Sumário

1. PROGRAMA DA DISCIPLINA 1.1 EMENTA DO CURSO 1.2 CARGA HORÁRIA DA DISCIPLINA 1.3 OBJETIVOS GERAIS 1.4 CONTEÚDO PROGRAMÁTICO 1.5 METODOLOGIA 1.6 CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO 1.7 BIBLIOGRAFIA ADOTADA E RECOMENDADA 1.8 SITES DE INTERESSE: CURRÍCULO RESUMIDO DO PROFESSOR 2. INTRODUÇÃO E MICROECONOMIA 2.1 ECONOMIA E MICROECONOMIA 2.1.1 O CASO DOS MERCADOS COMPETITIVOS 2.1.2 ELASTICIDADE E A CURVA DE DEMANDA 2.1.3 ESTRUTURAS DE MERCADO 3. MACROECONOMIA 1 1 1 1 2 2 2 3 3 4 5 5 5 16 18 25

3.1 O MERCADO DE BENS E SERVIÇOS: CRESCIMENTO E INFLAÇÃO 29 3.1.1 PIB: CONCEITO E FATORES DE CRESCIMENTO DA OFERTA AGREGADA 29 3.1.2 O CONCEITO DE VALOR AGREGADO 32 3.1.3 PIB E PNB 39 3.1.4 A DEMANDA AGREGADA EM UMA ECONOMIA COMPLETA (COM GOVERNO E RELAÇÕES COM O EXTERIOR) 43 3.1.5 O PIB E O CICLO DE NEGÓCIOS 47 3.2 FINANÇAS PÚBLICAS 51 3.2.1 DÍVIDA E DÉFICITS PÚBLICOS 51 3.3 O MACROMERCADO MONETÁRIO: A ATUAÇÃO DO BANCO CENTRAL E AS METAS DE INFLAÇÃO 55 3.3.1 O PROCESSO INFLACIONÁRIO 55 3.3.2 A OFERTA DE MOEDA E A DETERMINAÇÃO DA TAXA DE JUROS DE MERCADO 58 3.4 O MACROMERCADO DE CÂMBIO 66 3.4.1 REGIMES CAMBIAIS 66 3.4.2 AS CONTAS DO BALANÇO DE PAGAMENTOS 70 4. PEQUENO GLOSSÁRIO DE TERMOS ECONÔMICOS 5. TEXTOS DE APOIO 76 83

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1. Programa da Disciplina

1.1 Ementa do Curso
Noções de Microeconomia: Custo de oportunidade, Assimetria da informação, Equilíbrio de mercado, Estudos das elasticidades, Teoria dos jogos e Cartel . Macroeconomia, O mercado de bens e serviços: PIB e PNB, o Balanço de Pagamentos, o Fluxo Circular de Renda, poupança e investimento, crescimento e inflação. Meios de Pagamento, Políticas Macroeconômicas (Monetária, Fiscal, Cambial e Comercial) e Finanças Públicas.

1.2 Carga Horária da Disciplina
Para esta disciplina tem-se destinada uma carga horária mínima de 24 horas/aula, para que haja um bom desenvolvimento das idéias, conceitos e teorias econômicas que podem ser aplicadas ao bom gerenciamento das organizações em todas as suas esferas.

1.3 Objetivos gerais
Compreender os conceitos e processos econômicos mais relevantes e suas aplicações dentro das organizações. Identificar os aspectos microeconômicos e ao mesmo tempo conciliá-los com movimentos macroeconômicos que sejam de interesse para as empresas e interfiram em seu processo de gestão. Permitir evoluções no posicionamento estratégico das empresas em antecipação às ações disseminadas nas políticas econômicas adotadas no âmbito nacional e internacional. Compreender alternativas e a lógica subjacente à condução das políticas macroeconômicas. Proporcionar aos gestores uma visão econômica local e ao mesmo tempo global, de

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2 maneira que possam usufruir dos conhecimentos econômicos em suas atividades pessoais e profissionais.

1.4 Conteúdo Programático
Microeconomia Oferta e demanda; O conceito de elasticidade; Estruturas de Mercados; Teoria dos jogos no Oligopólio. Determinação da renda como fluxo de valor; Os conceitos de PIB e PNB; Poupança, investimento e crescimento econômico e Inflação; O balanço de pagamentos; Políticas Macroeconômicas; O papel do Banco Central: políticas de mercado; Políticas de estabilização e as metas de inflação. Taxas de câmbio e regimes cambiais.

Macroeconomia: o fluxo circular de renda e o mercado de bens e serviços. O mercado monetáriofinanceiro O mercado cambial e fluxo de divisas

1.5 Metodologia
Aulas expositivas com o foco em fornecer um conjunto de elementos que visam a discussão continuada de temas que envolvam a realidade econômica das empresas, do Brasil e demais componentes do mercado internacional. As atividades e discussões serão realizadas em pequenos grupos, com o intuito de analisar os fatos do passado, da atual e da futura conjuntura econômica que, de certa forma, contribuirá positivamente na formulação das estratégias por parte dos alunos.

1.6 Critérios de Avaliação
Prova discursiva envolvendo temas apresentados e amplamente debatidos durante todo o curso. Em algumas turmas, de acordo com apontamento do professor, a prova poderá envolver questões relacionadas a algum estudo de caso que tenha relação direta com a vida econômica das organizações. Existem casos em que parte da avaliação será alternativa.

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1.7 Bibliografia Adotada e Recomendada
CASTRO, L. B. de (e outros). Economia Brasileira Contemporânea. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2004. EQUIPE DE PROFESSORES DA USP. Manual de Introdução à Economia. São Paulo: Saraiva, 1998. GONÇALVES, A.C.P. (org.) e outros. Economia Aplicada. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2009. GREMAUDI, A. P. (e outros). Economia Brasileira Contemporânea. São Paulo: Editora Atlas, 2002. MANKIW, G. N. Introdução à Economia. São Paulo: Editora Campus, 2000. MOCHÓN, Francisco Morcillo. Introdução à Economia. São Paulo: Editora Makron, 2002. OBTSFELD, N. e KRUGMAN, P. Economia Internacional: teoria e prática. Editora Makron Books, 2000. PORTER, Michael E. Estratégia competitiva. Rio de Janeiro, Campus, 2005. SILVA, César R. L e LUIZ, Sinclair. Economia e Mercados. São Paulo: Saraiva, 2005. VASCONCELLOS, M. A. S. de. Economia: Micro e Macro. São Paulo: Ed. Atlas, 2002.

1.8 Sites de Interesse:
• Banco Central do Brasil: www.bcb.gov.br • Banco Mundial: www.worldbank.org • BNDESBanco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social:

www.bndes.gov.br • Google Acadêmico: www.scholar.google.com • IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística: www.ibge.gov.br • IPEA- Instituto Pesquisas Econômicas Aplicadas: www.ipeadata.gov.br • Ministério das Relações Exteriores: www.mre.gov.br • Ministério do Desenvolvimento: www.desenvolvimento.gov.br • SEADE- Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados: www.seade.gov.br • Universo Jurídico: www.uj.com.br

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Currículo Resumido do Professor
Claudio Augusto Garbi é nascido na cidade de São Paulo, SP. Formado em Ciências Econômicas, pela Instituição Toledo de Ensino (ITE-Bauru), e também graduado em Administração (CEUCLAR). Tornou-se especialista em Economia por escolas da USP-ESALQ e UFSCar. Estudou na Inglaterra e Estados Unidos, além de ter conhecido 13 países em diferentes continentes (África, América, Europa, Oriente Médio e Oceania). É mestre em Administração pela Universidade São Francisco-USF, e desde então, desenvolve estudos na área de docência e negócios na FGV, instituição esta que atua desde 2004 na graduação e em vários cursos dos programas de pós-graduações. Foi premiado pela FGV como destaque e melhor professor em Economia do FGV Management em 2009. É coordenador de pós-graduação e vice-diretor acadêmico da Faculdade de Agudos (FAAG), a qual coordena o MBA Internacional em Gestão Empresarial e de Pessoas na Universidade de Benguela e em Luanda, capital de Angola. Atua paralelamente como industrial do setor calçadista nas funções de gerente geral e de custos em sua empresa. Vem desenvolvendo diversos trabalhos no cenário educacional e de consultoria, tanto no Brasil como em outras nações. Suas pesquisas englobam as áreas de Gestão, Economia, Estratégia, Custos, Projetos, Teorias Micro e Macroeconômicas, Empreendedorismo e Sustentabilidade Socioambiental.

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2. Introdução e Microeconomia

A Economia pode ser definida como a ciência social que estuda como o indivíduo e a sociedade decidem utilizar recursos produtivos escassos, na produção de bens e serviços, de modo a distribuí-los entre as várias pessoas e grupos da sociedade, com a finalidade de satisfazer às necessidades humanas. (VASCONCELLOS, 2002)

2.1 Economia e Microeconomia
Pontos-chave: Custo de oportunidade; Assimetria da informação, Demanda e Oferta, Equilíbrio de mercado; Elasticidade; Funcionamento dos Mercados, Teoria dos Jogos e Formulação de Cartel.

2.1.1 O Caso dos Mercados Competitivos
Numa definição bastante geral, o objeto da Economia são as relações materiais entre os indivíduos, com especial atenção para aquelas que se realizam através do mercado, ou seja, através de relações de caráter mercantil. Um elemento básico com o qual trabalha a Ciência Econômica é o fato de que, na sociedade moderna, os desejos ou necessidades materiais dos indivíduos são, em geral, mais amplos do que a disponibilidade de recursos existentes. Em outros termos, podemos imaginar que não existe um limite, a priori, para os desejos ou necessidades materiais, ao mesmo tempo em que existem claras limitações à produção dos bens e serviços necessários ao atendimento destes desejos ou necessidades.

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6 Este confronto entre desejos ilimitados e recursos limitados resulta no que se convencionou chamar ―escassez‖. Este conceito, de caráter explicitamente relativo, implica que a sociedade precisa encontrar meios de alocar recursos para a produção de bens e serviços e desenvolver formas de distribuir estes sabendo que apenas uma parcela dos desejos materiais dos indivíduos será satisfeita. Assim passamos a ter a idéia que apenas uma parcela dos indivíduos poderá satisfazer seus desejos ou necessidades. Quando o critério de definição de quais desejos ou necessidades será atendido e quais não o serão passa por relações mercantis, de forma que o problema da escassez se transforma em uma ―solução‖ estritamente de caráter econômico. Compreendida desta forma, a escassez é o elemento central que justifica a existência dos mercados. E os mercados são a melhor forma de ―resolver‖ este problema econômico — ou pelo menos é o que afirmam os economistas. Por mercado deve-se compreender tão somente um conceito abstrato que está referido, em última análise, a relações mercantis específicas entre agentes econômicos. Assim, quando falamos em mercado de automóveis, por exemplo, estamos nos referindo ao conjunto de relações mercantis que têm por objeto carros, motos, caminhões, etc. Se quisermos ser mais precisos, podemos falar no mercado brasileiro de automóveis, restringindo geograficamente a idéia de mercado. A relação entre a idéia de escassez e o conceito de mercado pode ser construída de diversas formas. Uma delas é através da dicotomia tradicional entre oferta e demanda. Em um mercado competitivo, temos sempre muitos ofertantes e demandantes, isto é, pessoas que querem se desfazer de determinado bem e pessoas que desejam adquiri-lo. O grande número de demandantes e ofertantes é o caso típico de mercados que transacionam bens relativamente padronizados e em grandes quantidades. Ainda que não seja o caso mais comum na história, o mercado competitivo é sempre a referência de análise e estudo do economista tradicional. A idéia de recursos escassos nos impõe o fato de que toda oferta é limitada, e se contrapõe a uma demanda (potencialmente) ilimitada. No caso dos automóveis, existe um claro limite para a sua produção; entre outros motivos, os recursos que são utilizados na produção de carros podem ter diversos outros usos e, certamente, a sociedade não estaria interessada em despender todos os seus meios produtivos (energia, trabalho, matérias-primas) exclusivamente na produção de automóveis. Em outras palavras, existe um ―custo de oportunidade‖ na produção de automóveis, mensurável pelo valor de todos os outros bens e serviços que deixam de ser produzidos Economia Aplicada

7 para que se possa fabricá-los. Por outro lado, o número de pessoas que gostaria de ter um, dois ou diversos carros também é elevado. Suponha que atualmente existe uma oferta limitada de automóveis em um determinado país. Agora complemente com a idéia que os vendedores percebam que existem mais compradores do que unidades para serem vendidas. Como resolver quem poderá levar as unidades disponíveis e quem ficará insatisfeito? Dentre todas as alternativas possíveis, a que possui maior relevância econômica é a elevação dos preços de venda. Tal elevação irá reduzir gradualmente o número de compradores, até que este iguale o número de unidades disponíveis para a venda. Quando isto ocorrer, o mercado de automóveis estará em equilíbrio, ou seja, estará em vigor um preço suficientemente alto e fará com que todos aqueles que continuem dispostos a (ou ainda podem) comprar seu automóvel consigam adquiri-lo, sem que haja nenhum consumidor em potencial não atendido. Mas, e se o número de compradores fosse menor que o de unidades disponíveis para a venda? Os vendedores estariam acumulando estoques indesejados e não estariam satisfeitos. A forma de resolver este problema seria reduzir os preços, até que o número de compradores se elevasse. O preço de equilíbrio seria aquele que deixasse relativamente satisfeitos tanto compradores quanto vendedores, ou seja, àquele preço, todos os que queriam comprar puderam fazê-lo, assim como todos os que queriam vender. Com esta descrição ilustrativa, o mercado aparece como uma forma de decidir quem terá acesso de fato aos bens e serviços produzidos na economia, dada sua escassez. Por trás desta visão, com um apelo intuitivo claro, estão dois princípios que fundamentam o funcionamento dos mercados, e que podem ser expressos de forma bastante simples:
Princípio da demanda: Apresenta relação inversa entre o preço e a quantidade que os demandantes desejam e podem comprar de um determinado bem ou serviço.

Princípio da oferta: Apresenta relação direta entre o preço e a quantidade que os ofertantes desejam e podem produzir e vender de determinado bem ou serviço.

Ambos os princípios estão na base do funcionamento dos mais diferentes tipos de mercados. Se estivermos pensando em mercados muito específicos, como o de Economia Aplicada

8 automóveis ou, de uma forma ainda mais precisa, de automóveis populares em São Paulo em 2004, podemos dizer que estamos tratando de um micromercado.

Custo de Oportunidade: O conceito de custo de oportunidade envolve uma avaliação das escolhas que fazemos em tudo em nossas vidas, especialmente na esfera econômica. Ninguém gosta de se arrepender de suas decisões. E isso é válido também em Economia. Uma pessoa pode decidir aplicar seu dinheiro em renda fixa por receio do risco do mercado de ações. Mas, se a bolsa subir muito, essa pessoa vai avaliar a diferença entre o que ganhou em renda fixa e o que poderia ter ganho caso tivesse aplicado em ações. Essa diferença mede o ―tamanho‖ do arrependimento dessa pessoa ou o custo da oportunidade perdida. Mas existem outros exemplos de avaliação do custo de oportunidade que nada tem a ver com ganho financeiro. Comprar um apartamento e descobrir, dias depois, um novo lançamento com mais itens de conforto ou localização gera arrependimento. De novo, esse arrependimento é a diferença entre a satisfação que temos pelo imóvel comprado e a satisfação que poderíamos ter se tivéssemos esperado mais uns dias.

Assimetria da Informação: Em Economia, assimetria da informação ou informação assimétrica é interpretada como um fenômeno que ocorre quando dois ou mais agentes econômicos estabelecem entre si uma transação econômica com uma das partes envolvidas detendo informações qualitativa ou quantitativamente superiores aos da outra parte. Essa assimetria gera o que se define na microeconomia como falhas de mercado. Esse fenômeno ocorre freqüentemente quando não se possui toda informação suficiente em uma negociação, ou mesmo os segredos comerciais tão resguardados por inúmeras empresas, uma vez que fará toda a diferença no processo comercial, afetando diretamente a atratividade dos bens ou serviços, ou mesmo no auxílio da formulação estratégica empresarial.

Suponha que a curva D1 (representada na Figura 1, abaixo) representa a demanda por determinado bem como automóveis populares. Através de sua representação gráfica, podemos notar que, ao preço de $ 30.000 a unidade, o total de vendas é de 2 milhões de unidades. A este preço, apenas uma pequena parcela dos consumidores estaria disposta a abrir mão do consumo de outros bens e serviços para adquirir um automóvel deste tipo. Caso o preço fosse reduzido para $ 20.000 a unidade, a demanda seria ampliada para 4 milhões de unidades. A este preço, um número maior de pessoas poderia adquirir este bem; outras pessoas acreditariam que o sacrifício (custo de oportunidade), mensurado pelos demais bens que deixariam de ser comprados, passaria a valer a pena ao preço unitário de $ 20.000. Finalmente, caso o preço fosse de $ 10.000 a unidade, a demanda seria de 6 milhões de unidades, isto é, um número maior

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9 de consumidores estaria disposto a abrir mão do consumo de outros bens e serviços para adquirir um automóvel popular. Note que, para ―desenharmos‖ uma curva de demanda como D1, estamos fazendo a hipótese de que tudo mais permanecerá constante naquela economia (coeteris paribus, em latim). Isto significa que a relação entre preço e quantidade demandada, expressa em D1, supõe que permaneceram inalterados elementos como as preferências dos consumidores, o preço de todos os outros bens, a renda dos consumidores, e tudo mais. Em outras palavras, estamos analisando, por enquanto, apenas a relação estrita entre preço e quantidade, tanto do ponto de vista da demanda quanto da oferta.

Figura 1 - Princípio da Demanda

Preço unitário em R$ D2 D1 30.000

20.000

10.000

2

4

6

10

Unidades em milhões

Agora, observe a curva D2. Para cada preço constante no eixo vertical está associada uma quantidade demandada maior em D2 relativamente a D1. Se, por exemplo, o preço unitário dos automóveis populares fosse de $ 10.000, a quantidade demanda seria de 10 milhões de unidades. A curva D2 representa uma situação onde alguma das condições antes incluídas em nossa hipótese coeteris paribus foi alterada (em geral, apenas uma das condições é alterada de cada vez nas análises econômicas, todas as demais permanecendo, constantes). Por exemplo, imagine que houve um aumento da renda dos consumidores de automóveis populares. Tudo mais constante haverá um deslocamento da curva de demanda de D1 para D2, conforme indicado pelas setas na Figura 1. Agora, com os

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10 consumidores possuindo mais renda, a cada preço unitário, a demanda por automóveis será mais elevada do que na situação anterior, expressa em D1. Agora, observe a Figura 2. Nela está representada uma expressão gráfica para o princípio da oferta. Quanto mais alto o preço, maior o volume ofertado. Vamos nos fixar novamente no caso dos automóveis populares. Observe a curva de oferta O1. Caso o preço de oferta seja de $ 10.000, apenas um pequeno número de carros será ofertado, ou seja, os fabricantes estariam dispostos a ofertar apenas 2 milhões de unidades. A este preço relativamente baixo, os fabricantes estarão mais interessados em modelos com preços mais elevados, e mesmo os comerciantes estarão desinteressados em oferecer automóveis deste tipo. Se o preço for de $ 30.000 a unidade, o número de automóveis ofertados também aumenta, passando para 6 milhões de unidades. Note que, quando o preço é de $ 20.000, a quantidade ofertada é de 4 milhões de unidades. Novamente, a curva O1 é construída com a tradicional hipótese de coeteris paribus. Em termos da oferta, isto significa que elementos como a tecnologia, o número de fabricantes, o preço dos insumos etc, são fixos e não se alteram. Mas, o que ocorreria caso houvesse uma alteração do número de fabricantes? Suponha que algumas novas empresas ingressam no mercado. Caso isso ocorra, é razoável supor que, a cada preço, haverá uma oferta maior de automóveis. Isto é ilustrado na Figura 2 através do deslocamento da curva de oferta de O1 para O2. Figura 2 - Princípio da Oferta
Preço unitário em R$

O3 O1 O2

30.000

20.000

10.000

2

4

6

Unidades em milhões

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11 Com mais fabricantes no mercado a disputa (ou concorrência) será ampliada e, ao preço de $ 10.000, por exemplo, o volume de automóveis ofertado será de 4 milhões de unidades, e não mais apenas 2 milhões. O mesmo ocorreria se, por exemplo, o preço dos insumos fosse reduzido. Caso isso acontecesse, 4 milhões de automóveis populares poderiam ser fabricados a um preço menor do que $ 20.000 a unidade (como estava expresso na curva O1); em nosso exemplo, caso esta redução de preços de insumos pudesse ser descrita pela curva O2, o preço unitário para uma produção de 4 milhões de unidades passaria para $ 10.000, exatamente como no caso do ingresso de mais um concorrente. Situações opostas, isto é, a saída de um fabricante e/ou o encarecimento dos insumos, levariam a uma contração da oferta. Isto significa que, para uma produção de 2 milhões de unidades, o preço unitário deveria ser de $ 20.000, tal como expresso na curva O3. Compreendidas as formas de representação gráfica dos princípios da oferta e da demanda, podemos completar nosso mercado, indicando como as curvas de oferta e demanda interage simultaneamente. Observe a Figura 3. Ela nada mais é do que a reunião, em um só gráfico, das curvas D1 e O1. Da forma como foram construídas, estas curvas de oferta e demanda se interceptam no ponto E, no qual os preços de oferta e de demanda são idênticos ($ 20.000) e a quantidade transacionada é de 4 milhões de unidades. O ponto E (break-even point) caracteriza o equilíbrio de mercado.

Figura 3 - Ponto de Equilíbrio Econômico, ou equilíbrio de Mercado

Preço unitário em R$

O1

A 30.000

B

20.000 C 10.000

E D D1 2 4 6 Unidades em milhões

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Conceito de equilíbrio de mercado: o equilíbrio de mercado é atingido quando, a determinado preço, todos os consumidores dispostos a comprar, bem como todos os produtores dispostos a vender, atingem seus objetivos mercantis.

Na Figura 3, acima, ao preço de $ 20.000 a unidade, os consumidores estão dispostos a adquirir 4 milhões de unidades do bem transacionado, quantidade que é idêntica àquela que os produtores estão dispostos a ofertar àquele preço. Com isso, tanto consumidores quanto produtores estão (relativamente) satisfeitos. Os consumidores gostariam de adquirir um número maior de automóveis, mas apenas se o preço fosse mais baixo. Isto porque, a um preço menor, o custo de oportunidade (o sacrifício de outros bens que deixariam de ser comprados), também seria reduzido, estimulando a compra do bem em questão - automóveis populares. Por outro lado, os produtores somente estariam dispostos a ampliar a produção caso o preço fosse mais elevado; apenas nestas condições, o negócio de produção e venda de carros populares seria suficientemente atraente para fazê-los mobilizar recursos para sua produção, abandonando outras alternativas de negócios. Agora, suponha que houvesse um tabelamento de preços, e os automóveis populares passassem a ter um preço máximo de $ 10.000 a unidade. A este preço, os consumidores desejam adquirir um total de 6 milhões de unidades. Por seu turno, dada a baixa atratividade do negócio, os produtores estão dispostos a ofertar apenas 2 milhões de unidades. A diferença entre a quantidade demandada e a quantidade ofertada pode ser representada graficamente através do segmento C-D. Este segmento indica o excesso de demanda que ocorreria caso o preço fixado fosse baixo demais. Para 6 milhões de 10 unidades desejadas pelos consumidores, haveria apenas 2 milhões de unidades disponíveis, gerando um contingente de consumidores insatisfeitos. Caso análogo ocorreria caso o preço fosse fixado em $ 30.000. Neste caso, porém, o segmento A-B ilustra o excesso de oferta, pois, a este preço, a quantidade ofertada (6 milhões de unidades) excederia a quantidade demanda (2 milhões). O exemplo dos automóveis pode não parecer muito realista neste caso. Isto porque, dada a existência de um número muito pequeno de produtores de automóveis, estes em geral sabem qual a quantidade máxima que o mercado poderá absorver a cada preço. Em outras palavras, cada produtor conhece a curva de demanda. Este tipo de situação (excesso de oferta) é bastante comum quando da fixação de preços mínimos

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13 para produtos agrícolas. Neste caso, como cada produtor é muito pequeno diante dos volumes totais de produtos transacionados, tende a elevar sua oferta quanto o preço mínimo é fixado em níveis muito elevados, apostando na possibilidade de poder vender toda sua produção àquele preço. No entanto, quando todos os produtores agem da mesma forma, o resultado é um excesso de oferta no mercado. Caso o mercado com muitos ofertantes e muitos demandantes (isto é, um mercado competitivo) fosse deixado para funcionar livremente, tanto os excessos de oferta quanto os excessos de demanda seriam automaticamente corrigidos. Isto é que se chama tendência automática ao equilíbrio. Situações de excesso de demanda tendem a gerar disputas entre os consumidores, cuja manifestação mais simples é a existência de filas. Havendo tal disputa, a tendência é de que os consumidores mais ―ávidos‖ pela aquisição do bem façam lances mais altos, como em um leilão. O resultado é uma elevação do preço que tende a reduzir a demanda e ampliar a oferta. Diante de lances mais altos, uma parte dos consumidores desiste da compra, ao mesmo tempo em que um número maior de unidades é ofertado. Na figura acima, esta tendência ao equilíbrio é mostrada nas setas que indicam o movimento de A e B em direção a E. Quando oferta e demanda coincidirem, não haverá mais pressão por alterações de preço. O mesmo ocorre quando há excesso de oferta; os ofertantes passariam a acumular estoques que não conseguem vender e tenderiam a baixar seus preços para atrair compradores, ao mesmo tempo em que reduziriam a produção. Diante de preços mais baixos, a própria oferta tende a reduzir-se, ao mesmo tempo em que um número maior de consumidores passa a demandar o produto. Este processo aconteceria até que oferta e demanda fossem coincidentes, quando então dizemos que o mercado está em equilíbrio. Agora, observe a Figura 4, abaixo. Ela mostra deslocamentos da curva de oferta. No ponto E1, podemos observar o equilíbrio de mercado quando as curvas de oferta e demanda são, respectivamente, O1 e D1, o preço de equilíbrio é $ 20.000 e a quantidade de equilíbrio é 4 milhões. A curva O3 mostra uma contração da oferta, ou seja, para cada preço, os ofertantes estão dispostos a colocar uma quantidade menor de produto no mercado (o que pode ter sido causado pela saída de produtores ou por uma elevação nos preços dos insumos, por exemplo).

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14 Figura 4 – Deslocamentos da Oferta

Preço unitário em R$

O3 O1 O2

28.000 20.000 10.600

E3 E1 E2

D1

2,3

4

5,6

Unidades em milhões

Podemos notar que, toda vez que a oferta se retrai, tudo mais constante, o preço de equilíbrio se eleva. No caso da figura acima, ele passa de $ 20.000 para $ 28.000. Paralelamente, a quantidade de equilíbrio se reduz, passando de 4 milhões para 2,3 milhões de unidades. O ponto de equilíbrio que era representado por E1 passa agora a ser E3. Situação inversa ocorre quando a oferta se expande, passando de O1 para O2. Toda vez que a oferta se expande, o preço de equilíbrio se reduz e a quantidade transacionada se eleva. A Figura 5 mostra uma situação onde a curva de demanda é que se desloca: ocorre uma expansão de D1 para D2 e uma contração de D1 para D3. No caso de uma expansão de demanda, preços e quantidades transacionadas se elevam, ocorrendo o oposto quando a demanda se contrai.

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15 Figura 5 - Deslocamentos da Demanda

Preço unitário em R$ O1

29.000 20.000 10.400
D1 D3 D2

1,8

4

5,3

Unidades em milhões

O funcionamento dos mercados competitivos, tal como descrito pela Economia, nos permite compreender uma série de fenômenos. A relação básica, por trás dos mecanismos que acabamos de descrever, refere-se a interação mútua entre preços e quantidades transacionadas de determinado bem ou serviço. Se tal bem ou serviço for descrito através de características bastante específicas (automóveis ou, de forma ainda mais precisa, carros populares, por exemplo), estaremos tratando de um micromercado e, portanto, estaremos no âmbito da microeconomia. No entanto, podemos pensar em mercados cuja principal característica seja a descrição bastante genérica do bem ou serviço transacionado. Por exemplo, quando analisamos o mercado de trabalho, estamos em um nível muito geral, sem explicitarmos nenhuma característica específica da ―mercadoria‖ transacionada. Afinal, estamos preocupados como o trabalho feminino na indústria paulista, por exemplo? Ou com o trabalho de recém formado em direito em Porto Alegre? Se estivermos pensando no mercado de trabalho global de um país, não estaremos fazendo distinções deste tipo e, portanto, não estaremos no âmbito da microeconomia, mas no da macroeconomia. Em outras palavras, quando pensamos em um mercado definido de forma bastante genérica e para um país como um todo, estamos tratando de macromercados. Apesar de sua característica de generalidade e abrangência nacional, os macromercados obedecem, em linhas gerais, os mesmos princípios de funcionamento

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16 de micromercados como o de carros populares, utilizado acima. Assim, é possível pensar em oferta, demanda, preço, equilíbrio, e tudo mais que foi definido para micromercados.

