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12.

NOVAS TECNOLOGIAS DA
COMUNICAÇÃO COMO FERRAMENTA
EDUCACIONAL: FACEBOOK, SKYPE E
BLOG NO ENSINO INTERDISCIPLINAR DA
LITERATURA
Cristina Rothier Duarte
Maria Betania da Silva Dantas
Mônica Cely Duarte Magalhães
Monica Maria Pereira da Silva

Introdução

O presente capítulo trata de uma proposta de utilização de fer-


ramentas da web como estratégia de ensino da literatura. A atividade
trazida como proposição de estudo, na disciplina Língua Portuguesa, é
direcionada a turmas do 2º ano do ensino médio e trabalha interdisci-
plinarmente literatura e leitura literária, produção textual e letramento
digital, objetivando ampliar o rol de leitura dos alunos, incentivar a
produção textual (objetivo final da atividade), desenvolver a criticida-
de a partir da estratégia literária sátira e promover o letramento digital,
mediante o emprego das ferramentas da web que serão utilizadas.
A escolha do conto “A igreja do diabo” visa a trabalhar com os
alunos o gênero conto e a estratégia literária sátira, além de adicionar
à sua história de leitura mais uma narrativa de Machado de Assis. A
atividade concerne em, a partir da leitura do conto, das discussões
e dos compartilhamentos de leitura (ocorridos predominantemente
via Facebook e, complementarmente, via Skype), construir, ao final,
um texto satírico a ser publicado em um blog criado pelos alunos.
Para a execução da atividade, vamos utilizar três objetos pedagó-
gicos digitais: o Facebook, o Skype e o blog, conforme mencionado.
O Facebook foi selecionado com o objetivo de: a) motivar os alunos
a lerem e a compartilharem suas experiências com a leitura do conto

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Ivan Vale de Sousa (org.)

machadiano, de acordo com o que veremos no decorrer deste capí-


tulo; e b) disponibilizar documentos em PDF que serão utilizados
como fonte da pesquisa para a realização do trabalho pelos alunos.
O Skype será empregado como uma ferramenta de comunicação
síncrona, para a realização de conferências entre o professor e os
grupos de alunos, e entre os membros de cada grupo. E o blog será
utilizado para apresentação final do texto satírico produzido pelos
alunos, no caso, essa ferramenta, além de assumir a função de slide
(já que será utilizado para a apresentação do trabalho em sala de
aula), terá a função de compartilhar a experiência com os demais
alunos da sala e com qualquer pessoa que se interessar, tendo em
vista que estará disponível na web, bem como de promover a inte-
ração entre os alunos e motivá-los a manter o projeto de leitura e
produção textual para publicação na web.
Como objetivo geral deste capítulo, visamos a apresentar uma
proposta de plano de ensino de leitura literária, no caso, o conto “A
igreja do diabo”, de Machado de Assis, utilizando o Facebook, o Skype
e o blog como objetos pedagógicos digitais; e como objetivos espe-
cíficos, pretendemos pensar a viabilidade do uso de ferramentas da
web como instrumentos a serem utilizados em sala de aula como ob-
jetos de aprendizagem; refletir sobre formas alternativas de ensino da
literatura, utilizando ferramentas da web como objetos mediadores
e motivadores no processo ensino-aprendizagem; e discutir sobre a
necessidade de o professor empreender os estudos de metodologias
de ensino da literatura, incluindo, nesse contexto, saberes que o en-
caminhem para o seu letramento digital, a fim de acumular várias al-
ternativas metodológicas que permitam a formação do leitor literário.
Metodologicamente, empregamos a pesquisa bibliográfica de
cunho qualitativo-interpretativo (Gerhardt, 2009), para apresenta-
ção do conceito e da funcionalidade das ferramentas da web utili-
zadas como meios de aprendizagem na atividade pedagógica a ser
trabalhada em sala de aula. Para fundamentar a metodologia da se-
quência didática, utilizamos Aguiar e Bordini (1993), Zilberman
(2009) e Cosson (2014a; 2014b), uma vez que compreendem a
leitura a partir do aluno, provocando o debate metodológico sobre

