RESENHAS

Ellen Meiksins Wood. A origem do capitalismo. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001, 143 p. Ligia Osorio Silva. Professora do Instituto de Economia da Unicamp A controvérsia sobre as origens do capitalismo Alguns leitores devem lembrar-se que o número 10 de Crítica Marxista, editado no ano de 2000, publicou um artigo da historiadora Ellen Wood. Esse artigo, intitulado “As origens agrárias do capitalismo”, já sintetizava, em certa medida, as conclusões do livro que ora resenhamos. O livro traz, entretanto, outros desdobramentos que merecem atenção. Encontramos na sua primeira parte, um resumo breve, porém esclarecedor, das principais contribuições dos participantes do conhecido “debate sobre a transição”1, bem como das tendências atuais da historiografia a propósito das origens do capitalismo. O balanço final dessa parte aponta novas questões para a história econômica marxista. “Pensar em alternativas futuras ao capitalismo exige que exploremos concepções alternativas de seu passado”. Esta frase da Introdução expressa com clareza a intenção da autora: entender a especificidade do sistema capitalista com o objetivo de alertar os povos empenhados em melhorar suas condições materiais de existência para a impossibilidade de repetirem a experiência histórica dos países dominantes. Com efeito, a contribuição que a economia de mercado capitalista pode dar ao desenvolvimento das nações pobres da África, da Ásia e da América Latina vem se mostrando menor a cada década, enquanto os malefícios que advêm da sua adoção (destruição dos recursos naturais, envenenamento da atmosfera, dos rios e dos mares, destruição da camada de ozônio, mudanças perniciosas nos hábitos alimentares) e as conseqüências que acarretam (disseminação da fome, das epidemias, das enchentes, etc.) aumentam sem cessar. Sem mencionar a piora sistemática

O debate da transição foi provocado pelas críticas de Paul Sweezy ao livro de Maurice Dobb A Evolução do Capitalismo e desenrolou-se na revista Science & Society, entre 1950-53. Vários foram os participantes do debate; o essencial das contribuições está em R. Hilton (ed.) La transición del feudalismo al capitalismo, 5ª ed., Barcelona: Grijalbo, 1987. 179

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da distribuição da riqueza a nível planetário, pois está cada vez mais claro que o movimento atual do capitalismo é excludente.2 Nesta perspectiva, a autora empenha-se em mostrar que o capitalismo não foi uma conseqüência natural e inevitável da natureza humana, ou da antiga tendência social de “comerciar, permutar e trocar” (Adam Smith). Ao contrário, foi o produto tardio e localizado de condições históricas muito especiais. Para construir uma crítica contundente à visão do capitalismo como uma decorrência “natural”, o primeiro alvo de Wood são as explicações que presumem a presença do capitalismo, em estado latente, nas sociedades “pré-capitalistas”, precisando, para desabrochar, apenas que sejam removidos os obstáculos de ordem política ou ideológica. Nesta linha de raciocínio, a explicação mais difundida das origens do capitalismo é o chamado modelo mercantil do desenvolvimento econômico, que considera o capitalismo o resultado da expansão dos mercados e da crescente mercantilização da vida econômica. Elaborada de forma sistemática por Henri Pirenne, esta explicação sugere que o renascimento do comércio, ocorrido graças ao crescimento das cidades e à remoção dos entraves que pesavam sobre os comerciantes, liberou as forças latentes do capitalismo que estavam presentes nos “interstícios do feudalismo”. Nesta explicação o capitalismo aparece associado às cidades e à figura histórica do burguês, pressupondo-se que cidades e comércio sejam, por natureza, antitéticos ao feudalismo, e que o crescimento de ambos implica na crise e desorganização do modo de produção feudal. A crítica de Maurice Dobb ao modelo mercantil sustenta a insuficiência dos argumentos de Pirenne, uma vez que, em certas circunstâncias históricas, o desenvolvimento do comércio serviu para reforçar as relações feudais e não para dissolvê-las. Dobb defendeu a necessidade de examinar o desenvolvimento das relações de produção no interior do modo de produção feudal, onde estaria a chave para o entendimento da crise do sistema. Partindo da idéia de Dobb, de que a crise do feudalismo não se explica apenas pelo desenvolvimento do comércio, Wood procura incorporar a contribuição de Paul Sweezy ao debate. Em primeiro lugar, concorda com Sweezy em que é necessário tratar o declínio do feudalismo e o surgimento do capitalismo como dois processos independentes. Do contrário, se considerarmos a dissolução do feudalismo suficiente para explicar a ascensão
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François Chesnais, A mundialização do capital, tradução de Silvana Foá, São Paulo: Xamã, 1996, p.33. 180

