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Para as próximas turmas,

Em primeiro lugar, gostaríamos de agradecer a todos os envolvidos


nesse processo. E principalmente ao auxílio e orientação de nossa
professora Simone Alcântara Freitas. Também agradecemos todo o
suporte do Centro Universitário SENAC Santo Amaro e aos nossos
amigos de Multimídia dos outros semestres.

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SUMÁRIO

A importância da mobilização em conjunto para criar uma cultura de


paz.............................................................5

A influência da meditação para a integração interior em detrimento a Cultura de


Paz................................................12

A inteligência emocional e sua ligação com a educação não


violenta.......................................................20

Arte e cultura de paz...........................................28

Arte e política que tecem os Direitos Humanos...................32

Cultura de paz na era digital...................................41

Hipocrisia no convívio social e meios virtuais..................47

Os muros e a cultura de paz.....................................55

Um poço de paz em um oceano de caos..............................66

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A importância da mobilização em conjunto para criar uma cultura de paz

Bruno Domingues Matumoto

A construção do caminho de cultura de paz precisa ser cada vez mais presente na educação
e formação dos cidadãos. Neste artigo serão apresentados exemplos positivos de ONGS que
incentivam a cultura de paz. Existem diversas organizações e movimentos que trabalham com essa
temática de cultura de paz e muitas delas acreditam que o investimento na formação do cidadão
pode e deve amenizar muitos conflitos presentes na sociedade.
A UNESCO que é a Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a
Cultura é a principal referência que será utilizada no desenvolvimento desse artigo. Será
apresentado um importante programa desenvolvido e implantado pela UNESCO que se chama
“Abrindo Espaços: Educação e Cultura para a Paz”. O programa desempenha uma importante
transformação no papel da escola, refletindo diretamente na vida dos jovens brasileiros.
Outras organizações e movimentos também serão analisados no decorrer desse artigo,
procurando reunir diversas ações que contribuam para o crescimento de uma cultura de paz, e, que
possam servir de referência.

O programa Abrindo Espaços: Educação e Cultura para a Paz

A UNESCO lançou no ano 2000 o programa Abrindo Espaços: Educação e Cultura para
a Paz. O programa teve como objetivo abrir as escolas públicas nos finais de semana com
atividades de esporte, arte, cultura e lazer. Como é descrito no livro da UNESCO sobre o programa:

Trata-se de um programa que visa ao aproveitamento das habilidades e


experiência acumulada pela instituição nas suas grandes áreas de
atuação. Ao mesmo tempo em que se focaliza a educação, combate-se a
exclusão social, incentiva-se a participação cultural, conscientiza-se sobre
a prevenção de DST-AIDS, o cuidado com o meio ambiente, para citar
apenas algumas áreas, contribuindo tanto para a diminuição da violência
e da vulnerabilidade socioeconômica, como para a promoção da cultura
de paz e do desenvolvimento social, dois grandes objetivos da
UNESCO.(NOLETO, p.47)

O programa tem três focos: o jovem, a escola e a comunidade. A ação de abertura das
escolas aos finais de semana, um gesto aparentemente simples, oferecendo diversas atividades que
promovem o lazer, esporte e educação para as crianças e seus familiares nas comunidades em

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situação de pobreza, implica em uma série de benefícios ao cidadão e construção de uma cultura
de paz. Uma importante contribuição do programa é a solidificação de uma relação mais íntima
dos jovens com uma escola mais atuante e presente em suas vidas, desenvolvendo o desejo por
parte do jovem em fazer parte do processo.
O sucesso do programa pode ser constatado em alguns números apresentados neste livro e
é importante destacar que o programa Abrindo Espaços permite que o formato do programa seja
adequado à realidade e às necessidades locais, dependendo do Estado e Municípios. O programa
é orientado por conceitos éticos e metodológicos que podem ser variados entre os diferentes locais
e espaços disponíveis. Para orientar a implementação do programa Abrindo Espaços é elencado
um conjunto de etapas que são:
Etapa preliminar – nesta etapa são realizados contatos entre representantes do Governo
Estadual ou Municipal e da Unesco. Importante etapa onde será discutido a infraestrutura do
Programa.
Etapa 1. Estruturando o Programa–definição de uma equipe de coordenação central com
representantes da Secretaria de Educação e, se for o caso, da UNESCO.
Etapa 2. Integrando as escolas e a comunidade – a equipe de coordenação central discute
o Programa com as escolas e identifica uma rede de possíveis parceiros que podem dar suporte a
ele.
Etapa 3. Constituindo equipes e realizando diagnósticos – nesta etapa são formadas
equipes locais e, se for o caso, regionais que irão discutir a preparação de um plano de atividades
para as escolas nos finais de semana. Em paralelo a equipe de pesquisa e avaliação deve iniciar o
levantamento do universo sócio cultural do entorno das escolas e demandas dos jovens, mapeando
os recursos e os talentos existentes nas escolas e na comunidade.
Etapa 4. Capacitando profissionais–responsável pelo processo de capacitação de
professores, jovens, ONGs parceiras, animadores (voluntários ou não) que participarão das
atividades. Todo o processo de capacitação é orientado e conduzido pela UNESCO e é necessário
prever a elaboração do material pedagógico que servirá de subsídio para todos os integrantes que
atuarão no Programa.
Etapa 5. Avaliando o Programa - essa é a etapa de avaliação fundamental no
desenvolvimento do Programa, tanto para a correção de rumos como para verificação dos
resultados produzidos e das metas alcançadas. Também devem ser realizadas avaliações de
impacto do Programa junto aos jovens, à equipe pedagógica e à comunidade.
Etapa 6. Documentando o Programa–etapa fundamental, tão importante quanto as
demais, é a documentação das experiências vivenciadas pelo Programa e deve ser considerado

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material de avaliação e material didático-pedagógico produzido para apoio às atividades
desenvolvidas.
O sucesso do Programa se deve graças à iniciativa de um conjunto de fatores que envolvem
os gestores governamentais de políticas públicas, diretores de escola, professores, pais,
voluntários, empresas privadas, organizações da sociedade civil, pequenos comerciantes locais, os
próprios jovens e outros que podem ser envolvidos e contagiados pela proposta do Programa.

Projeto Ensinar Respeito por Todos

Outra ação com participação da UNESCO é o projeto Ensinar Respeito por Todos.
Preocupada com o aumento do racismo, da xenofobia e da intolerância, o projeto considera que a
educação é essencial para redução dos atos de discriminação e aprender conviver juntos. O modelo
do programa visa criar uma estrutura curricular para lutar contra o racismo e promover a tolerância,
um modelo que possa ser usado pelos outros países e adaptado às suas realidades locais.

Organização Social Abaçaí Cultura e Arte

A organização Abaçaí surge em 1973, fruto de um programa de ação cultural desenvolvido


em uma escola pública da cidade de São Paulo. A instituição Abaçaí Cultura e Arte tem procurado
valorizar a arte e a cultura do povo brasileiro em diferentes vertentes. Credenciada pela Secretaria
do Estado de São Paulo, a Abaçaí realiza diversos programas, entre eles, destaca-se o Festival
Revelando São Paulo que contribui com a importância da cultura imaterial, prestigiando e
incentivando as pessoas, comunidades, em diversas manifestações culturais de todo o estado de
São Paulo.
Outra ação realizada pela instituição Abaçaí, de destaque, é o movimento da Bandeira da
Paz, no Parque da Água Branca, que nasceu no aniversário da Cidade de São Paulo em 25 de
Janeiro de 2000. O movimento que abraçou as ideias do Movimento Upa, São Paulo!, seu
antecessor, teve como objetivo envolver o maior número possível de segmentos da sociedade,
organizações sociais e setores públicos, visando:
- alimentar uma mobilização permanente pela vida;
- estimular o exercício quotidiano da cidadania;
- incentivar os valores de solidariedade, companheirismo e tolerância, no dia a dia;
- contribuir para colocar em evidência as várias ações de cidadania presentes no dia a dia
do paulistano;

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- servir de estímulo para que cada cidadão se disponha a fazer a sua parte. Despertar o
cidadão e o exercício da cidadania;
- valorizar e incentivar a divulgar os próprios valores da cidade de São Paulo;
- contribuir para que o próprio cidadão paulistano tenha apreço e aumente a auto estima
para com sua cidade.
- fomentar, por várias estratégias, que cada cidadão e o maior número possível de
organizações sociais se juntem e apropriem do Movimento Upa, São Paulo!, multiplicando as
ações e atitudes no dia a dia;

Inteligência Relacional

A Inteligência Relacional é uma empresa fundada em 1992 que tem como objetivo
contribuir com o desenvolvimento integral do ser humano, respeitando as diferenças e conectando
pessoas por meio da educação socioemocional. A Educação Socioemocional é definida da seguinte
forma:

“A Educação Socioemocional (em inglês, SEL – Social Emotional


Learning) é o processo através do qual os alunos aprendem, dentro do
currículo escolar, a refletir e efetivamente aplicar conhecimentos e atitudes
necessários ao longo da vida escolar, educando os corações e inspirando
mentes, materializando projetos e contribuindo para a transformação
desses estudantes pela educação.”

O programa desenvolvido tem atuado em diversas escolas públicas e privadas, de norte a


sul do Brasil, com foco na formação integral do aluno, promovendo o desenvolvimento de
competências socioemocionais e habilidades de vida e bem-estar, reduzindo a violência e melhoria
dos índices de aprendizagem e convivência.
O material pedagógico atende todos os segmentos desde a educação infantil até o ensino
médio e jovens adultos, além disso, o programa está alinhado a todas as competências gerais da
educação básica previstas pela Base Nacional Comum Curricular.

Conclusão

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Em resumo, os diferentes programas apresentados nesse artigo têm como objetivo
estimular a prática de ações individuais ou coletivas, mas que valorizem os direitos do cidadão,
respeitem os valores do próximo, contribuam com o desenvolvimento da sua comunidade e
fomente a criação de outros programas.
Ações simples como a abertura das escolas nos finais de semana, promovido pela Unesco,
podem mudar radicalmente a vida de alunos, pais e moradores da região, permitindo que todos
tenham acesso ao conhecimento, convívio com outras pessoas e solidificando a relação pessoal
com o espaço.
Quando o indivíduo cria um vínculo com o local em que vive, com as pessoas que conhece,
a relação da comunidade com o espaço fortalece. O indivíduo tem uma tendência em valorizar e
respeitar mais o ambiente que habita, colocando em prática as ações humanas, deixando o estado
da mera intenção, para a realização da vontade coletiva.

BIBLIOGRAFIA

NOLETO, Marlova Jovchelovitch; CASTRO, Mary Garcia e ABRAMOVAY, Miriam. Abrindo


espaços: educação e cultura para a paz . 3.ed. – Brasília: UNESCO, 2004.

UNESCO. Projeto Ensinar Respeito por Todos no Brasil Disponível em


http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/education/inclusive-education/teaching-respect-for-all/
Acessado em: 19 de abril de 2019.

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ABAÇAÍ CULTURA E ARTE. Disponível em http://www.abacai.org.br/institucional-
interno.php?id=2. Acessado em: 19 de abril de 2019.

INTELIGÊNCIA RELACIONAL. Programa Pedagógico. Disponível em


http://www.inteligenciarelacional.com.br/programa.html Acessado em: 18 de maio de 2019.

PORTAL REVISTA EDUCAÇÃO. A história, os pilares e os objetivos da educação


socioemocional. Disponível em https://www.revistaeducacao.com.br/historia-os-pilares-e-os-
objetivos-da-educacao-socioemocional/ Acessado em: 18 de maio de 2019

A influência da meditação para a integração interior em detrimento a Cultura


de Paz

Victoria Krauss Mussolini

Introdução

A meditação é uma técnica antiga e mesmo com esse tempo de existência o intuito é o
mesmo, tranquilizar a mente. Existem pessoas que deixam de se beneficiar com a mesma.
Atualmente, as pessoas são bombardeadas por informações, prazos apertados a serem compridos,
trabalhos e rotinas estressantes, sem falar em toda trajetória onde descansa-se menos e cada vez
mais há necessidade de produzir. Essa rotina cansativa distancia as pessoas de pensarem nelas,
tornando-as seres humanos estressados, cansados, irritados, e cada vez mais angustiados e
desconectados de si.

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Muitas vezes, as pessoas buscam respostas no mundo exterior e se esquecem que, todas as dúvidas
que cultivam ao longo da vida, têm solução em seu interior. A meditação é um dos caminhos para
se reconectar à paz interior, a elevação da consciência e a canalização dos sentimentos.

De onde vem a necessidade de fazer a meditação:

Meditar é uma forma muito eficaz para a qualidade de vida, reside principalmente em nos
esvaziar do "brain trach" acumulado no decorrer da vida, que nada mais é do o lixo mental, devido
a nossa rotina conturbada e nosso acúmulo de informações que criamos dentro de nós.
A exorbitância de informações que reside dentro de nós deriva do processo que enfrentamos em
dar significado a tudo que vemos e interiorizamos. Portanto, essa característica exige de nós seres
humanos um detox mental, uma faxina interna minuciosa que temos de fazer.
Meditar é uma forma eficaz para a qualidade de vida, o exercício nos ajuda a apaziguar a mente,
nos esvaziar do lixo mental, e nos conectar com o que realmente importa, a capacidade que temos
de criar um propósito ou um significado para fazer a nossa experiência de vida ser válida, como
um olhar mais amplo em nossa jornada.

Sobre a experiência

A prática necessita apenas do seu foco, respiração e concentração. A mesmo ajuda a clarear
a mente, ampliar os horizontes dos pensamentos. Para começar a prática é necessário, achar um
lugar onde você se sinta confortável, em uma posição que transmita relaxamento e concentração.
Estar presente e um dos elementos mais importantes, onde sua mente está inserida a todo seu corpo,
tendo uma união íntegra, do corpo, mente e respiração. Com respirações longas e profundas sua
mente começa a entrar um processo de concentração maior e passa a sentir seu corpo em um
processo de relaxamento e consciência do seu presente. E por fim, praticar, praticar e praticar, e
só com a prática que o corpo começa a transmitir resultados.

Os benefícios da meditação

Com a frequência da meditação, nosso cérebro começa a produzir neuroplasticidade um


termo na medicina que significa que, ao longo da sua vida seu cérebro pode crescer e mudar, e a
um aumento na matéria cinzenta, que nada mais é do que células. Com a meditação, não só a
matéria cinzenta aumenta como a perda delas diminui, resultado natural do envelhecimento.
Estudos revelam, também, que o hipocampo, área responsável do cérebro pelas memórias, foi uma
das áreas que teve aumento de massa cinzenta, e o crescimento das celulas no córtex frontal, área
responsável pelas tomadas de decisões, bom senso, e auto-controle. O córtex pré-frontal tem um
aumento celular também, ele é responsável por quase tudo, diferenciar o coerente do incoerente, e
o poder de analisar situações com mais clareza e tranquilidade.

“A mudança na produção de hormônios foi observada por pesquisadores do Davis


Center for Mind and Brain da Universidade da Califórnia. Eles analisaram o nível
de adrenalina, cortisol e endorfinas antes e depois de um grupo de voluntários
meditar. E comprovaram que, quanto mais profundo o estado de relaxamento,
menor a produção de hormônios do stress. (...) Foi o que os Institutos Nacionais
de Saúde dos Estados Unidos descobriram ao analisar 28 enfermeiras do hospital
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da Universidade do Novo México, 22 delas com sintomas de stress pós-
traumático. A metade que realizou duas sessões por semana de alongamento e
meditação viram os níveis de cortisol baixar 67%. A outra metade continuou com
os mesmos níveis." (2013).

A prática nos beneficia com insights, que podem ajudar a resolver problemas, e todos esses
benefícios começam ao fechar os olhos, relaxar os músculos, a mente e o autocontrole da
respiração.
A integração da mente com o sistema imunológico fornece segundo a,
psiconeuroimunologia, um relaxamento que fornece a eficácia que elimina o estresse, as fobias e
tensões. A redução de estresse é um fator importante para a prevenção de futuras doenças e a
meditação tem esse poder de diminuição do mesmo. A prática exercida diariamente aumenta os
níveis de relaxamento do cérebro, resultando em aumentos e recuperação da manutenção da saúde
mental e física.

O próprio ato de meditar gera cada vez mais tolerância pessoal e coletiva, que resulta nesse
encontro de você com seu exterior, resultando em níveis de bem-estar elevados, paz interior,
relaxamento muscular e do sistema nervoso, ampliação de pensamentos até remodelar seu cérebro
para novos hábitos.

As técnicas da meditação

Existem várias técnicas de meditações e qualquer um pode exercer essa prática. Quanto
mais aprofundamento maior o distanciamento das tensões geradas ao decorrer da vida e maior a
aproximação do interior pessoal e intuitivo. Segundo o site Minha Vida, sete são as meditações
mais importantes:

Corpo São:
É uma das práticas mais comuns, concentre-se em sua respiração, e tenha consciência de
seu corpo, sente-se na posição de lótus, que e a coluna reta e as pernas cruzadas. Feche os olhos e
observe o fluxo de energia que entra e sai do seu corpo, e preste atenção nas respirações longas e
profundas que seu corpo transmite. Esse exercício é muito usado no budismo japonês.

Cristã e bhakti-yoga:
O monge inglês John Main resgatou nas escrituras sagradas e que se baseia na repetição de
um mantra, "venha Senhor, venha, venha Senhor Jesus" o mantra é repetido duas vezes ao dia, de
manhã e a noite e a aconselhável que se faça sentado com as colunas retas e as pernas cruzadas.

Transcendental:
Essa técnica não requer concentração ou contemplação, somente o respeito da pessoa que
está fazendo a prática aos caminhos em que a mente dela ira a levar, de forma natural e espontânea
a pessoa mergulha dentro de si, e a mente não quer nada além disso.

Zen-Budista:
Uma das técnicas do budismo. Ao caminhar, conte os passos e sincronize-se com a
respiração e o estado presente de sua mente.
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Dinâmica:
Criador para os ocidentais pelo líder espiritual Osho, essa técnica possui elementos como
a dança, as músicas, aborda elementos culturais diversos, e movimentos para se conectar ao
presente.

Raja Yoga:
O foco é a reflexão. Sentados na posição de lótus, com coluna reta e pernas cruzadas o
praticante mentaliza elementos de bondade na sociedade, como perdão, empatia, cumplicidade
entre outros, visando sempre seu propósito e a busca pelo amor incondicional.

Segundo o monge Dalai-Lama "se toda criança de 8 anos aprendesse a meditar, a violência
do mundo seria extinguida de nossa sociedade". A meditação independente do segmento visa os
mesmos resultados, que estimula o estado presente da mente e do corpo, educa a concentração e
está conectando cada vez mais pessoas a se relacionarem com seu mundo interior e ter controle
sobre o mundo externo agitado.

Ho’oponopono

A palavra “ho’o” significa “causa” em havaiano, enquanto “ponopono” quer dizer


“perfeição”. O mantra traduz essa palavra em "tornar certo".
Trata-se de uma prática que busca purificar sua mente e corpo a momentos vivenciados
que transmitem dor, raiva ou algum sentimento ruim.
O principal princípio do ho'oponopono é a busca do perdão, não objetivamente de terceiros,
mas, em primeiro instante, o perdão de si mesmo.
O que acontece com você não importa, segundo o mantra, mas sim como você lida e
aprende com aquilo que aconteceu com você, se seus pensamentos são capazes de gerar problemas
eles também são capazes de resolver seus pensamentos internos gerados por conflito, a fim da cura
está integralmente em si.

O mantra se baseia em quatro pilares principais:


sinto muito
me perdoe
eu te amo
sou grato

Essas simples frases podem gerar libertações emocionais geradas ao longo da vida, além disso,
libertação de bloqueios, lembranças negativas, entre outras experiências ruins.
Conclui-se que o mantra se baseia na solução de problemas internos que se encontram
instalados em você, essa prática visa o auto perdão e a paz espiritual.

Como começar:
Apenas sente-se em uma posição confortável, esteja concentrado em sua respiração e a
presença e um elemento importante para o mantra, em um local que transmita silêncio comece a
repetir o mantra, sinto muito, por favor me perdoe, eu te amo e sou grato. A palavras tem
importância, aos poucos passa-se a sentir um trabalho de cura, desbravando seu interior de uma
forma positiva. Com a mente relaxada, é possível que você já comece a ter um sentimento de
autocompaixão, auto perdão, amor próprio, e por terceiros.
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Penitenciária oferece prática de meditação

Um grupo de presos mineiros teve a iniciativa de praticar meditação, eles foram convidados
a participar do curso de vipassana, uma das práticas mais antigas que significa ''enxergar as coisas
como elas são''. Durante 10 dias, os 21 presos mantiveram essa prática que resultou até na mudança
de hábitos alimentares, e foi diminuído drasticamente o consumo de carnes. Segundo Rodrigo
Gaiga, diretor-presidente da Gestores Prisionais Associados (GPA), que administra o complexo
relata o seguinte em entrevista ao Globo:

"Quando falamos em meditação para os presos, estamos falando sobre a sua saúde
mental". (...) Se eu estou trabalhando com essas pessoas para que eles possam ter
uma oportunidade ao sair de lá, eu preciso que eles pensem em si mesmo. E o
curso foi uma oportunidade de eles pensarem em suas atitudes, no que eles
queriam para o futuro deles após o cumprimento da pena." (2018)

O curso oferece, uma ferramenta importante na socialização e convivência dos detentos,


acrescentando três pilares:

"O empreendedorismo, como forma de trabalho; a criação de vínculos e


importância da família para tolerar o dia a dia; e a importância de cuidar
da saúde. A meditação tem benefícios que são inegáveis e que se encaixam
com os nossos pilares” (GAIA, 2018).”

Compartilha o gestor do curso . O co-fundador do curso finaliza os 10 dias dizendo:


"Quando eles fizeram o curso, eles abriram mão de dedicar o tempo deles
para outras atividades, inclusive atividades que tem remissão de pena. É como se
você tivesse soltado uma bomba atômica do bem." (GAIA, 2018)

Escolas introduzem a meditação em seu período de aula

No Rio de Janeiro, essa prática já está sendo introduzida nas escolas de rede públicas e
particulares, é acompanhada por uma música e uma estrutura guia os pensamentos das crianças
que induz um relaxamento profundo durante uma hora. Só faz quem sente vontade, não é
obrigatório. Aplicando o método mindfulness é uma linha de meditação guiada, também conhecida
como "atenção plena" que promove o relaxamento e introduz o pensamento presente. Os
estudantes que fazem o mindfulness com frequência dizem que a prática trouxe mais foco para
empenhar suas funções diárias, calma, o aumento do poder de observação e atenção.
Colégios como Pedra da Gávea e Colégio Bahiense introduzem a prática de yoga e
meditação, com o objetivo de diminuir a ansiedade dos alunos. Essas práticas produzem resultados
tão positivos que o Colégio Bahiense quer instituir em um futuro próximo a meditação na grade
do ensino fundamental. (DISITZER,2018)

A meditação alivia doenças mentais

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O Journal of the American Medical Association (JAMA) publicou uma matéria de um
estudo que envolveu 3.515 participantes. Após, os autores revisaram 47 estudos clínicos sobre a
meditação. Os cientistas avaliaram a meditação e o impacto positivo que ela tem sobre algumas
doenças, sendo, transtornos mentais, insônia, depressão, ansiedade entre outros.
Com base na meditação de atenção plena, uma prática budista que consiste em na atenção
em sua respiração, e em si e a consciência do seu presente, esse exercício resultou nos melhores
benefícios a saúde. O desempenho de 30 minutos por dia melhorou amplamente os sintomas de
depressão, ansiedade e dores crônicas. A meditação pode resultar na redução de consequências de
pensamentos negativos e stress psicológico.
Um estudo de 2008 do Northwestern Memorial Hospital, de Illinois, comprova que pessoas
que sofriam de insônia foram submetidas a meditar no período de dois meses, e os resultados foram
significativos: os participantes passaram a dormir duas horas a mais por dia e alcançaram níveis
de sono mais próximos do considerado saudável. (CACZAN, 2018)

Cultura de paz e a meditação

Em nossa noção de mundo para se falar de cultura de paz, o nosso objetivo, além de estar
no indivíduo, tem como foco principal a sociedade. O processo coletivo se respalda de acordo com
a fluidez do processo individual. Quando um número significativo de pessoas se relacionam se
estabelece uma linguagem que é capaz de criar um significado e uma linguagem para aquela
relação. Esse significado é gerador de várias ações positivas, e assim surgem práticas construtivas
e a energia positiva está presente em tudo, inclusive na noção individual para se tornar coletiva.
Para produzir paz é preciso ampliar a visão, e para ampliar a visão é necessário o esvaziamento do
lixo mental constituído dentro de nós. É preciso introduzir uma prática eficaz que nos ajude a nos
conectar com o que realmente importa e desapegar dos significados que foram impostos, tendo a
capacidade de criar um novo propósito e uma tolerância maior com o coletivo de forma empática
e ampla.

Conclusão

Por intermédio desse artigo procurou se mostrar a importância da meditação a integração e


desenvolvimento interior para o indivíduo ter entendimento e praticar a cultura de paz no meio
social.
Demonstrou-se que a meditação é uma prática antiga que está presente nos dias de hoje
devido a sua grande relevância e resultados internos que ela transmite com sua prática para as
pessoas. De suma importância, a prática confirma muitos benefícios científicos presentes na
mudança do nosso corpo, e, também, espirituais que nos ajudam a interiorizar sentimentos bons e
resolver conflitos internos presentes. Também, nos ajuda no controle de ansiedade, e o
esvaziamento do lixo mental que nos é angariado no decorrer da vida. O autocontrole é um dos
pontos a serem citados devido a relevância que ele transmite na cultura de paz, ampliando nossa
visão e nos tornando pessoas mais relevantes ao coletivo, e nos ensinando a lidar com os problemas
pessoais. A empatia coletiva nos torna pessoas mais sociáveis e compreensíveis com o próximo,
tendo o entendimento e a importância do outro. Evidencia-se uma variedade de práticas tornando
a meditação um exercício muito amplo para a escolha do praticante. Introduzido em áreas

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educacionais e penitenciárias torna o ser humano apto para conviver em seu meio e lidar de uma
maneira positiva seu lado pessoal e individualizado.
Tornou-se evidente e de suma importância o uso da meditação nas redes educacionais do
país e nas penitenciárias nacionais. E a cultura de paz pode ser praticada depois que o indivíduo
tem uma interação agradável com seu interior.

