiras holandesas, flâmulas e
estandartes que, ondeando das antenas e mastaréus mais altos, desciam até varrer o mar com tanta
majestade e graça que, a quem se não temera, podiam fazer uma alegre e formosa vista”.

Como Vieira diz, os holandeses vinham “publicando sangue” e assim aconteceu:

“Foi tal a tempestade de fogo e ferro, tal o estrondo e confusão, que a muitos, principalmente aos
pouco experimentados, causou perturbação e espanto, porque por uma parte os muitos relâmpagos
fuzilando feriam os olhos, e com a nuvem espessa do fumo não havia quem se visse; por outro, o contínuo
trovão da artilharia tolhia o uso das línguas e orelhas, e tudo junto, de mistura com as trombetas e mais
instrumentos bélicos, era terror a muitos e confusão a todos.”

No meio de toda a confusão as reacções são diversas e há mesmo actos de cobardia de alguns
que “esquecidos daquele nome português que ainda em nossos tempos fez tremer e fugir exércitos
inteiros”, não se atrevendo a resistir, voltaram para a cidade.

O pânico instala-se. “Era já nesse tempo alta noite, quando, de improviso, se ouviu por toda a
cidade (sem se saber donde teve princípio), uma voz:

Já entraram os inimigos, já entram, os inimigos já entram;

e como no meio deste sobressalto viessem outros dizendo que já vinham por tal e tal porta, (...)
como o medo é muito, verificou-se esta temeridade; e assim, pelejando a noite pela parte contrária,
ninguém se conhecia, fugiam uns dos outros, e quantos cada um via tantos holandeses se lhes
representavam”(...)

“Não se ouviam por entre os matos senão ais sentidos e lastimosos das mulheres que iam
fugindo; as crianças choravam pelas mães, elas pelos maridos, e todas e todos, segundo a fortuna de cada
um, lamentavam sua sorte miserável”.

Os Holandeses entram na cidade e conseguem a supremacia das armas. “Saqueadas já e


destruídas as casas, vão-se aos templos os sacrílegos, e aqui fazem o principal estrago. Arremetem com
furor diabólico às sagradas imagens dos santos e do mesmo Deus. A esta tiram a cabeça, àquela cortam
os pés e as mãos, umas enchem de cutiladas, a outras lançam no fogo. Desarvoram e quebram as cruzes,
profanam altares, vestiduras e vasos sagrados...”

Enfim, a completa descrição da destruição em que fica a cidade e do medo que se instala.

Depois da descrição do estado da cidade da Baía, Vieira fala do Colégio do Rio de Janeiro e em
seguida da Missão dos Patos. Esta missão era composta por índios muito duros e pouco tratáveis. No
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entanto passou-se aí um caso curioso:

“um índio, muito afamado e o principal nos assaltos que todos os destas partes costumavam dar
aos Guaianás, contrários seus, (...) quando menos se esperava, pediu posto de joelhos o Santo Baptismo e ,
no tempo que o havia de receber, abominou publicamente todas as suas valentias passadas, prometendo
de nunca mais tornar a elas, do que se espantaram muito os outros, porque não podem jamais acabar
consigo de fazer o mesmo” .

Muitos receberam o baptismo, repudiaram todas as mulheres que possuíam e receberam a


primeira segundo o uso da Santa Igreja Católica Romana.

Em seguida Vieira fala da Capitania do Espírito Santo e da Missão dos Mares Verdes ou dos Índios
Paranaubis, uma comunidade “belicosa, valente, bem disposta, bem assombrada e de bom
entendimento.”

O último assunto tratado é o do Colégio de Pernambuco. Neste texto refere Vieira que “o bem
dos índios da terra é o principal fim da Companhia e nesta província se procurava mui deveras ajudá-los
no corporal e no espiritual, que de ambos estes meios são igualmente necessitados”.

Depois relata um episódio fantástico.

De Pernambuco saiu uma nau para ajudar a população da cidade da Baía, e nela sucedeu um caso
milagroso.

“O padre pôs na câmara da popa uma relíquia do santo padre José Anchieta; e sendo assim que
todos os pelouros, que deram nas outras partes da nau, passaram fazendo muito dano e matando alguns,
quantos deram no lugar, onde estava a santa relíquia, resvalaram para fora, sem prejuízo da nau naquela
parte, e das vidas dos que na mesma estavam, antes dando um de mosquete, no peito desarmado de um
soldado, lhe caiu aos pés. Tudo se atribui, com muita razão, aos merecimentos do santo padre José de
Anchieta. Sua canonização se espera e deseja com grande alvoroço de toda esta província, assim dos da
casa como dos de fora, e não duvidamos de haver de ser um grande meio para uns se emendarem e outros
se melhorarem”.

Em 1635, então com 27 anos, Vieira inicia a sua carreira de pregador. Um dos seus mais célebres
sermões , foi o de Acção de Graças pela vitória que os colonos portugueses obtiveram, denominado
CONTRA AS ARMAS DA HOLANDA, e proferido em1640. Ensinava então Teologia no Colégio da Baía.

