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Crédito Tributário

O documento aborda aspectos gerais do crédito tributário, incluindo sua definição, constituição através do lançamento e as relações entre obrigação e crédito tributário. Também discute a suspensão, extinção e exclusão do crédito tributário, além das garantias e privilégios associados. Cada seção é acompanhada de definições técnicas e exemplos práticos, conforme a legislação vigente.

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Ricardo Souto
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O documento aborda aspectos gerais do crédito tributário, incluindo sua definição, constituição através do lançamento e as relações entre obrigação e crédito tributário. Também discute a suspensão, extinção e exclusão do crédito tributário, além das garantias e privilégios associados. Cada seção é acompanhada de definições técnicas e exemplos práticos, conforme a legislação vigente.

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📘1 – Aspectos Gerais, Constituição e Lançamento do Crédito

Tributário
📌 1. Crédito Tributário: Conceito e Natureza
●​ Crédito tributário = direito do Estado de exigir o cumprimento da obrigação tributária
principal (pagamento de tributo ou penalidade pecuniária).​

●​ Surge após o lançamento, sendo a “face exigível” da obrigação.​

●​ Inclui tributos e multas.​

●​ Decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta (CTN, art. 139).​

📌 2. Relação entre obrigação e crédito tributário


●​ Modificações no crédito tributário não afetam a obrigação tributária (CTN, art. 140).​

📌 3. Constituição do Crédito Tributário: o Lançamento


●​ Lançamento é o procedimento administrativo que constitui o crédito tributário.​

●​ Envolve:​

○​ Verificação do fato gerador;​

○​ Determinação da matéria tributável;​

○​ Cálculo do tributo;​

○​ Identificação do sujeito passivo;​

○​ Aplicação de penalidade, se cabível (CTN, art. 142).​

●​ O lançamento não cria a obrigação, apenas a torna exigível.​

📌 4. Natureza Jurídica do Lançamento


●​ Mista:​

○​ Declaratória: reconhece o fato gerador (efeitos ex tunc).​

○​ Constitutiva: constitui o crédito (efeitos ex nunc).​


📌 5. Competência para o Lançamento
●​ Competência privativa da autoridade administrativa designada por lei.​

●​ Vedadas: delegação, avocação e realização por juiz.​

●​ Obrigatoriedade: atividade vinculada e obrigatória (CTN, art. 142, parágrafo único).​

📌 6. Modalidades de Lançamento
●​ Direto/de ofício: feito pela administração, sem colaboração do contribuinte.​

●​ Por declaração: contribuinte fornece dados e a autoridade apura o valor.​

●​ Por homologação: contribuinte antecipa pagamento, sujeito à homologação posterior da


autoridade.​

📌 7. Legislação Aplicável ao Lançamento


●​ Material (substancial): vigente na data do fato gerador (efeito ex tunc).​

●​ Formal (procedimental): norma processual vigente à época do lançamento (efeito


imediato).​

●​
●​
📌 8. Princípios envolvidos
Irretroatividade tributária: lei nova não se aplica a FG anteriores.​

●​ Ultratividade: aplica-se lei revogada se vigente no momento do FG.​

Dicionário Técnico
Termo/Expressão Significado

Crédito tributário Direito subjetivo do Fisco à exigência de tributo ou penalidade pecuniária

Obrigação tributária principal Dever de pagar tributo ou multa

Lançamento Procedimento que torna exigível o crédito tributário

Natureza mista Componente declaratório + constitutivo

Efeito ex tunc Efeito retroativo (desde o fato gerador)

Efeito ex nunc Efeito prospectivo (da constituição do crédito em diante)

Legislação material Regras do tributo (fato gerador, alíquota, etc.)

Legislação formal Regras processuais aplicáveis ao lançamento

Competência privativa Apenas autoridade legalmente designada pode lançar tributo

Ultratividade Aplicação de lei revogada a FG pretérito

Irretroatividade Proibição de aplicar nova lei a FG passado


📘2 - Suspensão da Exigibilidade do Crédito Tributário
📌 1. Conceito e Consequência
●​ Suspensão = impossibilidade de cobrança do crédito tributário enquanto durar a causa
suspensiva.​

