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ALEXANDRE VERSIGNASSI
Blog do diretor de redação da SUPER e autor do livro "Crash - Uma Breve História da Economia", nalista do
Prêmio Jabuti.

Javé e El: os dois Deuses da Bíblia


O Deus do monoteísmo não é só grande. Ele é dois.  A prova disso está bem no comecinho
da Bíblia.  O Gênesis deixa claro: o primeiro homem do  Bíblia não foi Adão, mas outro sujeito, com
outra mulher. Depois de moldar o céu, a terra, as plantas e os animais ao longo da semana, Deus, o
[…]
Por Alexandre Versignassi - Atualizado em 21 dez 2016, 08h51 - Publicado em 20 jul 2016, 20h19

O Deus do monoteísmo não é só grande. Ele é dois. 

A prova disso está bem no comecinho da Bíblia.  O Gênesis deixa claro: o primeiro
homem do  Bíblia não foi Adão, mas outro sujeito, com outra mulher. Depois de
/
moldar o céu, a terra, as plantas e os animais ao longo da semana, Deus, o
Criador, naliza o Universo na sexta-feira. E deixa dois gerentes a cargo da
operação: um homem e uma mulher. Mas não eram Adão nem Eva. Os primeiros
humanos da Bíblia são um casal sem nome, sem personalidade. Criado ao mesmo
por tempo.

Não é a história clássica, com Adão forjado a partir da terra, e Eva só depois, da
costela do marido. E mais importante: o Deus que faz o casal anônimo não é o
Deus de Adão. É outro sujeito – ainda que se trate de um Sujeito, com “s”
maiúsculo.

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O fato é que existem dois deuses com “d” maiúsculo nas páginas do primeiro livro
da Bíblia. E cada um cria seu próprio mundo.

O primeiro mundo, do primeiro Deus, é o do comecinho da Bíblia. O Criador ali


surge num cenário vazio, pairando sobre um mar negro, no escuro. Mas não por
muito tempo.

– Que haja luz – ele diz.

E houve luz.

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Foi o primeiro dia da criação (um domingo, se considerarmos que a obra termina
seis dias depois, e esse dia é o sábado). Na segunda-feira, vem a parte mais pesada
da construção divina. O Criador fatia o mar em duas partes. Uma em cima, outra
embaixo. E instala a abóboda celeste no espaço aberto entre as duas massas de
água, como se fosse uma redoma de vidro. “A essa divisão Deus pôs o nome de
´céu`”, segue o Gênesis. Depois de deixar metade do oceano primordial lá em
cima, amparado pela abóboda, e metade aqui embaixo, com uma novidade
chamada “céu” separando uma coisa da outra, Deus encerra os trabalhos do
segundo dia. Na manhã do terceiro, quando o mundo ainda é só céu e mar, ele faz
brotar terra seca. Então aproveita o espaço recém-inagurado para criar os
vegetais. Quarta-feira é dia de instalar o Sol, a Lua e as estrelas na redoma celeste.
Exato: na visão do Gênesis, não existe um “espaço sideral”. O mundo, o Universo
todo, na verdade, é só uma planície enorme com uma cúpula em cima. Além
/
dessa abóboda, o que existe é aquele mar suspenso. E m de papo. A própria
palavra “ rmamento”, que às vezes confundida como uma espécie de de coletivo
para estrelas, é só uma tradução para o latim para raqiya, a palavra hebraica que
signi ca “cúpula”, ou “domo”, e que aparece nesse trecho do Gênesis original. Nas
Bíblias em Latim, raqiya virou rmamentum, no sentido de “ rme” mesmo, já
que essa era a palavra romana para “domo de sustentação” – a interpretação mais
comum em português, de que “ rmamento” vem do fato de que as estrelas
parecem “ xas”, “ rmes”, no céu, é só um mito liguístico.

Mas vamos voltar para o Gênesis que ainda falta muito mundo para construir. Na
quinta-feira, as águas ganham a fauna marinha e o céu recebe as aves. Na sexta é
a vez dos animais terrestres.

Semana praticamente encerrada e… nada de humanos. Nós chegamos só no


nalzinho mesmo. É quando Deus ordena o surgimento de um homem e de uma
mulher, feitos “à imagem e semelhança” dele próprio. E abençoa o casal:
“Tenham muitos lhos; espalhem-se por toda a terra e dominem. E tenham poder
sobre os peixes, as aves e os animais”. A Bíblia continua: “E Deus viu que tudo o
que havia feito era muito bom. Assim terminou a criação do céu, da terra e de
tudo o que há neles”.

E pronto. Acabou. Sem Adão, sem Eva, sem Jardim do Éden.

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——–

Mas não termina aí, claro. A partir do segundo capítulo do Gênesis, o tempo
rebobina. Estamos de novo num vazio. O mundo volta a ser uma folha em branco.
O Deus que fez a luz e criou o mundo em sete dias não existe mais. Quem entra no
lugar é a outra divindade, com um projeto diferente.

