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FILOSOFIA

Ensino Fundamental

8º Ano
Textos

8º Ano

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SUMÁRIO
1. Mas afinal, para que serve a filosofia?
Filosofia: para que serve?: O conhecimento sem finalidade
2. utilitária
3. Pensamento filosófico: Uma maneira de pensar o mundo
Conhecer o mundo: Mitologia, religião, ciência, filosofia, senso
4. comum
5. Ética: A área da filosofia que estuda o comportamento humano
6. Preconceito: A ética e os estereótipos irracionais
7. Senso Crítico
8. O que esperar de adolescentes e jovens?
Filosofia e felicidade: O que é ser feliz segundo os grandes filósofos
9. do passado e do presente
10. A busca da felicidade
11. Aborto: A ética e a interrupção da gravidez
12. Afeto é algo que se aprende
13. Solidão e amizade: companheiras de vida
14. O sentido da palavra Amor
15. Consumo e novas tecnologias. Para quem?
15. Consumo: a lógica que rege a sociedade
16. Existencialismo: O homem está condenado a ser livre
17. Pragmatismo: Uma filosofia para a vida
18. Ceticismo: Deve se duvidar de tudo
19. Sugestão de filmes para reflexão
A Filosofia no Ensino Fundamental tem por objetivo estimular os alunos a:

- Participar em grupos.
- Dialogar.
- Entender a responsabilidade de pertencer a um grupo.
- Aumentar a autoestima.
- Aprender a ser tolerante com as ideias dos outros.
- Desenvolver a paciência e a compreensão com aqueles menos favorecidos.
- Alargar a visão do mundo e a capacidade de questionar e de investigar o mundo.
- Refletir sobre valores morais e éticos.
- Despertar para a apreciação da arte e da beleza da vida.

Os educadores devem vivenciar com os alunos as atitudes de companheirismo e


colaboração, hábito de leitura, diminuição de preconceitos, amor a si mesmo e aos
outros, capacidade de diálogo e comunicação etc.

Lembremos que a filosofia educa o intelecto e a emoção. Não pode reduzir-se a


fórmulas feitas. As aulas de filosofia não são somente para lembrar que Platão
nasceu em Atenas em 427 a.C. e morreu em 347, nem que foi discípulo de Sócrates.
Além destes dados que ajudam a entender como surge e se desenvolve a filosofia
ocidental, os alunos precisam ser estimulados a observar, a questionar, a repensar o
mundo. Filosofia é observar uma flor, observar uma pedra, observar uma estrela no
céu e perguntar-se: Quem sou eu? De onde surgiu este universo? Filosofar é, então,
uma atitude espontânea.

Isabel F. Furini é educadora e escritora.


Textos
Mas afinal, para que serve a filosofia?
Para nada.
Eis a resposta mais plausível.
A Filosofia “não serve” para nada por que não é serva, é absoluta.
Assim como o olho é fundamento da visão, a Filosofia é o fundamento de todo interrogar. Mais
que isso: é a essência de todo fundamento.

O erro inicia-se em querer avaliar a Filosofia de fora, num campo estranho à própria Filosofia. É
como querer julgar o supremo tribunal que é a fonte de todo julgar.

Em nossa cultura contemporânea, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito
de existir se tiver finalidade prática, utilidade imediata. Aristóteles, há 2.400 anos, ao contrário
desse pensamento reducionista, primava o conhecimento pelo conhecimento. Ele
hierarquizava os saberes, colocando no topo as ciências teoréticas, que cuidavam do estudo
das causas primeiras, da essência de tudo o que há. Depois as ciências comportamentais
(política e ética). Por fim, as ciências produtivas, mecânicas (as úteis nos dias de hoje). O
fundamental para ele era cultivar a essência do homem. E isso só seria possível pela Filosofia.

Para o idealista alemão Schelling (1775 -1854), falar da utilidade da filosofia é contrário a
dignidade dessa ciência. Aquele que se prende a esse tipo de questão certamente não está à
altura de possuir a idéia de Filosofia. A Filosofia se desobriga por si mesma de toda relação com
a utilidade. Ela só existe em função de si mesma. Existir em função de outra coisa seria de
imediato destruir sua própria essência. A Filosofia é sempre o fim, nunca pode ser reduzia à
categoria de um simples meio.

Agora, se criticar o caminho trilhado pelas idéias dominantes e poderes estabelecidos for útil.
Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil.
Se buscar compreender a significação do mundo for útil.
Se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil.
Se dar a cada um de nós os meios para sermos conscientes de nossas ações numa prática que
deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então a Filosofia é o mais útil de todos os
saberes de que os seres humanos são capazes.

Matheus Arcaro
Blog: oqueinspira? - http://oqueinspira.blogspot.com
Filosofia: para que serve?: O
conhecimento sem finalidade utilitária
Carlos Zanchetta

Enquanto esperavam o próximo discurso na ágora, a praça das feiras e das discussões, os
gregos do século 6 a.C. devem ter se perguntado: "Essa filosofia que apareceu por aí. Serve
para quê?"

É próprio da filosofia perguntar, questionar, buscar explicações. Por que haveria ela de escapar
à indagação sobre sua própria existência? Ela, que tanto preza a interrogação, não poderia
mesmo se furtar a seu próprio porquê.

Vinte e cinco séculos se passaram e a velha pergunta não cala: para que serve a filosofia? Na
opinião da maior parte das pessoas, no mundo utilitarista em que vivemos, tudo tem de ter
uma razão de ser e uma finalidade. Então, a resposta ainda é necessária. E ela seria: a filosofia
não serve para nada!

Sem finalidade
Mas você já pensou que muitas outras coisas não têm finalidade específica e nem por isso são
desimportantes? A arte, por exemplo, serve para quê? Qual a finalidade da natureza, do mundo
físico? Não é por não serem utilitárias que a arte, a natureza e também a filosofia deixam de ter
sua razão de ser.

Se você já estuda filosofia na escola, deve estar se perguntando: "Por que estou lendo sobre
filosofia, se ela não serve para nada? Para que vai me servir isso?" Você acaba de se questionar.
Talvez tenha arranjado uma resposta, mesmo que provisória, e outra pergunta surgiu. É assim
que se começa a filosofar. Perguntando sobre o mundo, sobre si e o outro.

O que sou?
O que sou? Essa é uma das primeiras perguntas que surgem para quem quer filosofar. Quer
continuar? Pois saiba que vai se iniciar uma história de perguntas sem fim. Veja como Marilena
Chauí, filósofa brasileira, descreve o pensamento filosófico:

"Eu imagino que a filosofia busca uma atitude precisa: perguntar. E perguntar, não para
encontrar imediatamente respostas. Perguntar para que respostas sejam dadas e voltar a fazer
perguntas sobre as respostas que foram dadas. É nunca abrir mão da atitude crítica, sabendo
que é uma atitude desgraçada, na medida em que não teremos nunca a vantagem de quem,
em um navio, possui um mapa, uma bússola, todos os aparelhos eletrônicos, de tal modo que o
piloto possa até mesmo dormir e o navio vá sozinho para o seu destino. A ideia de assumir até
o fim um pensamento crítico é aceitar que navegamos sem mapa, sem bússola, no máximo
talvez com uma estrela, e que essa estrela seja: continuar perguntando." (in, Lorieri e Rios,
2004, págs.29-30)
"Só sei que nada sei"
Isso lhe parece desesperador? Pense bem. Se quer continuar no caminho da filosofia, vai
precisar se distanciar um pouco das certezas. A filosofia não lhe trará segurança a respeito de
muita coisa. Sócrates, por exemplo, dizia: "Só sei que nada sei".

Ele punha por terra tudo o que julgava mais certo, para então construir o seu conhecimento. Se
você for aceitar o desafio de filosofar, vai perceber que a filosofia é assim meio fugidia, atiça
nossas incertezas. Ela é sedutora como as sereias que quase encantaram Ulisses na "Odisseia".
Mas, ao contrário do que acontece nessa história, a filosofia não põe em risco a aventura de
navegar, sem mapas nem bússolas.

Hora de filosofar

1) Sabia que, a partir de 2008, apesar de sua "insignificância", a filosofia e a sociologia


voltarão oficialmente a fazer parte do currículo de todas as escolas públicas brasileiras?

2) "A natureza virou recurso - demos-lhe essa finalidade - e nunca antes ela esteve tão
próxima do fim".

Os termos fim e finalidade têm o mesmo significado? Explique.

3) A questão ambiental é um dos assuntos mais urgentes, também para a filosofia.


Imagine que você está no ano de 2057 e vê que o meio ambiente foi irreversivelmente
devastado. Você irá viajar no tempo de volta para 2007 portando:

a) um relatório com a descrição do que viu; e


b) uma lista com dez iniciativas para que você e sua geração possam se antecipar ao
problema da devastação ambiental.

Carlos Zanchetta, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é bacharel e licenciado
em filosofia, com especialização em história da cultura; autor de livro didático e editor de
cursos para capacitação de professores. pagina3@pagina3ped.com

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Pensamento filosófico: Uma maneira de
pensar o mundo
Antonio Carlos Olivieri

A filosofia não é um conjunto de conhecimentos prontos, um sistema acabado, fechado em si


mesmo. A filosofia é uma maneira de pensar e é também uma postura diante do mundo.

Antes de mais nada, ela é uma forma de observar a realidade que procura pensar os
acontecimentos além da sua aparência imediata. Ela pode se voltar para qualquer objeto: pode
pensar sobre a ciência, seus valores e seus métodos; pode pensar sobre a religião, a arte; o
próprio homem, em sua vida cotidiana.

Uma história em quadrinhos ou uma canção popular podem ser objeto da reflexão filosófica.
Há alguns anos, foi publicado no Brasil, um livro chamado "Os Simpsons e a Filosofia", que
tratava das questões filosóficas implícitas no famoso desenho animado da TV.

Como o próprio Bart Simpson, a filosofia é um jogo irreverente que parte do que existe, critica,
coloca em dúvida, faz perguntas importunas, abre a porta das possibilidades, faz entrever
outros mundos e outros modos de compreender a vida.

Uma disciplina indisciplinada


Por isso, a filosofia incomoda, pois ela questiona o modo de ser das pessoas, das sociedades, do
mundo. Discute as práticas política, científica, técnica, ética, econômica, cultural e artística. Não
há área onde ela não se meta, não indague, não perturbe. E, nesse sentido, a filosofia pode ser
perigosa ou subversiva, pois pode virar a ordem estabelecida de cabeça para baixo.

Quando surgiu entre os gregos, no século 6 a.C., a filosofia englobava tanto a indagação
filosófica propriamente dita, quanto aquilo que hoje é chamado de conhecimento científico. O
filósofo refletia e teorizava sobre todos os assuntos, procurando responder não só ao porquê
das coisas, mas, também, ao como, ou seja, ao modo pelo qual elas acontecem ou "funcionam".

Euclides, Tales e Pitágoras, por exemplo, foram filósofos que também se dedicaram ao estudo
da geometria. Aristóteles, por sua vez, investigou problemas físicos e astronômicos, na medida
em que esses problemas também interessavam à cultura e à sociedade de sua época.

O saber científico
Só a partir do século 17, com o aperfeiçoamento do método científico - baseado na observação,
na experimentação e matematização dos resultados -, a ciência tal qual a entendemos hoje
começou a se constituir, como uma forma específica de abordagem do real que se destacava ou
desprendia da filosofia propriamente dita.

Afastando-se da filosofia por se tornarem mais específicas, apareceram pouco a pouco as


ciências particulares, que investigam determinados aspectos da realidade: à física interessam
os movimentos dos corpos; à biologia, a natureza dos seres vivos; à química, as transformações
das substâncias; à astronomia, os corpos celestes; à psicologia, os mecanismos do
funcionamento da mente humana; à sociologia, a organização social, etc.

O conhecimento fragmenta-se entre as várias ciências, pois cada uma se ocupa somente de
uma parte do real. Estudam os fenômenos que pertencem à sua área específica e pretendem
mostrar como estes ocorrem e como se relacionam com outros fenômenos. A posse do
conhecimento sobre os fenômenos naturais e humanos gera a possibilidade de prevê-los e
controlá-los.

Integração e totalidade
Por outro lado, a filosofia trata dessa mesma realidade, só que - em vez de separá-la em
conhecimentos particulares e estanques - considera-a no interior da totalidade de fenômenos,
ou seja, procura enxergar a realidade a partir de uma visão de conjunto. Qualquer que seja o
problema, a reflexão filosófica considera cada um de seus aspectos, relacionando-o ao contexto
dentro do qual ele se insere e restabelecendo a integridade do universo humano.

Sob o ponto de vista filosófico, por exemplo, é impossível considerar os problemas econômicos
do Brasil somente a partir de princípios de economia. É necessário relacioná-la com os
interesses das diversas classes sociais, os interesses políticos, os interesses nacionais, etc.

Um país economicamente instável é um país política e socialmente instável. Já para a ciência


econômica, estrito senso, isso não vem ao caso. Seu foco é verificar como a inflação ou a
recessão funciona para poder controlá-la, independentemente dos reflexos que esse controle
tenha para a sociedade. (Evidentemente, estamos falando das coisas teoricamente, e portanto
podemos isolá-las. Na prática, nem sempre é assim que isso ocorre. O alemão Karl Marx fez da
economia um elemento essencial de sua doutrina filosófica).

Perguntas e mais perguntas


Por isso, sem desmerecer o conhecimento especializado das várias ciências, a reflexão filosófica
é sempre - mais do que necessária - obrigatória. Cabe ao filósofo refletir sobre o que é ciência,
o que é método científico, qual a sua validade e seus limites.

A ciência é realmente um conhecimento objetivo? O que é a objetividade e até que ponto um


sujeito histórico - o cientista - pode ser objetivo, isto é, isento de interesses pessoais? Cabe ao
filósofo, também, refletir sobre a condição humana atual: o que é o homem? O que é
liberdade? O que é trabalho? Quais as relações entre homem e trabalho? É possível existir uma
outra ordem social?

A própria escola é alvo de reflexão filosófica. A educação pressupõe uma visão do homem como
um ser incompleto, que pode ser aprimorado, educado, ao contrário dos animais, que não
precisam ser educados, pois orientam-se pelos instintos. Só os educamos, ou domesticamos,
para acomodá-los às nossas necessidades humanas.

O caso dos homens é diferente, sem dúvida, mas, para que o ser humano é educado? Para o
exercício da liberdade e da responsabilidade ou só para se inserir na ordem estabelecida? Em
outras palavras, a educação ocorre para cada homem saber pensar por si próprio ou para
aceitar as regras que outros pensaram para ele?
A filosofia quer encontrar o significado mais profundo dos fenômenos. Não basta saber como
funcionam, mas o que significam na ordem geral do mundo humano. A filosofia emite juízos de
valor ao julgar cada fato, cada ação em relação ao todo. A filosofia vai além daquilo que é, para
propor como poderia ser. E, portanto, indispensável para a vida de todos nós, que desejamos
ser seres humanos completos, cidadãos livres e responsáveis por nossas escolhas.

Características do pensamento filosófico


O trabalho do filósofo é refletir sobre a realidade, qualquer que seja ela, descobrindo seus
significados mais profundos. Porém, como se faz isso?

Em primeiro lugar, é preciso estabelecer o que é reflexão. Refletir é pensar, considerar


cuidadosamente o que já foi pensado. Como um espelho que reflete a nossa imagem, a
reflexão do filósofo também deixa ver, revela, mostra, traduz os valores envolvidos nas coisas,
nos acontecimentos e nas ações humanas.

Para chegar a isso, segundo o filósofo e educador Demerval Saviani, a reflexão filosófica deve
possuir as seguintes características:

 Radicalidade - ou seja, chegar até a raiz dos acontecimentos, isto é, aos seus
fundamentos; à sua origem, não só cronológica, mas no sentido de chegar aos valores
originais que possibilitaram o fato. A reflexão filosófica, portanto, é uma reflexão em
profundidade.
 Rigor - isto é, seguir um método adequado ao objeto em estudo, com todo o rigor,
colocando em questão as respostas mais superficiais, comuns à sabedoria popular e a
algumas generalizações científicas apressadas.
 Contextualidade - como já se disse antes, a filosofia não considera os problemas
isoladamente, mas dentro de um conjunto de fatos, fatores e valores que estão
relacionados entre si. A reflexão filosófica contextualiza os problemas tanto
verticalmente, dentro do desenvolvimento histórico, quanto horizontalmente,
relacionando-os a outros aspectos da situação da época.

Assim, embora os sistemas filosóficos possam chegar a conclusões diversas, dependendo das
premissas de partida e da situação histórica dos próprios pensadores, o processo do filosofar
será sempre marcado por essas características, resultando em uma reflexão rigorosa, radical e
de conjunto.

Antonio Carlos Olivieri, Da Página 3 Pedagogia & Comunicação é escritor, jornalista e diretor da
Página 3 Pedagogia & Comunicação.