que encontramos a gênese do capitalista industrial no “comerciante e empregador de mão de obra assalariada”. diferença esta que requer uma explicação. Marx sugere que os capitalistas industriais. portanto. não estaríamos de novo muito próximos dos pressupostos do modelo mercantil? A ênfase pode ser colocada no campo e não na cidade. não crê na plausibilidade histórica desta tese. Na Inglaterra do século XVII. a forma de arrendamentos pagos em dinheiro. teriam surgido das fileiras dos pequenos produtores (artesãos). na luta de classes entre senhores e camponeses e não na expansão do comércio. e que esta seria a “via realmente revolucionária”. As condições de posse da terra eram tais que um número crescente de 181 . nas condições peculiares da Inglaterra. o capitalismo já estaria presente nos interstícios do feudalismo. Crê. A conseqüência não pretendida foi uma situação em que os produtores ficaram sujeitos aos imperativos do mercado. Sweezy. Em segundo lugar. Os senhores e os camponeses. na Inglaterra. Retomando a discussão nos anos 1970. Numa passagem de O Capital (Livro III).do capitalismo. de que há uma diferença qualitativa e não apenas quantitativa entre a pequena produção mercantil para o mercado e o modo de produção capitalista. na Inglaterra. cada vez mais. concorda com a crítica de Sweezy à interpretação convencional da teoria marxista da “via realmente revolucionária” para o capitalismo industrial. De algum modo. cujos valores não eram fixados pela lei ou pelos costumes. uma proporção excepcionalmente grande da terra estava nas mãos dos latifundiários e era trabalhada por arrendatários cujas condições de posse da terra assumiram. expresso ao longo do texto de diversas maneiras. mas respondiam às condições do mercado. dispararam involuntariamente a dinâmica capitalista. ao contrário. e como foi que isso acionou um padrão característico de crescimento econômico autosustentado? Sua resposta (polêmica) leva à conclusão de que o capitalismo foi nos primórdios um fenômeno inglês. Robert Brenner3 faz avançar o debate propondo a seguinte questão: de que modo as antigas formas de “propriedade politicamente constituída” foram substituídas. por uma forma puramente econômica. Wood está de acordo com esta observação porque ela reforça o seu argumento. simplesmente à espera de ser libertado. Mas um pressuposto essencial permaneceria idêntico: o capitalismo surgiu quando os grilhões do feudalismo foram retirados.

Wood procura demonstrar. Partindo dessas análises. Embora controlassem uma parcela singularmente grande das melhores terras. Por último cabe destacar a posição da autora em relação às Revoluções burguesas e aos movimentos populares reivindicativos ocorridos no fim do Antigo Regime. que o capitalismo foi promovido pela afirmação dos poderes dos grandes proprietários de terras contra as reivindicações de uso consuetudinário dos camponeses.que implicavam uma separação de clareza incomum entre o Estado e a sociedade civil. visando o aumento da produtividade e da lucratividade são devidamente analisadas. Ao mesmo tempo. ou entre as esferas política e econômica – privavam a classe dominante de poderes coercitivos extra-econômicos de extorsão do excedente e a tornavam cada vez mais dependente de meios de exploração puramente econômicos. e de outras que deixamos de lado como as de K.arrendatários ficou sujeito aos imperativos do mercado – não à oportunidade de produzirem para o mercado e passarem de pequenos produtores a capitalistas. e não por exercer um poder coercitivo para arrancar deles um excedente maior. seria enganoso tratar as lutas populares como a grande força na promoção do 3 No artigo “Estrutura Agrária de classes e desenvolvimento econômico na Europa pré-industrial” (Past & 182 . meio de subsistência fundamental. A classe dominante inglesa distinguia-se por sua dependência crescente da produtividade de seus arrendatários. Porém essas mesmas condições . Para tanto. mas pelas deficiências de sua capacidade de praticar a extorsão de seus camponeses. a aristocracia francesa). os grandes proprietários estavam numa situação especial. Anderson. Sua argumentação corrobora. é a compulsão e não a oportunidade. Polanyi e P. por exemplo. em nome dos melhoramentos técnico-agrícolas. e tinha como função garantir a posição e a propriedade dos latifundiários ingleses. a afirmação de Sweezy de que a transição do feudalismo para o capitalismo foi alimentada não pelo poder de super-exploração exercido pelos senhores feudais. não desfrutavam de poderes extra-econômicos para a extração da renda (como. as transformações nos direitos de propriedade. até certo ponto. O Estado inglês era singularmente centralizado e unitário. quando seus poderes feudais revelavam-se insuficientes. O princípio atuante na exposição de Brenner. destacado por Wood. mas à necessidade de se especializarem para o mercado e produzirem de forma competitiva (que se traduzia no valor monetário da renda da terra paga ao latifundiário) para garantirem o acesso a terra. na segunda parte do livro. Para Wood.

Essas forças populares podem ter “perdido a batalha contra os grandes proprietários capitalistas. 1976). mas deixaram um imenso legado de idéias radicais. 183 . legado este que continua vivo hoje nos vários movimentos democráticos e anti-capitalistas”. Present. As lutas populares mais democráticas contestaram as formas de propriedade conducentes ao desenvolvimento capitalista. bem diferente dos impulsos “progressistas” do capitalismo.desenvolvimento do capitalismo.

