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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO


COMARCA DE SÃO PAULO
FORO CENTRAL - FAZENDA PÚBLICA/ACIDENTES
15ª VARA DA FAZENDA PÚBLICA
Viaduto Dona Paulina,80, 14º Andar, Centro - CEP 01501-020, Fone:
3242-2333, São Paulo-SP - E-mail: sp15faz@tjsp.jus.br

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1056892-15.2021.8.26.0053 e código B9F8EA4.
Decisão-Mandado
Processo nº: 1056892-15.2021.8.26.0053 - Ação Civil Pública Cível
Requerente: Ministério Público do Estado de São Paulo e outro
Requerido: PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO

Valor da Causa: R$ 1.500.000,00

Juiz de Direito: Dr. KENICHI KOYAMA

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por KENICHI KOYAMA, liberado nos autos em 17/09/2021 às 17:29 .
VISTOS.

Trata-se de Ação Civil Pública Cível movida por Ministério Público do Estado de
São Paulo e outro em face de PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO na qual se busca a
concessão de antecipação dos efeitos da tutela para que seja determinado ao Município de São
Paulo que mantenha o projeto Rede Cozinha Cidadã em pleno funcionamento para atender à
demanda alimentar das pessoas em situação de rua existente, com o fornecimento não inferior de
10.000 marmitas/diárias, até que seja definida, de maneira concreta, alternativa viável e adequada
para atender à demanda existente, de forma integral e permanente, e apresentado plano de
transição entre a política emergencial e a política permanente, com estudo e diagnóstico sobre o
impacto de encerramento do projeto. No mérito, requerem a procedência da ação para que se
julgue procedente o pedido, para tornar definitivo os pedidos de tutela antecipada formulados e, ao
final, condene o Município de São Paulo a apresentar, em prazo razoável, estudo
técnico/mapeamento sobre a demanda alimentar das pessoas em situação de rua não acolhidas
atualmente existente na cidade de São Paulo, bem como planejamento voltado à satisfação eficiente
e eficaz dessa demanda, consistente em políticas públicas permanentes e balizadas pelos
parâmetros técnicos e teóricos da assistencial social e da segurança alimentar e nutricional. Por fim,
requer-se a condenação dos Réus em verbas sucumbenciais e honorários, a serem destinados ao
Fundo da Escola da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

Deixo de designar audiência de conciliação ante a indisponibilidade qualitativa do

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direito público que matiza a relação em análise, e ante a ausência de margem aos procuradores
públicos de transigir com o interesse administrativo (artigo 334, § 4º, inciso II, do Código de
Processo Civil). Ademais, sendo hipótese excepcional de pronta composição, PREFEITURA
MUNICIPAL DE SÃO PAULO poderá apresentar pedido de audiência ou proposta de
conciliação em preliminar de defesa.

A dedução de tutela provisória, segundo a Lei e histórica doutrina, não se dá


pautado exclusivamente no risco do direito. O risco de direito é – sabe-se – verso e reverso, e não
basta em si mesmo. Sensibiliza, contudo não decide. É mais inerente à Realidade das coisas e ao
Tempo que propriamente ao rito jurisdicional. Comumente, e aqui não é diferente, o dito perigo na

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demora é palpável. Some-se ao perigo, evidente impaciência da parte com a situação. Apesar de
tudo isso, o verdadeiro requisito pendente de análise é outro: probabilidade de direito, seja
decorrente de prova inequívoca, seja ao menos de fumaça de direito. Centro a análise, pois, nele.

Em suma, almejam os autores da ação concessão de tutela para que a


Municipalidade de São Paulo mantenha programa alimentar de população vulnerável instituída com
a deflagração do estado de calamidade pública decorrente da pandemia do Covid19. Assenta a
inicial que ainda que a gravidade da pandemia tenha arrefecido, é imperiosa a manutenção de
políticas públicas que mitiguem danos colaterais causados à sociedade, em particular à população
em situação de rua que se encontra mais vulnerável aos impactos socioeconômicos que se fizeram
acompanhar da crise sanitária. Indica-se com minúcia na exordial o quantitativo da população
afetada e o apelo humanitário concernente ao prosseguimento de assistência alimentar por meio do
Programa " Rede Cozinha Cidadã " da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania
(SMDHC) que teve início em 23 de abril de 2020, com fundamento na Lei 13.979/2020 e no
Decreto Municipal 59.283/2020, que determinou a situação de emergência na Cidade de São Paulo,
tendo como objetivos garantir a segurança alimentar e nutricional da população em situação de rua
da cidade de São Paulo por meio da distribuição de refeições em marmitex, frente ao cenário de
agravamento das vulnerabilidades sociais, decorrente do enfrentamento da pandemia do novo
coronavírus, de caráter emergencial, bem como diminuir aglomerações, conforme recomendação
da OMS, nos pontos de fornecimento de alimentação do Poder Público para população em
situação de rua, como o Bom Prato do Governo do Estado e os Núcleos de Convivência (SMADS)
da Prefeitura de São Paulo. Visou-se, ainda, fomentar a rede de comércio de alimentação da cidade
de São Paulo e toda a cadeia de abastecimento que fornece suprimentos a estes comércios
vinculados à distribuição de alimentos. Aduz , ainda, que em 2021 a Municipalidade implementou

