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29º Congresso Nacional da Federação de Arte/Educadores do Brasil

7º Congresso Internacional de Arte/Educadores


“Nortes da Resistência: Lugares e contextos da Arte-educação no Brasil”

FORMAÇÃO NAS LICENCIATURAS EM ARTES: POLÍTICAS COMO


PROJETOS DE DOMINAÇÃO

Maria Cristina da Rosa Fonseca da Silva1 – UDESC

1 Introdução

Parece redundante dizer que se está vivendo tempos difíceis, mas a afirmativa não é um
recurso de retórica, é uma necessidade de fazer registro do momento que estamos vivendo e
produzir material para que as gerações futuras possam considerar como elemento de análise.
No Confaeb de Brasília, quando se falou em ser cardume, não se tinha noção da rapidez
e da perversidade do que estaria por vir nesse quase um ano até aqui. Quase tudo foi perdido,
dos direitos trabalhistas aos direitos sociais, das riquezas naturais ao pré-sal. Perdeu-se o
Ministério da Cultura, o sistema da cultura e os recursos da Capes e do CNPq. Perdeu-se com
os cortes nas universidades públicas. Perdeu-se as equipes técnicas da Funarte, que foram
trocadas por equipes partidárias. E, apesar de Bacurau e outros filmes nacionais de sucesso, o
cinema também vem perdendo, sendo vítima de ataques diuturnos. Ainda, representando a luta
de todas as mulheres, perdeu-se Marielle Franco que, assassinada por motivo político, até hoje
tem o seu assassino impune.
Quem matou Marielle?
É preciso que se continue de mãos dadas, mas só dar as mãos não vai ser o suficiente. É
preciso lutar para derrotar o fascismo e parar de perder. A exemplo disso, ao lutar, que se siga
Gramsci (apud CARTA MAIOR, 2017):

Odeio os indiferentes. Creio que viver significa tomar partido. Quem


verdadeiramente vive, não pode deixar de ser cidadão e partisano. A
indiferença e a abulia são parasitismo, são canalhice, não vida. Por isso odeio

1
Professora doutora da Udesc, no Departamento de Artes Visuais e nos programas de pós-graduação: Profartes,
PPGAV e PPGE. Coordenadora do Projeto em Rede Observatório no Âmbito do Ensino de Arte.
cristinaudesc@gmail.com

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os indiferentes. [...] Sou partidário, estou vivo, sinto já na consciência dos que
estão ao meu lado o pulso da atividade da cidade futura que os do meu lado
estão construindo. Nela, a cadeia social não gravita sobre alguns poucos; nada
que está nela acontece por acaso, nem é produto da fatalidade, e sim obra
inteligente dos cidadãos. Ninguém que está nela fica olhando da janela,
passivamente, o sacrifício e a sangria dos outros. Vivo, sou partidário. Por isso
odeio quem não toma partido. Odeio os indiferentes.

O texto de Antônio Gramsci assombra pela atualidade acerca da indiferença. As palavras


cabem como uma luva na realidade atual do Brasil, cuja avassaladora ofensiva conservadora do
capital cresce em conluio com a burguesia nacional, que dilapida as riquezas do país
imobilizando cegamente o seu próprio crescimento.
No escopo deste artigo, está a análise do parecer que aprova as diretrizes para a formação
de professores para a educação básica, em especial do seu objetivo de implantação da Base
Nacional Comum Curricular. Assim, na seção 2, serão abordadas as principais características
do projeto neoliberal-conservador e, na seção 3, é feita uma análise sucinta do parecer de
setembro de 2019 para a adequação das diretrizes à BNCC. Por fim, apontam-se considerações
acerca da necessidade de um movimento associativo da Federação de Arte-Educadores do
Brasil (Faeb) às lutas que se impõem.

2 O papel do Estado no capitalismo

O que os ataques à educação revelam?