Aos 33 anos regressou a Portugal e aqui viveu durante cinco anos. A primeira vez que Vieira vem
a Lisboa é já célebre e tem como missão saudar o novo rei, D. João IV, em nome do governo da colónia,
após a Restauração. Rapidamente conquista a confiança do rei.

D. João IV nomeou-o pregador da corte, confessor e confidente, além de embaixador em


deslocações a vários países europeus. Foi ele o principal conselheiro e inspirador da política de protecção
aos cristãos-novos como forma de obter recursos para sustentar a guerra da independência.

Procurou introduzir no nosso país a política económica holandesa das companhias coloniais
monopolistas, sendo neste aspecto um precursor do Marquês de Pombal. Aos seus esforços se deve em
grande parte a constituição da Companhia Geral do Comércio do Brasil, em 1649.

Vieira foi encarregue de várias missões relacionadas com o financiamento, o armamento e a


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diplomacia da guerra da Restauração, junto de Mazarini, do governo holandês e dos judeus emigrados na
Holanda e ainda em Roma. Esteve na Europa entre 1641 e 1652.

O fracasso de certas missões diplomáticas que pessoalmente desempenhou no estrangeiro e


outras razões fizeram-no regressar ao Brasil e dedicar-se, à evangelização dos ameríndios no interior do
sertão. No entanto, levou consigo um decreto-real para a libertação dos índios, o que provocou violentas
reacções nos colonos e reacções adversas após a morte de D. João IV.

As relações de Vieira, com o rei D. João IV eram de alguma cumplicidade e concordância,


especialmente no que dizia respeito ao desempenho dos jesuítas no Brasil e à forma como deveriam ser
tratados os índios.

As cartas enviadas por Vieira ao Rei, depois da sua chegada ao Maranhão, informavam-no de
tudo o que aí se passava.

A 20 de Maio de 1653 Vieira envia uma carta em que descreve os gentios, a situação em que
estes vivem, e o tratamento que os portugueses lhes dão:

“Os moradores deste novo mundo, que assim se pode chamar, ou são portugueses ou índios
naturais da terra. Os índios, uns são gentios que vivem nos sertões, infinitos no número e diversidade de
línguas; outros são pela maior parte cristãos, que vivem entre os portugueses.

Destes que vivem entre os portugueses, uns são livres, que estão em aldeias; outros são parte
livres, parte cativos, que moram com os mesmos portugueses, e os servem em suas casas e lavouras, e
sem os quais eles de nenhuma maneira se podem sustentar.

Os portugueses vivem (...) em necessidade espiritual pouco menos que extrema, com grande falta
de doutrina e de sacramentos... a principal causa disto é a falta de curas e de párocos. (...) Acrescenta-se a
esta grande falta de sacerdotes serem, pela maior parte, os que há, homens de poucas letras e menos zelo
das almas; porque ou vieram para cá degradados, ou, por não terem préstimo com que ganhar a vida em
outra parte, a vieram buscar a estas.

Os índios que vivem em casa dos portugueses têm demais os cativeiros injustos (...) que é
porventura a principal causa de todos os castigos que se experimentam em todas as nossas conquistas.

As causas deste dano se reduzem todas à cobiça, principalmente dos maiores, os quais mandam
fazer entradas pelos sertões e guerras injustas sem autoridade nem justificação alguma. (...) Os mais deles
são livres e, tomados pela força ou por engano se servem deles como verdadeiros cativos.

Mandam-nos servir violentamente a pessoas e em serviços a que não vão senão forçados (...)
tiram as mulheres casadas das aldeias e põem-nas a servir em casas particulares.

As causas deste dano bem se vê que não são outras mais que a cobiça”.

A 4 de Abril de 1654 Vieira conta ao Rei a exploração que se faz do índio, revoltando-se com esta
situação:

“Contra os índios do Pará se cometem grandes pecados principalmente no trabalho do tabaco. O


trabalho é excessivo e todos os anos morrem muitos por ser venenosíssimo o vapor do tabaco: o rigor com
que são tratados é mais que de escravos; os nomes que lhes chamam feíissimos; o comer é quase nenhum
(...)
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Estes índios não podem ser doutrinados, vivem sem conhecimento da fé. (...) E assim morrem e se
vão ao inferno.”

A tudo isto o Rei responde : “Sabe Deus que com muito zelo de Seu serviço desejo que se guarde
justiça a essa pobre gente, para o que vos encomendo muito me advirtais de tudo o que vos parecer
necessário, porque fazeis nisso muito serviço a Deus e a mim.” (carta de 6 de Abril de 1654).

A resposta de Vieira é o envio de soluções “para que se mude e melhore a forma como até agora
foram governados os índios”. E em 19 pontos descreve os Direitos dos Indios e conclui com ironia:

“Este senhor é o meu parecer (...) só parece que faltava dizer aqui que religiosos ou que religião
há-de ser a que tenha a seu cargo os índios na forma sobredita. Mas, neste particular não tenho eu, nem
posso ter voto, porque sou padre da Companhia. Só digo que é necessário que seja uma religião de mui
qualificada e segura virtude, de grande desinteresse, de grande zelo da salvação das almas, e letras mui
bem fundamentadas”

Vieira dirigia o Maranhão, que era então um estado independente e separado do Brasil. Neste
imenso território, onde vivia um punhado de portugueses pobres e onde não existiam engenhos de
açúcar, nem escravatura negra, o principal obstáculo às missões era a caça ao índio, utilizado como
escravo nas plantações de algodão e de tabaco.

