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PROTAGONISMO JUVENIL

PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Prefeito
Eduardo Paes

Secretária de Educação
Helena Bomeny

Subsecretária de Ensino
Jurema Holperin

Gestora do Programa Ginásio Carioca


Bárbara Portilho

Produção Editorial
Coordenação da sistematização dos conteúdos e da edição
Alycia Gaspar, Ana Caroline Vieira e Beatriz Novaes (Instituto Trevo)
Bárbara Portilho e Luciana Cortes (Secretaria Municipal de Educação)
Eduardo Prazeres (E. M. Rivadávia Corrêia)
Ivane Sales (E. M. Princesa Isabel)
José Leandro Cardoso (E. M. Nilo Peçanha)
Lindomar Araújo (E. M. Vicente Licínio Cardoso)
Renan da Conceição (E. M. Fernando Rodrigues da Silveira)

Edição e revisão
Nayá Fernandes

2
Agradecimentos

Agradecemos a significativa contribuição do ICE - Instituto de


Corresponsabilidade pela Educação pelo apoio técnico para a concepção,
desenvolvimento e implantação do Programa Ginásio Carioca no município do
Rio de Janeiro, bem como aos jovens protagonistas egressos do Ginásio
Pernambucano. Ao Instituto Trevo pela parceria no desenvolvimento,
implementação e acompanhamento do programa.
.
3
.Apresentação

O caderno Protagonismo Juvenil é parte integrante do documento Ginásio


Carioca: uma proposta de educação integral na cidade do Rio de Janeiro. Esse
caderno tem o objetivo de oferecer uma base de referência para as unidades
escolares do programa Ginásio Carioca.

A elaboração deste caderno é resultado de uma produção coletiva que


envolveu profissionais de educação da Secretaria Municipal de Educação do
Rio de Janeiro, gestores e professores regentes de todas as unidades
escolares pertencentes ao programa. Este grupo de trabalho foi criado com o
objetivo de sistematizar e registrar o percurso das práticas e experiências das
unidades escolares dos Ginásios Cariocas entre 2011 e 2016, tendo como
inspiração as orientações do ICE - Instituto de Corresponsabilidade pela
Educação.

O documento completo de sistematização de conteúdo do Ginásio Carioca é


composto pelos seguintes cadernos:

1. Ginásio Carioca: uma proposta de educação integral na cidade do


Rio de Janeiro;
2. Modelo de Gestão do Ginásio Carioca;
3. Protagonismo Juvenil;
4. Eletivas;
5. Projeto de Vida;
6. Estudo Dirigido;
7. Guia de Aprendizagem;
8. Acolhimento dos alunos do Ginásio Carioca;
9. Acolhimento dos professores do Ginásio Carioca;
10. CD de Boas Práticas do Ginásio Carioca.

4
Sumário

Introdução .............................................................................................................................................. 6
1.1. Protagonismo Discente ...................................................................................................... 9
1.2. Protagonismo Docente ...................................................................................................11
2. Objetivos do Protagonismo .................................................................................................13
2.1. Objetivo Geral ...................................................................................................................13
2.2. Objetivos Específicos ....................................................................................................13
3. O Protagonismo Juvenil no Ginásio Carioca ..............................................................14
3.1. Protagonismo Juvenil como eixo do Projeto Político Pedagógico ..............14
3.2. O Protagonismo Juvenil, suas práticas e vivências ...........................................16
3.2.1. Sugestões de estratégias para dinamizar as práticas e vivências do
protagonismo nas unidades escolares ..........................................................................17
3.3. Garantia de práticas de Protagonismo Juvenil na escola ...........................20
4. Considerações sobre o Protagonismo Juvenil ..........................................................22
5. Instrumentos...............................................................................................................................23
Quadro Síntese .................................................................................................................................24
Colaboradores....................................................................................................................................25
Bibliografia ...........................................................................................................................................26
Anexos ...................................................................................................................................................27
Anexo I: Modelo de Registro de práticas e vivências de Protagonismo Juvenil
..............................................................................................................................................................27
Anexo II: O Adolescente como Protagonista ..................................................................28
Anexo III: Reflexão para o Educador: O protagonismo juvenil * ...........................32
Anexo IV: Da Heteronomia à Autonomia ..........................................................................34

5
Introdução

“Educar para a participação é criar espaços, para que o


educando possa empreender, ele próprio, a construção
de seu ser”.

Antônio Carlos Gomes da Costa

Na concepção de Protagonismo Juvenil, proposta por Antonio Carlos Gomes


da Costa 1 (2001), o jovem é tomado como elemento central da prática
educativa e participa de todas as fases desta prática, desde a elaboração e
execução até a avaliação das ações propostas. O Protagonismo é, portanto, o
processo no qual o aluno é o ator principal e ao mesmo tempo o sujeito da
ação. Diz respeito à atuação criativa, construtiva e solidária do aluno junto às
pessoas na solução de problemas reais na escola, na comunidade e na vida
social mais ampla.

No Ginásio Carioca o Protagonismo Juvenil é premissa e eixo central do


modelo pedagógico. Para elucidar esse conceito segue, na integra, o texto do
professor Antônio Carlos (2001):

“Ao perguntar-nos acerca do tipo de jovem que queremos formar, concluímos


que é aquele autônomo, solidário, competente e participativo. Refletindo sobre
essa questão, surgiu-nos a ideia de protagonismo juvenil, conceito que veio
preencher uma lacuna teórico-prática nesse campo.

A palavra protagonismo é formada por duas raízes gregas: proto, que significa
"o primeiro, o principal" e agon, que significa "luta". Agonistes, por sua vez,
significa "lutador", protagonista. Ou seja, lutador principal, personagem
principal, ator principal.
Uma ação é dita protagônica quando, na sua execução, o educando é o ator
principal no processo de seu desenvolvimento. Por meio desse tipo de ação, o
adolescente adquire e amplia seu repertório interativo, aumentando assim sua

1
O professor Antonio Carlos Gomes da Costa, foi um dos consultores do programa das Escolas de
Ensino Médio em tempo Integral de Pernambuco, programa que inspirou o modelo pedagógico dos
Ginásios Cariocas,, Foi também um dos principais colaboradores e defensores do Estatuto da Criança e
do Adolescente (ECA) e do Protagonismo Juvenil.

6
capacidade de interferir de forma ativa e construtiva em seu contexto escolar e
sócio-comunitário.
O centro da proposta é que, com a participação ativa, construtiva e solidária, o
adolescente pode envolver-se na solução de problemas reais na escola, na
comunidade e na sociedade.
Um dos caminhos para que isso ocorra é mudar nossa maneira de entender os
adolescentes e de agir em relação a eles. Para isso, temos de começar
mudando a maneira de vê-los. O adolescente deve começar a ser visto como
solução e não como problema.
No interior dessa concepção, o educando emerge como fonte de iniciativa (na
medida em que é dele que parte a ação), de liberdade (uma vez que na raiz de
suas ações está uma decisão consciente) e de compromisso (manifesto em
sua disposição de responder por seus atos).
Assim, quando o adolescente, individualmente ou em grupo, se envolve na
solução de problemas reais; atuando como fonte de iniciativa, liberdade e
compromisso; temos, diante de nós, um quadro de participação genuína no
contexto escolar ou sócio-comunitário, o qual pode ser chamado de
protagonista juvenil.
Na perspectiva do protagonismo juvenil, é imprescindível que a participação do
adolescente seja de fato autêntica e não simbólica, decorativa ou manipulada.
Essas últimas são, na verdade, formas de não-participação que pode causar
danos ao desenvolvimento pessoal e social dos jovens, além de minar a
possibilidade de um convívio autêntico entre eles e seus educadores. A
participação é a atividade mais claramente ontocriadora, ou seja, formadora do
ser humano, tanto do ponto de vista pessoal como social.
Educar para a participação é criar espaços, para que o educando possa
empreender, ele próprio, a construção de seu ser. Aqui, mais uma vez, as
práticas e vivências são o melhor caminho, já que a docência dificilmente dará
conta das múltiplas dimensões envolvidas no ato de participar.
Na vivência dessa pedagogia, o educador já não pode limitar-se à docência.
Mais do que ministrar aulas, ele deve atuar como líder, organizador, animador,
facilitador, criador e cocriador de acontecimentos, por meio dos quais o
educando possa desenvolver uma ação protagônica.