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Interfaces entre literatura, língua e sequência didática

a obra literária, bem como empregamos a Base Nacional Comum


Curricular, por concentrar o ensino na literatura a partir dos gêne-
ros, ou seja, priorizando o texto em si.
A Base Nacional Comum Curricular é um documento exigido
pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, pelas Diretri-
zes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica e pelo Pla-
no Nacional de Educação, e apresenta os Direitos e Objetivos de
Aprendizagem e Desenvolvimento que devem orientar a elaboração
de currículos para as diferentes etapas de escolarização (Brasil, 2016).
No tocante ao ensino da literatura, esse documento prevê que os pro-
fessores devem trabalhar, em sala de aula, essa disciplina diretamente
com os gêneros literários. Diante dessa exigência, entendemos que o
uso de tecnologias e objetos pedagógicos vem colaborar na constru-
ção de metodologias que escapam do ensino expositivo, possibilitan-
do ao aluno uma forma mais interativa de construção do saber sobre
o texto literário, como demonstraremos no decorrer desse trabalho.
Este capítulo é organizado em 5 seções, além desta introdução:
I) Estudo da literatura para formação do leitor literário; II) O Face-
book, o Skype e o blog, novas tecnologias da comunicação; III) Proposta
de leitura literária do conto machadiano “A igreja do diabo”; e IV)
Considerações finais.

Estudo da literatura para formação do leitor literário

Se voltarmos nossos olhos para a sala de aula, perceberemos que


a aula expositiva e a utilização de fórmulas fixas continuam predo-
minando no ensino da literatura. Todavia, entendemos que isso se
dá não pelo fato de os professores desconhecerem outros métodos
de ensino, mas, provavelmente, por já estarem habituados com me-
todologias tradicionais, não se sentindo, assim, suficientemente mo-
tivados e seguros para ultrapassarem sua zona de conforto, ou, até
mesmo, pelo fato de recearem ir além dos horizontes contidos nos
livros de didáticos, e os resultados obtidos, mediante essa nova ex-
periência, não serem satisfatórios, preferindo, então, seguir a abor-
dagem prescrita nos livros didáticos à risca.

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De todo modo, seja qual for o motivo que obstaculize a adoção


de debates ou de outras metodologias que se afastem do método
tradicional expositivo das aulas de literatura, entendemos que falta
ao professor conhecimento suficiente acerca de como funcionam
esses métodos, bem como faltam trocas de vivências com outros
professores e profissionais da educação, seja por meio de conversa
informal, encontros acadêmicos (congressos, simpósios, grupos de
pesquisa, etc.), ou mesmo de leituras que tratam das metodologias
de ensino da literatura que visam à formação leitora do aluno.
Zilberman concebe a leitura “como procedimentos de apropria-
ção da realidade” (2009, p. 30). No entanto, para que o aluno se
aproprie da realidade, para que ele confira sentido à leitura, o méto-
do expositivo – seja historiográfico ou utilitarista – não é eficaz, e a
crise da leitura já aponta para essa ausência de resultados positivos
no caminho do letramento literário. A origem do problema deno-
minado crise de leitura, além de outras questões, deve-se ao fato
de a leitura ser “[...] utilizada, em meio a precariedade do ensino,
apenas como um pretexto para o desenvolvimento dos conteúdos
gramaticais” (Schutz; Della Méa; Gonçalves, 2016, p. 56). Zilber-
man reforça essa ideia argumentando que:

[o] livro didático exclui a interpretação e, com isso, exila


o leitor. Propondo-se como autossuficiente, simboliza uma
autoridade em tudo contrária à natureza da obra de ficção
que, mesmo na sua autonomia, não sobrevive sem o diálogo
que mantém com seu destinatário. (2009, p. 35)

