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Bullying. Não tem a menor graça!

Você já foi alvo de gozação ou viu alguém sendo sacaneado


constantemente? Não era brincadeira. Era o bullying em ação
Veridiana Mercatelli

A palavra
Sem tradução para o português, bullying é toda agressão feita com a
intenção de machucar outra pessoa ou até uma turma inteira. Mas, pra ser
considerado bullying de verdade, também é preciso que essa atitude agressiva se
repita uma porção de vezes. Sabe aquele garoto que fica gozando do colega todo
santo dia, fazendo piadinhas infelizes a respeito da orelha de abano do garoto?
Pois essa atitude grosseira, repetitiva, disfarçada de brincadeira, é o tal de
bullying. Mas esse comportamento vai além dos apelidos maldosos. Ele também é
uma característica de quem gosta de ofender, humilhar, discriminar, intimidar,
enfim, de quem se diverte fazendo tudo o que faça uma menina (ou o menino)
sofrer (veja mais exemplos em "As faces da maldade").

Jéssica cansou de ser chamada de "Choquito", por causa


de suas espinhas. Aline fica triste sempre que tiram sarro
dela, só porque gosta de um menino da classe. Jaqueline
chora porque, de uma hora para outra, suas amigas
passaram a excluí-la das conversas. O que essas três
meninas têm em comum? Todas sofrem de um problema
conhecido como bullying, que vem cada vez mais
chamando a atenção de pais e professores .

Menino é diferente
A prática do bullying nem sempre é igual para meninos e meninas. Segundo
Aramis Lopes, pediatra e coordenador do Programa de Redução do
Comportamento Agressivo entre Estudantes, os garotos são mais explícitos. É
comum ver meninos tirando sarro de alguém na frente de todo mundo. "Já a
menina é educada para ser mais recatada, discreta. Sendo assim, a estratégia
delas é outra", explica o médico. É isso mesmo! A menina é mais sutil e vai, como
se diz, "comendo pelas bordas". Uma fofoquinha aqui, uma esnobada ali e lá está
ela colocando em prática sua maldade. "A princípio, elas são amigas. Mas, quando
vai ver, uma garota já está sendo vítima de difamação e exclusão dentro de seu
grupo", acrescenta Aramis.

Para esses casos, o especialista dá a melhor solução: trocar de turma. Afinal de


contas, você é livre para ser amiga de quem bem entender e não tem nada a ver
ficar atrás de meninas que só querem vê-la numa pior, não é mesmo?

Mas, quando o assunto é gozação na frente de todo mundo, como nos casos em
que o cidadão grita um apelido infeliz pelos quatro cantos da escola, a pedagoga
Karen Kaufmann Sacchetto, da Escola São Gabriel Pompéia, em São Paulo, tem a
saída: "Evite reforçar essa atitude. Tente ignorar o máximo que
puder". E Aramis complementa: "Saia de perto, para a brincadeira não continuar e
você não sofrer".

Uma outra forma de agressão tem crescido, silenciosa, no meio dos adolescentes:
é o cyberbullying. Pouco se fala sobre o assunto no Brasil, mas acontece com muita
freqüência na internet. Quer exemplos? Os sites de ódio, as comunidades preconceituosas
do Orkut, os blogs com mensagens negativas sobre uma pessoa ou um grupo... Fugir disso
é fácil. Basta não fazer parte dessa galera de jeito nenhum.

As faces da maldade

Veja o que é considerado bullying pela Associação Brasileira


Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência
(Abrapia):
colocar apelidos ofender zoar gozar encarnar sacanear

humilhar

fazer sofrer discriminar excluir isolar ignorar intimidar


perseguir assediar aterrorizar amedrontar tiranizar dominar
agredir bater chutar empurrar ferir roubar quebrar
pertences.

