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Contos Eroticos PDF

O autor se apaixonou por uma mulher selvagem e livre que não se preocupava com a aprovação dos outros. Ele admirava como ela simplesmente era, sem metas ou ambições, fluindo pela vida. A primeira vez que a viu foi dançando em um luau, onde ele reconheceu a mulher selvagem dentro dela e dentro de si mesmo através da dança transcendental.

Enviado por

Micaele Moreira
Direitos autorais
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Contos Eroticos PDF

O autor se apaixonou por uma mulher selvagem e livre que não se preocupava com a aprovação dos outros. Ele admirava como ela simplesmente era, sem metas ou ambições, fluindo pela vida. A primeira vez que a viu foi dançando em um luau, onde ele reconheceu a mulher selvagem dentro dela e dentro de si mesmo através da dança transcendental.

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Não me desculparei pelo meu prazer.

Não terei vergonha de


reivindicá-lo. Não pedirei perdão pelo que não tenho culpa.
Não me justificarei sobre os meus motivos. Não odiarei meu
corpo. Não serei obrigada. Não calarei meu gozo. Não temerei
a força do meu orgasmo. Não sucumbirei à força da repressão.
Não cessarei de buscar a plenitude. Não duvidarei da minha
capacidade de ser feliz. Não abandonarei a missão de me tornar
uma mulher cada vez mais inteira. Amém.

Oração da Mulher Inteira


Por Lua Menezes
Aviso às leitoras e leitores

Aqui você vai encontrar uma reunião de contos eróticos


que fui escrevendo e postando nas redes sociais. Eles estavam
soltos por aí e acabaram pedindo um corpo pra habitar - pra
melhor serem degustados. Esse livro é um corpo de carne
erótica, olhos treinados pra ver beleza, boca e peito e pernas
abertas pro mundo.

Pra esse ebook, selecionei nove contos com uma


pegada parecida pra dar uma certa unidade. São escritos
extremamente humanos e quis trazer essa pegada da
humanidade pra relembrar que nós somos seres sexuais e há
poesia nisso.

Como escritora e artista, só espero que essas palavras, essas


experimentações da linguagem erótica, escritas com tanto
carinho e tesão (às vezes também com uma pitada de dor), te
façam sentir a poesia da carne. Aliás… que te façam sentir. O
quê… bom, isso não me pertence, isso é seu. Só espero que
você sinta. Cada vez mais, com mais coragem, profundidade e
verdade.

Bom deleite!

Lua Menezes
Sumário

Fêmea 1
Selvagem 4
Quer Brincar? 9
Lua Nova 13
Ninho 18
Pega Pega 22
Lua Cheia 26
Amar é feminino 30
Nirvana 34
Sobre a Autora 37
z
Fêmea

O homem que acha que mulheres são seres “menos sexuais”


é um tolo. É um homem que não conhece a força do cio
de uma mulher, a força da fêmea. É lua cheia e tudo em mim
uiva, minha buceta lateja, e feito loba já escolhi a única caça que
me interessa. Ele vem me pegar, entro no carro, vou de vestido
longo vermelho, sem sutiã e sem calcinha. Ele diz boa noite e seu
sotaque carioca, todo malemolente, me derrete um pouquinho.
A gente se cumprimenta com um beijinho molhado na boca. No
semáforo, ele faz um carinho na minha coxa, todo inocente -
quando a mão sobe e alisa meu quadril ele percebe que tô sem
calcinha e me olha entre surpreso e sorrindo, sentindo meu
cheirinho de quem precisa dar.

É uma noite quente, o plano era sair pra jantar, mas ele muda
de ideia: me leva direto pro seu apartamento, sobe meu vestido
no elevador, a gente entra se beijando, esbarrando nas coisas,
perdendo as roupas, sem tempo de acender a luz ou colocar
música. Pela varanda entra a luz prateada da lua cheia e assim
quase no escuro eu vejo só a sombra dos seus músculos e sei que
ele só vê as curvas do meu corpo. Quando todas as roupas caem
no chão, a gente se abraça e se aperta em pé no meio da sala,

1
desacelerando um pouco, ele beija meu pescoço, cheira minha
nuca, eu rio farta porque antes de sair molhei de leve o dedo na
buceta e passei a minha aguinha no cantinho atrás da orelha -
calculista, sei que feromônio é perfume e enlouquece. Funciona.
O pau dele sobe e pressiona minha virilha.

Ele me joga no sofá e vai lambendo tudo, meus seios, minha


barriga, até chegar na buceta - ele para pra me olhar, vejo o
branco do seu olho sorrindo e mesmo no escuro sei que é um
sorriso safado, provocador, coloco as duas mãos na sua cabeça e
ele começa a me chupar, me sinto poderosa assim, com ele entre
minhas pernas e eu segurando sua cabeça, rainha da buceta
toda, gemo grave, atormentada pela lua e amolecida pela brisa
que entra pela janela, uma brisa molhada e morna de maresia, o
ar salgado do Rio de Janeiro, a buceta escorre numa maré louca,
então ele para, fica de pé, nu, carioca, bronzeado, vaidoso, barba
longa e bem cuidada, segurando o pau já duro na mão.

Ele sabe o tamanho da gula da sua fêmea, sabe que preciso de


muita carne pra me fartar - e só de pensar no banquete eu salivo.
Ele balança o pau na minha direção e pergunta: é isso que você
quer? É isso que eu quero, digo baixinho, é isso que eu quero.
Ele finge que não ouviu. Falo alto, sonora, articulada: é teu pau
que eu quero. Dentro de mim, gatinho. Ele sorri, dourado, cheio
de malícia, molha o pau de saliva e, sabendo que hoje ele é a
presa, se senta humilde no sofá, servil, dócil, delicioso, aponta
pro pau que me espera altivo e me diz: é teu.

Eu me levanto, fico de pé na frente dele, me curvo, lambo a


glande suavemente, sem pressa, pra torturar mesmo, ele solta
um suspiro, dou o bote: abocanho seu pau o máximo que
consigo, com fome disso, dele, quero tanto comer esse homem,

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meu deus, quero cada pedacinho dele dentro de mim. Tiro o
pau da boca e sento devagar, desmontando enquanto o sinto
me preenchendo, vou amolecendo, quase desmaiando, ele ao
contrário, endurece ainda mais, com um sorriso dormente de
canto de boca - quase sofro quando chego no fim, é um fim
delicioso, o pau dele todo dentro e eu já sem léxico e sem razão.

Ele segura minha bunda e me puxa pra mais perto, vem cá,
gatinha, ele sussurra todo suplicante, vem, juntinho, vem, e eu
que nunca tinha gostado do sotaque carioca pago pela língua e
gozo pelos ouvidos, me agarro no seu pescoço e colo meu peito
junto do dele, a gente tá quente e suado, a gente pulsa juntos,
ele me dá um tapinha na bunda, eu cavalgo devagar, ele está ali
pra mim, firme e sólido, no meu tempo, do meu jeito, roço o
clitoris nele até gozar, ele espera o meu orgasmo, mas eu quero
mais, descolo dele, enfio dois dedos na sua boca e com sua
saliva me masturbo, gozo de novo, ele parece estar tentando se
controlar, ele quer me dar mais, acho bonito, mas agora quero
tudo dele, quero fazer ele sofrer de prazer, então rebolo mais
rápido e mais forte, ele entende o que tô fazendo, entende que tö
dizendo pode gozar, gatinho, e não resiste, se rende, fica parado
de braços abertos como o Cristo Redentor e de olhos fechados
me deixa comê-lo, até que suas pernas começam a tremer e ele
goza lindamente - caímos os dois acabados no sofá, ele faz um
carinho no meu cabelo desgrenhado e diz: tigresa, é um prazer
ser devorado por você.