Ao contrário, os métodos de leitura recepcional (Aguiar; Bordi-


ni, 1993) e as sequências e os círculos estudados em Cosson (2014
a; 2014 b) compreendem a leitura a partir do aluno, provocando o
debate metodológico sobre a obra literária objeto de leitura, pois,
de acordo com este estudioso, “apenas ler é a face mais visível da
resistência ao processo de letramento literário na escola” (Cosson,
2014 a, p. 26), daí a necessidade de metodologias que se baseiem no
debate, na discussão da obra para que, de fato, se dê o letramento

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Interfaces entre literatura, língua e sequência didática

literário. A experiência em sala de aula endossa posicionamentos


que entendem a importância do debate nos métodos de ensino da
literatura, o que comprova que tais estudos não são mera teoria, mas
resultados de conclusões retiradas a partir da observação da prática e
da história da leitura em sala de aula.
Diante dessas formas de abordagem da leitura em sala de aula
– a expositiva e a recepcional –, sabemos muito bem a diferença
que isso faz na vida do aluno. É óbvio que, como enuncia Lajo-
lo, “[t]écnicas milagrosas para o convívio harmonioso com o texto
não existem, [...]” (2000, p. 14), mas a probabilidade de um aluno
tornar-se leitor literário certamente é reduzida, quando o método
entende a obra como simples pretexto.
Colaborando com esses estudiosos, a Base Nacional Comum
Curricular (2016), em sua segunda versão, prevê em seu tópico “Li-
teratura como componente da língua portuguesa” que:

A literatura se apresenta como um campo de atuação com-


posto por gêneros narrativos e poéticos que circulam so-
cialmente. As obras literárias englobam textos do passado
e do presente, que ampliam o universo de referências cul-
turais e as respostas sobre o estar no mundo. Elas também
propiciam o deslocamento necessário para a compreensão
da diversidade sociocultural, aprofundando a percepção da
condição humana vista por outros e diversos ângulos. As
escolhas literárias, para cada ano da escolaridade, pressu-
põem um sujeito em formação, seja ele criança, adolescente
ou jovem, possuidor de repertórios literários, e membro de
uma coletividade que compartilha bens culturais com en-
dereçamentos específicos, conforme a idade. Embora não se
possam determinar cortes objetivos relacionados a preferên-
cias, estilos e temas, a BNCC evidencia, para cada etapa,
um leque de gêneros literários adequados aos leitores em
formação. (Brasil, 2016, p. 96, grifos nossos)

Como podemos perceber, para que os objetivos de aprendiza-


gem e de desenvolvimento inerentes ao campo literário, definidos
pela BNCC, sejam atendidos, o professor, além de deter o conhe-

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cimento acerca de teoria literária, de estudos historiográficos, e de


variadas obras literárias, deverá também conhecer metodologias de
ensino da literatura que escapam do método tradicional expositivo,
uma vez que o objeto de aprendizagem desse campo não mais se
limita ao estudo estilístico e historicista, pois, como se vê, a partir
do trecho destacado da BNCC, o foco do estudo em sala de aula
passa a ser o gênero literário, o que significa dizer: o professor deve-
rá trabalhar diretamente com a obra, selecionada de acordo com o
principal sujeito da relação leitora, o aluno/leitor em formação, ou
seja, levando em consideração suas experiências leitoras (dos mais
variados gêneros e suportes), suas preferências, sua faixa etária etc.
Diante da importância que a leitura da obra (de gênero narrati-
vo, poético ou dramático) assume na BNCC, observamos a neces-
sidade de o professor acumular conhecimento metodológico acerca
do ensino da literatura, tendo em vista que ele é o alicerce – como
prevê Cosson (2014a), ao descrever a técnica do andaime, uma
das perspectivas metodológicas presente tanto na sequência básica
quanto na expandida, e como podemos observar em vários outros
métodos – a partir do qual a construção do aluno/leitor dar-se-á.
Dessa forma, compreendemos que o letramento digital do pro-
fessor vem somar, de forma inconteste, nesse processo de articulação
metodológica, no sentido de capacitar o docente já formado ou em
formação para o ensino da literatura segundo concepções de leitura
que atendem às necessidades inerentes à construção de leitores literá-
rios, de leitores que sintam prazer em ler, além disso, de leitores que
tenham êxito em extrair da leitura experiências que contribuam para
uma formação humanística e político-social, para tanto, destacamos
que o professor deverá estar adequadamente embasado teoricamente.
O professor que soma ao seu conhecimento teórico-metodo-
lógico o letramento digital tem a possibilidade de reunir diversas
metodologias de ensino da literatura (ou de outra disciplina que seja
inerente à sua formação inicial), podendo, assim, dependendo do
contexto em sala de aula, dispor de possiblidades diversas de ensino
exitoso da literatura.