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também o projeto Rede Cozinha Cidadã Comunidades para a entrega de marmitas diárias em 31
comunidades carentes da cidade de São Paulo, a fim de atingir outro público-alvo vulnerável, que
não as pessoas em situação de calçada. Salienta-se que mesmo com medidas protetivas adotadas
pelo Governo do Estado de São Paulo como oferta gratuita de refeições pela rede de Restaurantes
Bom Prato, a demanda da população atingida requer manutenção de toda rede de proteção, sendo
imperiosa a manutenção dos programas da Municipalidade.

Não obstante, alega-se que em setembro de 2021, em comunicação com a


Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania, noticiou-se que, considerando a disponibilidade
orçamentária da pasta para o Projeto Rede Cozinha Cidadã foram contratados apenas 31

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restaurantes com o período de contrato de 1 mês (31 dias), com previsão de encerramento
progressivo de contratos, com a redução diária do quantitativo diário de marmitas do projeto,
resultando em um mês em diminuição de 10.000 refeições diárias para 800 marmitas/diárias, em
apenas três pontos da cidade. Ainda, consoante a SMDHC, a pasta vem se preocupando com a
transição do programa, que é de caráter emergencial, para uma política permanente de segurança
alimentar e nutricional, de forma a garantir que a população atendida seja acompanhada pela rede
de atendimento socioassistencial e vinculada às políticas sociais existentes, o que se enquadraria no
que compreendem ser o eixo “recuperação”, ação prevista para a etapa de “pós-emergência”, que
coincide com os dados de imunização e as flexibilizações que a cidade tem adotado. Contudo, nos
termos da exordial, referida política ainda em vias de implementação não é suficiente para absorver
a iminente demanda emergencial que se mantém.

Argue-se, ainda, que foi editada a Lei nº 14.029, de 28 de julho de 2020, que
dispõe sobre a transposição e a reprogramação de saldos financeiros constantes dos fundos de
assistência social dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, provenientes de repasses
federais, que permite aos referidos entes a transposição e a reprogramação dos saldos financeiros
remanescentes de exercícios anteriores, constantes de seus respectivos fundos de assistência social,
provenientes do Fundo Nacional de Assistência Social, independentemente da razão inicial do
repasse federal, os quais serão unificados em rubrica orçamentária específica destinada à Proteção
Social de Emergência. Essa mesma lei, determina que a destinação desses saldos financeiros, devem
ser destinadas exclusivamente à realização de ações de assistência social, em conformidade com a
Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993, para o atendimento de crianças e adolescentes, idosos,
mulheres vítimas de violência doméstica, população indígena e quilombola, pessoas com deficiência
e população em situação de rua ou em qualquer circunstância de extrema vulnerabilidade

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decorrente de calamidade pública e para a ampliação do cadastro social representado pelo Cadastro
Único para Programas Sociais (CadÚnico). Destarte, tendo ocorrido o remanejamento de recursos
públicos, não se pode admitir que a Administração Pública haja com descaso, e, de forma
irresponsável e açodada, interrompa o fornecimento de alimentação às pessoas em situação de
calçada não albergadas, cuja demanda ela própria reconheceu existir, em momento de crise tão
singular.

Assenta que os direitos sociais previstos na Constituição Federal são


concretizados por meio de leis, portarias e regulamentos, que podem ser alterados por
procedimento mais simples que os de reforma constitucional. Neste sentido, surgiu a teoria da

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proibição do retrocesso social, que aponta que o grau de concretização de um direito fundamental
faz parte do conteúdo do próprio direito e que, por isso, são incabíveis e inconstitucionais leis que
atentam contra o grau de concretização de um direito social já efetivado.

Por fim, pleiteia-se que a ré seja compelida a apresentar estudo


técnico/mapeamento sobre a demanda alimentar das pessoas em situação de rua não acolhidas
atualmente na cidade de São Paulo, bem como planejamento voltado à satisfação eficiente e eficaz
dessa demanda, consistente em políticas públicas permanentes e balizadas pelos parâmetros
técnicos e teóricos da assistencial social e da segurança alimentar e nutricional.