●​ Não extingue o crédito, nem impede o lançamento.​

●​ Obrigações acessórias continuam exigíveis.​

📌 2. Fundamento Legal
●​ Prevista no art. 151 do CTN.​

●​ Deve ser interpretada literalmente (exegese restritiva).​

📌 3. Hipóteses Legais de Suspensão


1. Moratória
●​ Dilação legal do prazo para pagamento.​

●​ Pode ser:​

○​ Geral: concedida por lei para todos os contribuintes.​

○​ Individual: mediante despacho da autoridade, autorizada por lei.​

●​ Subtipos:​

○​ Autônoma: concedida por quem tem competência sobre o tributo.​

○​ Heterônoma: União concede junto com obrigações de natureza privada e de outros entes.​

2. Depósito do montante integral


●​ Para suspender a exigibilidade, o valor deve ser depositado integralmente em juízo.​

●​ Deve ser judicial e integral, não parcial nem administrativo.​

3. Reclamações e recursos administrativos


●​ Quando interpostos dentro do prazo legal, suspendem a exigibilidade.​

●​ Aplica-se somente no processo administrativo tributário.​

4. Liminar em mandado de segurança


●​ Concessão de liminar judicial em MS suspende a exigibilidade enquanto perdurar.​
5. Liminar/tutela antecipada em outras ações
●​ Ações ordinárias, declaratórias, anulatórias etc. também podem gerar suspensão mediante
decisão judicial.​

6. Parcelamento
●​ Concede-se a suspensão desde a formalização até a inadimplência.​

📌 4. Importante: Suspensão e Lançamento


●​ É possível suspender antes do lançamento: o Fisco lança, mas não pode cobrar.​

●​ Isso evita a decadência do direito de lançar.​

Dicionário Técnico
Termo/Expressão Significado

Suspensão da exigibilidade Impede temporariamente a cobrança do crédito tributário

Moratória Prorrogação legal do prazo para pagamento

Depósito do montante integral Depósito judicial de 100% do valor devido, com efeito suspensiv

Reclamação administrativa Contestação do lançamento no âmbito administrativo

Liminar Decisão provisória concedida por juiz antes da sentença final

Parcelamento Acordo formal para pagamento fracionado do crédito tributário

Interpretação literal Regra de hermenêutica que exige leitura restritiva da norma

Lançamento Ato administrativo que constitui o crédito tributário

Decadência Perda do direito de lançar por decurso do prazo legal

🔄 Mnemônico para memorização:


MORDER e LIMPAR
●​ MORatória​

●​ DEpósito integral​

●​ Reclamações e recursos​

●​ LIMinar em MS​

●​ PARcelamento
📘3 – Extinção do Crédito Tributário
📌 1. Conceito
●​ Extinguir = encerrar definitivamente a obrigação do contribuinte.​

●​ Causas listadas no art. 156 do CTN.​

●​ Exige previsão legal expressa.​

●​ Regra: rol do art. 156 é taxativo (numerus clausus) para fins de concurso.​

📌 2. Hipóteses Legais de Extinção (CTN, art. 156)


1. Pagamento
●​ Forma ordinária e mais comum.​

●​ Regras específicas:​

○​ Feito em moeda corrente, cheque (eficácia só com compensação), vale postal etc.​

○​ Pagamento antecipado pode ter desconto (somente por lei).​

○​ Estampilha, papel selado ou processo mecânico são formas indiretas.​

○​ Não há presunção de quitação de outros débitos.​

○​ Mora ex re: inadimplência gera efeitos automáticos (juros, multa).​

2. Compensação
●​ Encontro de créditos e débitos entre contribuinte e Fisco.​

●​ Depende de lei autorizadora e de requisitos de liquidez e certeza.​

3. Transação
●​ Acordo entre Fisco e contribuinte para extinguir ou reduzir crédito.​

●​ Depende de lei específica autorizando.​

4. Remissão
●​ Perdão legal de débito tributário.​

●​ Também depende de lei específica.​

5. Prescrição
●​ Perda do direito de cobrar judicialmente (prazo: 5 anos após constituição definitiva).​
6. Decadência
●​ Perda do direito de lançar (prazo: 5 anos do fato gerador, salvo exceções).​

7. Conversão de depósito em renda


●​ Valor depositado em juízo é revertido definitivamente à Fazenda Pública.​

8. Pagamento antecipado com homologação


●​ Típico do lançamento por homologação.​

●​ Extinção só se completa com homologação expressa ou tácita (5 anos).​

9. Consignação em pagamento
●​ Quando há dúvida ou impedimento quanto ao pagamento direto ao Fisco.​

10. Decisão administrativa irreformável


●​ Decisão definitiva na esfera administrativa favorável ao contribuinte.​

11. Decisão judicial com trânsito em julgado


●​ Sentença definitiva que reconhece inexistência ou quita o crédito.​

12. Dação em pagamento em bens imóveis


●​ Entrega de imóveis como forma de quitação, desde que autorizada por lei.​

📌 3. Observações Importantes
●​ Bens móveis não podem ser usados para dação (inconstitucionalidade).​