Depois de construir o céu e o chão, esse outro Deus já cria o homem de cara, bem
antes de plantar a ora e produzir a fauna. Ele deixa o rapaz solteiro, inclusive,
enquanto naliza o resto do mundo. E só depois decide que não seria mal sua
criatura ter uma fêmea como companheira. Aí sim: é a história que todo mundo
conhece: Adão, Eva, Éden, Serpente…. O que nem todo mundo sabe é que os dois
Deuses envolvidos em cada uma das histórias da criação têm até nomes
diferentes.
/
Para quem lê a Bíblia em português, ou em qualquer outra língua que não seja o
hebraico, é impossível perceber. Mas no idioma original está nítido. Ali, o Deus da
primeira narrativa da criação se chama “Elohim”. Na segunda história, a que tem
Adão e Eva, o nome dele é outro: “Javé”. O texto número um chama Deus de
“Elohim” 35 vezes. O seguinte, de “Javé”. Onze vezes. E sem jamais voltar a usar
“Elohim”. Em português Só que as traduções da Bíblia não usam os nomes
hebraicos. “Elohim” virou “Deus”. E “Javé” foi traduzido como “Senhor”.

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E a mudança de nome não é uma alteração cosmética. A maior parte dos


pesquisadores bíblicos concorda: cada história foi escrita por um autor. O que
indica isso são duas ciências: a arqueologia e a linguística. Na ponto da
arqueologia, está claro hoje que os proto-israelitas, os povos que deram origem
aos autores da Bíblia, reverenciavam El, o deus supremo da região onde viviam. E
“El”, na Bíblia, virou “Elohim”. Engraçado que “Elohim” é o plural de “El”. Porque
plural? Não existe uma explicação. O fato é que a evolução das línguas está cheia
de exemplos em que o plural se tornou sinônimo do singular – “calça” e “calças”,
por exemplo, são duas formas de ser referir ao singular daquilo que veste as
nossas pernas (outro caso, mais célebre, é o da palavra “chopps”, que já foi
sinônimo de “chopp”, até cair em desuso). “Elohim, em suma, virou sinônimo de
“El”.

A linguística também é útil para dissecar a origem do outro deus, Javé. A leitura
do texto original da Bíblia, em hebraico, revela quais são os trechos mais antigos.
Natural. O livro foi escrito ao longo de 500 anos. Se fosse hoje, seria como se um
livro iniciado quando Cabral aportou na Bahia só ganhasse sua versão nal hoje.
Os trechos compostos há 5 séculos soariam como Camões. Os do século 19, como
Machado de Assis (mais provavelmente como Osório Duque Estrada…). Daria
para dizer o quã antiga é cada parte do livro. Com  a Bíblia acontece a mesma
coisa. E aí que vem o pulo do gato. Os trechos mais antigos ali, feitos por volta de
1.200 a.C., dizem que “Javé” é nome de um deus “que veio de Edom e de Teiman”.
Edom cava onde hoje está o sul da Jordânia. Teiman, mais longe, na atual Arábia
Saudita. Diante disso, a conclusão dos especialistas mais citados de hoje, como
Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, e Bart Ehrman, da Universidade da
Carolina do Norte, é uma só: “Javé” é uma divindade importada pelos proto-
israelitas. Algum povo vindo do sul, e que venerava um certo Javé, misturou-se
aos ancestrais dos autores da Bíblia. Tudo isso por volta de 1.200 a.C., a transição
da Idade do Bronze para a Idade do Ferro, e, como mostra a arquelogia, um
/
período de reviravoltas climáticas que causou secas violentas, fome e, por
consequência, gandes migrações humanas. A viagem dos adoradores de Javé até
Canaã, onde hoje cam Israel e Palestina, teria sido uma dessas grandes
migrações – outra hipótese é que a história registrada no livro do Êxodo seja uma
espécie de romantização desse período histórico de grandes migrações.

Seja como for, o fato é que os editores da Bíblia, os israelitas de 500 a.C., foram
respeitosos com os textos antigos que tinham como fonte. Tão respeitosos que El e
Javé aparecem no texto com personalidades nem distintas: enquanto Elohim é
uma gura onipotente e onipresente, que age dando instruções para o Universo
(“Que haja luz!”), Javé é uma divindade mais humana. Ele não ca o tempo todo
distante, no céu. É um personagem pé-no-chão, que está mais para um síndico de
meia-idade: faz caminhadas pelo Jardim do Eden à tarde, checando se está tudo
indo bem no Paraíso (ao cruzar com Adão num desses passeios e ver que ele não
está pelado, como deveria, percebe que existe algo de podre no reino da Criação).

O ponto é que El e Javé eram dois deuses tão distintos quanto Ganesh, o elefante
hindu da sorte, e Odin, o chefe do panteão escandinavo – são divindades
diferentes, cada uma criada por um povo especí co. A dupla acabaria fundida
numa única gura: justamente aquela que os ocidentais hoje chamam de “Deus”,
e os muçulmanos de “Alá”. O nome da divindade única do Islã, vale lembrar,  é
outra variação de “El”, mas criada em outro tempo e outro espaço – a Arábia tribal
onde, no século 7, nasceria Maomé, o homem que reinterpretou o Deus bíblico a
seu modo, tal como Jesus de Nazaré havia feito 600 anos antes.

El, Javé, Alá, Deus… Não importa. Todas essas palavras atestam uma coisa só:
deuses são como os homens. Deuses se transformam. Se adaptam. Evoluem,
en m. Junto com seus criadores.

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