Evidenciam a escola como alvo das novas necessidades do capital em crise.
Parte-se, assim, da análise do texto de Santos (2019) 2, em que a autora disseca os
caminhos da iniciativa privada e seus intelectuais orgânicos para se abocanhar uma gorda fatia
do dinheiro público, e aponta o papel do Estado como facilitador desse processo. Talvez seja
nesse ponto de discussão que se solidifique o argumento da relação entre “financeirização” e
formação de professores, pois as políticas educacionais que interferem na escola de modo geral,
e no ensino de arte em particular, foram, ao longo dos anos, criando consensos e influenciando
a adaptação de professores a esse modelo neoliberal.
Ressalta-se, no entanto, que os ataques não são direcionados unicamente à educação
básica, pois também apontam para as universidades públicas. Os contingenciamentos

2
Em seu estudo, a autora se propõe analisar a inserção do setor empresarial na política de formação continuada
dirigida aos professores do ensino fundamental da rede municipal de ensino de Florianópolis, no período 2005-
2016, e sua articulação ao circuito de valorização no contexto capital-imperialista.

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produzidos no governo Bolsonaro, liberados meses depois de sua posse, impossibilitaram a


gestão de recursos públicos, uma vez que o atraso nos repasses inviabilizou o cumprimento do
calendário de licitações e obrigou a devolução de valores por impossibilidade de uso.
Importante lembrar que a década de 1990 foi o marco da expansão neoliberal sobre a
América Latina, quando especialmente o Brasil e suas políticas públicas imprimiram novos
modos de organização dos sistemas de ensino, ora cedendo à pressão de movimentos sociais,
ora implementando o tal projeto neoliberal.
O projeto em rede, Observatório da Formação no Âmbito do Ensino de Arte:
estudos comparados Brasil e Argentina, além de produzir estudos longitudinais sobre a
formação nas licenciaturas em artes visuais e temas correlatos, também vislumbra a necessidade
de intervenção na realidade com vistas à qualificação da formação nos cursos de arte e, por
consequência, na escola. Ao mesmo tempo, O observatório destaca o papel da arte como espaço
de resistência, não desconsiderando a necessidade de atuação política dos educadores em outros
espaços sociais, pois a arte sozinha não transforma a realidade. O que transforma a realidade é
a ação conjunta de homens e mulheres em diferentes âmbitos da realidade social.
Por que interessa estudar o papel do Estado na atual conjuntura? Porque ele é peça-
chave na implementação das propostas de precarização da educação.
As parcerias público-privadas se instalaram no aparelho estatal, trazendo o setor
empresarial, apropriando-se do fundo público, ampliando o processo de “mercadorização” e
privatização da educação básica, segundo Santos (2019).
Outra referência fundamental é Mészaros (2015) cujo texto A montanha que devemos
conquistar desconstrói qualquer visão sobre a atuação do Estado na sociedade capitalista como
um protetor das camadas populares. Ele, assim como outros autores, têm mostrado o contrário
disso: a atuação do Estado como braço fundamental do capitalismo.
Para a naturalização da atuação do setor privado como instituição capaz de qualificar o
setor público, é preciso antes construir uma rede difamadora que desqualifique o atual serviço
público de saúde, educação e de formação docente, inclusive, para, em consequência disso,
criar um consenso perante a sociedade sobre a necessidade de privatização desses setores.
Talvez não somente a privatização clássica, em que o ente privado compra por um valor muito
abaixo o bem público, mas também outras formas de exploração, desde as parcerias público-

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privadas, até a participação direta nos processos de assessoramento, oferta de produtos e


