De caboclo à índio

DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO

DE CABOCLO A ÍNDIO: Etnicidade e organização social e política entre povos indígenas contemporâneos no nordeste do Brasil; o caso Kapinawá José Augusto Laranjeiras Sampaio

À guisa de apresentação

Por: Maria Rosário de Carvalho

Este texto, elaborado há duas décadas e meia como projeto de pesquisa para a Unicamp, no âmbito da qual o seu autor cursava o mestrado, obteve uma bolsa-prêmio

Este ensaio foi originalmente apresentado em 1986 como projeto de pesquisa ao curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), tendo então obtido "bolsa-prêmio" de pesquisa desse programa. Em 2001 atualizei algumas informações legislativas e etnográficas, quase sempre em notas de rodapé. Por fim, em 2011, fiz pequenas modificações de caráter estilístico apenas.  Bacharel em Ciências Sociais (Antropologia) pela Ufba. Professor de Antropologia na Uneb (Universidade do Estado da Bahia). Membro da coordenação do curso de Licenciatura Intercultural em Educação Escolar Indígena (Liceei) da Uneb. Secretário do Conselho Diretor e sócio fundador da Anaí (Associação Nacional de Ação Indigenista). Pesquisador associado do Leme e do Pineb (Programa de Pesquisa Povos Indígenas no Nordeste do Brasil, Ufba).

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criada por essa instituição para os melhores projetos de pesquisa apresentados ao final da realização das disciplinas, assim como logrou a aprovação de uma bolsa junto à FAPESB, usufruindo de ambas, respectivamente, em 1986-1987 e 1987-1988. Esse êxito preliminar se estenderia pela década seguinte, inaugurando uma nova fase nos estudos sobre os povos indígenas no Nordeste. As dissertações então produzidas ao abrigo do Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro (PINEB), criado por Pedro Agostinho e sediado, desde 1971 (sob a denominação preliminar de Projeto de Pesquisa sobre Populações Indígenas da Bahia), no Departamento de Antropologia e Etnologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, foram por ele muito inspiradas, o que lhe dá um caráter de texto-formador. Inédito até agora, em boa hora o editor dos Cadernos do Leme, Rodrigo Azeredo Grünewald, decidiu publicá-lo, o que constitui um testemunho adicional da sua força entre antropólogos que compartilham o interesse pelo contexto etnográfico do nordeste. O jovem leitor que não o leu e, portanto, por ele não se deixou inspirar, haverá de indagar se um texto escrito em 1986, e sobre temática particularmente permeável a determinações de variadas ordens, terá resistido à ação do tempo. Estou segura que sim, e tentarei, ao longo desta deliberadamente sucinta apresentação, explicitar a minha posição. Dois aspectos se me afiguram especialmente relevantes neste projeto/ensaio, cujo propósito, claramente enunciado em seu longo e descritivo título, é duplo, i.e., tratar da etnicidade e da organização política de povos contemporâneos no nordeste brasileiro, tomando como eixo-condutor a sua transformação histórica (de caboclo a índio) e estreitando o foco para se deter pouco mais no caso do povo Kapinawá. Um duplo movimento, pois, em que o geral dá lugar ao particular ou específico, um informando ao outro de modo complementarmente relacional, mediante o concurso da história, na diacronia e sincronia. Se a especificidade do contexto etnográfico investigado revela-se na diacronia, as suas peculiaridades deixam-se surpreender na sincronia, como parece enfatizar o autor, nas primeiras linhas. Especificidade (histórica) e peculiaridade (cultural) constituem os dois aspectos acima referidos que serão tematizados ao longo do ensaio, não obstante a ênfase incida sobre o primeiro. O caso peculiar, assim apreendido, não corre o risco, tão frequente, de ser tomado como exótico ou decorrente de uma ação meramente instrumental por parte dos agentes sociais. Por outro lado, um outro aspecto a ser destacado decorre do deslocamento teórico que ele opera em relação à abordagem culturalista que, sob vários ângulos, guiou, em larga

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medida, os estudos produzidos entre as décadas de 1970-1980, entre os quais se inclui a minha própria dissertação de mestrado sobre os Pataxó de Barra Velha/Porto Seguro-BA, muito inspirada nas formulações de Roberto Cardoso de Oliveira sobre a fricção interétnica (Os Pataxó de Barra Velha: seu subsistema econômico, 1977). É necessário lembrar, todavia, que a pretensão de Cardoso de Oliveira ao lançar mão dessa abordagem, cujo foco é o sistema de relações sociais, as relações de conflito/poder estabelecidas, era reduzir a força da perspectiva culturalista. Nesse sentido, como o próprio autor enfatizou, muito genuinamente, não foi por outra razão que ele utilizou o conceito de fricção interétnica e não o de aculturação1 (“Problemas e Hipóteses relativos à Fricção Interétnica” In: A Sociologia do Brasil Indígena,1972. p. 85-129. De fato, a noção de fricção interétnica visava à descrição da situação de contato dos povos já incluídos em sistemas interétnicos constituídos ou em processo de constituição, ao passo que a noção de potencial de integração – características do sistema interétnico (econômicas, sociais e políticas) passíveis de serem consideradas como as responsáveis pela integração (p. 89) – asseguraria ao pesquisador efetuar o prognóstico. Mediante a avaliação conjunta do grau de dependência indígena dos recursos econômicos não indígenas; da capacidade dos grupos em contato (indígenas e regionais) para a mobilização com vistas a determinados fins; e dos meios escolhidos para atingir tais fins (p. 88-97) seria possível prever a integração dos índios ao contexto regional. Há, pois, uma correlação entre sistemas interétnicos mais integrados e sociedades indígenas mais dependentes dos contextos regionais, o que permitirá ao autor apreender a determinação do mercado sobre as organizações indígenas, em razão mesmo de ele se apresentar como um grande obstáculo para o seu desenvolvimento (idem, p. 139). Guga Sampaio preconizará que se os apreenda, de modo sistemático, através da mobilização política que eles desenvolviam, e continuam a desenvolver, nos planos interno e externo, para o que utilizavam, e continuam a utilizar, os símbolos indígenas considerados mais eficazes para o estabelecimento da sua distinção em face dos não índios. Entre esses símbolos destacavam-se, tal como ainda hoje, os rituais, sob as modalidades Ouricouri, Praiá, Toré ou Particular e, sobretudo, o uso ritual da jurema. Estudos subsequentes salientariam a especial força ritual na mobilização étnica dos povos indígenas no nordeste. Mais não digo para não retirar do leitor o direito de proceder às suas próprias descobertas e avaliações através da fonte efetivamente autorizada, o autor, a quem saúdo,
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Afinal, nessa década de setenta a oposição sociedade/cultura, entre outras distinções Durkheimianas, havia sido erradicada pela antropologia Lévi-Straussiana.

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vol. Outros respondem a inquietações múltiplas e constituem sínteses provisórias em uma trajetória mais rica. Jul. um texto erudito que investe no levantamento de fontes históricas e bibliográficas até então pouco frequentadas pelos antropólogos. Campina Grande. Destacase sobretudo o esforço do pesquisador efetivamente empenhado em ouvir os indígenas e tomá-los como sujeitos históricos. As remissões ao contexto histórico onde foram produzidos parecem supérfluas. 2011. que expressam uma dimensão bem diversa do fazer sociológico. O que posso fazer nesta breve nota introdutória. 3. Associada. neles o autor se esmera em colocar vírgulas. como ainda era a perspectiva dominante no Brasil). refletindo sobre as suas criações (ao invés de naturalizálos ou exotizá-los. São. Salvador. deve a meu ver ser lido com mais fecundidade nesta segunda sintonia. tanto na seleção e apropriação das fontes bibliográficas quanto das formulações produzidas. pelo arrojo e rigor demonstrados na elaboração deste projeto/ensaio. FFCH-UFBA Uma antropologia política dos indígenas do nordeste? Por: João Pacheco de Oliveira Alguns textos devem ser lidos como unidade pois o autor neles colocou um reconhecível ponto final. Na contramão do ponto final. é tocar Cadernos do LEME. pontuada por desafios e lutas. p. dialogar e inspirar-se permanentemente com novas demandas e questões. deixar portas entreabertas. mera curiosidade. 91 . que o LEME ora disponibiliza aos leitores contemporâneos. como diria Pierre Bourdieu. uma ampla gama de referências teóricas até aquele momento bem pouco conhecidas e citadas nos estudos sobre indígenas do nordeste. É uma leitura prazerosa. de José Augusto Laranjeira Sampaio. de Antropologia.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO uma vez mais. nº 2. Depto. 31 de dezembro de 2011 Maria Rosário de Carvalho Profa. 88 – 191. O trabalho De Caboclo a Índio: etnicidade e organização social e política entre povos indígenas contemporâneos no nordeste do Brasil: o caso Kapinawá./dez. atos de combate. Muito se pode aprender com este texto! Seria uma tarefa inesgotável e mesmo insana recuperar os seus muitos méritos e buscar aplicá-los a debates recentes.

própria de um leitor voraz e meticuloso). Ou seja. 3. Nos anos seguintes várias vezes este curso foi ministrado no MN. 1966. vol. Fogelson. Turner. O programa incorporava no entanto outras preocupações (ausentes naquelas coletâneas). Raymond & Adams. Neste ano à convite de Mariza 2 Vide Swartz. Swartz. p.Political Anthropology. publicada em 1988. (Eds) – Political Anthropology. Victor. and Tuden. os vinte e cinco anos que nos separam da elaboração deste texto./dez. Richard Adams e Raymond Fogelson) que a partir de duas coletâneas do final dos anos 60 e de outra na década seguinte. 2011. debatendo com diversos autores ingleses e norteamericanos (como Victor Turner. em 1978. possam ajudá-lo a percorrer ao reverso. Marc Swartz. espero. tese de doutorado defendida somente em 1986. 88 – 191. Campina Grande. conectando a disciplina de “antropologia política” no Brasil aos trabalhos dos africanistas ingleses (Evans-Pritchard e Fortes) e mais especialmente a chamada “escola de Manchester” (sobretudo Max Gluckman) bem como aos estudos sobre etnicidade (Fredrik Barth). 1978). São aspectos que podem surpreender ao leitor atual e. Richard . Jul. inspirando trabalhos de pesquisa não necessariamente relacionados com indígenas (inclusive vários destes são citados por Sampaio em sua alentada bibliografia. É em uma direção bem diversa que se move Sampaio (1986). O uso mais sistemático dessa bibliografia na pós-graduação no Brasil iniciou-se com um curso oferecido no PPGAS/Museu Nacional. O leitor atual certamente buscará uma unidade teórica de referência. b) os trabalhos mais sociológicos (baseados na noção de fricção interétnica). seja naquele contexto de produção do texto seja em ocasiões posteriores em que as nossas trajetórias se entrecruzaram. 1969. nº 2. Foi esta a abordagem que norteou a minha monografia sobre os Ticunas. 92 . A. enquanto Otávio Velho seguia em outras direções.Marc. Eu alternava esta disciplina com o curso que oferecia sobre “relações interétnicas”. foram com certa frequência agrupados sob o rótulo de “antropologia política” 2. a sua análise não se inscreve de maneira alguma em escolhas anteriores e então facilmente acessíveis. ou c) as analises baseadas no método estruturalista (na época ainda iniciantes no Brasil e circunscritas aos trabalhos de Roberto da Mata). Cadernos do LEME. a partir de que matrizes disciplinares (para recuperar aqui uma expressão de Roberto Cardoso de Oliveira) o autor constitui seu objeto e propõe as questões antropológicas a investigar? Embora dialogue amplamente. Tais alternativas seriam: a) a tradição dos estudos culturalistas (onde a categoria de aculturação imperava por décadas). não como história mas como arqueologia. mas terminada de fato em 1984.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO em pontos que me aproximam bastante do seu autor em termos de postura intelectual e política. Marc – Local level politics. ministrado por Otávio Velho e por mim (então como professor assistente e doutorando).

mas o homem em sua trajetória). acho eu. Jul. em texto citado por Guga (como “manuscrito”) e que de fato não cheguei a publicar. pensando incorporá-las a partir de uma experiência de campo (que faria em Pernambuco./dez. 2011. vol. sendo recomendado para publicação na RBCS (o que acabou acontecendo em 1996. em uma editada pela ANPOCS). então coordenadora da pós-graduação da UNICAMP. bastante visível no projeto de pesquisa que concluiu dois anos depois. com os Capinawás). O mote porém da antropologia política (ao menos na versão abrasileirada) estava. Campina Grande. o que antecipava um importante debate futuro sobre identidades étnicas e modalidades de reconhecimento. A única ocasião em que lidara anteriormente com dados e estudos dessa procedência fora no âmbito de um estudo comparativo sobre os indígenas enquanto uma modalidade de campesinato de fronteira. 93 . A comunicação apresentada por Guga. seja nas discussões durante os seminários seja em conversas informais. O mesmo viés analítico pode ser encontrado no trabalho de Adalberto Rizzo de Oliveira. onde se beneficiava do convívio com Pedro Agostinho e Rosário Carvalho). Estimulado pela qualidade das pesquisas ali em andamento propusemos um GT na ANPOCS onde vieram a cruzar-se pela primeira vez os estudos de coletividades indígena do nordeste com os então iniciantes estudos sobre quilombolas. Em movimento simultâneo Guga começava a sistematizar suas fontes de informação sobre os índios da Bahia (advindas da ANAI-BA e do PINEB/UFBA. 3. O uso do termo “antropologia política” progressivamente se esgarçou3. 88 – 191. reelaborando o seu material Capinawá. em 1994. ministrando a disciplina “relações interétnicas”. Além das demandas práticas sobre os antropólogos – laudos judiciais e relatórios de identificação de terras – havia uma forte importante convergência teórico-bibliográfica nestes estudos. nº 2. seu colega de turma. Moacir Palmeira e aos trabalhos do Cadernos do LEME. foi um destaque deste GT. referida sobretudo ao prof. Aprendi com ele muito sobre os índios do nordeste. em monografia muito posterior. pois aqui entra em cena não apenas o autor. p. Dez anos depois do curso na UNICAMP. eu dei um curso naquela instituição. agora também em vias de publicação.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Correa. voltei a debater mais extensamente com Guga e colegas de ANAI e PINEB durante um período que estive na UFBA como professor-visitante. quando vim a ali conhecer Guga (permito-me chamá-lo assim. de doutoramento sobre os índios Canellas (MA). a ênfase nos anos 90 deslocando-se crescentemente para a “etnicidade” (pensada segundo a perspectiva 3 No próprio Museu Nacional a linha de pesquisa que nos últimos 15 anos tem lecionado esta disciplina é de estudos sobre “a antropologia da política”.

bem como para sua separação das suas repercussões e responsabilidades sociais. edição acontecendo em 2004. Intitulada A Viagem da Volta: etnicidade. Em uma breve visita que fiz a Salvador em 1986 Guga me entregou uma versão deste texto. numa conjuntura onde há crescentes pressões para uma especialização entre os domínios da antropologia. a sólida base de conhecimentos que precede ao projeto de pesquisa. a extensa bibliografia (cerca de 30 pgs)./dez. O exemplo mais articulado desta nova direção será uma coletânea da qual Guga não participou (por estar envolvido no momento em outras pesquisas). nº 2. 2011. vol. 88 – 191. Cadernos do LEME. comentando que era o trabalho final do curso na UNICAMP (que na realidade ainda não enviara). uma figura importante nos debates atuais sobre laudos e perícias antropológicas. O leitor atual pode estranhar a extensão (103 pgs). Fiquei surpreso e muito satisfeito ao deparar-me com o excelente resultado. como parte de uma antropologia do conhecimento). Volto à metáfora da vírgula e do ponto final. As minhas entradas de curso tem sido outras. direitos e mobilizações indígenas. tão rico mas ao mesmo tempo tão distante (a ponto de nos propiciar reunir alguns dados fragmentários para uma arqueologia dos estudos sobre os índios do nordeste). Campina Grande. Professor Titular de Etnologia do Museu Nacional . Guga continua a ser uma referência imprescindível para os estudos e políticas relativas aos indígenas do nordeste.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO de Barth. Antropologia do Colonialismo e Antropologia do Território. p. assim como as hipóteses arrojadas e inovadoras formuladas. mas na qual se incluía o trabalho de sua colega Sheila Brasileiro sobre os Kiriri (objeto de sua dissertação de mestrado na UFBA). 94 . João Pacheco de Oliveira. como Antropologia Histórica. política e reelaboração cultural no nordeste indígena. 3. Jul. É com tal amplitude e a disposição em enfrentar desafios cada vez maiores que devemos debater os padrões profissionais de trabalhos dos antropólogos brasileiros. uma 2a. um analista arguto e atualizado no debate sobre políticas públicas.UFRJ Rio de Janeiro – dezembro de 2011 NUAP. tal coletânea têve sua primeira edição em 1999. A classificação do texto como um projeto de pesquisa se reporta menos a características encontráveis hoje em projetos de pesquisa do que a uma estratégia conjuntural do autor. Mesmo dando à público este projeto de pesquisa.

ainda que em níveis e de formas diversos. Figueiredo (1981). Carelli (1984). analíticos sobre a situação destes povos à época são: Anaí-Bahia (1980 e 1985). vem atingindo. 88 – 191. por sua vez. Lea (1981). 1981 a 1985). Magalhães (1980). Carvalho (1982b. Campina Grande.. 61. nº 2./dez. maio de 1979). 1984 e 1988). os direitos pertinentes à sua condição étnica. frequentemente noticiadas tanto pela imprensa regional quanto pela grande imprensa nacional1. especialmente os números de 42 a 46 (1982). sem duvida não se constituem em um fenômeno particular ao Nordeste mas sim em uma parcela da mobilização que. 52/53 e 57 (1983). Dallari e Dantas (1980). p. As publicações da Comissão Pró-Índio (1979. Cadernos do LEME. bem como uma crescente mobilização dos primeiros no sentido de fazer valer. amplos segmentos dos povos indígenas no Brasil. CONDEPE (1981). 1982 e 1983) informam e discutem algumas das questões políticas e legais que interessam diretamente aos índios no Nordeste. Veja-se também. 95 . vol. o jornal "Porantim". 1981. Alguns dos trabalhos informativos e. Tais situações. se articula com fatos e mudanças sociais e políticas que dizem respeito ao Estado e à sociedade nacionais. Reesink (1983)." (Josias Patrício.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO DE CABOCLO A ÍNDIO: Etnicidade e organização social e política entre povos indígenas contemporâneos no nordeste do Brasil. 65 e 67 (1984) e 76 a 79 (1985). I. e que. Bahia. Por uma investigação sistemática de processos étnicos em segmentos sociais indígenas no sertão do nordeste do Brasil Introdução Desde meados da década de setenta do século XX se tem observado um número crescente de casos de tensão social e de conflito agrário envolvendo segmentos indígenas e parcelas da sociedade regional no Nordeste do Brasil. em igual período. Beltrão (1980). De 'caboclo' passou para 'índio'. Rocha Júnior (1982 e 1983) e Sampaio (1984). Antunes (1984). perante o Estado e a sociedade nacional. ou. 2011. 1 Uma boa síntese destes noticiários na primeira metade dos anos oitenta pode ser obtida na publicação anual "Povos Indígenas no Brasil" (Aconteceu. conselheiro e ex-cacique kirirí – entrevista em Mirandela. Jul. 3. o caso Kapinawá José Augusto Laranjeiras Sampaio "Antigamente nós era conhecido por 'caboclo'. em igual período..

