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MESTRADO ACADÊMICO EM POLÍTICAS PÚBLICAS E SOCIEDADE

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ

Anteprojeto de pesquisa

FÓRUM POPULAR: ESTRATÉGIA DE FORTALECIMENTO DA PARTICIPAÇÃO


POPULAR E DO CONTROLE SOCIAL DE POLÍTICAS PÚBLICAS NO MUNICÍPIO
DE FORTALEZA.

Pesquisador: Cláudio Ferreira do Nascimento

Fortaleza, setembro de 2010


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
1.1 Contextualização 03

1.2 Justificativa
11

2. OBJETIVOS
2.1 Objetivo Geral 14
2.2 Objetivos Específicos
14

3. METODOLOGIA 15

4. CRONOGRAMA 18

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 19

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FÓRUM POPULAR: ESTRATÉGIA DE FORTALECIMENTO DA PARTICIPAÇÃO
POPULAR E DO CONTROLE SOCIAL DE POLÍTICAS PÚBLICAS NO MUNICÍPIO
DE FORTALEZA.

1. INTRODUÇÃO
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO

A natureza complexa e multifatorial dos fenômenos que dificultam os processos de

participação política dos indivíduos e grupos em situação de subalternidade e opressão social é

problema reconhecido por todos os cientistas sociais, em especial, por aqueles que apóiam as

lutas das classes populares. Em termos concretos, o processo de mobilização popular voltado

para a formação de sujeitos com capacidade de reflexão e intervenção sobre o processo de

construção e controle das políticas públicas, nunca foi bem visto pelas forças políticas

detentoras do poder.

Apesar de se discutir genericamente sobre participação popular no Brasil desde o final

do século XIX, as lutas em defesa do direito à participação das classes populares na construção

e gestão de políticas públicas se apresentam como fenômeno histórico recente, estando

associadas ao período da chamada transição democrática, no final dos anos 1970.

O cenário político da época, caracterizado pelo controle autoritário do poder estatal

pelos militares e o conseqüente predomínio de políticas públicas que privilegiavam o grande

capital, estimulou o surgimento de inúmeras práticas coletivas no interior da sociedade civil,

voltadas para a reivindicação de bens, serviços e direitos sociopolíticos, negados pelo regime

político vigente. Com a progressiva abertura de canais de participação e de representação

política, após a saída dos militares do poder, ocorre a transferência do campo de atuação dos

movimentos sociais do seio da sociedade civil para o campo político. (GOHN, 2004).

A entrada em cena de novos atores sociais, representados por grupos organizados que

redundaram na criação de movimentos, associações, instituições e Organizações não

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governamentais (Ongs), na perda paulatina do poder de atuação dos movimentos sociais,

principalmente aqueles de caráter popular, nos discursos sobre a participação da sociedade

civil, no sentido de conquista da autonomia em relação ao Estado. A autonomia dos membros

da sociedade civil deixa de ser um eixo estruturante fundamental para a construção de uma

sociedade democrática e os novos e antigos atores sociais, centrados no conceito de cidadania,

fixarão suas metas de lutas e conquistas na sociedade política, especialmente no controle e

gestão das políticas públicas (GOHN, 2004).

Um dos movimentos sociais mais importantes deste período foi exatamente o

Movimento de Reforma Sanitária, protagonista do processo de reestruturação do modelo

sanitário brasileiro. Durante o processo de discussão de propostas de reformulação do Sistema

Nacional de Saúde na VIII Conferência Nacional de Saúde, ocorrida em 1986, a atuação

decisiva dos movimentos sociais de caráter popular trouxe para o centro do debate a discussão

sobre a saúde como direito de cidadania, de caráter universal e garantido pelo Estado.

Neste contexto, se enfatizava a necessidade de discussão sobre saúde a partir de um

conceito ampliado como resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda,

meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso

a serviços de saúde. Tal posicionamento do Movimento de Reforma Sanitária visava afastar o

caráter fragmentário e reducionista do conceito biologicista de saúde e enfatizar o caráter social

das condições de organização da produção econômica como condicionantes do processo

saúde/doença individual e coletiva.