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Interfaces entre literatura, língua e sequência didática

Temos, portanto, que, colaborando com sequências que priori-


zam o debate do que é lido pelo aluno, as ferramentas da web apre-
sentam-se como instrumentos capazes de incrementar o processo de
ensino-aprendizagem da literatura, viabilizando a discussão e, conse-
quentemente, a construção de sentidos do texto literário para o aluno.

O facebook, o skype e o blog, novas tecnologias da comunicação

Ao estudar o Facebook, Wander Emediato (2015) conceitua a


rede social como uma rede de discursos, um espaço retórico por
natureza, onde podemos encontrar tudo que se pode supor no
universo de discursos e nos espaços discursivos. Para esse analista,
são características do Facebook: a) interação entre códigos semio-
lógicos, em especial, a verbo-visualidade, o que significa dizer que
os enunciados – publicações – geralmente apresentam um suporte
visual (foto, imagem, etc.); b) as modalidades de interação (atos de
linguagem) que permitem o dialogismo interlocutivo e a aproxima-
ção das formas dialogais, proporcionando a copresença espacial e c)
organização dialogal de interação do Facebook, cujos interlocutores
são o locutor, o alocutário e um terceiro destinatário indireto de
natureza coletiva – grupo de amigos – cuja interação se dá pelas
modalidades descritas.
O Facebook, como toda rede social, tem o mister de promover
a interação entre os seus usuários, que, especificamente nessa rede
social, é promovida pelas ações de curtir, comentar e compartilhar.
O curtir, originalmente, marcado apenas pelo símbolo que repre-
senta a gestualidade de positivo (mão fechada com o dedo polegar
levantado), é uma apreciação não verbal que tem como significado
a concordância com o conteúdo da publicação. Não obstante essa
forma tradicional, hoje, o curtir oferece ao usuário outras reações,
que podem ser: a) positivas, como o próprio curti, o amei, o Ahah;
b) negativas, representando insatisfação, como o triste e o Grr (ir-
ritação); c) concordância ou não com a publicação, a depender do
contexto, o Uau.

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O comentário é uma interação verbal que, de acordo com Eme-


diato (2015), pode ser “uma apreciação positiva, negativa ou um
julgamento axiológico, uma concordância ou uma discordância,
conforme o caso” (2015, p. 174), portanto, mais complexa que o
curtir e suas variações.
Emediato conceitua o compartilhar como uma “adesão mais
intensa, já que, além de expressar concordância com a publicação,
o interlocutor se associa, ou seja, adere à publicação e tem interesse
particular em amplificar a sua divulgação” (2015, p. 175). No en-
tanto, complementando o conceito de Emediato, entendemos que
o usuário pode se utilizar dessa forma interacional para contextuali-
zar, para situar o alocutário e a coletividade, em uma crítica negativa
que pretende tecer referente à publicação que compartilha.
Diante dessas funcionalidades, o Facebook pode ser utilizado
como ferramenta para fins educacionais por permitir ao professor
interagir com os alunos de forma assíncrona, além de motivar a par-
ticipação dos alunos, já que a grande maioria dos estudantes possui
uma conta nessa rede social.
O blog é uma ferramenta, um formato de publicação on-line,
em que se utiliza um estilo informal, daí ser conhecido como um
“diário virtual”. Nesses ambientes virtuais, podemos criar, editar,
publicar: fotos, textos, vídeos e outros. Porém, a definição dessa fer-
ramenta é cada vez menos consensual, porque seu uso tem se expan-
dido, assim como suas ferramentas também. Hoje, há uma diversi-
dade de formas, objetivos e contextos de criação do blog (Gomes,
2005). Araújo (2009) faz menção à ideia de que, tanto para o debate
de temas atuais, quanto para a divulgação de projetos escolares, os
blogs se tornaram importantes auxiliadores pedagógicos. Barbosa
e Granado corroboraram com a ideia de que “[s]e há alguma área
onde os weblogs podem ser utilizados como ferramenta de comuni-
cação e de troca de experiências com excelentes resultados, essa área
é sem dúvida, a da educação.” (2004, p. 69).
Com um novo cenário se apresentando, pois, cada vez mais,
vem se inserindo mudanças nas práticas pedagógicas envolvendo
as mídias educacionais, para desenvolver novas habilidades e com-