2.1.2 Elasticidade e a Curva de Demanda
O conceito de elasticidade da demanda procura mensurar a sensibilidade dos agentes que desejam comprar algum bem a alterações em alguma das variáveis que determinam a curva de demanda, normalmente sobre a ótica do preço. As duas elasticidades mais importantes são a elasticidade-preço (que representaremos por Ep) e a elasticidade-renda (representada por Er) da demanda. Genericamente, a elasticidade da demanda é calculada da seguinte forma:

Ep ou Er =

Variação percentual na quantidade demandada Variação percentual no preço ou na renda (Qf – Qi) / Qi (Pf – Pi) / Pi

EP =

Como mostra a figura abaixo, nem todas as demandas reagem do mesmo modo a variações no preço. Quando o preço cai de P1 para P2, observe que a quantidade demanda na curva A varia menos que na curva B. Assim, a sensibilidade (elasticidade) preço é maior para a curva B. O valor crítico para a elasticidade-preço é 1. Se o preço variar 10% e a quantidade demandada variar, por exemplo, 5%, teremos uma Ep < 1 (desprezando-se o sinal). Isso significa que a demanda é pouco sensível a preço como a demanda A da Figura 6. Se o preço variar os mesmos 10% e a quantidade varia, por exemplo, 25%, teremos uma Ep > 1. Isso significa que a demanda é muito sensível a preço e os impactos sofridos com qualquer elevação do mesmo será direto na comercialização do bem ou serviço.

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17 Figura 6 – Elasticidade-preço

P
P2

P1 DA DB

QA1=QB1 QA2

QB2

Q

Na economia há basicamente três fatores determinantes da elasticidade-preço da demanda, são eles: Necessidade ou essencialidade: reagimos menos às altas no preço dos remédios ou da energia elétrica residencial do que às altas de igual proporção nos preços de itens como mensalidades de revistas ou viagens internacionais. Isso porque os dois primeiros itens são considerados mais essenciais que os últimos. Peso no orçamento: todos nós somos mais sensíveis a variações nos preços dos itens com maior peso em nosso orçamento. Você reagiria mais a um aumento de 15% no preço do cafezinho ou a um aumento dos mesmos 15% no preço da gasolina? Certamente, como gastamos maiores parcelas de nosso orçamento em gasolina, reagimos muito mais às variações de preço desse último item. Da mesma forma, pessoas com menor renda são mais sensíveis ao preço, pois mesmo pequenas variações nos preços acabam pesando demasiadamente em seu orçamento. Concorrência ou existência de substitutos: se houvesse uma única marca disputando um determinado mercado, aumentos de preço seriam seguidos de pouca reação dos demandantes devido à falta de opções em termos de substitutos. O mesmo ocorre quando há grande fidelidade do consumidor a determinada marca: mesmo diante de elevações de preço, como para um consumidor fiel não há substitutos perfeitos para sua marca preferida, a reação em termos de quantidades seria muito pequena. Existe também a visão da Fidelidade por um bem ou serviço que impacta em sua elasticidade, porém esse item cada vez mais está sendo difícil de se conciliar, dado o

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18 enorme volume de opções que o mercado apresenta rotineiramente, seja ele de bens ou de serviços. Por sua vez, a elasticidade-renda (Er) é útil para classificarmos os bens e serviços em superiores ou normais (―tops‖ de linha) ou inferiores (―pops‖, ou populares). O valor crítico para a elasticidade-renda é zero. No caso dos bens ―top‖ (superiores), quando a renda aumenta, a demanda pelo mesmo também se eleva. Com isso, na fórmula da elasticidade, teremos variações positivas tanto no numerador quanto no denominador. Por outro lado, quando a renda cai, a demanda também deste bem ou serviço também cai. Com isso, na mesma fórmula, teremos variações negativas tanto no numerador quanto no denominador. Em outras palavras, a Er dos bens superiores sempre será um número maior que zero, ou seja, positiva. Quando nossa renda aumenta, aumentamos a demanda por filé mignon, pulsos de telefonia celular e sessões de cinema. Esses são bens e serviços para os quais a demanda varia junto com a renda. Se a renda cai, a demanda por esses itens tende a cair também pelo fato de existirem bens mais baratos que substituem os mesmos. No caso dos bens ―pop‖ (inferiores) ocorre o inverso. Quando nossa renda cai, a demanda por eles aumenta, pois estamos substituindo os bens ―top‖ pelos mais populares. Mas quando a renda aumenta, fazemos o contrário. Na fórmula acima, teremos variações positivas divididas por variações negativas e vice-versa. Em outras palavras, a Er dos bens inferiores é sempre menor que zero, ou seja, um resultado negativo.

2.1.3 Estruturas de Mercado
Uma hipótese básica para o funcionamento do sistema descrito nas seções anteriores é que os mercados estejam operando com um grau elevado de concorrência. Numa situação limite, estaríamos em concorrência perfeita. Se os mercados estiverem funcionando com essa estrutura, as firmas não estarão em condições de realizarem conluios ou cartéis. Isso poderia ocorrer porque, caso houvesse um cartel que tentasse elevar preços e margens de lucro, qualquer empresa de fora poderia entrar no mercado com preços mais baixos e ―se apossar‖ de toda a demanda. O cartel é crime contra a ordem econômica previsto no art. 4º da Lei n.º 8.137, de 27 de dezembro de 1990. Trata-se da formação de acordo, convênio, ajuste ou Economia Aplicada

19 aliança entre ofertantes, visando à fixação de preços ou quantidades vendidas ou produzidas, prevista no inciso II, "a" do dispositivo em questão. Falamos de crime pessoal, cuja sanção consiste em pena de reclusão ou multa. O cartel é, também, crime concorrencial e, portanto, infração econômico-penal. Nos termos do art. 21 da Lei n.º 8.884, de 11 de junho de 1.994, trata-se de fixação de preço e condições de venda de bens e prestação de serviços em acordo com concorrente; obtenção de conduta comercial uniforme ou concertada entre concorrentes; divisão de mercados de serviços ou produtos; combinar previamente preços ou vantagens em concorrência pública. Os crimes concorrenciais, equiparados ao tort anglo-saxão, ao serem enquadrados como infrações de cunho econômico-penal, ensejam penalização essencialmente econômica. Crimes contra a ordem econômica, ao serem perpetrados pela pessoa jurídica (responsabilidade empresarial) ensejam punição econômica. O cartel, ao gerar a generalizada perda de bem-estar econômico da sociedade e de competitividade do próprio cartel – que assegura, ardilosamente, seu poder de mercado – deve ser combatido com veemência. Assim se faz necessário, uma analise como o governo pode caracterizar algumas situações da indústria como sendo um cartel. Evidentemente que isso exigiria que o produto em questão fosse altamente padronizado (semelhantes) e que a tecnologia1 necessária para produzi-lo fosse totalmente acessível. Em resumo, a concorrência perfeita é uma situação onde, por quaisquer motivos, todas as firmas têm que cobrar preços muito parecidos ou até mesmo idênticos e não há como impedir que novas firmas entrem no mercado ofertando o produto. Isso só seria possível se esse mercado tivesse as seguintes características:

1) Transacionasse um bem padronizado, isto é, que não apresentasse diferenças de marca ou origem relevantes; 2) Fosse de livre entrada para firmas que quisessem passar a operar nele; 3) Tivesse um grande número de firmas operando. Ocorre que esse tipo de mercado, muito embora seja o mais estudado, não constitui o caso mais típico nas economias modernas. No extremo oposto da

1

Por ―tecnologia‖, os economistas entendem não somente saber como fazer, mas também como comercializar, o que inclui o domínio de estratégias mercadológicas na definição da marca e de distribuição do produto.

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20 concorrência perfeita, estaria o monopólio, isto é, o mercado dominado por uma única firma. Em geral, o monopólio surge devido a três causas básicas: 1) O tamanho do mercado: imagine uma cidade pequena na qual se instala um hipermercado. Esse estabelecimento, por operar em escala mais ampla e ter custos de comercialização mais baixos, pode levar à falência todos os mercados tradicionais da cidade. Mais ainda, caso outro hipermercado se instale na mesma cidade, o movimento em cada um deles será tão pequeno que ambos passarão a operar com prejuízo. Portanto, só há mercado para uma firma. Esse tipo de estrutura de mercado é chamado de monopólio natural. 2) O monopólio pode ser instituído por lei, como foi o caso diversos serviços de utilidade pública no Brasil até há alguns anos atrás. Esse é o monopólio legal. 3) Por fim, o monopólio pode ser resultado de uma inovação tecnológica desenvolvida por uma empresa que a mantém como segredo industrial (assimetria) ou patente. Essa inovação pode ser a descoberta de um novo produto (caso típico da indústria farmacêutica), a descoberta de um novo tipo de empreendimento (como foi o caso da Disneylândia que, durante muitos anos, simplesmente não teve concorrentes em escala mundial), a conquista de uma reputação ou a ―fixação‖ de uma marca (caso típico de produtos de perfumaria ou moda e mesmo de informática, como certas marcas de perfume francês, ou softwares).

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21 Quadro1 - Características das estruturas de mercado
Estruturas Natural Legal Monopólio Tecnológico Um único ou uma empresa muito maior que as demais Número de concorrentes Características básicas Tamanho do mercado não permite mais de uma firma. Legislação que institui monopólio. Domínio de ―segredos industriais‖ (assimetria), patentes ou marcas que impedem a concorrência. Produto padronizado, barreiras à entrada de novos concorrentes e preços uniformes. Produto diferenciado, barreiras à entrada de novos concorrentes e preços diferenciados. Produtos únicos, com características semelhantes que atendem um mercado específico. Produtos padronizados, onde há livre entrada de firmas e os preços são uniformes.

Oligopólio

Com combinação

Poucos

Competição Monopolística

Muitos

Concorrência Perfeita

Muitos

Entre os dois extremos da concorrência perfeita e do monopólio, temos os mercados que operam com poucas firmas - isto é, ao menos duas, mas não muitas estes são os oligopólios. A característica básica dessa estrutura de mercado é a existência de barreiras à entrada, de forma que não é fácil para uma firma nova entrar no mercado e passar a concorrer com as já estabelecidas. Isso pode ocorrer por razões parecidas com aquelas que explicam a existência de monopólios. Por exemplo, na atualidade, o tamanho do mercado brasileiro não permite que existam mais de duas empresas de telefonia fixa de longa distância. Na indústria automobilística ou eletrônica, não é fácil dominar a tecnologia de produção. Quando o produto ofertado pelas empresas que operam em oligopólio é muito padronizado (como é o caso de papel para impressão ou baldes de plástico), dizemos que se trata de um oligopólio homogêneo. Nesse caso, os preços cobrados por cada ofertante não podem ser muito diferentes, caso contrário os consumidores simplesmente escolherão o produto mais barato.

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22 Quando há uma clara diferenciação entre as diferentes ―marcas‖ (como é o caso e eletroeletrônicos, automóveis ou cervejas), dizemos que se trata de um oligopólio diferenciado. O Quadro 1, acima, resume as principais características das estruturas de mercado. Para entender como atuam os oligopólios vamos inicialmente estudar uma situação muito utilizada no ensino de microeconomia. Trata-se de um acontecimento imaginário, cujos resultados podem ser imediatamente aplicados à atuação de um oligopólio homogêneo de duas firmas - isto é, um duopólio. Essa situação hipotética é chamada de dilema dos prisioneiros, vinculado ao estudioso John Nash. A Teoria dos Jogos é o estudo econômico que visa representar os padrões de interações nos quais os resultados auferidos por qualquer participante (players) depende das ações de alguns ou todos os integrantes deste mercado. Suponha que duas pessoas foram presas e são acusadas de terem cometido um crime juntas. Cada uma é colocada em uma cela separada e precisa decidir se confessa ou não o crime, antes de saber o que o outro prisioneiro decidiu. As penas a serem aplicadas serão as seguintes: 1) Caso ambos os suspeitos confessem o crime, serão condenados a uma pena de 2 anos na prisão; 2) Caso um confesse e o outro não, o que confessou é libertado imediatamente por ter colaborado com a justiça e desmascarado o outro que ficou calado, mas o suspeito que não confessou, por ter tentado obstruir a justiça, será condenado a 4 anos (2 pelo crime e mais 2 pela tentativa de obstrução); 3) Caso nenhum dos dois confesse, eles permanecerão presos por apenas 1 ano, durante as investigações. O quadro abaixo resume o dilema dos prisioneiros. Os números entre parênteses representam as penas aplicadas em cada caso (o número da esquerda é a do prisioneiro A e o da direita é a do prisioneiro B). Note que estamos representando as penas com sinais negativos para indicar que cada ano na prisão é um custo ou perda.
Prisioneiro B Confessa Não confessa Prisioneiro A Confessa Não confessa (-2; -2) (-4; 0) (0; -4) (-1; -1)

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23 O que você acredita que os prisioneiros fariam? Note que o melhor resultado para ambos analisados em conjunto seria não confessarem os dois a um só tempo. Isso resultaria em apenas 1 ano de prisão para cada um. Qualquer outro comportamento faria com que pelo menos um deles passasse no mínimo 2 anos atrás das grades. Mas, se você olhar atentamente para a figura acima, vai notar que a atitude de confessar é sempre melhor que a de não confessar. Se, por exemplo, o prisioneiro A espera que o outro vai confessar, o melhor que A tem a fazer é confessar também e, assim, pegar uma pena de 2 anos em lugar de 4. Mas se A imagina que B não vai confessar, ele também prefere confessar pois, nesse caso, é solto imediatamente em lugar de ficar na cadeia por 6 meses. Observando com atenção o quadro acima, é possível notar que, qualquer que a expectativa do prisioneiro A sobre a decisão do outro, o melhor a fazer é confessar. Isso também vale para o prisioneiro B. Nesse caso, dizermos que confessar é a estratégia dominante para ambos os prisioneiros (vamos passar a chamá-los de agentes, que é um termo mais leve). A hipótese de comportamento, muito razoável e racional, é de que os agentes escolhem sempre as estratégias dominantes, isto é, se adotar uma determinada estratégia é sempre melhor que adotar qualquer outra, evidentemente que o agente adotará essa estratégia. A limitação do nosso exemplo para que possamos passar a uma aplicação econômica do dilema dos prisioneiros é que os agentes não podem se comunicar antes de decidir o que farão e, obviamente, as empresas que atuam em oligopólio trocam informações, ainda que indiretamente. Assim, vamos alterar um pouco o exemplo, permitindo aos agentes uma única comunicação prévia. Suponha que os prisioneiros tenham feito um pacto de não confessar o crime em caso de prisão. Você acredita que eles manteriam o pacto depois de terem sido pegos, abandonando a estratégia dominante? Se o prisioneiro A acreditar que B vai manter a promessa, ele estará tentado a romper o acordo. Nesse caso, A confessa e é solto imediatamente e B fica preso por 4 anos. Nesse ponto, caso B tenha receio de que A vai cair em tentação, ele prefere confessar também, por simples medo. Se A acha que B não acredita nele, também poderá confessar, confirmando o receito de B de que A confessaria, rompendo o acordo. Mas se ambos confessarem, ambos terão agido como se o pacto não existisse. Quando chegamos nesse ponto da análise do dilema dos prisioneiros, já estamos nos encaminhando para o estudo das empresas que atuam em oligopólio. Para isso, basta substituir a situação analisada por outra, muito parecida, mas com a mesma Economia Aplicada

24 estrutura. Suponha que em um mercado existem apenas duas firmas: A e B. Suponha que essas firmas atuam em uma estrutura de oligopólio homogêneo e estão decidindo sobre que quantidades deverão ofertar de um produto padronizado. Suponha ainda que essas firmas tenham que escolher entre dois níveis de oferta: 1 e 2. Os resultados em termos de lucros estão resumidos no quadro a seguir.

Lucro das empresas em $ milhões.
Empresa B Nível 1 Empresa A Nível 1 Nível 2 (9; 9) (6; 12,5) Nível 2 (12,5; 6) (10; 10)

Vamos admitir que o nível 1 seja uma grande oferta de produtos. Isso permitiria $ 9 milhões de lucro para cada uma. Mas, se ambas as empresas produzirem nesse nível alto, só conseguirão vender a produção a preços baixos, pois o mercado tenderá a ficar saturado. Elas podem formar um cartel e combinarem de produzir ambas no nível 2 (mais baixo). Isso faria com que houvesse escassez do produto, elevando os preços e fazendo os lucros subirem de $ 9 milhões para $ 10 milhões. Acontece que, como no dilema dos prisioneiros, as firmas estão tentadas a desrespeitarem o cartel. Observe que, caso a empresa A suponha que a empresa B vai honrar o acordo e produzir no nível 2, ela (firma A) pode ter um lucro ainda maior ($ 12,5 milhões) caso produza no nível 1, rompendo o acordo e ganhando na quantidade vendida. Com isso, os preços irão baixar um pouco (pois o produto não será tão escasso) e a firma B terá uma redução nos seus lucros (que passarão para $ 6 milhões quando ela esperava $ 10 milhões).

Economia Aplicada

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3. Macroeconomia
Em uma perspectiva empresarial, o estudo da Macroeconomia se dedica à análise de um conjunto de fenômenos, derivados da ação conjunta dos agentes econômicos, e que determina o entorno mais amplo do ambiente de tarefa da empresa. Muito embora cada firma esteja sempre e antes de tudo preocupada com o que ocorre em seus próprios mercados (de bens e serviços, em um extremo, e de insumos, no outro), cada um destes mercados é afetado diariamente pelas chamadas variáveis macroeconômicas: taxas de câmbio, carga tributária, taxa de juros, etc. Mesmo a empresa que não tenha nenhum tipo de relação com o exterior deve se preocupar com o comportamento da taxa de câmbio; mesmo a empresa que não é nem credora nem devedora líquida deve se preocupar com a taxa de juros, e assim por diante. Isto porque as variáveis macro afetam um grande número de agentes de uma só vez. Se a empresa não for ela própria afetada, certamente ou seus clientes, ou seus fornecedores, ou seus trabalhadores ou todos a um só tempo o serão. Figura 7 - Esferas que compõem o ambiente de tarefa da empresa

EMPRESARIAL

SETORIAL

MACROECONÔMICA

Economia Aplicada

26 É por isso que, se imaginarmos que o ambiente de tarefa da empresa é, na verdade, representado por uma sobreposição de níveis, como na figura acima, cada um dos quais com um determinado tipo de influência sobre suas atividades cotidianas, o nível macroeconômico será o mais amplo de todos, no sentido de que não se refere às variáveis diretamente controladas pela firma. Ao mesmo tempo, porém, os destinos dos negócios da empresa a longo prazo estão intimamente relacionados às tendências das variáveis macroeconômicas. Uma empresa jamais manterá seus preços constantes se houver uma inflação acelerada; jamais poderá manter-se pesadamente endividada se a taxa de juros for alta demais; jamais manterá um mesmo número de empregados caso os salários caiam fortemente, e assim por diante. É por razões como esta que o estudo da macroeconomia se insere na dimensão estratégica da firma, e pode contribuir explicitamente com a manutenção de um padrão adequado de gestão de seus negócios. A Macroeconomia pode ser compreendida através do estudo do funcionamento e da interação recíproca de três macromercados. Como dissemos acima, tais mercados são definidos da forma mais genérica e abrangente possível, e estão sempre referidos ao conjunto de uma economia nacional. Os três macromercados são: a) Bens e serviços; b) Moeda (e demais ativos financeiros); c) Câmbio. Como em todo mercado, cada um destes três macromercados possui preços e quantidades transacionadas. No entanto, os preços e quantidades nestes mercados possuem algumas peculiaridades. Em nosso exemplo dos automóveis populares, era fácil mensurar as quantidades transacionadas; tais quantidades eram simplesmente o número de unidades de automóveis vendidos em determinado período. No entanto, com fazer para ―contar‖ unidades no macromercado de bens e serviços, por exemplo? Como somar unidades de uma infinidade de bens e serviços, com características muitas vezes absolutamente distintas? Antes de tentarmos propor uma solução para este tipo de problema, vamos apresentar o que seriam os preços e as quantidades em cada um dos macromercados (ou, pelo menos, quais são as variáveis que fazem as vezes de preços e quantidades nestes mercados). Quando falamos do conjunto de todos os bens e serviços produzidos em um país, podemos avaliar seus preços através de uma média. Esta média deve ser construída Economia Aplicada

27 ponderando cada bem ou serviço de acordo com sua importância relativa no total de bens e serviços produzidos. Esta média ou preço médio é o chamado Nível Geral de Preços e pode ser compreendido como o preço vigente no macromercado de bens e serviços. No entanto, dada a infinidade de bens e serviços produzidos em um país a cada ano, é literalmente impossível saber com exatidão qual o nível geral de preços (ou qual o preço médio de todos os bens e serviços). Diante desta dificuldade, costuma-se estimar o Nível Geral de Preços através de índices, calculados por institutos de pesquisa. No Brasil, a melhor aproximação para o Nível Geral de Preços é o Índice Geral de Preços (IGP). As variações no IGP nos oferecem uma forma de medir a inflação, que nada mais é do que uma elevação do Nível Geral de Preços. No que se refere às quantidades no macromercado de bens e serviços, costumase utilizar como aproximação o PIB ou Produto Interno Bruto. Voltaremos a tratar do PIB com mais detalhes adiante. Por enquanto, podemos dizer que o PIB é a soma dos valores de todos os bens e serviços finais, produzidos em uma economia durante certo período de tempo. Assim, a produção de aço, utilizada na fabricação de automóveis ou na construção de edifícios não entra no cômputo do PIB, uma vez que o aço não é um bem final e sim um insumo. O preço do aço será computado nos preços dos automóveis e dos edifícios, os quais já incorporam todos os custos, incluindo o preço do próprio aço. Isto evita que se faça dupla contagem, isto é, que somemos o preço do aço duas vezes, uma quando ele próprio é produzido e outra quando consideramos os preços dos automóveis e dos edifícios, os quais já trazem embutidos os custos com o aço. O cálculo do PIB nos permite somar bens e serviços com características muito diferentes, como casas e cortes de cabelo, ponderando cada item por seu próprio preço. Como em todo mercado, no macromercado de bens e serviços haverá uma oferta (chamada de oferta agregada) e uma demanda (chamada de demanda agregada). Os ofertantes são em geral empresas (também os trabalhadores autônomos) e os demandantes são tanto consumidores quanto outras empresas. Estas últimas podem estar interessadas, por exemplo, em adquirir automóveis para sua frota ou contatar serviços de engenharia. No macromercado de moeda (e outros ativos financeiros), o preço é a taxa de juros. Isto porque a moeda pode ser emprestada, como se fosse um bem que se aluga, e a remuneração por este aluguel é exatamente a taxa de juros. A quantidade neste mercado é o volume de moeda em circulação, o qual pode ser avaliado pelo volume de meios de pagamento. Este conceito também será melhor explicado adiante; por Economia Aplicada

28 enquanto podemos definir meios de pagamento como os ativos financeiros que são inequivocamente aceitos para o pagamento de obrigações, isto é, a moeda propriamente dita (que está nas mãos das pessoas ou nas reservas dos bancos) e depósitos à vista. Finalmente, no macromercado de câmbio, negocia-se moeda estrangeira, principalmente o dólar americano. Ofertantes e demandantes são simplesmente pessoas querendo se desfazer ou querendo adquirir dólares (ou outra moeda estrangeira). As quantidades são simplesmente os fluxos de dólares transacionados e o preço é a taxa de câmbio. Esta última nada mais é do que o preço em moeda nacional de cada unidade da moeda estrangeira. Quando dizemos que US$ 1 vale R$ 2,95, estamos afirmando que o preço do dólar é R$ 2,95. Em toda nossa discussão macroeconômica, estaremos nos referindo sempre a um ou mais destes macromercados uma vez que o dia-a-dia da economia de um país pode ser descrito através do funcionamento deles. No entanto, ao contrário de alguns micromercados, os macromercados estão fortemente relacionados entre si e o que se passa em cada um deles tem conseqüências diretas e indiretas sobre os demais. Assim, para compreendermos este tipo de interação, faremos um percurso mais ou menos longo, até que, ao final desta apostila, possamos tratar novamente dos três macromercados, interagindo mutuamente.

Figura 8 - Sistemas de Políticas Macroeconômicas

Monetário

Bens e serviços

Cambial

Política Monetária

Política Fiscal e Política Comercial

Política Cambial

Os três macromercados não apenas têm relações importantes entre si como também são influenciados pela ação da política econômica do governo. Veremos que há três frentes principais de ação da política econômica: a política cambial, a política fiscal Economia Aplicada

29 e a política monetária, cada uma delas atuando diretamente sobre cada um dos macromercados e, indiretamente, sobre os demais, com reflexos sobre o ambiente de atuação das empresas.

3.1 O Mercado de Bens e Serviços: Crescimento e Inflação
Pontos-chave: PIB como fluxo de bens, serviços e geração de renda; Valor agregado ou valor adicionado; PIB versus PNB; Conceitos econômicos de Poupança e Investimento; Fluxo circular de renda.

3.1.1 PIB: Conceito e Fatores de Crescimento da Oferta Agregada
As duas variáveis centrais em qualquer exercício de cenarização

macroeconômica são crescimento e inflação. Em outras palavras, a evolução no tempo do Produto Interno Bruto (PIB) e do Nível de Preços (mensurado estatisticamente pelo Índice Geral de Preços - IGP). Esses são dois dos principais agregados macroeconômicos. Como o próprio nome diz, esses agregados são mega-variáveis que permitem acompanhar a evolução do ambiente econômico em seu nível mais geral. Crescimento econômico e inflação representam, portanto, o ponto de partida para qualquer construção de cenários em Macroeconomia. Vamos começar pela definição da primeira dessas variáveis. Como o próprio nome diz, o Produto Interno Bruto representa, em primeiro lugar, o total da produção em um país.

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Principais índices de preço no Brasil Índices Gerais de Preço: são calculados através da média ponderada de outros três índices (60% IPA - Índice de Preços por Atacado, 30% IPC - Índice de Preços ao Consumidor e 10% - Índice Nacional de Custos da Construção). Como Duas instituições calculam, cada uma, seu próprio IGP: a) IGP-DI (disponibilidade interna) evolução dos preços do dia 30 ao 30 do mês posterior (FGV contratado pelo governo federal) b) IGP-M (de mercado) evolução dos preços do dia 21 ao 21 do mês posterior (FGV - contratado pelo setor privado) Índices de Preço ao Consumidor (IBGE): como o próprio nome diz, visa monitorar o chamado ―custo de vida‖, isto é, os preços ao consumidor tais como despesas com supermercados, aluguéis, serviços pessoais e de utilidade pública, etc. Os dois principais índices de preço ao consumidor divergem basicamente pela abrangência em termos da cesta de consumo que serve de referência para o cálculo. Além disso, o IPCA ganhou notoriedade desde 1999 ao ser adotado como meta oficial de inflação pelo Banco Central. Ambos os índices abaixo são calculados pelo IBGE: a) INPC (nacional) baseado no padrão de consumo de famílias com renda entre 1 e 6 Salários Mínimos (S.Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba, Recife, Fortaleza, Salvador, Brasília, Belém e Goiânia) b) IPCA (amplo) baseado no padrão de consumo de famílias com renda entre 1 e 40 Salários Mínimos, com a mesma abrangência geográfica.

Ocorre que realizar essa mensuração pode acarretar em erros grosseiros se a metodologia não for simples e inteligente em termos contábeis. Isso sem falar nas dificuldades estatísticas de realizar uma amostra adequada de empresas e setores. Assim, vamos analisar a primeira e mais direta definição de PIB, abaixo.
PIB: é calculado a partir da soma dos valores de todos os bens e serviços finais produzidos dentro das fronteiras de um país durante certo período de tempo (um ano, um semestre, um trimestre etc.).

Vale destacar um a um os diferentes aspectos da definição acima. Antes de mais nada, é preciso estar atento para o termo bem final (vide glossário). Ao definirmos o PIB como o somatório de todos os bens e serviços finais gerados em um país durante um certo período de tempo estamos evitando a chamada dupla contagem. Imagine que em lugar dos bens e serviços finais, tentássemos mensurar o PIB pela soma de todos os bens e serviços gerados em um país, fossem eles finais ou não. Suponha que começássemos pela produção de cimento, aço e edifícios, como ilustrado na figura abaixo.