BIBLIOGRAFIA

CACZAN, Luciana. Meditação: o que acontece com seu cérebro é incrível! 30 de out. 2018.
Disponível em https://awebic.com/mente/meditacao-cerebro/ Acesso em 21 de maio de 2019

CORDEIRO, Thiago. Meditação ganha, enfim, aval científico. 7 de jul. 2013. Disponível em
https://veja.abril.com.br/saude/meditacao-ganha-enfim-aval-cientifico/ Acesso em 15 de maio de
2019

DIZITZER, Marcia. Meditação é adotada em escolas e beneficia crianças e adolescentes. 3 de


jul. de 2018 Disponível em https://oglobo.globo.com/ela/gente/meditacao-adotada-em-escolas-
beneficia-criancas-adolescentes-22845089 Acesso em 20 de maio de 2019.

ROSA, Ana Beatriz. O presídio brasileiro que oferece aulas de meditação para os presos
Disponível em https://www.huffpostbrasil.com/2018/06/14/o-presidio-brasileiro-que-oferece-
aulas-de-meditacao-para-os-presos_a_23459109/ Acesso em 13 de maio de 2019.

Minha Vida. 7 técnicas para meditar e acalmar a mente. Disponível em


https://www.minhavida.com.br/bem-estar/listas/1042-7-tecnicas-para-meditar-e-acalmar-a-mente
Acesso em 2 de maio de 2019.

Ho’oponopono: o que é, como funciona, benefícios e mais! Disponível em


http://blog.app-zen.com/hooponopono-o-que-e-como-funciona-beneficios-e-mais/
Acesso em 10 de maio de 2019.

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A inteligência emocional e sua ligação com a educação não violenta
Alex Muniz de Macedo
Introdução

A educação não violenta se baseia em uma forma diferente do “convencional“ de educar,


é um forma de educar sem autoritarismo, permissividade , culpa, sem as famosas palmadas, mas
sim numa forma de educar baseada no respeito, diálogo e principalmente a empatia e compaixão,
buscando estimular o máximo possível a autoestima, autonomia, autodisciplina e resiliência em
nossos filhos, é uma forma de educar que estimula você e a seu filho a entender os seus
sentimentos, a nunca reprimi-los, pois com eles você aprende a viver de uma maneira melhor,
mostrando que o processo de autoconhecimento é algo primordial para que possa estar mais
conectados com os sentimentos de seus filhos, e consequentemente entende-los melhor.
Acredito que bater nos filhos não é algo que as pessoas fazem por gostar, satisfação ou
prazer (a não ser que a pessoal tenha algum distúrbio mental grave), mas, geralmente é um ato
feito quando se perde o controle. Penso que todos querem viver de maneira harmoniosa, tendo
como base para resolver problemas e conflitos a conversa, para que o ambiente familiar seja
tranquilo e harmonioso. Isso acontece porque a conexão é uma necessidade humana básica, mas
sabemos que manter esse controle não é fácil, pois nem a vida, nem os filhos vem com um roteiro
para sabermos como agir de maneira correta em cada um dos momentos de conflito. Já temos a
ideia de que a educação é um sinônimo de punição pois ela nos é passada desde de que somos
crianças, com frases como “se não fizer isso você vai apanhar, ou, faça a lição de casa se não você
esta proibido de jogar videogame “ por isso é comum que encontremos dificuldades de fazer de
outra maneira ou até mesmo fazer sem que a permissividade e a leveza acabem se tornando algo
prejudicial do mesmo modo que a violência.
Ao passar do tempo o mundo foi se modificando e estamos em um momento no qual temos
acesso a muitas informações, e estímulos criando possibilidades que jamais tivemos em qualquer
momento da história, talvez essa seja uma das consequências que tenham feito com que a sociedade
esteja cada vez mais adoecida, física e emocionalmente, como cita Augusto Curyem entrevista à
revista Cláudia:
“Nunca tivemos uma geração tão triste, tão depressiva. Precisamos ensinar
nossas crianças a fazerem pausas e contemplar o belo. Essa geração precisa de
muito para sentir prazer: viciamos nossos filhos e alunos a receber muitos
estímulos para sentir migalhas de prazer. O resultado: são intolerantes e
superficiais. O índice de suicídio tem aumentado. A família precisa se lembrar de
que o consumo não faz ninguém feliz. Suplico aos pais: os adolescentes precisam

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ser estimulados a se aventurar, a ter contato com a natureza, se encantar com
astronomia, com os estímulos lentos, estáveis e profundos da natureza que não
são rápidos como as redes. “

Por conta disso, nossa educação não deve ser só baseada em estudos como matemática
português e ciências. Deve passar levar em conta a empatia, o autocontrole e o autoconhecimento.
Só que continuam sendo usados métodos educacionais baseados em punição, ameaça e críticas, o
que claramente é incoerente. É uma relação baseada em poder, em busca do controle e da
obediência. Por estarem no controle da situação os pais muitas vezes querem que as vontades deles
sejam cumpridas sem considerar os interesses e principalmente os sentimentos das crianças, que
por serem pequenas tem dificuldade de expressa-los e muitas vezes o choro é a única maneira que
encontram.
Por outro lado, ser permissível é tão prejudicial quanto ser autoritário. Permitir que o filho
faça tudo que ele quer e consiga tudo que ele pede também tem suas consequências. Isso acaba
dificultando que as crianças aprendam a lidar com frustrações, assim, cada vez que a criança se
depara com uma nova frustração, menor é sua capacidade de lidar com aquela situação.
Vemos que em ambos os casos a importância da inteligência emocional que nada mais é
do que, ter a capacidade de reconhecer e lidar com os próprios sentimentos, sabendo usá-los a seu
favor, e compreender e lidar com os sentimentos e emoções do outro.
Baseado no livro de Inteligência emocional e a arte de educar nossos filhos foram
encontrados resultados de um estudo realizado com crianças que foram educadas por pais
considerados “preparadores emocionais” e crianças que os pais não se importavam com as
emoções de seus filhos, e os resultados foram que as crianças criadas por pais que se importavam
com as emoções possuíam em menor quantidade um hormônio chamado cortisol, que está
diretamente envolvido na resposta que o organismo dá ao estresse na urina, possuíam um sistema
imunológico mais resistente, e eram crianças mais resilientes sabendo lidar com situações que
envolviam seu lado emocional com mais facilidade como podemos ver na citação abaixo:

“Esse estudo de acompanhamento nos mostrou que, de fato, os filhos de


pais preparadores emocionais estavam melhor em termos de rendimento escolar,
sociabilidade,
bem-estar emocional e saúde. Até em testes de QI, faziam mais pontos em
matemática e leitura. Relacionavam-se melhor com os amigos, eram mais
sociáveis e, segundo
suas mães, tinham mais emoções positivas do que negativas. Diversos outros
quesitos mensurados também indicaram que as crianças emocionalmente

19
treinadas eram menos estressadas. Por exemplo, em sua urina encontravam-se
menos hormônios associados ao estresse. Tinham um ritmo cardíaco mais calmo.
E, segundo suas mães, eram menos
sujeitas a doenças contagiosas, como gripes e resfriados.(1997, p. 38)

Todo ser humano possui sentimento, eles fazem parte de nós, por mais que queiramos
“desativá-los” lidar com eles na hora em que estamos sentindo é a melhor coisa a se fazer, e esse
é um erro que os pais cometem, ignorar os sentimentos de seus filhos e, muitas vezes, até os seus
próprios sentimentos.
Muitas vezes achamos que o choro ou a birra de uma criança não tem motivo, mas, às
vezes, é uma questão de interpretação de sentimentos que não sabemos reconhecer, muito menos
as crianças, como por exemplo:
Quando estamos guardando um pacote de bolacha e a criança vê e pede esse pacote para
ela, muitas vezes o que fazemos é abri-lo, tirar algumas e dar para a criança e guardar o resto do
pacote no armário. Mas, mesmo tendo algumas bolachas a criança começa a chorar
descontroladamente. Você não percebe motivos para aquele choro afinal de contas a criança
conseguiu algumas bolachas, mas ao pedir o pacote de bolacha a criança criou a expectativa de
receber o pacote de bolacha inteiro, e ao não receber isso acabou gerando um sentimento de
frustração nela, sentimento esse que ela não sabe como lidar.
Devemos desde pequenos fazer com que as crianças identifiquem esses sentimentos e
nomeá-los, pois, essa é uma das melhores formar de aprender a lidar com eles como encontrado
no livro Educação não violenta: “[...], nomeie os sentimentos da criança. Dar nome ao que ela
sente, além de ampliar o repertório emocional, gera conexão, demonstra que entendemos o que ela
está vivenciando. “ 2019, p.41)
Se nem os adultos muitas vezes sabem lidar com esse tipo de sentimento, imagine uma
criança, e por não saber lidar com isso ela acaba fazendo birra que pode ser caracterizada como
uma explosão emocional. Essas emoções são tão fortes nas crianças e elas não sabendo lidar com
isso acabam fundindo o emocional com o físico causando uma exaustão logo após um longo
período de choro, e muitas vezes o que ela faz em seguida a cair no sono devida a tamanha
exaustão. A criança que chora descontroladamente não precisa de julgamento, repreensão ou
agressão, mas, sim, de acolhimento e empatia, que não deve ser confundido com atender ao que a
criança quer, acolhimento é aceitar o sentimento que surge, sem determinar se é bom ou ruim.
Não podemos menosprezar ou ignorar os sentimentos, mas infelizmente muitas vezes é isso
que acontece, quando estamos diante de sentimentos que consideramos desnecessários,
costumamos expressar nossa opinião como verdade absoluta, ignorando o fato de que estamos

20
lidando com uma criança, e costumamos falar “não tem motivos para choro ou que choro falso não
está saindo lágrimas” ou até agressões, e a criança acaba associando sentimentos negativos ao
próprio sentimento aumentando ainda mais a dor que sente.
Tendo sidos criados de outra maneira muitas vezes não temos um total controle emocional
e isso nos faz acreditar que vivenciar os sentimentos são ruins e indevidos e quando aparecem é
porque temos algum defeito, ou que somos malvados ou inadequados, e por serem tabus nas
famílias não aprendemos a lidar com eles. Nosso comportamento quando aparecem os sentimentos
é justamente o pior possível para lidar com eles: não nos responsabilizamos por estes sentimentos
e estamos acostumados a culpar o outro quando sentimos algo. Quando batemos alguma parte do
nosso corpo e surge um hematoma muitas vezes acabamos até esquecendo da batida que o
provocou até que venha um desavisado e toca naquele ferimento. Sentiremos uma dor aguda que
irá nos fazer reagir imediatamente. Mas, culpar o outro é esquecer que só doeu porque nos
machucamos anteriormente e aquele ponto se tornou sensível, e que se o toque fosse em algum
outro ponto do nosso corpo talvez não sentíssemos dor. Por isso é importante entender que quando
algo dói, é porque estamos tocando em algo sensível do nosso corpo ou e, consequentemente, faz
com que tenhamos maior compreensão do que acontece. Só desenvolvemos métodos para lidar
com nossos sentimentos, quando assumimos que eles existem, mas ao achar que se validarmos os
sentimentos de crianças elas nunca irão parar de chorar estaremos apenas prejudicando-as, porque
acontece justamente o oposto. Compreender e se identificar com os sentimentos das crianças
interferirá diretamente no comportamento delas, e quanto mais rápido lidarmos com os
sentimentos, mais rápidos eles passam e dão lugar a um novo modo de sentir. De acordo com
Elisama Santos autora do livro Educação Não violenta temos a raiva como:

“A raiva é um sentimento de segundo plano, não existe por si só. É a


capa encobrindo um sentimento que lhe dá causa. Se não lidamos com ela, não
encontramos sua causa, e a raiva aparecerá com frequência ainda maior ” [...].
(2019, p.49).”

Por isso a inteligência emocional é importante pois se tivéssemos sidos criados com uma
educação direcionada a inteligência emocional, muito de nossos problemas com relação a filhos
ou até mesmo a relacionamento e sociedade poderiam não existir.
Educar pode ser considerado um exercício muito maior de aceitação do que uma
modelagem: muitas vezes as crianças são muito diferentes do que imaginamos e isso não precisa
ser um julgamento, apenas uma constatação, pois as relações acabam sendo muito mais fáceis,
quando se pode ser exatamente quem é. Rotular uma pessoa é a pior maneira para fazer com que

21
ela desenvolva ou aceite sua individualidade, pois rotular uma criança é como criar uma profecia
que logo se realizará.
Deve-se também, tentar sempre estimular a auto avaliação das crianças. Pais que tentam
repelir os erros dos filhos acabam prejudicando-os ao invés de ajudá-los, pois os filhos devem
aprender a lidar com seus erros e não fingir que eles não existem, isso pode criar traumas no futuro.
Como a crianças sempre pensam que não vão conseguir fazer alguma coisa a partir do primeiro
momento que elas errarem e os pais não estiverem lá para ajuda-los. O outro lado, são pais que
cobram seus filhos por absolutamente tudo, que acham que seus filhos devem ser perfeitos e nunca
poderão cometer erros, só que isso também acaba criando problemas porque quando as crianças
crescerem terão medo de arriscar e viver e passam a ter uma vida infeliz, com medo de tentar fazer
algo e errar.
Não devemos levar para nenhum dos extremos, não devemos estimular a culpa nas crianças
e sim a responsabilidade, pois assim eles estarão preparados para a vida real. Devemos fazer com
que a reflexão da criança após um erro venha de dentro dela, e não através de discursos prontos,
estimulando seu raciocínio com perguntas que lhe façam encontrar a resposta para seus problemas
sempre que possível.
Educação não violenta é uma maneira de criar os filhos com empatia, nomeando e
entendendo seus sentimentos, para que aprendam a lidar com eles e desenvolvam a inteligência
emocional. Isso ajudará a lidar com qualquer tipo de relação, seja ela profissional, amorosa,
familiar etc., pois uma pessoa emocionalmente equilibrada não quer guerra com ninguém.

Conclusão

Podemos ver que ter um controle da inteligência emocional é um passo superimportante


para a educação não violenta, conhecer nossos sentimentos, nomeá-los, faz com saibamos lidar
com eles e estaremos mais preparados para lidar com todo muitos tipos de adversidades que
teremos contato no decorrer da nossa vida, e isso também fara com que possamos compreender
melhor os nossos filhos, podendo assim criá-los da melhor maneira possível.

22
BIBLIOGRAFIA

DE CLAIRE, Joan e GOTTMAN, John. Inteligência emocional e a arte de educar nossos filhos.
Editora Objetiva,1997.
SANTOS, Elisama. Educação Violenta. São Paulo:Editora Paz&Terra, 2019

PRATA, Liliane. Nunca tivemos uma geração tão triste. Revista Claudia, Outubro , 2016.
Disponível em https://claudia.abril.com.br/noticias/nunca-tivemos-uma-geracao-tao-triste/Acesso
em 15 de maio de 2019.

23
Arte e cultura de paz
Natasha Catrópa Matos

Toda arte faz parte

Diante de algo desagradável que pode acontecer em nossas vidas, a arte é algo que faz
normalmente pensarmos sobre o lado bom das coisas. Desde uma letra de música que expressa o
que um artista tem a dizer até uma dança que expressa seu corpo é algo, de certo modo, positivo.
Diante de uma sociedade que impera o medo, a incerteza e tristeza, podemos dizer que a arte deve
fazer parte da cultura de paz.
A atividade artística-cultural começa a ser aplicada em um ser humano desde a sua
educação, seja ela escolar ou extracurricular. Como já dizia Pitágoras: “Educar as crianças, para
que não seja necessário castigar os adultos”.
O professor de História da Arte da UNICAMP, Jorge Coli, enfatiza que
“O objeto artístico traz em si, habilmente organizado, os meios de
despertar em nós, em nossas emoções e razão, reações culturalmente ricas,
que aguçam os instrumentos dos quais nos servimos para apreender o
mundo que nos rodeia” (1995, p. 109)
Coli deixa claro que a relação do indivíduo com o mundo que o rodeia, a arte a expressão
são coisas que fazem parte do caráter humano. Já, Ana Mae Barbosa, diz -Se a arte não é tratada
como conhecimento representacional, mas como ‘grito da alma’, nós não estamos fazendo nem
educação emocional nem educação cognitiva”.
Quando temos um ambiente que todos participam de algum tipo de atividade em conjunto,
aprendemos a relacionar e entender o outro. A arte faz com que tenhamos uma percepção melhor
de mundo.
Tanto a comunicação quanto as expressões, fazem parte do nosso cotidiano. Uma criança
tendo a arte em sua educação, aprende a ter essa noção sobre coisas. A arte ajuda tanto no interior
quanto no exterior da pessoa, mantendo relações saudáveis com intuito de manter a paz como algo
normal.
A questão da cultura de paz é algo que é urgente e necessário indiscutível hoje em dia, e ao
mesmo tempo algo que precisa ser inserido na sociedade e com isso nada melhor do que a arte nas
escolas, não sendo apenas extracurriculares, mas sim, algo que faça parte da grade curricular e que
seja acrescentada a perspectiva pedagógica.
A Pedagogia da escola Waldorf, por exemplo, aborda uma filosofia de educação do
austríaco Rudolf Steiner. Costumam procurar integrar o desenvolvimento físico, espiritual,
intelectual e artístico dos alunos. A pedagogia tem como intuito mostrar que cada ser humano é
diferente. Assim, mostrando que cada indivíduo tem sua paz interior.
Podemos citar outro exemplo: o Projeto “Artes In cena”, no qual ressalta a importância da
cultura da paz no meio educacional. Ele visa disseminar a ideia de que para transformar o mundo
é necessário que haja respeito, igualdade e paz.
A filosofia de paz, mais precisamente mundial, está presente na arte, sendo assim
simbolizada pela estátua La Paz Mundial, no Chile, instalada na praça Cacique Colipí de
Copiapó.

CONCLUSÃO

24
Todos nós, quando nos ligamos à arte, conseguimos ver um outro lado do mundo, ver de
um modo diferente o cenário caótico que o mundo está se tornando. Precisamos ver além da cultura
de paz e pensar em possibilidades de tornar o mundo melhor.
Termo da cultura de paz segundo o Gandhi: “Seja a paz que você deseja ver no mundo”.

BIBLIOGRAFIA

25
ACCIOLY , Thais. Cultura de paz. Disponível em
https://www.somostodosum.com.br/artigos/corpo-e-mente/cultura-de-paz-12173.html Acesso em
3 de maio de 2019.

COLI, Jorge. O que é arte. 15ª ed., Editora Brasiliense, São Paulo – SP, 1995.

FLORES, Leticia. Já pensou em se livrar do estresse e da ansiedade apenas trabalhando


com as mãos? É possível. Disponível em
https://www.google.com/amp/s/awebic.com/saude/usar-maos-reduzir-estresse-ansiedade/amp/
Acesso em 5 de maio de 2019.

VILLAÇA, Iara de Carvalho. Arte-educação: a arte como metodologia educativa. Disponível


em
https://www.cairu.br/revista/arquivos/artigos/2014_2/05_ARTE_EDUCACAO_METODOLOGI
A_EDUCATIVA.pdf Acesso em 15 d eabril de 2019

VIEIRA, Sebastião. Arte na educação por uma cultura de paz. Disponível em


http://obviousmag.org/pao_abstrato/2016/arte-na-educacao-por-uma-cultura-de-paz.html Acesso
em 19 de abril de 2019.

Projeto Icima utiliza a música para propagar a cultura da paz 27 jun 2016 Disponível em
https://www.google.com/amp/gshow.globo.com/Rede-Bahia/Aprovado/noticia/2016/06/projeto-
icima-utiliza-musica-para-propagar-cultura-da-paz.amp Acesso em 20 de abril de 2019

A importância do envolvimento das crianças com a arte. Disponível em


https://www.telavita.com.br/blog/crianca-e-a-arte/ Acesso em 27 de abril de 2011
CULTURA DE PAZ. Interação impulsionando o processo criativo. Disponível em
http://www.culturadepaz.org.br/acoes_para_paz/17/ Acesso em 4 de maio de 2019;

DANÇAS CIRCULARES.O que são as Danças da Paz Universal? 19 jun. 2018 Disponível em
http://dancascirculares.com.br/blog/dancas-da-paz-universal/ Acesso em 3 de maio de 2019;

WALDORF. Pedagodia Waldorf. Disponível em


https://www.waldorf.com.br/index.php/pt/home/pedagogia-waldorf Acesso em 22 de abril de
2019

COLEGIO ANTONIO VIEIRA. Projeto “Artes In Cena” ressalta a importância da cultura


de paz. Disponível em https://www.colegioantoniovieira.com.br/noticias/2018/06/08/projeto-
artes-in-cena-ressalta-a-importancia-da-cultura-de-paz.html Acesso em 21 de abril de 2091

26
Arte e política que tecem os Direitos Humanos

Sergio Henrique Mendes Pinto

Resumo

Este artigo pretende fazer uma análise da contribuição da Arte para a Cultura de Paz.

Introdução

Pensar ou definir arte, dentro do contexto de que arte é algo que fortalece a defesa dos direitos
humanos, é adentrar o universo ilimitado de possibilidades.
Esse universo ilimitado não se dá somente pelo fato de estarmos abordando dois temas de
comprovada nobreza: a Arte e os Direitos Humanos.
A proposta desse artigo é, justamente, a de fortalecer a impressão, muitas vezes latente, de que
o fazer, o divulgar e o promover – e o fomento – do fazer artístico, corroboram o desenvolvimento,
na prática, do conhecimento dos direitos humanos, de uma forma empírica e, porque não dizer,
também sensorial, pois essa prática se reconhece em ações reais que colocam as pessoas em contato
direto com experiências igualmente reais de vivência humana, de relacionar-se com o outro dentro
de uma perspectiva, às vezes, de expectador do produto artístico e, muitas vezes, de agente de
socialização, participando de uma atmosfera de convivência que antecede ou que interage com a
prática artística.

Mrs Eleanor Roosevelt a mostrar a


Declaração Universal dos Direitos
Humanos

Conceituação
(A experiência do Serviço Social do Comércio)

Inserindo a conceituação do tema, propomos firmar os nossos olhos no trabalho


desenvolvido, no Brasil, pelo SESC, o Serviço Social do Comércio. Fundado em 1946, o SESC
tem por objetivo não só o de promover fazeres artísticos. Sua ação se dá, também, no campo das
ações sociais, do lazer, da educação, saúde e cultura. Porém, um dos braços da ação do SESC é a
promoção e o fomento ao fazer artístico.

27
A instituição – que também é uma empresa privada – mostra, na prática, que promover a
cultura enobrece as suas ações nos outros segmentos de atendimento às necessidades dos cidadãos
brasileiros. E quais necessidades são essas?
O ser humano, dentro de um contexto de interação social, costuma se mostrar disposto e
interessado em cuidar-se e em cuidar dos seus. Partindo dessa ideia, pode-se afirmar que a
interação social, por exemplo no campo da saúde, é uma perspectiva que interessa às pessoas,
quando elas têm o objetivo de cuidar de si mesmas e de quem faz parte, por exemplo, do seu
convívio familiar. Sempre nos preocupamos com o nosso bem-estar físico e psicológico, com o
nosso bem-estar emocional e relacional. Se entendermos essa preocupação humana, podemos dizer
que a mesma perspectiva de se auto cuidar contempla as áreas cognitivas, do lazer, de se entender
como cidadão e, porque não, a de se ver como consumidor de produtos culturais. Quando uma
empresa como o SESC fomenta e promove a cultura, ela está, principalmente, atendendo a uma
necessidade humana que é suscetível de existir – e existe – mas que, nem sempre, é manifesta: a
de consumir cultura. Nessa perspectiva é que esse trabalho se torna ainda mais importante, porque
ele faz emergir uma descoberta que às vezes está latente em alguém que se descobre interessado
em conhecer e apreciar o produto cultural. Nesse caminho de autodescoberta, muitas vezes, muitas
pessoas precisam lidar com os seus preconceitos em relação à cultura e até com questões
diametralmente ligadas à sua autoestima. E outras pessoas, não!
Talvez por uma pré-disposição adquirida em um ambiente familiar que, embora não fosse
dotado da prática de consumir cultura, costumeiramente, mas que, de alguma forma forjou nesse
indivíduo, algumas características que o ajudaram a desenvolver a sua sensibilidade, impelindo-o
a caminhar na direção dessa luz, esse cidadão encontra nisso um promissor provocador do seu
interesse. Afinal, cultura é, também, uma questão de sensibilidade e de capacidade de se ver.
Outras pessoas, porém, já cresceram em ambientes dotados da prática de consumir cultura e arte
e, para essas, o caminho é menos árduo e, quase sempre, as descobertas são mais imediatas, visto
que receberam, desde cedo, uma orientação e um direcionamento que as impeliram a esse tipo de
consumo.
E o que o consumo dos produtos ofertados pela ação cultural do SESC têm a ver com a
prática e o entendimento dos direitos humanos, numa perspectiva mais ampla? Vamos aos fatos e
a uma abordagem da situação do ponto de vista empírico. Imaginemos a situação de que alguém
ganhe, compre ou seja agraciado com o sorteio de um ingresso de teatro ou exposição que esteja
em cartaz numa das unidades da rede Sesc. Numa segunda etapa, imaginemos que essa pessoa
decida se beneficiar disso, contemplando a sua ida a esse evento. Na terceira etapa, imaginemos
que ela decida programar o seu dia para o exercício desse deslocamento e viabilizar a logística
necessária que permitirá que esteja presente à hora dessa atividade. Numa quarta etapa, pensemos
que essa pessoa decidiu cuidar-se do ponto de vista físico e emocional para exercer o seu direito
de estar presente ao evento. Aqui, explanando essa situação em etapas, podemos ver que a palavra
direito surge como indicador de algo que é do pertencimento desse indivíduo: o direito de estar
presente a uma apresentação teatral ou a uma exposição.

Artigo XXVII da Carta dos Direitos Humanos –


a) Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as
artes e de participar do processo científico e de seus benefícios.

b) Todas as pessoas têm o direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de
qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja o autor.

