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1 REFERENCIAL TEÓRICO

1.1 História e Evolução da Contabilidade

1.1.1 Definições, objetivos e origem etimológica da palavra

A Contabilidade enquanto ferramenta e instrumento para gerenciamento, registro e


controle do patrimônio, de acordo com BARROSO (2018), sempre foi de encontro com a
necessidade humana através dos anos, desde o Paleolítico, atravessando os períodos pré-
históricos até os dias atuais.

Para MARIANO; OLIVEIRA; SAVIAN (2016, p. 15) “a contabilidade pode ser


definida como sendo a ciência teórica e prática que estuda os métodos de cálculo e registro da
movimentação financeira de uma firma ou empresa”.

Envolvendo e nomeando diretamente os principais interlocutores da ciência contábil,


IUDÍCIBUS (1994) a define da seguinte forma:

A Contabilidade, na qualidade de metodologia especialmente concebida para captar,


registrar, acumular, resumir e interpretar os fenômenos que afetam as situações
patrimoniais, financeiras e econômicas de qualquer ente seja este pessoa física,
entidade de finalidade não lucrativa, empresas, ou mesmo pessoas de Direito
Público, tais como: Estado, Município, União, Autarquia etc.

Quanto ao seu objetivo, MUNIZ; RAMOS (2015, p. 5-6) coloca em evidência o


registro, sistematização e documentação dos atos e fatos de natureza econômico-financeira
que afetam uma organização (pública ou privada) no curso de sua existência”.

Pela ótica de BÄCHTOLD (2011, p. 162):

Um dos objetivos da Contabilidade é gerar informações para a tomada de decisões,


conhecida como Contabilidade Gerencial. Por isso, é fundamental existência de
ferramentas que possibilitem conhecer a real situação e atender a esta missão.
Compete à Contabilidade registrar os atos e fatos administrativos e produzir
informações que possibilitem ao administrador planejar e controlar suas ações, para
traçar os objetivos da entidade.

A origem etimológica da palavra Contabilidade é proveniente do termo em Latim


COMPUTABILIS, incorporado na língua portuguesa, numa tradução livre como: “o que se
pode contar; contável”, que por sua vez é de um outro termo COMPUTARE, tendo como
tradução “contar, calcular”.

Realizando uma divisão para uma análise em separado da composição da palavra,


notamos também que COM, no latim, está atrelado a “junto, conjunto” em português e já
PUTARE a “avaliar, estimar”, proporcionando mais clareza quanto ao significado da palavra
ao evidenciar que sua bagagem etimológica não abre margens para uma conotação e sim uma
denotação, que é quando atribuímos às palavras, estendendo-se também a termos e expressões
um sentido literal.
1.1.2 Panorama Histórico da Contabilidade
A história da contabilidade foi construída através dos séculos de maneira gradativa e
concisa para garantir a conformação de detalhes normativos, teóricos e funcionais como
ciência ao redor do mundo.

Tendo origens que apontam para os períodos mais primitivos da raça humana, quando
os Homo sapiens, no período Paleolítico Superior (conhecido como Idade da Pedra Lascada),
utilizavam-se de ossos e chifres de animais para a confecção de artes rupestres em cavernas
que sintetizavam registros contábeis, ainda que rudimentares, para controle de seu patrimônio,
desde elementos derivados da colheita, da criação e contagem de gado, instrumentos de pesca
e até de caça, aproximadamente 20.000 A.C (IÚDICIBUS, 2010)

Sob a ótica dos estudos de Sá (1997, p. 20), a arte rupestre mencionada e representada
pelos desenhos e expressões artísticas dos povos primitivos está comprovadamente ligada
com o conceito contábil de avaliação patrimonial, conforme relato a seguir:

Antes, pois, que o homem soubesse escrever e calcular, já estas manifestações


ocorriam. Algumas têm sido confundidas com manifestações artísticas, embora
historiadores famosos, como Melis, e arqueólogos consagrados, como Figuier, não
tenham deixado dúvidas quanto à sua natureza contábil.

