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A CONCEPÇÃO DO FEIO E SUA INSERÇÃO NA SOCIEDADE DE MASSA

Isabela Pereira Bonfim

RESUMO
Este trabalho propõe uma discussão sobre a inserção da estética do feio na
sociedade através dos tempos, desde sua origem bíblica no simbolismo do diabo
aos dias de hoje, demonstrando sua oposição ao belo e sua utilização como
instrumento de confronto e rebeldia diante das normas vigentes.

PALAVRAS-CHAVE
Feio – belo – camp – diabo – estética – sociedade – massa – tendência
INTRODUÇÃO

O que é belo? O que é feio? Quando se definiu o que é feio? A concepção de


feiúra remonta à criação divina, quando tudo o que foi construído por deus é
considerado belo e aquilo que a ele se opõe é considerado feio. A feiúra nasce
com o diabo, que se opondo a deus, é expulso do céu.

Esses primeiros conceitos atravessaram os tempos, mas não sobreviveram


ilesos. Há revisões sobre o feio, novas interpretações e uma tendência de
aceitação social da cultura marginalizada.

Como isso ocorreu é o tema desse trabalho que pretende passar de maneira
sucinta sobre a história do feio baseado, especialmente, na obra A história da
feiúra, de Umberto Eco. Divido em cinco partes, relembrará as caricaturas, o rock
e a cultura camp, evidenciando a concepção inicial da feiúra e como ela é vista,
diante do belo, na sociedade contemporânea.
1. O DIABO E A CONCEPÇÃO DO FEIO

Na sociedade atual é tênue o limite entre o feio e o belo, de tal modo que a
questão da beleza e da feiúra é reduzida muitas vezes a uma opinião sobre gosto
pessoal. Mas a discussão não se sucedeu assim durante toda a história. São claras
e repetitivas as referências à busca pela perfeição na antiguidade clássica, com os
ideais de beleza gregos, medidas racionais e representações realistas, bem como o
seu reflexo no período renascentista, com o culto pelo homem e sua anatomia.
A definição de belo, ainda que mutável, sempre esteve mais presente no
nosso dia-a-dia e remonta à criação divina. Quando deus cria a luz e o mundo, tudo
o que ele toca e constrói é belo. Partindo desse pressuposto, assimila-se de maneira
muito fácil a idéia de que a natureza é bela: árvores, montanhas, animais, rios e tudo
o que foi concebido pela mão de deus.
Mesmo que o desenvolvimento das mais diversas sociedades no curso da
história tenha revisado esse conceito, acrescentado inúmeras outras possibilidades
de beleza e questionado outras, esse ainda é o ponto de partida e de mais fácil
compreensão de beleza no mundo ocidental. Mas e o feio? Quando surge a
definição do feio? O que marca a concepção do feio dentro da criação divina?
Ainda hoje, pensar sobre o feio é um exercício mental que confronta o que
antes a mente humana já definiu como belo. Ou seja, definir o feio ainda está muito
interligado ao que inicialmente se entende por bonito. E foi assim que surgiu a
concepção de feio, de dentro da criação divina, daquele que deu as costas à deus: o
diabo. Vilém Flusser escreveu sobre o negativo da figura do diabo: “Nós, os
ocidentais, somos produtos de uma tradição oficial que pinta o diabo em cores
negativas, a saber, como o opositor de Deus”. (FLUSSER, 1965, p.16).
Desde os tempos mais remotos, o diabo é pensado como ícone central da
feiúra e foi implacavelmente retratado como o que há de mais feio durante séculos: o
oposto da perfeição de deus. Uma criatura disforme, união de partes anatômicas de
seres ferozes, com potenciais de destruição e dor, como cuspir fogo e força
incomensurável, odores desagradáveis e demais dessemelhanças com o ideal de
beleza criado por deus.
Essa construção do diabo é muito fortalecida durante a Idade Média e o auge
da Igreja, especialmente pelas artes, ilustrações e pinturas de época, e também pela
literatura, tendo como forte expoente Dante Alighieri, com sua descrição de Lúcifer
no Inferno de sua A Divina Comédia.
Dessa forma, a concepção do feio nasce no oposto do belo, que se entende
pela criação divina, e se propaga no imaginário da forma física demoníaca. Assim, o
que é belo se assemelha à deus, enquanto o que é feio se assemelha ao diabo.