principalmente aquele de Poder político e classes sociais (1968). estar na seqüência daquele que critica a visão de Florestan Fernandes sobre a revolução burguesa no Brasil. Marília. como ele próprio faz questão de notar. Coerência que é preservada justamente pela capacidade de perceber aquilo que pode ser considerado essencial e o que deve ser visto como circunstancial na obra teórica que lhe serve de referencia. qualquer dogmatismo ou esclerose teórica. Orientado por uma concepção teórica marxista de corte althusseriano. Décio Saes indica claramente os interlocutores de suas apreciações. pelo contrário. defendendo que no Brasil 184 . um livro indispensável para a compreensão da formação social brasileira. com um pouco comum rigor teórico. Unesp. 2001. Décio Saes também é um estudioso profundo das classes médias no processo político brasileiro.Décio Saes. sem alimentalas com ilusões. A comprovação dessas afirmações pode ser vista agora no pequeno volume lançado pela Boitempo editorial. Décio Saes enfrenta as questões mais candentes da formação social e do processo político no Brasil.. na esteira de Caio Prado Jr. Autor de A formação do Estado burguês no Brasil (Paz e Terra. seguindo a boa sugestão metodológica da dialética e até por isso mesmo a sua produção estimula a reflexão e a polemica. o capítulo A evolução do Estado no Brasil (uma interpretação marxista) talvez devesse servir de abertura do livro ou. Podemos afirmar que Décio Saes contrasta firmemente as hipóteses que. 136 p. Apenas como uma observação. 1985). Como obra de ciência e de intervenção política. República do capital:capitalismo e processo político no Brasil S. Marcos Del Roio. que agrupa sete ensaios de Décio Saes escritos num arco de pouco mais de uma década e cujo título e subtítulo indicam perfeitamente o conteúdo do objeto que se pretende apreender. Isso não quer dizer. no máximo.Paulo: Boitempo. Essa troca tornaria ainda mais evidente a visão de Brasil expressa por Décio Saes de forma tão arguta e condensada no decorrer das páginas desse livro. e embasado na formulação de Nicos Poulantzas. identificam a formação social brasileira como capitalista desde as origens. mas sim uma coerência que permite perscrutar o processo e indicar elementos preciosos para a prática política das classes subalternas. Décio Saes é um dos poucos cientistas políticos sobre o qual se pode afirmar que conte com uma visão de Brasil articulada e coerente. Professor de História.

e de pleitear funções públicas. O autor entende ainda que o regime político estabelecido em 1891 deva ser considerado democrático. Criticando a identificação feita por Florestan Fernandes (na seqüência de uma longa tradição historiográfica) da “aristocracia agrária” do Oeste paulista como o sujeito inicial da revolução burguesa no Brasil. a classe média e o papel dos militares. O escravismo moderno viu-se consubstanciado num direito escravista moderno. assim como o aparelho estatal também deve ser considerado escravista por vedar o ingresso de escravos. Da mesma maneira. os libertos e o homem livre dependente. preferindo insistir em que esse preserva as mesmas características escravistas das prescrições do longo período colonial. Décio Saes aproveita para sugerir que na verdade o sujeito coletivo da revolução política antiescravista foi os próprios escravos. Outro aspecto que Décio Saes releva ao ater-se à estrutura jurídicopolítica do Estado é a capacidade apenas parcial desse Estado se impor sobre o conjunto da formação social. vista de um modo geral e oferecendo ênfase na dimensão sociológica. porém. outras formas sociais se impõe de maneira não codificada. descarta a eventual força explicativa da idéia de patrimonialismo e de suas origens ibéricas. O que mais importa na análise de Décio Saes é que essa revolução política destruiu os fundamentos jurídico-políticos do Estado escravista moderno e o substituiu por um outro Estado de caráter burguês. e mesmo o imperial. de modo que sobre amplas zonas nas quais o Estado colonial. quando então teve origem o Estado burguês no Brasil sob a forma de república do capital.implantou-se um escravismo moderno. além de não deixar claro que a dita “aristocracia agrária” foi a principal beneficiária da revolução política antiescravista. Décio Saes enfatiza que a grande ruptura no Estado brasileiro ocorreu por meio da “revolução política antiescravista” de 1888-1891. por contar com eleições periódicas para os poderes legislativo e executivo e por definir os parâmetros para a universalidade do 185 . desde logo. nessa passagem. assim como a clara identidade com a classe dominante. Décio Saes esquece. nas mais diversas passagens do livro. o que não deixa de ser surpreendente. inclusive de trabalho. Décio Saes chega quase a relevar a ruptura política que deu origem ao Estado monárquico brasileiro. Por outra parte. de contabilizar. Mas esse caráter burguês encontra-se justamente na estrutura jurídico-política que torna todos os homens sujeitos do direito em condições de estabelecerem contratos. não atingem. como o título do livro logo indica.

Essa teoria vem de uma acentuada matriz liberal que enfatiza precisamente a debilidade da sociedade civil -. Se o Estado já contava com uma estrutura jurídico-política burguesa desde 1891.concepção contra a qual se volta toda a exposição de Décio Saes – que. Na verdade. atribuído por Décio Saes ao período 1888-1891. associado ao padrão retardatário de industrialização. deve muito à teoria do populismo. ainda que entendida no sentido que a teoria liberal confere ao termo. subordinando o capital industrial e o latifúndio feudal. mesmo em se considerando como um forte senão não haver realizado também uma revolução agrária? Décio Saes identifica com muita clareza que o bloco de poder na chamada 1ª república conta com o capital agro-mercantil e o capital bancário como setores que detêm a hegemonia política. a fim de evitar mal-entendidos e explicações seguidas que o período a ruptura política de 1888-1891 (ou seria melhor dizer 1894?) implicou uma profunda reorganização da dominação oligárquica visando contornar uma situação pré-revolucionária. conforme as forças produtivas e as relações de produção capitalistas iam ganhando força. as classes sociais do capitalismo. Isso tem muito pouco em comum com democracia. Parece que como decorrência do papel fundante do Estado burguês. sob o invólucro jurídico-político liberal que conformava um governo representativo das oligarquias regionais e a hegemonia da grande propriedade no conjunto da vida social. a análise de Décio Saes sobre o longo período que se abre em 1930 e se estende até 1964.direito de sufrágio. seriam os motivos fundamentais da limitação daquela democracia no Brasil. fiquem bastante minorados. A falta de alternância política e partidária e o vínculo de dependência em relação ao capitalismo central. libertos e classe média obrigou uma reorganização do bloco de poder e de sua hegemonia. estimula o fortalecimento da burocracia estatal e a tendência 186 . todas as rupturas subseqüentes não foram mais que adequações que contribuíram de um ou outro modo para redefinir a hegemonia no bloco de poder. a pressão dos escravos. Mas não seria demasiado definir o Estado e o regime nascidos da “revolução política antiescravista” como burguês e democrático. de um ou outro modo. a ruptura institucional de 1930 e o papel que nela desempenhara. Talvez fosse o caso de dizer. Essa reorganização implicou a hegemonia política do capital agromercantil e bancário dentro do bloco de poder e a ampliação das condições feudais. Ou seja. quando coincide com uma crise de hegemonia no bloco de poder.