3
z
Selvagem

E u me apaixonei por ela por tudo que ela era e eu não tinha,
por tudo que ela representava, pelo modo como se movia
no mundo e parecia não se preocupar com nada - ela era tão
silvestre, como um animal selvagem que não pode nem deve
ser domesticado. Sua natureza era e sempre foi e sempre será:
ser livre. Ela não pertencia a nada e a ninguém, vivia um dia
de cada vez e se deleitava com os prazeres mais simples da vida
– como boa taurina, ela gostava de comer, transar, estar entre
amigos. Cantarolava de vez em quando. Sorria sempre.

Ela não sabia o que queria fazer da vida, estudava engenharia


ambiental, mas pensava em mudar pra gastronomia, ao mesmo
tempo queria viajar o Brasil pegando carona, parando em praias,
chapadas e comunidades alternativas. Ela não precisava de
luxo e só usava roupa de brechó. Onde ela ia todo mundo se
encantava por ela, era desse tipo de gente que ilumina por onde
passa, que conversa com todo mundo, que contagia com seu
riso fácil.

Naquela época, eu ainda me preocupava tanto com a


aprovação dos outros, ainda tentava provar tanto de mim,

4
provar minha beleza, inteligência, eficiência, queria tanto ser
vista, reconhecida, aceita, e isso era um desgaste, era uma peleja
inútil e vã, de que adiantava provar qualquer coisa pros outros
se eu ainda duvidava do meu valor, se no fundo eu era minha
maior crítica e minha maior carrasca?

Admirava como ela não tentava nada – ela só era. E isso que
ela era... era uma coisa relaxada, preguiçosa, fluida, ela parecia
não ter meta na vida, era como um rio, como águas que correm
sem saber pra onde, só correm. Ao mesmo tempo ela era tão...
terrena. Tinha as cores e a corpulência da terra, curvas de musa
renascentista, seios fartos, ventre redondo, pele morena, longos
cabelos castanhos, e se vestia quase sempre com tons de verdes
e marrom.

A primeira vez que a vi foi num luau em Pirangi, uma praia


de veraneio na esquina do Nordeste, tinha gente cantando
e tocando, tinha música e festa, ela estava dançando de saia
rodada e pés descalços sob a luz das estrelas e da lua crescente
que sorria pra nós, algo em mim, na minha fome, se retorceu –
era desejo, mas era também identificação. A mulher selvagem
dentro de mim reconheceu a mulher selvagem dentro dela.

Naquela época eu estava começando a descobrir a potência


mais profunda e primitiva da dança. Eu, que fiz anos de balé
pra remediar os pés tortos, que fiz dança contemporânea na
faculdade porque sempre amei dançar, mas que na verdade
não me sentia boa o suficiente, que culpava meus pés pelo meu
desequilíbrio na vida… estava descobrindo algo completamente
novo: o transe. Um grande amigo meu, um dos melhores
bailarinos que conheço, havia me dito um dia: dança não é
técnica, é estado.

5
Suas palavras ressoaram dentro do meu peito. Eu estava
começando a compreender toda a verdade disso, estudando
dança do ventre e sentindo a serpente que me habita, indo pra
raves e dançando por horas e horas de olhos fechados e pés
descalços numa comunhão tão profunda com a terra e com
meu próprio corpo que às vezes parecia um gozo. Não parecia,
era. Quando conseguimos transar com a dança a ponto de se
fundir com ela, de não ser mais a dançarina, mas a própria
dança, sem ego, sem noção de tempo, sem medo do julgamento,
sem se importar com o olhar dos outros… dançar é um gozo.
Uma coisa eu aprendi nessa época: quem passa pela vida sem
dançar está perdendo uma das maiores graças de estar vivo.

E assim estávamos quando nos conhecemos: dançando. Os


meus movimentos eram sinuosos e ondulantes, toda ninfa,
serpente, odalisca da praia, os dela eram fortes e possessos, toda
índia, xamã, bruxa em transe, ela batia os pés no chão como se
quisesse acordar a terra - e acordou.

Um amigo nos apresentou, a gente bebeu vinho e dançou


juntas, uma dança estranha e sensual, da dança brotou um beijo
e isso me embriagou mais do que todo o resto. A gente encaixou
as pernas num nó e esfregamos as bucetas uma na coxa da outra
- a força da gravidade dela me puxava pra baixo, pra lava do
centro da terra, pra lava de dentro da buceta, e só de roçar nela
eu já tava quente, a ponto de ebulição. Mas o que me fez tremer
na base foi quando ela sussurrou no meu ouvido: corre comigo.

6
Escutei seu chamado. Ela me pegou pela mão e a gente correu
pro lado escuro da praia, pra trás das pedras e coqueiros, ali
estendemos nossas cangas e nos deitamos sob a luz cintilante
das estrelas, rindo e se beijando. Ela parecia tão mais confortável
que eu, tão mais experiente, confessei: não sei o que fazer. Ela
deslizou a mão até minha buceta, enfiou dois dedos dentro de
mim com maestria e disse: me mostra tua força. Não entendi
com o pensamento, mas entendi com o corpo – levei meu
dedo até o clitóris e enquanto ela manejava os dedos na minha
buceta expliquei pra ela como gostava e onde era meu ponto
g, ela aprendeu rápido e executou com perfeição, me mirando
fixamente.

Fui encharcando, a maré foi enchendo, a gente riu do som


das ondas misturado com os sons da buceta molhada, e eu, que
sempre gozo de olhos fechados, gozei de olhos abertos com seu
olhar penetrando o meu e as estrelas pipocando na periferia
do meu olhar. No ápice do gozo, ancorada no seu olhar negro
e profundo, meu gemido foi um uivo; no corpo, uma energia
selvagem chacoalhou pra fora da minha pele os medos, receios,
nóias, quando parei de tremer fechei os olhos por um segundo,
não escutei nada além do vento, do mar e do meu coração
batendo forte no peito, e nessa escuridão e nesse quase silêncio
me veio uma clareza, uma lucidez intensa: senti meu corpo
forte, bonito, senti minha coragem de viver, de aprender, de me
arriscar, entendi e acolhi minha necessidade de aprovação, sim,
eu quero ser amada e tá tudo bem, mas não preciso fazer tanto
esforço. Eu sou digna de amor. Meu corpo, até o que é torto, é
digno de amor. Entendi que a dança e o orgasmo me ensinam a
mesma coisa: estar viva é bom quando a gente não pensa demais.

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Abri os olhos me sentindo agradecida, querendo agradecer.
Ela estava sorrindo um sorriso plácido, quase como uma santa,
iluminada pela meia luz da lua. Com meus olhos de clareza eu vi
que: aquilo que admirava nela... já tinha dentro de mim.

8
z
Quer Brincar?