2. O FEIO E O DESCONHECIDO

Uma segunda assimilação do feio surge para o homem como a oposição do


seu próprio eu. Já nas sociedades clássicas o estrangeiro aparece como uma figura
inimiga, que vem a ser colonizada ou escravizada. Na civilização grega, berço da
democracia, o estrangeiro não era considerado cidadão, não tinha direito a voto e
podia ser escravizado.
O homem de uma dada cultura, com sua vestimenta, língua, hábitos
alimentares e costumes em geral não reconhece no outro o seu ideal de beleza e
passa a apontar o diferente como feio, bárbaro. Dentro desses padrões, muitas
vezes o homem ocidental retrata o oriente como aberração ainda nos dias de hoje.
Seguindo a linha da primeira concepção do feio, a demoníaca, quando em
contato com outra civilização, em muitas oportunidades o homem deixou o registro
do que viu: o diabo. Em ilustrações e cartas de viagem, através da história, o homem
descreveu o diferente como diabólico, assustador, bizarro. A mesma assimilação é
feita àquilo que não se conhece, como os monstros marinhos descritos na Idade
Média.
Em Relatório da embaixada a Constantinopla, escreveu no século X sobre os
bizantinos Liutprando de Cremona apud Eco (2007, p.188):

Em sete de junho, no dia santo de Pentecostes, compareci diante de


Nicéforo, um ser monstruoso, um pigmeu de cabeça enorme, que parece
uma toupeira pela pequenez dos olhos, enfeado por uma barba curta,
larga, espessa e grisalha, cujo pescoço tem um dedo de comprimento e
que parece um nativo Íope pelo tamanho e densidade dos cabelos, um
etíope pela cor, “com quem não gostarias de topar no coração da noite”, de
ventre obeso, seco de nádegas, de coxas longas demais para sua pequena
estatura, pernas curtas, pés chatos e uma jaqueta de camponês muito
velha, fétida e desbotada de tanto uso, calçado com sapatilhas de siciônio,
de língua insolente, com o caráter de uma raposa, um verdadeiro Ulisses
para perjúrios e mentiras (...)

2.1 O Feio chega à imprensa

O conceito de feio aplicado ao estrangeiro, visto também como um inimigo,


deu origem ao costume de ressaltar os traços diferentes desse opositor. A sátira
bebe no feio, no ridículo e é desse meio que surge a caricatura política, presente nas
primeiras ilustrações coladas às paredes na Reforma Protestante, passando pela
Revolução Francesa, os cartazes antinazistas e as charges de fim de revista de
hoje.