7
A adesão à perspectiva pedagógica do protagonismo juvenil vai muito além da
assimilação, pelo educador, de algumas noções e conceitos sobre o tema.
Antes de tudo, essa adesão deve traduzir-se em um compromisso de natureza
ética entre o educador e o adolescente. O protagonismo deve ser vivido como
participação do adolescente no ato criador da ação educativa, em todas as
etapas de sua evolução.
Além de um compromisso ético, a opção pelo desenvolvimento de propostas
baseadas no protagonismo juvenil exige do educador uma clara vontade
política no sentido de contribuir, pelo seu trabalho, para a construção de uma
sociedade que respeite os direitos de cidadania e aumente progressivamente
os níveis de participação democrática de sua população.
Mas a clareza conceitual, o compromisso ético e a vontade política só
potencializam verdadeiramente sua ação, quando o educador está
comprometido em níveis que ultrapassam em profundidade o conhecimento do
assunto, ou seja, quando ele está emocionalmente envolvido com a causa da
dignidade plena do adolescente. Para que isso ocorra, o educador deve evitar
posturas que inibam a participação plena dos jovens.” (COSTA, O Adolescente
como Protagonista).

A partir do texto acima é possível compreender com maior clareza o conceito


do Protagonismo Juvenil. Nos Ginásio Carioca, é importante que o
2
Protagonismo Juvenil seja trabalhado transversalmente por todas as
disciplinas, pois é compreendido como uma premissa que perpassa todas as
dimensões da formação escolar, com o objetivo de promover a
corresponsabilidade do aluno no seu processo de ensino-aprendizagem e ser
uma estratégia pedagógica de estímulo a sua participação constante no espaço
escolar.
Desse modo, o educando aprende a lidar melhor com suas potencialidades e
limitações, influenciar e coordenar o trabalho de outras pessoas e também a
agir na execução de objetivos comuns, através do trabalho em equipe.

2
No primeiro ano de existência dos dez primeiros Ginásios Experimentais Cariocas, o Protagonismo
Juvenil era um componente curricular com um tempo na matriz, como estratégia para a comunidade
escolar internalizar esse novo conceito e essa nova proposta. Nesse tempo eram trabalhados os Clubes
Juvenis, Grêmios e outras práticas de participação democrática.

8
Nessa perspectiva, o protagonismo juvenil é entendido como um elemento
fundamental da estrutura teórico-prática da educação, solicitando que a escola
ofereça a condição para que esse jovem se enxergue atuando no mundo a
partir daquilo que ele projeta para si como ser humano autônomo, promovendo
uma mudança de paradigma no ambiente escolar.
A escola pública contemporânea pretende que os alunos se formem para o
exercício da cidadania, proporcionando a liberdade, no sentido freiriano3, e a
sua emancipação intelectual. O jovem é incentivado a ser o autor do seu
processo educativo guiado pelo professor referência, para desenvolver sua
autonomia e corresponsabilidade e adquirir as competências necessárias na
elaboração do seu Projeto de Vida4.

1. O Protagonismo

1.1. Protagonismo Discente

O aluno protagonista é um jovem participativo e questionador capaz de atuar e


inovar no ambiente em que se encontra, seja o escolar ou não. Ele é um jovem
que atua e aprende participando. É um aluno disposto a colaborar de forma
autônoma e solidária com as atividades curriculares ou extracurriculares, tendo
sempre consciência do seu papel na escola e na sociedade. É um jovem que
se responsabiliza pela escola, sendo proativo e participativo sem prévia
condução.

Nessa perspectiva, o jovem passa a ter uma nova visão sobre o seu processo
formativo, deixa de assumir a posição de mero expectador para a atitude de
corresponsabilidade com sua formação, percebendo o quanto esta representa
um bem para si próprio e não apenas mais uma obrigação a cumprir. Essa
conscientização gera no jovem um novo sentido em relação à escola e um

3
FREIRE (1987).
4
O Projeto de Vida é um componente curricular do Ginásio Carioca, cujo objetivo é estimular o aluno a
refletir sobre o seu futuro e os meios para alcançá-lo. Transcrever seus sonhos, traçar metas e
determinar prazos sob os fundamentos e conceitos de um modelo estruturado de planejamento,
apoiado pelas ferramentas de gestão. O documento completo sobre o tema pode ser consultado no
caderno Projeto de Vida.

9
maior interesse e envolvimento com a aprendizagem, tornando-o parte
integrante e indispensável dos projetos nos quais está inserido. No entanto,
embora autônomo, necessita de professores de referência 5 para auxiliá-lo e
orientá-lo quando necessário.

No Ginásio Carioca essa atitude protagonista precisa ser incentivada por toda a
comunidade escolar e trabalhada transversalmente em todas as disciplinas,
espaços e tempos da escola. Assim, os alunos participam e são responsáveis
por diversas ações, desde a transmissão das experiências para outros alunos
até a responsabilização pelo espaço escolar e seus patrimônios.

Neste contexto, todos os alunos da escola são protagonistas já que participam


de forma “ativa” das ações que ocorrem na escola, porém verifica-se que
alguns assumem, mais do que outros, uma posição de liderança que também
deve ser estimulada.

A perspectiva do aluno protagonista reconhece que o adolescente, por sua


natureza, tem disposição para vivenciar novas experiências e incorporar
valores. Os projetos desenvolvidos na escola podem permitir a criação de
oportunidades para que eles possam viver o seu espírito protagonista em
diversas ações, tanto na tomada de decisões quanto no discernimento
necessário para diferenciar as várias realidades que se apresentam.

Segundo Costa (COSTA, 1998), a participação autêntica dos jovens pressupõe


sempre um compromisso com a democracia, pois a escola é a primeira etapa
do ingresso na esfera pública, sendo ela o ponto de partida necessário e
fundamental para o envolvimento dos adolescentes em questões que
aparentemente não lhes dizem respeito, de modo a “envolver-se em questões
de interesse coletivo, empenhar-se construtivamente no esforço de identificar,
compreender e intervir na superação de situações-problema” (Costa, 1998,
p.177).

5
No Caderno Ginásio Carioca: uma proposta de educação integral na cidade do Rio de Janeiro é
apresentado o conceito de Pedagogia da Presença, onde pode ser melhor compreendida a relevância do
papel do professor como referência para o aluno.

10
1.2. Protagonismo Docente

Para a formação de um aluno autônomo, solidário e competente, com


orientação para a vivência do protagonismo juvenil é muito importante que o
professor atue como referência de protagonismo para o aluno, como orientado
pelo princípio da Pedagogia da Presença, estando disposto a colaborar,
experimentar, inovar e vivenciar a escola.

O professor protagonista é, em sua maioria, o incentivador do protagonismo na


escola, responsável por estimular e promover práticas e vivências de
protagonismo juvenil junto aos alunos. Nesse aspecto, é importante sinalizar
que, quando se fala em professor protagonista, não se está referindo a um
único professor, mas sim de um conceito mais amplo sobre o papel do
professor na escola, compreendido também como protagonista no espaço
escolar, capaz de desenvolver sua autonomia e corresponsabilidade
contribuindo com a missão da escola.