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31 Figura 9 – Valor agregado

A relevância em se agregar valor
Aço = $ 4 bi $ 1 bi
-------Lucro

Exportação
VA $ 5 bi

Construção $ 3 bi Transformação

VP
$ 9 bi VI $ 4 bi

$ 1 bi
Cimento = $ 1 bi

VA = VP – VI
Valor Agregado = Valor do Produto – Valor dos Insumos
Prof. M.Sc. Claudio A. Garbi

O valor da produção total de cimento em um país em determinado ano teria sido, digamos, R$ 1 bilhão. A produção de aço teria sido de R$ 4 bilhões e a de edifícios R$ 9 bilhões. Se estivéssemos começando a calcular o PIB pela soma destes três setores já teríamos um total de R$ 10 bilhões. No entanto, sabemos que o valor total de cimento produzido foi vendido para o setor de construção civil e utilizado na construção de edifícios como insumos naquele ano. O mesmo ocorreu com 1/4 da produção de aço (ou seja, R$ 3 bilhões). O restante foi exportado. Isto significa que nos R$ 9 bilhões correspondentes à produção de edifícios já estavam embutidos na forma de custos de insumos R$ 4 bilhões correspondentes à utilização de cimento e aço. Ao somarmos o valor da produção dos três setores em nossos primeiros cálculos para mensurarmos o PIB, incorremos no erro de dupla contagem desse valor. É por isso que todas as vendas de cimento e aço feitas por seus produtores aos produtores de bens finais devem ser contabilizadas no PIB apenas de forma indireta. Assim, os R$ 9 bi já carregam em seu valor R$ 1,0 bi de cimento (insumo) e R$ 3 bilhões de aço (outro insumo). Se considerarmos o bem final (edifícios) no cálculo do PIB, devemos excluir do cálculo do PIB os insumos já incorporados. Ao mesmo tempo, o valor do aço exportado deve ser igualmente somado, pois esse aço não foi utilizado como insumo no país em questão e, Economia Aplicada

32 por convenção, bem final é todo aquele que não é utilizado como insumo (ver glossário). E isto explica o método de cálculo do PIB, destacado acima.

3.1.2 O Conceito de Valor Agregado
O conceito de valor agregado ou de ―agregar valor‖ possui um uso corrente impreciso. Quando um artesão transforma argila em um vaso de barro cru e depois esse mesmo vaso é comprado por um artista que pinta esse vaso, dizemos que o artista ―agregou valor ao vaso‖ e conseguiu vende-lo por um preço maior do que havia pago para o artesão. Mas, e a transformação do barro em vaso? Agora, pense na atividade de coleta. Uma pessoa entra na mata e colhe uma fruta. Leva a fruta para a beira da estrada e a vende por determinado preço. Houve agregação de valor? Esse caso difere do artista que decorou o vaso de barro cru, feito pelo artesão? Para evitar imprecisões, vamos definir de forma simples e clara o conceito de valor agregado (VA). Considere uma empresa que vende um produto por R$ 150. Esse é o valor bruto da produção (VP). Agora, suponha que a produção desse bem exija a compra de insumos no valor de R$ 120. Chamaremos esse valor de VI (isto é, valor dos insumos). Vamos definir insumos como aqueles materiais que, de alguma forma, são incorporados ao produto: matérias-primas, energia, material de acabamento ou de embalagem. O importante é que os insumos são comprados de outras empresas e só podem ser utilizados uma única vez, pois são incorporados ao produto final. O valor agregado (VA) na atividade em análise será dado simplesmente pela expressão:

VA = VP - VI No caso em questão, o valor agregado será 150 - 120 = 30. Vamos voltar aos casos citados acima. O artesão que produziu o vaso de barro cru e o vendeu por, digamos, R$ 30 talvez não tenha gasto um único centavo com insumos: recolheu a argila e a água na natureza para moldar o vaso que secou ao sol. O valor agregado por sua atividade foi de R$ 30, isto é, igual ao valor da produção. O mesmo ocorre com os coletores de frutas que simplesmente as recolhem e colocam na beira da estrada para venda. Essas atividades agregam valor, ou transformando o barro ou simplesmente transportando as frutas para a beira da estrada. Agora, vamos considerar o artista que decora o vaso. Ele comprou o vaso cru, que é o principal insumo do vaso decorado, pagando R$ 30. Também gastou R$ 40 com Economia Aplicada

33 as tintas e mais R$ 15 com a energia elétrica de um forno necessário para queimar o vaso. Se esses foram todos os insumos e o vaso decorado foi vendido por R$ 200, o valor agregado será: VA = 200 - (30 + 40 + 15) = 115 Note que esse é o valor agregado total. Ele não é, necessariamente, o lucro do artista. Se ele vender 1000 vasos como esse por mês, teria um ganho bruto de R$ 115.000. Essa margem total também será utilizada para pagar a folha de salários dos funcionários (que não é insumo!), os aluguéis da oficina (que também não são insumo!), eventuais juros devidos sobre o capital de giro e, é claro, os impostos embutidos no preço final do vaso decorado. Esses itens não são insumos, pois não estão incorporados ao produto final. Os trabalhadores voltam a cada mês, a oficina pode ser utilizada continuamente, os empréstimos podem ser renovados, etc. Figura 10 – Importância do Valor agregado
Lucro do artista, aluguéis, juros, salários, impostos embutidos no preço final.

VA $115 Energia $15 VI $85 Tintas $40 Vaso cru $30

VP $200

Esquematicamente, nosso exemplo ficaria da seguinte forma: É uma situação parecida com o exemplo da construção civil, mostrado acima, que entrega prédios no valor de R$ 12 milhões tendo empregado insumos (cimento e aço) no valor total de R$ 1,5 bilhão. Para que possamos discutir quais os fatores que podem contribuir com o crescimento do PIB ao longo do tempo será conveniente desagregar (dividir) esse agregado econômico a fim de refinar a análise. Assim, o PIB pode ser separado em subconjuntos de bens e serviços de diversas formas. Uma maneira seria por setor de Economia Aplicada

34 atividade: agricultura, indústria e serviços. Para qualquer país, é possível calcular o PIB industrial, o PIB agrícola e o PIB do setor de serviços, cuja soma corresponde ao produto interno bruto em sua totalidade. Outra forma é separar os bens em duas categorias básicas: os bens de consumo e os bens de investimento. Esta separação nos permitirá analisar em mais detalhes o que se chama de consumo agregado e investimento agregado. Suponha inicialmente que um determinado país não possui governo, nem se relaciona com o resto do mundo através de importações e exportações. É uma situação meramente hipotética que se convenciona chamar de economia fechada e sem governo. Toda a produção de bens e serviços finais só pode ser classificada em duas categorias: bens de consumo, que se destinam a satisfazer necessidades ou desejos dos consumidores, e bens de investimento, adquiridos pelas empresas para viabilizar a produção de outros bens e serviços. Assim, podemos representar o PIB pela igualdade abaixo:

PIB = consumo agregado + investimento agregado, ou (3.1) PIB = C + I

Esta representação apresenta o PIB sob a ótica da produção. Isto é, os bens e serviços produzidos na economia em um determinado ano são classificados ou como bens de consumo ou como bens de investimento. No entanto, em uma economia fechada e sem governo, as empresas acabam transformando sua produção agregada (ou produto agregado) em renda agregada. A ótica da renda agregada permite outra representação do PIB. Ao venderem seus produtos aos preços de mercado, as empresas obtêm um faturamento que é transferido às pessoas (físicas) através do pagamento de salários, juros, aluguéis, lucros e dividendos. Isto é o que se chama remuneração dos fatores de produção. Os fatores de produção são os elementos essenciais para que uma economia possa produzir. Em última instância, os fatores de produção são o capital e o trabalho. A remuneração do trabalho é feita através dos salários. Já a remuneração do capital se desdobra em várias categorias. Aquele que aluga um escritório para instalar sua firma se utiliza dele como capital, e tem que remunerar o dono deste capital através do pagamento de aluguéis. Aquele que toma dinheiro emprestado para utilizar como capital de giro paga juros ao

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35 dono do dinheiro. Já o empresário, quando é dono de sua empresa, tem direito aos lucros que a empresa gera.2 Por seu turno, a renda agregada pode ser transformada em gasto (o gasto agregado). Em uma economia fechada e sem governo, o gasto somente pode se dar através da aquisição de bens e serviços de consumo ou de investimento, fechando o ciclo. Os bens de consumo são adquiridos pelas pessoas (físicas), ao gastarem parte de sua renda. Já os bens de investimento são adquiridos pelas empresas (pessoas jurídicas). No entanto, se a empresa transfere todo o seu ganho na forma de remuneração dos fatores produtivos, como ela poderá adquirir bens de investimento? Na Macroeconomia, costuma-se supor que todo o investimento é financiado com recursos de fora da empresa. Por exemplo, se a empresa acumula lucros para financiar seus projetos de investimento, tudo se passa como se os donos da empresa decidissem emprestar parte do lucro a que têm direito para sua própria empresa. Por enquanto devemos lembrar que os bens de consumo são adquiridos pelas pessoas (físicas), através do gasto de parte de sua renda, e que os bens de investimento são adquiridos de algumas empresas que compram de outras, e que se financiam tomando recursos emprestados. Este movimento através do qual a produção é vendida, viabilizando a geração de renda que, por sua vez, se transforma em gasto que nada mais é do que a compra daquela mesma produção é o chamado fluxo circular de renda, o qual está representado esquematicamente na figura abaixo. As setas representam fluxos financeiros. Figura 11 – Fluxo Circular da Renda

Fluxo circular de renda PRODUÇÃO

GASTOS

RENDA

2

É interessante notar que a Economia considera fatores como terra e tecnologia como formas de capital. A terra sendo uma espécie de ―capital natural‖ e a tecnologia como ―capital intelectual‖.

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36 Na comparação do PIB de diversos países, é usual utilizar o método chamado de Paridade do Poder de Compra (Puchased Power Parity). Esse método consiste em desprezar a taxa de câmbio corrente, sujeita às grandes oscilações no dia a dia, e empregar uma taxa de câmbio alternativa para transformar o valor do PIB de um país de sua própria moeda para dólares. Essa taxa de câmbio alternativa é calculada reunindo-se uma cesta de bens e serviços idêntica em todos os países. Se essa cesta custa, por exemplo, R$ 2.100 no Brasil e US$ 1.000 nos EUA, a taxa de câmbio segundo a Paridade do Poder de Compra será R$ 2,10. Veja abaixo como ficam os valores PIBs dos mesmos países listados anteriormente segundo a Paridade do Poder de Compra:

Valores em US$ Trilhões em 2009

1- Estados Unidos- 14,266 3- China- 4,757 5- França- 2,634 2,198 7- Itália- 2,089 9- Espanha- 1,438

2- Japão- 5,048 4- Alemanha- 3,235 6- Reino Unido-

8- Brasil- 1,481 10- Canadá- 1,319

Fonte: Fundo Monetário Internacional - World Economic Outlook Database, 2010.

Numa economia fechada, isto é, sem relações com o exterior, vale sempre a igualdade entre produto agregado, renda agregada e gasto agregado. Mas a representação do fluxo circular de renda, no qual a produção agregada, a renda agregada e o gasto agregado são necessariamente iguais, nos permite representar uma outra relação, tão importante quanto a relação (3.1), mostrada acima. Se a produção se transforma em renda (alguns autores usam o jargão PIB => RIB, ou seja, Produto Interno Bruto gerando a Renda Interna Bruta) a renda, por sua vez, não poderia ser desagregada, da mesma forma que desagregamos o PIB? De que forma as pessoas em geral alocam sua renda em uma economia fechada e sem governo? Nesta situação hipotética, só há duas coisas que se pode fazer com a renda: consumir ou poupar. Se o seu consumo for menor que sua renda, então sua poupança será positiva, isto é, haverá um excedente de renda que poderá ser emprestado. Mas emprestado para quem? Se alguém possui gastos maiores que sua renda, terá uma Economia Aplicada

37 poupança negativa, isto é, precisará pedir emprestado (caso esta pessoa não tenha ela mesma poupado no passado). Além disso, como vimos, as próprias empresas precisam de recursos de terceiros para investir. Assim, neste exemplo hipotético, aqueles que têm poupança positiva podem emprestar para aqueles que têm poupança negativa ou que precisam investir. Ainda assim, só há duas coisas a fazer com a renda: consumir ou poupar. E como a renda agregada é igual ao produto agregado (que nada mais é do que o PIB), chegamos à seguinte relação:

PIB = consumo agregado + poupança agregada, ou (3.2) PIB = C + S

Agora observe. Vamos colocar lado a lado as relações (3.1) e (3.2) apresentadas acima3:

(3.1) (3.2)

PIB = C + I PIB = C + S

Produto e Gasto Agregados Renda Agregada

Considerando estas duas igualdades (na verdade, estas duas identidades, pois resultam de uma definição do que seja o PIB e a Renda Agregada), podemos derivar uma segunda relação de grande importância: PIB = C + I = PIB = C + S C+I=C+S (3.3)

I=S

3

Note: em Macroeconomia, investimento não é sinônimo de aplicação financeira. Neste contexto,

investimento significa a produção de bens e serviços que são utilizados na produção de outros bens e serviços sem serem transferidos diretamente para estes novos produtos. Assim, bens de investimento são, tipicamente, máquinas, equipamentos, instalações industriais, implementos agrícolas, automóveis que são utilizados por empresas de transporte de passageiros (taxis, ônibus, etc). Os bens que se transferem para os produtos (areia na construção civil, tinta nos automóveis, plástico na indústria de brinquedos) não são bens finais, mas insumos ou matérias-primas. Do mesmo modo, como veremos adiante, poupança não é sinônimo de caderneta de poupança, representando apenas a parcela da renda agregada não consumida no período corrente.

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38 Poupança (=Investimento) em países selecionados como percentual do PIB: China: 39% Coréia: 30% Turquia: 26% Brasil: 19% EUA: 18% Índia: 30% Espanha: 28% Japão: 24% Argentina: 19% Bolívia: 12%

Os dados acima mostram que os países com maior potencial de crescimento sustentado a longo prazo são os que têm maiores taxas de investimento e poupança. Um país com a China pode manter a taxa de crescimento do PIB perto de 10% ao ano em média graças a um nível de investimento próximo a 40% do próprio PIB. Outros países como Brasil e Argentina têm crescido muito pouco nos últimos dez anos (em média), pois não investem o suficiente para sustentar o crescimento. Em algum momento, países que se deparam com baixos níveis de investimento ou terão falta de capacidade produtiva ou terão que importar bens e serviços em escala crescente (caso dos EUA). A identidade (3.3) mostra que, em uma economia fechada e sem governo, o investimento agregado é necessariamente igual à poupança agregada. Caso o país hipotético em questão consuma demais, haverá menos recursos disponíveis para o investimento. A capacidade produtiva estará sendo destinada prioritariamente para a geração de bens de consumo. Agora, caso as pessoas decidam consumir menos e, portanto, poupar mais (não há nada mais a fazer com a renda que não consumir ou poupar), sobrarão recursos que poderão ser emprestados para as empresas que poderão investir. Como, em geral, os projetos de investimento são feitos, mesmo que parcialmente, com recursos tomados de empréstimo, o investimento agregado poderá ser expandido com a ajuda do aumento da poupança. Note um detalhe importante. Caso as firmas decidam, por exemplo, reter uma parcela dos lucros gerados para financiar seus próprios projetos de investimento, tal retenção de lucros também será caracterizada como poupança. Isto porque, as firmas, por decisão de seus proprietários e/ou acionistas, não transferem os lucros, na forma de rendas, para estes mesmos proprietários e acionistas. Assim, em última análise, foram eles mesmos que tomaram a decisão de poupar recursos que eram seus por direito, deixando-os acumulados na firma. Assim, é como se a firma financiasse, ainda que

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39 parcialmente, seus projetos de investimento, com recursos dos próprios donos da empresa. Outra observação importante é que poupança, em Macroeconomia, não é sinônimo de caderneta de poupança. Poupança é simplesmente a parcela da renda que não é consumida no período analisado, seja ela emprestada diretamente a algum agente que precise de recursos, seja ela aplicada no sistema financeiro em qualquer tipo de aplicação financeira.

3.1.3 PIB e PNB
Agora, vamos supor que nossa economia hipotética possui um único tipo de relação com o exterior. Ainda não há importação ou exportação de bens, por exemplo, mas suponhamos que existem empresas estrangeiras operando no país, assim como existem empresas do país operando no exterior. Uma empresa estrangeira é aquela cujo capital pertence a pessoas não residentes no país. Por analogia, uma empresa nacional é aquela que pertence a pessoas que residem no país. Como as empresas têm que remunerar os fatores de produção, as empresas estrangeiras enviam periodicamente recursos aos respectivos donos. Isto significa que existem remessas de lucros e dividendos para fora do país. Ao mesmo tempo, as empresas nacionais, operando no estrangeiro, enviam lucros e dividendos ao país. Às remessas para o exterior chamaremos de Renda Enviada ao Exterior (REE) e às remessas feitas a partir de fora chamaremos de Renda Remetida do Exterior (RRE). À diferença entre elas, chamaremos de Renda Líquida Enviada ao Exterior (RLEE, isto é, RLEE=REE - RRE). Ao introduzirmos o conceito de RLEE, estamos fazendo uma distinção entre a renda gerada dentro das fronteiras de um país (que se relaciona com o PIB) e a renda gerada por empresas pertencentes a residentes no país. Se existirem muitas empresas multinacionais operando em um país, e as remessas feitas às matrizes superarem as remessas feitas pelas empresas nacionais para dentro dele, então parte do produto agregado não se transforma em renda agregada. Os produtos são gerados, vendidos, permitem a remuneração dos fatores de produção nacionais, mas, da mesma forma, têm que remunerar os fatores de produção estrangeiros e, por conta disso, se transformam em renda de pessoas residentes no exterior. Quando descontamos do PIB a RLEE, chegamos a um novo conceito: o de Produto Nacional Bruto, isto é, a produção total,

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40 realizada em um país em determinado período de tempo, e que se transformou, de fato, em renda nacional. Países que enviam mais renda ao exterior do que recebem (Brasil) têm PIB > PNB. Países com grandes volumes de capitais investidos no exterior (Holanda, Japão) ou muitos emigrantes enviando renda para as famílias no país de origem (Portugal e Israel) têm PNB > PIB. Em 2005, por exemplo, o PIB brasileiro foi de R$ 1,937 trilhões e o PNB foi de R$ 1,876. Portanto, a RLEE foi de cerca de 3,2% do PIB brasileiro naquele ano. Como regra, comparações de ―renda per capita‖ entre diferentes países devem considerar a variável PNB (em inglês, GNP - Gross National Product ou GNI - Gross National Income). Caso contrário, no caso da Suíça ou da Holanda, estaríamos excluindo os lucros das filiais de empresas como a Nestlé e a Phillips, remetidas para os acionistas naqueles países.

Figura 12 – PIB e PNB

Análises do PIB e do PNB
SRL= Saldo de Receitas Líquidas
SRL = diferença entre RLRE e RLEE, em que:
RLRE- Receitas Líquidas Recebidas do Exterior; RLEE- Receitas Líquidas Enviadas ao Exterior

Brasil
SRL

Holanda
SRL

PIB

PNB

PIB

PNB

Prof. M.Sc. Claudio A. Garbi

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41 A Renda Líquida Enviada ao Exterior é um dos componentes das contas externas dos países, mas é muito pouco citada na mídia. Juntamente com as importações e exportações, a RLEE compõe as chamadas Transações Correntes do país. Países onde as importações (cujo símbolo tradicional é M) somadas à RLEE são superiores às exportações (cujo símbolo é X) têm déficit externo ou déficit em transações correntes. Para não esgotarem suas reservas internacionais, os países que têm déficit externo ou déficit em transações correntes devem atrair capitais estrangeiros, que são uma fonte alternativa de dólares para abastecer as reservas internacionais do país, administradas pelo Banco Central. Quando nem mesmo o fluxo de capitais estrangeiros (também chamados de poupança externa ou SX) é suficiente para compensar a perda de dólares decorrente do déficit externo, em geral os paises recorrem ao Fundo Monetário Internacional. A figura abaixo resume essas relações. Figura 13 – Fluxo de divisas

Exportações (X) + RLRE BACEN Importações (M) + RLEE Transações correntes

Capitais estrangeiros (Sx) + FMI

A importância do investimento agregado em uma economia decorre do fato de que, ao investirem, as empresas ampliam sua capacidade de produção de bens e serviços. Seria impossível para um país fazer com que o consumo crescesse ano a ano sem que as empresas estivessem investindo. Ao expandirem sua capacidade de produção, as empresas adquirem novas máquinas, constroem novas instalações, modernizam seus equipamentos (é o chamado investimento em capital físico) ou ainda oferecem treinamento à sua mão-de-obra, promovem reordenamento nas técnicas de

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42 gestão, modificam as rotinas de trabalho (é o chamado investimento em capital humano). No entanto, na discussão feita até aqui, fizemos uma simplificação que já pode ser superada. Tratamos apenas de uma forma de investimento: o investimento das empresas. Do mesmo modo, toda a poupança era tratada simplesmente como renda não consumida (do setor privado). Na realidade, como mostram os dados do quadro abaixo, há duas fontes de investimento: o realizado pelas empresas (aquisição de máquinas, equipamentos etc. pelo setor privado) e o realizado pelo governo (obras públicas, compra de equipamentos para instituições governamentais como hospitais públicos, escolas etc.). Continuaremos chamando o investimento privado de I e passaremos a chamar o investimento público de IG. Do mesmo modo, não há apenas uma fonte de poupança, mas três. Continuaremos chamando a renda não consumida do setor privado de S. Mas o próprio setor público pode alocar parte de suas receitas tributárias (que chamaremos de T) para realizar investimento. Toda vez que essas receitas superam as despesas de custeio (que chamaremos de G: salários do funcionalismo, despesas com previdência e com a manutenção da ―máquina administrativa‖), pode haver alocação de poupança pública (SG = T - G) para investimentos. Por fim, todos os países podem contar com fluxos de capitais estrangeiros, isto é, poupança externa (SX) que pode ser carreada para investimentos internamente.4 Com esses novos elementos, a expressão 3.3, acima, pode ser completada, passando a assumir a forma da expressão 3.3a, a seguir.

(3.3a)

I + IG = S + S G + S X Temos agora, explicitamente, dois tipos (complementares) de investimento

(privado e público) e três fontes de poupança (privada interna, pública e externa). Os dados abaixo ilustram a evolução dessas variáveis no passado recente do país, permitindo a discussão sobre o potencial de crescimento acumulado ao longo de mais de vinte anos.

4

Rigorosamente, a poupança externa corresponde ao déficit em transações correntes do Balanço de Pagamentos, como demonstrado no glossário. Um país que remete.

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43

3.1.4 A Demanda Agregada em uma Economia Completa (Com Governo e Relações com o Exterior)
Vamos agora relaxar nossas hipóteses de que o nosso país imaginário não possui nem governo nem relações comerciais com o resto do mundo e vamos voltar a analisar os componentes do PIB. Agora que já sabemos o que leva ao aumento da capacidade de produção ao longo do tempo, nosso foco irá se voltar para quais bens e serviços estão sendo demandados a cada momento e que fatores podem influenciar no nível e na composição da demanda agregada. Em uma economia fechada e sem governo, toda a produção em cada período de tempo somente pode ser classificada como bens e serviços de consumo ou de investimento do setor privado doméstico. Ao introduzirmos o governo, podemos imaginar que parte de tudo o que se produz em um país pode, também, destinar-se ao consumo ou ao investimento governamentais. Existirão pessoas que serão remuneradas por prestarem serviços ao governo (funcionários públicos, empresas contratadas etc.); parte da produção de bens (material de escritório, roupas, combustíveis etc.) será adquirida pelo setor público, o qual também comprará parte dos bens de investimento (caminhões, edifícios comerciais, equipamentos etc.). Aos gastos do governo com bens e serviços de uso corrente (serviços prestados de forma contínua, energia elétrica e combustíveis, materiais de escritório etc.), chamaremos de consumo do governo. Já a aquisição de bens que se destinam à viabilização do desempenho das funções atribuídas ao governo (obras de infra-estrutura, caminhões, escolas, hospitais etc.) será chamada de investimento do governo. Note que não há muita novidade em relação à desagregação do PIB, mostrada através da expressão (3.1). Estamos apenas destacando, no consumo e no investimento agregados, a parcela do governo, já que este somente foi introduzido na análise a partir de agora. Assim, considerando o setor governamental, a expressão (3.1) passa a apresentar a seguinte forma:

PIB = consumo privado + investimento privado + investimento do governo + consumo do governo, ou

(3.1a)

PIB = C + I + IG + G

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44 Agora, vamos admitir que o país possua relações comerciais com o resto do mundo. Parte de tudo que se produz dentro do país se destina às exportações, ou seja, não é consumido nem investido dentro do país, seja pelo governo, seja pelo setor privado. Como não poderia deixar de ser, teremos que somar as exportações (gastos realizados por não-residentes com produtos e serviços produzidos dentro de nosso país) ao nosso PIB. Mas, por outro lado, como o país importa bens e serviços do resto do mundo, haverá um sem número de produtos cujo valor trará embutido uma parcela de importados (matérias-primas, componentes, serviços como fretes, seguros, etc.). Sendo assim, o valor das importações dever ser retirado do PIB, pois a parcela de importados presente em nossos gastos totais não foi produzida aqui. Como conseqüência, a expressão (3.1a) passa a apresentar a seguinte forma:

(3.1b)

PIB = C + I + IG + G + X - M Note que o termo (X - M) é simplesmente o resultado da balança comercial de

um país5. Se existir um déficit comercial (isto é, X < M), o comércio externo tenderá a reduzir o PIB. Havendo superávit comercial (X > M), o comércio externo tenderá a aumentar o PIB. Por fim, vamos supor que nossa economia possui um sistema financeiro. Desta forma, as pessoas que poupam não mais emprestarão às empresas (e às pessoas que consomem além de sua renda corrente) de forma direta. Os poupadores passarão a aplicar seus recursos financeiros excedentes no sistema financeiro que repassará estes recursos na forma de crédito àqueles que precisarem de empréstimo. Além das pessoas (físicas) que consomem mais do que ganham e as empresas que desejam fazer gastos com investimento, o governo pode, eventualmente, precisar de empréstimos. Para isto, basta que, em algum momento, o total arrecadado com impostos (T) seja menor que o total de gastos com consumo e investimento (isto é, T < G + IG). Se, em algum momento, o governo arrecadar com impostos mais do que seus gastos, então ele pode se tornar um emprestador de recursos.

5

Em termos rigorosos, X e M incluem as transações internacionais de bens e serviços não-fatores de produção. Estes termos serão melhor explicados quando analisarmos o balanço de pagamentos, na seção dedicada ao macromercado de câmbio.

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45 Figura 14 – Fluxo Circular da renda

Fluxo Circular de Renda
Importação

M
Exportação

Produto
Consumo

X

Gasto
Investimento Poupança

Renda
Sistema Financeiro
Endividamento público

Saldo de RL

Gastos+ Invest. do Governo (G+Ig)

Tributos

Governo
Prof. M.Sc. Claudio A. Garbi

A figura mostra que, de tudo que é produzido dentro das fronteiras de um país em termos brutos (isto é, desconsiderando-se a depreciação, o que significa que estamos tratando do PIB), parte se transforma em renda dos residentes (renda nacional bruta) e parte é remetida para fora do país (RLEE ou renda líquida enviada ao exterior, conceito que já desconta a renda recebida do exterior). A renda nacional bruta (isto é, incluindo a depreciação) passa a ser igual ao PNB, e se destina ao consumo, poupança e ao pagamento de tributos. Já a poupança, transformada em crédito pelo sistema financeiro, financia o investimento das empresas, bem como o consumo daqueles que gastam mais do que ganham e, eventualmente, o excesso de gastos do governo sobre o total arrecadado com tributos. No entanto, do total de gastos na economia (gasto agregado), uma parcela é enviada ao exterior na forma de pagamento pela importação de bens e serviços. O restante compra a produção nacional, a qual também é parcialmente adquirida por estrangeiros que gastam comprando nossos produtos de exportação, o que fecha o fluxo circular de renda. A Demanda Agregada é representada na figura pela categoria GASTO e corresponde exatamente à expressão 3.1b. Toda vez que um de seus componentes estiver crescendo, isso deverá colaborar para a expansão do nível de atividade. Com isso, vamos analisar os determinantes de dois dos principais componentes da Demanda

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46 Agregada: consumo e investimento. Os demais componentes, ligados ao setor governamental e externo serão analisados nas seções seguintes.