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Interfaces entre literatura, língua e sequência didática

petências na formação dos estudantes, assim, a utilização das novas


tecnologias da informação e comunicação emerge como um facili-
tador no que diz respeito à informação em tempo real dentro e fora
da sala de aula. O blog, seguindo essa linha de pensamento, é uma
ferramenta de aprendizagem colaborativa que contribui no trabalho
com a leitura e com a escrita, âmbitos em que se dão muitos dos
problemas enfrentados no ensino escolar.
O Skype, por sua vez, é uma ferramenta usada para comunicação
em qualquer parte do país ou do mundo, por meio de chamadas te-
lefônicas ou de vídeo usando a internet. Como recurso pedagógico,
o Skype pode enriquecer as metodologias utilizadas em sala de aula,
já que proporciona a interação simultânea entre várias pessoas. Bem
aceito pelos jovens, na educação, reúne o útil e o agradável, ofere-
cendo maiores possibilidades ao docente, o que tem o potencial de
despertar maior interesse por parte dos alunos. Como exemplo de
práticas, as conferências permitem o desenvolvimento da oralidade
dos alunos; fóruns tira-dúvidas permitem um maior engajamento
dos discentes na disciplina e aproveitamento dos estudos; além dis-
so, pode ser utilizado como forma de acompanhamento pelos pais,
se o professor oferecer essa oportunidade como forma de melhorar
o desempenho escolar. Há, ainda, a possibilidade de comunicação
entre os docentes, mediante a realização de conferências com a par-
ticipação de professores de outras disciplinas, a fim de promover
trabalhos interdisciplinares. Cabe, portanto, ao professor, incluir
ferramentas como as estudadas, tendo em vista que são, atualmente,
compreendidas como importantes recursos pedagógicos, uma vez
que estão para enriquecer as metodologias da educação, quebrando
as formas tradicionais de ensino.

Proposta de leitura literária do conto machadiano “A


igreja do diabo”

A escola, enquanto espaço aberto à construção do saber, deve


estar contextualizada, o que significa dizer que deve acompanhar o

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conhecimento tecnológico, adequando ferramentas virtuais e dis-


positivos móveis em suas metodologias, não podendo, assim, estar
alheia ao que ocorre à sua volta, nesse sentido:

[...] Sugere-nos que espaços educativos devam estar tra-


balhando na direção de incorporar novos saberes/modos
de conhecer, como forma de garantir o fortalecimen-
to da expressão política das subjetividades dos sujeitos.
Desse modo, aqueles que “fazem” a cultura escolar devem
refletir sobre como incorporar novas tecnologias [...].
(Goulart, 2007, p. 55, grifo do autor)