E le era perito na arte da provocação. O nosso primeiro


encontro foi no seu apartamento, um prédio antigo nas beiras
do centro de São Paulo. Eu sabia o que queria e tinha chegado lá
determinada, impaciente, sem saco pra joguinho e machucada
com as coisas do amor. Cheguei pronta pra atacar, unhas negras,
batom escuro e lingerie de renda preta transparente. Ele abriu a
porta sorrindo e com um gesto me convidou pra entrar. Abriu
uma garrafa de vinho, colocou uma playlist descaradamente
sensual, cremosinha, me mostrou seus discos, bolou um tabaco,
se movimentando pela sala com uma lentidão insuportável,
cada movimento levando uma eternidade, na mais absoluta
falta de pressa. Bebendo o vinho a gente começou a conversar
sobre a vida, sobre filosofia, sobre ex-amores, ele me contou que
foi traído, eu contei que fui abandonada, e ali naquela confissão
sincera, naquela crueza sem medo de parecermos fracos um pro
outro, alguma coisa mais profunda que só tesão se estabeleceu:
nos revelamos humanos, terrivelmente humanos, sem pose e de
coração partido.

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Depois de abrir o coração, abrir as pernas é um pulo,
conversamos sobre putaria, sobre ménage, sexo em lugares
públicos, eu falei da praia e do mato, ele falou de becos e escadas
de prédio. A gente riu das nossas diferenças, eu nordestina, ele
paulista - isso claramente refletido até nas nossas aventuras
sexuais. Ele contou do seu trabalho como tatuador, eu contei
do meu trabalho como atriz, conversamos sobre criatividade
e bloqueios, assunto que sempre me excita, mas o que mais
me enlouqueceu foi quando ele falou que se sentia grato por
trabalhar com arte - pra mim não há nada mais sexy do que
gratidão. Observei seus braços tatuados, o bigode todo hipster,
o cabelo raspado na lateral, e por um lapso imaginei aquele
bigode roçando na minha buceta.

Ele deve ter falado alguma coisa que não respondi, porque de
repente percebi ele me olhando inquisidor e pensei, desculpa,
o que você tava dizendo? Me distraì pensando em você me
chupando, mas disse só a primeira parte, desculpa, o que você
tava dizendo?, ele repetiu: que quando tatuo, o tempo pára, e eu
soube exatamente do que ele estava falando porque sinto isso
quando estou no palco. É como uma meditação!, dissemos os
dois ao mesmo tempo. Então a gente riu, tomou mais vinho e
por alguns instantes esqueci da minha impaciência.

Com o vinho descendo pela garganta e essa conversinha toda


entrando pelos ouvidos, fui ficando cada vez mais molinha
e molhada e querendo pular em cima dele, mas cada vez
que me aproximava ele se esquivava. Tudo foi acontecendo
estupidamente devagar. Primeiro uma mão furtiva na coxa.
Depois uma aproximação tímida, ele chegou perto, me deu um
cheirinho na nuca, me arrepiei, fechei os olhos, abri a boca, me
preparei pro beijo, mas ele se afastou e todo gentil levantou do

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sofá e foi encher a minha taça. Fiquei de boca aberta e com cara
de boba. Quando olhei pra ele sem entender nada, vi o bonito
com cara de orgulhoso. Entendi que não era timidez nem
lentidão o seu mal, era premeditação.

Então ele voltou, sentou, chegou perto de novo, a ponta do


seu nariz encostou no meu, nossos olhos abertos, a gente se
olhando, ele lambeu meus lábios, a gente começou a se beijar
um beijo lento, quase parando, relaxei e pensei, agora vai, mas
ele logo levantou de novo e inventou de ir fumar na janela - o
tempo todo sorrindo e me olhando de canto de olho. Entendi e
perguntei: ah, então você quer brincar?

Ele riu e não respondeu nada. Deu um gole longo no seu


vinho. Eu me aproximei calculando cada passo com a precisão
de uma onça, rocei meu corpo no volume da sua calça, observei
ele estremecer... dei um trago junto com ele, chapamos juntos,
voltei pra pegar a minha taça que tinha deixado de propósito
em cima da mesinha só pra ter uma desculpa pra me afastar
dele. Sentei no sofá e como quem não quer nada, o mais cínica
e séria e desinteressada que consegui ser, disse: eu tô doida pra
te dar, sabia? Isso ele não tava esperando. Não aguentou e veio
até mim, me beijou de verdade, com paixão, com ansiedade,
mordendo meu lábio, sussurrando que me queria tanto, mas
logo depois, não sem certo esforço, se separou de mim e foi
“mudar a playlist”.

Assim ficamos, nesse vai e vem, como imãs sendo puxados e


depois se colando de novo. A cada separação ficava uma tensão
no ar e uma peça de roupa a menos no corpo. Ele ria de um lado,
eu me contorcia de desejo do outro – nunca fui boa em esperar.

11
Não sei quanto tempo durou essa brincadeira. Só sei que as
roupas foram caindo aos poucos e que uma hora eu tava nua
no sofá e ele nu na janela, achei bonito ele de perfil, soprando
fumaça de pau duro, todo tatuado, todo com carinha de mal,
mas ao tempo tão doce, tão meigo. Era isso que mais me atraía
nele, era isso que mais me fazia querer dar pra ele. Quando seu
olhar cruzou com o meu, eu sorri e fingi precisar me alongar,
me espreguicei no sofá como uma gata, soltando um suspiro,
empinando a bunda na sua direção e abrindo um pouquinho
as pernas pra que ele visse o que estava esperando por ele - esse
ângulo ele ainda não tinha tido o privilégio de admirar.

Foi o xeque-mate. Ele não suportou mais e veio até mim, ficou
de joelhos e encarou minha buceta, disse que ela era linda e
com mãos hábeis começou a masturbar - tão leve, leve do
jeito que mais gosto, leve como nenhum outro homem jamais
tinha conseguido ser, santas mãos de tatuador. Não aguentei
esperar pra gozar, queria ele perto, dentro, não aguentava mais
essa distância, deslizei meu corpo do sofá até o chão onde
ele estava ajoelhado e o beijei, foi um beijo louco, molhado,
sedento, minha buceta roçando contra sua pélvis, sentindo seu
pau pulsar, e quando a espera ficou insuportável, quando o pau
dele já tinha começado a doer, uma camisinha apareceu não
sei de onde e sentei dando graças a deus, foi um sexo cheio de
tesão, expectativa e antecipação, e o que construímos foi tanto
que uma vez só não foi o suficiente. Primeiro trepamos foi no
chão, depois no sofá. Precisamos de uma pausa pra respirar,
mais vinho e pra fazer xixi. Quando voltei do banheiro ele
estava de novo escorado na janela, fui até ele, nos abraçamos
e contemplamos a cidade enevoada lá fora. Com o roçar da
minha bunda contra seu corpo ele cresceu de novo e trepamos
mais uma vez, gritando pra cidade que não dorme.

12
z
Lua Nova

E la tinha acabado de sair do banho quando de repente faltou


luz no apartamento. Ainda nua e molhada, ela tateou a
toalha no escuro, se enrolou e foi até a janela pra ver se tinha
sido só no seu prédio, no meio do caminho esbarrou na quina
da cama e xingou deus e o mundo. Era lua nova e o céu tava
escuro, nublado, sem estrelas. Tudo apagado lá fora. Parecia que
tinha faltado energia no bairro e no céu inteiro.