●​ Mesmo em pagamento, podem coexistir multa + tributo (art. 157 CTN).​

●​ A definição de prazo para pagamento não depende de lei (RE 195.218/MG – STF).​
🧠 Mnemônico para Extinção:
"PCT RPP CPCCD DD"​
Dica: imagine um "Cartão Rápido do Crédito Público com Código Duplo" – ajuda a lembrar a
sequência.
Desenvolvendo o mnemônico:
●​ P – Pagamento​

●​ C – Compensação​

●​ T – Transação​

●​ R – Remissão​

●​ P – Prescrição​

●​ P – Decadência (Prazo de lançamento)​

●​ C – Conversão em renda​

●​ P – Pagamento com homologação​

●​ C – Consignação​

●​ D – Decisão administrativa irreformável​

●​ D – Decisão judicial com trânsito​

●​ D – Dação em pagamento (bens imóveis)​

Dicionário Técnico
Termo/Expressão Significado

Extinção Desaparecimento definitivo do crédito tributário

Mora ex re Inadimplemento gera consequências automáticas

Compensação Quitação de débito com crédito equivalente

Transação Acordo entre Fisco e contribuinte

Remissão Perdão legal de crédito tributário

Prescrição Perda do direito de cobrar

Decadência Perda do direito de constituir o crédito

Homologação Confirmação do pagamento pelo Fisco (explícita ou tácita)

Consignação Depósito judicial feito para quitar tributo em caso de controvérsia

Dação em pagamento Entrega de bem imóvel em substituição ao pagamento em dinheiro


📘 4 – Exclusão do Crédito Tributário
📌 1. Conceito
●​ A exclusão impede a constituição do crédito tributário, mesmo que o fato gerador tenha
ocorrido.​

●​ Não se confunde com extinção: não há constituição do crédito, portanto não há o que extinguir.​

●​ Fundamento legal: art. 175 do CTN.​

●​ Requer interpretação literal e lei específica (CF, art. 150, §6º).​

📌 2. Efeitos
●​ Não dispensa obrigações acessórias.​

●​ Não atinge crédito já constituído (regra).​

●​ Depende de previsão legal anterior ao lançamento.​

📌 3. Hipóteses Legais de Exclusão


1. Isenção
●​ Dispensa legal do pagamento de tributo devido.​

●​ Requisitos:​

○​ Necessita lei específica.​

○​ Pode ser geral (abrange todos os contribuintes) ou individual (condicionada à comprovação).​

●​ Vedada a isenção heterônoma:​

○​ Um ente não pode isentar tributo de outro (CF, art. 151, III).​

●​ Pode haver isenção regional pela União para equilíbrio socioeconômico (princípio da uniformidade
geográfica).​

●​ Não se presume:​

○​ Não se estende a taxas ou contribuições, nem a tributos futuros, salvo se a lei permitir (CTN,
art. 177).​
2. Anistia
●​ Dispensa legal da multa tributária (não do tributo).​

●​ Pode abranger:​

○​ Infrações formais: mesmo sem crédito constituído.​

○​ Infrações materiais: exige que o crédito ainda não tenha sido pago.​

●​ Depende de lei específica.​

●​ Também pode ser geral ou individual.


●​ ​

🧠 Mnemônico para Exclusão:


"IA = Impede a Arrecadação"​
Ou lembre-se de: “Exclusão é I.A. — Isenção e Anistia”
●​ I – Isenção → dispensa de tributo​

●​ A – Anistia → dispensa de multa​

📌 4. Comparativo com Extinção e Suspensão


Elemento Exclusão Extinção Suspensão

Crédito constituído? Não Sim Sim

Exige lei específica? Sim Em regra, sim Sim

Efeitos Impedir o nascimento do Eliminar crédito existente Impedir a exigibilidade


crédito

Obrigações acessórias Mantidas Em regra, cessam Mantidas

Dicionário Técnico
Termo/Expressão Significado

Exclusão do crédito Impede a constituição do crédito, mesmo após o fato gerador

Isenção Dispensa legal do tributo devido

Anistia Perdão legal das penalidades (multas)