Pois bem.

A demanda insere-se no contexto da pandemia do Covid19 e seus efeitos


deletérios à população, notadamente a população em situação de rua e ao risco de segurança
alimentar na hipótese de cessação de programa alimentar instituído pela Secretaria de Direitos
Humanos e Cidadania.

Desde de fevereiro de 2020 a sociedade mundial tem enfrentado a pandemia do


Corona Vírus, repercutindo em patente DESAFIO a todo Poder Público. Não apenas o Poder
Executivo tem adotado medidas extraordinárias, como o Poder Legislativo e o Poder Judiciário
tem dado sua cota de resposta para o quadro de crise. Sem dúvida que nem todas as decisões
administrativas, legislativas e judiciais impediram o crescimento da ameaça que paira entre nós. Não
conforta, e talvez não sejamos o melhor exemplo, mas se trata de um DESAFIO MUNDIAL,
onde Governos e Sociedades tem colaborado, cada qual em suas esferas, para organizar a melhor
RESPOSTA.
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A questão que se coloca está na ausência de política pública destinada a socorrer
população vulnerável em relação à excepcionalidade do contexto pandêmico, notadamente quanto
à previsão de suspensão de contratos com restaurantes para fornecimento de marmita em variados
pontos da cidade, em especial considerando que a recuperação econômica e melhoria de condições
da população afetada não se altera no curto prazo apenas com a liberação das atividades
econômicas, requerendo política assistencial de médio/longo prazos.

A causa sensibiliza o Juízo.

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É notório o aumento da população em situação de rua na cidade de São Paulo, o
que pressupõe ser imprescindível atuação dos poderes públicos para direcionar esforços de
assistência social, em particular, fornecimento de refeições que garantam segurança alimentar. No
entanto, apesar da sensibilidade trágica do tema, o dilema está fora de seu eixo. Registre-se que a
ninguém apraz manter as coisas no estado de omissão. Não se pode presumir que o Administrador
necessária, simples e automaticamente tenha deliberado em se omitir.

Ocorre que a providência é POLÍTICA e não puramente JURÍDICA.

Está mais afeta ao DIÁLOGO que ao DIREITO.

E nesse diálogo, a responsabilidade e discricionariedade é do


ADMINISTRADOR.

Deve ser solucionado, portanto, em COOPERAÇÃO pelos entes públicos


envolvidos, na esfera estadual e municipal, e pela sociedade civil organizada, ainda que mediados ou
não pela Defensoria Pública e Ministério Público, na medida de suas atribuições constitucionais e
legais, mas longe da força do direito.

Significa: a SOLUÇÃO do desafio depende de COOPERAÇÃO POLÍTICA.

Prova disso é que, apesar da elevada importância do tema, o pedido contido na


peça inicial revela pouco sobre uma suposta ILEGALIDADE. Revela sobre valores e sobre visões.
Revela muito sobre o compromisso institucional e social dos autores. E para atingir tal finalidade, o
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pedido no fundo pauta-se pela vontade de se SUBSTITUIR ao Poder Executivo e fazer valer sua
própria intenção sobre a questão. Sem dúvida que a HERMENÊUTICA admite
INTERPRETAÇÃO OBJETIVA dos CONCEITOS INDETERMINADOS de tecnicidade ou
mesmo razoabilidade. O Direito Constitucional é profícuo em demonstrar. Contudo, no quadro
das coisas, a demanda insere-se na adoção de política pública abstrata dentro da perspectiva dos
autores, o que excede sua legitimação. Respeitadas as opiniões contrárias que por vezes entendem
que a elevada finalidade autoriza usurpar o poder institucional, ao meu ver, mesmo na
vulnerabilidade descrita, não cabe ao Poder Judiciário usurpar-se na função típica do Poder
Executivo ou criar norma a ser por ele cumprida, em usurpação de função típica do Poder

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Legislativo.

Todos devem ter em mente que se trata de objetivo comum, porém sem
contornos jurisdicionais. E talvez por isso o DESAFIO seja tão DIFÍCIL.

A pretensão depende de ESPÍRITO FEDERATIVO e de amadurecimento


paulatino da JORNADA HISTÓRICA da nossa sociedade, que não padece apenas dessa, mas de
tantas carências, todas urgentes. Nesse caso, a MISSÃO CONSTITUCIONAL está - ao menos
aparentemente e enquanto não justificado pelo administrador – sendo razoavelmente vivida,
conforme as possibilidades políticas de nossa sociedade.