1) A influência do nível de renda dos períodos anteriores: ciclos virtuosos ou ciclos viciosos são comuns em Economia. Se o nível de atividade de um país já se encontra em uma trajetória de expansão, isso significa que o nível de renda das pessoas e o volume de lucro das empresas também devem estar em expansão. Em economias prósperas observa-se o crescimento sustentado do consumo, com o surgimento de novos hábitos e de novos mercados. Isso tende a estimular o crescimento das empresas, que passam a investir na tentativa de se antecipar à demanda. Isso gera novos empregos e novas encomendas para outras empresas, auto-sustentando o ciclo virtuoso. É interessante notar que o crescimento da renda permite o aumento simultâneo de consumo e de poupança (combinados em alguma proporção). Com isso, os investimentos acabam encontrando fontes de financiamento geradas pela expansão da atividade econômica ao longo da trajetória de prosperidade econômica. Infelizmente, o contrário também ocorre. Quando uma economia inicia uma etapa de redução do nível de atividade, muitas pessoas cortam o consumo preventivamente, iniciando reações em cadeia que reforçam a trajetória de queda. 2) A influência dos impostos: a regra nesse caso é simples. O volume de renda disponível para consumo ou poupança depende tanto da renda bruta quanto da fatia de impostos a ser paga. Elevações de carga tributária deprimem, a um só tempo, o consumo e a poupança do setor privado. Ao mesmo tempo, se esse aumento de carga tributária reduzir a rentabilidade dos projetos de investimentos, muitos poderão ser simplesmente deixados de lado, o que reduziria também os gastos das empresas na compra de bens de capital. Em resumo, aumentos de impostos tendem a reduzir

consumo, poupança do setor privado e, eventualmente, o investimento do setor privado. Cortes de impostos são uma medida padrão para estimular o consumo e reaquecer a Demanda Agregada em tempos de recessão. A influência do nível de taxa de juros: o impacto mais imediato de uma elevação dos juros é reduzir despesas de consumo. Tanto as pessoas que compram a crédito (e que notam que o valor das prestações se eleva) quanto as que compram à vista (mas que sacam recursos do sistema financeiro para consumir bens de alto valor) reduzem o consumo quase que de imediato quanto os juros se elevam. No entanto, com o encarecimento do capital de terceiros, as empresas também reavaliam seus projetos de investimento. Caso o retorno esperado sobre um Economia Aplicada

47 projeto seja inferior à taxa de juros (custo de capital), ele certamente será abandonado ou adiado. Assim, as taxas de juros são um fator decisivo para influenciar o nível de demanda agregada. Se for possível alterar separadamente os juros que incidem sobre consumo e sobre investimento, também se pode influenciar a composição da

Demanda Agregada, estimulando um desses componentes em detrimento do outro. 3) A influência das expectativas e da aversão ao risco: ainda que cada um dos fatores acima seja favorável, é possível imaginar que a Demanda Agregada não esteja aquecida em função de ―meras‖ expectativas. Quando os consumidores acreditam que ocorrerá uma recessão ou um aumento dos impostos no futuro próximo, é razoável supor que já devam iniciar um movimento de redução do consumo e ampliação da poupança como medida preventiva. Ao mesmo tempo, se os empresários esperam que os juros serão elevados no curto prazo, iniciar um projeto de investimento poderá ser uma aventura arriscada pois, ao longo das etapas do projeto, o encarecimento do custo de capital poderá reverter as expectativas iniciais de lucro. Mas, ainda que a recessão e o aumento de juros sejam apenas um dos cenários possíveis, sabemos que agentes avessos ao risco não trocam o certo (recursos líquidos em caixa) pelo duvidoso (planos de gastos futuros com retornos incertos). Assim, a ampliação da aversão ao risco pode deprimir tanto consumo quanto investimento, provocando sérias reduções de Demanda Agregada em cenários que se mostram, de inicio, relativamente favoráveis ao crescimento do nível de atividade.

3.1.5 O PIB e o Ciclo de Negócios
No Fluxo Circular de Renda, apresentado na seção anterior, a Demanda Agregada é representada pela categoria GASTO. Já a Oferta Agregada é representada pela categoria PRODUÇÃO. Sabemos que o investimento realizado em um país, com as três origens de poupança listadas acima, garante a expansão da capacidade de produção ano a ano. Já na seção anterior, começamos a analisar os determinantes de alguns dos componentes do gasto agregado: consumo e investimento. Quando as empresas estão trabalhando no nível normal de operação, podemos afirmar que a Demanda Agregada é igual à Oferta Agregada em condições de crescimento equilibrado. Mas a idéia de nível normal de operação não significa necessariamente pleno uso da capacidade instalada. Todos os empresários operam, via de regra, com alguma ociosidade, seja para atender a encomendas inesperadas, seja por Economia Aplicada

48 causa de variações sazonais na demanda, seja por conta de um bloco de investimentos realizados e ainda não plenamente operacionais. Ainda assim, em muitas pesquisas de campo feitas por órgãos de pesquisa econômica, é normal perguntar aos empresários se suas firmas estão operando no nível considerado normal produção naquela época do ano. Empresas que estão operando acima do nível normal, via de regra, estão empregando horas extras de trabalho, colocando em operação maquinário mais antigo e costumam observar o surgimento de problemas ligados à logística de distribuição ou de recebimento e utilização de insumos e matérias-primas. Quando o nível de Demanda Agregada está muito elevado, é comum as empresas afirmarem que estão operando acima do nível normal e que seus estoques estão abaixo do desejado. Já em momentos em que a Demanda Agregada está relativamente desaquecida, as empresas tendem a operar com mais ociosidade do que o normal, isto é, passam a operar abaixo do nível normal. Horas extras são canceladas, o equipamento mais velho (e menos produtivo) é desligado e os estoques muitas vezes começam a subir, ficando além do nível considerado ideal. Esses altos e baixos da atividade econômica permitem confrontar o ritmo da expansão da capacidade produtiva e da Oferta Agregada (gerada pelos investimentos feitos no passado recente) com o ritmo da Demanda Agregada ao longo do chamado ciclo econômico ou ciclo de negócios. Inicialmente, vamos nos concentrar em um exemplo artificial, mostrado na figura abaixo. A linha ascendente mostra a capacidade produtiva da economia, que cresce em função dos investimentos passados e da produtividade dos fatores econômicos empregados na produção. Vamos chamar essa variável de nível normal de operação ou PIB tendencial. Ela representa a expansão progressiva da Oferta Agregada. Já a curva mostra os diferentes níveis de Demanda Agregada, muito influenciados por fatores imediatos como os listados acima: impostos, juros, expectativas etc.

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49 Figura 15 - Ciclos Econômicos

Estruturação do PIB e o ciclo do negócio
PIB
PIB TENDENCIAL

PIB OBSERVADO

Expansão

Contração
Recessão

Recuperação
Expansão

Contração

Tempo

“Auge”

“Fundo do poço”
Prof. M.Sc. Claudio A. Garbi

“Novo auge”

Um típico ciclo econômico apresenta 4 fases sucessivas: a) Na primeira fase, o PIB se eleva acima de sua tendência, mostrando um forte aquecimento da Demanda Agregada acima do crescimento potencial da Oferta Agregada. Esta fase é chamada de expansão. Nessa fase, as empresas estão contratando mais mão-de-obra, seus estoques estão se reduzindo e muitas começam a atingir a plena capacidade instalada. b) Quando o PIB atinge o máximo distanciamento em relação à tendência após uma fase de expansão, dizemos que foi atingido o auge (ou pico) do ciclo de negócios. A partir daí, o crescimento do PIB diminui e pode se tornar negativo, iniciando a fase de contração. Nessa fase, o nível de operação das empresas ainda está acima do normal, mas o ritmo de crescimento da Demanda Agregada é cada vez menor e a redução de estoques começa a dar sinais de reversão. c) Quando o PIB se torna menor que sua tendência, dizemos que se inicia a fase de recessão. As empresas passam a informar que estão operando abaixo do nível normal, a ociosidade torna-se crescente, mão-de-obra extra é demitida e os estoques começam a subir além do desejado. Recessões muito prolongadas tendem a gerar a demissão de parte da mão-de-obra permanente da empresa e podem iniciar um ciclo vicioso de queda no consumo e no investimento. O ponto em que o PIB se encontra mais distanciado de sua tendência após uma recessão é chamado de ―fundo do poço‖.

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50 d) A partir daí, inicia-se a fase de recuperação (ou retomada), quando o PIB começa a aproximar-se novamente de sua tendência. O movimento de ampliação da capacidade ociosa começa a diminuir e a Demanda Agregada começa a aquecer-se novamente. Quando o PIB ultrapassa novamente sua tendência, inicia-se uma nova fase de expansão, completando o ciclo. As flutuações da Demanda Agregada em torno da trajetória de evolução da Oferta Agregada podem ser afetadas tanto por variáveis internas, incluindo a política econômica, quanto por variáveis externas, como crises internacionais ou choques nos fluxos de capital. A importância de se manter o monitoramento contínuo do ciclo econômico refere-se, antes de mais nada, à sua influência sobre as oportunidades de negócio para as empresas dos diferentes segmentos da economia. As empresas que não antecipam corretamente o início de uma etapa recessiva podem estar superestimando seus lucros futuros e iniciando projetos de investimento que não poderão ter continuidade mais à frente. Do mesmo modo, empresas que primeiro detectam que a economia está no ―fundo do poço‖ poderão iniciar captações de recursos em condições mais favoráveis, saindo na frente de concorrentes na etapa de retomada do ciclo. Análise semelhante vale para a política de estoques. As empresas que detectam primeiro o fim da etapa de recessão começam ampliar primeiro seus estoques e isso pode significar a compra de matéria-prima com preços ainda deprimidos. E isso certamente ampliará os ganhos nas etapas de retomada e expansão. O grande drama é que as estatísticas sobre o desempenho do PIB são divulgadas com certa demora, tanto no Brasil quanto nos países desenvolvidos. Assim, o fator estratégico passa a ser a correta ―leitura‖ de indicadores antecedentes. Como o próprio nome diz, esses indicadores revelam, com certa margem de erro, qual comportamento contemporâneo da Demanda Agregada, antecedendo o anúncio dos números oficiais.

Alguns indicadores antecedentes:

Nos EUA (melhor fonte: imprensa brasileira): a) Pedidos de seguro desemprego; b) Índice de confiança dos consumidores; c) Indicador de variação nos estoques industriais.

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51 No Brasil: a) Índices de expectativas dos consumidores (fonte: Federação do Comércio de São Paulo); b) Nível de ocupação da capacidade instalada na indústria (fonte: Confederação Nacional da Indústria); c) Índice de confiança do empresário (fonte: idem a anterior); d) Avaliação sobre os níveis de operação e de estoques na indústria (fonte: Sondagem Conjuntural da FGV); e) Consultas aos cadastros de consumidores inadimplentes (fontes: Serasa e SBPC).

A figura abaixo mostra o comportamento cíclico do PIB brasileiro como ele realmente foi observado no período 1990-96. Nesta figura, podemos observar que o país apresentou fortes flutuações do PIB em torno da tendência que, como dissemos, foi de um crescimento de 2,8% a.a. nesse período. Ao longo do ano de 1990, por exemplo, o PIB desviou-se fortemente de sua tendência entre o primeiro e o segundo trimestres; novo auge foi observado por volta de setembro e, no primeiro trimestre de 1991, novo fundo do poço. Depois de novo auge no final de 1991, a economia rapidamente entrou em contração e depois em recessão, a qual se aprofundou em 1992.

3.2 Finanças Públicas
Pontos-chave: Conceitos de déficit público: primário e nominal; Relações entre dívida e déficit públicos; Fatores determinantes do crescimento da dívida pública; Relação dívida / PIB.

3.2.1 Dívida e Déficits Públicos
A condução da política fiscal envolve tanto a administração dos gastos públicos com salários e custeio (G) e investimento (IG) quanto o gerenciamento das receitas tributárias (T). Através das categorias G e IG, o setor público participa do gasto agregado no fluxo circular de renda e, portanto, pode interferir na demanda agregada por bens e serviços, intensificando ou desacelerando o nível de atividade. Nesse sentido, o excesso de gastos públicos pode ser um fator de inflação de demanda, como veremos

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52 à frente. Ao mesmo tempo, pode servir como um freio à recessão em momentos de desaquecimento. Por fim, a arrecadação tributária afeta indiretamente o gasto privado. Elevações de impostos podem reduzir tanto o consumo privado (C) quanto o investimento privado (I). Por conta disso, a condução da política fiscal muitas vezes se confunde com a administração simultânea desses três elementos: G, IG e T. E o conceito mais importante que os associa de uma só vez é o de déficit público. Mas é preciso estar atento, pois há mais e um conceito de déficit público. Toda vez que o total de gastos não financeiros do setor público (G+IG) supera a arrecadação tributária (T) dizemos que o governo encontra-se em uma situação de déficit primário. Caso (G+IG) < T teremos um superávit primário6. Ocorre que, toda vez que (G+IG) > T, o governo não pode simplesmente deixar de pagar seus compromissos com a justificativa de que não dispõe de arrecadação suficiente. Nesse caso, o governo lança títulos públicos no mercado, pedindo recursos emprestados. Com isso, cria-se (ou amplia-se) a dívida pública que chamaremos de D daqui em diante. Note que, através do Fluxo Circular de Renda, é possível notar que o desequilíbrio das contas públicas faz com que o setor governamental passe a disputar a poupança disponível no sistema financeiro. Como o governo em geral representa um nível de risco para os poupadores menor que as empresas do setor privado, em situações de grande aversão ao risco os títulos públicos podem representar um sério concorrente para as empresas que necessitam captar recursos de terceiros para levar adiante seus projetos de investimento. A literatura de Macroeconomia costuma chamar esse fenômeno de ―efeito deslocamento‖: esse efeito ocorre quando o aumento de gastos públicos gera escassez de crédito para o setor privado e acaba reduzindo indiretamente o investimento das empresas. Tudo se passa como se o gasto público tivesse ―deslocado‖ o investimento privado. Mas, uma vez que haja títulos públicos emitidos (isto é, haja dívida pública na praça), no período seguinte, além das despesas não financeiras já mencionadas, haverá a necessidade de contabilizar o pagamento de juros devidos sobre essa dívida, cujo montante passaremos a chamar de J. Por simplicidade, vamos supor que J inclui todas

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Também é comum dizer-se: ―o resultado primário foi negativo‖ quando há déficit, e ―o resultado primário foi positivo‖ quando há superávit.

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53 as despesas financeiras, sejam elas juros, comissões, correções ou qualquer outro item de natureza financeira nas despesas do setor público. Surge assim um segundo e importante conceito de déficit público: o déficit nominal. Ele corresponde à soma do déficit primário (isto é, aquele que não considera as despesas financeiras) com o montante de juros nominais e demais encargos incidentes sobre a dívida pública. O quadro a seguir resume as relações entre esses todos esses conceitos. Quadro 2 – Conceitos básicos de Finanças Públicas
Déficit Primário = (IG + G) – T Onde: IG = investimento do governo G = despesas de custeio T = arrecadação tributária Onde: J = juros nominais da dívida pública

Déficit Nominal = Déficit primário + J

Dívida Pública = passivo total do setor público junto aos credores internos e externos. Ela evolui de acordo com o resultado apurado através do Déficit Nominal

O déficit nominal é uma representação global do resultado das contas públicas. Nesse conceito estão incluídas todas as despesas e todas as receitas do setor público. Uma confusão comum em Finanças Públicas é supor que os conceitos de Dívida Pública e Dívida Externa são sinônimos. Isso é incorreto! A Dívida Pública, como dito acima, é o total de passivos do setor público, é seu endividamento junto aos credores. E esses credores podem estar dentro do país (Dívida Pública Interna) ou fora do país (Dívida Pública Externa). Por sua vez, as empresas também têm dívidas (passivos), tanto junto a credores dentro do país (Dívida Privada Interna) quanto fora do país (Dívida Privada Externa). Como mostrado no quadro abaixo, a Dívida Externa Total é a soma da Dívida Pública Externa com a Dívida Privada Externa.

Dívida Pública Interna Dívida Pública Externa Dívida Externa Total Dívida Privada Externa Dívida Privada Interna

Como a taxa de juros que incide sobre a Dívida Pública Interna é determinada, em parte, pela atuação do Banco Central com vistas a controlar a inflação (como

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54 detalhado a seguir), alguns economistas argumentam que a preocupação essencial da política fiscal deve ser o controle do déficit primário e, através dele, do déficit nominal. Havendo um estoque de dívida pública sobre o qual incidem juros mês a mês, mesmo que o déficit primário esteja zerado, como o valor J será positivo, isso implicará um déficit nominal positivo e na necessidade de colocação de mais dívida pública no mercado para que se possa arrecadar os recursos necessários ao pagamento dos próprios juros. Isso poderia dar a impressão de que o endividamento público pode assumir um comportamento tipo ―bola de neve‖ que só seria detido zerando-se o déficit nominal. Caso isso ocorra, todos os pagamentos do setor público (G+IG+Juros) seriam cobertos com a arrecadação tributária (T). No entanto, países como os integrantes da União Européia toleram déficits nominais de até 3% dos respectivos PIBs. Por quê? Existe um consenso entre os economistas modernamente no sentido de que o setor público deve demonstrar que está solvente, isto é, que será capaz de administrar seus compromissos ao longo do tempo como qualquer empresa. E as empresas, tipicamente, têm dívidas com terceiros. O indicador mais aceito de solvência do setor público é a relação entre a dívida pública (D) e o PIB. Aceita-se que, caso a razão D/PIB seja estável ao longo do tempo, o setor público (que arrecada tributos a partir do PIB) poderá manter-se solvente. Assim, os países da União Européia concluíram que, caso o déficit nominal dos países membros mantenha-se em 3% dos respectivos PIBs, as dívidas públicas estarão crescendo, mas de forma a acompanhar a expansão do PIB da região de modo a manter em equilíbrio a relação D/PIB. Em países como o Brasil, que possuem taxas de juros muito altas (as quais tendem a fazer com que a dívida cresça muito rapidamente), utilizou-se o recurso da privatização como forma de abater o valor da dívida e frear seu crescimento. Esse foi o motivo essencial do uso que se deu aos recursos de privatização: contribuir com a constituição e um quadro de solvência para o setor público. Quando os recursos de privatização começaram a se tornar escassos, a única forma de a política fiscal contribuir com esse quadro de solvência foi a geração de superávits primários que forçassem a redução (indireta) do déficit nominal. Uma forma perversa de gasto público é aquele que excede a arrecadação e é financiado diretamente através da emissão de moeda. O governo ―toma emprestados‖ recursos junto ao Banco Central, que retém os títulos públicos. Isto equivale à mera fabricação de dinheiro. Este fato fará com que haja mais dinheiro em circulação e, Economia Aplicada

55 portanto, que a demanda agregada se eleve continuamente, causando um aumento do nível de preços. Ao perceberem o aquecimento da demanda, os produtores logo aumentarão seus preços, o que pode fazer com que o resultado seja apenas inflação, sem nenhuma conseqüência sobre o nível da atividade.

3.3 O MACROMERCADO MONETÁRIO: A Atuação do Banco Central e as Metas de Inflação

3.3.1 O Processo Inflacionário
Pontos-chave: O Regime de Metas de Inflação; Componentes da inflação; Inflação de demanda e ciclo econômico; A influência das taxas de juros no comportamento da inflação. Na atualidade, diversos países do mundo adotam o chamado Regime de Metas de inflação. Esse regime é caracterizado por 3 elementos:

1) O gestor: o Banco Central, principal agente do sistema financeiro, é o responsável pela gestão do regime. A ele cabe manter a inflação sob controle (isto é, dentro das metas estabelecidas). 2) A meta: o próprio Banco Central ou o governo estabelecem com antecedência as metas de inflação para os anos à frente. Em geral, são fixadas faixas de tolerância para a inflação, um intervalo com valores máximos e mínimos entre os quais está o ―alvo‖ ou centro da meta. No Brasil, as metas são definidas pelo CMN Conselho Monetário Nacional, composto pelo próprio presidente do Banco Central, o Ministro do Planejamento e o Ministro da Fazenda (presidente do Conselho). No Brasil, o índice escolhido para a definição da meta inflacionária é o IPCA - Índice de Preços ao Consumidor Amplo, do IBGE. 3) O instrumento: o Banco Central utiliza a taxa de juros básica (no Brasil, a Selic) para manterá inflação no limite das metas. A lógica é simples: havendo ameaça de descumprimento da meta inflacionária, o BACEN eleva os juros. Com isso, visa reduzir a demanda por bens e serviços e criar um ambiente desfavorável à alta de preços. Se a meta está para ser cumprida com certa

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56 folga, o BACEN pode reduzir os juros. Isso contribui para a retomada do consumo e pode provocar nova pressão inflacionária. Desde que isso não leve novamente ao descumprimento da meta, os juros podem ser mantidos em baixa. Ocorre que a inflação é um fenômeno complexo que pode estar associado a diversos fatores; nem todos eles muito sensíveis aos juros fixados pelo BACEN. De todo modo, desde a Grande Depressão, os países desenvolvidos perceberam que é melhor conviver com uma taxa de inflação baixa e constante do que com um processo deflacionário. Atualmente, todos os países desenvolvidos têm metas de inflação (explícitas ou implícitas) em torno dos 2% anuais. Com essa taxa de inflação, os preços em geral dobrariam a cada 35 anos, o que deixa para as empresas um horizonte de planejamento bastante longo, especialmente se essas taxas forem bastante estáveis ao longo do tempo. Em geral, as metas de inflação visam mantê-la o mais próximo possível desse percentual. De um modo geral, há três componentes típicos para a determinação da taxa de inflação, os quais explicam tanto as altas quanto as baixas dos índices: 1) Componente de demanda: ao longo do ciclo econômico, momentos de expansão contínua podem levar ao superaquecimento da Demanda Agregada. As empresas, operando acima do nível normal, podem ver sua capacidade ociosa e seus estoques caindo. Via de regra, em momentos de superaquecimento, os empresários elevam preços e margens de lucro até mesmo antes que a plena capacidade seja alcançada. O gráfico abaixo ilustra essa região de excesso de Demanda Agregada. 2) Componente temporal (inércia e expectativas): como vários outros processos em Economia, a inflação também possui elementos de realimentação. A alta dos preços em períodos passados pode gerar a expectativa de novas altas no período corrente. Quando essas expectativas se generalizam, muitas empresas se preparam para enfrentar altas nos custos de reposição de seus estoques. Quando as expectativas de inflação são desse tipo, elas tendem a se confirmar pelo simples comportamento defensivo dos agentes econômicos, o que realimenta o processo gerando a inércia inflacionária. Outro fator causador de inércia são contratos que determinam a alta de preços com base na inflação passada. Enquanto houver inflação, continuará havendo alta desses preços, propagando o processo7.

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Até 1994, com o advento do Plano Real, parte significativa da inflação no Brasil era explicada pelo componente temporal da inflação, tanto as expectativas quanto os contratos de indexação perpetuavam a inflação.

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57 3) Componente de custos: após os choques do petróleo dos anos 70, esse elemento foi incorporado ao estudo da inflação. Quando um determinante importante do custo das empresas sofre um choque abruto de alta, observa-se uma tendência à elevação em cadeia dos preços. O mesmo ocorre diante de quebras de safras agrícolas ou diante de elevações muito intensas da taxa de câmbio. A moderna atuação dos Bancos Centrais nas principais economias do mundo parte do suposto de que não lhes cabe controlar o comportamento dos custos das empresas. Mesmo os mecanismos de controle da taxa de câmbio são vistos como um instrumento inadequado para o controle da inflação. Assim, dos três componentes listados acima, o Banco Central pode influenciar dois: o nível de Demanda Agregada e as expectativas inflacionárias. Monitorando o ciclo econômico, o Banco Central preocupa-se continuamente em saber se o PIB não está muito distante de seu nível tendencial. Desvios (também chamados de gaps) muito grandes na fase de expansão geram pressões inflacionárias (inflação de demanda) e recomendam a elevação das taxas de juros para reduzir o nível excessivo de atividade. É interessante notar que, na fase recessiva, não há quedas de preço como regra geral. Como dissemos, a deflação é considerada um grande mal desde a Grande Depressão. Assim, o baixo nível de atividade traz, normalmente, pressões por maior desemprego. Esse seria um indicador de que o excesso de Demanda Agregada teria sido revertido e que, portanto, a taxa de juros poderia cair. Já as expectativas inflacionárias só podem ser influenciadas indiretamente. Um Banco Central que se mostre continuamente intolerante com a inflação durante longos períodos de tempo cria uma reputação que pode gerar expectativas favoráveis. Nesse sentido, a chamada ―autonomia‖ ou ―independência‖ do Banco Central em relação ao governo poderia contribuir para fazer convergirem as expectativas para níveis mais baixos de inflação. Nesse sentido, imagine que o Banco Central observe que a inflação está em alta devido a um choque de custos. Caso ele adote uma postura de acomodação e não eleve as taxas de juros, isso pode provocar um processo de deterioração do componente de expectativas, fazendo com que a alta de preços tenha uma segunda ―rodada‖ e seja realimentada. Assim, alguns Bancos Centrais costumam manter juros altos mesmos em períodos de recessão caso a inflação esteja acima das metas estabelecidas.

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3.3.2 A Oferta de Moeda e a Determinação da Taxa de Juros de Mercado
Pontos-chave: Taxa de juros básica e taxa de juros de mercado; Papel dos títulos públicos na regulação da oferta monetária; Diferentes conceitos de moeda: Meios de Pagamento e Base Monetária; Depósitos compulsórios e multiplicador monetário. A ―Lei da Oferta e da Demanda‖ tem uma forma simples de analisar a formação dos preços na economia. A escassez eleva o preço, seja por causa de uma demanda elevada, seja por causa de uma oferta reduzida. No sentido contrário, preços em baixa são causados por uma abundância relativa, seja esta devido à falta de demanda ou à oferta muito grande. Com a moeda, ocorre coisa semelhante. Basta fazermos uma pequena adaptação e passarmos a compreender a taxa de juros como um preço e o Banco Central como um grande agente no mercado monetário, capaz de gerar escassez ou abundância de moeda no sistema financeiro. Para analisarmos com mais detalhes os mecanismos através dos quais o BACEN atua, devemos lembrar que ele é um agente privilegiado no tratamento com o sistema bancário. Quando o BACEN estabelece a taxa de juros com a qual opera, essa taxa passa a ser um parâmetro para as demais operações do sistema financeiro. E como o risco imposto pelo BACEN é nulo (afinal, ele jamais será insolvente, dada a possibilidade de emitir moeda para honrar seus compromissos), a taxa à qual o Banco Central toma recursos emprestados é sempre a menor taxa do mercado. Quando dizemos que o Banco Central ―toma recursos‖ de empréstimo no sistema financeiro, isso pode parecer inicialmente contraditório. Afinal, ele não necessitaria pedir emprestado se tem o poder legal de emitir moeda. Via de regra, o BACEN tomar recursos junto às instituições financeiras com dois objetivos: 1) Financiar os déficits do Tesouro Nacional, dado que ele é o agente financeiro do Tesouro e realiza operações em seu nome, repassando os recursos captados; e, 2) Controlar o volume de moeda em circulação, garantindo que a taxa de juros de mercado esteja no nível adequado para o controle da inflação (e, eventualmente, para influenciar outras variáveis de interesse macroeconômico, como os fluxos internacionais de capital). O primeiro objetivo é, na verdade, um tema fiscal e nos remete de volta à seção acima. Economia Aplicada

59 Já o segundo objetivo é propriamente monetário e define de maneira sucinta a racionalidade da política monetária:
O objetivo da política monetária é manter a inflação no limite das metas. Para isso, o Banco Central deve controlar a oferta de moeda e influenciar a taxa de juros de mercado.

Quando o BACEN anuncia que está operando com taxas de juros mais elevadas em suas operações com títulos públicos, ele deseja atrair um volume maior de poupança, depositado na forma de passivos junto às instituições financeiras. Esses recursos são progressivamente desviados dos empréstimos ao setor privado para as operações com títulos públicos, o que acaba por gerar escassez de crédito para os tomadores privados (muitos deles, empresas que têm projetos de investimento). Captando esses recursos, o BACEN não os devolve na forma de novos empréstimos, afinal, o Banco Central não realiza empréstimos para o setor privado, via de regra8. Contabilmente, uma emissão de títulos públicos pode ser resumida através dos balancetes abaixo, apresentados em uma versão bastante simplificada.

ANTES DO AUMENTO DOS JUROS BÁSICOS (sobre os títulos públicos).

BANCO CENTRAL Caixa = $ 200 Títulos públicos em carteira = $ 1000 Passivo total = $ 1200

BANCO COMERCIAL Empréstimos ao setor privado = $ 400 Títulos públicos = $ 200 Reservas = $ 100 Depósitos = $ 700

DEPOIS DO AUMENTO DOS JUROS BÁSICOS (sobre os títulos públicos).