John Darkow
2008

John Heartfiel
(data desconhecida)
Belmonte
1939

3. O DIABÓLICO E O ROCK

A estética do feio como diabólico também teve sua aceitação social. Apesar
de historicamente prevalecer uma cultura cristã no ocidente, sempre existiram
expressões religiosas pagãs, e até mesmo satânicas, que sofreram com a
supremacia da Igreja medieval e mais tarde com a constituição de uma sociedade
de elite branca e protestante, especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Mas essas seitas, filosofias ou religiões não sucumbiram e, mais tarde, no
declínio da elite americana na década de 1960, foram abraçadas como um
movimento de contra-cultura que em breve estaria em voga. O paganismo, ou
satanismo, eram mais uma ideologia rebelde junto ao movimento hippie.
Ambos os movimentos tiveram fortes expoentes musicais que, rapidamente,
expandiram a contra-cultura especialmente ao setor jovem da sociedade, que e
tornou suas ideologias e, conseqüentemente, suas influências estéticas em
tendência.
Os aspectos mórbido e sombrio do paganismo eram muito mais íntimos da
estética do feio, assim como o satanismo, diretamente ligado ao diabo, era uma
representação forte da oposição ao belo, de um movimento revolucionário de atitude
que floresceu e se popularizou através do rock n’ roll.
Até a década de 1970, o rock já tinha em suas raízes uma postura rebelde,
mas não macabra. Em 1969, o Black Sabbath inaugura essa coalizão do rock com
referências fúnebres e satânicas, através da composição das letras, arranjos
musicais, figurino negro e encenações de rituais e representações do próprio diabo
em palco pelo frontman Ozzy Osbourne.
O objetivo inicial sempre foi causar medo e terror, na forma de uma contra-
corrente do que se produzia e estava em voga no período, mas os integrantes da
banda também acreditavam na sedução que o horror causava nas pessoas, no
gosto pelo feio.
O primeiro passo dado pelo Black Sabbath revolucionou os alicerces do rock
e o transformou no que conhecemos hoje nas suas várias espécies, mas também
popularizou a cultura do sombrio e trouxe espaço para essa estética na mídia. Por
fim, surgiram diversas tribos que colocaram o rock em algum ponto entre a cultura
marginal e os ares de pop.

4. O GOSTO PELO FEIO

O feio conseguiu, aos poucos, se inserir na sociedade moderna e suavizar o


estigma inicial de negatividade proposto pela concepção de oposição ao belo. O que
parece ter acontecido com o passar dos anos é que a noção de feio e belo como
pólos opostos não se sustentou mais, porque passaram a conviver dentro dos
gostos pessoais de cada indivíduo.
Umberto Eco (2007, p. 426) entende que:

Costuma-se repetir em toda parte que hoje em dia se convive com modelos
opostos porque a oposição feio/belo não tem mais valor estético: feio e
belo seriam duas opções possíveis a serem vividas de modo neutro, o que
parece se confirmar em muitos comportamentos juvenis.

A co-existência e convivência de ambos, não significa, porém, que o feio


tenha se aproximado do belo, ou se tornado menos feio. Pelo contrário, a feiúra na
modernidade se torna opcional - o indivíduo escolhe ser feio ou estar em contato
com o feio -, e justo por isso ela tem o objetivo de chocar, de se rebelar contra as
normas e de se apresentar cada vez mais feia.
Não caberia aqui argumentar a opção pelo feio como característica da cultura
de massa, já que a arte contemporânea, que enche as galerias mais renomadas do
mundo, brinca diariamente com o feio. O happening, expressão extrema da arte
atual, traz performances horrendas de mutilação de animais e do próprio corpo do
artista, com derramamentos de sangue e rituais instigantes bem característicos da
face mais demoníaca da feiúra. Sobre os consumidores dessa espécie de arte,
Umberto Eco (2007, p. 423) afirma:

E são os mesmo usuários que não perderam o sentido tradicional do belo,


e experimentam emoções estéticas diante de uma bela paisagem, de uma
bela criança, de uma tela plana que repropõe os cânones da Divina
Proporção.