Por sua vez. os próprios povos indígenas passariam a constituir.. com a criação. os indígenas daquela região configuram. é certamente compreensível que. e do surgimento de várias associações de "apoio ao índio" em diversos estados a partir de 1978. 3. Cadernos do LEME. o movimento dos índios no Nordeste se caracterize por um grande esforço político de articulação interna e externa e pelo acento e pela elaboração simbólicos e ideológicos intensos em torno dos atributos culturais identificáveis como indígenas. em média. Deste modo. trezentos anos de contato intenso com a civilização européia. com preocupações 2 Sobre os índios no Nordeste diz Galvão (1959): "População estimada em 5.. 1975: 4) E. também. peculiares. do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). em 1980." (Amorim. Cardoso de Oliveira (1960. profundamente envolvidos econômica e culturalmente. da população regional envolvente. da criação. associações indígenas de caráter multiétnico.) imersos em sistema monetário de natureza capitalista (. vol.outra língua que não o Português. 96 . Jul. "a questão indígena" pode ser assinalado.. 1959: 225) Já Amorim (1975) diz: "(. O que parece dar um caráter específico e até certo ponto surpreendente aos movimentos indígenas no Nordeste está relacionado com a própria história e com as características culturais atuais destes povos. segundo qualquer das variantes da noção de "integração" e suas correlatas em perspectivas teóricas diversas2. "decorridos quase cinco séculos de contato com o 'homem branco'. para a discussão de "integração" e categorias afins como "aculturação" e "assimilação" e suas aplicações a diversos casos no Brasil. configurariam um caso extremo do que os estudiosos do "contato interétnico" no Brasil costumavam classificar como "índio integrado". com a qual se encontram. no dito período. da União das Nações Indígenas (UNI). sem falar . Ribeiro (1970). 2011. já ao final daquela década.. o envolvimento crescente desses Estado e sociedade naquilo que se tem correntemente denominado. nº 2. certamente um marco nesse processo. registrando-se considerável mestiçagem e perda de elementos culturais tradicionais. essas sim.à exceção dos Fulni-ô . e fenotipicamente muito assemelhados. quando não indiferenciáveis." (Galvão.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Por outro lado.) aqueles indígenas encontram-se integrados à economia da região. Com cerca de. p. caso-limite no processo de integração do índio à sociedade brasileira. Campina Grande./dez. com mais ênfase que em outras situações. a partir da promulgação do Estatuto do Índio (Lei 6001 de dezembro de 1973). segundo penso.500 índios. em 1972. A maior parte vive integrada na população regional. um tanto inconvenientemente." (Idem: 5) Veja-se também Schaden (1967). 1964 e 1967) e Cardoso de Oliveira e Faria (1969). no âmbito da Igreja Católica. 88 – 191. inclusive a língua. sem dúvida.

DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO muito nítidas em delimitar fronteiras sociais e em estabelecer distinções perante a sociedade nacional de modo a marcar suas especificidades enquanto entidades sociais e étnicas diferenciadas. Voltarei adiante a estes processos. bem como o caráter particular do contexto indígena regional no qual ela se insere.. mas também grupos até então considerados extintos – Pataxó. ou trabalhos do próprio âmbito administrativo da agência governamental sobre estas etnias como Magalhães (1980) e Beltrão (1980). 3 4 A "extinção" destes grupos pode ser verificada em Nimuendaju (1946) e em Ribeiro (1970). Pierson (1981) e Motta & Mello (1982) para o caso kapinawá. seja por parte da própria agência indigenista federal. Trujillo Ferrari (1957). 5 Veja-se. por exemplo. como Kapinawá. Por enquanto. Oliveira (1937: 173). 88 – 191. gostaria apenas de referir que eles atingem não apenas as etnias historicamente conhecidas e bem identificadas na região. Campina Grande. o caso Kapinawá. Pankararú. seja a iminência inevitável da sua dissolução e incorporação completa aos estratos inferiores da sociedade nacional7. como os Fulni-ô.e cuja situação. 1960a: 59) 7 Por exemplo. Bandeira (1926: 20). diz: "As considerações acima. a despeito da passagem de quatrocentos anos de dominação cultural européia. Estamos assim diante de um caso verdadeiro de persistência cultural. 6 Por exemplo. num primeiro momento. tanto surpresa quanto desconfiança quanto à sua "autenticidade". 3. Tingwí-Botó. A emergência destes povos. apesar de levantamentos históricos bastante simples poderem confirmar a pertinência da "indianidade" em todos os casos5. 1982:82-83) para o caso Tingwí-Botó. certamente coloca questões teóricas e políticas de relevância. Com efeito. que peleja contra forças sempre superiores. 2011. em suas conclusões a respeito dos Karirí de Colégio. 97 . sujeitas a muitas perseguições pelos colonos brancos do local. 1957: 82). também entre a extinção desta diretoria e a chegada do Serviço de Proteção aos índios na região." (Trujillo Ferrari. essas pequenas comunidades indígenas ainda sobrevivem. por exemplo. e a matéria "As Concepções de Indianidade do Coronel Zanoni" (Aconteceu.. vol. os poucos autores que se interessaram em estudar estes povos no século XX antes dos anos 70 em geral concordam em ressaltar seja sua "obstinada resistência" em permanecer indígenas apesar da quase inviabilidade disto6. nº 2. Este último autor diz: "O que é surpreendente é que. a Fundação Nacional do Índio (Funai)4. p. Hohenthal Junior (1954: 94. especialmente durante o hiato entre o fim da Junta das Missões e o estabelecimento da Diretoria Geral dos índios. (. Jul. 1960a e 1960 b).) têm por finalidade apontar que o sentido de agrupamento tribal está se dissolvendo e confundindo-se na configuração geral da sociedade local de Porto Real do Colégio. particularmente tendo em vista o fato de que elas foram. Wasú./dez. seja por parte de segmentos da sociedade e dos poderes públicos regionais. Kirirí e Potigwára. tratado adiante e em Carvalho (1982b)." (Hohenthal Junior.será com certeza de interesse para historiadores e antropólogos. assistidas desde pelo menos meados do século XX pelo governo federal. cujos "aparecimentos" provocaram. Conforme. Karapotó3 – e sobretudo outros que adotam denominações étnicas desconhecidas na literatura. analisada mais profundamente. por tantos anos. ou ainda Sampaio (1984). Cadernos do LEME. Pankararé. Encontram-se considerações semelhantes relativas a outros casos em Amorim (1971) e mesmo em Silva (1978).

identificando o processo de concentração da propriedade fundiária com uma crescente pressão sobre os territórios indígenas já insuficientes . ilhados num mundo estranho e hostil e tirando dessa mesma hostilidade a força de permanecerem índios. 1975: 1). como se verá. 3. vol. Que as pressões sobre os índios e seus territórios. Amorim. It means that it will became necessary to sell manpower to the white man. conclui que tal situação implicaria. 9 Ver especialmente páginas 178 a 180. identificadas por Amorim no inicio dos anos setenta e mesmo por autores anteriores como Oliveira (1937)9 – para não se falar também na farta documentação histórica . O mesmo acontece com relação à sempre referida importância do papel diferenciador da hostilidade. e empenhado na formulação de um modelo de campesinato indígena./dez." (Amorim. 1975: 17). Together with this it will gradually occur the loss of ethnic identity that still exists. 88 – 191.estejam sendo acompanhadas. nº 2.. já que esta se acha profundamente vinculada à posse de um território grupal . the only way to assure the indispensable acquisition of money.as "reservas" . ainda que se apresente sob perspectivas diversas de analise. in proportion to the insufficiency of the 'reserves' in allowing the independent work of all their group.e a consequente tendência à proletarização dos índios. 1970: 56). após breve relato da situação nos diversos grupos então melhor conhecidos. Cadernos do LEME.e à possibilidade da manutenção de uma economia camponesa8. Ribeiro diz. ou melhor. que: "(.) assim viviam os seus últimos dias os remanescentes dos índios não litorâneos do Nordeste que alcançaram o século XX" (Ribeiro. simples resíduos. 2011. ressalta em uma perspectiva que me parece bastante limitada quanto à posição do Estado na questão . Pelo menos tão índios quanto compatível com sua vida diária de vaqueiros e lavradores sem terra. já estaria implicando. Mas diz também: "Eis o que restou no século XX dos índios do interior do Nordeste. não pela sua "perda" mas por uma revitalização e por reelaborações bastante 8 "These tribal groups have been reached by a progressive proletarization process." (Idem: 57). no plano da etnicidade. 98 . Jul. p.apesar das garantias legais e proteção estatal.. na "perda da identidade étnica" (Amorim. Vale ressaltar que esta ideia de situação limite é também. since the ones who are forced to look for a job outside their tribal setting should disguise themselves in order not to be stigmatized by the various prejudices against the indians. Numa primeira tentativa de estudar os povos atuais na região enquanto um conjunto etnológico.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Escrevendo já em 1970. bastante recorrente na literatura. Campina Grande. engajados na economia regional.

3. enquanto pontos de referência para estas preocupações. Cadernos do LEME. é o que me parece se constituir no aspecto central a ser tratado no sentido de uma compreensão mas exata do que ocorre.eram já indiretamente conhecidos de alguns estudiosos. Eram apenas 5. Tingwí-Botó e Wasú em Alagoas e Kapinawá em Pernambuco . número 79.já viviam processos reivindicatórios com vistas ao seu "reconhecimento oficial" pelo Estado15.uma etnicidade 10 11 Conforme Carvalho (1984 e 1988). O que interessa aqui propor é. 2011. ou tende a ocorrer. caso dos Tingwí-Botó em Alagoas e dos Xokó em Sergipe. de setembro de 1985. há. Além desses. Aconteceu (1984 e 1985). tinha-se. Barth (1984) e Carneiro da Cunha (1985). a investigação sistemática da produção e reprodução de uma consciência étnica social e politicamente orientada . com uma população de cerca de 27. em 2001. nas importantes contribuições de estudos de caso como os de Cohen (1969). 15 Quinze anos após este escrito original. em igual número de áreas e postos indígenas13. p. não deixam de reafirmar uma estreita vinculação dessa etnicidade com uma "territorialidade"10. Vale ressaltar que. entre outros. 12 Conforme Amorim (1975: 2). 13 Funai (1983). Jul. trinta e três povos indígenas com uma população de aproximadamente 70 mil índios e habitando trinta e sete territórios indígenas (Anaí. pelo menos dois dos quais . 14 "Porantim". nº 2. na faixa compreendida entre o Norte da Bahia e o Piauí.000 indivíduos assistidos por postos indígenas da agência governamental em 197512. ou. sem dúvida.000 pessoas14. na referida região. com grupos étnicos em tais situações. dentre estes. Penso aqui. qualquer parcela de território minimamente significativa em termos econômicos. apenas dez anos depois. Os seis povos reconhecidos pela Funai em 1985 e que não o eram ate muito recentemente . pois. em Hohenthal Junior (1954 e 1960a). vol. sem possuir. 88 – 191. alguns se encontravam já totalmente proletarizados. dezessete povos etnicamente diferenciados. principalmente através de ligeiras referências a eles em Oliveira (1937) e.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO efetivas que. Campina Grande. de onze grupos com cerca de 13. que deles obtiveram informações junto a outros grupos indígenas.Pankararé na Bahia. à época da deflagração dos seus movimentos de reivindicação étnica em fins da década de setenta./dez. bem como da própria etnicidade enquanto fenômeno social. De fato. haviam então outros grupos cuja persistência étnica já se podia vislumbrar por fontes e relatos diversos.os Karapotó de Alagoas e os Tapeba do Ceará . ou do seu alcance como categoria de analise em contextos sociais pluriétnicos ou pluriculturais11. Xokó em Sergipe. 2001). 99 .500 pouco mais que quinze anos antes segundo Galvão (veja-se a nota 2 acima).

1969. A partir de etnografias mais completas e da discussão das produções analíticas parciais se poderá então propor a formulação de modelos mais gerais que possam dar conta dos processos e estruturas organizacionais e simbólicos que revestem o fenômeno da etnicidade no referido contexto indígena regional. Carneiro da Cunha. no sertão oriental do estado de Pernambuco. A elaboração do tema central de investigação..entre os povos indígenas que vivem hoje na faixa de Sertão do Nordeste brasileiro. Pretendo aqui caracterizar os indígenas na região como uma unidade etnográfica e política historicamente constituída.. seus componentes e determinantes políticos. 88 – 191. na "dupla gênese" de que fala Carneiro da Cunha: "(. que a partir de uma tal perspectiva de unidade histórica regional. tal como aqui concebido. tais como as determinações do campo socioeconômico regional ou local tomando aqui o sertão como unidade sociogeográfica relevante .) nos processos de identificação étnica assistimos a uma dupla e indissociável gênese: a formação de uma cultura (. 100 . para o caso dos segmentos sociais indígenas em situação ou em processos contemporâneos de "emergência" étnica e política. a afirmação étnica é uma preocupação constante e um componente organizacional angular na vida social desses povos e disto provém uma rica e 16 Penso aqui. exige. no âmbito de determinados processos sociais.os movimentos indígenas nos planos regional e nacional. basicamente. não é. 2011. se poderá estender mais consequentemente a investigação etnográfica a casos diversos em particular. Cohen. nº 2..a constituição de identidades étnicas. tanto um aprofundamento histórico que permita compreender a gênese de suas situações atuais.. ocasional. por outro lado. A relação entre o problema teórico proposto . ou de etnicidade. a qual. Tratarei. quanto à avaliação de suas posições estruturais perante contextos sociais significativos mais abrangentes. Cadernos do LEME. 3. Campina Grande.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO (Barth. 1969. por exemplo. como já se poderá antever pelo exposto acima. essa cultura serve de peso e de medida" (Carneiro da Cunha. a título de breve ilustração. Jul. o indigenismo oficial em suas diretrizes e práticas etc. tanto com relação ao contexto regional tratado quanto aos seus casos particulares. e pensando em um mesmo sentido em que Barth (1984) ou Carneiro da Cunha (1985). Sem dúvida. o dos índios Kapinawá./dez.) e a constituição simultânea da comunidade que se pauta por ela. p. 1979) . tendo em vista a proposição preliminar de algumas generalizações como. tomando nessa perspectiva o conjunto de práticas políticas e culturais nas formas variáveis em que se apresentam em cada caso especifico. 1985: 206). sociais e simbólicos16 – e a escolha dos povos indígenas no Nordeste como sujeitos de investigação. vol. para ser mais precisa. de um destes casos. Penso.