apesar de ter-se postado contrária ao direito do trabalho. Esse. A monopolização precoce da produção industrial no Brasil dificultou sobremaneira a formação de um capital financeiro (no sentido de Hilferding e de Lênin). deslocado do centro do poder desde 1930. sob intervenção e mediação do Estado. fez com que a burguesia optasse pela militarização do Estado em vez de um confronto com o latifúndio. dentro da perspectiva crítica na qual se insere Décio Saes? Um dos pontos mais instigantes do livro de Décio Saes encontra-se na análise do processo de fortalecimento do capital bancário. tendo o latifúndio feudal como sócio imprescindível por muito tempo. seu parceiro no bloco de poder. o que explica a dissociação entre as frações do capital na tarefa de manutenção do bloco de poder e da dominação. Do mesmo modo. Mantendo o corporativismo e aumentando a repressão foi possível agilizar uma crescente capitalização da terra e a ampliação do mercado interno com auxilio do capital bancário estrangeiro e nacional. Décio nota muito bem como tanto o capital agro-mercantil como o capital bancário foi despojado da hegemonia política no pós-30. retoma sua influencia até tornar-se hegemônico no bloco de poder. mas. Em que seria necessária a utilização da categoria de populismo. a teoria do populismo contribui para mascarar a atuação do movimento operário no processo de arranque da revolução burguesa. Foi precisamente o fortalecimento do Estado. creio não vê com a mesma clareza que a burguesia industrial passa a ser a principal beneficiária do processo.ao poder personalista. um tema caro aos liberal-democratas e também a uma ponderável fração da esquerda marxista. o processo político dos anos 70/80 não se caracteriza por uma transição da ditadura militar para a democracia burguesa porque o poder efetivo 187 . A busca de legitimidade faz com que o populismo atenda também os interesses dos trabalhadores. ainda que a burguesia industrial continue hegemônica em relação às classes dominadas. graças à política econômica da ditadura militar instaurada em 1964. Décio Saes expressa uma visão bastante dura sobre a questão da chamada “transição democrática”. Para o autor. e que poderia abrir espaços políticos significativos para o operariado. A necessidade de ampliar a difusão do direito liberal que implica o assalariamento e ao mesmo tempo conter a pressão das classes dominadas. a legislação social e o corporativismo que garantiram à burguesia o controle da classe operária e a hegemonia política no bloco de poder. que existem apenas enquanto massa e não como classe.

para concluir: a democracia limitada conectada com o programa neoliberal de reforma do Estado e da economia. Além dos conflitos internos ao bloco de poder. haja vista o papel tutelar desempenhado pelas Forças Armadas. Mesmo o processo constituinte de 1986-1988 realizou-se sob o protetorado militar. é somente agora. Ainda sob instigação da leitura de Décio Saes. também deve ser considerada a postura do movimento operário. Assim. ainda que limitado pelas condições sociais e pela fraqueza relativa do movimento de massas. que tem intenção de monitorar diretamente sua área de maior influencia. é que surge um capital financeiro nacional. com o desaparecimento da URSS. quando se aprofundam os vínculos de dependência do Brasil em relação ao mercado capitalista mundial. mas não seria uma democracia burguesa. Desse modo. torna-se possível um regime democrático no Brasil. não configuraria uma redefinição da hegemonia política dentro do bloco de poder e um novo regime político? 188 . A realização integral do programa neoliberal vai de encontro apenas aos interesses do grande capital financeiro internacional. vindas de várias partes e por motivos diferentes. uma última pergunta. No entanto. Por que essa tutela militar sobre a democracia se enfraqueceu tão drástica e rapidamente? A resposta de Décio Saes é que as profundas modificações no sistema mundial de poder. pois o resultado não depende dos projetos formulados por atores individuais e sim pelo embate que ocorre na cena política. em tese. que contestam o sindicalismo corporativo de Estado propondo uma variante neocorporativa e assim limita a luta pela democracia. essa qualificação não poderia ser aplicada ao Brasil. ofereceriam possibilidades imensas de aplicação de uma reforma neoliberal da economia e do Estado. para que se torna necessário o enfraquecimento político e militar das forças armadas da América Latina. Essas mesmas condições que. provocaram alterações de monta na política imperial dos EUA.continua em mãos da burocracia civil e militar. mormente aquele que emerge nos setores de ponta do ABC. esse projeto neoliberal labuta com muitas dificuldades. Se uma democracia burguesa tem como requisito que o parlamento e o executivo tenham efetivo poder decisório e governamental. a “transição” seria mais que uma reforma conservadora da ditadura militar. particularmente pela exigüidade de recursos para implementar a reforma do Estado e pelas resistências existentes no seio do próprio bloco de poder. Na verdade.