BANCO CENTRAL Caixa = $ 400 Títulos públicos em carteira = $ 800 Passivo total = $ 1200

BANCO COMERCIAL Empréstimos ao setor privado = $ 200 Títulos públicos = $ 400 Reservas = $ 100 Depósitos = $ 700

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A exceção a essa regra são os chamados ―redescontos‖, operações nas quais o BACEN empresta recursos a bancos ameaçados por corridas bancárias. Mas, como dito, essa é a exceção e não a regra.

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60 Em resumo, a elevação das taxas de juros por parte do BACEN induz o sistema financeiro a reduzir o volume de empréstimos ao setor privado, remanejando seu ativo. Isso faz com que o BACEN reduza a oferta de moeda no mercado, uma vez que ele próprio acaba com mais recursos em caixa. E moeda em caixa do Banco Central não é moeda circulante. Para todos os efeitos, quando o Banco Central amplia seu caixa em moeda nacional, tudo se passa como se esses recursos tivessem desaparecido temporariamente. Mas os efeitos da elevação dos juros não param por aí. A elevação das taxas de juros básicas deve levar os agentes financeiros a ajustarem tanto suas taxas ativas (cobradas dos empréstimos) quanto as passivas (oferecidas aos aplicadores). Como o Banco Central passou a operar com taxas mais altas, o setor privado deverá pagar mais ou menos o mesmo prêmio de risco cobrado antes dessa mudança. Assim, a elevação dos juros básicos encarece toda a oferta de crédito. Ao mesmo tempo, diante de maiores oportunidades de lucro, o sistema financeiro procurará atrair mais recursos dos poupadores e, para isso, eleva também suas taxas de captação. Como já havíamos visto acima, de maneira mais intuitiva, a elevação dos juros básicos pelo Banco Central desestimula o gasto dos agentes econômicos, tanto em investimento quanto em consumo. Essa medida tem sempre o efeito de reduzir a Demanda Agregada e é uma forma muito ágil de tentar influenciar a trajetória da inflação. Até aqui estávamos supondo que o Banco Central consegue controlar o volume de moeda no mercado monetário através de operações com títulos públicos. Ocorre, porém, que o mecanismo através do qual o BACEN interfere na oferta de moeda e no custo do crédito para o setor pode ser mais indireto. Para compreender melhor este mecanismo, precisamos definir dois diferentes conceitos de moeda: Meios de Pagamento e Base Monetária.
Meios de pagamento: moeda manual + depósitos à vista ou M = MM + DV. Como o próprio nome diz, Meios de Pagamento é tudo aquilo que é aceito como pagamento, e que pode ser reduzido a dois itens: moeda manual (MM) mais depósitos à vista (DV). A fim de liquidar qualquer dívida, somente podemos fazê-lo com um destes dois itens.

Base Monetária: moeda manual + reservas bancárias ou B = MM + RB É um conceito físico. Corresponde ao papel moeda (ou moeda manual) em poder do público, mais as reservas em moeda (físicas) que os bancos mantêm em caixa ou depositadas no Banco Central (RB).

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61 Note que o conceito de Meios de Pagamento possui um componente contábil: os depósitos à vista. Isto porque as transferências entre contas correntes não exigem uma operação física, bastando que sejam feitos lançamentos contábeis. Mas, o mais importante, é que os meios de pagamento representam sempre um volume maior de ―dinheiro‖ do que a Base Monetária. Isto porque os bancos são capazes de gerar empréstimos, a partir de uma certa disponibilidade física de moeda, que acaba por multiplicar os meios de pagamento. Para compreender como isto ocorre, suponha que, em uma economia, exista apenas um banco e que um cliente qualquer possui R$ 1.000 de renda monetária. Agora suponha que este agente, como todos os agentes nesta economia, possui o hábito de manter 30% de sua renda monetária na forma de cédulas e moedas em sua carteira (a chamada ―moeda manual‖). Todo o restante é depositado no banco por algum tempo. Assim, em um primeiro momento, existe neste banco um depósito de R$ 700 (R$ 1.000 de renda monetária menos os 30% retidos pelo agente). O banco, por sua vez, devido às suas necessidades de relacionamento com o público e também por conta da regulamentação baixada pelo Banco Central, mantém reservas de 10% do valor dos depósitos, realizando empréstimos com os outros 90%. Mas, por que motivos o banco pode emprestar um valor que está depositado em conta corrente? Simplesmente por saber, pela experiência, que seus clientes em geral deixam dinheiro ocioso em conta durante alguns dias, o que lhe permite fazer o empréstimo. Por precaução, o banco mantém reservas. Em geral, quando um cliente faz um saque, ou o dinheiro vem destas reservas ou de empréstimos que foram resgatados naquela data. Contabilmente, essas operações estão registradas no balanço simplificado abaixo (Balanço 1). Agora, suponha que, ao realizar o primeiro empréstimo no valor de $ 630, o banco abra, imediatamente, uma conta de depósito para o tomador. Suponha ainda que este, assim como o primeiro depositante, tenha o hábito de manter no bolso 30% de suas disponibilidades, mantendo em depósito os outros 70%. Com isso, esse tomador irá sacar imediatamente $ 189 (30% do empréstimo de $ 630) e terá registrado em seu nome um depósito (Depósito 2) de $ 441.

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BANCO COMERCIAL (Balanço 1) Empréstimo 1 = $ 630 Reserva 1 = $ 70 Ativo = $ 700 Passivo = $700

BANCO COMERCIAL (Balanço 2) Empréstimo 1 = $ 630 Empréstimo 2 = $ 396,90 Reservas 1 = $ 70 Reserva 2 = $ 44,10 Ativo = $ 1.141 Depósito 1 = $ 700 Depósito 2 = $ 441

Depósito 1 = $ 700

Passivo = $ 1.141

Ao registrar o segundo depósito de $ 441, o banco fará o mesmo que já havia feito antes: irá compor reservas de 10% sobre esse valor (Reserva 2 = $ 44,10) e poderá emprestar os restantes $ 396,90 (Empréstimo 2). Observe desde já que o banco que realiza um empréstimo decide simplesmente sobre uma alocação de ativos. No entanto, ao depositar o valor emprestado em uma conta corrente do cliente que está tomando esses recursos, o banco está criando um novo passivo para si mesmo. Ainda assim, o valor físico circulando em nossa economia hipotética equivale apenas aos $ 1.000 do agente que realizou o primeiro depósito! A primeira linha do quadro abaixo resume este comportamento do público e do setor bancário diante do primeiro depósito, da primeira reserva e do primeiro empréstimo. Como vimos, ao fazer aquele primeiro empréstimo no valor de $ 630, o banco abre uma conta corrente para o tomador do dinheiro. Este, por sua vez, possui o mesmo comportamento que o agente anterior, isto é, mantém como moeda manual 30% deste valor e o restante em conta corrente, que passará a movimentar. Diante deste novo ―depósito‖, o banco volta a manter 10% na forma de reservas e a emprestar os outros 90%. Este processo se estende no tempo. Ao final de algumas etapas, temos um total de depósitos de quase $1.900, muito embora fisicamente só existam, neste nosso exemplo, $1.000. As pessoas detêm cerca de $808 na forma de moeda manual e o banco tem em seus caixas (ou depositados compulsoriamente no Banco Central) cerca de $ 189, havendo ainda $ 3,91 que não foram emprestados.

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63 Tabela 1- Base Monetária com Reservas bancárias de 10%
Valor inicial (VI) 1.000,00 630,00 396,90 250,05 157,53 99,24 62,52 39,39 24,82 15,63 9,85 6,21 Somatório Moeda manual (MM = 30% de VI) 300,00 189,00 119,07 75,01 47,26 29,77 18,76 11,82 7,44 4,69 2,95 1,86 807,64 Depósitos à vista (DV = 70% de VI) 700,00 441,00 277,83 175,03 110,27 69,47 43,77 27,57 17,37 10,94 6,89 4,34 1.884,50 Reserva bancária (RB = 10% de DV) 70,00 44,10 27,78 17,50 11,03 6,95 4,38 2,76 1,74 1,09 0,69 0,43 188,45 Empréstimos (90% de DV) 630,00 396,90 250,05 157,53 99,24 62,52 39,39 24,82 15,63 9,85 6,21 3,91 1.696,05

Neste nosso exemplo, supondo que todo o dinheiro que existe na economia seja o que consta no quadro acima, a Base Monetária seria a soma da moeda manual ($ 807,64) mais as reservas bancárias ($ 188,45) mais os $ 3,91 que permanecem por emprestar. Como não poderia deixar de ser, o total corresponde ao valor original de $ 1.000. No entanto, os agentes envolvidos neste nosso exemplo estão realizando transações contando tanto com os valores que mantêm na forma de moeda manual ($ 807,64) quanto com seus depósitos em conta corrente ($ 1.884,50), cuja soma corresponde aos meios de pagamento. Se dividirmos os meios de pagamento pela Base Monetária, notaremos que, em nosso exemplo, esta relação é de pouco mais de 2,7, ou seja, os meios de pagamento correspondem a 270% da Base Monetária. O valor de 2,7 é o chamado multiplicador dos meios de pagamento, uma vez que, chamando a base de B e os meios de pagamento de M, podemos deduzir o multiplicador (m) da seguinte forma9: m=M/B (6) M=m.B →

Observe que a Base Monetária é igual à moeda manual (que chamaremos de MM) mais as reservas bancárias (que chamaremos de RB). Por sua vez, os meios de pagamento são iguais aos depósitos à vista (que chamaremos DV) mais a moeda

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Não confundir M como meios de pagamento com M como importações.

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64 manual. Sendo assim, a partir da expressão (6), o multiplicador (m) pode ser reescrito da seguinte forma: →

m=MM+DV/MM+RB

Dividindo-se todos os membros por DV, teremos:

m = {[(MM / DV) + (DV / DV)] / [(MM / DV) + (RB / DV)]}

Chamando MM / DV de md e RB / DV de rd, teremos:

(7)

m = (md + 1) / (md + rd)

Note que md é a relação entre moeda manual e depósitos à vista (MM / DV), a qual é decidida pelo público que aloca seus recursos financeiros entre estas duas finalidades. Por seu turno, rd é a relação entre reservas e depósitos à vista (RV / DV), a qual é decidida tanto pelos bancos diretamente quanto pela regulamentação do Banco Central. Quanto maior a parcela de recursos que o público decidir depositar nos bancos, maior será a capacidade destes de realizar empréstimos e, portanto, maior a multiplicação de meios de pagamento (maior será, portanto, m). Por outro lado, quanto maiores as reservas bancárias, menores as condições de os bancos realizarem empréstimos, dados os depósitos e, portanto, menor será m. Mas, quanto mais depósitos o público fizer nos bancos, menor será md (a razão moeda manual / depósitos). Por outro lado, quanto maiores as reservas bancárias, maior será rd (a razão reservas / depósitos). Para ilustrar as alterações no multiplicador, decorrentes de mudanças no comportamento do setor bancário, observe o quadro baixo. Ele é idêntico ao quadro anterior, com a única diferença de que as reservas bancárias são agora equivalentes a 15% dos depósitos. Esta elevação de 5% poderia ser fruto de uma medida do Banco Central tentando reduzir a oferta de meios de pagamento. Observe o que ocorre. Com uma capacidade menor de realizar empréstimos a partir de um dado volume de depósitos (a chamada capacidade de alavancagem), os bancos não conseguem multiplicar os meios de pagamento com a mesma intensidade de antes. A cada etapa, o volume de empréstimos somente pode chegar a 85% do volume de Economia Aplicada

65 depósitos, e não a 90%, como antes. Neste caso, o multiplicador monetário que era pouco superior a 2,7 passa a mais ou menos 2,5, e os meios de pagamento se reduzem de cerca de $ 2.700 para menos de $ 2.500. Algo semelhante ocorreria caso o público retivesse na forma de moeda manual mais de 30% de suas disponibilidades. Tabela 2- Base Monetária com Reservas bancárias de 15%
Valor inicial (VI) 1.000,00 595,00 354,03 210,64 125,33 74,57 44,37 26,40 15,71 9,35 5,56 3,31 Somatório Moeda manual (MM = 30% de VI) 300,00 178,50 106,21 63,19 37,60 22,37 13,31 7,92 4,71 2,80 1,67 0,99 739,28 Depósitos à vista (DV = 70% de VI) 700,00 416,50 247,82 147,45 87,73 52,20 31,06 18,48 11,00 6,54 3,89 2,32 1.724,99 Reserva bancária (RB = 15% de DV) 105,00 62,48 37,17 22,12 13,16 7,83 4,66 2,77 1,65 0,98 0,58 0,35 258,75 Empréstimos (90% de DV) 595,00 354,03 210,64 125,33 74,57 44,37 26,40 15,71 9,35 5,56 3,31 1,97 1.466,24

Em resumo: dois instrumentos de política monetária Expressão-chave: M=m.B

Alterações nos compulsórios alteram o multiplicador. Operações com títulos públicos afetam a Base Monetária. Esses são os dois instrumentos para controlar a oferta de Meios de Pagamento e afetar as taxas de juros cobradas no mercado financeiro.

De que depende o Multiplicador Monetário? O multiplicador monetário depende exclusivamente de dois parâmetros: O percentual de compulsório (quanto maior, menor a multiplicação). As preferências do público entre o uso de papel moeda e depósitos à vista (quanto maior o uso dos depósitos, maior a multiplicação).

Em períodos em que o governo opta por realizar uma política monetária rígida, procurando conter a oferta de moeda, o Banco Central obriga os bancos privados a aumentarem suas reservas compulsoriamente. Nos primeiros meses depois da implementação do Plano Real, por exemplo, a relação entre reservas e depósitos à vista Economia Aplicada

66 era da ordem de 0,7, mais que o dobro daquela observada em final de 1997. Mais recentemente, no início de 2003, os compulsórios foram elevados para 60% dos depósitos à vista, um dos valores mais elevados desde o início do Plano Real. Em 2004, os compulsórios foram reduzidos para 45% dos depósitos à vista. Em resumo, sempre que deseja alterar a oferta monetária e elevar as taxas de juros de mercado, o Banco Central pode alterar o percentual de reservas que os bancos são obrigados a manter. Maiores reservas significam menor oferta de crédito e, como vimos, redução no volume de Meios de Pagamento, mesmo que a Base Monetária (dinheiro físico emitido e circulando) permaneça constante. Outra forma de alterar a oferta de moeda é tentar interferir diretamente na Base Monetária. Uma das formas de fazer isso é vendendo títulos públicos, como visto acima. Ao adquirir esses títulos, o público entrega ao Banco Central dinheiro que não voltará a circular (isto é, caso o Banco Central não faça empréstimos com esses recursos). Mesmo que o multiplicador permaneça constante, reduzindo-se a Base Monetária, haverá uma contração da oferta de meios de pagamento. Caso o BC não deseje que a taxa de juros se eleve, terá que tomar medidas compensatórias como, por exemplo, reduzir as reservas compulsórias dos bancos.

3.4 O Macromercado de Câmbio
3.4.1 Regimes Cambiais
Pontos-chave: O papel do Banco Central nos diferentes regimes cambiais; O regime cambial brasileiro; Vantagens e desvantagens dos diferentes regimes cambiais; O papel das reservas internacionais. As relações econômicas de um país com o resto do mundo dependem crucialmente da forma como funciona o mercado de moeda estrangeira. A taxa de câmbio nominal é uma variável que converte preços em moeda estrangeira em preços em moeda nacional. Mas a taxa de câmbio também pode ser entendida (de forma ainda mais simples) como o preço em moeda nacional de uma unidade de moeda estrangeira. Em nossos exemplos acima, o preço de 1 dólar poderia ser R$ 2,00 ou R$ 2,20. Por se tratar de um preço, a taxa de câmbio nominal entre duas moedas é determinada pelos mecanismos de oferta e demanda - já estudados em capítulos anteriores - aplicados ao mercado cambial ou mercado de divisas.

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67 No mercado cambial, pessoas que possuem moeda estrangeira e desejam trocar por moeda nacional são os ofertantes desse mercado. Contrariamente, pessoas que desejam adquirir moeda estrangeira, comprando-a com moeda nacional, são os demandantes. Isto significa que a ―mercadoria‖ transacionada neste mercado são as divisas, isto é, qualquer moeda estrangeira utilizável em transações econômicas internacionais as quais envolvem, em geral, residentes no país e residentes no exterior. Para se entender bem o funcionamento desse mercado, é importante deixar claro quem são os potenciais compradores e vendedores de divisas. No grupo dos ofertantes de moeda estrangeira estão: 1) Exportadores, que vendem suas mercadorias ao exterior e são remunerados em moeda estrangeira (em geral o dólar americano); 2) Turistas estrangeiros, que trazem moeda estrangeira e a trocam no país (ou, por vezes, a gastam diretamente); 3) Investidores internacionais, que trazem divisas para aplicar no país, seja no mercado financeiro, seja em atividades produtivas; 4) Agentes econômicos (em geral, bancos, mas também empresas e o próprio governo) que captam recursos no exterior (emissão de títulos, obtenção de empréstimos e financiamentos etc), os quais entram no país como valores em moeda estrangeira.

No grupo dos demandantes de moeda estrangeira estão: 1) Importadores, que precisam comprar moeda estrangeira para remeter a seus fornecedores no exterior; 2) Turistas brasileiros que se dirigem ao exterior e precisam comprar moeda estrangeira antes da viagem; 3) Agentes econômicos que investem no ou enviam renda para o exterior; 4) Agentes econômicos (pessoas, empresas e o governo) que possuem compromissos a pagar no exterior (amortizações e juros referentes a empréstimos, por exemplo) e que precisam enviar valores em moeda estrangeira para efetivar o pagamento.

Como na Microeconomia, a oferta e a demanda de moeda estrangeira estão diretamente relacionadas com seu preço, isto é, com a taxa de câmbio. Para ver de que forma isso acontece, deve-se focar inicialmente as relações comerciais e de turismo.

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68 Coloque-se no lugar do exportador, por exemplo. Se ele vende para clientes no exterior um produto que é cotado internacionalmente a US$ 100, quando a taxa de câmbio é R$ 2,50 por dólar, sua receita em moeda nacional seria de R$ 250 a unidade. Se a taxa de câmbio subisse para R$ 2,90, sua receita se elevaria para R$ 290 a unidade. Se tudo mais permanece constante (os custos de produção sendo os mesmos, por exemplo), isso seria um estímulo para que ele ofertasse mais desse produto no exterior e também incentivaria todos os demais exportadores a fazerem o mesmo. O aumento das exportações geraria uma maior oferta de dólares no mercado brasileiro. Da mesma forma, o turista estrangeiro que tivesse que pagar por uma diária de hotel no Brasil o valor de R$ 200 teria que desembolsar US$ 80 se a taxa de câmbio fosse R$ 2,50 por dólar. Mas essa diária representaria menos de US$ 69 caso a taxa de câmbio passasse para R$ 2,90 por dólar. Isso atrairia mais turistas estrangeiros para o Brasil, elevando a oferta de dólares. No caso dos importadores e dos turistas brasileiros que vão ao exterior, o comportamento seria simetricamente oposto. Quanto mais alta a taxa de câmbio, mais caros os produtos estrangeiros e maiores os gastos (em reais) dos turistas que saíssem do país. Isso desestimularia ambos os tipos de transação e reduziria a demanda por dólares. Já os fluxos financeiros (movimentos de capitais e rendas externos) são diretamente influenciados por fatores como taxas de juros e pelas oportunidades lucrativas de investimento nos vários países. O nível de risco oferecido pelas aplicações financeiras em cada país é outro elemento decisivo. Se um país oferece juros atraentes e o risco é baixo, em geral acabará atraindo investimentos de pessoas que residem no exterior. Isso eleva a oferta de divisas. Do mesmo modo, se os juros são mais altos dentro do país do que no exterior, as empresas que atuam nesse país preferirão tomar empréstimos fora, pagando menos juros. O ponto a reter aqui é a idéia de que a taxa de câmbio é um preço, determinado no mercado de divisas pelas condições de oferta e demanda por moeda estrangeira. Mas, uma característica importante do mercado de câmbio é a existência de um agente com uma capacidade muito grande de comprar e vender divisas: o Banco Central. É ele quem administra as reservas internacionais do país e, por isso, pode atuar no mercado comprando ou vendendo grandes valores em moeda estrangeira, alterando as condições de oferta e demanda e, portanto, interferindo no nível da taxa de câmbio. O

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69 padrão típico de atuação do Banco Central no mercado de câmbio determina o regime cambial. De forma mais resumida, podemos dizer que:

Regime cambial é regra de funcionamento do mercado cambial, estabelecendo o papel do Banco Central nesse mercado.

Numa primeira aproximação, pode-se dizer que existem dois regimes cambiais polares: a) Câmbio fixo: nesse regime, a taxa de câmbio é mantida constante. Se as condições de oferta e demanda mudarem e a taxa de câmbio (como qualquer preço) tende a se alterar, o Banco Central intervém de forma a manter a paridade fixada. Podese observar que o Banco Central tem uma regra clara: não permitir a flutuação da taxa de câmbio e, para isso, ele compra e vende dólares diretamente no mercado cambial. Nesse regime a necessidade de intervenção do Banco Central no mercado de câmbio é máxima, exatamente para evitar a flutuação. b) Câmbio flutuante (livre flutuação): nesse regime, a taxa de câmbio pode variar (flutuar) continuamente, inclusive no intervalo de um único dia. A necessidade de intervenção do Banco Central é nula e o Banco Central permanece totalmente ausente do mercado de câmbio e a taxa passa a ser comandada exclusivamente pelas forças de mercado.

Entre esses dois extremos existem regimes mistos, mais próximos do câmbio fixo ou da livre flutuação. No primeiro caso, uma forma mais mitigada de câmbio fixo corresponde ao regime de bandas cambiais. Nesse regime, o Banco Central também está bastante presente no mercado de câmbio, mas apenas para evitar flutuações excessivas que ultrapassem limites claramente definidos e publicamente divulgados. Ele venderá dólares no mercado cambial caso a taxa atinja um teto e comprará dólares caso a taxa atinja um piso. No Brasil, entre março de 1995 e janeiro de 1999, adotou-se um regime de bandas cambais móveis, isto é, os limites de flutuação eram revistos periodicamente a fim de administrar a progressiva elevação da taxa de câmbio.

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70 Figura 16 – Regimes Cambiais Câmbio Fixo Bandas cambiais

Câmbio Administrado ―Flutuação Suja‖ (intervenções esporádicas) Câmbio Flutuante

A partir de janeiro de 1999, o Banco Central do Brasil adotou o regime de ―flutuação suja‖. Nesse regime, as intervenções no mercado de câmbio são esporádicas e sem uma regra claramente anunciada. O Banco Central procura evitar que a taxa de câmbio flutue excessivamente, mas não anuncia claramente quais os limites mínimo e máximo que ele se dispõe a tolerar a cada momento do tempo. É importante notar que, em um regime de câmbio fixo, o Banco Central deve estar continuamente presente no mercado de câmbio a fim de evitar flutuações no preço da moeda estrangeira (taxa de câmbio nominal). Não basta anunciar ou colocar em lei que a taxa de câmbio é fixa, pois caso o Banco Central se ausente do mercado, movimentos de oferta e demanda poderão fazer surgir ágios ou deságios em relação à cotação fixada. Já no regime de câmbio flutuante puro, o Banco Central pode permanecer totalmente ausente do mercado, permitindo que o preço da moeda estrangeira (taxa de câmbio nominal) flutue livremente, sendo determinado exclusivamente pelas forças tradicionais de oferta e demanda.

3.4.2 As Contas do Balanço de Pagamentos
Pontos-chave: Balanço de Pagamentos como instrumento de monitoramento do mercado cambial; Comportamento das transações correntes e dos fluxos de capitais no Brasil nos últimos anos; Relevância das diferentes contas no caso brasileiro; Expectativas sobre a taxa de câmbio com base na análise do Balanço de Pagamentos. As relações econômicas de um país com o resto do mundo são complexas, pois envolvem um conjunto muito grande de transações. O estudo dessas relações exige um

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71 tratamento sistemático e deve ser feito através de uma das mais importantes ferramentas contábeis utilizadas em economia: o Balanço de Pagamentos.

Balanço de Pagamentos é o registro contábil sistemático de todas as transações econômicas de um país com o exterior, sejam elas comerciais, financeiras ou de qualquer outra natureza.

Isto significa que todas as transações envolvendo agentes econômicos que atuam no país (chamados residentes) e agentes que atuam fora do país (chamados nãoresidentes) são registradas de forma organizada no Balanço de Pagamentos. Em linhas gerais, o Balanço de Pagamentos se divide em dois grandes blocos: a conta de transações correntes e a conta de capitais, como mostrado no quadro abaixo. Os próprios nomes desses dois blocos já fornecem uma boa idéia da lógica dessa separação. Em conta corrente são registrados os pagamentos e recebimentos relativos a todas as transações realizadas com bens e serviços (inclusive fatores) entre um país e o exterior. Quando um país exporta, envia mercadorias para o exterior e recebe um pagamento que é registrado positivamente em sua conta corrente. Quando uma empresa estrangeira situado no país remete lucro para o exterior, isso é registrado como sendo um pagamento de serviços empresariais sendo contabilizado negativamente na conta corrente. A conta de capitais registra fluxos de natureza financeira, tais como empréstimos (e as amortizações correspondentes) envolvendo transações entre residentes no país e não residentes. Quando uma empresa estrangeira decide instalar uma filial no país, esse investimento é registrado positivamente na conta de capitais. Quando um banco estrangeiro não renova créditos aos exportadores do país, isso é registrado negativamente na conta de capitais. Os fluxos financeiros em conta corrente (como remessas de lucros) tendem a ser mais estáveis os da conta de capitais. Entendida a lógica básica da organização do balanço de pagamentos, vamos detalhar um pouco mais os itens que devem ser registrados em cada bloco. Na balança comercial registra-se, período a período, os valores em moeda estrangeira relativos às exportações e importações de bens ocorridas em um determinado país. Note que somente o valor dos bens importados e exportados deve ser contabilizado na balança comercial. Nenhum tipo de serviço (tais como fretes marítimos) deve ser colocado lado

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72 a lado com as transações de bens. Esse é o chamado conceito FOB de balança comercial (iniciais da expressão ―free on board‖). Em seguida, tem-se a balança de serviços. Nela estão incluídos itens como fretes e seguros internacionais (que são chamados de serviços não-fatores de produção, pois não são utilizados diretamente nas atividades produtivas). Este tipo de serviço em geral é prestado por grandes companhias internacionais, como as seguradoras inglesas de fretes. A seguir tem-se a conta de rendas. Nela são registrados itens como juros e lucros enviados para fora do país no pagamento de empréstimos e como remuneração pelo capital estrangeiro aplicado no país. Se houver empresas nacionais atuando no exterior que estejam enviando lucros para matrizes no país, esse recebimento também será registrado na conta de rendas como um recebimento. Nessa conta também são incluídos (como saídas) pagamentos relativos a direitos sobre propriedade intelectual, salários de executivos que estejam no país por um período curto de tempo etc. Estes itens constituem a remuneração pela utilização de capitais financeiros, capitais produtivos, patentes e capital humano, respectivamente, todos diretamente associados às atividades produtivas.