e para as quais um melhor entendimento da situação das etnias indígenas contemporâneas no Nordeste do Brasil certamente terá muito a contribuir. 19 Para uma abordagem das discussões a respeito de sociedades plurais ou multiétnicas veja-se MayburyLewis (1984) e aí. igualmente "emancipatória"./dez. que se mantém diferenciado apenas em função do próprio distanciamento social. Em um país em que tanto na legislação17 quanto na "consciência nacional" (Cardoso de Oliveira. p. que está na base da falência de algumas notórias . nem a do seu oposto lógico e também cada vez menos sustentável no real. 1965. na importância que deve ter hoje a discussão da plurietnicidade desta sociedade19. significativamente esta perspectiva. de 1973. 1984. em seus artigos 231 e 232. Primov (1980). pelos próprios fatos. de suas lutas atuais e passadas e das expectativas com relação ao futuro que orientam as suas praticas. 1988) o índio ainda é concebido antes como o "silvícola" distante18. por iniciativa do próprio indigenismo oficial como. Não cabem aqui. o "índio assimilado". 2011. Campina Grande. Jul. discussão que só tem sentido na medida em que se considere os segmentos indígenas como parcelas etnicamente diferenciadas mas amplamente participativas nesta sociedade. 1979) e a tentativa. Gómez Quiñones (1982) e Varesi (1982). nem a imagem cada vez mais distanciada do real do "silvícola". quase sempre. mais que isto. vol. e num momento de redefinições da própria sociedade nacional. necessariamente revistas pelos seus autores e. pois. Penso aqui especialmente. 3. dentre outros. de estabelecimento de "Critérios de indianidade" ("Porantim" 38. Além disso. é inegável que os índios do Nordeste e sua identificação étnica têm estado no epicentro de polêmicas questões políticas e legais levantadas. Carneiro da Cunha. bem como desses povos. 1983). A Constituição Federal de 1988 alteraria. Laraia e Da Matta (1967) e Amorim (1971). Rocha. Cardoso de Oliveira (1984). veja-se.avaliações do futuro de diversas "situações de contato" envolvendo sociedades indígenas no Brasil. esta canhestra formulação teórica que busca a conceituação formal de "não-índio" ou de "ex17 Refiro-me aqui em especial ao "Estatuto do Índio". 1982. 88 – 191.e em geral funestas . há uma série de questões jurídicas e políticas apenas ensejadas por debates como os aqui referidos. especialmente para o caso dos índios no Brasil. 18 E bem ao contrário do que tende a ocorrer em outros países americanos. no supra referido contexto do final dos anos setenta e início dos oitenta. nº 2.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO intensa elaboração política e simbólica cuja compreensão será certamente fértil e elucidativa a respeito destes processos. a "questão da emancipação" (Comissão Pró-Índio. Entendo que é justamente a ausência de um maior interesse de investigação. Cadernos do LEME. Para outros casos de presença indígena em sociedades nacionais na América Latina. como as contidas em etnografias como as de Wagley e Galvão (1949). e a correspondente insuficiência teórica no sentido da compreensão destes processos étnicos e da sua contextualização. Sampaio. 101 .

everything goes down their throats'. entre a capital da colônia e o rio 20 Há uma boa história desta dinastia por Calmon (1939). pelo seu poder. foi a vez dos índios do Sertão. The native resistance to this cattle invasion was one of the most important stages in the conquest of the Brazilian Indians. Índios no sertão: um esboço histórico Se o século XVI foi marcado pelo contato entre o colonizador e as diversas tribos tupí que dominavam o litoral nordestino." (Hemming. towns. melhor. Cadernos do LEME. algo próximo da ideia nativa de "caboclo". Leite. which used to require so little food. inclusive no sentido em que a ele. 2011. vol. dentre os quais se destacaram. Fields. Most of the tribes displaced by the cattle have disappeared. 102 . 1978: 346) Na trilha das boiadas seguiram os missionários. os d'Ávila. p. não se deve reconhecer nem se legitimar . Thomas More wrote in 'Utopia’:’ These placid creatures. Já na segunda metade do século XVII fundaram-se missões jesuíticas na rota das boiadas. nº 2. 88 – 191.pretensões de distintividade étnica. embora marginal. no século seguinte. quando esses se encontravam já quase que completamente dizimados pelas epidemias e guerras havidas principalmente no governo de Mem de Sá (1557-1572) e com a maior parte da sua população sobrevivente nas capitanias da Bahia. houses./dez. um personagem concebido como "integrado". have now apparently developed a raging appetite. and turned into man-eaters. Ilhéus e Pernambuco escravizada ou reduzida em aldeias missionárias em rápido declínio (Hemming. there is nothing from the Indian side. Aqui. a compreensão da situação dos índios no Nordeste e de sua mobilização política atual reveste-se de uma relevância científica e pragmática destacável. 1945). The Tapuia tribes were forced to surrender their homes and huntinggrounds to provide grazing for these imported animals. o que hoje sabemos da história do Sertão no século XVII: "Once cattle moved into an area they displace human beings. Campina Grande.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO índio". Hemming (1978) sintetiza bem o que foi ou. The natives left no written record and no one recorded their version of the fighting. 3. It was also the worst recorded. Jul. senhores da Casa da Torre20. mais uma vez. A penetração nessa vasta área foi feita de início principalmente a partir da Baía de Todos os Santos e através de numerosas boiadas conduzidas pelos grandes sesmeiros. 1978. as always.

Enquanto as boiadas se expandiam na capitania da Bahia. Reesink. 1978. do mesmo modo que a questão intimamente relacionada da liberdade dos índios não se encerrou. Campina Grande.e. 1974. Hemming. Beozzo. que deve ter contribuído para o processo de concentração de população e de etnias indígenas dispersas. 1939). permanece até hoje. apenas no inicio daquele século haviam se estabelecido as primeiras fortificações coloniais no território dos Potigwára. até certo ponto. Infelizmente faltam-nos relatos na perspectiva da terceira parte envolvida. nº 2.os direitos e as pretensões territoriais de boa parte dos povos atuais na região (Dallari e Dantas. 1945) mas../dez. em quadra..e. Primério. principalmente. cits. Certamente essa legislação." (1749: 393-4 e 384 respectivamente).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO São Francisco e. Willeke e. Leite.. ops. 1945. 2011. 88 – 191. 1983). Rio Grande do Norte e Ceara23. com alguns dos quais foram os 21 Seria interessante comparar os relatos desses historiadores missionários com relação a estas disputas que envolveram diferentemente as principais ordens . 103 . Na verdade. 1983b e 1984). 23 As prolongadas guerras entre os portugueses e os Potigwára são bem conhecidas. deixaram importantes relatos e iconografia sobre alguns povos indígenas do Sertão. não pôs fim às disputas territoriais.) 21. Baumann.". Um desfecho parcial dessa situação é marcado pelos alvarás régios de 1700 (23 de novembro) e 1703 (22 de maio) 22 que determinam que "a cada missão se dê uma légua de terra. e que cada uma seja composta de pelo menos cem casais. vol. deixou um interessante relato desses e de sua política (Nantes. p. entretanto. do mesmo modo. 1945. ao norte do São Francisco os colonizadores e suas missões restringiam-se ainda à zona da mata quando da ocupação holandesa de 1630. 1707). Os conflitos entre sesmeiros e religiosos dão a tônica deste período. em seguida. também juridicamente . mais preocupados com registros que os portugueses. capítulo 8). Com base neles e em documentos posteriores a eles associados fundamentam-se historicamente . Jul. A importância daqueles alvarás. comparar esses com o relato . 1980. O Frei Martin de Nantes. muitas mais às margens desse rio. por exemplo em Gouvêa (1590). Veja-se também Hemming (1978. Cadernos do LEME.. por outro lado. 1937. com intervenções de ambas as partes junto ao Governo Geral e à Coroa. 3. Há também uma vasta documentação acerca deles nos arquivos das ordens (Regni. Os holandeses desarticularam as missões já existentes na costa (Leite. para instalação de índios e missionários" ("Informação. 1749: 393). nos locais das atuais capitais dos estados de Paraíba. 1982. 1988).que quase não os menciona . Regni. um dos protagonistas desses episódios. Willeke. de jesuítas. 22 Transcritos em "Informação. mas foi se transfigurando paralelamente à copiosa legislação a esse respeito nos séculos XVII e XVIII (Leite. capuchinhos e franciscanos (Leite.do historiador dos sesmeiros (Calmon.

Deles provém quase tudo do pouco que hoje se sabe sobre os Otxukayana (que em geral aparecem como Janduí ou Tarariyú nas fontes lusitanas). senão cada nação a sua particular. 3. 1707. Cadernos do LEME. o termo "caboclos". Barléu (1659) e Nieuhof (1682). Campina Grande. p. 88 – 191. tanto aos que vivem na costa. Jul. Caboclos. 1749: 484).Payakú. Évreux. Para o período anterior a 1630. como no sertão. Mamelucos.foram dizimados após a restauração de 1654 por paulistas como Domingos Jorge Velho. entretanto. Caryóz. vol. aldeados na zona da mata e que haviam lutado ao lado dos portugueses.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO primeiros a contatar pacificamente24. nº 2. Os cronistas que produziram tão boas descrições dos Tupinambá na Bahia de Todos os Santos (Cardim./dez.. Caribocas. refiro-me principalmente às telas de Albert Eckhout. 1709) e Norte da Bahia (Mamiani.". 26 Tem-se em Rodrigues (1948) um bom exemplo de aproveitamento etnológico dessas obras. apenas de pequenas obras missionárias com algum interesse etnográfico relativas a povos da família linguística Karirí do vale do São Francisco (Nantes. nos documentos da Companhia de Jesus.Pretos . Calderon (1970) e outros. Soares de Souza.. os "Tapuia" do Sertão (Leite. e no sertão chamam a estes salta-atrás" ("Informação. Dos historiadores missionários27. 2011. aliados seus que dominavam os vales do Apodi e do Piranhas e que. Beck (1649). além de fazer várias referências ao que há de mais importante em Cronistas da Companhia como Vasconcelos (1663) e Vieira. como a carta do Padre Manuel Correia (1693) a respeito do ritual do Varakidzã. aparentemente praticado por diversos grupos. 1614. 1587) e no Maranhão (Abbeville. que são filhos de índia com negro. além dos holandeses. não há nada de significativo. encontramos algumas informações sobre os aldeamentos missionários e as práticas dos seus dirigentes. A estes naturais é comum o nome de índios. com relação ao Sertão. Tapuyas. como outros povos que tiveram contatos pacíficos com os "flamengos" . 1614) trazem apenas informações imprecisas e muitas vezes fantasiosas sobre os "Tapuias". são os naturais da terra. Marcgrave (1648). 25 Um cronista anônimo do século XVIII reserva as últimas linhas do seu extenso relato para definir as "Qualidades de pessoas de que se compõe o Pays": "Brancos . são os que moram na costa. 27 Além dos já citados. com referência aos falantes da"língua geral". apenas Serafim Leite reproduz documentos de interesse etnográfico. 1698 e 1699) 26 . especialmente importados para tal. que vivem no sertão. . Herckmann (1639). Merece menção ainda o relato de Mascarenhas (1716) sobre os Proká do São Francisco. karirí ou não (Leite. e em distinção aos "índios bravos". Serafim Leite faz a importante e interessante observação de que é a partir da restauração que surge. que são filhos de brancos com negras. 104 . 1945: 276-8 e 298-9).Mulatos. 24 Os principais relatos da época disponíveis em português são os de Laet (1633). Nantes. que são filhos de índia com branco. são filhos de mulato com negra. que também lhe chamam mestiços. Ikó etc. e falam língua geral. e também dão o mesmo nome aos filhos de mamelucos com negra. 1945) 25. 1625. também em Röwer (1942). Quanto à iconografia. Baro (1651). Para o século XVII e início do XVIII dispõe-se. e não falam uma língua geral.

em proceder a esta 28 Evidentemente não incluo aqui a província do Maranhão que. marca o apogeu e a decadência dessas missões que. O mesmo se observa com relação às poucas aldeias-vilas visitadas ou referidas pouco depois por Spix e Martius (1823). excetuando-se os grupos ainda isolados nas matas do Sul da Bahia28. Menezes (1814). 2011. 3. Caldas (1759). entre outras. que certamente se constitui na fase mais crítica para a sobrevivência dos aldeamentos indígenas no Sertão. 105 . Vilhena (1802).. em muitos casos.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO O século XVIII. Beozzo.. principalmente da própria região. Couto (1757). Entre meados do século XVIII e as décadas iniciais do XIX produziram-se algumas importantes descrições cartográficas da região. provocou o que deve ter sido. já no início do século XIX. nº 2. Hohenthal Junior. Entre meados dos séculos XIX e XX houve grande interesse de estudiosos.. com diretores nomeados para cada aldeia. É o período da pesada legislação integracionista do Marquês de Pombal. a nova Lei de Terras do Império. 1981: 130). No inicio do período imperial são criadas. como "Informação. 1960a. Em seguida.. a convivência e miscigenação destes com população não indígena. e muito mais daí por diante.. 1983). Campina Grande. os quais viviam então na área extremamente árida da Serra Negra. Aires do Casal (1813). 1985b). Pernambuco. 1945).. em termos etnográficos e da história indígena. p./dez. algumas bastante minuciosas e todas unânimes em referir a "decadência" e o "atraso" das recém-criadas vilas de "índios mansos" ou de "caboclos" e. não é identificada com o Nordeste. 88 – 191. praticamente não havia mais "índios" mas apenas "caboclos" no Sertão. as Diretorias de Índios. Desse modo. no plano oficial. tendo chegado a várias dezenas. que "(. estão já depopuladas e em muitos casos abandonadas quando da expulsão dos jesuítas em 1756 (Leite. Jul. em cada uma das províncias.". o que equivalia à afirmação oficial da inexistência de índios na região nordestina. vol. sobretudo ao longo do curso do submédio São Francisco. época de plena vigência da Junta das Missões nas Capitanias da região ("Informação. As possibilidades de reconstituição de uma história indígena do Sertão não podem ainda ser completamente avaliadas (Sampaio. de 21 de outubro de 1850. 1749. 1802). Cadernos do LEME. a primeira grande questão de definição étnica na região e várias aldeias perderam as suas terras. É também desta época o último relato conhecido a respeito da redução de índios no Sertão (Frescarolo." (1749).) manda incorporar aos próprios nacionais as terras dos índios que já não vivem aldeados mas dispersos e confundidos na massa da população civilizada" (Figueiredo. Até o final do século todas as diretorias haviam sido extintas.

Joffily (1892). ainda que muitas vezes em obras de caráter mais geral29. Entretanto. Ainda que seja muito difícil avaliar a extensão dessa diversidade. como cartas. além de alguns levantamentos preliminares da documentação. Kamurú e Sapuyá – chegaram a ser especificadas e parcialmente descritas (Lowie. Barros (1923). Paraíso. por exemplo. grandes grupos de língua jê dos cerrados a oeste. o agreste. O nível das informações relativas a esses etnônimos é extremamente variável e. 1984). Pinto (1938). um dos resultados significativos dos trabalhos citados é a demonstração da possibilidade de se trabalhar. mas também aos de Figueiredo (1981) e Mott (1974). e no Piauí (Mott. Quanto a trabalhos mais recentes e mais rigorosos no levantamento e análise da documentação. vol. Dzubukuá. mas a produção resultante é quase sempre imprecisa. Campina Grande. podia-se considerar satisfatória. alguns destes trabalhos ainda contêm as melhores pistas disponíveis para que se possa aprofundar o estudo através de outras fontes como. 1985). Tupinikím. Kaeté. Studart (1896). até meados da década de oitenta do século XX. 88 – 191. no sertão propriamente dito – a caatinga – e em suas faixas de transição para a mata costeira. No plano linguístico. no que diz respeito à área do Ceará e do Piauí. o mesmo ocorrendo em Alagoas (Antunes. seguramente majoritária em grande parte da região. Jorge (1901). 2011. Cadernos do LEME. impressionista. 1984). com grande concentração no curso do baixo e do submédio São Francisco. Nimuendaju (1946) refere nada menos que oitenta diferentes etnônimos na área situada entre as duas zonas referidas. Apesar disso. graças principalmente aos trabalhos de Dantas (1973. p. Na Bahia. 3. consequentemente. os cocais. Pereira da Costa (1909). Jul. pouco sistemática e pouco ou mal referida às fontes primárias. Nas demais áreas praticamente nada havia sido feito. ela contrasta flagrantemente com a relativa uniformidade dos grandes grupos Tupí da costa a leste (Tupinambá. 106 . Sabemos hoje que o sertão nordestino pré-colonial foi habitado por uma diversidade muito grande de etnias. falantes da mesma "língua geral". Potigwára). Bezerra (1950) etc. 1984). e quatro das suas línguas – Kípea. pode ser identificada a grande família Karirí. 1976. isto é. e dos Timbira e Akwê. pelo menos no que diz respeito ao século XIX. com documentação produzida pelos próprios índios./dez. nº 2. o trabalho então apenas começava (por exemplo. Bezerra (1902). Costa Júnior (1942). A inclusão nessa família de línguas de grupos como os Kanindé e Ikó foi tentada por autores 29 Alencastre (1857). Théberge (1869). também o é a sua confiabilidade.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO investigação. apenas a produção relativa à pequena área correspondente ao atual estado de Sergipe. Studart Filho (1926 e 1931). 1946). e para o cerrado. petições etc. Pompeu Sobrinho (1939).

os Potigwára e os Wasú. 31 Bem como dentre as trinta e três existentes ao se iniciar o terceiro milênio. Jul. permitem localizá-la de forma isolada no tronco Macro-Jê (Rodrigues. Hohenthal Junior. embora crescentemente relacionados aos povos aqui tratados em seus movimentos políticos e étnicos. e se localizam muito longe do eixo delineado pelo curso do baixo e submédio São Francisco. 2011. casos. em ambos os casos ainda com base em Martius (1867). podemos pensar que a presumível diversidade cultural e linguística do Sertão já comportava um embrião de unificação. incluem-se duas não propriamente sertanejas. constituindo historicamente esta unidade. Carvalho. Campina Grande. situados na zona da mata. mas parece não haver dados suficientes para tal. ainda hoje. rumo às melhores terras do cerrado. o Yaathê dos Fulni-ô. o Xokó e o Pankararú não permite nada de conclusivo30. O avanço daqueles para o oeste. De fato. respectivamente./dez. no mínimo em termos ecológicos. Cadernos do LEME. 1960a e 1960b) – uma faixa mais propícia a uma agricultura mais intensiva – antes mesmo que as missões e as boiadas viessem reforçar a concentração e a miscigenação. Além disso. sabe-se da filiação de duas línguas da região a famílias cujas demais línguas conhecidas estão todas ao Sul: a dos Masakará com a família Kamakã e a dos chamados Pimenteiras com a dos Botocudos. 1974) demonstra bem o quanto os informantes podem ser criativos para tentar satisfazer a grande curiosidade de seus inquiridores e fazer juiz aos seus préstimos. nº 2. em torno do qual se articulam. 88 – 191.em especial os Pataxó do Monte Pascoal e os diversos povos reunidos já no século XX na reserva Caramuru-Paraguaçu e hoje conhecidos como Pataxó Hã-Hã-Hãe . Vista nessa perspectiva. O parco material contemporaneamente disponível sobre o Xukurú. impedido pela presença majoritária dos Jê centrais. Atikúm e Kambiwá. como historicamente. mas que. parece que diferentes pequenos grupos humanos foram pressionados para a zona semiárida das caatingas à medida em que os Tupí avançavam pelas matas costeiras (Métraux. estreita relação com os demais grupos aqui considerados32. p. Pesquisas ainda mais recentes com a única língua ainda falada.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO como Pinto (1935-8). os grupos indígenas no Sul da Bahia . dentre outros. dos Pankararú. reforçada pela coexistência de vários grupos no vale do submédio São Francisco (Nimuendaju. apesar de muitos terem tido que abandonar as suas margens buscando áreas de refúgio nos brejos ou altos de serras próximos. 1977b e Paraíso. 1946. por outro lado. apesar de sua ascendência Tupí – segura no primeiro caso e bastante presumível no segundo – mantém hoje. desse total. 1927). têm percurso histórico e bases ambientais muito diversas (ver. 107 . De qualquer modo. por sua vez. vol. 1982). 1982). os índios no Nordeste. 3. e também o quanto é problemático o sentido científico disto. 30 Um levantamento linguístico realizado na região na década de cinquenta (Meader.os quais. teria sido. Pankararé. grande parte dos índios no Nordeste hoje concentra-se ainda na área de influência do baixo e submédio São Francisco. Dentre as dezessete etnias acima referidas em meados dos anos oitenta31. 32 Excluem-se.