189 . uma vez que ele próprio reconheceu a insuficiência dos resultados obtidos em 1991. Rio de Janeiro.Luis Fernandes. 2000. isto é. ao final. com algumas modificações. enquanto discussão crítica. tentativas de desvendar o enigma. o esforço de Fernandes tem o grande mérito de procurar o caminho do estudo e da interpretação científica. 257). Ele também nos informa que está em andamento um programa de pesquisa que “procura desdobrar em estudos empíricos os problemas e temas identificados ao longo deste livro” (p. Não é com pesquisa empírica que Fernandes trabalha neste texto. erguer alguns questionamentos a respeito do seu texto. para além do valor que possa ter para o debate nos meios científicos e políticos. aquele texto se encerra com um capítulo intitulado “A Débâcle do Socialismo e o Enigma da Esfinge”. dar a sua contribuição para a construção de uma resposta marxista. 182). Se for assim. reúne. Diante de um fenômeno de enorme importância política que foi apropriado quase instantaneamente pela direita e transformado na demonstração espetacular (mas quase nunca racional e sistematizada) da impossibilidade do socialismo. Seu propósito é revisar criticamente as principais teorias que produziram. publicado em 2000. Ali o autor comparava os problemas suscitados pelo colapso do sistema soviético com o enigma da esfinge da mitologia grega: “se o pensamento socialista não os decifrar. Luis Fernandes tornou-se uma referência importante no Brasil para os estudos sobre o chamado socialismo real. quando publicou URSS Ascensão e Queda pela editora Anita Garibaldi. Mauad Editora. alguma contribuição para essa pesquisa que prossegue e que é da maior importância. Eurelino Coelho Neto. 2001. Professor da UEFS. 13) e. O Enigma do Socialismo Real. artigos que escreveu ao longo da última década sobre o debate em torno da crise da URSS e do bloco de países do Leste Europeu. será devorado” (p. Trata-se da persistência do enigma e do trabalho de decifração. Um balanço crítico das principais teorias marxistas e ocidentais. Estribado numa compilação substantiva de dados empíricos relevantes sobre o desenvolvimento da economia soviética e de suas relações com o mercado internacional capitalista. pode trazer. Seu novo livro. Doutorando em História Social pela UFF Já em 1991. examinar as explicações disponíveis sobre “o quê pereceu e porquê” (Fernandes. cada uma a seu modo. p.

organizados em quatro capítulos: as interpretações que afirmam o caráter socialista dos sistemas desenvolvidos no Leste Europeu. No entanto. Esta primeira parte é encerrada com um rápido balanço dos problemas das interpretações marxistas e uma crítica ao uso do termo stalinismo que é. passando pelas teorias do pluralismo e grupos de interesse. pelo desenvolvimentismo (ao qual ele associa Alec Nove). É como se o julgamento fosse realizado com insuficiência de provas.São pouco mais de duzentas páginas divididas em duas partes. é uma outra questão que se pode erguer. uma grande quantidade de autores que. segundo Fernandes. embora sua amplitude de leituras tenha o mérito de resgatar autores e correntes teóricas pouco conhecidos no Brasil. uma fuga teórica. Na primeira ele resume e critica o trabalho interpretativo de dezenas de autores distribuídos em dois grandes grupos: 1)Os sovietólogos ocidentais. pelas análises apoiadas no conceito weberiano de burocracia. porém. O próprio autor reconhece que “muitas das leituras não puderam ser examinadas com a profundidade e a atenção que mereciam” (p. interpretações baseadas na noção de degeneração burocrática da transição ao socialismo. guardam entre si enormes diferenças teóricas. para não falar no agrupamento feito às custas da obliteração de diferenças. tudo isso não pode deixar de prejudicar um dos objetivos centrais do trabalho que é o julgamento crítico das teorias. É o preço cobrado pela opção por resenhar. num espaço pequeno. pela crítica liberal à economia de comando centralizado. mas ele supõe que isso não chega a comprometer os seus objetivos. no mais das vezes. pelo culturalismo. entre os quais se encontram desde Zbigniew Brzezinski e Hannah Arendt. pelo estrutural-funcionalismo. até autores ligados à sociologia histórica (Barrington Moore e Theda Skocpol). metodológicas e mesmo temáticas. 2) Os autores marxistas. Mais interessante. A crítica que ele dirige aos autores resenhados não se limita a apontar 190 . as teorias de um novo modo de produção (nem capitalismo nem socialismo) e as teorias do capitalismo de Estado ou burocrático. A simples descrição dos conteúdos dos capítulos da primeira parte já nos permite identificar um problema: a superficialidade. do corporativismo e neocorporativismo. que trabalham com o conceito de totalitarismo. Tudo em um só capítulo. a simplificação das teses e o barateamento dos argumentos referidos. esta de natureza metodológica. 158).