Quadro 3- Estrutura Sintética do Balanço de Pagamentos

Balança Comercial (FOB) Conta corrente (ou “Conta de Transações Correntes)

Exportações de bens (Importações de bens) 1a Resultado (saldo) Comercial Exportações de serviços (Importações de serviços 1b Resultado (saldo) de Serviços Receitas (Despesas) 1c Resultado (saldo) de Rendas Saldo = Renda Líquida Recebida do Exterior ou (-) Renda Líquida Enviada ao Exterior

Balança de serviços

Rendas

Transferências Unilaterais

Transferências recebidas do exterior (Transferências enviadas para o exterior 1d Resultado (saldo) de Transferências Unilaterais 1 Resultado (saldo) em Conta Corrente (1=1a+1b+1c+1d)

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Conta Capital (Obs: Entradas líquidas)

2a Investimentos Estrangeiros Direto 2b Empréstimos 2c Financimentos 2d Capitais de Portfólio 2 Resultado (saldo) da Conta Capital (2=2a+2b+2c+2d) 3Erros, informalidade existentes no processo 4=1+2+3

Erros e omissões Resultado (saldo) do Balanço de Pagamentos

As transferências unilaterais são o último item da conta corrente. Nesse item estão incluídos os recursos a fundo perdidos doados por entidades estrangeiras, em geral na forma de ajuda humanitária, como também os recursos que os emigrantes costumam remeter para suas famílias no país (ambos são registrados como entradas de recursos). A soma destes três itens nos fornece o resultado (ou saldo) em conta corrente. Um país que apresenta déficit em conta corrente está recebendo poupança externa, como visto anteriormente. Esse ponto merece atenção especial. Se um país deseja investir para poder crescer, precisa poupar e, para isso, deve reduzir seu nível de consumo agregado. Menos bens de consumo serão produzidos para que a produção de bens de capital seja aumentada. Mas, se um país deseja manter seus níveis de consumo e ainda assim quer aumentar o investimento, poderia fazê-lo com um nível maior de importações seja de bens de consumo ou de bens de capital, não importa. O déficit comercial permitiria manter os mesmos níveis de consumo e poupança e, ainda assim, aumentar o investimento e o crescimento. Como a poupança total é sempre igual ao investimento total, tudo se passa como se no exterior os estrangeiros estivessem consumindo menos e transferindo essa ―sobra‖ de bens e serviços para nosso país. Essa é a poupança externa: um excedente de produção no exterior que é utilizado em nosso país, o qual, para se beneficiar disso, apresenta déficit em transações correntes. Em resumo, um país que pode manter-se em déficit em transações correntes consegue crescer, investindo mais, sem sacrificar excessivamente seu próprio consumo interno. A conta capital, como o próprio nome diz, nos fornece o registro das transações de caráter financeiro ocorridas em um determinado país, período a período. Por esta conta devem ser registrados como entradas os valores de empréstimos obtidos pelos residentes no país (governos, empresas e bancos) no exterior. Quando as amortizações Economia Aplicada

74 são pagas, registra-se como saída (mas os juros são registrados em transações correntes). Também são registrados os financiamentos obtidos ou ofertados nas transações comerciais, os quais representam créditos ou dívidas, respectivamente, dos agentes econômicos do país com algum outro agente no exterior. Pela conta capital ingressa ainda o investimento estrangeiro direto, que são recursos que se destinam à aplicação nas atividades produtivas, e os chamados capitais de carteira ou de portfólio, que se destinam à aplicação no mercado financeiro (bolsas de valores, CDBs, etc.). Repatriações de capital são sempre registradas como saídas. Assim como a conta corrente, a conta de capital pode apresentar déficit ou superávit. Um país que esteja amortizando grandes volumes de dólares devido ao vencimento de empréstimos contraídos no passado e não esteja atraindo outras modalidades de fluxos de capital apresentará um saldo negativo na conta de capitais (isto é, um déficit). Quando consolidamos as contas correntes e de capital, temos o resultado do balanço de pagamentos. Se o balanço de pagamentos for deficitário, o país tende a perder reservas internacionais que estavam à disposição de seu banco central. Isto porque, caso um país tenha, por exemplo, déficit em conta corrente e superávit na conta de capital, sendo ambos exatamente iguais, isto significa que as divisas que saíram por uma das contas ingressaram pela outra. Mas, caso o déficit em conta corrente seja maior que a entrada de divisas através da conta de capital, então o país terá que desembolsar parte das reservas que tiver para honrar os compromissos de seus residentes.

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75 Tabela 3 - O Balanço de Pagamento brasileiro (2004 -2008)

O balanço de pagamentos
US$ milhões
2004 Balança Comercial (FOB) Balança de Serviços Balança de Rendas Transferências Unilaterais Saldo em Transações Correntes 2005 2006 2007 2008 2009

33.641
-4.678

44.703
-8.309

46.457 40.032

24.836

25.290

-9.640 -13.219 -16.690 -19.245

-20.520
3.236 11.679

-25.967
3.558 13.985

-27.480 -29.291 -40.562 -33.684
4.306 13.643 4.029 4.224 3.338

1.551 -28.192 -24.302

Investimento Direto
Investimentos em Carteira

8.339
-4.750

12.550
4.885

-9.380 27.518
9.081 48.390

24.601
1.133

36.033
50.283

Derivativos
Outros investimentos Saldo da Conta Capital Erros e Omissões Resultado do B. Pagamentos
Fonte: Banco Central do Brasil - 2010

-677
-10.806 -7.523 -1.912 2.244

-40
-27.521 -9.464 -201 4.319

41

-710

-312
29.352 1.809 2.969

156
71.301 -347 46.651

15.688 13.131 16.299 89.086 628 -3.152

2.875 -16.300

30.569 87.484

Prof. M.Sc. Claudio A. Garbi

Países que não disponham de reservas para ―fechar‖ o Balanço de Pagamentos ou que não desejam lançar mão de suas reservas podem recorrer a organismos internacionais como o FMI. Os aportes desses organismos são, por convenção, registrados fora da conta de capitais em contas que aparecem lado a lado com a conta de reservas. Caso esses aportes fossem registrados na conta de capitais, poderíamos ter a impressão (errada) de que o Balanço de Pagamentos está em equilíbrio. Se o país não obtém apoio dos organismos internacionais para ―fechar‖ o Balanço de Pagamentos e as reservas internacionais atinjam um nível reduzido, pode entrar em moratória. Neste caso, os pagamentos a não-residentes que forem postergados devem ser registrados na conta de ―atrasados‖, indicando uma espécie de endividamento forçado que o país realiza às custas de credores externos os quais deixam de receber seus pagamentos involuntariamente. Agora que já se tem uma idéia da organização das contas externas de um país através da estrutura do Balanço de Pagamentos, é necessário dedicar mais atenção aos determinantes de algumas das principais relações econômicas internacionais. Nas seções seguintes desse capítulo, analisam-se em detalhes as relações comerciais e financeiras.

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4. Pequeno Glossário de Termos Econômicos
Arbitragem: Quando os agentes econômicos detectam diferenciais de preços de um determinado ativo entre dois mercados e identificam a possibilidade de simplesmente comprar barato e vender caro diz-se que este agente detectou uma possibilidade de arbitragem. Um exemplo hipotético típico seria a compra de ações de uma mesma empresa no mercado do Rio de Janeiro por um preço inferior para a venda em S.Paulo a um preço superior. Como os agentes estão sempre atentos às possibilidades de ganhos de arbitragem, os preços tendem a se igualar entre os mercados. Auge: Fase do ciclo de negócios que marca a passagem da etapa de expansão para a de contração. Balança Comercial: Relação entre os valores de todas as exportações e importações de bens de um país em uma determinada unidade de tempo. O resultado da balança comercial também é chamado de saldo comercial. Resultados negativos (maiores importações que exportações) são chamados de déficits comerciais; resultados positivos (maiores exportações que importações) são chamados de superávits comerciais. Ao longo da década de 80, o Brasil obteve saldos comerciais positivos muito elevados, os quais atingiram US$ 19 bilhões em 1988. Tais superávits são muitas vezes chamados de ―os megasuperávits comerciais dos anos 80‖. Balanço de Pagamentos: Esquema contábil que apresenta as relações comerciais e financeiras mantidas por um determinado país com o resto do mundo. As duas principais contas do balanço de pagamentos são a conta de transações correntes (exportações e importações de bens e serviços e transferências unilaterais) e a conta de capital. Esta última apresenta os fluxos de capitais entre o país e o exterior, tais como entrada e saída de investimentos diretos, empréstimos, financiamentos, etc. Base Monetária: Soma de toda a moeda física em circulação em um país. Corresponde ao total das reservas bancárias mais a moeda retida pelo público (não-bancário), também chamada de ―moeda manual‖. Bem de Capital: Bem utilizado em processo produtivos mas que não é incorporado ao produto destes mesmos processos. Exemplo: máquinas, instalações fabris, tesoura de cortar cabelo, etc. Bem de Consumo: Bem destinado a satisfazer diretamente uma necessidade ou um desejo dos consumidores. Os bens de consumo imediato (ou não-duráveis) têm pouca duração (física), como os alimentos. Uma seção de cinema pode ser considerada como um serviço de consumo imediato. Os bens de consumo duráveis são úteis por um tempo mais prolongado, como é o caso dos eletrodomésticos e automóveis. Bem Final: Todo bem que não é incorporado ao processo produtivo na forma de matérias primas (algodão na tecelagem, minério na metalurgia) ou insumos (energia elétrica), destinando-se ou ao consumo (bens de consumo) ou ao investimento (bens de capital). Bem Inferior: Quando a renda dos consumidores se eleva e a demanda por um determinado bem se eleva menos que proporcionalmente ou diminui, diz-se que este é um bem inferior.

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Bem Intermediário: Bem que se destina à incorporação em processos produtivos de outros bens (matérias-primas e insumos). Uma categoria importante de bens intermediários são os chamados semielaborados: ferro gusa, utilizado como matéria-prima da metalurgia, vidro, utilizado na construção civil e na automobilística, farelo de soja, utilizado na engorda de gado, café torrado, utilizado na moagem, etc. Bem normal: Quando a renda dos consumidores se eleva e a demanda por um determinado bem se eleva na mesma proporção, diz que este é um bem normal. Bem público: É um tipo de bem cujo consumo pode se dar por mais de uma pessoa ao mesmo tempo e que, uma vez produzido, não pode ser negado a quem o queira consumir. Exemplos: logradouros públicos, espetáculos realizados em locais públicos, etc. Bem superior: Quando a renda dos consumidores se eleva e a demanda por um determinado bem se eleva mais que proporcionalmente, diz que este é um bem superior. Bens complementares: Quando a satisfação ou a utilidade do uso ou consumo de um bem pode ser ampliada pelo uso ou consumo de outro bem, diz-se que são bens complementares. Exemplo: vinagre e azeite, tintas e solventes, cimento e cal, capital e trabalho, etc. Bens substitutos: Quando dois bens são rivais no consumo, isto é, possuem características ou finalidades semelhantes, diz-se que são bens substitutos. Exemplo: carne bovina e frango; manteiga e margarina, refrigerante e suco de frutas. A substituição é sempre relativa; consumidores que não aceitam, por exemplo, trocar manteiga por margarina não assumem que estes bens sejam substitutos. Câmbio (taxa de câmbio): Preço de uma unidade de moeda estrangeira em moeda nacional. Quando se diz que a taxa de câmbio entre o real e o dólar norte-americano é de 1,20, estamos dizendo que o preço de 1 dólar é de R$ 1,20. Este é o conceito de taxa de câmbio bilateral nominal, pois considera a relação entre duas moedas e não inclui a inflação em nenhum dos dois países. O conceito que considera ambas as taxas de inflação é o de taxa de câmbio bilateral real. Se calcularmos uma média ponderada das taxas de câmbio reais de um país, atribuindo a cada taxa de câmbio bilateral real um peso proporcional à importância de cada parceiro comercial nas exportações desse país, estaremos calculando o conceito de taxa de câmbio efetiva real. Choques: Impactos bruscos sofridos por algum mercado. São exemplos uma elevação abrupta de preços de determinado bem (choque de preços), causado por uma decisão dos produtores que atuam em forma de cartel ou por problemas com os processos produtivos (como quebras de safras, por exemplo), bem como uma queda abrupta nas transações financeiras (choque financeiro), motivada por quebras de instituições financeiras ou alterações de política econômica. Quando originados no exterior, estes choques são chamados de ―choques externos‖. Ciclo de negócios: Também chamado de ciclo econômico, ciclo conjuntural e ciclo de curto prazo. É a alternância de períodos de expansão, contração, recessão e recuperação da atividade econômica. Consumo: Gasto realizado em bens e serviços que se destinam à satisfação de desejos ou necessidades de caráter relativamente imediato, e que não são utilizados na produção de outros bens e serviços. O consumo privado é aquele realizado pelas famílias. O consumo público é realizado pelas várias esferas de governo e envolve o pagamento de salários e demais despesas de custeio (energia elétrica, aluguéis, pagamento de empresas prestadoras de serviços, compra de material de escritório, etc.). Contração: Período que sucede à expansão no ciclo de negócios e no qual o PIB, muito embora esteja acima de sua tendência, tende a aproximar-se dela. Crescimento Econômico: Ampliação da capacidade de geração de bens e serviços. O indicador mais usual de crescimento econômico é o comportamento do PIB ao longo do tempo. Custo de Oportunidade: As decisões econômicas envolvem sempre a escolha de uma entre diversas alternativas. Quando um agente compra um determinado bem ou serviço, ele estará sempre deixando de comprar uma infinidade de outros bens e serviços que poderiam ter sido escolhidos como alternativa. Em geral, o custo de oportunidade é mensurado pelo valor ou pela satisfação da qual abrimos mão ao decidir tomar uma certa atitude econômica. Por exemplo, quando poupamos, devemos mensurar o custo de oportunidade deste ato pelos bens ou serviços que deixaremos de consumir. Ainda assim, ao decidirmos

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por determinada aplicação que nos proporciona certo rendimento, o custo de oportunidade também pode ser avaliado pelo rendimento que deixaremos de ganhar na melhor dentre as aplicações não realizadas. Deflação Processo de queda continuada do nível de preços, isto é, processo oposto ao de inflação. Depreciação: Processo de desgaste do capital pelo uso. Também ocorre depreciação quando o capital se torna tecnologicamente obsoleto. A reposição do capital desgastado ou ultrapassado é o chamado investimento de reposição. Desemprego: Considera-se desempregado o trabalhador que deseja trabalhar às taxas de salário vigentes e não encontra emprego. Desemprego Voluntário: Considera-se voluntariamente desempregado aquele que, em geral, não aceita ofertas de emprego devido às condições oferecidas, por exemplo, salários excessivamente baixos. Desenvolvimento Econômico: Conceito mais abrangente que o de crescimento econômico. Ocorre desenvolvimento quando se observa uma melhora na qualidade de vida média da população, com uma redução dos níveis de disparidade entre os mais pobres e os mais ricos. O desenvolvimento econômico em geral ocorre conjuntamente com um processo de crescimento, mas o crescimento por si só não garante o desenvolvimento. Depressão: Processo de queda continuada do nível de preços e do PIB. Desindexação: Ver indexação. Desinflação: Processo de redução paulatina dos índices de inflação, tal como ocorreu no Brasil, por exemplo, entre 1994 e 1998. Dívida Externa: Valor dos títulos do governo e privados em mãos de pessoas físicas ou jurídicas que estão fora das fronteiras nacionais. Dívida Interna: Valor dos títulos do governo em mão do público dentro das fronteiras nacionais. Dívida Pública (endividamento público): Valor dos títulos do governo em mãos do público interno e estrangeiro. Os diferentes critérios de dívida pública (ou endividamento público) decorrem de diferentes definições de ―governo‖. Assim, podemos analisar apenas a dívida do governo federal, das três esferas de governo, das três esferas de governo mais o Banco Central e assim por diante. Divisas Estrangeiras: Moedas estrangeiras negociadas amplamente no mercado internacional e utilizadas nas relações econômicas internacionais. As principais divisas internacionais são hoje o dólar norte-americano, o euro, a libra esterlina e o iene. Economias de Escala: Ocorrem economias de escala quando os custos médios de produção se reduzem quando a produção aumenta. Equilíbrio: Em economia, uma situação é considerada de equilíbrio quando não há motivos econômicos que estejam pressionando no sentido de qualquer mudança. Equilíbrio de Mercado: Situação em que, em determinado mercado, todos os ofertantes e todos os demandantes atingem seus objetivos (de compra e venda, respectivamente) aos preços vigentes. Equilíbrio Macroeconômico: Corresponde ao equilíbrio no macromercado de bens e serviços. Significa que não existe excesso nem de oferta agregada nem de demanda agregada, o que se traduz na ausência de pressões inflacionárias. Estabilização, Programa de Estabilização, Processo de Estabilização: Uma das principais metas da condução da política econômica é gerar a estabilidade das principais variáveis macroeconômicas. Sempre que tal estabilidade deixa de existir inicia-se a discussão sobre as medidas (ou o programa) necessárias para a recuperação da estabilidade. Tais medidas podem visar estabilizar o PIB, impedindo flutuações excessivas, o nível de preços, reduzindo a inflação (programas de combate à inflação), a taxa de câmbio, etc. Os programas de estabilização mais comuns referem-se ao combate à alta de preços (instabilidade do

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nível de preços) e, por conta disso, muitas vezes os planos de combate à inflação são chamados simplesmente de programas de estabilização. Durante o período em que tais programas estão sendo operacionalizados, costuma-se dizer que o país atravessa um processo de estabilização. Estagflação: Ocorrência simultânea de recessão e inflação elevada. Expansão Fase do ciclo de negócios na qual o PIB supera crescentemente sua tendência. Flutuação “Suja”: Nome muitas vezes dado ao regime de câmbio administrado com pisos e tetos informais. Nesse regime cambial o governo (em geral através do Banco Central) intervém no mercado de moeda estrangeira de forma a impedir uma flutuação excessiva das taxas de câmbio. Em geral, neste tipo de regime, o governo permite uma flutuação livre dentro de determinado intervalo, intervindo em seus limites máximo e mínimo ou em momentos de grande variação das taxas. Fundo do Poço: Fase do ciclo de negócios que marca a passagem da recessão para a recuperação. Hiperinflação: Manifestação mais intensa do processo inflacionário. Ocorre hiperinflação quando os agentes passam tentar se desfazer instantaneamente da moeda nacional, trocando-a por outros ativos considerados como uma reserva de valor mais segura (ouro, títulos, bens duráveis, etc.). Durante a hiperinfação dos anos 20, na Alemanha, uma pessoa foi assaltada enquanto carregava um carrinho de mão cheio de notas para fazer compras numa mercearia. Para poder fugir com mais rapidez, o assaltante jogou fora imediatamente o carregamento de dinheiro, optando por ficar com o carrinho... Ilusão Monetária: Muitas vezes os agentes se iludem com a elevação absoluta de alguns preços. Por exemplo: se o preço da margarina subisse 10%, poderíamos imaginar que o consumo de margarina deveria cair. Se as pessoas se utilizassem apenas dessa informação, concluiriam que a margarina ficou mais cara; e de fato foi isso que ocorreu em termos nominais. No entanto, suponha que, ao mesmo tempo em que a margarina ficou mais cara em 10%, todos os outros preços e também o salário subiram 20%. Neste caso, em relação à manteiga, por exemplo, a margarina ficou mais barata. Ao mesmo tempo, o consumo de margarina representará uma parcela menor do gasto dos assalariados. Da mesma forma, se uma aplicação financeira render 10% em termos nominais (isto é, sem descontar a inflação), poderemos acreditar que foi um ganho expressivo. Mas, se os preços em geral subiram 20%, então teremos tido uma perda real. Os agentes que se guiam, mesmo que momentaneamente, seguindo apenas as variações nominais de preços têm a chamada ilusão monetária. Indexação: Utilização de um índice de preços como forma de corrigir o valor de compromisso financeiro (ou mesmo do preço de um bem específico), repondo as perdas reais decorrentes da inflação. A desindexação consiste na tentativa de eliminar a prática da indexação, a qual tende a perpetuar a inflação, pois apenas porque os preços subiram no passado, acabam por se elevar novamente se estiverem indexados. Inércia Inflacionária: Quando os preços em geral são reajustados de acordo com a inflação passada, o simples fato de ter havido inflação no passado faz com que haja inflação no presente e o fato de haver inflação no presente levará à ocorrência de inflação no futuro. Quando este processo se torna generalilzado, dizemos que ocorre inflação inercial ou inércia inflacionária. Inflação: Processo de elevação do nível geral de preços. Chama-se de inflação de custos a alta dos preços causada por elevação dos custos das empresas (por exemplo, devido ao choque dos preços do petróleo, como ocorreu nos anos 70, ou devido a uma alta de juros). Chama-se inflação de demanda a alta de preços que é provocada por um aumento excessivo na procura, o qual leva os produtores a elevarem seus preços, ainda que aumentem, simultaneamente, a produção. Insumos: Bens e serviços utilizados direta ou indiretamente na produção de outros bens e serviços e que estão univocamente associados a esses bens e serviços. Os insumos diretos correspondem em geral às matérias-primas empregadas diretamente na produção. Os insumos indiretos correspondem em geral ao transporte e à energia não-diretamente empregada na produção. Em resumo, insumo é tudo aquilo que insome no processo produtivo. Investimento: Em economia, investimento não é sinônimo de aplicação financeira. O investimento consiste na ampliação da capacidade de produção de bens e serviços de um país. O investimento pode ser

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físico (máquinas, instalações, infra-estrutura, etc.) ou humano (treinamento de mão-de-obra, educação, etc.). Parte do investimento destina-se simplesmente a repor o capital depreciado (inutilizado pelo desgaste natural ou devido à obsolescência tecnológica); este é o chamado investimento de reposição (no caso do desgaste natural) ou de modernização (no caso de atualização tecnológica). Toda a parcela do investimento que supera a depreciação (o chamado investimento líquido) permite a expansão do estoque total de capital em uma economia. Lastro: Na atualidade, termo essencialmente náutico. No passado, correspondia ao valor em ouro ou prata depositado nos bancos e que servia como garantia do valor do papel moeda. Desde o início dos anos 70, o papel moeda deixou de ser lastreado e tornou-se apenas uma convenção. O papel moeda é aceito por cada pessoa enquanto for aceito pelas demais. Liquidez: Capacidade de transforma um determinado ativo em moeda, minimizando as perdas. Pode-se dizer que um automóvel tem mais liquidez do que um torno mecânico, uma vez que existe um mercado desenvolvido para automóveis usados, permitindo ―transformá-lo‖ em dinheiro com certa rapidez, ainda que com alguma perda; no caso do torno usado, seria necessário oferecer um preço muito atraente para convencer um comprador a adquiri-lo. Por sua vez, o dólar possui uma liquidez mais elevada que os carros usados, uma vez que é muito mais fácil vender dólares (―transformá-los‖ em dinheiro) com um mínimo de perda. Mefistofélico: [Do antropônimo Mefistófeles + -ico2.] Adj. 1. Relativo a, ou próprio de Mefistófeles, demônio intelectual das lendas germânicas, e personagem do Fausto, drama de Goethe (v. goethiano). 2. Pérfido, maldoso, sarcástico: Tem um ar mefistofélico. 3. Diabólico, infernal. Fonte: Dicionário Aurélio. Meta(s) de Inflação: Níveis máximos e mínimos para a alta de preços tolerados por certos Bancos Centrais. Ao divulgar suas metas de inflação, esses Bancos Centrais sinalizam a intenção de elevar os juros caso a inflação exceda as metas e deixam claro que poderão baixar os juros quando a inflação estiver convergindo para as metas. Monetarismo: Escola de pensamento em Economia que vincula as flutuações das principais variáveis macroeconômicas às oscilações na oferta monetária. Além disso, segundo os monetaristas, a inflação será sempre causada por um aumento prévio e excessivo da quantidade de moeda em circulação (ver também Teoria Quantitativa da Moeda). A abordagem monetarista foi superada por outras escolas de pensamento (igualmente conservadoras) e hoje é uma corrente teórica em extinção. Multiplicador monetário (ou multiplicador da Base Monetária): Fator que expressa a relação entre a Base Monetária e os Meios de Pagamentos. Indica quantas vezes os Meios de Pagamentos são maiores que a Base Monetária. Sintetiza o poder de "alavancagem" do sistema bancário, originado no fato de que os depósitos bancários podem ser emprestados (parcialmente), gerando novos depósitos e assim por diante. O multiplicador monetário é afetado pelos percentuais de depósitos compulsórios (de forma inversamente proporcional) e pelas preferências do público entre utilizar papel moeda ou depósitos bancários (quanto maior o uso dos depósitos, maior o multiplicador). Matematicamente é representado por m = md + 1 / md + rd, onde md é a fração papel moeda / depósitos (expressando as preferências do público) e rd é a fração reservas / depósitos (afetada pelos compulsórios). (Veja também o verbete depósitos compulsórios.) Nível Geral de Preços: Indicador que procura refletir o preço médio de todos os bens e serviços transacionados em uma economia. Dada a impossibilidade de se saber exatamente qual este preço médio, os institutos de pesquisa econômica calculam, por amostragem, índices de preço que procuram refletir as alterações no nível geral de preços. A Fundação Getúlio Vargas, por exemplo, divulga o IGP - Índice Geral de Preços, considerado um bom indicativo dos preços médios na economia brasileira. Toda vez que o nível geral de preços se eleva, o aumento médio dos preços é captado pelo IGP. A variação percentual deste índice é a chamada inflação captada pelo IGP. Poupança Parcela da renda não consumida. Poupança Externa: A poupança externa absorvida por um país corresponde ao déficit em transações correntes, isto é, o déficit nas balanças de bens e de serviços não-fatores, somado à Renda Líquida Enviada ao exterior (RLE). A prova é simples. Suponha que só existem dois países: A e B. Para

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simplificar, vamos ignorar o setor governamental em ambos. Assim, as exportações do país A são iguais às importações do país B e a RLE de A é igual a (-) RLE de B. Para A, teríamos as seguintes relações: PIBA =CA+IA+XA-MA PIBA=CA+SA+RLEEA → CA+IA+XA-MA = CA+SA+RLEEA → IA = SA+ (MA+RLEEA -XA) A expressão acima mostra como o investimento de A é financiado: parte com a poupança do próprio país (SA), parte com déficit externo (MA+RLEEA -XA). Por analogia, podemos concluir que o mesmo ocorre em B, isto é: → IB = SB+ (MB+RLEEB -XB) Rearranjando os termos da expressão acima, e lembrando que X A=MB, MA=XB e que RLEEA=(-)RLEEB, temos: → SB = IB + (MA +RLEEA - XA) O que prova que o investimento em A é financiado com parte da poupança de B, equivalente ao déficit externo de A, isto é, (MA+RLEEA - XA). Proxy: Palavra inglesa. É utilizada em Economia quando não é possível identificar na prática algum conceito teórico. O Índice Geral de Preços, por exemplo, é utilizado como proxy do Nível Geral de Preços, dada a impossibilidade de se acompanhar com certeza a média de todos os preços de bens e serviços. Recessão: Fase do ciclo de negócios onde o PIB se encontra abaixo de sua tendência e se distancia crescentemente dela. Recuperação: Fase do ciclo de negócios na qual o PIB, muito embora encontre-se abaixo de sua tendência, aproxima-se continuamente dela. Saldo Comercial: veja Balança Comercial. Senhoriagem, Senhoragem ou seignorage: Lucro obtido pelo governo ao emitir moeda. Tem este nome devido ao fato de que os senhores feudais muitas vezes promoviam o recolhimento de moedas de ouro e prata e as refundiam, emitindo um número maior de moedas, cada qual com um conteúdo menor de metal precioso. Logo que o público notava a redução do valor em ouro das moedas emitidas, passava a exigir maior número delas por suas mercadorias, gerando inflação. Como o senhor era o primeiro a se utilizar das ―novas moedas‖, obtinha lucro na transação. SELIC: Sistema Especial de Liquidação e Custódia de Títulos Públicos Federais. Sistema baseado em Tecnologia da Informação através do qual o Banco Central administra um computador de grande porte em rede com instituições financeiras que operam na compra e venda direta de títulos públicos federais brasileiros. Graças a esse sistema, os títulos públicos no Brasil não têm existência física: são meros lançamentos na rede administrada pelo BACEN. Ao fixar a taxa de juros Selic, o Banco Central anuncia que taxa de juros equivalente anual pretende aceitar nas operações com títulos federais. Tarifa: Em geral, chamamos de tarifa duas coisas bastante distintas: o imposto aplicado sobre os bens importados e o preço cobrado pelos serviços públicos. Assim, toda vez que ouvimos falar de ―barreiras tarifárias à importações‖, sabemos que se trata de medidas que visam dificultar a compra de produtos estrangeiros através da imposição de tributos para sua aquisição. Já as barreiras não tarifárias referem-se a proibições puras e simples de se importar determinados bens. Por outro lado, quando ouvimos falar de ―reajuste de tarifas públicas‖, sabemos que se trata de aumento nos preços cobrados na prestação de serviços de utilidade pública. Com a privatização, estas tarifas tendem a se tornar cada vez mais privadas, ainda que sejam controladas pelos órgãos reguladores. Taxa de Câmbio: Preço em moeda nacional de uma moeda estrangeira ou de uma cesta de moedas estrangeiras. Taxa de Juros: Percentual pago a cada período de tempo pela utilização de dinheiro de terceiros. Teoria Quantitativa da Moeda: Esta teoria defende a idéia de que existe uma relação direta e proporcional entre o volume de moeda em circulação e o nível de preços. Como conseqüência, quanto mais moeda, maior o nível de preços e, portanto, o aumento do volume de moeda em circulação causa

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inflação. Expressando sua crença nesta teoria, os monetaristas afirmam que ―a inflação é, sempre e em toda parte, um fenômeno monetário‖. Termos de Troca ou Termos de Intercâmbio: Relação entre os preços dos bens exportados e dos bens importados por determinado país. Se os produtos exportados estão subindo de preço mais do que os importados, dizemos que está havendo um melhora dos termos de troca. Quando os preços dos importados sobem mais do que os dos exportados, dizemos que há uma piora dos termos de troca. Valor Adicionado ou Valor Agregado: Diferença entre o valor da produção (faturamento) de uma firma ou conjunto de firmas e os custos incorridos na forma de pagamentos a outras firmas. Corresponde à soma dos pagamentos brutos feitos a trabalhadores e empresários (incluindo impostos indiretos embutidos no faturamento bruto e que serão repassados ao governo posteriormente). Valor de Face: Suponhamos que um agente emita uma nota promissória no valor de R$ 1.000. Ela trará estampado este valor em sua face. Isto significa que o devedor promete pagar ao portador da nota aquela quantia na data de vencimento do título. Não importa quanto o devedor recebeu em dinheiro na data em que emitiu a nota, seu valor de face será R$ 1.000. O portador deste título poderá até negociá-lo no mercado secundário, ―passando para frente‖ esta nota por, digamos R$ 800. Aconteça o que acontecer com a nota, seu valor de face não se altera, pois refere-se à ―promessa‖ feita inicialmente de que, na data de seu vencimento, ela será resgatada por R$ 1.000. Em princípio, o termo valor de face pode aplicar-se a qualquer título de crédito, desde que seu valor de resgate seja pré-fixado, isto é, combinado a priori.