O professor, nessa perspectiva, é convidado a atuar como protagonista das


atividades propostas pela escola e colaborar como parceiro do aluno no
desenvolvimento de práticas de protagonismo tanto no ambiente escolar
quanto em sua ação proativa e construtiva na comunidade em que ambos
estão inseridos.

Entretanto, considera-se igualmente importante a figura de um professor


dinamizador do protagonismo juvenil na escola, que tome para si a
responsabilidade por mobilizar os demais professores e equipe gestora para a
promoção e o estímulo do protagonismo na escola, desenvolvendo um
ambiente que permita aos jovens transformar sua passagem pelo Ensino
Fundamental em diversas oportunidades de aprendizagens.

Não se pretende com o protagonismo juvenil descaracterizar a importância do


professor no processo de ensino aprendizagem e deslocar para os jovens a
responsabilidade pela sua aprendizagem. Na verdade, trata-se do
estabelecimento de uma corresponsabilidade entre jovens e adultos.

11
Nessa proposta, para que se desenvolva o protagonismo juvenil é necessário
que se estabeleça uma nova forma de relacionamento entre jovens e adultos,
na qual o adulto deixa de ser um transmissor de conhecimentos para se tornar
um colaborador e parceiro do jovem na sua aquisição de novos conhecimentos
e na ação social e comunitária, onde ambos exercem sua autonomia.

Segundo COSTA (2001), o educador que se dispuser a atuar como mediador


de grupos de adolescentes em ações de protagonismo deverá:

 Ter consciência de que a participação na solução de problemas reais da


comunidade é fundamental para o desenvolvimento pessoal e social de
um adolescente;
 Conhecer os fundamentos, a dinâmica e a evolução do trabalho com
grupos;
 Ter algum conhecimento a respeito da situação ou problema que se
pretende enfrentar;
 Compreender adequadamente o projeto e ser capaz de explicá-lo
quando necessário;
 Ter participado de ações grupais, ainda que não tenha sido na condição
de mediador;
 Estar convencido da importância da ação a ser realizada e estar
disposto a transmitir a outras pessoas, esse conhecimento;
 Ter capacidade de administrar oscilações de comportamento entre os
adolescentes, como conflitos, passividade, diferença, agressividade e
destrutibilidade;
 Ser capaz de conter-se para proporcionar aos educandos a
oportunidade de pensar e agir livremente;
 Acolher e compreender as manifestações verbais e não-verbais emitidas
pelo grupo;
 Respeitar a identidade, o dinamismo e a dignidade de cada um dos
membros do grupo.

Essa maneira de trabalhar com os adolescentes certamente irá contribuir para


que muito do que hoje é considerado problema transforme-se amanhã em
solução. Para isso, é preciso enfrentar de modo efetivo os problemas da

12
escola, da comunidade e da vida social. O fundamental é acreditar sempre no
potencial criador e na força transformadora do jovens.
Nessa perspectiva, o professor protagonista deve ter consciência do seu papel
como docente e como parte integrante da escola e atuar na construção de uma
nova ambiência escolar, na qual o jovem tenha espaço e seja incentivado a
desenvolver as suas potencialidades. É importante que o professor
compreenda que é importante que as propostas sejam desenvolvidas com os
jovens e não apenas para os jovens. Esse diferencial pode mudar a relação
docente/discente da transmissão para a construção compartilhada de
conhecimentos.

2. Objetivos do Protagonismo

2.1. Objetivo Geral

O objetivo do Protagonismo Juvenil é promover o protagonismo do aluno e do


professor, levando-os a perceber a relevância de cada um para a construção
de um ambiente escolar que propicie a formação de jovens críticos e reflexivos
capazes de atuar positivamente na sociedade.

2.2. Objetivos Específicos


A prática do Protagonismo juvenil no espaço escolar contribui para:
 Possibilitar a formação do aluno competente, autônomo e solidário,
atendendo suas demandas e emergências, de modo a proporcionar a
vivência de valores, como o respeito, a amizade, a solidariedade, entre
outros;
 Incentivar a melhoria o processo de ensino aprendizagem do aluno, pois
o aluno passa a compreender que é corresponsável por esse processo;
 Desenvolver no aluno as bases para ser tornar um adulto mais
consciente e participativo na sociedade;
 Estimular a autonomia, competências e relações interpessoais do aluno;

13
 Qualificar o aluno para o desenvolvimento de habilidade autônomas,
tornando-o agente ativo e não passivo na comunidade na qual está
inserido;
 Despertar no aluno a capacidade de idealizar seu Projeto de Vida,
preparando-o para lidar com problemas do seu cotidiano;
 Despertar no aluno a consciência da importância da sua participação no
ambiente escolar;
 Incentivar as práticas e vivencias do aluno como protagonista;
 Prevenir questões disciplinares, ao estimular um comportamento de
cuidado, preservação e pertencimento à escola, tornando-a um
ambiente mais participativo e familiar, um lugar de encontro e elo entre
alunos, professores e direção.
O protagonismo, aqui pensado como a redefinição de papeis no processo
de ensino e aprendizagem, contribui, de maneira decisiva, para uma
educação construída pelo próprio aluno, por meio do seu esforço individual
e da interação com os outros. É essa experiência de interdependência 6 que
objetiva o Ginásio Carioca.

3. O Protagonismo Juvenil no Ginásio Carioca

3.1. Protagonismo Juvenil como eixo do Projeto Político Pedagógico

O Protagonismo Juvenil é o eixo principal do Projeto Político Pedagógico do


Ginásio Carioca, oferecendo uma possibilidade real de transformar as relações
e atitudes no espaço escolar.

A escola é compreendida como um espaço para o desenvolvimento do


protagonismo juvenil, fonte de inciativa, liberdade e compromisso, onde o aluno
é convidado a participar da elaboração e execução do projeto escolar, sendo
estimulado a tomar iniciativas e sugerir projetos a serem desenvolvidos, ao

6
Sugere-se, como texto complementar, a leitura do artigo em anexo Reflexão para o Educador: O
Protagonismo Juvenil, anexo a este documento.

14
mesmo tempo em que vivencia possibilidades de escolha com
responsabilidade.

Nessa perspectiva, a escola oferece condições para que o jovem possa


empreender, ele próprio, a construção do seu ser em termos pessoais e
sociais, por meio de atividades que ultrapassem os muros da escola, o que
necessita o envolvimento e incentivo de toda a comunidade escolar.

Observa-se que, para garantir as práticas e vivências de Protagonismo Juvenil


no espaço escolar, é necessário que a equipe gestora acolha e viabilize as
propostas e as ideias dos alunos e participe delas como principal incentivadora.
A escola precisa criar um ambiente adequado para esse fim e viabilizar, na
medida do possível, tempos e espaços necessários para sua realização, tais
como: salas de aula, salas de leitura, salas de vídeo, pátios, refeitórios, etc.

Por sua vez, para facilitar e fomentar o desenvolvimento do Protagonismo


Juvenil no ambiente escolar, sugerem-se as seguintes premissas:

 Motivar o aluno. É fundamental motivar o aluno. É proibido desmotivar;


 Promover e divulgar as vantagens do protagonismo para a formação do
aluno competente, autônomo e solidário;
 Estimular e promover as boas práticas de protagonismo7;
 Envolver os alunos para pensarem propostas para os problemas da
escola;
 Ver o aluno como uma “força” e um parceiro potencial da escola;
 Estabelecer um ambiente seguro onde os erros sejam considerados
oportunidades de aprendizagem;
 Valorizar e incentivar o esforço mais do que o resultado das ações;
 Compreender a diferença entre líder e protagonista, sendo necessário
desenvolver e colocar em prática as principais habilidades de cada um;
 Conhecer os benefícios e deveres relativos ao protagonismo;
 Identificar papeis sociais na escola e desenvolver um agir que ajude a
modificar o futuro dos jovens e de suas comunidades.