É certo que o Constituinte elaborou uma pauta importante, mas sua


implementação depende de um conjunto de medidas, legislativas e administrativas, não cabendo ser
realizado direta e unilateral pelo Juízo, eis que depende de diálogo político, social e econômico,
conforme as possibilidades dos entes públicos envolvidos. Ainda que o Juízo indique a prioridade
da demanda em tela, não pode o poder jurídico vincular a forma de cumprimento dessa meta,
porque tal disposição depende do contexto de momento, de médio e de longo prazo, cujo projeto
de governo escapa à jurisdição.

Sem dúvida que o ESTADO CONSTITUCIONAL DAS COISAS inclusive me


faz refletir sobre como as carências complexas da realidade dialogam com as fronteiras do
DIREITO. Sobre isso, costumo registrar aspecto relevante em torno da interpretação da
sobrenorma chamada Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), que mais
recentemente à sua vigência acolheu regras próprias do Pragmatismo Jurídico, consequência dos
artigos introduzidos pela Lei Federal 13.665/2018. Talvez sugira pouco ao intérprete mais
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desatento, porém, na realidade existe aqui uma guinada de paradigma que escancara o fim de um
certo ISOLACIONISMO do Direito em face de outras Ciências. A inovação decorre da sucessão
de um modelo hermético de Direito que passa a ser colaborativo com a Realidade na qual atua, em
especial à vista do Direito Público. Até a Lei Federal 13.665/2018 não seria descabido apontar que
uma vez violado o direito objetivo, impunha-se a consequência ou reação normativa anteriormente
prevista. A reação era de Direito Puro, inerente a sua ínsita e fechada natureza, independente dos
valores sócio-políticos ou mesmo científicos que gravitavam em torno dessa previsão. Era uma
garantia de proteção ao próprio Ordenamento que sua Integralidade justificasse essa fronteira, a
fim de que fatores externos não prejudicassem o equilíbrio do sistema. Ocorre que a meu ver

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dentro de um modelo jurisdicional cada vez mais pragmático, no qual o Ativismo muitas vezes se
impõe com prestígio institucional, o Modelo Fechado dava sinais de superação. O
PRAGMATISMO de uma Realidade Complexa, na qual os valores jurídicos se tornaram partícipes
de valores multifacetados de ocasião ou de interlocução com o seu contexto fático, exigiam que a
ingenuidade anterior do Direito finalmente admitisse que precisava dialogar com as outras Ciências.

Acomodar a Realidade imperiosamente exige Diálogo.

O risco é descer da Balança e se ver na Arena.

Independentemente de tais riscos, o adensamento do papel político cada vez mais


evidente da Hermenêutica encontraram na Economia e na Política contrapontos que exigem ser
equacionados. As decisões administrativas e judiciais, não raras vezes, se apegam a premissas
abstratas que soam como absurdas à razoabilidade da economia e a política pragmática. Aí um dos
bastiões desse novo Regime Jurídico. Em face delas, expressamente no núcleo do DIREITO
PÚBLICO, assentou-se balizas na LINDB, entre os arts. 20 a 30, prevendo regras sobre segurança
jurídica e eficiência na criação e na aplicação do direito público. É possível dimensionar que se
vincula de certa forma a interpretação do Direito Administrativo, Financeiro, Orçamentário e
Tributário, objetivando uma leitura dialogada das finalidades. Cânone dessa ponte entre Ciências é
o artigo 20:

Art. 20. Nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com
base em valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências
práticas da decisão.
Parágrafo único. A motivação demonstrará a necessidade e a adequação da
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medida imposta ou da invalidação de ato, contrato, ajuste, processo ou norma
administrativa, inclusive em face das possíveis alternativas.

A abstração puramente científica do direito agora é INSUFICIENTE. O novo


grau de decisão pública se dá na convalidação do DIREITO pela sua CONSEQUÊNCIA. Um
império do FATO, na qual a interpretação se dá no campo das escolhas concretas. Sem dúvida que
a abstração desgarrada da realidade não atende às urgências da vida.

E nesse ponto se insere a URGÊNCIA ALIMENTAR e a POPULAÇÃO

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VULNERÁVEL. Ponderando sobre o panorama, ainda que anterior às justitificativas
administrativas, entendo que a solução de ocasião pela mera prorrogação do REDE COZINHA
CIDADÃ não satisfaz a necessidade de Segurança Jurídica. O que existe aqui talvez é a plena vazão
de providência administrativa, que se pressupõe ponderada pela realidade orçamentária,
administrativa e funcional da Municipalidade de São Paulo.

