Ano Académico: 2024 Carga Horária: 4 Horas Semanais Docente: António Dovelo
CONTABILIDADE FINANCEIRA I
1. ACRÉSCIMOS E DIFERIMENTOS
1.1. Introdução
De um modo geral as empresas constituem-se para desenvolver, por tempo
indeterminado, a actividade em que consiste o seu objecto social. Perante esta
duração ilimitada das empresas, a medição e a comparação do desempenho obtido
só é possível repartindo artificialmente a vida das mesmas em segmentos
temporais, determinando no final de cada um deles o seu resultado e a sua posição
financeira.
A cada um dos segmentos é designado «período contabilístico», «exercício
contabilístico», «exercício económico» ou simplesmente «exercício» ou
«período».
A duração do exercício contabilístico, salvo qualquer situação particular, é de
doze meses, podendo coincidir ou não com o ano civil.
De acordo com o Plano Geral de Contabilidade, o exercício contabilístico deve ser
anual, iniciando a 1 de Janeiro e terminando a 31 de Dezembro, podendo ser
adoptado um período contabilístico diferente a este, quando estejam reunidas as
condições previstas nos nºs 2 e 3 do artigo 7º do Código do Imposto sobre o
Rendimento das Pessoas Colectivas, aprovado pelo Decreto nº 21/2002, de 30 de
Julho.
Refira-se ainda que é a segmentação da vida das empresas em períodos
contabilísticos que suporta a existência de alguns dos princípios de contabilidade
geralmente aceites, nomeadamente, o princípio do acréscimo.
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De facto, um dos pressupostos subjacentes à preparação das demonstrações
financeiras tradicionais (Balanço e Demonstração dos resultados) é, como se viu,
o da base de acréscimo («accrual basis») a qual se opõe à base de caixa («cash
basis»).
De acordo com a base de acréscimo, os efeitos das transacções e outros
acontecimentos são reconhecidos quando ocorrem, escriturados nos registos
contabilísticos dos períodos a que respeitam e, consequentemente, relatados nas
demonstrações financeiras dos respectivos exercícios ou períodos.
É esta, aliás, a ideia que resulta da leitura do princípio contabilístico da
especialização dos exercícios (ou do acréscimo) constante do PGC, segundo o
qual, como já foi referido, «a empresa deve reconhecer os rendimentos e os gastos
à medida que eles ocorram, tenham ou não sido recebidos ou pagos, devendo
incluí-los nas demonstrações dos exercícios a que respeitam».
A contabilização em base de acréscimo é, obviamente, influenciada pelas políticas
contabilísticas adoptadas pelas empresas cujos efeitos se reflectem não apenas nas
respectivas posições financeiras como também nos seus resultados.
Pelo contrário, na base de caixa os efeitos das transacções e outros acontecimentos
só são reconhecidos quando ocorrem os respectivos recebimentos e pagamentos,
isto é, só são reconhecidos quando existem entradas em caixa ou seus equivalentes
(também chamadas influxos ou embolsos) ou saídas de caixa ou seus equivalentes
(também chamadas exfluxos ou desembolsos).
A preparação da Demonstração dos fluxos de caixa assenta precisamente no
conceito da base de caixa por se entender que é importante que os utentes da
informação financeira tenham conhecimento do modo como a empresa gera e
utiliza o dinheiro num determinado período.
A importância da referida demonstração financeira é de tal forma significativa que
se considera, quer a nível de cada país quer a nível internacional, que as
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demonstrações financeiras de qualquer empresa só podem dar uma imagem
verdadeira e apropriada, em todos os aspectos materialmente relevantes, da sua
posição financeira e do resultado das suas operações se incluírem a referida
demonstração dos fluxos de caixa.
Para que o referido princípio contabilístico da especialização dos exercícios ou do
acréscimo possa ser cumprido, e a fim de se ultrapassarem as dificuldades
inerentes a uma adequada determinação dos resultados no final de cada exercício,
existe no PGC - NIRF a conta 4.9 – Acréscimos e Diferimentos, que se destina a
permitir o registo dos custos [gastos] e dos proveitos [réditos] nos exercícios a que
respeitam.