Os Jesuítas tinham o seu sistema próprio de organização dos indígenas dentro de aldeias
comunitárias, cujos habitantes eram teoricamente livres e usufruidores do produto do seu trabalho.

Esta política, relativamente ao indígena, que a Companhia pusera em prática em grande escala
no Paraguai, lançou Vieira em luta com os colonos brasileiros que procuravam recrutar entre os índios
mão-de-obra escrava.

Os Jesuítas pretendiam integrar os Ameríndios no seu sistema de influência, por isso tomaram a
sua defesa. Vieira acabou por propôr aos colonos que substituissem a mão-de-obra escrava índia pela
africana, importada de Angola, à semelhança do que se passava no resto do Brasil, de forma a que a
quase totalidade dos índios ficasse reservada à Companhia.

Os colonos, porém, opunham-se e apoiados por outros religiosos do Maranhão, entre eles os
Dominicanos, lutam pela expulsão de Vieira e dos outros Jesuítas, em 1661.
São desta época os sermões MENTIRAS DO MARANHÃO e o de STO ANTÓNIO AOS PEIXES.

Vieira voltou a Portugal para defender junto da corte a política colonizadora da Companhia,
numa época em que esta era também hostilizada por uma facção da corte chefiada pelo conde de Castelo
Melhor.

Este é o momento em que profere o SERMÃO DA SEXAGÉSIMA, no qual ataca o estilo de pregar
dos Dominicanos. Neste admirável sermão, Vieira expõe ainda a sua concepção de oratória sagrada.
Criticando autores seus contemporâneos, defensores do cultismo, Vieira defende uma linguagem sóbria e
o respeito pelos textos das escrituras.

Entre 1662 e 1665 a Inquisição estabelece-lhe um processo que o obriga a permanecer no


cárcere, primeiro no Porto e depois em Coimbra, a pretexto das opiniões heréticas expostas no seu livro
ESPERANÇAS DE PORTUGAL, QUINTO IMPÉRIO DO MUNDO, PRIMEIRA E SEGUNDA VIDAS DE EL-REI
D.JOÃO IV, apresentado sob a forma de carta ao bispo do Japão, Padre André Fernandes, que foi sempre
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confidente de Vieira.

Nesta obra o autor era acusado de interpretar as Trovas do Bandarra, sapateiro de Trancoso, e
alguns textos bíblicos, como profecias da ressurreição de D. João IV e do Império Universal jesuíta-
português.

A sentença do Tribunal da Inquisição só lhe foi comunicada em 1667 e determinava que Vieira
fosse privado de voz activa e passiva, proibia-o perpetuamente de pregar e mandava-o ficar recluso à
guarda dos jesuítas.

Para Vieira as sentenças são indiferentes. Ele irá para onde o mandarem, fará o que lhe
mandarem, pois “em toda a parte há terra para o corpo e Deus para a alma, e lá nos acharemos todos
diante daquele tribunal, onde só testemunha a verdade, sentenceia a justiça e nunca é condenada a
inocência”.

Vieira sentiu-se injustiçado em todo este processo da Inquisição pois segundo ele não havia no
processo “nem palavra, nem letra, nem sílaba que não seja clara e manifesta mentira; mas estavam tão
dispostos os ânimos dos afeiçoados, que assim foram recebidos neles, como se fossem verdades dos
Evangelhos”.

Para ele “não está o mal nas palavras, senão na interpretação que lhes querem dar; e, como
dizem que foram de mão em mão, bem pode ser que chegassem tão diferentes, que totalmente não
fossem” as suas palavras.

Vieira só conseguiu a liberdade graças aos favores do regente D. Pedro II e seguiu para Roma em
1669, para onde foi com o pretexto de obter a canonização de alguns mártires jesuítas e onde se dedicou
a conduzir uma tremenda ofensiva contra a Inquisição, tendo a sua acção contribuído para fazer
desacreditar em Roma e em toda a Europa, o Santo Ofício.

Permaneceu em Roma até 1675. No entanto não conseguiu obter para os cristãos-novos a
protecção e os favores que estes pretendiam em troca do financiamento de uma Companhia de Comércio
para a Ìndia.

Em 1672 fez publicar anonimamente em Lisboa um folheto que obteve enorme polémica,
chamado DESENGANO CATÓLICO SOBRE A CAUSA DA GENTE DA NAÇÃO HEBREIA e colaborou nas
célebres NOTÍCIAS RECÔNDITAS DO MODO DE PROCEDER DA INQUISIÇÃO, em que se desvendam os
meandros do Tribunal. Este texto foi divulgado pela Europa em várias traduções, factor que contribuiu em
muito para desacreditar a Inquisição e o Santo Ofício.