serviços para o Estado (com alto custo e pouca experiência do fornecedor) na área educacional 3.
No processo relatado anteriormente, há uma paulatina intenção de esvaziamento da
formação, tanto para professores, quanto para os estudantes. Nesse cenário, o conhecimento
prático ganha espaço em detrimento do conhecimento científico, rompendo com a dialética
entre teoria e prática. Nesse processo de precarização da formação, os slogans, os processos de
reconversão (ampliação e acúmulo das tarefas dos docentes) alimentam a alienação dos
professores e, por consequência, ocorre a ampliação do consentimento ativo, construindo-se
uma adesão consentida ao projeto da fração empresarial (SANTOS, 2019). A autora traz a
contribuição de Freitas (2012) com base no neotecnicismo, que se apresenta em três categorias:
a responsabilização, a meritocracia e a privatização. A responsabilização desloca o fracasso
pedagógico do Estado para os professores; a meritocracia cria uma intensa competitividade
entre os docentes; e a privatização repassa recurso público para entes privados, como já
abordado.
Nos últimos anos, vem ocorrendo um lento processo de desgaste do trabalho docente
que, em uma crescente, responsabiliza o professor pelos resultados educacionais problemáticos
e cria a necessidade de reformas que possam trazer melhores resultados educacionais.
Na próxima seção, aborda-se como se dá a relação entre a produção de documentos e as
estratégias de conformação docente.

3 A conformação docente: estratégias a partir de documentos legais

Aqui, analisa-se a terceira versão do parecer que fundamenta a reforma da Resolução n.


2, de 1º de julho de 2015, cujo objeto é definir as Diretrizes Curriculares Nacionais para a
formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para
graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada. Essa resolução foi
analisada por Fonseca da Silva e Bujan (2016), mas, na atual conjuntura, ganha outros
contornos de conformação docente.
A justificativa da reforma é defendida por seus propositores como necessária, tendo em
vista a adaptação da resolução aos princípios postos na BNCC. Segundo o texto:

3
Nesse caso, há exemplos de empresas, como Natura, Oi e O Boticário, que atuam realizando formação docente
na educação básica.

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Este Parecer tem como objetivo central fazer uma revisão e atualização da
Resolução CNE/CP no 02/2015, fundamentada no Parecer CNE/CP No
02/2015, levando em conta a legislação vigente, em especial as Resoluções
CNE/CP N° 02/2017 e N° 04/2018, definidas com fundamento,
respectivamente, nos Pareceres CNE/CP no 15/2017 e no 15/2018 que
instituíram e definiram a implementação da Base Nacional Comum Curricular
(BNCC) para o conjunto de etapas e de modalidades da Educação Básica.
(BRASIL, 2019, p. 1)

Identifica-se aí um problema relativo ao processo de construção da base que


desconsiderou as contribuições da Federação de Arte-Educadores do Brasil (Faeb) e demais
associações do campo da arte. Assim, é necessário demarcar o olhar crítico sobre esse
documento buscando estratégias contra-hegemônicas que ampliem as possibilidades de
formação estética e artística dos indivíduos, indissociáveis de um processo de ensino-
aprendizagem vinculado com a formação sócio-histórica, vislumbrando, nesse caso, a
perspectiva de avanços sociais possíveis na sociedade capitalista.
Desse modo, os temas dos direitos dos sujeitos oprimidos (mulheres, negros, indígenas,
comunidades LGBT+) e outros aqui não nomeados, que conformam esse campo dos
marginalizados, das diferenças de classe social e da distribuição de renda, precisam compor os
conteúdos escolares e ser considerados nas práticas pedagógicas da escola. Por outro lado,
compreende-se que os conhecimentos sócio-históricos, produzidos pela humanidade ao longo
da história e apropriados pelas elites, precisam ser criticamente abordados na escola, pois,
conforme Saviani (2012), a falta de conhecimento das classes dominadas sobre os conteúdos
apropriados pelas classes dominantes é o que possibilita a opressão.
O parecer, objeto de análise aqui, está dividido em seis tópicos. Apesar de não serem
abordados todos, ressalta-se essa organização do documento, pois estão presentes muitos
anseios de professores ao longo da história de luta por escola pública de qualidade. Então, uma
primeira lida desatenta não possibilitaria ver todas as suas idiossincrasias. É necessário
investigar o documento, perceber quais são suas intenções e que fundamentos velados estão
postos nele. São esses aspectos que se busca destacar, inclusive porque, embora o documento
não exponha as condições de produção da desqualificação da escola pública, há coerência na
identificação dos problemas elencados. A sociedade capitalista constrói a desqualificação do
setor público nas crises cíclicas, que buscam recompor as perdas do capital, culpabilizando os
trabalhadores do setor público pela sua pretensa ineficiência.