Se considerarmos que para cumprir esse roteiro até a etapa número 4, o indivíduo proposto
como personagem dessa ação passou por fases que o colocaram em contato com pessoas das mais
diversas funções, nesse ínterim, além de estar exercendo um direito, num segundo momento, ele
está, também, exercendo a possibilidade de se ver como cidadão, na perspectiva de alguém que é
agente e atuante numa conjuntura social que o coloca em contato com as outras pessoas do seu
28
meio social macro, tirando-o da perspectiva relacional da sua família ou daquela que você exerce
com os seus amigos.
Mas, pensemos, agora, na arte como algo que corrobora o exercício dos direitos humanos, sob
outra perspectiva: a do fazer artístico. Aqui se faz o convite para o leitor subir o pano dessa caixa
cênica e enxergar o trabalho do artista como elemento principal da promoção dos direitos humanos.
Nas próximas seções, vamos tratar de uma realidade que muitas vezes é pouco tratada: a
sensibilidade do artista e o seu fazer artístico, o seu ofício. Depois, entraremos no terreno do ato
político que existe nesse mesmo exercício, a prática desse ofício. Porém, antes disso, cabe
vislumbrar o que poderia ser pensado como um gráfico para um caso como este:

Trata-se de um gráfico lúdico,


evidentemente. Porém, ele servirá
para ilustrar esse próximo
assunto.

“ [...] Pois a cultura, a nosso ver é produzida através de uma criatividade e


interação humanas multidimensionais. Seu objetivo não é unidimensional [...],
mas múltiplo, integrando nossas alegrias e sofrimentos, sonhos e falhas, nossas
relações de trabalho, nossas artes, artesanatos, poesia e toda a sutileza de nosso
dia a dia que tece a rica tapeçaria da vida. (2003, p. 21)

O artista quando faz, compartilha! O ponto em que se dá esse compartilhamento é o ponto de


troca e pode ser o ponto de gratidão para com o público que o assiste. O fazer artístico é um ofício
de oferta e de criar a alquimia que envolve o espectador pelos olhos e o faz disponibilizar-se para
o espetáculo.

Uma arte combativa

Mas em que medida as artes se tornam parceiras combativas em prol dos direitos humanos e
dos direitos políticos, sem abdicar do seu papel na construção da cultura de paz?
E em que medida os direitos humanos não se confundem, muitas vezes, com direitos políticos?
Para Faria e Garcia (2003):

“Um dos resultados da globalização é um amplo desenraizamento que


desfaz modos de vida locais, expropria milhões de seres humanos de suas
referências culturais e de suas próprias vidas. Assim, todo um processo cultural
entra em decadência e, em troca, é oferecido um padrão fabricado pelo consumo
que tem na mídia um emulador permanente, pasteurizando todo e qualquer tipo
de diferença”.

29
Pelo mundo afora, os artistas se reúnem em congressos, fóruns e todo o tipo de dinâmicas que
se propõem a discutir os rumos das artes e suas contribuições para o desenvolvimento da sociedade
do ponto de vista não só de pensar as políticas públicas que favorecem as produções artísticas,
mas, também, sob a égide da arte enquanto mecanismo e ferramenta de transformação de pensares,
fazeres, posições individuais e coletivas que são transformadoras dos grupos sociais. Isso sem
contar na performance individual dos artistas. Muitos de nós, se pararmos e recapitularmos a nossa
trajetória humana e emocional, se lembrarão de um momento em que perceberam e calaram na sua
emoção e no seu intelecto, as palavras de um artista em “estado de performance”.
“Já caí, me quebrei entre cacos e bagaços, juntei meus próprios pedaços e, em lágrimas, calei;
me refiz, me levantei mais forte que platina, feito fogo em gasolina que acende e vai se espalhando.
O que aprendi chorando, sorriso nenhum ensina”. (Bessa, Bráulio, 2018)
O texto acima compõe uma poesia composta pelo ator Bráulio Bessa, dita no programa
Encontro, da Rede Globo de Televisão, tendo sido a sua interpretação, acompanhada pelo público
externo ao estúdio e convidados da apresentadora Fátima Bernardes.
O ator mobiliza. Com a sua arte, os artistas mobilizam e transformam e recriam uma sociedade
nova a partir da sensibilidade. E o que são os direitos humanos, se não uma proposta de recriar
uma sociedade, a partir do repensar dos seus valores. Suas posturas e as garantias dos seus direitos?
Contudo, parece ser cada vez mais preciso – para falar da realidade brasileira – uma quebra de
paradigmas e, principalmente, de uma desconsideração de preconceitos contra as artes em geral.
É preciso que o brasileiro considere a inserção e o papel da arte, seja ela gráfica, interpretativa,
performática, musical, como elemento e ferramenta transformadores das realidades sociais,
enquanto diversas e divergentes. É preciso um olhar convergente sobre as possibilidades que a arte
dá de se compreender a realidade social e política do Brasil.
No filme Última Parada 174, de Bruno Barreto, de 2008, é feito um relato contundente dessa
realidade. Era o ano 2000, quando alguém saiu numa sacada de um edifício na Praia de Botafogo
e se deu de encontro com a visão de cartão postal da Baía de Guanabara. Há menos de 5 km dali,
numa noite comum de uma semana do Rio de Janeiro, um jovem parara o trânsito da Rua Jardim
Botânico porque rendera um ônibus, tomado pelo seu caos emocional. O jovem Sandro,
sobrevivente da chacina da Candelária, ocorrida em 1993, apoderara-se do ônibus e, depois,
acuado, veio a disparar sua arma contra uma professora, grávida, que estava passageira do tráfego
da morte. Anos depois dessa noite, no ano de 2008, o cineasta Bruno Barreto leva aos cinemas a
história daquele jovem, negro, favelado e pobre. Pobre jovem brasileiro. Sandro virou uma
representação de um tipo de brasileiro que carece de seus direitos. A esse tipo de jovem são
negadas garantias, oportunidades, saúde, educação. São negados os direitos humanos. Fora o
discurso pretensamente político, existe um filme, o produto artístico que desnuda a vida do jovem
Sandro e escracha um Brasil que muita gente parece querer não ver. Ou, pior, parece querer
simplificar. E quando paramos para assistir ao filme e pensamos sobre o que ele mostra, podemos
ver a relação do artista com os direitos humanos, num ato artístico, por assim dizer, até mais
agressivo. Quando um cineasta consegue o feito de transpor a realidade brasileira, nua e crua, para
as telas do cinema, ele consegue o feito de colocar os dez dedos sobre a ferida de uma realidade
social que todo dia é negligenciada. Talvez por isso exista tanto preconceito contra a arte. Porque
ela impede que se negligencie. Mas o artista segue firme e ereto! De um outro lado, na televisão,
frequentemente vemos ser defendido o discurso da meritocracia e do sonho, duas coisas até
díspares, sob certa ótica.
Se pela meritocracia, defende-se a ideia de que os jovens Sandro, bem como todos os cidadãos
e cidadãs brasileiros, devem se esforçar, se empenhar, trabalhar e ter dedicação para conquistar
seus lugares ao sol, na ideia do sonho, a projeção talvez seja outra. No sonho, basta acreditar! Mas
basta? Evidentemente que não, diz o discurso. Você precisa ter o ‘combo’: acreditar no sonho, ter
dedicação e trabalhar. Segundo essa tese, se uma pessoa confia e acredita no sonho e trabalha, ela
conquista. Por mérito, ela conquista!
E então, a televisão pinça e faz a projeção, por amostragem, levando a público, histórias de
pessoas que conquistaram os seus sonhos e que confirmam a tese da meritocracia. Assim, a mídia

30
que só existe porque recebe concessão do governo, presta um serviço valioso ao seu concessor,
num sentido de incutir no pensamento coletivo, a ideia de que BASTA cada um acreditar no seu
sonho e seguir trabalhando. Com isso, teoricamente, ela pode abrir mão até dos seus direitos
básicos, por um período de sua vida, porque os fins justificarão os meios, porque o sucesso vale
tudo. E ele tem o seu preço! A educação, a saúde, a segurança, são ideais sempre erguidos ao status
de oratória ou de retórica. Mas o que está por detrás desse discurso é outra ideia. É algo como se
dizer que não que não se defenda a necessidade de educação, saúde e segurança. Mas, restritas à
retórica, esses três pilares da sociedade passam a ser somente projeção.
Então, porque não dizer aos milhões de lares brasileiros que é importante desenvolver o
espírito de cidadania e, junto com ele, desenvolver um comportamento cidadão? Porém, não só do
ponto de vista da retórica. Muito além da meritocracia, o cidadão deveria praticar um
comportamento de enfrentamento. A palavra enfrentamento parece ter um significado nada bem
recebido pelas classes dominantes, obviamente. Mas, viver não é ser bem-comportado, dentro dos
parâmetros que interessam a quem detém poder e deveria fazer e não faz.
Essa dosagem possibilitaria um comprometimento com o que, de fato, vai contribuir com a
manutenção de uma sociedade mais justa. O enfrentamento traz consigo um grande leque e desse
instrumento fazem parte a indignação, a coragem, a instrução, a verdade e a postura cidadã. Diante
de uma situação corriqueira como um outro cidadão que joga um resto material qualquer na rua e
não no vasilhame de lixo, caberia o enfrentamento. Diante de uma empresa privada que não
oferecesse seus serviços com eficiência e respeito pelo consumidor, caberia a coragem. Coragem
de se indignar e se colocar e de exigir o que lhe é cabível naquela situação. Diante de um conflito
com o empregador, caberia a instrução. Se de um lado está o empregador e, de outro, o empregado,
caberia ao último estar no pleno domínio de conhecimento dos seus direitos e, respeitando as regras
do bom diálogo, enfrentar uma situação de desvalorização do seu trabalho, dos seus direitos e das
suas garantias contratuais.
Na verdade, enfrentamento nada tem a ver com agressividade, mas com uma disponibilidade
cidadã de se indignar diante de quaisquer situações que representem injustiça, inconformidade com
os direitos humanos e civis, ou desrespeito à organização social e a tudo a que ela caiba para termos
nossas cidades limpas, ordenadas e possíveis de serem habitadas. O enfrentamento não é corporal,
mas atitudinal, no sentido de se estar instruído do que lhe cabe como dever e como direito.

Um teatro que não foge à luta

“No âmbito dessas preocupações, surgiu o projeto de extensão intitulado O Fazer Teatral: Arte,
História e Cidadania, fruto da junção de experiências diferenciadas, mas que tinham em comum a
experiência de articular o universo teórico da história com a prática teatral”. (Pelegrini, S.C.A.;
Teatro e Política) O teatro sempre se empenhou e sempre convergiu seu esforço aguerrido, a formar
uma tríade com outros dois pilares de cultura, política e direitos humanos: a sociedade pluralista e
a pratica dos direitos fundamentais dos cidadãos. Por isso mesmo, instituir o conceito de sociedade
pluralista é fundamental para que todos os direitos de todos os humanos, sem exceção, sejam
praticados e respeitados.
Somente imbuídos de saber que vivemos numa sociedade resultante de uma miscigenação não
só biológica, mas cultural é que que vamos nos conscientizar de que deve haver nessa sociedade,
respeito e cumprimento dos deveres e direitos de cada um e de todos, independentemente de cor,
classe social ou quaisquer outros fatores que não são exercidos de forma a integrar todos os
cidadãos, podendo tornarem-se a grande razão do separatismo cultural. Por sua vez, o teatro,
engendrando-se nos ambientes educacionais, aliando-se à formação educacional, levando a
crianças e jovens o conhecimento da história através de seus agentes multiplicadores, cria nos
educandos, um sentimento de descoberta de si mesmo e do papel que cada um pode exercer dentro
de uma conjuntura social.
Para a professora Sandra de Cássia A. Pelegrini, a organização e de leituras dinâmicas e
interpretação de textos teatrais, quando estes são cuidadosamente selecionados, torna a experiência

31
de ensino-aprendizagem muito mais prazerosa e, simultaneamente, mais profunda. As pessoas não
só socializavam suas impressões sobre os personagens e suas temáticas, como também passavam
a articulá-las às experiências vivenciadas direta ou indiretamente por elas. Aqui, a professora
Sandra Pelegrini refere-se a uma época do Brasil, dada a instauração do governo de João Goulart,
onde cresciam no país muitos movimentos de massa e inúmeros esforços no sentido de promover
a educação e a cultura, levados a termo pelos mais variados movimentos de base, centros populares
de cultura, entre outros.
Porém, depois disso, vieram a Ditadura Militar, a televisão e a internet.
Se no período de 1968 a 1980, o Brasil passou por uma fase política de repressão e controle,
quando os militares ditavam suas regras e seus mandos (ou desmandos), a partir do final da década
de 1970, a televisão começou uma verdadeira cruzada em prol do seu próprio destaque e,
consequentemente, da valorização dos seus produtos. No vale tudo do despontar e da
sistematização da linguagem televisiva como elemento dominante, as emissoras de televisão
lançavam os seus produtos que tinham o objetivo de entreter. Dentre esses produtos, a telenovela
passou a ser referencial de comportamento, além de um mero produto televisivo. A emissora que
se firmou no Brasil como grande produtora desse mercado foi a Rede Globo de Televisão, uma
emissora fundada para contribuir com a Ditadura Militar.
As novelas da Rede Globo tiveram fases de mostrarem grandes expressões do comportamento
humano, como foi o caso de “Dancin’ Days” (10 de julho de 1978 a 27 de janeiro de 1979) que
trazia personagens mais viscerais, ou de mostrarem personagens que expressavam grande
posicionamento político, como no caso de Vale Tudo (16 de maio de 1988 a 06 de janeiro de
1989), só para citar duas obras assinadas pelo novelista Gilberto Braga. Além dessas obras, a Rede
Globo “encenou” outras que foram tecendo um pensamento popular muito conveniente à emissora
carioca, pois, gradativamente, a emissora foi ganhando respeito e credibilidade, passando a
interferir, via de regra, com a influência incisiva do seu telejornalismo, até nas decisões políticas
do país, muitas vezes criando histórias na vida real que se assemelhavam ao perfil da sua
teledramaturgia.
Com essa atuação fervorosa, mudou-se, no país, até o conceito de arte para a maioria da
população. Firmando-se como grande produtora de material diverso de primeira qualidade e
ostentando a vida glamorosa de seus colaboradores, principalmente os artistas de novelas, a Rede
Globo conseguiu o feito de ser reconhecida não como produtora de material comercial, mas de
produtos artístico-culturais. Como se vê nos Estados Unidos, onde o cinema é utilizado com fins
políticos, a Globo passou a usar as suas novelas e a “vida fácil” e bela dos seus artistas com os
mesmos fins. No rastro do seu sucesso, ela decidiu usar os seus poderes para o mal e no seu rastro,
outras emissoras foram surgindo com o mesmo objetivo de fortalecer a instituição de uma mídia
catequizadora, formadora de um pensamento político dominante que fosse conveniente para uma
determinada linha de pensamento.
Na formação e expansão da mídia brasileira, inclusive respondendo a uma tendência mundial,
a internet impôs-se como grande veículo de disseminação de conteúdos e, consequentemente, de
valores e opiniões e, nos dias de hoje, ela representa não só ameaça à televisão, como também dita,
a essa, conceitos e perfis de programação que são absorvidos, o sentido de proporcionar ao
mercado televisivo e suas emissoras, uma forma de se adequar a um novo gosto do brasileiro nas
suas escolhas de produtos de entretenimento.

Conclusão: ARTE QUE LUTA PELA CULTURA DE PAZ

Podemos concluir, portanto, que em relação às influências contrárias, a arte é revel.


Historicamente, se se pode dizer assim, sua missão e militância sempre se deu em prol da cultura
de paz, pelo viés dos direitos humanos. Seja na sua cruzada por influir na formação dos cidadãos,
conscientizando-os de seu papel, desde os tenros anos da primeira infância até a persistência e
teimosia dos artistas que não se cansam de se rebelar e contradizer, a arte segue incansável em sua
missão. Dos seus produtos, sejam na música, no teatro, no cinema, nas artes plásticas ou visuais,

32
seja esse produto um livro de incontestável qualidade artístico-literário, se pode afirmar sempre
que, à luz da inteligência artística, o seu criador sempre estará valorizando o ser humano, sempre
buscando desenvolver os eu potencial estético e estará sempre investindo na capacidade cognitiva
de cada cidadão de se desenvolver, seja estética, política ou mesmo artisticamente.
De certa forma, se pode afirmar até que fazer arte é fazer política.
E se pode afirmar, com isso, que se ao fazer arte se faz política, ao se fazer política através da
arte, se contribui com papel decisivo para o engrandecimento de um ideal humano e de uma
sociedade mais sensível e mais guarnecida de valores decisivos para a construção de cidadãos mais
conscientes do seu papel social e mais aptos a contribuir com uma organização social que irá
valorizar os seus pares, individual e coletivamente.
Por isso, a sociedade que valoriza a arte e o artista, valoriza a si mesma. Deste modo, o fruir
as artes faz parte da Carta dos Direitos Humanos. E também por este motivo que uma sociedade
que engrandece os seus artistas, tece o seu presente no exercício de uma convivência que garante
a valorização da sensibilidade como matéria ativa da criação de uma visão humana de mundo mais
fraterna e mais justa.
Se o conceito de justiça é feito em cima da igualdade, a arte reivindica para si essa missão de
realizar feitos históricos quase sempre muito bem guardados, num “back up” nem sempre feito
com o uso de tecnologia digital.
O produto artístico deve ser acolhido e bem guardado, para manter-se garantido na memória
cultural das civilizações, tamanha é a importância de sua contribuição para a realização de uma
vivência e convivência humanas de maior qualidade e da manutenção da essência humana pela
construção também da paz e de compreensão e respeito aos direitos e deveres de cada cidadão que,
somados formam cada uma das organizações sociais, mundo a fora, porém, intrinsecamente a
dentro.

33
BIBLIOGRAFIA

DUARTE, Luiz Cláudio. Artigo: Os movimentos sociais urbanos nos anos 70 e 80: Um balanço
historiográfico. (Vértices, ano 3, nº 1, mar. 2000)

VON, Cristina. Cultura de Paz. Editora Petrópolis – Organização UNESCO.


PELEGRINI, Sandra C. A. Artigo: Teatro e Política: Uma Redescoberta do Prazer da História.
Universidade Estadual de Maringá/PR. 1996.

FARIA, Hamilton. GARCIA, Pedro. Arte e identidade cultural na construção de um mundo


solidário. 2ª edição. Revista e Ampliada. 2003.

Última Parada 174. Direção: Bruno Barreto.Roteiro: Bráulio Mantovani.Brasil: Moonshot


Pictures, 2008. 110 min, color.
BESSA, Bráulio. “Poesia com Rapadura”. Programa Encontro, de Fátima Bernardes – Rede Globo
de Televisão; 02/11/2018.

34
Cultura de paz na era digital

Flavia Costa da Silva

A era digital teve início no século XX, com invenções tais como: a rede de computadores
e outras tecnologias que acabaram se tornando parte das sociedades, mundialmente falando. Como
em qualquer âmbito, em meio aos avanços, os problemas dentro da rede são os mesmos do dia a
dia, porém adaptados, sejam crimes de racismo, propagação de ódio, xenofobia, entre outros.
Tendo em vista tudo o que estamos vivendo é importantíssimo o cultivo da cultura de paz dentro
e fora da rede de computadores, a partir da educação, justiça, valores éticos e morais para podermos
seguir um rumo quanto ao uso mais consciente e positivo da internet e afins.

“A rede de computadores está crescendo exponencialmente, criando


novas formas e canais de comunicação, moldando a vida das pessoas e ao mesmo
tempo sendo moldadas por ela (CASTELLS, 1999). “

O mundo globalizado é marcado pelo surgimento das novas tecnologias. A internet é


exemplo emblemático da contemporaneidade na sociedade, um mar ainda não desbravado e uma
arma muito poderosa. Boa parte do que achamos que conhecemos sobre a rede mundial de
computadores é apenas a ponta do iceberg. A habilidade ou inabilidade das sociedades dominarem
a tecnologia, traça seu destino a ponto de podermos dizer que, embora não determine a evolução
histórica e a transformação social, a tecnologia (ou a sua falta) integra a capacidade de
transformação das sociedades, bem como os usos que as sociedades, sempre em um processo
conflituoso, decidem dar ao seu potencial tecnológico (CASTELLS, 1999). Na era digital onde
ocorrem mudanças confusas e incontroladas, a internet, tornou-se instrumento para propagação do
ódio e violência. Dentro desse âmbito, buscam-se soluções para enfrentar esse tipo de problema
entre outros.
Em setembro de 2015, representantes dos 193 Estados-membros da ONU se reuniram em
Nova York, e adotaram o documento “Transformando o Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o
Desenvolvimento Sustentável”. Nele os países comprometeram-se a tomar medidas ousadas e
transformadoras para promover o desenvolvimento sustentável nos próximos 15 anos. A Agenda
2030 é um plano de ação para as pessoas, o planeta e a prosperidade, que busca fortalecer a paz
universal. O plano indica 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os ODS, e 169 metas,
para erradicar a pobreza e promover vida digna para todos, dentro dos limites do planeta. São
objetivos e metas claras, para que todos os países adotem de acordo com suas próprias prioridades
e atuem no espírito de uma parceria global que orienta as escolhas necessárias para melhorar a
vida das pessoas, agora e no futuro.
Em busca da propagação da cultura de paz e não violência no mundo cibernético, a partir
dos objetivos de desenvolvimento sustentável, o ODS 16 aborda os temas de paz, justiça e
instituições eficazes e tem como objetivo promover sociedades pacíficas e inclusivas para o
desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições
eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis. Buscando atingir os objetivos, a sociedade
deve se conscientizar e fazer o uso positivo da rede de computadores. Número de denúncias contra
crimes cibernéticos relacionados a violência contra a mulher, por exemplo, teve um aumento

35
significativo em 2018, mais de 1600%, segundo balanço anual da ONG SaferNet, que atua na
defesa dos direitos humanos na rede. A xenofobia, teve um grande aumento de denúncias também,
tendo sido registrado crescimento de 568%. Segundo dados do site SaferNet, a pornografia infantil
lidera o ranking, com mais de 60 mil denúncias. Outros crimes com aumento de denuncia foram
apologia e incitação a crimes contra a vida, racismo, LGBTfobia e neonazismo. Isso mostra que a
sociedade está começando a se manifestar, mas também mostra que há muito problemas a serem
enfrentados, a população está sofrendo com as barbáries dentro de suas próprias casas, através de
seus computadores e celulares, onde todos são vulneráveis num mundo ainda desconhecido.

Os primeiros passos do Brasil para um melhor uso da Internet

O Brasil é um dos países que mais acessa a rede de computadores no mundo, a população
precisa buscar soluções coerentes e eficazes para compreender e solucionar os problemas
cibernéticos. Atualmente muito se fala sobre violência através da internet como por exemplo
cyberbullying, porém pouco se sabe sobre os direitos, a quem recorrer ou o que fazer. Existem
plataformas como a organização sem fins lucrativos SaferNet, junto com outros parceiros trabalha
para promover a conscientização de como usar a internet de maneira livre e segura, sempre
resguardando os princípios da liberdade e dos Direitos Humanos. A ONG possui uma diversidade
de ações de mobilização, sensibilização e educação para promover um uso ético e cidadão da
Internet, especialmente entre as crianças e adolescentes. Também disponibiliza um serviço online
gratuito único e inédito no Brasil para orientar crianças, adolescentes, pais e educadores que
estejam enfrentando dificuldades e situações de violência em ambientes digitais.
Outro meio para tentar sanar a violência na rede é a Lei n.12.965, denominado Marco Civil da
Internet, criada em 23 de abril de 2014, com o intuito de estabelecer princípios, garantias, direitos
e deveres para o uso da Internet no Brasil, mas ainda não há o que comemorar. Segundo Eduardo
Tomas e Vinicius Filho, Professor e Doutor em Direito, essa lei apresenta poucas inovações e
muitas insuficiências e deficiências de cunho jurídico, ou seja, de nada adianta o Brasil ter um
Marco Civil da Internet, se outros países não têm legislação similar. Somando-se a esse fato a
impossibilidade jurídica de regulação de uma rede mundial de computadores por meio de lei de
um único país, os problemas gerados pela internet continuarão a afetar a privacidade, honra e
imagem das pessoas, ao mesmo tempo em que conquistas, como a da neutralidade da rede, terão
pouco impacto na vida das pessoas. Por isso a caminhada ainda é longa.

A Internet mundo afora

A UNESCO publicou um estudo sobre o acesso à informação, liberdade de expressão,


privacidade e ética na internet, debatendo ideias importantes sobre o conceito de universalidade
da internet. O estudo oferece uma compreensão dos elementos-chave da rede, os princípios são
resumidos na sigla D-A-A-M, que defendem que a internet deve ser baseada nos Direitos
Humanos, aberta, acessível a todos e que tenha participação orientada por múltiplas partes
interessadas. A pesquisa se baseia em uma série de estudos e relatórios da UNESCO sobre a
Internet e Sociedades do Conhecimento. Está fundamentada em um processo de consulta intensiva,
que incluiu uma série de reuniões da UNESCO com diversos especialistas da Internet e a análise

36
de 200 respostas de um questionário global sobre os temas centrais (acesso à informação, liberdade
de expressão, privacidade e ética na Internet) e transversais do estudo da Internet.
Os resultados do estudo reforçam a crescente conscientização de como a revolução digital
está influenciando todas as esferas da vida pública e privada. Cada vez mais informações pessoais
e públicas são coletadas, armazenadas, processadas e compartilhadas eletronicamente. Tudo isso
traz oportunidades para o desenvolvimento social-econômico e sustentável, especialmente em
torno das tecnologias de informação e comunicação para o desenvolvimento, assim como desafios
diversos em áreas como acesso, liberdade de expressão, privacidade e ética.
O estudo, foi publicado pela primeira vez em 2015. Esta iniciativa visa a desenvolver
indicadores para governos e outras partes interessadas para medir o desenvolvimento da Internet
em nível nacional e busca também promover padrões e valores baseados nos princípios DAAM.
O conceito D-A-A-M (do inglês R-O-A-M) é baseado em quatro princípios fundamentais
para o desenvolvimento da Internet.
D - a Internet é baseada em Direitos Humanos
A - a sua arquitetura é Aberta
A - deve ser Acessível a todos e
M - é alimentado e articulada pela participação de múltiplos atores
A UNESCO e a ONU, de forma mais geral, têm afirmado que o princípio dos direitos
humanos deve se aplicar a todos os aspectos da Internet. Da mesma maneira que esses dois direitos
devem referir-se à Internet, outros direitos também deveriam ser aplicados, muitos dos quais são
centrais ao mandato da UNESCO, tal como a diversidade cultural, a igualdade de gênero e a
educação. Do mesmo modo que os direitos humanos são indivisíveis, todos os direitos
mencionados acima precisam ser equilibrados com direitos tais como o direito à “vida, à liberdade
e à segurança pessoal”, e isso se aplica tanto à vida digital como à vida extra digital.
Em 2010,o YouTube abriu espaço exclusivo em seu site para que todos os interessados
postem vídeos sobre internet e paz. O canal possui diversos vídeos de ONGs que usam a Internet
como uma ferramenta para aumentar a conscientização sobre violações de direitos humanos e
limitações da liberdade de expressão. Uma dessas ONGs é a Peace One Day, cujo objetivo é
institucionalizar o Dia da Paz, tornando-o um dia auto sustentável, de unidade global e cooperação
intercultural. A Assembleia Geral das Nações Unidas declarou oficialmente o dia 21 de setembro,
como o Dia Internacional da Paz.