Contar ou não, eis a questão


E os pais, como ficam nessa história toda? "Se tiver coragem, conte a eles, pois
podem ajudá-la", diz Karen. Porém o pediatra Aramis alerta: "Procure alguém de
sua confiança, um colega, um professor, um funcionário da escola, ou seus pais e
conte o que se passa com você. De preferência, os pais só devem interferir com o
consentimento dos filhos". Se você estiver certa de que quer a ajuda de seus pais
nessa luta, peça uma mãozinha. Do contrário, se tiver medo de que a situação
piore, busque apenas o apoio deles, mas não desista de tentar se livrar desse
sofrimento. Ficar quieta e aceitar todos os tipos de maldade é o comportamento
mais incorreto. Muitas vezes, quando ficamos chateadas não há nada melhor do
que o colo e os conselhos do pai e da mãe para nos dar um calorzinho no coração.

A diretoria da escola também pode ser avisada, principalmente em casos mais


graves, como os de ameaça. Entretanto, se você não quer falar abertamente sobre
o que está acontecendo, vale sugerir à diretoria que faça um programa de
conscientização com os alunos. Você pode, por exemplo, dizer que tem visto
alguns colegas sofrendo por causa do bullying e que seria muito bom se houvesse
alguém para conversar com todos os alunos, alertando sobre esse mal.

Por que essas criaturas existem?


Ninguém nasce com um "gene do bullying". Isso não é um defeito de fabricação.
Normalmente, o chamado "agressor" começa com atitudes ruins desde criança.
"Um exemplo é o caso da criança que fala palavrão, todo mundo acha bonitinho e
ninguém impõe limites", aponta a pedagoga Karen Kaufmann. Quando ela se torna
adolescente, leva suas "brincadeirinhas" de mau gosto na bagagem e atinge seus
colegas da mesma idade. "O agressor impõe o seu comportamento dentro do
grupo e, com isso, atrai seguidores, que passam a fazer maldades também. Dessa
forma, se estourar algum problema, o líder joga a responsabilidade dos seus atos
para cima dos outros e, ao mesmo tempo, diminui seu peso na consciência",
explica Aramis. "Muitos garotos e garotas, por iniciativa própria, não fariam tantas
maldades. Mas, para pertencer a um determinado grupo, acabam seguindo os
passos do líder", acrescenta o especialista.

Portanto, se você encontrar uma turminha do mal como essas por perto, deixe-a
para lá. O ditado "Não faça com os outros o que você não gostaria que lhe
fizessem" é muito importante. Lembre-se sempre dele.

As conseqüências
Quem já sofreu com o bullying sabe que não é fácil esquecer a humilhação. Por
isso, é comum a vítima levar esse trauma para a vida adulta. Os efeitos mais
comuns dessa agressão são depressão, insegurança, problemas na escola e
síndrome do pânico. Em casos mais extremos, a vítima pode tornar-se violenta
com os colegas ou, até mesmo, querer se matar (veja box "Casos famosos").

Por isso, se você já foi - ou está sendo - alvo de maldades, não tenha vergonha nem receio
de procurar ajuda profissional. Um psicólogo poderá auxiliá-la a superar esses traumas e a
reagir com mais facilidade diante das agressões. Uma outra forma de livrar-se desse peso é
desabafar com uma amiga bacana ou com alguém em quem você confia pra valer.

E agora, doutor?
  O doutor Aramis
Lopes esclarece
as dúvidas das
leitoras.

"Um dia, no
intervalo, chovia
muito. Um garoto
da minha sala
começou a chutar
a água do chão,
dando um banho
em mim e nas
minhas amigas.
Ficamos
ensopadas!
Nesse dia, eu
chorei. Não por
essa sacanagem
ridícula, mas por
tantas outras que
esse garoto já
havia feito. Ele
recebe vários
avisos de
coordenadores
do colégio e não
adianta nada."
Bruna A escola
deveria
conscientizar
tanto ele quanto
o grupo que o
apóia. Quem age
dessa maneira
precisa da
aprovação da
turma. Portanto,
se ele não tiver
uma platéia a seu
favor, a única
saída será parar
com as maldades.