Este cenário de ampla atuação dos movimentos sociais forneceu a base política

necessária à garantia de inserção do direito universal à saúde na Constituição Federal de 1988,

a partir da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), política pública que inscreveu o direito à

saúde como componente essencial para o exercício da cidadania plena. Em termos concretos,

entretanto, a noção de cidadania ‘regulada’ deu o tom para o estabelecimento das políticas

sociais no Brasil e, dentre estas, das políticas de saúde. (RONCALLI, 2003, P.30).

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A garantia de efetiva participação política das classes populares no controle das

políticas públicas envolve o atendimento de alguns pressupostos, como por exemplo, a

compreensão de que a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática só será

possível através da participação dos indivíduos e grupos sociais organizados. De que a

sociedade não será transformada apenas com a participação no plano local, micro, mas, ao

mesmo tempo, é a partir do plano micro que se dá o processo de mudança e transformação na

sociedade. De que é exatamente no plano local, mais precisamente no espaço do território, que

se concentram as energias e forças sociais da comunidade, constituindo o poder local daquela

região; mas, além disso, é no local onde ocorrem as experiências, ele é a fonte do que vem a ser

designado capital social, ou seja, “aquele que nasce e se alimenta da solidariedade como valor

humano”. A compreensão que o local gera capital social quando gera autoconfiança nos

indivíduos de uma localidade, para que superem suas dificuldades. Além disso, que o capital

social cria, junto com a solidariedade, coesão social, forças emancipatórias, fontes para

mudanças e transformação social. Por fim, a compreensão de que no território local se

localizam instituições importantes no cotidiano de vida da população, como as escolas, os

postos de saúde etc., mas que este não é um dado apriorístico, necessita ser organizado,

“adensado em função de objetivos que respeitem as culturas e diversidades locais, que criem

laços de pertencimento e identidade sociocultural e política” (GOHN, 2004).

Um dos grandes entraves ao processo de participação popular reside no fato de que

“grandes parcelas da população (camponeses e moradores urbanos favelados) não são

organizadas de modo a sustentar atividades políticas regulares”. Como conseqüência

frequentemente os interesses destes setores são expressos através de processos informais, ao

invés de formas públicas de pressão. No Brasil, a partir da segunda metade da década de 1980,

os movimentos populares passaram a canalizar suas demandas para as comissões

interinstitucionais municipais de saúde, e depois, para os conselhos e as conferências de saúde.

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Através desses canais participatórios, se apresentavam pública e formalmente as demandas dos

setores sociais recorrentemente excluídos dos processos decisórios. (CORTES, 2002).

A regulamentação do controle social no SUS, através da lei 8142 de 1990,

institucionalizou como foros de participação popular, os Conselhos e Conferências de Saúde,

como espaços formais de participação da comunidade e de construção da co-gestão das

políticas e ações de saúde. No entanto, a experiência concreta mostra que participação popular

exige, além destes constructos institucionalizados, a garantia da livre atuação dos sujeitos

individuais e coletivos no sentido da tomada de posição, do apontar problemas, da definição de

prioridades, da decisão pela mudança, enfim pressupõe a participação concreta dos sujeitos na

construção do processo político e consequentemente de si mesmos. (BRASIL, 2009)

O Conselho de Saúde é órgão colegiado, deliberativo e permanente do Sistema Único

de Saúde em cada esfera de Governo, integrante da estrutura básica do Ministério da Saúde, da

Secretaria de Saúde dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, com composição,

organização e competência fixadas na Lei nº. 8.142/90. O Conselho de Saúde consubstancia a

participação da sociedade organizada na administração da Saúde, como Subsistema da

Seguridade Social, propiciando seu controle social. O Conselho de Saúde atua na formulação e

proposição de estratégias e no controle da execução das Políticas de Saúde, inclusive, nos seus

aspectos econômicos e financeiros. (BRASIL, 2003).