Portanto, além do papel motivador das metodologias que em-


pregam objetos de aprendizagem tecnológicos, incorporar à vivên-
cia escolar a utilização dessas ferramentas, fomentando as diversas
formas de letramento, é contribuir para a formação humana do
indivíduo, para a sua inserção social. Desse modo, entendemos im-
prescindíveis estudos e propostas metodológicas que visem ao letra-
mento digital da comunidade escolar, tendo em vista o fim maior
de garantia da cidadania.
A despeito dessa discussão, apresentamos uma proposta peda-
gógica de utilização de recursos tecnológicos para o ensino imediato
da literatura (leitura literária) e da produção textual, e mediato do
letramento digital, a partir da utilização de três ferramentas virtuais
para a realização das atividades.
Conforme já mencionamos, nossa proposta é direcionada a uma
turma do 2º ano do ensino médio e trabalha interdisciplinarmente
a literatura e a leitura literária, a produção textual, e o letramento
digital, apresentando como objetivos ampliar o rol de leitura dos
alunos, incentivá-los à produção textual, desenvolver a criticidade, a
partir da estratégia literária sátira, e promover o letramento digital,
mediante o emprego das ferramentas da web que serão utilizadas.
A atividade concerne em, a partir da leitura do conto “A igreja
do diabo”, das discussões e dos compartilhamentos de leitura, ocor-
ridos predominantemente via Facebook, e complementarmente via

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Interfaces entre literatura, língua e sequência didática

Skype, construir, ao final, um texto satírico a ser publicado em um


blog criado pelos grupos previamente formados pelos alunos.
Para a realização da atividade, é necessário que os alunos te-
nham computador ou dispositivo móvel (smartphone ou tablet) co-
nectados à internet em suas residências ou em outro local fora da
escola. Em sala de aula, serão necessários: computador com cone-
xão à internet e datashow para a apresentação do trabalho final. A
atividade, com duração de 07 (sete) semanas, apresenta a seguinte
sequência didática:

1. Na primeira semana, três aulas serão necessárias para o professor:


a) determinar o horizonte de expectativas dos alunos (Aguiar; Bordini,
1993): o professor investigará o conhecimento dos alunos acerca da sátira,
exemplificando diversos gêneros em que essa estratégia aparece (charges,
quadrinhos, contos, romances, etc.);
b) atender ao horizonte de expectativas (Aguiar; Bordini, 1993): o profes-
sor apresentará charges, para que os alunos observem uma das formas de
tecer crítica artisticamente;
c) romper o horizonte de expectativas (Aguiar; Bordini, 1993): o professor
lerá com os alunos o conto “A igreja do diabo”, de Machado de Assis;
d) questionar o horizonte de expectativas (Aguiar; Bordini, 1993): o pro-
fessor discutirá sobre a sátira, apresentando poemas satíricos de Gregório
de Matos Guerras, para ilustrar o recurso satírico (“Despedida do mau
governo que fez o governador da Bahia” e “Descreve o que era naquele
tempo a cidade da Bahia”);
e) discutir, de forma abreviada, os gêneros textuais empregados nos textos
literários estudados – conto e poema (o intuito, aqui, é apenas, a partir da
percepção dos alunos, distinguir conto de poema, inserindo, ainda, o gênero
romance para consolidar conceitos já conhecidos dos alunos, a fim de que
eles saibam identificar cada gênero);
f ) conhecer as características estilísticas de Machado de Assis, sempre ten-
do como foco de estudo a leitura literária;
g) dividir a sala em grupos de 4 ou 5 alunos e orientar os alunos acerca da ativi-
dade que será desenvolvida, informando-os sobre a metodologia, as etapas e as
ferramentas de aprendizagem que serão utilizadas para a execução do trabalho;
h) verificar se todos os alunos têm conta no Facebook e no Skype (e orientar
os que ainda não têm);

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Ivan Vale de Sousa (org.)

i) criar um grupo no Facebook e adicionar os alunos da sala.


2. Na segunda semana, o professor irá:
a) disponibilizar, no grupo do Facebook, o conto “A igreja do diabo” em PDF;
b) orientar os alunos a relerem o conto em casa e incentivá-los a discutir
suas impressões sobre essa narrativa, fazendo questionamentos e sugerindo
interação entre os próprios alunos.
3. Na terceira semana, o professor apresentará, como atividade individual,
dando início à etapa de ampliação do horizonte de expectativas (Aguiar;
Bordini, 1993):
a) a postagem de charges satíricas como as mostradas em sala de aula;
b) e a transcrição de trechos do conto em que identificaram a sátira.
4. Na quarta semana, o professor terá um encontro, de 30 a 40 minutos,
via Skype, com cada grupo, para orientar os alunos sobre a elaboração do
texto satírico e a criação do blog para publicação do texto.
5. Na quinta e na sexta semana, o professor dará plantões de dúvida, via
Skype (a sessão deverá ser previamente marcada, ou pelo grupo do Face-
book, ou pessoalmente, na sala de aula).
7. Na sétima semana, os grupos apresentarão o texto satírico utilizando
os recursos materiais (computador com acesso à internet e o datashow)
publicado no blog, finalizando a etapa de ampliação do horizonte de ex-
pectativas (Aguiar; Bordini, 1993).