"As pessoas que


fazem
brincadeiras de
mau gosto se
acham melhores,
superiores, e
mais fortes que
as outras. Ainda
não aconteceu
comigo, mas
como posso
ajudar uma
amiga que é
vítima?"
Lica Você pode
incentivar a
diretoria da sua
escola a fazer um
trabalho de
conscientização
entre os alunos,
promovendo
palestras. Outra
maneira é levar
sua amiga para
um lugar que seja
seguro e longe
das pessoas que
fazem as
gozações. Essa é
uma forma de
protegê-la. Você
pode intervir nas
agressões contra
ela. Mas saiba
que também pode
se tornar alvo.
Daí, será mais
uma pessoa a
pedir apoio.

"Eu tinha um
sério problema
dentário. Alguns
alunos me
chamavam de
'mamute'. Eu
chorava e não
queria mais ir à
escola. Fiz
cirurgias, usei
aparelho e não
tenho mais nada,
mas ficou um
trauma."
Mila O bullying
pode causar
traumas para o
resto da vida,
pois acaba com a
auto-estima. O
aconselhável para
casos como o seu
seria um
acompanhamento
psicológico.

"Tentei pular uma


poça de
refrigerante e caí.
Todos riram de
mim. No dia
seguinte, meu
'amigo' começou
a caçoar de mim
inventando um
monte de
apelidos, como:
Bambi e Galinha
Desengonçada.
Detesto apelidos.
Como paro com
isso? "
Adriana É muito
difícil controlar
os apelidos, até
porque muita
gente gosta do
seu. Porém se
esse não é o
seu caso, diga
claramente que
não agrada a
você. As
pessoas devem
respeitar o
direito do outro
de não aceitar o
apelido que
recebeu. Se
ficar calada,
ninguém saberá
que isso a
magoa.

"Gostaria de
saber qual a
melhor forma de
agir bem na hora
que alguém está
tirando sarro de
mim."
Nathalia A melhor
maneira é
afastar-se para
não ficar
sofrendo. O
segundo passo é
buscar ajuda. Mas
o ideal, mesmo, é
ficar longe dessas
pessoas que
estão fazendo
mal a você.

"Estou muito
triste. Eu
pensava que
tinha amigas
verdadeiras e, de
uma hora para
outra, elas
passaram a me
ignorar. Soube
que andaram
falando mal de
mim por aí e não
sei o porquê de
tudo isso. O que
devo fazer?"
Ana Beatriz A
melhor opção é
encontrar outro
grupo. Procure
pessoas com
quem você tenha
afinidade, amigos
novos que não
vão discriminá-la.
Desse jeito, você
se afasta de quem
não quer a sua
felicidade e que
só pretende
magoá-la

Bullying no cinema:

Alguns filmes sobre o tema.


Meninas Malvadas: uma garota criada na selva africana só
conhece uma escola aos 16 anos. Ela começa a andar com um
grupo de patricinhas que adoram esnobar os outros. Para vingar-
se, a adolescente passa a agir da mesma forma.

Tiros em Columbine: o polêmico diretor e escritor Michael


Moore levou ao cinema a história dos jovens Eric Harris e Dylan
Klebold, que estudavam na escola Columbine High School e
mataram seus colegas. (Leia sobre o fato em "Casos famosos".)

Nunca fui beijada: a jornalista Josie Geller recebe a difícil missão de fazer uma
reportagem sobre o comportamento dos adolescentes na escola. Só que a moça
nunca foi beijada e não era das mais populares na época de colégio. O filme
mostra como a protagonista vira motivo de chacota para seus colegas.

Casos famosos

No dia 19 de novembro de 2004, em Atlanta, Estados Unidos, duas


meninas de 13 anos foram presas por terem feito um bolo com remédio
vencido, água sanitária, barro e molho de pimenta, que depois, serviram
aos colegas da escola. Doze adolescentes foram parar no hospital por
causa da maldade das garotas.