Em 1681 Vieira regressa ao Brasil , invocando razões de saúde, e instala-se na Quinta do Tanque,
na Baía.

O aspecto mais importante de toda a sua vida foram de facto as missões. Vieira fazia expedições
de milhares de quilómetros pelo Sertão, de canoa ou a pé, remontando a bacia hidrográfica do Amazona e
seus afluentes, como preconizavam as regras da Companhia.

Redigiu um catecismo na língua dos indígenas e correspondeu-se assiduamente com o geral dos
jesuítas, no intento de assegurar a expansão da sua missão.

Em carta datada de 14 de Maio de 1654, dirigida ao Geral da Companhia de Jesus, Vieira


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apresenta algumas propostas de actuação. Fala da forma como os padres se devem comportar e como
devem viver e do catecismo a dar aos índios.

Na sua opinião, “Por ser o catecismo da língua da terra muito largo, nos pareceu se devia reduzir
a menos perguntas, porquanto os índios desta terra não estão ainda capazes de tanto, nem nós podemos
ter com eles a assistência que se requer para tão dilatado modo de doutrina... propus aos padres que
todos ensinássemos por um só catecismo, por evitar a confusão nos índios” .

A sua preocupação foi sempre a de dar aos índios os instrumentos de fé que lhes permitissem
defender-se das actuações dos colonos que ele tanto criticava.

Aos 80 anos assumiu o cargo de Visitador-Geral das Missões e interveio na questão dos negros
fugitivos dos Palamares. Defendeu uma vez mais a liberdade dos índios.

Em 1695, um cometa visível na Baía inspira-lhe uma meditação que intitulou VOZ DE DEUS AO
MUNDO, A PORTUGAL E À BAÍA, e que foi a sua última presença pública de profeta. No entanto, na sua
correspondência não há qualquer referência a ele.

Já em 1664 Vieira fora sensível à passagem de um cometa, na altura em que estava em Coimbra.
A ele se refere de forma gradual ao longo da sua correspondência, associando sempre o cometa a
predestinações e profecias para o nosso país e para o mundo inteiro.

A primeira referência surge numa carta dirigida a D. Rodrigo de Meneses, datada de 2 de Junho
em que Vieira refere:
“Cá me mandaram um cometa, com duas meias-luas no meio, que dizem apareceu em Alemanha
a 12 de Janeiro. Sirva-se Vossa Senhoria de me dizer se é cousa certa...”

Porém, até Dezembro desse ano, não há nenhuma outra referência ao cometa. Só no dia 22
desse mês, em carta ao mesmo destinatário se pode ler:

“ Em grande suspensão tem posto a todos este portentoso cometa, que na grandeza tenho por
não inferior ao de 1618, (...)os livros não prognosticam cousas de gosto (...) e o cometa verdadeiramente é
funesto e funeral.

(...) Há dias que este portento nos tardava (...) porque, parecia cousa alheia da ordinária
providência de Deus, nos casos em que houve mudanças notáveis no mundo com os prenúncios delas,
para que ninguém o possa negar por autor de todas.

Sinto não ver nos ânimos desta banda mais comoção que a da curiosidade, e lá pode ser que seja
o mesmo, como se Deus houvesse de acender no Céu ociosamente um corpo tão prodigioso, ou produzi-lo
de novo como outros querem, porque se averiguou que o de 1618 tinha trezentas e oitenta mil léguas de
comprimento, que é coisa que excede toda a admiração, mas ainda hão-de ser maiores as que este
anuncia”.

No dia 29 de Dezembro, uma semana depois, Vieira refere:

“Já disse a Vossa Senhoria quando em Coimbra se começou a observar o cometa, porque não há
quem o possa observar em toda esta Universidade, pagando el-rei uma cadeira de Matemática; e se Vossa
Senhoria me não mandara dizer o lugar do Céu onde sai, ainda cá o não souberamos.”

E depois destas considerações passa à descrição do fenómeno:


“A figura em toda a parte é a mesma, mas a cor não o parece; será pela diferença dos ares e dos
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vapores, até agora se nos representou sempre pálido e funesto. O cometa anuncia enfermidades. O certo é
que, segundo o que dizem os professores desta arte (...) sempre Deus costuma ameaçar trabalhos e
castigos com semelhantes sinais...

O cometa de 1577, a que se atribui a perda de D. Sebastião (...) saiu ou apareceu no mesmo dia
que este, e não falta quem ache grandes mistérios nesta correspondência, que verdadeiramente é
notável...

E como este cometa seja tão propriamente oriental e apareça no mesmo ponto do Oriente onde
nasce o Sol, e vá diante do mesmo Sol, e com curso tão apressado, parece, se há verdade no texto, que
não tardarão muitos seus efeitos, que é o que havemos mister, e o que promete a circunstância do tempo
e o concurso de todas as outras causas.”