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Conhecer o mundo: Mitologia, religião,
ciência, filosofia, senso comum
Antonio Carlos Olivieri

Há muitos modos de se conhecer o mundo, que dependem da situação do sujeito diante do


objeto do conhecimento. Ao olhar as estrelas no céu noturno, um índio caiapó as enxerga a
partir de um ponto de vista bastante diferente do de um astrônomo.
O caiapó vê nas estrelas as fogueiras que alguns de seus deuses acendem no céu para tornar a
noite mais clara. O cientista vê astros que têm luz própria e que formam uma galáxia. O índio
compreende e conhece as estrelas a partir de um ponto de vista mitológico ou religioso. O
astrônomo as compreende e conhece a partir de um ponto de vista científico.
A mitologia, a religião e a ciência são formas de conhecer o mundo. São modos do
conhecimento, assim como o senso comum, a filosofia e a arte. Todos eles são formas de
conhecimento, pois cada um, a seu modo, desvenda os segredos do mundo, explicando-o ou
atribuindo-lhe um sentido. Vamos examinar mais de perto cada uma dessas formas de
conhecimento.

O mito e a religião
O mito proporciona um conhecimento que explica o mundo a partir da ação de entidades - ou
seja, forças, energias, criaturas, personagens - que estão além do mundo natural, que o
transcendem, que são sobrenaturais.

Veja, por exemplo, o mito através do qual os antigos gregos explicavam a origem do mundo:
No princípio era o Caos, o Vazio primordial, vasto abismo insondável, como um imenso mar,
denso e profundo, onde nada podia existir. Dessa oca imensidão sem onde nem quando, de um
modo inexplicável e incompreensível, emergiram a Noite negra e a Morte impenetrável. Da
muda união desses dois entes tenebrosos, no leito infinito do vácuo, nasceu uma entidade de
natureza oposta à deles, o Amor, que surgiu cintilando dentro de um ovo incandescente.
Ao ser posto no regaço do Caos, sua casca resfriou e se partiu em duas metades que se
transformaram no Céu e na Terra, casal que jazia no espaço, espiando-se em deslumbramento
mútuo, empapuçados de amor. Então, o Céu cobriu e fecundou a Terra, fazendo-a gerar muitos
filhos que passaram a habitar o vasto corpo da própria mãe, aconchegante e hospitaleiro.
Assim como o mito, a religião, ou melhor, as religiões também apresentam uma explicação
sobrenatural para o mundo. Para aderir a uma religião, é obrigatório crer ou ter fé nessa
explicação. Além disso, é uma parte fundamental da crença religiosa a fé em que essa
explicação sobrenatural proporciona ao homem uma garantia de salvação, bem como
prescreve maneiras ou técnicas de obter e conservar essa garantia, que são os ritos, os
sacramentos e as orações.
Antes de seguir em frente, convém esclarecer que não vem ao caso discutir aqui a validade do
conhecimento religioso. Em matéria de provas objetivas, se a religião não tem como provar a
existência de Deus, a ciência também não tem como provar a Sua inexistência. E, a propósito
disso, vale a pena apresentar uma outra narrativa filosófica:
Certa vez, um cosmonauta e um neurologista russos discutiam sobre religião. O neurologista era
cristão, e o cosmonauta não. “Já estive várias vezes no espaço”, gabou-se o cosmonauta, “e
nunca vi nem Deus, nem anjos”. “E eu já operei muitos cérebros inteligentes”, respondeu o
neurologista, “e também nunca vi um pensamento”.

O mundo de Sofia, Jostein Gaardner, Cia. das Letras, 1995

A ciência
A ciência procura descobrir como a natureza "funciona", considerando, principalmente, as
relações de causa e efeito. Nesse sentido, pretende buscar o conhecimento objetivo, isto é, que
se baseia nas características do objeto, com interferência mínima do sujeito. Veja, por exemplo,
a seguinte descrição científica:

O coração é um músculo oco, em forma de cone achatado com a base virada para cima e a
ponta voltada para baixo, do tamanho aproximado de um punho fechado. O músculo cardíaco é
chamado de miocárdio. Sua superfície interna é recoberta por uma membrana delgada, o
endocárdio. Sua superfície externa tem um invólucro fibro-seroso, o pericárdio.

Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998

Quando se fala em "mínima interferência do sujeito", quer se dizer que a descrição de coração
proposta acima é válida independentemente do estudioso de anatomia que a formulou.
A definição tradicional de ciência pressupõe que ela seja um modo de conhecimento com
absoluta garantia de validade. A ciência moderna já não tem a pretensão ao absoluto, mas ao
máximo grau de certeza.

Quanto à garantia de validade, ela pode consistir:

o;

avanços da própria ciência.

Finalmente, é importante esclarecer que a aplicação da ciência resulta na tecnologia, ou no


conhecimento tecnológico.

O senso comum
O senso comum ou conhecimento espontâneo é a primeira compreensão do mundo, baseada
na opinião, que não inclui nenhuma garantia da própria validade. Para alguns filósofos, o senso
comum designa as crenças tradicionais do gênero humano, aquilo em que a maioria dos
homens acredita ou devem acreditar.
A mais completa tradução do senso comum talvez sejam os ditados populares. A título de
exemplo, eis alguns:
"Quem ri por último ri melhor."

A filosofia
Para Platão, a filosofia é o uso do saber em proveito do homem. Isso implica a posse ou
aquisição de um conhecimento que seja, ao mesmo tempo, o mais válido e o mais amplo
possível; e também o uso desse conhecimento em benefício do homem. Essa definição, porém,
exige a uma definição de benefício, que por sua vez exige uma definição de Bem. Para saber o
que é o Bem, entretanto, também é necessário descobrir o que é a Verdade.
Alguns filósofos, definem a filosofia como a busca do Bem, da Verdade, do Belo e de como os
homens podem conhecer essas três entidades. Portanto, a filosofia toma para si a árdua tarefa
de debater problemas ou especular sobre problemas que ainda não estão abertos aos métodos
científicos: o bem e o mal, o belo e o feio, a ordem e a liberdade, a vida e a morte.
Vamos a um exemplo de texto filosófico, em que um filósofo norte-americano, John Dewey,
procura refletir justamente sobre o que é senso comum:

Visto que os problemas e as indagações em torno do senso comum dizem respeito às interações
entre os seres vivos e o ambiente, com o fim de realizar objetos de uso e de fruição, os símbolos
empregados são determinados pela cultura corrente de um grupo social. Eles formam um
sistema, mas trata-se de um sistema de caráter mais prático que intelectual. Esse sistema é
constituído por tradições, profissões, técnicas, interesses e instituições estabelecidas no grupo.
As significações que o compõem são efeito da linguagem cotidiana comum, com a qual os
membros do grupo se intercomunicam.

Lógica, VI, 6, J. Dewey

Tradicionalmente, a filosofia se divide em cinco áreas:


 Lógica, que estuda o método ideal de pensar e investigar;
 Metafísica, que estuda a natureza do Ser (ontologia), da mente (psicologia filosófica) e
das relações entre a mente e o ser no processo do conhecimento (epistemologia);
 Ética, que estuda o Bem, o comportamento ideal para o ser humano;
 Política, que estuda a organização social do homem;
 Estética, que estuda a beleza e que pode ser chamada de filosofia da Arte.

Convém concluir lembrando que a ciência e o pensamento científico se originaram com a


filosofia na Grécia da Antiguidade. Com o passar do tempo, certas áreas da especulação
filosófica, como a matemática, a física e a biologia ganharam tal especificidade que se
separaram da filosofia.

A arte
O conhecimento proporcionado pela arte não nos dá o conhecimento objetivo de uma coisa
qualquer, mas o de um modo particular de compreendê-la, um modo que traduz a
sensibilidade do artista. Trata-se, portanto, de um conhecimento produzido pelo sujeito e pela
subjetividade.
Veja por exemplo o seguinte soneto, escrito pelo poeta bahiano do século 17, Gregório de
Matos, no qual ele dá a sua "visão" do braço de uma imagem do Menino Jesus que havia sido
quebrada por holandeses protestantes, quando da invasão da cidade de Salvador:

O todo sem a parte não é todo;


A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo.
Em todo sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte
Em qualquer parte sempre fica todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço que lhe acharam, sendo parte,
Nos diz as partes todas deste todo.

Antonio Carlos Olivieri, Da Página 3 Pedagogia & Comunicação é escritor, jornalista e diretor da
Página 3 Filosofia & Comunicação.

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Ética: A área da filosofia que estuda o
comportamento humano
A palavra ética se origina do termo grego ethos, que significa "modo de ser", "caráter",
"costume", "comportamento". De fato, a ética é o estudo desses aspectos do ser humano: por
um lado, procurando descobrir o que está por trás do nosso modo de ser e de agir; por outro,
procurando estabelecer as maneiras mais convenientes de sermos e agirmos. Assim, pode-se
dizer que a ética trata do que é "bom" e do que é "mau" para nós.

Bom e mau, ou melhor, Bem e Mal, entretanto, são valores que não apresentam, para o ser
humano, um caráter absoluto. Ao longo dos tempos, nas mais diversas civilizações, várias
interpretações serão dadas a essas duas noções. A ética acompanha esse desenvolvimento
histórico, para que isso sirva de base para uma reflexão sobre como ser ético no tempo
presente.
Considera também como esses valores se aplicam no relacionamento interpessoal, pois a noção
de um modo correto de se comportar e posicionar na vida pressupõe que isso seja feito para
que cada um conviva em harmonia com os outros. A ética, portanto, trata de convivência entre
seres humanos na sociedade. Num sentido mais restrito, ela se restringe às relações pessoais
de cada um. Num sentido mais amplo - já que ninguém vive numa pequena comunidade isolada
-, ela se relaciona com a política - da cidade, do país e do mundo. Nesse sentido, ela é
possivelmente a área mais prática da filosofia.
Mas, antes de mais nada, qual o significado da palavra ética, em termos filosóficos?
O filósofo contemporâneo espanhol Fernando Savater apresenta uma resposta para essa
questão em termos muito simples, num livro intitulado Ética para meu filho, da Editora Martins
Fontes. Como diz o título, ele escreveu com o intuito de explicar a questão para o seu filho
adolescente. A seguir, você pode ler um breve trecho da resposta de Savater para a questão "o
que é ética?". Esse é um excelente ponto de partida para você pensar no assunto:

“Há ciências que estudamos por simples interesse de saber coisas novas; outras, para
adquirir uma habilidade que nos permita fazer ou utilizar alguma coisa; a maioria,
para conseguir um trabalho e ganhar a vida com ele. Se não sentirmos curiosidade
nem necessidade de realizar esses estudos, poderemos prescindir deles
tranquilamente. Há uma infinidade de conhecimentos muito interessantes mas sem os
quais podemos nos arranjar muito bem para viver. Eu, por exemplo, lamento muito
não ter nem ideia de astrofísica ou de marcenaria, que dão tanta satisfação a outras
pessoas, embora essa ignorância nunca me tenha impedido de ir sobrevivendo até
hoje. E você, se não me engano, conhece as regras do futebol mas é bem fraco em
beisebol. Não tem maior importância, você desfruta os campeonatos mundiais,
dispensa olimpicamente a liga americana e todo o mundo sai satisfeito.
O que eu quero dizer é que certas coisas a pessoa pode aprender ou não, conforme
sua vontade. Como ninguém é capaz de saber tudo, o remédio é escolher e aceitar
com humildade o muito que ignoramos. É possível viver sem saber astrofísica,
marcenaria, futebol e até mesmo sem saber ler e escrever: vive-se pior, decerto, mas
vive- se. No entanto, há outras coisas que é preciso saber porque, por assim dizer, são
fundamentais para nossa vida. E preciso saber, por exemplo, que saltar de uma
varanda do sexto andar não é bom para a saúde; ou que uma dieta de pregos
(perdoem-me os faquires!) e ácido prússico não nos permitirá chegar à velhice.
Também não é aconselhável ignorar que, se dermos um safanão no vizinho cada vez
que cruzarmos com ele, mais cedo ou mais tarde haverá consequências muito
desagradáveis. Pequenezas desse tipo são importantes. Podemos viver de muitos
modos, mas há modos que não nos deixam viver.
Em resumo, entre todos os saberes possíveis existe pelo menos um imprescindível: o
de que certas coisas nos convêm e outras não. Certos alimentos não nos convêm,
assim como certos comportamentos e certas atitudes. Quero dizer, é claro, que não
nos convêm se desejamos continuar vivendo. Se alguém quiser arrebentar-se o quanto
antes, beber lixívia poderá ser muito adequado, ou também cercar-se do maior
número possível de inimigos. Mas, de momento, vamos supor que preferimos viver,
deixando de lado, por enquanto, os respeitáveis gostos do suicida. Assim, há coisas
que nos convêm, e o que nos convém costumamos dizer que é “bom”, pois nos cai
bem; outras, em compensação, não nos convêm, caem-nos muito mal, e o que não nos
convém dizemos que é “mau”. Saber o que nos convém, ou seja, distinguir entre o
bom e o mau, é um conhecimento que todos nós tentamos adquirir – todos, sem
exceção – pela compensação que nos traz.
Como afirmei antes, há coisas boas e más para a saúde: é necessário saber o que
devemos comer, ou que o fogo às vezes aquece e outras vezes queima, ou ainda que a
água pode matar a sede e também nos afogar. No entanto, às vezes as coisas não são
tão simples: certas drogas, por exemplo, aumentam nossa energia ou produzem
sensações agradáveis, mas seu abuso contínuo pode ser nocivo. Em alguns aspectos
são boas, mas em outros são más: elas nos convêm e ao mesmo tempo não nos
convêm. No terreno das relações humanas, essas ambiguidades ocorrem com maior
frequência ainda. A mentira é, em geral, algo mau, porque destrói a confiança na
palavra – e todos nós precisamos falar para viver em sociedade – e provoca inimizade
entre as pessoas; mas às vezes pode parecer útil ou benéfico mentir para obter
alguma vantagem, ou até para fazer um favor a alguém. Por exemplo, é melhor dizer
ao doente de câncer incurável a verdade sobre seu estado, ou deve-se enganá-lo para
que ele viva suas últimas horas sem angústia? A mentira não nos convém, é má, mas
às vezes parece acabar sendo boa. Procurar briga com os outros, como já dissemos,
em geral é inconveniente, mas devemos consentir que violentem uma garota diante
de nós sem interferir, sob pretexto de não nos metermos em confusão? Por outro
lado, quem sempre diz a verdade – doa a quem doer – costuma colher a antipatia de
todo o mundo; e quem interfere ao estilo Indiana Jones para salvar a garota agredida
tem maior probabilidade de arrebentar a cabeça do que quem segue para casa
assobiando. O que é mau às vezes parece ser mais ou menos bom e o que é bom tem,
em certas ocasiões, aparência de mau. Haja confusão!
[...]
Resumindo: ao contrário de outros seres, animados ou inanimados, nós homens
podemos inventar e escolher, em parte, nossa forma de vida. Podemos optar pelo que
nos parece bom, ou seja, conveniente para nós, em oposição ao que nos parece mau e
inconveniente. Como podemos inventar e escolher, podemos nos enganar, o que não
acontece com os castores, as abelhas e as formigas. De modo que parece prudente
atentarmos bem para o que fazemos, procurando adquirir um certo saber-viver que
nos permita acertar. Esse saber-viver, ou arte de viver, se você preferir, é o que se
chama de ética.”
("Ética para meu filho", Fernando Savater, Editora Martins Fontes)

Antes de seguir adiante, porém, vale recordar o que foi dito no início deste texto: a Ética não
serve de base somente às relações humanas mais próximas. Ela também trata das relações
sociais dos homens, na medida em que alguns filósofos consideram a etica como a base do
direito ou da justiça, isto é, das leis que regulam a convivência entre todos os membros de uma
sociedade.

O filósofo alemão Leibniz (1646-1716) considera que o direito e as leis decorrem de três
preceitos morais básicos:

Ou seja, a ética orienta também o ordenamento jurídico e/ou legal das nações. Por
conseguinte, orienta também a política. Quando a política não é pautada pela ética ocorrem os
escândalos e os crimes que os brasileiros presenciam a cada ano nos Poderes Executivo e
Legislativo do nosso país.

http://educacao.uol.com.br/
Preconceito: A ética e os estereótipos
irracionais
Antonio Carlos Olivieri

Ética é a área da filosofia que estuda o comportamento humano. Portanto, um problema ético
de grande relevância e interesse é o preconceito, uma vez que se trata de um comportamento
que cria vários problemas práticos para o ser humano. Para o filósofo, ou melhor, no âmbito
filosófico, para se tratar do tema, a primeira questão a ser levantada é: o que é ou em que
consiste o preconceito?
A resposta que se dará a essa questão aqui tem como base as ideias do filósofo e jurista italiano
Norberto Bobbio, cujas posições éticas e políticas costumam ser acolhidas pelos mais diferentes
grupos, sejam de direita ou esquerda, por exemplo. Ao analisar o preconceito, Bobbio deixa
claro que ele se constitui de uma opinião errônea (ou um conjunto de opiniões) que é aceita
passivamente, sem passar pelo crivo do raciocínio, da razão.

