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NACIONALISMO AFRIKANO:
TEORIA E PRÁTICA DE UMA EDUCAÇÃO
AFRIKANO-CENTRADA
(1992)

KWAME AGYEI AKOTO

Tradução: Carlos R. Rocha (Fuca)


https://insurreicaocgpp.blogspot.com/
2020

Título original: NATIONBUILDING: Theory & Practice in


Afrikan Centered Education – edição de 1992.

1
Dedicação
À geração atual e futura de irmãos e irmãs, filhas e filhos
da Áfrika, que com coragem, percepção e compromisso
assumiram a missão de reconstruir a cultura e a civilização
Afrikanas.
Àqueles que trabalham silenciosamente e anonimamente,
mas intensamente e com amor verdadeiro, para reconquistar
as mentes, corações e almas de nossos filhos, e de nosso povo,
para que juntos possamos construir um mundo melhor para
nós, reivindicar nossos ancestrais e resgatar a humanidade.

2
Agradecimentos

Odumankroma
Abosum e Nsamanfo
Asuo Gybei…

Medasi,
Medasi,
Medasi Pa!!

Agradecimentos aos membros da família Akoto, à família


da NationHouse, funcionários, alunos e pais da Escola Watoto
do Centro de Ação Positiva da NationHouse e do Instituto
Sankoka, aos membros da sociedade fraterna Ankobia e
membros da família CIBI, cujos incentivos e interações
dinâmicas e criativas proporcionaram a motivação e a
substância para este trabalho.

3
Sumário
Dedicação...................................................................... 2
Agradecimentos ............................................................. 3
Introdução..................................................................... 6

PARTE UM - BASE CONCEITUAL ................................ 12


1. Cultura e Construção da Nação ............................... 13
2. Educação Afrikano-centrada .................................... 60

PARTE DOIS – INTERAÇÕES ....................................... 90


1. Nação ou Dependência ............................................ 91
2. Afrocentricidade ...................................................... 93
3. Clareza Ideológica .................................................... 97
4. Cultura e Padrões de Beleza .................................. 101
5. Família, Cultura e Comunidade ............................. 107
6. Expectativas .......................................................... 110

PARTE TRÊS – PARADIGMAS .................................... 115


1. Notas sobre uma Pedagogia Afrikano-centrada....... 116
2. Rumo à um Currículo Afrikano-centrado ............... 148

PARTE QUATRO - INTERAÇÕES ................................ 216


1. Os Pais na Escola .................................................. 217
2. Responsabilidade Coletiva ..................................... 220
3. Família e Conquistas ............................................. 224

4
4. Construção da Nação: Uma Resposta Proativa à Crise
Nacional .......................................................................... 227

Sankofa: Uma Conclusão e Ainda Um Começo ........... 232


BIBLIOGRAFIA .......................................................... 236

GRÁFICOS E TABELAS*
(A) Figura 1, ESFERA CULTURAL – 27
(B) Figura 2 – CICLO HISTÓRICO – 34
(C) – Figura 3 – Processo de Re-Afrikanização – 52
(D) Figura: CÍRCULO INTERATIVO- 136
(E) Figura: Papéis Interativos do Processo de
Enculturação – 138
(F) Figura: Desenvolvimento do Currículo – 202
*exceto duas do original

5
Introdução

Uma das descobertas mais profundas que os Afrikanos


culturalmente conscientes fazem durante o curso de formação
educacional de pais/professores é que o resultado final das
estratégias de ensino e criação dos seus filhos é determinado
por agências além dos seus controles, são estratégias
cuidadosamente planejadas e dolorosamente executadas.
Determinados pais/professores respondem a este problema de
uma das quatro maneiras: (a) isolamento, (b) acomodação, (C)
confronto e (d) construção da realidade. As duas primeiras
opções são essencialmente derrotistas.
A primeira, o isolamento, geralmente produz uma
personalidade socialmente não funcional e neutralizada. A
segunda opção, acomodação, vem após o esgotamento físico
ou emocional da tarefa de ensinar/criar, vem do desinteresse
ou, o que é cada vez mais comum, da negligência. A
consequência é que a criança é criada pelas influências
caóticas, mas intencionais, das ruas e da mídia. Essas
influências são intencionais na medida em que
invariavelmente reproduzem e reforçam as condições racistas
e exploradoras que as engendraram. A terceira e a quarta
opções, confronto e construção da realidade, estão
interligadas, na medida em que ambas são proativas. O
confronto por si só, entretanto, é contraproducente, pois
costuma ser espontâneo e motivado pela emoção. Geralmente
carece de uma análise completa e carece de estratégias e
objetivos abrangentes e detalhados. A quarta opção,
construção da realidade, inclui a consciência intuitiva e
estudada da injustiça social e a ânsia de resistir à tirania da
complacência, do medo e da hegemonia cultural branca que
6
caracteriza a opção de confronto. A construção da realidade,
no entanto, fundamenta a terceira opção orientando a emoção
com o condicionamento de uma luta prolongada, uma teoria
cultural e política, e um firme compromisso com a construção
institucional. A quarta opção, a construção da realidade, é a
essência da construção da nação (Nacionalismo Afrikano).
Quando pais e professores optam pela construção da
nação (Nacionalismo Afrikano), eles se comprometem com
uma visão mundial ou ordem mundial que complementa seu
senso de consciência cultural/histórica e sua humanidade em
particular. O compromisso de criar uma ordem mundial
consistente com nossa identidade cultural não é exclusivo
desta geração. Na verdade, tem caracterizado a resistência e
os esforços de reconstrução do nosso povo desde o nosso
primeiro encontro e percepção da moralidade movida pela
avareza e pela desumanidade dos imperialistas árabes e
europeus. A opção de construção nacional (Nacionalismo
Afrikano) é a continuação de uma guerra de três milênios para
manter a santidade de nossas almas, a sanidade de nossas
mentes e a integridade de nossa realidade cultural/histórica.
Perdemos terreno e batalhas, mas o equilíbrio maior de nossas
vitórias nos sustentou e, sem dúvida, nos ajudará a alcançar
a vindicação final e a verdadeira nacionalidade.
A construção da nação (Nacionalismo Afrikano) baseia-se
na percepção histórica e na consciência cultural. Para se
engajar na construção da nação (Nacionalismo Afrikano), a
liderança da nação, grupo cultural ou comunidade, deve
trabalhar para neutralizar gerações de deseducação e a
consequente dependência psíquica, o derrotismo, o auto-ódio,
as lealdades equivocadas e o complexo de inferioridade em
nosso povo. Pais culturalmente conscientes dentro de famílias

7
individuais têm de fato agido para se reeducarem e então
coletivamente têm procurado neutralizar o efeito
culturalmente debilitante da mídia e da opinião popular sobre
seus filhos. A nação, as várias comunidades e as famílias
também responderam estabelecendo redes de instituições que
concretizam, reforçam, perpetuam e expandem a visão da
construção da nação (Nacionalismo Afrikano).
Nos últimos vinte e cinco anos, essas instituições incluem
editoras, grupos Afrikanos de dança e percussão, grupos de
ritos de passagem, grupos de estudo, grupos de pressão
política, diversas conferências Afrikano-centradas,
departamentos de Estudos Pretos em universidades e
programas de reforço escolar. O conceito de construção da
nação (Nacionalismo Afrikano) neste volume surge dos
esforços de dezenas de instituições educacionais Afrikanas
independentes, estabelecidas neste país [EUA] desde meados
dos anos sessenta. É também um reflexo dos esforços
incessantes dos Afrikanos neste país desde a nossa
“imigração” forçada há quatro séculos para construir
instituições que proporcionem alguma medida de
independência cultural, política e econômica. O objetivo aqui
é promover esse processo contínuo de refinamento nas áreas
da teoria e prática educacional no que diz respeito às
necessidades dos Afrikanos tanto na diáspora quanto na
pátria-mãe. A teoria, as observações, análises, e táticas
apresentadas aqui são o resultado de duas décadas de
experiência deste escritor na criação de filhos, como professor
e construtor de instituições. É também um reflexo das
experiências e esforços contínuos de numerosas instituições,
indivíduos e grupos em um movimento às vezes referido como
o movimento escolar independente Pan-Afrikano. Os esforços

8
de indivíduos e famílias para sustentar as instituições dentro
do movimento têm sido nada menos que heroicos. Como
consequência, hoje o movimento está vivo e crescendo. A
aceitação cada vez mais popular dos valores e
comportamentos Afrikano-centrados, o crescimento da
população nas escolas independentes, o aumento do número
de escolas Pan-Afrikanas iniciais e o debate ativo nos sistemas
escolares públicos são fortes indicadores de que o trabalho
dentro do movimento foi bem-sucedido.
Os ensaios que compõem este volume foram organizados
em três seções complementares. Essas seções incluem
Fundamentos Conceituais, Interações e Paradigmas. Os
ensaios foram compostos em resposta à questões muito reais
vividas pelas escolas independentes, e particularmente
aquelas questões que surgiram durante o crescimento do
Nation House Positive Action Center [Centro de Ação Positiva
NationHouse], a instituição cofundada e dirigida por este
escritor.

Fundamentos Conceituais.
O Pan-Afrikanismo Nacionalista é uma ideologia com
fortes raízes na comunidade Afrikana. Embora às vezes tenha
parecido estar adormecida, sempre esteve presente. As
características essenciais da ideologia foram abordadas com
força e vigor por gerações, mas, no geral, a ideologia careceu
de coerência e clareza teórica adequada para ser aplicada no
nível de organização de base ou ser aplicada às condições
encontradas nas interações pessoais. As concepções de
cultura, história e espiritualidade nem sempre foram
apresentadas de forma coerente. O ensaio inicial foi elaborado
para fornecer uma ampla estrutura para pais, professores e

9
instituições esclarecerem essas características que são
essenciais para suas ações.
A definição de educação Afrikano-centrada ou Afrocêntrica
deve ser dada por aqueles que trabalharam
conscienciosamente e muitas vezes no anonimato para
estabelecê-la. Este ensaio pretende fornecer uma visão e
orientação sobre a evolução e a direção que uma educação
verdadeiramente Afrikano-centrada deve tomar.

Interações.
Os vários ensaios curtos que compreendem as duas seções
de interações estão organizados geralmente em sequência.
Eles foram incluídos para demonstrar a urgência de questões
e preocupações que pais, professores e administradores
escolares das escolas Pan-Afrikanas devem abordar
diariamente. Os ensaios de interação surgem da relação direta
entre alunos, pais e professores. Eles servem como pontes
entre a teoria educacional e a realidade da prática e aplicação.

Paradigmas.
Nos dois ensaios incluídos nesta seção, os conceitos e
teorias abordados na seção inicial são operacionalizados. As
duas áreas abordadas estão no cerne do processo educacional,
pedagógico e curricular. Uma abordagem coerente e
abrangente tanto dentro de uma perspectiva nacionalista
quanto Pan-Afrikanista não foi bem articulada no passado. O
resultado tem sido inúmeros programas de estudos e folhetos
metodológicos que carecem de qualquer filosofia e objetivos
abrangentes. Na maioria das vezes, os esforços refletem
apenas superficialmente a construção cultural e ideológica
que os inspirou. Nos dois ensaios, é feito um esforço para

10
fornecer orientações nessa área. Os conceitos incluídos nestes
ensaios refletem os esforços de várias escolas independentes,
particularmente a NationHouse (Uma versão do segundo
ensaio aparece em uma publicação futura do Dr. Mwalimu
Shujaa intitulada Too Much Schooling, Too Little Education
[Muita escolaridade, pouca educação].)

Síntese.
A teoria, a metodologia, os sistemas e instituições que irão
garantir a sobrevivência, independência e prosperidade do
povo Afrikano no próximo século crescerão a partir dos
esforços coletivos de pais, professores, e teóricos que estiverem
totalmente comprometidos com a libertação, independência e
construção da nação Afrikana. Nenhum nome singular e
sufixo ‘ismo’ pode ser anexado justamente às ideias e ações
que surgem desse movimento. A história do movimento é a
história da luta Afrikana pela vindicação e reconstrução. Os
conceitos e modelos apresentados aqui não são de forma
alguma finais ou completos. Eles continuarão a evoluir e a ser
refinados. Eles agora estão sendo testados e avaliados
ativamente, e os resultados serão divulgados em breve.
Pretende-se que este esforço seja um dos muitos que virão e
que servirão para fazer avançar a causa da educação e da
construção da nação Afrikano-centrada.

11
PARTE UM - BASE CONCEITUAL

12
1. Cultura e Construção da Nação

Alguns anos atrás, nas últimas semanas de setembro de


1989, o professor John H. Clarke transmitiu uma mensagem
à Sociedade Ankobia, de Washington, D.C., dizendo que
independentemente do que possamos empreender, “se não se
trata da construção da nação [Afrikana], então não se trata de
nada.” É uma declaração que pode ser tomada literalmente. A
construção da nação (Nacionalismo Afrikano) é a aplicação
consciente e focada dos recursos, energias e conhecimentos
coletivos de nosso povo na tarefa de libertação, e de
desenvolver o espaço físico e psíquico que identificarmos como
nosso. Envolve o desenvolvimento de comportamentos,
valores, linguagens, instituições e estruturas físicas que
elucidem nossa história e cultura, que possam projetar e
concretizar o presente e assegurar a futura identidade e
independência da nação. A construção da nação
(Nacionalismo Afrikano) é a projeção deliberada, intensamente
dirigida, focada, e enérgica da cultura nacional e da identidade
coletiva. A construção da nação (Nacionalismo Afrikano) é
ocasionada pela geração e liberação de enormes quantidades
de energia, não muito diferente de uma gravidez e um novo
nascimento, ou de uma tempestade de primavera e o novo
cultivo que se segue. Com qualquer uma das analogias, é
fundamental que os termos e condições que ocasionam o
surgimento dessa nova realidade sejam claros e inequívocos.
Essas condições, termos e linguagem descritiva devem ser
definidos pelos criadores dessa nova realidade. Essa nova
realidade, para nós, é uma consciência nacional e cultural
renovada. O surgimento desta nova consciência, esta realidade
renovada e Afrikano-centrada, marca o renascimento da
13
personalidade Afrikana e a revitalização da nacionalidade
Afrikana. Isso é a construção da nação (Nacionalismo
Afrikano).
Sem a consciência ou nacionalidade, um povo é como
navios sem leme em uma tempestade, ou mais
apropriadamente, ele é como pedaços e destroços deixados
após o colapso de um navio em uma tempestade. Ele não tem
consciência de toda a sua identidade ou direção anterior. Ele
carece de coesão e fica agrupado como tantos milhões de
estilhaços individuais em consequência de toda e qualquer
corrente oportunista que os mova. Na confusão e na falta de
direção desse povo, ele se torna o brinquedo daqueles que são
poderosos e dirigem. Um povo que não trata de nada por si
próprio, se torna uma população sem propósito e sujeita à
exploração interminável por outros.

O Holocausto da Escravização Afrikana e a Nova Ordem


Mundial.
Uma pergunta frequente e relevante do dia gira em torno
da definição da expressão “nova ordem mundial”. O senso
comum e uma consciência geral da história nos dizem que
essa expressão nas mãos de políticos tradicionais e meios
formadores de opinião significa, essencialmente, sustentar a
hierarquia cultural e político-econômica existente de nações e
raças.
O conceito de uma nova ordem mundial evoca, no entanto,
uma questão que está no cerne da consciência dos Afrikanos
na América e, na verdade, dos Afrikanos em toda a diáspora e
da Áfrika. Essa questão é de identidade cultural. É uma
questão central para o povo Afrikano porque nenhum outro
povo experimentou a humilhação contínua da escravidão, da

14
dispersão e da alienação legal e socialmente imposta de sua
história e cultura. Essa alienação, humilhação e auto-ódio que
acompanharam a destruição de nossa civilização e a
escravidão de nosso povo definiram nossas concepções de nós
mesmos como um povo, como famílias e como indivíduos. A
instilação de “puro medo e admiração pelo poder dos brancos”,
a “submissão incondicional”, as concepções de inferioridade
pessoal e racial e uma autoidentificação com a personalidade
dos mestres brancos foram os elementos essenciais do
processo de escravização dos Afrikanos.¹ Esses elementos
ainda não foram completamente exorcizados de nossa psique
coletiva. Eles se manifestam na nossa dinâmica familiar, na
interação de homens e mulheres Afrikanos, na nossa forma
(ou falta) de educação dos filhos, no nosso conceito de
educação adequada, em nossa escolha de sistema espiritual,
em nossa escolha de imagens religiosas, em nossas definições
de beleza física, na maneira de nossa investigação filosófica e
em nossas escolhas políticas e econômicas.
O Holocausto da Escravização Afrikana foi paralelo ao uso
do estratagema de conquista e pilhagem durante o período do
imperialismo europeu, inclusive do expansionismo americano.
Esse estratagema foi projetado para separar as pessoas
colonizadas/dominadas de sua cultura, tornando-as
consumidoras adequadas de produtos manufaturados
europeus, produtoras de matérias-primas para a indústria
europeia e fontes de mão de obra barata. Onde a resistência
cultural se manifestava entre a população dominada, o
genocídio era um recurso opcional, ou o confinamento em
favelas, bantustões e guetos.
Um excelente exemplo do esforço para separar um povo de
suas raízes culturais é o mito popular e recentemente

15
ressuscitado da “Identidade Americana” ou da “raça
americana”, que pressupõe “uma separação das raízes,
(histórica e cultural) e uma libertação de um passado
sufocante.” Essa separação das raízes ainda pressupõe uma
escolha consciente e de livre arbítrio para romper com essas
raízes.
O subsequente “agrupamento no seio da raça americana”
foi prometido ao indivíduo (necessariamente desprovido de
ligações ou identificação com grupos/raças culturalmente
desagradáveis e incompatíveis) sem entraves, com liberdade
irrestrita e independência, e essas liberdades individuais
seriam protegidas pela constituição.²
A circunstância da chegada dos Afrikanos na América e as
intenções documentadas dos “pais fundadores” em relação ao
status desses Afrikanos, torna abundantemente claro que não
há salvação coletiva ou individual, na mítica,
“homogeneizada”, “anglo-saxã”, multiculturalista “raça dos
homens”. A integração/assimilação para os Afrikanos, dado o
holocausto e seu entrincheiramento institucionalizado e
psíquico, é impossível sem um esforço completo e autodirigido
(no propósito Afrikano) de reconstruir nossa identidade
cultural única e dinâmica; e, posteriormente, decidir se ou em
que medida entregaremos nossa singularidade cultural aos
“80%” da realidade europeia/branca. A verdade fundamental
de nossa existência neste país é que nossa presença na
experiência americana, embora fundamental para ela, foi
involuntária. A cumplicidade de alguns chefes traidores no
comércio europeu de escravos não pode de forma alguma
moderar a responsabilidade pelo crime mais hediondo da
história da humanidade, o Holocausto da Escravidão Afrikana.
Walter Rodney observou que “no geral, o processo pelo qual os

16
cativos eram obtidos em solo africano não era comercialmente.
Foi por meio de guerra, trapaça, banditismo e sequestro.” ³
Embora a memória e a consciência de nossa humilhação e
exploração sejam perdidas para muitos de nosso povo (um
processo auxiliado pela educação pública e pela mídia
popular), nossa condição social, econômica e política é um
legado desse holocausto.

Ideologia e a Condição Afrikana.


Muitas vezes, quando empreendemos esforços para definir
ou esclarecer a condição ou status do povo Afrikano na
economia política da nação e do mundo, geralmente
começamos com uma exposição das duas principais
orientações ideológicas dentro de nossa comunidade;
nacionalismo e integração/assimilacionismo. Essas ideologias
são expressões da construção cultural geral da Áfrika. Elas
diferem e às vezes rivalizam entre si devido às diferentes
percepções dessa dinâmica cultural. A linguagem e os
objetivos que envolvem as diferentes percepções diferenciam
ainda mais as ideologias. Cada uma inicialmente se
desenvolveu a partir de uma preocupação com o bem-estar e
o desenvolvimento da raça Afrikana e estavam ligadas à essa
preocupação fundamental e à identificação do Afrikano como
um grupo nacional distinto. Com cada ideologia,
historicamente, houve uma consciência de nossa
afrikanidade. O integracionista do início do século 19 não via
nenhum grande conflito em defender a integração e a
autossuficiência racial simultaneamente. Essa consciência
racial foi perdida entre os defensores da perspectiva
integracionista/assimilacionista quando os não-Afrikanos
foram autorizados a influenciar e definir os parâmetros de

17
debate e ação dos Afrikanos. O domínio dos brancos no
movimento abolicionista do século 19 permitiu-lhes ditar a
direção ou não-direção do movimento. De fato, durante esse
período, de acordo com Stuckey, “a contribuição
integracionista para a teoria da libertação... era quase
inexistente; seu vazio essencial foi seu legado à era pós-
emancipação.”4
Nos tempos modernos, a contribuição teórica da
integração/assimilação tem sido igualmente limitada, na
maioria das vezes uma imitação superficial de teóricos e
estatísticos brancos. A proeminência dos ideais
integracionistas durante os últimos cinquenta anos e os
sucessos legislativos e materiais obtidos durante a era dos
Direitos Civis foram garantidos à custa de uma perda
monumental de independência social, política e cultural das
comunidades Afrikanas. A proeminência do ideal
integracionista/assimilacionista foi facilitada em parte pelo
esforço de cinquenta anos de J. Edgar Hoover e outros, em
desestabilizar, aterrorizar e desinformar a comunidade
Afrikana, e, de outra forma, destruir o nacionalismo Preto
como uma força viável. O sentimento popular nacionalista,
entretanto, fortaleceu o movimento pelos direitos civis,
fornecendo-lhe muito de sua militância. O próprio
nacionalismo explodiu em proeminência durante os anos
sessenta. Embora o nacionalismo dos anos sessenta carecesse
dos níveis necessários de coerência e consistência ideológica,5
seu ímpeto para a reafirmação nacional e autossuficiência, e
seu embasamento na análise histórica provou ter sido mais
substantivo e preciso do que a homogeneização miscigenada
defendida pelos integracionistas/assimilacionistas daquela
época e de hoje.6

18
A suposição não declarada que subjaz a maioria das
discussões de ideologia dentro da comunidade Afrikano-
americana é a suposição sobre as origens do século 18 do
distinto sentido de nacionalidade Afrikano-americana. A
suposição é que o Afrikano não tinha noção de nacionalidade
antes de encontrar o europeu ou o asiático; que os religiosos
da Ásia e da Europa forneceram o estímulo e os conceitos para
a organização do estado-nação em Áfrika. Da mesma forma,
as discussões sobre ideologia geralmente assumem que a era
do colonialismo europeu forneceu o ímpeto para a consciência
nacional e o pensamento político independente/nativo. Esta
truncagem da história Afrikana, consciente e inconsciente,
está na raiz da confusão cultural e ideológica nas nossas
comunidades, bem como nas mentes do nosso povo. A verdade
é que essas ideologias estrangeiras e culturalmente
antagônicas contribuíram menos para o desenvolvimento da
Áfrika do que para o desmembramento e dominação da Áfrika,
sua escravidão e exploração definitiva de seu povo.

Continuum Histórico e Cultural.


Se quisermos entender, finalmente, com perfeita clareza,
qual é nossa posição e direção no mundo de hoje, devemos ser
claros sobre nossas origens e nossa identidade. Muitas vezes,
em nossa análise de nossa condição atual, minimizamos a
tenacidade e a força do continuum histórico e cultural que tem
a Áfrika. Frequentemente, começamos nossa análise com uma
exposição histórica periférica e superficial das sociedades
Afrikanas antigas e tradicionais. A própria ligação substantiva
e remanescente entre essas sociedades tradicionais e a
condição contemporânea do povo Afrikano é tratada como
tênue e insignificante.

19
Por mais horrível que tenha sido o Holocausto da
Escravização Afrikana e a destruição da civilização Afrikana,
essa experiência e o eurocentrismo que a acompanhou e a
arabização antecedente7 da nossa consciência e ambiente
material, não alterou e não poderia alterar o fundamento
cultural que nos define. Nosso encontro com a barbaridade
lasciva dos asiáticos e dos europeus não rompeu o vínculo com
nossa história, nem nos refez como caricaturas coloridas
animadas de arianos e semitas. Deve ficar igualmente claro
que a história do povo Afrikano não é toda de “príncipes,
pirâmides e pompas”. O despotismo e a desordem não são
exclusividade de europeus e asiáticos. A verdadeira história do
povo Afrikano, seja de triunfo, trivialidade ou traição, é, no
entanto, nossa história com sua própria dinâmica única e é
central para o nosso ser. É prerrogativa e obrigação final do
povo Afrikano restabelecer esse continuum cultural/histórico e
livrá-lo dos efeitos perniciosos da arabização e da
europeização, bem como retificar as aberrações geradas
internamente.

Tradição como Fonte da Identidade Afrikana.


Ali Mazrui, escritor e narrador da série de TV Os africanos,
propõe que a Áfrika tem uma herança tripla: tradicional
africana, cristianismo/europeu e islâmica/árabe. Na verdade,
esse conceito de uma herança tripla é uma medida da
confusão que assola até mesmo os intelectuais mais talentosos
entre nós. Deve ser inequívoco e assumidamente claro esse
continuum cultural Afrikano. Tradição implica fundamentos. A
tradição encapsula a história, que é o cerne da cultura. Esta
dinâmica histórica tradicional Afrikana deve incluir as
civilizações da Etiópia/Kush que geraram Kemet. Deve incluir

20
Núbia, Punte e as cidades-estados sem nome de um Saara
verde. Deve incluir o antigo Gana, Zimbábue, Ifé, Asante e
Zulu. Todos os outros construtos culturais/históricos que não
derivam diretamente do continuum histórico descrito devem
ser vistos como desvios, mutações, empréstimos ou
imposições, assim como aqueles ramos da humanidade que
descrevemos como caucasianos, semíticos, asiáticos são
mutações genéticas do genótipo basilar, Afrikano. Nós! Nosso
início histórico é a nossa história desde o primeiro momento
da consciência humana. Os atuais legados
culturais/ideológicos/religiosos e históricos da Ásia e da
Europa são legados de nossa humilhação nas mãos de
invasores estrangeiros. Não internalizamos o que sabemos
logicamente e o que sabemos intuitivamente, que somos as
primeiras pessoas no mundo; que as concepções de nossa
identidade e direção devem começar conosco, com nossa
história verdadeira e sem adulteração.
A experiência do Holocausto e a experiência contínua da
hegemonia cultural eurocêntrica agem para ocultar e
confundir o que permanece intacto; os fundamentos
essenciais da cultura Afrikana. É o fracasso em pesquisar
sistematicamente, redescobrir, reconstruir, atualizar e
revitalizar nossa própria essência cultural que limita o escopo
de nossa teoria sociopolítica, e restringe as opções
políticas/operacionais disponíveis para nós e geralmente nos
condena a repetir os erros de nossos mentores/mestres
europeus/asiáticos. Esses erros são invariavelmente
agravados por causa de ferramentas e metodologias de
pesquisa culturalmente desalinhadas.
Sem o esforço vigoroso e sustentado para recuperar nossa
própria dinâmica cultural única, nos limitamos às constrições

21
ideativas e espirituais dos próprios povos que são nossos
inimigos declarados. Nós nos definimos em termos derivados
de seus tratados históricos, suas teorias econômicas, suas
especulações filosóficas e morais, suas conjecturas
espirituais, suas doutrinas políticas e seus processos de
raciocínio; todos os quais são cultural e historicamente
determinados. Esses processos e ideais são exclusivos deles e
atendem principalmente aos seus interesses.
Construímos edifícios religiosos enormes, a maior catedral
do mundo, as igrejas mais grandiosas, a mesquita mais
opulenta, os maiores templos, tudo de acordo com a doutrina
religiosa nacionalista europeia ou árabe. Na maioria das vezes,
essas grandezas foram construídas em meio à pobreza e à
exploração de nosso povo. Sujeitamos nosso povo a fome e
guerra intermináveis em nome de ideologias estrangeiras; o
marxismo-leninismo num dia, o liberalismo democrático em
outro, ou a economia de mercado. Envolvemo-nos em conflitos
fratricidas e debates inúteis sobre termos e linguagem que não
definimos, que são, na verdade, baseados em suposições e
valores que são antitéticos aos nossos interesses. Nós nos
engajamos em pesquisas científicas ou filosóficas usando
metodologia e linguagem culturalmente desalinhadas. Muito
do trabalho de teóricos políticos que temos em mais alta
estima é prejudicado pela dinâmica subconsciente de
alienação e inferiorização cultural nascida da autodegradação
inconsciente.
Por mais exata que seja a análise do colonialismo de
Fanon, ele banaliza a cultura tradicional das pessoas comuns
como “fantasias” que são características da “desintegração da
personalidade” que servem para "canalizar" a agressão do
nativo oprimido. O trabalho de Fanon foi revolucionário, mas

22
finalmente limitado pelo raciocínio linear analítico que ele
adotou de seus mentores franceses. Para Fanon, a progressão
histórica em direção ao “novo homem”8 não foi apenas um
movimento distante da “desintegração atômica e espiritual” da
Europa, mas um movimento para longe das raízes culturais
tradicionais aparentemente ainda menos desejáveis, em
direção a “uma nova história do homem”.9 Para Fanon, a
experiência colonial europeia, embora bárbara, foi um
encontro histórico necessário que essencialmente despojou o
“nativo” de qualquer vínculo substantivo com as “fantasias”
metafísicas e não científicas da cultura tradicional. O “homem
novo” e a nova realidade para Fanon seriam definidos quase
exclusivamente no curso da luta pela libertação. Se olharmos
além, sem as restrições teóricas e semânticas do materialismo
histórico marxista e do subconsciente libidinal freudiano,
descobrimos que essas mesmas fantasias levaram Toussaint
L’Ouverture à vitória sobre três dos mais poderosos exércitos
da Europa. Essas mesmas “fantasias” inspiraram e guiaram
Palmares, os Maroons e Nat Turner. Elas estimularam
Frederick Douglas, Harriet Tubman, os forasteiros dos
pântanos do sul dos EUA, os incontáveis fugitivos, e que
continuam a fornecer inspiração e orientação para os que
buscam a libertação.
Igualmente célebre como a obra de Fanon é a obra de
Walter Rodney, que é limitada porque as realizações das
sociedades Afrikanas são elogiadas ou celebradas na medida
em que as suas realizações se aproximam das europeias. Os
bronzes de Ifé são elogiados porque se aproximam dos
melhores da Grécia antiga. Os Iorubás e Asantes ganham
destaque por estarem ingressando na fase de economia de
mercado.10

23
Durante a era colonial, a Europa foi o centro do
desenvolvimento tecnológico e, como consequência, dominou
o mundo. Está claro agora, dado o ressurgimento do
nacionalismo étnico, que o domínio tecnológico foi um manto
transitório sobre a característica muito mais profunda e
essencial da cultura nacional. O chamado sucesso (para
brancos/europeus na América) deveu-se inteiramente à
confluência de três fatores; (a) a abundância de terras e
recursos naturais no hemisfério ocidental, (b) a nova
capacidade tecnológica dos europeus, e (c) o vazio moral
europeu que lhes permitiu erradicar sistemática e cruelmente
a população indígena americana e possuir suas terras,
destruir as civilizações da Áfrika, escravizar seu povo e tomar
posse das terras e recursos naturais Afrikanos. Os europeus
foram assim capazes de acumular riqueza adequada e
oportunidade para amenizar qualquer rivalidade étnica
potencial entre eles. O ponto importante aqui é que a cultura
é muito mais profunda e mais essencial para o caráter
histórico de um povo do que as conquistas tecnológicas; que a
cultura é a base das conquistas tecnológicas; essa cultura é a
base sobre a qual a tecnologia é construída. Além disso, as
tecnologias refletem os pressupostos históricos/culturais da
nação em que foram geradas.
A base para o nosso futuro como povo deve começar com
uma compreensão clara de que a nossa identidade e as nossas
origens são os componentes essenciais da cultura Afrikana.
Para entender nosso status e nosso futuro como povo,
devemos conhecer nossa cultura. Devemos conhecer a
dinâmica essencial e as características invariáveis dessa
cultura. O que é cultura e o que ela faz?

24
Cultura e a Esfera Cultural.
“Cultura é aquela totalidade de valores, crenças e ações
que caracterizam um povo. A cultura consiste nos
padrões de comportamento, símbolos, instituições e
valores de uma sociedade e é exclusiva dessa sociedade.
É o composto espiritual, ideativo e material que distingue
uma sociedade de outra. Ela molda e, por sua vez, é
moldada por eventos no reino espiritual, ideativo e
material. Toda investigação e solução, verdade e beleza,
tradição e pureza, significado e realidade são
culturalmente relativos. Não existem empreendimentos
humanos livres de cultura ou valores. A cultura não é um
fenômeno estático. A cultura evolui continuamente à
medida que uma sociedade evolui e se desenvolve. A
cultura é aquele composto de comportamentos
determinados social e historicamente que alimenta e,
portanto, define os parâmetros intelectuais e espirituais
dentro dos quais o indivíduo humano se desenvolve e
existe.”11
A cultura pode ser representada como uma esfera,
conforme a Figura 1, com a história posicionada como seu
núcleo dinâmico e seminal. A história aqui se estende além da
mera investigação e exposição. Em vez disso, é a interação
constante e viva de um povo em seus diversos ambientes ao
longo do tempo. Esse processo interativo ocorre de tal forma
que as experiências da antiguidade partem de um continuum
com o presente e o futuro, e onde as dinâmicas essenciais da
antiguidade são reencenadas no presente e antecipam o
futuro. A história não é estática, nem se preocupa apenas com
o passado. “O fator histórico é o cimento cultural que une os
elementos díspares de um povo em um todo.”12 É a consciência
dessa continuidade ou continuum histórico que fornece o

25
elemento de ligação de toda a esfera cultural. A natureza
dinâmica da história é responsável pelo dinamismo da cultura.

26
(A) Figura 1, ESFERA CULTURAL

27
O caráter único da unidade social básica de uma cultura,
a família, é moldado na história, assim como o indivíduo é
posteriormente moldado dentro da família. Como essas
unidades sociais interagem dentro de seus ambientes, sua
integridade e desenvolvimento são sustentados por meio de
diversas modalidades interativas e coesas. Essas modalidades
incluem linguagem, ritual, padrão e símbolos. Essas
modalidades servem para facilitar a consciência de grupo e
nacional, e a ordem social. Elas servem para facilitar a
interação social e os laços sociais. O ritual é uma característica
particularmente saliente na cultura Afrikana. De acordo com
Richards,
“A vida africana está repleta de rituais. Isso afirma a
inter-relação com outros seres no universo... O ritual é,
em certo sentido, a expressão filosófica última da visão de
mundo africana, pois é a modalidade dentro da qual a
unidade do humano e do divino é expressa, na qual a
unidade do espírito e da matéria é percebida, e na qual o
Momento Eterno é alcançado.”13
Cada cultura desenvolve sua linguagem única, seus
padrões sociais e símbolos. Essas modalidades são únicas à
medida que surgem dessa interação histórica dos povos e seus
vários ambientes. As modalidades interativas e coesas refletem
os pressupostos fundamentais, e os significados que
sustentam a visão de mundo são refletidos nas modalidades
interativas. “O modo determinante da visão de mundo africana
é a harmonia, a descoberta do ponto de interação harmoniosa.
A mente europeia é literal, enquanto as concepções africanas
são expressas simbolicamente.”14
À medida que as pessoas evoluem ao longo da história,
elas invariavelmente organizam suas experiências, e suas
reflexões e elaborações sobre suas experiências em vários
28
domínios do conhecimento. Esses domínios estão
necessariamente ligados ao núcleo histórico da cultura e são
uma consequência dessa dinâmica histórica. Esses domínios
incluem filosofia, moralidade, espiritualidade, ética, política,
ideologia, estética, ciência, direito e outros. Os vários domínios
e as disciplinas particulares do conhecimento servem como os
fundamentos institucionais fixos da nação. A educação é única
entre os domínios na medida em que é tanto processo quanto
instituição e, adicionalmente, serve para perpetuar toda a
realidade cultural. Esses domínios do conhecimento e as
instituições que ocasionam sua operação na sociedade são as
características imediatamente percebidas da nação e servem
para identificá-la e ao seu povo.
O aparato do estado-nação se desenvolve à medida que a
nação ou várias nações estreitamente relacionadas encontram
fatores ambientais que demandam coordenação ou recursos
além dos disponíveis. Por exemplo, as frequentes e massivas
inundações do Nilo “obrigaram a primeira população africana
(…) a superar o egoísmo individual, de clã e tribal ou
desaparecer. Surgiu assim uma autoridade supratribal, uma
autoridade nacional, aceita por todos, investida de poderes
necessários para conduzir e coordenar a irrigação e
distribuição de água, e obras essenciais à atividade geral.”15
Diop identificou quatro tipos de estruturas estatais, e elas
diferem de acordo com seus motivos seminais. O “tipo
africano”, que nasceu da necessidade de realizar grandes
obras hidráulicas, tipificadas pelo antigo Kemet. Este tipo é
fundado em uma base coletivista e é apoiado e defendido por
todos os seus membros como meio de assegurar a
sobrevivência do coletivo. O segundo tipo de Estado resulta da
resistência a um inimigo comum. Diversas nações

29
culturalmente relacionadas formam uma confederação não
para conquista, mas para defesa comum contra um inimigo
externo. A Federação Asante que data de suas origens no
século 17 é um modelo deste tipo. O Império do Mali anterior
teve origens semelhantes. Este Estado particular dá privilégios
às classes militares, onde o primeiro tipo, o tipo Afrikano,
distribui privilégios amplamente entre todas as classes sociais.
Um terceiro tipo ocorre quando o modo tradicional de
produção entra em colapso e o único instrumento de
dominação de uma classe sobre outra é o Estado. Este tipo é
representado pela antiga Atenas.
Um quarto tipo é o “tipo espartano ou tutsi”. A cultura ou
grupo nacional conquistador não se integra ao grupo
dominado, mas baseia seu domínio na separação e dominação
absolutas. A base da divisão geralmente é étnica ou racial e
sempre é resolvida por genocídio. Os Estados modernos que
evoluíram de acordo com esse modelo e baseados no genocídio
incluem quase todos os Estados fundados pelos europeus
durante o período do colonialismo/imperialismo. Entre os
Estados modernos fundados no genocídio estão todos os
Estados americanos, incluindo os EUA, Canadá, México,
Brasil, etc. Outros incluem Austrália, Tasmânia, Groenlândia,
África do Sul e Nova Zelândia.
O Estado evolui devido à necessidade de organizar
recursos para proteger a integridade da nação, seu povo, suas
unidades sociais centrais, suas modalidades interativas, suas
instituições; sua cultura e seu ethos. Para cumprir seu
propósito, o Estado necessariamente mantém uma capacidade
defensiva e uma autoridade governamental central. Mantém
relações com outros Estados e protege a integridade territorial

30
da nação. O Estado existe essencialmente para proteger e
promover os interesses da cultura nacional e de seu povo.
Segue-se como Diop observa que “para cada indivíduo, a
sua própria identidade é uma função do seu povo. Isso quer
dizer que a identidade do indivíduo é função da identidade
coletiva. Consequentemente, deve-se definir a identidade
cultural de um povo.”16 Os fatores componentes da identidade
coletiva, ou os fatores componentes da cultura segundo Diop,
incluem o fator histórico, o fator linguístico e o fator
psicológico. Embora Diop o tenha omitido, devemos adicionar
um quarto fator, o fator espiritual.
Podemos definir a história como a cronologia da interação
de um povo com seus vários ambientes. Esses ambientes
incluem o ambiente do mundo físico (clima, terreno, fauna e
flora), o ambiente político/econômico (interação dentro do
grupo e entre grupos), e o ambiente espiritual (reconhecimento
ou não reconhecimento, encontros, interação,
respostas/sensibilidade). É a interação das pessoas, seus
comportamentos aprendidos, adaptações biológicas/genéticas
e respostas espirituais ao longo do tempo que moldam sua
identidade cultural. É a identificação consciente e
subconsciente com esse continuum histórico que fornece o
cimento que une um povo em um todo.