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Os conceitos presentes na primeira parte do texto acerca do papel do Estado auxiliam


na análise do referido parecer. Destaca-se, assim, o ente estatal como braço que governa para o
capitalismo, mesmo em governos mais democráticos que ficam amarrados às lógicas do sistema
e, portanto, superar essas lógicas passa por superar a sociedade capitalista e seus interesses de
classe.

3.1 Apresentando o documento

A introdução do documento ressalta a importância de o país ter, pela primeira vez, um


consenso sobre os conteúdos básicos para aprendizagem em todo o sistema nacional, após a
aprovação da BNCC. Igualmente, ressalta a necessidade de que seja regulamenta a formação
inicial e continuada dos professores da educação básica na perspectiva dos princípios da BNCC.
Atrela também a necessidade de reforma das DCNs de 2015, da agenda da ONU para 2030 e
de documentos nacionais, como a LDB 9394/96, o Plano Nacional de Educação (PNL) e a
própria lei que cria a BNCC, a Lei 13.415/2017.
O documento traz, na seção 1.2, um histórico de documentos e projetos do governo
federal que tiveram como objeto a valorização do professor, iniciando pela constituição de 1988
e finalizando no Decreto n. 8.752, de 9 de maio de 2016. Ao final do histórico, que pretendeu
apresentar a valorização do professor, o documento constata que:

Apesar disto, como se verá no item seguinte, os níveis de aprendizagem


escolar não acompanharam todo esse esforço, mesmo com ampliação
significativa de recursos para todas as etapas da Educação Básica, conforme
se pode ver na Tabela 1. Por exemplo, em 2007, o investimento por aluno/ano
na educação infantil era de R$ 3.208; em 2015, esse valor passou para
R$6.443,00, praticamente o dobro daquele de 2007. (PARECER, 2019, p. 5).

Nota-se que a tese dos proponentes do documento é a de que não houve uma melhora
significativa dos níveis de aprendizagem, mesmo com o aumento do aporte no investimento.
Na seção 1.3, são apresentadas as análises acerca dos indicadores de aprendizagem e o
baixo valor da profissão docente no país. Além de tabelas e índices, ressalta-se que o texto
levanta uma problemática: a crítica à formação nas licenciaturas no tocante ao campo prático
da formação profissional. Ademais, o documento aponta que os cursos de formação não
relacionam teoria e prática, são fragmentados e suas disciplinas são dispersas. Prevalecem os

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conteúdos da área especializada do curso, distanciados dos fundamentos pedagógicos. Poucos


cursos aprofundam a formação na educação infantil e alfabetização.
O estágio também é criticado no documento, pois não há planejamento, não são
explicitadas as formas de realização e de atuação da supervisão. Da mesma forma, o documento
critica a falta de vinculação clara com as escolas e sistemas escolares. No tocante às
metodologias utilizadas pelos docentes, em geral, utilizam apostilas, resumos e cópias de
trechos, capítulos de livros, ficando evidente a pauperização dos conhecimentos oferecidos.
Causa estranhamento que, na sequência, o documento considere que os itens destacados
no parágrafo anterior tenham relação com a falta de professores com formação para atuar no
ensino fundamental e médio. Depois de apresentar duas tabelas com o déficit de professores, o
documento aborda que, por deficiências na formação anterior, os estudantes não conseguem
acompanhar o curso superior e que, por essa característica, evadem-se da universidade.
Finalmente, aponta a baixa valorização do professor, demonstrada nos índices internacionais, e
a necessidade de políticas educacionais para superar os desafios postos.
Na segunda seção do documento, o tema da valorização do professor é abordado
novamente, mas agora considerando duas metas do Plano Nacional de Educação, o PNE. O
texto retorna a análise da qualidade da formação básica versus melhores salários:

Por outro lado, vale salientar que não existe necessariamente uma relação
direta entre maiores salários e melhores resultados educacionais, mas o salário
e um plano de carreira estruturante, que leve em conta a formação ao longo da
vida e melhores desempenhos em sala de aula, são premissas relevantes para
avançar na atratividade (PARECER, 2019, p. 9).