O emprego de objetos de aprendizagem tem o intuito de moti-


var a aula de literatura, criando uma metodologia mais contextuali-
zada à realidade dos alunos, bem como promover o seu letramento
virtual. No caso, como descrito na sequência didática, usamos o
Facebook, o Skype e o blog. O Facebook apresenta inúmeras vanta-
gens para a metodologia escolhida, permitindo a interação profes-
sor-alunos e alunos-alunos; o compartilhamento de documentos;
oportunidade para a resolução de dúvidas; o agendamento de ses-
sões síncronas no Skype. Este, por sua vez, possibilita a realização
de conferências do professor com os grupos de alunos, bem como
o encontro entre os próprios membros de cada grupo. O blog será
utilizado para apresentação final do texto satírico produzido pelos
alunos. Essa ferramenta, além de assumir a função de slide no mo-
mento da apresentação do trabalho, dará oportunidade de os alunos

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Interfaces entre literatura, língua e sequência didática

compartilharem a experiência com seus colegas, com os membros


da família e com qualquer pessoa que se interessar, sem falar na pos-
sibilidade da interação entre os alunos e da motivação para manter o
projeto de leitura e produção textual para publicação na web.

Considerações finais

A tecnologia, de fato, assusta. Diante dos avanços tecnológicos,


podemos imaginar que, enquanto não dominamos as descobertas
inéditas, elas nos tornam mínimos e nos engolem. Não é para me-
nos. Diariamente, ao acordamos, deparamo-nos com um mundo di-
ferente, repleto de apetrechos e geringonças diferentes, que enchem
nossas vidas de manuais de instruções, luzinhas e barulhinhos. Nesse
contexto, podemos assumir duas posturas: ou permanecer na nossa
zona de conforto, repelindo esses instrumentos novos; ou aceitar o
desafio e aprender a lidar com essas novas tecnologias, aprimorando
nossas qualidades, somando às que temos familiaridade.
A postura individual frente à tecnologia, no entanto, não é a
única questão que deve ser observada, existem outras que podem ser,
inclusive, objeto de análise na vida do professor: a disponibilidade
dessas tecnologias – no caso em estudo, os objetos de aprendizagem
– e o treinamento adequado constituem fatores que podem contri-
buir para a disseminação do emprego de tais recursos na sala de aula.
Acreditamos que o professor bem treinado e munido dos recur-
sos apropriados sentir-se-á motivado para empregar os objetos de
aprendizagem na sua metodologia de ensino. Estudos demonstram
que as crianças se tornam mais participativas e também mais mo-
tivadas com atividades que englobam os objetos de aprendizagem:

Nas atividades tradicionais, aproximadamente 30% dos


alunos entregam um ou mais exercícios em branco, já com
o uso de objetos de aprendizagem o número não chega a
5%. “Essa ‘dedicação’ maior do estudante para realizar a ati-
vidade está relacionada basicamente a três itens: melhora da
concentração, autonomia e colaboração” analisa o coorde-

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Ivan Vale de Sousa (org.)

nador do projeto e professor do Departamento de Didática


da Unesp, Silvio Fiscarelli.1

Desse modo, acreditamos que a atividade apresentada revela-se


como um exemplo de metodologia entre as mais variadas que os
professores podem criar em sala de aula, inclusive, com sugestões dos
alunos, conforme suas afinidades com as ferramentas tecnológicas.

Referências

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