Conclusão

Em virtude dos fatos mencionados, é possível ver que a rede de computadores mudou a
vida das pessoas e junto com a tecnologia vem evoluindo a cada dia que passa. Dessa forma é
possível compreender que ainda estamos nos adaptando com o que vem acontecendo. É importante
buscar informações e se posicionar sobre os problemas causados online e off-line, mundialmente
falando e assim como em nosso dia-a-dia, não podemos esquecer dos valores éticos e morais, de
forma sustentável, através da educação, respeito e empatia.

Tendo em vista os aspectos observados, todos são responsáveis por denunciar conteúdos
impróprios encontrados na web. Devemos pensar bem antes de publicar algum conteúdo e pensar
em quem terá acesso ao conteúdo publicado. Em algumas redes sociais você pode escolher o que

37
quer tornar público e o que somente seus amigos podem ver. Se manter informado, não
compartilhar qualquer coisa, é importante checar a fonte das notícias que você acessa. Não
compactuar com a pirataria online, não baixar nem instalar programas piratas, de origem
desconhecida. É importante ensinar a utilizar a internet para agregar valor humano e social em sua
essência, e orientar crianças e jovens para uso consciente da internet nas escolas e dentro de casa.

BIBLIOGRAFIA

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. 7ª edição, São Paulo: Paz e Terra, 1999.

TOMASEVICIUS FILHO, Eduardo. Marco Civil da Internet: uma lei sem conteúdo normativo.
Estudos Avançados, v. 30, n. 86, p. 269-285, 2016. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142016000100269>. Acesso
em: 11 mai. 2019.
Denúncias de violência virtual contra a mulher crescem 1640% em 2018. Estadão Conteúdo.05
fev. 2019. Disponível em: <https://www.otempo.com.br/brasil/den%C3%BAncias-de-
viol%C3%AAncia-virtual-contra-a-mulher-crescem-1640-em-2018-1.2131817>Acesso em: 30
mar. 2019.
SaferNet. Disponível em: <https://new.safernet.org.br/> Acesso em: 30 mar. 2019.

BRASIL. Lei nº 12.965, de 23 abril de 2014. Estabelece princípio, garantias, direitos e deveres
para o uso da Internet no Brasil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-
2014/2014/lei/l12965.htm>Acesso em: 30 mar. 2019
UNESCO. Unesco publica estudo sobre acesso à informação, liberdade de expressão,
privacidade e ética na Internet. 25 jan. 2018. Disponível em:
<http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single
view/news/unesco_releases_spanish_and_portuguese_versions_of_internet/> Acesso em: 06 abr.
2019.

38
39
Hipocrisia no convívio social e meios virtuais
Aimê Martins

"Recuso-me a permanecer em um país onde a liberdade política, a tolerância


e a igualdade não são garantidas pela lei. Por liberdade política entendo a
liberdade de expressar publicamente ou por escrito a minha opinião política,
e, por tolerância, o respeito à toda convicção individual". Albert Einstein.

Utilizo este trecho para começar a pensar nas questões atuais de nossa sociedade: cada um
possui um ponto de vista e opinião única ou, como Einstein definiu, uma convicção individual.
Isso torna a todos diferentes, entre outros aspectos, uns dos outros. O problema está quando a
divergência de opiniões e "o diferente" não são respeitados gerando atritos tanto nas redes, na
internet, como em ambientes públicos, nas Câmaras e até no Senado, no caso brasileiro. A falta de
respeito, hipocrisia e intolerância reinam em todos os meios e de todas as formas.
É notável que todo julgamento é muito mais fácil de ser tomado quando não se está na pele
de quem é julgado. É fácil dizer ‘não ao aborto’ quando não foi você a pessoa estuprada e prestes
a ter um filho que não desejava; é fácil dizer não ao direito de vida ou morte quando não é você
quem está preso a uma cadeira de rodas sem poder mover qualquer músculo abaixo da clavícula;
é fácil decidir sobre a redução salarial quando não é você quem precisa todos os dias trazer um
pouco de comida para casa, pagar a escola para o futuro de seus filhos, pagar a saúde de sua família.
Tudo fica mais fácil quando você está fora do lugar de julgado e injustiçado, torna mais fácil dizer
que tudo é, na verdade, aquele famoso “mimimi”, termo muito utilizado atualmente para
denominar “frescura”.
Empatia é o que falta para que possa se estabelecer um elo de respeito e tolerância para
com as pessoas de modo geral. Essa falta de compreensão, somente é anulada quando o indivíduo
já vivenciou em algum momento de sua vida alguma situação parecida com a do “ser julgado”.
Esta não devia ser a condição necessária para a existência de empatia, o ditado “não faça com o
outro o que não gostaria que fizessem com você” parece não valer de nada. Na internet as pessoas
não se preocupam em pensar como foi para o outro, coisas ruins são ditas sobre pessoas que
passaram por traumas. A sociedade costuma condenar estas pessoas, já fragilizadas, pelos coisas
ruins que aconteceram a elas, como se já não bastasse o peso do fato ocorrido em si.

Máscaras

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Em uma sociedade que preza tanto a beleza, ou seja, a aparência, ficou clara a construção
de máscaras nas redes sociais. A preocupação é mais de parecer do que ser, criar um alguém
completamente distinto do seu “eu” real, alguém que seja aceito mais facilmente, que seja adorado.
Uma das explicações para essa escolha pode ser a dureza da realidade, traduzida na falta de
perspectivas que a vida real impõe a falta de confiança em si mesmo, falta de amor próprio, a
vontade de chamar atenção a qualquer custo, a dificuldade de ser aceito que parece muito alta.
Diante disso, criar e viver em uma realidade paralela parece a saída ideal para "confortar" e
"amenizar" as coisas. Porém este mundo paralelo transforma-se em uma obrigação cotidiana, e
isso afetará a vida real.

As máscaras transformam os que as usam em seres que tem seus desejos construtivos e
amorosos misturados frequentemente aos desejos invejosos e destrutivos. Isso gera uma óbvia
falha de caráter visto que essas pessoas têm como intenção a obtenção de vantagem, seja ela
financeira, emocional ou moral, que é o que a hipocrisia define. O que mantém estes atores é a
plateia que os aplaude, ambos entusiastas da farsa, mesmo ao afirmar serem praticantes da verdade.
O termo "hipocrisia" significa: falsidade, dissimulação dos verdadeiros sentimentos e
intenções, fingimento e carência de sinceridade. É a falha em agir de acordo com o que se pensa,
pela qual se tenta enganar outros em proveito próprio, por isso considerado um ato imoral.
A hipocrisia é a mãe de todos os vícios, a manipulação de verdades, dissimulação da
realidade, uma vez que é aderida, dificilmente será desvinculada de si. Quanto mais fazem uso,
mais habitual e cotidiano se torna e, assim, crescente na internet e na sociedade. Do ponto de vista
prático, o hipócrita também pode ser “sincero”, quando ele quiser e como achar apropriado.
Nicolau Maquiavel, em seu livro “O Príncipe”, descreve a base do pensamento hipócrita:
“Os homens em geral formam suas opiniões guiando-se mais pela vista do que pelo tato, pois a
todos é dado ver, mas a poucos é dado sentir. Cada qual vê o que parecemos ser, mas poucos
sentem o que realmente somos”. Para Raquel Baldo, ainda:

"É muito importante destacar que a linguagem virtual significa sempre


muito mais do que ela é como imagem vista ou palavra escrita no literal.
Logo, aquilo visto ou escrito nem sempre significa exatamente o que
parece ser, e mesmo assim, enquanto as farsas são expostas, muitos as têm
como verdades. Assistir e ler a vida do outro provoca em tantas outras
pessoas uma diversidade de sentimentos e sensações que remetem às suas
frustrações e desejos, dessa quantidade de informações e superficialidades
de relações com o outro surgem os desentendimentos, mentiras, ataques,

41
disseminação de ódio, irresponsabilidades, demonstração de
imaturidades, agressões, preconceitos diversos, desrespeito e
exibicionismos" (2019).

Agressão

A calúnia, a injúria ou difamação quando em uma reunião social, ou por mídias


tradicionais, são considerados crimes e geram o direito de indenização. A injúria é chamar alguém
de algo considerado ofensivo, calúnia é acusar alguém de um crime que não cometeu, difamação
é afirmar que o indivíduo cometeu ou comete um ato desonroso e imoral.
A calúnia é punida de seis meses a dois anos de detenção, de acordo com a legislação
brasileira. Na difamação e injúria, não se acusa crime, mas sim algo que atinge sua honra ou
convicção moral, e mesmo que o acusado seja verdadeiro, ainda são consideradas agressões
ofensivas que geram o direito de indenização e possível condenação penal. Outros crimes são:
quem faz perfis falsos e quem os divulga.
É importante saber como defender-se perante esses tipos de agressões frequentes na web.
Porém o método mais efetivo, que as diminuiria, seria a conscientização das pessoas. Se houvesse
um meio de conscientizar tanto os agredidos quanto os agressores, haveria muito mais paz nas
redes.

"Um elo que pode servir como intermediário nas relações humanas é necessário,
e este elo é a tolerância, “o respeito a toda convicção individual”, de forma que
se enriqueçam as relações sociais. Estabelecendo pontos de contato,
tangenciando pontos em comum nos vários conflitos, para poder dissipá-los num
empenho máximo pela paz. Isto não iria contra o empenho do ser humano
realizar uma sociedade de ideias isoladas, pois a soma de todas formaria o todo
completo. Para tal é preciso pensar sobre a necessidade não só sua, como do
outro, de estar entre pessoas através de relações pacíficas" (2008, p. 23)

O que é claramente visível nas redes sociais é a disseminação do ódio, ressentimento e um


profundo sentimento de vingança. Uma intolerância generalizada contra quem pensa diferente.
Parte da origem dessa batalha insana no espaço virtual brasileiro é a corrupção na política e a
insegurança gerada pela violência que assola o país. Há uma difusão do medo transformado em
agressividade que gera uma oposição de todos contra todos. A ilusão de que se houver diversidade

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no pensar, aquilo que consideram o “certo”, estará em risco e, portanto, preferem tentar aniquilar
esse tipo de pensamento. Mas não existe pensamento certo ou errado quando se fala em opinião
política, o que é certo para uns será errado para outros.

Cada um se julga o juiz “dono da verdade”. Esquecem que, além de ser um ato hipócrita,
esse comportamento é um atentado à própria liberdade de se manifestar. A cada dia mais pessoas
veem o outro como inimigo simplesmente por não pensar igual. Aquilo que deveria ser debate de
ideias transformou-se em batalha para ver quem ganha o troféu, inexistente, de “estar certo”. Existe
uma intenção clara de aniquilar os que pensam diferente. Seja com relação a escolha de um partido
político, a religião, opção sexual ou por um time de futebol é motivo para ataques
desproporcionais. Não há educação e nem respeito pelo outro. Logo também não há para si próprio.

Estão fazendo uso errado de uma ferramenta que poderia transformar o mundo em um lugar
melhor para se viver. Ao invés de usarem a liberdade de expressão para cada um manifestar sua
visão de mundo estão usando-a para tentar destruir e denegrir o outro. A violência não está mais
restrita apenas às ruas, nas mortes e agressões físicas, ela se espalhou cotidianamente e contaminou
o comportamento das pessoas nas redes sociais.

43
BIBLIOGRAFIA

BALDO, Raquel. Por que as pessoas são descontroladas e agressivas na internet? 12 de fev. 2019
Disponível em
https://www.minhavida.com.br/bem-estar/materias/34391-por-que-as-pessoas-sao-
descontroladas-e-agressivas-na-internet Acesso em 10 de maio de 2019

DEMOLINARI, Simone. Hipocrisia, a máscara social. 7 de dez. 2017. Disponível em


https://www.hojeemdia.com.br/opini%C3%A3o/colunas/simone-demolinari-
1.334203/hipocrisia-a-m%C3%A1scara-social-1.579700 Acesso em 5 de maio de 2019
COSTA, Gustavo B. do N. A arte de criar a si. ma concepção de hipocrisia, à luz do
pensamento de Nietzsche. 2009. 176 f. Dissertação (Mestrado Em Filosofia) Centro de
Humanidades da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2009. Disponível em
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JACQUES, Maria da Graça Correa et al. (Orgs.) Relações sociais e ética. Disponível em
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2017 Disponível em https://jornalggn.com.br/justica/os-crimes-praticados-nas-redes-sociais-e-
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NAVARRO, Conrado. Hipocrisia, o combustível das redes sociais (e do fracasso financeiro).


Disponível em
https://dinheirama.com/hipocrisia-combustivel-redes-sociais-fracasso-financeiro/ Acesso em 18
de maio de 2019

44
LIANO JR., Nelson. A intolerância crescente nas redes sociais é um reflexo da violência. 2 de
out. 2017. Disponível em
https://www.ac24horas.com/2017/10/02/a-intolerancia-crescente-nas-redes-sociais-e-um-reflexo-
da-violencia/ Acesso em 13 de maio de 2019.

A mente é maravilhosa. A doença da falta de empatia. 29 de jul. 2017. Disponível em


https://amenteemaravilhosa.com.br/doenca-falta-de-empatia/ Acesso em 14 de maio de 2019.

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Os muros e a cultura de paz
Rebeca Bispo

Cultura de Paz é uma prática que muitas das vezes não é entendida da sua maneira correta.
Cultura de Paz não está no raso, é uma prática profunda e extremamente sensível. Segundo a
Assembleia Geral da UNESCO/1999 Cultura de Paz é:

“Um conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos


e estilos de vida baseados no respeito à vida, ao fim da
violência, à prática da não-violência por meio da educação,
diálogo e cooperação. “

A ONU entendendo a sua complexidade e preocupada com a propagação da Cultura de Paz,


delegou à UNESCO a tarefa de disseminar essa cultura. Para isso, em 2000 até 2010, criou a década
da Cultura de Paz alicerçada em 6 pilares:
● Respeitar a vida
● Rejeitar a violência
● Ser generoso
● Ouvir para compreender
● Preservar o planeta
● Redescobrir a solidariedade
Embora estejamos já na 2ª década do século XXI, esses princípios são vitais para toda a vida.
Paz é um exercício. Paz não é individual, mas deve ser semeada no íntimo de cada indivíduo e
por esse motivo a importância de sua presença desde o início da nossa formação como seres
humanos. Para este papel primordial e de extrema importância, temos a presença da escola para
semear e cultivar esses princípios com atividades que ajudam em sua formação.

Projeto Político Pedagógico (PPP)

É um documento norteador que reflete a proposta educacional da escola. É através dele que
a comunidade escolar pode desenvolver um trabalho coletivo, cujas responsabilidades pessoais e
coletivas são assumidas para execução dos objetivos estabelecidos. O Estado tem a
responsabilidade de fornecer educação para toda a sua população, Ele não dando conta da maneira
pública e estadual, divide esse dever com a instituição privada. Toda escola é do Estado. Toda
escola é um Projeto Político Pedagógico. Seja pública ou particular, são uma extensão do Estado,
com diretrizes da diretoria de ensino.

A escola não é dela mesma.

Todas as instituições têm o espaço e autonomia de decidir seus próprios caminhos e a


maneira pela qual vai trilhá-los, porém, seguem uma orientação ditada pelo Estado. A maneira de
aplicar essa orientação cabe a cada instituição, particularmente. Para isso precisamos olhar para a
comunidade local e traçar um objetivo: Qual o tipo de indivíduo quero formar com a minha
instituição?

É necessário olhar ao redor e verificar a população que os cerca. Quando a escola está
muito implicada com a sociedade e o seu objetivo é formar alunos para a sociedade, é necessário
essa instituição fazer uma análise de onde ela está geograficamente, socialmente e politicamente.

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Como por exemplo: irei levar uma ideia de inovação, sistema HiTech, com toda a estrutura
necessária para o desenvolvimento tecnológico de uma comunidade ribeirinha no Amazonas. Não
faz sentido, não se encaixa na necessidade daquele povo, não houve estudo geográfico, social de
tal comunidade. Para agregar nessa situação e até inovar, seria cabível uma instituição com
princípios de agricultura familiar e táticas, para agregar no convívio e cultura daquele povo.

Quando a sociedade entende que a escola é um projeto político a procura por escolas que
se encaixam e realmente proliferam essa diretriz aumenta e muitas das vezes a internet pulveriza
a distância. A escola consegue então dialogar com a sociedade e tem abertura para essa
comunicação pois é compreendido que o efeito é positivo, e tal efeito consta em seu Projeto
Político (formar um cidadão e/ou formar um estudante para o vestibular, por exemplo).

Como objeto de pesquisa, abordei o colégio Certus, situado no extremo sul de São Paulo,
onde estudei e me formei para entender melhor seus princípios, conceitos e importância política e
ética na sociedade na qual vivi.
O projeto político do Colégio Certus, é criar indivíduos que sejam críticos e atuantes, em todas as
discussões. Em certos momentos havendo dificuldades de se encaixar com o sistema da Base
Nacional Comum Curricular (BNCC).

Conforme definido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº


9.394/1996), a Base deve nortear os currículos dos sistemas e redes de ensino das Unidades
Federativas, como também as propostas pedagógicas de todas as escolas públicas e privadas de
Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, em todo o Brasil.
A Base estabelece conhecimentos, competências e habilidades que se espera que todos os
estudantes desenvolvam ao longo da escolaridade básica. Orientada pelos princípios éticos,
políticos e estéticos traçados pelas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica. Soma-
se aos propósitos que direcionam a educação brasileira para a formação humana integral e para a
construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.

A responsabilidade da escola é transmissão da cultura e a formação do sujeito. É necessário


compreender que as questões são regionais, onde devemos valorizá-las. No caso do Colégio
Certus, por exemplo, teria muita relevância falarmos em suas apostilas de uma pessoa super
importante a Dona Belmira Marin, que atualmente dá o nome de uma das avenidas mais extensas
e influentes que faz parte da rota casa-escola de muitos de seus alunos.
Esse projeto de Educação faz mais sentido para os alunos pensarem como eles podem atuar naquela
região, pertencente ao seu cotidiano, ao invés de ter como apoio um material com conteúdo local
de outro estado, cidade, uma realidade distante e até mesmo inalcançável para alguns.

A nova proposta de educação traz consigo a necessidade do espaço para as escolas terem
seus projetos ampliados, e seu próprios projetos. Para conseguirmos unir a regionalidade da
instituição com o espaço coletivo e nacional de uma maneira efetiva, é necessário a transformação,
de fato, do projeto de educação. Está sendo feita uma nova análise do currículo para que haja essa
integração na formação do sujeito com compreensão na sua individualidade dentro do seu trajeto
único, com ligação na sua comunidade local que está ligada a sua cidade, com o Estado e a política
brasileira.

Conflitos e Mediações

Todo o indivíduo é um especialista na educação. Todo pai é o melhor e mais apto para
educar o seu filho. Os limites da especificidade da escola, enquanto transmissora de cultura se

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torna terminável, principalmente no ensino de formato particular. Há uma visão errada de grande
parte de pais “especialistas em educação”, pois a escola tem um peso e importância extremamente
relevante na formação daquela criança. Assuntos que são tabus, ensino financeiro, sexual, escolhas
religiosas, questões morais e familiares fazem parte também do papel da escola.

Temos a falsa segurança que a escola está segura dentro de seus muros. Vamos abrir os
olhos da sociedade. A escola é uma comunidade entremuros, dentro dos muros ela é uma
comunidade com diversas culturas, religiões, condições sociais e todas as questões que acontecem
de lado de fora desses muros, sim, irão se manifestar do lado de dentro.
A diferença é a forma de olhar para dentro desses muros. Parar de olhar como um espaço
seguro, mas, sim, como um lugar controlado. A diferença se dá quando acontece violência dentro
desses muros, podemos ter recursos para resolver e mudar o olhar daquele indivíduo referente a
situações problemas que surgem durante o cotidiano da vivência escola.
A vantagem de estar em uma escola é a consideração em ter pessoas em formação, é o momento
de se observar e corrigir de maneira eficaz e sábia esses atos. A escola é um espaço entre muros
de experimento, sejam eles bons ou ruins.
Experimentos de condições sociais que acontecem exatamente iguais do outro lado do
muro: brigas, traições, dificuldade de trabalho em equipe, racismo, homofobia.
Dentro dos muros, por se tratar de um espaço de experimento, o indivíduo não tem a
preocupação com prejuízos na mesma proporção em que acontece no mundo real.

A Cultura de Paz

A escola é grande responsável, talvez a maior, pela Cultura de Paz. Ela está na formação
do sujeito, é o princípio. Em seu PPP é primordial estar a Cultura de Paz. Se o Projeto Político é
orientado para o trabalho e a escola é o responsável pela Cultura de Paz e formação do sujeito e,
no limite, a escola é responsável por mudar o mundo, pois a educação muda o mundo, então a
escola é a grande responsável pela repercussão de Cultura de Paz. A instituição precisa analisar a
maneira de aplicar isso na prática considerando sua grandiosidade e diversidade. É necessário,
ainda, levar em consideração a periferia, sendo um lugar de intensa luta de classes.
O Colégio Certus se localiza exatamente nesse contexto social. Estamos falando de alunos
que compõem uma comunidade oprimida, sendo oprimidos como um reflexo desse círculo social.
Há alunos com um ótimo repertório e bagagem porém estatisticamente falando isso não é uma
realidade para a maioria desses estudantes.
Quando há um conhecimento de sua comunidade local, o papel da escola se transforma em
entender, aprimorar e melhor direcionar o aluno dentro desse contexto, mesmo sendo uma tarefa
árdua a se realizar.

Algumas instituições, como o Senac, são exemplos de um estudo e entendimento da


necessidade local através da imensidão de formações técnicas de qualidade, abrindo assim espaço
e oportunidade no mercado do trabalho. É notável um entendimento que estão lidando com uma
classe trabalhadora, e essa classe, apesar de poder ter acesso às questões acadêmicas lidam com
uma intensa restrição, sendo assim o Senac os entrega um instrumento de trabalho para ampliar
esse acesso.

É complicado levar a realidade para dentro dos muros, porém é extremamente necessário
ampliar os horizontes, trabalhar a realidade com os indivíduos em formação.

Projetos na prática

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Dentro desse contexto social e educacional o Colégio Certus traz consigo uma missão de
educar com excelência e permanente foco em inovação, valorização, ética, responsabilidade e
respeito ao indivíduo.
Colégio Certus se baseia dentro das competências gerais da Base Nacional Comum Curricular
(BNCC), sendo tais competências de ampla discussão da sociedade civil e alicerce de uma
educação altamente comprometida com os valores do Colégio Certus. Sendo elas:

1. Conhecimento
2. Pensamento científico, crítico e criativo
3. Repertório cultural
4. Comunicação
5. Comunicação digital
6. Projeto de vida
7. Argumentação
8. Autoconhecimento
9. Empatia e cooperação
10. Autonomia e responsabilidade

Todos esse valores têm o propósito de contribuir para a construção de uma sociedade mais
ética, democrática, responsável, inclusiva, sustentável e solidária que respeite e promova a
diversidade e os direitos humanos, sem preconceitos de qualquer natureza.

Um exemplo de projeto desenvolvido nessa Instituição é o projeto: RODA DE


CONVERSA (para todas as idades e turmas)
Está na grade horária de todas as turmas, desde o infantil até o ensino médio e há um incentivo
para o grupo de funcionários também.

A turma elege o professor que fará essa disciplina e semanalmente há um espaço para os
encontros onde são pautadas situações cotidianas na sala, nas redes sociais, nos vínculos sociais,
atualidades, enfim. A pauta semanal é decidida e discutida pelo coletivo.

Muitos conflitos do dia a dia estudantil que não conseguiam se resolver antes desse projeto
passaram a serem colocados na rodas, discutidos e as mudanças começaram a ter visibilidade.

O atentado na escola de Suzano foi um assunto discutido por toda a escola, por exemplo,
dando relevância para o debate e observando de diversos pontos de vista essa tragédia.

Educação infantil: O conhecimento do eu

A CAIXINHA DO NÃO GOSTEI

É disponibilizada uma caixa oculta com uma abertura para colocar críticas e coisas que “eu
não gostei que aconteceu” durante a vivência escolar. Está pautada no bem estar do indivíduo.
Essa fase de formação é uma fase de reconhecimento próprio e conhecimento da
comunidade em que habita. “Quem sou eu?” Deve ser a pergunta instigante para essa idade. Qual
a sua representação dentro de sua família, escola, quais as possibilidades que ele tem de fazer
coisas legais e boas, quais as coisas que devem ser evitadas, enfim reconhecimento do próprio eu.
O ensino da legislação também começa a ser aplicado de maneira sutil e em uma tentativa
de ser o mais democrático possível com os COMBINADOS DA SALA. O objetivo é a
representação das regras que regem a sociedade. Se está combinado e acordado por todos,

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estabelecido em uma relação ética, caso o acordo seja quebrado, você terá a sua punição (como
não brincar no parquinho, por exemplo).
Todos os projetos da educação infantil estão pautados no sujeito e os efeitos nas relações
sociais. Para tal prática, é necessário que a instituição, juntamente com os professores, entender,
de fato, a visão dessas crianças para valorizar os efeitos delas no mundo, e também os efeitos do
mundo na criança. Essa via de mão dupla é necessária estar equilibrada para não perder o foco
principal, contando também que estará lidando com questões culturais, religiosas, éticas e sociais
da família.