O parecer considera que o Fundeb e a Lei do Piso Nacional são dois instrumentos para
atingir as metas do PNL, no entanto, ressalta a dificuldade de os municípios pequenos pagarem
os salários dos professores e atingirem a meta de investimento prevista no PNL até 2024.
Dados sobre a lotação dos professores que lecionam nas escolas destacam “[...] que
quase 1/3 dos professores que lecionam nos anos finais do ensino fundamental e no ensino
médio trabalham [sic] em duas escolas; e de cada cem professores que lecionam no ensino
médio cerca de 12.461 deles trabalham em 3 estabelecimentos de ensino [...]” (PARECER,
2019, p. 9), quando o mais adequado seria o professor estar integralmente em uma escola e
focar seus esforços em um único projeto pedagógico, conclui o documento.

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Já seção três, o parecer se propõe a analisar referenciais docentes e diretrizes que


regulamentam licenciaturas em 10 países. São eles: Austrália, Canadá (British Columbia),
Chile, EUA (Califórnia), Finlândia, Inglaterra, Nova Zelândia, Peru, Portugal e Singapura. O
estudo foi realizado pela Instituto Canoa a pedido do Movimento Profissão Docente4.
Segundo o parecer em análise, os referenciais internacionais para a formação docente
descrevem o que os professores devem saber e fazer. Tais referenciais são compostos por
descritores e diretrizes, que articulam aprendizagem, conteúdo e ensino, resultando em três
dimensões principais. A primeira delas diz respeito aos conhecimentos sobre como os
estudantes aprendem em diferentes contextos. A segunda se refere aos saberes específicos e
relacionados ao currículo. Já o terceiro diz respeito às relações professor-aluno, ao processo de
ensino e aprendizagem e ao desenvolvimento integrado de competências cognitivas e
socioemocionais.
Na análise dos documentos internacionais, o parecer sintetiza dez conclusões que são
apontadas como recomendações e que, por certo, serão evidenciadas nas novas diretrizes. Por
questão técnica para este artigo, as nove conclusões serão somente citadas aqui, mas se
encontram explicadas na íntegra no documento. São elas: (1) complementação pedagógica, (2)
duração dos cursos, (3) critérios de ingresso nos cursos da formação inicial, (4) currículo
clínico, (5) estrutura curricular para as licenciaturas, (6) perfil dos egressos, (7) agências
reguladoras, (8) EAD e (9) avaliação.
A Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional é o tema da seção quatro do parecer.
Inicia afirmando a vinculação das novas diretrizes com as dez competências destacadas na
BNCC, que, segundo o documento devem ser trabalhadas nas licenciaturas. Também destaca
que “Para isso será́ preciso oferecer uma formação que promova qualidades humanas. O mundo
atual está exigindo uma educação com significado, que promova tanto as competências
cognitivas como as chamadas socioemocionais.” (PARECER, 2019, p. 14).
Considerando o aporte da psicologia, o documento caracteriza cinco agrupamentos
comuns à experiência humana: abertura ao novo, amabilidade, autogestão, engajamento com o
outro e resiliência. Segundo o documento, a resiliência emocional considera “[...] que diz
respeito à capacidade de aprender com situações adversas e lidar com sentimentos como raiva,
ansiedade e medo” (PARECER, 2019, p. 14). Destaca-se que o documento explicita um

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Até a conclusão deste artigo, não se encontrou um site próprio do Movimento Profissão Docente, somente um
vinculado ao movimento Educação para Todos.