A Política Nacional de Gestão Participativa para o SUS – PARTICIPASUS estabelece

as diretrizes para o processo de gestão participativa das políticas de saúde no Brasil devendo

constituir-se estratégia transversal, presente nos processos cotidianos da gestão do SUS. Os

conselhos de saúde, assim como as conferências de saúde, se inserem na política como

mecanismos institucionalizados de controle social, envolvendo governo e sociedade. Em

essência, e conforme a própria política, os conselhos de saúde são formas de exercício da

democracia participativa que objetivam garantir os direitos de cidadania e saúde da população

e, portanto representam instrumentos privilegiados não apenas de controle social de políticas

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públicas, mas de fortalecimento das ações de participação popular e de gestão compartilhada

das ações governamentais em saúde. (BRASIL, 2009)

Além dos conselhos e conferências de saúde, são incluídos como práticas e mecanismos

de gestão participativa: mecanismos de escuta permanente das opiniões e demandas da

população, identificados principalmente, pelas ouvidorias do SUS; processos participativos de

gestão, tais como conselhos gestores, mesas de negociação, direção colegiada, câmaras

setoriais e comitês técnicos, entre outros; a pratica intersetorial por meio de relações entre

diferentes setores de governo, nas quais fica caracterizado o compartilhamento de decisões

entre diferentes instituições e setores que atuam na produção social da saúde e os mecanismos

de mobilização social voltada à ampliação da consciência sanitária, do direito à saúde e à

cidadania, com impacto sobre os poderes instituídos no Estado. (BRASIL, 2009)

Para a política de gestão participativa o município deve ser valorizado como

possibilidade de construção do modelo de atenção proposto para o SUS, com potencial de

promover uma rede de participação social de alta capilaridade. Neste sentido, em 2005, o

município de fortaleza adotou dentre as políticas e estratégias estruturantes do Sistema

Municipal de Saúde, a política de participação social e gestão compartilhada, com vistas a

garantir a organização e a gestão do Modelo de Atenção Integral à Saúde da população

fortalezense. (FORTALEZA, 2006)

A inscrição normativa da participação da comunidade no controle das políticas de

saúde, princípio basilar do SUS, bem como, a transformação do ideário de gestão participativa

em política pública de saúde, não conseguiu, entretanto, prover os conselhos, de forma

concreta, em instrumentos eficazes de efetivação do controle social. Muito comumente, os

conselhos não se consubstanciam em espaços dotados de poder político (poder de

controle/vigilância). O que se percebe é que “o tom vago e difuso em que a proposta de

participação popular aparece em textos oficiais, ao lado de sua frágil normatização, tende a

torná-la, como conseqüência, algo centralizado nas mãos dos técnicos e na burocracia
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governamental”. Obviamente, tal contexto interessa a diversos setores voltados para a

manutenção do status quo, incluídos aí, desde setores governamentais, mesmo aqueles

governos referidos como "progressistas" ou "populares" como também a setores da sociedade

civil organizada, como os partidos políticos e sindicatos, interessados no fortalecimento dos

processos de despolitização das classes populares. (VALLA, 1998)

O controle social entendido como exercício de cidadania transcende a ação estatal, de

poucos e poderosos “atores” e exige a presença de organizações legítimas de representação de

interesses dos diversos segmentos sociais. Implica, também, no âmbito das agências públicas,

de mecanismos que assegurem as condições de acesso à informação e de democratização dos

processos decisórios. (MENDES, 2009).

Grande parte dos conselhos de saúde no Brasil enfrenta dificuldades de estruturação

deste controle público em conseqüência da reduzida participação dos usuários e da

pequeníssima representação de setores da sociedade civil de caráter popular, ou seja, aquela

parte da sociedade preocupada “com a construção da cidadania, a melhoria da qualidade de

vida e o controle desse processo pela sociedade civil organizada e pelos cidadãos” (VALLA,

2009).

Neste contexto, está claro, que o processo de efetivação da participação popular nos

Conselhos de Saúde é interdependente da construção de espaços/tempos coletivos que

objetivem a participação política livre de sujeitos capazes de pensar e agir de forma autônoma

ou, dotados de “autonomias possíveis”. A participação popular, neste contexto, “significa uma

força social imprescindível para fazer sair do papel as conquistas e impulsionar as mudanças”

(VALLA, 1998).

Tal situação reafirma a necessidade de arranjos outros, além dos garantidos por lei para

que se concretize a efetiva participação popular; neste sentido diversas situações e momentos

podem ser criados, enquanto dispositivos de participação, como rodas de conversa, reuniões e

fóruns populares (CAMPOS, 2000).


