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Ateliê de Historiografia

Data: 13/12/2016
Texto: Linguística e filologia: o eterno debate
Autor: Konrad Koerner
Responsável: Flavia Karla Ribeiro Santos

Nesse texto, em uma conferência internacional sobre linguística histórica, realizada em


1981, Koerner (2014, p. 65) traz um resgate histórico sobre a conturbada relação entre a
filologia e a linguística, uma discussão que parecia encerrada há pelo menos um século e
meio, visto que a linguística, há cerca de 100 anos já havia se estabelecido como uma
disciplina científica, talvez, nas palavras do autor, a “verdadeiramente científica das duas”.
Esse retorno ao passado é uma forma de esclarecer que linguística e filologia não são
sinônimos e de atualizar o leitor sobre quais seriam as antigas controvérsias entre essas duas
disciplinas para introduzir, no final, as novas discussões em torno delas e o porquê de uma
questão que se achava encerrada voltar a ser debatida.
Primeiramente, Koerner (2014, p. 65) esclarece que essa relação entre filologia e
linguística acompanha o “desenvolvimento do estudo da linguagem, enquanto ciência”, a
começar pelo fato de o termo “linguística histórica” ter significado equivalente em alemão,
francês e inglês, ao passo que o termo “filologia” em inglês não tem significado equivalente
em francês e alemão. Isso porque, segundo o pesquisador (KOERNER, 2014, p. 66), embora,
“filologia” signifique, originalmente, “amor pelo estudo e pela literatura” nas três línguas, o
francês e o alemão preservaram esse sentido e ainda acrescentaram a ele “o estudo dos textos
literários”. Entretanto, o inglês, por usar esse termo no sentido de “linguística histórico-
comparativa”, acabou associando o sentido do termo “filologia” ao “estudo histórico de
textos”, que nos países de língua alemã era o mesmo que “comparação de línguas”, em
especial no final do século XIX até meados do século XX. Eis, aqui, uma cisão, uma nova
direção para o sentido de um mesmo termo para pesquisadores de línguas diferentes.
Antes, porém, de explicar como se originaram os debates em torno dos conceitos de
filologia e de linguística, Koerner (2014, p. 66) deixa em evidência as características que uma
disciplina verdadeiramente autônoma deve ter. São elas: desenvolver a sua própria
metalinguagem e as suas próprias ferramentas terminológicas.

KOERNER, E.F.K. Quatro décadas de historiografia linguística: estudos selecionados. Vila Real: Universidade
de Trás-os-Montes e Alto Douro, Centro de Estudos em Letras, Coleção Linguística 11, prefácio de Carlos
Assunção, seleção e edição de textos de Rolf Kemmler e Cristina Altman, 2014, p. 65-73
Em seguida, divide o debate entre filologia e linguística em quatro momentos: os
inícios do século XIX, os meados do século XIX, com foco em Schleicher, a linguística
depois de Schleicher e as variantes modernas no debate entre filologia e linguística.
O início do século XIX é marcado, segundo Koerner (2014, p. 66-67), pelo surgimento
do termo “linguística”, nesse momento, muito associado ao termo “gramática comparativa”
(vergleichende Grammatik). Ele atribui o primeiro uso do termo “gramática comparativa” a
A. W. Schlegel, em 1803, enquanto considera o ano oficial do primeiro aparecimento do
termo “linguística” (Linguistik), no sentido de “ciência da linguagem” em um periódico,
1808. No entanto, apesar de o termo aparecer em 1808, não descarta que a linguística tenha
surgido antes desse ano e que a palavra linguistik derive do termo Universllinguistik, utilizado
por C. J. Kraus em uma obra publicada em 1787. Curiosamente, porém, o ano em que a
linguística passou a ser considerada ciência é 1816, com a publicação de uma obra de Bopp
Conjugationssystem. Além disso, o estabelecimento desse novo campo de estudo demorou
anos para se estabelecer, visto que os primeiros linguistas históricos ou histórico-
comparativos não conseguiram se separar da tradição filológica de fato. Um exemplo é Jacob
Grimm, que considerava seu trabalho uma “nova filologia”, e Georg Curtius, que não
conseguiu ser “infiel” à filologia.
Nas palavras de Koerner (2014, p. 69), em meados do século XIX, 1950 em diante, o
teórico Schleicher busca estabelecer a linguística como disciplina autônoma e, por isso,
posiciona-se “a favor de uma nítida distinção (e divisão de trabalho) entre linguística [...] e
‘Philologie’”, que seria “uma ‘disciplina histórica’, que considera a linguagem como um meio
para investigar o pensamento e a visa cultural de um povo”. Já a “Linguistik” seria uma
ciência natural, explica Koerner (2014, p. 69), e aqui reproduzo suas palavras, “porque o seu
objeto de investigação é acessível à observação direta e porque a linguagem está fora do
domínio da livre vontade do indivíduo”. Koerner (2014, p. 69) ainda esclarece que para
Schleicher o linguista pode precisar do auxílio da filologia, às vezes, assim como o contrário
pode acontecer e a filologia precisar da linguística. Mas, como os objetos de investigação são
diferentes, o linguista não precisa ser filólogo.
Ao tratar da linguística depois de Schleicher, Koerner (2014, p. 70-71) lembra que a
linguística tornou-se uma disciplina profissionalizada logo após a morte daquele pesquisador
e que Schleicher influenciou a forma como as gerações posteriores contrastavam a filologia e
a linguística. Koerner (2014, p. 71) destaca, no entanto, um discurso de Karl Brugmann, em
1885, no qual defende que linguística e filologia são campos complementares e não opostos,