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5. Textos de Apoio
1- Paraninfo - ÚLTIMA AULA (Economia)
Weber Figueiredo fala sobre a construção do Brasil. Fonte: Revista Consultor Jurídico, 29 de agosto de 2003. O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Weber Figueiredo, deu uma última aula para seus ex-alunos. Diante de uma platéia de formandos, acompanhados de seus pais, o professor paraninfo da turma discursou sobre o Brasil. A aula dada no dia 13 de agosto, no auditório da Uerj, está sendo repassada pela Internet para engenheiros e estudantes por causa de sua qualidade. Leia o que disse Weber Figueiredo: "Ilustríssimos colegas da mesa, senhor presidente, meus queridos alunos, senhoras e senhores, para mim é um privilégio ter sido escolhido paraninfo desta turma. Esta é como se fora a última aula do curso. O último encontro, que já deixa saudades. Um momento festivo, mas também de reflexão. Se eu fosse escolhido paraninfo de uma turma de direito, talvez eu falasse da importância do advogado que defende a justiça e não apenas o réu. Se eu fosse escolhido paraninfo de uma turma de medicina, talvez eu falasse da importância do médico que coloca o amor ao próximo acima dos seus lucros profissionais. Mas, como sou paraninfo de uma turma de engenheiros, vou falar da importância do engenheiro para o desenvolvimento do Brasil. Para começar, vamos falar de bananas e do doce de banana, que eu vou chamar de bananada especial, inventada (ou projetada) pela nossa vovozinha lá em casa, depois que várias receitas prontas não deram certo. É isso mesmo. Para entendermos a importância do engenheiro vamos falar de bananas, bananadas e vovó. A banana é um recurso natural, que não sofreu nenhuma transformação. A bananada é = a banana + outros ingredientes + a energia térmica fornecida pelo fogão + o trabalho da vovó e + o conhecimento, ou tecnologia da vovó. A bananada é um produto pronto, que eu vou chamar de riqueza. E a vovó? Bem a vovó é a dona do conhecimento, uma espécie de engenheira da culinária. Agora, vamos supor que a banana e a bananada sejam vendidas. Um quilo de banana custa um real. Já um quilo da bananada custa cinco reais. Por que essa diferença de preços? Porque quando nós colhemos um cacho de bananas na bananeira, criamos apenas um emprego: o de colhedor de bananas. Agora, quando a vovó, ou a indústria, faz a bananada, ela cria empregos na indústria do açúcar, da cana-deaçúcar, do gás de cozinha, na indústria de fogões, de panelas, de colheres e até na de embalagens, porque tudo isto é necessário para se fabricar a bananada. Resumindo, 1kg de bananada é mais caro do que 1kg de banana porque a bananada é igual banana mais tecnologia agregada, e a sua fabricação criaram mais empregos do que simplesmente colher o cacho de bananas da bananeira.

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Agora vamos falar de outro exemplo que acontece no dia-a-dia no comércio mundial de mercadorias. Em média: 1kg de soja custa US$0,10 (dez centavos de dólar), 1kg de automóvel custa US$ 10, isto é, 100 vezes mais, 1kg de aparelho eletrônico custa US$ 100, 1kg de avião custa US$1.000 (10 mil quilos de soja) e 1kg de satélite custa US$ 50.000. Vejam, quanto mais tecnologia agregada tem um produto, maior é o seu preço, mais empregos foram gerados na sua fabricação. Os países ricos sabem disso muito bem. Eles investem na pesquisa científica e tecnológica. Por exemplo: eles nos vendem uma placa de computador que pesa 100g por US$ 250. Para pagarmos esta plaquinha eletrônica, o Brasil precisa exportar 20 toneladas de minério de ferro. A fabricação de placas de computador criou milhares de bons empregos lá no estrangeiro, enquanto que a extração do minério de ferro, cria pouquíssimos e péssimos empregos aqui no Brasil. O Japão é pobre em recursos naturais, mas é um país rico. O Brasil é rico em energia e recursos naturais, mas é um país pobre. Os países ricos são ricos materialmente porque eles produzem riquezas. Riqueza vem de rico. Pobreza vem de pobre. País pobre é aquele que não consegue produzir riquezas para o seu povo. Se conseguisse, não seria pobre, seria país rico. Gostaria de deixar bem claro três coisas: 1º) quando me refiro à palavra riqueza, não estou me referindo a jóias nem a supérfluos. Estou me referindo àqueles bens necessários para que o ser humano viva com um mínimo de dignidade e conforto; 2º) não estou defendendo o consumismo materialista como uma forma de vida, muito pelo contrário; e 3º) acho abominável aqueles que colocam os valores das riquezas materiais acima dos valores da riqueza interior do ser humano. Existem nações que são ricas, mas que agem de forma extremamente pobre e desumana em relação a outros povos. Creio que agora posso falar do ponto principal. Para que o nosso Brasil torne-se um País rico, com o seu povo vivendo com dignidade, temos que produzir mais riquezas. Para tal, precisamos de conhecimento, ou tecnologia, já que temos abundância de recursos naturais e energia. E quem desenvolve tecnologias são os cientistas e os engenheiros, como estes jovens que estão se formando hoje. Infelizmente, o Brasil é muito dependente da tecnologia externa. Quando fabricamos bens com alta tecnologia, fazemos apenas a parte final a produção. Por exemplo: o Brasil produz 5 milhões de televisores por ano e nenhum brasileiro projeta televisor. O miolo da TV, do telefone celular e de todos os aparelhos eletrônicos, é todo importado. Somos meros montadores de kits eletrônicos. Casos semelhantes também acontecem na indústria mecânica, de remédios e, incrível, até na de alimentos. O Brasil entra com a mãode-obra barata e os recursos naturais. Os projetos, a tecnologia, o chamado pulo do gato, ficam no estrangeiro, com os verdadeiros donos do negócio. Resta ao Brasil lidar com as chamadas caixas pretas. É importante compreendermos que os donos dos projetos tecnológicos são os donos das decisões econômicas, são os donos do dinheiro, são os donos das riquezas do mundo. Assim como as águas dos rios correm para o mar, as riquezas do mundo correm em direção aos países detentores das tecnologias avançadas. A dependência científica e tecnológica acarretou para nós brasileiros a dependência econômica, política e cultural. Não podemos admitir a continuação da situação esdrúxula, onde 70% do PIB brasileiro é controlado por não residentes. Ninguém pode progredir entregando o seu talão de cheques e a chave de sua casa para o vizinho fazer o que bem entender. Eu tenho a convicção que desenvolvimento científico e tecnológico aqui no Brasil garantirá aos brasileiros a soberania das decisões econômicas, políticas e culturais. Garantirá trocas mais justas no comércio exterior. Garantirá a criação de mais e melhores empregos. E, se toda a produção de riquezas for bem distribuída, teremos a erradicação dos graves problemas sociais. O curso de engenharia da UERJ, com todas as suas possíveis deficiências, visa a formar engenheiros capazes de desenvolver tecnologias. É o chamado engenheiro de concepção, ou engenheiro de projetos. Infelizmente, o mercado desnacionalizado nem sempre aproveita todo

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este potencial científico dos nossos engenheiros. Nós, professores, não podemos nos curvar às deformações do mercado. Temos que continuar formando engenheiros com conhecimentos iguais aos melhores do mundo. Eu posso garantir a todos os presentes, principalmente aos pais, que qualquer um destes formandos é tão ou mais inteligente do que qualquer engenheiro americano, japonês ou alemão. Os meus trinta anos de magistério, lecionando desde o antigo ginásio até a universidade, me dão autoridade para afirmar que o brasileiro não é inferior a ninguém, pelo contrário, dizem até que somos muito mais criativos do que os habitantes do chamado primeiro mundo. O que me revolta, como professor cidadão, é ver que as decisões políticas tomadas por pessoas despreparadas ou corruptas são responsáveis pela queima e destruição de inteligências brasileiras que poderiam, com o conhecimento apropriado, transformar o nosso Brasil num país florescente, próspero e socialmente justo. Acredito que o mundo ideal seja aquele totalmente globalizado, mas uma globalização que inclua a democratização das decisões e a distribuição justa do trabalho e das riquezas. Infelizmente, isto ainda está longe de acontecer, até por limitações físicas da própria natureza. Assim, quem pensa que a solução para os nossos problemas virá lá de fora, está muito enganado. O dia que um presidente da República, ao invés de ficar passeando como um dândi pelos palácios do primeiro mundo, resolver liderar um autêntico projeto de desenvolvimento nacional, certamente o Brasil vai precisar, em todas as áreas, de pessoas bem preparadas. Só assim seremos capazes de caminhar com autonomia e tomar decisões que beneficiem verdadeiramente a sociedade brasileira. Será a construção de um Brasil realmente moderno, mais justo, inserido de forma soberana na economia mundial e não como um reles fornecedor de recursos naturais e mão-de-obra aviltada. Quando isto ocorrer, e eu espero que seja em breve, o nosso País poderá aproveitar de forma muito mais eficaz a inteligência e o preparo intelectual dos brasileiros e, em particular, de todos vocês, meus queridos alunos, porque vocês já foram testados e aprovados. Finalmente, gostaria de parabenizar a todos os pais pela contribuição positiva que deram à nossa sociedade possibilitando a formação dos seus filhos no curso de engenharia da UERJ. A alegria dos senhores, também é a nossa alegria. Muito obrigado."

2- China supera Estados Unidos e torna-se maior parceiro comercial do Brasil
04/05/2009 - 23h00 - Stênio Ribeiro Da Agência Brasil – Em Brasília Fonte: economia.uol.com.br O mês de abril marcou uma mudança histórica nas relações comerciais do Brasil. Pela primeira vez, a China se consolidou como maior parceiro comercial do país. Neste ano, os chineses foram responsáveis pelo volume mais alto de comércio (soma de exportações e importações) com os brasileiros. O Brasil manteve os Estados Unidos como principal parceiro a partir de 1930, quando os norte-americanos desbancaram a Inglaterra do pódio do comércio mundial.

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"Não quer dizer que isso vá se estabilizar a médio prazo dessa forma, e esperamos que os Estados Unidos se recuperem a partir de 2010, disse o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral. Ele lembrou que as vendas brasileiras caíram, em média, 30% para os EUA, Europa, e América Latina. Mantiveram-se estáveis para o Oriente Médio e África. Mas cresceram 28,2% para a Ásia, com a China sendo responsável por dois terços das compras asiáticas de produtos do Brasil. A China importou US$ 5,627 bilhões em produtos brasileiros no primeiro quadrimestre deste ano, com expansão de 64,7% comparado a igual período de 2008. Já os EUA compraram US$ 4,925 bilhões e caíram 35,3% na mesma base de comparação. De janeiro a abril, o Brasil ainda comprou mais dos EUA (US$ 6,841 bilhões) que da China (US$ 4,616 bilhões), mas a corrente de comércio (exportações mais importações) é favorável ao país asiático em US$ 1,523 bilhão. O secretário ressaltou que "a Ásia como um todo passa a ser o centro dinâmico ao qual os exportadores brasileiros terão que dar crescente atenção". É uma tendência que vinha se verificando mesmo antes da crise internacional, com importações crescentes também de Taiwan, Coreia do Sul, Indonésia e Índia, dentre outros. Em abril, a balança comercial brasileira teve boa recuperação e manteve a tendência de menor queda nas exportações que nas importações. As vendas nacionais recuaram 8% em relação a abril do ano passado, mas cresceram 14,8% na comparação com o mês anterior, ao passo que as importações se retraíram 26,6% ante abril de 2008 e caíram 5,6% em relação a março. O saldo comercial (exportações menos importações), no valor de US$ 3,712 bilhões, aumentou 109,5% na comparação com os US$ 1,772 bilhão de superávit em março, constituindo-se no melhor saldo mensal desde maio do ano passado. Com isso, o saldo acumulado no ano saltou para US$ 6,772 bilhões, com aumento de 49,4% sobre o saldo do mesmo período de 2008. Segundo Barral, as exportações continuam menores que no período anterior à crise financeira, iniciada em setembro do ano passado, "mas mostram tendência de recuperação enquanto no caso das importações a tendência é de queda". Ele afirmou que os preços internacionais se retraíram um pouco, depois da crise financeira internacional, mas salientou que o Brasil está compensando isso com a exportação de maiores volumes, principalmente de produtos agrícolas, com a safra iniciada em março. Na relação abril/março o Brasil exportou mais açúcar (10,2%), café em grão (10,8%), couro (19,3%), carne bovina (14%), carne de frango (21,5%), carne suína (18%), petróleo (42,5%), automóveis (23,8%), autopeças (18,4%), minério de ferro (16,6%), celulose (55,3%), produtos químicos (22,9%), semimanufaturados de ferro e aço (53,1%), laminados planos (25,6%), fio-máquina e barra de ferro/aço (15,2%) e alumínio em bruto (50,7%). Em comparação com abril de 2008, os maiores aumentos foram de suco de laranja (259,6%), óleos brutos de petróleo (229,6%), minério de ferro (115,7%), óxidos e hidróxidos de alumínio (106,3%), açúcar em bruto (97%), celulose (68,6%) e farelo de soja (54,4%). Houve queda, porém, nas vendas de óleos combustíveis (-75,1%), aparelhos transmissores e/ou receptores (-39,9%), autopeças (-33,4%), pneumáticos (-31,7%), calçados e

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partes (-30,6%), etanol (-28,7%), automóveis (-22,9%), laminados planos (-21,7%), aviões (16,3%), couros e peles (-53,8%), ferro-ligas (-14,8%) e óleo de soja em bruto (-97,7%).

3- Cade aplica multa recorde de R$ 352 milhões a AmBev
22/07/2009 - 14h03- Lorenna Rodrigues, da Folha Online, em Brasília. Fonte: www.folha.com.br O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) condenou por unanimidade nesta quarta-feira a AmBev a pagar multa de R$ 352,6 milhões por prejudicar a concorrência no mercado de cerveja. A multa é a maior da história do conselho --até agora a maior multa havia sido aplicada contra a Gerdau, de R$ 156 milhões por formação de cartel na venda de aço. A AmBev foi condenada por exigir exclusividade dos seus produtos em pontos de venda e inibir a venda de outras marcas. O Cade entendeu que isso prejudicou as outras marcas de cerveja e o consumidor. O valor corresponde a 2% do faturamento bruto da empresa no ano de 2003, anterior à instauração do processo. "Os consumidores são os mais prejudicados. Não terão eles nem a variedade nem os preços desejados", afirmou o relator do processo, Fernando de Magalhães Furlan. Furlan criticou ainda a AmBev dizendo que ela, como líder, tem responsabilidade sobre atos que repercutem em todo o mercado. A empresa tem mais de 70% do mercado de cerveja e produz, entre outras, Skol, Brahma e Antarctica. "A representada sempre atuou no limite da legalidade", completou Furlan. O conselho determinou ainda que a AmBev pare com os programas de fidelidade que exigem exclusividade, sob pena de multa diária de R$ 53,2 mil. Reportagem da Folha desta quarta-feira informa que a empresa só se livraria da condenação se algum integrante do conselho pedisse vistas ao processo.

Processo
O processo contra a AmBev foi aberto em 2004 depois de denúncia da concorrente Schincariol contra os programas de fidelização de pontos de vendas "Tô Contigo" e "Festeja". A Schincariol acusava a Ambev de oferecer a bares, mercearias e supermercados acordos de exclusividade, descontos e bonificações para que os pontos de venda comercializassem as bebidas da empresa, prejudicando, assim, a venda das marcas concorrentes. Segundo a Schincariol, os programas da AmBev reduziram a participação de mercado das cervejas Nova Schin e Kaiser em 20% cada, elevando a participação da marcas da Ambev em 8,5%, tendo a Antarctica aumentado sua participação em 56,37%. Segundo relatório da SDE (Secretaria de Direito Econômico), do Ministério da Justiça, responsável pela instrução do processo, os programas de fidelização podem prejudicar a concorrência, fechar mercados e elevar os custos das marcas rivais. A secretária diz que há fortes indícios de que os programas prejudicam a concorrência, "dificultando o acesso de novas cervejarias ao mercado e criando dificuldade ao funcionamento dos concorrentes já estabelecidos por meio da exclusividade dos pontos de vendas".

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A SDE fez várias inspeções e até uma pesquisa elaborada pelo Ibope com pontos de vendas para levantar irregularidades. Para o órgão, haveria a imposição de exclusividade aos vendedores que entrassem no programa ou a limitação na comercialização de marcas concorrentes. Em troca, os vendedores poderiam comprar as cervejas AmBev por preços mais baixos. De acordo com o relatório, a empresa chegava a fiscalizar os freezers dos pontos de venda para checar se não havia marcas concorrentes. Segundo a secretaria, o programa "Festeja" determinava que os pontos de venda reduzissem o preço das cervejas da AmBev em pelo menos R$ 0,11 durante a semana e R$ 0,21 nos fins de semana, impondo aos vendedores margens de lucros menores. A secretaria, assim como a Seae (Secretaria de Acompanhamento Econômico), do Ministério da Fazenda, e a procuradoria do Cade recomendaram ao conselho a condenação da AmBev. A multa poderia chegar a 30% do faturamento da companhia.

Defesa
A AmBev alegou que os programas de fidelização eram legais e que beneficiavam o consumidor e ao ponto de venda. "Ao primeiro, porque poderia adquirir produtos com desconto, e, ao segundo, por receber material publicitário específico que lhe permitiria alavancar suas vendas", afirmou a empresa. Segundo a AmBev, não houve nenhum tipo de sanção aos pontos de vendas que aderiram aos programas e continuaram vendendo outras marcas. A empresa admitiu, porém, que, na primeira fase do programa "Tô Contigo", se algum ponto de venda comercializasse outras marcas, "era desligado porque não mais se enquadrava no perfil. Ontem, a AmBev ofereceu ao Cade a assinatura de um TCC (Termo de Compromisso de Cessação de Prática), mas o conselho se recusou a assinar o acordo.

4- A lição econômica trazida com o filme "Os Falsários".
17/07/2009 - Marcelo Henriques de Brito Fonte: Jornal Valor Econômico Laureado com o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008, o filme "Os Falsários" ("Die Fälscher"), de Stefan Ruzowitzky (Áustria e Alemanha, 2007), também tem o mérito de lembrar que a emissão descontrolada de moeda pode prejudicar um país. O filme mostra que durante a Segunda Guerra Mundial os nazistas forçaram prisioneiros selecionados em campos de concentração a falsificarem libras sem, contudo, explicar como aquela falsificação poderia debilitar a economia britânica. Se não é evidente detectar - e imediatamente evitar - a perda do poder de compra diante de um processo inflacionário, isto é, um aumento generalizado dos preços num período, é ainda mais complexo (quiçá impossível) quantificar mentalmente e lidar com a evolução da inflação. Assim, se houver um crescimento da oferta monetária, que seja imprevisível, avassalador e, sobretudo, não condizente com o aumento das transações que requeiram a moeda, a inflação decorrente acarretará a perda da habilidade para definir e avaliar preços. Isso desestruturará as transações monetárias e, assim, abalará as relações sociopolíticas. Por isso, a contínua e pujante introdução das libras falsas produzidas pelos falsários do filme acabaria subvertendo a estrutura de preços existente na Inglaterra, ou seja, destruiria um

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conjunto de informações estabelecido pela circulação da moeda, que é vital para a estabilidade de um país. Adicionalmente, uma inflação britânica descontrolada acirraria a desvalorização da libra, prejudicando as transações internacionais do Reino Unido. Ao priorizar a falsificação da libra, os nazistas desejavam desestabilizar o notável adversário comercial. Ademais, libras falsas teriam sido usadas para pagar importações e honrar outras obrigações internacionais, favorecendo o balanço de pagamentos da Alemanha sob o jugo dos nazistas. Diante desse êxito, eles ordenaram a falsificação do dólar, possivelmente prevendo que os EUA poderiam ter uma moeda muito poderosa, como acabou ocorrendo na Conferência de Bretton Woods em 1944. Talvez a história tivesse sido outra, se "Os Falsários" não tivessem postergado e restringido ao máximo a produção de dólares falsos. Coube, entretanto, ao governo dos Estados Unidos emitir dólares de forma excessiva, até para arcar os gastos com a Guerra do Vietnã na década de 1960. Tal procedimento elevou a inflação do país, além de inviabilizar no início da década de 1970 o regime cambial de Bretton Woods, que fora favorável aos EUA e restringira os riscos cambiais no mundo. Uma notável expansão monetária também ocorreu no Brasil na década de 1980, quando a taxa de inflação tendia a crescer a cada mês. A ameaça da hiperinflação era contornada com pacotes econômicos que, em geral, trocavam o nome da moeda. No início de sua circulação, o cruzado (1986), o cruzado novo (1989) e o cruzeiro (1990) geravam uma ilusória perspectiva de estabilidade, que não se sustentava pela falta de austeridade monetária e fiscal. Era igualmente grave quando os governantes conclamavam o povo para fiscalizar os preços, atiçando na população a ideia de os empresários eram os responsáveis pelo descontrole inflacionário. A inflação alta e variável beneficiava o governo, pois gastos e investimentos públicos elevados não eram sempre adequadamente corrigidos. Porém, as receitas com tributos eram indexadas por índices de preços estabelecidos pelo governo. Quando havia inflação crescente, o governo arrecadava o que queria e cobrava da sociedade de forma sorrateira o chamado imposto inflacionário. Esta forma de tributar dificultava a formação de preços de ativos, produtos e serviços até pela expectativa de inflação ser uma profecia autorrealizável. Era uma especulação alheia às iniciativas empresariais a escolha do índice a aplicar nos reajustes, que exigiam um processamento extra. Isso prejudicava a agilidade empresarial que poderia ampliar as transações em quantidade e variedade e até arrefecer os impactos daquela expansão monetária descabida do governo, que agia sem responsabilidade fiscal e monetária. A história demonstra, portanto, que há governos capazes de abalar o poder de compra da moeda e, assim, prejudicar uma população. Felizmente para o Brasil, os idealizadores e executores do Plano Real miraram o desenvolvimento pacífico com inflação baixa e controlada. Essa conquista não pode sucumbir. Esperemos que o país não venha a ter inimigos que recorrerão às ações de falsários. Marcelo Henriques de Brito é sócio da Probatus Consultoria, diretor da Associação Comercial do Rio de Janeiro e possui a certificação Certified Financial Planner (CFP®), probatus@probatus.com.br. Este texto foi originalmente publicado na edição eletrônica e também impressa de sextafeira, 17 de julho de 2009 do jornal Valor Econômico, na coluna "Palavra do Gestor" na página D2 do Caderno Investimentos.

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5-Breves Considerações sobre Desenvolvimento Econômico
28/07/2009 - Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor universitário. Mestre pela USP em Integração da América Latina e Especialista em Política Internacional. Autor do livro ―Conversando sobre Economia‖ (Ed. Alínea). Se existe uma receita específica nos manuais de Introdução à Economia capaz de levar ao desenvolvimento econômico, certamente alguns dos ingredientes responsáveis por isso e que, de certa forma, ajudam a entender o presente termo, conceituado aqui como melhoria substancial na qualidade de vida das pessoas de forma a se adquirir bem-estar material, indiscutivelmente esses ingredientes são a acumulação de capital (constante e variável), o progresso tecnológico de forma expansiva incorporado ao processo produtivo e ao próprio capital, a ampliação de todos os tipos de conhecimentos, o aumento da produtividade e da renda per capita, o crescimento do produto adicionado por habitante, a estabilidade política via sistema democrático capaz de promover transformações sociais e políticas, a produção de serviços e bens mais sofisticados e a existência de instituições específicas no ambiente econômico equilibradas, dinâmicas e competitivas, em especial, a principal delas – o mercado. Se entendermos, grosso modo, o desenvolvimento econômico como um fenômeno histórico, verificaremos que ao longo dos últimos 233 anos, desde a obra seminal do professor Adam Smith (A Riqueza das Nações), a busca desse desenvolvimento se deu de diversas maneiras e em diferentes lugares e épocas. Assim, inicialmente devemos considerar que o desenvolvimento econômico guarda uma idiossincrasia própria. Algumas sociedades obtiveram desenvolvimento econômico em grau e especificidade elevados (industrializando a economia, por exemplo); outras sociedades pararam no meio do caminho (desenvolveram apenas partes da estrutura econômica), e outras ainda nem iniciaram a caminhada (pois ainda encontram-se presos à pobreza extrema com níveis sociais de desigualdades agudos). O fato é que todas as sociedades modernas querem rumar para uma melhoria do padrão de vida das pessoas com a modificação substancial da estrutura econômica entendida como a conquista definitiva daquilo que os economistas convencionarm chamar de desenvolvimento econômico. Percebe-se, assim, que todos querem, mas não são todas as sociedades que conquistam o tão almejado desenvolvimento econômico; muitas param apenas no estágio conhecido como crescimento econômico, quando apenas ocorre aumento da renda per capita e não chegam assim ao desenvolvimento propriamente dito. Certamente, o desenvolvimento econômico, ao lado da segurança, da liberdade pessoal, da estabilidade democrática e da justiça social, são as metas principais objetivadas pelas sociedades modernas. No entanto, foi somente a partir do pós-Segunda Guerra, fim da década de 1940, que a importância teórica do desenvolvimento econômico passou a fazer parte integral do receituário acadêmico de alguns brilhantes economistas.

Alguns teóricos das ciências econômicas e suas receitas
Entretanto, se foi somente em 1911 a primeira vez que o termo desenvolvimento econômico ocupou o título de uma obra acadêmica – Teoria do Desenvolvimento Econômico – de Joseph Schumpeter (1883-1950), o clássico Adam Smith (1723-1790), já mencionava esse conceito, embora usando para tal o termo ―progresso material‖. Da inovação tecnológica ao ato empreendredor schumpeteriano, os anos 50-60 do século XX viu nas obras de Arthr Lewis (1915-1990) um defensor assíduo da relação crucial entre a poupança, o investimento e o desenvolvimento, como maneiras de alcançar uma expansão econômica. Foi nessa mesma época que Hans Singer (1910-2006) cunhou a idéia de

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crescimento equilibrado (balanced growth) onde propôs a intervenção do Estado como a melhor forma de quebrar o círculo vicioso de baixa poupança e fraco crescimento para entrar no círculo virtuoso da alta poupança e forte crescimento da economia. Com Gunnar Myrdal (1898-1987) os jovens economistas aprenderam que o subdesenvolvimento – a pedra no caminho do desenvolvimento econômico - só poderia ser solucionado a partir da igualdade de oportunidades e do aprofundamento de regimes democráticos, condições essenciais para a expansão de qualquer economia. Myrdal alegava que o grau de desenvolvimento econômico das nações ricas não seriam os mesmos das nações debilitadas economicamente, tendo em vista que as economias mais pobres estavam condenadas à reproduzirem padrões de produção de bens primários com baixo valor agregado, enquanto as economias mais vistosas aproveitavam os lucros associados à economia de escala e promoviam rápidas expansões no parque industrial. No entanto, a teoria econômica não parava de ganhar novas interpretações de como se obter desenvolvimento. Com a obra teórica de Theodore Schultz (1902-1998) ganhou relevância a formação do capital humano, distanciando-se da necessidade da formação do capital físico. Com isso, as atenções se voltaram para um requisito fundamental de qualquer sociedade que desejasse ser moderna: investimentos em educação, ciência, pesquisa. Pelos escritos de Walt Rostow (1916-2003) os economistas passaram a entender o desenvolvimento econômico a partir de cinco estágios básicos que levariam a modernização econômica. Coube a Paul Rosenstein-Rodan (1902-1985) ser partidário da idéia de que para tirar uma economia da estagnação e promover o seu desenvolvimento era necessário a realização de um conjunto de investimentos em uma gama variada de indústrias promovendo aquilo que Rodan denominou de grande impulso (big push). Robert Solow (1924), uma das figuras principais da Economia do Desenvolvimento, descreveu que a fonte do crescimento de uma economia estava centrado na acumulação de capital, no crescimento da força de trabalho e nas alterações tecnológicas. Ragnar Nurkse (1907-1959), economista nascido na Estônia, seguidor de Rosenstein-Rodan, entendia que uma economia não se expandiria cultural e economicamente enquanto não eliminasse por completo o que chamou de ―círculo vicioso do subdesenvolvimento‖ que passava pelas questões: cultural (falta de informações e de conhecimento), demográfica (alta taxa de natalidade) e econômica (baixos salários, baixa produtividade, baixa renda do trabalho).