Ciclo Histórico.
Descrever a história como um continuum não significa
sugerir que a história seja um desdobramento sem fim de
fenômenos novos, sem precedentes e imprevistos. Em um
sentido real, a história é cíclica. Existem temas e dinâmicas
recorrentes e constantes que se atualizam em ambientes
diferentes com atores diferentes e às vezes os mesmos.

31
Na história do povo Afrikano, existem vários temas
importantes que podem ser identificados e que tipificam a
nossa experiência ao longo dos últimos três mil anos. Entre
esses temas são
A) A perda progressiva da consciência histórica
B) A erosão da consciência e lealdade cultural; alienação
cultural
C) A contração e periferização do núcleo espiritual
tradicional da cultura nacional
D) O núcleo indomável da vontade de resistir à
subordinação e os persistentes esforços para reconstruir a
realidade Afrikana.
Incluído aqui está um esboço da história mundial da
Áfrika nos últimos três milênios. A Figura 2 pretende
representar a história como um ciclo, mas na forma de uma
espiral. O ciclo é uma declaração de generalidades históricas
e simplesmente facilita a transmissão de certos conceitos. O
principal desses conceitos é que o colapso das sociedades
Afrikanas foi menos uma função da supremacia militar ou
técnica dos exércitos invasores, do que um reflexo do
enfraquecido núcleo espiritual/cultural de nossas sociedades.
Essa dinâmica espiritual/cultural enfraquecida correspondeu
aos períodos de nossa história de liderança fraca, a adoção
acrítica de valores e comportamentos culturais estrangeiros e
as consequentes rivalidades, confusão e caos. Esse padrão
recorrente de fraqueza e ambiguidade interna facilitou a
penetração e o domínio de nossas sociedades por asiáticos e,
posteriormente, por europeus.
Ao longo dos três milênios de invasão e destruição
estrangeira, a tradição de resistência, reconstruindo e
reivindicando nossas tradições permaneceu forte, mesmo que
ofuscada, seja na 25ª dinastia de Kemet, no antigo Gana,
32
Mossi, Asante, Iorubá, Zulu, Zimbabue, Ndondo ou Haiti de
Dessalines. Os períodos alternados de império, declínio, e
reconstrução aconteceu dentro de um ciclo maior de declínio,
reconstrução e vindicação final.

33
(B) Figura 2 – CICLO HISTÓRICO

34
O Ciclo Histórico (Figura 2) é projetado para representar a
história da Áfrika como um sistema dinâmico complexo. As
linhas de movimento representam o estado transitório entre a
ordem e o caos, entre a coerência cultural e a entropia
cultural. E indicam ainda que, embora a trajetória global da
história se repita, os detalhes são infinitamente variantes. A
posição terminal (limite) em qualquer um dos polos da espiral
cíclica é uma posição de relativa estabilidade. Dentro dos
polos, a trajetória histórica mantém seu curso no plano da
ordem ou da desordem até aquele momento em que algum
fator externo a lança cambaleando para o polo oposto. O fator
determinante na história da nação segundo Diop17 e Cabral é
a identidade cultural ou consciência cultural.18 Segue-se
então que a dinâmica da história do povo Afrikano, da ordem
da coerência cultural ao caos da entropia cultural, ocorreu
naquele ponto da nossa história quando algum evento
inconsequente colocou em movimento uma sequência de
eventos que minou e corroeu a vitalidade da consciência
cultural/histórica da nação, levando ao seu declínio. Da
mesma forma, um evento no polo do caos excitará a
consciência nacional de modo a impulsioná-la para o polo
oposto da ordem e da coerência cultural. O processo é
inexorável e não é afetado por quaisquer picos episódicos.19 O
processo pode ser derrotado ou alterado apenas pela
manipulação da dinâmica cultural de uma das duas maneiras:
“A repressão permanente e organizada da vida cultural das
pessoas envolvidas, [ou] garantido definitivamente apenas pela
liquidação física da população dominada [genocídio]”20
A tentativa de reprimir sistematicamente a dinâmica
cultural de um povo nunca é um sucesso permanente, como
fica evidente na resistência das populações Afrikanas no

35
continente e na diáspora frente aos esforços culturais e
políticos/econômicos dos imperialistas. É evidente até mesmo
entre grupos étnicos europeus reprimidos na própria Europa.
O genocídio, no entanto, foi empregado com sucesso por
europeus nas Américas, Austrália, Tasmânia, Nova Zelândia e
por árabes no norte da África para anular o ciclo histórico. O
Ciclo/Espiral Histórico como um sistema dinâmico complexo
é inspirado em parte por desenvolvimentos no campo do caos,
ou ordem na desordem,21 que em maior medida é antecipado
nas doutrinas Keméticas de opostos, harmonia e
transmutação.22 A ciência do caos dentro dos sistemas
reconhece que na aparente aleatoriedade e imprevisibilidade,
existem estruturas de ordem.23 No caos, há ordem na
desordem, uma aparente unidade de opostos.
O modelo de ciclo atinge uma medida de precisão apenas
em termos macro-históricos. O estado transitório de
retrocesso cultural na história da Áfrika ocorreu ao longo de
um período de três mil anos. O mundo Afrikano obviamente
experimentou um estado de entropia cultural; o nadir da
nossa história sendo experimentado nos últimos três séculos
pela destruição e dominação árabe e europeia das civilizações
Afrikanas, o Holocausto da Escravidão Afrikana, o
colonialismo, e o subdesenvolvimento e dependência
contínuos em todo o mundo Afrikano. Se pensarmos no polo
do caos como um vasto vórtice cujas energias convergem em
uma área terminal côncava arredondada, em vez de terminar
em um ponto terminal singular, essa área terminal seria
limitada aproximadamente pela partição de 1885 da Áfrika e
pela Primeira Convenção Internacional dos Povos Negros do
Mundo, de Marcus Garvey em 1920. O modelo de ciclo prevê,
no entanto, que este estado de entropia/caos cultural é não-

36
permanente. O desenvolvimento atual de um movimento de
base ampla e internacional da teoria Pan-Afrikanista e
Afrikano-centrada, com uma base popular substancial, indica
que a faísca que nos impulsionaria para além deste plano/polo
de entropia/caos cultural já ocorreu.
Existem sete grandes fases em nosso Ciclo Histórico
Mundial Pan-Afrikano que descrevem a deterioração e os
processos retrógrados da história da Áfrika e sua inevitável
reconstituição e desenvolvimento progressivo.
Essas fases incluem:
A) Coerência e ordem cultural
1. Consumação Cultural e Unidade
2. Era do Império e expansão

B) Deterioração cultural
1. Penetração e infusão benigna por não-Afrikanos
2. Conflito Civil e Concorrência
3. Enfraquecimento da consciência nacional/cultural

C) Derrota e Humilhação
1. Dominação/Colonização Estrangeira
2. Dispersão da População Afrikana
3. Holocausto da Escravidão Afrikana
4. Consciência Nacional Dormente/inativa

D) Entropia Cultural e Caos


1. Alienação cultural e dormência
2. Perda de Consciência Histórica
3. Resistência Nacional e Desapossamento Colonial
4. Independência política nominal e subdesenvolvimento
econômico crônico

37
E) Renascimento
1. Colapso e/ou abandono de instituições e cosmologia
não-Afrikanas
2. Revitalização Histórica

F) Reconstrução Cultural
1. Recuperação e reconstrução cultural (Re-Afrikanização)
2. Nacionalismo/Renascimento Pan-Afrikanista e
Verdadeira Independência

G) Nova Ordem
1. União Mundial Pan-Afrikana (Unidade Política e
Cultural - Conselho Administrativo Mundial Pan-Afrikano
Funcional, Desenvolvimento Econômico Coordenado)
2. Nova Ordem Internacional do Pluralismo Cultural e
Paridade Política/Econômica

A identificação das sete fases históricas dentro do ciclo


facilita uma ampla consciência da continuidade de nossa
história e aumenta a consciência histórica que é tão exigente
para a concepção de nacionalidade. O delineamento adicional
de duas divisões maiores de regressiva (B, C e D) e progressiva
(E, F e G) destaca o otimismo permanente, isso é característico
da nossa tradição e que é abordado na quinta fase (o cerne
indomável de resistir à subordinação e de reconstruir a
realidade Afrikana). “A consciência histórica, pelo sentimento
de coesão que se cria, constitui o mais seguro e sólido escudo
de segurança cultural de um povo. Por isso, todo povo busca
apenas conhecer e viver bem sua história, para transmitir sua
memória aos seus descendentes”.24

38
A História como Arma de Agressão Cultural.
Segue-se que a principal arma de agressão cultural e o
principal suporte de alienação/inferiorização cultural é a
distorção histórica. A atual reação adversa e muitas vezes
histérica contra o pensamento Afrikano-centrado é encontrada
em sua maior intensidade entre os acadêmicos brancos, os
legisladores e, mais recentemente, nas publicações como Time
Magazine, The Washington Post, The Washington Times e
outros jornais grandes. Esta reação adversária em relação à
educação Afrikano-centrada pode ser vista como uma reação
autônoma da mente supremacista branca para defender a
hierarquia racial/nacional estabelecida. A estratégia padrão
agora, tornada tão clara quando a máquina de propaganda
branca recentemente produziu um jargão anti-
Hussein/Iraque sem parar, inclui a banalização, o ridículo e a
vilania. De acordo com os escritores da Time Magazine, o
movimento do afrocentrismo é um culto dentro do movimento
multicultural, liderado por oportunistas e vigaristas, e
baseado em pesquisas superficiais e uma leitura errada da
história; um culto que ameaça balcanizar, separar ou
“desunir” o estado-nação americano e redefinir a
personalidade americana com o risco elevado de conflito civil
ou étnico. Eles perguntam um tanto cinicamente: "quem
somos nós?"
O foco principal de seu argumento, e o ponto em torno do
qual é gerada a invectiva retórica mais intensa, é a questão da
revisão histórica. A controvérsia histórica gira essencialmente
em torno das origens da civilização e da base histórica do
domínio político e econômico contemporâneo dos brancos no
mundo. Na primeira questão, o ponto é se o homo sapiens era

39
africóide, embora ele tenha se originado em Áfrika e seus
vestígios distintamente Afrikanos sejam encontrados em toda
a Europa e Ásia. Em segundo lugar, os europeus dos séculos
15 e 19 resgataram o mundo da tirania e da barbárie? Ou a
Europa dizimou uma raça (o indígena americano), escravizou
e dispersou outra (o povo Afrikano), e reduziu a terceira à
dependência (asiáticos), e enriqueceu-se (brancos europeus)
em conhecimento e riqueza material no processo? Esse
processo foi de resgate, como sustentam os novos defensores
do “pluralismo cultural”, ou de monumental depravação moral
e ganância? Esta história dos europeus de “descobertas” e
façanhas europeias é uma história que agora sabemos ser uma
distorção grosseira da verdade de acordo com a pesquisa de
homens e mulheres como Houston, Diop, Van Sertima,
Williams, etc. Na verdade, é a base do senso de identidade do
homem branco (e de sua mulher) e a base de sua lógica para
o domínio mundial contínuo.
A recuperação dessa consciência histórica entre os
Afrikanos deve receber a mais alta prioridade. Essa
recuperação, no entanto, é mais do que a simples aquisição de
um conhecimento dos fatos históricos. Os fatos ou verdades
das realizações Afrikanas estão prontamente disponíveis para
todas as pessoas. Na verdade, como o Chancellor Williams e
outros historiadores antes dele observaram, os porões e
armazéns dos museus europeus forneciam recursos
excepcionais para o estudo dos artefatos materiais da cultura
Afrikana. De fato, a verdade sobre o genialidade Afrikana,
embora veementemente negada pelos propagandistas
coloniais europeus, era bem conhecida pela academia euro-
americana.

40
A essência dessa consciência histórica para o povo
Afrikano é a vontade e a capacidade de personalizar essa
história, o processo de identificação de si mesmo e de sua
família nessa história, ver-se nessa história e crescer a partir
dessa história. A consequência dessa identificação íntima é o
desenvolvimento de maneiras de pensar que são consistentes
com essa história e padrões de comportamento que respondem
aos imperativos e dinâmicas dessa história da maneira mais
progressiva. A manifestação mais elevada dessa consciência
histórica corresponde ao que Asante chama de Consciência
Afroncêntrica,25 o quinto nível de transformação pessoal.
Envolve a adoção de novos critérios de vida; onde os valores e
definições Afrikano-centrados ditam o ritmo de vida de uma
pessoa. Essa nova consciência corresponde em parte à "fase
de luta" de Fanon26, onde os anteriormente alienados
culturalmente são completamente reenculturados de tal forma
que sua identificação com sua própria cultura é completa e
seu compromisso com a batalha por sua existência e
desenvolvimento é concretizado.
Na experiência organizacional da instituição
NationHouse27 nos últimos vinte anos, a fase atual foi
identificada como a fase de reconstrução nacionalista em que
nossas organizações/instituições refletem uma recuperação e
revitalização da Afrikanocentricidade em sua estrutura e
operação, e em sua missão e trabalho produtivo real.
O foco organizacional é a construção da nação
(Nacionalismo Afrikano), não a manutenção social.28 As
instituições fornecem o contexto para relações interpessoais,
dinâmicas familiares, processos educacionais e projetos de
desenvolvimento que atuam de acordo com a crescente

41
necessidade de elevados padrões morais, estudo sério,
autodisciplina e produtividade.

Fator Psicológico da Cultura.


O estágio de transformação pessoal que Asante chama de
transformação pessoal é semelhante ao que Diop chama de
fator psicológico da cultura. É uma descrição daqueles
invariantes culturais/psíquicos que sobrevivem entre um
povo, apesar da dominação nacional ou racial. Esse conjunto
de comportamentos que é exclusivo de Áfrika foi descrito por
Diop como incluindo otimismo cosmológico, comunalismo e
coletivismo. Podemos adicionar o senso de ritmo, música,
criatividade espontânea de forma livre e a celebração dos
ancestrais como membros contínuos do coletivo familiar, e o
lugar central que o intuitivo, psíquico ou subconsciente
(vibrações) desempenham nas percepções pessoais e coletivas.
Asa Hilliard descreveu o estilo cognitivo dos Afrikanos como
sociocêntrico, holista, afetivo, humanístico, flexível e enérgico.
O estilo cognitivo dos Afrikanos é único, mas não limita
nossa capacidade de processar e dominar conhecimentos e
habilidades gerados por outras culturas. O mesmo aconteceria
com outros povos em relação ao conhecimento adquirido das
culturas Afrikanas. A maneira como o Afrikano processa as
informações é um reflexo da história única do mundo
Afrikano. Esses processos são característicos e invariáveis por
causa de sua antiguidade, seu reforço histórico-social
consistente e as adaptações biogenéticas que evoluíram para
acomodá-los.

42
Base Espiritual da Cultura Afrikana.
O fator psicológico é em grande medida uma extensão do
fator espiritual. A tradição nos diz que a forma física é
acionada pelo espírito. A espiritualidade é um componente
crítico na personalidade cultural dos Afrikanos, pois é
historicamente central para as experiências dos Afrikanos
onde quer que estejam. A espiritualidade se refere àquele
domínio real e cognoscível da existência que ocorre contíguo
ao mundo material, o precede e é sequente a ele. A relação do
espiritual não deve ser confundida com dogmas religiosos,
misticismo ou com o reino mitológico, sombrio e agourento
habitado por monstros demoníacos famintos por carne.
A espiritualidade envolve a celebração dos ancestrais.
Abrange a confiança na intuição ou vibrações para avaliar as
relações interpessoais. A espiritualidade envolve o
conhecimento ou consciência intuitiva e subconsciente da
unidade ou totalidade de toda a criação; dos ancestrais, dos
vivos e dos que ainda vão nascer. Dizer que somos um povo
espiritual está substancialmente ligado à
energia/força/consciência coletiva de todos aqueles que
vieram antes de nós. É dizer que nossa forma física é acionada
pela metafísica, o espírito. Isso quer dizer que nossa forma
física pode afetar essa metafísica coletiva e vice-versa; que
podemos manifestar fisicamente a consciência espiritual
coletiva ou a consciência de nossos antepassados individuais,
e comungar ativamente com essa consciência.
O conceito de espiritualidade como o fator central no ethos
cultural, e na identidade histórico-social do povo Afrikano, é
simples. O conceito torna-se complexo devido à nossa
tendência coletiva, nascida da nossa humilhação e subjugação
pelos caucasianos durante o Holocausto da Escravidão

43
Afrikana, de nos definirmos, a nossa história e realidade, em
termos de caucasianos (europeus e asiáticos). O significado de
espiritualidade para os Afrikanos é, consequentemente,
confuso devido à confusão de realidades culturais
estrangeiras. Essas realidades culturais conflitantes são
extensões do estilo cognitivo circular e holístico do Afrikano e
do estilo cognitivo linear, analítico e materialista dos europeus.
Essa confusão é ainda mais agravada por causa da relação de
poder entre as nacionalidades Afrikanas subordinadas e
dependentes e os caucasianos dominantes da Europa e da
Ásia, e as formas simbólicas associadas a essa relação de
poder, nomeadamente linguagem, rituais, padrões
comportamentais e cognitivos, e valores associados.
A espiritualidade se preocupa principalmente com a
concepção, imagem e interação com a reconhecida força
criadora primal. Cada nação, raça ou povo autoconsciente
identificará esse criador como uma idealização suprema do
conceito que o povo tem de si mesmo. Se eles concebem seus
egos ideais como caracterizados pela verdade, justiça,
propriedade, harmonia, equilíbrio, reciprocidade e ordem; seu
criador autorreflexivo manifestará o mesmo. Se eles se
conceberem como competindo e em conflito com a ordem
natural dada, como destinados a reconfigurar essa ordem e,
então, dominar essa ordem transformada, então seu criador
manifestará o mesmo caráter unifocal e vingativo. Cada nação,
raça ou povo encontrará a fonte da quinta-essência de
significado que estará na vontade e poder da força criadora.
Que as pessoas sejam guiadas e inspiradas por esse poder
supremo do qual elas próprias são, na verdade, uma extensão
e uma expressão. Que as pessoas nomearão e interagirão com
aquele criador em sua própria língua, e representarão essa

44
força criadora ou seus agentes intermediários de maneiras
muito consistentes com o caráter e a cultura do povo.
Nyame, Onyankopon, Inkosi, Olodumaré, Katshonde,
Rá,... a força criadora ou Deus na cosmologia Afrikana
representa a força vital indiferenciada ou espírito presente em
toda a criação. A forma física da pessoa individual é ativada
pelo espírito e esse espírito é consagrado naquele corpo. O
espírito único, o Kra dos Akan e o Ka de Kemet, é
simplesmente uma forma diferenciada da maior força divina e
retorna a esse todo indiferenciado maior após a expiração da
forma física. Ao longo da Áfrika, e ao longo da história
Afrikana, prestamos homenagem a uma multidão de
divindades e ancestrais, que são uniformemente percebidos
como agentes intermediários da força criadora original e
singular. Essas divindades existem devido à necessidade
tradicionalmente reconhecida (Afrikana) de facilitar a cognição
humana por meio da particularização, estrutura e analogia. A
compreensão de toda a indiferenciada força divina é
impossível. Particularizado de acordo com as características e
personalizado de acordo com a tradição local, a
imperceptibilidade de toda a força divina tornou-se
cognitivamente controlável. Os ancestrais, cujos Kra ou Ka
partiram de seus corpos após a morte, permaneceram
acessíveis aos vivos porque os vivos sustentaram aquele nexo
ou conexão da forma espiritual e o mundo físico por meio de
um ritual coletivo e individual. O conceito de politeísmo entre
os Afrikanos é uma concepção falsa nascida da necessidade
dos ideólogos europeus e asiáticos de desacreditar a cultura
Afrikana a fim de dominar de forma mais eficaz o povo
Afrikano. A Áfrika nunca foi outra coisa senão totalmente
ciente de uma força divina. De fato, a consciência da força

45
divina começou em Áfrika e amadurece em Áfrika antes de sua
dispersão para as planícies da Ásia e cavernas da Europa.
A centralidade da espiritualidade para a realidade cultural
dos Afrikanos não limitou o domínio Afrikano do mundo
material. Na verdade, o primeiro e melhor modelo de domínio
espiritual e material do mundo foi Kemet. Kemet era
tecnologicamente avançado em geometria, álgebra,
trigonometria, anatomia, medicina, astronomia, física,
arquitetura, etc. Era igualmente, se não mais avançado, em
suas concepções e práticas de espiritualidade. Kemet não
procurou encontrar a força divina no curso de sua
investigação científica. Teria ficado claro para eles que as
partículas subatômicas do mundo microcósmico infinito não
forneciam nenhum acesso especial à força divina. O mesmo é
verdade para os quasares, galáxias, grandes atratores, etc., do
macrocósmico infinito. O estudo e o domínio do mundo
material apenas facilitam o desenvolvimento do espírito dentro
de nós. Nós, sendo do espírito, somos como ele; nós somos a
fonte, o produto e o potencial, o pai, o filho, a mãe e a filha, o
criador e o criado.
Assim como a espiritualidade é fundamental para o nosso
ser e, portanto, para a nossa cultura, também foi fundamental
para a nossa atual e histórica condição de humilhação e
subordinação. Nossa subjugação pelos exércitos saqueadores
e agentes comerciais de não-Afrikanos foi facilitada
historicamente e atualmente por saqueadores proselitistas
religiosos, evangelistas, missionários, etc. Se tivéssemos
mantido nossa base espiritual, nossa integridade cultural
essencial não poderia ter sido fragmentada. Teríamos mantido
a vontade política e moral de impedir a dominação estrangeira.
Os exércitos estrangeiros eventualmente teriam partido ou

46
morrido de doenças e isolamento. Os agentes comerciais
teriam sido forçados a oferecer comércio em condições
favoráveis. Os “religiosos” não-Afrikanos, entretanto, serviram
para alienar nosso povo de seus fundamentos espirituais.
Nossas ligações com o poder e a vontade da força criadora, de
Onyankopon, Nyame, Chuku, Kyumbi, etc., não foram
completamente rompidas, mas severamente restringidas pelas
perversões, os mitos distorcidos e agendas ocultas de
"religiosos" não-Afrikanos.
É provável que nosso empobrecimento material e nossa
dependência continuarão enquanto nos subordinarmos aos
conceitos religiosos estrangeiros e imperialistas. Nossa
marcha coletiva em direção à verdadeira libertação e
desenvolvimento começará quando descartarmos as algemas
“religiosas” de dois milênios e reafirmarmos nossa conexão e a
centralidade da força do deus-criador Afrikano; uma força de
deus-criador a ser chamada por qualquer nome que seja
Afrikano.
A espiritualidade na cosmologia reconstruída e
revitalizada da nacionalidade Afrikana deve receber seu
ímpeto e substância das formações espirituais tradicionais do
Afrikano. Dado que os ambientes materiais e sociais evoluíram
continuamente em resposta às mudanças nas condições, a
simples replicação da estrutura tradicional seria inadequada
e provavelmente resultaria em abusos. A substância essencial
e os pressupostos fundamentais, entretanto, devem estar no
cerne do sistema espiritual. Entre esses fundamentos, os
principais são: todos têm uma ligação direta com o criador,
cada um deve encontrar seu próprio caminho; nossos
ancestrais habitam entre nós e estão disponíveis para nós;
consciência espiritual; a conexão é um modo de vida a ser

47
celebrado diariamente em uma variedade de formas; e a força
do coletivo nacional cresce a partir de seus fundamentos
espirituais.

Funções da Cultura.
Os vários fatores componentes são eles próprios dinâmicos
e servem para apontar a natureza dinâmica geral da cultura.
A cultura é tudo o que um povo faz. Esse tudo, no entanto, é
um composto interativo e inter-relacionado. A cultura define
os parâmetros dentro dos quais um povo age. As pessoas, por
meio de sua interação constante com seus ambientes, estão
constantemente moldando sua cultura. As principais funções
da cultura incluem servir de cimento para a integração/coesão
social e nacional. A cultura funciona para definir as fronteiras
de pensamento e comportamento que asseguram a existência
e a sobrevivência da nação. Ao estabelecer esses limites, a
cultura prescreve uma gama necessária de conformidade e,
inversamente, prescreve sanções apropriadas para aqueles
que se aventuram além desses limites. As funções específicas
da cultura29 incluem o seguinte:

A) Fornece uma lente de percepção ou estrutura cognitiva


para ver o mundo
B) Delineia os padrões de avaliação pelos quais medir o
valor ou legitimidade, beleza e verdade
C) Define as condições e/ou meios que motivam ou
estimulam um membro (institucional e individual) da
sociedade e prescreve sanções por digressão disruptiva
D) Define identidade, funções e responsabilidades
coletivas e individuais

48
E) Fornece uma linguagem comum ou meio de
comunicação
F) Fornece a base para a organização social
G) Condiciona o modo de produção
H) Define a identidade e a missão nacional
I) Delineia um processo de perpetuação da cultura

Essas funções são cumpridas à medida que o povo, a


nação, responde institucional ou coletivamente aos seus
ambientes. Essas instituições que evoluem a partir da
experiência histórica do povo proporcionam estabilidade e
clareza, e facilitam a transmissão ordenada entre gerações
dessa cultura.

Construir a Nação para a re-Afrikanização.


A construção da nação é, finalmente, o esforço sistemático
e sustentado para reconstruir a cultura nacional em todas as
suas dimensões. Esse esforço deve começar com a
reconstituição do núcleo histórico, o núcleo combustível da
cultura, cujo dinamismo irradia, energiza e define a
linguagem, os símbolos, as instituições e o aparelho do Estado
da cultura nacional. Este esforço ou processo corresponde ao
que [Amílcar] Cabral chama de “re-Afrikanização” e envolve a
reconstrução e reabilitação do continuum histórico e da
consciência histórica que foi abortada durante o Holocausto
da Escravização Afrikana.
Este processo de construção da nação e de re-
Afrikanização deve necessariamente seguir os contornos da
esfera cultural elaborados anteriormente. Isso implicaria três
estágios básicos sobrepostos: (A) Redescoberta/Recuperação
histórica, (B) Redefinição/Reafirmação Cultural e (C)

49
Revitalização/Libertação Nacional. Deve começar, como de
fato já começou, com a sistemática “exumação e revivificação”
da história da Áfrika em todo o continente e na diáspora, desde
a antiguidade até a contemporaneidade. O primeiro estágio
deve incluir a recuperação e revitalização dos valores centrais
da antiguidade, particularmente conforme representado nas
obras sagradas, de filosofia, linguagem e outras formas
simbólicas. A ligação com as civilizações do antigo Kush e
Kemet são fundamentais para todo o continuum histórico
Afrikano.
É igualmente importante que os esforços simultâneos para
recuperar e revitalizar os valores centrais das sociedades
tradicionais sobreviventes sejam mantidos, já que muitas
dessas sociedades podem traçar sua formação e evolução
diretamente para Kemet, ou pelo menos para a mesma
formação cultural Afrikana seminal da antiguidade. Muito do
trabalho contido nesse esforço envolverá o desnudamento da
influência perversa das invasões culturais asiáticas e
europeias, e as perdas devido à negligência e alienação. Muitos
dos valores e formações sociais serão semelhantes, se não
iguais, a Kemet. Não obstante, é crucial que os vínculos físicos
reais sejam restabelecidos e mantidos, que, sempre que
possível, as formações da tradição sejam resgatadas e
adaptadas à modernidade. O processo de reconstrução
histórica irá facilitar um método e padrão para identificar e
avaliar os valores e comportamentos adquiridos durante este
período de “anarquia generalizada e endêmica [cultural e
política/econômica]”30 que é o legado do Holocausto. O
objetivo deste esforço é estabelecer firmemente a continuidade
histórica/cultural de Kush/Kemet, através das sociedades
tradicionais à modernidade.

50
Este processo de avaliação de comportamentos e valores
contemporâneos requer a elaboração de uma ideologia
mundial Afrikana. A tradição cultural e nacionalista está bem
representada nos tempos modernos por líderes como Martin
Delany, Marcus Garvey, homens e mulheres da UNIA,
Lumumba, Malcolm X, Diop e inúmeros outros. A tradição de
ativismo e estudo forneceu a base para a formação de uma
ideologia Afrikana abrangente e coerente. Essa ideologia é
crítica para o desenvolvimento da infraestrutura institucional
e física que assegurará a força, permanência e
desenvolvimento continuado de uma nacionalidade
verdadeiramente Afrikano-centrada, firmemente fixada dentro
de um continuum histórico Afrikano revitalizado. Esta ideologia
Afrikana mundial irá ocasionar a formação de uma
organização mundial da ideologia Afrikana mundial, irá
ocasionar a formação de uma organização mundial dos povos
Afrikanos do tipo preconizado por Chacellor Williams31,
recentemente por Chinweizu32 mas antecipado por Henry
Garnett, Martin Delaney, Bispo Henry Mcneil Turner, W.E.B
Dubois, e baseado no trabalho de Marcus Garvey.

51
(C) – Figura 3 – Processo de Re-Afrikanização

52
A avaliação de comportamentos e valores contemporâneos
também implica que alguns comportamentos e valores
adquiridos devem ser abandonados. Uma base educacional
forte, abrangente e independente, junto com o controle e
propriedade da mídia (impressa e eletrônica), grupos de estudo
e as associações e instituições de artes culturais são
essenciais para o avanço e sustentação de novos
comportamentos Afrikano-centrados. A população,
especialmente a juventude, deve estar convencida de que
aqueles comportamentos que são consequência de nosso
afastamento forçado de nossa própria cultura e que são
adversos aos interesses da nova nacionalidade devem ser e
podem ser abandonados.
Uma prioridade de todas as instituições dentro da
comunidade Afrikano-centrada deve ser a reabilitação da
família. As instituições comunitárias independentes devem se
ver como extensões da família. A parentalidade eficaz dentro
de uma rede de apoio de famílias é um requisito central para
a perpetuação desses novos valores Afrikano-centrados entre
os jovens. Esta rede de famílias e instituições deve procurar
canalizar o desenvolvimento dos jovens e resgatar aqueles que
podem ser desencaminhados pela propaganda de formações
político-culturais não-Afrikanas.
O terceiro estágio do processo de re-
Afrikanização/construção da nação inclui a fusão criativa e
dirigida de tradição e modernidade. Essa fusão é guiada pelos
princípios e prioridades de uma ideologia mundial Afrikana e
é consistente com os imperativos da história e cultura
Afrikana. Essa fusão deve refletir os valores fundamentais
para o continuum histórico do povo Afrikano e, ao mesmo

53
tempo, possuir a capacidade de agir efetivamente na arena
internacional moderna.

Conclusão.
Nossa missão como instituições e como pessoas é
multifacetada. Devemos primeiro remover o manto de
confusão e distorção que obscureceu o continuum histórico do
povo Afrikano, e da nacionalidade Afrikana. No curso do
estudo e trabalho, de união e construção, temos que identificar
as verdades e dinâmicas essenciais desse continuum, filtrando
as distorções, as perversões que nos foram impostas durante
os três milênios de conquista e dominação estrangeira, ou que
foram adotadas em nossa confusão e ignorância do caminho
de nossos ancestrais.
Devemos também manter a consciência de que a cultura é
dinâmica. Não é um fenômeno fixo. Existem dinâmicas
internas que podem levar a uma divisão e replicação
construtiva. Existem também dinâmicas externas à nossa
cultura nacional que devemos antecipar e às quais devemos
nos ajustar. As culturas interagem de maneiras que envolvem
enriquecimento mútuo, uma espécie de órbita e interação
intercultural. Nesse caso, cada entidade cultural mantém sua
identidade distinta, mas contribui para uma ordem mundial
verdadeiramente democrática e pluralista, caracterizada pelo
respeito mútuo. O encontro de culturas diferentes pode
envolver colisão violenta, resultando em uma nova realidade,
ou o esgotamento, exploração e distorção progressiva da
cultura mais fraca. Esse último cenário tem sido a condição
da nacionalidade Afrikana na era da hegemonia cultural
eurocêntrica. Este é o cenário que devemos registrar e ao qual

54
os europeus, seus irmãos americanos brancos e seus
auxiliares de cor resistirão com força.
O futuro do mundo é o pluralismo e a cooperação mútua
de diferentes culturas mundiais. Nossa primeira e maior
prioridade, entretanto, é reconstituir e revitalizar nossa
identidade cultural nacional. Devemos restabelecer a
consciência histórica que nos define. Devemos fortalecer os
vínculos espirituais com nossos ancestrais e uns com os
outros. Devemos construir esta nação, esta nacionalidade,
porque nossas vidas, nossa consciência e capacidades únicas,
nossa realidade cultural muito distinta e de nossos filhos
dependem de nosso sucesso contínuo neste processo de
construção da nação (Nacionalismo Afrikano).

Notas.
1. Harding, Vincent, There Is a River: The Black Struggle
for Freedom in America. New York: Vintage Books, 1981, p.105.

2. Schlesinger, Arthur M. The Disuniting of America.


Whittle Direct Books, 1991.

3. Rodney, Walter. How Europe Underdeveloped Africa.


Washington, D.C.: Howard University Press, 1972, p.95.

4. Stuckey, Sterling. Slave Culture. New York: Orford


University Press, 1987, p.231.

5. Cruse, Harold. The Crisis of The Negro Intellectual. New


York: Quill, 1967, p.420.

55
6. A resposta atual da academia branca e dos formadores
de opinião e seus buffers negros, tanto quanto era um quarto
de século atrás, é promover os méritos da miscigenação e do
individualismo. A proeminência dos anúncios mestiços da
Benetton em nossas comunidades e dos casais mistos em
seriados populares de TV é típica. Em seus ataques ao
afrocentrismo e seus defensores, esse mesmo grupo
redescobriu o “pluralismo cultural”, encontrando precedente
para ele nas elocuções dos “pais fundadores”. Este recém-
descoberto “ideal americano” de pluralismo cultural é uma
fachada para a continuação do domínio europeu/branco sem
nenhum reconhecimento ou desejo de reparar as condições
nascidas do Holocausto da Escravização Afrikana e da
destruição da civilização Afrikana.

7. Chinweizu. Decolonising the African Mind. London: Pero


Press, 1987, p. 117.

8. Fanon, Franz. The Wretched Of the Earth. New York:


Grove Press, 1961, p. 315.

9. Ibid.

10. Rodney, p. 33.

11. Akoto, Agyei. “Afrikan Tradition in the Modern Afrikan


American Cultural Ethos”, Sankofa: Journal of Pan Afrikan
Culture and Ideology, Vol 2, Nº1. Washington, D.C.: Pan
Afrikan World Institute, 1988, p. 5.

56
12. Diop, Cheikh Anta. Civilization or Barbarism. Chicago:
Lawrence Hill Books, 1981, p. 212.

13. Richards, Dona Marimba. Let The Circle Be Unbroken.


1980, p. 8.

14. Ibid.

15. Diop, Cheikh Anta. Civilization or Barbarism. P. 131.

16. Ibid, p. 211.

17. Ibid.

18. Cabral, Amilcar. “Nation Liberation and Culture”,


Return to the Source: Selected Speeches of Amilcar Cabral. Ed
by Africa Information Service. New York: Monthly Review
Press, 1973, p. 39.

19. Exemplos de picos episódicos incluem a ascensão de


reinos magníficos como Gana, Mali, Songai e a catástrofe do
Holocausto da Escravização Afrikana. Por mais monumentais
que fossem, esses eventos não perturbaram a dinâmica do
ciclo histórico modelado.

20. Ibid.

21. Glick, James. Chaos: Making A New Science. New York:


Penguin Books, 1987, p. 9.

57
22. James, George G. M. Stolen Legacy. San Francisco:
Julian Richardson Associates, 1954, p. 70.

23. Hayles, Katherine N. ed. Chaos and Order: Complex


Dynamics in Literature and Science. Chicago: University of
Chicago Press, 1991, p. 1.

24. Diop, Cheikh Anta, Civilization or Barbarism. P.212.

25. Asante, Molefi. Afrocentricity. Trenton: Africa World


Press, 1988, p. 49.

26. Fanon, Franz. The Wretched Of the Earth. New York:


Grove Press, 1961, p. 222.

27. A NationHouse é uma organização baseada na


comunidade e Afrikano-centrada, fundada no início dos anos
setenta com raízes no movimento estudantil ativista do final
dos anos sessenta na Universidade Howard. A organização
opera uma escola independente, um consultório médico, um
acampamento de verão Afrikano-centrado, um programa para
jovens depois da escola, e organizou uma cooperativa de
desenvolvimento de terras. A NationHouse evoluiu ao mesmo
tempo que outras organizações semelhantes em Nova York,
Trenton, Newark, Chicago, Los Angeles e outras cidades
importantes. O ímpeto para seu desenvolvimento foi a
necessidade de institucionalizar o movimento de consciência
cultural e de autossuficiência.

28. A distinção é uma das metas e prioridades ideológicas.


A construção da nação (Nacionalismo Afrikano) como tema

58
ideológico enfatiza o desenvolvimento da infraestrutura
institucional e a dinâmica cultural da nação como a solução
final para a nossa condição, enquanto a manutenção prioriza
o socorro e o apoio às vítimas e feridos da atual ordem
sociopolítica dominada pelos brancos. Ver Marcus Garvey “The
Principles of the Universal Negro Improvement Association”
Nov. 5, 1922 in Philosophy and Opinions.

29. Estas funções são parcialmente adaptadas de Mazrui,


Ali A. The African Condition. London: Cambridge University
Press, 1980, p. 47.

30. Diop, Cheikh Anta, Black Africa. Lawrence Hill Books,


1987, p. 97.

31. Williams, Chancellor. The destruction of Black


Civilization. Chicago: Third World Press, 1987, p. 341.

32. Chinweizu. Decolonising the African Mind. p. 160.

59
2. Educação Afrikano-centrada

“As pessoas podem ter ascensão ou queda no contexto da


instituição nacional. Quando perdem a capacidade de
dominar e controlar a instituição nacional, perdem a
liberdade. É aqui que estamos: uma nação dentro de uma
nação em busca do conceito de nação... ¹”

A educação é a reafirmação ritualizada da identidade


nacional. Está ancorada na história real e idealizada de um
povo. A educação da nação é moldada e impulsionada pelas
suposições, dinâmicas, valores essenciais, prioridades e
objetivos culturais e ideológicos da nação. A educação, formal
e informal, está no cerne da nação, pois envolve a codificação,
perpetuação, interpretação e transmissão da história e cultura
nacionais; história e cultura são os blocos de construção
fundamentais e a força coesiva da nação.
Para os Afrikanos nesta conjuntura da história, a questão
da cultura e identidade deve suplantar todas as outras
preocupações. A questão da identidade, coletiva ou nacional,
e da identidade pessoal que emana do coletivo, é fundamental.
Essas questões são fundamentais porque a essência de nossa
Afrikanidade, de nossa identidade cultural e espiritual única
está sendo erodida pelas investidas implacáveis do
proselitismo ideológico e religioso estrangeiro, a propaganda
dos meios de comunicação não-Afrikanos e as exigências
culturais e políticas de centros financeiros dominados por
estrangeiros.
A consequência mais grave da escravidão e humilhação do
povo Afrikano tem sido a inculcada disposição de nosso povo
em abandonar a essência de nossa identidade. Essa essência
60
inclui nosso senso de espiritualidade, a concepção de nossas
origens e a natureza de nosso ser. Inclui nossos valores
determinados histórica e culturalmente, nossa perspectiva e
comportamentos. Ao fazer isso, sucessivas gerações de
Afrikanos sem querer relegaram nossa herança cultural, nosso
sentido único do mundo, o legado de nossos ancestrais e o
futuro de nossos filhos a um status inferiorizado. Como Kemet
sob o peso imperialista de Roma, nos tornamos uma
população cujo destino é determinado pelos caprichos
políticos e pelas necessidades econômicas de civilizações
“superiores”. Este processo de inferiorização assumiu uma
proeminência sem paralelo na vida de todos os povos
Afrikanos, tanto na diáspora como no continente. Suas origens
históricas podem ser rastreadas até o período em que a Áfrika
foi “penetrada e dominada” por asiáticos e europeus. Este
processo de inferiorização é uma consequência direta dessa
penetração e dominação. É caracterizada principalmente pelo
conceito de superioridade da cultura/civilização europeu-
americana e asiática (árabe). Este sentimento de supremacia
branca e inferioridade Afrikana assumiu uma prevalência
trágica no consciente e subconsciente dos Afrikanos. Tanto no
continente quanto na diáspora, o senso de valor de nosso povo
é diretamente determinado pelas agências eurocêntricas de
certificação e validação. Nossos líderes não podem liderar a
menos que tenham sido validados pela mídia popular
dominada pelos brancos. Nossos sistemas de governo são
considerados primitivos, a menos que sejam réplicas
devidamente validadas dos governos ocidentais brancos.
Nosso senso de beleza física frequentemente equivale a nada
mais do que uma imitação servil de manequins brancos que
têm pouco ou nenhum precedente ou relação com a cultura

61
ou fisiologia Afrikana. Temos uma abundância de cremes
clareadores e relaxantes de cabelo nas aldeias onde não há
água encanada ou eletricidade. Na diáspora, os empresários
mais proeminentes adquiriram sua fortuna por meio de
esquemas que exploraram o auto-ódio dos Afrikanos e a
desfiguração física resultante. Corremos o risco de câncer,
desfiguração física, o desrespeito de nossos filhos e o desdém
das nações culturalmente autoconscientes do mundo
enquanto corremos em êxtase como bonecos em direção ao
abismo da alienação cultural e esquecimento racial.