7
No CD de Boas Práticas do Ginásio Carioca, anexo a esse caderno é possível consultar as práticas
utilizadas nas unidades escolares do Ginásio Carioca, no documento Boas Práticas de Protagonismo
Juvenil.

15
3.2. O Protagonismo Juvenil, suas práticas e vivências

O Protagonismo Juvenil, além de ser o eixo norteador do Projeto Político


Pedagógico do Ginásio Carioca, compreende práticas e vivências que tem o
objetivo de trazer para o chão da escola as vivências do Protagonismo, que
pretendem, gradativamente, empoderar o jovem e destacar seu papel como
responsável, não só pela própria formação acadêmica, mas também pela
qualidade de sua interação na sociedade.

Nesse primeiro momento, é fundamental a abertura e o incentivo da equipe


escolar para que esse jovem assuma esse novo papel. Desse modo, o
protagonismo juvenil já é apresentado aos novos alunos no primeiro dia de aula
por meio do Acolhimento8, quando são recepcionados pelos alunos da escola e
egressos, responsáveis por conduzir as atividades do dia.

Essas atividades são organizadas com o objetivo de despertar nos novos


alunos os valores e bases para a sua formação como cidadão autônomo,
competente e solidário, de modo a tornarem-se exemplos inspiradores para
outros jovens, mas principalmente compreenderem que essa escola possui
uma proposta diferenciada onde o aluno é visto e tratado como “parceiro” da
escola.

Desse modo, tendo vivenciado o Protagonismo Juvenil no acolhimento, os


novos estudantes já conseguem dimensionar com mais clareza o que se
espera dos alunos dessa escola, ou seja, uma maior participação com
autonomia, responsabilidade e proatividade.

Fica evidente, com as práticas de Protagonismo, que os alunos são capazes de


atuar efetivamente e superar as expectativas, na medida em que são
convidados a participar, visto que o principal padrão de relacionamento do
adolescente é a colaboração (COSTA, 1998). Por isso, indica-se que esse
espaço de participação qualificada cresça gradativamente, como propõe Costa
(COSTA, 1998, pp. 180-181) na representação da escada que apresenta os
dez degraus de participação do jovem, como citado anteriormente.

8
O conteúdo completo sobre o tema pode ser consultado no caderno Acolhimento dos Alunos.

16
3.2.1. Sugestões de estratégias para dinamizar as práticas e vivências do
protagonismo nas unidades escolares

Logo nas primeiras semanas, sugere-se que as turmas sejam orientadas a


eleger seus representantes, ou seja, os líderes de turma. Esses líderes devem
ser indicados e eleitos pelos colegas para com o objetivo de representar os
interesses da turma de forma qualificada.

São diversas as atividades de um líder (ICE, 2008 p.37): integrar a turma;


sondar as dificuldades e buscar suas superações; participar das reuniões
solicitadas pela Gestão e fazer o devido repasse das informações; orientar e
acompanhar o planejamento e a execução das atividade da turma; facilitar o
contato e a relação entre estudantes, professores e equipe gestora; e,
principalmente; falar e responder em nome da turma em toda e qualquer
situação, buscando sempre o bem estar coletivo.

Nesse sentido, o líder de turma precisa estar sempre disposto a ouvir e


considerar as opiniões e sugestões dos colegas, ajudar constantemente na
resolução de conflitos, com uma postura responsável, crítica, justa e firme.

Nesse contexto, decidir coletivamente uma representação dos interesses de


um grupo é um grande passo para o processo de educação para a participação
democrática, pois se trata de uma oportunidade de vivência cidadã concreta,
onde segundo Costa (COSTA, 2000, p.139) o propósito do protagonismo
juvenil é criar condições para que o educando possa exercitar, de forma criativa
e crítica, essas faculdades na construção gradativa de sua autonomia, pois
segundo o educador, “a participação se torna genuína quando se desenvolve
num ambiente democrático. A participação sem democracia é manipulação e,
em vez de contribuir para o desenvolvimento pessoal e social do jovem, pode
prejudicar a sua formação”.
Para facilitar a compreensão dos alunos acerca da proposta do Protagonismo
Juvenil sugere-se que o professor dinamizador do protagonismo na unidade
escolar (ver capitulo Protagonismo Docente), oriente os alunos na organização
de uma apresentação para os novos alunos sobre o protagonismo juvenil e
como ele ocorre na escola. Essa apresentação pode ser uma estratégia para

17
estabelecer novos vínculos entre os alunos e promover uma reflexão sobre o
tema para a comunidade escolar.
Nessa perspectiva cultural, pode-se ainda estimular que os alunos organizem
os eventos da escola, desde festas até exposições, considerando a
participação criativa, realizadora e colaborativa deles.

Outra estratégia fundamental, para a promoção de práticas de protagonismo na


escola, é o estabelecimento de oportunidades para resolução de problemas
reais da unidade, onde a situação-problema deve ser apresentada para os
jovens do modo mais realista e desafiante possível, sendo necessário embasá-
la em dados, informações e objetivos para que estes apresentem propostas de
alternativas de solução e as execute em determinado período.
Desse modo, problemas simples ou complexos podem contar com as
sugestões dos alunos para se pensar e participar das soluções. Sugere-se no
início do ano promover uma reflexão: como eu posso colaborar para melhorar a
minha escola. As sugestões devem ser colocadas nas urnas e posteriormente,
grupos de alunos podem ser criados para avaliar as propostas e decidir o que
pode ser colocado em prática, nessa perspectiva, podem ser criados grupos de
responsabilidade distintos, para cada aspecto sinalizado.

Sugere-se estabelecer assembleias mensais para que os alunos possam


debater esses problemas e propor soluções efetivas que considerem a sua
participação. As assembleias podem ser organizadas pelos Clubes Juvenis,
Grêmios e outras formas democráticas de participação, que promovam suas
capacidades de iniciativa, participação e corresponsabilidade.

Os Clubes Juvenis pretendem ser um espaço destinado à experiência,


desenvolvimento de competências e habilidades como a autonomia, a
capacidade de trabalhar em equipe, a tomada de decisões, de modo a
promover espaços-tempos para que essas ações ocorram no ambiente escolar,
por grupos de interesse, em horário horizontal para que haja integração,
prevalecendo o desejo de cada aluno em construir sua ação protagonista.

Nesses espaços-tempos, o aluno assume seu papel de líder, organizador,


animador, facilitador, criador e cocriador de acontecimentos, sendo capaz de

18
desenvolver uma ação protagônica, como fonte autêntica de iniciativa,
compromisso e liberdade.

Para Costa, ser fonte de iniciativa significa que o educando deve agir, ou
seja, não deve ser apenas um espectador ou um receptor do processo
pedagógico. Ele deve situar-se na raiz dos acontecimentos, envolvendo-se na
sua produção.

Fonte de liberdade no sentido de ter diante de si cursos alternativos de ação,


deve decidir, fazer opções, como parte do seu processo de crescimento como
pessoa e como cidadão e fonte de compromisso ao responder pelos seus
atos, sendo consequente nas suas ações, assumindo a responsabilidade pelo
que faz ou deixa de fazer.

Nessa perspectiva, a escola é convidada a estimular os jovens a promover


suas capacidades de iniciativa, participação e corresponsabilidade. E ela pode
fazer isso ao divulgar, por exemplo, os resultados dos trabalhos desenvolvidos
pelos alunos, bem como valorizar os processos e resultados.

Considera-se, igualmente, importante observar que, no estabelecimento dos


tempos e espaços para práticas e vivências de protagonismo, a comunidade
escolar deve criar condições para o desenvolvimento e não somente permitir
que os jovens estejam livres para fazer deliberadamente o que desejarem, de
modo que o tempo seja intencionalmente empregado para fins de
Protagonismo Juvenil.