Campina Grande. que desde fins do século XIX têm despertado a atenção de linguístas e estudiosos regionais (Branner./dez. do Posto Indígena Dantas Barreto para os Fulni-ô de Águas Belas. p. Apenas na década de setenta aparecem monografias sobre os povos da Bahia: a de Bandeira (1972) sobre os Kirirí. dando conta sobretudo dos Xukurú (Hohenthal Junior. 1976) 33 . 1960a). Rosalba. 1960a) e Pankararú (Pinto. 1887. entretanto. Não há. o conhecimento dos indígenas contemporâneos no Nordeste era praticamente inexistente até os anos cinquenta34 quando. 1956 e Hernández Díaz. 1935. não é aprofundado posteriormente e destes trabalhos apenas Hohenthal Junior (1954) e Pinto (1958) fornecem etnografias minimamente satisfatórias. 1959). 3. instalaram-se progressivamente. Com exceção dos Fulni-ô. e repetida alguns anos após no Museu Nacional no Rio de Janeiro. sobretudo em consequência da grande pesquisa coordenada por Donald Pierson sobre o vale do São Francisco (Pierson. e o Padre Renato Galvão na Bahia. Jul. destaque para a participação indígena nestes processos de mobilização por reconhecimento étnico e por assistência pelo Estado. entretanto. alguma atenção lhes é dada e alguns trabalhos são realizados. 88 – 191. após a criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). e de Nássaro Nasser (1975) e Elizabeth Nasser (1975) sobre os Tuxá sobretudo no que diz respeito a economia e relações interétnicas. O estudo desses grupos. 34 Tinha-se então basicamente o relato de visitas de Oliveira (1937). vol. 1983). 1937). 36 . pode ser considerada um marco nesta mobilização. e as de Reesink (1978) sobre os Kaimbé. Oliveira. Mello. 1954) 35 . 1931. nº 2. no final dos anos vinte. 1931. 35 Para os Xukurú veja-se também Mello (1935). Pompeu Sobrinho.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO O conhecimento dos povos indígenas no sertão no século XX No século XX. 1949. Karirí-Xokó (Trujillo Ferrari. competentes 33 A conferência pronunciada por Carlos Estêvão de Oliveira no Recife em 1937 (Oliveira. Pernambuco. 36 Dados sobre os Tuxá também em Hohenthal Junior (1960a) e Carvalho (1982c). Pinto. 1929. Cadernos do LEME. nove Postos Indígenas na região. Em quase todos os casos a participação de religiosos e de intelectuais foi decisiva (Dâmaso. 1956 e 1957 e Hohental Junior. 108 . um trabalho descritivo mas bem complementado por uma interpretação dos seus dados em Carvalho (1977a). Mello. 1958 e Hohenthal Junior. a começar pela criação. pelo menos nos registros melhor conhecidos. até a extinção do órgão em 1967. 1929. Boudin. Os curtíssimos artigos escritos por Lowie e Métraux para Steward (1946) são quase que apenas históricos e classificatórios e dão uma boa ideia da limitação do conhecimento a respeito dos grupos que então se costumava chamar de "remanescentes indígenas". 2011. Destacaram-se também neste sentido o jornalista Mário Mello e o Padre Alfredo Dâmaso em Pernambuco.

3. a natureza e a amplitude destas iniciativas. mas etnograficamente bastante limitado37. fazendo com que a temática indígena chegasse mais facilmente à imprensa e à opinião pública. Em segundo lugar e principalmente. esse movimento. Rocha Júnior. Sampaio. Em primeiro lugar. para os Truká. 1985). para modificar. qualquer estudo de possível caráter acadêmico sobre os Atikúm e sobre os Kambiwá do Sertão de Pernambuco. p. 1973) e o já referido trabalho de Amorim (1971) sobre os Potigwára da Paraíba. A bibliografia então disponível sobre os povos "emergentes" era. já melhor conhecido (Soares. parece ter havido um sensível aumento dos canais e das facilidades de comunicação entre estes povos e a sociedade nacional. inclusive bem antes da criação dos postos.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Há ainda da época uma descrição dos Xukurú-Karirí de Alagoas (Antunes. passou a haver uma articulação bem mais intensa entre os diversos povos. não começou nesta época. 1976. Jul. e Magalhães (1980). 88 – 191. Evidentemente. Para os demais dispunha-se então no máximo de alguns bons relatórios administrativos como os de Beltrão (1980) para os Wasú. nº 2. Praticamente todos os autores citados referem conflitos entre "brancos" e índios e registram diversas iniciativas desses para garantir os seus direitos./dez. inclusive a nível inter-regional. A nível regional. as assembleias de líderes indígenas. não havia.em 1981. como se poderia supor. Cadernos do LEME. Campina Grande. Acerca desses e de outros povos em Pernambuco merece referência o levantamento realizado pela Coordenação de Desenvolvimento do Estado de Pernambuco (Condepe). em um plano externo às próprias comunidades indígenas. excetuando-se o caso Pankararé. Luz. 1983. parecem ter contribuído. 109 . mas em parte decorrente do anterior. até aquela década. entretanto. ao que tudo indica em atenção a perspectivas de "estadualização" da assistência a índios passíveis de "emancipação". passam a ocorrer com 37 Para o conhecimento então disponível acerca dos Potigwára veja-se também Moonen (1975). 2011. teoricamente afinado com as idéias então hegemônicas a respeito de contato interétnico no Brasil e empenhado em uma compreensão modelar do campesinato indígena. 1984. vol. organizadas pelo Cimi. Duas ordens de fatores. a rigor. O movimento étnico dos povos indígenas no nordeste Já me referi ao movimento indígena que tomou forma entre os anos setenta e oitenta no Nordeste. Dentre os onze povos com postos indígenas implantados antes de 1980. quase inexistente. àquela época.

Sergipe (conforme adiante).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO frequência e. os "encantados". b) Assembleia Nacional Constituinte. 39 Um processo muitas vezes estimulado também pelo estado nacional. c) Reforma Agrária. estimulando as alianças internas entre os grupos de família através. vol. o qual se traduz sobretudo pela redefinição e valorização de funções como as de "cacique" e "pajé" e dos "conselhos tribais". elas passam então a aparecer sempre vinculadas. Tal é propiciado por danças e cantos acompanhados pelo som de maracás e com trajes e outros aparatos específicos. p. 2011. arcos e flechas. com setores da sociedade regional. Cadernos do LEME. nº 2. colares. as próprias organizações indígenas encarregam-se de promovêlas38. nos discursos e avaliações críticas de líderes indígenas. 3. Já me referi ao "esforço de organização política". e desencorajando fortemente os velhos laços de parceria econômica e social. 1983) e a segunda em setembro de 1985 na "aldeia" Xokó na Ilha de São Pedro. d) Funai" (Apolônio Xokó. Também no plano interno ocorrem mudanças sensíveis. Jul. que frequentemente podem também ser definidos como ancestrais. como o compadrio. caracterizadas pela incorporação pelos "mestres". de tabaco 38 A primeira dessas assembleias ocorreu em 1983 na "aldeia" Kirirí (Rocha Júnior. ou outros especialistas socialmente definidos. fibras – e que são acompanhados do uso. o nível das preocupações também mudou. Todos esses processos transparecem no plano religioso em práticas rituais coletivas e regulares. nos quais aparecem profusamente elementos simbólicos identificados como indígenas – plumas. em grande quantidade. por exemplo./dez. preocupado em delimitar a sua administração e interessado também no controle político dessas fronteiras. 88 – 191. julho de 1985). pressionando a definição de indivíduos e segmentos em situações étnicas limítrofes ou pouco definidas39. em seguida. 110 . e por um maior controle dos grupos sobre os seus próprios limites. Nesse âmbito. O seguinte trecho da carta-convite enviada pelo cacique xokó aos demais povos da região para a Assembleia Indígena de 1985 dá bem uma ideia do que aqui se diz: "Achamos o momento desta assembléia muito importante para nós porque estão acontecendo muitas mudanças nas leis que apóiam os índios e por isto achamos que devemos discutir estas coisas: a) UNI (União das Nações Indígenas). de entidades sobrenaturais. Embora as aspirações de cada etnia com relação à garantia de seus territórios e a outras questões ligadas ao atendimento das necessidades de suas comunidades permanecessem num lugar central. especialmente aqueles política e economicamente dominantes. Campina Grande. a um quadro de referência bem mais amplo. dos mutirões e roças comunitárias.

111 . o sentimento de "ser índio" apreendido no discurso desses povos passa frequentemente pela participação nestes rituais.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO e da ingestão da jurema. Como diz Carvalho: "(. o uso ritual da jurema é certamente um elemento privilegiado na autodefinição étnica destes grupos em seu conjunto.. e todos eles. os empréstimos rituais.. que vão se alargando como se fora em atendimento a certas exigências históricas que só tornam possível alcançar a 'unidade' na 'diversidade'" (Carvalho. chamados "ouricuri".) tais rearranjos têm lugar no âmbito de um projeto coletivo que os circunscreve a todos. 1937. nº 2. Certamente muito há ainda a ser compreendido com relação a esses processos de identificação étnica e organização política. 1982a: 12). a constituição e o papel das lideranças. Jul. De fato. sem prejuízo. os meandros das relações internas entre os diversos grupos familiares cujos poder e prestígio são postos em cheque nestes processos. Campina Grande. apenas parcelas relativamente reduzidas das comunidades efetivamente o façam. comportam diversas variações de etnia para etnia. são elementos a mais de identificação entre os diversos povos do Nordeste. Para estes. na verdade. esse sentimento de participação transfere-se à sua totalidade. É o campo da luta política que torna possível tal projeto. Aliás. 3. das suas individualidades. Hohenthál Junior. 88 – 191. o jogo de pressões e acordos e a subordinação com relação ao órgão governamental tutelar. ao Yaathê. As determinações socioeconômicas e políticas a nível regional e local. 1954. com frequência. Martins. a elaboração Cadernos do LEME. inicialmente projetos individualizados a nível de cada identidade especifica. Por outro lado. em alguns casos. por exemplo. entretanto. "praiá". e o que fiz aqui foi apenas descrever os seus aspectos mais visíveis. o essencial das características descritas. o valor econômico e simbólico atribuído pelas partes aos territórios em disputa. inclusive em função da intensa reelaboração ritual e simbólica. como os Kirirí e os Atikúm. Pinto. hostilidade com os segmentos regionais. 2011. assim como os linguísticos tomados. 1985). vol. porém. tais práticas se apresentam. A importância desses rituais nos movimentos referidos pode ser atestada por sua revalorização em muitos dos grupos e. como condição necessária e em grande medida auto-imposta para o seu "reconhecimento" étnico./dez. além de todos aqueles que aqui chamamos de "emergentes". "toré" ou "particular". mais. mantendo. p. Esses rituais. já que só eles. por sua adoção por parte de outros que não os realizavam. ou. a dinâmica das relações de clientelismo e. povos indígenas no Nordeste. o praticam. 1956. e ainda que. bebida alucinógena preparada com a entrecasca da juremeira (Oliveira.

. e que são. em meados dos anos oitenta. de várias comunidades rurais distintas que. 88 – 191.) tende a crescer tendo em vista fortes indícios que dão conta da existência de outras populações. nas quais a identidade indígena permanece. já referidos. Campina Grande. ou nas proximidades desses. vol. historicamente referidas a esses aldeamentos. a esperança depositada no "reconhecimento" e. são outros tantos aspectos inegavelmente importantes que merecem maior investigação e que. como que no ar. nunca ter deixado de ser nítida no plano local. e a oposição que sempre mantiveram com relação aos segmentos não indígenas a esse nível atesta bem a vigência anterior da sua afirmação étnica. de modo algum.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO ideológica e simbólica em torno dos rituais e a institucionalização destes face aos outros sistemas religiosos presentes no campo etc. uma série de outras variáveis ligadas aos aspectos referidos acima. certamente. não eram. dos Kapinawá com os Xukurú e Kambiwá pela proximidade e por referências históricas comuns etc. assumem configurações variáveis nos diversos casos. situam-se em áreas de antigos aldeamentos missionários. De resto. Evidentemente o movimento étnico empreendido por estes últimos também não começou "de repente". 2011. e mais os dois então em processo de emergência mais recente. Jul. (. dessem oportunidade à expressão dessa afirmação em um movimento com outra dimensão. até que a articulação regional dos diversos povos indígenas. na verdade./dez. Carvalho diz: "Este número. Referindo-se à população indígena no Nordeste à época. Há. 112 . no Sertão. diríamos. p. os únicos dos quais se esperasse que pudessem empreender a uma tal "emergência". Era já bastante sabida a existência. após alguns anos de luta. consideradas 'caboclas' pelos regionais. e que provavelmente Cadernos do LEME. nº 2. como nos casos referidos. A sua existência enquanto segmentos sociais etnicamente diferenciados parece. enfim. evidentemente. Um fato bastante recorrente nos processos de emergência étnica indígena no Nordeste na época aqui tratada é a presença de vinculações mais estreitas e historicamente marcadas desses povos "emergentes" com outros já "reconhecidos": dos Pankararé com os Pankararú através da extinta aldeia missionária de Curral dos bois. o caso dos grupos "emergentes" que têm vivido todos esses processos geralmente de forma bem mais intensa e crítica.. dos Truká com os Tuxá através da descendência comum dos Proká e das missões dos "Rodelas". o agravamento da situação fundiária. os seis povos reconhecidos. 3. de algum modo. seguramente.

dirigido à sede do órgão em Brasíllia pelo seu Delegado Regional no Recife à época da eclosão do caso dos Kapinawá: "Face recentes ocorrências grupos se dizem descendentes indígenas.). Do quanto fica aqui dito.. então. sirvam apenas para identificar questões gerais e orientar o percurso a ser trilhado nas investigações. como alguns dos deflagradores de uma intensa polarização étnica. entretanto. ainda que com graus e situações variadas de "latência".Sª. Waçu. ou "a disputa pela terra é a base dos movimentos étnicos indígenas no Nordeste". Jul. a presença e a quantidade de invasões. Na verdade. 3. em um radiotelegrama "urgente confidencial". peço V. esta unidade já conta mais cinco grupos: Truká. sua homologação. Tingwí-Botó e Wasu (Alagoas) e Kapinawá (Pernambuco)" (Carvalho. por exemplo. neste sentido. de resto historicamente sempre presente. até a construção das grandes hidrelétricas de Paulo Afonso. à aceitação destas pelas partes. sua extensão e 40 Tentei. 2011. nem mesmo a questão fundiária se apresenta de maneira tão uniforme quanto parece. nº 2. além dos 10 Postos Indígenas desta DR.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO tenderão a desencadear um movimento de afirmação de sua identidade étnica. o que seria expresso. uma abordagem preliminar do caso dos Pankararé e as conclusões parciais apontavam uma grande diversidade de fatores. Sem dúvida é bom contar com essas idéias. há situações diversas quanto à existência de demarcações. Caríri-Shocó da Ilha de São Pedro. Acrescento. sabendo-se da sua devida dimensão explicativa. Cadernos do LEME. e consequente acumulação e incipiente hierarquização econômica na área. o estatuto histórico e legal das terras. vol. desde a estrutura fundiária local e o caráter do poder político municipal. por detrás da invariável presença de conflitos. Quanto à gênese desses movimentos. 1982a: 1). área esta DR [Delegacia Regional] e possibilidade processo tornar-se rotineiro virtude grande número caboclos todo Nordeste. uma compreensão similar dos fatos na região. 88 – 191./dez. ainda que com preocupações diversas.. uma maior presença do governo federal na região e o forte fluxo migratório para São Paulo. ou ainda "a etnicidade representa um vínculo organizacional poderoso". 113 . à semelhança do que ocorreu mais recentemente com os Pankararé (Bahia). p. Pankaré e Capinawá. Campina Grande. Insistiria que esta deva ser investigada em seus casos particulares40 antes de qualquer possível generalização. A própria Funai demonstrava. Aguardo brevidade possível orientação esse Departamento sobre assunto" (Araújo. pois. pretendo que afirmações aparentemente conclusivas como "o toré – ou o praiá – reafirma a identidade étnica". 1980). em Sampaio (1984). laudo antropológico situação grupo se intitula Capinauá cidade Buíque este Estado (. apenas para os quais foi feita programação financeira.