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A compreensão da categoria participação exige, entretanto, um esclarecimento prévio, a

literatura sobre o tema tem tratado como participantes em potencial a comunidade, o

consumidor, as classes populares (participação popular), o cidadão e o usuário. Este trabalho,

apesar de concretamente, ter o usuário do sistema de saúde como sujeito central e em vários

momentos abordar a questão da participação deste na construção e acompanhamento das

políticas do setor, visa articular este processo, à discussão sobre a construção da emancipação e

protagonismo das classes populares. Para tal fim, considera-se que há participação quando o

envolvido tomar parte no processo de decisão política, ou seja, quando atua como sujeito e

decide os rumos da vida em sociedade. (CORTES, 2002)

O distanciamento das classes populares dos centros de decisão política pode estar

associado, em primeiro instante, à acentuação do grau de despolitização, ocorrido nos últimos

anos, conseqüente ao descentramento do setor popular como principal sujeito sócio-histórico,

ao surgimento de novos atores sociais no cenário político e/ou à fragmentação do poder de

atuação dos movimentos sociais de base popular. Entretanto, pode estar também associada à

descrença/desconfiança das classes populares na capacidade ou interesse do poder público em

formular políticas públicas de impacto sobre sua realidade social ou mesmo à percepção do

caráter ideológico da atuação do Estado, no sentido de encobrir as contradições do campo

sócio-econômico presentes na sociedade. (GOHN, 2004).

Neste sentido, percebe-se como inextrincável a relação entre participação popular e

democracia, visto que, a democracia determina a possibilidade de exercício do poder, ou seja,

depreende acesso à informação e a participação dos sujeitos nas discussões e deliberações, e

em essência pressupõe um processo de enfrentamento argumentativo de conflitos (CAMPOS,

2000).

Esta participação dos cidadãos se realiza através de sua presença no espaço público pela

autodeterminação de sua liberdade o que pressupõe justamente discussão, enquanto troca livre

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e igualitária de argumentos, e escolha, ou seja, uma reflexividade e uma criatividade coletivas.

Por esta razão a democracia implica a liberdade de associação e expressão que torna possível

às demandas sociais chegarem à vida pública enquanto espaço social de deliberação e decisão.

É por esta razão que na democracia a opinião pública ocupa um lugar central e é

precisamente neste sentido que se pode dizer que nela deve haver primazia da sociedade civil

sobre o Estado. Assim, a democracia dificilmente pode efetivar-se quando as pessoas não têm

vontade de exercer alguma forma o poder e de se fazer ouvir e ser parte integrante das decisões

que dizem respeito às suas vidas. As diferentes formas de associação e organização vigentes na

sociedade expressam a conquista de participação e da superação da falta de poder do indivíduo

isolado frente à sociedade como um todo e frente ao Estado. Assim, uma das primeiras tarefas

de uma democracia deve ser a busca de instituições que garantam que as deliberações sobre a

configuração da vida coletiva possam efetivar-se de forma adequada aos diferentes contextos

históricos (OLIVEIRA, 2008).

O Fórum Popular se propõe constituir espaço coletivo onde se busca fortalecer os

processos democráticos de discussão e participação política da comunidade, estimulando a

reflexão sobre a realidade local, seus problemas e potencialidades a partir da práxis dos atores

locais, que histórico-social e culturalmente foram alijados de qualquer participação nas

instâncias formais de poder. Em suma, representa a tônica de um movimento inicial em busca

de “autonomias possíveis”.

O Fórum Popular é aqui concebido como um dispositivo de participação política e

como espaço coletivo que aponta para a constituição de sujeitos com capacidade de análise e

intervenção na realidade concreta. Representou como visto adiante, o primeiro passo no sentido

da construção de alternativas de participação popular de duas comunidades da periferia da

cidade de Fortaleza e serviu de base para a tentativa de retomada do protagonismo sócio-

histórico destas comunidades.

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1.2 JUSTIFICATIVA

O processo de estruturação das equipes de saúde da família no município de Fortaleza,

iniciou-se em 2006, com a contratação através de concurso público de 850 trabalhadores,

médicos, dentistas e enfermeiros que se distribuiriam pelas 88 unidades e centros de saúde da

família da cidade. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza, um milhão e

600 mil pessoas, o equivalente a 70% da população do município, necessitam do SUS de

maneira mais efetiva. Para cobrir 100% desse contingente, seria necessário o trabalho de 460

equipes do Programa de Saúde da Família com médicos, enfermeiros, auxiliares de

enfermagem e odontólogos, além de 2.700 agentes comunitários de saúde. (FORTALEZA,

