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XVI Simpósio Nacional de Ensino de Física 1

MECÂNICA DOS FLUIDOS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A


VISCOSIDADE .

Odete Pacubi Baierl Teixeira a [opbt@feg.unesp.br]


José Lourenço Cindra a [jlcindra@uol.com.br]
Marco Aurélio Alvarenga Monteiro b [maureliomonteiro@uol.com.br]
André Ricardo Soares Amarante c [andre@feg.unesp.br]
a
UNESP - Guaratinguetá
b
EEAR – Escola de Especialistas de Aeronáutica e UNESP – Bauru
c
Colégio Técnico Industrial de Guaratinguetá e UNESP - Bauru

Resumo

A proposta deste trabalho consistiu em resgatar algumas considerações relacionadas à


viscosidade no sentido de utilizar a História da Ciência objetivando atender as
orientações contidas nas propostas e tendências inovadoras relacionadas ao ensino de
ciências. Acreditamos que uma abordagem envolvendo aspectos históricos pode
subsidiar o trabalho de sala de aula propiciando a inserção de estratégias didáticas no
sentido de possibilitar uma maior interação e maior interesse dos alunos em situações
que explorem conteúdos de Física. Optamos por trabalhar com conteúdos relacionados à
Mecânica dos Fluidos por entender que são poucos os textos de caráter histórico que
tratam desse tema importante da Física.

MECÂNICA DOS FLUIDOS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A


VISCOSIDADE .

A viscosidade é uma quantidade que descreve a resistência de um fluido ao escoamento. Os fluidos


resistem tanto aos objetos que se movem neles, como também ao movimento de diferentes camadas
do próprio fluido.

A força de viscosidade é dada pela fórmula de Newton:

dv
F = ηA
dx

η é o coeficiente de viscosidade dinâmica, A a área da placa que se move no fluido, x é a direção


perpendicular a v e perpendicular a A.
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No sistema internacional a unidade de viscosidade η é pascal segundo [Pa.s]. Apesar disso, esta
unidade é pouco utilizada. A unidade de viscosidade mais usada é o poise [P], em homenagem ao
fisiologista francês Jean Louis Poiseuille (1799 – 1869). Dez poise são iguais a um pascal segundo
[Pa.s], fazendo um centipoise [cP] e um milipascal segundo [mPa.s] idênticos.

A passagem de um escoamento laminar para turbulento era um problema bastante


sério. Há um critério para saber se um escoamento é laminar ou turbulento. Trata-se do famoso
número de Reynolds. Em 1883, Osborne Reynolds (1842-912) concluía que, se para determinada
velocidade de escoamento e determinada forma geométrica de um corpo que se move num fluido
viscoso, a relação entre forças de inércia e força de viscosidade é pequena, o escoamento deve ser
laminar, mas se for grande, ele passa a ser turbulento. Trata-se do famoso número de Reynolds:

R = ρul/η ou R = ul/ν,

onde ρ é a densidade do fluido, u a velocidade relativa entre o corpo e o fluido, uma dimensão
linear característica do corpo, η é o coeficiente de viscosidade dinâmica. Se R é menor que mais ou
menos 2000 pode ser considerado pequeno, caso contrário, será grande.

Como o coeficiente de viscosidade cinemática é ν = η/ρ, obtemos a segunda expressão acima para o
número de Reynolds. O número de Reynolds é um critério muito importante em todo o estudo da
mecânica dos fluidos.

A situação modifica radicalmente na virada do século XIX para o século XX, quando Ludwig
Prandtl (1875 – 1953), hoje, chamado de “pai da hidrodinâmica moderna”, em 1904, introduzia uma
nova teoria neste domínio. Trata-se da teoria da camada limite (boundary layer, em inglês,
Grenzschicht, em alemão, couche limite, em francês, pogranítchnii sloi, em russo).

A conbribuição de Prandtl foi fazer ver que, quando um sólido se move num fluido, podemos
dividir esse fluido em duas regiões. A maior parte do volume do fluido pode ser tratada como fluido
potencial. Nesta região, os efeitos da viscosidade são, em geral, desprezíveis. Apenas numa pequena
região próxima ao sólido os efeitos da viscosidade passam a ser dominantes. Esta região constitui
uma camada delgada em torno do corpo, conhecida como camada limite. Levando em conta esta
camada limite, desaparece paradoxo de d’ Alembert.