Nesse sentido, observa-se que, para garantir as práticas e vivências de


Protagonismo Juvenil no espaço escolar, é necessário que a equipe gestora
acolha e viabilize as propostas e as ideias dos alunos e participe delas como
primeira e maior e apoiadora. A escola precisa criar um ambiente adequado
para esse fim e viabilizar, na medida do possível, tempo e espaço necessários
para sua realização, tais como: salas de aula, salas de leitura, salas de vídeo,
pátios, refeitórios, etc.

19
3.3. Garantia de práticas de Protagonismo Juvenil na escola

Tendo em vista que o Protagonismo Juvenil promove uma mudança de


paradigma no ambiente escolar, sugere-se acompanhar de forma sistemática a
sua implementação. Desse modo, o Modelo de Gestão 9 do Ginásio Carioca
assume um papel importante, pois assegura por meio indicadores10 específicos
o acompanhamento e registro das práticas e vivências de protagonismo juvenil
no espaço escolar.

Para acompanhar as ações de protagonismo recomenda-se o preenchimento


do Instrumento de Registro de Práticas e Vivências, anexo a esse documento.
Nesse instrumento é possível mensurar a quantidade de práticas e vivências
do protagonismo promovidas pela escola no ano letivo, bem como o número de
jovens envolvidos nas práticas. Preencher esse instrumento é uma forma de
registrar as boas práticas desenvolvidas pelos jovens, permitindo avaliar seus
resultados, apresentar os sucessos para toda a comunidade escolar e também
compartilhar as experiências com as outras unidades escolares dos Ginásios
Cariocas.

11
Outra estratégia de acompanhamento do Protagonismo Juvenil é
apresentada por Costa (COSTA, 1998, p.179) no livro Protagonismo Juvenil:
adolescência, educação e participação democrática, onde o autor apresenta
uma proposta de correlação das formas de relação entre educador e educando
com as etapas de uma ação protagonista, demonstrada no quadro abaixo,
como forma de identificar uma progressão nas práticas e vivências de
protagonismo juvenil realizadas na escola.

9 Modelo de Gestão pode ser consultado no caderno Modelo de Gestão do Ginásio Carioca.
10 Os indicadores do Modelo de Gestão do Ginásio Carioca podem ser consultados no caderno
Modelo de Gestão do Ginásio Carioca, na Dimensão Autonomia.
11
Outras estratégias para promover o Protagonismo Juvenil na escola também podem ser adotadas.
Algumas sugestões podem ser consultadas no CD de Boas Práticas do Ginásio Carioca.

20
Quadro 1: Etapas de uma ação protagonista12

ETAPAS DEPENDÊNCIA COLABORAÇÃO * AUTONOMIA **

1. A iniciativa  Iniciativa  Os educadores  A iniciativa da


da ação unilateral dos e os jovens ação parte dos
educadores discutem se devem próprios jovens
ou não assumir uma
iniciativa
2. O  Os  Os educadores  Os jovens
planejamento educadores e os jovens planejam o que vai
da ação planejam sem a planejam juntos a ser feito
participação dos ação
jovens
3. A execução  Os  Os educadores  Os jovens
da ação educadores e os jovens executam o que foi
executam e os executam juntos a planejado
jovens recebem a ação planejada
ação
4. A avaliação  Os  Os educadores  Os próprios
da ação educadores e os jovens jovens avaliam a
avaliam os jovens discutem o que e ação realizada
como avaliar a ação
realizada
5. A  Os resultados  Os educadores  Os jovens se
apropriação dos da ação são os jovens apropriam dos
resultados da inteiramente compartilham os resultados
ação apropriados pelos resultados da ação
educadores desenvolvida
* O principal padrão e relacionamento na adolescência é a colaboração.

** A autonomia não elimina o papel do educador facilitador.

12
Etapas de uma ação protagonista e forma de relação educador-educando. COSTA, Antônio Carlos G.
Protagonismo Juvenil: adolescência, educação e participação democrática. Fundação Odebrecht.
Salvador: 1998.

21
4. Considerações sobre o Protagonismo Juvenil

É importante ficar claro que a implementação do protagonismo não é tarefa


fácil, mas promove uma transformação muito significativa. O maior desafio
apontado é instaurar uma perspectiva dentro da escola que promova um novo
olhar para o adolescente, vendo-o como parceiro na solução dos problemas e
desafios da escola e abra espaço para que ele possa demonstrar seu
potencial.

Observa-se, de modo geral, que o modelo de escola tradicional estruturado é


um dos maiores obstáculos para a vivência do protagonismo, sendo necessária
uma mudança de paradigma para os profissionais atuantes nela. Importante
lembrar que há o agravante do modelo autoritário estabelecido nos espaços de
aprendizagem desde o século XVI.

Pode-se dizer que há uma espécie de receio dos profissionais de que os


alunos assumam responsabilidades com autonomia. Pode haver resistência
por parte dos alunos e ausência de formação/capacitação para o docente. Por
isso, é muito importante que se estabeleça uma parceria entre professores e
gestores, garantindo assim que toda a equipe sinta-se também protagonista.

Apresenta-se aqui, a necessidade eminente de ampliar a comunicação e o


debate em toda a comunidade escolar sobre o protagonismo e os possíveis
projetos que podem ser desenvolvidos na escola. Espera-se que, desse modo,
todos os envolvidos sejam sensibilizados e as possíveis dúvidas e
incompreensões possam ser esclarecidas.

22
5. Instrumentos

Para facilitar a implementação do protagonismo juvenil na escola, foi elaborado


um documento para o registro das práticas e vivências com o objetivo de
contribuir com a sistematização das experiências e a divulgação das boas
práticas. É sugerido que esse instrumento seja, gradativamente, preenchido
pelos próprios jovens protagonistas. O instrumento segue explicado abaixo e
em anexo13.

Instrumento I: Registro de práticas e vivências de Protagonismo Juvenil:

1. Nome da prática
Apresentar a prática de Protagonismo Juvenil realizada.
2. Descrição da Prática
Descrever brevemente qual foi a prática.
3. Objetivo
Enumerar os objetivos concretos a serem alcançados pelo aluno com a
prática a ser realizada.
4. Tempo
Descrever o tempo necessário para o desenvolvimento da prática.
5. Infraestrutura e recursos necessários
Sinalizar os espaços necessários para a realização da prática e
enumerar os materiais que serão utilizados.
6. Alunos responsáveis pela prática
Sinalizar os alunos responsáveis pela prática.
7. Alunos envolvidos (número de alunos)
Apresentar os quantitativos de alunos envolvidos na realização da
prática.
8. Equipe escolar envolvida
Apontar o membro da equipe escolar que atuará como “apoiador” da
prática, dando suporte aos alunos.

13
No Anexo I segue modelo de registro de prática sugerido. Com base nessa proposta cada unidade
escolar poderá elaborar seu próprio instrumento de registro.

23
9. Resultados ou culminância da prática
Apresentar os resultados esperados/alcançados com a prática.
10. Sugestões
Sugerir ideias e instruções para a realização das práticas.

Sugere-se que esse instrumento seja preenchido pela equipe gestora,


professores ou pelos próprios alunos protagonistas e arquivados para
consultas posteriores.

Quadro Síntese

 Eixo principal do Projeto Político Pedagógico do Ginásio Carioca


 Eixo transversal que perpassa todas as dimensões da escola
 Todos os alunos devem ser estimulados para a vivência do
Protagonismo
 A escola deve apoiar as ações e propostas dos alunos
 O Protagonismo deve ser vivenciado por docentes e discentes
 As práticas de protagonismo devem ser divulgadas para toda
comunidade escolar e compartilhadas entre as unidades do Ginásio
Carioca.