Ela observou a escuridão, a cidade apagada, passou um vento


e ela se arrepiou, a pele ainda úmida do banho. Mas foi mais que
um arrepio, foi um sopro frio na coluna, como um redemoinho
subindo pela espinha - uma sensação estranha que ela não soube
ler, por isso interpretou como um pressentimento ruim e temeu
algo que não sabia o que era nem conseguia sequer enxergar.
Talvez fosse só a ansiedade lhe visitando novamente.

Foi então que ela sentiu algo escorrendo quente pela parte
interna da sua coxa - lembrou que estava menstruada. Voltou
pro banheiro, esbarrando na mesma quina e xingando mais que
da primeira vez, se agachou, os pés descalços no azule frio, abriu a
portinha do armário debaixo da pia e tateou no escuro por absorventes.

13
Ela finalmente lembrou que tinha esquecido de passar na
farmácia e que tinha trocado o último absorvente no trabalho.
Se ela já tinha xingado deus e o mundo antes, agora xingou três
vezes mais. Como, no escuro, ela ia sair pra comprar absorvente?
E mesmo que fosse, ela ia sangrando? Melando tudo, passando
vergonha? Então ela teve uma ideia brilhante: podia ligar pra
farmácia. Voltou pro quarto, procurou o celular na bolsa, ligou,
ouviu a voz metálica da atendente do outro lado dizendo “boa
noite” e quando estava prestes a fazer o pedido… morreu a
bateria.

Sozinha em casa ela gritou palavrões indignados, subiu uma


raiva quente da barriga até o rosto, a face pegando fogo, que
dia merda, ela pensava repetidamente, como um mantra, que
dia merda, um desses dias que dá tudo errado, o trabalho uma
merda, o trânsito uma merda, como se não bastasse o dia inteiro
com cólica… e agora isso. Era tanta raiva, tanta frustração…
que deu vontade de chorar. Ela chorou, exausta. Na sua cabeça
repassava tudo que estava errado na sua vida, tudo que não ia
como ela desejava ou esperava, se sentiu fracassada e vítima do
mundo.

Deitou na cama, frustrada, derrotada, sem forças até pra


chorar, e encarou a escuridão. Tudo parecia mais silencioso
que o normal. Outro vento fresco entrou pela janela e arrepiou
sua pele de novo. Os mamilos enrijeceram. Dessa vez, foi um
arrepio diferente, talvez tenha sido o mesmo, mas ela sentiu
diferente. Desse arrepio brotou uma ideia: sutil, sorrateira,
esperançosa, talvez. O sangue escorreu pelas suas virilhas e
ela fez um gesto, enxugando com a barra da toalha - era uma
toalha vermelha, então ela não se importou muito em manchar.
O toque da toalha ali na virilha, roçando perto da buceta, foi
inesperadamente... bom.

Ela estranhou aquilo, aquela sensibilidade toda, ela tava meio


sem libido ultimamente, com preguiça de transar, na hora h não
conseguia calar a mente, os pensamentos super lotando tudo
e correndo na velocidade da luz. Com dedos duvidosos, ela
tocou a entrada da vagina, tava quente, molhada, seus dedos
logo se lambuzaram de sangue. Ela nunca tinha realmente
tocado o próprio sangue, sempre tinha tido um pouco de
nojinho, distância. Mas nesse momento, ela achou o toque
gostoso, aveludado. E com os dedos assim lambuzados tocou a
vulva, seus lábios carnudos, seus pelos e a cada toque subia uma
ondazinha suave de calor.

Ela fechou os olhos e se permitiu se tocar, não esperando


nada - ela tava tão cansada que não esperava nada, estava
completamente rendida, mas ao mesmo tempo levemente
curiosa, aquelas ondinhas mornas de prazer que nasciam no
clitóris e subiam pela coluna eram gostosas, reconfortantes, por
que não continuar? Era só um carinho. Com os dedos molhados
de sangue, ela continuou. A buceta contraiu e relaxou, contraiu
e relaxou, enviando ondas maiores de calor e tremedeira por
todo o corpo, cada pelinho se eriçando.

Ela deixou o corpo pesar, amolecer na cama e continuou


dançando o dedo sobre o clitóris, a boca aberta respirando o
hálito da noite escura, soltando uns sons baixinhos, graves, que
ela mal percebia, a única coisa que percebia agora era a fervura
que crescia na buceta, o corpo em ebulição, pernas tremendo,
ondas cada vez mais potentes de febre e prazer, um êxtase
denso, escuro, profundo. Sem noção de tempo, ela sentiu tudo

15
isso crescer, crescer, até explodir num orgasmo que pareceu lhe
puxar pra baixo, pro centro da terra, ela se sentiu ser engolida
pela escuridão, mas era uma queda boa e, sem se dar conta, da
sua boca aberta saiu um grito, um grito de alívio e liberação.

Quando o corpo parou de tremer, ela abriu os olhos, mas tudo


ainda era escuridão. Estatelada na cama de pernas abertas e
braços estendidos ao longo do corpo, ela se sentiu subitamente
acordada, com uma energia tilintante nas mãos e no rosto. Ela
se observou. A cabeça parecia limpa, vazia, sem pensamentos.
O corpo... leve e pesado ao mesmo tempo. O útero, que antes
estava contraído e dolorido, parecia relaxado, ela nunca tinha
sentido isso, o útero relaxado, mas sabia que assim era. Então
lhe deu uma súbita vontade de rir: ela riu, um riso que ecoou no
quarto, no apartamento, no bairro, na cidade, no mundo inteiro.
Um riso sincero de mulher que gozou.

Quando se levantou pra beber água não se importou em se


enrolar com a toalha, foi nua mesmo, sentindo na pele sensível o
vento que corria pelo corredor do apartamento. Também não se
importou se ia pingar sangue no chão. Depois era só limpar. Era
simples. Por que se preocupar tanto com coisas tão pequenas?,
meu deus, como ela se preocupava com coisas pequenas!, ela se
deu conta e nada disso fazia sentido agora. Chegou na cozinha
sem esbarrar em nada no meio do caminho, estava desperta e se
movia como se fosse capaz de enxergar no escuro. Encheu um
copo d`água e bebeu prestando atenção em cada gole. Percebeu
que mal tinha se hidratado durante o dia. Nunca na vida beber
água tinha sido tão delicioso. Meu deus, ela não era uma vítima
do mundo. Ela tinha água fresca, teto, cama, comida, clitóris.
Ela tinha problemas, claro. Mas ela tinha tudo que precisava
pra resolver, só faltava paciência. Só faltava paciência. Isso lhe

16
pareceu a maior revelação de todos os tempos. Ela agradeceu -
pela epifania, a água, o gozo.

Foi caminhando de volta pela corredor até o quarto, pensando,


toda leve, que talvez devesse experimentar um daqueles
coletores ou calcinhas menstruais que viu na internet. Pareceu
uma boa ideia. Quando chegou no quarto foi de novo até a
janela e olhou pra fora: as nuvens tinham se dissipado, o céu
tinha se aberto e se exibia todo manhoso e cravejado de estrelas.
Ela viu os pontinhos de luz brilhando alegres no manto negro
da noite sem lua e sorriu. Talvez fosse um bom presságio.

17
z
Ninho

É um fim de tarde de sábado comum, ordinário, banal, lá fora


o sol cai sem pressa e sem alarde, algumas nuvens passam
se espreguiçando no horizonte, assisto tudo da varanda e me
lembro do verso de Manoel de Barros: é no ínfimo que eu vejo a
exuberância. Volto pra sala e acendo um incenso de lavanda. Ele
está no sofá lendo um livro, assim como a tarde estupidamente
comum, ordinário, banal, com uma roupa velha de ficar em casa.