O estereótipo
Em geral, o ponto de partida do preconceito é uma generalização superficial, um estereótipo,
do tipo "todos os alemães são prepotentes", "todos os americanos são arrogantes", "todos os
ingleses são frios", "todos os baianos são preguiçosos", "todos os paulistas são metidos", etc.
Fica assim evidente que, pela superficialidade ou pela estereotipia, o preconceito é um erro.
Entretanto, trata-se de um erro que faz parte do domínio da crença, não do conhecimento, ou
seja ele tem uma base irracional e por isso escapa a qualquer questionamento fundamentado
num argumento ou raciocínio. Daí a dificuldade de combatê-lo. Ou, nas palavras do filósofo
italiano, "precisamente por não ser corrigível pelo raciocínio ou por ser menos facilmente
corrigível, o preconceito é um erro mais tenaz e socialmente perigoso".
Ao apresentar a base irracional do preconceito, Bobbio levanta a hipótese de que a crença na
veracidade de uma opinião falsa só se torna possível por que essa opinião tem uma razão
prática: ela corresponde aos desejos, às paixões, ela serve aos interesses de quem a expressa.

Preconceitos coletivos
Bobbio distingue os preconceitos individuais, como as superstições, por exemplo, dos coletivos.
Fixa sua atenção nos nestes últimos, porque os primeiros são inócuos, não produzem
resultados graves. Ao contrário do que ocorre quando um grupo social apresenta um juízo de
valor negativo sobre outro grupo social. Dizer que os homens são diferentes entre si é um juízo
de fato, mas, a partir disso, não existem elementos que fundamente juízos de valor que
considerem um grupo de homens superior a outro. É precisamente essa diferenciação
valorativa que costuma servir de base à discriminação, à exploração, à escravização ou à
eliminação de um grupo social por outro.

Racismo no Brasil
O tipo de preconceito mais frequente em nosso país é o racial. O racismo no Brasil fica mais
evidente quando o brasileiro identifica o negro com seu papel social. A constatação, obtida por
meio de pesquisa, é da psicóloga e professora da Faculdade de Educação da Universidade
Estadual de Campinas, Ângela Fátima Soligo.
Em sua pesquisa, a professora pediu aos entrevistados que atribuíssem dez adjetivos aos
homens e mulheres negros. Nessa primeira fase, houve equilíbrio. Os pesquisados utilizaram
adjetivos positivos para definir os negros, como competentes, alegres, fortes. Em seguida, eles
foram estimulados a qualificar esses adjetivos, atribuindo-lhes características.
O resultado final revelou que a maioria dos entrevistados, aí incluídos também os negros,
limita-se a reproduzir os chavões sociais. O negro é alegre porque gosta de samba e Carnaval,
forte porque se dá bem nos esportes e competente para trabalhos braçais. "O adjetivo é
positivo, mas o papel social ligado ao negro mostra um preconceito arraigado na nossa
cultura", concluiu a estudiosa.
Mesmo nas exceções, a regra se confirmou. "Houve um entrevistado que disse que o negro
pode ser um advogado competente, mas apenas para livrar outros negros da cadeia, isolando-
os à condição de bandidos e marginais". A pesquisa reforçou a tese de que o brasileiro pratica
um "racismo camuflado": em tese, diz que não tem preconceito, mas prefere limitar as
possibilidades e potencialidades da raça negra. Por exemplo, na pesquisa, não houve
identificação do negro com o intelectual ou o político.
Os dados da pesquisa foram semelhantes em todos os estados pesquisados, inclusive na Bahia -
cuja capital, Salvador, tem população predominantemente negra e esta culturalmente ligada a
tradições africanas. Ela apontou que o modelo, a conduta e a história dos brancos são mais
valorizados em nossa sociedade. Com isso, os próprios negros acabam incorporando uma
imagem negativa sobre sua raça.
O problema do racismo brasileiro é antigo. Tem início por volta do final do primeiro século de
colonização, quando os portugueses constataram a impossibilidade de escravizar os índios. O
negro, então, foi trazido à força para o país, para servir de escravo nas plantações de cana de
açúcar. Independentemente da miscigenação, o negro e os mestiços sempre foram
discriminados socialmente no Brasil.
A própria legislação brasileira, durante quase 500 anos, estimulou a discriminação e o
preconceito. Nem após a abolição da escravatura e a proclamação da República, o negro deixou
de ser discriminado. Só em 1988, com a promulgação da Constituição que está em vigor (art. 5º
- inciso XLII), a prática do racismo passou a ser considerada um crime inafiançável e
imprescritível.

Nazismo: um regime político racista


O Nazismo ou Nacional-Socialismo foi uma doutrina que exacerbava as tendências nacionalistas
e racistas e que constituiu a ideologia política da Alemanha, durante a ditadura de Adolf Hitler
(1939-1945). O pensamento nazista apregoava a superioridade cultural e racial dos alemães,
que estariam vocacionados a impor-se sobre os outros povos da Europa. Elegeu como seus
inimigos ideológicos o liberalismo e o comunismo, que estariam corrompendo as nações
europeias e pelos quais seriam os responsáveis o povo judeu.

Considerados como uma raça inferior, além de inimigos do regime, os judeus foram
inicialmente discriminados e, depois, violentamente perseguidos. Não só na Alemanha mas em
todos os países que foram dominados pelo nazismo, a partir de 1939, os judeus tinham seus
bens confiscados pelo Estado e eram confinados em guetos. Com o início da guerra, passaram a
ser utilizados como escravos. O ápice do projeto nazista para os judeus, entretanto, era a
chamada "solução final", ou seja, o extermínio de todos os judeus europeus. Estima-se que seis
milhões de judeus tenham sido massacrados pelo nazismo.
Vale, porém, lembrar que o furor do preconceito nazista não se restringiu aos judeus. Outros
povos também foram perseguidos, como os ciganos, ou considerados inferiores, como os
eslavos. O nazismo também perseguiu e confinou os homossexuais e chegou a instituir um
programa de eliminação dos deficientes mentais da Alemanha.
A esse propósito, pode-se apresentar os diversos tipos de preconceitos sociais mais frequentes,
deixando de lado o racismo, já suficientemente comentado:
a) Preconceito quanto à classe social:
Em geral, é a tendência a considerar o "pobre" como um ser humano inferior, em função de sua
pobreza, para prevalecer-se dele. A diferença social não pode ser transposta para o plano
intelectual ou moral. Neste último, em especial, todos os homens desfrutam e devem desfrutar
de uma mesma dignidade.
b) Preconceito quanto à orientação sexual:
Atualmente, é cada vez mais reconhecido, inclusive no aspecto legal, o direito de o indivíduo se
relacionar sexual e afetivamente com outro(s) indivíduo(s) do mesmo sexo. A escolha sexual
não interfere no caráter e não é obstáculo ao desenvolvimento de qualquer atividade. A
homossexualidade (homo = igual), porém, ainda é muito discriminada no Brasil, o que é um
resquício da sociedade patriarcal e machista que o país foi até cerca de 40 anos atrás.
c) Preconceito quanto à nacionalidade:
Entre nós, brasileiros, é frequente tachar os portugueses de burros. Isso também é um vestígio
do passado colonial: uma forma de nos vingarmos do povo que naquela época mandava em
nosso país. Em São Paulo, no começo do século 20, devido à imigração, havia preconceito
contra os italianos, chamados pejorativamente de "carcamanos". Na Argentina, há décadas
atrás, os brasileiros eram chamados de "macaquitos", por supostamente imitarem as modas
vindas dos Estados Unidos.
d) Preconceito contra deficientes:
Há uma grande diferença entre deficiência e incapacidade. No entanto, não é incomum que os
deficientes sejam discriminados, particularmente em termos profissionais. Recentemente, o
governo brasileiro tem desenvolvido políticas que visam a integrar o deficiente à sociedade e
coibir a discriminação.
Finalmente, você pode estar se perguntando: tudo bem, já está muito claro o que é
preconceito, como ele se origina e quais são seus tipos mais frequentes, mas a questão
principal é como acabar com ele? Pois bem, veja a resposta dada pelo próprio Norberto Bobbio:

“Quem quer que conheça um pouco de história, sabe que sempre existiram
preconceitos nefastos e que mesmo quando alguns deles chegam a ser superados,
outros tantos surgem quase que imediatamente.
Apenas posso dizer que os preconceitos nascem na cabeça dos homens. Por isso, é
preciso combatê-los na cabeça dos homens, isto é, com o desenvolvimento das
consciências e, portanto, com a educação, mediante a luta incessante contra toda
forma de sectarismo. Existem homens que se matam por uma partida de futebol.
Onde nasce esta paixão senão na cabeça deles? Não é uma panaceia, mas creio que
a democracia pode servir também para isto: a democracia, vale dizer, uma
sociedade em que as opiniões são livres e portanto são forçadas a se chocar e, ao se
chocarem, acabam por se depurar. Para se libertarem dos preconceitos, os homens
precisam antes de tudo viver numa sociedade livre.

Antonio Carlos Olivieri, Da Página 3 Pedagogia & Comunicação é escritor, jornalista e diretor da
Página 3 Pedagogia & Comunicação.
http://educacao.uol.com.br/
Senso Crítico

Por Gabriela E. Possolli Vesce

Estamos acostumados a ouvir a palavra senso em nosso cotidiano: bom senso, senso crítico,
senso de humor, entre outras expressões. Mas já paramos para refletir sobre o que significa ter
ou não ter senso? Qual a diferença entre senso comum e crítico?

O senso comum está mais vinculado à população em geral do que o senso crítico, pois no senso
comum existem muitas questões sobre a vida que são simplesmente irrefletidas e que levam à
alienação. Ele acaba por permear as classes menos abastadas, uma vez que ligada-se com a
educação recebida e com a manipulação pelos meios de comunicação.

Já o senso crítico, divergindo do senso comum, tem por base aquilo que é concreto: a pesquisa,
a reflexão, a análise e a crítica. Culturalmente o senso crítico é muito mais aproveitável e bom
para o indivíduo do que o senso comum. Isso deve-se ao fato de que ao utilizar o senso crítico o
indivíduo passa a pensar e refletir e com isso aprimora suas capacidades intelectuais. Muitas
vezes deixa-se de solucionar problemas de maneira coerente por não parar para refletir e
estudar a melhor maneira de resolvê-lo. Porém não se pode ignorar ou ter pré-conceitos
quanto ao senso comum, como se ele fosse totalmente errado e promotor de grandes mentiras
na sociedade.

A capacidade do homem em desenvolver seu senso crítico é o fundamento da História. A


palavra crítica, de origem grega, significa enquete, pergunta. É preciso perguntar sempre.
Perguntar a si mesmo se o que temos ao nosso dispor é realmente bom para nós, se é possível
melhorar, se é verdade. Nunca devemos aceitar as coisas sem questionar, pois questionar é
pensar.

http://www.infoescola.com/filosofia/senso-critico/
O que esperar de adolescentes e jovens?
Artigo sobre valores e saberes dos jovens de hoje.

Cada idade tem sua sabedoria. Aprendemos a valorizar os idosos, por exemplo, porque nos
fazem viva a memória de nosso passado, com os valores vividos e que nos servem de referência.
A juventude também tem a sua sabedoria. Um exemplo é a facilidade que os jovens têm para
lidar com os novos meios eletrônicos, com as novas tecnologias.

O próprio Papa Paulo VI já dizia, em 1971, que devemos ouvir a sabedoria dos jovens: “é
conveniente até que certos jovens sejam mestres e educadores dos seus companheiros. A sua
idade permite-lhes assimilar novos tipos de cultura e comunicá-la aos da sua geração”. Neste
sentido, a sabedoria dos jovens corresponde a uma utopia que nos faz olhar para o futuro, a
uma projeção do que desejamos. É preciso olhar com cuidado para a juventude. Nela, a
realidade social e os dramas da condição humana estão presentes de forma mais intensa. É a
ponta do iceberg. Como diz a socióloga Marília Spósito, “o modo como uma sociedade olha a
juventude é uma metáfora do modo como ela olha para si mesma”.

Que geração é essa?É fato que mudou muito o jeito de ser adolescente de algumas décadas
para cá. Na verdade, mudou porque o mundo mudou e mudamos todos nós. São mudanças que
trazem perdas e conquistas. Se, por um lado, ganhamos em liberdade e pragmatismo, por
outro, perdemos em idealismo e encantamento. Uma das características desta geração (anos
2000), fruto da revolução tecnológica, é o desejo de fazer tudo-ao-mesmo-tempo-agora:
estudar, ouvir música, vasculhar a internet. Também conhecida como geração Z - de zapear -,
esta geração é formada por nativos digitais, que já nasceram num mundo marcado pela
internet. Não imaginam a vida sem computador, chats, redes de relacionamento, ipods ou
telefones celulares.

Sempre conectados, em geral são mais informados e com interesse por diversos assuntos. São
capazes de conectar-se com uma vasta rede, mas sem profundidade. A velocidade é tão grande
que refletem pouco sobre as informações, não avaliam nem interpretam e sentem muita
dificuldade em definir prioridades. É uma geração ansiosa, porque está exposta a um excesso
de informação, pelo qual a concentração e a reflexão se tornaram capacidades raras.

Aprendendo com eles e for necessário recuperar um programa no computador, basta chamar o
adolescente mais próximo. São eles também os consultores da família na hora de adquirir um
novo aparelho eletrônico. Nós, adultos, devemos aprender com os adolescentes e jovens a
abrir janelas sem ter vergonha de aprender com eles. Os jovens estão mais abertos ao futuro.
Aprender com os jovens que ser multimídia e ficar conectado a inúmeros aparelhos permite
trocar conhecimentos com mais pessoas simultaneamente e receber informações amplas sobre
o mundo. Não podemos querer voltar atrás e achar que os jovens vão abrir mão desses
prazeres e facilidades.

Mas aprender também com a pergunta: o que vale mais, a preservação de nossas forças, que
nos garante uma vida mais longa, ou a liberdade da máxima intensidade e variedade de
experiências? Melhor viver a mil, em menos tempo, ou viver com moderação, em mais tempo?
Melhor ficar acordado até tarde pelo prazer da companhia ou voltar cedo para casa, já que, no
outro dia, os compromissos nos esperam? O prazer ou a vida? Para os jovens, para quem a
morte parece muito distante, parece não haver dúvida de que é preciso viver intensamente o
momento presente, pois “o tempo não para”. Este é um questionamento que nos desafia a,
novamente, perguntar: será que temos outras razões, que não seja apenas a decisão de durar
um pouco mais, a fazer que nos privemos dos prazeres da vida? Qual é o critério do bem ou do
mal quando a paixão de viver é tão grande que ameaça nossa própria vida?

O mais importante é que as gerações se encontrem. A juventude é muito veloz e capaz, mas
não lida bem com perdas e frustrações. A família é o lugar onde os filhos são preparados para
crescer e tornarem-se independentes. O adolescente necessita conquistar seu espaço no
mundo adulto, fazendo suas próprias escolhas. Porém são poucos os jovens em condições de
vislumbrar alternativas para o seu projeto de vida, poder escolher e realizá-lo. Em gestos e
manifestações, mesmo naquelas mais arriscadas, os jovens estão dizendo: “é a vida que
amamos e buscamos”.

A nossa esperança no futuro depende da resposta que daremos à seguinte questão: o que fazer
juntos para que possamos viver mais e melhor? Ou seja, é preciso uma ética da cooperação e
da solidariedade, superando o individualismo e a competição, muito presentes em nossas
ações.

Rui Antônio de Souza teólogo, mestre em Comunicação Social, da equipe do jornal Mundo
Jovem, Porto Alegre, RS. ruisouza@mundojovem.pucrs.br

Texto publicado no jornal Mundo Jovem, edição nº 411, outubro de 2010, página 10.