Apesar de reconhecer que várias delas trazem contribuições importantes para a compreensão de aspectos do problema. O elemento crucial da crítica consiste em testar a validade das proposições em apreço. e todas são reprovadas (veremos depois que o marxismo é a única teoria que vai merecer uma segunda chance). 191 . o autor encontra sempre situações históricas das quais as teorias não dão conta. não são por estas refutadas. onde ele concebe a “existência objetiva de processos macrossociais. sendo confrontadas com evidências. diríamos que ele parece não levar em conta que não é possível tomar os fatos históricos como coisas. Fernandes parece não se importar em que o processo de seleção e atribuição de significados teóricos aos elementos históricos (com os quais ele define o “desenvolvimento objetivo da realidade social”) não seja de modo algum um procedimento puramente objetivo. independentemente dos esforços do indivíduo-pesquisador para explicá-los e/ou entendê-los” o que permitiria constatar quando “determinadas explicações ou classificações podem se revelar parciais ou inteiramente inválidas. Este expediente permite a Fernandes aplicar testes de validade a todas as teorias que analisa. para Fernandes. Evidentemente. as diferenças entre as ciências sociais e as naturais não são muito grandes. o campo de experimentação por excelência das ciências sociais é a história. a referência central aqui é Karl Popper e o seu princípio da falseabilidade: proposições científicas seriam válidas na medida em que. por não corresponder ao desenvolvimento objetivo da realidade social que examinam” (p. ao modo do que se supõe ser a observação e mensuração de fenômenos controlados e repetíveis em laboratórios – e ele chega mesmo a declarar que.inconsistências teóricas ou a identificar a vigência de valores morais ou políticos em suas análises. 17). entendido como destituído de subjetividade. O problema com este método de crítica é que nele a história comparece como um estoque de fatos brutos dos quais o autor se serve livremente. resvala para o extremo oposto que é ignorar que não existe meio de o conhecimento ter acesso imediato à objetividade da história. o que. Sua boa crítica ao pós-modernismo. que não considera seriamente a existência objetiva do real. significa confrontar as formulações teóricas com o campo prático de experimentação. selecionando o que melhor lhe convém para testar uma teoria. Para ele. Parafraseando Durkheim a contrapelo. do ponto de vista das bases para a validação das proposições.

e que sua presença deixa marcas no produto. incapaz de assegurar o progresso econômico. O teste de verdade das teorias é feito no confronto teórico-prático. pode-se pensar numa epistemologia em que estes termos são partes contrárias e complementares da relação de conhecimento. a práxis cria formas objetivas através da intervenção das subjetividades (os produtos do trabalho humano). visto que ela é sempre pode ser selecionada. Mas implica em notar que o sujeito não está ausente no processo pelo qual ele conhece o objeto. e assim mantém a crítica aos liberais. A história convocada para validar proposições não é crua. portanto. Além do mais. que afirmavam a inviabilidade do planejamento centralizado como substituto do mercado e foram desmentidas pelos índices de crescimento econômico acelerado durante o período de reconstrução e nos primeiros planos qüinqüenais. no entanto. permite uma alternativa diferente. a terrenalidade do seu pensamento” (Marx. se constituem como tais na e pela relação. Ao invés de assumir a separação radical entre sujeito e objeto (postulada explicitamente por Fernandes). carregada de concepção de história. Fernandes introduz. Isso não significa afirmar a impossibilidade do conhecimento objetivo nem aceitar as teses pósmodernas. ora a outro. um elemento novo na análise: ele ultrapassa o nível dos fatos e explica a queda do crescimento como a dificuldade de abrir um ciclo de desenvolvimento intensivo. na condição de fatos brutos. Mas quando ele considera outros momentos da história. a história não serve como critério de validação. é 192 . mas carregada de sentidos construídos pela práxis do sujeito do conhecimento.Para ilustrar: ele critica a posição dos liberais (Mises e Hayek). apropriada e interpretada segundo uma determinada perspectiva. que é o conhecimento. dando razão ora a um. O que se demonstra com este procedimento é que. o pensamento se torna objetivo quando se objetiva na práxis. “É na práxis que o homem precisa provar a verdade. Os fatos. Ao invés de procurar abrigo numa objetividade metafísica. II Tese sobre Feuerbach). que media a necessária confrontação da teoria com a realidade. a realidade e a força. O marxismo. levariam a um impasse. afinal. isto é. tem que reconhecer que os fatos agora talvez demonstrassem que os liberais tinham razão e que o planejamento central era. então. Nesta relação não existe pura subjetividade (porque qualquer sujeito existe já em relação com o mundo objetivo) nem pura objetividade (objetos que não têm relação com sujeitos não podem ser sequer nomeados). a estagnação do período Brejnev e dos anos seguintes.

Difícil concordar. expressão tomada de empréstimo a Imre Lakatos que significa a mudança de aspectos secundários de uma teoria (mudança que se tornou necessária devido ao aparecimento de fenômenos não explicáveis pela teoria) com a preservação do seu núcleo explicativo. que não definhou como previsto por Marx e Lênin. 204). Para ele. Isso não seria motivo para renunciar ao marxismo como teoria. já que face à impossibilidade de afirmar e coordenar o interesse coletivo via os mecanismos de democracia direta dos sovietes. a socialização dos meios de produção não geraria uma ordem cooperativa. no entanto. e não existem salvaguardas de uma realidade histórica supostamente preservada como objetiva e à disposição do crítico. 206). Todo o argumento só faz sentido se aceitamos o pressuposto de que a sociedade soviética era socialista. de que edificar um Estado em bases comunal-democráticas seria um empreendimento essencialmente não-problemático. geraria uma tendência ao comportamento não cooperativo e predador do patrimônio social (Fernandes aplica aqui o modelo do “carona” de Mancur Olson). ao contrário. dado o caráter universal do proletariado. que é composta de apenas um capítulo. o autor retorna ao enigma para tentar. tese para cuja sustentação Fernandes esgrime 193 . Ele parte da constatação de que o marxismo foi reprovado no teste de validade no quesito fundamental do Estado socialista. o partido Bolchevique foi assumindo cada vez mais para si a função de determinação não mediada deste interesse” (p. Aqui ele encontra a “chave fundamental para entender a fusão Partido-Estado na experiência soviética. o que de sua parte também exigiu “formas políticas concentradas e rígidas” (p. robusteceu-se e autonomizou-se diante da sociedade. mas seria suficiente para tentar um deslocamento progressivo.um embate entre sujeitos sociais e não entre suas criações. esta situação requereria a presença do Estado como autoridade a zelar pela produtividade e eficiência do trabalho. A questão é saber se o marxismo pode passar por um “deslocamento progressivo”. Tendo feito o balanço crítico (com resultado negativo) das teorias ocidentais e marxistas. decifrálo. Ao invés de formas de democracia direta. Fernandes considera pouco realista a idéia marxiana. num quadro de escassez (e a abundância não estaria ao alcance da humanidade no presente). predominante nas reflexões sobre a Comuna de Paris. dá-nos ocasião para uma outra discussão. ao contrário. por sua conta. A segunda parte do livro. A isto ele acrescenta as pressões oriundas do antagonismo das potências capitalistas.