Eu respiro e tenho um instante de absoluta lucidez. Contemplo


essa calmaria, o privilégio de ter uma varanda com vista pro mar,
o conforto dessa casinha que chamamos de nossa, cada coisinha
que compramos juntos, as almofadas, o tapete, a luminária de
sal rosa do himalaia, as plantas batizadas com nome de gente…
esse é o nosso ninho, nosso lar, nosso cotidiano. Esse cotidiano
ordinário me basta.

Tô tão cansada de gastar tempo e coração desejando sempre


algo a mais, algo que não está aqui, algo qualquer no futuro, algo
grande, inexistente e fantasmagórico. O ínfimo é exuberante
e o presente é suficiente - sei e sinto e preciso me lembrar
constantemente porque é tão fácil esquecer. É tão fácil colocar

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a felicidade lá na frente e achar que só serei feliz e realizada
quando conquistar isso e aquilo. O que tenho agora é bonito.
Esse saber me preenche o peito - é contentamento o nome disso.
Olho pra ele lendo e desejo que ele me preencha também.

Não é um desejo faminto, não sinto pressa nem afobação, é


suave, sereno, como aquela música do Cazuza, deve ser isso
a sorte de um amor tranquilo, certamente tem sabor de fruta
mordida. Sento do seu lado e olho pra ele. Meu namorado, meu
marido, meu amigo, meu amante. O homem com quem escolhi
dividir a vida. Até quando, não sei. Não sei se acredito em
pra sempre. Mas acredito profundamente na infinitude desse
momento. Quando a gente sabe estar presente não falta tempo.
Olho pra ele e o vejo. Andei trabalhando demais esses dias,
focada, determinada… obcecada, na verdade, talvez seja uma
palavra mais justa. A gente quase não transou. Eu quase não
pensei nele. Tava conectada no celular, no e-mail, nos deadlines,
nos projetos. Quase não dei atenção pra gente. É tão fácil se
distrair. Ele me percebe o encarando e levanta as sobrancelhas
como se perguntando “que foi?”.

Nada, digo. Mas a resposta completa na verdade seria: eu tô me


lembrando que te amo e escolhi estar com você. Então lembro
que ele não lê mente e falo em voz alta. Ele sorri e abaixa o livro.
Repito tudo isso na língua do beijo. É um beijo lento, molhado,
nossos lábios se sentem, minha buceta acende. Quando a gente
para de se beijar é quase como sair de um encantamento. Ele está
sorrindo e faz de conta que quer continuar a ler, mas eu sei e ele
também sabe que a leitura chegou ao fim. Tudo começa comum,
ordinário, banal. A gente se beija. A gente se olha nos olhos. A
gente ri e tira a roupa sem fechar as cortinas. A gente não liga
se alguém espiar a gente. A gente se toca como já se tocou um

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milhão de vezes. A gente se chupa num meia nove que não dura
muito tempo porque quando começo a sentir prazer esqueço de
chupar. Ele, por sua vez, continua fazendo seu trabalho e nunca
reclama do meu esquecimento. A gente chega naquele ponto
em que minha buceta tá pronta e o pau dele lateja. A gente tem
tempo e não quero que a gente se apresse. Vou no quarto e volto
pra sala com meu vibrador favorito.

Deito na frente dele de pernas abertas e ele ri sabendo


exatamente o que quero. Ele me beija e enfia dois dedos
devagarinho na minha buceta, esperando paciente enquanto
eu posiciono o vibrador sobre o clitóris. Respiro fundo e deixo
meu corpo amolecer. Não gemo. Ainda não. Ele faz o que
faz de melhor: escava e estuda meu interior, compenetrado e
sério, o olhar cravado no meu rosto, observando cada mínima
reação. Deixo minhas pernas se abrirem mais um pouquinho,
liberando a tensão da semana, as preocupações, as nóias
desnecessárias que de vez em quando ainda me pego nutrindo.
Aos poucos minha respiração vai pesando e o toque dele também
- ele pressiona pontos dentro de mim que me reviram inteira.

Sinto a buceta se encharcando aos poucos, um prazer que


desordena as estranhas, que vem das profundezas, pesado e
denso e que só é bom porque estou mole e entregue, se estivesse
tensa… doeria. Mas não dói, já aprendi que quanto mais relaxo,
mais profundo é o êxtase. Já aprendi que contrair os músculos
e tensionar o corpo pode até acelerar o orgasmo, mas é um
orgasmo que não tem tempo de adentrar fundo na carne dura.
A carne mole não oferece resistência: o prazer penetra fundo e
cresce por dentro até explodir chacoalhando o corpo inteiro. Eu
me contorço e acho que grito - não tenho certeza e não penso.
Com muito custo consigo articular em voz alta: vem logo que eu

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tô morrendo - suplico (sempre dramática na hora do prazer e sei
que ele gosta).
Diante da minha súplica ele sorri e me ama - já conheço a
carinha que ele faz quando tá me amando e ver essa carinha
sempre me dá um conforto bom no peito. Então ele vem, com
aquele pau lindo, duro, grosso e rosa empunhado na minha
direção. Eu coloco as pernas pra cima e ele coloca uma almofada
debaixo da minha bunda. Eu gosto dessa posição porque assim
ele toca meu ponto g, ele gosta porque acha bonito me ver
arreganhada. Pego meu vibrador e gozo de novo. Ele pergunta
se tô satisfeita. Eu tô. Sei que ele tá falando de sexo, mas eu tô
falando da vida.

Ele me pede pra eu deitar de barriga pra baixo e sou toda sim
pra ele agora. Ele goza na minha bunda e nas minhas costas e é
como uma chuva quente de verão. Ele cai do meu lado ofegando
e a gente tenta se abraçar sem melar o sofá de porra. A gente
sorri um pro outro e fazemos alguma piada que não lembro.
Com certeza é uma piada boba, sem graça até. Mas a gente ri.
A gente ri porque a gente tá contente agora e porque há amor
aqui. Deitada no sofá e no seu peito, rindo de qualquer besteira,
estou no fundo me lembrando que por tanto tempo busquei
a intensidade, as paixões loucas, violentas, por tanto tempo
achei que amar era uma dor no peito, uma agonia constante...
e agora tenho essa oportunidade incrível de reaprender o amor,
esse amor que é ninho e não dói. Não, não dói. Hoje sei que o
que dói é o apego, o medo de perder, o ciúme, a insegurança
e a vontade de controlar. Amar é só bom e há intensidade na
serenidade. A tarde continua caindo. A gente escolhe um filme
na Netflix e tenta seduzir um ao outro pra ver quem vai levantar
pra fazer pipoca. Eu vou. Eu vou porque estou grata por poder
experimentar amar em paz.

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z
Pega Pega

T ava tudo meio escuro, luzes coloridas piscando e ela cheia


de glitter na cara e no decote dançando de olhos fechados
no meio da pista de dança. Eu a olho de longe enquanto meus
amigos gritam no meu ouvido que estão cansados e querem ir
embora. A festa mal começou, respondo. Não consigo ouvir o
que eles argumentam de volta, a música tá alta demais ou talvez
eu que tenha me distraído porque, nessa hora, ela, estrela da
pista e do meu coração que se encanta fácil, abre os olhos e seu
olhar encontra o meu, como uma flecha subitamente atirada.
Ela sustenta o olhar, eu desvio, nervosa.