entretanto. os Xukurú-Karirí (alagoas) etc. 3) povos não "reconhecidos" pelo Estado Brasileiro até a década de oitenta e com presença marcante de mobilização do tipo acima referido./dez. os Karirí-Xokó em Alagoas e os Atikúm e Fulni-ô em Pernambuco. Xokó. 2) povos "tradicionalmente reconhecidos" com presença pouco significativa de mobilização étnica de caráter político organizacional ou reivindicatório. os Payaku de Caraúbas no Rio Grande do Norte (Cabral de Carvalho. também com relação a este aspecto. vol. Se. sem dúvida o estado em que o processo aqui tratado se fez mais intenso nos últimos quinze anos. os Pankararú (Pernambuco). 3. 1956.. em 2001. oito estão já "reconhecidos" pelo Estado em 2001 e outros oito ainda não. Por outro lado. 1976). Karapotó e Jeripankó em Alagoas. 114 . no segundo os Xukurú e os Kambiwá (Pernambuco). deixo de identificar. os Potigwára (Paraíba).estes uma "dissidência étnica" dos Kambiwá . cada caso assuma uma configuração particular.41. conforme dito na nota 15 acima. não a acionando com maior expressão política. a qualidade dos solos. Potigwára do Ceará e as comunidades indígenas na cidade de Crateús no Ceará. Tapeba. 1964)e certamente muitos outros42. 42 Como não se trata de proceder.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO valor econômico. Tingwí-Botó. Jul. Desses. no terceiro evidentemente todos os então "emergentes". os Kirirí (Bahia). há. até uma época em que passa a haver maior transparência dos movimentos – como duas variáveis especialmente significativas. Cadernos do LEME. em uma situação étnica especial dada a presença de uma língua própria. 41 Para balanços e avaliações criticas da situação dos territórios indígenas no Nordeste. o que faz com que. Wasú e Kapinawá) ou não (Karapotó. Tapeba). outros dezesseis povos indígenas perfeitamente identificados na região aqui tratada. Campina Grande. de resto. Pitaguarí e Jenipápo-Kanindé no Ceará. este último povo constituindo-se. 4) povos não "reconhecidos" e que afirmam muito tenuemente uma identidade etnicamente diferenciada. veja-se a série de publicações "Povos Indígenas no Brasil" (Aconteceu). Tendo em vista o contexto de época aqui tratado – meados da década de oitenta – podiam ser identificados. nº 2. São eles: Povos já "reconhecidos": Pankarú e Kantaruré na Bahia. os Arikobé no oeste da Bahia. cinco dos povos "reconhecidos" antes de 1980.Kanindé. como pertencentes ao primeiro ou ao segundo grupos. Povos ainda não "reconhecidos": Tumbalalá na Bahia. a uma classificação exaustiva. se pode chegar à proposição de quatro situações básicas no que diz respeito à posição de diferentes povos indígenas face ao contexto étnico e político regional: 1) povos "tradicionalmente reconhecidos" mas com mobilização étnica e reivindicatória intensa. Tremembé. já "reconhecidos" (Pankararé. p. Tabajára. no primeiro caso. Novo. a saber: os Kaimbé e os Tuxá na Bahia. 2011. 88 – 191. Pipipã em Pernambuco . a densidade demográfica etc. aqui. os Akroá no Piauí. Kalankó e Karuazú em Alagoas. se tomar a presença efetiva de movimentos étnicos ou não e o "reconhecimento" ou não pelo Estado nacional anteriormente a 1980 – ou seja. e no quarto grupos como os Tremembé do litoral oeste do Ceará (Seraine.

1874. 115 . pelo conjunto da população historicamente referida ao aldeamento missionário original. níveis esses orientados. a qual atingiu mais diretamente uma dessas comunidades. 1985). 3. 2) possuírem documento de doação das terras.. Cadernos do LEME. a do sítio Mina Grande.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Dentre os quatro tipos propostos. Descrevo a seguir.80. em linhas gerais e a título de ilustração. 3) a existência de um antigo cemitério. podendo-se surpreender aqui. dedico aqui atenção especial. Pedro II e Princesa Isabel em 30. que me parece de especial interesse pelo pouco conhecimento histórico acumulado sobre esse povo anteriormente à eclosão do seu movimento étnico – se comparado a outros povos em situação semelhante – pelas relativas rapidez e autonomia na ascensão desse movimento – pouco mais articulado justamente com os povos menos envolvidos. basicamente. por fim. da "sociedade" que porta e se pauta por essa cultura (conforme Carneiro da Cunha. Solicitaram a designação de antropólogo para verificar o grupo" (Pierson. nº 2. com movimentos étnicos indígenas no Nordeste. à época. do processo de identificação étnica. a atenção a esses casos possibilita. os procedimentos em torno da implantação efetiva da tutela do Estado sobre estes segmentos sociais indígenas. 88 – 191. o acompanhamento dos processos de "reconhecimento" étnico./dez. Informaram na oportunidade: 1) ser o grupo composto de 500 pessoas aproximadamente. Campina Grande. Jul. com cerca de trezentos indivíduos e cinquenta famílias (Vicente et al. nesses.01. entendido aqui como a produção de uma "cultura" e. dada à intensidade. No plano político. p. inclusive quanto aos parâmetros de definição e aos limites étnicos. simultaneamente. 2011. Macacos. a 3ª DR [Delegacia Regional] informou ao DGO [Departamento Geral de Operações] através do RDG [radiograma] nº 106/3ª DR.07. no presente. localizado no município de Buíque – PE. os Xukurú e os Kambiwá – e. conforme dito. aos casos do terceiro tipo. 1981: 1). por diferentes graus de envolvimento na situação de disputa fundiária subjacente ao processo de emergência. inclusive. enquanto situações para investigações em torno do tema da etnicidade. 1985). o dos Kapinawá. pela diversidade de níveis de identificação étnica entre as comunidades formadas. ainda. Kapinawá "Em 23. um desses casos de "emergência étnica". com todas as alterações à vida de suas comunidades que isso tende a provocar. vol. assinado pelo Imperador D. 4)que a imprensa estava divulgando amplamente o assunto. o comparecimento dos senhores José Antonio dos Santos e Pedro Manuel dizendo-se remanescentes de um grupo indígena 'KAPINAWá'.

DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Este foi o primeiro contato dos Kapinawá com o Estado Brasileiro. havia sido mais uma vez preso pela Polícia. datado de doze meses depois. o pajé. e cita nominalmente todos os chefes de família beneficiários da doação. 1981) e por mim próprio em 1981. 88 – 191. Alguns dias antes. em manchete. 2011. Firmino Gomes da Silva. uma área de 1. Propõe.600 hectares onde viviam então 48 de suas famílias (Pierson. o primeiro dos indivíduos mencionados. Um informante idoso autorizado pela comunidade. 1981). de memória. índio "civilizado". a Funai responderia. 3./dez. que "Pajé pede proteção contra fazendeiros". nada diz de conclusivo a respeito da "detecção étnica" a que se havia proposto. uma funcionária do órgão seria enviada à área no mês seguinte e o seu relatório (Pierson. Cinco dias depois. De fato. o mesmo que encabeça a lista de nomes no registro de doação. por outro lado. 1981). o Alferes Felix Machado Gomes da Silva. Jul. Campina Grande. a criação de um Grupo de Trabalho para efetuar novas investigações. o "Diário de Pernambuco" da data do supra referido "comparecimento" anunciava. no município de Buíque. De qualquer modo. O cacique desses índios. da história do lugar. resumida a seguir: Um bisavô do informante. toda a longa descrição de limites e de fazer a narrativa. O relatório traz em anexo a cópia de um registro de doação imperial de 1874. idêntica nos dois depoimentos. indica ao Alferes uma fonte secreta de água e lhe concede as terras à sua volta para que este aí se estabeleça com a sua gente. à consulta de sua DR no Recife afirmando "desconhecer a existência de aldeamento em Buíque" e que "os índios Kapinawá são considerados extintos no Brasil mas existem no Peru" (apud Pierson. a Oeste da Mina Grande. Cadernos do LEME. concedendo uma gleba de terra aos "índios de Macaco". nº 2. em retribuição. pacifica e cristianiza um grupo de "índios brabos" da Serra do Puiú. Esse define os limites da propriedade através de referências a mais de uma dezena de marcos físicos naturais. 116 . 1981). p. parte da Serra Negra. vol. de Brasília. a mando de um conhecido grileiro de terras local – Zuza Tavares – "testa de ferro" de um grande empresário do Recife – Romero Maranhão – ambos empenhados em tomar dos índios o sítio Mina Grande. ouvido pela citada pesquisadora (Pierson. referindo nada ter encontrado sobre os Kapinawá no Arquivo Publico em Recife ou no do Museu do Índio no Rio de Janeiro. era capaz de recitar.

e de um Kirirí e outro Wasu em 1984.. Já nas "sugestões". até 1985. após o que. 1984 e Luz. desautorizando cabalmente a "indianidade" dos Kapinawá. vol. p. líder do movimento kapinawá e personagem mais visado pelos seus oponentes. no final de 1979. no qual resultariam mortos dois destes44.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO A fonte dos Macacos existe até hoje no local da antiga aldeia. como seria de se esperar. Só então um outro preposto da Funai seria enviado ao local. face às ameaças. 1982: 8. 43 Essa narrativa guarda uma série de correspondências com outra do mesmo gênero mantida e relatada por dois outros respeitados informantes idosos dos Pankararé (Sampaio. grifos originais). 1985). a pressa dos grileiros em estabelecer o fato consumado com relação às terras antes de qualquer possível intervenção do órgão federal.. a pouco mais de uma légua da Mina Grande. as mortes de dois posseiros em um tiroteio com os Truká em 1982. Campina Grande. 88 – 191. No mesmo mês de fevereiro chega à Mina Grande o Grupo de Trabalho recomendado por Pierson um ano antes (op. Durante os anos de 1980 e 1981 a tensão e os conflitos fizeram-se crescentes na Mina Grande. O pajé Zé Índio (José Antonio dos Santos). mas certamente diz muito do nível de competência e seriedade com que questões desse tipo eram tratadas pelo órgão indigenista à época. Essa situação chegaria a um clímax a 7 de fevereiro de 1982 quando.. Cadernos do LEME. 117 .) aceitar a limitação do conceito sociocultural de auto-identificação. permaneceria preso vários meses. alguns índios foram à feira na vila do Catimbau e aí se envolveram em um conflito armado com alguns regionais. se propõe "(.) e no mês seguinte estaria pronto o seu relatório (Motta & Mello. nº 2. Lá fica o cemitério e lá viveram e estão enterrados o avô e o pai do informante43. Desde o assassinato do cacique dos Pankararé. auxiliando a Polícia na identificação e prisão de índios (Levay. prepostos do grileiro. Jul. e chegam à "(. 1982). rompendo o cerco determinado pelo supra citado grileiro Zuza. Pude verificar em agosto de 1981 as diversas marcas de balas nos troncos das árvores e os sinais das cercas muitas vezes derrubadas e reerguidas de parte a parte. Esse documento informa muito pouco sobre os Kapinawá. 1982). além do caso mencionado. As primeiras determinam que "(. é negativo para os índios.. aliando-se a morosidade da Funai em dar prosseguimento a "identificação" do grupo. Consiste basicamente em uma lista de 42 "Conclusões" e 22 "Sugestões" quase que invariavelmente descabidas. 44 As ocorrências fatais não são infrequentes nos conflitos envolvendo índios no Nordeste e o saldo.) formulação da hipótese de que A IDENTIDADE DO GRUPO FOI INDÍGENA" (Motta & Mello. 2011. É FALSA". de um índio Wasú e do chefe do Posto Indígena Atikum em 1983. ocorreriam.) a própria formação do grupo enquanto indígena./dez. no reconhecimento quanto à necessidade de sua revisão. não ficaria vivendo por muito tempo mais junto à comunidade. cit. 3. além de lesões graves em um Xokó e em um Pataxó Hã-Hã-Hãe..

nº 2. um breve parecer sobre o caso. encaminhado a Funai naquele ano. insistentemente. o Ministério da Justiça. Entretanto. já cresciam inapelavelmente as pressões dos movimentos indígena e indigenista pelo reconhecimento oficial dos seis povos emergentes então "em luta" no Nordeste. em 1993. 88 – 191. contidos no processo administrativo. contudo. este Ministério publicaria a Portaria reconhecendo a área como de posse indígena e determinando a sua demarcação física. em agosto de 1982. 3. voltariam a ser percebidos como complicadores em seu andamento junto ao Ministério da Justiça. sob forma de artigo (Sampaio. com pequenas alterações. os Kapinawá reocupariam por conta própria a área em 1988. seria em seguida publicado. ocasião em que a Funai negociou com o novo proprietário da fazenda em litígio com os índios da Mina Grande. em 1993. o processo de demarcação da Terra Indígena só seria diligenciado pela Funai junto à instância superior encarregada. Bastante sofisticados. Nesse novo contexto. como os demais novos postos recém-implantados na região. 46 O estudo de identificação e delimitação da Terra Indígena Kapinawá seria realizado em 1984 (Sant'Anna. A dita área deveria permanecer desocupada de parte a parte até que a Funai se pronunciasse sobre o estudo de delimitação da Terra Indígena. Cadernos do LEME. novembro. com muitos casos de conflito armado e repercussão na imprensa regional e nacional./dez. Naquele ano. "o grileiro Romero Maranhão mandou seus jagunços invadirem a área Kapinawá com tratores. em novembro de 1982. quando se encaminhava o processo de demarcação da Terra Indígena Kapinawá. porém. conforme referido na matéria citada. porém. somente três anos mais tarde. Por sua vez. 118 . Campina Grande. em condições muito precárias de assistência às comunidades indígenas. Em seus primeiros anos de existência funcionava. o que seria realizado pela Funai no ano seguinte. em uma operação que rendeu aos agressores cerca de 800 hectares de terra (Porantim. vol. Conforme dito na nota anterior. 1982) 46. 1982 e Motta e Mello. o qual (Carvalho.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO ao lado da humildade em perceber a limitação da ciência antropológica". 1997. diante de infrutíferos protestos junto à Funai de já um terceiro proprietário da fazenda. os referidos documentos. os documentos até então produzidos por técnicos do órgão a respeito dos Kapinawá (Pierson. 1982) devem ter se tornado testemunhos incômodos no processo de implantação da administração federal junto ao grupo. por Portaria da Presidência da Funai. tanto que a direção do órgão. à sua coordenadora. de uma equipe do PINEB (Programa de Pesquisa POvos Indígenas no Nordeste do Brasil) da Ufba (Universidade Federal da Bahia). em 1981. e implantado no ano seguinte. o deputado federal Ricardo Fiúza. Conforme informa o "Porantim". 2011. até mesmo um helicóptero deu cobertura a invasão". 45 Anos mais tarde. informada da visita à área. 45. o efeito de arrefecer significativamente a intensidade dos conflitos pela posse da terra. Jul. de modo tal que o próprio órgão indigenista governamental acabaria por rever a sua política em relação a estes casos no sentido do "reconhecimento". propondo a substituição desse conceito por outros com base na Antropologia Física (idem: 10). p. em 1996. Antes disto. O Posto Indígena Kapinawá seria finalmente criado. passou a solicitar. 1984). desta vez eu próprio. Levay. 1981. tendo tido. 1982b) seria emitido ainda em 198245. 1995). e mais uma vez a direção do órgão viria a solicitar um parecer a um pesquisador acadêmico com experiência de trabalho junto ao grupo. O trabalho resultante. a desocupação dos 800 hectares tomados à comunidade em 1982.