Inferiorização.
Este processo de inferiorização é realizado principalmente
por meio da educação formal/doutrinação; não por meio do
poder armado, mas por meio de sistemas educacionais não-
Afrikanos ou centrados em culturas estrangeiras, incluindo a
filosofia, a pedagogia e o currículo. É ainda mais facilitado pelo
proselitismo religioso, propaganda na mídia eletrônica e
impulsos financeiros mencionados acima. Este processo é
uma difusão cultural que funciona para minimizar e descartar
os imperativos da cultura e identidade Afrikanas e substituir
os imperativos e parâmetros de formações culturais
estrangeiras, geralmente europeias, americanas ou árabes.
Este processo de inferiorização e substituição determina as
escolhas que fazemos no nível pessoal e coletivo, uma vez que
determina o desenho e as prioridades de nossas instituições e
molda o caráter dos governos que planejamos para promover
e proteger nossos interesses nacionais. Uma educação que não
seja Afrikano-centrada entre os Afrikanos é efetivamente um
procedimento de des-Afrikanização e doutrinação que serve

62
para condicionar o Afrikano a assumir o seu lugar em uma
“aldeia global” dominada pelo caucasoide.
Onde o conteúdo, a forma e a implementação da educação
de um povo são controlados por outro povo, essa educação não
tem outro propósito senão a subordinação do grupo menos
poderoso e a manutenção do controle pelo grupo dominante.
A educação empregada dessa forma é simplesmente
doutrinação e é a ferramenta de guerra preferida do grupo
conquistador para manter a submissão e subserviência do
grupo conquistado. Em nenhum lugar este princípio é mais
graficamente demonstrado do que na relação dos colonialistas
europeus com os Afrikanos durante o período colonial (um
período de escravidão e colonialismo), e atualmente durante
este período de independência nominal da Áfrika e
subdesenvolvimento crônico.
Durante o Holocausto da Escravidão Afrikana, os brancos
proprietários de escravos rotineiramente
“Exigiam mais, infinitamente mais de seus escravos do
que trabalho; para garantir um senso de dever e servidão,
os escravos tinham que ser convencidos de que seus
donos eram oniscientes, misericordiosos e poderosos.
Consequentemente, os escravos foram bombardeados
com palavras e atos dizendo-lhes que eles vieram da
selvageria e não poderiam ser nada além de escravos. Os
escravos raciocinaram corretamente que qualquer pessoa
que acreditasse nesses princípios seria leal e grata
àqueles que os guiavam em sua existência
desesperadora.2”
Na história mais recente, encontramos uma elaboração
dos mesmos métodos na natureza da transferência de poder
das potências coloniais europeias para as nações
nominalmente independentes da Áfrika. Essa transferência foi

63
ocasionada pela adoção indiscriminada e acrítica pelas
lideranças Afrikanas das estruturas estatais e práticas
econômicas europeias e seus valores, prioridades culturais,
sistemas educacionais e línguas, concomitantemente. As
potências europeias confiaram que a proeminência das suas
línguas, o interesse cultural totalmente europeizado da elite
nativa, a natureza monocultural das suas economias e a
natureza eurocêntrica dos sistemas escolares garantiriam que
os interesses políticos e econômicos europeus seriam
protegidos na sua ausência. Eles se provaram corretos nessa
suposição. Os padrões permaneceram os mesmos. A França,
por exemplo, continua se envolvendo militarmente nos
assuntos de suas ex-colônias (Chade, República Centro-
Africana, Ruanda...). Os laços culturais permaneceram fortes
em cada um dos antigos países francófonos, anglófonos e
lusófonos, onde as línguas coloniais ainda são as línguas
oficiais.³ Diop apontou eloquentemente que nenhum fator
pode ser mais alienante culturalmente do que a educação na
língua do conquistador.4 A educação formal na Nigéria,
Zimbábue, Gana, Jamaica, Senegal, Brasil e Washington DC é
conduzida na língua colonial por instrutores Afrikanos em
trajes europeus embebidos na mitologia europeia, programada
para confundir, para ligar a alma e a psique de Afrikanos em
subserviência ao europeu. Carter G. Woodson observou os
mesmos fenômenos no final do século 19 e início do século 20
na declaração pungente:
“Os educadores negros de hoje podem ter mais simpatia
e interesse pela raça do que os brancos que agora
exploram as instituições negras como educadores, mas os
primeiros não têm mais visão do que seus concorrentes...
um professor negro instruindo crianças negras é, em

64
muitos aspectos, um professor branco assim engajado,
pois o programa em cada caso é quase o mesmo5”

Bases Culturais e Históricas da Educação.


A educação é, por definição, referenciada culturalmente. A
educação em sua forma mais verdadeira é indistinguível do
processo de enculturação. A educação em sua forma restrita,
a escolarização, requer um contexto cultural no qual o
conteúdo curricular adquira significado. Habilidades
analíticas requerem que alguns fenômenos sociais ou naturais
sejam afetados, fenômenos que são invariavelmente
percebidos culturalmente. A educação é determinada
culturalmente, mas responde especificamente ao Estado; isto
é, o centro organizado da cultura nacional. Os sistemas
educacionais formais são órgãos integrantes do estado-nação
e do ethos cultural que engendra esse Estado. Esses sistemas
servem para perpetuar essa cultura, o governo, a ordem
econômica e sociopolítica. Esse sistema educacional não
apenas promoverá os temas essenciais da cultura nacional,
mas fará avançar os princípios essenciais da ideologia
dominante. Por exemplo, onde a gênese da nação é permeada
por genocídio, supremacia branca/racismo etc., o caráter e a
estrutura do processo educacional refletirão essa gênese.
A educação Afrikano-centrada está enraizada na história
única e na cultura evolutiva do povo Afrikano. É definida no
seu compromisso singular com a elucidação dessa história,
dessa cultura, e da confirmação, fortalecimento e perpetuação
da identidade coletiva Afrikana que emana dessa história e
cultura. A educação Afrikano-centrada preocupa-se com as
origens, o estado atual e o futuro do mundo Afrikano. A
educação Afrikano-centrada está comprometida em corrigir as

65
distorções históricas nascidas de três milênios de invasão
estrangeira, destruição, escravidão, colonialismo físico e
mental, ruptura cultural e dependência. A educação Afrikano-
centrada está empenhada em enraizar ou ancorar as tradições
espirituais, morais e filosóficas do Afrikano. A educação
Afrikano-centrada, seja nas várias nações da diáspora ou na
pátria-mãe, está preocupada em desenvolver plenamente o
sentido da nacionalidade Afrikana dentro de um mundo Pan-
Afrikano mais amplo. A educação Africano-centrada está
preocupada em romper irrevogavelmente a ligação patológica
e servil dos Afrikanos ao ethos europeu ou asiático. A educação
Afrikano-centrada está preocupada em capacitar o Afrikano
com habilidades de construção, gestão e manutenção da
nação. A educação Afrikano-centrada está preocupada em
motivar professores, alunos, pais e comunidade a fazer
avançar a nação/mundo Afrikano por todos os meios
necessários.

Correntes Históricas e Ideológicas.


O futuro do mundo Afrikano deve começar com um sentido
confirmado de nacionalidade Afrikana definida dentro do
universo das tradições espirituais, morais e filosóficas
Afrikanas e comprometido com o desenvolvimento material e
espiritual, e com a independência do mundo Afrikano. Apenas
uma educação inequivocamente Afrikano-centrada pode
atingir este objetivo.
A educação Africano-centrada deve ser diferenciada das
atuais filosofias educacionais empregadas em nações
Afrikanas independentes e enclaves nacionais nas Américas,
Ásia, Pacífico e Europa. A educação Afrikano-centrada rejeita
a superioridade implícita e explícita das tradições intelectuais,

66
políticas e espirituais europeias e asiáticas que caracterizam
os sistemas de antigas colônias, de dependências e populações
escravas do mundo Afrikano. Rejeita a falsa noção histórica de
que a civilização asiática (árabe) e europeia resgatou a Áfrika
da barbárie e da impiedade. A educação Afrikano-centrada
busca restaurar as tradições e imbuí-las com a dinâmica
libertadora e progressiva pela construção da nação
(Nacionalismo Afrikano).
Os desenvolvimentos atuais na educação Africano-
centrada são uma extensão dos esforços empreendidos neste
país e em toda a diáspora Afrikana nos séculos 17 e 18 por
Prince Hall, Richard Allen, e os incontáveis heróis e heroínas
sem nome que fugiram tarde da noite para aprender a ler e a
calcular sob o luar perante a constante ameaça de mutilação
e morte. Esses esforços iniciais dos Afrikanos na diáspora
refletiam sua consciência tanto de sua Afrikanidade quanto de
sua separação da elite dominante e da cultura eurocêntrica
dominante das Américas.
As correntes filosóficas e práticas na educação dos
Afrikanos são paralelas aos sentimentos ideológicos da
população Afrikana, conforme projetados em sua resistência
constante e expressos por sua liderança escolhida. A resposta
inicial dos Afrikanos aos horrores da escravidão, ao tráfico
transatlântico e a tentativa de desumanização pode ser mais
bem caracterizada como um nascente Pan-Afrikanismo. Essa
vontade de resistir entre os Afrikanos escravizados nas
Américas foi evidenciada pelos esforços dos recém-chegados
para manter sua sanidade e sua humanidade por meio da
manutenção das tradições de sua terra natal. Esses esforços
de resistência são evidentes nos esforços de construção
nacional dos Maroons, Palmares, Dessalines do Haiti, os

67
forasteiros dos pântanos do sul dos EUA, Vesey, Prosser e
inúmeros outros.
O sentimento ideológico dos Afrikanos neste país variava
em geral de acordo com o status dos Afrikanos em relação ao
estado-nação americano em evolução. Esses sentimentos
refletem-se na reação Afrikana à legislação colonial e norte-
americana de restringir o status de escravidão exclusivamente
aos Afrikanos. Isso se refletiu ainda mais em alianças com
ameríndios em fuga e resistência armada. Isso se refletiu na
resposta Afrikana à ironia da retórica americana dos “pais
fundadores” de liberdade e justiça para todos. O sentimento
ideológico do Afrikano foi expresso em petições legais, alianças
temporárias com franceses e espanhóis, busca de repatriação
e inúmeros atos de resistência e rebelião.
Evidentemente, havia várias correntes ideológicas dentro
da comunidade Afrikana, uma à outra alcançando maior
proeminência em momentos diferentes. Cada corrente
ideológica carregava consigo um conjunto de suposições
básicas sobre a situação dos Afrikanos na economia política
americana dominada pelos brancos, bem como um conjunto
de objetivos sociopolíticos e econômicos. Esses pressupostos e
objetivos influenciaram diretamente o sentimento e as
expectativas dos Afrikanos em relação à educação disponível
para eles e tiveram impacto na filosofia, concepção e
implementação da educação Afrikana. Essas correntes
ideológicas nunca foram exclusivas umas das outras. E são
análogas a uma colcha onde um padrão pode ser dominante
em um determinado ponto no processo de conclusão de toda
a criação. As várias correntes ideológicas devem ser vistas
como as respostas variadas de um povo que havia sido
fisicamente derrotado em uma guerra que destruiu sua

68
civilização e onde o poder dominante procurou subjugá-los
psicológica e espiritualmente.6 Em um sentido muito real, essa
guerra continua hoje. Na verdade, é a analogia da guerra, os
objetos e estratagemas dessa guerra que são mais instrutivos
para distinguir as correntes ideológicas contemporâneas.7

Unidade Forjada de Nacionalidades Pré-Existentes.


A ideologia seminal dos Afrikanos na diáspora teve seu
início nos fortes de escravos na “costa dos escravos” da Áfrika,
Elmina e Ilhas Gorée. Esses fortes e “os navios negreiros foram
as primeiras incubadoras reais da unidade escravista através
das linhas culturais, revelando cruelmente ligações
irredutíveis de um grupo étnico a outro, fomentando a
resistência milhares de quilômetros antes que as costas da
nova terra aparecessem no horizonte”.8 Essa ideologia seminal
do Afrikanismo na América é mais bem denominada como
Unidade Forjada de Nacionalidades Pré-Existentes. Essa
unidade forjada trazia consigo concepções claras e inequívocas
sobre a relação da realidade Afrikana com a europeu-
americana. A relação era de guerra duradoura; de resistência
física, psicológica e espiritual. A ideologia seminal era bem
nacionalista e Pan-Afrikanista em sentimento. Seu impacto
educacional pode ser visto na transmissão persistente do
espírito comunitário em face de espancamentos brutais,
mutilações, separação, encarceramento e assassinato. Os
principais conceitos dessa ideologia incluem espiritualidade
tradicional, lealdade racial, costumes e moralidade
tradicionais, resistência nacional e a inevitável vindicação e
vitória da raça. Esses conceitos foram preservados e
transmitidos de geração em geração.

69
A ligação direta com o continente foi preservada em
lugares como a Carolina do Sul, onde o comércio de escravos
continuou até a eclosão da Guerra Civil. Esse comércio
contínuo proporcionou uma infusão ininterrupta de
sentimentos e visões de integridade e liberdade nacionais.
Essa infusão contínua, embora uma lembrança trágica do
domínio e da crueldade dos brancos proprietários de escravos,
serviu, no entanto, para manter vivas as visões de liberdade e
nacionalidade.
A vontade do Afrikano de resistir à escravidão fisicamente
nunca foi cessada e ficou evidente nos incontáveis atos de
incêndio provocado, envenenamento, apropriação da
propriedade do senhor de escravos, destruição de ferramentas,
lentidão no trabalho, ignorância fingida, sigilo, ataques físicos,
fuga e insurgência coletiva. A escravidão respondeu à
resistência física dos Afrikanos apertando os controles que os
governavam, limitando certas liberdades pessoais, mantendo
uma vigilância mais próxima, promovendo colaboradores
escravos por meio do fornecimento de recompensas,
ampliando a classe de caçadores de escravos, aumento de
ameaças, e vendas para separar famílias. Na verdade, a
Carolina do Sul legislou uma compensação estadual para o
encarceramento ou execução de escravos “ruins”. Embora
tivesse a guerra física por um lado, os escravos Afrikanos
lutaram ainda mais bravamente na frente psicológica:
“A firmeza e desenvoltura dos escravos na batalha para
se libertarem psicologicamente tanto quanto possível pela
totalidade do controle de seus assuntos nunca foi
totalmente contada. Isso provavelmente se origina da
arena em que essa luta ocorreu. Foi travada em grande
parte em um campo de batalha psicológico onde as ideias
se enterraram profundamente e permaneceram
70
entrincheiradas, apesar do ataque violento dos avanços
do inimigo. Mais importante, em todas as campanhas
variadas entre esses competidores, aquela frente de
guerra mental nunca caiu, pois era lá e somente lá que
os combatentes pretos geralmente podiam vencer.9”
Unidade racial, integridade nacional, resistência nacional,
consciência cultural, autoconfiança e fé no triunfo final e na
vindicação da raça eram os valores por excelência desta
ideologia seminal Afrikana. Os mesmos valores são a base do
Pan-Afrikanismo nacionalista de hoje, do qual a educação
Afrikano-centrada é um componente.

Paternalismo.
O estratagema escolhido pelo proprietário de escravos na
batalha pela mente e alma do Afrikano foi a ideologia do
paternalismo, e as principais armas vieram da igreja cristã,
seguida em relativa letalidade pelo sistema de justiça criminal,
a imprensa branca e a academia branca. A ideologia do
paternalismo buscava convencer tanto o escravizado quanto o
dono de escravos de que a escravidão era o melhor de todos os
mundos possíveis para o Afrikano; que os proprietários de
escravos eram “patriarcas benevolentes que cuidavam,
protegiam e amavam seus escravos. Em troca, os servos
supostamente gratos e leais trabalharam com alegria e
diligência para agradar seus amados senhores.” Um princípio
central dessa ideologia do paternalista era que os Afrikanos
eram tradicionalmente “pagãos ateus ou, na melhor das
hipóteses, adoradores do diabo dados ao canibalismo”; que “os
africanos não eram capazes de autogoverno ou civilização, e
existiam nas trevas à espera do esforço civilizador do homem
branco”. Os Afrikanos eram de fato o “fardo do homem
branco”. Essa corrente ideológica do paternalismo ainda é
71
proeminente na ideologia da supremacia branca/racismo dos
euro-americanos e seus apologistas negros.10 Essa ideologia
convenceu alguns “negros domésticos” privilegiados e forneceu
os pressupostos essenciais que fundamentaram o
desenvolvimento posterior do acomodacionismo. O
paternalismo foi fundamental no pensamento dos
missionários brancos que foram instrumentais em fornecer
grande parte da experiência educacional disponível para os
Afrikanos livres e escravizados na América antes da guerra. O
paternalismo está vivo hoje na América branca, como
evidenciado pela resposta da imprensa branca e da academia
à “educação afrocêntrica”.

O nascente Pan-Afrikanismo Nacionalista.


As correntes de consciência racial, resistência e aspirações
de liberdade que motivaram os escravos Afrikanos também
contagiaram seus irmãos livres. Entre os Afrikanos livres nos
estados do norte e espalhados pelo sul antes da guerra, as
correntes de um nascente Pan-Afrikanismo Nacionalista
encontraram expressão no final do século 18 e no início do
século 19, nas sociedades de ajuda mútua, no movimento
religioso independente, nas organizações sociais e fraternas e
no movimento nacional da Convenção do Negro. As forças do
nacionalismo Afrikano foram alimentadas pelas palavras de
Dessalines “o Vingador”: “Independência ou morte! Que essas
palavras sagradas sirvam para nos reagrupar... sejam sinais
de batalha e de nosso reencontro”11 e seu grito de “morte aos
brancos” que reverberou por toda a América e Europa. É
durante este período que encontramos o apelo de David
Walker e o apelo de Henry Highland Garnett por uma
nacionalidade preta, e a greve de Nat Turner pela liberdade.

72
Este período viu o início de instituições educacionais Afrikanas
independentes, tanto entre os Afrikanos livres quanto entre os
escravos, que repudiaram fortemente as teorias de
inferioridade racial e promoveram a autoconfiança. A
autossuficiência/autoconfiança como corrente ideológica
persistiria durante o restante do século 19 e até o século 20.

Integração, Acomodação e Assimilação.


As atividades dos brancos liberais [ditos progressistas],
incluindo os quakers [Sociedade Religiosa do Amigos], e as
atividades dos abolicionistas brancos proeminentes
forneceram um estímulo para o crescimento da ideologia e do
sentimento integracionista. Proeminente entre os
integracionistas estava Mary Ann Shadd, que professava que
a paridade racial só poderia ser alcançada por meio da
integração. A integração desse período, no entanto, foi
sustentada por um forte apelo à autossuficiência. O advento
da guerra civil e a emancipação dos Afrikanos elevaram as
esperanças dos integracionistas e acomodacionistas de que o
legado da supremacia branca da América seria abandonado.
Essas esperanças foram rapidamente frustradas pela
intransigência do sul e pela agenda oculta dos republicanos
do norte. O povo Afrikano libertado foi abandonado ao
terrorismo do sul pelo compromisso de Hayes, “a
contrarrevolução de 1876”, mas não sem antes deixar sua
marca no movimento pela educação universal no sul. “O
primeiro grande movimento de massa pela educação pública
às custas do Estado, no sul, veio dos negros... A educação
pública para todos às custas públicas foi, no sul, uma ideia
negra.”12 Embora alguns líderes Afrikanos proeminentes

73
defendam a integração/assimilação, as massas de Afrikanos
foram movidas pelo desejo de liberdade e autossuficiência.
Frequentemente, o ímpeto para o movimento educacional
durante a era de reconstrução é atribuído à “benevolência
ianque ou generosidade federal”, mas foi observado pela
maioria que o “movimento educacional dos ex-escravos estava
profundamente enraizado em seus próprios valores
comunais.”13 O sentimento de orgulho racial e independência
deixou muitos missionários surpresos e decepcionados ao
descobrir “que muitos ex-escravos haviam estabelecido seus
próprios coletivos e associações educacionais, escolas
formadas inteiramente por professores pretos, e não estavam
dispostos a permitir que seu movimento educacional fosse
controlado pelos ianques 'civilizados'.”14
O entusiasmo e a tremenda energia do povo Afrikano
demonstrados na construção de instituições educacionais
independentes e na promoção da autoconfiança e da justiça
para todos foram traídos pelo oportunismo e falta de
sinceridade dos políticos do norte. A prioridade dos brancos do
norte era a rápida reconciliação política com seus irmãos do
sul e o avanço econômico; justiça, capacitação e indenizações
para os Afrikanos que se danem. Os anos pós-reconstrução
viram a reescravização virtual dos Afrikanos, a brutalidade
generalizada e o racismo galopante tanto no norte quanto no
sul. Esses foram os anos dos Conselhos de Cidadãos Brancos
e da Ku Klux Klan. Estes foram os anos de terrorismo racista
branco contra a comunidade Afrikana, linchamento
desenfreado e queimadas [atear fogo]. Escolas e Afrikanos
instruídos eram alvos de alta prioridade nesta época.
Do ponto de vista educacional, os Afrikanos continuaram
a promover a autossuficiência e a independência em suas

74
instituições educacionais. A filosofia educacional que foi
projetada para acomodar o Afrikano à posição servil que a
América branca considerou apropriada foi desenvolvida por
Samuel Chapman Armstrong, do Hampton Normal and
Agricultural Institute [Instituto Normal e de Agricultura de
Hampton]. A ideologia de acomodacionismo de Armstrong era
adversa à ideologia de autoconfiança, dignidade e liberdade
dos educadores Afrikanos independentes. “Os ex-escravos
lutaram para desenvolver uma ideologia social e educacional
singularmente apropriada à sua defesa da emancipação e que
desafiasse o poder social do regime dos proprietários.
Armstrong desenvolveu uma pedagogia e uma ideologia
destinadas a evitar tais confrontos e a manter no Sul um
consenso social que não desafiava as desigualdades
tradicionais de riqueza e poder”.15 A ideologia e pedagogia de
Armstrong centrava-se na preparação de professores que, por
sua vez, preparariam os Afrikanos para um papel social
subordinado no sul, e que não manifestaria desejo de poder
político, ou de qualquer forma desafiaria a classe de
fazendeiros do sul ou o emergente industrial investidor do sul
e do norte. A ideologia de Armstrong atraiu quantias
substanciais de dinheiro de empresários e filantropos do norte.
O aluno premiado de Armstrong foi Booker T. Washington,
e os esforços de Washington em Tuskegee são frequentemente
ligados aos de Armstrong em Hampton, e ele ostensivamente
modelou o programa educacional industrial de Tuskegee como
Hampton. Washington recebeu de fato uma quantia
substancial de dinheiro de fontes inicialmente associadas à
Armstrong em Hampton. Para seu crédito, Washington
acreditava que o governo federal da era da reconstrução
cometeu um erro ao não fornecer terras e educação geral aos

75
Afrikanos libertos.16 A defesa do sufrágio para os Afrikanos por
Washingtion o distinguiu ainda mais de Armstrong. Os
esforços de Washington em Tuskegee também enfatizaram a
autoconfiança em uma extensão que excedeu os esforços em
Hampton sob Armstrong.

Pan-Afrikanismo.
O fim do século 19 viu um ressurgimento do orgulho racial
e da consciência racial. Entre aqueles que defendiam a “Áfrika
para os Afrikanos” destacava-se o Bispo McNeil Turner. Esta
era viu o surgimento do “Pan Afrikanismo” e um ressurgimento
do nacionalismo Afrikano. A defesa de Dubois da
autossuficiência política ganhou destaque após a morte de
Booker T. Washington. Após a convenção da UNIA de 1920,
Marcus Garvey e a Universal Negro Improvement Association
[Associação Universal para o Progresso Negro] exemplificaram
o sentimento nacionalista popular dos Afrikanos em todo o
mundo. Seus programas e iniciativas políticas de
autossuficiência econômica e política surgiram diretamente
das tradições de orgulho racial, autoconfiança e resistência
evidentes nas primeiras tradições ideológicas da África neste
hemisfério. Garvey foi especialmente inspirado pela ideologia
de autossuficiência de Booker T. Washington e incorporou o
tema no programa educacional estabelecido pela UNIA.
Embora o movimento Garvey tenha declinado no final dos
anos 1920, houve um ressurgimento do orgulho racial e da
consciência no final dos anos 30, quando a invasão italiana da
Etiópia confirmou a previsão de Garvey. Este período também
viu o surgimento de movimentos nacionalistas no continente
Afrikano, culminando no Congresso Pan-Africanista de 1945
em Manchester, Inglaterra.

76
A fundação da NAACP em 1909 serviu para revigorar a
ideologia integracionista/assimilacionista entre os Afrikanos
na América. O compromisso da NAACP de acabar com a
privação de direitos da população Afrikana e de garantir os
direitos civis fundamentais foi, em última análise,
comprometido por sua “política de não-liberalismo econômico,
segundo a qual os pretos tinham de renunciar a qualquer
programa de avanço econômico por uma questão de princípio
aos direitos civis”.17 A NAACP e o movimento pela integração
tiveram um de seus maiores triunfos na decisão Brown de
1954 pela Suprema Corte. É claro agora, porém, que a decisão
pouco contribuiu para melhorar a posição educacional e
econômica relativa dos Afrikanos nesta sociedade. A corrente
de autossuficiência e consciência racial foi amplamente
abandonada pelos defensores da ideologia integracionista. O
impulso para a integração acabou levando a uma diminuição
do controle do povo preto sobre o processo educacional de
nossos filhos, à perda de inúmeros cargos de ensino,
administrativos e de apoio, e à perda do centro cultural e social
de inúmeras comunidades Afrikanas. Isso exacerbou o que
haviam sido diferenças de classe inconsequentes dentro da
comunidade Afrikana quando os bem-educados abandonaram
as comunidades Afrikanas em busca de suas fantasias
assimilacionistas em círculos profissionais/sociais brancos e
subúrbios. Além disso, muitas das universidades
historicamente pretas foram ameaçadas pelo legado
integracionista de “não-liberalismo econômico” e pelo
pensamento liberalista branco que permeou a ideologia dos
líderes dos direitos civis desde a fundação da NAACP. 18
Os anos sessenta viram uma onda de consciência
nacionalista, alimentada em parte pelas lutas de

77
independência dos países Afrikanos, pelos ensinamentos
nacionalistas/Pan-Afrikanistas de Kwame Nkrumah, Patrice
Lumumba e Malcolm X. O renovado interesse da comunidade
Afrikana foi em parte uma reação à resistência racista cada
vez mais transparente da liderança política e econômica
branca aos ganhos sociopolíticos e econômicos substantivos
dos Afrikanos neste país. Embora esse movimento da
consciência preta tenha sido comprometido por sua falta de
coerência ideológica e pelo programa maciço do FBI e
sustentado para destruir o movimento, a corrente ideológica
nacionalista/autossuficiente subjacente de um Pan-
Afrikanismo nacionalista abrangente estava firmemente
fundamentada historicamente e mais coerente teoricamente.
Embora a ideologia integracionista/assimilacionista tenha
retrocedido um pouco, seu apelo foi comprometido pelo
racismo recalcitrante e endêmico revelado pela estagnação
econômica da América.

Independência ou Infusão: Prioridades na Educação


Afrikana.
Existem duas correntes no movimento contemporâneo de
educação Afrikano-centrada. Aquela corrente que sustentou o
foco histórico de autoconfiança e autossuficiência, consciência
racial e compromisso com a nacionalidade, preocupou-se em
desenvolver instituições independentes, totalmente apoiadas
pela comunidade Afrikana. Esta corrente pode ser identificada
como a corrente independente dentro do movimento e é um
componente da ideologia Pan-Afrikanista nacionalista
abrangente descrita acima.
Uma corrente paralela no movimento de educação
Afrikano-centrada, melhor chamada de infusão, pode ser

78
caracterizada como um impulso integracionista radicalizado.
É motivado pela mesma dependência econômica e psíquica
que Booker T. Washington, Garvey, DuBois e Malcolm X
criticaram. Os seus objetivos ideológicos não são claros e
afirma a necessidade de consolidar e expandir a base
institucional independente da nacionalidade Afrikana. Esse
impulso tem um sério risco, pois seus defensores mais vocais
são frequentemente eles próprios uma dependência das
instituições brancas para a sustentação e validação intelectual
deles,19 em grande parte como resultado de uma mídia branca
reacionária e voltada para a histeria. Esses defensores da
infusão, embora bem intencionados, serviram como faróis
para acadêmicos e políticos brancos racistas e oportunistas
que, junto com seus irmãos brancos na mídia, e suas conexões
políticas e econômicas, tentaram deturpar e desacreditar o
movimento perante a população Afrikana. Esses reacionários
brancos e seus cúmplices “de cor” na imprensa e na academia
são normalmente motivados pelo lucro potencial e pela
atenção que as “esperanças brancas” geralmente comandam
quando atuam na qualidade de sentinelas pela causa da
cultura branca. Eles tentarão colocar em movimento a mesma
dinâmica corrosiva que resultou no enfraquecimento do
movimento da consciência preta nos anos setenta. Há uma
série de palavras e frases em código anti-Afrikano que se
tornaram as ferramentas favoritas dos propagandistas
eurocêntricos. As ferramentas conceituais ou de propaganda
escolhidas até o momento incluem “multiculturalismo”, o
“charme do americanismo”, “diversidade esplêndida”,
“impulso separatista”, “balcanização” e “sociedade
pluralista”. Cada um deles é um estratagema de propaganda
20

79
com o objetivo de camuflar a posição centrípeta e hegemônica
da cultura europeia de supremacia branca.
Devido muitas das questões desta corrente particular na
educação Afrikano-centrada serem definidas pelas linguagens,
instituições e referências de valor da ideologia da supremacia
branca dominante, a agenda e a direção da corrente
infusionista tende a ser reacionária. Os defensores da infusão
se veem em intermináveis saraivadas retóricas com os
autoproclamados defensores da cultura europeia, onde cada
parte faz infinitas reivindicações e contra-alegações, a maioria
das quais normalmente são insubstanciais e irrelevantes.
Envolvendo-se em debates infrutíferos e sendo manobrados
em posturas reacionárias, os infusionistas inadvertidamente
permitem que os eurocentristas determinem o conteúdo, a
direção e as prioridades de seus esforços, e talvez mais
tragicamente, o próprio debate fornece posição e crédito aos
mesmos eurocentristas (brancos e negros) que já foram
desacreditados em seu fracasso em educar eficazmente nossos
filhos.
A preocupação é corretamente expressa de que esforços
conjuntos devem ser feitos para “infundir” conteúdo Afrikano-
centrado no currículo da escola pública, onde a esmagadora
maioria de nossas crianças está sendo educada. A
preocupação é válida, mas em uma situação em que menos de
10% dos professores em todo o sistema escolar público dos
EUA são Afrikanos21 e menos ainda são administradores, e
onde 99% desses são adversos a qualquer coisa Afrikano-
centrada, a batalha da infusão deve ser logisticamente
despriorizada pela necessidade mais urgente e exigente de
instituições independentes para complementar e corrigir as
distorções das escolas públicas e substituí-las quando

80
possível. A necessidade óbvia dos infusionistas de apelar para
educadores e políticos brancos significa que seus esforços
serão caracterizados principalmente por apelos às tradições
intelectuais libertárias e pelo senso de jogo limpo desses
mesmos educadores e políticos. Sejam as táticas de confronto
ou acomodação, o objetivo desses apelos será obter a
aprovação, permissão e sanção das “autoridades” não-
Afrikanas para transmitir alguma parte de nossa herança aos
nossos filhos. Chancellor Williams abordou esta postura
particular com a observação de que historicamente “direitos
iguais e justiça igual nunca virão de apelos aos poderosos e
concedidos como um Ato de Graça, mas apenas de um povo
unido engajado em grandes e vastos empreendimentos
próprios.”22
O que normalmente ocorre com os esforços para “infundir”
conteúdo Afrikano-centrado é agora uma sequência padrão de
obstáculos começando com a ofuscação administrativa,
seguida e aumentada por ordens multiculturais (estratagemas
dilucionais e divisionistas), e, enfim, pelo exercício do poder
político e financeiro para manter a hegemonia eurocentrista.
Os principais políticos e administradores escolares justificam
sua defesa obstinada da hegemonia eurocêntrica porque,
“embora falho, é o melhor que temos” ou, mais precisamente,
“amontoe-se, porque vocês não têm vontade política ou poder,
nem economia músculo para fazer qualquer coisa sobre isso.”
Esta saga de ofuscação, diluição, infusionismo preguiçoso,
subfinanciamento e rescisão está acontecendo cidade por
cidade. Em Washington D.C., por exemplo, um forte impulso
de base para um “currículo afrocêntrico” foi efetivamente
frustrado por uma burocracia desinteressada, jogos de poder
político e financeiro por parte de políticos brancos e aliados, e

81
por parte da hostil imprensa branca. Um novo
superintendente, comprometido com o multiculturalismo em
uma população escolar 98% Afrikana, junto com a bênção de
uma máquina política de minoria branca bem organizada,
basicamente reteve a dinâmica afrocentrista. Enquanto isso,
as escolas independentes Afrikano-centradas estão
experimentando números recordes de matrículas e estão
inundadas de inscrições, mesmo no atual clima de depressão
econômica.
A centralidade Afrikana, no que se refere à filosofia, caráter
e conteúdo da educação, tem sido perseguida agressivamente
pelas escolas Pan-Afrikanistas independentes há vinte e cinco
anos. O precedente histórico imediato para o movimento atual
pode ser encontrado no trabalho e nos ensinamentos de
Marcus Garvey e da Universal Negro Improvement Association
(UNIA), os esforços da Nação do Islã e os ensinamentos de
Malcolm X. Os esforços anteriores de Prince Hall, Richard
Allen, Madam Deveaux, as Escolas Sabatinas, as Escolas de
Liberdade e os incontáveis e desconhecidos esforços para
estabelecer escolas independentes são importantes como
evidência da paixão histórica e contínua pela educação e pelo
autoaperfeiçoamento que os Afrikanos têm mantido ao longo
de nossa estada neste país. O movimento contemporâneo pode
rastrear seus primórdios a três fontes distintas; O
nacionalismo preto de Malcolm X e mais tarde a teoria
nacionalista cultural de Maulana Karenga, frutos dos esforços
da Escola de Liberdade do movimento dos Direitos Civis e dos
esforços do Conselho de Instituições Pretas Independentes
(CIBI) [Council of Independent Black Institutions].
Os esforços das instituições pretas independentes (IBI)
têm se concentrado no centro da cidade na alavanca popular.

82
Os esforços contínuos dos IBIs têm sido cruciais para a
manutenção e desenvolvimento do movimento educacional
Afrikano-centrado, uma vez que essas instituições e os
indivíduos ligados a elas serviram como incubadoras para a
atual aceitação popular da centralização Afrikana durante um
período em que o materialismo, interesse e ganho
individualista reinaram supremos. O movimento escolar Pan-
Afrikanista viu seu maior número e aceitação popular durante
o início dos anos setenta, quando o movimento da consciência
preta dos anos sessenta ainda era influente dentro da
comunidade Afrikano-americana. Em meados dos anos
setenta, o movimento de consciência preta foi seriamente
comprometido pela campanha de
desinformação/desestabilização do FBI, a distorção cultural
da mídia, o envelhecimento e o abandono do movimento por
parte da elite profissional e educacional. Além disso, o
movimento foi enfraquecido internamente por oportunismo,
conflito ideológico, paranoia, liderança ineficaz, falta de
habilidades gerenciais e uma base financeira fraca. O número
e o tamanho das novas escolas Pan-Afrikanistas diminuíram
correspondentemente e muitas falharam.
A década de oitenta constituiu um período de recuo e
dormência. Várias instituições sobreviventes alteraram sua
orientação cultural para atrair a clientela profissional ou, de
outra forma, pagante. O estudo de línguas Afrikanas como o
Kiswahili, requisitos de vestuários tradicionais, referências
culturais intensas ao longo do currículo, os temas da
autossuficiência e a unidade Pan-Afrikana foram
abandonados ou moderados para apaziguar os Buppies [jovens
pretos descolados] culturalmente moderados e neutralizados
que muitas vezes desaprovavam o intenso foco ideológico e

83
cultural. Os interesses daquela clientela que na maioria das
vezes achava necessário ou desejável interagir profissional e
socialmente com os brancos eram mais bem atendidos por um
currículo que buscava embotar a memória individual e coletiva
da crueldade bárbara do Holocausto da Escravização Afrikana,
e amenizar a raiva ou dissonância psíquica que atende a essa
memória, ou a ligação direta com as crises contemporâneas
que afligem nossas comunidades e o mundo Afrikano.
Embora seja lamentável que vários dos membros
fundadores do CIBI falharam (incluindo Shule Ya Watoto, em
Chigaco e Uhuru Sasa, em Nova York) e que muitos outros
tenham sido reconfigurados (incluindo Weusi Shule, no
Brooklyn), o papel do IBI continua sendo o mesmo. Essa
função é servir como o centro de uma comunidade cultural,
onde um continuum cultural Afrikano-americano totalmente
consciente de sua afrikanidade é explorado, reconstruído,
perpetuado e transmitido. O IBI, nas palavras de Imaru
Obadele, deve servir como uma zona livre onde a cultura
Afrikana, a espiritualidade e a autoconfiança econômica são
nutridas por uma comunidade de apoio e são protegidas pelas
energias comunais dessa comunidade das investidas
assimilativas dos supremacistas brancos e seus negros
apologistas.
O movimento de educação Afrikano-centrado deve ser
entendido como parte de um continuum histórico; uma parte
dessa luta de três milênios para reconstituir a civilização
Afrikana, para justificar aquelas inúmeras almas perdidas e
sendo perdidas no crime mais hediondo da história da
humanidade, o Holocausto da Escravização Afrikana. A
educação Africano-centrada é uma frente de batalha na guerra
em curso para recuperar e reconstituir a civilização e a

84
dignidade da Áfrika. Esta é uma batalha pela mente e alma de
nosso povo e, como qualquer batalha contínua, as vantagens
e a vitória final estão com os moralmente justos, os mais bem
preparados e os mais determinados. Devemos nos engajar
nessa batalha com a intensidade de um Dessalines, a
perseverança de um Mandela, a convicção de um Garvey, a
meticulosidade de Diop e a visão e senso de destino de um Aha
Menés. A educação nacionalista/Pan-Afrikanista e Afrikano-
centrada faz parte de um continuum histórico de dimensão
global.
É significativo que as duas populações Afrikanas cujas
lutas são mais paralelas, os Azanianos (Áfrika do Sul) e os
Afrikanos na América, tenham a oportunidade de construir
uma filosofia e um sistema de educação que seja um reflexo
verdadeiro da cosmogonia Afrikana e que ativamente defende
sem desculpas os interesses do mundo Afrikano. Os Azanianos
chegaram a esta conjuntura com o apoio imorredouro do povo
à independência e liberdade. Os Afrikanos na América têm a
oportunidade mais uma vez por causa da tremenda onda entre
o povo para uma experiência educacional e cultural que reflete
sua afrikanidade única, e oferece a oportunidade para seus
filhos avançarem no status da nação/raça em direção à
identidade, dignidade e soberania nacionais.
Os interesses educacionais dessas duas nacionalidades
devem suplantar o interesse pela mera alfabetização. Para a
liderança, praticantes e teóricos nessas nacionalidades e
outras nações Afrikanas, limitar seus esforços e visão para
alfabetização/letramento e competências de calcular seria
trair a própria alma do mundo Afrikano. As vastas campanhas
de alfabetização em Gana, Tanzânia e Zimbábue, entre outros,
nunca podem levar à verdadeira soberania nacional/cultural

85
porque seus fundamentos ideológicos falham em atender à
necessidade de reconstruir a identidade cultural Afrikana após
séculos de esforços europeus de desmembramento e
inferiorização. Muitos dos esforços educacionais de
nacionalidades Afrikanas nominalmente independentes
assumem que a filosofia, o projeto e o conteúdo da educação
europeia são superiores a uma educação elaborada a partir da
dinâmica cultural Afrikana revitalizada.
Esta guerra para libertar a mente Afrikana implica o
abandono das correntes de dependência. Requer a
reconstrução da personalidade cultural Afrikana. Quando os
tiroteios e os gritos cessarem na Azânia e na América, a guerra
ainda estará longe de terminar. Isso só vai acabar quando
pudermos dizer definitivamente que recapturamos as mentes
de nosso povo. Chancellor Williams nos diz que “esta é a Tarefa
Número Um. Não será fácil e não será facilmente alcançada
em uma única geração.”23 Seremos capazes de reivindicar a
vitória final quando nossa progênie carregar consigo a
memória do sucesso da geração atual na construção das bases
institucionais, até os estágios finais de reconstrução de uma
civilização Afrikana em pé de igualdade com as realizações de
nossos mais célebres ancestrais da antiguidade.24

Notas.
1. Clarke, John Henrik. African World Revolution; Africans
at the Crossroads. Trenton: Africa World Press, 1991, p. 11.