Sem dúvida que a manutenção de programa para distribuição de alimentos à


população vulnerável é medida que se mostra socialmente legítima.

Contudo isso em si não basta.

Seria mera decisão principiológica.

O pressuposto desse programa social está atrelado ao contexto de crise sanitária


que então parece arrefecer. Juridicamente, portanto, a política pública alimentar referida se
caracteriza para o momento como POLÍTICA TEMPORÁRIA ou EMERGENCIAL ou seja, está
essencialmente atrelada ao contexto de sua criação. Ao se modificar a realidade, legítimo que se
revise a política. Ao menos nesse momento, os contornos jurídicos não sugerem que se trate de
política pública permanente, de sorte que inviável simplesmente requerer a prorrogação
indeterminada. Compreendo que a manutenção da política pública local se alinha e complementa
política alimentar de nível estadual, ambas com objetivo indiscutivelmente nobre. Todavia,
refletindo sobre a estrutura das normas, não vislumbro que se possa de maneira imperativa
simplesmente estender política emergencial para transformá-la em permanente à revelia do
protagonismo político-institucional e político-social.

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Um aspecto que sensibiliza se dá na redução abrupta da quantidade de marmitas
distribuídas. De fato estranha ao Juízo uma medida tão resoluta em tema tão sensível. O senso
comum tende a convergir com o argumento deduzido pela causa de pedir, no sentido de que seria
razoável no mínimo uma transição, senão uma verdadeira ponte para um programa alimentar
permanente. Ponderando quanto a isso, convenci-me que aquilo que parece "abrupto" é
meramente visão de mundo. Se de um lado se pode argumentar que a redução de 10 mil marmitas
para 800 marmitas diária é excessiva ou demasiada, de outro também é possível ponderar que a
Municipalidade manteve a política em sua dimensão máxima mesmo quando havia relaxamento das

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medidas de isolamento e de retomada da atividade econômica, o que em si, induziria a conclusão
diametralmente contrária que a redução não é propriamente abrupta, mas tardia. Face a isso, a
questão verdadeira é que excesso ou não é ponto de vista, e ponderar o acerto ou erro de tal ponto
traz novamente à baila a subjetividade do conceito indeterminado.

Ainda que tal premissa perturbe, entendo que a política alimentar possível não
está exatamente em xeque. Políticas Alimentares de nível estadual, essas de nível permanente,
seguem sendo oferecidas à população. A Cozinha Cidadã reforçou a cobertura durante a
emergência, assistindo que a distribuição de alimentos em mais pontos da cidade colaborasse com
evitar aglomerações de pessoas, sobretudo as mais vulneráveis. Apesar disso, hoje não parece
desarrazoado supor que tal população possa ser atendida pelos demais programas.

Por esse prisma, ainda que seja indisputável a relevância do tema, ínsito a VIDA e
a DIGNIDADE, a eventual CENSURA POSSÍVEL no momento se dá apenas no campo da
OPINIÃO a depender da perspectiva e subjetividade de seu emissor, o que está adstrito à ARENA
POLÍTICA e escapa ao CONTROLE JURÍDICO. As partes autoras tem plena ciência do âmbito
em que efetivamente se insere sua pretensão, haja vista que discrimina no polo passivo o
Município, que em conjunto com os demais entes, possui incumbência de elaboração de políticas
públicas de segurança alimentar da população vulnerável. Contudo, repiso, não existe lei que
vincule a ré ao cumprimento de medidas específicas de extensão do programa alimentar a
possibilitar ao Juízo o atendimento da pretensão. Cumprir a missão federativa e constitucional não
se dá exclusivamente na forma da Cozinha Cidadã.

Mesmo a Lei invocada na exordial, Lei nº 14.029/2020, que autoriza os entes


federativos a utilização de saldos financeiros, constantes dos fundos de assistência social
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Ação Civil Pública Cível n. 1056892-15.2021.8.26.0053 . Página 9 de 15.
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provenientes de repasses federais para adoção de políticas assistenciais de emergência, não vincula
a interpretação de qual o público alvo e qual a política pública a ser beneficiada com a referida
dotação orçamentária. Claro que abrir mão de uma política que parece ter tido êxito no momento
para priorizar outra em seu lugar traz a insegurança. Porém, insegurança política, não insegurança
jurídica strictu sensu. Nesse passo, cumpre ao Município de São Paulo aferir o saldo financeiro que
lhe fora disponibilizado e planejar a forma de seu dispêndio. Ainda que a lei imponha a utilização
para a população vulnerável, não existe qualquer vinculação a quais programas ou quais medidas de
atendimento devam ser adotadas, o que novamente evidencia a impossibilidade de o Poder
Judiciário se arvorar na função típica do Poder Executivo e determinar que os valores sejam

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destinados à manutenção do Programa tal como pretendem os autores da ação.