Os movimentos musicais do século XX construíram diversas tribos que se


identificavam especialmente por coincidências estéticas. O rock, particularmente, em
sua gama de vertentes, reuniu outras diversas categorias de tribos resignadas a
chocar através de suas roupas escuras ou rasgadas, cabelos muito longos ou
armados, assessórios metálicos, piercings e tatuagens, além de atitudes rebeldes e
de transgressão.
A partir do momento que essas tribos se estabeleceram, independente da
motivação rebelde pessoal de cada um, o indivíduo que ingressa nesse grupo não
busca somente causar espanto, mas se tornar igual aos demais. Diante disso, já é
possível dizer que o feio deixou de ser apenas um protesto ou gosto particular, mas
também uma chave de ingresso e aceitação na sociedade.
Mais uma peculiaridade do século XX é a explosão do cinema e seus diversos
gêneros dedicados ao feio: terror, horror, suspense, trash, serial killer e todas as
expressões possíveis de feiúra, com ficções científicas e personagens extra-
terrestres. Cada uma dessas seções deixou seus clássicos cinematográficos, que
deram a volta no mundo e arrebentaram bilheterias. As pessoas assistem a esses
filmes simplesmente porque já são considerados comuns, porque todos vêem. Mas
também por há nisso alguma excitação e prazer em presenciar o feio.
Esses são apenas alguns exemplos da forma como o feio ganhou espaço na
mídia e em grandes veículos de comunicação até ser consumido pela sociedade.
Primeiro como crítica ou sátira, depois como uma forma provocativa e questionadora
dos padrões artísticos, a questão é que o feio adentrou o dia-a-dia das pessoas. Se
antes era uma opção de rejeição ao lugar comum, agora o diferente é uma senha de
inclusão em determinado grupo, ou simplesmente o próprio senso comum.
5. A CULTURA CAMP

Um fenômeno curioso que envolve o feio hoje trata da transição de estéticas


anteriormente consideradas horrendas que, após algum tempo, passam a ser
consideradas, de algum modo, um clássico cultural.
Isso, mais uma vez, não significa que o feio se torne belo. Significa apenas
que, por alguma razão, seja mudança de costumes, acomodação dos olhos à
estética do feio, produções posteriores ainda mais irreverentes, ou simplesmente
saudosismo de um modismo anterior, o que era feio, brega ou de mau-gosto passe a
ser, depois de certo tempo, considerado belo.
A esse novo gosto da-se o nome de camp. É uma definição complicada,
abrangente e bastante mutável, mas fácil de ser assimilada através de exemplos
cotidianos. Por exemplo: os cortes de cabelo estilo poodle, muito característicos dos
anos de 1970 e 80, foram tendência da época, mas de gosto duvidoso.
Espalhafatosos e armados, eram populares, mas dificilmente tidos como elegantes.
Quase trinta e cinco anos depois, quando os cortes já saíram de moda e foram
crucificados pelo bom gosto, algumas pessoas tornam a usar o antigo modismo,
hoje tido como charme, um clássico de época.
A pintura expressionista do século XIX é um exemplo de confronto com a
academia, de oposição ao que é considerado belo. Muito criticada inicialmente, foi
mais tarde considerada um marco nas artes, com seus trabalhos experimentais de
cor e luz, e hoje é colecionada e muito estudada nas mesmas academias que antes
não a aceitaram.
O gosto camp é isso, alguma espécie de mudança de opinião e pode estar
relacionado a roupas, cortes de cabelo, pintura, música, cinema ou qualquer coisa.
Não pode ser produzido com a intenção de ser camp porque o que faz o camp é o
tempo e a cabeça das próprias pessoas. Ainda assim, o camp não passa a ser belo
como todas as outras estéticas sempre reconhecidas como belas. “Sontag recorda
que a manifestação extrema do gosto camp é a expressão ‘é belo porque é horrível’”
(ECO, 2007, p.417).
CONCLUSÃO

O presente trabalho perpassou pela história do feio, discutiu como essa


concepção surgiu e como se desenvolveu através dos tempos, confrontando as
primeiras impressões do feio na sociedade antiga e medieval e o que se transformou
na sociedade moderna e contemporânea.
A inicial oposição de feio e belo não cabe mais nos dias de hoje em que
ambos convivem nos gostos de cada pessoa. Hoje a estética do feio conseguiu se
inserir na sociedade, adentrar a cultura de massa e virar tendência.
Além da fina camada que divide o feio do belo desde os primórdios, ainda é
possível que os papéis se invertam, como acontece na cultura camp, ou que
expressões marginalizadas se tornem expoentes do pop no mundo, como aconteceu
com o rock n’ roll.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ECO, Umberto. A história da feiúra. Trad. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record,
2007

FLUSSER, Vilém. A história do diabo. São Paulo: Livraria Martins Ed., 1965