De novo surge uma ausência de referências até 19 de Janeiro de 1665, momento em que refere:

“ O cometa se nos mostrou ainda quinta-feira muito diminuído de cauda; depois o encobriram as
cerrações e perpétuas chuvas, com que os dias vão tristíssimos.”

Mas Vieira mantem a obstinação da influência negativa da passagem do cometa, como prenúncio
de grandes desgraças. Em carta de 3 de Fevereiro, afirma:

“Por cá se fala em morte do Papa e de el-Rei Filipe, ambas por via de Castela, e por isso dignas de
menos crédito; se assim fosse, já o cometa, como diziam os antigos, se tinha expiado.

Os efeitos que tem causado nos elementos são violentíssimos: ainda um dia destes deu à costa
com um navio do Pará, de que escaparam alguns homens; e ainda são mais lastimosas as novas que dão
daquela gentilidade, onde a justiça de Deus sobre os Portugueses, e a justiça dos Portugueses sobre os
miseráveis índios, parece que competem”.

A 7 de Fevereiro, em carta a D. Teodósio de Melo, Vieira anuncia:


“O cometa parece que se tem despedido. Os efeitos naturais vão continuando com tempestades e
inundações. A guerra, se as prevenções são o que dizem, não é necessário que o cometa as prognostique”.

A 16 de Fevereiro, em carta ao Conde de Gouveia, afirma:

“O matemático amigo me promete o seu juízo do cometa para o correio seguinte: veremos se
vem da paz ou de guerra.”

Uma semana mais tarde, em carta ao mesmo destinatário, Vieira escreve:

“O prognóstico prometido do Porto não veio ainda, e me dizem se está acrescentando, com
resposta a outros dois que ali chegaram de Castela, em que os matemáticos daquela parte resolvem que o
cometa presente é em tudo semelhante ao de el-rei D. Sebastião; e que, assim como aquele prognosticou
a sujeição de Portugal a Filipe II, assim este a Filipe IV”.

E mais adiante refere:

“Mas tornando ao cometa, posto que os marinheiros do naufrágio disseram que o começaram a
ver no mar do Maranhão aos 12 de Novembro, como avisei, ontem falei com um frade mercenário do
mesmo naufrágio, que me disse havia dias que em terra o tinham visto, e que era mui vermelho e
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abrasado, e que logo dissera lá um religioso nosso, alemão, bom matemático, que era universal.”

Também a 23 de Fevereiro, mas em carta a D. Rodrigo de Meneses, Vieira escreve:

“ o nosso cometa se viu menos há de quinze dias, e ontem falei com outro religioso matemático,
dos que escaparam do naufrágio do navio do Maranhão, que me disse fora visto não só no mar aos 12 de
Novembro, mas muitos dias antes em terra, e que era lá mui vermelho e afogueado ao princípio, e que
logo dissera um padre alemão que anda naquela missão, bom matemático, que era universal. Se
aparecerem cartas dos padres, de que tenho algumas esperanças, elas dirão com alguma miudeza o que
lá se viu”.

O cometa torna-se uma constante na sua correspondência. Em carta datada de 9 de Março,


dirigida ao Marquês de Gouveia, refere:

“Cá imos padecendo os efeitos do cometa, ainda com maior rigor do que em Lisboa se
experimentam; e deve ele de ter seu pouco de Marte... Chegou o prognóstico de João Nunes da Cunha
(...) promete doenças a toda a Espanha, vitórias a Portugal, ruínas a Veneza e Constantinopla, e a
el-rei, que Deus guarde, felicidades grandes...”

A 16 de Março, a Rodrigo de Meneses afirma:

“quem acende os cometas é aquele Deus, a quem os santos não rogam, quando quer o que quer
ou permite o que não quisera”

e a 26 do mesmo mês, em carta a D. Teodósio de Melo refere:

“ Ainda não li as cartas de Lisboa, mas todas falam em felicidades e esperam triunfos, que é o
maior sinal de fatalidades. Se os cometas, como tem provado a experiência de todos, anunciam ruínas de
reinos, nem um reino há hoje na Europa que tenha disposições para uma grande ruína senão Portugal.”

A 13 de Abril, ao Marquês de Gouveia, escreve:

“O cometa, depois que se desncontrou da lua, dizem que tem mostrado muito maior grandeza:
alguns o têm por diverso; mas o mais certo é ser o mesmo, e que desapareceu os dias passados por fazer
o curso de dia neste nosso hemisfério. De qualquer sorte que seja, a duração ou repetição é fatal, e não se
viu outra semelhante sem mui notáveis efeitos.”

Esta grandiosidade do cometa assusta e dá-se início a uma onda de prodígios narrados a 4 de
Maio em carta a D. Rodrigo de Meneses.

Conta Vieira que : “grandes prodígios se referem de perto e de longe.


De Melgaço vi carta de um notável meteoro que, correndo da parte de Valença do Minho, e
durando por muito espaço, se desfez sobre Galiza em raios e coriscos: era de figura de uma espada de cor
verde e amarela, que saía de duas nuvens, uma branca e outra vermelha, e com a mesma figura que foi
visto em outras partes.