Questões para Debate:

 1 - Por que é importante, para uma geração, aprender com outra geração?
2 - Que contribuição os adolescentes e os jovens dão para a sociedade atual?
3 - Quais são os limites e os desafios para a geração atual de adolescentes e jovens?
Bullying: quando a escola não é um
paraíso
Artigo - Bullying, o que é, suas causas, incidência na escola, atitudes a tomar e formas de
prevenção.
Brigas, ofensas, disseminação de comentários maldosos, agressões físicas e psicológicas,
repressão. A escola pode ser palco de todos esses comportamentos, transformando a vida
escolar de muitos alunos em um verdadeiro inferno.
Gislaine, aluna do terceiro ano, de oito anos, estava faltando frequentemente à escola. Quando
comparecia, chorava muito e não participava das aulas, alegando dores de cabeça e medo.
Certo dia, alguns alunos procuraram a professora da turma dizendo que a garota estava
sofrendo ameaças. Teria que dar suas roupas, sapatos e dinheiro para outra aluna, caso
contrário apanharia e seria cortada com estilete.
Carlos, do sexto ano, foi vítima de alguns colegas por muito tempo, porque não gostava de
futebol. Era ridicularizado constantemente, sendo chamado de gay nas aulas de educação
física. Isso o ofendia sobremaneira, levando-o a abrigar pensamentos suicidas, mas antes queria
encontrar uma arma e matar muitos dentro da escola.
Os casos descritos acima são reais e revelam a agressão sofrida por crianças dentro da escola,
colhidos e narrados por Cleo Fante como parte de uma pesquisa sobre a violência nas escolas,
publicados em seu livro Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para
a paz. Esses e muitos outros casos de agressões e violências entre os alunos desde as séries
iniciais até o Ensino Médio, demonstram uma realidade assustadora que muitos desconhecem,
ou não percebem, trazendo à tona a discussão sobre o fenômeno bullying, o grande vilão de
toda essa história. Mas o que é? Quais as causas? Como prevenir?

Significado do termo
A palavra bullying é derivada do verbo inglês bully que significa usar a superioridade física para
intimidar alguém. Também adota aspecto de adjetivo, referindo-se a valentão, tirano. Como
verbo ou como adjetivo, a terminologia bullying tem sido adotada em vários países como
designação para explicar todo tipo de comportamento agressivo, cruel, intencional e repetitivo
inerente às relações interpessoais. As vítimas são os indivíduos considerados mais fracos e
frágeis dessa relação, transformados em objeto de diversão e prazer por meio de
brincadeiras maldosas e intimidadoras.

Desconhecimento e indiferença
Estudos indicam que as simples brincadeirinhas de mau gosto de antigamente, hoje
denominadas bullying, podem revelar-se em uma ação muito séria. Causam desde simples
problemas de aprendizagem até sérios transtornos de comportamento, responsáveis por
índices de suicídios e homicídios entre estudantes.

Mesmo sendo um fenômeno antigo, mantém ainda hoje um caráter oculto, pelo fato de as
vítimas não terem coragem suficiente para uma possível denúncia. Isso contribui com o
desconhecimento e a indiferença sobre o assunto por parte dos profissionais ligados à
educação. Pode ser manifestado em qualquer lugar onde existam relações interpessoais.
Consequências marcantes
As consequências afetam a todos, mas a vítima, principalmente a típica (ver quadro), é a mais
prejudicada, pois poderá sofrer os efeitos do seu sofrimento silencioso por boa parte de sua
vida. Desenvolve ou reforça atitude de insegurança e dificuldade relacional, tornando-se uma
pessoa apática, retraída, indefesa aos ataques externos.

Muitas vezes, mesmo na vida adulta, é centro de gozações entre colegas de trabalho ou
familiares. Apresenta um autoconceito de menos valia e considera-se inútil, descartável. Pode
desencadear um quadro de neuroses, como a fobia social e, em casos mais graves, psicoses
que, a depender da intensidade dos maus-tratos sofridos, tendem à depressão, ao suicídio e ao
homicídio seguido ou não de suicídio.

Em relação ao agressor, reproduz em suas futuras relações o modelo que sempre lhe trouxe
resultados: o do mando-obediência pela força e agressão. É fechado à afetividade e tende à
delinquência e à criminalidade.

Isso, de certa maneira, afeta toda a sociedade. Seja como agressor, como vítima, ou até
espectador, tais ações marcam, deixam cicatrizes imperceptíveis em curto prazo. Dependendo
do nível e intensidade da experiência, causam frustrações e comportamentos desajustados,
gerando, até mesmo, atitudes sociopatas.

O papel da educação
A educação do jovem no século 21 tem se tornado algo muito difícil, devido à ausência de
modelos e de referenciais educacionais. Os pais de ontem mostram-se perdidos na educação
das crianças de hoje. Estão cada vez mais ocupados com o trabalho e pouco tempo dispõem
para dedicarem-se à educação dos filhos. Esta, por sua vez, é delegada a outros, ou em caso de
famílias de menor poder aquisitivo, os filhos são entregues à própria sorte.

Os pais não conseguem educar seus filhos emocionalmente e, tampouco, sentem-se habilitados
a resolver conflitos por meio do diálogo e da negociação de regras. Optam muitas vezes pela
arbitrariedade do não ou pela permissividade do sim, não oferecendo nenhum referencial de
convivência pautado no diálogo, na compreensão, na tolerância, no limite e no afeto.

A escola também tem se mostrado inabilitada a trabalhar com a afetividade. Os alunos


mostram-se agressivos, reproduzindo muitas vezes a educação doméstica, seja por meio dos
maus-tratos, do conformismo, da exclusão ou da falta de limites revelados em suas relações
interpessoais.

Os professores não conseguem detectar os problemas e, muitas vezes, também demonstram


desgaste emocional com o resultado das várias situações próprias do seu dia sobrecarregado de
trabalhos e dos conflitos em seu ambiente profissional. Muitas vezes, devido a isso, alguns
professores contribuem com o agravamento do quadro, rotulando com apelidos pejorativos ou
reagindo de forma agressiva ao comportamento indisciplinado de alguns alunos.

O que a família pode fazer?


Não há receita eficaz de como educar filhos, pois cada família é um mundo particular, com
características peculiares. Mas, apesar dessa constatação, não se pode cruzar os braços e deixar
que as coisas aconteçam, sem que os educadores (primeiros responsáveis pela educação e
orientação dos filhos e alunos) façam algo a respeito.

A educação pela e para a afetividade já é um bom começo. O exercício do afeto entre os


membros de uma família é prática primeira de toda educação estruturada, que tem no diálogo
o sustentáculo da relação interpessoal. Além disso, a verdade e a confiabilidade são os demais
elementos necessários nessa relação entre pais e filhos. Os pais precisam evitar atitudes de
autoproteção em demasia, ou de descaso referente aos filhos. A atenção em dose certa é
elementar no processo evolutivo e formativo do ser humano.

O que a escola pode fazer?


Em relação à escola, em primeiro lugar, deve conscientizar-se de que esse conflito relacional já
é considerado um problema de saúde pública. Por isso, é preciso desenvolver um olhar mais
observador tanto dos professores quanto dos demais profissionais ligados ao espaço escolar.
Sendo assim, deve atentar-se para sinais de violência, procurando neutralizar os agressores,
bem como assessorar as vítimas e transformar os espectadores em principais aliados.

Além disso, tomar algumas iniciativas preventivas do tipo: aumentar a supervisão na hora do
recreio e intervalo; evitar em sala de aula menosprezo, apelidos, ou rejeição de alunos por
qualquer que seja o motivo. Também pode-se promover debates sobre as várias formas de
violência, respeito mútuo e a afetividade, tendo como foco as relações humanas.

Mas tais assuntos precisam fazer parte da rotina da escola como ações atitudinais e não apenas
conceituais. De nada valerá falar sobre a não violência, se os próprios profissionais em
educação usam de atos agressivos, verbais ou não, contra seus alunos. Ou seja, procurar evitar
a velha política do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

Ações exemplares
Há diversos exemplos claros de ação eficiente contra o bullying no espaço escolar. Uma delas é
o programa Educar para a paz, criado e desenvolvido por Cleo Fante e equipe, que trabalha
com estratégias de intervenção e prevenção contra a violência na escola. Além disso, também
existem sites sobre o assunto como que visam a alertar e informar profissionais e pais no
combate ao bullying. Destaca-se o trabalho da Associação Brasileira Multiprofissional de
Proteção à Criança e ao Adolescente, com os sites: www.abrapia.org.br e www.bullying.com.br
Geane de Jesus Silva psicopedagoga, professora de Psicologia da Educação e coordenadora
pedagógica, Jitaúna, BA. enaeg@hotmail.com
Artigo publicado no jornal Mundo Jovem, edição nº 364, março de 2006, páginas 2 e 3.

Características de bullying
 Segundo Cleo Fante, no livro Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas
e educar para a paz, os atos de bullying entre alunos apresentam determinadas
características comuns:
• Comportamentos deliberados e danosos, produzidos de forma repetitiva num período
prolongado de tempo contra uma mesma vítima;
• Apresentam uma relação de desequilíbrio de poder, o que dificulta a defesa da vítima;
• Não há motivos evidentes;
• Acontece de forma direta, por meio de agressões físicas (bater, chutar, tomar
pertences) e verbais (apelidar de maneira pejorativa e discriminatória, insultar,
constranger);
• De forma indireta, caracteriza-se pela disseminação de rumores desagradáveis e
desqualificantes, visando à discriminação e exclusão da vítima de seu grupo social.

Os protagonistas do bullying
 A vítima pode ser classificada, segundo pesquisadores, em três tipos:
• Vítima típica: é pouco sociável, sofre repetidamente as consequências dos
comportamentos agressivos de outros, possui aspecto físico frágil, coordenação motora
deficiente, extrema sensibilidade, timidez, passividade, submissão, insegurança, baixa
autoestima, alguma dificuldade de aprendizado, ansiedade e aspectos depressivos.
Sente dificuldade de impor-se ao grupo, tanto física quanto verbalmente.
• Vítima provocadora: refere-se àquela que atrai e provoca reações agressivas contra as
quais não consegue lidar. Tenta brigar ou responder quando é atacada ou insultada,
mas não obtém bons resultados. Pode ser hiperativa, inquieta, dispersiva e ofensora. É,
de modo geral, tola, imatura, de costumes irritantes e quase sempre é responsável por
causar tensões no ambiente em que se encontra.
• Vítima agressora: reproduz os maus-tratos sofridos. Como forma de compensação
procura uma outra vítima mais frágil e comete contra esta todas as agressões sofridas
na escola, ou em casa, transformando o bullying em um ciclo vicioso.
O agressor pode ser de ambos os sexos. Tem caráter violento e perverso, com poder de
liderança, obtido por meio da força e da agressividade. Age sozinho ou em grupo.
Geralmente é oriundo de família desestruturada, em que há parcial ou total ausência de
afetividade. Apresenta aversão às normas; não aceita ser contrariado, geralmente está
envolvido em atos de pequenos delitos, como roubo e/ou vandalismo. Seu desempenho
escolar é deficitário, mas isso não configura uma dificuldade de aprendizagem, já que
muitos apresentam nas séries iniciais rendimento normal ou acima da média.
Espectadores são alunos que adotam a lei do silêncio. Testemunham a tudo, mas não
tomam partido, nem saem em defesa do agredido por medo de serem a próxima vítima.
Também nesse grupo estão alguns alunos que não participam dos ataques, mas
manifestam apoio ao agressor.

Como identificar os envolvidos?


 De acordo com as indicações de Dan Olweus, psicólogo norueguês da Universidade de
Bergen e importante pesquisador sobre o assunto, para que uma criança ou adolescente
seja identificado como vítima ou agressor, pais e professores precisam ter atenção se o
mesmo apresenta alguns comportamentos:
VÍTIMA
Na escola
• Durante o recreio está frequentemente isolado e separado do grupo, ou procura ficar
próximo do professor ou de algum adulto;
• Na sala de aula tem dificuldade em falar diante dos demais, mostrando-se inseguro ou
ansioso;
• Nos jogos em equipe é o último a ser escolhido;
• Apresenta-se comumente com aspecto contrariado, triste, deprimido ou aflito;
• Desleixo gradual nas tarefas escolares;
• Apresenta ocasionalmente contusões, feridas, cortes, arranhões ou a roupa rasgada,
de forma não natural;
• Falta às aulas com certa frequência;
• Perde constantemente os seus pertences.
Em casa
• Apresenta, com frequência, dores de cabeça, pouco apetite, dor de estômago,
tonturas, sobretudo de manhã;
• Muda o humor de maneira inesperada, apresentando explosões de irritação;
• Regressa da escola com as roupas rasgada ou sujas e com o material escolar
danificado;
• Desleixo gradual nas tarefas escolares;
• Apresenta aspecto contrariado, triste, deprimido, aflito ou infeliz;
• Apresenta contusões, feridas, cortes, arranhões ou estragos na roupa;
• Apresenta desculpas para faltar às aulas;
• Raramente possui amigos, ou, se possui, são poucos os que compartilham seu tempo
livre;
• Pede dinheiro extra à família ou furta;
• Apresenta gastos altos na cantina da escola.
AGRESSOR
Na escola
• Faz brincadeira ou gozações, além de rir de modo desdenhoso e hostil;
• Coloca apelidos ou chama pelo nome e sobrenome dos colegas, de forma malsoante;
• Insulta, menospreza, ridiculariza, difama;
• Faz ameaças, dá ordens, domina e subjuga;
• Incomoda, intimida, empurra, picha, bate, dá socos, pontapés, beliscões, puxa os
cabelos, envolve-se em discussões e desentendimentos;
• Pega materiais escolares, dinheiro, lanches e outros pertences dos outros colegas, sem
consentimento.
Em casa
• Regressa da escola com as roupas amarrotadas e com ar de superioridade;
• Apresenta atitude hostil, desafiante e agressiva com pais e irmãos, chegando a ponto
de atemorizá-los sem levar em conta a idade ou a diferença de força física;
• É habilidoso para sair-se bem em situações difíceis;
• Exterioriza ou tenta exteriorizar sua autoridade sobre alguém;
• Porta objetos ou dinheiro sem justificar sua origem.

Bibliografia indicada
 CONSTANTINI, Alessandro. Bullying, como combatê-lo? : prevenir e enfrentar a violência
entre jovens. SP: Itália Nova editora, 2004.
CURY, A. J. Pais brilhantes, professores fascinantes. RJ: Sextante, 2003.
FANTE, Cleo. Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a
paz. 2. ed. rev. Campinas, SP: Verus editora, 2005.
TIBA, Içami. Quem ama, educa! SP: Gente, 2002.

http://www.mundojovem.com.br/artigos/bullying-quando-a-escola-nao-e-um-paraiso
Filosofia e felicidade: O que é ser feliz
segundo os grandes filósofos do passado
e do presente
Antonio Carlos Olivieri

O que é felicidade? Provavelmente, cada pessoa que resolver responder a esta pergunta
apresentará uma resposta própria, pois a felicidade, num certo sentido, é algo individual,
pessoal e intransferível. Por outro lado, há uma ideia de felicidade que pertence ao senso
comum e é compartilhada pela esmagadora maioria das pessoas: felicidade é ter saúde, amor,
dinheiro suficiente, etc. Além disso, a ideia de felicidade não é uma coisa recente. Com certeza,
ela acompanha o ser humano há muito tempo e faz parte de sua história.
Sendo assim, é possível traçar a evolução histórica dessa ideia, se nos debruçarmos sobre a
disciplina que sempre se dedicou a investigar nossas ideias, de modo a defini-las e esclarecê-
las: a filosofia. Na verdade, a ideia de felicidade tem grande importância para a origem da
filosofia. Ela faz parte das primeiras reflexões filosóficas sobre ética, que foram elaboradas na
Grécia antiga. Vamos, então, acompanhar a evolução histórica dessa ideia fazendo uma viagem
pela história da filosofia.
A referência filosófica mais antiga de que se dispõe sobre o tema é um fragmento de um texto
de Tales de Mileto, que viveu entre as últimas décadas do século 7 a.C. e a primeira metade do
século 6 a.C. Segundo ele, é feliz “quem tem corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada”.
Vale atentar para a expressão “boa sorte”, pois disso dependia a felicidade na visão dos gregos
mais antigos.

Bom demônio
Em grego, felicidade se diz “eudaimonia”, palavra que é composta do prefixo “eu”, que significa
“bom”, e de “daimon”, “demônio”, que, para os gregos, é uma espécie de semi-deus ou de
gênio, que acompanhava os seres humanos. Ser feliz era dispor de um “bom demônio”, o que
estava relacionado à sorte de cada um. Quem tivesse um “mau demônio” era fatalmente
infeliz.
Não há dúvida de que, entre os séculos 10 a.C. e 5. a.C, o pensamento grego tende a considerar
os maus demônios mais frequentes do que os bons e apresentar uma visão pessimista da
existência humana. Não é por acaso que os gregos inventaram a tragédia. Uma expressão
radical desse pessimismo nos é fornecido por um velho provérbio grego, segundo o qual “a
melhor de todas as coisas é não nascer”.
Foi a filosofia que rompeu com essa visão pessimista e procurou estabelecer orientações para
que o homem procurasse a felicidade. Demócrito de Abdera (aprox. 460 a.C./370 a.C.) julgava
que a felicidade era “a medida do prazer e a proporção da vida”. Para atingi-la, o homem
precisava deixar de lado as ilusões e os desejos e alcançar a serenidade. A filosofia era o
instrumento que possibilitava esse processo.
Virtude e justiça
Sócrates (469 a.C./399 a.C.) deu novo rumo à compreensão da ideia de felicidade, postulando
que ela não se relacionava apenas à satisfação dos desejos e necessidades do corpo, pois, para
ele, o homem não era só o corpo, mas, principalmente, a alma. Assim, a felicidade era o bem da
alma que só podia ser atingido por meio de uma conduta virtuosa e justa.
Para Sócrates, sofrer uma injustiça era melhor do que praticá-la e, por isso, certo de estar
sendo justo, não se intimidou nem diante da condenação à morte por um tribunal ateniense.
Cercado pelos discípulos, bebeu a taça de veneno que lhe foi imposta e parecia feliz a todos os
que o assistiram em seus últimos momentos.
Entre os discípulos de Sócrates, Antístenes (445 a.C./365 a.C.) acrescentou um toque pessoal à
ideia de felicidade de seu mestre, considerando que o homem feliz é o homem autossuficiente.
A ideia de autossuficiência (que, em grego, se diz “autarquia”,) continuará diretamente
vinculada à de felicidade nos setecentos anos seguintes.