24
Colaboradores

Registramos o nosso agradecimento a todos que colaboraram na elaboração


desse documento:

Adriano; Adonias; Alexandre Jorge Duarte; Alycia Gaspar; Alice Pereira; Ana
Caroline Vieira; Ana Maria Batista; Ana Claudia Ferreira; Ana Clara Machado;
Ana Cláudia Santos; André; Anderson Silva; Antônio Claudio; , Bárbara
Vasconcelos, Bárbara Portilho; Beatriz Novaes; Bruno Falcão; Carla Aída;
Carla Biolchini; Carla Pires; Cleo Teixeira; Daniel Coelho; Diana Machado;
Diego; Eduardo Prazeres; Eliete; Elizabete; Inês; Iraíldes Martins; Ivane Sales;
Ivonilton Fonseca; Jackeline; Júlio Gonçalves; José Leandro Cardoso; Karen
Cristina dos Santos; Karla Rego; Lissa Moreira; Luis Gustavo Pieroni; Marcel
Maciel; Marcelo dos Santos; Marcio Augusto Campos; Marco Aurélio Machado;
Maria de Lourdes Ferreira; Marina Letícia; Maria Lúcia Rotti; Maria Zerbini;
Marise Pinheiro; Michele; Mônica Maria Linhares; Nayá Fernandes; Odete de
Carvalho; Patrícia Pontes; Paulo Roberto Júnior; Paulo Victor; Priscila da Silva;
Quelani; Rafael Pincer; Raquel Ribeiro; Randolph Byron; Raphael Saqntos;
Renan de Jesus; Renan; Renata; Renata de Oliveira; Renata Cristina Pinto;
Ricardo; Ricardo Neves; Rodrigo Magalhães; Sandra Santos; Sara Kukliski;
Selma Regina Silva; Simone Zacharias; Solange; Sylvio Val; Tânia; Tatiane dos
Santos; Tayná Pelegrino; Thereza Barreto;Thiago Fortunato; Thiago de Freitas;
Tiago Zebende; Valéria de Oliveira; Vera Espasandin; Victor Luiz del Rio;
Wanda Assis, Wanderson Silva e todas as unidades escolares do Ginásio
Carioca.

25
Bibliografia

BENETT, Vicki. Mandando bem, versão brasileira Vera Whately e Nancy


Campi. São Paulo: Editora Fundamento Educacional, 2004.

COSTA, Antonio Carlos Gomes da; COSTA, Alfredo Carlos Gomes da;
PIMENTEL, Antonio de Pádua Gomes. Educação e vida: um guia para o
adolescente. Belo Horizonte: Modus Faciendi, 2001. 2a Ed.

COSTA, Antônio Carlos Gomes e ANDRÉ, Simone. Educação para o


desenvolvimento humano. São Paulo: Instituto Ayrton Senna, 2004. 1a Ed.

COSTA, Antônio Carlos Gomes (org.). O mundo, o trabalho e você. São


Paulo: Instituto Ayrton Senna, 2002.

COSTA, Antônio Carlos Gomes. Protagonismo Juvenil: adolescência,


educação e participação democrática. Fundação Odebrecht. Salvador: 1998.

_______________. Tempo de Crescer: Adolescência, Cidadania e


Participação. Fundação Odebrecht. Salvador: 1998 (mimeo).

DAMON, William. O que o jovem quer da vida? Como pais e professores


podem orientar e motivar os adolescentes. São Paulo: Summus Editorial,2009.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

ICE – Instituto de Corresponsabilidade pela Educação. Protagonismo Juvenil:


suas práticas e vivências - Manual Operacional. Recife: Avina, 2008.

SÁ, Teresa. Lugares e não lugares em Marc Augé. Tempo Social. Revista de
sociologia da USP, v. 26, n. 2, novembro, 2014.

26
Anexos
Anexo I: Modelo de Registro de práticas e vivências de Protagonismo
Juvenil

Campos Registro da prática

Nome da prática

O que é?

Explicação da prática

Objetivo

Tempo necessário
para o
desenvolvimento da
prática

Infraestrutura e
recursos necessários

Alunos responsáveis

pela prática

Alunos envolvidos
14
Nº de alunos

Equipe escolar
envolvida

Membro da equipe
escolar que será o
“apoiador” da prática,
dando suporte para os
alunos.

Resultados ou
culminância da prática

14
Dado necessário para alimentar indicador de resultado referente ao % de alunos participando de
práticas e vivências de protagonismo juvenil.

27
Anexo II: O Adolescente como Protagonista15
Antônio Carlos Gomes da Costa

Ao perguntar-nos acerca do tipo de jovem que queremos formar, concluímos


que é aquele autônomo, solidário, competente e participativo. Refletindo sobre
essa questão, surgiu-nos a ideia de protagonismo juvenil, conceito que veio
preencher uma lacuna teórico-prática nesse campo.
A palavra protagonismo é formada por duas raízes gregas: proto, que significa
"o primeiro, o principal" e agon, que significa "luta". Agonistes, por sua vez,
significa "lutador", protagonista. Ou seja, lutador principal, personagem
principal, ator principal.
Uma ação é dita protagônica quando, na sua execução, o educando é o ator
principal no processo de seu desenvolvimento. Por meio desse tipo de ação, o
adolescente adquire e amplia seu repertório interativo, aumentando assim sua
capacidade de interferir de forma ativa e construtiva em seu contexto escolar e
sócio-comunitário.
O centro da proposta é que, com a participação ativa, construtiva e solidária, o
adolescente pode envolver-se na solução de problemas reais na escola, na
comunidade e na sociedade.
Um dos caminhos para que isso ocorra é mudar nossa maneira de entender os
adolescentes e de agir em relação a eles. Para isso, temos de começar
mudando a maneira de vê-los. O adolescente deve começar a ser visto como
solução e não como problema.
No interior dessa concepção, o educando emerge como fonte de iniciativa (na
medida em que é dele que parte a ação), de liberdade (uma vez que na raiz de
suas ações está uma decisão consciente) e de compromisso (manifesto em
sua disposição de responder por seus atos).
Assim, quando o adolescente, individualmente ou em grupo, se envolve na
solução de problemas reais; atuando como fonte de iniciativa, liberdade e
compromisso; temos, diante de nós, um quadro de participação genuína no
contexto escolar ou sócio-comunitário, o qual pode ser chamado de
protagonista juvenil.

15
O texto abaixo é a continuidade daquele já citado na introdução deste documento.

28
Na perspectiva do protagonismo juvenil, é imprescindível que a participação do
adolescente seja de fato autêntica e não simbólica, decorativa ou manipulada.
Essas últimas são, na verdade, formas de não-participação que pode causar
danos ao desenvolvimento pessoal e social dos jovens, além de minar a
possibilidade de um convívio autêntico entre eles e seus educadores. A
participação é a atividade mais claramente ontocriadora, ou seja, formadora do
ser humano, tanto do ponto de vista pessoal como social.
Educar para a participação é criar espaços, para que o educando possa
empreender, ele próprio, a construção de seu ser. Aqui, mais uma vez, as
práticas e vivências são o melhor caminho, já que a docência dificilmente dará
conta das múltiplas dimensões envolvidas no ato de participar.
Na vivência dessa pedagogia, o educador já não pode limitar-se à docência.
Mais do que ministrar aulas, ele deve atuar como líder, organizador, animador,
facilitador, criador e cocriador de acontecimentos, por meio dos meio dos quais
o educando possa desenvolver uma ação protagônica.
A adesão à perspectiva pedagógica do protagonismo juvenil vai muito além da
assimilação, pelo educador, de algumas noções e conceitos sobre o tema.
Antes de tudo, essa adesão deve traduzir-se em um compromisso de natureza
ética entre o educador e o adolescente. O protagonismo deve ser vivido como
participação do adolescente no ato criador da ação educativa, em todas as
etapas de sua evolução.
Além de um compromisso ético, a opção pelo desenvolvimento de propostas
baseadas no protagonismo juvenil exige do educador uma clara vontade
política no sentido de contribuir, pelo seu trabalho, para a construção de uma
sociedade que respeite os direitos de cidadania e aumente progressivamente
os níveis de participação democrática de sua população.
Mas a clareza conceitual, o compromisso ético e a vontade política só
potencializam verdadeiramente sua ação, quando o educador está
comprometido em níveis que ultrapassam em profundidade o conhecimento do
assunto, ou seja, quando ele está emocionalmente envolvido com a causa da
dignidade plena do adolescente. Para que isso ocorra, o educador deve evitar
posturas que inibam a participação plena dos jovens.