Saliente-se que a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania, conforme


noticiado pela própria inicial, informou que o atendimento à população em situação de rua em
verdade não será simplesmente encerrado mas reformulado, ante alteração da situação emergencial.
Tem-se aqui que a Municipalidade não se escusa, ao menos em tese, à adoção de políticas
assistenciais, mas remaneja sua atuação de acordo com o contexto.

E tal decisão administrativa está calcada na dinâmica da realidade.

A situação emergencial que havia fulcrado a adoção da medida excepcional do


Programa Rede Cozinha Cidadã não mais existe. Assim, o atendimento da população vulnerável,
ainda que imperativa, passa pela reformulação de estratégia adotada pela Secretaria de Direitos
Humanos e Cidadania. Esse foi o teor noticiado pela Municipalidade quando do contato dos
autores em ofício, e no sentir do Juízo, a Urbe tem planejado nova abordagem dentro da seara de
sua atuação com menção de adoção de política permanente de segurança alimentar e nutricional,
mas agora dentro de nova formulação: com atendimento socioassistencial dentro de programas
existentes e de caráter permanente. A resposta é coerente, ainda mais considerando que os
objetivos almejados com o Programa que instituiu a Rede Cozinha Cidadã dar-se-iam apenas em
caráter emergencial para garantir a segurança alimentar e para reduzir aglomerações em pontos de
fornecimento de alimentos como Bom Parto e Núcleos de Convivência (SMADS) da Prefeitura de
São Paulo. Ora, uma vez que a pandemia passa a ter maior controle e as atividades econômicas e
possibilidades de alguma aglomeração são permitidas, o intuito da descentralização de
fornecimento de refeições de fato esmorece em termos de imprescindibilidade. O mesmo se pode
dizer quanto ao fomento do comércio e distribuição de alimentos. Ainda que a demanda por

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alimentos tenha sido impulsionada pelo Programa e sua cessação reduza em parte a receita dos
restaurantes envolvidos no projeto, o aumento das atividades econômicas reequilibra o mercado.
Tem-se, portanto, que o intuito da Administração sempre foi minimizar impactos sociais dentro do
contexto emergencial e não implementar a Rede Cozinha Cidadã como política pública
permanente.

E esse ponto é fundamental para se concluir que não houve retrocesso social.

A causa de pedir entende que reduzir o oferecimento de alimentação à população


vulnerável demonstra um retrocesso. Apesar de compreender o espírito da premissa, penso que

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seja uma ideia superficial sobre a complexidade do desafio humano. Afinal, não posso tomar a
emergência como avanço, e sua regularização como retrocesso. Houve apenas enfrentamento
emergencial de situação de risco à população vulnerável com medida extraordinária. Superada a
situação que ensejou sua adoção, tem-se o remanejamento e reajustamento das políticas. Para
enfrentamento do extraordinário, condutas e políticas extraordinárias foram priorizadas em
substituição a outras políticas de normalidades que foram acomodadas ou reduzidas. Mantenha-se
em vista que foi inclusive um período de dura redução de renda às famílias, mas também de recuo
da arrecadação, o que torna insustentável presumir que haja margem para continuidade de toda e
qualquer política assistencial. Assim, a meu sentir, aqui não se se trata de retrocesso ou cessação de
atendimento social, mas apenas de reformulação de sua abordagem dentro de um contexto de
realidade dinâmica, inclusive porque a pandemia abateu não apenas as pessoas, mas também o
Estado. Do contrário, a insistir chegaríamos a conclusão que a pandemia que serviu de gatilho foi
também um avanço social que não poderia ser retrocedido. Um evidente erro de premissa. Tal erro
decorre justamente daquilo que alinhavei anteriormente: trata-se de PROGRAMA TEMPORÁRIO
ou EXCEPCIONAL e se presta apenas ao TEMPO ou a EXCEÇÃO. Não existe retrocesso
naquilo que nunca foi avanço. O que existiu foi um CORTE DE NORMALIDADE, de sorte que
não posso normalizar a emergência, sob pena de subverter o pressuposto de tudo.