Uma função da alma


Mas o maior discípulo de Sócrates, que efetivamente levou a especulação filosófica adiante de
onde a deixara seu mestre, foi Platão (348 a.C./347 a.C.), o qual considerava que todas as coisas
têm sua função. Assim, como a função do olho é ver e a do ouvido, ouvir, a função da alma é
ser virtuosa e justa, de modo que, exercendo a virtude e a justiça, ela obtem a felicidade.
É importante deixar claro que noções como virtude e justiça integram uma vertente do
pensamento filosófico chamada Ética, que se dedica à investigação dos costumes, visando a
identificar os bons e os maus. Para Platão, a ética não estava limitada aos negócios privados,
devendo ser posta em prática também nos negócios públicos. Desse modo, o filósofo entendia
que a função do Estado era tornar os homens bons e felizes.
A ligação entre ética e política estará ainda mais definida na obra do mais importante discípulo
de Platão, Aristóteles (384 a.C./322 a.C.), o qual dedicou todo um livro à questão da felicidade:
a “Ética a Nicômaco” (que é o nome de seu filho, para quem o livro foi escrito). Amigo de
Platão, mas, em suas próprias palavras, “mais amigo da verdade”, Aristóteles criticou o
idealismo do mestre, reconhecendo a necessidade de elementos básicos, como a boa saúde, a
liberdade (em vez da escravidão) e uma boa situação socioeconômica para alguém ser feliz.

Felicidade intelectual
Por outro lado, a partir de uma série de raciocínios que têm como base o fato de o homem ser
um animal racional, Aristóteles conclui que a maior virtude de nossa “alma racional” é o
exercício do pensamento, pelo quê, segundo ele, a felicidade chega a se identificar com a
atividade pensante do filósofo, a qual, inclusive, aproxima o ser humano da divindade.
Sem perder de vista a aplicação prática de suas ideias, Aristóteles considera a política como
uma extensão da ética e, nesse sentido, para ele também é uma função do Estado criar
condições para o cidadão ser feliz. O Estado que o filósofo tinha em mente, porém, era a “polis”
grega, que, naquele momento, estava deixando de existir, com o surgimento do império de
Alexandre o Grande.
Depois de Alexandre, no mundo grego ou helênico, desenvolveram-se três escolas filosóficas
que vão se estender até o fim do Império romano, as chamadas filosofias helenísticas. Todas
elas, por caminhos diferentes, chegam a conclusão de que, para ser feliz, o homem deve ser
não só autossuficiente, mas desenvolver uma atitude de indiferença, de impassibilidade, em
relação a tudo ao seu redor. A felicidade, para eles, era a “apatia”, palavra que, naquela época,
não tinha o sentido patológico que tem hoje.
Prazer e salvação da alma
Entre os filósofos do mundo helênico, pode-se citar Epicuro (341 a.C./271 a.C.), para deixar
claro que essa ideia de “apatia” não significa abdicar ao prazer. O prazer era essencial à
felicidade para Epicuro, cuja filosofia também é conhecida pelo nome de hedonismo (em grego
“hedone” quer dizer “prazer”). Mas ele deixa claro, numa carta a um discípulo, que não se
refere ao prazer “dos dissolutos e dos crápulas” e sim ao da impassibilidade que liberta de
desejos e necessidades.
Com o fim do mundo helênico e o advento da Idade Média, a felicidade desapareceu do
horizonte da filosofia. Estando relacionada à vida do homem neste mundo, ela não interessou
aos filósofos cristãos como Agostinho de Hipona (354 d.C./430 d.C.), Anselmo de Canterbury
(1033/1109) ou Tomás de Aquino (1225/1274), todos santos da Igreja católica. Para a filosofia
cristã, mais do que a felicidade, o que conta é a salvação da alma.
Os filósofos voltaram a se debruçar sobre o tema na Idade Moderna. John Locke (1632/1704) e
Leibniz (1646/1716), na virada dos séculos 17 e 18, identificaram a felicidade com o prazer, um
“prazer duradouro”. Alguns décadas depois, o filósofo iluminista Immanuel Kant (1724/1804),
na obra “Crítica da razão prática” definiu a felicidade como “a condição do ser racional no
mundo, para quem, ao longo da vida, tudo acontece de acordo com o seu desejo e vontade”.

Direito do homem
No entanto, para Kant, como a felicidade se coloca no âmbito do prazer e do desejo, ela nada
tem a ver com a Ética e, portanto, não é um tema que interesse à investigação filosófica. Sua
argumentação foi tão convincente que, a partir dele, a felicidade desapareceu da obra das
escolas filosóficas que o sucederam.
Mesmo assim, não se pode deixar de mencionar que, no mundo de língua inglesa, na mesma
época de Kant, a ideia de felicidade ganhou lugar de destaque no pensamento político e buscá-
la passou a ser considerada um “direito do homem”, como está consignado na Constituição dos
Estados Unidos da América, que data de 1787 e foi redigida sob a influência do Iluminismo.

Egocentrismo e infelicidade
É também no âmbito da filosofia anglo-saxônica, no século 20, que se encontra uma nova
reflexão sobre nosso assunto. O inglês Bertrand Russell (1872/1970) dedicou a ele a obra “A
conquista da felicidade”, usando o método da investigação lógica para concluir que é
necessário alimentar uma multiplicidade de interesses e de relações com as coisas e com os
outros homens para ser feliz. Para ele, em síntese, a felicidade é a eliminação do egocentrismo.
Mais recentemente, em 1989, o filósofo espanhol Julián Marías também dedicou ao tema um
livro notável, “A felicidade humana”, em que estuda a história dessa ideia, da Antiguidade aos
nossos dias, ressaltando que a ausência da reflexão filosófica sobre a felicidade no mundo
contemporâneo talvez seja um sintoma de como esse mesmo mundo anda muito infeliz.

Bibliografia
Abbagnano, Nicola - "Dicionário de Filosofia", Martis Fontes, São Paulo, 2000.
Berti, Enrico - "No princípio era a maravilha", Loyola, São Paulo, 2010.
Marías, Julián - "A felicidade humana", Duas Cidades, São Paulo, 1989.
Antonio Carlos Olivieri Antonio Carlos Olivieri é jornalista e escritor.

http://educacao.uol.com.br/
A busca da felicidade
Artigo sobre felicidade como característica humana

Só se pode buscar aquilo que se conhece!


Na sociedade contemporânea tem sido comum deparar-se com pessoas criando e recriando
situações que lhes favoreçam bem-estar social e pessoal. Valendo-se de situações inusitadas,
adotam atitudes e comportamentos dos quais possam extrair um mínimo de paz. Mesmo assim,
acabam por confundir seus anseios ao fixar os momentos de felicidade nos prazeres do corpo ou
do poder. É que muitas vezes o termo felicidade tem sido confundido com satisfação de prazer.
Com efeito, há pessoas que estão à mira das indagações sobre o que seja realmente felicidade,
se ela existe de fato; se há pessoas felizes sempre, todos os dias, enfim, os questionamentos
divagam.

Na verdade, não existe uma prescrição sobre os passos para a felicidade, visto estar ela
relacionada a um estado de espírito. Porém há situações voluntárias ou involuntárias que nos
reportam a momentos nos quais a vivenciamos ou não. Desta forma, a questão da felicidade
acaba desembocando no relativismo, predisposta a oscilações mediante predisposições
internas inerentes ao ser humano.

É sabido por muitos que embora os avanços tecnológicos estejam bem presentes massificando-
se cada vez mais e arrastando consigo a globalização com inovações surpreendendo a cada dia,
mesmo assim não conseguem preencher as lacunas infalíveis que caracterizam o ser humano.
As pessoas estão sempre insatisfeitas com os fatos, os acontecimentos, as buscas e procuras, os
erros e acertos, enfim... Essas insatisfações abrem lacunas para a infelicidade já que algo
precisa ser preenchido e esse preenchimento se dá muitas vezes até com o inesperado, o
inespecífico, com algo que aos olhos de tantos poderia ate ser insignificante.

Em que consiste a busca da felicidade

Há, sem dúvidas, um desejo imenso na humanidade de ser feliz, de encontrar-se com a
felicidade e caminhar em parceria com ela. É como se estivéssemos sempre à espreita do
tesouro escondido. Empreendemos boa parte de nossa vida em busca deste sentimento. Às
vezes acertamos, às vezes não e até nos decepcionamos quando nos prendemos a fatores
externos como: posse de casa, de carro novo ou de cargo que julgamos importante.
Porém a verdadeira felicidade consiste na satisfação com o que temos ou não; com a
autoaceitação compreendendo-nos como seres capazes e limitados. Consiste também no
compartilhar valores numa atitude gratuita sem espera de retornos. Consiste em semear a paz
permitindo brilhar um novo sol sobre nós e os que nos rodeiam, lembrando que a fonte da
felicidade habita dentro de cada um de nós e floresce quando partilhada com nossos
semelhantes. “É como espalhar perfume sobre os outros, sempre algumas gotas cairão sobre
nós mesmos. É como afirmou Maxwell: “A felicidade é um bem que se multiplica ao ser
dividido.”
Valdina Germano Soares Graduada em letras pela UFCG. Especialista em Metodologia do
ensino pelo CESSF lato sensu. Teologia para Leigos FAFIC. Professora de Língua e literatura e
Ensino Religioso na Escola Cristiano Cartaxo- Cajazeiras - PB. valdinagermano@hotmail.com

Dicas
 Algumas dicas para o leitor buscar a felicidade
- Se chover, seja feliz com a água que molha os campos, sacia a terra sedenta e faz
florescer a relva;
- Se fizer sol, seja feliz aproveitando seus raios que clareiam e aquecem descortinando a
muralha da escuridão;
- Se houver flores em seu jardim, seja feliz, curtindo a beleza, o perfume e a
ornamentação do ambiente;
- Se encontrar pedras no caminho, seja feliz ao saber ultrapassá-las reconhecendo-as
como parte de uma frutífera caminhada;
- Se, portanto, encontrar dor, alegria e dúvidas, seja feliz porque tudo isso constitui o
sentido de estar vivo.
Procure fazer sempre da sua vida um hino de louvor ao Criador, mesmo se estiver alegre
ou triste, com saúde ou enfermo, só assim poderá provar por mais vezes o sabor de ser
feliz, já que é dentro de si que a felicidade habita e se apresenta de várias faces perante
seus anseios.
E pense com Carl Jung: “A felicidade perderia seu significado se não fosse equilibrada
pela tristeza”. E assim afirma o salmista: “Os que semeiam entre lágrimas com alegria
ceifarão.”
Os momentos de alegria refletem nos momentos de felicidade! E os de tristeza, também
não influenciam nesse processo? O que você acha?

http://www.mundojovem.com.br/artigos/a-busca-da-felicidade
Aborto: A ética e a interrupção da
gravidez
José Renato Salatiel

As ciências contemporâneas, sobretudo as ciências da vida (biologia, medicina, genética etc.),


criaram uma série de dilemas éticos que são estudados pela filosofia. O ramo da filosofia que
estuda os problemas morais que surgem dessas ciências é chamado bioética; e a subdivisão da
bioética que cuida de assuntos específicos da medicina, como o aborto, é chamada ética
médica.

O aborto é um dos pontos mais difíceis da ética médica. Ele envolve aspectos religiosos, legais,
médicos, socioculturais e políticos. Neste artigo, examinaremos o aborto somente do ponto de
vista da filosofia, expondo os principais argumentos contra e a favor da interrupção intencional
da gravidez.

Há duas posições opostas bem delimitadas na discussão sobre o aborto. A primeira, pró-vida ou
conservadora, defende o direito moral da vida do feto. A segunda, pró-escolha ou liberal,
entende que a mulher tem um direito moral sobre o próprio corpo, o que lhe permite fazer o
aborto.

É claro que existem opiniões intermediárias. Alguns acham errado o aborto, mas defendem sua
prática em casos específicos (por exemplo, quando a mulher ou o filho correm risco de morte -
ou quando a mãe foi vítima de estupro). Do mesmo modo, entre aqueles que defendem o
aborto, há os que são contra a prática sob certas circunstâncias, por exemplo, quando a
gestação se encontra num estado avançado. Além disso, existem também situações que fogem
a essas duas abordagens. Por exemplo, quando a mulher grávida precisa remover o útero por
conta de um câncer. Neste caso, o aborto seria um efeito colateral.

Principais argumentos

À parte todas essas questões, as duas posições contrárias ajudam a entender os dois principais
argumentos do problema ético do aborto.

O primeiro argumento diz respeito ao direito moral à vida do embrião ou feto. Ele afirma que,
se os fetos têm direito moral à vida, então o aborto é errado, pois a proteção à vida é um valor
superior à escolha da mulher.

O problema com esse argumento é saber o que é exatamente uma pessoa, no sentido moral do
termo, e se o feto ou embrião se encaixa nessa definição. Se o embrião é uma pessoa, ele tem
direito à vida, caso contrário, é destituído desse direito.

A conceituação clássica do que é uma pessoa foi dada pelo filósofo inglês John Locke (1632-
1704) no Ensaio sobre o entendimento humano (1690). Ele define pessoa como "um ser
inteligente, que possui razão e capacidade de reflexão, e pode considerar a si próprio como
uma coisa que pensa, em diferentes momentos e lugares; que o faz apenas por essa
consciência, que é inseparável do pensamento e que me parece essencial a ele; sendo
impossível para qualquer um perceber sem perceber que percebe".

Fetos não possuem autoconsciência, muito menos capacidade de reflexão ou memória.


Portanto, não atendem a essas características definidoras de um indivíduo. Mas, nesse caso,
pacientes em coma ou estado vegetativo também não teriam direito moral à vida, assim como
crianças recém-nascidas, que não possuem ainda a noção de self.

Uma forma de resolver isso é apelar para a doutrina de Aristóteles da potência e ato. Para
Aristóteles, existe um ser em ato e um ser em potência. Potência é a capacidade para realizar
algo, enquanto ato é a realização concreta dessa potencialidade. Por exemplo, se tenho a
capacidade de andar (potência), e não for impedido por condições externas, eu ando (ato).

Visto sob esta perspectiva, o feto seria um indivíduo em potencial e, em razão disso, realizar
um aborto seria privar o feto do direito a essa vida futura. Mas, nesse caso, a clonagem de
humanos, que teoricamente pode produzir outro ser a partir de uma célula, significa que
qualquer célula poderia ser um indivíduo em potencial, o que, nesse caso, é uma prerrogativa
absurda.

Direitos da mulher

O segundo argumento postula que a mulher possui direitos sobre seu corpo e, portanto, pode
se decidir pela interrupção de uma gravidez indesejada ou de risco. O aborto, dessa maneira,
seria um exercício inviolável dos direitos da mulher.

Defensores desse argumento acreditam, em geral, que o feto ou embrião ainda não é um
indivíduo com as capacidades desenvolvidas, logo, não haveria conflito de interesses entre
direitos da mulher e do feto. Nesse sentido, deveria prevalecer a vontade da mulher.

Porém, há ainda um argumento derivado, mais radical, desenvolvido pela filósofa Judith Jarvis
Thompson. Segundo ela, ainda que o feto tenha direito à vida, o aborto é eticamente
permissível, porque ele não permite que se utilize do corpo da mãe contra a vontade dela.

Thompson fornece o seguinte exemplo. Imagine um brilhante violinista que se encontra


inconsciente, sofrendo de uma doença renal fatal. Uma sociedade de amantes da música
descobre que somente você possui o tipo sanguíneo do violinista. Eles então o sequestram e
conectam o sistema circulatório do violinista ao seu organismo, de modo que seu rim filtre as
impurezas de ambos os corpos. Um médico descobre a operação clandestina e expõe a
seguinte situação: caso você se desconecte, o violinista morre, mas se aceitar a condição por
um período de nove meses, salvará a vida dele.