Fundamental I: Alfabetização

O processo social iniciado nessa idade é de extrema importância, a alfabetização. É a


entrada, de fato, no meio social. A criança começa a aprender a traduzir todos os signos existentes
a sua volta, saber o significado das coisas. Essa fase é de tamanha importância devido às relações
simbólicas na qual ela começa a compreender.
Paralelo a isso a criança tem uma necessidade de um desenvolvimento psicossocial. Como
este indivíduo está entrando na sociedade através da alfabetização, ele também entra na sociedade
pela via da participação social, através da leitura, ele tem condições de produzir e não apenas
reproduzir.
Essa criança já se conhece no mundo (ed. infantil), está sendo alfabetizada e é chegado o
momento de produzir efeitos desta bagagem adquirida.

AULAS DIFERENCIADAS

A professora de inglês do 1° ano (crianças com a faixa etária de 7 anos), fez um trabalho
muito interessante com seus alunos. O material didático da turma, trazia os gêneros de uma forma
muito marcada com atividades de menino e atividades de menina. Através de um incômodo e em
parceria com o colégio surgiu um novo projeto no qual os alunos iriam fazer uma análise de si para
chegar a conclusão das coisas que eles gostam como menino ou menina, depois entrevistarem os
colegas da turma para saber o que os meninos daquela sala fazem e o que as meninas daquela sala
fazem e finalmente fazer gráficos desses resultados e comparar com as outras salas. O resultado
foi impressionante e muito diverso.
Através desse projeto a professora pode trabalhar a questão do idioma, do feminino e
masculino a partir do saber próprio sobre si, fugindo de uma lógica binária. Houve um ensino de
reconhecimento de si e dos outros.
Nessa atividade conseguimos, por exemplo, entender a questão do estereótipo social.
Trazendo o processo de aprendizagem estereotipado, apresentado no livro didático e a
desconstrução com a realidade abordada pelos próprios alunos, sendo assim uma atividade também
inclusiva.
Processos como esse tem como objetivo introduzir a formação do indivíduo na sua crítica
e a atuação dentro da sociedade.

Fundamental II: Crítica

É o momento de atuar a sua crítica, resolver conflitos. Os alunos são instigados a pensar
nos conflitos, usando como base a grade de matéria como história, geografia. Ter solução e
conclusões em redações, saber se posicionar em trabalhos, em classe, em convívio.

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A preocupação, objetivo e maior desafio da instituição nessa fase, é formar o sujeito para
o mercado de trabalho e universidade.
Esse momento é visto como um marco para o futuro de muitos dos alunos. O fato de ser
uma instituição com uma comunidade local, em sua maioria sem verba para concluir uma
faculdade, pensar nestas questões é decisivo e também apoiado para os alunos buscarem uma
instituição técnica, pública com possibilidade de melhores condições de bolsas de estudo anos
depois.
A instituição apoia esse projeto de formação pelo fato de entender a lógica de mercado, e
o objetivo de aluno que pretendem formar. Estão tratando da vida de muitas pessoas, porém,
sempre visando sua individualidade.

Desconstrução do lugar de professor

Enquanto você estiver na escola uma relação de autoridade na qual o professor é o sujeito
que sabe e você um ser que aprende, você não consegue efetivar um projeto de participação social.
O aprender é um processo inato, e a todo momento estamos aprendendo algo novo e diferente. O
professor é o mediador do saber.
O mais interessante e relevante não é a quantidade de saber que o professor possui enquanto
mediador, mas, sim, quão comprometido com o processo do estudante ele se encontra. Entender o
saber que cada aluno possui, qual o objetivo dele juntamente com o seu conhecimento adquirido e
como atravessar o processo da educação, considerando toda a sociedade na qual estão inseridos,
é primordial para um professor saber trabalhar e compartilhar da melhor maneira o conhecimento.
O MEC determina todas as matérias e conteúdos que o aluno irá aprender em seu processo
de formação, mas, a maneira e velocidade em que isso ocorrerá conta muito com o
comprometimento e ajuda do professor (mediador) e do Projeto Político da escola.
A escola está em constante desenvolvimento.

Ensino Médio: Atuação Social

O indivíduo se reconheceu, reconheceu o mundo e o outro. Conseguiu construir em


parceria. Agora é hora de desenvolvimento de ideias, políticas, trabalhos.
Dentro dos muros da escola o aluno passa a ver se a sua atuação terá efeito no mundo, se seus
efeitos serão positivos e caso seja, se irá mudar a cultura dentro do projeto político da instituição.
O ensino médio tem mais liberdade para pensar e atuar.

A CAIXINHA DO ASSÉDIO
Este projeto foi proposto pelas alunas pertencentes ao Comitê Coletivo Feminista do do
colégio Certus, estudantes do ensino médio. Neste projeto foi colocada no banheiro feminino uma
caixinha de papelão com a inscrição de se depositar nela algum relato de assédio, se sentir
confortável, disponibilizando alguns telefones para ajuda profissional ou até mesmo um desabafo.
Esses bilhetes depositados poderiam ou não ser autorizados a serem expostos de maneira
anônima.
Uma vez por mês a caixinha é recolhida pelo Comitê, aberta e são lidos todos os relatos
de assédio em voz alta para os estudantes. Após isto, os assédios são digitados e espalhados pelos
corredores do ensino médio.

Com um movimento como esse é perceptível uma mudança cultural de violências, as quais
anteriormente eram violências individuais e se tornaram públicas.

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O ensino médio é a porta de boas vindas para a sociedade, o mundo lá fora. Até aqui
conseguimos ter os domínios e controle sobre certas situações que surgiram ao longo dos anos
dentro dos muros da escola porém, a partir desse momento, é hora do voo. Hora de voar e libertar
todo o cultivo que foi semeado desde a infância naquele indivíduo. Hora de explanar tudo que se
foi pensado e criado. É chegada a hora da prática consciente.

De portas abertas

Depois de anos de vivências, projetos, envolvimento, muito ensino e aprendizado chega a


hora de colocar tudo o que foi aprendido em prática. Todo o conteúdo estabelecido pelo MEC para
aquela idade foi ensinado, o Projeto Político foi aplicado e esteve presente durante a maior parte
da vida daquele sujeito. Os indivíduos precisam a partir dali enfrentar seus medos e ter o seu
contato com a sociedade.
Agora há uma pessoa apta para transpor os muros da escola com consciência de tudo que
foi aprendido.
Aquele sujeito sabe que sua ação tem consequências, porém, ele tem espaço para atuar na
sociedade em muitos aspectos. A partir daquele momento é cortado o cordão umbilical com o
colégio e ele se torna um cidadão perante a lei.
A Cultura de Paz estará enraizada através da crítica e atuação daquele sujeito na sociedade.
Aquele ser, sendo um transmissor da paz formado e educado pela escola.
A maior lição que podemos concluir é o entendimento da importância da escola por ser o
meio que nos faz ter o primeiro contato com a Cultura de Paz, o primeiro espaço de prática e treino
para uma sociedade.
Crítica, debate e diálogo formam a Cultura de Paz em todas as idades.

52
BIBLIOGRAFIA

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https://www.somostodosum.com.br/artigos/corpo-e-mente/cultura-de-paz-12173.html Acesso em
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https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/agricultura-familiar.htm Acesso em 4 de maio
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escolas. Disponível em https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000178538 Acesso em 30 d e
abril de 2019.

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https://www.infoescola.com/educacao/projeto-politico-pedagogico/ Acesso em 2 de maio de
2019.

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https://jus.com.br/artigos/66523/a-cultura-da-paz-nas-escolas Acesso em 28 de abril de 2019.
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http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ Acesso em 23 de abril de 2019.

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http://www.comitepaz.org.br/download/Cultura%20de%20Paz%20-%20Caderno.pdf Acesso em
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https://www.eusemfronteiras.com.br/projeto-cultura-da-paz-nas-escolas/ Acesso em 3 de maio
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PORVIR. Entenda as 10 competências gerais que orientam a Base Nacional Comum. Disponível
em http://porvir.org/entenda-10-competencias-gerais-orientam-base-nacional-comum-curricular/
Acesso em 10 de maio de 2019.

53
UNESCO. Cultura de paz no Brasil. Disponível em
http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/social-and-human-sciences/culture-of-peace/ Acesso em 4
de maio de 2019.

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Um poço de paz em um oceano de caos
Gabriela Ribeiro Silva

Podemos definir o caos como a confusão geral dos elementos da matéria, um estado de
completa desordem mental ou espacial. Vivemos atualmente uma sociedade corrompida por jogos
de interesse e de poder, um planeta irresponsavelmente consumido pelo capitalismo selvagem, e
humanos gradualmente mais doentes fisicamente e mentalmente.
E podemos definir a paz como um estado de calmaria, de harmonia, de concórdia e de
tranquilidade com falta de problemas ou de violência; relação tranquila entre pessoas. O que existe
em momentos fugazes e raros da realidade atual.
Nascemos como gotas em um oceano de caos, e nessa jornada a qual chamamos vida, a
correnteza do caos afoga desde os mais fracos aos mais fortes por diferentes razões, um grande
desafio é encontrar em meio a esse mar turbulento um poço de paz, e um desafio maior ainda é
inundar esse oceano caótico com a paz desse poço.

O caos

“Começou a perceber que o ser humano se adapta a tudo, inclusive ao caos.



Augusto Cury

Vive-se uma realidade caótica, com retração das possibilidades e limitações de recursos,
na qual os habitantes conformam-se ao padrão de pensamento e comportamento unidimensional,
desprovidos da dimensão crítica e das potencialidades para transcender seu estado presente. Eles
são classificados e designados a seus trajetos para receber as instruções que devem seguir para que
o funcionamento do caos se perpetue.
Encurralados pelas fronteiras do que enxergam são incapazes de imaginar outras
possibilidades. Ao restringir nossa vista a uma pequena gama de todo o espectro elas matizam a
percepção, levando-nos a confundir a realidade com a vista que temos a partir dela. A dependência
de um único ponto de vista não esclarece todo o panorama, um ponto de vista fixo, uma única linha
de raciocínio pode ser uma armadilha onde só encontramos o que procuramos e rejeitamos tudo
que se mostra contrário, gerando intolerância, o medo do desconhecido, a exclusão e por fim o
caos.
Nossas experiências e interações, a trama social na qual somos tecidos, moldam a nossa
identidade, potencial a se desenvolver, de modo que não sabemos quem somos até explorar as
possibilidades, mas muitas vezes elas são limitadas e determinadas pelas desigualdades, injustiças
ou abusos de poder. Ignorar nossas diferenças e as configurações de laços dos quais somos
compostos singularmente, conformar-se às expectativas e imposições de outros é caótico, pois
impede o ser de ser quem é e alcançar uma paz plena.

A paz

“A paz não é um estado primitivo paradisíaco, nem uma forma de


convivência regulada pelo acordo. A paz é algo que não conhecemos, que apenas
buscamos e imaginamos. A paz é um ideal. “
Hesse, Hermann

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A paz é utópica, e serve de placebo aos poucos que a alcançam. A definição de placebo o
caracteriza como uma preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em
substituição de um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações de natureza
psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico. Assim como a paz, que só pode ser
vivida em realidade de modo internalizado e pessoal.
Em um mundo onde o caos se faz tão presente na realidade, o caos exterior presente acaba
por contaminar o interior de cada ser, intoxicando-o e adoecendo-o, logo as relações se tornam
doentias e insatisfatórias de modo a saturar com sentimentos e pensamentos negativos os seres.
Romper padrões de raízes caóticas tão profundas exige uma ruptura na experiência que
ilumine as fronteiras e os meios de transcendê-las, e com isso vem o entendimento de que não
precisamos ser condicionados pelo caos exterior alheio. Ao considerar o mundo sob outra ótica,
outra lógica, outros meios de conhecimentos, comunicação e controle, mudar o ponto de
observação é exatamente o meio de descobrir novas formas de ver. A
Abrir espaços para possibilidades é essencial para ver o que não vemos, pois é preciso
olhar de outro ângulo, subverter nossos fundamentos e revelar que a perspectiva única e verdadeira
é falsa, tirar o privilégio do ponto de vista absoluto faz o mundo se abrir, pensar por outro lado,
em pontos de vista distintos, que se cruzam, se envolvem, interagem, combinam e informam-se,
percepções que se dão em órbitas mútuas acopladas, interagindo, e sobrepondo-se, facilitam a
emergência de novas perspectivas e o entrelaçar proposital de linhas de raciocínio diversas, os
pontos de vista continuam sendo distintos mas não mais isolados e sim vistos como integrais ao
todo um informando o outro de maneira interativa.
Expandir nossa compreensão exige divergência de pensamento e diversidade de
pensadores as formas individuais de ver que são singulares a cada um, ao invés de organizar essa
multiplicidade de pontos de vista a moda hierárquica, organiza-los a partir de uma estrutura
descentralizada que se ramifica para pontos que se conectam a todos os outros.

“A paz exterior começa com a paz interior.”

A partir do momento que se aceita, a aceitação do outro se torna natural, o respeito mútuo,
e convívio pacífico, de modos que a paz interior de cada um contribui para uma paz exterior a
todos, graças a compreensão das divergências e coexistências das diversidades. Uma cultura de
paz se tornará realidade quando o interior de cada ser exteriorizar paz para todos.

Poços de paz e oceanos de caos

“Se uma onda fraca avança, ela mal afeta as ondas mais fortes. Elas estão
profundamente arraigadas às correntes do próprio oceano, movidas pela fonte
mais grandiosa da qual se originaram. No entanto, se uma onda forte avança, ela
pode facilmente afetar as mais fracas.
Da mesma forma, uma pessoa ou ideologia com forte energia pode
facilmente afetar aqueles que não estão profundamente arraigados aos seus
próprios corações e mentes.”
Ann Albers

Uma mente pode crescer ou diminuir com o tempo, como uma tabula rasa nascemos vazios
e somos preenchidos ao longo do nosso tempo de vida, talvez com sabedoria, mas também talvez
com ignorância, podendo assim de gotas em gotas serem formados oceanos de caos ou poços de
paz dentro de cada um, mas como identificá-los?
Os poços de paz podem ser encontrados em pessoas que priorizam o respeito a si e ao outro
acima de tudo, a presença delas torna o convívio mais pacífico, pois nas relações com tais poços a
compreensão das divergências e coexistência das diversidades quando não é mútua é polarizada,

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de modo que mesmo que não haja reciprocidade do outro em suas interações, os poços de paz
sempre equilibram os relacionamentos, com uma postura que impede a propagação do caos, pois
no poço de paz, gotas de caos são filtradas e quando pacíficas são repassadas, mas quando não,
são descontinuadas ali mesmo.
Oceanos de caos são mais intensos, pois são formados por intolerância e agressividade, de
modo que na divergência do outro em relação às suas concepções de certo e errado, o mesmo
procura dominar o outro e enquadrá-lo em seus padrões, inundando e afogando os discordantes.
Oceanos de caos são donos da razão e limitadores, a si próprios e aos outros com os quais tem
contato, nos relacionamentos acabam por destratar o diferente e agredi-lo até conseguir inunda-lo
nos seus ideais, de modo que o outro precisa perder sua essência para aceitar a dele, e quando isso
não é possível simplesmente excluem uma vez que não lhes agrada.
Se analisarmos o funcionamento cerebral, podemos perceber que a transmissão sináptica
tem duas vantagens, a primeira é que o mesmo sinal pode ter significados diferentes, dependendo
da combinação de moléculas e receptores presentes na sinapse. Tal acontecimento que se manifesta
no cérebro de cada um, pode também ser encontrado nas interações em sociedade, uma vez que o
entendimento de uma mesma informação pode ter diferentes significados, dependendo de quem é
o receptor dessa mensagem. Logo assim como biologicamente existem diferentes leituras de uma
mesma informação, é natural que a diversidade se manifeste na sociedade, e que uma verdade
absoluta a todos é inviável, sem uma ordem única e objetiva o caos predomina. Mas o respeito às
diferentes leituras de cada indivíduo é o que permite a existência da paz, uma paz comum a todos.
A segunda vantagem é que um sinal emitido por um neurônio é transmitido a todos, mas
cada neurônio exige a ativação de muitas sinapses para gerar um novo sinal. Assim como uma
pequena mensagem de paz emitida por uma só pessoa, pode gerar um impacto gigantesco a partir
da transmissão da mesma para todos, que aumentam o alcance dessa mensagem que quando for
entendida por todos, tomará o lugar o caos. Essa é a importância de poços de paz nesse oceano de
caos.

Teoria do caos para uma teoria de paz

“E é somente no caos, que as coisas finalmente se ajeitam…”


Virgínia Mello

A essência da teoria do caos é que uma pequenina mudança no início de um evento


qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. Por isso,
tais eventos seriam praticamente imprevisíveis – caóticos, portanto.
Se no efeito borboleta, o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso
natural das coisas e, assim, talvez provocar um tufão do outro lado do mundo. Imagine o impacto
de pequenas mudanças de pensamento, como se ao invés da construção de um mundo vertical onde
uns se colocam acima de outros, fosse construído um mundo horizontal onde todos estão em pé de
igualdade.
O impacto de uma cultura de paz aplicada a um sociedade de caos, resolver os conflitos
sociais de forma pacífica é uma mudança radical nos paradigmas que dão sustentação ao atual
modelo civilizatório. A educação deve voltar-se para ensinar continuamente o respeito à vida. A
cultura da paz rejeita a violência física, sexual, étnica, psicológica, de classe, das palavras e das
ações.

"Mas nada disso se tornará possível sem diálogos. O mundo está carente
de escutas e diálogos. Mais ainda que dialogar necessitamos "intercultural", ou
seja, crescer através do diálogo com a diversidade, com a vivência, a visão de

57
mundo e a razão dos outros. O saber do futuro será multicultural, isto é, se
complementa no outro, e ampliará a condição humana. Estabelecer trocas entre
diferentes é uma chave para a formação: assim diminuímos nosso etnocentrismo
e podemos ter visões e soluções que nos acrescentem humanidade. Devemos
trabalhar para a formação de uma cultura planetária consciente dos desequilíbrios
do planeta e das soluções micro e macro ecológicas, locais e globais."
Nick Sousanis

BIBLIOGRAFIA

SOUSANIS, Nick. Desaplanar. Saõ Paulo: Veneta, 2017.

ALBERS, Ann. A PAZ NO CAOS, Mensagem dos anjos. EUA, 2018. Disponível em:
https://www.sementesdasestrelas.com.br/2017/04/os-anjos-paz-no-caos-29042017.html. Acesso
em 03 de maio de 2019.

HERMANN, Hesse. GUERRA E PAZ. São Paulo: Record, 1974.

CURRY, Augusto. Disponível em: https://www.pensador.com/frase/NTk0NDAw/. Acesso em 03


de maio de 2019.

58
Mulheres na Luta Pela Paz

Giovanna Galvão Panissi Ferreira

Dia após dia, mulheres no mundo inteiro buscam serem respeitadas, notadas, consideradas, levadas
a sério e buscam por fim, a paz, essa em sua totalidade, e em seus diversos significados. As
mulheres querem viver essa paz que nos foi tirada há séculos atrás e continuamos lutando em busca
dela com fé que algum dia viveremos em uma sociedade justa e pacífica.

Para o desenvolvimento deste artigo foram realizadas pesquisas com 7 homens e 30 mulheres
brasileiras, a partir de um formulário online, que se dispuseram a responder com sinceridade
algumas perguntas sobre o tema “Paz”, e com base nessas pesquisas que vou discorrer sobre o
tema. A partir dessas pesquisas realizadas podemos ver a diferença nas respostas de mulheres e
homens: o problema que atinge as mulheres tem uma dimensão muito maior do que o problema
que atinge os homens.

A pergunta “Qual a paz que você busca? ”Diz muito a respeito dessa diferença, homens
responderam coisas como, “paz interior”, “andar nas ruas”, “igualdade para todos, sem
julgamentos”, “poder andar nas ruas sendo quem eu sou”, entre outras. Notamos que existem
algumas respostas que correspondem com as mulheres, respostas essas que envolvem a segurança,
de andar pelas ruas com tranquilidade ou de ser quem você é, que existe em geral na sociedade
brasileira e que afetam homens e mulheres e não somente homens, porém, no caso das mulheres a
falta de segurança acontece em casa, no trabalho, em festas, nas ruas, em qualquer lugar, pois por
serem julgadas inferiores sofrem mais nesse aspectos, assim como enfatiza o delegado Ricardo
Rosário, da Delegacia de Repressão a Roubos e Furtos,

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“O motivo de as mulheres serem o alvo predileto dos assaltantes não se deve ao fato de
desatenção ou descuido, pois nesses quesitos os homens também se enquadram. ” Ou seja,
os assaltantes preferem mulheres por sua fragilidade e menores chances de resistência.
“Eles escolhem as mulheres porque acreditam que elas não tenham poder de reação, já
que eles possuem maior força física do que elas”.

Abaixo, outros dois depoimentos, de dois assaltantes que não estão identificados e o porquê eles
dão preferência para o assalto de mulheres:

“A mulher aparece como a vítima mais fácil de ser subjugada. Se ficar histérica e começar
a gritar, a gente encosta o revólver e ela fica quieta", contou P.R.S. 24, preso por quatro
assaltos à mão armada em São Paulo.

"Um revólver deixa todo mundo paralisado, principalmente as mulheres", relatou o


assaltante S.S.B

Assim podemos ver que os problemas que os homens sofrem as mulheres também sofrem e muito
mais a fundo por serem julgadas mulheres.

Não estou aqui para menosprezar os homens ou seus problemas, mas sim para enfatizar o terror
que as mulheres vivem todos os dias. Assim partimos para a análise das respostas das mulheres.
Fiz a mesma pergunta as mulheres “Qual é a paz que você busca? ”E essas foram as respostas,
“tranquilidade ao sair de casa”, “poder ir e vir”, “me sentir bem comigo mesma independente da
mídia”, “não ser tocada sem meu consentimento”, “andar nas ruas sem preocupações”, “ser
respeitada”, “poder fazer as mesmas escolhas e querer/poder agir da mesma forma que um homem
sem ser julgada por isso”, entre outras.
Vejam o que as mulheres querem: o direito de poder ir e vir, um direito que segundo a constituição
é para todos, porém, nos dias de hoje, na sociedade brasileira a mulher não tem o direito de ir e vir
tranquilamente sem sentir medo, sem ser assediada, julgada, etc. A mulher tem medo de andar
sozinha em espaços públicos, espaços que são para o seu uso, mas que não trazem segurança para
a mulher. Queremos sair a qualquer momento tranquilamente sem ter que esconder nossos
pertences de valor e sem ter que usar determinadas roupas com medo de sermos assediadas
verbalmente, física ou psicologicamente. Queremos essa segurança que não nos é dada.

A sociedade, os homens e as próprias mulheres tiram a paz da mulher brasileira e uma das respostas
destaca isso: “me sentir bem comigo mesma independente da mídia” ou seja, os padrões da mídia
tiram a paz da mulher, pois essa mídia cria padrões, é a que critica e a que forma opiniões de
muitos internautas que futuramente vão julgar e tirar a paz de mulheres, seja por estarem acima
do peso, ou abaixo, por terem cabelos cacheados ou lisos, por usarem roupas diferentes das que
são impostas pela mídia, por terem menos seios e nádegas ou terem demais, por praticarem um
esporte que “é para homens”, por ter pelos ou por não ter pêlos, ter estrias ou celulites, entre muitos
outros fatores que contribuem para essa falta de paz e por esse constante julgamento da sociedade
com relação às mulheres.

Ser respeitada é umas das coisas que a mulher está em busca e não deveria estar. Aa mulher como
qualquer outro ser vivo tem que ser respeitada. As mulheres são desrespeitadas simplesmente por
serem mulheres, por serem julgadas inferiores na sociedade, porém as pessoas esquecem o real
papel da mulher na sociedade:mulheres que foram e são ícones para a sociedade mundial, mulheres
que fizeram descobertas incríveis, que lutaram por seus direitos e conquistaram muito, como por

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exemplo Marie Curie, Nise da Silveira, Joana D’arc, MalalaYousafzai, KathrineSwitzer, Komaco
Kimura, Rosa Parks, Mary Winsor, Nísia Floresta Augusta, entre outras.

A mulher está buscando esse respeito em todas as áreas, como foi dito por uma entrevistada “quero
ser respeitada em todos os ambientes, como pessoa, mulher e cidadã”.
A mulher é mais do que muitos pensam: gera vida, dá a vida, a mulher sempre esteve em luta e
sempre estará, A MULHER É GUERREIRA.

A resposta que mais doeu ao ser lida foi “ não ser tocada sem meu consentimento”, ou seja, a
mulher não tem mais decisão sobre o seu próprio corpo. Um homem simplesmente por ser homem
se sente superior ao ponto de tocar uma mulher sem sua permissão, alegando que ela merece, ou
que ela pediu, ela me “atiçou” ou qualquer outra justificativa absurda. Isso é inaceitável, afinal
todos temos o direito de escolhas, mas infelizmente muitas vezes não são respeitadas e além disso
tentam fazer a mulher culpada, seja pela roupa, ou pela música, ou pelo lugar que ela está.
Entendam, uma mulher que é assediada ou estuprada jamais é a culpada, culpada é a pessoa que
forçou algo sem o consentimento da outra pessoa.

Igualdade, respeito e andar tranquilamente nas ruas, essa é a “paz” que muitos pensam que é
suficiente para a mulher, jamais descartarei essas três opções pois essas também são fundamentais,
porém a paz para a mulher é algo mais profundo. Todas as mulheres lutam por isso a séculos, e de
uns tempos para cá muitos homens entraram nessa luta com as mulheres em busca de igualdade
social, igualdade formal, igualdade de oportunidades e igualdade de gênero.