2009)

O processo de inserção das equipes de saúde no território representa um momento

crítico desta estruturação dos serviços. A Estratégia de Saúde da Família se caracteriza por ter

na Unidade de Saúde, sua base de intervenção no território. No Centro de Saúde da Família

Edmar Fujita, unidade de saúde pertencente à grade administrativa da Secretaria Executiva

Regional VI do município de Fortaleza, e com responsabilidade sanitária sobre território dos

bairros Boa Vista e Castelão, este processo de inserção apresentou dificuldades relacionadas à

persistência do modelo hegemônico de atenção à saúde médico-centrado, individualista e

curativista. A necessidade de ampliação das ações de promoção e prevenção ainda hoje é pauta

de calorosas discussões na roda de co-gestão da unidade, e mostra que ainda estamos tentando

construir a integralidade da atenção. A roda de co-gestão, aliás, ainda não conseguiu se

estruturar enquanto espaço coletivo de deliberação e constituição de sujeitos, longe de

representar espaço de formação e democratização do ambiente de trabalho, serve basicamente

como ambiente de repasse de informações, em suma, apresenta concretamente o caráter de

roda de conversa ou roda de trabalho.

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Percebi pelos contatos realizados com alguns atores locais que a comunidade não se

sentia representada nos processos decisórios locais, o conselho local de saúde apresentava

dificuldades de estruturação, as lideranças comunitárias reclamavam da falta de engajamento e

compromisso dos moradores, os trabalhadores reclamavam e se sentiam desanimados com a

falta de “adesão” dos usuários às atividades de educação em saúde, as relações trabalhadores-

usuários oscilavam normalmente da indiferença ao paternalismo.

Depois de uma tentativa frustrada, em março de 2007, de se construir no âmbito local,

um Fórum de Saúde com o intuito de se levantar problemas e propostas a serem levadas aos

níveis regional e municipal do executivo municipal, Em meados de 2008, realizamos o I Fórum

Popular local das comunidades dos bairros Boa Vista e Castelão, envolvendo trabalhadores e

estudantes de saúde, moradores e lideranças comunitárias no processo de discussão sobre

problemas e demandas locais, potencialidades e participação política na universalidade do

contexto social e político. Em meados de 2009, realizamos o II Fórum Popular, mas desta vez,

por questões ligadas ao processo de mobilização, ocorreu relativo esvaziamento em relação ao

primeiro evento.

O Fórum Popular das comunidades Boa Vista e Castelão atua como um dispositivo de

participação comunitária cujo objetivo principal é deflagrar o processo de análise coletiva dos

problemas e potencialidades locais a partir do resgate da história local e assim buscar o

fortalecimento da co-gestão dos processos do mundo da vida potencializando espaços de

reflexão-ação sobre a realidade objetiva.

Além de garantir aos participantes a atuação política, em seu estrito sentido, ou seja,

através da elaboração de propostas a partir da análise coletiva dos principais problemas da

comunidade, o Fórum Popular proporcionou aos participantes a possibilidade de se vivenciar

experiência concreta de democracia direta, para Boaventura, a forma representativa de

democracia como modelo exclusivo do paradigma dominante “significou um empobrecimento

dramático do potencial democrático que a modernidade trazia no seu projeto inicial”, sendo,
12
portanto “necessário reinventar esse potencial, o que pressupõe inaugurar dispositivos

institucionais adequados a transformar relações de poder em relações de autoridade partilhada”.

(SANTOS, 1999, p.297)

As atividades do I Fórum Popular envolveram em torno de 250 moradores, que

inicialmente foram convidados a participar de um resgate histórico da comunidade. As

primeiras casas, as primeiras famílias, as freqüentes enchentes do rio Cocó, a luta pela posse da

terra, as invasões, expulsões e conflitos. Incentivou-se a participação por meio de

questionamentos sobre a origem do bairro, as características culturais e étnicas dos moradores,

a origem de sua gente, os aspectos culturais locais marcantes e o surgimento dos espaços

sociais locais.