Isenção heterônoma Concedida por ente diverso do competente – vedada pela CF

Uniformidade geográfica União pode conceder benefícios fiscais regionalizados

Lei específica Requisito constitucional para concessão de isenção/anistia


📘5 – Garantias e Privilégios do Crédito Tributário
📌 1. Conceito
●​ Garantias: mecanismos legais para assegurar o recebimento do crédito tributário.​

●​ Privilégios: preferência de pagamento em relação a outros créditos do devedor.​

Fundamento Legal: art. 183 e seguintes do CTN.

📌 2. Garantias do Crédito Tributário


🔹 Natureza Exemplificativa
●​ CTN, art. 183: o rol não é taxativo — outras garantias podem ser previstas por lei.​

🔹 Garantias não alteram a natureza da obrigação tributária


●​ Ex: mesmo garantido por hipoteca, o crédito tributário não vira crédito hipotecário.​

🔹 Exemplo de garantia legal extra CTN:


●​ Depósito prévio ou hipoteca como condição para benefício fiscal (desde que previsto em lei).​

📌 3. Universalidade da Cobrança (CTN, art. 184)


●​ O crédito tributário pode ser cobrado sobre todos os bens e rendas do sujeito passivo:​

○​ Mesmo os bens onerados por hipoteca, inalienáveis ou com cláusulas contratuais.​

●​ Exceção: bens absolutamente impenhoráveis por lei (ex: art. 833 do CPC).​

📌 4. Presunção de Fraude à Execução (CTN, art. 185)


●​ Alienação ou oneração de bens, após inscrição em dívida ativa, sem reserva suficiente, é
fraudulenta.​

●​ Presunção absoluta (não admite prova em contrário).​

●​ Inclui oneração (ex: nova hipoteca).​

📌 5. Indisponibilidade de Bens (CTN, art. 185-A)


●​ Após o ajuizamento da execução fiscal, se o juiz verificar indícios de que o devedor está se
desfazendo de bens, pode decretar indisponibilidade, antes mesmo de citação.​
📌 6. Privilégios do Crédito Tributário (CTN, art. 186)
●​ O crédito tributário é preferencial em relação a quase todos os outros, com ressalvas:​

○​ Execução judicial: preferente à maioria.​

○​ Execução falimentar: não prefere aos créditos com garantia real (hipoteca, penhor, anticrese).​

●​ Privilégios também podem ser gerais (sobre todo o patrimônio) ou especiais (sobre bens
específicos).​

🧠 Mnemônico para lembrar do pacote:


“FUI PIG”​
(Fraude, Universalidade, Indisponibilidade, Privilégio, Garantias)
●​ F – Fraude à execução (art. 185)​

●​ U – Universalidade da cobrança (art. 184)​

●​ I – Indisponibilidade de bens (art. 185-A)​

●​ P – Privilégios do crédito tributário (art. 186)​

●​ G – Garantias legais (art. 183 e ss.)​

🟩 Tabela Comparativa – Preferência de Créditos


Situação Crédito Tributário tem preferência?

Execução judicial comum ✅ Sim, preferência sobre a maioria dos créditos


Execução falimentar ❌ Não prefere aos créditos com garantia real
Bem gravado com hipoteca ❌ Garantia real tem preferência
Bens voluntariamente impenhoráveis ✅ Crédito tributário atinge esses bens

Bens legalmente impenhoráveis ❌ Crédito tributário não os atinge


Dicionário Técnico
Termo/Expressão Significado

Garantia tributária Mecanismo que assegura a cobrança do tributo

Privilégio tributário Preferência de recebimento sobre outros credores

Universalidade da cobrança Totalidade dos bens e rendas responde pela dívida

Fraude à execução fiscal Alienação ou oneração de bens após inscrição em dívida


ativa

Indisponibilidade de bens Decretação judicial que impede o devedor de dispor dos bens

Crédito com garantia real Crédito garantido por penhor, hipoteca ou anticrese

Bem absolutamente impenhorável Bem que a lei proíbe que seja penhorado (ex: salário)