2. Jones, Norrece T. Jr. Born a Child of Freedom Yet a


Slave. Hanover: Wesleyan University Press, 1990, p. 21.

86
3. Gifford Prosser and Wm. Roger Louis, Eds., The transfer
of Power In Africa. New Haven: Yale University Press, 1982, p.
140.

4. Diop, Cheikh Anta. Black Africa: The Economic and


Cultural Basis for a Federation State. New York: Lawrence Hill
Books, 1978, p. 13.

5. Woodson, Carter G. Miseducation of the Negro.


Philadelphia: Hakim’s Publications, 1933.

6. Fanon, Franz, The Wretched of the Earth. New York:


Grove Press, 1963, p. 43.

7. A ideologia, conforme usada aqui, flui da consciência


racial/nacional e é a expressão organizada do desejo de seus
adeptos ou posse de poder. Ideologia é um conjunto de ideias,
valores e linguagem coerentes que refletem uma visão
particular da entidade racial/nacional. A ideologia atua para
moldar seus adeptos em uma unidade integral, à medida que
mobiliza essa unidade em busca dos objetivos declarados da
ideologia.

8. Stuckey, Sterling. Slave Culture: Nationalist Theory and


the Foundations of Black America. New York: Oxford University
Press, 1987, p. 3.

9. Jones, p. 19.

10. Ibid, p. 27.

87
11. Schlesinger, Arthur. The Disuniting of America:
Reflections on a Multicultural Society. Place: Whittle Direct
Books, 1991.

12. Citado em Harding, Vincent. There is A River: The Black


Struggle for Freedom in America. New York: Vintage Books,
1981, p. 58.

13. Du Bois, W.E.B. Black Reconstruction in America,


1860-1880. New York: Atheneum-Macmilan Publishing
Company, 1935, p. 638.

14. Anderson, James D. The Education of Blacks In The


South, 1860-1935. Chapel Hill: The University of North
Carolina Press, 1988, p. 9.

15. Ibid, p. 6.

16. Ibud, p. 34.

17. Washington, Booker T. Up From Slavery: The


Autobiography of Booker T. Washingtion. New York: University
Books Title published by Carol Publishing Group, 1989, p. 83.

18. Cruse, Harold. Plural but Equal: Blacks and Minorities


in America’s Plural Society. New York: William Morrow and
Company, Inc., 1987, p.125.

19. Ibid, p. 253.

88
20. Universidades brancas, conselhos escolares em
comunidades predominantemente brancas, sistemas
escolares eurocêntricos administrados por negros (por
exemplo, Wash. D.C.), agências de financiamento dominadas
por brancos; estas e outras instituições não-Afrikanas são
uniformemente antagônicas às correntes culturais ou
ideológicas que ameaçam seriamente o domínio do
pensamento eurocêntrico, e agem para manter a conformidade
entre aqueles que dependem deles por meio de coerção direta
e indireta. A coerção indireta inclui o uso de várias iniciativas
de propaganda. A coerção direta inclui redução real ou
ameaçada de financiamento, rescisão, não consideração de
aumentos e estabilidade e indenização.

21. Schlesinger, p. 182.

22. Bureau of the Census. Statistical Abstract of the United


States: 1991 (111th edition.) Washington, DC, 1991, p. 147.

23. Williams, Chancellor. The Destruction of Black


Civilization: Great Issues of a Race From 4500 B.C. to 2000 A.D.
Chicago: Third World Press, p. 360.

24. Ibid, p. 313.

89
PARTE DOIS – INTERAÇÕES

90
1. Nação ou Dependência

Temas cada vez mais proeminentes nos assuntos


mundiais são as questões da globalização e do nacionalismo.
Embora o inglês tenha se tornado a língua global de negócios
e finanças, evidentemente uma aproximação das fileiras do
mundo branco, outros europeus da Comunidade Econômica
Europeia (CEE) estão erguendo barreiras legais e financeiras
aos produtos culturais “americanos”, sinalizando um novo
nacionalismo. Os chineses atribuíram seus problemas sociais
recentes aos males da influência ocidental. A liberalização
política na União Soviética desencadeou uma torrente de
indignação étnica nacionalista.
Da mesma forma, em um recente talk show de rádio, a
questão principal foi a capacidade e a vontade dos Afrikano-
americanos de ‘ter sucesso’ enquanto nação na ausência de
quaisquer caucasianos. A questão desmente alguns conceitos
errôneos sobre a relação de interdependência de todas as
nações no mundo contemporâneo, mas mesmo assim serve
para destacar uma verdade crucial. Essa verdade é que todo
povo identificável e distinguível por sua história, cultura,
fisiologia e status político/econômico constitui de fato uma
nação. Essas nações e nacionalidades, como é evidente em
eventos atuais em todo o mundo e ao longo da história, estão
afirmando sua independência cultural e estão insistindo em
empregar sua realidade cultural/nacional única como um
canal para facilitar sua participação em uma comunidade
mundial emergente global, mas pluralista.
A resposta à pergunta da rádio é uma afirmativa inflexível.
Os Afrikano-americanos podem e devem afirmar sua
independência cultural, econômica e política. Devemos
91
estabelecer instituições que estejam comprometidas e capazes
de construir um consenso nacional Afrikano-americano; que
sejam capazes de organizar nossos substanciais recursos
materiais e intelectuais; que sejam capazes de estabelecer,
legitimar e sancionar comportamentos coletivos e individuais
nas esferas política, moral, ética e espiritual.
A evolução da consciência nacional Afrikano-americana
em seu hemisfério deveria ter fluído natural e vigorosamente
na tradição de nossos ancestrais Asante, Iorubá, Mandingo,
Zulu, Ovanbo, entre outros. Essa consciência nacionalista, no
entanto, foi abortada e represada pelos baluartes do
racismo/supremacia branca, do genocídio, do ódio, medo e
autodestruição concomitantes.
Essa barragem será rompida, mas a corrente ou maré que
rompe e quebra a espinha da supremacia branca não será
dirigida pelas instituições da velha linha em nossa
comunidade. Elas carecem de visão, força, vontade e
compromisso. O desafio diante de nós é criar e manter as
novas instituições capazes de cumprir a tarefa que temos
diante de nós enquanto povo. Nas palavras do Chancellor
Williams, ou cumprimos esta missão como um povo, como
uma geração, ou seremos esquecidos e desprezados por cada
geração que nos seguirá.

92
2. Afrocentricidade

A Afrocentricidade tornou-se um assunto fervoroso nos


círculos intelectuais e profissionais, na mídia impressa e
eletrônica, e entre a população em geral. Foi o assunto de séria
consideração em um editorial recente da Newsweek. Quando
o curso de uma determinada discussão sobre Afrocentricidade
se volta para a educação, existem três questões relacionadas
que surgem invariavelmente. Essas perguntas são
respectivamente; O que é afrocentricidade? O que é uma
educação afrocêntrica? Uma criança Afrikana realmente
precisa de uma educação Afrocêntrica?
Uma compreensão completa da Afrocentricidade requer a
iluminação dos fundamentos culturais, socioeconômicos e
históricos do conceito. É igualmente importante examinar a
Afrocentricidade na pluralidade real emergente de culturas
mundiais que simultaneamente acelera o fim da hegemonia
cultural e política/econômica eurocêntrica e o surgimento de
uma nova ordem nacional e internacional. Afrocentricidade é
um dos vários movimentos culturais e nacionalistas que estão
forçando analistas políticos a jogar fora as teorias populares
que defendem primeiro um mundo bipolar (EUA-URSS),
depois, um mundo tripolar (EUA-URSS-Japão), depois um
mundo quadripolar (EUA-URSS-Japão-CEE) e assim por
diante. Da mesma forma, os rumores nacionalistas dentro da
URSS e da Europa Oriental foram saudados como o triunfo da
economia política do Ocidente. No entanto, antes que as
reverberações da celebração acabassem, o movimento
nacionalista cultural Afrikano-americano encontrou sua voz
coletiva no conceito de Afrocentricidade. De repente, e
igualmente previsível, as regras mudaram. A hegemonia
93
cultural e sociopolítica eurocêntrica está de pé nos Estados
Unidos da América e, mesmo com o ressurgimento
nacionalista no “mal império soviético”, esse não tem valor
intrínseco na economia política americana.
O ponto central do conceito de afrocentricidade é ver o
mundo pela ótica de sua própria cultura e história. A validade
e a vitalidade cada vez mais aparente do movimento
afrocêntrico está enraizada em uma história e dinâmica
cultural que é exclusivamente Afrikana. Somos o que somos
por causa de nossa história, por causa de nossas respostas
coletivas e interações com nossos ambientes físicos, sociais e
econômicos ao longo de eras. Negar as consequências
culturais, espirituais, psicológicas e fisiológicas dessa história
é loucura. Afirmar conscientemente essa dinâmica cultural no
pensamento e no comportamento e, em seguida,
institucionalizar essa dinâmica, isso é ser afrocêntrico.
Muitos Afrikanos ainda trabalham sob o mito popular da
cultura universal ou da neutralidade cultural que é fortemente
promovido pela mídia e pelas principais instituições
educacionais. Não há cultura universal, porque não há
história universal além da generalidade da condição humana;
alimentação, vestuário, moradia e procriação, e todo mundo
faz até essas coisas de maneira diferente. O mito da
universidade como popularmente definido é um manto cada
vez mais poroso para a hegemonia eurocêntrica
(causasiana/branca). Dubois observou, na virada do século,
que a história do mundo é a história das raças. Deve ficar claro
para qualquer estudante de história que o tempo da euro-
américa nos holofotes acabou.
A educação afrocêntrica é então baseada na realidade de
uma dinâmica cultural Afrikana vibrante e na realidade

94
emergente de uma ordem mundial pluralista, onde cada
cultura participa dessa nova ordem. A posição culturalmente
neutra de que os Afrikano-americanos não têm herança
cultural distinta nos confinaria a uma postura de periferia
política e cultural. A postura dos Afrikanos na América seria
equivalente a um apêndice incidental com um passado
mutilado e um futuro abortado.
A educação em sua totalidade preocupa-se com o
desenvolvimento total do caráter humano. Vários estudos, o
bom senso e os vinte anos ímpares do movimento escolar
independente demonstraram de forma conclusiva esse
desenvolvimento cognitivo. Assim como o amadurecimento
social e emocional é mais efetivamente alcançado quando o
contexto cultural, o conteúdo acadêmico e o ambiente físico
estão alinhados e consistentes com a orientação cultural da
criança.
Nos últimos vinte anos, nosso povo tem comprado em
Bethesda e Potomac Marylands; Harvard e Princeton, os Dias
de Georgetown, os Dias Judaicos, French Internationals;
adquiriu o Lord e Taylors e Woodies; Mercedes e BMW.
Enquanto nos envolvemos no excesso material, nossos filhos
se afastam como mariposas cegas pelo sol do meio-dia. Nós os
perdemos para as drogas e o materialismo irracional, e os
perdemos por causa de nossa própria ambiguidade cultural
em face de um eurocentrismo obstinado e fascinante, e seu
parceiro nefasto, o racismo/supremacia branca.
Fomos aconselhados a seguir uma agenda nacionalista
consistente com nossa história e cultura por alguns de nossos
célebres mais velhos, incluindo Chancellor Williams e John
Henrik Clarke, e por alguns de nossos ancestrais mais
venerados, incluindo Malcolm X, Paul Robeson, Marcus

95
Garvey, W.E.B Dubois, Nat Turner e incontáveis outros. A
Afrocentricidade não é uma mera opção ou alternativa. É um
imperativo de sanidade, sobrevivência e desenvolvimento
significativo e duradouro para o mundo Afrikano.

96
3. Clareza Ideológica

Notamos neste espaço a anterioridade do florescimento de


um novo movimento de consciência cultural e de clareza
ideológica de toda a comunidade Afrikano-americana. Este
novo movimento é paralelo à ordem mundial emergente do
pluralismo democrático que teve sua expressão mais
importante na libertação de Nelson Mandela, na vitória da
SWAPO [Organização do Povo do Sudoeste Africano] na
Namíbia e no triunfo das forças democráticas sobre o
comunismo na Europa Oriental. Esse movimento emergente
Afrikano-centrado entre os Afrikano-americanos tem seu
precedente histórico mais imediato no movimento de
conscientização cultural dos anos sessenta e início dos anos
setenta. Como o movimento dos anos sessenta e o movimento
mundial em direção ao fim da dominação colonial euro-
americana, há uma série de princípios e dinâmicas
fundamentais que podem e devem ser identificados se a
dinâmica essencial do movimento deve ser sustentada e
protegida contra elementos revisionistas. Ao examinar este
novo movimento, devemos olhar tanto a fonte do movimento
quanto a direção do movimento.
A fonte histórica essencial deste novo movimento é a
consciência racial coletiva de nossa Afrikanidade. Essa
memória/consciência racial coletiva é o que nos sustentou ao
longo do tráfico transatlântico e dos séculos de opressão
racista desde então. Essa consciência resistiu aos esforços
legais e extralegais dos supremacistas brancos ao longo de
quatro séculos tentando distorcê-la ou erradicá-la. Em parte,
esse movimento atual foi estimulado, a nível de massa, pelo
ressurgimento do racismo aberto no corpo político branco, e
97
pela crescente prevalência entre os brancos de uma forma
insidiosa de racismo, conforme expresso na cobertura da
mídia sobre o uso de drogas, o crime do preto comparado ao
branco, processos judiciais, etc. O movimento atual é também
a expressão do desejo universal de um povo oprimido de obter
independência nacional e corrigir uma situação inerentemente
injusta.
Para que esse movimento entre os Afrikano-americanos
seja sustentado, três condições devem ser atendidas. Essas
condições são: clareza, personalização e institucionalização.
Aqueles de nós que se identificam com o movimento e são
afetados por ele devem ter uma base histórica clara para o
movimento. Devemos estar sempre cientes do precedente
histórico das civilizações Afrikanas que datam da civilização
pré-vale do Nilo que se estende pelo vale do Nilo e todas as
regiões da Áfrika. Devemos estar atentos e ter conhecimento
dos ideais espirituais, morais, filosóficos, estéticos,
linguísticos, científicos, econômicos e políticos, e construções
reais que nossos ancestrais criaram em resposta aos seus
ambientes. Esses mesmos ideais e construções devem
informar e condicionar nossa resposta à miríade de crises
sociais que confrontam nossas comunidades, sejam elas
drogas, violência racial, discriminação ou instabilidade
familiar.
O conhecimento desses ideais e dessas realizações por si
só é insuficiente. Muitos de nós estamos satisfeitos com a
elevação intelectual que essa nova consciência nos dá, sem
aceitar a responsabilidade inerente a esse conhecimento. Um
grande número de irmãos e irmãs que assistem às palestras e
colecionam fitas de palestras importantes se tornaram
viciados em palestras. Eles congestionam as linhas telefônicas

98
dos programas de entrevistas populares, mas não
personalizam as mensagens essenciais dos palestrantes. Esta
nova consciência, esta nova informação, particularmente o
ideal espiritual, moral e filosófico, deve ser totalmente
personalizada, isto é, deve ser totalmente incorporada em
todos os nossos pensamentos e qualificada apenas pelas
exigências do mundo contemporâneo. Se a família e os filhos
foram primordiais na cultura de nossos ancestrais, à medida
que os incorporamos em nosso construto de valor, os
comportamentos antifamília que resultam em aleijados
emocionais e sociais, famílias despedaçadas e crianças
angustiadas seriam fortemente condenados. Esses
comportamentos antifamília incluiriam irresponsabilidade
financeira, abuso conjugal (físico e emocional), não-
envolvimento e não-apoio aos filhos, abuso infantil, aberração
sexual, infidelidade, promiscuidade, critérios inadequados
para a seleção do parceiro (sexo, romance, etc.) e outros.
Se reconhecermos a primazia da espiritualidade na
construção cultural de nossos ancestrais, então
substituiríamos a falta de objetivo e o vazio de nossas vidas
por uma construção espiritual apropriada à época, mas
consistente com a essência das tradições ancestrais. Se
aceitarmos a filosofia estética de nossos ancestrais,
apreciaremos a beleza inerente de nosso ser físico, em vez de
enriquecer os fabricantes de cosméticos clareadores, da moda
e de preparações para o cabelo. Se incorporássemos a filosofia
moral de nossos ancestrais (incluindo Maat), não haveria lugar
para o uso de drogas (incluindo tabaco e álcool), oportunismo,
presunção, egoísmo ou intolerância religiosa.
Para além do conhecimento e da personalização, existe a
necessidade de institucionalizar os conhecimentos, valores e

99
relações que os nossos antepassados nos proporcionaram.
Construir, sustentar e fazer avançar instituições é crucial para
a perpetuação e o desenvolvimento contínuo de nosso legado
cultural. Devemos construir e apoiar instituições
independentes de educação, finanças, arte, publicações,
saúde, varejo, vendas, etc.
Essa responsabilidade de construir e apoiar instituições
independentes estende-se ao envolvimento prático, bem como
contribuições financeiras, investimentos, aquisição de
serviços e bens, etc. Devemos perpetuar e avançar nossa
cultura no nível de clareza, personalização e
institucionalização, para que não cometamos suicídio racial,
deixando as almas de nossos ancestrais vagando no limbo
perpétuo e nossos filhos chorando em uma infinidade de falta
de sentido.

100
4. Cultura e Padrões de Beleza

Duas das muitas questões que ocasionaram o


ressurgimento de uma consciência Afrikano-centrada
(Afrocentrismo) dentro da comunidade Afrikano-americana
foram o estilo do cabelo e o vestuário. Ao longo dos anos
sessenta, o debate em torno dessas duas questões
frequentemente alcançou proporções épicas e rancorosas, com
resultados às vezes contraproducentes. À medida que o
afrocentrismo ressurge nos anos noventa, essas e outras
questões surgirão sem dúvida. Uma lição importante dos anos
sessenta que deve direcionar essas discussões é a
impropriedade de traçar linhas e atribuir valores aos
indivíduos de acordo com fórmulas ideológicas rígidas e
análises inadequadas.
Uma suposição frequente e errônea feita a respeito da
questão do penteado nos anos sessenta era que alguém com
cabelo alisado era automaticamente considerado menos
consciente e, consequentemente, menos comprometido; e da
mesma forma, alguém com um afro era considerado
dogmático, estreitamente comprometido, etc. Além dessas
suposições, havia outras paralelas feitas sobre o conteúdo
moral e ético do caráter em relação à preferência por um
determinado penteado ou preferência de roupa.
À medida que crescermos nessa nova consciência, será
importante que primeiro separemos a questão do caráter
básico de sua orientação cultural e ideológica. Uma distinção
deve ser feita para fins de clareza de concepção, embora não
sejam mutuamente exclusivos. Aquele que defende a
afrocentricidade não é necessariamente uma pessoa de honra,
nem é o indivíduo que defende uma orientação
101
assimilacionista necessariamente desonroso. O conteúdo de
seu caráter - incluindo as virtudes da veracidade, humildade,
confiabilidade, respeito, tolerância, sabedoria e abertura
intelectual - não depende da orientação ideológica de uma
pessoa. Nem podem essas virtudes ser medidas pela presença
ou ausência de um determinado penteado ou preferência do
que se veste.
Muitos de nós seremos fortes em nossa orientação
ideológica e cultural, mas devemos evitar o erro do
dogmatismo estreito em nossa tentativa de ganhar outros para
nossa perspectiva. A força de nossas convicções deve ser
baseada na verdade histórica e medida pelo bem-estar de
longo prazo de nosso povo. O esforço para convencer outras
pessoas [pretas] deve ser condicionado pela tolerância,
paciência e compreensão e, em última instância, temperado
pela convicção de um compromisso sólido e irrestrito com o
afrocentrismo no mundo, e de que esse estilo de vida e
pensamento é o melhor caminho para o nosso povo. A questão
do cabelo, como uma série de outras questões, deve, em última
análise, ser resolvida dentro do contexto da história mundial
da Áfrika e do consenso que alcançarmos sobre o futuro de
nosso povo. A questão do cabelo, como as questões de nomes,
roupas, sistemas espirituais, padrões de fala, casamentos
inter-raciais e estrutura familiar, deve ser vista dentro da
construção histórica do Holocausto da Escravização Afrikana
e da destruição da civilização Afrikana. Franz Fanon, em Os
Condenados da Terra, advertiu-nos que os imperialistas
europeus procuraram não apenas distorcer, se não destruir, a
história dos oprimidos, mas também negar a nossa própria
humanidade. Sua admoestação constitui um componente
crítico em nosso esforço aqui para construir um conjunto de

102
princípios ou critérios avaliativos pelos quais medir a validade
cultural de uma dada prática ou valor. A implicação da
realidade notada por Fanon, e também notada por Amílcar
Cabral (Return to the Source), é que esses elementos, tradições,
comportamentos e estilos que são fundamentais para a
cultura do povo oprimido são os próprios elementos que
formam a base para a resistência cultural e reconstrução
cultural.
A alienação cultural é uma estratégia milenar de
conquistadores lançada por nossos ancestrais Keméticos, de
acordo com Yosef ben-Jochannan (Black Man of the Nile). A
prática de então, como agora, era identificar e educar a elite
física e intelectual e os jovens nos valores da cultura do
conquistador, aparte da influência da cultura da vítima. A
obediência e a orientação de uma pessoa foram moldadas de
forma indelével nos interesses do conquistador. É digno de
nota que a primeira nação não-branca a se levantar e desafiar
com sucesso a preeminência econômica e política do
imperialismo branco nos tempos modernos é aquela nação
cuja cultura sobreviveu à era colonial totalmente intacta; a do
Japão.
Outro elemento crucial desses critérios de avaliação é o
fato de que todas as culturas tomam emprestado umas das
outras, mas tal empréstimo pressupõe que as culturas que
tomam empréstimo se consideram niveladas e mantêm uma
atitude de respeito mútuo. Além disso, esses elementos
emprestados são conscientes e voluntários e não alteram o
caráter fundamental da cultura do empréstimo. Até agora,
delineamos quatro princípios que podem servir como critérios
para avaliar a validade cultural de comportamentos
específicos.

103
A) A destruição da civilização Afrikana, a interrupção do
desenvolvimento histórico da Áfrika e a tentativa de erradicação
da memória cultural Afrikana de seu povo foram os atos
deliberados de outro povo movido por ganhos econômicos e
políticos e depravação moral. Esses comportamentos adotados
pelos Afrikanos durante o período de sua dominação e com base
na aquiescência cultural, física e psíquica que ocasionou essa
dominação servem apenas para perpetuar o status inferior do
povo Afrikano.
B) Os fundamentos da cultura fornecem a base para a
resistência e reconstrução, onde esses fundamentos foram
distorcidos, diluídos ou perdidos, o potencial do grupo para se
envolver em resistência cultural e sociopolítica ou reconstrução
nacional é severamente limitado, se não destruído.
C) O desenvolvimento nacional e o avanço na economia
política mundial contemporânea por uma nação são
assegurados na medida em que seu continuum
cultural/histórico é ininterrupto e é conscientemente
sustentado. Onde esse continuum histórico é interrompido por
fatores externos ou internos, e a consciência cultural é
comprometida, a nação será relegada ao status de dependência
perpétua.
D) O empréstimo cultural é normal entre nações niveladas e
é imposto entre as não-niveladas. O grupo dominante em uma
determinada sociedade agirá para explorar implacavelmente
quaisquer recursos ou energias criativas produzidos pelo grupo
dominante e redefinir essas energias no contexto de sua própria
dinâmica cultural, mesmo quando o grupo dominado está
progressivamente esgotado de seus próprios recursos únicos e
de sua identidade cultural.

104
A lista de princípios de avaliação poderia ser estendida,
mas um princípio final é o consenso geral dentro da
comunidade Afrikana de que o objetivo do Afrocentrismo é a
autodeterminação Afrikana. Assim, um quinto princípio seria:
E) Os interesses dos Afrikanos serão servidos através da
busca pela autodeterminação enquanto povo. Essa busca
começa com a revivificação de sua herança cultural.
Se examinarmos brevemente a questão da prática dos
Afrikanos de alteração permanente do cabelo, ou plástica
nasal como a reconstrução da pálpebra onipresente entre os
asiáticos - podemos concluir com segurança o seguinte:
A prevalência do alisamento de cabelo, etc., é uma
consequência de uma falta de memória cultural e, portanto,
da falta de preferência por uma condição ou estilo próprio dos
Afrikanos devido à falta de práticas culturalmente reforçadas;
tais práticas foram proibidas ou conscientemente
desencorajadas durante a escravidão. Penteados, vestuário e
linguagem, práticas espirituais e valores foram proibidos ou
desencorajados durante o curso da escravidão e é atualmente
desencorajados como diferenciações perigosas ou indesejáveis
que incitam conflitos raciais e étnicos. Esse conceito de beleza
é um elemento fundamental da cultura, e esse conceito foi
conscientemente minado quando nossas civilizações foram
destruídas. A perfeição que era a Pretitude foi distorcida para
conotar o mal e a essência da imperfeição. O desenvolvimento
do capitalismo e do imperialismo só poderia ser sustentado
com o trabalho Afrikano, que exigia a criação do racismo e o
mito da supremacia branca, e a erradicação de todos os
elementos contrários, incluindo a humanidade dos escravos.
A preferência e paixão obstinada em nossa comunidade por
alisadores de cabelo, não é uma prática cultural emprestada

105
de nacionalidades niveladas, mas a acomodação consciente e
subconsciente de um povo dominado ao fato de sua
dominação. O ato da vítima dominada em se recriar à imagem
do conquistador dominador é fundamentalmente um ato de
submissão, cuja humilhação se perdeu em nossa memória
coletiva por muitas gerações.
A autodeterminação deve começar com a reconstrução e
análise completas de nossa história e cultura e com o
restabelecimento de nossa conexão com as características
essenciais dessa dinâmica cultural. O conceito de beleza é um
elemento essencial que deve ser restabelecido e reconstruído.

106
5. Família, Cultura e Comunidade

Este ano letivo começou novamente com números


recordes. O nível de interesse de todos os setores da
comunidade excedeu nossa capacidade e expectativas para
todas as divisões. Uma pesquisa superficial de outras escolas
da área indica níveis semelhantes de interesse. Esses níveis de
interesse não eram vistos desde o início dos anos setenta. O
elemento motivador, daquela época como agora, envolve um
equilíbrio de três fatores principais: consciência
cultural/racial, desempenho acadêmico e um ambiente
emocionalmente estimulante. Além de um ambiente acolhedor
para os filhos, muitos pais procuram, eles próprios, um
ambiente culturalmente enriquecedor e intelectualmente
estimulante. Esses fatores combinados compõem o tipo de
comunidade que era característico das aldeias e vilarejos
Afrikanos no sul dos Estados Unidos antes da migração
urbana massiva e a consequente separação das famílias e clãs
que constituíam essas comunidades. O que se esperava dos
jovens nessas comunidades era essencialmente o mesmo que
esperamos hoje nas escolas independentes Afrikano-
centradas, que formam o centro das novas comunidades
culturais urbanas afrocêntricas.
As comunidades da ordem procuraram transmitir algum
senso de lealdade racial e comunitária, bem como fornecer aos
jovens a melhor educação possível. Da mesma forma, as
escolas independentes Afrikano-centradas, como a
NationHouse Positive Action Center e a Ujamaa, em
Washington, Afrikan People’s Action School, em Trenton, New
Concept Development Center e Shule Ya Watoto, em Chicago,
funcionando como centros comunitários de pontos focais
107
culturais, tem como missão proporcionar uma experiência
educacional que garanta que o aluno seja desafiado a cumprir
seu potencial intelectual, e seja capaz de agir em qualquer
ambiente, seja hostil ou não. A missão vai além das antigas
escolas comunitárias; buscando não apenas instilar orgulho
racial, mas também inspirar o compromisso de reconstruir e
expandir nossas comunidades e o mundo Afrikano de uma
forma que seja consistente com nossa herança racial e
cultural. A diferença qualitativa é que as comunidades mais
velhas eram limitadas pelas condições sociopolíticas da época
a uma postura defensiva. A missão das escolas
contemporâneas Afrikano-centradas deve ser a de levar essa
missão ao nível de uma cruzada intergeracional por nada
menos que a total autodeterminação da raça.
Os principais determinantes da vitalidade dessas
comunidades antigas eram a coesão proporcionada pela
cultura compartilhada e o valor atribuído à família. Cultura e
família são os dois elementos que também devem estar no
centro de nossos esforços na NationHouse. A orientação
cultural/ideológica da escola deve ser clara para todos os
membros da comunidade. Devemos entender melhor que
nossa associação requer um papel ativo; ativo não só no
trabalho, mas também ativo no crescimento intelectual e
cultural. Devemos crescer à medida que nossos filhos crescem.
A comunidade escolar deve crescer e se expandir como uma
família cujo senso de direção e coesão é intensificado ao longo
do trabalho e estudo sustentado e consistente, decepções e
triunfos. Nossa perspectiva sobre nossas condições pessoais e
a condição futura da raça deve ser de triunfo final,
independentemente de contratempos recorrentes.

108
Essa perspectiva fala sobre a fé, ou Imani. Essa fé em
nossa vitória final e a visão clara no que estamos trabalhando,
tanto individual quanto coletivamente, garantirão nosso
sucesso final e contínuo.

109
6. Expectativas

Na semana passada, duas circunstâncias muito diferentes


produziram duas ideias relacionadas e relevantes. Um
editorial em uma edição recente do jornal centrista/liberal
local escrito por um colunista negro, politicamente neutro,
sobre as limitações da educação afrocêntrica foi a fonte da
primeira ideia. A segunda ideia surgiu de uma observação feita
durante uma de nossas reuniões semanais de equipe. A
primeira ideia envolve o papel, se houver, que a consciência da
história da Áfrika desempenha em estimular o apetite
intelectual e facilitar o desenvolvimento do caráter da
juventude Afrikana. A segunda ideia envolve o princípio muito
escrito e frequentemente mal compreendido das expectativas
que temos de nossos filhos na sala de aula, em nosso lar e na
vida. As duas estão ligadas de uma forma que pode elucidar e
expandir tanto a educação afrocêntrica quanto nossos papéis
como professores e pais. A ligação entre as duas ideias pode
ser compreendida de forma simplista em termos de:
expectativa de quem, como se dá a expectativa e, finalmente,
expectativa do quê. As três perguntas (‘quem’, ‘como’ e ‘o quê’)
podem ser posteriormente descritas como três crises que nos
confrontam como pais, professores, famílias, como uma
comunidade, como uma nação e como uma raça. Essas crises
são, respectivamente: a crise de identidade, a crise de ação e
a crise de objetivos.
“Expectativas” é uma palavra simples que carrega consigo
uma série de suposições subjacentes que devem ser
examinadas a fim de entender como as expectativas como um
conceito são tão importantes para nós, pais e professores.
Dizer “expectativas” é primeiro perguntar de quem são as
110
expectativas, ou “quem espera”. Esta questão da identidade,
“quem”, deve ser respondida com clareza. Com o Afrikano-
americano médio, esta constitui a primeira de nossas três
crises: a crise de identidade. A questão “quem” só pode ser
respondida recorrendo à história, o continuum cultural que
define a família, o indivíduo, a comunidade, a nação e a raça.
E aí reside a importância do nosso primeiro conceito: a história
e a cultura nacional/racial desempenham um papel crucial na
formação do caráter.
A segunda suposição reflete a segunda interrogação, a de
“como”. Ter uma expectativa implica uma ação. A ação da
expectativa é um imperativo, um requerimento ou uma
fantasia? As expectativas que mantemos e as ações que
tomamos em relação a nossa progênie, ou nossa comunidade
e raça, nesse caso, podem ser firmes e resolutas, podem ser
vagas e ambíguas ou podem ser etéreas e inexistentes. É aqui
na própria natureza da expectativa, seja dentro da família, da
comunidade ou da raça, que temos uma crise de ação.
O fator determinante para qualquer forma única de
expectativa (imperativo, pedido, fantasia) é a viabilidade
relativa da identidade cultural, que será determinada em
grande parte pelo continuum histórico e a
consciência/percepção das pessoas desse continuum e da
cultura que flui dele. Por exemplo, se o nível de consciência
cultural e lealdade entre as pessoas for fraco e inviável, então
as expectativas relativas à cultura serão igualmente fracas, e
mais parecidas com requerimentos e fantasias não
verbalizados. O real imperativo fluirá do grupo culturalmente
(socialmente, economicamente, politicamente) dominante e
trabalhará para o benefício desse grupo e, simultaneamente,
em detrimento e destruição da cultura mais fraca.

111
Além da questão de “como”, está a terceira
suposição/questão que fundamenta o conceito de
“expectativas”. Essa pergunta é um objeto ou objetivo da ação
– “expectativa do quê.” Esperamos muitas coisas de nossos
filhos, e essas expectativas podem ser categorizadas de forma
consistente com a ação implícita que lhes está subjacente.
Essas categorias são três, a primeira dessas inclui metas de
continuidade focada. Nesta categoria, estamos preocupados
em estabelecer ou reafirmar um continuum que, por sua vez,
reafirma uma identidade, interesse ou foco definidos.
Expectativas desse tipo levarão à nacionalidade e à
autodeterminação.
A segunda categoria inclui objetivos de acomodação e
compromisso. Nesta categoria, estamos interessados em
alcançar os fins que não são controversos, que não resultam
em qualquer percepção de alienação ou intencionalidade
adversária. Estamos aqui dispostos a conceder grandes
medidas de autoidentidade ou interesse próprio a fim de evitar
a alienação potencial. Expectativas como essas levaram nosso
colunista negro de centro à suposição errônea de que a
educação Afrikano-centrada não pode prover o
desenvolvimento da juventude Afrikana.
Uma terceira e última categoria é a dos objetivos
indeterminados, ou objetivos do caos. Não há nenhuma
declaração explícita, ou mesmo implícita, de objetivos que flua
de um continuum/identidade cultural distinto ou de um
interesse bem definido. Comportamentos típicos desta
categoria incluem pais que optam por iniciar carreiras e
interesses pessoais em tempo integral durante os anos de
formação dos filhos (do nascimento até os 21 anos) sem
provisões adequadas para o desenvolvimento espiritual,

112
emocional e moral dos filhos - coisas que não podem ser
compradas.
Nosso conceito inicial se dá no papel da história da Áfrika
em estimular o desenvolvimento intelectual e as realizações. A
suposição equivocada que nosso colunista de cento fez, e que
muitos educadores fazem, é que uma educação Afrikano-
centrada eficaz pode ser dividida em componentes distintos,
embalados e administrados por qualquer pessoa. Não pode
ser. É importante colocar a história do povo Afrikano no centro
da educação Afrikano-centrada. A cultura e as ideologias que
nasceram dessa história devem receber igual importância.
Além disso, deve existir um alinhamento cultural/ideológico
do professor, dos pais e da escola de forma igualitária. Para
que esse processo educacional Afrikano-centrado seja
verdadeiramente eficaz, o professor e a escola devem ter a
mesma perspectiva. A eficiência das escolas eurocêntricas de
elite e das escolas japonesas homogêneas são evidências da
eficácia dessa afirmação.
Para que nossos filhos tenham um desempenho
acadêmico, moral e cultural, as expectativas que temos deles
devem, em primeiro lugar, ser informadas pelo nível de nossa
própria consciência e ações históricas/culturais. Se
estivermos verdadeiramente confiantes na validade e no valor
das conquistas de nossos ancestrais - se estivermos firmes em
nossa identidade dentro de nossa herança cultural e
comprometidos com sua recuperação, refinamento e
perpetuação - então, nossas expectativas em relação aos
nossos filhos serão direcionadas de maneira firme e resoluta
aos objetivos da família, da comunidade, da reconstrução
nacional e da autodeterminação. Com essas condições

113
satisfeitas, teremos a garantia da sobrevivência e da
prosperidade de nossos filhos e de nosso povo.