No período Neolítico, conhecido como Nova Idade da Pedra e Idade da Pedra Polida,
que teve início por volta de 7.000 A.C, de acordo com POSSAMAI; COELHO (2015, p. 7):

O homem neolítico descobre as vantagens de viver em grupo. As estruturas


sociopolíticas são mais sólidas, ou seja, determinados grupos ocupam certas regiões
sob a influência de um líder, geralmente mais velho, o mais esperto ou o que tivesse
mais força física. Os homens saíam para caçar, e as mulheres ficavam cuidando das
aldeias, com seus filhos. Com mais tempo de convivência em grupo, desenvolveram
as primeiras atividades de lazer. O comércio foi aperfeiçoado e o homem neolítico
cria o dinheiro, que inicialmente era representado por sementes de cores diferentes.
Muitas evoluções aconteceram na era neolítica, que é considerada o último período
pré-histórico.

Segundo MARIANO; OLIVEIRA; SAVIAN (2016), a contabilidade recebe seus


primeiros protótipos de aplicações práticas pouco rudimentares, segundo relatos. entre as
civilização dos sumérios, que ocupava o sul da Mesopotâmia, atual território do Iraque, entre
os rios Tigres e Eufrates, derivando-se da necessidade humana de controle já mencionada
originada aproximadamente 20.000 A.C, e que foi aprimorada ao decorrer do tempo.

Ainda a respeito do período conhecido como Racional-Mnemônico, sobre os sumérios,


MARIANO; OLIVEIRA; SAVIAN (2016) ainda relata: “Esses primeiros registros contábeis
constituíam-se em fichas de barro, guardadas em receptáculos de barro, que eram utilizadas na
contagem do patrimônio”. É importante ressaltar que para IÚDICIBUS (2010), os babilônicos
também compartilham juntamente aos sumérios esses protótipos de registros contábeis pouco
rudimentares seguramente a partir do terceiro milênio antes de Cristo.

POSSAMAI; COELHO (2015, p. 11-12) detalha quais seriam os registros e


escriturações contábeis já realizadas por essas civilizações:
Aproximadamente 2.000 anos antes de Cristo, a Mesopotâmia já escriturava o
Razão, tinha inúmeras demonstrações e sumários de fatos patrimoniais, contava com
orçamentos de receitas e despesas públicas bem evoluídas e produzia balanços de
qualidade.

A escrituração patrimonial tinha uma grande importância não só para órgãos


religiosos e públicos, mas também para os comerciantes e homens ricos, que usavam
para medir seu patrimônio. Tão grande era a importância da escrituração que escolas
foram organizadas e boa parte das tábuas encontradas por historiadores foi
produzida por alunos dessas escolas de escrituração.

O Egito antigo também contribuiu para a propagação da contabilidade a partir da sua


utilização pela necessidade de arrecadas tributos, sendo este o principal estopim para os
escribas efetuarem controles de valores monetários com a moeda egípcia vigente na época, o
shat de ouro e de prata. MARIANO; OLIVEIRA; SAVIAN (2016) pontuam:

Nesta época, a contabilidade era utilizada para medir a quantidade de determinado


bem que uma pessoa possuía e qual era seu valor de troca. Também era avaliado o
quanto determinado bem acrescentava ao seu patrimônio. Eram as primeiras
atividades comerciais que surgiam e junto à necessidade de acumular e constituir um
patrimônio de valor.

Outras cidades também abarcavam os princípios ainda simplórios da contabilidade,


como Creca, na Grécia antiga conforme aponta POSSAMAI; COELHO (2015, p. 13): “as
atividades comerciais e bancárias eram intensas na Grécia e contribuíram para a melhoria da
escrita contábil, que contava com um livro de registro, denominado Gramata”, e na cidade de
Roma, na Itália onde a Contabilidade visava medir a eficiência dos administradores do
Império Romano ou mesmo dos empresários da época, mediante registros exatos e
minuciosos evidenciados através de escrituras governamentais que descreviam receitas e
despesas, lucros, perdas e divisões de lucro. MARIANO; OLIVEIRA; SAVIAN (2016)