🎯 Resumo final: garantias e privilégios tributários fortalecem o poder de cobrança do Estado,


permitindo atingir até mesmo bens que, em regra, não responderiam por outras dívidas — com exceções.
🕵️‍♂️HISTÓRIA: “OS TRIBUTOS DE CÉSAR DO
IMPOSTOLÂNDIA S/A”
Ato I – A Arte de Enrolar (Fato Gerador e a Obrigação)
César B. Malasombra, CEO da promissora “Impostolândia S/A”, resolveu aumentar seus lucros
sonegando impostos com a mesma criatividade de quem lava dinheiro vendendo coxinha gourmet a
R$ 500.​
Na terça-feira, às 15h37, sua empresa vendeu R$ 1 milhão em produtos eletrônicos sem emitir uma
mísera nota fiscal. O contador, Sr. Tô Nem Aí, alertou:

— Isso aí vai gerar uma obrigação tributária, chefia.​


— Obrigação? Só se for moral, respondeu César, abrindo um vinho argentino comprado com CPF do
sobrinho.

Nasceu então, do fundo pantanoso da contabilidade criativa, a obrigação tributária principal: pagar
imposto sobre aquela venda. Mas, como sempre, ninguém deu bola.

Ato II – A Chegada da Maldição (Lançamento)


Meses depois, um auditor fiscal conhecido como “Carrasco”, com olhar de quem já viu planilha do
Excel do inferno, bateu à porta da empresa.

— Vim lançar.

E não era um livro, era o lançamento tributário de ofício: identificou a venda, calculou o imposto
devido e cravou um valor na testa do contribuinte.​
César, revoltado, gritou:

— Isso é perseguição!​
— Não. É lançamento com efeito constitutivo e declaratório, respondeu o fiscal, tomando um café e
deixando um carnê de cobrança que parecia um boleto de faculdade de medicina.

Ato III – A Cômica Ilusão da Suspensão


César, buscando escapar da guilhotina, correu até o contador e gritou:

— Suspende essa p*#%!

Eis as opções que surgiram:

●​ Pediu moratória — foi negada (não era ano eleitoral).​

●​ Tentou um parcelamento — e pagou uma só parcela.​

●​ Entrou com mandado de segurança — e conseguiu uma liminar com validade menor que
cupom de fast food.​

●​ Fez um depósito judicial integral — por engano, porque confundiu com sinal de um
apartamento.​
Por um breve período, o crédito ficou com a exigibilidade suspensa. Mas como nada foi levado a
sério, a suspensão caiu. O leão voltou com fome.

Ato IV – A Tática do Perdão (Exclusão e Extinção)


O contador teve outra ideia:

— E se tentarmos uma exclusão?

Pediram isenção, mas era um tributo estadual, e a empresa atuava em seis estados e dois paraísos
fiscais — logo, isenção heterônoma? Rejeitada.

— E anistia?

Infelizmente, as multas já tinham sido aplicadas, e não havia campanha de anistia em vigor. Tentaram
alegar que foi tudo uma “ação cultural”, mas o fiscal respondeu:

— Isso é fraude com nome de TED.

Sem saída, César tentou a extinção do crédito pela via clássica: pagamento parcial e espera da
prescrição. O problema? Pagou com cheque pré-datado do Banco das Ideias Ruins, e o resto
esperava que o tempo apagasse.​
O prazo prescricional bateu, mas antes disso, o auditor já tinha ajuizado a execução.

Ato V – A Desgraça é Preferencial (Garantias e Privilégios)


Veio a fase da execução fiscal. E aí, o pau quebrou.

Descobriram que César vendeu seus bens para a sogra dois dias após inscrição em dívida ativa. O
Ministério Público riu com gosto:

— Isso aqui é fraude à execução, bebê!

Todos os bens foram bloqueados via indisponibilidade, inclusive uma Kombi azul usada para
“ações de marketing”.

— Mas isso é inconstitucional! – gritou César.​


— Aqui é CTN, meu caro, e o crédito tributário tem privilégio até sobre tua bicicleta, respondeu o
juiz.

Para piorar, o imóvel dado em garantia ao banco tinha hipoteca anterior. Resultado: o crédito com
garantia real passou na frente.​
O Fisco ficou com o que sobrou: um lote em Marte no metaverso e uma coleção de bonecos do Pelé.

Epílogo – Moral da História


No fim, o crédito tributário foi cobrado na marra, com privilégio, sem perdão e com o
contribuinte morando de aluguel no nome da prima.

César hoje dá palestras motivacionais sobre “como a carga tributária impede o empreendedorismo”,
mas nunca conta essa história direito. Já o auditor Carrasco… foi promovido.

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