Jean Charles Borda (1733 – 1799), mais conhecido como Chevalier de Borda, um matemático e
astrônomo náutico francês, comentou que as correntes dos fluidos são “mais sofisticadas que o mais
sofisticado caráter de uma dama” (TOKATY, 1994, p. 83). Ele queria dar um aviso de que nem
todas as correntes de fluidos (escoamentos) estão em harmonia com as leis de Daniel Bernoulli e de
Leonardo da Vinci. Em particular, a fórmula de Torricelli não é totalmente correta. Antes dos
experimentos de Borda, pensava-se que a força de arraste resultante da combinação de corpos
poderia ser computada como uma simples soma dos arrastes individuais de cada corpo da
combinação. Borda foi o primeiro a mostrar que isso não era correto. O arraste total de duas esferas
colocadas próximas uma da outra e movendo-se na água ou no ar, geralmente, difere da soma das
resistências de arraste dos dois corpos quando separadamente. Hoje conhecemos este fenômeno
como interferência hidrodinâmica.

Chevalier de Borda foi presidente da Comissão dos Pesos e Medidas, criada durante a Revolução
Francesa, em 1790. Foi por insistência de Borda que a proposta de escolher como unidade de
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comprimento a medida do comprimento de um pêndulo de período igual a um segundo (pêndulo de


segundo) foi rejeitada. Borda defendeu a escolha um décimo de milionésimo da distância do
Equador ao Pólo Norte como a unidade de medida a ser escolhida, criando-se assim o sistema
métrico decimal.

Outra contribuição original de Borda foi seu teorema que a resistência aerodinâmica seria
proporcional à velocidade ao quadrado (como na fórmula de Newton) e ao seno do ângulo de
ataque, diferentemente da fórmula de Newton.

Theodore von Kármán (1881 – 1963), nascido na Hungria e falecido nos EUA, foi um grande
especialista em mecânica dos fluidos e, em aerodinâmica, em particular. Aprofundando os estudos
de Borda, Kármán afirmou que dois corpos movendo-se separadamente estão livres da chamada
“esteira de vórtice” (vortex street) de Von Kármán. Entretanto, quando esses corpos são colocados
juntos, lado a lado, há a formação de vórtice na parte posterior à incidência do fluxo.

Figura 1 – Esteira de Vórtice

Para exemplificar este fenômeno, consideremos uma asa de avião: para um grande ângulo de
ataque, o fluxo de ar na parte superior da asa é intenso, ou seja, apresentando maior velocidade,
produzindo uma maior turbulência, gerando, conforme previsto por von Kármán “esteira de vórtice”
(vortex street). Se, contudo, adaptarmos à asa peças auxiliares, o padrão do fluxo sobre ela melhora
significativamente e a interferência torna-se favorável.

Figura 2 – Vórtice formado na parte superior da asa.

Os construtores de avião conhecem bem este efeito. As asas interferem com o padrão do fluxo da
cauda do avião; a fuselagem interfere com os padrões dos fluxos das asas e da cauda, e assim
sucessivamente.

A seguir, algumas fotos, envolvendo fenômenos de vórtices na atmosfera terrestre, obtidas via
satélite.
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Figura 3 – Baia de Hudson, Canadá.

Figura 4 – Ilhas Canárias.

Figura 5 – Ilha Guadalupe.

Referências

DUGAS, R., A History of Mechanics, Dover, New York, 1988


KALIDE, Wolfgang, Introducción a la hidrodinámica técnica, Ed. Urmo, Bilbao, 1969.
PEDERSON, O. Early Physics and Astronomy, Cambridge Univ. Press, Cambridge, 1993.
TOKATY, G. A., A History and Philosophy of Fluid Mechanics, Dover, N. York, 1994
WEBBER, Mecánica de fluidos para ingenieros, Ed. Urmo, Bilbao, 1969
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