No colégio dos Tomaristas desta cidade, se viu depois de meia-noite um globo de fogo, que nascia
na parte de sueste, e subia por espaço de duas ou três horas até se desfazer, e continuou algumas noites.

Em Guimarães vomitou um homem enfermo um dragão com duas asas, de comprimento quase
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de um côvado; da cabeça até o meio, largo de dois dedos, vermelho e escuro; do meio para a cauda mais
delgado e de cor parda.

De Roma se escreve houve três dias de névoas tão espessas e escuras, que se não viam os homens
nem os edifícios, e que as trevas eram palpáveis como as do Egipto. Tudo são sinais e prodígios que
solenizam as vésperas do ano fatal, cujas maravilhas nenhum há já tão incrédulo que não espere”.

Na mesma data Vieira descreve os prodígios ao marquês de Gouveia, com algumas variantes:

“Saem por estas bandas novos prodígios.

Em Guimarães vomitou um doente um dragão de quase um côvado de comprido, com duas asas,
e grossura até o meio de dois dedos, e cor vermelha-escura; de ali para a cauda menos grosso e de cor
parda. Disse-me Sanfins que o vira pintado, e com certidão de médico jurada ao pé.

Outra carta vi, de pessoa digna de fé, escrita de Melgaço em que diz aparecerem naquelas partes
muitos sinais horrendos, de dia e de noite, que não especifica; só refere que no dia 16 de Abril, ao sair do
sol, aparecera um raio de cor verde e amarela, o qual se remata em duas nuvens pequenas, uma muito
branca e outra muito vermelha; e correndo por grande espaço para a parte interior de Galiza,
ultimamente se desfizera sobre ela em raios e coriscos de fogo.

Aqui em Coimbra se viu também por algumas vezes um globo de fogo para a parte de sueste, que
nascia à meia-noite e se ia levantando devagar, e durava por espaço de duas ou três horas;

mas, se o que se escreve de Roma é verdade, eu o tenho por maior prodígio de todos. (...) refere-
se que houve três dias uma névoa tão espessa e tão escura que se não viam os homens nem os edifícios, e
que as trevas eram palpáveis como as do Egipto.

Outra carta diz que o cometa se teme lá muito, e que demonstra muito maior cauda, e que a
rainha da Suécia, com dois grandes matemáticos que tem, o observa sempre, mas não se fala no juízo.”

A 6 de Maio, em carta a João Nunes da Cunha, refere apenas:

“os prodígios continuam, e não são menores os de Roma, de onde se escreve houve três dias de
trevas palpáveis como as do Egipto, com que o Céu e a Terra parece começam a solenizar as vésperas e
expectação do ano de 1666.

Também a 8 de Maio, em carta a D. Teodósio de Melo afirma:


“Os prodígios continuam, e não é menor haver suado sangue uma imagem de Nossa Senhora
junto a Torres Novas.”

Faz-se de novo silêncio sobre os fenómenos e só em Julho, em carta datada de 3 e dirigida a D.


Teodósio de Melo, Vieira refere:

“Do Brasil me veio um famoso papel sobre os dois cometas (...) feito de propósito debaixo de
metáforas e de enigmas de nomes gregos, os quais eu tenho bastantemente decifrado, e reservo esta
fábula, que não tenho por fabulosa, para quando eu esteja em estado de poder passar duas horas entre as
canas ou debaixo das oliveiras. Por maior digo que os cometas parece que anunciam mudanças dos
tempos e das cousas, e todas para bem de todos nós”.
Percursos em Vieira
Luísa Lopes

A partir deste momento não há mais referências ao fenómeno, não se fala mais em cometas.
Mantêm-se apenas opiniões proféticas sobre os destinos.

Vieira foi uma figura universal impar.

Missionário, defensor dos desprotegidos, crítico dos poderosos e patriota, Vieira é considerado
um dos maiores vultos da oratória sacra de todos os tempos.

Camilo Castelo Branco considerou, no seu CURSO DE LITERATURA PORTUGUESA, em 1876, que
os Sermões de Vieira são “uns riquíssimos minérios do mais fino ouro pelo que respeita à linguagem”

Vitorino Nemésio afirma que para Vieira um sermão “é um acto verbal que se concebe e executa
dispondo os argumentos e calculando os efeitos como quem prepara um combate. Se a sua visão do
mundo desenha um universo de correspondências a partir de profecias e factos exemplares - altos ou
ínfimos- da história fundida com a lenda, o seu estilo tinha de ser um sistema gesticulado e gráfico de
equiparações e equivalências. ”

No entanto, a própria ideia de sermão é explicada pelo orador, no Sermão da Sexagésima,


através da alegoria da árvore. Ouçamo-lo:

“Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão-
de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isso com os olhos? Ora
vede: Uma árvore tem raízes, tem troncos, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos.

Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundada no
Evangelho; Há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria. Deste tronco
hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados
nela.

Estes ramos não hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser
vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios, há-de ter
flores, que são as sentenças; e por remate de tudo isto há-de ter frutos, que é o fruto o fim a que se há-de
ordenar o sermão. De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver
folhas, há-de haver ramos, mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria.

