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Hino ao Prana

Louvemos o Prana (20) que domina tudo, senhor de todas as coisas, no qual se apóiam todas as
coisas.

Louvemos o Prana, quando ele está mugindo, quando está trovejando, quando está relampejando,
quando está chovendo.

Quando Prana em seu trovão está mugindo sobre as plantas, estas são fecundadas, recebem os
germes, multiplicam-se.

Quando em devido tempo o Prana está mugindo sobre as plantas, há alegria em tudo, regozijam-
se todas as coisas na Terra.

Quando Prana inundou com a chuva a terra toda, então os animais se alegram e dizem: vai haver
abundância para nós.

As plantas molhadas pela chuva falam assim ao Prana: tu nos prolongaste a vida, tu nos tornaste a
todas perfumadas.

O Prana acolhe em seus braços as criaturas como o pai ao filho preferido.

Não é o Prana o senhor de tudo que respira, de tudo que não respira?

O Prana é a morte, o Prana é a doença, o passado, o futuro.

Não lhe é permitido, Ele o Cisne, mostrar um único pé fora das águas. Se o fizesse, não haveria
mais nem o dia de hoje, nem o de amanhã, nem trevas, nem luz, e a aurora não surgiria mais.

Não te afastes de mim, Ó Prana, não sejas outra coisa diferente de mim. Para viver eu ligo-te a
mim para viver, como o embrião das águas.

[(20) A palavra prana designa um princípio cósmico, ao qual, os hindus atribuem funções vitais
genéticas e permanentes no que diz respeito aos organismos vivos. É identificado ao ar e deificado.
O Cisne, mencionado neste hino, é a figuração da sabedoria divina. Denomina-se Hansa ou Hamsa,
em sânscrito, e as duas sílabas representam a inspiração e a expiração na prática do Ioga].
XVIII - 2

Hino para ser entoado em um funeral


Terra, sê leve, sem espinhos, repousante. Vasta, oferece-lhe o teu abrigo.

Deponham-te, não em lugar estreito, mas em terreno largo. Tuas oblações, enquanto viveste, agora
sejam mel para ti.

Chamo o teu pensamento com o meu pensamento. Vai alegre para a tua morada e reune-te aos
nossos antepassados, a lama.

Que os ventos te sejam favoráveis e benéficos!

Da tua alma, do teu alento, dos teus membros, nada fique por aqui.

Não sejas oprimido nem pela terra divina e poderosa, nem pela árvore. Vai para o teu lugar, entre
os antepassados, sê feliz entre os súditos de lama.

O que se perdeu dos teus membros, ao longe, tua respiração, tua expiração, levadas pelo vento,
que os nossos antepassados te restituam aos poucos.

[Durante a cremação]

Os vivos expulsaram-no de casa. Levem-no para longe da aldeia.

Enquanto enterram os ossos, depois da cremação

Ainda vês, depois não verás mais, o sol que está no céu. Ó Terra, como a mãe trata do filho,
recobre-o com teu manto.

Agora ainda, não mais depois, mesmo em tua velhice, ó Terra, cobre-o com a tua vestimenta, como
esposa com seu marido.

[Ao apagar da fogueira crematória]

Que te seja benéfica a neblina, benfeitora a geada. Fria e fresca de frieza, fresca e feita de
frescura, rã nas águas, sê benéfica. Extingue esta chama!
XII - 1

Hino à Terra
Alta realidade, (21) lei rigorosa, (22) sacramento, (23) fervor, prece, sacrifício, sustentam a Terra.
Senhora do que foi, do que será dê-nos a Terra um abrigo distante!

Estejamos livres entre os homens! Há encostas na Terra, ladeiras, largas planícies e vegetais de
muitas virtudes. Que a Terra se estenda e cresça para nós!

Ela possui águas: o oceano e os rios. Nela, os deuses alcançaram a imortalidade. Nela se anima
tudo quanto respira e sente. Conceda-nos a Terra as primícias das vindimas!

Pertencem-lhe os quatro horizontes, nela nasceram o alimento e o trabalho. Ela sustenta de muitas
maneiras tudo quanto respira e vibra. Dê-nos a Terra bois e abundância!

Sobre ela, nos primeiros tempos, os homens dispersaram-se; sobre ela, os deuses dominaram os
demônios. Abrigo dos cavalos, dos bois, dos pássaros, dê-nos a Terra boa sorte e prestígio!