nos termos de Fernandes. Decorreu. os trabalhadores soviéticos chegaram a se tornar efetivos proprietários dos meios de produção em seu país. numa palavra. No debate dos anos 20 sobre o socialismo num só país ainda não era possível ver com clareza todos os efeitos da derrota da revolução proletária na Europa ocidental. supusermos que o socialismo não é o mero resultado da abolição (ou mitigação) da propriedade privada. Se. não era uma fatalidade histórica. Com isso voltamos ao problema do Estado. por um tempo indeterminado. ao exercício real do poder. a questão de saber como se estruturou o poder passa a ser decisiva para definir a medida em que o proletariado o exerceu realmente. dos desdobramentos concretos da revolução. bloquearam a construção do socialismo. sim. Claro que isso nos levaria a contestar a pretendida validade universal de certos modelos teóricos baseados na rational choice. podemos chegar a um resultado oposto ao de Fernandes: não existe prova histórica de que o efetivo controle da economia pelos trabalhadores geraria ineficiência ou incentivaria comportamentos não-cooperativos. necessariamente. sua autonomização. O fato de que a burguesia foi apeada do poder político e perdeu suas propriedades não significa. Dependendo de como respondemos a esta questão. altamente valorizados pela ciência política americana. impuseram limites concretos à construção de formas avançadas de poder operárias. E se é preciso dar razão a Fernandes quanto à necessidade. a despeito do gigantesco esforço pela sua edificação. no entanto. mas sim a construção de uma nova forma de propriedade social-coletiva. Mas talvez existisse uma fatalidade. não foi uma derivação natural das condições “objetivas”. dos resultados dos embates de alternativas políticas num contexto determinado. podemos nos perguntar se. de formas políticas de tipo representativo. de fato. como classe (e não apenas a sua vanguarda). Para além da abolição da propriedade privada. 194 . se chegaram. A degeneração burocrática do Estado ou. travada nos anos 20 no âmbito de uma ferrenha disputa pela hegemonia no partido Bolchevique. apesar de tudo. Hoje estamos em muito melhor posição para pesquisar o quanto as relações com o mercado mundial e o antagonismo internacional.basicamente os mesmos argumentos de Stalin na célebre polêmica sobre o socialismo num só país. nada nos obriga a aceitar que estas precisassem ser “concentradas e rígidas”. dificultaram a promoção do bem-estar. que Fernandes menciona mas do qual não extrai todas as conseqüências. que tenha sido substituída pelo proletariado.

“objetivas” e “subjetivas”. mas de boa pesquisa histórica. mas na necessidade de compreender as condições históricas. 195 . para ser desvendado. um projeto aberto. precisa não tanto de um deslocamento progressivo.O problema não está na falta de realismo do projeto socialista de Marx – de resto. O enigma. com a qual Luis Fernandes já provou que tem muito a colaborar. nas quais se deu a luta pela construção do socialismo. intencionalmente inconcluso –.

Buenos Aires. é a inaugurada em 1980 com Adeus ao Proletariado. de 1988. busca mexer num tema muito caro ao pensamento marxiano e marxista: a problemática do futuro do trabalho no capitalismo. o ímpeto revolucionário do proletariado. A fase de Gorz mais polêmica. 196 . Desta forma. critica a esquerda tradicional por não ter previsto que o crescimento industrial desmesurado dos países capitalistas estaria conduzindo a uma crise de superacumulação. 1998.André Gorz. austríaco de nascimento e radicado na França há muitos anos. M. publicado em 1983 e Metamorfosis del Trabajo. Domenico De Masi. assim. ao não perceber a crise anunciada do modelo de capitalismo de crescimento. considerando que no século XX. publicado em 1977. diminuindo. nada diferenciaria o proletariado das demais classes. Gorz (algumas vezes utilizando o pseudônimo Michel Bosquet). Gorz questiona novamente o proletariado como classe revolucionária. uma grande influência sobre consideráveis setores da esquerda reformista. e por isso mesmo. a esquerda estaria perdendo o que Gorz chama em Ecología y Libertad. em Estratégia Operária e Neocapitalismo. Prieb. de seu “valor profético” (apesar de muitas vezes o próprio Gorz assumir ares de profeta). e que teve continuidade com Los Caminos del Paraíso. Editora Paidós. como pode ser observado em Historia y Enajenación. já apresentava alguns pontos de discórdia com a teoria marxista. de 1964. Miserias del Presente. em que questionava o papel do proletariado como classe revolucionária. quando Gorz teve uma aproximação ideológica com o existencialismo sartreano. por acreditar que devido ao nível de vida dos trabalhadores estar apresentando substanciais melhoras com o estado de bem estar dos países desenvolvidos. a diminuição da miséria estaria propiciando o crescente processo de “aburguesamento das massas”. Riqueza de lo Posible. Além de querer desprender-se cada vez mais do rótulo (injustamente atribuído) de sociólogo de tendência marxista. tendo exercido juntamente com Adam Schaff e mais recentemente. Em sua fase “ecológica” dos anos 70. Professor de Economia da Universidade Federal de Santa Maria. mais comentada. sempre foi um autor polêmico. Em sua obra dos anos 50. em que anuncia a abolição do trabalho e da classe trabalhadora. Sérgio A. publicado em 1959. Nos anos 60. RS. O sociólogo André Gorz.