114
PARTE TRÊS – PARADIGMAS

115
1. Notas sobre uma Pedagogia Afrikano-
centrada

A Afrikanocentricidade como uma visão de mundo, como


um todo cultural abrangente, pressagia uma educação
Afrikano-centrada, que por sua vez implica a elaboração de
uma pedagogia Afrikano-centrada. Esta pedagogia Afrikano-
centrada é uma elaboração estudada, vigorosa e criativa dos
preceitos fundamentais da cultura e ideologia Afrikanas na
área da metodologia de ensino. A pedagogia Afrikano-
centrada, como a própria Afrikanocentricidade, não é uma
simples negação dos pressupostos hegemônicos da teoria
pedagógica eurocêntrica. Uma pedagogia Afrikano-centrada
está preocupada com a aquisição da autodeterminação e
autossuficiência para o povo Afrikano, mas, em última análise,
com a verdade e a “missão afrocêntrica de humanizar o
universo.”1
A elaboração de uma pedagogia Afrikano-centrada deve
começar com a descrição do contexto histórico e político-
econômico em que ocorre a discussão. A dinâmica nacionalista
Afrikana que está por trás da Afrikanocentricidade sempre foi
proeminente no sentimento popular e na filosofia social da
população Afrikana e sua liderança. Historicamente, os
Afrikanos na América oscilaram entre o sentimento
sociopolítico nacionalista e o assimilacionista.2 O novo
ressurgimento e expressão popular desse sentimento
nacionalista é muito parecido com as atuais lutas
nacionalistas de nossos irmãos na Áfrika Austral, já que, de
fato, as duas lutas estão paralelas há quase um século e
estiveram ligadas durante o mesmo período.3 As lutas

116
nacionalistas Afrikanas são paralelas ao ressurgimento das
culturas nacionais reprimidas da Europa Oriental e de toda a
Ásia; e o ressurgimento da militância dos ameríndios. A era da
expressão cultural pluralista coincide, não por acaso, com um
nivelamento do cenário político-econômico internacional. A era
das nações das superpotências unipolares, bipolares e
tripolares, cujos caprichos determinavam o curso dos eventos
mundiais, chegou a um fim sem cerimônia. O fracasso e o
colapso de uma economia política europeia baseada no
marxismo (socialismo e comunismo), e a fragmentação e
reordenação da outra (capitalismo)4, facilitaram o
florescimento de nacionalismos há muito adormecidos e
reprimidos.
O nivelamento da paisagem socioeconômica e cultural ou
da ordem mundial ocasionou o florescimento de culturas
nacionais que até então foram sistematicamente reprimidas e
sufocadas tanto pelos regimes marxistas quanto pelos
democratas liberais do Ocidente. Ambos são fenômenos
centrados na Europa e ambos obtiveram lucros brutos com a
hegemonia eurocêntrica nos assuntos internacionais nas
esferas cultural, política e econômica. Essa repressão foi
realizada por meio de métodos de força bruta, como invasão e
ocupação militar, escravidão, migração forçada, genocídio,
proibição da linguagem e tradição, dependência estrutural
imposta e repressão política; e, em segundo lugar, por métodos
de manipulação mental, como doutrinação religiosa e
mistificação, deseducação, dissidência racista, racismo
institucionalizado, repressão/inferiorização cultural e
propaganda em massa. A consequência de ambos os métodos
foi a negação psíquica e espiritual das pessoas dominadas.
Ambos os métodos de repressão foram envoltos de mitos

117
acomodacionistas egoístas, no crisol de raças, na cultura
comum, no ideal democrático ou federalista, no ideal cultural
universal, etc. A expressão de sentimentos nacionalistas ou
etnocentristas por essas nacionalidades reprimidas foram, e
ainda são, saudadas com acusações de separatismo, racismo
reverso, incitação à animosidade racial, militância equivocada,
balcanização, nacionalismo estreito, etc.5 Os defensores do
“ideal americano [de] cidadania comum [da] sociedade
multiétnica”6 deleitam-se com o colapso do socialismo e do
"império do mal", mas estão cegos para o legado de genocídio,
escravidão e pilhagem do Ocidente contra os Afrikanos e os
ameríndios, tendo camuflado e desnudado seu significado
psíquico e moral no tapete, luzes e sons de Hollywood e na folia
na TV. É essa mesma máquina de propaganda alegre que
entorpeceu a capacidade de pensamento da população em
geral, gerou despolitização em massa e covardia cívica,
comprometendo seriamente a viabilidade do experimento
democrático da América. A mesma máquina de propaganda
funcionou paralelamente à agenda de perpetuação do
mito/reprodução social do sistema educacional para mascarar
as contradições socioeconômicas, culturais e morais
fundamentais nas “democracias” ocidentais (europeu-
americanas).
A Afrikanocentricidade deve ser entendida nesta
perspectiva histórica e global. Como cosmovisão, não está
isolada dos eventos e dinâmicas do mundo. É informada pelas
lutas de outros Afrikanos e por lutas semelhantes de outros
povos. A Afrikanocentricidade é uma expressão nacionalista
da história e cultura da Áfrika e da transformação do homem,
mulher e criança Afrikanos e de seu mundo. Em última

118
análise, aspira a informar concreta e positivamente a condição
humana.
A pedagogia está aparentemente preocupada com a
metodologia de ensino. Não podemos lidar realisticamente com
a metodologia, entretanto, sem examinar dois assuntos
adicionais relacionados. Essas questões dizem respeito, em
primeiro lugar, à natureza do caráter do professor: o mwalimu.
A segunda questão diz respeito aos objetivos ou objeto da
metodologia. As três questões a serem examinadas na
elaboração de uma pedagogia afrocêntrica são, então: como,
quem e por quê. Nosso objetivo aqui se torna mais evidente
examinando as três questões na ordem inversa.

Por quê: Um Reexame da Pedagogia.


Os fins ou objetivos da pedagogia serão paralelos ou
ecoarão os objetivos gerais do sistema educacional do qual faz
parte. O próprio sistema educacional deve servir para
perpetuar o estado-nação e a realidade cultural subjacente
que o gerou. Como consequência, os pressupostos e princípios
fundamentais para esse estado-nação e essa cultura serão
encontrados na metodologia que os agentes do estado-nação
determinam usar para enculturar não apenas sua juventude,
mas todo o seu povo, por todos os meios disponíveis. A
educação está na mesma relação com a cultura nacional que
a criação de filhos está para a espécie humana; ou seja,
garante a perpetuação ou permanência e continuidade da
espécie. O caráter, composição, direção e vitalidade da
educação, como a da progênie humana, emanam diretamente
da essência do corpo dos pais. No caso da educação, se emite
a partir do continuum histórico que está na base da cultura.

119
A educação Afrikano-centrada é a codificação ou
expressão sistemática da vontade do povo Afrikano de
recuperar, recriar e perpetuar nossa herança cultural. Como
um empreendimento dinâmico, ela enriquece essa cultura ao
atuar para iluminá-la, ao tentar enculturar as pessoas cujas
experiências coletivas e históricas moldam e são moldadas por
essa cultura. A educação Afrikano-centrada fala ao mundo
Pan-Afrikano e simultaneamente aborda as várias expressões
nacionais desse mundo. Para os Afrikanos na América, a
educação Afrikano-centrada ocasiona o ressurgimento de uma
consciência nacional e o desejo de uma existência nacional
independente. Essa consciência não é nova nem única. Seu
precedente imediato foi o período dos anos sessenta, e antes
disso, o período do início dos anos vinte e o trabalho da UNIA
e de Marcus Garvey.
As profundezas da homogeneidade cultural original do
continente, a desumanidade grosseira do Holocausto da
Escravidão Afrikana, a dominação colonial e o neocolonialismo
serviram para estabelecer um vínculo potente de fraternidade
transoceânica e transnacional entre os Afrikanos.
Consequentemente, a educação Afrikano-centrada nas
comunidades Afrikano-americanas operará nos mesmos
princípios e terá os mesmos objetivos de uma filosofia
educacional Afrikano-centrada em Gana, Zimbábue ou
Azânia. Os objetivos essenciais são autossuficiência e
autodeterminação genuínas. Em cada nacionalidade, essa
educação buscará separar a si mesma e a nação dos efeitos
perversos da dominação atual, recente e remota. Linguagem,
valores, comportamentos, imagens, sistemas, instituições e
relacionamentos devem ser reexaminados completa e
criticamente. Essa educação buscará redescobrir as verdades

120
essenciais de seus ancestrais tradicionais imediatos e, em
última análise, buscará redescobrir e recuperar seus vínculos
espirituais e materiais com as civilizações clássicas de Kush,
Kemet, Nubia, Axum e Meroé.
Esse processo de redescoberta e recuperação não é
direcionado para a replicação simplista e equivocada dos
modelos tradicionais Afrikanos ou europeus. As necessidades
do mundo contemporâneo não podem ser satisfeitas de forma
adequada superpondo os costumes das sociedades clássicas e
tradicionais. Muito do ambiente histórico que ocasionou o
desenvolvimento de certas construções filosóficas e sociais não
existe mais. O objetivo da educação não é reencenar rituais,
valores, comportamentos e relacionamentos antigos que são
irrelevantes na modernidade. Em vez disso, deve agir para
iluminar essas características atemporais e dinâmicas das
sociedades tradicionais e clássicas. O conceito de Maat e toda
a filosofia ética e moral que o cerca são inestimáveis. O
conceito de Deus no homem, a natureza da “democracia
cooperativa”7 essencial das sociedades tradicionais e a
preeminência da família são valores atemporais, assim como a
concepção holística geral do universo. O conceito de dever
antes do direito também é um valor essencial na sociedade
tradicional. Além dos valores que continuam a ser
fundamentais para as sociedades tradicionais e que merecem
atenção séria e crítica, estão as estruturas políticas e sociais
igualmente meritórias. Com modificações para o
desenvolvimento tecnológico, a estrutura e funcionamento da
confederação Asante, o sistema Akan Abusua, ou o Njama Ya
Itwika do povo Kikuyu, ou o Induna do povo Zulu e outros
modelos tradicionais podem ser mais adequados para os

121
Afrikanos do que as estruturas obviamente ineficientes
herdadas dos poderes coloniais.
Uma concessão comum e trágica à conveniência política e
econômica entre os Afrikanos é a adoção acrítica e/ou a
continuação de sistemas e filosofias de educação de base
europeia, uma prática que só pode resultar em dependência e
inferiorização contínuas. Educadores Afrikanos bem-
intencionados frequentemente se voltam para as chamadas
teorias e práticas educacionais progressistas ou radicais que
são eurocêntricas para resolver os problemas que eles
vivenciam com os modelos eurocêntricos de educação. Essas
filosofias “radicais” de pensadores eurocêntricos (que se
proclamam guiados por preceitos de transformação social e
democracia) são uniformemente falhas em seu tratamento
incompleto da diferença cultural. Além disso, essas teorias e
teóricos eurocêntricos bem intencionados continuam a
assumir uma universalidade de resposta cultural e ideal
cultural. Freire, por exemplo, cuja filosofia e realizações
inspiraram muitos, retém uma análise marxista essencial da
história social e sofre das mesmas limitações do marxismo no
que se refere à cultura e à raça.
Há um pressuposto de universalidade que permeia os
escritos de Freire, que é derivado de um tratamento filosófico
eurocêntrico da natureza do conhecimento e da natureza das
relações “homem-mundo”. Essa perspectiva universalista é
típica daqueles teóricos políticos eurocêntricos “radicais” que
rotineiramente subestimam a importância da diferença
cultural nacional e racial. Dado o ressurgimento do
nacionalismo entre os grupos étnicos da Europa e da Ásia com
o colapso do comunismo, e as contínuas tensões entre as
nações tradicionais da Áfrika, esta tendência para o

122
eufemismo deveria ser suficientemente contradita pela
realidade para ser permanentemente posta de lado.
O delineamento de Freire da pedagogia de
problematização, diálogo como metodologia e ação cultural é
profundo. Sua concepção de cultura antecipa uma
“metalinguagem” de “princípios pedagógicos revolucionários”8
que é consistente com a orientação universalista geral de sua
obra. Freire descreve a cultura como uma “superestrutura que
pode manter 'resquícios' do passado vivos na subestrutura em
transformação revolucionária.”9 Apesar da aparente
fundamentação de Freire no conceito de “unidade entre
subjetividade e objetividade” e “conscientização”10, ele é, no
entanto, limitado pelo paradigma estrutural marxista em que
a cultura é incidental às relações sociais e à dinâmica
histórica. O fato de ele não reconhecer ou incorporar em suas
teorias as ricas, variadas e vigorosas tradições culturais dos
Afrikanos brasileiros, mais de 50% da população, só pode ser
atribuído às limitações teóricas de sua perspectiva
eurocêntrica e estruturalista essencial.
Para Freire, o passado é sinônimo de opressão e invasão
psíquica pela cultura opressora. Não há previsão para as
características etnocêntricas dinâmicas que moldaram as
interações e relacionamentos sociais: características que
moldaram ainda mais as tradições, filosofia, moralidade, arte
e espiritualidade que antecederam a era da dominação
capitalista, que são concomitantes a ela e que provavelmente
inaugurarão a era seguinte.
Freire faz eco a Franz Fanon sobre o impacto regenerativo
da luta de libertação sobre a cultura e os oprimidos. Fanon,
no entanto, vincula a luta pela existência nacional
intimamente com a “fecundidade” e “renovação e

123
aprofundamento contínuos” da cultura nacional11. O conceito
de cultura de Fanon abraça a ideia de continuidade rompida
que é elaborada também por Amilcar Cabral. Cabral postula
que a dinâmica da cultura tradicional, embora abortada pelo
colonialismo, ainda assim fornece a fonte para a resistência e
reconstrução nacional.12 O apelo de Cabral para um processo
de “re-Afrikanização” é um apelo para restabelecer o continuum
histórico Afrikano que sustenta a cultura Afrikana. É claro que
a ruptura desse continuum histórico explica as atuais
distorções culturais, a fragilidade das organizações políticas e
a dependência das economias nacionais Afrikanas.
As razões do escoamento de talentos que o continente
Afrikano e a nação da diáspora vivenciam, bem como o
enxerto, nepotismo, incompetência e desperdício podem ser
encontrados na estrutura educacional, nas filosofias, nas
teorias, no conteúdo temático e na pedagogia herdados dos
poderes coloniais. Essas potências coloniais europeias
educaram os professores e administradores com o propósito
único de manter o pensamento e os comportamentos
eurocêntricos que continuam a servir e proteger os interesses
políticos e econômicos europeus. Jamaica, Quênia, Zimbábue,
Nigéria e outras ex-nações coloniais britânicas ainda
empregam vestígios do sistema britânico, incluindo textos e
currículos britânicos e americanos. Os exames nacionais,
muitas vezes, ainda são enviados à Grã-Bretanha para
avaliação.
Onde o sistema nacional é modelado pela ótica do opressor
e executado na língua do opressor, e onde os padrões de
sucesso ainda são determinados direta e indiretamente pelo
opressor, a dependência e a inferiorização da cultura
indígena/nativa podem ser o único resultado. Na verdade, foi

124
o desígnio das potências coloniais, em vista de sua reduzida
capacidade de conter as demandas políticas e econômicas das
populações indígenas após a Segunda Guerra Mundial,
proteger seus interesses após a “independência” pela
transferência de poder para “colaboradores africanos
moderados”, ou silenciando o “radicalismo dos líderes
populares por meio de ‘tentações materiais’” e por remoção
física quando necessário.13
O objetivo de uma pedagogia Afrikano-centrada é iluminar
e legar a sabedoria acumulada e o legado cultural de geração
em geração. Para garantir a viabilidade continuada e ampliada
dessa cultura, esse processo deve ocorrer dentro de um
contexto de descoberta mútua, inspiração, criatividade e
reciprocidade. Uma pedagogia Afrikano-centrada, uma
pedagogia transmitida pelo continuum histórico mundial
Afrikano e pela dinâmica cultural, se esforça para estimular e
nutrir a consciência criativa e crítica, e através do estudo e
aplicação, inculcar um compromisso firme e consciente para a
reconstrução da verdadeira nacionalidade Afrikana e para a
restauração do continuum histórico/cultural Afrikano. Ela se
esforça para criar uma personalidade Afrikana dinâmica e
livre, que é percebida quando o/a mwalimu (professor/a)14 e
o/a mwanafunzi (aluno/a) interagem entre si, e,
simultaneamente, agem para transformar seus ambientes em
modelos dinâmicos de liberdade e humanismo, mas de uma
forma que reflita sua afrikanidade fundamental.

Quem: As Características do Mwalimu.


Aquele indivíduo que assume o papel de mwalimu, ou que
é nomeado, deve ser aquele que não é apenas estudado na
história e cultura de nosso povo, mas aquele que está em

125
completa identificação com o povo. O mwalimu não deve
apenas estar envolvido no estudo da cultura, mas deve estar
envolvido de uma forma concreta e contínua com a promoção
dos interesses culturais e/ou políticos do povo Afrikano. O
mwalimu se apresenta aos seus wanafunzi (alunos) como um
representante de toda a cultura. Ao mwalimu é confiada a
tarefa de inculcar os valores essenciais dessa cultura e, assim,
garantir sua continuidade.
O mwalimu chega à sala de aula representando, em certo
sentido, as limitações da tradição e da ordem existente. O
mwanafunzi vem para a sala de aula representando a nova
ordem ou a potencialidade ilimitada. O mwalimu, como
representante da ordem atual, traz consigo toda a sabedoria
acumulada da tradição e deve procurar transmitir essa
sabedoria de uma forma que inspire e alimente a nova energia
e o potencial ilimitado do mwanafunzi. O mwalimu deve
possuir um domínio geral dessa sabedoria acumulada, junto
com um domínio específico de uma área da especialidade
escolhida. Além dessa competência geral, o mwalimu deve
possuir um impulso profundo e contagiante para obter um
maior domínio e sabedoria da tradição e da modernidade.
O mwanafunzi deve ser motivado pelo mwalimu a ponto de
receber essa sabedoria como combustível de longo prazo e não
como um fardo. Se essa sabedoria, o tesouro cultural e a
herança da nação, for percebida como um fardo, então os
walimu e a nação falharam e a continuidade nacional/cultural
está em risco. O mwalimu é o canal essencial e o nexo entre a
tradição e o potencial da nação.
O mwalimu só pode ser eficaz no cumprimento dessa
tarefa se for um participante ativo nesse coletivo de trabalho
que se dedica ao desenvolvimento cultural, político e

126
económico da comunidade Afrikana. O mwalimu deve trazer
entusiasmo, convicção, clareza ideológica, integridade moral e
coragem, bem como conhecimento, para o ambiente de
ensino/aprendizagem. As mensagens latentes e informações
compartilhadas pelo mwalimu por meio de nuances físicas,
tom de voz, estilo de cabelo, vestuário e caráter são tão
importantes para um ambiente de ensino/aprendizagem eficaz
assim como as aulas estruturadas. Se o mwalimu for
deficiente em qualquer área, o respeito do wanafunzi e a
eficácia do encontro professor/aluno serão comprometidos.
Dado o papel crítico que o mwalimu deve desempenhar na
manutenção e melhoria da cultura nacional, não é de admirar
que nas civilizações clássicas da Áfrika e nas sociedades
tradicionais ainda viáveis, o conhecimento superior ou central
foi confiado apenas aos mais estimados anciãos e líderes
espirituais. 15
O ambiente de ensino/aprendizagem Afrikano-centrado
eficaz inclui o relacionamento imediato entre mwalimu e
mwanafunzi, professor e aluno, respectivamente. Esse
ambiente se estende e inclui o envolvimento ativo da família,
da escola como ponto focal da comunidade e da própria
comunidade. Cada um dos vários elementos ativos, -
mwalimu, mwanafunzi, família, escola e comunidade, - deve
estar culturalmente alinhado ideologicamente. Os fatores
coesos e motivadores que energizam o ambiente são a
identidade, os valores, a linguagem e os objetivos
compartilhados: em suma, a consciência do Nacionalismo
Afrikano e o desenvolvimento sociopolítico da comunidade
Afrikana.
Cada um dos vários elementos ativos é organizado de
forma a aumentar e reforçar o contexto cultural do processo

127
educativo. O envolvimento dos pais é obrigatório pela política
escolar e é facilitado pela organização da escola e pela filosofia
de gestão comunitária da administração escolar. Espera-se
que os wazazi (pais) estejam intimamente envolvidos no
desenvolvimento intelectual do mwanafunzi e tenham
oportunidades de crescimento intelectual. Espera-se que os
wazazi mantenham um comprometimento entusiástico e um
envolvimento em atividades culturais e com outros wazazi e
famílias. O envolvimento dos wazazi na gestão escolar é
facilitado através da representação em comitês apropriados,
envolvimento no apoio escolar, em projetos de
desenvolvimento e no fácil acesso à informação.
A resposta inicial do mwanafunzi na sala de aula costuma
ser de clara resistência e desafio. Na verdade, o
comportamento do mwanafunzi é sempre caracterizado por
alguma resistência, uma certa medida da qual é necessária e
benéfica para o ambiente de ensino/aprendizagem. Essa
resistência é uma função tanto do desenvolvimento
psicoafetivo quanto uma manifestação do “comportamento de
oposição”16 nascido da condição social e cultural repressiva do
povo Afrikano. Algumas das fontes imediatas dessa resistência
incluem a crescente fragmentação da comunidade e a
atomização da família como consequência da propaganda
individualista de interesses comerciais. Outras fontes dessa
resistência incluem a proeminência de fontes de informação e
valores não-Afrikanos e não-comunitários (particularmente a
paixão pela violência), e a prevalência do desrespeito pelas
fontes tradicionais de autoridade dentro da família e da
comunidade. A resistência que o perceptivo mwalimu observa
no mwanafunzi vai além da simples obstinação,
automotivação marginal/obtenção de atenção negativa ou

128
simples criação de malícia, embora possa ser mascarada por
esses comportamentos secundários.
É tarefa, então, do mwalimu facilitar o redirecionamento
da energia do mwanafunzi para longe do desafio individual
reacionário e aproximar do desafio social de análise
cultural/política, estudo, e reconstrução do mundo Afrikano.
Concedendo um forte, coeso e funcional ambiente
familiar/escolar/comunitário, e um mwalimu capaz e criativo,
que resiste, como as mudas antes da última geada da
primavera, pode ser nutrido e conduzido à proeminência.
Quando essa resistência é nutrida e, posteriormente, focada e
definida por meio da metodologia dialógica Afrikano-centrada,
essa resistência pode se manifestar no espirito criativo,
irreprimível e revolucionário de Harriet Tubman ou Yaa
Asantewa, ou na força de um Marcus, Malcolm, Martin ou
George Jackson.
Entre o mwanafunzi do sexo masculino durante os anos
de pré-adolescência/adolescência, essa resistência e a
necessidade de redefinir as situações problemáticas
percebidas são ainda mais intensificadas pelo surgimento do
“espírito guerreiro”. É o surgimento desse espírito guerreiro
viril e expansivo que nas sociedades tradicionais ocasionava o
prolongado isolamento do filho. O propósito desse isolamento
era inculcar autodisciplina, autoconsciência, conhecimento e
apreciação da tradição e dos limites, e necessidades da ordem
social. Na ausência daquele treinamento socialmente
obrigatório em disciplina e ordem e de vias estruturadas para
a aplicação desse espírito guerreiro, estava claro para nossos
ancestrais que o espírito seria autodestrutivo e, de fato,
romperia a própria fibra da sociedade. A atual epidemia de
violência autodestrutiva entre nossos jovens, que agora

129
paralisa nossas comunidades, é uma consequência direta da
capacidade institucional inadequada de dirigir esse espírito
guerreiro. Existem três direções possíveis para a manifestação
dessa resistência/espírito. Elas são (a) malícia indisciplinada
e desenfreada, e autodestruição que serve para sustentar
nossa impotência e repressão coletiva; (b) um acomodamento
agressivo que atua como um agente da hegemonia
eurocêntrica para fortalecer ainda mais nosso status social
subordinado; ou (c) um meio para alcançar a libertação
nacional. É missão do mwalimu, atuando no coletivo da
família, da escola e da comunidade, reconhecer essa
resistência, esse espírito, e intensificá-lo e focalizá-lo num
contexto de valorização Afrikano-centrado. Depois disso, em
colaboração com a família, escola e comunidade, o mwalimu
deve canalizar esse espírito para os propósitos de libertação
nacional e construção da nação (Nacionalismo Afrikano).
Conforme indicado anteriormente, o mwalimu leva para a
sala de aula a sabedoria acumulada entre a tradição e a
sociedade contemporânea. O conhecimento histórico, cultural
e político do mwalimu deve ser abrangente, e o domínio de
alguma área particular de estudo também deve ser completo.
O mwalimu deve ter conhecimento geral da história da Áfrika:
dos principais eventos e temas que caracterizam essa história,
ele/ela deve, adicionalmente, ter conhecimento do
envolvimento dos Afrikanos na história mundial, bem como do
envolvimento atual dos Afrikanos na disciplina específica que
está sendo ensinada. Essa história e a construção
cultural/ideológica Afrikana que a engendra fornecem o
contexto para as habilidades e processos que são os objetivos
da instrução/ensino.

130
A resolução de problemas e as habilidades de investigação
em matemática e ciências podem ser desenvolvidas usando
situações sociais, históricas ou técnicas que envolvem os
Afrikanos. O estudo dos partidos políticos poderia começar
com um estudo comparativo dos sistemas multipartidários
únicos e seminais nos Estados Afrikanos. As crises das drogas
e homicídios em nossas comunidades ou o legado contínuo de
instabilidade entre os Estados continentais são problemas
sociopolíticos que podem ser usados para facilitar essas
habilidades de pensamento e processos. Os problemas da
produção agrícola, sistemas econômicos e questões de saúde
no continente e na diáspora são áreas particularmente ricas
para estudos de matemática e ciências, uma vez que a
abundância de dados científicos e opções tecnológicas se
presta à pesquisa, habilidades de síntese, formulação de
hipóteses e aplicação. O pensamento crítico e criativo, a
compreensão, a tomada de decisões nas artes, na literatura e
nas ciências sociais podem ser desenvolvidos usando
informações e exemplos da experiência histórico/cultural
Afrikana. Ao usar experiências do mundo real, a área temática
é desmistificada e trazida para o reino do possível para o
mwanafunzi. A vida real e as experiências históricas da Áfrika
identificam e conectam o mwanafunzi com o continuum
cultural/histórico do povo Afrikano, uma vez que facilitam a
análise crítica/criativa e a descoberta de relações sociais. Este
contexto da vida real facilita a interação entre mwalimu e
mwanafunzi, que deve ser sempre caracterizada por uma
reciprocidade que ocasiona a descoberta e o desenvolvimento
intelectual de ambos.

131
Como: Métodos e Metas.
Descrevemos a relação entre mwalimu e mwanafunzi como
interativa, o que significa que há uma troca vibrante de
informações, aprendizado mútuo e inspiração. Este ato
interativo e recíproco de comunicação entre mwalimu e
mwanafunzi é exemplificado pelo círculo comunal nas
sociedades Afrikanas tradicionais. É o círculo/roda, com seu
movimento anti-horário, que facilita a comunhão espiritual
nos sistemas espirituais tradicionais. Foi o círculo com o mais
velho da família ou griot à frente que facilitou o fluxo
intergeracional da história e da cultura. É, portanto, o círculo
interativo, tão potente e central para nossa experiência
cultural, que deve ser adaptado para uso em uma pedagogia
Afrikano-centrada. Esse círculo, que é explicitamente coletivo
e comunitário, pode facilitar o tipo de discurso dinâmico e
recíproco que é essencial para o desenvolvimento da
personalidade Afrikana verdadeiramente livre. O círculo é
particularmente adequado para facilitar a participação ativa
de todos os seus membros e permite ao mwalimu ajustar
facilmente sua postura de forma igualitária para a de
mediador, facilitador, palestrante, adversário e vários graus
intermediários. O círculo é fluido o suficiente para que haja
oportunidade para a iniciativa e criatividade do mwanafunzi, e
pode promover o desenvolvimento de habilidades cooperativas
e um senso de reciprocidade e responsabilidade mútua.
Também pode facilitar o desenvolvimento de habilidades de
liderança.
O círculo substitui o mero posicionamento estacionário do
mwanafunzi e do mwalimu em arranjo circular. A preocupação
central aqui é com a dinâmica do processo de aprendizagem,
que o arranjo circular certamente facilita. O círculo interativo

132
exige (a) um fluxo recíproco constante de ideias, (b) movimento
físico real do mwalimu para variar sua proximidade física e
psíquica, (c) manutenção de um certo nível de intensidade e
antecipação, e (d) garantia de absorção, feedback e atenção a
todos os wanafunzi. Além do posicionamento e do processo
interativo, a dinâmica circular é consistente com o estilo
cultural/cognitivo Afrikano: Hilliard e Akbar,17 entre outros
psicólogos Afrikano-centrados, determinaram que o estilo
cultural/cognitivo Afrikano é caracterizado pelo seguinte:

A) Ter organização cognitiva circular


B) Sociocêntrico
C) Orientado para as pessoas
D) Intuitivo
E) Relacional
F) Espontâneo
G) Adaptativo
H) Holístico
I) Altruísta
J) Altamente afetivo
K) Estilo de raciocínio inferencial
L) Ter proficiência não verbal - (linguagem corporal,
nuance tonal, etc.)
M) Empático

As características circulares e holísticas do estilo


cultural/cognitivo Afrikano correspondem aos processos
cognitivos que estão associados ao lado direito do cérebro.
Para o mwalimu ou wazazi (pais), deve-se notar que nenhum
hemisfério do cérebro é inteiramente exclusivo do outro, e que,
embora o cérebro Afrikano se centre e se origine no lado

133
direito, não é de forma alguma limitado no que diz respeito às
competências associadas às propriedades lineares/analíticas
do hemisfério esquerdo. É também significativo que a principal
preocupação das ciências mais avançadas seja encontrar
soluções holísticas para os problemas científicos e
tecnológicos. Esses problemas incluem processamento
paralelo no projeto do computador; as tentativas de teorias
unificadas em física e psicologia, e a ligação da ciência,
matemática e humanidades pela ciência emergente do caos.
Essa preocupação com soluções holísticas para os mistérios
do mundo material é um eco da filosofia e das investigações
científicas do antigo Kemet.
Estão incluídas aqui duas representações gráficas
diferentes do círculo interativo. A representação inicial enfoca
o encontro real de aprendizagem/ensino e demonstra os
papéis interativos da família, escola e comunidade nesse
encontro (Figura D). A segunda representação pretende
demonstrar os papéis complementares dos atores principais
em todo o processo de enculturação. Esses atores são família,
mwalimu, escola e comunidade. Esses atores e o mwanafunzi
são ainda interligados por quatro elementos conectivos no
esforço colaborativo que a enculturação requer: (a)
alinhamento ideológico e crescimento mútuo, (b) compromisso
e responsabilidade mútuos, (c) alinhamento e envolvimento
cultural, e (d) proximidade física com interação substantiva
(Figura E). O dinamismo do discurso dentro do círculo
interativo é o que Freire descreve como educação dialógica. A
essência da educação dialógica é o diálogo: que é “o encontro
entre os homens, mediado pelo mundo, para dar nome ao
mundo ... [é] o encontro em que a reflexão e a ação conjuntas
dos dialogantes se dirigem ao mundo a ser transformado e

134
humanizado.”18 O diálogo, ou discurso recíproco entre
mwalimu e mwanafunzi, reafirma a característica
humanizadora e civilizadora da linguagem. Essa interação
muito humana, mesmo nos níveis pré-escolar e primário, é
mais eficaz quando usada de acordo com o nível cognitivo da
criança. Nesse nível acadêmico e em todos os níveis, os
diversos manipulanda [manipulandum, singular] de textos,
computadores, diversos recursos visuais, etc., são meios de
reforço secundários, às vezes não-essenciais. Frequentemente,
o uso excessivo de manipulandum promove o foco
individualista e materialista da sociedade ocidental e, assim,
enfraquece a natureza comunalista e colaborativa da
aprendizagem em um contexto Afrikano-centrado. Além disso,
a dependência de manipuladores diminui a responsabilidade
do mwalimu como o canal humano e humanizador primário
para a regeneração cultural. Manipulativos por si só não
podem ensinar. A habilidade mais fundamental para o
mwalimu é a habilidade de manipular a linguagem de forma a
estimular e dirigir os processos cognitivos do mwanafunzi.

135
(D) Figura: CÍRCULO INTERATIVO-
Colocação Social do Encontro da Aprendizagem/Ensino

136
O diálogo talvez seja demonstrado mais graficamente na
relação entre o mestre baterista tradicional e o mestre
dançarino.
"Os dançarinos se movem, e o músico encontra os sons
correspondentes, é um diálogo. Ondas visíveis de
movimento corporal que buscam e são respondidas por
ondas audíveis de música. O diálogo continua. Às vezes
se torna um debate, uma competição”.19
A relação do mwanafunzi com o mwalimu é como a do
baterista com o dançarino: O baterista segue a liderança do
dançarino; e neste diálogo ambos são desafiados e inspirados
a maiores níveis de arte do que o previsto. No final, tanto o
dançarino quanto o baterista, e a dança em si, são
transformados.
O diálogo assume um contexto cultural e ideológico. Esse
contexto é definido em diferentes perspectivas ideológicas
sobre a realidade das condições físicas, espirituais e
sociopolíticas de uma determinada cultura. O diálogo ocorre à
medida que o mwalimu busca iluminar as relações e processos
históricos e contemporâneos que constituem essa realidade.
Depois disso ou durante esse processo, o mwalimu envolve o
mwanafunzi no exame crítico e criativo desses processos e
relacionamentos. Durante esse exame, tanto o mwalimu
quanto o mwanafunzi, cujos interesses são a transformação-
reconstrução social/cultural, são eles próprios transformados.
O diálogo genuíno, iniciado dentro do círculo interativo e/ou
dirigido pelo mwalimu, deve envolver fortemente os
mwanafunzi na troca intelectual, que surge do trabalho que é
orientado para objetivos culturais-ideológicos gerais. Os
objetivos de reconstrução e revigoramento da cultura
Afrikana, e a reconstrução da nação/mundo Afrikano devem

137
ser os objetivos finais de toda pedagogia. Cada encontro de
ensino/aprendizagem deve ser informado por esse objetivo.

(E) Figura: Papéis Interativos do Processo de


Enculturação

138
Na busca desse objetivo, as escolas independentes sob a
estrutura do Conselho de Instituições Pretas Independentes
(CIBI, em inglês)20 consideraram eficaz incorporar objetivos de
valorização como componentes essenciais da
instrução/ensino. Esses objetivos de valorização empregam os
fundamentos dos Nguzo Saba (Sete Princípios) como o veículo
para transmitir valores que são consistentes e derivados do
objetivo final.21 Os princípios do Nguzo Saba incluem Umoja
(unidade), Kujichagalia (autodeterminação), Ujima (trabalho
coletivo e responsabilidade), Ujamaa (economia cooperativa),
Nia (propósito), Kuumba (criatividade) e Imani (fé).22
A consciência desses objetivos culturais/ideológicos
fundamentais será menos desenvolvida no jovem mwanafunzi.
Com o mtoto (criança) mais jovem, o mwalimu deve engajá-lo
em um diálogo que emprega linguagem e conceitos adequados
ao desenvolvimento cognitivo e ao nível de desempenho da
criança. O mwalimu deve criar um ambiente físico de
exibições, centros de aprendizagem e atividades dentro da sala
de aula que reflitam não apenas o nível cognitivo do
mwanafunzi, mas também o nível de consciência
cultural/ideológica que o mwalimu determina estar ao alcance
do mwanafunzi. Além das exibições físicas reais, a dinâmica
da sala de aula e o processo de ensino/aprendizagem real
devem facilitar o desenvolvimento das habilidades de
pensamento criativo e crítico do mwanafunzi. O
desenvolvimento dessas habilidades requer vários elementos,
incluindo a presença do mwalimu descrita anteriormente.
Também requer que o conteúdo real das aulas reflita o
equilíbrio de três considerações; a) conteúdo do currículo
prescrito pela escola/comunidade, b) interesses do
mwanafunzi, c) o assunto e as atividades que o mwalimu,

139
atento aos interesses expressos do mwanafunzi e demonstrada
prontidão, considera serem os mais apropriados.
Em termos práticos, os walimu utilizam uma variedade de
estratégias de ensino ou assistência durante o curso de uma
experiência de aprendizagem estruturada. Embora seja
imperativo que o mwalimu permaneça consciente do objetivo
ou macro-objetivo cultural-ideológico final, o processo real de
ensino/facilitação/assistência englobará três grandes fases.
Essas fases incluem (a) Didática, (b) Exame e Análise Dialógica
e (c) Síntese e Aplicação. Cada fase tem estratégias, conteúdos
e objetivos cognitivos correspondentes. As fases não são
exclusivas umas das outras e podem, de fato, se desenvolver
simultaneamente.
O mwalimu deve estar ciente de que cada fase de
instrução, e todo o encontro de ensino/aprendizagem, visa a
reconfiguração cognitiva. A reconfiguração cognitiva refere-se
a esse processo de alterar os padrões existentes de
pensamento e avaliação, e estimular ou persuadir a agir e
direcionar as habilidades autogeradoras do mwanafunzi para
criar novos padrões. O mwalimu deve reconhecer que a
diferença entre padrões impostos de pensamento e avaliação,
por um lado, e aquele processo que se autogerou em
associação livre com a cultura/coletivo, por outro, é a
diferença entre a propaganda e o ensino na perspectiva de uma
pedagogia humanizadora Afrikano-centrada.
A missão da educação Afrikano-centrada ecoa o objetivo
da ideologia Pan-Afrikanista, a reconstrução cultural, político-
econômica e espiritual, e a libertação do mundo Afrikano.
Dentro dessa missão ampla, o objetivo de uma pedagogia de
libertação e de construção da nação (Nacionalismo Afrikano) é
facilitar a reordenação dos processos cognitivos existentes do

140
mwanafunzi, e ainda reabilitar estruturas adormecidas não
afetadas por encontros com a supremacia branca.
Adicionalmente, visa facilitar o desenvolvimento de novos
processos que complementem a nova ordem
espiritual/política/cultural; processos que estão totalmente
alinhados com o continuum histórico/cultural tradicional da
Áfrika. Finalmente, a pedagogia deve servir de parteira no
nascimento de um ser humano re-Afrikanizado, livre e
pensante.
O desenvolvimento progressivo da consciência cultural do
mwanafunzi corresponderá à sua habilidade cognitiva relativa.
No caso de pré-escolares, mwanafunzi do ensino fundamental
e médio, o mwalimu fornece o foco e os objetivos
culturais/ideológicos. Esse foco é um componente implícito e
essencial da presença do mwalimu descrita anteriormente e
deve ser uma característica proeminente no caráter do
mwalimu. No decorrer dos últimos anos do ensino
fundamental e médio, o foco progressivamente mais ideológico
é fornecido pela comunidade e pela nação. O mwanafunzi deve
estar ciente e visivelmente afetado pelo poder da convicção
cultural, objetividade e clareza ideológica do mwalimu.
Igualmente importante é a elaboração explícita dessas metas
culturais/ideológicas ao longo da instrução formal, bem como
por meios menos diretos, incluindo o modo escolhido de se
vestir pelo mwalimu, a aparência, a linguagem (vocabulário e
nuance tonal) e a interação social. Também são necessários
monitores em sala de aula e o nível de expectativas do
mwalimu. O diálogo dessa maneira é fundamentalmente
generativo. Quando realizado como componente essencial de
um programa educacional integral, seu resultado vai além da
mera transformação, o que implica uma alteração da mesma

141
substância, em vez disso, dá origem a uma nova ordem social
e uma nova pessoa, uma personalidade livre. Essa nova ordem
social e essa personalidade livre são posteriormente
sustentadas pela própria metodologia dialógica, de dar e
receber, que os trouxeram à existência.23
A necessidade do mwalimu de elaborar esses objetivos
culturais/ideológicos não deve ser confundida com tentativas
de sufocar o pensamento crítico e criativo. Simplesmente
reconhece que todo conhecimento é determinado
culturalmente. Dada a natureza hegemônica da cultura
europeia, o domínio e intratabilidade da mídia, e a
perpetuação institucional dessa cultura, os walimu, assim
como os pais, a escola e a comunidade, devem
conscientemente fornecer faróis que iluminem a verdade de
nossa história, nossa condição atual e nosso futuro como
povo. O mwalimu trairia a sua missão se se engajasse em
ações que desencorajassem o pensamento criativo e crítico, e
que divorciassem o seu diálogo da realidade da luta Afrikana
pela verdade cultural/histórica e pela reconstrução nacional.
O compromisso de nossos filhos com esta luta, com a cultura
e a ideologia só pode vir através do exercício de seus processos
de pensamento individuais: isto é, através do conhecimento e
descoberta de verdades históricas; por meio de comparação;
hipóteses e testes por meio de debate, julgamento e aplicação;
por meio de análise e síntese; por meio do pensamento criativo
e crítico; por meio de processos de resolução de problemas; e
através da avaliação final e tomada de decisão.
É a ausência de um diálogo atencioso e envolvente
referenciado no trabalho criativo e orientado para objetivos
que pressagia a presença de doutrinação e propaganda. A
propaganda visa “invadir o homem todo, levá-lo a adotar uma

142
atitude mística e alcançá-la por todos os canais psicológicos
possíveis e não tolera discussão... exclui contradição e
discussão”.24 Já vimos ocasiões em que o mwalimu bem-
intencionado em escolas independentes e programas de
enriquecimento cultural abordaram crianças e adultos como
meros receptáculos psíquicos a serem preenchidos com a
verdade histórica. Espera-se que essa verdade assim
implantada neutralize as distorções/desordens psíquicas e
espirituais nascidas da deseducação e dê luz à uma nova
pessoa. Na verdade, essa abordagem rebaixa a capacidade
intelectual do mwanafunzi e implicitamente coloca o mwalimu
em uma posição dominante semelhante à posição hegemônica
da cultura eurocêntrica.
Não há renascimento aqui, apenas dogma e as armadilhas
frágeis da consciência cultural fragmentada. Tanto o dogma
quanto a consciência incompleta falham vergonhosamente
quando confrontados com argumentos fortes, incentivos
materiais ou a propaganda implacável da mídia popular.
Muitas das crianças e adultos que se matricularam por meio
de nossos programas abandonaram a estrutura cultural
Afrikano-centrada porque não tivemos sucesso em alcançá-los
psíquica e espiritualmente. Erroneamente presumimos que
somente a verdade, uma vez apresentada, os libertaria.
Ingenuamente, subestimamos o efeito implacável e hipnótico
da propaganda social eurocêntrica. É verdade que muitos de
nosso povo são tão alienados culturalmente que é impossível
envolvê-los em uma interação significativa.
A tarefa do mwalimu é tornar a experiência de
ensino/aprendizagem do círculo interativo suficientemente
intensa, estimulante e abrangente para neutralizar a
hegemonia cultural eurocêntrica e facilitar a síntese

143
autodeterminada, criativa e crítica, na descoberta e no
compromisso com uma formação cultural autorreflexiva: uma
nacionalidade Afrikano-centrada.
A frente de batalha para os Afrikanos na América é a
consciência de nosso povo, e a cultura dominante usará todos
os veículos à sua disposição para manter seu controle sobre
essa consciência. É o mwalimu - confiante, capaz e
comprometido, empregando um amplo repertório de técnicas
dentro do círculo interativo - que se destaca como a primeira
sentinela na guerra a recapturar a mente de nosso povo,
engendrar a personalidade Afrikana livre e reconstruir a
nação/mundo Afrikano.