A estrutura desta conta é a seguinte:
4.9 Acréscimos e Diferimentos
4.9.1 Acréscimos de Gastos
4.9.2 Rendimentos Diferidos
4.9.3 Acréscimos de Rendimentos
4.9.4 Gastos Diferidos
A especialização dos gastos e dos réditos é frequentemente efectuada apenas com
referência ao final de cada exercício ou período contabilístico, o que limita a
utilidade da informação financeira produzida durante o ano.
A informação proporcionada pela contabilidade deve permitir de uma forma
sistemática, e não apenas no final do exercício, a determinação dos resultados da
empresa e da sua posição financeira. Desta exigência qualitativa resulta que a
especialização dos gastos e dos réditos relevantes deve ser feita mensalmente.
Entre os muitos exemplos que poderiam ser dados salientam-se os seguintes:
Subsídio de Natal processado e pago em Novembro ou Dezembro;
Encargos com férias e subsídios de férias;
Comissões sobre vendas;
Assistência técnica (obtida ou prestada);
Juros a receber ou a pagar;
Amortizações;
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Etc.
A especialização mensal é prática corrente em alguns sectores de actividade, como
por exemplo, no sector financeiro, relativamente aos juros, quer de operações
activas quer de operações passivas.
Subjacentes à movimentação das contas acima referidas estão conceitos
económicos e financeiros muito importantes [proveito (rédito), receita,
recebimento, custo (gasto), despesa, pagamento] que serão definidos no próximo
ponto.
1.2. Conceitos e Classificações
Rendimentos são os aumentos nos benefícios económicos durante o período
contabilístico na forma de influxos ou aumentos de activos ou de diminuições de
passivos que resultam em aumentos do capital próprio, que não sejam os
relacionados com as entregas dos sócios para o mesmo.
A definição de rendimentos engloba quer os réditos quer os ganhos. Enquanto os
réditos provém do decurso das actividades ordinárias das empresas (vendas,
prestações de serviços, juros, dividendos, rendas, etc.) os ganhos podem ou não
provir dessas actividades.
Receitas são as contrapartidas financeiras que a empresa tem a receber,
imediatamente ou a prazo, pelas vendas que efectuou ou pelos serviços que
prestou.
Recebimentos são as entradas de meios de pagamento (notas, moedas, cheques e
similares) na empresa, qualquer que seja a sua proveniência.
Gastos são as diminuições nos benefícios económicos durante o período
contabilístico na forma de exfluxos ou deperecimentos de activos ou na
incorrência de passivos que resultem em diminuições do capital próprio, que não
sejam as relacionadas com distribuições do mesmo aos sócios.
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Despesas são as contrapartidas financeiras que a empresa tem a pagar,
imediatamente ou a prazo, pela aquisição de bens e serviços.
Pagamentos são as saídas de meios de pagamento da empresa, qualquer que seja
o seu destino.
Os réditos e os gastos são, pois componentes, respectivamente, positivos e
negativos dos resultados. São conceitos de tipo económico.
Se as vendas e as compras forem realizadas a prazo significa que há,
respectivamente, o direito e a obrigação de, na data acordada, vir a receber ou a
pagar o preço convencionado. Diz-se então, no primeiro caso, que o vendedor tem
um crédito sobre o cliente e no segundo caso que o comprador tem um débito ao
fornecedor.
As receitas e as despesas acabam, pois, por dar origem a recebimentos e a
pagamentos.
Se as vendas e as compras forem realizadas a pronto significa que há coincidência
entre receita e recebimento e entre despesa e pagamento. São conceitos de tipo
financeiro.