Para Thompson, tanto você quanto o violinista têm os mesmos direitos à vida, só que esse
direito não se sobrepõe ao de decidir o que fazer com seu próprio corpo, direito este que o
violinista não possui.
Assim, ao abortar, a mulher não estaria violando o direito à vida, mas somente privando o feto
de um direito que ele não tem de fato. Um dos problemas mais óbvios desse argumento é que
a mulher pode escolher engravidar ou não (a menos que tenha sido vítima de um estupro;
nesse caso a analogia é válida), por isso teria responsabilidades. Além disso, o aborto mataria
um feto sadio, ao passo que o violinista morreria em decorrência da doença.

Bem-estar

Já do ponto de vista utilitarista, o bem-estar da pessoa, e não seus direitos, é que seria levado
em conta na decisão. Como o feto ou embrião não tem ainda consciência de bem-estar, o
aborto seria um ato moral aceitável. Outro grupo alega que isso privaria o bem-estar futuro
desse feto, que em determinadas condições se desenvolveria plenamente.

Em resumo, a discussão evolui em torno de estabelecer se o feto é uma pessoa e, como tal,
possui direito à vida - e se, mesmo que tenha esse direito, ele se sobrepõe ao da mãe em
determinar o que fazer com o próprio corpo. A escolha do aborto é sempre circunstancial, pois
envolve vários outros aspectos, além dos filosóficos. No entanto, são debates éticos que
fornecerão base para a elaboração de leis sobre o aborto e para a criação de políticas públicas.

José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista e professor
universitário.

Bibliografia

 GALVÃO, Pedro (org.). Ética do aborto: perspectivas e argumentos. Lisboa: Dinalivro,


2005.
 BENNETT, Rebecca et al. "Bioética, Genética e Ética Médica", em Compêndio de
Filosofia. BUNNIN, Nicholas e TSUI-JAMES, E. P. (org.). 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola,
2007

http://www.mundojovem.com.br/artigos/
Afeto é algo que se aprende
Artigo sobre relações afetivas.

Na vida, passamos por diversos tipos de aprendizagens: matemática, línguas, ciências naturais,
ciências humanas etc. A lista é extensa e quem freqüenta a escola sabe bem do que eu estou
falando. Conteúdos importantes, cada um nos ensinando a olhar a vida de um jeito novo.

Posso, por exemplo, visitar uma cidade diferente e conhecê-la com as chaves das minhas
aprendizagens: “Nossa, que cidade pequena! Quantos habitantes ela tem? E estes prédios
antigos, que bonitos! Quando foi fundada? Qual é sua história? Onde ela se localiza no mapa?
Que natureza diferente de onde eu vivo... Quais bichos, flores e árvores existem por aqui?”. E
com estas e outras percepções e perguntas seguimos aprendendo...

Contudo há um tipo de aprendizagem especial que começa desde que nascemos e por toda a
nossa vida seguiremos fazendo: a aprendizagem dos afetos. Quando somos bebês, temos a
possibilidade de aprender, pelo afeto recebido daqueles que nos cuidam, que somos seres
únicos, especiais e cheios de potencialidades. Vamos crescendo e, junto com o aprender a falar,
caminhar, comer sozinho, fazer xixi no penico, podemos aprender também que, para sermos
especiais e ter o amor daqueles que estão à nossa volta, o mundo não precisa girar sempre ao
redor do nosso próprio umbigo.

Encontros

Crescemos mais um pouco e as nossas relações com as pessoas e o mundo aumentam. Cada
vez nos expandimos mais, crescendo em altura e em amigos e, junto com o aprender a contar,
ler, andar de bicicleta, podemos aprender a contar com os amigos e eles aprendem a contar
com a gente para o que der e vier. Podemos aprender que a vida é um bem que devemos
preservar em todas as suas expressões: a água, os animais, as florestas, as cidades e seus
meninos, as flores, os idosos, o nosso corpo, as nossas amizades e a nossa família.

Na juventude, vamos tendo mais consciência destas aprendizagens, podendo fazer o


movimento de olhar para elas e dizer para os outros quais aprendizagens dos afetos
conseguimos realizar: confiar mais em si, escutar mais os outros, ter medo de algumas coisas,
saber de nossas limitações e capacidades.

E onde estas aprendizagens dos afetos acontecem? Na escola? Também, mas para elas não é
possível apenas um período de 50 minutos por semana. Acontecem na vida,
fundamentalmente, nos encontros que fazemos com a vida. É nos encontros - com as pessoas,
com os bichos, com os cheiros, com os lugares - que experimentamos a alegria ou a tristeza,
aquilo que nos faz ser mais, cheios de vida, ou aquilo que nos faz ser menos, tristes, que
empobrecem a nossa vida. Quanto mais estivermos abertos a diferentes encontros, mais a
nossa vida ganhará movimento, torna-se interessante e rica em afetos.
Cuidado recíproco

Para experimentarmos o novo, e o novo em nós, necessitamos de um espaço para que todas
estas emoções despertadas nos encontros possam se organizar dentro da gente. Como assim?
Acontece que não dá para só experimentarmos emoções novas se não conseguimos dar um
sentido para elas em nossa existência. É como se a gente passasse o tempo todo viajando para
lugares diferentes no mundo, mas deles não guardássemos nada. Ficaríamos tão atordoados
com tantas coisas vividas que seria como se não tivéssemos conhecido nada de verdade. Tudo
passa, nada fica. Tudo passa muito rápido e a gente não consegue acompanhar nem a gente
mesmo. Por vezes, confundimos viver intensamente com viver apressadamente. A intensidade
da vida se dá na qualidade das experiências vividas e isto requer de nós uma outra relação com
o tempo.

Na arte, assim como nos grupos em que partilhamos a vida, grupo de jovens, grupos
terapêuticos, na nossa família, encontramos maneiras de expressar o mar revolto de afetos que
mora em nós. A dança, o teatro, a fotografia, a poesia e todas as outras formas de arte são,
como os grupos, espaços de produção coletiva. O artista não faz arte para seu “próprio
consumo”. Ele dialoga com o mundo, inventa a vida e outros modos de vivê-la. Pensando assim,
todos nós podemos ser artistas da vida e ter a possibilidade de experimentar a alegria que ela
carrega em si.

E no mundo em que a gente está vivendo, onde tudo é tão rápido e superficial, onde somos
abarrotados de informações e estímulos, apostar nos modos de viver a vida coletivamente em
recíproco cuidado e ousadia é o que há de mais revolucionário para lutar.

Bianca Sordi Stock Psicóloga clínica, do mestrado em Psicologia Social da UFRGS, tutora de
Saúde Indígena e professora na Unisinos, RS. biancastock@gmail.com

Artigo publicado na edição nº 387, jornal Mundo Jovem, junho de 2008, página 2.

Questões para debate:

 1 - Como cuido e como devo cuidar dos meus afetos?


2 - Que dificuldades encontramos em nossas relações afetivas: namoro, família, amigos
e colegas?
3 - Comente a frase: “A intensidade da vida se dá na qualidade das experiências vividas
e isto requer de nós outra relação com o tempo”

http://www.mundojovem.com.br/artigos/afeto-e-algo-que-se-aprende
Solidão e amizade: companheiras de vida
Artigo sobre solidão e Amizade.

A solidão e a amizade são importantes experiências existenciais na vida de todos nós, seres
humanos. À primeira vista, a solidão nos remete ao isolamento social, ao medo do outro, ao
medo do abandono, à dificuldade de relacionamento que provoca a fuga do encontro com
outras pessoas. Mas não precisa ser só isso.

Para o psicanalista Donald W. Winnicott, a solidão também pode ser positiva, estimulante e
criadora quando, nos relacionamentos com quem nos cuida desde a infância, desenvolvemos o
que ele chamou de “capacidade de estar só” mesmo estando na presença de outra pessoa.
Seria quando a criança consegue brincar perto da mãe sem necessitar o tempo inteiro de sua
atenção. Esta experiência nos proporciona desde muito cedo a capacidade de lidarmos com o
sentimento de solidão, sem que isso nos provoque angústia ou ansiedade. Assim teremos
maiores e melhores possibilidades de construir encontros profundos com outros seres
humanos, sendo a amizade um deles.

Para além da ideia comum em nossa sociedade de que a solidão representa uma maior
dificuldade de se abrir para outras pessoas e de fazer amizades, preferimos pensar que a
solidão e a amizade podem ser vistas como complementares e mesmo companheiras, se
ampliarmos nosso foco de análise sobre a vida relacional e o cotidiano de todos nós, nas
diversas fases do desenvolvimento humano.

Jogo do encontro

Podemos perceber, então, que desde a mais tenra infância lidamos com sentimentos
contraditórios como a busca do encontro com o outro, mas também o estranhamento diante
dos que não conhecemos. Esse interjogo existencial é fundamental em nossos encontros
posteriores em todos os campos da vida.

Na adolescência, esses sentimentos contraditórios são intensificados e são mais complexos.


Nesse sentido, tanto a solidão quanto a amizade - como busca e afastamento do contato com
os outros - são importantes e presentes no cotidiano das relações sociais satisfatórias.
Contribuem para a formação do sentimento de pertencimento não só a si mesmo mas à família
e ao grupo de amigos, e de diferenciação do que não é próximo ou familiar.

Estas experiências contribuem para a construção da identidade e da subjetividade do


adolescente, sendo a solidão o sentimento de estar só em contato com sua própria intimidade,
sentindo-se bem com essa experiência, sentindo-se mais forte diante dos acontecimentos
inerentes ao relacionamento com os amigos e com a família. E a amizade é a vivência de se
reconhecer e ser reconhecido como integrante de um grupo diferente da família, onde é
possível experimentar coletivamente a vida, tendo suporte emocional e social.
Solidão e adolescência

Não podemos esquecer do contexto sócio-histórico, psicossocial-cultural e econômico-político


no qual vivemos. Assim, pensemos sobre a solidão e a amizade na vivência da adolescência em
nossa sociedade que, entre outras coisas, tem sido marcada por relações de instrumentalidade
- transformar as outras pessoas em objetos a serem utilizados de acordo com determinados
interesses; de descartabilidade - realizar contatos de curta duração sem interesse em encontros
afetivos, apenas curtição momentânea; e de animosidade pelo preconceito e discriminação
com os que são diferentes.

Como essas questões interferem na vivência da solidão, como uma experiência importante de
contato consigo mesmo, e na vivência da amizade, como uma experiência de encontro, amor,
cuidado, reconhecimento e respeito com as outras pessoas? Faço esse questionamento para
provocar reflexões sobre as relações de solidão e de amizade entre os adolescentes no
contexto em que vivemos e como podemos contribuir para que sejam mais satisfatórias, mais
afetivas e acolhedoras. Este é um desafio coletivo e cotidiano de responsabilidade de todos
nós.

Márcia Campos Andrade professora da Universidade Estadual de Maringá, PR, autora do livro
Dinâmicas para a convivência humana. maringa2008@yahoo.com.br

Artigo publicado na edição nº 408, jornal Mundo Jovem, julho de 2010, página 20.

Música: Solidão (Papas da Língua)


 Intérprete: Papas da Língua Composição: Tati A. Barreto

Ontem à tarde eu vi
Você ali,
Olhando o sol
Sumir no rio,
E percebi...
Havia solidão
No seu olhar, na sua voz,
No coração... solidão...
Por que ficar assim?
Tão longe de mim?
Prefiro muito nós,
Enquanto somos um.
Solidão, solidão.

Questões para debate:


 A música Solidão, gravada pelo grupo de pop rock Papas da Língua, nos remete aos
sentimentos provocados pela solidão e também nos faz pensar que “juntos podemos
ser um”. O que você pensa sobre isso?
O que fazemos quando percebemos que nossos amigos estão se sentido sós? E nós,
quando estamos solitários, como reagimos? Em nossas experiências, a solidão pode ser
um momento positivo?

http://www.mundojovem.com.br/artigos/
O sentido da palavra Amor
Por Ana Lucia Santana

O amor, no mundo moderno, envolve sempre emoções intensas, mesmo quando se manifesta
de uma forma mais calma e equilibrada, nos momentos de generosidade, de afeto carinhoso,
ou quando se está saudoso de alguém. De qualquer forma ele possui hoje, na língua
portuguesa, inúmeros sentidos, tais como amizade, piedade, comiseração, desejo, paixão,
encanto, entre outros.

Mas, ao estudarmos as origens desta expressão,


percebemos que em tempos remotos, na
Antiguidade Clássica, não se via o amor como um
afeto mais forte; sua vertente romântica ainda não
era conhecida, e esse conceito de uma emoção
poética e veemente deixaria os gregos e romanos
antigos transtornados. Apesar disso, não se deve
imaginar que eles fossem frios e indiferentes;
apenas esta modalidade sentimental, ao ser
experimentada, deveria ser eliminada.

Este sentimento passou a existir junto com o ser humano, mas seu significado se modificou ao
longo do tempo e através de incontáveis culturas, conquistando historicamente um status
cultural, conforme a época e a civilização em questão. Atualmente seu sentido mais comum
está relacionado ao estabelecimento de uma ligação afetiva com o outro ou um determinado
artefato que tenha a propriedade de acolher esta sensação, e de retribuí-la emitindo impulsos
sensoriais e psíquicos indispensáveis a sua preservação.

Os romanos da Antiguidade, porém, conferiam ao amor um sentido passivo, o qual levava os


cidadãos de Roma a conceberem esta expressão com a conotação ‘ser amado’, não amar. Em
algum momento indefinido da história desta civilização, possivelmente por pressão dos
germanos, este termo conquistou um significado ativo; agora o ser não apenas recebia o afeto,
mas também o concedia a outrem.

Já os gregos utilizavam quatro verbos para se referirem ao amor, e somente um deles se referia
ao sentimento predominante entre casais. ‘Filéo’ é o amor fraterno; ‘Agapeu’ está relacionado
ao prazer e ao desejo, ao sentimento cultivado na relação marido/ esposa; Stergo tem o
sentido de afeto protetor, estabelecido entre familiares; e Eros é o sentimento envolvido na
relação homem/ mulher.

Platão revela, no seu diálogo Fedro, a concepção de Sócrates sobre as origens do sentimento
voluptuoso; a Humanidade o via como Eros, o ser provido de asas, enquanto as divindades o
definiam como algo menos singelo: ptérôs, aquele que doa asas.

Esta conotação sagrada revela que o amor é não só autônomo, mas, não cabendo em si
mesmo, deseja partilhar com alguém este sentimento. Alguns estudiosos acreditam que seu
real sentido reside na intersecção destas duas significações, Eros e Ptérôs. Ou seja, o ser ama o
outro e, ao mesmo tempo, percebe que ama a si mesmo.

Fala-se em amor platônico como um sentimento utópico, indiferente a qualquer conveniência


ou prazer, o protótipo do afeto não concretizado, proibido, completamente puro. Mas esta é
uma visão idealizada, fruto de uma compreensão equivocada da obra de Platão, uma vez que
ele situa este sentimento no mundo das ideias, mas não se pode esquecer que este universo
das verdades eternas é bem concreto e palpável para o filósofo.

Assim, segundo Platão, o amor é carência; quem ama procura no alvo de seu sentimento a Ideia
que um dia contemplou enquanto sua alma estava desligada do corpo, a qual ele não encontra
no plano material, pois sua reprodução sensível não lhe basta. Mas ele preenche este vácuo e
ganha plenitude em uma relação correspondida.

Com a passagem dos séculos o amor e a paixão se libertam do sentido passivo e conquistam a
conotação ativa; várias expressões têm seus significados transformados, pois a língua é um
instrumento totalmente seletivo; assim, ela realiza suas opções e destaca o que é mais
importante, segundo as preferências de cada sociedade.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Amor
Língua Portuguesa Especial. Etimologia. As origens do cotidiano. Ano I/ Janeiro de 2006.

http://www.infoescola.com
Consumo e novas tecnologias. Para
quem?
Numa sociedade capitalista, estar excluído do mercado é estar excluído das condições dignas
de vida. Porque as coisas necessárias para uma vida digna você consegue via mercado. A
grande pergunta é: por que o sistema econômico no qual vivemos hoje exclui tanta gente das
relações econômicas e sociais que passam através do mercado?

No contexto da sociedade atual, sem dúvida, a economia é o tema central, é a grande questão.
Não somente porque nós vivemos numa sociedade capitalista, em que tudo está centrado na
questão da economia e do aumento de capital, mas também porque na vida real as coisas
passam pelo campo econômico, as coisas que nós precisamos para viver nós compramos. E
para comprar é preciso estar inserido no mercado.

O que é o mercado?

De uma forma bem simples, mercado é espaço de compra e venda. Para você entrar no
mercado você precisa ter alguma coisa para trocar. Ou você tem dinheiro e compra; ou você
tem um trabalho para vender, para receber salário; ou você tem uma mercadoria para vender,
para pegar o dinheiro e comprar as coisas que precisa. Então, de uma forma simples, mercado é
um espaço de troca. Nesse sentido, mercado é bom. Mercado é uma coisa necessária, uma
invenção humana, de muito tempo atrás, que possibilitou melhora nas condições de vida das
pessoas.