Construiu-se um quadro problematizador, a partir de questões geradoras levantadas

pelos moradores, produto da reflexão coletiva sobre as situações-limite enfrentadas, as

principais potencialidades locais, as situações que poderiam ser enfrentadas pela ação direta da

comunidade e as que precisariam da intervenção do poder público. Ao final, criou-se, um

grupo de trabalho, composto por 17 representantes, entre trabalhadores da unidade e

moradores, visando à continuidade das discussões iniciadas, o encaminhamento das demandas

passíveis de serem resolvidas localmente e o estabelecimento de estratégias para

encaminhamento daquelas que precisariam de intervenção institucional.

Partindo deste contexto senti-me estimulado a perguntar “que estratégias e/ou

instrumentos poderiam ser desenvolvidos no intuito de consolidar o Fórum Popular das

comunidades Boa Vista/Castelão como dispositivo potencializador da participação

popular e do controle social de políticas públicas no município de Fortaleza?”.

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2. OBJETIVOS

2.1 OBJETIVO GERAL:

Desenvolver estratégias e/ou instrumentos que consolidem o Fórum Popular das

comunidades Boa Vista e Castelão como dispositivo potencializador da participação popular e

do controle social de políticas públicas no município de Fortaleza.

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS:

• Organizar o 3º Fórum Popular das comunidades Boa Vista/Castelão voltado para

a reflexão-ação coletiva sobre os principais problemas sociais locais, potencialidades e

estratégias de enfrentamento na perspectiva de constituição de sujeitos ativos politicamente;

• Constituir Comunidade Ampliada de Pesquisa/grupo de trabalho do fórum, com

o objetivo de planejar e efetivar ações, avaliar políticas públicas e proceder às reflexões e

sistematização do processo;

• Avaliar o impacto da Política Nacional de Gestão Estratégica e Participativa no

município de Fortaleza;

• Fortalecer a atuação dos Conselhos Locais e Municipal de Saúde de Fortaleza,

através da proposição desta estratégia de participação e controle social, como mecanismo de

promoção da formação de conselheiros.

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3. METODOLOGIA

Neste trabalho se utilizarão as bases teórico-metodológicas da Comunidade Ampliada

de Pesquisa (CAP), modalidade de pesquisa-ação, que estimula o diálogo-confrontação entre

os saberes do mundo da vida/trabalho (informais) e os saberes acadêmicos (formais), como

mecanismo de reflexão-ação sobre a realidade concreta. A Comunidade Ampliada de Pesquisa

foi dispositivo criado pelo médico Ivar Oddone e sua equipe na Itália (1978-1982) e

materializa a necessidade constatada de articular as formas de cultura, de acumulação de

patrimônios (saberes e valores) que existem no trabalho com as disciplinas acadêmicas. Essa

articulação, segundo Oddone (1986), sempre foi muito incipiente, evidenciando uma

“incultura” por parte do pesquisador e do trabalhador, evidencia tanto um desconhecimento por

parte dos pesquisadores com relação ao trabalho realizado em situações específicas, quanto por

parte dos trabalhadores no que se refere à produção científico-acadêmica. (BARROS E

OLIVEIRA, 2009). Conhecer as formas de cultura e patrimônios deve segundo essa

perspectiva, passar pelo conhecimento dos próprios trabalhadores que será então confrontado

com os saberes formais dos pesquisadores e vice-versa.

Assim, perseguindo a abertura de espaços de análise da realidade local, serão criadas

estratégias que constituirão um programa de formação de diversos atores locais que inclui

várias etapas, de forma que cada uma delas prepara as condições necessárias para o

desenvolvimento das subseqüentes. A primeira, que consideramos como o momento disparador

das discussões, e que destacamos aqui por razões metodológicas será o Fórum Popular que terá

o objetivo de permitir os primeiros contatos entre os saberes populares e dos técnico-

mediadores, estimular o diálogo/reflexão e a ação sobre a realidade concreta a partir da análise

dos problemas e potencialidades locais pelo grupo de trabalho do Fórum e fortalecer o caráter

democrático e participativo dos coletivos comunitários.

A pesquisa-ação é uma abordagem, específica em ciências sociais, definida como uma

pesquisa na qual há um ação deliberada de transformação da realidade e que possui duplo

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objetivo: transformar a realidade e produzir conhecimentos relativos a essas transformações.

(BARBIER, 2004).

Outro recurso metodológico utilizado, como pesquisador inserido na prática a ser

estudada, será a observação-participante.