Respeito, mais do que necessário, é fundamental não só para as mulheres e sim para todos,
homossexuais, transexuais, travestis, heterossexuais, idosos e crianças. Não tiro homens desse
tópico, pois respeito é um déficit da sociedade brasileira, ninguém tem respeito por ninguém, todos
se creem melhores que os outros e isso é “motivo” para o desrespeito. O ser humano precisa
entender que todos somos iguais, que todos os trabalhos são dignos de respeito e que a diferença
entre um e outro, pode ser um órgão genital ou o saldo bancário, ou a raça, o que não faz ninguém
mais capacitado para receber respeito que o outro.
Andar tranquilamente nas ruas, como já foi dito, é um direito constitucional, o direito de ir e vir,
que está sendo tirado de todos pelo medo de uma sociedade perigosa, homens héteros, por medo
de serem assaltados, LGBTs por medo de serem espancados ou até mortos e mulheres por medo
de serem assediadas, abusadas, violentadas e até mortas.

Até agora comentou-se três pontos que homens consideram que é a paz que a mulher está em
busca, mas como disse “esse buraco é mais embaixo”. A paz que a mulher busca vai muito além
do que esses três tópicos, a mulher é um ser que vive no medo.
Fiz uma seleção das respostas das mulheres entrevistadas para tentar expor o quão além vai essa
busca pela paz,

“Poder se bastar, seja andando sozinha na rua ou ganhando o mesmo salário que os homens”

“Liberdade total, de ser quem quer ser, se vestir como quer, sem ser assediada ou julgada”

“A paz de não ser desacreditada por todos e se sentir autossuficiente”

“Ter seus direitos preservados e não ser discriminada por ser mulher”

“Quando os homens deixarem de existir, porque reeducados acho difícil de acontecer”

61
“Igualdade de gênero e de direitos, respeito e liberdade”

“A paz da equidade”

“De serem aceitas, serem reconhecida e de conseguirem seu espaço em diversos ambientes
(pessoais e profissionais) ”

“Paz para serem elas mesmas! Sem ter que se estereotipar ... nem para os homens, nem para as
outras mulheres”

“Liberdade, sossego, poder andar na rua sem ser diminuída e menosprezada, não ser julgada por
não ter uma “rola” e sim elogiada, não ser discriminada por ter cólica e ficar emotiva, andar
livremente sem medo de nunca mais voltar para casa igual”

“Ser menos subestimada”

“Com sua aparência. Os padrões afetivos e “de beleza” são muito cruéis e excludentes. Para as
meninas padrões é um lugar de pressão também. É importante saber que o feminismo que
queremos é multifacetado e nós lutamos pela heterogeneidade desse movimento. Temos que falar
de “manas” pretas, de “manas” periféricas e das “trans”, a busca delas por exemplo é até dentro
do movimento feminista tentando ser ouvida, acolhida. ”
“Ser respeitada, não ser julgada por sua roupa ou por estar em determinado lugar em
determinada hora, não se sentir um pedaço de carne na rua quando sai com uma roupa mais
curta. ”

“Poder de expressar livremente”

“Não ter medo de apanhar em casa”

“Para muitos não há paz, mas aquela que as mulheres buscam é uma paz que seja igual a de
qualquer outro, que não seja diferente por serem mulheres. ”

“Ser livre e não ter medo de homem”

Essas são algumas das respostas das mulheres, e com essas opiniões é claramente visível o que a
mulher tanto almeja e que já sabemos, mas, é preciso relembrar, a mulher quer ser uma pessoa
‘normal’, uma pessoa que possa fazer o que bem entender sem ser julgada aos quatro ventos, se
vestir como quiser, pois ninguém tem o direito de interferir em sua vestimenta Uma coisa é não
gostar, mas isso é simples, você não gosta não use, mas nunca impeça alguém de usar e muito
menos utilizar de sua vestimenta como desculpa, “olha como ela está vestida”, “está pedindo para
ser estuprada”, “olha essa roupa, é uma puta mesmo”.

Andar tranquilamente nas ruas seja de manhã ou de noite, sozinha ou acompanhada, sem ter o
medo de virar a esquina e não saber o que pode acontecer, questionar se você vai chegar
tranquilamente em casa ou simplesmente não chegar e se chegar não ter medo de apanhar do seu
próprio companheiro.

Não escutar no meio do trânsito “tinha que ser mulher”, ou no dia-a-dia “seu lugar é na cozinha/
tanque / em casa”, poder ter a chance de se expressar e não ter seu posicionamento simplesmente

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desvalorizado, poder praticar um esporte “de homem” sem ser chamada de mulher macho, poder
ir a um boteco e tomar uma cerveja de garrafa sem escutar “você não se valoriza

Uma entrevistada relatou que no seu ambiente de trabalho, ela, como mulher, é menosprezada pois
“é um meio machista” ramo de trabalho para homens, o campo de construção civil, ou seja, sua
opinião no meio de homens é desvalorizada, as pessoas não acreditam que ela pode ser boa ali,
mulheres nesse campo são minorias e são qualificadas como menos capacitadas para certas
funções, logo acabam recebendo menos que os homens, novamente, só porque são mulheres.

Esse é um exemplo entre muitos que tem que mudar na sociedade brasileira. A mulher é muito
mais do que muitos pensam, e precisa urgentemente ser respeitada e usufruir o que lhe pertence
por direito e que lhe é tirado por um machismo da sociedade brasileira e mundial que considera
mulheres “seres” inferiores aos homens.
As mulheres não buscam apenas a paz para si e sim para todos, buscam construir essa paz a partir
da promoção de uma educação não violenta e sem sexismo, as relações em diversos meios ser mais
horizontais, onde sejam vistas como competentes e tão boas quantos os homens e não inferior a
eles, como explica a Vera Vieira, diretora executiva da Associação Mulheres pela Paz, ao ser
perguntada se as mulheres querem paz apenas para as mulheres;
“Não. A busca pela paz, na qual as mulheres estão empenhadas, visa favorecer ambos os sexos.
Relações mais harmoniosas entre a mulher e o homem irá concretizar uma sociedade fortemente
democrática, em que todas e todos sairão ganhando. A “guerra entre os sexos” clama por paz há
milênios. Ela tem a ver com o sistema que coloca a mulher em posição de subordinação ao homem,
provocando tristes consequências para a sociedade. Mulheres foram degoladas, sutiãs foram
queimados em praça pública para que o tema das relações sociais de gênero ganhasse importância
e fosse pautado no mundo. A busca da igualdade e equidade (entendida como a igualdade,
respeitando-se as diferenças) entre mulheres e homens nada mais é do que a busca da paz para a
humanidade."
Deste modo, finalizo esse artigo mostrando que a paz que as mulheres buscam vai muito além do
significado literal da palavra, envolve diversos setores da vida que juntos “formam” a verdadeira
paz que tanto buscamos.

Referências:
BIANCARELLI, Aureliano. Assaltantes contam como escolhem a presa. Folha de S. Paulo,
São Paulo, 14 dez. 1997. Cotidiano. Disponível em
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff141206.htm Acesso em 14 mai. 2019.

63
SPERANDIO, Luan. Os três tipos de igualdade e suas relações com a liberdade. Disponível
em https://www.institutoliberal.org.br/blog/economia/os-tres-tipos-de-igualdade-e-suas-
relacoes-com-a-liberdade/ Acesso em 28 mai. 2019.

ASSOCIAÇÃO MULHERES PELA PAZ. De que paz falamos. Disponível em


http://www.mulherespaz.org.br/de-que-paz-falamos/ Acesso em 2 mai. 2019.
_____________________________. Associação mulheres pela paz é parceira da Uber na
luta contra a violência de gênero. Disponível em http://www.mulherespaz.org.br/associacao-
mulheres-pela-paz-e-parceira-da-uber-na-luta-contra-a-violencia-de-genero/ Acesso em 4
mai. 2019.
ONU MULHERES BRASIL. Paz e segurança. Disponível em
http://www.onumulheres.org.br/areas-tematicas/paz-e-seguranca/ Acesso em 5 mai. 2019.
________________________________ .Sobre a ONU mulheres. Disponível em
http://www.onumulheres.org.br/onu-mulheres/sobre-a-onu-mulheres/ Acesso em 13 mai.
2019.
_________________________________. Documentos de referência. Disponível em
http://www.onumulheres.org.br/onu-mulheres/sobre-a-onu-mulheres/ Acesso em 13 mai.
2019.
FUNDAÇÃO PRO PAZ. Pro Paz Mulher é exemplo de combate à violência doméstica.
Disponível em http://www.propaz.pa.gov.br/pt-br/noticia/pro-paz-mulher-%C3%A9-
exemplo-de-combate-%C3%A0-viol%C3%AAncia-dom%C3%A9stica Acesso em 30 abr.
2019.

ARQUIDIOCESE DE MARINGÁ. A paz e a mulher. Disponível em


http://arquidiocesedemaringa.org.br/palavradobispo/195/a-paz-e-mulher Acesso em 10 mai.
2019.
REVISTA GALILEU. 10 grandes mulheres da ciência. Disponível em
https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2017/03/10-grandes-mulheres-da-
ciencia.html Acesso em 12 mai. 2019.
MEGA CURIOSO. 21 mulheres incríveis que mudaram o mundo para melhor. Disponível
em https://www.megacurioso.com.br/historia-e-geografia/75585-21-mulheres-incriveis-que-
mudaram-o-mundo-para-melhor.htm Acesso em 13 mai. 2019.

Comunicação Não-Violenta (CNV)

Felipe Queiroz Burian


Resumo:

Esse artigo tem como objetivo abrir uma visão sobre a comunicação não-violenta orientada para
um meio específico de comunicação e troca de informações.
A CNV foi criada com o propósito de facilitar os diferentes tipos de diálogos que podemos
ter ao longo de nossa vida, pois é justamente pelas nossas bases culturais predominantes que

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nos comunicamos e expressamos de diferentes formas, com nós mesmos e com os outros, nos
levam a entrar em confronto com colegas, familiares e pessoas com opiniões ou culturas
diferentes, e assim iniciar ciclos de emoções dolorosos e tóxicos.
A visão ainda de que o mundo está expandindo cada vez mais, trazendo uma sociedade
mais conectada uma com a outra, nos traz uma característica de vastos textos serem expostos
na internet (maior veículo de informação real-time da atualidade) sem o menor filtro ou pudor ao
público que é atingido. A CNV neste caso mudaria todo o conceito que temos de nos comunicar
sem perdermos nossos valores e sem degradarmos o valor do próximo.

1. A comunicação violenta

Podemos dizer que a comunicação violenta é: “Ato de crueldade, de perversidade, de


tirania: regime de violência. ” (2018), faz parte da nossa vivência. Todo o indivíduo em algum
momento de sua vida já foi atingido por uma comunicação agressiva e isso é reflexo de uma
ação e reação que está separada de nossos verdadeiros valores como seres humanos.
Há diversos meios onde podemos ser expostos à comunicação violenta: nosso ambiente
de trabalho, na internet e até mesmo em nosso meio familiar, pois, como estamos expostos a
uma quantidade enorme de informação vinda da sociedade e da mídia, existe uma interação
entre esses meios e pelas bases culturais que divergem de pessoa para pessoa, cada qual com
sua característica de formação, podemos ter várias discussões sobre vários temas e muitos deles
sendo agressivos e tóxicos à integridade moral dos interlocutores de um diálogo.
É importante termos a nossa visão de mundo e quando um indivíduo não tem a mesma
visão que nós sobre determinada pauta, terminamos por ignorar ou julgá-la por não ser a mesma
que temos para um assunto.
Na internet esse tipo de violência moral é mais nítido. Na atualidade com todos mais
conectados e bem informados, somos capazes de gerar nossa opinião, com base em nossa
cultura e vivência sobre qualquer tipo de assunto, julgando o próximo por não pensar igual a
maioria ou igual a nós, isso é exibido de forma bastante clara em comentários de portais de
notícias, comentários nas redes sociais e textos de diversos veículos de informação.
2. A comunicação não-violenta orientada para a Internet

O tema em si da comunicação não-violenta já levanta muitas conversas por todo o globo,


por justamente ser uma forma de se abordar a comunicação principalmente em seu maior meio
na atualidade: a internet.

“A conversação [...] é um evento onde os atores, através das interações verbais


negociam sentido, constroem relações sociais e dividem informações e valores
sociais. É através da conversação, assim, que conseguimos conhecer melhor o
Outro, estabelecer relações e construir os laços sociais que vão estruturar os
grupos sociais e a sociedade como um todo.” (RECUERO 2012, p. 2)

Um dos principais destaques de nossos meios de comunicação é a facilidade de


expressar de qualquer forma e maneira no meio virtual, desde positiva a negativamente. As
possibilidades são infinitas e os tipos de comunicação aumentam cada vez mais, seja por vídeo,
escrita ou até um texto, estamos mais conectados do que nunca dentre todas as gerações.
Justamente por esse fato é necessário repensar a forma de comunicação, pois não
sabemos quem é nosso interlocutor, não sabemos quem é o tipo de pessoa que nos passa a

65
informação: ela é consumida em grande escala, podendo ser grande parte positivas para um
debate racional ou negativas e agressivas entre crenças e religião de outro indivíduo.
Buscamos entender porque o indivíduo usa a internet como escudo para sua liberdade
de expressão e opiniões e ao mesmo tempo utiliza o poder do anonimato ou até a distância entre
os interlocutores para agir de forma agressiva e tóxica a todos os indivíduos que podem, ou não,
participar desse diálogo na internet.

“O anonimato é uma de suas características principais, juntamente com a quebra


das barreiras geográficas. A possibilidade de se relacionar com outras pessoas
sem encontro físico (traço esquizóide) e de criar um apelido (traço de caráter
núcleo psicótico) permitem que a pessoa se transforme, mentalmente, numa nova
pessoa on-line.” (GRAEML, K. S.; VOLPI, J. H. e GRAEML, A. R., 2004, p. 4)

Essa diferença primordial entre indivíduos e suas liberdades de expressão e pensamentos,


geram diálogos agressivos, violentos e rasos sobre a cultura e crenças de outros indivíduos, por
não aceitar totalmente as diferenças e não chegar a um comum acordo entre determinados
assuntos.
Explorando melhor esses meios, mais precisamente a internet, podemos ver um impacto
muito grande que ela teve atualmente, trazendo consigo uma explosão de informação de
diferentes tipos. Um deles é as redes sociais, importante caminho para expressar opiniões e
ideias a respeito de um determinado tema.
Desde que as redes sociais foram criadas temos acesso quase instantâneo a respeito do
que amigos e conhecidos estão fazendo, o que pensam, quais suas recomendações, que vídeos
assistiram e quais imagens ‘curtiram’. Isso principalmente exposto em comentários e opiniões,
com base na liberdade de expressão e ideias, podemos ver um aumento no número de debates
sobre temas variados, dentre eles tabus de religiões, sociedades e política.
Isso provoca muitas discussões entre todos ao seu redor, podendo ser um diálogo
positivo, - agregando conhecimento e chegando a um denominador comum - ou negativo, -
gerando discussões sem fundamento ou até agredindo a integridade moral de um dos
interlocutores.

3. Comunicação não-violenta

Uma das formas que seria eficazé o fato de comunicação não-violenta priorizar a discussão
saudável e direta, em que são expostos os sentimentos das pessoas de um diálogo: da que
agride, e a daquela que foi agredida.
Um enfoque na comunicação que priorize a cooperação entre os interlocutores pode ser
benéfico justamente para mediar as partes. A CNV possibilita mudanças essenciais no modo de
organizar as relações humanas e na questão da responsabilidade e clareza das ideias,
diminuindo a ocasião de agressões ou diálogos tóxicos.
“No coração da Comunicação Não-Violenta está a dinâmica que dá fundamento à
cooperação – nós seres humanos agimos para atender necessidades, princípios e valores
básicos e universais ” (ROSENBERG. 2006

Cientes disso, temos a capacidade de agirmos como seres racionais e entendermos o lado do
Outro, para que assim nasça um novo tipo de convivência. As diferenças serão aceitas mas
dentro das suas próprias liberdades em um bem comum a todos, sem que infrinja a liberdade e
os sentimentos do ser em sociedade.

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“Uma comunicação clara e empática proporciona conexão genuína entre as pessoas,
abrindo espaço para o diálogo e a negociação sobre caminhos mais sustentáveis de se
relacionar.” (Nunes,2019)

Conclusão

A CNV age como uma oportunidade de mudança para aqueles que desejam aplicar e
desenvolver ferramentas e projetos para revelar uma consciência de compaixão. Como pode
aplicar ela para mediar conflitos e principalmente: para demonstrar seussentimentos e emoções
dentre dentro de um diálogo para que haja comum acordo entre as partes que podem ser
afetadas pela comunicação tóxica.
Dessa forma, podemos analisar que ainda estamos evoluindo nesse processo e quanto
maior a disseminação deste tipo de material e informação sobre a comunicação não-violenta,
maior serão os impactos para as gerações futuras e seu tipo de comunicação numa sociedade
totalmente conectada, onde o anonimato, apesar de garantido, terá que vir com responsabilidade
e pudor em cima da liberdade de expressão e ideias nesse meio tão vasto que é a internet.

Referências

RICUERO, Raquel. Atos de ameaça à face e à conversação em redes sociais na internet.


Porto Alegre, p. 1-15, 2013. E-book)
GRAEML, K. S.; VOLPI, J. H. e GRAEML, A. R. O impacto do uso (excessivo) da Internet no
comportamento social das pessoas. Revista Psicologia Corporal (José Henrique Volpi e
Sandra Mara Volpi, Orgs.). Vol. 5, 2004.
ROSENBERG, Marshall. Sobre a Comunicação Não-Violenta. In: ROSENBERG,
MARSHALL. Sobre a Comunicação Não-Violenta. [S. l.: s. n.], 2006. E-book.
NUNES, Andrea Pereira. Você sabe o que é comunicação não violenta. Blog SENAC-SP.
Disponível em https://www.blogsenacsp.com.br/comunicacao-nao-violenta/ Acesso 8 jun. 2019
[Violência]. In: DICIO, Dicionário Online de Português. Porto: 7Graus, 2018. Disponível em:
https://www.dicio.com.br/violencia/. Acesso: junho, 2019.

67
Autocuidado e resistência como estratégia política; a importância da consciência e
diversidade na discussão sobre bem estar social

Débora Teixeira

(coração de fogo capturado devido a modalidade de fotografia lightpainting utilizando um isqueiro)

Introdução

Detectamos há alguns anos já, especificamente no Brasil, a resposta ofensiva mais direta das
frentes sociais conservadoras e dos governos de direita aos avanços que fizemos nas últimas
décadas na jornada por uma sociedade mais igualitária, consciente e que respeita e valoriza a

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diversidade. E, em decorrência disso, cada vez mais coletivos de movimentos sociais surgem para
fortalecer indivíduos e grupos para que não falte motivação para seguir lutando e acolher aqueles
que precisam focar no autocuidado e auto preservação como tática de protesto, promovendo
cultura de paz como estratégia de sobrevivência e resistência à repressão. E é claro que muitos, se
não a maioria, desses grupos são focados em mulheres, muitas vezes mais às margens, pois
configuram a base de quase todas as lutas e são ensinadas desde sempre a carregar o peso das
mesmas enquanto cuidam de todos, esperando-se delas a ideia neoliberalista falsamente feminista
da mulher-maravilha, que além de tudo são cobradas de estarem ativas e totalmente ligadas em
todos os processos dos movimentos que participam direta ou indiretamente.

É inegável a variedade de assuntos, segmentos e epistemologias existentes a serem discutidas


quando falamos de feminismo e movimento negro, por exemplo, e mesmo que todos estejam
buscando reparação histórica e direitos básicos para viver em sociedade, as discussões, meios e
fins são diferentes, ainda dentro dos nichos mais específicos de cada movimento, então a esquerda
enfrenta hoje conflitos internos que podem ser vistos como enfraquecimento da mesma no caminho
para atingir objetivos mais concretos.
E ainda há quem não se considere de nenhum lado político e não enxergue movimentos sociais
como sérios e imprescindíveis instrumentos contra o fascismo crescente em escala global, e ainda
declara "neutralidade", dizendo-se a favor da paz e direitos "à todos". Mas quando não se enxerga
a peculiaridade e impossibilidade de certos grupos de pertencerem a esse “todos”, nega-se também,
suas dores e direitos. Mas ao causar apagamento de diferentes narrativas peculiares e tão
importantes em sua singularidade, partindo de um ponto de vista raso e razoavelmente
privilegiado, para quem, de fato, é essa declaração de paz e igualdade? A conclusão que podemos
ter a respeito é que muitos que levantam bandeira clamando por paz estão tentando, na verdade,
fazer com que os problemas sociais emergindo no momento atual, voltem para o anonimato da
escuridão, afligindo os outros e não os “seus”, restabelecendo a “normalidade” de uma sociedade
extremamente preconceituosa, desigual, doente e ignorante, em que nada chega a quem não tem o
quê temer, reforçando sua ideia de que a sociedade dos que reclamam e protestam é a que tem
defeitos, não a sua.

Este artigo possui como referência e influência o texto O autocuidado como estratégia política de
Ana María Hernández Cárdenas e Nallely Guadalupe Tello Méndez, publicado em Março de 2017
pela SUR - Conectadas, e contém citações e trechos do mesmo. As autoras, ambas mexicanas,
fizeram reflexões sobre a experiência da Iniciativa Mesoamericana de Defensoras de Direitos
Humanos (IM-Defensoras) e do Consórcio para o Diálogo Parlamentar e a Equidade Oaxaca –
como parte do Grupo Impulsor da IM-Defensoras – no trabalho sobre autocuidado que temos
realizado desde 2010. E, também a experiência na Casa La Serena, um espaço de repouso e cura
para defensoras dos direitos humanos.

Iniciativa Mesoamericana de Defensoras de Direitos Humanos (IM-Defensoras) foi criada em


2010 com o objetivo de gerar alternativas de proteção, autocuidado e segurança às mulheres que
enfrentam em Honduras, na Guatemala, em El Salvador, no México e na Nicarágua o aumento do
feminicídio, a diversificação das formas de violência na sociedade, o avanço das transnacionais na

69
desapropriação de terras e de territórios, a precarização dos empregos ou o desemprego, a
impunidade e a falta de justiça, bem como o autoritarismo que impera nos governos.

A IM-Defensoras conseguiu visualizar que essas violações dos direitos humanos seriam mais
agudas nos próximos anos e, com isso, os níveis de demanda para as defensoras que já atendiam a
uma multiplicidade de necessidades que, em muitos casos, excediam as energias das integrantes,
gerando percepções e sentimentos de coragem, impotência, raiva, preocupação, medo, terror,
desespero e solidão. Além do desconforto físico derivado dessas emoções e de própria negligência
para atender aos pedidos de ajuda às demais pessoas.

Este artigo também irá focar, em alguns momentos, mais especificamente em mulheres e na
comunidade LGBTQ+, então algumas pautas aqui levantadas estarão referindo-se a violências e
enfrentamentos diários desses grupos, enquanto cita e destaca soluções e estratégias para os
mesmos.

Após reconhecer o fim da democracia, reconhecemos o quão deterioradas estão as estruturas de


base dos diálogos, e podemos perceber que discutir política não é algo dos tempos modernos, pois,
na atual conjuntura do mundo, tais discussões remetem a instintos básicos de sobrevivência e a
noção de que sua existência como indivíduo mas também como coletivo está ameaçada, levando-
nos de volta para tempos antes dos tempos quando só era possível resolvermos a ameaça partindo
para briga. E há vários tipos de briga em questão.

Como indivíduos, não temos a capacidade de resolver algo que foi criado pela coletividade e o
sistema em que estamos inseridos preza e se fortalece pela nossa autodestruição e rivalidade, então
a criação e proliferação de coletivos é essencial, não só para o fortalecimento de lutas, força e
ideais, mas principalmente para acolhimento e momentos de auto regulação, ou seja, regular a
relação corpo-espaço e mente-luta. Autocuidado é olhar para o corpo com respeito, pausar, durante
a rotina, e pensar na saúde, mas também a saúde da mente. Pensando em política olhamos muito
para fora buscando os problemas a serem resolvidos, mas agora o movimento é olhar para dentro:
cuidar de nossas comunidades, nossos grupos, nossa família, nossos corpos e nosso interior.

Fazer o recorte de classe e raça é necessário principalmente em momentos de pausa e auto


regulação, para termos a capacidade de identificar e estudar quais indivíduos em nossa resistência
pagam com quem são, para mulheres negras, no caso, analisarem a si mesmas e recuarem da
imposição de que devem cuidar de todos por terem sido colocadas na base da sociedade. É olhar
para cada um e para si mesmo e ver quem e o que está sendo sobrecarregado e como é possível
redirecionar essas forças e questões, tendo em mente que nenhum movimento será efetivado
enquanto não houver igualdade dentro do mesmo, enquanto não desconstruirmos de verdade
noções coloniais sobre corpos e funções, e reconhecermos o peso da problemática social com

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materialidade e clareza, enquanto cada um sabe reconhecer o seu. E fazendo esse exercício de
observar dentro de si, podemos compreender melhor o externo, essa mudança na tática contra a
opressão é o que vai gerar mais resultados nas lutas diretas que virão, como retomada do espaço
civil. “Trabalhar sob a perspectiva do autocuidado não só permite a sustentabilidade dos
movimentos sociais, mas também constitui uma postura ético-política que envolve a análise das
práticas de trabalho e das relações estabelecidas em nível pessoal e coletivo.” 1

Olhar para dentro de si implica, principalmente, reconhecer suas necessidades, limites e


privilégios. Não agrega em absolutamente nada para uma discussão neste momento que chegamos
pessoas que nunca sofreram discriminação de maneira estrutural, por exemplo, relatarem suas
experiências com esse “novo” momento social em que estamos vivendo, o quanto se sentem
ameaçadas e inseguras pois "até" elas estão na linha de fogo agora. Só demonstra que atingimos
um estágio que pessoas comodamente ignorantes quanto a questões sociais estão se vendo
obrigadas a tomarem consciência de alguma coisa, pois as coisas estão tomando rumos realmente
extremos, mas, ainda assim, atrás (ou, historicamente abaixo) dessas pessoas geralmente brancas,
de classe média, heterossexuais e com pouquíssimo aprofundamento sociocultural, há uma
população inteira para quem esse tipo de situação não é tampouco novidade, mas rotina.
Só que não é certo equivocar-se ao achar que porque suas palavras ou vivências parecem tão
obsoletas, que a inquietação desses novos integrantes de movimentos pela cultura de paz, contra
discriminações e em prol de lutas sociais não seja válida ou bem vinda, é, no caso, sempre
necessária, em termos práticos mas também simbólicos ao se pensar no despertar em escala
coletiva; apenas é necessário pautar que não é sempre possível legitimar certos tipos de pessoas
discutindo bem estar social, dependendo de suas abordagens, pois a ideia central contida ali é a de
que por estarem na superfície de inúmeros problemas que boa parte da população enfrenta, a
solução pensada em termos de cultura de paz também deve atender e atuar apenas nessa superfície
para não incomodá-las (novamente), pois na ótica pela qual muitos desses percebem a sociedade,
somente e imediatamente agora a violência e discriminação existem, pois agora os "seus" também
estão sendo afetados, acabou a garantia dos garantidos.