88 – 191. a seguinte referência à existência então. da qual. mesmo sem ir a arquivos. É o primeiro passo para que os Kapinawá possam vir a ocupar pacificamente a totalidade de sua Terra ainda esse ano./dez. muito provavelmente. 119 . o Diário Oficial da União publicaria Portaria da Funai determinando o pagamento. de indenizações por benfeitorias por eles implantadas "de boa fé". algumas poucas dezenas de posses de não índios nela intrusadas anteriormente ao contexto das grandes disputas fundiárias a partir da década de setenta. Um outro cronista da época. escrita em 1749 por um autor desconhecido. Finalmente. p. destacadamente presente na memória social dos Kapinawá e referida no documento insistentemente apresentado por eles – e que reporta um registro original de 1874 – se poderia encontrar.. Jul. quase sempre em emboscadas solitárias nas estradas que ligam as comunidades indígenas às povoações regionais próximas. vol. Se. a 17 de janeiro de 2001. que fica imediatamente a Oeste do território de Macacos. índios não submetidos a aldeias missionárias ainda perambulavam pela Serra Negra. Em 1999 o Presidente da República assinaria o decreto de homologação da demarcação da área. 3. Esses índios seriam aldeados nesta época pelo Padre Vital de Frescarolo. já menciona haver "documento da Biblioteca Nacional". ao menos em parte.". É sabido. por volta de 1800. tem uma nação de Tapuios Paraquióz. adotada por esses índios no próprio curso inicial do seu processo contemporâneo de afirmação étnica. efetivamente. se houvesse seguido a pista da aldeia de Macacos. e que ainda ocupavam as melhores terras dos Kapinawá das comunidades de Ponta da Vargem e Julião. e 182 pessoas" ("Informação. separada deste pelo vale do rio Moxotó. 1749: 422). do século XVIII. entretanto. conforme relato do próprio padre (Frescarolo. na Freguesia do Ararobá. contudo. aos referidos ocupantes não índios. Essas duas crônicas foram publicadas pela Biblioteca Nacional em seus "Annaes" na primeira década do século XX e Hohenthal Junior. o seu registro como Terra Indígena nos cartórios competentes. no anterior. Campina Grande. 1757: 170). enfim. aparentemente baseado.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Uma abordagem preliminar dos episódios acima permite supor que a denominação Kapinawá tenha sido. Permaneciam. e não surpreende que os pesquisadores da Funai não a tenham encontrado nos arquivos históricos. não tem missionário. em um trabalho publicado em 1954. que refere a aldeia de Macacos ou do Macaco (Hohenthal Junior. porém. nas localidades de Jacaré e Gameleira. situa Macacos na "Ribeira Panema" (COUto. e o que teve era sacerdote do hábito de Sam Pedro. 1954: 100). Não disponho de outras referências à aldeia de Macacos anteriores ao registro de 1874. autorizando.. 1802). que. nº 2. Cadernos do LEME. no interior da área. 2011. já na "informação geral da Capitania de Pernambuco". não é distante. Entre 1988 e 2000 nada menos que seis kapinawás foram assassinados em circunstâncias não esclarecidas. de uma: "Aldeia de Macaco.

Sobre relações entre os índios de Cimbres. Cadernos do LEME. Escrevendo em 1813. em se considerando a légua de sesmaria de 6. Umã e Vouvé.136 hectares. Campina Grande. de fato. Jul. cada uma com o seu idioma particular. provavelmente de parcela do território original da "extinta" aldeia48. precisamente 26. Hohenthal Junior (1954) e Barbalho (1977) atestam fartamente essa participação para o caso dos vizinhos Xukurú. 2011. living at Aldeia do Macaco. Aires do Casal refere que aqueles índios já começavam a "desertar de suas aldeias" (Aires do Casal. at which time they lived apart from the Shucuru. isto é. constituem exceções no parco acervo de informações sobre o contato com índios no Sertão antes do século XX. o que confere com os testemunhos dos Kapinawá. the nearest neighbors of the Shucuru of the Cimbres-Serra de Ararobá region were the Paratió. p. vol." (Aires do Casal. Só voltariam a ser administrativamente aldeados quando da implantação.260 hectares. o primeiro desses autores diz: "Historically. já na segunda metade do século XX. "grosso modo". Vale lembrar que o principal representante dos índios à época da "doação" é um alferes. 48 Não disponho de informações sobre a possível extensão original do território de Macacos. nominalmente. conheceu a estes índios ou dispôs de informações seguras sobre eles. 1960a: 41) e isto explicaria a "doação" de 1874. ou seja. aldeamentos de existência efêmera. na verdade. ser uma alusão a contatos entre índios da Serra Negra e aqueles já anteriormente aldeados em Macacos e Cimbres – respectivamente Prakió e Xukurú – na primeira metade do século XIX. 3. não muito longe dali. 1813: 254). 120 . à metade norte do dito "terreno" e mede 12. Penso que a narrativa resumida acima sobre o contato entre índios "civilizados" e "brabos" possa. cada uma de poucas famíllias. Chocó. quando das primeiras visitas de pesquisadores à área. somado ao do próprio Frescarolo (1802). According to Shucuru informants in 1951 there were 'many' of the Paratió some sixty years ago. A descrição de limites de 1874 permite estimar um território de cerca de 25 mil hectares. feita às famílias indígenas. 1813: 254) Seguem-se informações etnográficas relativamente detalhadas que demonstram que o então vigário do Crato. Sabe-se que as aldeias de índios em Pernambuco foram formalmente extintas em 27 de março de 1872 (Hohenthal Junior./dez. 88 – 191. voltando a vagar livremente pelas áridas serras da região47. seis léguas quadradas. dos Postos Indígenas Atikum e Kambiwá. o que é atestado historicamente. que informam que o "terreno" a que teriam direito mediria seis léguas. ou do Ururubá – os Xukurú – e os de Macacos. nº 2. mas que mostram ter uma mesma origem.600 metros. Para mais considerações sobre a constituição da Terra Indígena Kapinawá veja-se Sampaio (1995)." 47 Aires do Casal diz mais sobre estes índios: "Eram quatro nações. O território identificado pela Funai em 1984 e demarcado em 1997 corresponde. A memória dos Kapinawá costuma associar esta doação à participação dos índios na guerra do Paraguai. e distinguidas pelos apelidos de Pipipã.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Foram. Esse relato.

Cadernos do LEME. para ensinar o Toré aos do lugar e com eles dar início á prática regular de suas atividades rituais. já mencionado e com mais de cinquenta anos à época da eclosão do movimento dos Kapinawá. por fim. é atestada também pela tradição oral na região. signo da sacralização deste e. O dia em que os Kapinawá "levantaram o cruzeiro da jurema".). Descendants of these so-called 'black indians' were encountered in the Serra de Ararobá" (Hohenthal Junior. no centro do terreiro preparado para os rituais. 2011. nº 2. 88 – 191./dez. ao final da década de setenta. como aparece nas fontes do século XVIII – o que pode ser tomado como uma indicação de que esta lhes fosse atribuída apenas por terceiros. intercâmbios relativamente intensos entre diferentes populações indígenas na região central do Estado de Pernambuco certamente não são apenas recentes nem se têm articulado somente em função de mobilizações étnicas com maior repercussão externa. passou a desenvolver um contato regular com as comunidades do "terreno" de Macacos. e de que tenha.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "The Shucuru call these Paratió 'índíos pretos' or 'índios macunha'. Os atuais Kapinawá aparentemente não "recordam" a denominação Paratió – ou Parakió. par-e-passo com a luta pela manutenção da ameaçada posse da terra. Em seguida veio a estabelecer um "terreiro" na pequena cidade de Ibimirim. A presença dos "Paratiós" em convivência com os Xukurú na área de influencia da Serra do Urubá – ou Ararobá – com centro na vila de Cimbres. a partir daí. na Serra do Urubá. ao que parece. O pajé Zé índio. a meio caminho entre os territórios dos Kambiwá e dos kapinawá. nasceu e se criou entre os Xukurú. Campina Grande. como os Xukurú. que em algum tempo após a "extinção" de 1872. permanecendo por algum tempo entre os Xukurú e aí deixando descendentes ainda identificáveis. do próprio território. desde o século XVII. e antes da implantação do Posto Indígena Xukuru na década de quarenta. Ao final dos anos sessenta estabeleceu-se como pajé entre os Kambiwá. vol. por essas indicações. 3. Seja como for. pouco antes da implantação aí de um Posto Indígena. como refere Barbalho (1977: 46. pelo menos por algum tempo. vindo. 121 . o que é corroborado por testemunhos atuais dos Kapinawá. por extensão. ainda que a documentação escrita aparentemente não seja muito precisa a respeito. possivelmente já face a pressões fundiárias. Parece provável. um sentido pejorativo. conforme Hohenthal Junior. em 1951. e. a se estabelecer na Mina Grande. p. 1954: 108). 49 etc. grupos de índios de Macacos tenham daí se retirado. Jul.

ainda como estudante de graduação. contudo. provêm do material de campo da equipe do PINEB que os visitou em agosto de 1981. muito típicos do que os especialistas chamam "Tradição Nordeste". Cadernos do LEME. e 49 Informações sobre os Kapinawá. separa os municípios de Buíque e Tupanatinga. dispersas entre as roças familiares de mandioca e milho principalmente. 1981) – pouco mais que uma légua a Nordeste. por exemplo. Em várias das paredes externas e internas destas grutas há desenhos. ocorria também com frequência entre os Kapinawá. prática que atinge em graus diversos todos os povos indígenas na região50. ou nos grandes centros. Nas mesmas direções estão as sedes municipais. geralmente em vermelho. As terras da Mina Grande. que na maior parte do ano não chega propriamente a sê-lo. representando seres humanos. por diversas vezes. e da qual participei. animais etc. respectivamente Buíque (4914 habitantes.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO 15 de janeiro de 1979. temporária ou não. Jul. Os Kapinawá moravam á época em habitações simples que seguiam o padrão típico regional. Há porém alguns grandes fazendeiros como aqueles que lhes ameaçaram mais diretamente. eram insistentemente mostradas aos visitantes. Essas marcas. Além das roças havia reduzida criação doméstica e apenas duas ou três famílias tinham algumas poucas cabeças de gado. Sem dúvida o aspecto da área contrasta com o da caatinga extremamente árida imediata mente a oeste. 2011. mas os Kapinawá afirmavam que. idem). especialmente São Paulo. Luz (1985). 88 – 191. Os vizinhos dos Kapinawá são em geral também pequenos e médios agricultores. mesorregião do Agreste Pernambucano (IBGE.. 3. 50 Veja-se. vol. 122 . uma légua ao sul. p. ambos na microrregião de Arcoverde./dez. ou no povoado de Cabo do Campo. a dezesseis quilômetros. para o caso Pankararé. As feiras semanais dos Kapinawá eram feitas preferencialmente na Vila do Catimbau – 825 habitantes em 1980 (IBGE. muito importantes na afirmação étnica dos Kapinawá. Além disso. quando não indicado. nº 2. Campina Grande. 1981). num extenso vale dominado por uma imensa rocha – a Mina Grande – em cujas bases se encontram diversas grutas com ossadas e farto material cerâmico. O já referido curso d'água. A migração. não sei se havia então outro motivo especial para a cobiça sobre estas terras. são consideradas boas na região em função da presença de olhos-d'água e de um pequeno riacho que corre ao longo do vale. costuma ser referido por eles como a data de fundação de sua "aldeia" e. A privação da maioria das famílias era aparentemente muito grande. onde vivem os Kambiwá. em busca de assalariamento na região. do início da luta pela posse da terra49. também. geólogos já haviam andado fazendo "levantamentos" na rocha da Mina Grande.

1984) e 322 em 1985 (Vicente et al. nº 2. impressionista em muitos aspectos. situados a oeste da Mina Grande.que os índios costumam designar pelo seu antigo nome de Santa Clara . Acredito que este breve relato. Não conheci então estes núcleos nem como se definia sua gente. Jul. 286 indivíduos em 1983 (apud "Aconteceu". idem). 3. 123 . dentro ou próximos da área definida em 1874. os Kapinawá. a resposta dominante era a de que quarenta ou quarenta e poucas famílias "estão na luta". faz crer que sua tutela não se estendia então muito além das quarenta e oito famílias previamente identificadas (Motta & Mello. referiam. estavam na área ameaçada ou de algum modo ligados às que lá estavam. compondo o que se poderia definir como a comunidade da Mina Grande. Campina Grande.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Tupanatinga . dá porém uma boa ideia da fertilidade que possa vir a ter aí uma investigação sobre processos étnicos. tal marco significou básica mente a revisão definitiva das perspectivas culturalistas segundo as quais Cadernos do LEME. 1982). Campo teórico: definições Etnicidade Ao lidar com a questão da etnicidade parto sobretudo do marco teórico representado pelos trabalhos de Barth (1969) e Cohen (1969). ou mesmo com os antigos bandos da Serra Negra. p. não havia "aldeias". há certamente uma rica história e uma intensa elaboração intelectual e política que tem orientado este pequeno segmento social na sua crítica situação. 1985). que apesar de haver aí índios. Santa Rosa e Meirim (na sede do município de Ibimirim). 2011. um pouco mais distante. Subjacente ao "estar na luta". Os números fornecidos por essa. por outro lado. no sentido de que não as consideravam comunidades territorial e politicamente organizadas. A definição étnica dos Kapinawá parecia então perpassada em grande medida pela disputa territorial. além dos Xukuru e Kambiwá. ou seja. 88 – 191. No caso do primeiro autor./dez. nem procuravam a Funai então. É provável que afirmassem vínculos com "Macacos". mas certamente não "estavam na luta". vários núcleos rurais e povoados vizinhos. dentre os quais três em que havia terreiros e pajés: Quiri d'Alho.(2681 habitantes. aos marcos territoriais e históricos na Mina Grande e em Macacos. Diziam. Mas se se indagava acerca da existência de outros índios nas redondezas. II. aos rituais e a relação sempre ambivalente com a Funai. Quando indagados sobre quantos seriam. vol. apesar dos terreiros.

um instrumento frequentemente utilizado por especialistas nas discussões suscitadas pelas questões surgidas em torno do "reconhecimento" oficial de povos indígenas52.) cuenta con unos miembros que se identificam a sí mismos y son identificados por otros y que constituyen una categoria distinguible de otras categorias del mismo orden" (idem: 11). veja-se Redfield et al (1936) e Siegel et al (1954). ainda que não a tenha elaborado exaustivamente em seu trabalho de 1969. 3. Cadernos do LEME. redefinindo assim o estatuto e o papel dos elementos culturais: 51 Para uma síntese do modelo teórico da "aculturação". Há uma avaliação crítica de ambos em Cardoso de Oliveira (1964). vol. nº 2. por tanto. Jul./dez. e desse modo passíveis de perder suas características e sua definição uma vez em contato com outros universos culturais. produzidas através e em função do seu isolamento em relação a outras "culturas". A definição hoje clássica de que a noção de grupo étnico designa "una comunidad que (. como se sabe. Campina Grande. "los grupos étnicos son categorias de adscripción y identificación que son utilizados por los actores mismos y tienen. ao definir o grupo étnico como "um tipo de organização social" (idem: 13). generalmente son el fundamento mismo sobre el cual están construidos los sistemas sociales que las contienen" (1969:10). 88 – 191.. por el contrario. para Barth.. 124 . os chamados "estudos de aculturação" marcaram os trabalhos no campo das relações interétnicas nestas perspectivas51. Barth possibilitaria e estimularia a ascensão da noção de "identidade" a um lugar central nos estudos imediatamente posteriores nessa área. "las dístinciones étnicas no dependem de una ausencia de ínteraccion y aceptación sociales. Ao adotar uma perspectiva que privilegia o aspecto interacional e a "característica de autoadscrição e adscrição por outros" (idem: 15). Voltaremos adiante à questão da noção de "identidade".DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO os grupos étnicos definiam-se por portarem "culturas" próprias e especificas. supuestamente determinada por su origen y su formación" (idem: 15). Podese entretanto ter uma ideia da sua importância no argumento pela afirmação de que "una adscripción categorial es una adscripción étnica cuando clasifica a una persona de acuerdo con su identidad básica y más general. Desse modo. Finalmente. tem sido. 52 Toda a discussão a respeito de critérios de identidade étnica está admiravelmente sintetizada em Carneiro da Cunha (1983). De fato. la característica de organizar interacción entre los indivíduos" (idem: 10-11). é desde então a base de qualquer critério antropológico de identificação e definição étnicas e. especialmente no Brasil. p. Barth desloca o eixo da questão do "conteúdo" objetivo destes grupos para os seus "limites" e suas relações com outros grupos do mesmo tipo. 2011. Assim.

concluindo de modo definidor que. No Brasil a gênese do que se poderia hoje reunir sob o rótulo de estudos de etnicidade é anterior mesmo as obras acima referidas.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "Los razgos que son tomados en cuenta no son la suma de diferencias 'objetivas'. sino solamente aquellas que los actores mismos consideram significativas" (idem: 15)./dez. 2011. Jul. Já a contribuição fundamental da monografia de Cohen consiste no uso que faz da categoria "etnicidade". e que "ethnic groupings is essentially informal. within the formal framework of a national state or of any formal organization. que envolve diversos segmentos étnicos no contexto dos grandes centros urbanos emergentes na África negra. Cohen revela que "ethnicity is essentially a political phenomenon.) tribalism involves a dynamic rearrangement of relations and of customs. embora inegavelmente característico da organização étnica típica. "it is only when. tomada enquanto a dimensão política de grupos organizados ("polity") informalmente com base em atributos e num "idioma" étnicos. and is not the outcome of cultural conservatism or continuity" (idem: 199). or a return to the past. and as mechanisms for political alignment".. p. de modo a atuarem como "grupos de interesse" no âmbito da sociedade envolvente. Cohen preocupa-se em demonstrar o caráter inovador e dinâmico desses movimentos. 3. when in fact we are confronted with a new social system in which men articulate their 'new roles' in terms of traditional ethnic idioms" (Cohen.. deve evidentemente ser relativizado e problematizado ao se tratar do caso dos povos indígenas no Brasil. conservatism. Cadernos do LEME. 1969: 196). ao contrário do que ainda então se lhes atribuía: "To the casual observer it will look as if there is here stagnation. Campina Grande. de modo a construir oposições e classificações socialmente operacionais e simbolicamente relevantes. 125 . Reencontramos aqui a colocação crítica central de Barth na afirmação de que "contemporary ethnicity is the result of intensive interaction between ethnic groupings and not the result of complete separatism" (idem: 198). "(. nº 2. Mas. as traditional customs are used only as idioms. It does not form part of the official framework of economic and political power within the state"53. e esses podem ser acompanhados em praticamente todos os seus desenvolvimentos através da obra de Roberto Cardoso de Oliveira. 88 – 191. Assim. that we can say that we are dealing with ethnicity" (idem: 200). Interessado no fenômeno de "retribalização". an ethnic group informally organizes itself or political action. haja visto o seu estatuto jurídico diferenciado etc. acima de tudo. 53 Esse caráter informal. vol.