Se tudo são troncos não é um sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são
maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são verças. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se
tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem
árvore.

Assim que nesta árvore, a que podemos chamar árvore da vida, há-de haver o proveitoso do
fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos, mas tudo
isto nascido e formado de um só tronco, e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do
Evangelho: Seminare semen.
Eis aqui como hão-de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça
fruto com eles.”

O sermão era, para Vieira, um texto que se desenvolvia a partir do conceito predicável, ou seja,
um texto bíblico que se comenta de acordo com o tema e as teses que o orador se propõe desenvolver. A
Percursos em Vieira
Luísa Lopes

natureza é um grande livro escrito por Deus em que cada forma serve de sinal. Por isso nos fala dos
peixes, das árvores, etc.

A estrutura dos sermões é para ele vital. É uma estrutura que obedece ainda a uma formação
escolástica e medieval. O método alegórico é típico dos pregadores medievais que procuravam um
sentido oculto em cada citação da bíblia e mesmo no mundo real.

Foi assim que Vieira viu nas profecias do Bandarra o anúncio do Quinto Império do Mundo, o
Império Católico português, que havia de ser realizado por D. João IV. A morte deste monarca levou Vieira
a modificar as suas profecias e a aplicá-las de forma inteligente sucessivamente a D. Afonso VI e a
D.Pedro II, ...

Vieira compreendeu o papel desempenhado pela burguesia e pelo comércio colonial e percebeu
que eram ambos a base de toda a vida portuguesa da época. Admirava a organização económica da
Holanda, país que considerava, nesse tempo, o mais burguês e o mais progressivo . Por outro lado,
empenhou-se na defesa dos cristão-novos oprimidos e lutou pela liberdade dos índios escravizados.

No Sermão das Verdadeiras e Falsas Riquezas revela uma visão desinteressada dos direitos do
homem. Esta lucidez e este humanismo revelam-se do ponto de vista literário, através de uma
organização do discurso quase geométrica.

Como diz António Sérgio, “Nunca se escreveu em Portugal mais claro, mais próprio, mais
natural, de maior influência, de mais novo ritmo que o da obra oratória do Padre António Vieira”.

Segundo Margarida Vieira Mendes, António Vieira “testemunhou a vontade de fazer da sua obra
escrita, quer um conjunto de peças de intervenção no momento da publicação, quer uma obra literária
acabada e perfeita”.

O espólio de Vieira é composto por cerca de 200 sermões, mais de meio milhar de cartas e
numerosos relatórios, pareceres e outros documentos de carácter político, além de opúsculos religiosos
ou textos de defesa contra a Inquisição. É quase impossível dissociar o escritor e o homem de acção. Para
compreender toda a sua vida e todos os seus percursos, é indispensável uma análise detalhada de toda a
sua correspondência.

Os três volumes de cartas de António Vieira, dividem-se em percursos e nelas são visíveis as
ideias e mudanças de opinião do seu autor, juízos de valor sobre acontecimentos e circunstâncias,
descrições de estados de espírito e da doença que o minava e referências ao estado do tempo e aos
tempos que corriam.

Começa o 1º volume com a Carta Ânua da Província do Brasil, datada de 1626, a que se segue
toda a correspondência enviada de Paris, Haia e Roma, desde 1646 até 1650. Publicam-se ainda algumas
cartas dos tempos de missionação entre os anos 1551 e 1561.

O segundo volume contem algumas das mais importantes cartas de Vieira, ou seja, as cartas por
ele enviadas durante o seu desterro em Coimbra e o processo da Inquisição. A elas se seguem as cartas
enviadas de Roma entre os anos 1669 e 1671.

O terceiro volume contem cartas enviadas de Coimbra entre 1674 e 1675, e os anos finais
passados na Baía, que abrangem os anos 1682 a 1697.
Percursos em Vieira
Luísa Lopes

Os destinatários de toda esta correspondência são muito numerosos. Aqueles a quem envia
maior número de cartas são:
Duarte Ribeiro de Macedo (228)
Marquês de Gouveia (81)
Rodrigo de Meneses (77)
Marquês de Nisa (37)
Duque de Cadaval (32)
D. Teodósio de Melo (29)
Diogo Marchão Temudo (16)

Esporadicamente encontramos cartas dirigidas ao Rei D.João IV (9), Rei D. Afonso VI (5), Rainha
D. Luísa (1), Rainha D. Catarina de Inglaterra (2), Rainha D. Maria Sofia (1), e ao Rei D. Pedro II (1).

Como se pode verificar, Duarte Ribeiro de Macedo foi o seu grande destinatário, sendo as cartas
escritas à média de uma por semana. Era enfim o homem que melhor devia conhecer a vida e o percurso
de Vieira. Poeta e diplomata, Duarte Ribeiro de Macedo foi Ministro em França e em Madrid. Notabilizou-
se com várias obras sendo uma das mais importantes o JUÍZO HISTÓRICO E JURÍDICO SOBRE A PAZ
CELEBRADA ENTRE AS COROAS DE FRANÇA E DE CSATELA NO ANO DE 1660.