Apesar de todo pânico e projeções que podemos gerar, é importante sentirmos medo da incerteza
das coisas que virão numa sociedade que não tem medo de matar. Mas é importante, também,
cultivarmos mais medos reais. E com isso, pode-se entender melhor o papel do autocuidado: a
presença que temos de manter em nossos corpos e comunidades, pois as ameaças governamentais
tomam várias formas sendo por vezes alegóricas, simbólicas, fragmentadas, implícitas ou
escancaradas, mas enquanto não são concretas, não podemos focar apenas nelas, mas sim nas
implicações reais que as muitas caras da desigualdade causam, na realidade violenta e
miserável de muitos e o que podemos fazer a respeito do que bate de frente conosco fisicamente,
figurativa e literalmente.

1Frase extraída do artigo O autocuidado como estratégia política - Sustentabilidade e bem-estar para
defensoras dos direitos humanos, de Ana María Hernández Cárdenas e Nallely Guadalupe Tello Méndez.

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A necessidade iminente do autocuidado muitas vezes se torna visível em momentos mais graves
de crise, pois nossa cultura e sociedade é baseada na ideia de que temos que aguentar tudo o que é
jogado para nós para sairmos vencedores no final, para conseguirmos algo por mérito. Então é
natural que ignoremos nossa saúde física e emocional e principalmente a mental até determinado
ponto. Mas o autocuidado está intimamente ligado com a resistência a ser feita em tempos como
os que estamos vivendo desde meados de 2015, pois aqui estamos olhando para quem somos com
carinho e atenção, fazendo e incentivando o mesmo daqueles que são próximos e lutam conosco.
Novamente, sempre foi difícil, insalubre e inacessível para muitos, mas estava dentro do normal
esperado para uma configuração social como a nossa, então quando todos estão sendo afetados e
movimentos conspiratórios e vis do governo e afins começam a chegar ao conhecimento da
população, é o sinal mais claro de perigo generalizado que não poupa ninguém.

Autocuidado pode ser considerado várias coisas, mas acredita-se que agora podemos considerá-lo
uma ótica para enxergar a nós mesmos e as pessoas ao nosso redor. Muito além de uma prática, é
a ideia que temos que ter em mente ao enfrentar situações cotidianas e realmente sermos efetivos
ao tentar implantar nossas ideias sobre igualdade, sustentabilidade e civilidade, pois é preciso
fornecer condições para que elas se estabeleçam. Seja no antro pessoal ou coletivo, é importante
questionar alguns dos seguintes pontos:

● Uma jornada ou tipo de trabalho é realmente necessário? Você gostaria de que entes
queridos e pessoas próximas a você estivessem passando por isso?

● Negligenciar sua própria vida diária é beneficial para as causas que defende quando se está
defendendo justamente seu direito de viver bem inserido, com qualidade e livre de barreiras
e obstáculos adicionais à existência plena?

● “Qual o sentido da revolução se não podemos dançar?”2

● Estamos investidos na nossa realidade tanto quanto deveríamos?

Segundo Cárdenas e Méndez (2017), o autocuidado e o cuidado coletivo fazem parte de uma
estratégia abrangente de proteção que gera bem-estar, acompanhamento e respeito mútuo para
nossos corpos, nossas companheiras e outras organizações. O que, sem dúvida, possibilita a
sustentabilidade dos movimentos sociais dos quais fazemos parte, uma vez que falar de
autocuidado significa ter um compromisso ético e uma posição política, cujos princípios são:

1. Os espaços para a defesa dos direitos humanos e do ativismo não são idílicos. É
importante saber que nossos espaços de trabalho, em muitos casos, também são

2 Frase atribuída à anarquista Emma Goldman, que, diante da censura de um de seus companheiros pela
dança “inadequada”, apontou: “Se não se pode dançar, sua revolução não me interessa” Com esta frase,
reivindicamos o direito de todas(os) defensoras(es) da paz e igualdade ao gozo, prazer e usufruto de seu
próprio corpo.

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permeados por uma cultura machista, patriarcal, de exploração e/ou autoexploração. É
necessário estar em permanente revisão e desconstrução do que aprendemos ao longo de
nossa vida e que, embora em nossos discursos apostemos no contrário, eles se reproduzem
constantemente. Por essa razão, é vital não idealizar nem demonizar nossas organizações
e/ou nossos movimentos, mas mantê-los em constante reflexão para que venham a ser os
espaços que imaginamos.
A revisão pessoal também é fundamental. Byung-ChulHan, em seu livro Psicopolítica ,
falou sobre essa característica atual do sistema capitalista: de não precisar de um
opressor externo, mas de construir dentro de cada uma de nós nosso próprio tirano,
exigindo cada vez mais de nós. Essa maneira efetiva de funcionamento do capital gera a
dificuldade de lutar contra ele, pois se mostra difuso quem é o opressor ou a situação
opressiva a ser transformada. Por tal razão, questionar em nós mesmas os mandatos
patriarcais ou capitalistas, como, por exemplo, “ser para os outros” ou “trabalhar um
pouco mais, sempre mais”, são cruciais sob a perspectiva do autocuidado.

2. A defesa dos direitos humanos ou do ativismo não é um sacrifício. Devido aos contextos
caracterizados pela violência em que vivemos, é comum pensar que é muito importante
“dar um pouco mais” no ativismo, pois isso pode mudar o rumo das coisas. No entanto,
por meio desse princípio, convidamos à reflexão sobre se, na verdade, o que precisamos
fazer, não pode esperar que paremos para comer, dormir, descansar, dedicar um pouco
de tempo à diversão. Vale mencionar que produtividade não é igual à criatividade ou
eficácia. Em diversas ocasiões, na ânsia de fazer mais coisas, acabamos física e
mentalmente exauridas, o que inibe nossa capacidade de resposta e de atenção.

3. O bem-estar não é um privilégio, mas um direito. Para muitas ativistas e defensoras,


pensar em um momento de reflexão é um privilégio diante dos contextos que enfrentam. É
por isso que convidamos as/os leitoras/es a refletir sobre a necessidade desses momentos
para distração, desafogo, renovação e fortalecimento. No âmbito do conceito de proteção
integral, no qual situamos o enfoque do autocuidado para as defensoras dos direitos
humanos, refletimos sobre experiências nas quais as companheiras, devido ao nível de
fadiga e desgaste, não conseguiram perceber diversos incidentes de segurança ou
expuseram-se mais do que o necessário. Junto com o exposto, é comum que em nossos
ritmos de trabalho estejamos constantemente estressadas e, por vezes, em situação de
raiva devido às tensões que enfrentamos, ou tristes devido aos casos que devemos
acompanhar. Esses humores afetam as dinâmicas de afetividade e de relacionamento nas
organizações em que trabalhamos e, em geral, causam conflitos com as pessoas mais
próximas. Cabe rever se o trabalho que fazemos contribui com a transformação social,
mas se isso não ocorre às custas de nossa capacidade de convivência.

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4. Nem dinheiro nem tempo são fatores limitantes. Em muitas ocasiões, as defensoras e
ativistas a quem propomos a ideia do autocuidado acreditam que isso pode significar um
gasto considerável de dinheiro. Em oposição a isso, vale a pena mencionar que apostamos
em uma reavaliação dos saberes locais, o contato com a natureza, momentos próprios à
reflexão, exercícios de respiração, apropriação do corpo e do prazer etc, elementos que
às vezes têm mais a ver com disposição do que com recursos econômicos. No entanto, isso
não tira a responsabilidade das organizações e/ou financiadoras de destinar fundos para
gerar reflexões e ações conjuntas acerca dessa questão dentro de cada espaço de defesa
dos direitos humanos.

5. Cada pessoa sabe do que precisa. No tema do autocuidado, não é possível saber o que
ajuda outra pessoa a se sentir em estado de bem-estar; é necessário falar sobre o assunto,
mas cada um – pessoa, organização, coletivo – define o que é exigido por meio de uma
escuta sincera de suas necessidades. Alcançar isso não é algo fácil. Como defensoras dos
direitos humanos estamos muito acostumados à análise e reflexão, deixando nosso corpo
de lado, o que gera uma desconexão conosco e com as outras pessoas.

6. O autocuidado é pessoal e coletivo. Mostra-se importante que nossas organizações –


quando existem – possam lançar as bases para a reflexão acerca do autocuidado e gerar
políticas que contribuam para gerar uma cultura nesse sentido: respeitar os dias e os
horários de trabalho, estabelecer períodos de descanso, gerar mecanismos de resolução
de conflitos etc. Esse princípio do autocuidado está ligado à ideia de que as emoções são
sentidas por nós não apenas pelo fato de sermos humanas, mas pelo fato de vivermos
coletivamente, de estarmos em constante relação com as pessoas.3

As autoras também propõem soluções e pontos específicos nos quais devemos depositar nossa
energia ao praticar auto regulação. Mas antes de citá-los e avaliá-los, precisamos retornar a um
aspecto importante da cultura de paz e autocuidado que pode acarretar em muitas dificuldades e
barreiras ao se tratar do tema de maneira prática.

Como seres em grande parte visuais, humanos criam associações estéticas com tudo que pode ser
percebido desta forma, então chegamos a simbologia de movimentos pela paz ser desde
apropriação a culturas asiáticas muitas vezes não creditadas, até a discriminação com pessoas não-
brancas/héteros/cis e afins pois fala de generalidades impossíveis para esses grupos que requerem

3 Trecho extraído de O autocuidado como estratégia política, da SUR - Conectadas, Março de 2017,

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seus próprios recortes e soluções de reparação histórica. E geralmente os seus porta-vozes e garotos
propaganda são pessoas brancas que fazem yoga e possuem condições de vida que os permitem
estar em Bali, Indonésia, (ou quaisqueres outros destinos parecidos) todo o ano publicando fotos
de “gratidão” em suas redes sociais e querendo que as pessoas que estão em luta constante para
continuar vivendo e tendo o que comer, se enxerguem como ingratos que precisam rever suas
ações, falas e até pensamentos, pois enfim, “todos” precisam expressar “gratidão” e não se focar
em “problemas”.

Os bordões e pensamentos de culturas asiáticas que acabam por fetichizadas e extremamente


apropriadas por esses indivíduos, que muitas vezes ganham dinheiro com trabalhos envolvendo
espiritualidade e/ou “coaching”, explorando tais culturas, são vocalizados superficialmente,
enquanto, também, os problemas que a população dos lugares que eles visitam enfrentam não
possuem visibilidade nem por eles mesmos, pois muitos nem se quer direcionam sua energia a
entender mais profundamente o que tudo aquilo significa, nem mesmo esteticamente. Então o
necessário aqui, é separar e evidenciar que, assim como citado no trecho acima, bem estar não é
privilégio, e não é porque muitas vezes a fala que chega para as pessoas provém de indivíduos com
(ir)realidades claramente distintas das dos demais, não torna inválido que certas comunidades e
grupos acessem e pratiquem uma filosofia proveniente da mesma base.

A paz, sustentabilidade, respeito mútuo e a si mesmo não devem ser tratados como questões
elitistas, e redes de apoio, estudo e proliferação da paz estão situadas em comunidades periféricas,
rurais e sem afiliações a pretensões espirituais e afins, devem ser fortalecidas e reconhecidas por
trabalhar diante de suas próprias verdades e contextos.

Para a efetivação do autocuidado, temos que trabalhar cinco dimensões no pessoal e no


organizacional, sendo elas: física, psicológica, mental, energética e espiritual, como proposto pelas
autoras do texto referenciado neste artigo. Adaptando-se, obviamente, dentro das necessidades e
possibilidades de acesso de cada indivíduo e grupo.

● Física: no campo pessoal refere-se como atendemos as necessidades de nosso corpo, como
alimentação, sono, pausa e check-ups regulares com médicos. Já no campo organizacional,
pode ser entendido como a forma que organizamos e priorizamos o espaço em que
trabalhamos, seja segurança, limpeza, manutenção e ambientação.

● Psicológica: no campo pessoal refere-se como o trabalho realizado pode afetar nosso
autoconhecimento e autopercepção no meio e no mundo, como nossos estados alterados de
emoção afetam nossa insegurança e então entendimento de nossa capacidade ou
incapacidade de continuar trabalhando. No campo organizacional, no entanto, a atenção
com o psicológico refere-se a avaliações que fazemos ao trabalho realizado pelo coletivo,
e como chegamos a tais avaliações.

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● Mental: no campo pessoal estamos falando do que nos incentiva a reunir aprendizados e
conhecimentos e no que nos permite realizar o trabalho como defensora(o) dos direitos
humanos. Já no campo organizacional faz-se menção aos cursos, às oficinas, aos
seminários etc, que coordena ou nos quais a organização participa para fortalecer seu
trabalho.

● Energética: como em muitas ocasiões podemos sofrer desgaste energético, mesmo sem a
plena consciência do fato, este se manifesta em fadiga, sensação de desgosto e tristeza sem
motivos aparentes. No campo organizacional, é tudo focado a preservação de um bom
ambiente de trabalho e o estabelecimento de um meio alegre, produtivo e motivador a
todos.

● Espiritual: este relaciona-se com as crenças de cada pessoa, mas não apenas religiosas, mas
suas crenças na vida e no futuro sendo criado, e nas crenças e motivações que regem as
ações de uma organização.

Podemos concluir então, que práticas antigas e diárias de autopreservação diante de discriminações
e violências vividas por mulheres e LGBTQ+’s se mantém e são a base do autocuidado. O medo
do assédio, violação, abuso e estupro já pauta muito como vivemos, nos vestimos, acessamos
determinados espaços e realizamos nosso deslocamento, e sabemos que quando estamos em grupos
maiores a possibilidade desses ataques é menor, mas não extinta. Então o fortalecimento de
núcleos e locais físicos para encontro e exposição de expressão artística, sexual e intelectual é
essencial para que nossa segurança seja mantida sem que tenhamos que passar por uma
desassociação de identidade ou afastamento do que acreditamos e queremos para nós mesmos,
pois a ideia é que nos tornemos seguros e inspirados a ponto de colocar em prioridade outras coisas
que não o que ameaça diretamente nossas vidas.

Não estamos negando a luta nem a importância dela ao elaborar e praticar hobbies e atividades
que coloquem nosso foco em outro lugar. Há muito o que ver, absorver, aprender e experienciar
no mundo em que vivemos e temos que agarrar todas as possibilidades que temos no campo
subjetivo, pois ele é igualmente importante ao material, tanto nas nossas subjetividades como
pessoas mas nas subjetividades que podemos criar e acessar através da arte e práticas manuais, por
exemplo.

Nos dedicar ao fazer e ao sentir, ao criar e explorar é muito importante para reconhecermos nossas
potências e expandirmos nossas habilidades e capacidades, também pensando no mercado de
trabalho, mas dando ênfase à riqueza de atividades que podemos ter em nossas vidas e como elas
acarretam para um melhor desenvolvimento nosso como pessoas e cidadãos. E essa valorização
das práticas artísticas, também refere-se a importância do reconhecimento do trabalho do outro e
da nossa capacidade de engrandecimento das pessoas próximas a nós e de nossas comunidades.
Podemos citar também, dentro deste mesmo mérito, o papel que pessoas mais privilegiadas
socialmente e que possuem mais acesso, podem realizar para fortalecer outras pessoas e usufruir
de, por exemplo, sua branquitude ou estabilidade financeira: divulgue, amplie as vozes e compre
de artistas marginalizados, não serve de nada apenas elogiar e se considerar um “aliado” quando

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não se pensa nas necessidades básicas que o outro possui ou na disparidade de acesso que há entre
vocês. A alternativização de algo só faz com que este não seja percebido como hegemônico e
pertencente.

A informação se prova cada vez mais crucial nos tempos em que vivemos, com fake news e
correntes de internet desinformando quem está tentando ter o mesmo acesso que os demais, é de
extrema urgência que se incentive e divulgue plataformas sérias para leitura, que se investigue e
questione e proponha questionamentos sobre tudo o que é lido. Mesmo que possamos acreditar em
nossas fontes, é necessário que mantenhamos vivo em nós, a inquietação diante dos fatos e a
análise constante do porquê acontece o que acontece e como acontece, quando e com quem, pois
assim estaremos firmando, ainda mais, a direção de nossas lutas e questões a serem tratadas de
maneira mais imediata. Temos que ter nossas prioridades claras e estudadas, temos que nos agarrar
a todo acesso que tivermos e toda conversa e troca que presenciamos ou participemos. Afinal,
muitas existências são políticas e estar presente em todos esses processos, poder perguntar e refutar
é fazer história e ser ativo nos movimentos. O incentivo de estudos e escritas também agrega ao
nosso desenvolvimento e desperta campos do ser que muitos não têm contato, seja no cotidiano ou
na vida toda, e o que precisamos como sociedade neste momento é estar fortalecido mentalmente.

Não podemos também negar o lazer, o entretenimento e totais abstrações nas quais podemos nos
encontrar às vezes. Se os opressores não param suas vidas diante das ações contra a população,
não podemos parar as nossas, até porque estar feliz, consciente, festejar e nos dar direito ao prazer
é político. Negaram e ainda negam a validade de nossos corpos, identificações e sentido de nossas
vidas enquanto mulheres, trans, lésbicas, gays, bissexuais, panssexuais, queers e tantos outros
quando não estamos servindo o patriarcado e/ou o capitalismo, então tudo o que fazemos para o
nosso bem e a nossa afirmação enquanto pessoa portadora de direitos humanos e obrigações civis,
é protesto e é tão crucial quanto o que foi citado anteriormente. A nossa plenitude e satisfação
consigo mesmos é algo que sempre sofreu tentativas- e alguns êxitos- se ser retirados de nós, então
quando não abaixamos a cabeça e não somos pegos em narrativas tóxicas de que somos errados
ou deveríamos estar vivendo de outra maneira, simplesmente sendo quem somos, estamos sendo
o mais político possível. E quando amamos uns aos outros e fazemos o que podemos para que eles
cresçam tanto quanto nós, sem nos deixar levar por mentalidades de competição, estamos liderando
nossas próprias revoluções.

Como difundido primeiramente pela artista e tatuadora do Zangadas Tatu, Thereza Nardelli, e tão
compartilhado e falado por aí ultimamente: ninguém solta a mão de ninguém. E se não colocarmos
em prática no nosso dia a dia a inclusão que pregamos e pela qual lutamos, será cada vez mais
difícil para que a entendam e seja efetiva.

77
Referências:

CÁRDENAS, Ana María Hernández e MÉNDEZ, Nallely Guadalupe Tello Méndez. O


autocuidado como estratégia política. Revista Internacional de Direitos Humanos. Conectas.
26ª edição. Dez 2017. Disponível em https://sur.conectas.org/o-autocuidado-como-estrategia-
politica/ Acesso em 30 mai. 2019.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica. Editora Ayine, 2018.

Respeito na comunicação, diversidade e linguagem.

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Herman A. Macário A.

Fonte: http://www.transstudent.org/gender/

RESUMO
O texto fala sobre como podemos nos comunicar com pessoas trans/não-bináris/cis de forma
neutra, sem ofender ninguém por conta de palavrinhas simples que podemos trocar no nosso dia-
a-dia de forma a tornar mais respeitosa e igualitária uma comunicação textual que foi
fundamentada com bases religiosas e binárias.

Aceitar a diversidade e suas opiniões e pontos de vista em relação ao mundo é a primeira


forma de você garantir a paz dentro dele. O respeito é a chave pro mundo avançar melhor.

INTRODUÇÃO

Nossa língua Portuguesa é construída de forma binária, ou seja, suas palavras têm em sua
maioria gênero atribuído (masculinas ou femininas) e assim como palavras, pessoas também têm
seus desejos (sexualidade), e sua maneira de se sentir (gênero), e também a forma que nasceram
(gênero biológico), mas nem sempre se identificam com ele, criando a necessidade de mudar a
comunicação de forma a atingir todos os nichos de pessoas para não desrespeitar ninguém por

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conta de uma má comunicação. Pois nem sempre as pessoas Trans (aquelXs que não se identificam
com seu gênero biológico) são homens ou mulheres.

‘Pera aí’, você quer dizer que nem todo mundo é homem, ou mulher?

- Sim. Nossa sociedade cria, desde a mais tenra idade, levando as pessoas a se encaixarem
em padrões sociais impostos e que demoram bastante tempo para serem ‘desconstruídos’ ou até
mesmo notados, as pessoas carregam vícios de uma cultura antiga de ‘bons costumes’, sempre se
limitando a quebrar os atuais padrões de vivência e buscando novas formas e perspectivas de se
aderirem ao mundo.

O mundo não é simplesmente uma esteira, a gente que faz o próprio caminho. Já se
perguntou hoje se você vive a sua vida? Ou deixa a vida se desenvolver seguindo as expectativas
e vontades de outras pessoas? (famílias, amigos, relacionamentos,escola…)

A sua roupa de hoje, você que escolheu?

O mundo é construído de forma binária desde as vestes e palavras, até a sua própria visão.
Esses padrões são tão martelados na nossa cabeça que até nossas ideias são engessadas, a ponto de
não conseguirmos criar, ou ter novos pensamentos. É enorme a nuvem de confusão que participa
da nossa vida, sem que tenhamos conta, de coisas que nem sequer são nossos próprios objetivos .

Fazendo sempre as equações do mesmo jeito, teremos sempre a mesma resposta.

Como alinhar a necessidade de uma comunicação neutra com novos horizontes em vista?

Temos sempre os pronomes masculinos e femininos. Como vimos, nem todas as pessoas
se encaixam nesses padrões. Como podemos nos comunicar com essas pessoas?

Comunicando com a galerX (x, @, i, e)

Temos que parar de prejulgar um gênero de pessoas de acordo com a aparência delas. E
para escrever também temos formas de alterar nosso vocabulário de forma a torná-lo neutro,
simplesmente mudando algumas vogais de certas palavras, causando o efeito de abrigar não só um
determinado gênero de pessoas, mas a diversidade como um todo.

Um bom texto tem que se comunicar com todo mundo de forma simples.

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A forma mais fácil de saber como se comunicar com alguém, é perguntando seu nome,
assim você elimina os maus entendidos. Mas como nem sempre podemos fazer isso temos que ter
o cuidado de não ofender ninguém pela falta de conhecimento sobre a pessoa.

Para escrever podemos também substituir as vogais “A” e “E” das palavras femininas ou
masculinas para comunicação.

EX: “Ela, ele, dele, dela,nele, nela…”

Substituindo essas vogais pelas letras “X” ou pelo “@” em algumas palavras e até mesmo existem
debates entre utilizar o “I” ou o “E” para esse tipo de comunicação(não-binária, neutra). Podemos
também usar “em” para substituir o “no” ou “na” *

EX: “elx, eli, delx, deli…”

EX*: ”cabelo feito em XXXX, tatuagem em XXXX, unhas em XXXX”

E o “@” para substituir as vogais “A” e “O”

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82
Fonte:
https://www.altoastral.com.br/descubra-sua-identidade-de-genero/

CONCLUSÃO

Sei que de início pode parecer besteira ou coisa do tipo, mas é muito importante saber que
a língua é feita pelas pessoas e para as pessoas, e se comunicando melhor você evita mal
entendidos.

As pessoas tem que mudar as formas de comunicação, pois ela já não abraça toda a
diversidade de uma maneira respeitosa e clara. Mantendo vícios negativos de linguagem só criando
pessoas com os mesmos preconceitos do passado.

Precisamos mudar isso e fazer isso das maneiras mais profundas até como a linguagem. As
pessoas são muito acostumadas a não ter respeito pelas pessoas e nem sequer percebem isso, por

83
conta da construção da nossa cultura e da forma que as coisas são, mas sempre existe tempo de
mudar, e para conquistar a paz precisamos mudar o mundo.

Referências:
84
NEGRETTI, Nathalia. Descubra sua identidade de genero. Disponível em
https://www.altoastral.com.br/descubra-sua-identidade-de-genero/ Acesso em 30 de maio de
2019.

TRANS STUDENT EDUCACIONAL RESEARCH. The gender unicorn. Disponível


em http://www.transstudent.org/gender/ Acesso em 4 de junho de 2019.

Conflitos nas relações interpessoais

Caroline Ferreira de Assis

85
Na Agenda 2030 para o desenvolvimento Sustentável criada pela ONU, tem como o quarto
objetivo a educação de qualidade, que vai além apenas de uma educação escolar: “4.7 [...]
promoção de uma cultura de paz e não violência, cidadania global e valorização da diversidade
cultural e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável [...]”

Quem nunca passou por uma situação que gerou alguma discussão com outra pessoa? Sejam elas
um parente, amigo, colega de trabalho, faculdade ou desconhecido?

Estamos diariamente em contato, resolvendo questões, falando o que pensamos e isso acaba
gerando confrontos, sejam eles em forma de conversas ou muitas vezes, silenciosos, através do
corpo. Quem nunca passou por isso no metrô, por exemplo?