Possuidora de tudo, tesouro de bens, muralha, couraça de ouro, ela apóia tudo quanto se move,
sustenta o Fogo universal. (24) lndra é o seu touro. Permita-nos a Terra descanso na riqueza!

Noite e dia, sem cansaço, sempre despertos, amparam-na os deuses, a Terra vasta. Deixe que ela
nos colha o suco precioso, e derrame sobre nós o seu esplendor!

No princípio, era uma onda no oceano e os sábios buscavam-na com suas magias. No mais alto dos
céus, está o coração imortal, o coração da Terra, envolto na Verdade. Dê-nos a Terra brilho e força
em um império soberano!

As águas correntes passam sobre ela, sempre as mesmas, noite e dia, sem cansarem. Terra, de onde
jorram mil torrentes, traz-nos o leite, abre sobre nós o teu esplendor!

Mediram-na os Asvins, percorreu-a Visnú com seus passos, lndra o esposo de Sassi, livrou-a de
inimigos. Dê-nos a Terra o seu leite, assim como faz a mãe ao seu filho!

Acolham-nos os teus cimos, as tuas montanhas nevadas, a tua floresta, sê hospitaleira, ó Terra!
Escura, negra, vermelha, com mil formas, a Terra vasta é, no entanto imutável, sob a custódia de
lndra. Ileso, invencível, invulnerável, nela eu fiz a minha morada.

Abriga-nos no eixo, no centro, em todos os vigores que emanam do teu corpo e neles purifica-nos!
A Terra é mãe e eu sou filho da Terra! Parjania é meu pai! Dê-nos ele tudo em abundância!

Terra onde levantam seus altares, onde celebram seus sacrifícios, os oficiantes de todos os ritos.
Terra, onde se erguem altos e puros, os pilares do sacrifício, antes da oblação. Aumente o teu vigor
e faças crescer o nosso!

Terra previdente entrega-nos quem nos odiar, atacar ou ameaçar com o seu pensamento ou sua
arma mortal!

Nascem de ti e ao teu seio regressam os mortais! Sustentas os animais, quadrúpedes e bípedes e


pertencem-te as cinco raças humanas, às quais se abre a luz imortal, sob os raios do sol nascente!
Que se deixem ordenhar todos esses seres. Dá-me, ó Terra, o mel da palavra!

Genitora universal, mãe das plantas, Terra imutável e vasta, que a Lei mantém pacífica e
hospitaleira, possamos nós sempre andar sobre ela!

Imensurável retábulo, és a imensa! Imensos o teu tumulto, agitação e desassossego, imenso Indra
que te protege sem cansaço! Terra faz-nos resplandecentes como se estivéssemos sob um reflexo de
luz dourada! Ninguém nos queira mal!

Quando está vestida de fogo, seus joelhos enegrecem. Terra faz-me brilhante e afiado!

Sobre a terra, oferecem-se aos deuses sacrifícios e libações excelentes. Sobre a Terra, vivem,
alimentam- -se e bebem os homens mortais. Terra permite-me alcançar a velhice!

Derrama sobre mim o teu perfume, Terra, o perfume dos Gandarvas, dos Apsaras, o perfume das
plantas e das águas. Dá-me o teu perfume e ninguém nos queira mal!

O teu perfume impregnou o Loto, o perfume que atraiu os Imortais às bodas da Filha do Sol. Dá-
me o teu perfume, ninguém nos queira mal!

o teu perfume nas criaturas humanas, machos e fêmeas, sua essência e alegria; o teu perfume, nos
cavalos, nos guerreiros, nas feras, nos elefantes, encanto da jovem, ó Terra, dá-me esse perfume e
ninguém nos queira mal!

Seja pedra, húmus, rochedo ou pó, a terra está sempre firme e sólida. Sua couraça é de ouro. Eu
venero a Terra.

Nela se apóiam as árvores, princesas da floresta, imóveis, sempre erectas. Invocamos a Terra
nutriz, a Terra sólida.

Quando nos levantarmos ou nos sentarmos, quando iniciarmos nossa caminhada, seja o primeiro
passo com o pé direito ou o esquerdo, não pisemos em falso, cambaleando, na Terra.

Falo à Terra purificadora, à Terra paciente que dá vigor à oração. Ela dá força aos alimentos, à
manteiga sagrada, a floração.

Lave-se o nosso corpo nas águas puras e sobre os inimigos atiramos nossos excrementos. Terra, me
limpo em teu filtro.