29
Eis um pequeno elenco de posturas assumidas pelos adultos ao trabalhar com
adolescentes:
 Anunciar aos jovens decisões já tomadas, reservando-lhes apenas o
dever de acatar;
 Decidir previamente e depois tentar convencer o grupo a assumir a
decisão, tomada pelo educador, como se tivesse sido sua própria
decisão;
 Apresentar uma proposta de decisão e convocar o grupo para discuti-la;
 O educador apresenta o problema, colhe sugestão dos jovens e depois
decide;
 O educador apresenta o problema, colhe sugestões e decide com o
auxílio do grupo;
 O educador estabelece os limites de determinada situação e solicita aos
adolescentes que tomem decisões dentro desses limites;
 O educador deixa a decisão a cargo do grupo, sem interferir no processo
que a originou.
A evolução do trabalho com um grupo de adolescentes empenhados em
decidir, a partir de uma ação protagônica, segue de modo geral as seguintes
etapas:

a) Apresentação da situação – problema.


A situação-problema deve ser apresentada do modo mais realista e desafiante
possível. É necessário embasá-la em dados, informações e objetivos.
b) Proposta de alternativas ou vias de solução.
Deve-se procurar extrair do grupo o maior número possível de alternativas de
solução, para o problema apresentado.
c) Discussão das alternativas de solução apresentadas.
As propostas devem ser discutidas e criticadas livremente. O grupo deve estar
consciente de que são as ideias, e não as pessoas que as apresentaram, que
estão em julgamento.
d) Tomada de decisão.
Durante a discussão, o grupo vai descartando as alternativas mais inviáveis e
inconsistentes, até chegar à decisão final, que pode ser unânime ou majoritária.

30
Só em caso de omissão da maioria do grupo, a solução deve ser minoritária.
Essa, contudo, é uma situação indesejável, que deve ser evitada ao máximo
pelo educador.
Em seu trabalho com jovens envolvidos na realização de ações protagônicas,
cabe ao educador:
 Ajudar o grupo a identificar situações-problema e a posicionar-se diante
delas;
 Empenhar-se para que o grupo não desamine nem se desvie dos
objetivos propostos;
 Favorecer o fortalecimento dos vínculos entre os membros do grupo;
 Animar o grupo, não o deixando abater-se pelas dificuldades;
 Motivar o grupo a avaliar permanentemente sua atuação, quando
necessário, replanejá-la;
 Zelar permanentemente para que a ação dos jovens seja compreendida
e aceita por todos os que com eles se relacionam no curso do processo;
 Manter um clima de empenho e mobilização no grupo;
 Colaborar na avaliação das ações desenvolvidas pelo grupo e na
incorporação de suas conclusões nas etapas seguintes do trabalho.
O educador que se dispuser a atuar como mediador de grupos de adolescentes
em ações de protagonismo deverá:
 Ter consciência de que a participação na solução de problemas reais da
comunidade é fundamental para o desenvolvimento pessoal e social de
um adolescente;
 Conhecer os fundamentos, a dinâmica e a evolução do trabalho com
grupos;
 Ter algum conhecimento a respeito da situação ou problema que se
pretende enfrentar;
 Compreender adequadamente o projeto e ser capaz de explicá-lo
quando necessário;
 Ter participado de ações grupais, ainda que não tenha sido na condição
de mediador;
 Estar convencido da importância da ação a ser realizada e estar
disposto a transmitir a outras pessoas, esse conhecimento;

31
 Ter capacidade de administrar oscilações de comportamento entre os
adolescentes, como conflitos, passividade, diferença, agressividade e
destrutibilidade;
 Ser capaz de conter-se para proporcionar aos educandos a
oportunidade de pensar e agir livremente;
 Acolher e compreender as manifestações verbais e não-verbais emitidas
pelo grupo;
 Respeitar a identidade, o dinamismo e a dignidade de cada um dos
membros do grupo.
Essa maneira de trabalhar com os adolescentes certamente irá contribuir
para que muito do que hoje é considerado problema transforme-se amanhã
em solução. Para isso, é preciso enfrentar de modo efetivo os problemas da
escola, da comunidade e da vida social. O fundamental é acreditar sempre
no potencial criador e na força transformadora do jovens.

Fonte:
http://www.adolec.br/bvs/adolec/P/cadernos/capitulo/cap07/cap07.htm

Anexo III: Reflexão para o Educador: O protagonismo juvenil *

O termo “protagonismo” é a palavra-chave para a conceituação de um


movimento que preconiza um novo papel para o adolescente, possibilitando
que ele se torne ator importante na construção de uma sociedade mais justa,
harmônica e solidária. O protagonismo pode ser compreendido como
alternativa eficaz na educação para a corresponsabilidade na construção do
bem comum e como estratégia pedagógica de estímulo ao envolvimento do
jovem em atividades que ultrapassam os limites dos seus interesses individuais
e familiares, seja em escolas, igrejas, clubes, associações, organizações não-
governamentais, campanhas outros espaços de participação.

O jovem protagonista é aquele que influi, especialmente por meio de ações


concretas, não apenas nos acontecimentos que afetam sua vida diretamente,
mas a vida daqueles com os quais convive. Ao estimular o desenvolvimento do
protagonismo juvenil, a escola contribui para a formação de uma nova geração

32
de adolescentes atuantes, agentes de profundas transformações que a
sociedade contemporânea exige. Assim, o jovem a passa a ser ator principal
de sua história.

Dentro da ideia de protagonismo juvenil proposta por Antônio Carlos Gomes da


Costa, o jovem é tomado como elemento central da prática educativa, que
participa de todas as fases desta prática, desde a elaboração, execução até a
avaliação das ações propostas. A ideia é que o protagonismo juvenil possa
estimular a participação social dos jovens, contribuindo não apenas com o
desenvolvimento pessoal dos jovens atingidos, mas com o desenvolvimento
das comunidades em que os jovens estão inseridos. Dessa forma, segundo o
Educador, o protagonismo juvenil contribui para a formação de pessoas mais
autônomas e comprometidas socialmente, com valores de solidariedade e
respeito mais incorporados, o que contribui para uma proposta de
transformação social.

Algumas contribuições do protagonismo juvenil

No campo do desenvolvimento pessoal, a prática do protagonismo contribui


para o desenvolvimento do senso de identidade, da autoestima, do
autoconhecimento, da autoconfiança, da visão de futuro, do nível de aspiração
vital, do projeto e do sentido da vida, da autodeterminação, da auto-realização
e da busca de plenitude humana por parte dos jovens.

No campo da capacitação para o trabalho, o protagonismo propicia ao jovem,


com práticas e vivências estruturantes, o desenvolvimento de habilidades como
autogestão, heterogestão (oposto de autogestão) e cogestão (participação na
gestão), ou seja, ele aprende a lidar melhor com suas potencialidades e
limitações (gerir a si mesmo), a coordenar o trabalho de outras pessoas (atuar
sobre a atuação de outros) e a agir conjuntamente cm outros jovens e adultos
na consecução de objetivos comuns (trabalho em equipe).