Notas.
1. Molefi, Asante. Afrocenfricity. Trenton: Africa World
Press, 1988.

2. Consulte as obras de Lerone Bennett, Maulana Karenga,


Sterling Stuckey e Harold Cruse.

3. Martin, Tony. Race First. Dover: The Majority Press,


1976.

4. A referência aqui inclui a consideração dos interesses


nacionalistas divergentes do Japão, uma recém-assertiva e
unificada Comunidade Europeia, os EUA e outras potências
capitalistas. O legado da Segunda Guerra Mundial de domínio
americano nas finanças internacionais e na produtividade está
sendo rapidamente corroído, com temores de declínio iminente
prevalecendo na política americana dominante.

144
5. Krauthammer, Charles. “What’s Left in the Left”,
Washington Post. December 21, 1990.

6. Leo, John. "A Fringe History of The World", U.S. News


world Report. Nov. 12 1990.

7. Williams, Chancellor. Rebirth of African Civilization.


Washington, D.C.: Public Affairs Press, 1961.

8. Freire, Paulo. The Politics of Education. New York: Bergin


& Garvey Publishers, 1985, p. xvii.

9. Freire, Paulo: Pedagogy of The Oppressed. New York:


The Continuum Publishing Co., 1970, p. 156.

10. Freire, The Politics of Education. p. 69.

11. Fanon, Franz, The Wretched of The Earth. New York:


Grove Press, 1968, p. 244.

12. Cabral, Amlicar. Return to the Source: Selected


Speeches of Amilcar Cabral. Ed. By Africa Information Service,
New York: Modern Reader, 1973, p.45.

13. Hargreaves, John D. “Toward the Transfer of Power in


British West Africa”, The Transfers of Power in Africa. ed. by
Prosser, Gifford and Wm. Roger Louis", New Haven: Yale
University Press, 1982, p. 140.

14. Mwalimu e mwanafunzi, e as formas plurais walimu e


wanafunzi são termos Kiswahili usados como títulos de
professores (ou outros adultos) e alunos, respectivamente,
dentro das instituições independentes Afrikano-centradas.
145
15. James, George G. M. Stolen Legacy. San Francisco:
Julian Richardson Associates; Publishers, 1988. Ver também
Hilliard, Asa. "Pedagogy in Ancient Kernet", Kemet and the
African Worldview. ed. by Karenga, Maulana and Jacob
Carruthers. Los Angeles: University of Sankore Press, 1986.

16. Giroux, Henry. Teachers As Intellectuals. New York:


Bergin & Garvey, 1988.

17. As contribuições de ambos são discutidas em Black


Children: their Roots, Culture and Learning Styles, de Janice E.
Hale-Benson, Baltimore: The John Hopkins University Press,
1986, p. 21.

18. Freire. Pedagogy of the Oppessed.

19. Diallo, Yaya and Mitchell Hali. The Healing Drum.


Rochester: Desdny Books, 1989; p. 58.

20. O Council Of Independent Black Institutions foi formado


em 1968 como uma organização nacional de instituições
educacionais independentes Afrikano-centradas. As
atividades do CIBI incluem treinamento de professores,
atividades nacionais de estudantes, desenvolvimento de
currículo, locais de informações sobre escolas independentes
e credenciamento.

21. Council of Independent Black Institutions. Positive


Afrikan Images for Children. ed. By Agyei Akoto. Trenton: Red
Sea Press, 1990.

146
22. Karenga, Maulana. Kwanzaa. Los Angeles: University
of Sankore Press.

23. Fanon, Franz, The Wretched of The Earth. p. 245.

24. Ellul, Jacques. Propaganda. New fork: Vintage Books,


1965.

147
2. Rumo à um Currículo Afrikano-
centrado

Um currículo Afrikano-centrado deve se preocupar em


abordar várias questões, incluindo estas: quais
conhecimentos e habilidades (espirituais, intelectuais e físicas)
são valiosos; como esse conhecimento e essas habilidades
devem ser transmitidos e seu domínio assegurado; e quais são
os objetivos sociais e pessoais específicos desse currículo.
Responder a essas e outras questões relacionadas dentro de
uma estrutura coerente e consistente, sustentada pelos
preceitos geralmente aceitos do Nacionalismo Afrikano e do
Pan-Afrikanismo, pode nos fornecer a substância de um
currículo Afrikano-centrado. A complexidade e a dificuldade
de responder a essas perguntas são agravadas pelo número e
variedade de fontes para responder tais perguntas. Essas
fontes incluem: a diversidade de opiniões e experiências dentro
da comunidade Afrikano-centrada, os modelos históricos da
educação Afrikano-americana, os modelos das nações
Afrikanas continentais progressistas e a longa tradição de
pensamento e ação nacionalistas. A dificuldade de desenvolver
um currículo verdadeiramente Afrikano-centrado, no entanto,
é mais do que compensada pela necessidade urgente de
continuidade e clareza dentro da tradição cultural/ideológica
nacionalista Afrikano-centrada. Um currículo
verdadeiramente Afrikano-centrado não só traria maior
enfoque e ordem às instituições encarregadas da educação,
mas também a necessidade de operacionalizar certos
conceitos e objetivos da educação Afrikano-centrada para
inclusão no currículo. Estimularia um diálogo crítico/criativo

148
adicional entre os defensores da educação Afrikano-centrada
e nacionalistas Afrikanos/Pan-Afrikanistas.
O esforço aqui se limitará a discutir o que pode ser
considerado as quatro áreas mais cruciais a serem abordadas
na construção de um currículo que possa ser considerado
verdadeiramente Afrikano-centrado. Essas áreas são filosofia
curricular, projeto curricular, implementação curricular e
avaliação curricular. O escopo do currículo elaborado aqui
começa no nível pré-escolar (2 anos e meio) e continua até o
nível do ensino médio, e reflete o trabalho de várias
instituições independentes Afrikano-centradas. Muito do
trabalho de preparação de um currículo Afrikano-centrado foi
antecipado pela atuação das escolas independentes Afrikano-
centradas ao longo dos últimos vinte e cinco anos, e grande
parte da discussão aqui será informada pela experiência
dessas instituições.
O currículo é menos uma disciplina exata do que uma
resposta pragmática à ideologia dominante ou prevalecente,
aos recursos disponíveis e às considerações políticas. A este
respeito, as instituições Afrikano-centradas, não ao contrário
de outros sistemas educacionais, carecem do nível de
consistência ideológica ou filosófica e de coerência interna que
os seus objetivos curriculares declarados requerem. A falta de
coerência ideológica encontrada nas escolas independentes é,
em grande medida, um reflexo da fragmentação do
pensamento nacionalista que tornou quase “impossível hoje
codificar o pensamento nacionalista de forma a ter muito
sentido prático e programático”1 em termos educacionais. O
atual diálogo, literatura e pesquisa que estão sendo
produzidos pelos defensores da educação Afrikano-centrada

149
têm proporcionado às escolas independentes uma medida
maior de coerência ideológica.
Esses objetivos declarados das escolas independentes
podem ser categorizados em três domínios curriculares. Eles
incluem, em primeiro lugar, os objetivos que são inerentes à
construção cultural/histórica definida pelos objetivos
culturais/ideológicos do Nacionalismo Afrikano/Pan-
Afrikanismo. Um segundo domínio curricular seriam aqueles
objetivos sociopolíticos e econômicos que se enquadram nos
parâmetros ideológicos particulares do Pan-Afrikanismo. Um
terceiro domínio curricular seriam aqueles objetivos que se
preocupam com a condição psicoafetiva e espiritual da família
Afrikana, do indivíduo e da comunidade.
Os domínios do currículo refletem as fontes do currículo.
A fonte primária é a formação cultural dentro da qual o
currículo deve ser construído. Essa cultura, para efeito de
transmissão dentro de um sistema formal de educação, é
organizada em áreas relativamente distintas de conhecimento
acumulado. Uma segunda fonte de currículo é a ideologia
particular que define e prioriza objetivos e valores sociais, e
elabora uma linguagem interdisciplinar para seus defensores
e praticantes.
Uma terceira fonte inclui as considerações políticas que
emanam de dentro da comunidade Afrikana e aquelas que se
originam fora da comunidade. Dentro da comunidade, essas
considerações políticas giram principalmente em torno da
questão de desenvolver um consenso sobre a teoria; e a
prioridade da ação coletiva e institucional. Essas
considerações que se originam fora da comunidade incluem a
deterioração dos processos de educação dentro das escolas
públicas, a postura conservadora e adversária dos conselhos

150
e administradores escolares, os requisitos de licenciamento e
agências de certificação de testes e livros didáticos, os
relatórios da força-tarefa nacional sobre educação e seu
impacto nas políticas públicas, a hostilidade da academia
branca e da mídia popular, desenvolvimentos e relações
internacionais, entre outros.
Uma quarta fonte do currículo são as famílias, as crianças
e adultos individuais que são os beneficiários pretendidos do
currículo. Eles estão longe de serem receptores passivos. Sua
interação construtiva e dinâmica com professores e
administradores da escola é o que energiza o currículo. É a
origem das pessoas que contribui para que o currículo
Afrikano-centrado tenha sua singularidade. O
desenvolvimento do currículo Afrikano-centrado foi conduzido
por profissionais, pelos professores, que na maioria das vezes
são administradores, e os próprios pais. Eles, professores e
administradores, são a quinta fonte do currículo.

Fundamentos Filosóficos.
A base filosófica de um currículo Afrikano-centrado
consiste no Nacionalismo Preto/Pan-Afrikanismo como
ideologia e movimento popular. A base filosófica é crucial
porque essa base determina em grande medida os objetivos do
currículo. Essa base filosófica também serve como base para
os princípios e políticas educacionais sobre as quais as
decisões sobre as escolas serão tomadas. Os argumentos dos
principais currículos eurocêntricos de que o currículo não
deve ser baseado em filosofia singular2 ignoram a realidade de
que muito que se passa por educação neste país é de fato
baseado em uma filosofia singular, a do nacionalismo judaico-
cristão branco. É interessante que, à medida que a liderança

151
branca e a população branca se ajustam ao mosaico em
mudança dos assuntos nacionais e mundiais, eles estão
redescobrindo e reafirmando o componente determinante de
"brancura" de sua etnia “euro-americana”.3 O que
tradicionalmente tem sido apresentado como a norma e
padrão “universal” tem sido nada mais do que uma
manifestação da hegemonia euro-americana, e mascarada,
“uma nação que mente para si mesma sobre quem e o que é...
uma nação de minorias governada por uma minoria de uns...
protestantes anglo-saxões brancos.”4
A história do pensamento nacionalista, do qual o
afrocentrismo é uma expressão contemporânea, começa com
a nossa chegada a essas costas. O nacionalismo para os
Afrikanos na América foi inicialmente confirmado no
surgimento “do sentido de nacionalidade na escravidão, que
surgiu desse sentido entre nossos ancestrais que era às vezes
[uma] resistência [que] era feroz e despertou sentimentos de
unidade nas pessoas pretas, especialmente quando elas
estavam lutando para manter seus filhos.”5 O desejo
nacionalista/separatista inicial é expressado de forma
pungente em uma carta de 1793 de um Afrikano rebelde para
outro.

“... Temos cerca de quinhentas armas com bastante


chumbo, mas sem muita pólvora. Espero que você tenha
feito uma boa coleta de pólvora e projetil e esteja pronto
para atacar sempre que necessário e nunca fique fora do
caminho, não demorará muito para que aconteça, e estou
totalmente satisfeito de que estaremos em plena posse de
todo o país em algumas semanas...6”

152
Esta carta meramente ecoou os esforços revolucionários e
de construção nacional dos Afrikanos na América já em 1650
na Virgínia onde “africanos fugitivos tentaram ‘formar
pequenos grupos armados em várias seções da colônia e
perturbar as fazendas vizinhas, ao mesmo tempo criando
bases para as quais outros pudessem fugir.’”7
O nacionalismo, baseado principalmente na
autodeterminação da raça, era a ideologia dominante dos
Afrikanos durante a era da escravidão.8 Os Afrikanos acharam
absolutamente essencial desenvolver instituições
independentes “em parte como base para as lutas em curso
contra a injustiça branca, mas principalmente como
repositórios para as visões e esperanças do futuro.”9 O
sentimento nacionalista da população Afrikana em geral
encontrou sua expressão em inúmeras ocasiões de resistência
e rebelião, incluindo rebeliões de massa planejadas e bem-
sucedidas como a de Gabriel Prosser, Dinamarca Vesey e Nat
Turner; e atos de resistência individual de Afrikanos
escravizados e livres.
O sentimento nacionalista das massas de Afrikanos foi
dado voz no movimento de convenção do início do século 19.
As vozes ouvidas incluíram Henry H. Garnett e seu apelo por
uma “Nacionalidade Negra”10 e sua lembrança da “glória
imortal que paira sobre o antigo nome da África” ao incitar
seus irmãos escravos à rebelião11; Delaney afirmou que
"Somos uma nação dentro de uma nação... as reivindicações
de nenhum povo... serão respeitadas por qualquer nação, até
que sejam representadas em uma competência nacional.”12
Martin Delaney, Alexander Crummel e o bispo Henry
McNeil Turner defenderiam a causa da emigração; retornando
à Áfrika “para agir e estabelecer uma posição nacional para

153
nós: pois nunca podemos esperar ser respeitados como
homens e mulheres até que tenhamos realizado alguns atos de
ousadia destemidos, ousados e determinados... uma nação, a
quem todo o mundo deve prestar homenagem comercial.”13 Foi
Delaney quem antecipou Marcus Garvey em sua tentativa de
“desenvolver e expressar uma nacionalidade Afrikana baseada
na experiência da pátria, mas ao mesmo tempo participar
responsavelmente na luta contra a escravidão do povo
Afrikano nas Américas”.14 Essa “nacionalidade Afrikana”
encontrou expressão ao longo do século 19 em apelos para o
desenvolvimento comercial dentro da comunidade Afrikana
com afirmações de “a chave para os negócios é a unidade
racial” pelos The Invincible Sons and Daughters of Commerce,
1899. 15
Os temas de nacionalidade Afrikana, desenvolvimento
Afrikano, autodeterminação econômica, desenvolvimento da
unidade racial, desenvolvimento institucional, e a
identificação cultural com a Áfrika atingiu seu maior
desenvolvimento sob a liderança de Marcus Garvey e da
Universal Negro Improvement Association (UNIA). Garvey fez
eco a Delaney ao exortar a raça para “construir [seu] próprio
governo, indústria, arte, ciência, literatura e cultura... [porque]
nenhum Negro será verdadeiramente respeitado até que a raça
como um todo tenha se emancipado por meio da
autorrealização e do progresso... trabalhando pela
emancipação universal de nossa raça e pela redenção de nossa
nação em comum, a África.”16 A confluência do gênio
organizacional, carisma, clima político e inspiração permitiu
Garvey construir “uma organização de massa que foi além da
mera agitação e protesto pelos direitos civis e se baseou em

154
uma programa bem pensado que ele acreditava que levaria à
emancipação total da raça do domínio branco.”17
Com base na fundação fornecida por Elijah Muhammad e
a Nação do Islã, Malcolm X foi capaz de galvanizar a população
Afrikano-americana de uma forma que lembra Garvey e
Delaney com sua ligação de nossa herança Afrikana e as lutas
nacionalistas do continente, e aquelas dos Afrikanos na
América:

“É impossível para qualquer grupo preto na América


envolver-se em qualquer tipo de organização política que
não tenha algumas raízes diretamente conectadas com as
nossas raízes no continente africano.”18

A tradição intelectual nacionalista foi restringida nos


séculos 18 e 19 por vários fatores, incluindo a debilitação
espiritual e psíquica e o empobrecimento dos Afrikanos tanto
escravos quanto livres. A educação e a tradição intelectual
dentro da qual os porta-vozes mais destacados foram
educados foi o eurocentrismo judaico-cristão, e a maioria
desses líderes teve poucas oportunidades ou recursos para
restabelecer sua ligação cultural com a pátria mãe, Áfrika.
Um tema forte e recorrente no pensamento nacionalista de
meados do século 17 ao movimento contemporâneo de
educação Afrikano-centrado é o tema da justiça, compaixão e
preocupação com o status das mulheres Afrikanas. O apelo à
unidade racial neste continente19 estava ligado a declarações
de igualdade humana e a “posição das mulheres [que
determinará] a potência e respeitabilidade [da] nação”.20
No pensamento nacionalista contemporâneo, grande parte
da iniciativa de corrigir as limitações dessa tradição intelectual

155
e, assim, fornecer ao nacionalismo coerência e dinamismo
deve ser creditada a Cheikh Anta Diop. A pesquisa exaustiva
e impecável de Diop e a defesa incansável da primazia da
civilização Afrikana e seu dom da ciência, matemática,
religião, filosofia, escrita e governo para o mundo,21
forneceram grande parte da base para o atual movimento
Afrikano-centrado. A formidável pesquisa e defesa de Diop
deram ímpeto aos esforços contíguos do Chancellor Williams,
John Henrik Clarke e Yosef ben-Jochannan. Esses
pesquisadores e historiadores se juntaram a outros de igual
inspiração e competência que, consciente da construção
cultural e ideológica em que grande parte da história é
percebida, interpretada, documentada e transmitida, ainda
está ativamente desvendando a verdadeira história da Áfrika e
de seu povo.
Essa história e a cultura Afrikana continental e global que
foi engendrada fornecem a base para o atual movimento
Afrikano-centrado. Esse movimento obteve, através de
pesquisas e discursos intensos e contínuos Afrikano-
centrados, a clareza intelectual, o foco e a base cultural que
escapou aos primeiros defensores do nacionalismo. Os
principais defensores da educação e da visão de mundo
Afrikano-centrada ecoam seus ancestrais nacionalistas de três
séculos ao enfatizar: a primazia da civilização Afrikana; nossa
herança Afrikana; a realidade de uma nacionalidade Afrikano-
americana; cooperação e desenvolvimento cultural, político e
econômico Pan-Afrikanos (autossuficiência); elevação
espiritual e moral; direitos iguais e participação das mulheres;
instituições independentes; humanismo; e justiça. Talvez o
mais importante, o atual movimento Afrikano-centrado
fornece ao movimento nacionalista um núcleo intelectual

156
dinâmico, imensamente competente e criativo e que fornece ao
movimento nacionalista coerência, análise incisiva e
inspirada, clareza e visão.

Inventário Temático Afrikano-Centrado.


Os principais temas recorrentes nas teorias de libertação
nacionalistas/Pan-Afrikanas fornecem a base filosófica do
currículo Afrikano-centrado. Esses temas podem ser
amplamente agrupados em três domínios curriculares
descritos anteriormente como: cultura e ideologia;
sociopolítico e econômico; e espiritualidade e psicoafetivo.
Dentro de cada domínio, os principais temas, suas premissas
e objetivos fundamentais estão listados abaixo. A lista
combinada nos fornece um inventário dos principais temas
Afrikano-centrados, suposições fundamentais e objetivos
curriculares que podem ser derivados dessas suposições. Os
temas e pressupostos incluem conceitos e sentimentos
nacionalistas que foram expressos por Afrikanos ao longo de
nossa história, tanto neste país como em Áfrika. O conceito de
inventário é apropriado porque reflete a ideia de que a
ideologia efetiva é finalmente um fenômeno determinado
coletivamente com base em um consenso nascido da
experiência e reflexão intergeracionais. Os objetivos
curriculares que fluem desses temas e premissas são um
esforço para operacionalizar os principais princípios ou
premissas dessa ideologia para uso em sala de aula e para uso
na determinação dos parâmetros teóricos da teoria
educacional Afrikano-centrada. Iremos nos referir ao
inventário de temas e pressupostos aqui como o Inventário
Temático Afrikano-Centrado (ACTI).

157
Inventário Temático Afrikano-Centrado

I. Espiritualidade e o Psicoafetivo

PERCEPÇÃO ESPIRITUAL
Premissas fundamentais:
1. O homem Afrikano e a mulher Afrikana vivem em um
mundo espiritual, tudo o que eles fazem está ligado a toda a
natureza/espírito. 22
2. O humano é divino e a demonstração dessa união do
divino com o humano é o auge da experiência religiosa, pois
os espíritos se manifestam em nós (possessão espiritual) 23
3. A essência divina consiste em elementos
complementares feminino e masculino. 24

Objetivo:
Transmitir o conhecimento da tradição espiritual Afrikana,
e desenvolver o apreço pela tradição e a capacidade de aplicar
os princípios fundamentais a si mesmo, na família e na
comunidade.

CONSCIÊNCIA MORAL
Premissas fundamentais:
1. A sabedoria moral é o serviço do bem social e humano.25
2. Restaurar e enriquecer a retidão através da prática da
verdade, justiça, propriedade, harmonia, equilíbrio,
reciprocidade e ordem. 26

3. Dignidade é um valor real, o mais elevado em caráter,


sabedoria, bom senso e coragem. 27
4. O problema de um é o problema de todos. 28

158
Objetivos:
Promover a compreensão e a disposição de ser guiados
pelos princípios que caracterizam a pessoa honrada e justa.

Família como Unidade Básica Espiritual e Moral


Premissas fundamentais:
1. A família é a unidade social, judicial, econômica e
política primária da sociedade. 29
2. Eu sou porque nós somos, e porque nós somos, eu sou.
Provérbio Afrikano
3. A família só pode crescer, não pode diminuir, pois os
ancestrais e os nascituros são membros permanentes dela. 30
4. A família extensa é uma cooperativa em espírito e
prática. Deve se tornar a unidade econômica básica da
nação.31
5. Se uma unidade familiar não pode instruir os jovens em
padrões harmoniosos de relacionamento entre homens e
mulheres adultos, então, no final das contas, as pessoas
morrem porque a alienação de homens e mulheres adultos
acaba levando ao fim do processo de procriação. Sem os
jovens, o povo não terá futuro. 32

Objetivo:
Desenvolver uma compreensão e um apreço pela dinâmica
que afeta a família Afrikana; reconhecer a sua centralidade
para a nacionalidade Afrikana e trabalhar para revitalizá-la.

AUTO CONHECIMENTO/PRÁTICA
Premissas fundamentais:

159
1. O pessoal é inseparável do social, a retidão e a
moderação serão sempre alcançadas, testadas e moldadas
com os outros. 33
2. A retidão começa nas relações familiares que fazem a
pessoa ser elogiada pelo pai, amada pela mãe e querida pelos
irmãos. 34
3. Autodisciplina e silêncio são a virtude preeminente do
bom homem e da boa mulher. 35

Objetivo:
Facilitar a conquista do conhecimento total de si como
extensão única do coletivo, definido pelo coletivo e
comprometido com ele.

VENERAÇÃO ANCESTRAL
Premissas fundamentais:
1. Siga os passos dos ancestrais e honre-os, a mente é
treinada através do conhecimento. Provérbio Kemético.
2. Os ancestrais, embora tenham partido do mundo físico,
vivem em estreita proximidade e podem fornecer orientação e
inspiração aos vivos. 36
3. Nossos ancestrais merecem respeito porque são nossos
antecessores e são os mais velhos. No estado espiritual, eles
estão em contato desimpedido com a essência das coisas. 37
4. Os mais velhos da comunidade não morrem, mas com
a morte física renascem no reino espiritual como ancestrais e,
enquanto nos lembrarmos deles, eles continuam a fazer parte
da família e da comunidade. 38
5. Os ritos de veneração são métodos de comunhão e
comunicação.

160
Objetivo:
Facilitar a aquisição e valorização dos ancestrais; e
promover o compromisso de restaurar suas obras e torná-las
ainda melhores do que antes. 39

II. CULTURAL E IDEOLÓGICO

A PRIMÁZIA DA CIVILIZAÇÃO AFRIKANA E A ORIGEM


AFRIKANA DAS ESPÉCIES HUMANAS
Premissas fundamentais:
1. A Áfrika é o berço da humanidade e da civilização.
2. Evidência fóssil, biologia molecular, lógica e história
provam conclusivamente que os primeiros e modernos
humanos eram Afrikanos; que todas as outras raças da
humanidade foram mutações genéticas relativamente
recentes, induzidas pelo ambiente, da raça Afrikana/Preta
original. 40
3. Os Afrikanos criaram as primeiras civilizações do
mundo, milhares de anos antes das outras. 41
4. As primeiras civilizações foram fundadas por Afrikanos
que, no início da pré-história, iniciaram uma grande migração
norte-sul para o Vale do Nilo, espalhando-se então pelo
continente. 42
5. A história dos reinos pretos do Sudeste Asiático é, em
essência, a história da raça preta no início da história asiática;
construtores dos primeiros reinos, apenas para serem
oprimidos no final. A influência preta inicial e intermitente nas
nações asiáticas de hoje que, conscientes ou não, meramente
se elevaram sob a tutela Afrikana. 43

161
6. Os povos indígenas de Kemet eram Afrikanos do mesmo
tipo que seus irmãos e irmãs tropicais do oeste, centro e sul
da Áfrika. 44
7. Kemet era o centro do corpo da sabedoria antiga e do
conhecimento religioso, filosófico e científico, espalhado por
outras terras por meio de estudantes iniciados. 45
8. As primeiras civilizações da Áfrika Ocidental e do Sul,
incluindo Gana, Nok-Ifé e Zimbábue, datam de 1000 a.e.c e
foram coincidentes com o Kemet faraônico. 46
9. Afrikanos das antigas civilizações de Kemet e Afrikanos
dentro do primeiro milênio e meio (d.e.c) estabeleceram e
mantiveram o comércio e as relações entre as civilizações
indígenas americanas e asiáticas. Várias dessas civilizações
foram profundamente influenciadas pelo contato com os
Afrikanos. 47

Objetivo:
Desenvolver e informar uma consciência histórica
completa e mais abrangente, da antiguidade à
contemporaneidade, que será a base da unidade e do
desenvolvimento Afrikano.

PATRIMÔNIO AFRIKANO E UNIDADE CULTURAL


Premissas fundamentais:
1. As línguas Afrikanas constituem uma família
linguística. 48
2. O estudo dos fenômenos, eventos, ideias e
personalidades Afrikanas deve começar com a análise da
primazia das civilizações clássicas da Áfrika (Kemet, Nubia,
Axum, Meroé). 49

162
3. A fragmentação e o isolamento do povo Afrikano ao
longo dos últimos dois milênios é uma consequência da
conquista e destruição das civilizações Afrikanas e da
escravização do povo Afrikano por invasores asiáticos e
europeus. 50
4. Todas as várias formações étnicas e nacionais dos
Afrikanos devem descobrir o profundo parentesco geral,
incluindo cultural, linguístico, social e histórico, que os torna
parte de uma comunidade espacial e sociocultural mais ampla
e que fornece a base para a unidade Afrikana. 51

Objetivo:
Desenvolver uma apreciação da necessidade de promover
a unidade cultural e política entre todo o povo Afrikano e de se
comprometer com essa tarefa.

PERSPECTIVA HISTÓRICA AFRIKANO-CENTRADA


(PERSPECTIVA AFRIKANA SOBRE TODOS OS
CONHECIMENTOS E ESFORÇO INTELECTUAL)
Premissas fundamentais:
1. A história da Áfrika é a luta e o registo do Afrikano no
processo de Afrikanizar o mundo; ou seja, moldando-o à sua
própria imagem e interesses. A história da Áfrika é uma
solução para a identidade da Áfrika em termos de
determinação de origem e realização. 52
2. Uma forte visão e identidade com nosso passado é a
única base sólida para construir um futuro independente.
Assim que tivermos identificado e eliminado a causa de nossa
queda histórica, estaremos em posição de reivindicar nossa
liberdade mundial. 53

163
3. O conhecimento ocorre no contexto da cultura que o
descobre ou o inventa. Esse conhecimento está centrado nessa
cultura e não existe separadamente dos valores e dinâmicas
fundamentais dessa cultura.

Objetivo:
Desenvolver um compromisso para reconstruir a cultura
Afrikana através da recuperação da história Afrikana e da
análise crítica/criativa de todo o conhecimento e experiência
por uma perspectiva Afrikano-centrada.

CLAREZA IDEOLÓGICA E COMPROMISSO


Premissas fundamentais:
1. Uma ideologia é um conjunto de princípios extraídos da
experiência histórica de um determinado povo e, como tal,
fornece as diretrizes para a ação e para a mudança na direção
desejada por esse povo. 54
2. O desenvolvimento de uma ideologia de unidade e
libertação Afrikanas requer um grupo dedicado de estudiosos,
pesquisadores e ativistas afrocêntricos que se comprometam a
extrair da história e da experiência contemporânea os
princípios que guiarão os Afrikanos à libertação,
independência e autodeterminação. 55
3. A integração/assimilação como ideologia pouco
contribuiu para a libertação do Afrikano, porque sua premissa
fundamental valida a ordem socioeconômica existente que
subjuga e explora o povo Afrikano.
4. O pensamento nacionalista dos Afrikanos deve se
organizar em uma força unificada com aplicações
programáticas claras e concisas. 56

164
5. A filosofia política, econômica e social do nacionalismo
preto infunde no Afrikano a dignidade racial, o incentivo e a
contenção de que ele precisa para se erguer e se posicionar por
si mesmo. 57

Objetivo:
Promover a identificação e o desejo de participar no diálogo
em curso com o objetivo de criar uma ideologia
Afrikana/nacionalista coerente e dinâmica para a libertação e
independência do povo Afrikano.

BELEZA E ESTÉTICA
Premissas fundamentais:
1. O padrão de beleza dentro de uma raça é determinado
por aquilo que é típico ou exclusivo da raça, não por
comparação com outras raças. Não devemos perder nossa
identidade para imitar outra pessoa através de processos de
descoloração e coisas de alisamento ... mas celebrar o que é
típico do Afrikano. 58
2. Todas as estéticas [concepções de beleza] encontram
suas fontes na semelhança espiritual, emocional e
intelectual... ela reflete as versões idealizadas de nós mesmos,
de nossa cultura. 59

Objetivo:
Promover o desenvolvimento de um senso de beleza e
retidão que seja Afrikano-centrado.

SUPREMACIA BRANCA E RACISMO


1. Só existe racismo atuando no mundo conhecido da
supremacia branca. O racismo é um sistema operacional

165
universal de supremacia e dominação branca, do qual a
maioria dos brancos do mundo participa e se beneficia. O
objetivo da supremacia branca não é outro senão o
estabelecimento, manutenção, expansão e refinamento da
dominação mundial pelo grupo que se classifica como raça
branca. 60
2. Os brancos europeus - que possuem uma deficiência de
cor - responderam psicologicamente com um profundo senso
de inadequação numérica e inferioridade de cor e
desenvolveram um senso incontrolável de hostilidade e
agressão... a mais profunda agressão tem sido dirigida aos
povos pretos, que possuem o maior potencial de cor e,
portanto, são os mais invejados e temidos na competição
genética de cores. 61
3. O racismo é tanto evidente quanto oculto. Ele assume
duas formas intimamente relacionadas: brancos individuais
agindo contra pretos individualmente e atos de toda a
comunidade branca contra toda a comunidade preta.
Chamamos isso de racismo individual e racismo institucional.
62

4. O racismo individual permanece inabalável... O racismo


institucional abriu caminho para processar o racismo. A ideia
é dar a impressão de correr enquanto se está parado. 63
5. O racismo incorpora tendência, preconceito e
intolerância e, simultaneamente, os substitui para incorporar
o intencional, sistemático, e a inferiorização sustentada da
história e cultura de um povo (determinada filogeneticamente
e culturalmente), e a dominação, restrição e exploração desse
povo econômica, política e socialmente. O racismo é psíquico
e cultural. É individual e coletivo, institucional e processual;
oculto e evidente. É afetado apenas por meio de força e poder;

166
isto é, o manejo consciente de um poder político e econômico
amplamente superior e o poder da propaganda social para
manter o status superior do povo dominante em relação ao
povo subordinado.

Objetivo:
Desenvolver uma consciência e sensibilidade para a
dinâmica da supremacia branca. Facilitar o desenvolvimento
de estratégias pessoais e coletivas para neutralizar os efeitos
do racismo/supremacia branca.

III. SOCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO

UNIDADE POLÍTICA E ECONÔMICA PAN-AFRIKANA,


COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
Premissas fundamentais:
1. O futuro dos pretos em todo o mundo está interligado.
Foi assim no passado, quando as civilizações pretas estavam
sob forte pressão. É ainda mais no presente. Um Estado
Africano continental é um pré-requisito para a sobrevivência
das sociedades pretas onde quer que estejam. As comunidades
pretas devem encontrar uma maneira de articular sua unidade
histórica. Os laços entre os pretos Afrikanos e os pretos da
Ásia, Oceania, Caribe, América do Sul e Estados Unidos devem
ser fortalecidos de forma racional. 64
2. O homem branco como um inimigo do povo preto se
tornará cada vez menos um fato, e sua atitude hostil ou
desdenhosa mudará, sendo cada vez mais respeitosa, se e
quando essa a raça [preta] começar a avançar em três frentes;
organização massiva, programa de desenvolvimento

167
econômico nacional promovido por uma organização racial
unificada, e ação política. 65
3. Os povos [Afrikanos] do mundo terão que,
conscientemente, por meio de sua própria organização,
avançar até o ponto de destino estabelecido por eles próprios,
ou devem sentar-se quietos e ver-se empurrados de volta para
o lamaçal da servidão econômica. 66
4. As atividades econômicas são fundamentais e
indispensáveis para qualquer movimento ascendente. 67
5. A revolução Afrikana terá que ser técnica, espiritual e
cultural. Terá de preservar e valorizar o melhor da velha
Áfrika, que será o principal ingrediente da Áfrika que está por
vir. No centro da solução estará o conceito de Pan-Afrikanismo
- um programa dinâmico de Pan-Afrikanismo - trabalhando
pela unidade do povo Afrikano em todo o mundo. 68

Objetivo:
Incutir o compromisso de desenvolver a unidade e
cooperação cultural, política e econômica Pan-Afrikana.

NACIONALIDADE AFRIKANA-AMERICANA
Premissas fundamentais:
1. Somos uma nação dentro de uma nação. 69
2. Os Afrikanos na América, nunca quietos, nunca dóceis,
nunca dispostos a aceitar a condição de degradação e
escravidão que lhes foi imposta, desde o início... procuraram
se libertar da escravidão e da opressão e construir um ou mais
novos Estados para proteger sua pessoa e sua personalidade
nacional. 70
3. Uma grande organização nacional unificando a raça
forneceria a base de poder organizada, a única posição

168
respeitada nesta fase do desenvolvimento humano, para
grandes conquistas. 71
4. Independência de nacionalidade, independência de
governo é o meio de proteger não apenas o indivíduo, mas o
grupo... A nacionalidade é o ideal mais elevado de todos os
povos. 72

Objetivo:
Promover o compromisso com o desenvolvimento de uma
nacionalidade organizada, unificada, produtiva e dinâmica dos
Afrikanos na América.

LIDERANÇA NACIONAL E COMUNITÁRIA


Premissas fundamentais:
1. A era de um único porta-voz Grande Líder já passou...
O que é necessário, de fato exigido, para a sobrevivência preta
é uma forma de conselho nacional de liderança coletiva, um
novo conceito de liderança. 73
2. A liderança da nacionalidade Afrikano-americana deve
ser assegurada por uma modernização do conselho tradicional
dos mais velhos, que se tornaria a autoridade máxima de
governo na comunidade local, estadual e nacional. 74
3. O povo é a primeira e última fonte de poder. (As
lideranças) são os representantes eleitos do povo e os
instrumentos de execução de sua vontade. 75
4. A liderança eficaz requer visão, habilidade
administrativa, inspiração, capacidade de motivar,
flexibilidade, ideologia e consistência moral, capacidade de
organização, consciência histórica, clareza ideológica e
coragem. 76

169
5. Nossos filhos devem ser escolhidos e treinados para a
liderança desde o nascimento. Você pode observar como
aquela criança maneja um garfo; observe a capacidade dessa
criança de compartilhar com o grupo; observe a capacidade
dessa criança de proteger o grupo e conceda o treinamento que
fará com que ela melhore. Devemos identificar os líderes com
antecedência e começar a treiná-los. Devemos fazer desse
esforço um sacerdócio. 77

Objetivo:
Desenvolver uma consciência das qualidades necessárias
de liderança e inculcar os valores e habilidades de liderança
necessários que são essenciais para a libertação e
desenvolvimento do povo Afrikano.

IGUALDADE ENTRE HOMENS E MULHERES: IGUALDADE


DE RESPONSABILIDADE E PARTICIPAÇÃO
1. Com base na igualdade sexual e na elevada
preeminência de que tem a mulher Afrikana, podemos inferir
que o homem e a mulher Afrikanos, de comum acordo,
organizaram a Família Estendida numa base matrilinear. 78
2. Quando o homem preto e a mulher preta assumem a
luta pela justiça contra a supremacia branca, eles são dotados
com a garantia mais forte possível de que permanecerão
unidos. Eles estão unidos em um esforço comum contra a
injustiça e, simultaneamente, expressam a mais forte
declaração possível sobre respeito e amor por si mesmos como
indivíduos. Ao fazerem isso, o homem preto e a mulher preta
estão declarando que conferiram a si mesmos o maior valor
possível, o que é essencial para que haja autodefesa e defesa
do grupo. 79

170
Objetivo:
Desenvolver uma sensibilidade e um compromisso para
eliminar quaisquer comportamentos típicos de sexismo ou
exploração de gênero.

PLURALIDADE DEMOCRÁTICA DAS NACIONALIDADES


RACIAIS/ÉTNICAS NA ECONOMIA POLÍTICA AMERICANA
Premissas fundamentais:
1. O problema do [estado-nação americano] é que os povos
das nações subordinadas da Índia, da Nova África e de Porto
Rico tiveram negado o direito à autodeterminação. 80
2. Todos os outros grupos étnicos na América, uma “nação
de nações”, aceitaram o fato de sua separação e o utilizaram
em seu próprio benefício social. 81
3. A constituição americana não reflete o fato de que os
Estados Unidos são uma nação de nações, um agregado de
grupos étnicos e religiosos que têm ou buscam poder. 82
4. A própria lógica da autodefesa necessita da
consolidação do grupo [Afrikano-Americano] para esse mesmo
propósito. Mas a unificação do grupo étnico para autodefesa
também deve levar consigo o compromisso lógico com a
unificação econômica, política e cultural, que é o oposto das
tendências individuais de integração e assimilação. 83
5. O país não é homogêneo. Uma fatídica tensão triangular
entre grupos nacionais está vindo à tona... este triângulo que
compreende o nacionalismo anglo-saxão, o nacionalismo preto
e o nacionalismo judaico (sionismo). 84

Objetivo:

171
Promover uma consciência profunda do
entrincheiramento psíquico e constitucional da supremacia
racial/étnica branca nos EUA e desenvolver um compromisso
com o avanço da nacionalidade Afrikana dentro da “nação de
nações” que a economia política americana de fato é.