Trata-se assim. por uma significativa ampliação da compreensão das relações interétnicas envolvendo povos indígenas no Brasil (Cardoso de Oliveira. e por outro. 2011. caracterizados por seus aspectos competitivos e./dez. e que representam o produto de uma revisão critica das primeiras tentativas da Antropologia funcional em lidar com as questões do "contato interétnico" e da "mudança social". até então amplamente dominantes no Brasil54. assumindo esse contato muitas vezes proporções 'totais'. 1967. por um lado. 1967. envolvendo toda a conduta tribal e não-tribal que passa a ser moldada pela situação de fricção interétnica" (Cardoso de Oliveira. definida como "situação de contato entre duas populações dialeticamente 'unificadas' através de interesses diametralmente opostos. conflituosos. 126 . Laraia & Da Matta. vol. 1964. i.e. 1945) a respeito. nos anos sessenta. 88 – 191. Quanto à noção de "fricção interétnica". que define aqui tanto um objeto quanto um modelo de análise. as noções e posturas teóricas que vinham se desenvolvendo também na Inglaterra. principalmente através de Balandier (1955). 1962: 128). Aquelas noções podem ser sintetizadas nas categorias analíticas de "processo" e de "situação". de estudar a "situação" – "tomada como 'totalidade sincrética'" – de "fricção interétnica". 1962: 127-8) 55. e tomando como objeto básico o "contato interétnico" – entendido sobretudo enquanto uma dimensão e uma resultante de processos coloniais – Cardoso de Oliveira (1962. p. nº 2. ainda que interdependentes.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Partindo também de uma crítica aos estudos de aculturação. 1967) incorpora. expressas fundamentalmente nos trabalhos teóricos de Malinowski (1938. Melatti. veja-se também o seguinte trecho: "Chamamos 'fricção interétnica' o contato entre grupos tribais e segmentos da sociedade brasileira. por paradoxal que pareça" (Cardoso de Oliveira. onde suas etapas mais significativas são marcadas pelas monografias de Gluckman (1940) e de Turner (1957). Campina Grande.. em seguida ampliado e complementado com o do "potencial de integração" (Cardoso de Oliveira. 54 55 Há boas sínteses históricas destes trabalhos em Galvão (1953) e em Schaden (1969). da "elucidação dos mecanismos que norteiam a passagem da ordem tribal à ordem nacional em que se transfiguram ou tendem a se transfigurar as populações aborígenes". exemplarmente elaboradas por Cardoso de Oliveira em sua aplicação ao estudo do contato entre índios e não-índios no Brasil. 3. Cadernos do LEME. O modelo da "fricção interétnica". entre outros). 1964. no mais das vezes. Jul. 1967) – que busca dar conta das variáveis estruturais que orientam as perspectivas e os níveis da articulação e da participação de segmentos indígenas na sociedade nacional – seria responsável.

ainda segundo Cardoso de Oliveira (1978). Cadernos do LEME. Cardoso de Oliveira articula esta noção à de "representações coletivas" (Durkheim. Bennett (1975). e aqui em especial a identidade étnica. ocupa posição nuclear56. produzidas pela sociedade envolvente na situação de fricção interétnica. A noção de "identidade étnica" assim construída tem também como característica definidora a sua natureza "contrastiva" e situacional. Cardoso de Oliveira dirige sua atenção especialmente para a "identidade étnica" (1971. De Vos & Romanucci-Ross (1975). a identidade. Esman (1977). p. como por exemplo as dirigidas por Gelfand & Lee (1973). 1973. Preocupado com uma conceituação antropológica de "identidade". em delimitar com mais precisão o alcance das suas ideias de 1969: "I have argued emphatically (Barth. retendo como essencial e condição de inteligibilidade e eficácia dessas categorias. e que diz respeito às diferentes representações que os indígenas fazem de si mesmos e dos outros à medida que incorporam concepções. 1974: 51). em que este ocupa-se. Tomamos como exemplo significativo desta revisão uma recente comunicação do próprio Barth (1984). Uma amostra dessa propagação pode ser fornecida pelo volume das coletâneas de estudos na área. Poulantzas. Campina Grande. e busca sobretudo complementar o modelo sociológico da "fricção interétnica" acrescentando-lhe uma categoria de análise capaz de compreender o sistema interétnico a nível das suas representações e "ideologias". não necessariamente as mais significativas. tendo chegado a um nível de dispersão que fez surgir a necessária revisão crítica já a partir do final da década. and most writers seem to agree. 88 – 191. Keyes (1981) e Whitten Junior (1981). 1912) e sobretudo à de "ideologia" (Berger & Luckmann. Jul. 1964). Bell & Freeman (1974). Glazer & Moynihan (1975). 2011. entre outras coisas. A fecundidade dos estudos de caso daí decorrentes pode ser observada em trabalhos como os de Aquino (1977) e Barros (1977). 1966. 1969). principalmente nos Estados Unidos57. já incorporando as formulações de Barth (1969). sobretudo a seu respeito./dez. 127 . questão que já lhe havia sido despertada no estudo do fenômeno que denominou "caboclismo" (Cardoso de Oliveira. Dofuy & Akinsola (1980). 1969). Os estudos de etnicidade tiveram ampla propagação na década de setenta. one that allow us to depict the boundaries and relations of social groups in terms of the highly selective repertoire of cultural 56 57 Sobre este ponto ver também a posição de Da Matta (1976). no universo das quais. 1976). that ethnicity is best used as a concept of social organization. vol.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Na década seguinte. a "condição de serem referidas aos sistemas de relações sociais que lhe deram origem" (Cardoso de Oliveira. 3. nº 2. Cohen (1974).

Apontando a insuficiência nesse sentido em defini-la simplesmente como ideologia. but an account of the nature of continuity insofar as it can be ascertained" (idem: 80).) since these component traditions or cultural streams are so weakly bounded. a autora discute o sentido da especificidade da etnicidade enquanto modalidade de organização e de discurso político-sociais. porém.. Ainda mais importante. Interessado agora em dar conta do "pluralismo cultural". haja visto que "the things that are associated in the plurality – the cultures or traditions or streams . No primeiro destes trabalhos. 1985). me parece ser a contribuição de Carneiro da Cunha (1979. nº 2. Oman) onde diversas tradições culturais e religiosas bastante vigentes e efetivas interpenetram-se e atingem diferentemente os vários estratos sociais e segmentos étnicos. a uma descrição minuciosa ("depiction") de todo o contexto social no qual as tradições culturais em causa se inscrevem: "(./dez. interessante – essas recomendações – dirigidas sobretudo contra o uso abusivo da categoria "etnicidade" como dimensão explicativa nas mais diversas situações socioculturais – me parece inegavelmente apropriadas. p. Jul. "give an account of their history – not in the sense of the origin of the tradition or the origin of its contents. para esse autor. though it no doubt serves to identify the set of forces that affects this distribution" (Barth. o que implica tanto na abordagem de sua organização social e política quanto em. imprescindível quer estejamos lidando apenas. distingue-a de outras 58 Ver também o desenvolvimento inicial dessas questões em Carneiro da Cunha (1977). Embora esteja interessado em um caso do gênero que Barth certamente classificaria como típico de "etnicidade". na investigação do pluralismo. se adotar a distinção entre "etnicidade" e "pluralismo cultural" – que. ainda mais que. por um lado. quer com realidades culturais de maior complexidade. 3. 128 . Cadernos do LEME. we need to depict the whole context in which they are realized" (idem: 86). values and practices that are distributed in a population. For that very reason. no sentido da atenção metodológica e teórica as "situações" e "processos". no fundo. 2011. ethnicity provides only a very oblique and deceptive framework for investigating the actual bodies of beliefs. 88 – 191. Campina Grande.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO contrasts that are employed emblematically to organize identities and interactions. parece ser. elas estão apenas nos remetendo. como diria Barth. vol. proceder-se. com etnicidade. 1984: 80). Barth demonstra a necessidade de. por outro lado. mais uma vez. quase sempre.. e trabalhando com o exemplo de uma pequena comunidade urbana (Sohar. para uma reorientação dos estudos de etnicidade.are things that change both their boundaries and their contents" (idem: 79) 58.

/dez. a 'cultura da diáspora' é coisa diversa do que poderá ter sido. de pedra de toque da identidade. 3. desses que lutam pelas suas terras invadidas e pelo seu reconhecimento.). Jul. poderia até. usada por agentes sociais para os quais ela é relevante. tradicionais. a etnicidade não seria uma categoria analítica. mas uma categoria 'nativa'. e creio ter sido um equívoco reificá-la como tem sido feito" (idem: 38-39)... 1979: 38). Vejamos o que diz: "tentei mostrar que a etnicidade pode ser melhor entendida se vista em situação. mesmo neste improvável caso. A autora retoma essas questões em sua monografia de 1985 elaborando a redefinição de "cultura" consoante seu lugar na etnicidade.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO formas sociais de organização e expressão pela evocação que traz a uma origem (tradição. na retórica usada para se demarcar o grupo – nestes casos uma assunção de fé ou de genealogias compartilhadas. (Essas) (. 1985: 207). consiga recuperar plenamente a língua dos seus antepassados. sua condição de parâmetro. Tal implica em afirmar que. isto sim.) não serão mais estritamente o que foram na origem (. a autora tem em mente justamente a situação dos índios no Nordeste. ser composta de 'todos' os traços de uma eventual cultura de origem: no entanto. nº 2. 'Seleção' elaborada de traços culturais tidos por autênticos. essa construção de uma cultura da diferença. recolocando aqui criticamente a noção de "cultura". imemoriais. suas técnicas. história) e a uma cultura comuns. suas tradições. 1985: 207) 59. enquanto na etnicidade se invocam uma origem e uma cultura comuns" (Carneiro da Cunha. "portanto. no limite. despojando-se então esse conceito do peso constituinte de que já foi revestido. p. não mais que estes outros grupos. mas essa perspectiva acarreta também que a etnicidade não difere do ponto de vista organizatório de outras formas de definição de grupos. 59 É interessante notar que. agora. Campina Grande. 88 – 191... como se pode verificar logo a seguir: "Suponhamos que um grupo indígena. É em bloco. 2011. Cadernos do LEME. 129 . isto é. põem em causa a própria noção de cultura. altera-lhe essencialmente a natureza" (Carneiro da Cunha. ressalta – de "cultura da diáspora": "Os estudos da etnicidade. Doravante parâmetro. tais como grupos religiosos ou de parentesco. através do que chama – apenas por conveniência. como uma forma de organização política: esta perspectiva tem sido muito fecunda e tem levado a considerar a cultura como algo constantemente reelaborado. Difere. vol. que (elas) passam a marcar relações e privilégios entre 'todos' desse grupo e um grupo 'outro'" (Carneiro da Cunha. ao fazer estas considerações.

Oriento-me assim. Se tomamos a etnicidade como um modo especial de pensar e articular ordens sociais em que a "cultura" – e certamente a "história" como constituinte fundamental dessa – aparece como elemento definidor. pela posição de Carneiro da Cunha (1979. basicamente. 130 . principalmente./dez. 1938). com as quais forma um sistema. o fazemos – como não poderia deixar de ser – enquanto uma categoria Cadernos do LEME. temática que nos traz desde os trabalhos clássicos de Durkheim e Mauss (Durkheim & Mauss. É uma estratégia de diferenças" (idem: 206). ainda que. sobretudo. como em Dumont (1966). 88 – 191. os estudos de etnicidade se inserem num campo de preocupações mais amplo e mais tradicional na Antropologia Social – sobretudo a francesa – que podemos definir. 3. Importante observar aqui como. 'grosso modo'. sem perder de vista entretanto o legado da moderna etnologia brasileira no estudo de sistemas interétnicos. Campina Grande. desenvolvendo-se mais recentemente – e ao meu ver um tanto diluentemente – em Bourdieu (1979). a etnicidade usa espécies culturais para pensar um conjunto social de novo tipo. como o dos "processos e lógicas sociais de classificação". É preciso deixar claro. nº 2. atinge sua dimensão cognoscitiva e elaboração teórica máximas na obra de Lévi-Strauss (especialmente 1962a e 1962b).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO No balanço critico que faz daqueles estudos Carneiro da Cunha reafirma que o que se ganhou com os estudos de etnicidade foi a noção clara de que a identidade é construída de forma situacional e contrastiva. Mauss. ou seja. 1903.. desse modo. enquanto tal. resposta 'articulada' com as outras identidades em jogo. Durkheim. E mais adiante: "é nesse sentido que a questão da etnicidade é análoga à do totemismo: se este usa espécies naturais para pensar grupos sociais. 2011. entendendo-se por classificações o conjunto de representações da sociedade a respeito.). tal qual delimitada acima. Cohen (1969). Voltando agora ao nosso interesse nos movimentos indígenas no Nordeste. a sociedade multiétnica" (idem: 208). pertinente à descrição e análise dos seus processos fundamentais. 1985). que ao tomá-la como fio condutor das nossas reflexões. inclusive na medida em que esta incorpora o essencial das contribuições de Barth(1969) e. que ela constitui "resposta política a uma conjuntura. 1912. vol. certamente podemos e devemos tomá-la como categoria nativa. de sua própria ordem – organização social – mas também de ordens cósmica. conforme Cardoso de Oliveira (1964 etc. julgamos a noção de etnicidade. em especial no que diz respeito ao desempenho estrutural e ideológico das sociedades indígenas. Jul. passível da nossa elaboração teórica secundária. p. porém. natural etc.

uma delimitação sociológica mais segura da noção de "identidade". para contornar a polêmica epistemológica e sociológica em torno do conceito de "identidade" (conforme por exemplo Lêvi-Strauss et al. É evidente que sabemos que ao se tratar de etnicidade estaremos forçosamente lidando com "identidades sociais". pelo menos até Erikson (1950. e que tem um uso mais estabelecido. como bem o demonstra Cardoso de Oliveira (1976. nos termos em que o coloca Cohen (1969) – e. em segundo lugar. 1968) e Hegel (por exemplo 1802). se possível. 88 – 191.C. que dentro dos limites de investigação que aqui se propõe. Caberia aqui ainda esclarecer a opção que faço por "etnicidade" em lugar de "identidade étnica". naturalmente. a uma intenção em marcar a natureza essencialmente política do que estamos tratando – ou seja. mas sempre bom lembrar. além de trazer questionamentos importantes aos seus fundamentos nas Ciências Sociais. exigiria antes que tudo uma reavaliação das suas matrizes psicológica e filosófica. tal conceito – o de uma "identidade étnica" – pode ser suficientemente bem delimitado e operacionalizado. lhe ser equivalente. tarefa à qual. pelo menos na Etnologia brasileira. senão até Aristóteles (século VI A. tais processos só nos serão inteligíveis através de uma Antropologia em sentido mais amplo – e mais ou menos nos termos propostos por Barth (1984) – em especial uma Antropologia Política. seja lá como se possa defini-las exatamente – e a diversidade de acepções aqui é certamente ampla – o que entretanto não parece ser motivo suficiente para que se privilegie analiticamente um conceito que se tem revelado tão "difuso"60. Tal se deve. que o essencial do nosso material de análise se constitui de relações sociais e suas representações. vol. É elementar. 131 . 2011. em vista do que se torna imprescindível à eficácia e coerência dessas reflexões o recurso a outros elementos teóricos de análise que nos permitam compreender as fundamentais dimensões político-organizacional e temporal daqueles movimentos. à primeira vista. Campina Grande. sendo as situações sociais das quais nos ocupamos informadas. porém.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO que remete a uma ordem de fatos essencialmente políticos e marcadamente históricos. "etnicidade" parece suprir a demanda teórica com vantagens significativas. Antropologia política 60 Ao meu ver./dez. não me disponho. Em outras palavras. organizadas e reproduzidas em termos de uma etnicidade. que poderia. Dentro desses limites. Cadernos do LEME. 61 Ver também Héritier (1977) e Izard (1977). nº 2. cuja extrema difusão parece ter debilitado sua eficácia cognoscitiva e explicativa. 1977).). 1978) 61. É sabido também. por outro lado. o que quero dizer é que. em primeiro lugar. p. 3. Jul.