O problema é que no sistema capitalista, as regras do mercado passaram a ser as únicas regras.
Antigamente, se alguém não tinha acesso ao mercado, se não tinha como comer, a sociedade, a
comunidade ou a vizinhança ajudava. Você tinha as relações solidárias, relações comunitárias
suprindo problemas de mercado. Numa sociedade capitalista, o mercado passa a ser o principal
regulador da vida social. Então as pessoas, ou porque não têm emprego, ou porque não têm
renda suficiente, não conseguem entrar no mercado para comprar as coisas necessárias para
viver, e viver de uma forma digna.

O ser humano e o consumo

O ser humano é um ser de desejos e necessidades. Portanto o ser humano não vive só pela
necessidade, também deseja coisas. E fundamentalmente deseja ser reconhecido pelas outras
pessoas. O grande desafio é tentar entender quais são os mecanismos de reconhecimento na
sociedade.

Nas sociedades antigas, por exemplo, ser honrado era um valor importante para ser
reconhecido como uma boa pessoa. Na sociedade da cultura de consumo de hoje você é
reconhecido pelo seu padrão de consumo. Eu desejo ser reconhecido, então para isso eu
preciso comprar as coisas que não são necessárias para a sobrevivência imediata, mas são
necessárias para ser reconhecido. Então aí aparecem tênis caros, celulares e carros sofisticados
que as pessoas passam a desejar. Com isso, o que o capitalismo faz é fomentar esse desejo de
consumo, reforçando a ideia de classificação de pessoas por padrão de consumo. Então os
pobres, além de não terem acesso a uma vida boa, eles também têm outro problema: são
frustrados no desejo de reconhecimento.

Novos caminhos

O primeiro desafio dos cidadãos é possibilitar espaços de relacionamento, nos quais o consumo
não seja critério de reconhecimento. Uma das grandes contribuições que as comunidades
cristãs fazem no mundo de hoje é permitir que pessoas simples, sem grande acesso ao
consumo, possam ser reconhecidas como pessoas, porque são reconhecidas como seres
humanos. E mesmo as pessoas que têm acesso ao consumo têm a experiência de um
reconhecimento humano verdadeiro, não através do padrão de consumo.

O segundo aspecto é lutar para criar espaços de sobrevivência econômica melhor para pessoas
excluídas. Criar possibilidades como a economia popular e solidária, práticas de educação
profissionalizante, seja em formas tradicionais, seja em formas alternativas das práticas
comunitárias.

O terceiro aspecto é fazer uma crítica na sociedade a esse caráter perverso de uma economia
baseada somente na acumulação do capital, que, além de excluir as pessoas da condição de
uma vida digna, também gera uma antropologia equivocada de achar que o ser humano é
aquilo que consome.

Jung Mo Sung professor de Pós-Graduação das Ciências da Religião na Universidade Metodista


de São Paulo. jung_sung@metodista.br

Artigo publicado na edição nº 404, jornal Mundo Jovem, março de 2010, página 15.

O direito de sonhar (Eduardo Galeano)

 [...] Sonhar não faz parte dos 30 direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram
no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele
jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede.

Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de
novo os pés no chão. [...]

Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo
unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.

http://www.mundojovem.com.br/artigos/consumo-e-novas-tecnologias-para-quem
Consumo: a lógica que rege a sociedade
Artigo sobre capitalismo e consumo

Ao pensarmos em consumo, lembramonos do ato de comprar, de despender dinheiro para algo.


Mas consumir vai muito além das compras. Estas representam apenas uma etapa do processo
que engloba a decisão do que consumir, as razões, o modo e origem do produto ou serviço. Só
após essa primeira etapa tem-se a compra e, ainda, o uso. No caso de bens perecíveis, também
envolve o descarte.

Como podemos perceber, consumir não é um ato simplista, que se encerra em comprar algo. O
consumo faz parte da sociedade contemporânea e se apresenta de maneira tal que nem
sempre percebemos quando o fazemos. Ao estarmos numa sala de aula, por exemplo,
consumimos a eletricidade que move os aparelhos elétricos, as cadeiras em que sentamos, a
lousa que o professor usa etc. A diversidade de consumo nos acompanha da hora que
acordamos ao momento em que dormimos.

Marcas do capitalismo

Existe uma lógica que rege a sociedade pautada no consumismo. E poucas pessoas refletem
sobre os impulsos que conduzem suas atividades. À medida que a economia passa a girar em
torno da acumulação do capital e o trabalho passa a ser dirigido para a produção de
mercadorias, a sociedade caminha por valores que a induzem ao consumo de produtos,
produzidos no intuito de manter o ciclo de reprodução do capital.
A acumulação do capital só se processa a partir da venda da mercadoria, que a transforma em
um capital maior do que foi investido na sua produção. Esse ciclo só é possível se houver
consumidores que garantam o consumo do que foi produzido. Por isso, numa análise um pouco
mais aprofundada, chegaremos à ideologia do sistema produtivo em vigor que será
disseminada pelos capitalistas: a ideologia do consumo. Ela é a base de sustentação do lucro
das vendas. Quanto mais se consome, mais rápido e em maior quantidade o capital gira e é
produzido.
Nesse aspecto, interessa ao capital que um produto seja consumido o mais rápido possível,
para que seja substituído por outro com a mesma peculiaridade. É a obsolescência programada.
Na fase atual do capitalismo, não interessa a produção de bens duráveis, pois freiam a rápida
substituição, tornando o ciclo do capital mais lento e longo. Os avanços tecnológicos, então,
tornam-se os principais aliados do processo produtivo, fornecendo-lhe inovações que permitem
a constante produção de bens inovadores. É preciso considerar que, sob os moldes pelos quais
se processam o referido sistema, há implicação sobre nós, a sociedade e a natureza.

O papel de cada um

O nosso comportamento e os nossos valores são direcionados por uma lógica maior, na qual
estamos inseridos. Constantemente somos induzidos através das propagandas em massa a
adquirir os produtos disponíveis no mercado para atender a necessidades criadas para tal. E, ao
mesmo tempo, somos convencidos da obsolescência dos produtos que possuímos. O
necessário é algo efêmero e que está sendo constantemente reinventado. Além disso, tudo
tem um dono, tudo tem um valor. Subsistir não nos basta. É preciso ser dono para também
valer. Somos impelidos a ser individuais e o outro se torna indiferente para nós - a menos que
nos valha para algo.
Os impactos sobre a natureza são irremissíveis, afinal, é ela que nos fornece as matérias-primas
de que necessitamos para produzir as mercadorias que consumimos. E o caótico quadro
ambiental que vivenciamos reside no fato da desproporcionalidade da disposição dos recursos
em relação à sua exploração. Retiramos do ambiente as matérias que produzem os bens para a
nossa insaciável sede de consumo, múltiplas vezes mais do que ele é capaz de repor, deixando
a natureza sempre com um déficit.
Já que não podemos fugir do consumo, reflitamos sobre a lógica que nos mantém
consumidores e sobre as posturas que podemos adotar frente ao sistema que nos move.
Compreender os reflexos e os impactos desse consumo diz respeito a um consumidor
consciente. É preciso pensar nas possibilidades de adotar uma atitude de consciência frente aos
nossos atos, visando a minimizar os efeitos nocivos na natureza que se revertem em males ao
próprio ser humano. Convido, também, a repensar os nossos valores enquanto humanos,
dotados de sentimentos e emoções que não podem ser contabilizados.

Edilene Alves Rodrigues Geógrafa, docente de Geografia da Rede Pública de Ensino, com
especialização em Análise do Espaço Geográfico, Vitória da Conquista, BA.
Artigo publicado na edição nº 412, jornal Mundo Jovem, novembro de 2010, página 9.

Atividade:
 Mapa de consumo
Objetivo: Contribuir para a reflexão de que é possível nos comprometermos com o ato
de consumir conscientemente.
Atividade:
Dividir os jovens em grupo e sugerir que construam um mapa, identificando quais são os
bens de consumo que mais adquiriram no último mês. É impor tante que sejam
registrados bens de consumo alimentar, eletrônico, vestuário etc.
Após o registro, o grupo pode debater: O que compramos era realmente necessário? Por
que escolhemos estes bens e não outros? Qual a origem dos produtos? Quem são os
trabalhadores que os produziram? Em que condições de trabalho? Onde descar tamos o
que consumimos?
As conclusões do grupo podem ser apresentadas a par tir da perspectiva do consumo
consciente, indicando o que é possível mudar na nossa sociedade, em nossa vida e na
natureza.

Sugestão de Leitura
 BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em
mercadorias. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
O sociólogo Zygmunt Bauman dá uma interessante e coerente contribuição no sentido
de desvelar essa lógica do consumo que dirige a sociedade da economia de mercado.

http://www.mundojovem.com.br/artigos/
Existencialismo: O homem está
condenado a ser livre
José Renato Salatiel

Existencialismo é um conjunto de doutrinas filosóficas que tiveram como tema central a


análise do homem em sua relação com o mundo, em oposição a filosofias tradicionais que
idealizaram a condição humana.

É também um fenômeno cultural, que teve seu apogeu na França do pós-guerra até meados da
década de 1960, e que envolvia estilo de vida, moda, artes e ativismo político. Como
movimento popular, o existencialismo iria influenciar também a música jovem a partir dos anos
1970.

Apesar de sua fama de pessimista e lúgubre, o existencialismo, na verdade, é apenas uma


filosofia que não faz concessões: coloca sobre o homem toda a responsabilidade por suas
ações.

O escritor, filósofo e dramaturgo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), maior expoente da


filosofia existencialista, parte do seguinte princípio: a existência precede a essência. Com isso,
quer dizer que o homem primeiro existe no mundo - e depois se realiza, se define por meio de
suas ações e pelo que faz com sua vida.

Assim, os existencialistas negam que haja algo como uma natureza humana - uma essência
universal que cada indivíduo compartilhasse -, ou que esta essência fosse um atributo de Deus.
Portanto, para um existencialista, não é justo dizer "sou assim porque é da minha natureza" ou
"ele é assim porque Deus quer".

Ao contrário, se a existência precede a essência, não há nenhuma natureza humana ou Deus


que nos defina como homens. Primeiro existimos, e só depois constituímos a essência por
intermédio de nossas ações no mundo. O existencialismo, desta forma, coloca no homem a
total responsabilidade por aquilo que ele é.

Somos os responsáveis por nossa existência

Se o homem primeiro existe e depois se faz por suas ações, ele é um projeto - é aquele que se
lança no futuro, nas suas possibilidades de realização. O que isso quer dizer?

Eu não escolho nascer no Brasil ou nos EUA, pobre ou rico, branco ou preto, saudável ou
doente: sou "jogado" no mundo. Existo. Mas o que eu faço de minha vida, o significado que
dou à minha existência, é parte da liberdade da qual não posso me furtar. Posso ser escritor,
poeta ou músico. No entanto, se sou bancário, esta é minha escolha, é parte do projeto que
eliminou todas as outras possibilidades (escritor, poeta, músico) e concretizou uma única
(bancário).
E, além disso, tenho total responsabilidade por aquilo que sou. Para o existencialista, não há
desculpas. Não há Deus ou natureza a quem culpar por nosso fracasso. A liberdade é
incondicional e é isso que Sartre quer dizer quando afirma que estamos condenados a sermos
livres: "Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma vez
lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer" (em O existencialismo é um
humanismo, 1978, p. 9).

Portanto, para um existencialista, o homem é condenado a se fazer homem, a cada instante de


sua vida, pelo conjunto das decisões que adota no dia-a-dia.

"Tive que cuidar dos filhos, por isso não pude fazer um curso universitário." "Não me casei
porque não encontrei o verdadeiro amor." "Seria um grande ator, mas nunca me deram uma
oportunidade de mostrar meu talento." Para Sartre, nada disso serve de consolo e não
podemos responsabilizar ninguém pelo que fizemos de nossa existência. O que determina
quem somos são as ações realizadas, não aquilo que poderíamos ser. A genialidade de Cazuza
ou Renato Russo, por exemplo, é o que eles deixaram em suas obras, nada além disso.

O peso e a importância da liberdade

Mas ao escolher a si próprio, a sua existência, o homem escolhe por toda a humanidade, isto é,
sua escolha tem um alcance universal. João é casado e tem três filhos: fez uma opção pela
monogamia e a família tradicional. Já seu amigo José é filiado a um partido político e vai para o
trabalho de bicicleta: acha correta a participação política e se preocupa com o meio ambiente.
As escolhas de José e João têm um valor universal. Ao fazer algo, deveríamos nos perguntar: e
se todos agissem da mesma forma, o mundo seria um lugar melhor de se viver?

E é por esta razão que o viver é sempre acompanhado de angústia. Quando escolhemos um
caminho, damos preferência a uma dentre diversas possibilidades colocadas à nossa frente.
Seguimos o caminho que julgamos ser o melhor, para toda humanidade.

Fugir deste compromisso é disfarçar a angústia e enganar sua própria consciência. É agir de má-
fé, segundo Sartre. Neste caso, abro mão de minha responsabilidade. Digo: "Ah... nem todo
mundo faz assim!", ou então delego a responsabilidade de meus atos à sociedade, às pessoas
de meu convívio familiar e profissional ou a um momento de ira ou paixão. No entanto, para os
existencialistas, esta é uma vida inautêntica.

À primeira vista, o peso da liberdade depositado no homem pelos filósofos existencialistas


pode parecer excessivamente pessimista, fatalista, de uma solidão extrema no íntimo de nossas
decisões. Mas, ao contrário, o existencialista coloca o futuro em nossas mãos, nos dá total
autonomia moral, política e existencial, além da responsabilidade por nossos atos. Crescer não
é tarefa das mais fáceis.

Outros pensadores existencialistas


Desde Sócrates (470 a.C.- 399 a.C), muitos filósofos refletiram sobre a existência humana,
passando pelos estoicos, Santo Agostinho (354-430), Blaise Pascal (1623-1662), Friedrich
Nietzsche (1844-1900) e Henri Bergson (1859-1941), mas nem por isso podem ser chamados
de filósofos existencialistas.
Mesmo entre os pensadores alinhados às doutrinas da existência, encontram-se posições
diversas que vão do chamado existencialismo cristão, representado pelo dinamarquês Sören
Kierkegaard (1813-1855) - considerado o precursor do movimento -, o francês Gabriel Marcel
(1889-1973) e o alemão Karl Jaspers (1883-1969), até o existencialismo ateu, do próprio
Sartre, do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) e dos escritores franceses Albert
Camus (1913-1960) e Simone de Beauvoir (1908-1986).

Saiba mais
Sobre existencialismo, há obras que oferecem uma visão geral das doutrinas, como O que é
existencialismo (Editora Brasiliense), de João da Penha, e História do existencialismo, de Denis
Huisman (EDUSC).

A melhor introdução aos escritos de Sartre é a conferência "O existencialismo é um


humanismo", publicada na coleção Os pensadores (Abril Cultural).
José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista e professor
universitário.

http://educacao.uol.com.br/
Pragmatismo: Uma filosofia para a vida
José Renato Salatiel

Quem já teve aquela sensação de, ao ler um livro de filosofia ou ouvir um político discursando,
se perguntar: "mas o que isso quer dizer?" Por que as crianças aprendem menos com sermões
do que imitando as ações dos pais? E por que é tão importante revermos nossas crenças a
respeito do que acreditamos ser verdade? Se tudo o que nos interessa é o que afeta nossas
vidas, é neste tribunal do cotidiano que o método pragmatista vai julgar e depurar a filosofia.

O pragmatismo, desenvolvido no século 19 por um grupo de filósofos norte-americanos em


Cambridge, Massachusetts, é uma corrente da filosofia muito estudada até hoje em diversos
países, incluindo o Brasil. Talvez o correto seria falar em pragmatismos, no plural, dadas as
nuances com que diferentes autores trataram o termo, desde os clássicos (Charles S. Peirce,
William James, John Dewey e Ferdinand Schiller) até os contemporâneos (Lewis, Quine,
Putnam, Davidson e Richard Rorty, entre outros).

Em sua formulação original, feita por Charles Sanders Peirce (1839-1914) em 1877-78 e
reformulada em 1905, o pragmatismo é um método filosófico cuja máxima sustenta que o
significado de um conceito (uma palavra, uma frase, um texto ou um discurso) consiste nas
consequências práticas concebíveis de sua aplicação.

Conceito e experiência

Isto quer dizer que uma afirmação que não tenha qualquer relação com a experiência é
desprovida de sentido. Por conta disso, o pragmatismo presta contas ao filósofo alemão
Immanuel Kant (1724-1804), que dizia (na "Crítica da Razão Pura") que, se por um lado toda
experiência sem a forma do conceito é cega, o conceito sem o conteúdo da experiência é vazio.