Eric Harris, de 17 anos, e Dylan Klebold, de 18, sem antecedentes


criminais, no dia 30 de abril de 1999, armados, invadiram o colégio
Columbine High School (Colorado, Estados Unidos), onde estudavam, e
mataram 13 pessoas. Depois do massacre, os jovens se suicidaram. A
explicação para a tragédia é que ambos eram alvos de chacota de
colegas e professores. Essa rejeição causou revolta nos meninos, que
acabaram tomando atitudes extremas.

Em fevereiro do ano passado, na cidade de Remanso, na Bahia, o


jovem D., de 17 anos, matou duas pessoas e feriu três. O menino
sempre sofria humilhações na escola. O garoto revelou que matou F., de
13 anos, porque ele vivia humilhando-o. No dia do crime, F. teria
estragado sua mochila e jogado um balde de lama nele.

Sites em que você pode procurar ajuda


http://www.bullying.org (em inglês)
http://www.bullying.com.br
Abaixo os valentões

A escola pode ser uma tortura para crianças


que são vítimas de bullying - a intimidação
física e psicológica feita por alunos
briguentos. O fenômeno, que também
envolve a disseminação de apelidos, boatos
e fofocas, é mais comum que se supõe.

por Mechthild Schäfer


.

Os meninos atacam Basini quase toda noite, arrancando-o da cama e empurrando-o


escada acima para o sótão. Nenhum professor vai ouvir seus gritos de lá. Eles o forçam a
se despir, então fustigam suas costas. Nu e indefeso, o garoto se encolhe enquanto seus
torturadores o fazem gritar "Eu sou uma besta!". Durante o dia, outros estudantes o
cercam no pátio e o empurram até ele cair, sangrando e sujo.

O jovem Törless, de Robert Musil, romance sobre os anos da puberdade passados num
colégio interno da Áustria na virada do século, foi publicado em 1906. Os impulsos que
fervem por trás dos muros da Academia Militar Imperial e Real podem soar como relíquias
embaraçosas de uma era passada, mas não são. Violência de um grupo contra um
indivíduo, acobertada pelos colegas e mantida a distância pelos professores, ainda
acontece nas escolas hoje. E o bullying - termo em inglês para intimidação física e
psicológica -, assim como a disseminação regular de apelidos depreciativos, boatos e
fofocas, são mais comuns que a sociedade, os funcionários de escolas e os pais
gostariam de acreditar.

Nos Estados Unidos, infelizmente, foi preciso ocorrer um episódio de violência chocante
para chamar mais atenção ao problema. O tiroteio na escola secundária Columbine, no
Colorado, foi uma tentativa trágica de revide de dois meninos que vinham sendo
intimidados por dois atletas populares da escola. O bullying foi um dos fatores que
levaram Jeffrey Weise para uma vida de isolamento antes de partir para o tiroteiro
desordenado de retaliação na Red Lake High School em Minnesota, matando nove
pessoas e a si próprio. E todos os anos adolescentes cometem suicídio, deixando para
trás bilhetes como o de uma menina canadense de 14 anos: "Se eu tentar buscar ajuda,
será pior... Mesmo se eu delatasse, nada os deteria". As escolas devem tomar medidas
mais agressivas para parar o tormento, e a mais importante é entender melhor o que
motiva os autores de bullying.

Abuso sistemático
A partir do início da década de 80, liderados em grande parte pelo psicólogo norueguês
Dan Olweus, da Universidade de Bergen, psicólogos e pesquisadores do comportamento
estudaram com seriedade o abuso coletivo (mobbing, em inglês) - equivalente ao bullying
em grupo - entre estudantes. Em sua pesquisa pioneira com estudantes suecos e
noruegueses, Olweus concluiu que as crianças podem ser muito hábeis em usar
sistematicamente o poder social contra os colegas de escola mais fracos. O objetivo é
fortalecer sua própria posição.