Decido que vou ficar na festa. Meu corpo ainda tem muito pra
dançar, eu digo pros meus amigos e pra mim mesma. Verdade
não deixa de ser, mas tem outro outro motivo também: um
motivo cheio de glitter na cara e no decote. Meus amigos me
abraçam e se despedem, perguntam se vou ficar bem sozinha,
pedem desculpas por estarem tão velhos, balbucio que sim,
tudo bem, mas não estou prestando muita atenção, estou mais
preocupada com ela que sumiu da minha vista. Procuro seu
rosto entre os outros rostos. Nenhum brilha como o dela.

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Vou até o bar como quem não quer nada, não a encontro. Dou
uma volta, não a encontro. Procuro na fila do banheiro, não a
encontro. Talvez ela tenha ido embora. Talvez meu destino seja
mesmo ficar sozinha. Sacudo esse pensamento da minha cabeça.
Estou sendo catastrófica, é o que minha psicóloga diria. Desisto
e danço. Meu corpo quer dançar, sacudir a poeira, os ossos, o
peso nas costas. Me lembro o propósito da saída de hoje: celebrar
o começo de um novo ciclo.

A semana foi difícil, terminei o namoro e a menstruação


veio com dor, claro, como não doeria?, o útero, do tamanho de
um punho, é meu segundo coração e sente tudo. Meu coração
apertou, o útero se contraiu, foi uma coreografia dolorosa. Eu
sei que aquela dor era apego, um restinho de mim querendo se
apegar àquilo que se acabava e a cólica era minha resistência em
deixar ir, em deixar fluir - o sangue e as lágrimas. Afinal deixei.
Tudo que estanca apodrece ou adoece. Terminei o namoro e
aqui estou.

Estou aqui pra celebrar, me lembro disso. Danço de olhos


fechados, rebolo, o quadril solto, ondulante, permissivo, tudo
está se permitindo em mim, por um momento esqueço que
estou cercada, só existe eu e a dança, sobe um calor, começo a
suar e é bom, quero mesmo é transpirar tudo. Quando abro os
olhos ela está na minha frente, não no meio da pista, na minha
frente, a um passo de mim, me olhando e sorrindo, o glitter
brilhando na pele negra.

Ela é linda, grande, com uma cabeleira cacheada que parece


uma auréola brilhando sob as luzes coloridas.

Tomo um susto, mas chego junto, não sei de onde vem essa

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coragem, na verdade, certas coisas só precisam que a gente
tome coragem pra dar um passo: o primeiro. Eu dou. Estamos
cara a cara e sorrimos uma pra outra. Dançamos juntas. Rimos.
Tentamos conversar apesar da música alta. Falhamos. Entendo
o nome dela, que ela trabalha com moda, é ativista, filha de
Iansã e tem três gatos, o resto se perde no batidão.

Ela faz um sinal que está com sede e vamos no bar pegar uma
água. Ela pergunta, direta: hétera? Livre, respondo. Ela sorri.
Digo que preciso ir no banheiro, ela me acompanha. A gente
não precisa falar nada. Eu entro e ela também.

Ela me beija ou eu a beijo, não sei, só sei que quando me dou


conta a língua dela tá dentro da minha boca, tem gosto de álcool
e chiclete, seus lábios são carnudos e gostosos de morder, não
tem muito espaço pra duas nessa cabine apertada, mas a gente
não precisa de espaço, colamos as peles suadas uma na outra, ela
enfia a mão debaixo da minha blusa e brinca com meus mamilos.

Minha buceta imediatamente acende, deixo as alcinhas da


blusa caírem sobre os ombros e ela vai beijando meu pescoço,
minha nuca, tudo em mim se arrepia, ela pega meus seios com
as mãos em concha, me olha safada de baixo pra cima, e brinca
de passar a língua bem devagar e suave entre um mamilo e outro.
Eu me contorço. Minha buceta pisca mais que as luzes da pista de
dança. Ela vai abocanhando e chupando um mamilo, enquanto
aperta o outro com os dedos. Não aguento, enfio minha mão
por debaixo da minha saia, afasto a calcinha e começo a me
masturbar, ela gosta do que vê, diz que ama mulher com atitude.
Gozo com ela sussurrando gostosa no meu ouvido. Eu nunca
tinha gozado em pé na vida, nunca tinha ficado com ninguém
num banheiro de festa, meus joelhos tremem e eu rio um pouco.

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É minha vez de retribuir. Ela sobe o vestido e tá sem calcinha.
Eu lambo meus dedos e massageio sua vulva, carnuda como seus
lábios, molhada como sua língua, ela é corpulenta, voluptuosa
e toda gostosa de apertar. Eu peço pra ela me ensinar como ela
gosta. Ela vai guiando minha mão, me leva até o clitóris e… eu
brinco. Ela ri e geme, eu rio e ofego. Quando sinto que o orgasmo
dela vai chegando, colo meus lábios nos dela e ela goza gemendo
abafado no céu da minha boca. Sinto a força do seu orgasmo
fazer tremer a terra. Ela é uma deusa gozando. Começam a bater
na porta do banheiro, a gente se arruma apressada, obviamente
não conseguindo disfarçar nada, e saímos com a cara mais
lisa do mundo. Quando a gente se despede eu digo pra ela: foi
bom brincar com você. Ela salva seu número no meu celular e
responde: pode me ligar que eu gosto de brincar de pega-pega.

25
z
Lua Cheia

E la sente a buceta pingar. Passa o dia inteiro sentindo isso.


Desde que parou o anticoncepcional alguns meses atrás tem
percebido que numa época do mês fica assim, escorrendo muito.
Consegue sentir a aguinha escorregando pelo canal vaginal.

No escritório de advocacia onde trabalha, no meio do caos


da Avenida Paulista, ela passa o dia inteiro incomodada, lá
fora aquele céu nublado, aquela garoa típica de São Paulo, e
aqui dentro ela sentindo a calcinha úmida, apertada, entrando
na bunda - essa combinação lhe oprime. Uma hora fica
insuportável, ela não aguenta, vai no banheiro, se tranca na
cabine que cheira à citronela e tira a calcinha. Ela está de saia.
Imediatamente sente um alívio, como se sua buceta precisasse
respirar. Pelo visto precisava mesmo. Ela amassa a calcinha na
mão e leva discretamente até a bolsa.

É a primeira vez que fica sem calcinha no escritório, parece


bobo, mas ela se sente… poderosa. Sexual. Liberta. Quando
falam com ela, ela se sente como se tivesse um segredo, um
segredo lascivo, safado. Quando ela cruza as pernas, ela se
pergunta se alguém vê. Ela se percebe desejando que alguém

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veja. Pelo escândalo, pelo tesão, sei lá. Ela não sabe.

Quando deixa o escritório e sai pra rua, já parou de chover e


o céu abriu. A primeira coisa que ela vê quando pisa na calçada
é a lua cheia, brilhando amarela e recém-nascida. Conseguir
ver a lua em São Paulo é um luxo, o céu quase sempre coberto
por camadas e camadas de prédios, nuvens e poluição. Ela sorri
e alguma coisa dentro dela se remexe. Ela vai andando até o
metrô e sente a aguinha da sua buceta escorrendo pelas virilhas,
se sente poderosa de novo, mulher, bicho, fêmea - se sente no
cio.