Como promotor de ações sociais, o jovem protagonista é preparado para atuar


como voluntário na comunidade, sob orientação de um facilitador.

Como agente multiplicador, o jovem é capacitado a repassar para outros


adolescentes os conhecimentos adquiridos, seja informalmente, para amigos,

33
colegas e familiares, seja formalmente, como monitores (nas oficinas de
acolhimento dos novos estudantes, por exemplo).

Como sujeito do seu processo de aprendizagem, o jovem se envolve em ações


que utilizam metodologias participativas. Ao invés de palestras ou exposições,
em que o adulto fala e o adolescente ouve passivamente, opta-se pelo debate,
pela troca de experiências e por atividades vivenciais, como jogos e
dramatizações. O Educador atua como facilitador do processo, conduzindo o
grupo com sensibilidade e flexibilidade, respeitando as características de seus
participantes e levando em consideração as suas necessidades específicas.

* Texto adaptado. Livro: Protagonismo Juvenil - Adolescência, Educação


e Participação Democrática”, de Antônio Carlos Gomes da Costa.

Anexo IV: Da Heteronomia à Autonomia


Antonio Carlos Gomes da Costa

A adolescência pode ser encarada, do ponto de vista do desenvolvimento


pessoal e social, como uma transição da heteronomia da infância à autonomia
do mundo adulto. Nesse percurso, como procuraremos demonstrar, o
protagonismo juvenil pode exercer uma influência construtiva da maior
relevância.
O desenvolvimento pessoal do adolescente tem sua base na identidade. De
fato, se ele não for capaz de compreender-se e aceitar-se em todo o curso do
amadurecimento de sua personalidade, estará comprometido por uma
distorção de base. Isto ocorre porque tal distorção impede o desenvolvimento
da autoestima. Ter autoestima ou, como diziam os antigos, amor próprio, é ter
em relação a si mesmo um sentimento positivo. É a pessoa gostar de si,
querer-se bem. Como alguém poderá gostar de si mesmo, se não se
compreende e não se aceita? Além do mais, sem autoestima, torna-se
impossível o desenvolvimento de um bom autoconceito. O autoconceito é a

34
ideia que cada um faz si mesmo. Ele é, poderíamos dizer, a versão racional da
autoestima.
Quando o bom sentimento da pessoa em relação a si própria é apreendido no
plano da razão, ele assume a forma de uma autoconceito positivo, que, por sua
vez, torna-se a base da autoconfiança.
A autoconfiança, podemos afirmar sem receio, só é genuína, só é autêntica,
quando se apoia numa identidade bem definida, ou seja, o adolescente se
compreende e se aceita em suas forças e debilidades, sendo, portanto, capaz
de desenvolver uma autoestima e em autoconceito positivos. Sem
autoconfiança, o jovem torna-se, literalmente, incapaz de olhar o futuro sem
medo.
A visão destemida do futuro é o primeiro na construção do projeto de vida.
Mas, antes que o projeto de vida se delineie, é necessário que, em nível mais
profundo que o racional, surja no jovem um desejo profundo em relação ao
futuro. Este desejo é um sentimento, e, como tal, não pertence ao âmbito da
racionalidade. Trata-se de um querer-ser que ainda não passou pelo crivo da
razão.
Quando o desejo, o querer-ser, passa pelo crivo da razão, ele se transforma
num projeto de vida, ou seja, num sonho com degraus, numa trajeto com
etapas, que devem ser vencidas para se atingir o fim almejado. O projeto
frequentemente se transforma numa visão de futuro, numa espécie de memória
de coisas que ainda não aconteceram, mas que, se assumidas com
determinação e esforço, podem tornar-se realidade. É neste momento que a
vida do jovem passa a ser revestida de sentido.
O sentido da vida é aquela linha, que une o ser ao querer-ser. Tudo que nos
encaminha na direção e no sentido do nosso projeto de vida, do nosso querer-
ser racionalizado, agrega valor à nossa existência. Por outro lado, tudo que nos
detém, nos desvia ou nos faz retroagir é visto e sentido como uma agressão ao
nosso ser.
A beleza do sentido da vida reside no fato de ele constituir-se no fundamento
da autodeterminação do jovem ou, em outras palavras, da sua busca de
autonomia. Agora, já não serão os seus familiares, os seus amigos ou os seus
educadores, os que decidirão o seu rumo, é ele próprio - ninguém mais,
ninguém menos - que se incumbirá, em última instância, de fazê-lo.

35
É neste momento que emerge a capacidade de resistir à adversidade e de, até
mesmo, utilizá-la para crescer, chamada resiliência. Sem todos esses
desenvolvimentos anteriores, a resiliência é simplesmente impossível de existir.
Ela não é uma qualidade em si mesma, antes, trata-se da resultante natural
das capacidades, que mencionamos até aqui, desde que elas estejam
suficientemente desenvolvidas e corretamente articuladas entre si. O jovem
dotado de resiliência será capaz, não só de resistir às forças desagregadoras
do seu ser, mas de capitalizá-las no processo de seu desenvolvimento pessoal
e social.
O Diário de Anne Frank, a adolescente que não se deixou destruir pela
brutalidade de seu tempo, é um verdadeiro hino a essa extraordinária
capacidade, que o ser humano revela de crescer, superando todo tipo de
obstáculo.
O que a experiência nos mostra é que o ser humano não é fruto apenas das
condições, que moldaram seu passado, mas que a situação presente de cada
um é também fruto da sua postura básica diante do próprio futuro.
A capacidade humana de prefigurar o futuro no seio do presente, em meio às
situações mais adversas, tem respondido por episódios que, de outra forma,
facilmente nos fariam crer estarmos diante de milagres de resistência e auto-
superação.
A auto-realização - é bom que se esclareça - não é a resultante de um objetivo
atingido, de fim alcançado, de uma meta superada. Basta o jovem estar na
direção e não estar parado, que ele já está se realizando. Não é necessário
chegar lá. Cada passo dado na direção daquilo que dá sentido à sua vida é
para o jovem motivo de auto-realização.
Naqueles momentos - que não são frequentes na vida - em que o ser e querer-
ser se encontram e parecem abraçar-se, o jovem alcança os momentos-cúpula,
os pontos de culminância de sua existência. São os momentos de plenitude-
humana. Uma formatura, um casamento almejado, o trabalho sonhado, o
reconhecimento coletivo por um feito, um sonho realizado, o nascimento de um
filho, uma obra desafiante terminada, um estado de maturidade e lucidez
alcançado. Tudo isso é matéria de vivências plenas, que pervadem a vida de
uma pessoa, penetrando-lhe os recônditos da sua estrutura física, psíquica e
espiritual.

36
O que é auto-realizar-se? Auto-realizar-se é a pessoa desenvolver plenamente
o seu potencial. É tornar realidade aquelas promessas que cada um de nós
trouxe consigo ao nascer. Empenhar-se nesse sentido é lutar pela felicidade.
Encaminhar-se nessa direção é ser feliz. Freud afirmou que o homem se
realiza no amor e no trabalho, ou seja, na vida afetiva e na vida produtiva.
Cenise Monte Vicente acrescenta um terceiro ponto. O homem realiza-se
através da solidariedade para com os outros homens, ou seja, na ação em
favor do bem comum, na esfera da cidadania.
É justamente nessa esfera, que o jovem supera o particularismo das relações
afetivas e do projeto profissional, desabrochando para o desenvolvimento
social no sentido mais pleno do termo. E é, precisamente aí, que o
protagonismo juvenil, enquanto prática e vivência da educação fonte do seu
sentido e o suporte da sua significação como rito de ingresso das novas
gerações nas questões relativas ao bem comum.

Referência:
Protagonismo Juvenil: Adolescência, Educação e Participação Democrática.
Fundação Odebrecht, Salvador, 2000, pp.46-57.

37