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conceito de competência: “O conceito de competência da BNCC envolve a mobilização de


conhecimentos, habilidades cognitivas e socioemocionais, atitudes e valores para o
enfrentamento de demandas complexas” (PARECER, 2019, p. 16) 5. Considera-se que essas
demandas complexas são oriundas das desigualdades produzidas pelo sistema capitalista e que
o discurso das competências, como já apontou Duarte (2008) traz a lógica empresarial para a
escola, desconsiderando suas diferenças.
Na seção cinco, o tema é a formação inicial do magistério da educação básica em nível
superior. O tópico apresenta alguns estudos como base para as propostas, entre eles os de Gatti
e colaboradores. Entre os aspectos abordados, realizou-se uma síntese das considerações. A
primeira delas apresentada pelo texto destaca que o processo formativo necessita de um
currículo ordenado por áreas de conhecimento que auxiliem a pensar de um modo integrado as
várias disciplinas do currículo escolar nos níveis fundamentais e médios, inclusive ressaltando
o caráter bacharelesco dos cursos que formam professores. Com base no estudo organizado por
Bernadete Gatti, o documento destaca algumas análises realizadas pela autora, como: a
necessidade de superar a visão histórica, que diminui a importância de gestores e cursos acerca
da formação docente nos cursos de graduação; ampliar a perspectiva de que o trabalho docente
reúne conhecimentos, competências, valores e posturas que considerem uma formação mais
coerente, integrada e interdisciplinar; e, por fim, aproximar as escolas e as instituições
formadoras.
O parecer ainda abarca novos marcos para o desenvolvimento de habilidades e
competências, ressaltando três deles: (1) necessidade de aprender o conteúdo como também seu
ensinamento posterior; (2) ênfase no trabalho em equipe, no envolvimento com o trabalho
coletivo na escola, com objetivos comuns que possam ser resolvidos pelo coletivo; (3)
competência de analisar seu próprio trabalho e como essa análise poderá produzir efeitos no
desenvolvimento dos estudantes. Esse mesmo tópico traz também a possibilidade de
formalização de institutos como locus de formação de professores, retirando a formação das
universidades como previsto na LDB, o que é refutado por diversas entidades, pois retira a
formação do âmbito da universidade.
Na seção 5.1 são abordados 13 princípios organizadores do currículo que dialogam com
o proposto na BNCC no tocante às aprendizagens. Na seção posterior, 5. 2, apontam-se

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Sobre a crítica às competências, ver Duarte (2008).

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princípios para a política de formação de professores para a educação básica. Esses princípios
consideram os marcos legais da educação brasileira e da BNCC. Na seção 5.3 são abordadas
três dimensões: conhecimento, prática e engajamento profissionais.
A seção 6 da legislação aborda a formação continuada, que exigirá outro artigo para
problematizá-la, dada a sua complexidade e relações com o todo deste artigo.
Por fim, destacam-se aqui algumas questões preliminares acerca dos apontamentos
registrados na tentativa de provocar profissionais da área a escreverem sobre esse tema.

4 Considerações finais

Nas considerações finais, retomam-se alguns aspectos apontados. O primeiro deles diz
respeito à necessidade de análise das políticas públicas para a educação e para a arte em suas
minúcias, buscando perceber o papel social do Estado na sociedade capitalista e sua condição
de ente responsável em implantar o projeto neoliberal na prática. Para êxito desse projeto, é
necessário desgastar a escola pública como espaço de aprendizagem, o professor como
intelectual responsável pela disseminação do conhecimento e, ao mesmo tempo, validar a
entrada de organismos privados e seus produtos no sistema educacional público, como já
abordado.
Na área da cultura e da arte, também essa política se materializa na perseguição aos
artistas, às produções e ao debate acerca da licença poética na arte.
Para enfrentar o avanço do projeto de financeirização da educação, é necessário
constituir um projeto coletivo de enfrentamento, que passe por organização da sociedade civil
e que sirva para a compreensão da essência dos fenômenos postos por meio da pesquisa. Para
tanto, a Federação de Arte-Educadores do Brasil (Faeb) e suas associações estaduais e regionais
atuam como espaços de organização e de luta dos professores de arte no Brasil. Há que se
destacar o papel dos grupos de pesquisa na análise e reflexão sobre os dados coletados, entre
eles o Observatório de Formação de Professores no Âmbito do Ensino de Artes: estudos
comparados entre Brasil e Argentina, que vem desde 2011 analisando as licenciaturas em
Artes Visuais no Brasil e comparando-as com os dados coletados na Argentina. Esses dados
têm como objetivo dar visibilidade aos dados sobre a realidade social dos professores de Artes
Visuais.
Considera-se que, entre as estratégias atuais de conformação docente, os princípios das
diretrizes de formação para a educação básica explicitam cinco agrupamentos comuns à