DIREITOS HUMANOS E CIVIS


Premissas fundamentais:
1. Jamais usaremos nossos poderes físicos para oprimir a
raça humana, mas usaremos nossa força, fisicamente,
moralmente ou de outra forma, para preservar a humanidade
e a civilização. 85
2. O método afrocêntrico busca transformar a realidade
humana introduzindo uma abertura humana ao pluralismo
cultural que não pode existir sem o desbloqueio das mentes
para a aceitação de uma expansão da consciência. 86

Objetivo:
Promover a consciência de um dos objetivos mais elevados
do ativismo social, a criação de uma ordem mundial que seja
culturalmente pluralista e verdadeiramente democrática,
igualitária e justa.

ENTRAVES
Premissas fundamentais:
1. A necessária reeducação do povo preto e uma possível
solução para as crises raciais podem começar, estranhamente,
apenas quando o povo preto perceber plenamente este fato
central em sua vida: o homem branco é seu pior inimigo. Este
não é o discurso de uma militância desesperada, mas o

172
veredicto calmo e inconfundível de vários milhares de anos de
história documentada. 87
2. Recentemente, houve um desdobramento e uma análise
da questão mais sangrenta do primeiro sistema de poder
global de opressão em massa - o sistema de poder do racismo
(supremacia branca). Uma vez que a vítima coletiva
compreenda esta questão fundamental definitiva, a
organização final de todos os comportamentos apropriados
necessários para neutralizar a grande injustiça do poder da
supremacia branca será apenas uma questão de tempo. O
período de tempo necessário para neutralizar a supremacia
branca global será inversamente proporcional ao 1) nível de
compreensão do fenômeno; mais 2) a evolução do respeito
próprio e coletivo, - a vontade, determinação e disciplina para
praticar os comportamentos antirracistas apropriados. 88
3. A maior arma usada contra o preto é a
DESORGANIZAÇÃO. 89
4.… Se você não tem confiança em si mesmo, você é duas
vezes derrotado na corrida da vida. Com confiança você venceu
antes mesmo de começar. 90
5. Com nossa bondade (nossa esperança embutida), nossa
bela humanidade, nossa crença na justiça para todas as
pessoas, caímos em suas armadilhas... Como não aprendemos
a praticar, figurativamente falando, o egoísmo essencial da
sobrevivência, não devemos dar um pedaço da torta até que
cada membro de nossa família tenha um pedaço dela...
Quando começamos a perder essas lições de nação,
começamos a cair cada vez mais fundo na cilada, na armadilha
da dependência. 91
6. Nos anos desde nosso exílio forçado da Áfrika, passamos
por uma crise após a outra por causa da liderança. Estamos

173
na encruzilhada da história, envolvidos em um triste debate
sobre direção e definição na liderança política... A única coisa
que a opressão faz a um povo é matar neles a mente e a
vontade de assumir responsabilidades. Quando você chega ao
limite do poder, você experimenta um momento crítico de
autodescoberta, que é a trágica separação de ter perdido o
poder, e isso faz parte do nosso conflito. 92
7. Se os Afrikanos em todo o mundo querem se salvar, eles
devem encontrar uma maneira de recuperar algumas das
coisas que sustentam a vida que foram perdidas na
escravidão, no colonialismo e através da propaganda anti-
Afrikana massiva distribuída pelos europeus em todo o
mundo. É básico que os Afrikanos, e todas as pessoas,
recuperem sua autoconfiança e sua imagem de Deus como
originalmente o conceberam. Na conquista da maior parte do
mundo não-europeu, a maior conquista da Europa foi a
conquista da mente. 93
8. Quer queiramos reconhecer o fato ou não, existem três
forças hegemonistas engajadas em uma nova corrida pela
Áfrika agora, um século inteiro após a infame Conferência de
Berlim... Existe o Ocidente, que todos conhecemos e no qual a
maioria dos anticolonialistas se concentra exclusivamente. Há
o Bloco Soviético... Depois, há o mundo árabe que, usando o
dinheiro do petróleo e o Islã, reviveu sua antiga missão de
dominar e arabizar a Áfrika... Arabização significa o abandono
de nomes africanos, roupas, idiomas, costumes, religiões,
arquitetura, organização social, normas políticas, etc., e a
substituição pelos árabes geralmente sob o pretexto de serem
islâmicos, não árabes. 94
9. Objeções, mesmo violentas, a qualquer organização
exclusivamente para a raça preta podem ser esperadas

174
daqueles Afrikanos que são vítimas das várias doutrinas
pseudouniversalistas que tornam a hegemonia branca
aceitável para suas vítimas. Por exemplo, os cristãos
Afrikanos… os [adeptos da] solidariedade afro-árabe; esses
universalismos patrocinados por brancos têm forte apelo para
aqueles pretos que estão ansiosos para escapar de sua
particularidade racial para alguma suposta universalidade. 95

Objetivo:
Inculcar uma compreensão clara dos entraves históricos
para a libertação e desenvolvimento do povo Afrikano, e ainda
fornecer um critério claro para identificar e lidar com os
obstáculos menos óbvios para o avanço da raça.

OBJETIVOS INSTITUCIONAIS
Premissas fundamentais:
1. Nacionalidade é o único meio pelo qual a civilização
moderna pode se proteger completamente. A independência do
governo é o meio de proteger não apenas o indivíduo, mas o
grupo. A nacionalidade é o ideal mais elevado de todos os
povos... Todos nós podemos não viver para ver a imensa
realização de um Império Afrikano - tão forte e poderoso, que
exigirá o respeito da humanidade, mas em nossa vida podemos
trabalhar e agir para tornar o sonho uma possibilidade dentro
de outra geração. 96
2. O que se propõe aqui é uma moratória à retórica fútil e
o início de uma verdadeira unidade racial por meio de um
programa de ação nunca antes tentado... Uma organização de
massa expressamente planejada para enriquecer as vidas das
pessoas em todas as frentes e diretamente por meio da
propriedade das pessoas e da participação nos lucros em todos

175
os empreendimentos econômicos... um programa para formar
centenas de organizações em um vasto corpo nacional de
milhões, com cada sociedade realizando suas próprias funções
como antes, exceto em questões relativas a toda a raça, ou
organizados por famílias e indivíduos, comunidade por
comunidade e estado por estado. 97
3. Há uma necessidade de uma definição operacional de
Pan-Afrikanismo e Nacionalismo Afrikano que seja ampla o
suficiente para incluir todos os Afrikanos no mundo. Vivemos
o Holocausto mais longo e trágico da história da humanidade.
Todas as tentativas foram feitas para nos desumanizar e negar
nossa humanidade. Acredito que a fé preservou o povo
Afrikano para um propósito especial na terra. Somos as únicas
pessoas que podem fazer promessas universais e cumpri-las,
porque não temos planos para as terras ou os recursos de
outras pessoas. Parte da nossa missão deve ser, antes de mais
nada, entregar a Áfrika ao povo Afrikano. E do ponto de vista
de nossa afrikanidade, podemos dar ao mundo uma nova
definição de liberdade e de responsabilidade. Se esta é a nossa
missão, é também o legado que deixaremos para os nossos
filhos e outras crianças ainda por nascer. 98

Objetivo:
Promover uma compreensão clara de nossa missão de
construir a infraestrutura institucional de uma nacionalidade
independente, e promover uma nação/raça Afrikana
consciente em direção à independência e liberdade, e a raça
humana em direção a uma humanidade maior.

176
PROJETO

O tema gerador do pensamento nacionalista Afrikano-


centrado, e o tema que está na base do ACTI é a construção
da nação (Nacionalismo Afrikano). A construção da nação
envolve voltar às origens históricas, “resgatar e restaurar” a
cultura e a história do povo Afrikano (Sankofa). 99 A
construção da nação engloba ainda o processo de elaboração
de uma ideologia que, por sua vez, sirva como uma força de
coerência para o grupo que é mobilizado por ela em direção
aos objetivos específicos. A construção da nação (Nacionalismo
Afrikano) como o tema gerador para a base filosófica do
currículo Afrikano-centrado atuará necessariamente como o
princípio orientador para a concepção do currículo Afrikano-
centrado.
Dado o papel orientador do tema e do subconjunto de
temas no ACTI, segue-se que a concepção do currículo
Afrikano-centrado deve cumprir vários critérios. Em primeiro
lugar, a organização do conteúdo da disciplina deve ser
integrada tanto horizontal quanto verticalmente, de forma a
enfatizar o holismo, e fornece detalhes adequados apropriados
para o nível de instrução (nível cognitivo dos alunos) e
abrangente o suficiente para manter a natureza inter-
relacionada dos campos curriculares. Em segundo lugar, o
currículo deve ter um propósito e ser orientado para a missão;
sendo essa missão a reconstrução dos Afrikanos na América
como uma entidade cultural, política e econômica unificada e
autodeterminada nacionalmente. Terceiro, o currículo deve
refletir uma preocupação humanística com a autoconsciência
do aluno, da família e da comunidade. O quarto critério do
currículo Afrikano-centrado é que ele seja integrado aos

177
esforços reais de instituições e indivíduos que estão
ativamente engajados no processo de construção da nação
(Nacionalismo Afrikano).
Os três domínios curriculares do ACTI já mencionados são
o Cultural/Ideológico; o Espiritual/Psicoafetivo; e o Sociopolítico
e Económico. Um quarto domínio é necessário para facilitar o
domínio dos processos científicos e tecnológicos que as
sociedades contemporâneas cada vez mais exigem. O quarto
domínio é chamado simplesmente de Tecnologia. Para cumprir
o quarto critério do currículo Afrikano-centrado, conforme
descrito acima, um quinto domínio curricular deve ser
adicionado; aquele de Aplicações Práticas pela Construção da
Nação.

Domínios Curriculares

Os cinco domínios curriculares fornecem a base para a


organização do conteúdo da disciplina dentro do currículo.
Cada domínio curricular consiste em um ou mais campos
curriculares. Os campos curriculares fornecem a base
estrutural real para a organização e apresentação de cada
assunto dentro do currículo. O propósito de elencar as
diversas áreas sob os domínios curriculares é estabelecer as
suas relações com os pressupostos e objetivos do ACTI. Os
campos curriculares estão listados abaixo nos domínios
curriculares e incluem as áreas disciplinares que comporiam
os respectivos campos.

I. Cultural/Ideológico
A. Cultura e Ideologia
B. Criatividade

178
II. Espiritual/Psicoafetivo
A. Autoconhecimento
B. Ética e Moralidade

III. Economia Política, Sociopolítica e Economia


A. Economia Política
B. Cognição e Pesquisa
C. Tecnologia
D. Matemática
E. Ciências
F. Ciências da Computação

IV. Tecnologia
A. Matemática
B. Ciências
C. Ciências da Computação
D. Habilidades funcionais

V. Construção da Nação (aplicações práticas)


A. Estágios de Desenvolvimento de Carreira
B. Teoria de Pesquisa e Práticas
C. Projetos de Desenvolvimento Comunitário
D. Experiência Organizacional

Cada domínio curricular inclui várias disciplinas


específicas que são integradas para reduzir a
compartimentação que é típica dos currículos centrados em
disciplinas.
As experiências das escolas independentes demonstraram
que quando as várias disciplinas relacionadas são agrupadas

179
em um único campo curricular e ministradas por um único
instrutor ou equipe, o material da disciplina se torna mais
significativo para os alunos. Os alunos também reconhecem a
relação das diversas áreas de estudo e a demonstração da
relevância social é facilitada. Os benefícios adicionais deste
projeto incluem a capacidade dos instrutores em todos os
níveis, do primário ao secundário, de focar sua própria atenção
e estudo adicional em campos de estudo relacionados.
Geralmente, a instrução nos níveis primário e médio é
organizada de forma que um único instrutor seja responsável
por todas as disciplinas. Dada a inclinação natural dos
instrutores individuais em privilegiar a área de sua maior
competência, a utilização do modelo de áreas curriculares nos
níveis fundamental e médio tem potencial para alcançar
maiores níveis de produtividade, em termos de material
coberto e experiências fornecidas, bem como aumentos no
nível de responsabilização.
Nos níveis médio, avançado e secundário, a combinação
de várias disciplinas dentro das áreas curriculares requer
blocos de tempo maiores. O período de tempo normal pode
variar de noventa a cento e vinte minutos. Os requisitos de
maior profundidade de estudo em várias áreas disciplinares
no nível secundário requerem uma combinação de maior
intensidade em sala de aula, equipes de ensino bem
organizadas e dias letivos mais longos.
Além disso, a disponibilidade limitada de textos escritos de
uma forma consistente com este projeto limita o grau de
dependência do livro. Consequentemente, o professor tem a
oportunidade de sintetizar não apenas os conteúdos usuais
das respectivas disciplinas ou áreas disciplinares, mas
necessariamente incorpora os interesses do aluno e os

180
recursos disponíveis na escola e na comunidade em geral. Os
campos mais amplos de estudo também aumentam a
oportunidade para o desenvolvimento do pensamento criativo
e crítico e o desenvolvimento dos processos de pensamento
(compreensão, formação de conceitos, discurso oral,
composição, resolução de problemas, tomada de decisão,
pesquisa, formação de princípios). Um benefício adicional é a
facilitação da correlação de instrução entre os principais
instrutores ou equipes das diversas áreas curriculares.
O alcance e a sequência dos objetivos de aprendizagem ao
longo dos respectivos níveis de pré-escola, ensino fundamental
e médio irão ocasionar algum estreitamento dos campos nos
níveis mais avançados das respectivas disciplinas. Nos níveis
avançados, essas disciplinas ou áreas temáticas exigirão
maior profundidade. Em tais casos, um prêmio é colocado no
planejamento e entrega correlacionados ou paralelos.
Um dos maiores problemas deste projeto envolve a seleção
e ordenação do conteúdo das várias áreas disciplinares de
uma forma que faça jus à coerência de cada disciplina
particular. O projeto visa promover no aluno uma abordagem
holística e coerente do conhecimento e, ao mesmo tempo, ser
administrável pelo (s) instrutor (es). A fim de atender a esses
critérios e evitar o problema adicional de cada campo se tornar
não mais do que um “pot-pourri” 100 de fragmentos de assuntos
não relacionados e tratados superficialmente, um modelo para
organizar o conteúdo das várias disciplinas é proposto abaixo.
Ele combina e estende um conceito que foi explorado pelo
Conselho de Instituições Pretas Independentes (CIBI) no
desenvolvimento de seu guia curricular de estudos sociais.101
O guia de currículo é organizado em linhas que são derivadas

181
de considerações cognitivas e ideológicas. As vertentes são a)
Família, b) Comunidade, c) Nação e d) Raça.

Temas Ideológicos.
O projeto aqui requer uma elaboração adicional do projeto
explorado no guia de estudos sociais. Os fatores organizadores
aqui são derivados de duas das mesmas considerações,
cognitivas e ideológicas. As considerações ideológicas fluem
diretamente do ACTI e servem como temas gerais na
organização e apresentação das experiências de
aprendizagem. Os temas ideológicos servem para reforçar o
sentido de holismo e consciência cultural que é essencial para
o currículo Afrikano-centrado. Os temas foram escolhidos
porque correspondem aos princípios fundamentais da
construção histórico/cultural Afrikano-centrada. Além disso,
eles facilitam a transmissão dos principais valores da ideologia
Pan-Afrikanista/nacionalista. Os temas ideológicos também
correspondem aos níveis de capacidade cognitiva e prontidão
para a tarefa dos wanafunzi. Se usarmos a taxonomia de Bloom
de habilidades de pensamento, Fundamentos e Identidade
correspondem ao conhecimento e compreensão. Harmonia e
Ritmo são análogos à aplicação e análise. Independência e
Espírito correspondem à síntese e avaliação.
Os temas ideológicos ou determinantes incluem:

A. Fundamentos
1. Origens
2. Conceitos básicos
3. Temas Gerativos
4. Valores Fundamentais
5. Sabedoria Ancestral

182
6. Linguagem

B. Identidade
1. Consciência
2. Objetivo
3. Particularidade

C. Harmonia
1. Unidade
2. Coerência
3. Organização
4. Clareza
5. Reciprocidade
6. Resolução

D. Ritmo
1. Processo
2. Energia/Força
3. Padrão

E. Independência
1. Liberdade
2. Poder
3. Autodeterminação
4. Resistência
5. Permanência

F. Espírito
1. Fé
2. Holismo
3. Metafísica

183
4. Transcendência

Os temas ideológicos são projetados para atuar como


ponte para o conteúdo do assunto, os objetivos cognitivos e os
objetivos culturais/ideológicos. A seguir está um exemplo de
sua aplicação.

Conteúdo do assunto: - Completos/Inteiros.

Cognitivo: - Identificação; Atributos.

Referente cultural: - Argumentos prós e contras sobre


repatriação

Ideológico: - Fundamentos… Origens… valores;


- Harmonia ... unidade ... reciprocidade.

Esses determinantes ideológicos são cruzados com os


determinantes cognitivos. Para cada uma das várias fases
cognitivas, existe um conjunto de objetivos de aprendizagem
em cada área curricular. Cada experiência de aprendizagem é
ainda organizada de acordo com os vários temas ideológicos.

Determinantes Cognitivos e Fases de Desenvolvimento.


Os determinantes cognitivos do currículo correspondem
àquela sequência de fases que não são discretas, começando
com a infância e progredindo até a velhice. Cada fase tem um
foco social e um foco cognitivo. A organização das várias fases
deriva da observação, interação e expectativas sustentadas e
ativas de membros de várias instituições pretas independentes
(IBIS) ao longo de duas décadas. Observou-se que embora haja

184
um padrão geral de desenvolvimento comum a todas as
crianças, a natureza específica desse desenvolvimento
ocorrerá de acordo com as expectativas e demandas
conscientes e inconscientes da família e da cultura mais
ampla, de acordo com as instituições de apoio cultural/social
adequadas e práticas. Consequentemente, qualquer lista de
fases de desenvolvimento é tanto uma declaração do
desenvolvimento humano observado quanto uma declaração
das expectativas cultural e socialmente determinadas de cada
membro da sociedade.
O enfoque cognitivo e social mencionado acima
corresponde às potencialidades únicas do indivíduo para a
humanidade e às expectativas e necessidades culturalmente
determinadas do coletivo. O paradigma do dever individual
para com o coletivo é fundamental para a composição
espiritual/psíquica do Afrikano. É papel dos wazazi e do
mwalimu identificar e facilitar a realização dessas
potencialidades de forma que se harmonizem com o caráter e
a dinâmica do coletivo. Essas potencialidades devem se
desdobrar de uma forma que valorizem o coletivo e o coletivo
retribua ao nutrir a realização da humanidade plena e única
do indivíduo, esse inter-relacionamento é totalmente recíproco
e mutuamente enriquecedor.

FASES DE DESENVOLVIMENTO

Fase Um (Imediato); Foco Social - família e indivíduo; Foco


Cognitivo - identificação e interpretação do imediato e do
concreto.

185
Esta fase reconhece o papel primordial e central da família
na formação do indivíduo. É nesta fase inicial que se
estabelece a concepção essencial do ‘eu’ como extensão do
coletivo. O desenvolvimento cognitivo concentra-se
principalmente em estabelecer significados e padrões no
ambiente social imediato. Além dos estímulos emocionais, o
ambiente é percebido em termos concretos e estreitos.
Linguagem, comportamentos e valores são adquiridos
principalmente por meio de comportamentos modelados por
imitação de membros da família. Esta fase inclui o início e
grande parte da meia-infância.

Fase Dois (Abstração): Foco social - grupo etário e


comunidade; Foco Cognitivo - Pensamento criativo e crítico,
elaboração teórica.

O início desta fase é ocasionado pelo período de


pubescência. Durante esta fase, o foco social é expandido para
incluir o grupo etário e um senso de comunidade. O enfoque
familiar da fase anterior não foi perdido, entretanto. Na
verdade, o funcionamento eficaz no nível da comunidade
pressupõe uma base sólida no coletivo familiar. Há um esforço
consciente para moldar a personalidade através da
autoavaliação de tentativas frequentes e das respostas dos
colegas. Este é um período de intensa autoconsciência. É neste
estágio que a especulação filosófica e o pensamento lógico
podem ser sustentados, embora a base experiencial do
pensamento racional maduro ainda esteja ausente. A
afirmação desta nova capacidade cognitiva e o correspondente
aumento do domínio das formas simbólicas, incluindo a
linguagem verbal e não-verbal, muitas vezes assume uma

186
natureza rebelde. As ações e o pensamento nesta fase são
tipicamente impulsivos e superficiais. É nessa fase que a
consciência histórica e a consciência cultural são apreendidas,
embora seu significado nem sempre seja totalmente apreciado.
Este é um período de intensa energia física, intelectual e
espiritual. É também um período em que o envolvimento dos
pais e o apoio e orientação institucional e da comunidade são
mais necessários, tanto para o amadurecimento saudável da
criança quanto para o futuro da comunidade.

Fase Três (Realização): Foco Social - comunidade, nação;


Foco Cognitivo - síntese e criatividade simbólica e pragmática.

Nesta fase, a consciência social/histórica amadurece e se


torna um elemento considerado no comportamento. A
consciência desse processo histórico e a consciência cultural
que o acompanha amadurecem, e a necessidade
correspondente de estabelecer o próprio lugar nesse processo
histórico é despertada. A questão do papel e do lugar de uma
pessoa na sociedade torna-se primordial e é consumada no
estabelecimento da família. A questão da produtividade
pessoal se consuma na carreira. A experiência pessoal, bem
como a experiência e a história do coletivo são características
proeminentes na tomada de decisões e deliberações pessoais.

Fase Quatro (Realização): Foco Social - raça e universo; Foco


cognitivo - holismo, intuição, legado e força espiritual.

Tendo estabelecido a família e o ‘eu’ com sucesso e


satisfeito os deveres e responsabilidades associados à
manutenção e ao desenvolvimento da comunidade e da nação,

187
a pessoa entra na quarta fase, a da realização. Esta fase é
marcada por uma visão de mundo e filosofia de vida totalmente
desenvolvidas. O ponto focal de referência é a natureza
holística de ser e tornar-se. A preocupação com o próprio
legado é equilibrada com a urgência de compartilhar uma lição
de vida em um esforço para facilitar o desenvolvimento
máximo das gerações que se seguem. Existe uma consciência
única da força espiritual e da proximidade com essa força.

Campos Curriculares.
Os cinco domínios curriculares, Cultural/Ideológico,
Espiritual/Psicoafetivo, Sociopolítico/Econômico, Tecnologia e
Construção da Nação; fornecem a base para a organização dos
vários campos curriculares e das áreas disciplinares que os
compõem. Os domínios também fornecem a base para
organizar os walimu em equipes para o processo educacional
real. Além disso, os domínios fornecem a base para a
organização do horário das aulas. A programação deve
fornecer blocos de tempo, não menos que noventa minutos,
para cada aula.
Os campos curriculares e as áreas disciplinares incluem o
seguinte:

Cultural/ideológico
História
• História Afrikano-americana
• Civilizações do mundo
• Civilização Afrikana Clássica
• Conceitos e aplicações
• Tendências atuais e desenvolvimento
• Holocausto da Escravidão Afrikana

188
• História Mundial Pan-Afrikana
• Geografia mundial
Linguagem e cultura
• Línguas Afrikanas (Regional- Twi, Wolof, Iorubá,
Zulu, Amárico; o Pan-Afrikano- Kiswahili)
• Conceitos e aplicações
• Tendências e desenvolvimentos atuais
• Medu Neter (linguagem e escrita Afrikana clássica)
• Outros idiomas (europeu - francês, espanhol,
português; e asiático - chinês, japonês)
Cultura e Expressão Criativa
• Estética (afrocêntrica)
• Comunicação Audiovisual
• Conceitos e aplicações
• Tendências e desenvolvimentos atuais
• Literatura (Afrikana)
• Literatura (modelos internacionais)
• Música e dança (Afrikana: tradicional e moderna)
• Discurso e Debate
• Artes Visuais e Afrikana Moderna, incluindo
mídia eletrônica
• Expressão escrita (criativa e funcional)
Filosofia e Ideologia
• Nacionalismo Afrikano e Pan-Afrikanismo
• Sistemas Filosóficos Afrikanos Clássicos e Tradicionais
• Conceitos e aplicações
• Tendências atuais e desenvolvimento;
• Filosofias Europeia e Asiática

Espiritual e Psicoafetivo
Ética e Moralidade

189
• Sistemas Espirituais Afrikanos (clássicos e tradicionais)
• Sistemas Ético-Morais Clássicos e Tradicionais
(por exemplo, Maat, Akan, Kikuyu)
• Conceitos e aplicações
• Tendências e desenvolvimentos atuais
• Outros sistemas espirituais/religiosos do mundo
Autoconhecimento
• Conceitos e aplicações
• Tendências e desenvolvimentos atuais
• Família e Relações Interpessoais
• Modelos de Liderança
• Filosofia pessoal
• Desenvolvimento Físico e Autodefesa

Sociopolítico e econômico
Ciência Política
• Política Eleitoral e Afrikano-americana
• Conceitos e aplicações
• Tendências e desenvolvimentos atuais
• Sistema de Governo (nacional e local)
• Holocausto da Escravidão Afrikana
• Relações Internacionais
• Racismo e Desenvolvimento Ocidental
• História dos Estados Unidos
Desenvolvimento comercial e econômico
• Bancos e investimentos
• Conceitos e aplicações
• Tendências e desenvolvimentos atuais
• Modelos de Desenvolvimento Econômico
• Economia

190
Tecnologia
Matemática
• Álgebra I
• Álgebra II e trigonometria
• Aritmética
• Cálculo
• Conceitos e aplicações
• Tendências e desenvolvimentos atuais
• Matemática Geral
• Geometria
• Contribuições históricas, envolvimento atual e
utilidade social
Ciências
• Agronomia
• Astronomia
• Biologia
• Química
• Conceitos e aplicações
• Tendências e desenvolvimentos atuais
• Ciências gerais
• Saúde e nutrição
• Contribuições históricas, envolvimento atual e
utilidade social
• Ciências da Vida
• Ciências físicas
• Física
• Tecnologia e Desenvolvimento Nacional
Ciência da Computação
• Formulários
• Conceitos e aplicações
• Tendências e desenvolvimentos atuais

191
• Contribuições históricas, envolvimento atual e
utilidade social
• Alfabetização (incluindo pesquisa de
desenvolvimento moderno em redes de
computadores e comunicações)
• Programação
• Projeto e Análise de Sistemas
Habilidades funcionais
• Manutenção de automóveis
• Carpintaria
• Conceitos e aplicações
• Tendências e desenvolvimentos atuais
• Sistemas Elétricos e Mecânicos Domésticos
• Digitação

Construção da Nação (aplicações práticas)


Estágios de desenvolvimento de carreira
• Orientação profissional
• Experiência de trabalho
Pesquisa: Teoria e Aplicação
• Africologia e Metodologia de Pesquisa
• Experiência de pesquisa de campo (social,
antropológica, etc.)
Projeto de Desenvolvimento Comunitário
• Experiência em campo
• Análise das Necessidades e Concepção do Projeto
Experiência de Organização
• Sócio ativo
• Dinâmica do Projeto de Organização

192
A incorporação de ‘Tendências e Desenvolvimentos Atuais’
oferece a oportunidade de examinar e avaliar a aplicação da
área disciplinar na vida real e de incorporar as experiências
dos próprios alunos e membros de sua família e comunidade
que estarão ativos na área disciplinar. A proximidade de
interesses profissionais, de varejo, de estúdio (artesanais),
científicos e de manufatura facilitaria experiências
complementares para a sala de aula. A exposição adicional e a
oportunidade de conhecer a aplicação no mundo real são por
meio de ciências especiais da televisão, jornais e revistas, e
ocasionais viagens de campo relevantes e bem planejadas para
museus e outros locais apropriados.

Holocausto da Escravidão Afrikana.


Enquanto o encontro de civilizações Afrikanas com outras
nações na antiguidade e na história mais recente é coberto
pelo Pan-Afrikanismo e pela História Afrikana Clássica, a
escravização sistemática e a inferiorização das culturas
Afrikanas por nações árabes e europeias exigem atenção.
Como a maior parte da história da Áfrika, o Holocausto da
Escravidão da Afrikana foi distorcido, justificado e enterrado
sob séculos de propaganda acadêmica, religiosa e política. O
objeto deste curso, como o objeto dos cursos históricos, é a
verdade. O assunto deve ser examinado tanto em sua
dimensão histórica como moral, psicológica, espiritual,
econômica e política. Deve ficar dramaticamente claro para os
wanafunzi que a escravização e a desumanização dos
Afrikanos pelos árabes, e o “comércio de vidas africanas pelos
europeus constituíram o ato mais destrutivo jamais
perpetuado por um grupo de pessoas sobre outro”. O papel da
religião e da propaganda deve ser examinado, já que tanto o

193
árabe quanto seu irmão europeu usaram o islamismo e a
propaganda cristã para justificar sua pilhagem. Os elementos
do curso devem incluir o seguinte:

A. Definições e precedentes, ocorrências históricas


contemporâneas
B. Duração e escopo (histórico e moderno)
C. Predisposições psicológicas e históricas ao genocídio
nas culturas árabes e europeias
D. Motivos econômicos
E. Resposta Afrikana (resistência e cumplicidade)
F. Demografia (números perdidos por guerra, captura,
transporte, doença, resistência...)
G. Resistência e vindicação
H. Legado moderno (psicológico, social,
político/econômico)
I. Propaganda religiosa, acadêmica e política europeia e
árabe
J. Implicações morais, jurídicas, econômicas e sociais

Pensamento Criativo e Crítico.


Cada uma das várias áreas curriculares inclui a área de
Conceitos e Aplicações. A inclusão desta área destina-se a
fornecer o desenvolvimento relacionado ao assunto do
pensamento criativo/crítico, das habilidades de pensamento
centrais e dos processos de pensamento. A suposição aqui é
que o desenvolvimento das habilidades de pensamento está
inextricavelmente ligado ao domínio do assunto. Pensar
pressupõe que haja algo de substancial em que pensar. O
objetivo de desenvolver habilidades de pensamento
criativo/crítico é equipar o aluno com a capacidade de ser

194
perspicaz e analítico, mas também perspicaz, intuitivo e
imaginativo. O pensamento crítico e o pensamento criativo não
são processos mutuamente exclusivos. A depender do
momento, a pessoa pode estar pensando mais ou menos
criativamente ou criticamente. Ao desenvolver essas
habilidades, é essencial que o instrutor esteja sensível ao estilo
de aprendizagem individual do aluno, bem como ciente do
estilo cognitivo único dos Afrikanos. Essas habilidades
associadas ao pensamento crítico incluem o seguinte:

1. Definição de tese ou pergunta


2. Esclarecimento de critérios e/ou padrões e fonte dos
mesmos
3. Coleta de dados precisos e confiáveis
4. Avaliação da credibilidade da fonte de dados
5. Definição e julgamento de definições de termos
6. Avaliação de teses ou questões relativas aos dados
7. Detecção de preconceitos, inconsistências, estereótipos
e apelos emocionais
8. Distinguir fato de opinião, causa de efeito
9. Identificação de suposições
10. Identificação de falácias lógicas
11. Fazer julgamentos depois de considerar as evidências
relevantes e/ou razões sólidas

Essas habilidades geralmente associadas ao pensamento


criativo incluem o seguinte:

1. Compreensão intuitiva do problema, processo e solução


2. Percepção holística
3. Identificação do único

195
4. Flexibilidade e adaptabilidade
5. Improvisação e espontaneidade focada
6. Novas utilizações imaginadas de informações antigas
7. Identificação de formas, padrões e elementos e novas
formas de síntese
8. Avaliação e mudança de processo ou produto em termos
de meta declarada
9. Mudança e alteração como consequência do insight
obtido da avaliação
10. Contemplação de novas possibilidades

A área disciplinar de Tecnologia, Ciências e Matemática


inclui a componente disciplinar de Contribuições Históricas,
Envolvimento Atual e Utilidade Social. Este objetivo pretende
ser um veículo para a incorporação das contribuições
históricas dos Afrikanos, começando com os esforços seminais
do período clássico Afrikano no antigo Kemet e outras regiões
do continente até tempos anteriores à subjugação colonial. O
envolvimento atual fornece o veículo para examinar os esforços
recentes e contínuos dos Afrikanos no campo. Um exame do
envolvimento atual fornece a oportunidade para os wanafunzi
identificarem modelos de comportamento, bem como
identificar áreas de interesse para um eventual estudo. A
utilidade social fornece a oportunidade para a avaliação das
teorias, processos e tecnologia atuais quanto à sua utilidade
como soluções para os problemas enfrentados pela
comunidade Afrikana e seu impacto cultural, se empregada.

Desenvolvimento do Caráter.
O foco do domínio curricular Espiritual/Psicoafetivo é o
desenvolvimento do caráter coletivo e individual do aluno. O

196
estudo dos sistemas espirituais e dos sistemas éticos/morais
destina-se a fornecer ao aluno um conjunto funcional de
padrões de comportamento que se baseia no sistema clássico
Afrikano de Maat e nos sistemas tradicionais relacionados. O
estudo desses mesmos sistemas é ampliado com o estudo de
Modelos de Liderança. O foco dos Modelos de Liderança inclui
estilo, visão, ambiente político-econômico, ideologia, interação
líder-constituinte, habilidades organizacionais,
comportamento ético e influências familiares formativas.
Dado o escrutínio de personalidades históricas em relação
aos critérios éticos/morais e ideológicos estabelecidos, o aluno
terá a oportunidade de se identificar com essas
personalidades, de moldar seus próprios personagens com os
aspectos positivos dessas personalidades e, finalmente, de se
conhecer. Além disso, as habilidades de autoanálise e
avaliação serão desenvolvidas. Consistente com os sistemas
éticos/morais Afrikanos clássicos e tradicionais e em linha
com a ideologia nacionalista/Pan-Afrikanista, certos traços de
caráter devem receber ênfase especial. Eles incluem o
seguinte:
1. Humildade
2. Respeito
3. Generosidade
4. Orientação de serviço
5. Centrado na Família
6. Reverência pela Tradição (antepassados e anciãos)
7. Orientação Pessoa-Comunidade
8. Veracidade
9. Pensamento, emoção e comportamento justos
10. Estudo
11. Autodisciplina

197
12. Autoconfiança

O quinto campo curricular, Construção de Nação ou


Aplicações Práticas, serve para posicionar o aluno como um
participante ativo no processo de construção da nação; esse
processo inclui desenvolvimento e manutenção institucional,
coleta, processamento e distribuição de informações,
desenvolvimento econômico, capacitação política, etc. Este
campo pode facilitar a pesquisa nacional e internacional,
programas de intercâmbio e desenvolvimento e, assim,
promover a unidade Pan-Afrikana real e o esforço cooperativo.
Mais importante ainda, o campo de construção de nações
torna todo o esforço educacional abrangente e completo.

REALIZAÇÃO/IMPLEMENTAÇÃO

A implementação efetiva do currículo pressupõe


professores, alunos e pais capacitados e motivados. A maior
parte das ocasiões em que o aluno está envolvido em
atividades de aprendizagem estruturadas em relação ao
currículo será fornecida pelo professor. Segue-se que grande
parte da implementação do currículo é uma função da
metodologia ou técnica educacional. Um método de entrega
Afrikano-centrado, ou metodologia instrucional, é um
componente crítico do currículo Afrikano-centrado, e foi
abordado no capítulo anterior, Notas sobre uma Pedagogia
Afrikano-centrada.
“Uma pedagogia Afrikano-centrada, uma pedagogia
derivada do continuum histórico mundial Afrikano e da
dinâmica cultural, se esforça para estimular e nutrir a
consciência criativa e crítica, e inculcar, através do estudo e

198
aplicação, um compromisso firme e consciente com a
construção de uma verdadeira nacionalidade Afrikana e com a
restauração do continuum histórico/cultural Afrikano. Ela se
esforça para criar uma personalidade Afrikana dinâmica e
livre.”
Para além da questão da metodologia instrucional, a
implementação eficaz do currículo requer um alinhamento
cultural/ideológico ou um consenso dentro da comunidade da
qual a escola é o ponto focal. O papel e a relação dos vários
fatores no desenvolvimento e implementação do currículo são
representados pela Figura F. A própria liderança da escola
deve ser firme em seu compromisso com o currículo. A
liderança escolar e os professores também devem estar
pessoalmente comprometidos com os valores centrais
inerentes ao currículo; construção da nação e
desenvolvimento do caráter. É crucial que os pais tenham
ocasiões constantes para instrução relacionada ao currículo e
instrução de apoio e envolvimento em atividades relacionadas
ao currículo. Essas ocasiões para instrução dos pais devem
envolver não apenas a apresentação e discussão do assunto,
mas o aspecto central deve ser uma discussão do impacto do
currículo no aluno. Esse feedback dos pais deve constituir
uma valiosa ferramenta de avaliação no aperfeiçoamento do
currículo. Além disso, um corpo de pais preocupado, ativo e
informado é fundamental para enfrentar a miríade de
problemas negativos e desestabilizadores da cultura que
confrontam o aluno e toda a comunidade. Esses problemas
incluem; abuso de drogas, racismo evidente e oculto, apatia,
violência, recursos materiais e pessoais limitados e a fixação
da mídia popular no materialismo, exploração sexual,
individualismo e enfoque eurocêntrico.

199
Em “Notas sobre uma pedagogia Afrikano-centrada”, o
círculo interativo foi descrito como um veículo para a
facilitação da interação dinâmica e criativa entre aluno e
professor. Este mesmo conceito pode ser aplicado à interação
necessária e dinâmica dos diversos e interessados
constituintes do currículo e do processo de aprendizagem.
Esses constituintes ativos e interessados são representados
graficamente na Figura D. O círculo interno e os atores mais
imediatos incluem a família e o aluno, a escola, o mwalimu e
a comunidade. Os constituintes do círculo externo definem o
contexto mais amplo no qual o currículo e os processos de
aprendizagem ocorrem. Eles incluem a cultura e a ideologia da
nação, o ambiente espiritual e de interação, o ambiente
sociopolítico e econômico (particularmente conforme é
determinado pela nacionalidade dominante) e o ambiente
psicoafetivo.
É extremamente importante reconhecer que a escola
fornece apenas uma parte da educação do indivíduo. Esse
processo abrangente pode ser descrito como o processo de
enculturação ou socialização, pois envolve, em última
instância, a transmissão da cultura e da ideologia e a
perpetuação da ordem social. Esse processo é formal e
informal, consciente e subconsciente, aberto e oculto,
estruturado e aleatório. Essa parte aparentemente informal do
processo de enculturação envolve uma miríade de interações
interpessoais e institucionais que reforçam a ordem
cultural/social geral, apesar de sua ocorrência aparentemente
aleatória e desestruturada.
As mais bem-sucedidas das instituições Afrikano-
centradas incorporaram o conceito de círculo interativo,
estabelecendo vários programas auxiliares envolvendo as

200
artes, empreendimentos comerciais, incluindo alimentos,
habitação e serviços essenciais, programas educacionais
expandidos, incluindo seminários para adultos e
acampamentos de verão, e programas espirituais e culturais.
A escola continua muito no centro desta comunidade. O efeito
é o estabelecimento de uma rede abrangente ou constelação
de interações e conexões Afrikano-centradas que reforçam e
aumentam o processo de aprendizagem centrado na escola. A
dinâmica progressiva da aldeia tradicional é assim recriada.
Essas comunidades centradas na escola servem como âncora
para comunidades metropolitanas Afrikano-centradas, como
as de Washington, Filadélfia, Trenton, New Brunswick,
Detroit, East Palo Alto e Chicago.

201
(F) Figura: Desenvolvimento do Currículo

202
AVALIAÇÃO

A avaliação do currículo é um assunto multifacetado.