Como mensurar o desenvolvimento?
Uma vez que definimos desenvolvimento econômico e apontamos algumas interessantes ―receitas‖ assinadas por conceituados pensadores da teoria econômica, resta saber agora como mensurar o desenvolvimento. Isso não é tarefa fácil. Os ―ingredientes‖ dessa ―receita‖ passam pelo índice de mortalidade infantil, condições sanitárias, expectativa de vida média, níveis educacionais e tecnológicos, nível de endividamento econômico, renda de cada habitante, grau de dependência ao comércio exterior, e pelas condições gerais de vida da maioria da população. A esses ―ingredientes‖ encontrados nos bons manuais de teoria econômica, eu acrescentaria a qualidade e a condição do trabalho e a expectativa futura dos trabalhadores em relação ao local em que estão alocados, a situação da criança e do adolescente, o respeito e a preservação ao meio ambiente e a obediência as leis e códigos jurídicos. E por que algumas sociedades ainda não atingiram o desenvolvimento econômico? Dentre as várias possibilidades citadas acima, destacam-se, ainda, nesse pormenor, a existência de aspectos culturais falhos (basicamente em função de poucos anos de estudo de determinadas sociedades), de infra-estrutura incompleta e carente de novos investimentos, da existência dos ―bolsões de pobreza‖, típicos de sociedades atrasadas que isolam a população impedindo-a de se integrarem na economia nacional, dos desperdícios de recursos, da escassez de mão-de-obra

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qualificada e de um mercado interno fraco e incompleto no que toca ao atendimento das necessidades básicas de sua população. Superados esses obstáculos, o caminho rumo à melhoria da qualidade de vida das pessoas se aproxima. Obstáculos são superados mediante transformações. Por sinal, é para isso que a ciência econômica surgiu – para promover verdadeiras e produndas transformações - desde os trabalhos iniciais dos fisiocratas que inspiraram a Enciclopédia de Diderot e aspectos importantes da Revolução Francesa. É nesse intuito de transformações sociais, políticas e econômicas que os agentes econômicos devem ser inseridos. Em sociedades atrasadas que se encontram nos estágios iniciais da busca do desenvolvimento, a macroeconomia precisa girar em torno das condições propícias a expansão da atividade produtiva promovendo a mais radical transformação sonhada pelos ideais democráticos: promover e assegurar o desenvolvimento da economia e melhorar a vida de todos.

6- Lula afirma que Brasil será 5ª maior economia do mundo
05/11/2009 - 10h19- Fonte: EFE- Londres, UK.. O Brasil se transformará "entre 2016 e 2020", no máximo, "na quinta economia do mundo", segundo as previsões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O país terá uma economia forte, muito mais desenvolvida do ponto de vista tecnológico e do ensino, e também "ainda mais democrática que a atual", afirma Lula, em entrevista ao jornal britânico "Financial Times". O presidente prevê um crescimento econômico de 5% ou mais em 2010 e diz que o país continuará crescendo "de modo sustentável" nos próximos anos. "É um momento glorioso, quase mágico da história do Brasil", afirma Lula, após explicar que o país terá que realizar um grande programa de investimentos diante da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016. Lula participa hoje, em Londres, de um seminário sobre investimentos no Brasil organizado pelo "Financial Times" e pelo jornal brasileiro "Valor Econômico" e, após uma audiência com a rainha Elizabeth II da Inglaterra, receberá o prêmio do instituto Chatham House, que reconhece anualmente "a contribuição mais significativa à melhoria das relações internacionais no ano anterior". Lula afirma que sua presença nesta capital, como as viagens que realizará à Alemanha e, no próximo ano, à Espanha, tem como objetivo justamente atrair investimentos privados ao Brasil em benefício de setores como o petrolífero, a construção e os trens de alta velocidade. Em sua entrevista ao jornal britânico, Lula afirma que, embora o Brasil tenha que "fazer ajustes", "não há nenhum outro país que tenha atualmente uma posição fiscal tão saudável" e declara, a respeito, que há um projeto de lei de reforma tributária no Congresso. Sobre como o Brasil enfrentou a crise econômica, Lula diz que seu governo começou a adotar uma série de medidas em 2007, "sem saber que haveria crise" Quando a crise explodiu, foram tomadas medidas contracíclicas, que facilitaram os créditos e o financiamento de setores concretos da economia, houve uma redução dos impostos sobre automóveis, eletrodomésticos da linha branca, maquinaria agrícola e material de construção.

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Segundo Lula, seu governo não trabalha com a ideia de que a crise terminou, mas sim que "pode ser superada" e se propõe, para isso, a continuar impulsionando os investimentos em uma economia diversificada. Em relação à cúpula sobre a mudança climática em Copenhague, Lula manifesta o compromisso de seu país de reduzir em 80%, até 2020, o desmatamento na Amazônia. O Brasil quer contribuir para o combate ao aquecimento do planeta, diz Lula, acrescentando que apresentará em Copenhague uma proposta formal, que não tem por que ser aceita por todos, mas que seu país se comprometerá a cumprir. O presidente afirma que não faz sentido buscar um acordo que depois os países não poderão cumprir, uma proposta que seja inviável. Em relação ao estado das relações entre o Brasil e outros países da América Latina, afirma que são "as melhores possíveis" e acrescenta que a democracia é "extraordinária, porque permite viver democraticamente na diversidade". Lula coloca como exemplo para a região a unificação da Europa, que considera a "melhor demonstração de que, com vontade política, é possível superar qualquer tipo de obstáculos". "O Brasil está desenvolvendo alianças com todos os países, dentro do respeito à soberania de cada um", afirma.

7- Cosan e Shell anunciam aliança de US$ 12 bilhões
01/02/2010 - 15h21- SÃO PAULO (Reuters) A Cosan, maior empresa do setor sucroalcooleiro no Brasil, anunciou nesta segunda-feira negociações com a Shell para a formação de uma joint-venture avaliada em US$ 12 bilhões que vai reunir sob um mesmo teto operações de açúcar, etanol, distribuição de combustíveis e pesquisa. O negócio, anunciado na segunda-feira após a assinatura de um memorando na véspera, confirma a tendência de crescimento de investimentos estrangeiros na indústria de biocombustíveis do Brasil. Em 2008, a britânica BP adquiriu uma fatia de 50% na Tropical Bioenergia. A Bunge fez acordo em dezembro para comprar a Moema, por US$ 452 milhões, enquanto em 2009 a francesa Louis Dreyfus ampliou sua participação no setor ao assumir a Santelisa Vale. "A visão da Cosan é se tornar uma líder global em energia limpa e renovável. O nosso tamanho, grau de sofisticação e estágio de desenvolvimento recomenda um parceiro que não apenas compartilhe estes objetivos, mas também tenha acesso a mercados internacionais...", afirmou Rubens Ometto Silveira Mello, presidente do Conselho de Administração da Cosan, em comunicado nesta segunda-feira. Por volta das 13h20 (horário de Brasília), as ações da Cosan saltavam cerca de 12%, enquanto as da Shell operavam em alta de 1,3%. O memorando assinado pela Cosan prevê negociações exclusivas por 180 dias para a formação da joint-venture que vai unir os negócios da Cosan de açúcar e etanol, incluindo cogeração de energia, com ativos de distribuição e comercialização de combustíveis da Shell no

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Brasil, além da participação da petrolífera em empresas de pesquisa e desenvolvimento a partir da biomassa. Segundo o diretor financeiro da Cosan, Marcelo Martins, a joint-venture deve ter uma receita bruta anual estimada em 40 bilhões de reais.

Divisão da nova empresa
Pelo acordo anunciado, o valor dos ativos a serem transferidos pela Cosan à associação soma US$ 4,925 bilhões. A companhia ainda vai migrar dívidas líquidas de cerca de US$ 2,524 bilhões. Enquanto isso, a Shell vai fazer em até dois anos aporte em dinheiro na joint-venture de cerca de US$ 1,625 bilhão e valor "contingente" estimado em 300 milhões de dólares ao longo de cinco anos, "a título de contribuição adicional baseada em ganhos futuros da estrutura conjugada". Não foram divulgadas estimativas do valor da rede de distribuição da Shell no Brasil. Segundo a Cosan, a associação será "possivelmente" implementada por meio da criação de duas companhias. Uma ficaria a cargo de açúcar, etanol e co-geração de energia. A outra ficaria com os ativos de distribuição de combustíveis, que será a terceira maior do setor do país, com 4.500 postos de combustíveis no Brasil. A Cosan já atua no setor de distribuição de combustíveis por meio da Esso, cujas operações brasileiras foram adquiridas em 2008 por aproximadamente 1 bilhão de dólares. Em dezembro, a empresa anunciou a compra da rede de distribuição da Petrosul, com mais 83 postos.

Distribuição nacional
Segundo Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, com o negócio, a distribuição deve ficar "cada vez mais nacionalizada no Brasil". Ele lembrou que agora o forte da distribuição está com grupos brasileiros: BR Distribuidora, Ipiranga (Grupo Ultra), Cosan/Shell e Ale. A líder em distribuição de combustíveis no país é a BR Distribuidora, da Petrobras, seguida pela Ipiranga, de acordo com dados do Sindicomb, o sindicado do setor. "Isso (a notícia) reforça os argumentos da decisão da Petrobras de entrar no negócio de etanol", acrescentou Pires, destacando que a consolidação traz a profissionalização para o setor sucroalcooleiro. "Não vai ter mais aquelas 400 usinas, vão ser menos empresas, mas mais fortes." A Petrobras teria dado "mandato" a um banco para negociar eventuais aquisições de até oito usinas, segundo Pires. Nelson Matos, do BB Investimentos, considerou que o negócio "é positivo para as empresas, que ganham escala, mas em distribuição ainda ficam aquém da Petrobras". Para Matos, após a formação da joint-venture, será a Ale que ficará "na mira de compra". A Cosan vai dar mais esclarecimentos sobre a operação ainda nesta segunda-feira. A companhia vai deixar de fora da associação suas atividades com produção e venda de

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lubrificantes, atividades logísticas da Rumo Logística, propriedades agrícolas e marcas de alimentos, como "Da Barra" e "União". (Com reportagem adicional de Denise Luna, no Rio, e Roberto Samora, em São Paulo; edição de Marcelo Teixeira)

8- Investidor estrangeiro derruba a Bolsa; entenda o motivo
09/04/2010 - 16h35- Anne Dias – BM&F/Bovespa O sobe-e-desce da Bolsa de Valores faz parte deste tipo de investimento. Neste ano, porém, o ―desce‖ vem surpreendendo os investidores além da conta. E o motivo da queda vem, basicamente, da saída dos investidores estrangeiros da Bovespa. Só para se ter uma ideia, desde o começo do ano até a semana passada, eles tiraram do Brasil R$ 2,549 bilhões. Segundo dados da BM&F/Bovespa, a participação dos estrangeiros na Bolsa já foi maior. Em junho de 2008, período pré-crise financeira mundial, eles representavam 37,2% dos investidores em ações. No dia 4 de fevereiro de 2009, eles respondiam por 26,4%. No mesmo período, as pessoas físicas pularam de 24,4% para 33,9% e assumiram a liderança como principais investidores (veja quadro abaixo). ―Eles ainda são um peso-pesado na Bolsa‖, diz o diretor geral da Enfoque Informações Financeiras, Fausto de Arruda Botelho. Ele explica que o perfil dos investidores de fora é mesclado. ―São árabes, franceses, americanos. Eles estão em grandes fundos de investimentos que buscam as melhores rentabilidades‖, afirma. E, como esses fundos estão nas mãos de gestores profissionais, eles tendem a ser mais racionais. Vendem seus papéis quando precisam tapar um buraco em outro mercado ou quando acreditam que aquela economia dá sinais de alerta. Aí mora o problema. Como os estrangeiros seguem as estratégias de olho no mercado mundial, e, normalmente, os minoritários brasileiros pensam mais localmente, eles podem derrubar a Bolsa, como vem acontecendo. Os investidores minoritários brasileiros, então, percebem uma fuga de capital da Bolsa e decidem vender suas ações também, mesmo sem entender claramente o que está provocando a saída. ―O estrangeiro é um grande influenciador de opiniões‖, diz Botelho.

Grau de investimento
A chegada de estrangeiros na Bovespa se intensificou em 2008, quando o Brasil atingiu três graus de investimento, status concedido por agências internacionais de análise de risco (Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch). A nota indica para o investidor o risco de tomar o calote de uma empresa ou um país (quanto melhor a nota, menor o risco). ―A qualquer sinal de estresse, o investidor vai embora‖, diz Manuel Lois, diretor da corretora Spinelli. E há alguns estresses no momento: o alto índice de pedidos de seguro-desemprego nos Estados Unidos, a restrição ao crédito na China e o nível de endividamento de alguns países europeus, como Grécia, Espanha e Portugal, são alguns exemplos. ―Assim como os estrangeiros vão embora, eles voltam‖, afirma Lois. Quais papéis eles buscam? ―Sempre as blue chips, as ações mais negociadas da Bolsa, que fazem parte do Ibovespa.‖

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E o que o minoritário deve fazer quando os estrangeiros deixam o Brasil e puxam a Bolsa para baixo? ―Comprar. As ações ficam mais baratas, e é hora de abrir a carteira‖, diz Lois.

Participação de investidores na Bovespa
Data junho/08 junho/09 janeiro/10 abril/10 Estrangeiros 37,2% 36,5% 28% 26,4% Pessoa física 24,4% 28,7% 31,4% 33,9% Institucionais Empresas 26,3% 25,7% 29,4% 29,1% 3,2% 3,1% 2,3% 1,8% Instituições financeiras 8,8% 6,1% 8,8% 8,9% Outros 0,1% 0,1% 0,1% 0

9- O dilema do prisioneiro e a ineficiência dos métodos de opções reais
O Dilema do Prisioneiro é um exemplo de jogo largamente difundido nos manuais de microeconomia e teoria dos jogos, como exemplo de jogo estático de informação completa. Nele, dois suspeitos são presos pela polícia; esta não possui evidências suficientes para condená-los, a menos que um deles confesse o crime. Os suspeitos são então mantidos em celas separadas e a polícia lhes explica as conseqüências das ações que eles podem tomar que, juntas, representam os perfis de estratégias do jogo. O ato de explicar as conseqüências são as regras do jogo. Caso nenhum dos suspeitos confesse, ambos serão sentenciados a um crime de pouca gravidade e pegarão um ano de cadeia. Se ambos confessam, serão sentenciados a dois anos de cadeia. Porém, se somente um deles confessar, este será imediatamente liberado e o outro será sentenciado a três anos de cadeia, sendo dois pelo crime e mais um por obstruir a justiça. Os prisioneiros decidem o que fazer separadamente, sem saber da decisão do outro; daí o caráter estático do jogo. Também é um jogo de informação completa, porque ambos conhecem a punição (ou pagamento) que cada um receberá com base no perfil de estratégias que for selecionado. O jogo Dilema do Prisioneiro, com base nessas propriedades, pode ser representado na sua forma normal pela seguinte matriz de pagamentos:

Na matriz acima, os pagamentos de cada jogador (prisioneiro) são representados pelo número de anos de sentença. O equilíbrio de Nash do jogo é o perfil de estratégias (Confessar;

Confessar), porém, pode ser observado que (Não Confessar; Não Confessar) conduz a um resultado, onde os pagamentos individuais são simultaneamente mais eficientes para ambos os jogadores. O fato é que a estratégia Não Confessar é estritamente dominada pela estratégia Confessar, de modo que ela não é jogada. Na figura anterior, com os valores representados na matriz de pagamentos, isso fica claro, uma vez que nenhum dos prisioneiros irá arriscar-se a escolher a estratégia Não Confessar, porque eles não têm nenhuma garantia ou informação de que o outro fará o mesmo. Caso o outro prisioneiro escolha Confessar, o prisioneiro que não confessou acabará numa situação de prejuízo superior àquela correspondente ao equilíbrio de Nash do jogo.

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Quando, nas aplicações financeiras da teoria dos jogos, duas empresas fazem o papel dos prisioneiros, para sair da situação do Dilema do Prisioneiro, seria necessário que ambas formassem um acordo de cooperação no sentido de selecionarem o perfil de estratégias mais eficiente para ambas simultaneamente em termos de geração de lucros. Ainda em relação à matriz de pagamentos da figura anterior, caso os valores 0, -1, -2 e -3 fossem substituídos por A, B, C e D, respectivamente, qualquer jogo em que A > B > C > D representaria uma situação de Dilema do Prisioneiro. Fonte: ROCHA, André Barreira da Silva. O dilema do prisioneiro e a ineficiência dos métodos de opções reais. RAC. Curitiba, v.12, n.2, Abr./Jun. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rac/ v12n2/a10v12n2.pdf>. Acesso em: 30 dez. 2008.

10- Ford fecha venda da Volvo à chinesa Geely
28/03/2010 - 10h59 - Da Redação, com agências Foi anunciada oficialmente neste domingo (28) a venda da Volvo, fabricante sueca de veículos, à Geely, a maior montadora privada da China. A formalização do negócio acontecerá ao longo dos próximos meses, informa o boletim Automotive News Europe. A Ford receberá US$ 1,8 bilhão, mas pagou pela Volvo cerca de US$ 6,4 bilhões em 1999. Na ponta do lápis, a perda é de US$ 4,6 bilhões. A Volvo fazia parte do -- agora fechado -- leque de marcas premium do grupo norteamericano Ford, que já incluiu Aston Martin, Land Rover e Jaguar, estas duas últimas vendidas para o grupo indiano Tata. A venda da marca sueca -- que tem obtido bons resultados com seus modelos no Brasil -- aos chineses vinha sendo negociada desde outubro de 2009. Com o negócio, a Ford pretende focar energias (e dinheiro, obviamente) em seu negócio principal -- os carros, picapes e caminhões da própria marca Ford. Entre os três grandes grupos automotivos dos Estados Unidos (os outros dois são General Motors e Chrysler), a Ford foi o que menos sofreu com a crise global de 2008-2009. Não pegou dinheiro emprestado do governo (ao contrário da GM, que hoje, na prática, é uma estatal) nem foi absorvida por um rival europeu (como a Chrysler, nas mãos da Fiat). A política de livrar-se de marcas deficitárias e/ou internacionais ajudou nisso: restaram à Ford apenas a Lincoln e a Mercury, ambas voltadas aos mercados da América do Norte. Nos últimos anos, por exemplo, a Ford desfez-se de seus ramos britânico (as já citadas Land Rover e Jaguar) e japonês (Mazda, na qual passou a ter participação minoritária). Por sua vez, a chinesa Geely, uma montadora de veículos que nasceu como fábrica de geladeiras em 1986, seis anos depois passou a fabricar motocicletas, e em 1998 lançou seu primeiro carro, consolida-se como player no mercado automotivo mundial. No ano passado, a Geely fabricou cerca de 329 mil veículos. Por ora, não vende seus produtos no Brasil.

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11- Preço do Viagra deve cair até 50% com fim da patente
29/04/2010 - 11h06 – Agência Estado

São Paulo - O medicamento genérico com o mesmo princípio ativo do Viagra já deverá estar disponível para os consumidores a partir do dia 21 de junho. Pelo menos essa é a expectativa da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos (Pró Genéricos). Ontem, por cinco votos contra um, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acabou com a exclusividade do laboratório Pfizer na produção do medicamento. O prazo da empresa termina em 20 de junho. Com o fim da patente, a expectativa é de que o preço do remédio, que é o mais usado para disfunção erétil no Brasil, fique de 35% a 50% mais baixo. A decisão também abre caminho para o fim da patente de outros medicamentos. Estudos da Universidade de São Paulo (USP) apontam que 40% dos homens no País têm algum tipo de disfunção erétil. Especialistas acreditam que, com o custo mais baixo, um maior número de médicos irá prescrever o medicamento. Atualmente, uma caixa com dois comprimidos de 50 mg de Viagra custa em torno de R$ 60, ou seja, R$ 30 por comprimido. Na Argentina, onde a patente não é reconhecida, o preço é R$ 2. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cinco empresas já entraram com pedidos para produzir o medicamento, cujo princípio ativo é o citrato de sildenafil. A agência já havia se manifestado informando que tem equipes preparadas para analisar esses pedidos o mais rápido possível, justamente para garantir agilidade na entrada do genérico no mercado.

12- USP é a primeira em produção científica entre universidades ibero-americanas, diz pesquisa.
Da Redação- www.uol.com.br - 16/06/2010 - 17h30 Um ranking divulgado pela SIR (SCImago Institutions Ranking) mostra que, entre as universidades ibero-americanas, a USP (Universidade de São Paulo) foi a primeira entre 607 instituições em produção científica entre 2003 e 2008. A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a Unesp (Universidade Estadual Paulista) e a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) também aparecem no top 10. De acordo com o ranking, divulgado no final de meio e baseado no cadastro de produções do sistema Scopus, a USP teve 37.952 publicações científicas no período. A segunda colocada é a Unam (Universidad Nacional Autónoma de México), com 17.395. A Unicamp vem em terceiro, com 14.913. Na quarta e na quinta posições, duas universidades espanholas: a Universitat de Barcelona e a Universidad Computelense de Madrid. A Unesp está em sexto, com 12.270 publicações, e a UFRJ, em sétimo, com 12.133. A USP também lidera nas listagens feitas por área: em ciências sociais, ciências físicas, ciências da vida e ciências da saúde. No ranking mundial, a universidade é a 19ª, segundo o SIR. Entraram na listagem todas as universidades latino-americanas que produziram alguma comunicação científica em 2008. O Brasil é o país com o maior número de instituições que

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participaram da pesquisa (109), seguido por Colômbia (89) e Espanha (85). Este último foi o país com o maior número de produções (208.078). Os brasileiros são os segundos colocados (178.765) e os portugueses, os terceiros (49.541).

13- Drogaria SP compra Drogão e cria maior rede farmacêutica do país.
Reuters- (Vivian Pereira) - 22/06/2010 - 15h45

A Drogaria São Paulo anunciou nesta terça-feira a aquisição da rede Drogão, que conta com 72 lojas no Estado de São Paulo e tem forte presença em shopping centers. O acordo, realizado por meio de troca de ações, dará origem à maior rede farmacêutica paulista e nacional, conforme comunicado enviado ao mercado pela Drogaria São Paulo. De acordo com o documento, as lojas da rede Drogão passarão a contar, gradativamente, com a bandeira da compradora. A Drogaria São Paulo informou ainda que prevê a abertura de 40 novas lojas este ano no Brasil.Com o negócio anunciado nesta terça-feira, a empresa espera encerrar 2010 com mais de 360 lojas e faturamento de cerca de R$ 2,5 bilhões.

14- CMN define meta de inflação para 2012 em 4,5%. Decisão do CMN foi anunciada nesta terça-feira; tendência até o fim do ano é de convergência do índice para a meta
AE - 22/06/2010 - 14:25 – www.economia.ig.com.br

O Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu fixar em 4,5% o centro da meta de inflação para 2012. Segundo o secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Gilson Bittencourt, a margem de variação da meta de inflação de 2012 é de dois ponto porcentuais para cima ou para baixo. O CMN também confirmou em 4,5% o centro da meta de inflação para 2011. O secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Gilson Bittencourt, explicou hoje que o Conselho Monetário Nacional (CMN) entendeu que, embora a inflação deste ano esteja um pouco acima do centro da meta, a tendência é de baixa e, por isso, ela deve convergir até o final do ano. "O Conselho Monetário Nacional entendeu que daria para manter a meta de inflação (2012) no mesmo patamar atual", afirmou o secretário. Segundo ele, a decisão foi tomada com o foco na inflação. O secretário evitou fazer uma avaliação mais ampla, considerando o ritmo de crescimento econômico. Bittencourt informou também que o CMN confirmou o centro da meta de inflação para 2011 em 4,5%, com uma variação de dois pontos porcentuais para baixo ou para cima. Bittencourt disse que o CMN considerou a meta de inflação de 4,5% e o risco país de 150 pontos-base para manter em 6% ao ano a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) para o terceiro

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trimestre de 2010. "Por ser uma taxa de longo prazo, não consideramos apenas a expectativa do momento", disse o secretário. Segundo ele, o risco país é um mix da média dos últimos meses, com a expectativa futura. Ele disse também que para fixar a TJLP o governo trabalha com o horizonte de um a 10 anos, que corresponde ao período da maior parte dos financiamentos do BNDES. A TJLP é a taxa utilizada pelo BNDES para corrigir os financiamentos do banco e é fixada a cada três meses pelo CNM.

15- Economia deve registrar em 2010 maior crescimento em 24 anos, diz Mantega
GIULIANA VALLONE 03/09/2010 - 13h34 DE SÃO PAULO O crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) tende a desacelerar no segundo semestre, na avaliação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, mas, com o crescimento registrado na primeira metade do ano, já é possível "assegurar pelo menos 7% de expansão em 2010. "Podendo ser até maior. Com essa variação, teríamos o maior crescimento do PIB em 24 anos", afirmou o titular da pasta nesta sexta-feira ao comentar o desempenho da economia brasileira. Para Mantega, o segundo semestre deve ter um aumento menor, entre 5% e 5,5%, expansão que, fez questão de ressaltar, não gera inflação. "No ano, será um resultado excelente, com crescimento maior e inflação menor", disse. O PIB, que mostra o comportamento de uma economia, é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país em um certo período --é formado pela indústria, agropecuária e serviços. O PIB também pode ser analisado a partir do consumo, ou seja, pelo ponto de vista de quem se apropriou do que foi produzido. Neste caso, é dividido pelo consumo das famílias, pelo consumo do governo, pelos investimentos feitos pelo governo e empresas privadas e pelas exportações.

PÉ NO ACELERADOR
Depois de forte expansão no primeiro trimestre, a economia brasileira tirou o pé do acelerador e cresceu 1,2% no segundo trimestre, na comparação com os três meses imediatamente anteriores, de acordo com dados relativos ao PIB. No primeiro trimestre, o PIB havia apresentado incremento de 2,7% em relação ao quarto trimestre de 2009, impulsionado principalmente pelo desempenho da indústria e investimentos. Em relação a igual período em 2009, a economia avançou 8,8%. Ao todo, a economia movimentou R$ 900,7 bilhões no segundo trimestre. No acumulado dos últimos 12 meses, a economia teve expansão de 5,1%, em relação a igual período imediatamente anterior.

ESTIMATIVA
O crescimento do PIB no segundo trimestre, de 1,2%, superou as estimativas do governo. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, havia afirmado que acreditava em uma alta entre 0,5% a 1%. O resultado do trimestre passado ficou mais próximo do que havia indicado o Banco Central no IBC-Br (Índice de Atividade do BC), divulgado no início do mês, quando estimou

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que a atividade econômica havia crescido 1,32% no segundo trimestre de 2010 em relação ao trimestre anterior, no segundo trimestre seguido de desaceleração.

INVESTIMENTOS
O investimento, medido pela chamada FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo), subiu 26,2% de janeiro a junho frente os seis primeiros meses de 2009. No segundo trimestre, se comparado aos três meses imediatamente anteriores, houve crescimento de 2,4%; Em relação a igual trimestre em 2009, o IBGE aponta alta de 26,5%, a maior alta desde o início da série histórica em 1996. A taxa de investimento representou 17,9% da formação do PIB no segundo trimestre.

SETORES
O setor industrial teve avanço de 14,2% no primeiro semestre. No segundo trimestre, apresentou aumento de 1,9% frente ao primeiro trimestre; na comparação com igual período em 2009, houve avanço de 13,8%. Já o setor de serviços registrou incremento de 5,7% sobre o primeiro semestre de 2009. Em relação ao primeiro trimestre, o PIB dos serviços aumentou 1,2%; em relação ao segundo trimestre de 2009, observou-se incremento de 5,6%. O setor agropecuário teve desempenho 8,6% superior nos primeiros seis meses deste ano, em relação a período correspondente no ano passado. No segundo trimestre, a elevação perante ao trimestre anterior foi de 2,1%; em relação ao período de abril a junho de 2009, a agropecuária teve alta de 11,4%. O consumo das famílias registrou incremento de 8% no primeiro semestre. No segundo trimestre, quando confrontado com os três meses imediatamente anteriores, nota-se alta de 0,8%; na comparação com o mesmo intervalo no ano passado, foi verificada alta de 6,7%. O consumo do governo cresceu 3,6% no primeiro semestre, segundo o IBGE. No segundo trimestre, foi notado avanço de 2,1% frente aos três meses imediatamente anteriores; na comparação com o mesmo intervalo no ano passado, houve alta de 5,1%.

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