Nessa seara, quando a inicial rebate o teor exarado pela SMDHC e afirma que a
transição entre os programas não garante a segurança alimentar iminente da população vulnerável,
novamente os autores adentram em debate sobre melhor política pública a ser orquestrada pela
Administração Municipal. E como não canso de frisar, o Poder Judiciário não modera políticas
públicas planejadas pelo Poder Executivo. A medida se insere na DISCRICIONARIEDADE do
administrador, porquanto não existe norma que tenha previsto o estado de calamidade e as

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políticas a serem necessariamente implementadas pelo Poder Executivo para conferir atendimento
assistencial à população. Existe o dever, dever esse que será cumprido dentro do DIÁLOGO e
COOPERAÇÃO da seara POLÍTICA, não apenas institucional, mas civil, porém alheia à força e a
imperatividade da jurisdição. O Juiz não impõe à Administração dever de atuação quando existe
clara atuação de poder discricionário. A atuação do Judiciário limita-se controle de atuação quando
existe vinculação determinada por lei. Não é o caso da matéria apresentada nos autos.

Um dos aspectos que a demanda então proposta resvala é exatamente naquilo que
a LINDB pareceu focar: uma tentativa de mitigar a força normativa dos princípios, que nesse caso
parece substituir o administrador. Não raras vezes, os princípios tem sido manejados para substituir

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o poder administrativo ou legislativo fruto do processo democrático do mandato. Claro que a
democracia não se resume ao voto e que a Constituição Federal alberga um conjunto extenso de
princípios. Não se trata aqui de negá-los, mas de compatibilizá-los com a visão do possível. Em
alguns casos não colabora com o avanço social invocar juízos subjetivos, calcados pura e
simplesmente em valoração de um princípio imaterial, cuja carga e densidade jurídica sempre foram
de tal maneira abstrata, que permitiam toda e qualquer interpretação. E aqui então a maior
indagação: alimentação e população vulnerável não compõem o núcleo essencial de direitos
mínimos? Talvez seja caso de ponderar sobre a redução de programas políticos menos prioritários
e garantir o MÍNIMO EXISTENCIAL.

Compreendo que sim, que o direito à alimentação está na esfera do direito


mínimo relacionado à própria vida e existência. É anterior à própria dignidade.

Todavia, dizer ou concluir assim ainda é insuficiente.

A insuficiência se dá porque o DIREITO À ALIMENTAÇÃO dito dessa forma


é meramente ABSTRATO. No plano CONCRETO, sua efetivação não se dá exclusivamente pela
forma da Cozinha Cidadã, e se assim for, está dentro da MARGEM DE LIBERDADE e
CONVENIÊNCIA do administrador eleger. A par disso, existe programa estadual paralelo, o que
satisfaz a missão principiológica.

E como dito: é momento de exceção.

Desta maneira, transformar POLÍTICA EXCEPCIONAL em POLÍTICA

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PERMANENTE não poder ser objeto de uma proteção unilateral do Poder Judiciário sem levar
em consideração a DISCRICIONARIEDADE POLÍTICA, as consequências orçamentárias, pelas
quais os demais poderes serão responsáveis. O problema enfrentado não encontra solução certa e
imediata, mas depende da comunhão de esforços públicos.

Insisto: a alimentação, de fato, é DIREITO FUNDAMENTAL. Todavia, no


prisma administrativo, a alimentação COZINHA CIDADÃ é tratada como POLÍTICA PÚBLICA
EMERGENCIAL. A ideia de política pública implica em características importantes, entre as quais
não apenas a impessoalidade e a igualdade (material), mas também na ANTERIORIDADE,

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PLANEJAMENTO e sobretudo ESCALA. Assim o foi para o período de emergência. Não existe
política pública que não decorra de plano estratégico anterior. Assim, razoável assumir que os
instrumentos da política pública atual apoiaram-se no pressuposto da temporariedade da pandemia.

Arrefecido o pressuposto, arrefece-se a prestação.

A política pública alimentar de emergência parece ter cumprido seu pressuposto


de exceção, de sorte que a redução parece cabível dentro do seu contexto de legitimação, ficando
agora em tempos de reabertura como uma prioridade dentre tantas outras que os Municípios e
Estados têm para enfrentar.