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experiência humana: abertura ao novo, amabilidade, autogestão, engajamento com o outro e


resiliência. Esses princípios estão explícitos no parecer número três, realizado pelo Conselho
Nacional de Educação (CNE), cujo objetivo foi adequar as diretrizes de formação para a
Educação Básica, a Lei 13.415/2017 que aprova a BNCC. Os agrupamentos focam na formação
socioemocional ao invés de focar na formação de professores como intelectuais. Ainda, não
abordam de modo explícito as condições estruturais para a qualificação da escola pública. A
formação emocional, na perspectiva do documento, precisa ser combatida, pois é o elemento
central da conformação docente, da resignação dos professores às condições existentes e à
desvalorização da profissão.
Abertura ao novo diz respeito às abordagens que tiram os estudantes do foco central,
objetivo da escola, esvaziando-a de conteúdos sócio-histórico e, ao mesmo tempo, tornando os
professores maleáveis às agruras do sistema. Outro aspecto chamado de amabilidade diz
respeito à conformação de sujeitos amáveis, incapazes de se revoltar contra as injustiças e
desigualdades e aptos a aceitar as condições de trabalho como algo natural e resultado das
mudanças da sociedade. Outra característica desses agrupamentos diz respeito à autogestão,
que abandona o professor a própria sorte como responsável pela sua formação que, na maioria
das vezes, é precarizada, pois as redes de ensino cada vez mais impedem os professores de
realizar formações de alto impacto, como a pós-graduação ofertada pela universidade pública,
preferindo muitas vezes a formação em serviço e ou a precarização na modalidade EAD.
Engajamento com o outro é mais uma das características socioemocionais que estimula o
trabalho em grupo, a percepção do outro e que o documento descreve pouco, podendo-se
encontrar correspondência nos pontos destacados no relatório Delors, mas no parecer
mencionado não há muito detalhamento, apenas destaque à motivação para trabalhar em grupo.
O quinto grupo diz respeito à resiliência, capacidade de adequar-se a situações adversas. De
todas as características, essa é a mais conformadora, pois propõe controlar o medo, a ansiedade
e a raiva. No entanto, não problematiza as condições geradas pelo trabalho que causa o medo,
a ansiedade e a raiva.
As escolas públicas, de modo geral desprovidas de condições necessárias de
infraestrutura e material, atendem a comunidades complexas e, desprovidas do apoio estatal,
depositam na equipe escolar as condições de sobrevivência. Nessa condição, os professores e o
próprio patrimônio da escola são vítimas de violência. Nesses casos, há pouco ou nenhuma
condição de apoio aos profissionais, à escola e para a formação de qualidade.

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Finalmente, todo esse cenário desfavorável, aliado a uma pedagogia de competências


protagonizada pela BNCC, aprofunda o fosso de aprendizagem na escola. Na área de artes,
subsumida a área de linguagens, a BNCC produz um abismo entre a formação pragmática para
as necessidades do mercado e a ampliação do caráter humanizador da arte, livre da alienação e
que torna o sujeito rico de necessidades.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Parecer que reformula as Diretrizes Nacionais para a


Formação de Professores para a Educação Básica. Texto Referência – Formação de
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Manaus / MA – Brasil
DE 13 A 17 DE NOVEMBRO DE 2019 56
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