Segundo BONI e QUAREMA (2005), “a observação participante se distingue da

observação informal, ou melhor, da observação comum. Essa distinção ocorre na medida em

que pressupõe a integração do investigador ao grupo investigado, ou seja, o pesquisador deixa

de ser um observador externo dos acontecimentos e passa a fazer parte ativa deles”.

O registro dos dados será impresso no diário de campo que será utilizado como uma das

ferramentas de coleta de dados.

Como técnica de coleta de dados, lançarei mão das técnicas do circulo de cultura

originada nos trabalhos do Movimento de Cultura Popular (MCP) da Universidade Federal de

Pernambuco, coordenado por Paulo Freire na década de 1960. Valorizando o conhecimento

popular construído a partir de “o seu fazer no mundo”, é reconhecida a cultura dos excluídos,

que pressupõe a existência de uma cultura dominante. Esta última, por sua vez determina

valores e atitudes exteriores aos sentidos construídos por sua história, prática e vida. Assim

sendo, o Círculo de Cultura é o espaço da "Ação Cultural, através da qual se enfrenta,

culturalmente, a cultura dominante" (Freire, 1982, p.54).

Uma outra abordagem a ser utilizada serão as entrevistas, mais especificamente

entrevistas semi-estruturadas com aplicação de instrumento orientador. As entrevistas semi-

estruturadas combinam perguntas abertas e fechadas, onde o informante tem a possibilidade de

discorrer sobre o tema proposto. O pesquisador deve seguir um conjunto de questões

previamente definidas, mas ele o faz em um contexto muito semelhante ao de uma conversa

informal. Segundo BONI e QUAREMA (2005), esse tipo de entrevista é muito utilizado

quando se deseja delimitar o volume das informações, obtendo assim um direcionamento maior

para o tema, intervindo a fim de que os objetivos sejam alcançados.

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Através da entrevista buscar-se-á coletar dados objetivos e subjetivos, segundo Lakatos

e Marconi (1985), é um procedimento usado na investigação social para coletar dados, ou

ajudar no diagnóstico ou tentar solucionar problemas sociais. Acontece em um colóquio entre

duas pessoas em que uma delas vai passar informações para a outra.

Entendo a importância da preparação da entrevista assim como da escolha do entrevistado,

dessa forma escolhi como entrevistados, os participantes do grupo-sujeito da Comunidade

Ampliada de Pesquisa.

Os dados serão analisados a partir da metodologia de análise de conteúdo que, segundo

Puglisi e Franco, trabalha tradicionalmente com materiais textuais escritos. Há dois tipos de

textos: textos que são construídos no processo de pesquisa, tais como transcrições de entrevista

e protocolos de observação; textos que já foram produzidos para outra finalidade quaisquer,

como jornais ou memorandos de corporações. “Na análise de conteúdo o ponto de partida é a

mensagem, mas deve ser considerado as condições contextuais de seus produtores e assenta-se

na concepção crítica e dinâmica da linguagem” (PUGLISI; FRANCO, 2005, p. 13). Deve ser

considerado, não apenas a semântica da língua, mas também a interpretação do sentido que um

indivíduo atribui às mensagens.

O momento final da pesquisa será a apresentação da análise dos dados para o conjunto

dos entrevistados de forma a construírem uma reflexão sobre o processo de construção de

estratégias de participação popular e formação dos sujeitos capazes de facilitar a construção da

autonomia local, que promoverão impacto sobre os condicionantes sociais e em conseqüência

sobre o processo saúde-doença da comunidade.

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4. CRONOGRAMA

Janeiro a Maio de 2011 Levantamento bibliográfico


Maio de 2011 Encaminhamento do projeto ao Comitê de

Ética
Julho a Agosto de 2011 Planejamento e realização do Fórum

Popular
Setembro de 2011 Planejamento e estruturação da

Comunidade Ampliada de Pesquisa (GT do

Fórum Popular)
Outubro a dezembro de 2011 Reuniões da CAP e realização de

entrevistas individuais
Janeiro a março de 2012 Reuniões da CAP para sistematização e

análise final
Abril a Julho de 2012 Produção e defesa da dissertação

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBIER, René. Pesquisa-ação. Tradução de Lucie Didio. Brasília: Líber livro editora; 2004.

18
BARROS, Maria Elizabeth Barros de; OLIVEIRA, Sonia Pinto de. Construindo formas de
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