O mobbing cresce em circunstâncias hierárquicas porque permite que a dominação e a


força prevaleçam como medida de valor social de um indivíduo. Portanto, não é
surpreendente que prisões e bases militares, com sua ênfase em regras e hierarquia,
sejam cenários de abuso coletivo com freqüência. Características similares são
encontradas na escola, onde as crianças mais velhas e fortes usam o poder da idade
sobre os mais jovens e fracos. Lançado dentro de um universo de personalidades
variadas, certos indivíduos tentam criar uma estrutura que os favoreça. E, normalmente,
esse poder é usado para abusar dos outros.

De acordo com o Centro Nacional de Estatística de Educação dos Estados Unidos, em


2003 cerca de 7% dos estudantes americanos com idade entre 12 e 18 anos notificaram
ter sido alvo de bullying nos seis meses precedentes (e certamente muitos outros nunca
disseram uma palavra). A probabilidade de bullying foi maior entre as crianças com
menos idade: 14% dos estudantes do 6o ano (equivalente à 5a série do ensino
fundamental no Brasil), 7% dos estudantes do 9o ano (8a série do ensino fundamental) e
2% dos alunos do 12o ano (3o ano do ensino médio) disseram ter sido importunados. Um
estudo de 2001 elaborado pela Fundação Família Kaiser e Nickelodeon revelou que 74%
das crianças entre 8 e 11 anos reportaram a existência de bullying em suas escolas; 86%
das crianças entre 12 e 15 anos também observaram a existência de bullying.

As crianças que são vítimas desse tipo de intimidação normalmente enfrentam o assédio
sozinhas. Outros meninos e meninas ficam do lado dos perpetradores, temendo que
possam ser os próximos da fila, ou fingem que nada aconteceu e permanecem  quietos.
Poucos encontram coragem para defender os colegas. No final, o abuso coletivo afeta
todo o ambiente da escola, não apenas os autores de bullying e seus alvos.

Sede de poder
Para aprender sobre o que motiva os que abusam, uma equipe de pesquisa (da qual fiz
parte) da Universidade de Munique conduziu um estudo de longo prazo com 288 alunos
da 2a e 3a séries de diferentes escolas infantis no sul da Alemanha. Nós os questionamos
sobre suas experiências. Que tipo de criança era mais inclinado a se tornar presa dos
agressores? Como o resto da classe reagia? Nós entrevistamos as mesmas crianças seis
anos mais tarde, quando elas estavam na 8a série.

Perguntamos se as vítimas anteriores ainda eram alvo de bullying. E perguntamos como


lidavam com tais problemas agora que eram adolescentes.

Nossa primeira descoberta foi que os agressores podiam ser identificados cedo na escola
primária: mesmo com pouca idade, eles são capazes de organizar um cerco contra certas
crianças: os chamados bullies parecem estar sempre observando para escolher novas
vítimas. E encontram dificuldade em abandonar seus papéis com o passar do tempo;
intimidadores tendem a continuar intimidando ao longo de muitos meses e até mesmo
anos.

Os agressores normalmente são crianças dominadoras, que aprenderam cedo que


poderiam se tornar líderes de um grupo sendo agressivos. Seu modus operandi é
humilhar o colega física ou psicologicamente suscetível para ascender ao topo da ordem
social. Com atitudes brutas, eles tentam forçar os outros a se curvar. Outras crianças
podem se impor simplesmente através do medo. Freqüentemente  as crianças
intimidadoras aprendem sobre o poder da agressão em casa.

Pesquisadores da Universidade do Arizona que estudaram mais de 500 alunos da 5a à 8a


série do ensino fundamental descobriram que as crianças mais propensas ao bullying
haviam sido mais expostas a punições físicas pelos pais, tinham visto mais violência na
TV e tiveram menos modelos de referência do papel adulto. Até certo ponto, essas
crianças haviam aprendido com exemplos.