Envolve o momento da avaliação, a determinação do avaliador,
os objetivos da avaliação, o escopo da avaliação, a natureza da
avaliação e a estrutura ou organização da avaliação. O
currículo nacionalista/Pan-Afrikanista ainda está em seus
estágios de formação. Embora as escolas independentes
Afrikano-centradas estejam em operação há mais de vinte
anos, a falta de uma base filosófica coerente e os recursos
financeiros limitados restringiram o trabalho em um modelo
curricular. Consequentemente, a maioria dessas instituições
adotou uma abordagem eclética que girava em torno do projeto
centrado no assunto. Esse projeto básico foi ampliado por uma
integração abrangente de referências históricas e culturais.
O grau de “intensidade” cultural/ideológica variou de
instituição para instituição. Os modelos mais intensos exigiam
roupas tradicionais Afrikanas, nomes tradicionais Afrikanos,
o estudo de Kiswahili; integrou o tema da consciência Afrikana
ao longo do currículo; e enfatizou a história Afrikana e
Afrikano-americana. As escolas mais intensas foram fundadas
por organizações ou coletivos, eles próprios ativos na
promoção da cultura e ideologia de base Afrikana. Muitos dos
componentes culturais, mesmo das escolas culturalmente
intensas, eram específicos do local e, consequentemente,
variavam significativamente.
As escolas menos intensas geralmente tratavam as
referências culturais e históricas de forma supérflua. O
conteúdo cultural foi limitado à exibições pitorescas de
paredes e memorização de fatos históricos. Por outro lado, o
projeto e o conteúdo do currículo seguiram os modelos

203
eurocêntricos padrão, muitas vezes incorporando técnicas e
materiais identificados com curricularistas eurocêntricos
“progressistas” ou “radicais”.
Apesar das variações de concepção e implementação entre
as várias instituições Afrikano-centradas, a concepção de um
currículo Pan-Afrikanista abrangente Afrikano-centrado
resultará dos seus esforços contínuos. O esforço realizado aqui
é um reflexo formativo de seus esforços contínuos. É possível
agora contemplar um currículo verdadeiramente Afrikano-
centrado devido ao tremendo esforço que está sendo realizado
pelos pesquisadores e teóricos da ideologia e educação
Afrikano-centradas.
Qualquer avaliação de um modelo curricular deve
estabelecer congruência entre os objetivos curriculares,
conforme sugerido pelo Inventário Temático Afrikano-
Centrado (ACTI) e os resultados reais. Dado que o esforço aqui
é referenciado no trabalho das escolas independentes
culturalmente intensas, um exame dos resultados reais desses
programas serviria como uma medida da eficácia do modelo
curricular aqui elaborado. No entanto, a falta de estudos de
acompanhamento de longo prazo prontamente disponíveis e
de uma declaração definitiva do resultado pretendido e real
não permite, neste momento, essa medida. A avaliação dos
currículos das escolas independentes não foi realizada
sistematicamente, em parte devido à falta de uma filosofia
curricular coerente.
Os resultados pretendidos, como o equilíbrio do currículo,
serão determinados em grande medida pelos fundamentos
filosóficos do currículo. O tema gerador do ACTI é a construção
da nação (Nacionalismo Afrikano). Dado o escopo dessa tarefa,
deve ficar claro que o compromisso e as energias de

204
instituições e indivíduos engajados em outras áreas além da
educação serão necessários. Esse tema gerador sugere, no
entanto, que aqueles alunos que se pode dizer que foram
moldados por essa experiência curricular devem manifestar
um compromisso genuíno com a cultura/ideologia em
palavras, pensamento e comportamento. Os resultados
pretendidos também incluiriam competência acadêmica e
desenvolvimento de caráter sólido consistente com os traços
enfatizados.
Os critérios de avaliação do currículo Afrikano-centrado
terão componentes duplos que refletem a dualidade histórica
e atual do propósito que se deve servir. O currículo Afrikano-
centrado deve servir para (a) promover a nacionalidade
Afrikano-americana, seus objetivos culturais e ideológicos; e
(b) facilitar o desempenho totalmente funcional e/ou
excepcional na economia política americana dominada pelos
brancos.
A capacidade ou função dentro de uma ordem social
dominada por europeus não implica a aceitação de um status
subordinado. Conforme declarado no ACTI, um dos objetivos
do currículo Afrikano-centrado é promover um compromisso
com o pluralismo cultural com igualdade e justiça; mas com
uma nacionalidade Afrikana totalmente desenvolvida como
base. O papel que o currículo Afrikano-centrado desempenha
no desenvolvimento dessa nacionalidade Afrikana e suas
formações espirituais, sociopolíticas e econômicas
concomitantes deve ser promovido com a mesma intensidade
que as campanhas de alfabetização da Tanzânia, Guiné-
Bissau e Zimbábue. O papel da ideologia Afrikano-centrada e
Pan-Afrikanista é crucial para o esforço de desenvolver uma
nacionalidade Afrikana verdadeiramente livre. O sucesso da

205
campanha para promover uma educação verdadeiramente
Afrikano-centrada determinará a viabilidade cultural, se não a
sobrevivência física real, dos Afrikanos por gerações.
Em última análise, a natureza do tema gerador, a
construção da nação (Nacionalismo Afrikano), exige que as
instituições encarregadas de administrar o currículo
nacionalista/Pan-Afrikanista redobrem seus esforços, e/ou
combinem seus esforços com os de instituições e organizações
de cultura, negócios e política com base na comunidade para
desenvolver a infraestrutura nacional e internacional (física e
institucional) baseada na comunidade na qual os graduados
das escolas independentes possam direcionar suas energias
criativas. Essa infraestrutura envolve a estrutura básica de
valores, comportamentos, linguagem, rituais, tecnologia,
associações, edifícios, terras, comunidades, etc., dentro da
nacionalidade Afrikano-americana e do mundo Pan-Afrikano.
Envolve ações coordenadas e objetivas de instituições
culturais, econômicas e políticas no interesse da população
Afrikana e é consistente com a cultura/ideologia do
nacionalismo/Pan-Afrikanismo. O resultado desejado é que
nossos filhos ocupem seu lugar dentro dessa infraestrutura e
a impulsionem para um futuro de verdadeira independência e
autodeterminação.

Notas.
1. Cruse, Harold. The Crisis of the Negro Intellectual. New
York: Quill, 1967.

2. Uma crítica frequente feita por críticos da Educação


Afrocêntrica que ameaça rasgar a ‘cultura comum que
pertence a todos nós’. Ver Leo, John. “A Fringe History of The
World", U.S. World and Report, Nov 12, 1990, E também
206
Ornstein, Alan C. and Francis P, Hunkins. Curriculum:
Foundation, Principles and Issues, Englewood Cliffs: Prentice
Hall, 1988.

3. Alba, Richard D. Ethic Identity: The Transformation of


White America. New Haven: Yale University Press, 1990.

4. Cruse, 1967.

5. Stuckey, Sterling. Slave Culture. New York: Oxford


University Press, 1987.

6. Aptheker, Herbert, ed. “A Letter From And To Slave


Rebels 1793,” Documentary History, Vol I. New York: Citadel
Press, 1951.

7. Harding, Vincent. There Is a River: The Black Struggle


for Freedom in America. New York: Harcourt Brace Jovanovich
Publishers, 1981.

8. Stuckey

9. Ibid

10. Stuckey

11. Aptheker

12. Ibid

13. Aptheker

14. Harding

207
15. Aptheker

16. Garvey, Amy Jacques, ed. “An Appeal to the


Conscience of The Black Race To See Itself”, The Philosophy
and Opinions of Marcus Garvey, Vol II. Dover: The Majority
Press, 1986, p. 22.

17. Martin, Tony. Race First. Dover: The Majority Press,


1976, p. 23.

18. X, Malcolm. "OAAU Homecoming Rally", New York:


Pathfinder, 1970.

19. "A Negro Emigration Convention 1854", Aptheker

20. Ibid

21. Diop, Cheikh Anta. The African Origin of Civilization.


Westport: Lawrence Hill, 1974.

22. Rkhty Wimby Amen, “The Philosophy of Kemetic


Spirituality”, Reconstructing Kemetic Culture, ed. by Maulana
Karenga. Los Angeles: University of Sankore Press, 1990, p.
115.

23. Richards, Dona Marimba. Let The Circle Be Unbroken.


1989, Pg7.

24. Richards, p.

25. Karenga, Maulana. "Towards a Sociology of Maatian


Ethics", Reconstructing Kemetic Culture. p. 78.

208
26. Ibid

27. Williams, Chancellor. Destruction of Black Civilization.


Chicago: Third World 1988, p. 170.

28. Ibid

29. Ibid

30. Abraham, The Mind of Africa. Chicago: University of


Chicago Press, 1962, p. 63.

31. Williams, Chancellor. The Rebirth of African


Civilization. Washington: Public Affairs Press.

32. Welsing, Frances Cress. The Isis Papers. Chicago:


Third World Press, 1991, p. 275.

33. Karenga

34. Ibid

35. Jacob H. Carruthers

36. Abraham

37. Ibid

38. Richards

39. Maulana Karenga

209
40. Diop, Pg. 260.

41. Cheikh Anta Diop. Black Africa, p.3.

42. Ibid

43. Rashidi, Runoko, “A Historical Overview”, African


Presence in Early Asia, ed. Van Sertima, Ivan and Runoko
Rashidi. New Brunswick: Transaction Publishers, p. 35.

44. Ibid

45. James, George M, Stolen Legacy. San Francisco: Julian


Richardson Associates, 1988, p. 9.

46. Diop

47. Jackson, John G. Man, God, and Civilization. Sea


caucus: Carol Publishing Group 1972, p. 216.

48. Diop, Black Africa, p. 7.

49. Asante, Molefi. Kemet, Afrocentricity end Knowledge

50. Williams, Chancellor, Destruction of Black Civilization,


p. 33.

51. Diop, "Ethnicity and National Consciousness"

52. Maulana Karenga, Introduction to Black Studies, Pg 43.

210
53. Shwana Maglangbayan. Garvey Lumumba Malcolm;
Black Nationalist Separatists, Chicago; Third World Press 1972
Pg 109.

54. Maglangbayan

55. Williams

56. Harold Cruse, The Crisis of The Negro Intellectual, Ncw


York:QuiIl 1984.

57. Malcolm X, By Any Means Necessary, New York:


Pathfinder, 1970.

58. Marcus Garvey, Philosophies and Opinions, Pg. 311.

59. Molefi Asante, Afrocentricity, Trenton: Africa World


Press, 1988.

60. Neely Fuller, The United Independent Compensatory


Code/System/Concept.

61. Dr. Frances Cress Welsing, “The Cress Theory", in The


Isis Papers. Chicago: Third World Press 1991,

62. Stokely Carmichael and Charles V. Hamilton, Black


Power, New York: Vintage Books, 1967.

63. Molefi Asante, Afrocentricity, Trenton: Africa world


Press, 1988.

211
64. Cheikh Anta Diop, "Interview with Cheikh Anta Diop"
in Great Afrikan Thinkers. ed by Ivan Van Sertima, New
Brunswick: Transaction Books 1986.

65. Chancellor Williams, Pg. 310.

66. Marcus Garvey, Philosophy and Opinions, Pg. 7.

67. Ibid, p.

67. Clarke, John Henrik, African World Revolution:


Africans at the Crossroads, Africa World Press, 1991, Pg. 25.

68. Martin Delaney

69. Imari Obadele, America the Nation-State, Washington:


The House of Songhay, 1988.

70. Chancellor Williams, Pg. 334.

71. Marcus Garvey, Pg. 6.

72. Harold Cruse, Plural But Equal, Pg. 386.

73. Chancellor Williams, Pg. 170s

74. Chancellor Williams, Pg. 172.

75. The Counsel of Independent Black Institutions,


Positive Afrikan Images for Children, Trenton: The Red Sea
Press, 1989.

212
76. Clarke, John Henrik, African World Revolution:
Africans at the Crossroads, Trenton: Africa World Press, 1991,
Pg. 18.

77. Daima M. Clark "Similarities Between Egyptian and


Dogon Perception of Man, God and Nature" in Kemer and The
African Worldview ed by Karenga and Carruthers, Los Angeles:
University of Sankore Press, 1986.

78. Dr, Frances Cress Welsing, “Black Male/Female


Relationships”, Pg. 280.

79. Imari Obadele. America the Nation-State. Washington:


The House of Songhay, 1988.

80. Harold Cruse. The Crisis of The Negro Intellectual. New


York: Quill 1967.

81. Ibid

82. Ibid

83. Ibid

84. Marcus Garvey

85. Molefi Asante, Kemet, Afrocentricity and Knowledge.

86. Chancellor Williams, Ibid

87. Welsing, Francis Cress, Ibid

88. Garvey, Marcus; Philosophy and Opinions, p.11

213
89. Clark, John Henrik, African World Revolution: Africans
at the Crossroads, Trenton: Africa World Press 1991, pg. 15.

90. Ibid

91. Clarke, John Henrik. African World Revolution

92. Chinweizu. Decolonizing the African Mind. Lagos: Pero


Press, 1987, Pg. 269.

93. Ibid, Pg. 168

94. Garvey, Marcus, Philosophy and Opinions, Pg 6.

95. Williams, Chancellor, Destruction, Pg.320.

96. Clarke, John Henrik, African World Revolution:


Africans at the Crossroads, Trenton: Africa World Press, 1991,
Pg. 420

97. O termo Sankofa tem suas origens entre o povo Akan


da Áfrika Ocidental. Sankofa está associado aos símbolos
Adinkra e tem um provérbio que afirma que “para seguir em
frente, é preciso conhecer o passado”. Outra versão do
provérbio é “volte e vá buscá-lo”.

98. Jacobs, Heidi Hayes. “The Growing Need for


Interdisciplinary Curriculum Content”, Interdisciplinary
Curriculum. Alexandria: Association for Supervision and
Curriculum Development.

214
99. Akoto, Kwame Agyei ed. Positive Afrikan Images for
Children: A Social Studies Guide. Trenton: Red Sea Press,
1990.

100. Richards, Marimba, Pg.12.

101. Hale-Benson, Janice E. Black Children: Their Roots,


Culture and Learning Styles. Baltimore: John Hopkins
University Press, 1982. Ver também Wilson, Amos. The
Development Psychology of the Black Child. New York: Africana
Research Publication, 1978.

215
PARTE QUATRO - INTERAÇÕES

216
1. Os Pais na Escola

Um componente importante e, de fato, imperativo na


criação eficaz dos filhos é a disponibilidade, e que envolve a
presença de energias masculinas e femininas durante os anos
da infância. Uma proposição atualmente proeminente em
relação à comunidade Afrikano-americana é a “presença em
declínio, a indisponibilidade e o descompromisso do homem
preto”. Poucos de nós questionam a precisão, perspectiva ou
propósito desta proposição.
Recentemente, enquanto refletia sobre a redução do
homem Afrikano-americano na primeira página de
Washington, jornal, rádio, TV, etc., a discussão do momento
se voltou para o envolvimento dos homens na Escola
NationHouse Watoto. Com um pouco de pesquisa,
descobrimos que em todos os níveis do NH Watoto, homens e
mulheres Afrikanos estão trabalhando juntos de forma
intensa, consistente, harmoniosa e proposital.

• Entre os fundadores estão dois homens e duas mulheres.


• Entre o pessoal administrativo há dois homens e três
mulheres.
• Entre o corpo docente há cinco homens e cinco mulheres.
• Entre os pais da liderança auxiliar, há três homens e
quatro mulheres. (Durante o ano letivo 87-88, quatro homens
e três mulheres.)
• Uma revisão superficial do número de famílias em NH
Watoto revela que 87% de todas as famílias matriculadas são
aquelas nas quais as figuras paternas são ativas e
proeminentes na vida de seus filhos. Entre essa porcentagem
está uma série de pais solteiros.
217
• Em nossa última reunião de pais em Watoto, 57% desses
presentes eram homens e 4% eram mulheres.

A conclusão clara que podemos tirar sobre a enxurrada


incessante de dissertações acadêmicas, histórias da mídia e
“resultados de pesquisa respeitáveis” que pretendem
demonstrar conclusivamente a impotência e/ou ausência do
homem Afrikano é que essa proposição é suspeita, se não
falsa.
Existem três pontos relacionados que devem informar
nossa perspectiva sobre este e todos os problemas que são
introduzidos em nossa realidade pelos meios de comunicação
de massa.

a) A mídia é propriedade de americanos brancos, judaico-


cristãos (desproporcionalmente judeus), e fala/apela a uma
clientela quase exclusivamente branca (voltada para os
brancos). Ela reflete e promove sem nenhuma vergonha os
interesses econômicos, políticos e culturais dos americanos
brancos.

b) Os Afrikanos-americanos são historicamente e


atualmente os despojos de guerra tirados de suas terras
durante a invasão imperialista europeia, destruição e
subjugação das nações Afrikanas tradicionais. Nossos
antepassados eram prisioneiros de guerra e somos uma
colônia doméstica de 30 milhões de prisioneiros de guerra
tomados no ataque militar, econômico, político e cultural de
400 anos contra a Áfrika e seu povo.

218
c) Somos uma nação vencida, e em qualquer guerra, os
vencidos inevitavelmente descobrem que o vencedor humilha,
recruta ou mata os homens, compromete as mulheres,
confisca a riqueza material, distorce ou destrói a história e
cultura, e educa as crianças em seus interesses.

Estamos em guerra e a mídia de massa branca, em seu


papel de “criadora da realidade”, é ainda mais eficaz do que
drogas, álcool e revólveres. Não identificaremos nem
resolveremos os problemas reais em nossa comunidade se
tivermos que olhar para a mídia branca, pessoas brancas ou
pessoas pretas conversando para e como pessoas brancas,
para uma exposição desses problemas. Em vez disso, devemos
depender de homens e mulheres Afrikanos capazes e
comprometidos, que estão comprometidos uns com os outros,
com seus filhos e com as instituições que os representam.
É claro que os homens e mulheres da NH Watoto
assumiram esse compromisso. Estamos certos de que um
compromisso semelhante está ocorrendo atualmente em
outras instituições orientadas pelo Pan-Afrikanismo.

219
2. Responsabilidade Coletiva

As recentes mortes de dois jovens que viviam perto do


coração da comunidade local de base Afrikana serviram para
destacar a urgência da necessidade de fortalecer a
infraestrutura de toda a comunidade Afrikana. A
responsabilidade final pela segurança de nossos filhos e a
responsabilidade final por organizar e moldar o potencial
espiritual, intelectual e físico dos jovens Afrikanos é da
comunidade. Onde essa comunidade carece de coerência ou
foco cultural/ideológico, seus membros, especialmente as
crianças, serão vítimas de cada novo veneno social açucarado
que emerge da perversão que é a ordem social racista e imoral
da América.
A comunidade, como usada aqui, é uma extensão da
família e uma expressão daqueles valores e tradições
compartilhados que unem indivíduos e famílias em um todo
coerente e consistente. Além da unidade básica da família, a
comunidade consiste em instituições que facilitam as funções
da família e expandem essas funções. Essas instituições estão
interligadas com outras instituições, famílias e indivíduos. Os
agentes de ligação que consolidam os vários elementos em
uma unidade singular - a comunidade - são a cultura e a
ideologia, ou valores, comportamentos e objetivos comuns.
As crises que confrontam e comprometem crianças e
adultos Afrikanos são, em grande medida, consequências do
subdesenvolvimento da comunidade e da nação Afrikanas. O
subdesenvolvimento é mais do que fraqueza econômica. Ele se
estende aos fundamentos espirituais, psicoemocionais, morais
e ideológicos da comunidade. E essas bases estão
continuamente sujeitas às investidas debilitantes da
220
supremacia branca. Pode-se dizer que a principal diretriz da
supremacia branca é comprometer a integridade moral e
espiritual da comunidade Afrikana através da distorção da
história e das tradições da Áfrika, cooptando a liderança
Afrikana e seus qualificados e talentosos, e geralmente
deseducando o povo Afrikano. A integridade física e econômica
da comunidade é prejudicada pela prática histórica de limitar
o acesso aos recursos financeiros necessários ao
desenvolvimento real e sustentado. A epidemia de violência e
abuso de substâncias em nossas comunidades não é acidental
e, se não é planejada conscientemente, com certeza é
permitida conscientemente que aconteça e, de fato, piore.
Dada a promoção corporativa, religiosa, educacional e
governamental da riqueza americana e a inacessibilidade
estrutural dos Afrikanos à essa riqueza, então a opção por
meios ilícitos e violentos é uma ocorrência previsível. Se o
crime e a violência também servirem para comprometer, diluir
ou de outra forma limitar as demandas e a influência da Áfrika
no estabelecimento de arenas políticas e econômicas, um
benefício duplo se acumula para aqueles que estão no poder:
menos Afrikanos militantes para competir por recursos
limitados e decrescentes ou para exigir inclusão nos círculos
de poder; e menos Afrikanos para lutar, ponto final.
Somente quando criarmos novas instituições com novas
agendas seremos capazes de enfrentar com sucesso as crises
de famílias desfeitas, abuso de substâncias, aberração sexual,
imoralidade, fragmentação política, fraqueza econômica e
outros. O sucesso dessas instituições estará garantido quando
atuarmos coletivamente para formar um novo consenso
cultural e ideológico. Ao agir para construir essas instituições
e o consenso ideológico cultural necessário à sua

221
sobrevivência, entram em jogo dois princípios que são
fundamentais para a cultura Afrikana. Esses princípios são a)
a primazia da família e do coletivo perante o indivíduo e b) a
primazia do dever antes dos direitos.
Cada um dos principios tem implicações imediatas para os
membros atuais e futuros da Ankobia. É nosso antigo dever
como homem Ankobiano e mulher Ankobiana, e é o dever
implícito de cada Afrikano consciente em nossa comunidade,
nos comprometermos individualmente e com nossas famílias
pela reconstrução da infraestrutura de nossa comunidade.
Essa infraestrutura deve incluir instituições como a Ankobia,
às quais somos individualmente responsáveis por nosso
comportamento cultural, ideológico, ético e moral, bem como
por nosso desenvolvimento intelectual e condição física. Essa
infraestrutura inclui as escolas independentes, que devem ser
apoiadas, mas também responsáveis perante a comunidade
para fornecer às nossas crianças uma experiência educacional
com foco cultural e geralmente de alta qualidade. Assim como
acontece com as escolas, devemos apoiar essas instituições de
serviço e manufatura com foco cultural e, da mesma forma,
devemos esperar apenas produtos da mais alta qualidade.
Construir uma comunidade custa tempo, energia e
recursos. É uma tarefa que não fornece retornos diretos,
benefícios tangíveis imediatos ou privilégios. Construir uma
comunidade é nosso dever. É um dever que devemos nos
comprometer a cumprir, sem preocupação excessiva com os
inconvenientes, o tempo ou os recursos adicionais que isso
requer. É um dever que envolve assistir às reuniões de manhã
cedo e tarde da noite. É um dever que envolve trabalho
intelectual e trabalho físico, que exige responsabilidade
pessoal e adaptabilidade no comportamento, que exige

222
interações pessoais substantivas e reais, que exige um gasto
financeiro substancial, que exige tempo. É um dever que deve
ser cumprido se nossos filhos quiserem viver; se eles devem
florescer em seu potencial máximo; se quiserem levar avante
esta missão de construir uma nova realidade para o nosso
povo.

223
3. Família e Conquistas

É instrutivo, às vezes, examinar as experiências de outras


pessoas para obter alguma medida de percepção sobre o
funcionamento da própria situação. Foi o que aconteceu ao ler
um artigo de pesquisa em uma edição recente da Scientific
American. O artigo trata das razões do excepcional
desempenho acadêmico do imigrante asiático. As pesquisas
identificaram que os principais fatores determinantes de seu
sucesso acadêmico são (a) a família como instituição cultural
central, e (b) manutenção de tradições associadas com suas
tradições religiosas indígenas, incluindo coletivismo,
obrigação mútua, cooperação e harmonia dentro da família.
Os pesquisadores descobriram que os valores ocidentais de
“buscar diversão, emoção e bens materiais” entre os novos
imigrantes se correlacionavam com médias de notas mais
baixas. Famílias que valorizavam suas tradições culturais e
buscavam ativamente transmiti-las aos filhos tinham filhos
com notas significativamente acima daqueles que não
valorizavam e transmitiam suas tradições. Os pesquisadores
descobriram que as crianças com maior equilíbrio emocional
pertenciam às famílias em que a ênfase estava na unidade e
cooperação familiar, nos valores culturais tradicionais e na
produtividade.
As descobertas das pesquisas soam familiares para nós
aqui na NationHouse e em outras escolas Afrikano-centradas,
porque temos pregado esses pontos por mais de vinte anos.
Nós os incorporamos em nossa escola e currículo, filosofia e
projeto. Nossa chegada precoce às essas conclusões foi o
produto de um envolvimento intenso e interessado na criação
dos filhos, ensino e construção de instituições baseadas na
224
família e nos sistemas culturais/espirituais Afrikanos
tradicionais.
A questão da unidade familiar, responsabilidade mútua,
respeito e esforço cooperativo tem sido proeminente nas
tradições Afrikanas desde tempos imemoriais. A família e a
comunidade que gerou é o que facilitou nossa sobrevivência
durante o Holocausto de nossa escravidão pelos europeus e
antes deles pelos árabes. Nossa história neste país está repleta
de histórias de como as famílias impuseram rigorosamente
códigos de moralidade, disciplina, respeito, cooperação e
determinação durante todo o período de escravidão. Foi a
família Afrikana que promoveu a onda inspiradora de
Afrikanos para obter educação formal no fim da guerra civil
neste país; que inspirou um número recorde de instituições
independentes de ensino, culto, indústria e economia. Foi a
família Afrikana que nutriu o gênio de Marcus Garvey,
Malcolm X, Martin Luther King, Mary McCleod Bethune,
Fannie Lou Hamer e nossos outros heróis/heroínas e
lutadores pela liberdade.
É claro que os elementos que identificamos no início de
nosso desenvolvimento como uma instituição ainda são
elementos essenciais na educação eficaz de nossos filhos. Eles
incluem o seguinte:

(A) Unidade familiar


(B) Envolvimento ativo e substantivo de ambos os pais com
seus filhos
(C) Ênfase dos pais ou da família no respeito mútuo
(D) Ênfase familiar em comportamento moral claramente
definido

225
(E) Retirada da ênfase em aquisições/posses divertidas e
materiais
(F) Família focada na história, cultura, filosofia e sistemas
espirituais tradicionais Afrikanos
(G) Envolvimento significativo e consistente com a escola
(H) Ênfase da família na responsabilidade compartilhada,
orientação de tarefas, e determinação
(I) Alto valor no coletivismo e esforço cooperativo
(J) Ênfase da família na estima pelos idosos

Os próprios elementos que assegurariam o sucesso de


nossos filhos e a sobrevivência de nossa cultura estão em risco
na era dos vídeos, cabos, jogos eletrônicos portáteis, body-fits,
nudez, sexo aleatório e indiscriminado, moralidade aleatória,
violência aleatória e excessiva, relacionamentos
inconsequentes e super-estimulação geral. Algumas das frases
favoritas de nossos filhos, que deve enviar ondas de choque
através de nossa consciência, são: “estou entediado” ou “isso
é chato”. Quando essa frase é pronunciada, é uma indicação
de que entregamos alguma parte de seu ser e de nossas almas
coletivas às garras da infâmia ocidental branca.
É nossa obrigação como pais manter e construir
instituições como a NationHouse para manter um ambiente
seguro, protegido e justo. Como povo, não temos outra opção
a não ser manter instituições e comunidades destinadas
exclusivamente a garantir a sobrevivência e o desenvolvimento
de nosso povo. Devemos estabelecer e manter diretrizes firmes
para nós mesmos como pais e famílias, e para nossos filhos.
Deixar de fazer isso significa que iremos perdê-los.

226
4. Construção da Nação: Uma Resposta
Proativa à Crise Nacional

Estes são tempos realmente estressantes e às vezes


confusos. Existem inúmeros relatos de sofrimento massivo na
pátria-mãe; a consequência de guerras cujas causas são
desconhecidas pelos próprios combatentes. Há incidentes
mais frequentes de torpeza moral nas cidadelas da religião e
em cargos eletivos. O oportunismo crasso e as memórias
curtas dos Afrikano-americanos eleitos para altos cargos
alimentam um sentimento de desespero e repulsa. O
ressurgimento do racismo aberto entre os brancos, o
surgimento de um sentimento racista entre os imigrantes
asiáticos, o espetáculo incessante da América branca
escolhendo nossa liderança ou crucificando a liderança
escolhida por meio de decreto editorial ou decreto do
Ministério Público continua inabalável. Na verdade, a
tendência foi exacerbada pela maré conservadora entre os
brancos. O espetáculo da deseducação, as drogas e suas
consequências destrutivas e o flagelo do abuso e aberração
sexual continuam partindo o coração de nossas comunidades.
Essas e uma infinidade de outras dificuldades são ainda
agravadas pela tarefa gigantesca de construir um consenso
ideológico e organizacional e um compromisso coletivo
essencial para resolver esses e outros problemas.
Nossa resposta individual e coletiva à crise de nossa
comunidade e da raça fornece uma medida instrutiva da
viabilidade e vitalidade da dinâmica cultural que nos define
como um povo. Muito frequente, tanto individual quanto
organizacionalmente, é a negação e a anulação.

227
Individualmente, evitamos, consciente e inconscientemente,
situações e informações que desafiariam e minariam os
porosos mitos de uma equanimidade racial e de classe
propagados pela elite branca dominante. Os editoriais de
autosserviço racial e artigos/programas de notícias editoriais
são aceitos sem questionamento. Os pressupostos filosóficos,
a veracidade e interpretação históricas subjacentes a esses
editoriais nunca são examinados ou analisados. A negação e a
anulação são uma resposta típica dos dominados, que ficam
intimidados com o poder da elite governante e se sentem
impotentes para efetuar qualquer mudança real. E como a
tragédia de crianças abusadas, os abusados se agarram
desesperadamente ao pai abusador. A consequência dessa
resposta é o enfraquecimento cultural perpétuo e a
erradicação final como uma entidade cultural distinta e viável.
Nós nos tornaríamos sombras invisíveis perpétuas, isoladas de
nossa história, oscilando precariamente à mercê dos caprichos
morais da elite branca.
Uma segunda resposta é de acomodação defensiva. Com
esta resposta, reconhecemos o peso esmagador das evidências
históricas, antropológicas, biológicas/genéticas da primazia e
da contínua viabilidade cultural do povo Afrikano. A limitação
dessa resposta é que essa nova consciência encontrada é
moldada em emblemas, tecidos Kente e comportamentos
agressivos que intensificam a determinação expressa de
alcançar o respeito, bem como as posições e status que de
outra forma nos negavam por causa de uma suposta a-
historicidade e inferioridade cultural. No entanto, essas
posições, o status e os símbolos e certificados disso, o contexto
institucional e cultural em que ocorrem e do qual derivam são
a priori e irrestritamente eurocêntricos.

228
Após exaustiva pesquisa e verificação da natureza heroica
da Afrikanidade, muitas vezes ficamos satisfeitos em desfilar
nossa humanidade recém-descoberta e heroísmo diante do
mundo, esperando pelo menos uma validação e certificação
vicária, embora tardia, da elite branca dominante. Esperamos
por uma trégua na distorção histórica e na inferiorização
cultural por meio de apelos à razão e à moralidade. Nenhuma
questão fundamental de moralidade, ética ou caráter nacional
é levantada ou considerada, que desafiaria essa construção
cultural eurocêntrica autoritária e hegemônica que distorceu
e mutilou o potencial intelectual de nosso povo. Porém, é a
partir dessa construção muito eurocêntrica que buscamos a
validação e aceitação final.
Uma terceira resposta abrange a resistência ativa, mas a
estende para além de um problema crítico que coloca a
consciência. Estende-se para incluir a reconstrução cultural e
sociopolítica; Construção da Nação. A resistência ativa ainda
está amarrada ao meio cultural do opressor e, embora se
oponha a ele, é definida por ele.
A construção da nação (Nacionalismo Afrikano) como
resposta à crise que nos confronta vai além da condição
sociopolítica externa que a pode estimular. A construção da
nação para nós, Afrikanos nascidos na América, deve ter como
prioridade o restabelecimento de vínculos firmes com a
tradição Afrikana, - o Kemético durante a era do Holocausto.
Ao estabelecer essa ligação, não devemos tentar replicar
costumes sem sentido ou características estruturais e
comportamentais que sejam irrelevantes ou que resultem em
conflito interno, estagnação ou ineficiência. O objetivo de
restabelecer essa ligação é duplo:

229
a) Forneceria uma definição de nossa cultura nacional
além da influência cultural eurocêntrica, hegemônica na
contemporaneidade, e além de nossos “problemas” imediatos.
b) Forneceria uma base cultural (institucional e pessoal) e
uma construção de base a partir da qual estabeleceria uma
ideologia culturalmente consistente, totalmente funcional e
verdadeiramente Afrikano-centrada com seus objetivos
sociopolíticos e econômicos. Forneceria a base para códigos
morais e éticos de comportamento e responsabilidade. Isso
estimularia o projeto de instituições cultural e ideologicamente
alinhadas, com o consequente aumento dos níveis de
criatividade, lealdade pessoal e produtividade.

Devemos começar com a cultura. Enquanto povo, a


questão da cultura é talvez mais importante para nós do que
para outros por causa da ruptura e distorção de nossa história
e cultura durante o curso da guerra de dois milênios de
conquista contra a Áfrika e o subsequente Holocausto da
Escravidão Afrikana. Essa guerra e o holocausto subsequente
foram perpetrados por asiáticos e europeus. Seu sucesso, no
entanto, foi facilitado pela fraqueza interna, a mais evidente
das quais foi a fragmentação cultural e a estagnação.
Esses tempos confusos são o despertar de uma nova
ordem mundial. A União Soviética e outros países europeus se
fragmentaram ao longo de fissuras culturais há muito
adormecidas. A resistência curda, a resistência tibetana em
curso, o surgimento de esforços de resistência dos indígenas
amazônicos, o levante de nativos americanos no Canadá, e
inúmeros outros casos são evidências do surgimento de uma
ordem mundial verdadeiramente pluralista e do fim do mito de

230
uma cultura mundial construída ao longo de linhas
eurocêntricas.
De preocupação imediata aqui são as atividades da
Ankobia e as responsabilidades de seus membros. Como
organização, construímos um vínculo real com o tradicional, à
medida que buscamos simultaneamente estabelecer uma
ordem institucional progressiva, criativa e eficiente. É
responsabilidade de cada um de nós e de nossas famílias
reconhecer o significado racial e mundial do que estamos
empreendendo. Nossa tarefa não é pequena. Nossa tarefa é o
Nacionalismo Afrikano, e a diretriz orientadora deve ser
construir a nação.
A visão é a de uma nação Afrikana verdadeiramente
autossuficiente, povoada por famílias e indivíduos vinculados
a um código de ética e comprometidos com o avanço da
herança cultural de nosso povo. Nossa visão deve permanecer
clara e não ser obscurecida por problemas e crises
aparentemente intermináveis. Devemos abordar nossa visão
com uma fé informada, não uma fé cega. Essa fé deve ser
informada por um conhecimento crítico de nossa história,
nossa realidade cultural e as condições do mundo atual. Deve
ser uma fé nascida de uma confiança inabalável na justiça de
nossos esforços, na nossa capacidade de superar qualquer
obstáculo com sucesso e no conhecimento de que as almas de
todos aqueles que lutaram antes de nós irão nos ajudar e nos
proteger.

231
Sankofa: Uma Conclusão e Ainda Um
Começo

As instituições que formam o núcleo do movimento


nacionalista Afrikano piscam persistentemente, embora um
tanto vagamente, como estrelas nos céus noturnos envoltos
em névoa dos centros de asfalto desgastados da civilização
eurocêntrica. Nosso movimento progressivo para longe desses
centros é um movimento em direção ao renascimento. Quanto
mais distância espiritual/psíquica e sociopolítica nós tivermos
da compreensão constritiva e debilitante da
civilização/cultura eurocêntrica, mais radiantes essas estrelas
aparecerão, seu número e radiância aumentarão até que todo
o céu seja preenchido com uma teia entrelaçada de
luminescência rítmica, eventualmente fundindo-se em uma
tempestade de radiância, o centro de um universo renovado;
Renascimento e Redenção Afrikana. Os céus devem ter
parecido assim para Nzinga, Dessalines, Nat, Harriet, Marcus
e Lumumba.
O movimento em direção a esse renascimento Afrikano
será definido de dentro pela clareza de propósito e missão, e a
convicção e competência das várias instituições
nacionalistas/Pan-Afrikanistas Afrikano-centradas (tanto a
liderança como os constituintes) que compõem a
infraestrutura física e institucional do movimento. Mas no
externo, ele será definido pela resistência frenética, mas
mortal, e pelo ataque virulento de agentes e elementos da
hegemonia cultural branca/não-Afrikano-centrada. O
movimento hoje faz parte da guerra de três milênios travada
pelo corpo e pela alma da Áfrika. Os ativistas/construtores do

232
movimento envolveram agressivamente nossos inimigos
perenes em uma batalha decisiva pela mente e pelo espírito de
nosso povo. É neste campo de batalha que sobrevivemos,
embora sob cerco. É no terreno da mente e do espírito onde
devemos reunir nossos recursos para retomar todo o espectro
da mente de nosso povo. Este é o primeiro, último e
determinante esforço desta guerra milenar. Devemos
prevalecer aqui ou pereceremos.
As instituições Afrikano-centradas devem atuar como
áreas de preparação no impulso para retomar e manter as
mentes de nosso povo. Essas instituições incluem famílias,
instituições educacionais, organizações de artes culturais,
editoras, cooperativas econômicas, organizações de serviços
jurídicos e de saúde, cooperativas de alimentos e habitação,
etc. Cada um deles deve estar bem organizado e focado para
ser o máximo eficaz neste esforço. O próprio movimento deve
tomar o exemplo da reconquista de Ndondo por Nzinga a partir
de bases isoladas no interior. Devemos tomar o exemplo de
Yaa Asantewa e Candace, de Toussaint e Dessalines, dos
Palmares, de Shabaka e Piankhy, de Ahmose e Nahmer.
Nossos esforços, se quisermos ter sucesso neste
empreendimento de redimir e reconstruir a civilização
Afrikana, devem estar firmemente enraizados na história.
Devemos recuperar e reconstruir a história Afrikana como
uma cronologia de vontade indomável e triunfo inevitável.
Devemos, adicionalmente, ancorar firmemente o movimento
na matriz espiritual Afrikana que substitui a crença
religiosa/cultural vazia de nossos algozes árabes e europeus.
O acesso a essa matriz será obtido por meio da identificação e
do envolvimento substantivo com os esforços reconstrutivos
dos sistemas espirituais/cosmológicos tradicionais existentes,

233
eles próprios apenas fragmentos sobreviventes do todo maior
e original. Nossos esforços devem ser verdadeiramente Pan-
Afrikanos, unindo os filhos e filhas da Áfrika em todo o mundo
na Construção da Nação [Nacionalismo Afrikano].
Nosso sucesso só será assegurado se nos conectarmos
nossas infraestruturas institucionais em ideologia e ação.
Sozinhos e isolados, corremos o risco de morrer por rescisão
fiscal, física ou cultural/espiritual, ou pela morte lenta e
torturante da assimilação e dissipação gradual. Nossas ações
coletivas, aquelas seguramente ancoradas na história e
espiritualidade e devidamente conduzidas e executadas,
assumirão o caráter da tempestade de fogo descrita acima.
A essência do nosso esforço é um retorno à própria origem
do nosso ser como um povo, a fim de recuperar, reconstruir,
revigorar e restabelecer a identidade coletiva e a presença da
Áfrika na ordem mundial. Este é um movimento pelos nossos
ancestrais e um movimento pelos nossos filhos. Esta
nacionalidade Afrikana renovada deve ser alicerçada na sua
história e espiritualidade, energizada pela sua cultura e
perpetuada pelas suas instituições. Isto é sankofa, retornando
do caos e da perversidade do domínio branco ao ventre de
nossa história para fazer nascer uma nova realidade de
liberdade Afrikana, independência e prosperidade e, em última
análise, uma ordem mundial consistente com a verdade,
justiça, equilíbrio, propriedade, harmonia, reciprocidade e
ordem da humanidade Afrikana. Esse nascimento será
ocasionado pela fusão de inúmeras energias institucionais e
individuais em uma nacionalidade coletiva Afrikana,
anunciando o fim desta era sombreada pela noite de nossa
humilhação e confusão, e o amanhecer de nosso novo começo.
Nós vamos triunfar!

234
Sankofa
“se wo were fi na wo sankofa a yenkyi.”
“Não é um tabu voltar e buscar o que foi esquecido.”

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