KOERNER, E.F.K. Quatro décadas de historiografia linguística: estudos selecionados. Vila Real: Universidade
de Trás-os-Montes e Alto Douro, Centro de Estudos em Letras, Coleção Linguística 11, prefácio de Carlos
Assunção, seleção e edição de textos de Rolf Kemmler e Cristina Altman, 2014, p. 65-73
em um momento da história da disciplina em que a linguística já era autônoma e tal discussão
já não afetava a disciplina. Segundo Koerner (2014, p. 71), a partir desse momento, poucas
discussões em torno da relação entre esses dois conceitos ocorreram até a década de 1960.
No subtítulo da página 71, Variantes modernas do debate entre filologia e linguística,
Koerner (2014, p.71-72) esclarece que após o Curso de linguística geral, de Saussure,
publicado em 1916, os debates se centraram na própria linguística, ou seja, na relação entre
linguística histórico-comparativa, ou diacrônica, e linguística descritiva, ou estrutural e,
consequentemente, sincrônica, sendo que essa última só passou a ser mais aceita a partir da
década de 1960 e no continente europeu, mais precisamente. Na América do Norte, nesse
mesmo período, pesquisadores como Chomsky, passaram a fazer uma análise linguística
chamada de transformacional e gerativa, que não deixava de ser estrutural de certa forma. Em
suma, um conflito entre gerações de estruturalistas acabou por trazer à tona o debate acerca da
relação entre linguística e filologia. Segundo Koerner (2014, p. 72), em 1970, Arbuckle
desconsidera a distinção entre as disciplinas; Jankowsky, em 1973, subdivide em três, o termo
filologia; no mesmo ano, Anttila, mais próximo da linguística histórica, sustenta que a
linguística deve ter uma orientação filológica, ao passo que Bartsch e Vennemann são a favor
da criação de um novo termo, que seria geral, para que a “Linguistik” representaria a parte
teórica das ciências da linguagem.
Koerner (2014, p. 73) conclui essa discussão afirmando que essa discussão nunca vai
acabar e sempre poderá assumir rumos diferentes e que nessa nova relação entre linguística e
filologia, a linguística pode se beneficiar dos trabalhos da filologia, como ao tratar de
questões como a mudança linguística.

KOERNER, E.F.K. Quatro décadas de historiografia linguística: estudos selecionados. Vila Real: Universidade
de Trás-os-Montes e Alto Douro, Centro de Estudos em Letras, Coleção Linguística 11, prefácio de Carlos
Assunção, seleção e edição de textos de Rolf Kemmler e Cristina Altman, 2014, p. 65-73