Da mesma forma, encontramos crianças de 8 anos que, por suas próprias declarações e
pelas de seus amigos, haviam sido alvo de abuso coletivo por um bom tempo. Elas
suportaram o tormento e a rejeição sem nunca opor resistência ou informar os adultos
sobre a situação. As conseqüências podem ser de longa duração. Nos primeiros estudos,
mostramos que crianças atormentadas pelos colegas de escola ao longo de um período
prolongado são incapazes de se defender contra a hostilidade e reagem aos ataques com
angústia e retraimento. Essas terríveis experiências aumentam as probabilidades de elas
caírem nas armadilhas colocadas pelos bullies.

Quando fizemos as mesmas perguntas seis anos mais tarde, as respostas dos estudantes
confirmaram. Depois de perguntar aos alunos de 13 e 14 anos de quais crianças eles
gostavam e de quais não, desenvolvemos um perfil de preferência que nos deu uma boa
percepção de um ranking social individual em classe. O resultado foi surpreendente. Em
contraste com a relativa baixa posição dos agressores durante a escola primária, eles
haviam se tornado muito populares entre seus colegas de classe. As vítimas, por outro
lado, receberam poucos pontos de empatia.

Como certos estudantes são selecionados, abusados e finalmente rejeitados por muitos
de seus colegas? Essas crianças são desprezadas porque são hostilizadas ou são
hostilizadas por ser desprezadas? Parece que ambas as dinâmicas acontecem. Mesmo
se as vítimas forem capazes de evitar alguns dos agressores quando são mais jovens, a
escola se torna uma tortura quando elas ficam mais velhas. Seus colegas agem como se
elas não estivessem lá ou reagem com total rejeição e cochicham pelas costas. Os
agressores intensificam esse jogo, insultando e zombando delas. Muitas das vítimas são
estigmatizadas com o papel de coitadinhas e se tornam o brinquedo de quem as
persegue. E, quanto mais tempo prossegue a intimidação, mais a lealdade dos amigos é
perdida.

Essa dinâmica é agravada pelo suposto desinteresse das pessoas próximas, uma idéia
explorada em profundidade no início da década de 90 pela psicóloga canadense Debra
Pepler. Depois de entrevistar estudantes sobre o abuso coletivo, ela e sua equipe os
seguiram com câmeras escondidas e microfones. Os pesquisadores descobriram que
quase 60% dos supostos estudantes neutros estavam em termos amigáveis com os
bullies. Quase metade dos observadores "não envolvidos" mudou gradualmente para uma
atitude de zombaria das vítimas e estímulo aos agressores. Outros estudos
demonstraram que a grande maioria dos estudantes coopera com os bullies ou se tornam
os próprios agressores.

Ajudando a vítima
Entender melhor o que faz os bullies prevalecer sobre os demais ajudaria a cortar sua
fonte de poder. Ao mesmo tempo, é preciso fazer mais para minimizar os prolongados
efeitos sobre aqueles que sofreram. Em 2002, eu e meus colegas entrevistamos 884
homens e mulheres da Alemanha, Reino Unido e Espanha; mais de 25% deles lembraram
de ter sofrido ataques físicos e psicológicos de outras crianças quando estavam na
escola. A mágoa de terem sido excluídos e ameaçados continuava afetando-os na vida
adulta. Ex-vítimas de abuso coletivo em geral têm problemas para desenvolver relações
de confiança e sentem insegurança quando interagem com outros adultos. Suas
expectativas sobre si próprios e outras pessoas são mais baixas do que a média. A única
observação positiva foi a constatação de que a experiência anterior em geral não se
repete na vida profissional, embora o abuso coletivo - conspiração de subordinados ou
superiores através de rumores, insinuações, intimidação, humilhação, descrédito e
isolamento - também ocorra em locais de trabalho.

As conseqüências a longo prazo do mobbing tornam claro que a prevenção antecipada é


importante. A difícil tarefa de intervir no momento certo recai sobre professores e pais,
que podem não estar preparados para agir de forma apropriada. Por exemplo, estudantes
noruegueses reclamam que os adultos nem mesmo reconhecem a situação em sala de
aula. Nossa equipe de trabalho confirmou isso: questionados, os professores admitiam se
sentir incapazes de entender o complexo relacionamento dos estudantes.