Por exemplo, se eu digo "Pedro é honesto", isso só terá sentido se for possível, observando o
comportamento futuro de Pedro, comprovar a honestidade por meio das atitudes de Pedro.
Caso contrário, o máximo que poderíamos dizer é que "Pedro tem sido honesto (até hoje)".
Mas o que nos interessa é o futuro, sobre o qual podemos deliberar. Deste modo, a crença que
temos a respeito da honestidade de Pedro deve se fundamentar em fatos possíveis de serem
observados.

E é por esta razão que só podemos conhecer realmente uma pessoa, amigo, parente ou amante
no curso do tempo e por intermédio de suas ações.

Crianças e políticos

As crianças são, de certo modo, pragmatistas. Elas só aprendem investigando atentamente o


que os pais fazem no dia-a-dia. Não adianta falar para uma criança que jogar papel na rua é
errado se o pai atira o maço de cigarros vazio pela janela do carro. Haverá um desacordo entre
teoria e prática que irá deslegitimar o discurso paterno.
Com o tempo, porém, nos tornamos menos atentos a isso e ficamos deslumbrados com
programas ideológicos e doutrinas vazias de significado.

Promessas de campanha e compromissos éticos de políticos deveriam passar pelo mesmo


crivo. Só terão algum significado quando confrontados com seus efeitos práticos concebíveis,
isto é, caso haja dinheiro em caixa que torne possível a concretização das promessas e caso o
governo tenha transparência suficiente para por à prova sua postura ética.

Assim, o pragmatismo, conforme concebido originalmente por Peirce, tem o propósito de


fornecer uma diretriz ao pensamento, evitando que a razão, em seus altos voos rumo ao
abstrato, se desvencilhe de seu objeto: a realidade, a vida. O método pragmatista, desta forma,
se contrapõe às metafísicas de caráter dogmático e propõe que o raciocínio seja guiado por
métodos semelhantes aos da ciência, que incluem a observação dos fenômenos, a formulação
de hipóteses, os testes práticos e a revisão de teorias. É por isso que o pragmatismo estranha
qualquer ideia de verdade e certeza inatas ou absolutas.

Verdades provisórias

Opondo-se a René Descartes (1596-1650), que concebia o homem como dotado de ideias claras
e distintas, para Peirce não temos nenhuma segurança de que nossas representações da
realidade estão corretas. O máximo que podemos dizer é que funcionam e que, a longo prazo,
nos aproximamos mais da verdade, na medida em que confrontamos a teoria com o objeto.

É o que Peirce chamava de doutrina do falibilismo. É impossível saber se atingimos a verdade


última a respeito de algo. Contamos apenas com um conhecimento provisório e falível. Por
exemplo, a visão do homem a respeito do universo se modificou ao longo dos séculos, nos
quais os instrumentos técnicos foram aperfeiçoados e o gênio matemático, testado. De
Copérnico, Galileu, Kepler, Newton e Einstein, sabemos muito mais hoje sobre o universo do
que os antigos povos da Grécia, China e Mesopotâmia, mas nada nos garante que tenhamos
chegado a uma incompatibilidade insuperável entre a teoria da Relatividade e a mecânica
quântica, que descrevem, respectivamente, o macro e o microcosmo.

E também é assim com nossos valores. Afinal, não somos obrigados a reavaliar todos nossos
parâmetros culturais em face das mudanças tecnológicas e o fenômeno da globalização?

O falibilismo, portanto, é uma condição de humildade intelectual, que nos obriga a uma
aprendizagem constante e evita que nos enclausuremos em crenças e verdades últimas. Como
o pragmatismo sugere, é necessário contrapor aos conceitos o objeto real para construir
significados, caso contrário, corre-se o risco de naufrágio em um redemoinho de palavras sem
qualquer âncora na terra firme da experiência.

Filosofia sem concessões

E qual garantia o pragmatismo nos dá de que aprendemos com os erros, de que iremos atingir a
verdade ou, quem sabe, a segurança de uma certeza qualquer? Para Peirce, nenhuma. Só
podemos ter esperança de que, com uma boa educação, nossos filhos serão melhores. Do
mesmo modo, aprendemos a duras custas que não existem soluções prontas para a democracia
no Brasil. Ela se faz de maneira conjunta e cotidiana.

O que valida uma crença, segundo o pragmatismo clássico, não são seus ornamentos
argumentativos ou o conforto que nos traz ao tornar aprazível e suportável a realidade. Mas
sim, seus efeitos práticos concebíveis e a experiência futura, que irá confirmá-la ou não. Ao nos
devolver teimosamente à mesma realidade, por vezes tediosa e angustiante, da qual tentamos
escapar por meio de filosofias baratas, dogmas e auto-ajuda, o pragmatismo só pode oferecer
em troca uma existência mais criativa, num oceano de possibilidades.
José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista e professor
universitário.

Bibliografia
 IBRI, Ivo Assad. (1992). Kósmos No?tós: a arquitetura metafísica de Charles S. Peirce.
São Paulo: Perspectiva/ Hólon.
 HAACK, Susan. (2007). "Pragmatismo". Em: Compêndio de Filosofia. 2ª ed. São Paulo:
Edições Loyola.
 DE WAAL, Cornelis. (2007). Sobre Pragmatismo. São Paulo: Edições Loyola.

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Ceticismo: Deve se duvidar de tudo
Josué Cândido da Silva

Se alguém lhe perguntasse "O que você conhece?", você poderia pensar em uma porção de
coisas, a maioria delas adquiridas em sua experiência cotidiana. Mas se a pessoa insistisse e
perguntasse "Algo do que você sabe é realmente verdade? Apostaria sua vida nisso?", essas
questões complicariam um bocado as coisas.

Eu, por exemplo, poderia dizer que tenho certeza que sou filho dos meus pais, mas talvez eu
tivesse sido adotado ou trocado na maternidade e estar enganado a esse respeito. Poderia
ainda estar enganado sobre uma série de outras coisas que até então julgava certas. E se
reparar direito, tudo o que eu tenho são crenças, algumas até muito razoáveis, mas nada de
que eu possa dizer que é uma verdade irrefutável. Percebo, então, que me falta um parâmetro
para examinar as minhas crenças e verificar quais são realmente certas e quais são falsas.

Condições universais de validade

Durante a história da filosofia, vários foram os filósofos que tentaram estabelecer as condições
para que algo fosse tomado como absolutamente verdadeiro, isto é, uma verdade que
independesse de fatores circunstanciais e que fosse algo que não fosse verdadeiro para mim ou
para um grupo de pessoas, mas para todos os seres racionais.

Você deve estar cansado de ver por aí grupos de pessoas com crenças estranhas, que dizem
que eles estão certos e todos os outros enganados. Nesse caso, como decidir quem está certo?
Votando? Mas se a maioria estiver errada e o pequeno grupo estiver certo, nunca
conheceremos a verdade porque eles sempre perderão nas votações. É preciso que se trate de
uma verdade universal, isto é, válida para todos, tanto para a maioria quanto para as minorias.
Portanto, o que os filósofos investigam são as condições universais de validade, aquelas
condições que independem das opiniões particulares que eu ou você possamos ter.

Ceticismo

Na investigação sobre as condições de validade do nosso conhecimento um grupo de filósofos


merece destaque: os céticos. O termo cético vem da palavra grega skepsis, que significa
"exame". Atualmente, dizemos que uma pessoa cética é alguém que não acredita em nada,
mas não é bem assim. Um filósofo cético é aquele que coloca suas crenças e as dos outros sob
exame, a fim de verificar se elas são realmente dignas de crédito ou não.

Pirro de Elis (360-275 a.C.) é considerado o fundador do ceticismo. Segundo ele, não podemos
ter posições definitivas sobre determinado assunto, pois mesmo pessoas muito sábias podem
ter posições absolutamente opostas sobre um mesmo tema e ótimos argumentos para
fundamentar suas posições. Nesse caso, Pirro nos aconselha a suspensão do juízo e a
mantermos nossa mente tranquila (ataraxia). Ao invés de enfrentarmos o desgaste de
acalorados debates que não produzirão certeza alguma, devemos manter silêncio (apraxia) e
preservar uma atitude de suspeita diante de qualquer tipo de dogmatismo.
Depois de Pirro, muitos outros filósofos tornaram o ceticismo uma das mais importantes
correntes filosóficas até os dias de hoje. Atualmente, alguns céticos defendem o probabilismo
ou falibilismo, ou seja, na impossibilidade de encontrarmos verdades absolutas, seja pelas
limitações de nossos sentidos e intelecto, seja pela complexidade da realidade, devemos tratar
nossas crenças sempre como provisórias, como quem anda em gelo fino.

Desse modo, um cético nunca seria pego de surpresa se algo que todos acreditavam ser
verdade se revelasse falso no futuro. Por outro lado, reconhecer que as verdades são
provisórias não significa uma completa inação. Sabemos que os remédios são falhos, mas são a
única coisa que temos para combater as doenças.

Isso também vale para o campo da ética. O filósofo Montaigne propunha que vivêssemos em
harmonia com os costumes de nosso povo ou cultura, pois embora eles sejam falhos, são tão
falhos quanto os de qualquer outro povo, não havendo razão para preferir este a aquele.

Despertar do sono dogmático

Conta a lenda que Pirro morreu enquanto dava aula de olhos vendados. Um aluno o teria
alertado quanto ao precipício à sua frente. Cético, Pirro desconfiou do aluno e caiu. Essa lenda,
obviamente, pretende mostrar os perigos de se duvidar de tudo. Mas será que um cético
autêntico não duvidaria também de suas próprias dúvidas?

Odiado por alguns, o cético é como a abelha que aferroa o boi do conhecimento, retirando-o da
mesmice das ideias prontas e acabadas, nos provocando, por meio da dúvida, a investigar a
fundo os pressupostos de nossas crenças; ou, como diria Kant, o cético é aquele que nos
desperta do nosso sono dogmático para lembrar-nos que pensar não é um fim, mas uma
atividade.

Josué Cândido da Silva, Especial para Página 3 Pedagogia & Comunicação é professor de
filosofia da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (BA).

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Filmes para reflexão:
 Meu Mestre, Minha Vida
Sinopse:
Vinte anos após sua demissão, um professor que virou atleta famoso (Morgan Freeman)
retorna à escola onde deu as primeiras aulas com a missão de educar estudantes violentos
e viciados em drogas. A trama de Meu Mestre, Minha Vida baseia-se na história real de
Joe Clark, ex-ídolo do beisebol norte-americano.
Morgan Freeman faz o papel de Crazy Joe Clark, um jogador de beisebol que consegue chegar a
diretor de uma escola em New Jersey e trata seus alunos de forma um tanto incomum.

 O som do coração
Sinopse:
August Rush (Freddie Highmore) é resultado do encontro casual entre um guitarrista e uma
violoncelista. Crescido em orfanato e dotado de um dom musical impressionante, ele se apresenta nas
ruas de Nova York ao lado do divertido Wizard (Robin Williams). Contando apenas com seu talento
musical, August decide usá-lo para tentar reencontrar seus pais.

 Escritores da Liberdade
Sinopse:
Hilary Swank, duaz vezes premiada com o Oscar, atua nessa instigante história, envolvendo
adolescentes criados no meio de tiroteios e agressividade, e a professora que oferece o que eles mais
precisam: uma voz própria. Quando vai parar numa escola corrompida pela violência e tensão racial, a
professora Erin Gruwell combate um sistema deficiente, lutando para que a sala de aula faça a diferença
na vida dos estudantes. Agora, contando suas próprias histórias, e ouvindo as dos outros, uma turma de
adolescentes supostamente indomáveis vai descobrir o poder da tolerância, recuperar suas vidas
desfeitas e mudar seu mundo. Escritores da Liberdade é basedo no aclamado best-seller O Diário dos
Escritores da Liberdade.

 Desafiando Gigantes
Sinopse:
Nunca Desista, nunca volte atrás, nunca perca a fé O PODER DA CRENÇA PROPORCIONA A HABILIDADE
DE VENCER. Nos seus seis anos como técnico de futebol americano de uma escola, Grant Taylor nunca
conseguiu levar seu time Shiloh Eagles a uma temporada vitoriosa. E ao ter que enfrentar crises
profissionais e pessoais aparentemente insuperáveis, a idéia de desistir nunca lhe pareceu tão atraente.
É apenas depois que um visitante inesperado o desafia a acreditar no poder da fé que ele descobre a
força da perseverança para vencer.

 A corrente do bem
Sinopse:
Eugene Simonet (Kevin Spacey), um professor de Estudos Sociais, faz um desafio aos seus alunos em
uma de suas aulas: que eles criem algo que possa mudar o mundo. Trevor McKinney (Haley Joel
Osment), um de seus alunos e incentivado pelo desafio do professor, cria um novo jogo, chamado "pay
it forward", em que a cada favor que recebe você retribui a três outras pessoas. Surpreendentemente, a
idéia funciona, ajudando o próprio Eugene a se desvencilhar de segredos do passado e também a mãe
de Trevor, Arlene (Helen Hunt), a encontrar um novo sentido em sua vida.
 Homens de Honra
Sinopse:
Carl Brashear (Cuba Gooding Jr.) veio de uma humilde família negra, que vivia em uma área rural em
Sonora, Kentucky. Ainda garoto, no início dos anos 40, já adorava mergulhar, sendo que quando jovem
se alistou na Marinha esperando se tornar um mergulhador. Inicialmente Carl trabalha como cozinheiro
que era uma das poucas tarefas permitidas a um negro na época. Quando resolve mergulhar no mar em
uma sexta-feira acaba sendo preso, pois os negros só podiam nadar na terça-feira, mas sua rapidez ao
nadar é vista por todos e assim se torna um "nadador de resgate", por iniciativa do capitão Pullman
(Powers Boothe). Quando Brashear solicita a escola de mergulhadores encontra o comandante Billy
Sunday (Robert De Niro), um instrutor de mergulho áspero e tirânico que tem absoluto poder sobre suas
decisões. No princípio Sunday faz muito pouco para encorajar as ambições de Brashear e o aspirante a
mergulhador descobre que o racismo no exército é um fato quando os outros aspirantes brancos -
exceto Snowhill (Michael Rapaport), que por isto foi perseguido por Sunday - se negam a compartilhar
um alojamento com um negro. Mas a coragem e determinação de Brashear impressionam Sunday e os
dois se tornam amigos quando Brashear tem de lutar contra o preconceito e a burocracia militar, que
quer acabar com seus sonhos de se tornar comandante e reformá-lo.

 A vida é bela
Sinopse:
Durante a Segunda Guerra Mundial na Itália, o judeu Guido (Roberto Benigni) e seu filho Giosué
são levados para um campo de concentração nazista. Afastado da mulher, ele tem que usar sua
imaginação para fazer o menino acreditar que estão participando de uma grande brincadeira,
com o intuito de protegê-lo do terror e da violência que os cercam.

 Uma prova de amor


Sinopse:
Sara (Cameron Diaz) e Brian Fitzgerald (Jason Patric) são informados que Kate (Sofia Vassilieva), sua
filha, tem leucemia e possui poucos anos de vida. O médico sugere aos pais que tentem um
procedimento médico ortodoxo, gerando um filho de proveta que seja um doador compatível com Kate.
Disposto a tudo para salvar a filha, eles aceitam a proposta. Assim nasce Anna (Abigail Breslin), que logo
ao nascer doa sangue de seu cordão umbilical para a irmã. Anos depois, os médicos decidem fazer um
transplante de medula de Anna para Kate. Ao atingir 11 anos, Anna precisa doar um rim para a irmã.
Cansada dos procedimentos médicos aos quais é submetida, ela decide enfrentar os pais e lutar na
justiça por emancipação médica, de forma a que tenha direito a decidir o que fazer com seu corpo. Para
defendê-la ela contrata Campbell Alexander (Alec Baldwin), um advogado que cuidará de seus
interesses.

 A procura da Felicidade
Sinopse:
Chris Gardner (Will Smith) é um pai de família que enfrenta sérios problemas financeiros. Apesar de
todas as tentativas em manter a família unida, Linda (Thandie Newton), sua esposa, decide partir. Chris
agora é pai solteiro e precisa cuidar de Christopher (Jaden Smith), seu filho de apenas 5 anos. Ele tenta
usar sua habilidade como vendedor para conseguir um emprego melhor, que lhe dê um salário mais
digno. Chris consegue uma vaga de estagiário numa importante corretora de ações, mas não recebe
salário pelos serviços prestados. Sua esperança é que, ao fim do programa de estágio, ele seja
contratado e assim tenha um futuro promissor na empresa. Porém seus problemas financeiros não
podem esperar que isto aconteça, o que faz com que sejam despejados. Chris e Christopher passam a
dormir em abrigos, estações de trem, banheiros e onde quer que consigam um refúgio à noite,
mantendo a esperança de que dias melhores virão.