Quando estamos dentro dessas situações, a maioria das vezes somos levados pela emoção do
momento e acabamos entrando em um jogo de quem tem mais razão sobre a questão e os
melhores argumentos para “ganhar” a discussão. Eis o grande problema: quem está vendo de
fora consegue analisar melhor a situação e muitas vezes, se chega à conclusão que, no calor da
emoção muito se quer dizer, mas pouco se quer escutar.

Então se forma o grande problema das discussões: a falta de empatia. Ter empatia é basicamente
compreender e se projetar na outra pessoa, para que se tenha um panorama melhor do que fez
com que ela tomasse tal atitude.

Sem empatia, se instaura um posicionamento de defensiva, a pessoa automaticamente reage


enquanto o outro fala. Ela tem apenas pensamentos de falar algo para se defender ou voltar a
acusação. Ao invés de tentar entender os argumentos e chegar a um consenso.

Já notamos então, que o primeiro ponto a ser ajustado é o de não saber ouvir. Pode doer, mas é
preciso dizer: Não adianta querer mudar as pessoas, foque na sua mudança.

Então esperar que as pessoas comecem a te ouvir e entender o que você está tentando falar sem
que você mesmo esteja aberto a mudanças de nada adianta.

Hoje em dia existe um compartilhamento de informações nunca vista antes na história. Tudo que
se tem dúvida se encontra uma resposta pesquisando no Google, ou outro buscador, mas muitos
assuntos ligados a relacionamentos, ainda estão sendo tratados como segundo plano, perto da
quantidade de conteúdo ligado ao entretenimento. Outro ponto grave é que as pessoas não
praticam o que lêem e precisamos das duas ações para realmente desenvolver uma habilidade a
respeito, no quesito social.

Para que se entendam as dores que estão causando os conflitos pelo qual passamos, a dica é
observar mais e falar menos. Observar as pessoas ao seu redor e tentar entender as dores delas,
escutando o seu ponto de vista. Vale a pena lembrar que este exercício não é para fazer com que

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você se anule nos conflitos, mas entenda que não se pode tratar de uma guerra de egos e quem
ganhou é pelo fato de ter a ideia certa e a outra é errada.

Outro ponto importante: tudo é relativo e vai depender de diversos fatores, não tem uma verdade
única aos olhos de muitos.

Já pensou que tirando este peso de querer fazer o outro acreditar que estamos certos e ouvindo
mais podemos e vamos ganhar mais experiências de vida? Assim, não estaremos em modo de
defesa e sim abertos a entender melhor o outro. Quando este assunto vier à tona novamente, vai
surgir a lembrança de que você já passou por algo parecido e que agora novas opiniões irão
surgir também.

Mas é claro que se o conflito exige uma resposta, o que se deve fazer é que ocorra uma
mediação diante das soluções divergentes apresentadas pelo grupo. O objetivo deve ser
relembrado, para que apareçam propostas que entrem no meio termo das sugestões levantadas, se
possível que se discuta de uma forma geral o que cada sugestão apresenta de bom e ruim para a
solução do problema em si.

Uma parte fundamental das discussões é o fato de que a comunicação, muitas vezes não é clara,
cheia de ironia e sarcasmo e apresentam uma certa ambiguidade. Nos tempos modernos com os
aplicativos de mensagens instantâneas cresceu muito este problema em relação às divergências
de informações. O locutor escreve de uma forma e o receptor compreende de outra forma e já
responde. A partir disto é aí que a história fica ‘sem pé nem cabeça’.

Este é um meio que traz muitos benefícios pela rapidez da mensagem, mas precisa ser usado de
uma forma consciente: tem que haver um planejamento na escrita para que a informação seja
passada de forma correta. Se houver alguma dúvida sobre o que se foi lido é melhor dizer que
não entendeu e pedir para se explicado de outra forma.

São soluções simples, mas que funcionam e no dia a dia não estão sendo aplicadas de forma
correta. Precisamos voltar para o básico das relações.

Outro fator que percebemos menos, mas que influencia demais é a postura. O corpo fala e não
ouvimos, nem ao menos estamos percebendo o que o nosso próprio corpo diz.

O modo em que estamos nos comportando em uma situação de conflito revela muitas
informações sobre o que estamos sentindo. Seja ele ameaçador: quando podemos esta invadindo
o espaço da pessoa, chegando muito perto ou também gesticulando rapidamente com as mãos ou
apontando em direção a pessoa. Imaginem então tudo isso junto? Já dá para causar uma
impressão ruim.

Entender essas expressões não verbais ajuda a se posicionar melhor e até antecipar o que o outro
quer expressar. O correto é manter um contato visual e não evitá-lo, assim você demonstra que
está confiante do que diz e não que está nervoso ou retraído como quem olha muito para o chão

87
ou observa mais ao redor do que a própria conversa.

Outras posturas a serem evitadas é manter uma postura desleixada, ou rígida demais. Mais uma
vez exige observação e avaliar as nossas próprias atitudes.

Para concluir, precisa estar claro que o que foi apresentado aqui são os passos básicos para uma
resolução de conflitos. Na vida lá fora, muitas situações novas podem surgir e que não temos
como antecipá-las e gerar uma ação pronta que irá te salvar.

Mas que todas as experiências que você já teve são o treinamento para as que virão. É
observando, entendendo o lado do próximo e buscando soluções juntos que podemos avançar na
resolução de conflitos diários. Quando você começar a mudar a suas atitudes, poderá reverberar
em quem está ao seu redor para mudar também.

Referências:

Carnegie, Dale. As cinco habilidades essenciais do relacionamento: Como se expressar, ouvir os


outros e resolver conflitos. Local. Companhia Editora Nacional, Data.

Organização das Nações Unidas. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/pos2015/ods4/>


Acesso em: 05/06/2019

Diskin, Lia. Cultura de paz: redes de convivência. Disponível em:


<http://www1.sp.senac.br/hotsites/gd4/culturadepaz/arqs/cartilha.pdf> Acesso em: 05/06/2019

88
A mídia e sua influência na sociedade: um estudo de caso
sobre o programa Cidade Alerta, entre2014 e 2017

Caique Gomes

Introdução
A televisão ainda é um dos grandes meios de comunicação no Brasil.
Segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia 2016: hábitos de consumo de
mídia pela população brasileira, da Secretaria Especial de Comunicação
Social, 90% dos brasileiros utilizam a TV para se informar sobre o que
acontece no País, sendo que para 63% ela é o principal meio de
informação.
O diferencial da televisão ao transmitir uma notícia é a junção da imagem

89
e do som, sendo assim possível apresentar um fato de diferentes ângulos,
criando uma forma única de atingir o seu público,
Neste artigo, pretendemos apresentar as possíveis influências causadas à
sociedade pelo programa Cidade Alerta, da rede RecordTV, com recorte
na temporada de 2014 a 2017, apresentada pelo jornalista Marcelo
Rezende.

MARCOS TEÓRICOS
Tudo que se passa na televisão tem um grande alcance e uma força
abundante. A imagem na tela faz aquilo parecer real e traz o que está
sendo retratado para nosso dia a dia. Em relação à notícia, pode-se
duvidar do que está escrito em uma revista ou do que se diz em uma
rádio, porém, na televisão, com a imagem como “prova” do acontecimento
junto da afirmação de um jornalista, tudo vira uma verdade absoluta
diante de nossos olhos.
Com o poder da linguagem visual, uma linguagem universal, e com a
facilidade e agilidade para se consumir o conteúdo, a televisão simplifica
e resolve problemas que outras mídias não conseguem compartilhar. Por
exemplo, para se ler um jornal ou uma revista é necessário ter um
conhecimento básico da língua e de interpretação, o que na televisão não
é uma exigência.
Baseando-se na teoria de campo de Pierre Bourdieu para analisar o
jornalismo como um campo na sociedade, pressupomos que este possui
autonomia já que dispõe de regras para funcionamento próprio. Porém,
notamos que ele sofre de interferências de fatores externos, fenômeno
chamado por Bourdieu de “heteronomia” quando um campo funciona de
acordo com uma lógica externa. O campo jornalístico é afetado pelo
mercado. É sempre necessário se manter no topo da audiência, o que
leva dentro do campo a uma disputa não somente por algo simbólico, mas
também por fatores econômicas.
Como resultado, temos diversos jornais apresentando o mesmo fato de
formas diferentes, em uma produção jornalística com falta de
originalidade e de banalização do extraordinário, que, reproduzida
repetidamente como uma fórmula de sucesso, desvia a atenção de
90
assuntos de relevância e impacto social, que são deixados de lado. O
destaque fica para noticiário considerado de variedades, que colocam
morte, sexo, drama e crime como principais pautas nos programas
policiais da televisão brasileira. Chegamos aí aos fatos omnibus (fatos
ônibus), fatos que são de interesses de todos, mas que não representam
nada que importa realmente.
As notícias de variedades mostram como a concorrência dentro do campo
e a briga pelo destaque influenciam na busca de pautas sensacionalistas,
com acontecimentos que, na verdade, fazem parte do nosso cotidiano,
representados de forma exagerada e repetidamente, produzindo o efeito
que se busca para conquistar o poder dentro do campo, a audiência.

Essas notícias sem desdobramentos sociais e políticos relevantes,


acabam gerando em seus receptores estímulos com diferentes reações,
muita das vezes de forma negativa, como xenofobia e racismo.
Os programas policialescos como “Linha Direta”, “Aqui Agora”, “Brasil
Urgente” e “Cidade Alerta” surgiram nos anos 1990 no Brasil, com
reportagens sobre crimes chocantes e investigações policiais. Eles se
estabeleceram como um grande sucesso na época, atingindo grandes
índices de audiência, todos com longas durações em horários nobres na
grade televisiva. São horas de notícias sem reflexão das possíveis
consequências do crime, mostrando somente o drama, transformando o
fato em um grande espetáculo.
Observando os programas citados, podemos analisar o conceito de
capital no campo jornalístico, a audiência e sua posição de destaque e a
importância que esses programas têm dentro do seu campo.

CIDADE ALERTA E SUA METODOLOGIA


O programa policial Cidade Alerta foi ao ar pela sua primeira vez no final
do ano de 1995. Produzido pela rede RecordTV, ele se manteve no ar até
junho de 2005, voltando para as telas em 2011 até os dias atuais. Com
duração de 180 minutos em dias de semanas e 165 minutos aos sábados
e transmissão ao vivo, o programa é um dos líderes de audiência da
emissora. É considerado sensacionalista e espetaculoso em seu modo de
91
reportar fatos em que a violência urbana está sempre em primeiro plano.
Como diversos programas policiais, o Cidade Alerta funciona de forma
simples, sem grandes produções e cenários. Desde sua vinheta inicial,
com tons azuis e vermelhos e viaturas passando pela tela, e também o
layout na parte inferior do monitor, com manchetes chamativas e
sensacionalistas, deixa claro o tema do programa. O uso da cor vermelha
no cenário e no logotipo do programa remete à urgência da notícia e dos
fatos retratados, assim como a violência, o sangue e o perigo. O cenário
simples, sem bancada, composto somente por um estúdio compacto com
tons de azul, prata e vermelho, com uma tela de televisão ao fundo,
transmitindo imagens dos supostos criminosos e suas vítimas e deixando
em destaque a notícia, serve para dar o ar necessário de espetáculo ao
programa. Dessa forma, o cenário abre espaço e dá o destaque para o
apresentador, permitindo que ele tenha uma mais mobilidade e
performance corporal, facilitando a aproximação com a câmera e gerando
no telespectador a sensação de proximidade e empatia pelo
apresentador.
E por falar no apresentador, chegamos à parte mais importante do
programa durante o período de estudo para este artigo: a atuação do
âncora, Marcelo Rezende. Utilizando uma postura firme, bordões e
discursos, o apresentador se coloca como uma autoridade no programa.
Com uma postura de caça aos bandidos, não economiza na
agressividade em seus gestos e falas, dando, assim, ênfase na notícia e
tentando demonstrar que ele se importa com os fatos ocorridos na
sociedade. Com gírias, falas diretas e corriqueiras, o programa propõe
uma linguagem verbal endereçada ao seu público. Utilizando de apelos
emocionais, Marcelo costuma se referir aos suspeitos e acusados, como
assassino, bandido, drogado, monstro e já os coloca como culpados,
mesmo antes de julgados. O apresentador faz seu julgamento virtual,
gerando conflito com a Justiça, o que pode até influenciar um julgamento
nos tribunais reais.

Pegamos como um exemplo uma perseguição policial exibida ao vivo no


dia 23 de junho de 2015, em que um policial em uma motocicleta
92
perseguia dois suspeitos em alta velocidade. Após jogar o capacete em
direção ao policial, o condutor da moto perseguida acaba perdendo o
controle e caindo na calçada. O policial, então, desce de sua moto e
efetua quatro disparos na dupla de suspeitos, imagem que foi transmitida
ao vivo no programa. Durante a perseguição, o mediador do programa fez
seu papel, transformando as imagens em um show e conseguindo
prender a atenção do público. Em algumas falas, pediu até para o policial
atirar, já condenando os suspeitos como bandidos.

ANÁLISE DOS FATOS E SUAS INFLUÊNCIAS


Apresentando seu conteúdo somente com foco em audiência, sem uma
apuração dos dados, questionamento dos acontecimentos ou com
estatísticas, o programa leva a crer que estamos sujeitos, a todo tempo, a
este tipo de violência. Pegamos o exemplo de uma criança sentada na
sala ao lado do seu pai que assiste ao telejornal. Por se tratar de uma
pessoa sem experiência, bagagem e vivência, ela não tem capacidade
para questionar a realidade dos fatos, traduzindo aquilo como seu
entendimento real da sociedade.
Por outro lado, existem adultos e idosos que ainda têm a televisão como

principal fonte de informação e contato com o mundo externo, tornando-


se uma mídia perigosa. De acordo com profissionais de psicologia, ao

reafirmar a violência diversas vezes e repetir discursos sensacionalistas


pode se gerar medos, fobias e preconceitos no receptor da mensagem,
muitas vezes um público que convive com a violência em seu dia a dia,
uma classe menos favorecida que por não ter outra forma de lazer tende
a consumir programas mais próximos de seu cotidiano, tornando-se o
principal público-alvo do Cidade Alerta.
Um programa tem seu público-alvo e sabe quais as formas de atingi-lo. O
Cidade Alerta utiliza de falas não elaboradas e corriqueiras no tom de
“fofoca” para reportar um fato e com apresentador em vestimenta formal,
terno e gravata, na tentativa de cativar e atingir seu público fazendo com
que o pré-julgamento de fatos sem apuração e questionamento,
93
travestidos de notícia, sejam compreendidos como realidade.
Segundo levantamento feito pelo Datafolha, a pedido do Fórum Brasileiro
de Segurança Pública (FBSP), publicado no 10o Anuário Brasileiro de
Segurança Pública em 2017, a maioria (57%) da população brasileira
concorda com a expressão “bandido bom é bandido morto”. Pensando

pelo lado de que a opinião pública afeta o campo político da sociedade, a


opinião que o programa Cidade Alerta passa com suas reportagens para
os receptores afeta o campo político, que engloba campos como jurídico e
legislativo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo teve como objetivo observar e analisar a forma de atuação e
de veicular informação do programa Cidade Alerta e mostrar suas
possíveis influências na sociedade. Tendo como referencial a teoria de
campo de Pierre Bourdieu, identificamos alguns conceitos dentro da
mídia. Colocando o jornalismo como campo, vimos que ele se encaixa no
conceito ao possuir regras de funcionamento própria. Como capital desse
campo podemos entender que é a credibilidade construída. No que se diz

respeito ao capital no campo da televisão, é a audiência e, por fim, pode-


se concluir que o hábito dentro da televisão e a forma como os

apresentadores, repórteres e outros agentes agem e se colocam, seguem


as regras estabelecidas dentro dos campos. Desta forma, o
funcionamento de campo, capital e hábito explicam o fenômeno do
Cidade Alerta e de outros programas policialescos que impõem aos
telespectadores conteúdos e “notícias” que julgam serem capazes de
prender a atenção e de gerar audiência.
Além de jornalista e celebridades, os apresentadores se transformaram
em verdadeiros guias para seus telespectadores, influenciando a opinião
pública. Vimos na pesquisa citada anteriormente como a população tem
compartilhado dos mesmos pensamentos que eles manifestam e
expressam em seus programas.
94
Aqui, colocamos como o programa Cidade Alerta transmite e reporta fatos
como furtos, roubos e outros crimes de forma sensacionalista,
dramatizada e sem nenhum contexto e debate, elegendo como notícia
acontecimentos que normalmente não teriam grandes implicações
políticas e sociais e que acabam se tornando grandes problemas, que, do
ponto de vista da população, devem ser combatidos de qualquer forma. O
programa tem como público-alvo e traz em suas pautas acontecimentos
mais recorrentes em pessoas em situação de vulnerabilidade social,
gerando preconceito e reforçando o vínculo entre pobreza e violência.
Desta maneira, concluímos que a televisão ainda tem forte impacto e
influência na sociedade, mexendo com a opinião pública e afetando até o
campo político. Assim, faz-se necessário repensar a maneira em que

fatos são transmitidos, de forma que possam gerar questionamento e


debate, não um espetáculo sensacionalista, deixando de ser em um
capital de reconhecimento e audiência e passando a pensar nas possíveis
consequências de seus atos.

95
REFERÊNCIAS
Brasil. Presidência da República. Secretaria Especial de Comunicação Social.
Pesquisa brasileira de mídia 2016: hábitos de consumo de mídia pela população
brasileira. – Brasília: Secom, 2016.
120 p.: il.
ISBN: 978-85-85142-60-5 1. C
Versão eletrônica disponível nos sítios: http://www.secom.gov.br e
http://www.pesquisademidia.gov.br/
MIRANDA, Luciano. Pierre Bourdieu e o campo da comunicação por
uma teoria
praxiológica. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.
BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1997.

Disponível em: http://documentslide.com/documents/bourdieu-p-sobre-


atelevisaopdf.html

DENADAI, Julia. NOTÍCIAS ESPETACULARES: UMA ANÁLISE


BOURDIEUSIANA DOS PROGRAMAS POLICIALESCOS DE TELEVISÃO.
2018 36f. FACULDADE DE DIREITO DE VITÓRIA CURSO DE GRADUAÇÃO
EM DIREITO (FDV), Vitoria, 2018.
Disponível em:
http://191.252.194.60:8080/bitstream/fdv/547/1/JULIA%20DENADAI.pdf
MONTORO, Tânia. Sangue na tela: a representação da violência nos
noticiários de televisão no Brasil. In. Luiz Gonzaga Motta (org.), Imprensa e
Poder. Brasília: Universidade de Brasília, 2002.
96
ANGRIMANI, D. Espreme que sai sangue: um estudo do sensacionalismo
na imprensa. São Paulo: Summus, 1995.

Disponível em: http://www.wejconsultoria.com.br/site/wp-


content/uploads/2013/04/Danilo-Angrimani-Sobrinho-Espreme-que-sai-
sangue.pdf

OLIVEIRA, Duarte Danilo. Metodologia de Análise de Telejornalismo, in


OLIVEIRA, Duarte Danilo (Org.) Gêneros Televisivos e Modos de
Endereçamento no Telejornalismo, Salvador: EDUFBA, 2011b, p 121 -150.

97
Games e discriminação: cultura de paz no século XXI? WTF!4¹

Bruno Lima
Introdução

O tema abordado neste artigo sobre cultura de paz traz uma vertente diferente do que vemos
atualmente. E, nada melhor do que entrarmos no mundo que acerca a maior parte dos assuntos
voltados a tecnologia.
Isso mesmo os “games”, mostrando como no século XXI há uma nova vertente de discriminação
aonde também deveriam haver olhos e discussões criticas sobre o comportamento das novas
gerações e como aplicar desde sempre conceitos sobre a cultura de paz para que as comunidades
online possam viver em um ambiente amigável com menos frustrações e mais respeito aonde
muitos vêem como “terra sem lei”.
A evolução digital juntamente com a expansão de possibilidades tecnológicas trouxe ao ser
humano múltiplas possibilidades de como se relacionar, interagir e integrar-se à sociedade. Houve
um grande passo para história aonde não dependemos somente das relações sociais padronizadas
que tivemos por longos anos.
Logo, durante todo esse período com essas novas formas de se relacionar surgiram também como
toda sociedade diversos problemas relacionais que por muitas vezes não são debatidos como
condutas fora dos padrões da sociedade e por ser dentro de um mundo completamente novo ainda
não há punições cabíveis para discriminações dentro da web.
Essa evolução, durante esses eventos, trouxe uma nova realidade, um novo método de sair da rotina
da vida real, buscando distrações para amenizar o stress causado por uma longa jornada de
trabalho, na qual você pode ter relações emocionais das mais diversas buscando um divertimento
que pode ser adquirido de forma simples e sem muito segredo. Apenas realizando um download,
criando um cadastro e está pronto para se aventurar neste novo mundo.
Contudo, ao longo do tempo este estilo de vida foi se aprimorando e criando experiencias e novas
linguagens para que essa sociedade pudesse se comunicar de forma simples com otimização de
tempo e esforço ao utilizar seus teclados ou até mesmo verbalmente. Vemos muitos jovens hoje
em dia se comunicando com diversos tipos de gírias que muitos olham e se perguntam “ Mas o
que diabos ele está falando ali? Será outra língua?“e podemos afirmar que sim, o que trás impacto
direto a educação e respeito que aprendemos em sociedade durante relações verbais com
desconhecidos ou amigos. Mas a coisa se complica quando realizamos que este tipo de linguagem
não foi feita para compreensão de todos e sim como códigos para pessoas que habitam o mesmo
meio.

4 “ WTF “ refere-se a sublinguagem cibernética abreviada do inglês “WhattheFuck”, muito utilizada por

jogadores online.)

98
Fotografia 1 – Dialetos do mundo gamer, pág. 113

O comportamento também aderiu a este novo estilo de vida, mas como em toda sociedade também
há comportamentos negativos que denigrem a imagem do ser, por mais que não esteja fisicamente
presente.

Este desrespeito mútuo entre jogadores se torna cada dia mais frequente, pos, constantemente
vemos casos de assédio moral cibernético que acabam virando casospoliciais, porém nesta terra
sem lei dentro dos games que são distribuídos por suas produtoras, não há qualquer tipo de
supervisão nem há punições para este tipo de comportamento, pois produtoras nativas de um país
visam somente manter a ordem dentro de sua área de alcance linguístico, a maioria das vezes
predominante pelo inglês como linguagem global. Assim causam efeitos de atrito entre pessoas
desconhecidas que, por exemplo tem visões como:
“Eu não a conheço, ela também não, posso fazer uma ofensa gratuita pois não irei sofrer nenhum
tipo de penalidade virtual ou real por isto. “
Logo após muitos anos de debates algumas dessas empresas começaram a verificar que situações
deste tipo acabam levando a desistência de jogadores por um hobby que deveriam lhe trazer lucros
e prazer para quem o jogasse acabava virando mais uma frustração. E então passaram a ter mais
atenção com casos determinados e criando equipes de administradores / mestres de jogo em cada
país para que casos desse tipo fossem avaliados e mostrassem que eles realmente se importam com
o bem estar das pessoas que desfrutam de seus produtos. Abaixo uma representação visual de
ambas partes citadas no artigo.

Fotografia 2 –Jogador profissional penalizado por má conduta verbal, Post da rede social Twitter

99
"É inadmissível ainda nos dias de hoje, termos esse tipo atitude.
Infelizmente no esport, hoje em dia existem situações como essa.
Portanto, é minha obrigação como organizador, manter um campeonato
limpo e sem esse tipo de atitude ou qualquer outra deste tipo. Temos que
combater isso sempre"(Jorge – Organizador do Campeonato – XLG Uol
do game “CrossFire”)

Contudo, temos uma situação com este agravante principal perante as evoluções midiáticas vem
lado a lado crescendo de maneira descontrolada. Estamos convivendo com situações que
ultrapassam as normas sociais entre relações verbais de respeito, atualmente essa discriminação
passou a imitar a realidade com casos de abuso verbais, xenofobia e preconceitos dos mais
diversos. De maneira intencional fazendo com que essas relações que eram um divertimento ou
uma forma de distração saudável, virassem uma forma de descontar ódio e raiva em pessoas
inocentes.Pelas regras sociais não se tem direito de ofender uma pessoa pois há leis cabíveis e
rígidas, que detém as pessoas de cometerem delitos como este; já no mundo virtual este tipo de
cultura de paz não é aplicada, e necessita ainda mais de uma visão sobre o comportamento
relacional.
Casos de preconceito ainda ocorrem de modo crescente que até em competições mundiais nas
quais milhões de telespectadores estão observando ainda há desrespeitos em nível discriminatório
sem pudor com penalizações leves pelas empresas responsáveis.

Fotografia 3 –“ Primeiro time feminino no LoL mundial, Vaevictis estreia com desrespeito na
liga russa “

100
Concluímos que os conceitos de paz devem ser aplicados em todas as vertentes possíveis, e não só
acerca da sociedade da vida real em que presenciamos no dia a dia, temos situações que poderiam
ser contidas se houvesse uma visão ampla sobre os assuntos que rodeiam o avanço tecnológico e
de como o ser social se comporta entre eles.

Referências:

CARVALHO, Eric de. (Org.) Comunicação e cultura geek. 1.ed. – São Paulo: Cásper Líbero,
2018. Disponível em https://casperlibero.edu.br/wp-
content/uploads/2018/11/Comunica%C3%A7%C3%A3o-e-cultura-geek.pdf Acesso em 3 de
junho de 2019.
FOXER Jr., Jairo. Yaggo da Systeam recebe punição de um jogo após ofensa a oponentes.
Universo on line, São Paulo, 19 abr. 2018, XLG.Disponível em
http://xlg.uol.com.br/noticias/2018/04/19/yaggo-da-systeam-recebe-punicao-de-um-jogo-apos-
ofensa-a-oponentes#rmcl Acesso em 1 de junho de 2019.

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MACKUS, Evelyn. Primeiro time feminino no LoL mundial, Vaevictis estreia com
desrespeito na liga russa. Disponível em
http://www.espn.com.br/esports/artigo/_/id/5289513/primeiro-time-feminino-no-lol-mundial-
vaevictis-estreia-com-desrespeito-na-liga-russa. Acesso em 30 de maio de 2019.

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