Sejam-me hospitaleiros o Norte e o Sul, o Oriente e o Ocidente, quando eu estiver caminhando.


Apoiando-me na Terra, esteja eu livre de quedas.

Não nos expulses da frente, nem de trás, nem de cima, nem de baixo. Acolhe-nos bem, Terra. Afasta
para longe a arma da morte.

Se vejo, Terra, a tua superfície à luz do sol, não permitas que os meus olhos enfraqueçam, quando
os anos vão passando.

Se, deitado, volto-me do lado direito ou do esquerdo; se, com meu dorso estendido, roçam-te as
minhas costelas, não nos faça mal, Terra. Não és o leito de todas as coisas?
Logo cicatrizem as feridas que faço em ti, ó purificadora. Jamais eu fira nem teu coração nem
qualquer parte mortal.

Deixa-nos, ó Terra, ordenhar o verão, as chuvas, o outono, o inverno, a geada, a primavera, as


estações sucessivas, os teus dias e noites.

A purificadora, que estremece ante a serpente e abriga os fogos ocultos sob as águas, denunciando
os demônios que insultam os deuses, escolheu lndra por esposo e não Vrita, a Terra entregou-se ao
Touro (25) potente, ao Macho.

No sacrifício, pertencem-lhe os tambores e os carros, sobre ela levanta-se o pilar do ritual. Sobre
ela os brâmanes entoam suas árias e estrofes, sobre ela reúnem os oficiantes, para que lndra beba
o soma.

Sobre ela, os sábios antigos, criadores de seres com os seus cânticos, trouxeram as vacas à
existência, os sete demiurgos, pelo cerimonial, pela ascese, pelo sacrifício.

Mostre-nos ela a riqueza que desejamos e aos seus esforços associe-se Bhaga. Indra marche à
nossa frente.

Terra, onde os mortais cantam, dançam combatem, ruidosos, onde se alteia o grito de guerra e
ressoa o tambor. Terra repele para longe os meus adversários, toma-me sem rival!

Ela possui os alimentos, o arroz, a cevada. As cinco raças humanas dependem da Terra, esposa de
Parjania, ela também nutrida de chuva.

Senhora de cidadelas construídas pelos deuses, sobre a sua superfície os homens estão dispersos.
Matriz de tudo faça-a Prajapati (26) cada vez mais acolhedora.

Possuidora de bens e de tesouros escondidos. dê-me a Terra diamantes e ouro. Ela, distribuidora
de tantas riquezas, possuidora de tantos bens, conceda-nos a Terra a sua complacência.

Sobre a Terra, em muitos lugares, habitam povos de idiomas diversos e leis que variam segundo as
regiões. Para nós, abram-se no solo mil fontes de riquezas. Para nós, seja a Terra uma vaca
robusta e não nos recuse o seu leite. A serpente, o escorpião, ávido ao picar, o animal que engole o
inverno, oculto, imóvel em seu torpor, o verme inquieto, ao cair das chuvas, todo animal rastejante
não rasteje sobre nós. Terra concede-nos essa graça, sê favorável!

Os muitos caminhos que abriste aos homens, as estradas para os carros grandes e pequenos, a via
por onde andam os bons e os maus, ao mesmo tempo, possamos percorrê-la sem inimigos e
bandidos. Concede-nos a graça de obter o que nos for propício!

Sobre ela vivem o ajuizado e o insensato. A Terra suporta o covil do malvado e o abrigo do bom. A
Terra vive em concórdia com o javali, e com o porco selvagem ao qual abre o seu corpo.

Leva para longe de nós as feras do deserto, os animais da floresta, comedores de homens, tigres e
leões andarilhos, lobos e chacais, a miséria, ogros e demônios, ó Terra. Rechaça-os para muito
longe de nós.

Gandarvas, Apsaras, avarentos, famintos, vampiros, todos os demônios, afasta-os de nós, Terra.
Sobre ela voam os animais de asas, flamingos, águias, falcões, todos os pássaros. Sobre ela
estremece o vento, Matarisvan, que levanta a poeira e sacode os ramos das árvores. Quando sopra
e cresce o vento, logo o fogo se acende.

Sobre a terra acendem-se o dia e a noite, concordam o vermelho e o negro. A chuva cobre e
recobre a Terra, que ela distribui amável, enquanto estamos abrigados em nossas casas.