Ela tem uma certeza: precisa dar. Solteira, focada no trabalho,


desapontada com as coisas do coração, desacreditada nos
homens, ela andou se fechando, mas tem alguns contatinhos
no seu celular a quem ela pode recorrer nos momentos de
necessidade.

Ela rola as conversas do whatsapp. Pra sua surpresa e sem saber


se tá pensando com a buceta ou o coração, ao invés de chamar
o fuck boy que ela sabe que fode bem, ela decide dar mais uma
chance pra um ficante que andou dispensando porque ele estava
lhe dando atenção demais. Eles se conheceram num bar e ele
fazia a linha bonitinho, bonzinho, saudável, era nutricionista,
mas os óculos meio vintage lhe davam um ar meio poeta. Foram
os óculos que a seduziram.

Ela manda um “oi, sumido” e o convida pra tomar um vinho


na sua casa. Ele parece surpreso, mas aceita e diz que tá saindo
da clínica agora e pode ir direto. Ela gosta de eficiência. Quando
ele chega ela já tomou um banho rápido e o espera com a garrafa
de vinho aberta. Eles brindam, mas mal bebem. Ela o ataca.

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Ele não resiste, deixa que ela lhe coma - e hoje ela tá com
fome. Ela vai tirando sua roupa e o pau pula duro de dentro
da cueca. Ela já conhecia aquele pau, mas dessa vez ele parece
mais bonito, mais grosso. Ela chupa com voracidade, sentindo
a buceta encharcar. Nunca chupar um pau tinha sido tão bom.
Ela sente a buceta piscando e quase goza. Nunca tinha quase
gozado só chupando um pau. Ao mesmo tempo que ela (e ele)
se surpreendem com aquela potência, selvageria e safadeza,
nenhum dos dois para pra perguntar o que tá acontecendo.

Ele, agora também quase gozando, pede pra retribuir. Ele


usa a palavra “por favor”. Ela não lembra se alguém já tinha
pedido “por favor” pra chupar sua buceta. Ela acha bonito. Acha
bonito a cabeça dele enterrada no meio das suas pernas e ele ali
concentrado, adorando, de repente virando mais bicho também,
mais viril, menos educado, bebendo da sua aguinha como se
tivesse sede. E tinha.

Ela goza na sua boca mesmo tendo dificuldade de gozar com


oral. Ela goza sentada e de quatro. Por fim, ela goza chupando
de novo e se masturbando ao mesmo tempo. Ela não conta os
orgasmos. Na segunda vez, ele tira a camisinha, sai de dentro e
goza nos seus seios - ela acha tudo lindo. Eles terminam suados
e acabados e ele diz, surpreso, que quando saiu de casa de
manhã não fazia ideia que seria assim que o dia terminaria. Ela
ri. Ainda na cama, eles pedem pizza pelo Uber Eats, ela provoca
e pergunta se nutricionista come pizza, ele diz que de vez em
quando sim e que tudo na vida é uma questão de equilíbrio.

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Enquanto esperam, eles conversam. Pacificados pela paz do
orgasmo, pela primeira vez conversam coisas íntimas. Ele lhe
conta que se divorciou um ano atrás, que tem vontade de ter um
cachorro e uma família, que seu pai queria que ele fosse militar
- coisa que ele jamais poderia ser - e que esse pai, crente de que
homem não chora e não sente, nunca havia lhe dado um abraço.
Ele diz que se um dia tiver um filho vai abraçá-lo todos os dias.
Ela escuta e se comove. Mais do que isso: ela se sente aberta
pra escutar. É como se, diante da abertura dele, ela se abrisse
também. Ela lhe conta que veio de Recife pra São Paulo pra
fazer Direito na USP e pra fugir de um ex-namorado abusivo,
que sente falta da praia e odeia quando paulistas tentam imitar
qualquer sotaque do Nordeste e fica parecendo novela da Globo.
Ele promete que jamais imitará. Ela agradece e eles acham graça.

Ela acolhe a cabeça dele no seu peito, ele fala mais e ela escuta
atenta, carinhosamente e com prazer até, o que a surpreende. O
plano era chutá-lo pra fora de casa depois que o serviço estivesse
feito, mas agora ela o vê humano, inteiro, vulnerável e bonito, e
não lembra do plano inicial. A pizza chega, eles comem, riem e
dormem juntos.

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z
Amar é Feminino

E u escondia, mas secretamente sentia ciúme de você. De todas


as ex-namoradas dele, você era a única que me perturbava.
Tua beleza irritante, teus longos cabelos castanhos, teu riso muito
aberto, essa boca enorme, que cresce quando sorri, tua pele
bronzeada demais, convidativa demais, a marquinha perfeita
do biquíni, tudo em você que é solar me fazia mais lunar. Agora
ele está no passado, terminado e acabado, no lugar onde ficaram
todos os homens que cometeram o erro primordial de tentar
me prender - não, não nasci pra prisão e convenção, nasci com
uma vocação irrevogável pra liberdade, e se alguém tentar me
prender eu escapo, prefiro o presente solitário, mas livre. E neste
presente, neste agora... está você. E eu estou aqui, na tua casa, no
teu apartamento na beira da praia, longe da cidade, tudo é onda
e silêncio lá fora.

A gente se encontrou numa festa e em transe nos colamos


uma na outra e dançamos e conversamos apesar da música alta,
foi difícil ir embora, queria ficar com você, queria tua presença,
tua energia, teus dentes brilhando. Agora é um outro momento,
agora é noite e tudo me parece estranho, o tempo correndo em
câmera lenta: não faz sentido nosso encontro, não faz o mínimo

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sentido, estou absolutamente perdida dentro da tua beleza e da
fumaça que sopramos.

Você está na varanda, entre plantas e de shortinho, você olha


a lua e eu olho a polpinha da tua bunda, você também não
entende nada, a gente escuta Caetano, divagamos sobre tudo,
mas não sobre isso, não sobre nós duas e o nosso desejo, esse
é o único tópico que não debatemos, como que por medo
de quebrar o feitiço que obviamente está no ar. Uma hora
você se vira sorrindo pra mim, abre a boca e solta a fumaça
formando ao teu redor uma nuvem diáfana, uma aura etérea,
te vejo iluminada pela prata dessa lua tropical que nos banha e
finalmente entendo alguma coisa: não era ciúme o que sentia -
era desejo.

Entender é uma coisa, agir é outra. Agora entendo o que está


acontecendo: eu quero a ex-namorada do meu ex-namorado -
imprevisível, porém possível. Você vem da varanda até o sofá
de onde assisto cada mínimo movimento teu, você deixa a lua
lá de fora e vem pra Lua aqui de dentro, senta do meu lado, fico
nervosa e levanto com o pretexto de buscar mais vinho. Pego a
garrafa, tomo um gole farto no gargalo, a noite desce, a gente
fuma, bebe, acaba o vinho, a conversa, o cheiro de incenso e erva
no ar, dissimuladas vamos chegando cada vez mais perto uma
da outra, primeiro teu joelho encosta na minha coxa, depois
meus dedos gesticulam no teu ombro, são pequeníssimos os
primeiros toques, mas o suficiente pra me entorpecer - é como
se eu estivesse dentro do mar e a pérola é você. Perto das quatro
da manhã já não aguento mais, esse tesão estranho e denso me
impacienta, meu corpo já não suporta a distância pouca entre
nós duas, quando você fala já não te escuto, só assisto tua boca
se mexer e vivo nos teus lábios, no teu hálito, na tua inteligência,

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mas já não quero te ouvir - quero te calar, gata.