O impacto da contabilidade também é perceptível nos tempos bíblicos, a partir dos


relatos nos livros que compõe a Bíblia. No antigo testamento, o livro de Gênesis capítulo 41,
versículos 48 - 49 retrata que José, na posição de Governador do Egito, respondendo
diretamente a Faraó realiza constantemente inventários no estoque para acompanhar a entrada
de mantimentos provenientes a colheita durante sete anos de abundância e fertilidade das
terras egípcias:

“48 E ajuntou José todo o mantimento que houve na terra do Egito durante os sete
anos e o guardou nas cidades; o mantimento do campo ao redor de cada cidade foi
guardado na mesma cidade. 

49 Assim, ajuntou José muitíssimo cereal, como a areia do mar, até perder a conta,
porque ia além das medidas”.

Ainda no Antigo Testamento bíblico, em caráter mais intimista contudo igualmente


voltado para avaliação patrimonial, nos é apresentado Jó, em seu livro homônimo, um homem
muito rico reconhecido por Deus por sua devoção e suas virtudes. O levantamento inicial de
seu patrimônio inventariado é feita no livro de Jó, capítulo 1, versículo 3 como sendo:

“3 [...] sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas
jumentas; era também mui numeroso o pessoal ao seu serviço, de maneira que este
homem era o maior de todos os do Oriente”.
Após perder todo seu patrimônio inicial e conciliar-se com Deus, a Bíblia relata a
existência de um novo inventário no livro de Jó, capítulo 42, no versículo 12, cujo patrimônio
reavaliado de estoque (ativo circulante) foi de:

12 “[...] catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas”.

O Novo Testamento bíblico também evidencia mais atributos contábeis sendo


utilizados na antiga Palestina, nos tempos de Jesus de Nazaré, provando sua
importância até nas parábolas que o próprio Jesus utilizava para doutrinar seus
discípulos e seguidores, como por exemplo na parábola do credor incompassivo
(BÍBLIA, Mt 18:23-35, 1980), e quando falava sobre abnegação no serviço de Cristo
em comparação com a construção de uma torre, perguntando quem não iria calcular
custos e despesas antes de tudo para avaliar a viabilidade financeira do projeto
(BÍBLIA, Lc 14:28-30, 1980).

1.1.3 O contexto evolutivo da Contabilidade

Corroborando com o seu panorama histórico, a contabilidade apresenta um contexto


evolutivo muito interessante no decorrer dos tempos, apesar de gradativo e lento em
momentos anteriores ao desenvolvimento da escrita. Sua evolução como disciplina adulta e
completa, conforme IÚDICIBUS (2010), teve berços, principalmente, nas cidades italianas de
Veneza, Gênova, Florença, entre outras.

Essas cidades e outras a Europa fervilharam de atividade mercantil, econômica e


cultural, mormente a partir do século XIII até o início do século XVII. Representam
o que de mais avançado poderia existir, na época, em termos de empreendimentos
comerciais e industriais incipientes. Foi nesse período, obviamente, que Pacioli
escreveu seu famoso Tractatus de computis et scripturis — Contabilidade por
Partidas Dobradas — provavelmente o primeiro a dar uma exposição completa e
com muitos detalhes, ainda hoje atual, da Contabilidade.

Frei Luca Pacioli, nascido em 1445 na região de Toscana - Sansepolcro, na Itália, foi
um monge Franciscano e matemático que atualmente é reconhecido como o “pai” da
contabilidade, mais precisamente das partilhas dobradas, método este que integra seu livro
“Summa de Arithmetica, Geometria proportioni et propornalitá” — Conhecimentos de
Aritmética, Geometria, Proporção e proporcionalidade — publicado em Veneza quarenta e
nove anos após o seu nascimento. MARIANO; OLIVEIRA; SAVIAN (2016)

Há muitos relatos e articulações acerca da originalidade dos conceitos contábeis de


partilhas dobradas que o italiano Pacioli formalizou em seu livro. De acordo com
POSSAMAI; COELHO (2015, p. 20):

[...] antes da edição do livro de Luca Pacioli, algumas obras manuscritas, como a de
Abdullah Ibn Mohammed Ibn Kya al - Mâzenderâni, datada de 1330, de 277
páginas. Copiada em Teerã, com oito capítulos, já apresentava o Diário, Razão,
Livro de Apuração do Resultado, assim como diversos outros livros de contabilidade
e uma ideia embrionária de partidas dobradas em função da igualdade de débito e
crédito.