Como consequência do que se acabou de referir, os acréscimos e os deferimentos
podem ser classificados de várias formas:
Quanto à apresentação no balanço
Activos (acréscimos de rendimentos e gastos diferidos)
Passivos (acréscimos de gastos e rendimentos diferidos)
Quanto à natureza económica
Acréscimos de rendimentos (activos)
Acréscimos de gastos (passivos)
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Quanto à natureza financeira
gastos diferidos (activos)
rendimentos diferidos (passivos)
1.3. Acréscimos e Diferimentos Activos
1.3.1. Acréscimos de Rendimentos
A conta 4.9.3 Acréscimos e Diferimentos – Acréscimos de Rendimentos diz
respeito aos réditos a reconhecer no exercício mas que ainda não originaram
receitas. De acordo com o PGC - NIRF integram-se nesta conta os rendimentos
que sejam relativos ao período em curso, mas que apenas irão ser recebidos e
contabilizados como tal nos períodos seguintes.
Como exemplos podem apontar-se os casos dos juros de aplicações de tesouraria
(depósitos a prazo, bilhetes de tesouro, etc.) que se vencem no exercício seguinte,
subsídios à formação profissional a receber, contratos de assistência técnica a
receber, etc.
1.3.2. Gastos Diferidos
A conta 4.9.4 Acréscimos e Diferimentos – Gastos Diferidos diz respeito à
despesas (pagas ou não) que não são gastos do exercício mas sim do(s)
exercício(s). De acordo com o PGC - NIRF integram-se nesta conta os gastos que
tenham sido contabilizados no período em curso, mas que digam respeito a
períodos seguintes.
Como exemplos podem apresentar-se os casos das rendas pagas adiantadamente,
conservação plurianual, seguros, diferenças de câmbio desfavoráveis (apenas em
situações especiais), etc.
1.4. Acréscimos e Diferimentos Passivos
1.4.1. Acréscimos de Gastos
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A conta 4.9 1 Acréscimos e Diferimentos – Acréscimos de Gastos diz respeito
aos gastos a reconhecer no exercício mas que ainda não originaram despesas. De
acordo com o PGC - NIRF integram-se nesta conta os gastos relativos ao período
em curso que apenas serão pagos e contabilizados como tal nos períodos
seguintes.
Como exemplos desta conta podem apresentar-se os seguintes: férias, subsídios de
férias e correspondentes encargos sociais a pagar no exercício seguinte; juros a
liquidar; electricidade a liquidar; comunicação (telefone, telex, fax) a liquidar;
seguros a liquidar; etc.
O valor relativo às férias, subsídios de férias e correspondentes encargos sociais é,
geralmente, uma das quantias mais significativas que fazem parte do saldo desta
conta. De notar que tal passivo se refere aos gastos incorridos no final de um ano
mas que só serão pagos no ano seguinte.
1.4.2. Rendimentos Diferidos
A conta 4.9.2 Acréscimos e Diferimentos – Rendimentos Diferidos diz respeito
às receitas (recebidas ou não) que não são réditos do exercício mas sim dos
exercícios seguintes. De acordo com o PGC - NIRF integram-se nesta conta os
rendimentos contabilizados no período em curso que digam respeito a períodos
seguintes.
Como exemplos desta conta podem apresentar-se as rendas recebidas
adiantadamente, prémios de emissão (de obrigações e de títulos de participação),
diferenças de câmbio favoráveis (apenas em situações especiais), subsídios para
investimento (apenas os que sejam associados com activos amortizáveis, uma vez
que os subsídios para investimento associados com o activos não amortizáveis
devem ser contabilizados na conta 5.5.x Reservas – Subsídios), etc.
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1.5 Informações a Divulgar no Anexo
As principais informações a divulgar no Anexo relacionadas com acréscimos e
diferimentos respeitam aos seguintes assuntos:
Critérios valorimétricos utilizados.
Indicação das situações que afectem significativamente os impostos
futuros.
Indicação dos custos (gastos) incorridos no exercício e respeitantes a
empréstimos obtidos para financiar imobilizações, durante a
construção, que tenham sido capitalizados nesse período.
Indicação da diferença, quando levada ao activo, entre as importâncias
das dívidas a pagar e as correspondentes quantias arrecadadas.
Ainda que não previsto no modelo constante do PGC, aconselha-se que os acréscimos
e diferimentos relevantes devem ser divulgados numa nota específica, sem prejuízo da
informação exigida noutras notas.