Finalmente nos calamos e o silêncio pesa fundo entre nós


duas. Não é possível, eu penso, que eu esteja sentindo tudo
isso sozinha. Não é possível que você tenha ficado acordada a
noite inteira só pra me ouvir falar, não é possível que nos teus
gestos não tenha um camada premeditada de charme, você me
enlaçando, você me seduzindo. O silêncio traz o beijo - não há
nada melhor pra fazermos com nossas lindas bocas. Você me
leva pro quarto e o dia levanta o sol, ainda meio adormecido,
mas amarelo e acordando por cima das nuvens e dos coqueiros.
Você fecha as cortinas. Eu tiro teu shortinho, você tira minha
saia. A gente só fica de calcinha, roça os seios uma na outra,
minha pele queima na tua, nossa coxas macias se enroscam
e as bucetas se pressionam. É tão quente. Toda essa espera, a
antecipação, a noite passada em claro, o desejo acumulado, tudo
isso faz cada toque ter um peso orgástico, me sinto amortecida e
relaxada, sentindo a gravidade do fundo do mar.

Eu submerjo entre tuas pernas, contemplo o mistério da


tua buceta e quando te chupo sinto a minha própria buceta
explodindo em pequenos espasmos de prazer, sinto teu cheiro
tão perto, vivo teu cheiro, vivo teu gosto, já não sei o que é meu
e o que é teu, a pele já não é fronteira, os ossos já não sustentam,
eu e você nos diluímos impiedosamente, eu te chupo devagar
em parte porque ainda tô aprendendo a chupar buceta, mas
principalmente porque gosto do teu sabor. Quando você goza
na minha boca eu não sei o que acontece no meu corpo, mas
parece que gozo com o espírito - é um deleite que não sei
descrever, nem quero, nem preciso, já não preciso entender nem
explicar nada, já não há espaço nem tempo pra me preocupar
sobre o que é isso, se somos amigas ou amantes, só há espaço

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pra esse absurdo, esse presente livre de rótulos, isso que agora
eu não tenho medo de chamar - amor.

33
z
Nirvana

O dia em que tudo ruiu amanheceu como uma manhã


qualquer, sem nada de especial. Acordei na cama dele
sentindo seu calor de sol. As primeiras vezes com ele foram
gostosas, mas eu ainda tava meio blasé, gostando do jeito que
ele me tratava (como uma rainha), mas como uma rainha...
intocada, orgulhosa, emocionalmente distante, olhando tudo
do alto da torre, protegida por muros invisíveis, mestre da arte
da resistência.

Até que chegou o dia em que tudo ruiu, o dia em que me


entreguei, me rendi, o dia em que as muralhas que me cercavam
desabaram - ele encontrou a brecha na minha fortaleza e essa
brecha era a buceta. Era de manhã, eu tinha dormido na sua casa,
um apartamento com vista pro mar do Rio. A gente começou a
transar antes do despertador tocar. Ele começou me chupando
e me chupou até me fazer implorar por ele, sem orgulho e sem
vergonha. Tenho quase certeza que o chupei também, sempre
gostei de chupar, gosto de ter a boca cheia, de sentir nos lábios
o pau latejando, gosto do poder de dar prazer. Mas não foi o
boquete que ficou marcado na minha memória, foi o que veio depois.

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Eu me virei de bruços e ele entrou devagarinho, me
amolecendo por dentro, me fazendo morder a fronha do
travesseiro e levar minha mão até o clitóris, enquanto ele por
cima altivo e rei ditava o ritmo - deliciosamente sem pressa, sem
aperreio, sem atropelamento, era ritmo de banquete, de quem tem
tempo no paraíso.

Devagarinho e constante ele achou caminho por dentro de


mim até o ponto que me desarma e eu, sempre tão controladora,
num alívio extático me deixei tombar como um monumento
que não suporta mais o esforço de se manter em pé, como uma
torre que quer voltar a ser poeira, se dissolver de novo na areia
do tempo, numa entrega tão absurda, de carne e espírito e tudo
que a gente não entende, que cada investida dele era como uma
pequena iluminação, brotava um prazer luminoso do clitóris e
outro mais denso do fundo da buceta.

Meu corpo parecia recheado de fogos de artifício ou estrelas


pipocando, meu corpo tremia e vibrava, o coração subitamente
agradecido parecendo prestes a explodir, mas no meio dessa
vibração toda, havia um conforto imenso, o sossego e o gosto
de estar ali dando pra ELE, ele e não qualquer outro, ele com
seu pau escorregadio e barba áspera, ele budista e consumista,
maravilhosamente humano e contraditório, até que, numa
explosão maior, o orgasmo veio, tão de dentro, mas tão de
dentro, disso que a gente não entende, do recheio da medula, do
fundo do fim, veio preenchendo meu corpo como um carnaval,
como um big bang, como qualquer coisa que faz morrer e
nascer de novo.

Bem nesse instante tocaram a campainha do apartamento de


repente e ele se assustou, tirou o pau de dentro, todo molhado e

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pingando meu gozo, e foi na sala por um instante ver quem era,
instante suficiente pra que eu, ainda gozando, sozinha no seu
quarto, entre suas coisas, seus cheiros, suas manias, liberta da
minha fortaleza, me apaixonando e me permitindo me apaixonar,
entregue a tudo, inclusive a esse amor que brotava da buceta e
explodia no coração, entendesse a morte e a ressurreição, saísse
por um lapso da roda de samsara e meus olhos se iluminassem
com a visão do Nirvana, sim, eu vi, senti e fui o Paraíso, e assim
emocionada, no peito uma coisa explodindo, me deu uma
vontade avassaladora de chorar, por toda a verdade daquilo.
Chorei. Chorei porque o amor me tocou fundo e eu me dei pra
ele - isso há de ser a santidade.

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Sobre a Autora

Lua Menezes nasceu em Fortaleza, em 03 de abril de 1990. É


escritora, atriz e terapeuta sexual. Formada em Teatro e Mestre
em Artes Cênicas, trabalhou exclusivamente como atriz por oito
anos. Aí já se revelava seu interesse pelo erótico: no mestrado,
orientou uma parte da sua pesquisa aos estudos do corpo e do
erotismo. Apaixonada por diários, escreve desde que que se
lembra, mas foi em 2016 que criou o projeto Lasciva Lua, pra
compartilhar seus escritos eróticos. Nesse mesmo ano, mudou-
se para a São Paulo, viveu em um centro tântrico, tornou-
se terapeuta e acumulou experiência atendendo dezenas de
mulheres e homens em seus processos de cura e descoberta da
sexualidade. Descobriu um novo propósito e passou a se dedicar
profundamente ao estudo da Sexualidade e da Psicologia
Positiva - a partir desse comprometimento o projeto Lasciva
Lua cresceu e se tornou uma escola virtual de Sexualidade e
Autoconhecimento, com cursos on-line, workshops presenciais
e retiros dedicados ao público feminino. Hoje Lua mora na
Nova Zelândia, escreve, ensina, aprende, cria conteúdo e segue
acreditando em transformar o mundo através do amor.

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Créditos
Fotos
Juliana Colinas (@jucolinas)

Design & Diagramação


Andréa Guandaline (@deiaguandaline)

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