Os professores podem pelo menos dar exemplo através de seu próprio comportamento.
Devem evitar comentários pejorativos e nunca devolver o trabalho de casa em ordem de
nota decrescente. Estudantes mais fracos não devem ser criticados em sala de aula. Se
um professor deixa claro que  todos são tratados da mesma forma, os alunos vêem nisso
um sinal para não excluir outros do grupo.

O assunto "abuso coletivo" certamente cabe no currículo, talvez em combinação com


discussões sobre violência ou projetos especiais. Outra forma de melhorar como as
crianças e adolescentes se comportam socialmente é apontar alunos mediadores, que
possam ajudar a resolver conflitos em sala de aula. Iniciativas como essas promovem
coesão dentro do grupo e faz com que os agressores encontrem dificuldade para corroer
a comunidade escolar, isolando e acossando seus membros mais fracos.

Na narrativa de Musil, o jovem Basini não encontra ajuda, e os três agressores ficam sem
punição. Os outros estudantes acobertam os bullies e os professores terminam enredados
numa teia de mentiras e trocas de acusação. No final, Basini é expulso. A vida real para
uma vítima de verdade pode ser muito pior.

Seu filho é vítima?


Muitas crianças não dizem aos pais se estão sendo alvo de bullying porque ficam com
medo de que, de alguma forma, eles venham a culpá-las ou de que outros fiquem
sabendo que elas "contaram" e, assim, os agressores aumentem ainda mais as
provocações. Contudo, os pais podem ficar atentos para certos indicadores suspeitos:
Resistência inexplicável em ir à escola.

Medo ou ansiedade incomuns.

Distúrbios de sono e pesadelos.

Queixas físicas vagas, tais como dor de cabeça ou de estômago, especial mente nos
dias de aula.

Pertences que são "perdidos" ou que chegam em casa avariados.

Se você suspeita que seu filho pode ser uma vítima, não pergunte a ele diretamente.
Você deve fazer perguntas como "O que acontece durante o horário de almoço?",
"Como é ir para a escola a pé ou de ônibus?", "Há alguma criança agressiva na
escola?". Seja um bom ouvinte. Permita que a criança tenha tempo para explicar como
se sente. Se você suspeita que seu filho(a) pode ser uma vítima, diga claramente que
não é culpa dele(a). Então pergunte a si mesmo se a situação é séria o suficiente para
procurar o professor, o diretor da escola ou até mesmo a polícia.
Por Sarah Shea, professora associada de pediatria da Universidade
Dalhousie em Halifax, Nova Escócia.

Adaptado de "Cartilha para os pais sobre bullying na escola", de Richard B. Goldbloom,


publicado no Reader's Digest
on-line do Canadá, em 9 de março 2005.
 
Como coibir o bullying
Não demonstrar fraqueza é uma forma de a criança reduzir as chances de um agressor
vir a escolhê-la como alvo. Algumas táticas para o confronto:

Manter  postura ereta e olhar o agressor direto nos olhos.

Ser educado, mas firme. Dizer "Pare" ou "Me deixe em paz".

Não chorar ou mostrar que ficou aborrecido, mas afastar-se se não puder esconder o
medo.

Informar um adulto de confiança sobre o ocorrido.


Os pais também podem ajudar as crianças que estão sendo vítimas de perseguição
das seguintes maneiras:

Contatar a escola, mantendo anonimato, e perguntar se a instituição tem uma política


para lidar com os agressores.

Se ficar seguro de que uma investigação não irá expor seu filho a riscos, informar a
escola dos acontecimentos que ficaram conhecidos, fornecendo datas, hora e lugar.

Acompanhar o caso junto com os administradores da escola. Perguntar que ações


foram adotadas e como o filho vai ser mantido em segurança.

Por Cindi Seddon, diretora da Pitt River Middle School em Port Coquitlam, Colúmbia
Britânica, Canadá, e co-fundadora da Bully B'ware Productions