Ainda que se discorde politicamente, para fins de controle jurídico o que posso
interpretar é meramente que se trata do império da realidade como medida de mitigação do direito
idealizado. Tenta-se compreender o ambiente e estrutura do administrador para que se evidencie se
era exigível ou não conduta diversa daquela analisada. Caso seja ainda censurável a conduta
praticada, que a sanção consequente seja dosada dentro de um sistema mais ou menos regrado e
previsível. E com base nisso, analisando o contexto, ainda que se interprete as cláusulas amplas de
direito em favor dos elevados objetivos constitucionais e fundamentais da República, fato é que
aqui não existe margem direta de que a decisão administrativa consubstancia automática ilegalidade
ou inconstitucionalidade a ser submetida ao crivo do Poder Judiciário. Trata-se de mitigação de
política pública que deve ser orientada pela visão política do mandatário em diálogo com a própria
sociedade. Trata-se, pois, de tema ínsito ao diálogo político, no qual o administrador sopesa
possibilidades e finalidades com participação da sociedade, em especial dos representantes das
famílias atingidas junto aos Poderes Executivo e Legislativo. É decisão POLÍTICA, não ato de
FORÇA. Assim, apesar da sensibilidade que dificilmente se acredita opõe qualquer ator social,
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descabe possibilidade jurídica de adoção de regras imperativas advindas do Poder Judiciário para
satisfação da demanda, cujo mérito a rigor passa pelo Poder Executivo, sob o crivo de sua
discricionariedade.

Apesar da sensibilidade do tema, pelo quanto exposto, INDEFIRO a tutela.

Além do decidido, a fim de estimular a objetividade, pontuo:

1) Considerando a causa de pedir, em COOPERAÇÃO com as partes, vislumbro


que a litigiosidade aparentemente se resume apenas a obrigação da Municipalidade em manter o

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Programa Rede Cozinha Cidadã;

2) Considerando a causa de pedir, em atenção a CELERIDADE, e diante da


natureza sumamente jurídica da questão deduzida, vislumbro às partes que o processo independerá
de produção de provas. Tramitará em princípio e salvo intercorrência justificável, portanto, de
maneira direta da postulação à sentença.

Cite-se o(a) réu(ré) PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO, na pessoa


de seu representante legal, no endereço acima indicado, para os atos e termos da ação proposta,
cientificando-o(a) de que não contestado o pedido no prazo de 30 (trinta) dias úteis, presumir-se-ão
verdadeiros os fatos alegados pelo(s) autor(es), nos termos do artigo 344 do Código de Processo
Civil. Considerando que não será marcada audiência de conciliação, advirto que o prazo de
resposta tem contagem a partir da juntada do mandado cumprido, na forma do artigo 335, inciso
III, e artigo 231, inciso II, ambos do Código de Processo Civil.

Cumpra-se, na forma e sob as penas da Lei, servindo esta decisão como


mandado.

Int.

São Paulo, 16 de setembro de 2021.

Kenichi Koyama
Juiz de Direito
Documento Assinado Digitalmente

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PARA ACESSO, SENHA SEGUE ANEXA COMO PARTE INTEGRANTE.

*Para produzir defesa é imprescindível a presença de advogado legalmente habilitado. As


audiências deste Juízo realizam-se no Fórum do Viaduto Dona Paulina, nº 80 - 7º andar - CEP
01501-020.

ITENS 4/5 DO CAPÍTULO VI DAS NORMAS DE SERVIÇO DA E.CORREGEDORIA GERAL, TOMO I


Nos termos do Prov. 3/2001 da CGJ, fica constando o seguinte: “4. É vedado ao oficial de justiça o recebimento de
qualquer numerário diretamente da parte. 4.1. As despesas em caso de transporte e depósito de bens e outras necessárias
ao cumprimento de mandados, ressalvadas aquelas relativas à condução, serão adiantadas pela parte mediante depósito do
valor indicado pelo oficial de justiça nos autos, em conta corrente à disposição do juízo. 4.2. Vencido o prazo para

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cumprimento do mandado sem que efetuado o depósito (4.1.), o oficial de justiça o devolverá, certificando a ocorrência.
4.3. Quando o interessado oferecer meios para o cumprimento do mandado (4.1.), deverá desde logo especificá-los,
indicando dia, hora e local em que estarão à disposição, não havendo nesta hipótese depósito para tais diligências. 5. A
identificação do oficial de justiça, no desempenho de suas funções, será feita mediante apresentação de carteira funcional,
obrigatória em todas as diligências.” Texto extraído do Cap. VI, das Normas de Serviço da Corregedoria Geral de Justiça.
Advertência: Opor-se à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a funcionário competente para executá-lo ou
a quem lhe esteja prestando auxilio: Pena – detenção, de 2 (dois) meses a 2 (dois) anos, Desacatar funcionário público no
exercício da função ou em razão dela: Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, ou multa. “Texto extraído do
Código Penal, artigos 329 “caput” e 331.

DILIGÊNCIA (Órgãos Pagadores): ¨ Fazenda Estadual ¨ Fazenda Municipal

OUTRAS DILIGÊNCIAS: ¨ Gratuidade ¨ GRD ¨ do Juízo

Oficial:
Carga:
Data:
Baixa:

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