Quando outrora estendeste o teu corpo, a pedido dos deuses, exibindo o teu poder, tu sentiste o bem
estar dentro de ti e então abriste os quatro horizontes.

Nos burgos e nos campos, nas reuniões, em todo o mundo, nos conselhos, entre a multidão, sejam
elogiosas as nossas palavras a respeito de ti.

Como o cavalo sacode poeira, a Terra, quando nasceu, levantou os povos. Pioneira alegre, guardiã
do mundo, ela sustenta as árvores e as plantas.

Pacífica, perfumada, hospitaleira, com o seio intumescido de leite, proteja-me Terra.

O deus de todas as obras, oferecendo-lhe libações, procurava-a enquanto ela ainda estava
mergulhada na impureza dos mares. Taça de prazer, oculta em segredo, agora se manifestou seus
benefícios à humanidade.

És a semeadora dos seres. Vasta és, Aditi, aquela deusa que ordenha os desejos. Prajapati,
Primogênito da Ordem, conceda-te aquilo de que careceres.

Seja fecundo o teu regaço, isento de males, de febres, ó Terra. Se despertarmos para uma longa
existência, há de ser tu quem receberá nossas ofertas.

Terra, nossa mãe, concede-me a graça de uma boa moradia. Tu, que vives em harmonia com o
Céu, concedes-me, ó Sábia, a glória e a prosperidade!

[(21) "Alta realidade": a suprema divindade.

(22) "Lei rigorosa": o princípio segundo o qual se constituiu e permanece o Universo. Rita - Ordem
universal.

(23) "Sacramento": a Terra é o efeito de um ato sagrado, sacramental.

(24) Fogo universal "Fohat" - energia latente no corpo humano. O homem sustenta-se da Terra, que
assim mantém o "Fogo universal"; embora adormecido no chacra mais inferior do corpo etérico
humano.

(25) "Touro"; um dos epítetos de Indra, por haver esse deus assumido a forma de um touro.

(26) "Primogênito da Ordem"; Prajapati, segundo a mitologia hindu, foi o primeiro deus a surgir do
Universo já formado e organizado].
XIX - 26

Para a confecção de um talismã de ouro, que sendo usado


possibilita longa vida
Nascido do fogo, este ouro foi concedido aos mortais como objeto imortal. Merece-o quem sabe
disto. Quem usá-lo morrerá velho.

O ouro de belo colorido, desde os primeiros tempos procurados pelos homens e por seus filhos, o
ouro brilhante derrame sobre ti o seu fulgor. Gozará de longa vida quem usá-lo.

Eu te entrego isto para a tua longa vida, para o brilho, a força e o vigor. Entre os outros homens,
resplandeças com o brilho do ouro.

Conhecido do rei Varuna, do deus Briaspati, de Indra, matador de Vrita, obtenhas longa vida e
prestígio por este talismã.

XIX - 47

Hino à Noite
Ó noite, por ordem do Pai, cobriste o espaço terrestre. Tu te elevaste até às moradas celestes. Vêm
rolando as trevas cintilantes.

Tudo repousa no seio da treva, da qual não se vê a outra margem.

Possamos chegar ao outro lado, ó vasta noite escura, atingir a tua outra margem.

Os teus espiões, (27) vigias dos homens, ó Noite, são noventa, oitenta e oito, setenta e sete.

E setenta, ó rica, cinqüenta e cinco, ó favorável, e quarenta e quatro e trinta e três, ó nutritiva.

Vinte e dois eles são, ó Noite, pelos menos são onze. Filha do Céu abriga-nos hoje com esses
guardas.

Nenhum demônio, nenhum feiticeiro, tenha poder sobre nós. Nenhum ladrão venha apossar-se das
nossas vacas, nenhum lobo venha devorar as nossas ovelhas.

Ó Bela, nenhum bandido venha tomar nossos cavalos, nem feiticeiras venham seduzir nossos
homens. O ladrão, o bandido, afaste-se para longe daqui.

Para longe a corda com dentes, (28) para longe o malfeitor. Ó Noite, torna cega e sem cabeça a
serpente, que morra asfixiada no veneno do seu hálito.

Quebra os maxilares do lobo, atira o ladrão no suplício. Nós moramos em ti, ó Noite, queremos
dormir. Sê vigilante!

Estende a tua proteção às nossas vacas, aos nossos cavalos, aos nossos homens!
[(27) "Espiões da Noite": as estrelas.

(28) "Corda com dentes": a serpente].