As cartas que Vieira lhe dirige estão cheias de comentários políticos e relatos de acontecimentos
da época, embora em muitas se note apenas uma fraterna correspondência cheia de desabafos.

A última carta de Vieira é datada de 10 de Julho, uma semana antes da sua morte. É dirigida a
Sebastião de Matos e Sousa. Nela Vieira afirma:

“Na frota passada dei conta de como, deixadas todas as moléstias, tinha ocupado a paciência no
sofrimento de diversas enfermidades; uma destas (por ocasião, dizem de duas sangrias, que me
receitaram em 90 anos de idade) em espaço de oito dias me tirou totalmente a vista, de sorte que
nenhuma letra, por grande que seja, nem as dos títulos dos livros posso ver, e juntamente, tendo já mui
debilitado o uso de ouvir, o perdi também, de modo que apenas posso entender o que outros me leêm.

Os que fazem jogo dos achaques alheios dizem que me veio este a bom tempo, para não ver o
que se vê nem ouvir o que se ouve; e eu me conformara facilmente com esta sentença se os misteriosos
desenganos da carta de Vossa Mercê me não chegaram mais à alma.

Eu nos meus trabalhos tenho aprendido outra lição, por uma parte mais forçosa e por outra mais
útil, que a da conformidade com a vontade de Deus, é remédio universal para tudo o que pode dar ou
tirar a fortuna”.

Vieira sempre foi um homem conformado na vontade de Deus e inconformado com a vontade
dos homens. Como ele próprio dizia já em 1663 “Eu, deste mundo, não quero nada, como nunca quis,
ainda no tempo em que estava menos desenganado e ofendido”. Mas, “todo o português que não
procura ser santo, não merece que Deus o guarde para as felicidades que tem prometido”.

Cego e quase surdo, no final da sua vida Vieira é um homem desiludido com os homens.

Na sua opinião o destino de Portugal baseou-se numa tremenda mentira. “O Brasil é o espelho
de Portugal: sem gente nem dinheiro, das searas dos vícios sem emenda, do infinito luxo sem cabedal”
(carta datada de 10/7/97 a Sebastião de Matos e Sousa).
E a mentira explica-se por uma notável alegoria, apresentada no Sermão da Quinta Dominga da
Quaresma:
Percursos em Vieira
Luísa Lopes

“Notável é o artifício com que a natureza formou os nossos ouvidos. Cada ouvido é um caracol, e
de matéria que tem a sua dureza. E como as palavras entram passadas pelo oco deste parafuso, não é
muito quando saem pela boca, saiam torcidas.

Eis como saem as palavras dos ouvidos à boca, torcidas e retorcidas: torcidos os nomes, torcidos
os verbos, torcidas as pessoas, torcidos os casos.

Então dizeis que dissestes o que ouvistes. Mais sucede nesta passagem dos ouvidos à boca. Como
os ouvidos são dois e a boca uma, sucede que, entrando pelos ouvidos duas verdades, sai pela boca uma
mentira.

Parece coisa de trejeito...

Quando quereis dizer que fulano é grande mentiroso, dizeis que é uma quimera... quimera é um
animal fingido, composto de dois animais verdadeiros: um monstro meio homem meio cavalo, é quimera;
um monstro meio águia, meio serpente, é quimera; um monstro meio leão, meio peixe, é quimera; mas
não há tais monstros, nem tais quimeras no mundo.

De maneira, que as metades são verdadeiras, os todos ou monstros que delas se compõem são
fingidos. As metades são verdadeiras, porque há homem e cavalo, há águia e serpente, há leão e peixe; os
monstros que se compõem destas metades são fingidos; porque não há tal coisa no mundo. Isto mesmo
ao que dissestes, de duas verdades partidas, fazem uma mentira inteira”.

Citando Fernando Pessoa, num poema incluído em Mensagem, dedicado a António Vieira, concluiremos:

O céu estrela o azul e tem grandeza


este, que teve a fama a a glória tem
Imperador da língua portuguesa
foi-nos um céu também

No imenso espaço seu de meditar,


constelado de forma e de visão,
surge, prenúncio claro do luar,
el-rei D. Sebastião

Mas não, não é luar: é luz do etéreo.


é um dia; e, no céu amplo de desejo,
a madrugada irreal do Quinto Império
doira as margens do Tejo.
Percursos em Vieira
Luísa Lopes

Bibliografia:

Quem é quem na Literatura Portuguesa- Álvaro Manuel Machado, Publicações D.Quixote, Lisboa, 1979

As Ordens monásticas e religiosas- Bruno Murray, col. Enigmas do Ocidente, Publicações Europa-
América, Lisboa, 1986

História da Literatura Portuguesa- António José Saraiva, Capítulo X- O apogeu do Barroco- Livraria
Bertrand, Lisboa 1979

História da Literatura Portuguesa- António José Saraiva e Óscar Lopes, Porto Editora.

Grande Dicionário Enciclopédico Ediclube, vol. XVIII, Lisboa, 1996