no crescimento das taxas de desemprego. no sentido que seria uma resposta aos trabalhadores que a partir dos anos 60. Gorz aproxima-se de Lester Thurow (O Futuro do Capitalismo) ao concordar com a tese de que com a globalização. Gorz não pode deixar de considerar os resultados nefastos trazidos pela globalização. A globalização estaria assumindo um importante papel nas transformações do mundo do trabalho. o que pode levar o leitor à conclusão errônea. Gorz anuncia a sociedade do futuro. nas perdas sociais com o fim do estado de bem estar. Gorz aponta como tendência. a convivência entre dois mundos tão diferentes (o da esfera da heteronomia e o da autonomia). daí seu anacronismo. Miserias del Presente. que hoje se observa no mundo todo. Riqueza de lo Posible. liberta da alienação do trabalho da era fordista. Gorz chega a afirmar que a teoria marxista não teria mais propostas a oferecer à construção de uma sociedade do futuro. e que em conseqüência. Gorz retoma a tese do fim da centralidade do trabalho. criaria condições para o surgimento de atividades denominadas pelo autor de “auto-organizadas”. No entanto. de que estes não seriam também trabalhadores. e na crescente precarização do trabalho. considerada por ele como irreversível. e a crescente intensificação da concorrência nos mais diversos mercados. ao considerar estarem postas as condições concretas para a conversão do trabalho em uma atividade autônoma. em que um engloba toda a 197 . é claro. Com grande otimismo. teriam buscado extrapolar o “compromisso fordista” com uma série de atos que buscavam ultrapassar os limites da “sociedade-Estado”. ainda não lançado no Brasil (assim como a maioria de seus últimos livros). Com toda a série de derrotas impingidas aos trabalhadores. isto não seria algo a ser lamentado pelos trabalhadores. ao contrário do que Gorz tenta nos fazer crer. São propostas que Gorz expõe em seu mais recente livro. publicado em 1997 na França. Neste aspecto. o predomínio do trabalho precarizado. e havia ganho”. “o capitalismo havia declarado guerra à classe operária. que podem ser expressos na diminuição salarial.Em Adeus ao Proletariado. A superação da subordinação do trabalho da esfera heterônoma para a autônoma. pois uma nova sociedade estaria surgindo dos escombros da antiga. Apesar de buscar manter sua tese do fim da centralidade do trabalho. assunto presente em obras anteriores do autor. para que estas busquem novas formas de trabalho. desta forma seria necessário que o trabalho perca definitivamente seu lugar central na vida das pessoas. é retomada por Gorz.

Em seu lugar. tiraria do trabalho a sua atribuição de medida dos valores de uso. decreta o fim da lei do valor. sem dúvida. Gorz passa a considerar a ciência e a comunicação lingüística como o pilar central da produção. Esta análise de Gorz (e também de Habermas) conduz a um determinado tipo de “fetichismo tecnológico”. tanto físico quanto intelectual. enfim. por mais irônico que possa parecer. e o trabalho deixaria de ser. para o autor. parece estar longe de representar uma sociedade ideal. Para tanto. ao considerar a hipótese de que possa haver a redução salarial desde que resulte em redução do tempo de trabalho. 198 . ao contrário da tese otimista de Gorz. O capital não necessitando mais do trabalho vivo para reproduzir-se – que cada vez mais assumiria uma posição secundária no processo de criação de riqueza capitalista . em substituição ao tempo de trabalho incorporado nas mercadorias. na teoria de Gorz. fundamento do valor. para Gorz.utiliza em seu lugar. a já eterna. e manutenção e ampliação do emprego. ainda que de forma contraditória. que é: quem paga a conta? Gorz há muito tempo já fez sua opção pelo capital. calcada no princípio do “tempo livre”. Gorz além da abolição do trabalho. Também não está assegurado que. tese esta já presente desde suas obras dos anos 60. alienação do trabalho. e aproveitamento pleno dos recursos fornecidos pela microeletrônica. fonte de riqueza. a grande demanda a ser conquistada pela sociedade atual e futura. Na problemática. como O Socialismo Difícil e Estratégia Operária e Neocapitalismo. resultado da diminuição o trabalho vivo. pois o desenvolvimento tecnológico passa a ser visto como uma entidade que foge ao controle dos homens. enquanto o outro constrói a independência do indivíduo. amplificando. com a crescente diminuição do tempo de trabalho vivo exigido para a elaboração das mercadorias. A perda da centralidade do trabalho torna-se imperativo. robotização. como afirmou Marx. a “caduquice da lei do valor”. para que os indivíduos superem a heteronomia do trabalho e construam um novo tipo de sociedade. Desta forma. A tese de Gorz a respeito do tempo livre representa.exploração típica do modo de produção capitalista. sendo todas estas inovações. o trabalho morto na forma de máquinas sofisticadas. desta forma. resultado do trabalho humano. a esfera da heteronomia não possa subordinar a esfera da autonomia para si. mais polêmica acerca da redução da jornada de trabalho.

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