Outra situação semelhante, [...] refere- se à obra de Benedetto Cotruli, que foi escrita
em 1458, porém editada em 1573, intitulada Della mercatura e del mercante
perfetto, e que expunha a partida dobrada.
Não obstante a discussão que visa “patentear” o conceito das partilhas dobradas para
uma única obra/autor, a contabilidade viveu um momento de consagração, reconhecimento e
“formalização” a partir das revoluções que ocorreram entre os séculos XIV e XV na Europa,
como podemos ver a relação de obras formais publicadas sobre a contabilidade, ainda que não
em caráter único e exclusivo:

Quadro 1 – Autores e suas Obras

Autor Ano Obra

Manual de cálculo, com algumas páginas sobre partidas


Gian Francesco Aritmético 1516
dobradas.

Giovanni Antônio Tagliente 1525 Luminário de arithmetica, libro doppio.

Girolamo Cardano 1519 Practica arithmetica et mensurandi singularis.

Johan Gotlieb 1531 Ein Teutsch Verstending Buchhalten.

Domenico Manzoni 1540 Quaderno Doppio col suo giornale novamente composto etc.

Specchio lucidissimo nel quale si vedono essere tutti i modi,


Alvise Casanova 1558
et ordini di scrittura.

Angelo Pietra 1586 Indirizzo degli economia.

Bartolomeu Salvaddor de Solorzano 1590 Livro Caixa.

Giovanni Antonio Moschetti 1601 Contabilidade Industrial.

Bastiano Venturi 1665 Contabilidade e Gestão Agrícola.


Fonte: POSSAMAI; COELHO (2015)

Como um reflexo da evolução do pensamento contábil, mediante a propagação do


conhecimento formalizado, houve o surgimento de inúmeras escolas para propor avanços na
essência do estudo da contabilidade, com perspectivas diversas contudo nem todas lograram
avanços palpáveis, concentrando-se muitas vezes em na sua própria natureza empírica.
(POSSAMAI; COELHO, 2015)

Houve uma vigorosa ascensão das escolas do pensamento contábil europeias como
resposta a necessidade de debater e promover uma livre difusão de ideias, conforme aponta
IÚDICIBUS (2010), mas havia impasses ideológicos que freariam aos poucos a ascensão
crescente em virtude do apelo desacerbado pela personalidade entre mestres e discípulos que
integravam o corpo docente e discente dos colegiados.
Quadro 2 – Escolas do Pensamento Contábil

Século Escola Pensadores Ideia Principal

Benedetto Cotrugli e
XV Contista As contas, em qualquer situação, representam uma pessoa.
Luca Paccioli

Benedetto Cotrugli e A relação entre a Administração Economia e a


XIX Lombarda
Luca Paccioli Contabilidade.

Francesco Marchi, As contas deveriam ser abertas para pessoas verdadeiras,


XIX Personalista Giuseppe Cerboni e sendo que o crédito e débito dessas pessoas seriam o dever
Giovani Rossi e o haver das pessoas para as quais se abriram as contas.
Enunciava ser o resultado o objeto de estudo da
XIX Reditualista Eugen Schmalenbach
contabilidade.

Fabio Besta, Vittorio A administração patrimonial de uma Organização, com o


XIX Veneziana
Alferi e Pietro Rigobon fim de produzir novas riquezas.
Fonte: BARROSO (2018)

1.2 A Revolução Industrial aplica à Contabilidade

1.2.1 A 1ª Revolução Industrial e a Contabilidade 1.0


1.2.2 A 2ª Revolução Industrial e a Contabilidade 2.0

1.2.3 A 3ª Revolução Industrial e a Contabilidade 3.0

1.2.4 A 4ª Revolução Industrial e a Contabilidade 4.0