. para formulações em torno da ideia de "conflito" e onde a "mudança estrutural". mas através de uma perspectiva algo diversa. No mesmo ano. clãs. 132 . na base da já referida concepção "situacional" e "contrastiva" segundo a qual se pensam hoje as "identidades sociais". os "valores místicos" etc. abrindo-se um espaço. que exige uma articulação e um conhecimento próximos dos sistemas políticos locais tradicionais. Jul. A análise exemplar desse princípio organizacional – a "segmentaridade" – está. Voltada ainda principalmente para a compilação e comparação extensivas de diversos casos. obscurecendo-se o desenrolar do processo analítico. intentando delimitar no plano teórico e empiricamente um campo próprio do "político" – essencialmente das relações de poder – delineando-o também em seus vínculos com o parentesco. em seu ensaio sobre a Zululândia (1940). Campina Grande. O trabalho mais significativo então é sem duvida o de Evans-Pritchard a respeito dos Nuer (1940 a e b). 3. a resultados próximos aos de Evans-Pritchard. onde antropólogos frequentemente prestavam assessoria ao governo colonial. 88 – 191. 2011. a base territorial. as respostas desses sistemas ao "domínio europeu". nº 2. a demografia. Partindo da constatação de que as "situações sociais" constituem a matéria-prima do trabalho etnológico. já traz uma preocupação transparente. De fato tal necessidade surge fundamentalmente do trabalho na África negra.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Já referi de passagem os desenvolvimentos da Antropologia Social britânica no sentido de introduzir em seus estudos noções como "mudança" e "contato". construindo oposições e alianças significativas ou não segundo níveis estruturais e situações diversas. enfim. Típica deste período é certamente a coletânea organizada por Fortes e Evans-Pritchard (1940) sobre os sistemas políticos africanos. mas que nem sempre aparecem convenientemente explicitadas no resultado final das pesquisas./dez. em que se descreve o modo segundo o qual essa grande sociedade "descentralizada" se organiza segmentarmente em tribos. ao meu ver. vol. os "limites" do "grupo político" e. sobretudo na Introdução assinada pelos editores. assim como de concepções mais dinâmicas a respeito de "estrutura social". linhagens e sublinhagens. em função sobretudo da implantação do sistema de 'indirect rule'. além da própria noção de "estrutura social". Gluckman chega. Gluckman propõe uma Cadernos do LEME. ainda que limitado. se colocam de modos diversos daqueles até então amplamente estabelecidos. especialmente a partir da obra de Radcliffe-Brown (por exemplo 1940). p. com a discussão da noção de "poder" e a proposição de conceitos a ela associados como os de "força organizada" e "correlação de forças". Discutem-se questões como "chefia" e ou "governo".

3. But it was still the social morphology that we were aiming to present" (Gluckman. 1967: XIV). como o próprio Gluckman faria questão de ressaltar ainda muitos anos após (1959. o que é feito sobretudo através de um acompanhamento etnológico a bem mais longo prazo. ainda que informada pelo conhecimento de outros fatos e situações. No segundo. 1959 etc. em especial sua tentativa de considerar os dois segmentos sociais envolvidos numa situação de contato como sistemas autônomos. Gluckman crítica demolidoramente as concepções malinowskianas de "dinâmica cultural". imediatamente anterior à Segunda Guerra. 1946. embora angular. enquanto expressões acabadas da morfologia social. dando lugar ao estudo das transformações. Jul. 1957.) não havia conexão regularmente estabelecida entre as séries de incidentes nos casos citados em diferentes momentos da analise" (Gluckman.) com uma revisão do casamento mal sucedido entre a sua teoria funcional e as questões impostas pela necessidade de se lidar com a mudança e o "contato" (Gluckman. combinar os progressos do método etnográfico desenvolvido por Malinowski (1922 etc. 1959: 66). da flexibilidade e. quando não propriamente histórico. tal qual se apresenta em contextos social e historicamente datados62. hoje sobejamente reconhecida.. de qualquer modo. e contra o que se chamou de "método da ilustração adequada" ("method of apt illustration"). vol. através da qual se procura lograr uma demonstração da "estrutura social". mas através dessa mesma ênfase nos "casos". entendendo-se por "casos" uma sequência temporal relativamente longa de "situações" correlatas (Gluckman. (. um interesse decrescente nas "estruturas". 133 . within these situations to exhibit the nature of the social structure. p. selecionadas sobretudo em função da importância social nelas investida e vivenciada pelos próprios atores. Ver também a respeito Durhan (1978). 63 No primeiro desses artigos.). nº 2. 1947) 63. seguida de uma interpretação bastante direta.. 2011. Entretanto. por um lado. da contradição nos sistemas sociais. uma preocupação já bastante explícita da "análise situacional" era também dar conta da mudança social. Pretendia-se então. 1967). A essa altura a noção de "situação social". delimita a contribuição. em que "cada caso era selecionado de acordo com sua adequação a um item particular da argumentação. O próprio Gluckman sintetiza o resultado desse desenvolvimento teórico e metodológico do 62 No caso desse ensaio de Gluckman se pode definir esse objeto de demonstração como a sociedade colonial da Zululândia por ocasião da consolidação administrativa do domínio britânico. e por outro. não parecia requerer muita elaboração teórica e.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO descrição minuciosa de "situações". os objetivos finais da analise de caráter essencialmente morfológico eram ainda dominantes: "we called these complex events 'social situations'. da obra de Malinowski para a Antropologia Social./dez. 88 – 191. Campina Grande. Cadernos do LEME. eventualmente. Tem-se assim. uma ênfase sempre crescente no estudo e na descrição sistemática de "casos". e isto marcaria o seu desenvolvimento subsequente.

)./dez. ao lado de uma demonstração etnologicamente cuidadosa dos complexos princípios que operam essa variabilidade. Sempre que se aplicou este método a monografias que usavam o método da ilustração adequada. p. a série de questões que acompanhamos ao longo da obra de Gluckman desaguam no pleno desenvolvimento metodológico do que viria a ser designado "método de caso desdobrado" ("extended case method") e na formulação do conceito de "drama social". já então. Cadernos do LEME. 1954a. no decorrer de um período suficientemente longo. inclusive exógeno. menos rígido. Já em Turner (1957). onde. vol. é certamente a monografia de Leach (1954) sobre as diferentes ordenações políticas dos povos Kachin do Norte da Birmânia. 2011. Campina Grande. e demonstrar como esses incidentes.. 88 – 191. descritos sistematicamente numa sequência de episódios relacionados. Turner acompanha a vida da aldeia e dos seus habitantes ao longo de vinte anos. se relacionam com o desenvolvimento e a mudança das relações sociais entre essas pessoas e grupos.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO seguinte modo: "se pretendemos penetrar mais profundamente no processo real pelo qual pessoas e grupos convivem com um sistema social. o seu enredo. 3. Sem abrir mão de uma competente descrição morfológica da "estrutura social" da aldeia que estuda e dos "princípios abstratos" que orientariam a constituição dessa estrutura. seja enquanto elemento rotinizado. Gluckman dedicaria boa parte da sua produção nos anos quarenta e cinquenta – reunida principalmente em 1955 e 1963 – à discussão do "conflito" em suas relações com as estruturas sociais. ritualizado e absorvido por esta (1952.) on the way to making the kind of analysis of how the many different components in a social system operate with varying weight in different types of situation" (Gluckman. 1967: XX). Gluckman reconhece que. menos amarrado" (idem: 68). têm-se conclusões que instigam a discussão em torno da definição teórica da noção de "estrutura social". "O uso mais fecundo que se pode fazer dos casos consiste em tomar uma série de incidentes específicos ligados às mesmas pessoas ou grupos. temos que utilizar uma série de casos conexos ocorrendo dentro da mesma área da vida social" (idem: 69). sempre com base no seu rico material etnográfico banto. agindo no quadro de sua cultura e do seu sistema social. numa avaliação bastante posterior do seu ensaio pioneiro de 1940. seja como agente modificador (por exemplo 1954b). entretanto. Enfim. por assim dizer. esses casos. Jul. relativo ao eixo temático da série de situações abordadas. nº 2. A expressão mais acabada de uma análise de variabilidade estrutural. sob uma cultura. 134 . emergiu um quadro muito diferente do sistema social: mais complexo.. "I was (. constituindo. etc.

1968). por outro lado. 88 – 191. como se verá a seguir. vol./dez. basicamente. observam que "There has been a trend (. desenvolve uma delimitação marcadamente teleológica do "político". pretende demonstrar. "if we look at the religious ceremony from the point of view of the processes by which the group goals are determined and implemented (how it was decided that a ceremony was to be held. 1966: 1). how the time and 64 No trabalho seguinte (1968). "how certain principles of organization and certain dominant values operates through both schisms and reconciliations.) is the study of the 'processes' involved in determining and implementing public goals and in the differential achievement and use of power by the members of the group concerned with those goals" (swartz et al.. orientada sobretudo para a definição e busca de metas coletivas ("public goals"): "the study of politics (. 2011. nº 2. 1966: 7) 64. A apropriação das ideias e posturas próprias da chamada "escola de Manchester" na constituição teórica de uma Antropologia Política com diretrizes e procedimentos bem definidos pode ser observada nos trabalhos reunidos por Swartz. considerando principalmente a possibilidade de "metas" envolvendo de modo uniforme todo o grupo considerado. 1957: XI). and values which are involved in the processes centering around those goals" (Swartz. p.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO fundamentalmente. Campina Grande.) away from the early preoccupation with the taxonomy. and function of political systems to a growing concern with the study of political processes" (Swartz et al. principles. Essa perspectiva porém parece muito centrada no "nível local" e exige a elaboração da dicotomia "campo" X "arena". and how the individuals and groups concerned try to exploit the varied principles and values to their own ends" (Gluckman. com as disputas em torno da sucessão à chefia – em que aqueles princípios estruturais são vistos em sua ação e manipulação – tomados como vetor principal para caracterização do "drama social" em torno do qual se desenrola a análise que. acompanhando o desenvolvimento dos trabalhos na área. 1966) e por Swartz (1968).. Por exemplo.. Swartz diz que "our first task in a political study is to determine what public goals are present and to move from there to the investigation of the social arrangements. por sua vez. Cadernos do LEME. estudar a sua presença em terrenos diversos da vida social. Essa delimitação do "político" permite. 135 .. structure. Turner e Tuden (Swartz et al. Swartz contesta a necessidade da presença de "poder" na definição do "político". 3. A adoção de uma perspectiva "processualista" – como de fato se tornaria conhecida – mais atenta aos "eventos" (Swartz. e nas "Introduções" desses a estas coletâneas em que. 1968: 3). Jul. mais além que apenas nas esferas ou "estruturas" tradicionalmente identificáveis como políticas. Pensando em termos bem práticos.

Its unit of time is no longer 'structural time'.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO place were determined. 1966: 8). interesses. como uma melhor integração da investigação com os dados e com uma perspectiva históricos. mudam de posição e de conteúdo. etc. 3. Jul. A noção de "campo" ("field"). 1968: 6). busca tanto maior fluidez e abrangência quanto aos fatos a serem tratados. vol. Swartz propõe a caracterização de uma "área sociocultural espacial e temporalmente adjacente ao 'campo'". nº 2. resources and relationships. Dada a necessária fluidez desses limites à medida que os indivíduos e grupos envolvidos. seu repertório cultural de valores. apenas que essas devem ser tomadas em sua ação no "campo" político. ou mesmo saem e entram no "campo".. composta pelos indivíduos e grupos de algum modo relacionados àqueles presentes no "campo". "A field is defined by the 'interest and involvement of participants' in the process being studied and its contents include the values. crenças. it tends to be the political 'field'. bem Cadernos do LEME. que ele chama de "arena". repetitive societies. assim como seus valores. "political anthropology no longer exclusively studies – in structural functionalist terms – political institutions of cyclical. "The greatest value of the 'political field' view is to broaden the scope of data collection at the same time it brings about closer scrutiny of social behaviour that might be neglected were we to assume an already known boundary to political activity on the beginning of our political investigation or a predetermined basic outcome of that activity" (idem: 8). meanings. seus recursos.) we are studying politics" (Swartz et al./dez. Desse modo. Swartz chega entretanto a tentar uma delimitação mais formalizada do que venha a ser um "campo". 2011. how these experts marshal support for their power and undermine that of their rivals etc. ou da estrutura social. it is historical time. Campina Grande. 88 – 191. employed by these participants in that process" (Idem: 9). É importante notar contudo que tal não implica na exclusão da investigação daquelas instituições. interesses etc. p. how the things to be used in the ceremony were obtained etc. Its unit of space is no longer the isolated 'society'. The combined unit is a spatial-temporal continuum" (Swartz et al. "'Field' is a concept which allows for both continuity and change in the relations among the participants in politics and it does not have the rather rigid quality carried by such more common terms as 'political system' or 'political structure'" (Swartz. aqui desenvolvida. 136 .) and by which power is differentially acquired (which ritual experts are successful in telling the 'laity' what to do. 1966: 7)..

nº 2. aliada a um acompanhamento o mais duradouro e próximo possível. pajé etc. por um lado a auto-delimitação étnica do grupo. Outra possibilidade interessante que se nos apresenta é a de delimitarmos um "campo" político com base na articulação entre seus membros e nos objetivos desse movimento. 88 – 191. Uma questão com a qual teremos que lidar diz respeito à articulação do nosso "campo" com as instâncias externas a ele relacionadas e que nele interferem.. e por outro a retomada e garantia do território. ou "de nível local". É certo que 65 Com relação aos levantamentos genealógicos como método de pesquisa. e mais uma vez voltando a pensar mais explicitamente em termos dos interesses de pesquisa aqui delineados. por parte do pesquisador. se possível desde antes do seu aldeamento pelo colonizador até a emergência de um "movimento étnico" na segunda metade do século XX. parentelas e redes sociais envolvidas65. e o que se nos apresenta à investigação é. o "reconhecimento". Cadernos do LEME.). Campina Grande. roças comunitárias). Teríamos assim. ver especialmente Barnes (1968) e Bott (1971). apenas a título de exemplo. as relações sociais internas e externas desse grupo. Poderíamos ter assim algo como. parece-me. reordenações. a adoção de práticas coletivas com uma organização prévia (rituais. das práticas sociais e políticas no grupo em questão. mas não diretamente acionados no processo em estudo (Swartz. vale dizer que julgo fundamental no estudo de grupos políticos de pequenas dimensões. vol. A possibilidade de articulação crítica e descritiva do material assim obtido com os dados históricos – tanto os da história oral quanto os de documentos escritos etc. fatos e fatores que se poderá certamente dispor numa sequência lógica e cronológica estruturalmente ao estilo de um "drama social". a "assistência" governamental.). Tentando sintetizar o que me parece essencial no desenvolvimento teórico acima resenhado. sem dúvida. – é seguramente indispensável à compreensão e delimitação de todo o processo que compete investigar. um processo histórico: a constituição de um grupo local indígena. 3. clivagens. Para uma discussão da noção de rede social e suas aplicações. 1968: 9ss. Jul. 137 ./dez. aspectos com relação aos quais certamente encontraremos internamente diferenciais de opiniões e avaliação. p. e suas representações e os desdobramentos contemporâneos desse movimento. Penso o conceito de "parentela" no sentido em que o utiliza Campbell (1963). conflitos. uma boa base lógico-descritiva para ordenação do material etnográfico. ver Barnes (1967). a investigação detalhada das genealogias. enfim. a instituição e distribuição de posições de destaque (cacique.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO como todos esses atributos possuí dos pelos membros do "campo". a consolidação interna de uma série de valores e posições sociais etc. mas também para orientação da analise. 2011.

entre outros aspectos. mas muito provavelmente não de modo tão esquemático. 1972) – dirigir a investigação tanto para as instâncias socioculturais mais estáveis e recorrentes.1981. pelo menos com relação aos rituais – mas sobretudo pela abertura que isso da no sentido de se poder pensar. 1968. a dimensão eminentemente simbólica da própria "política".DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO muitas dessas "interferências" poderão ser analiticamente subsumidas ao próprio "campo". numa outra perspectiva. 1969. ou ideologias. o governo etc. Com relação ao sentido e à abrangência em que devemos tomar a categoria "política". Cohen (especialmente 1968. Cadernos do LEME. a discussão da "etnicidade" seja já suficiente para os nossos objetivos de analise. 88 – 191. e isso não apenas pela necessidade de acompanhar desdobramentos políticos em áreas diversas do social – do modo bem característico de boa parte da obra de Turner (1966./dez. Sabemos que no plano da nossa investigação estaremos certamente sendo levados a dimensionar todo o "campo político" fundamentalmente em termos de uma etnicidade66. o que equivale a dizer.1976. 1974 etc. 1972). 1974) e. de pensá-las. 1969b. nesse terreno. representá-las. 1967) na medida em que permitem – sem que se tenha que entrar mais profundamente na discussão das relações entre "estrutura" e "acontecimento" ou "estratégias". mas. os núcleos camponeses próximos – "indianizáveis" ou não – o movimento indígena a nível regional e nacional. 138 . Sabemos que se.). por um lado. vol. 2011. parece fundamental poder-se dimensionar em termos políticos todo um conjunto bastante vasto de relações sociais e principalmente de representações. alguns dos elementos teóricos tratados parecem interessantes (conforme Van Velsen. de qualquer modo. no sentido de uma certa "simbologia política". Campina Grande. quanto para a vida social em sua atividade cotidiana constantemente criadora e "imponderável" (conforme Malinowski. a própria noção de "ideologia política" – ou mesmo até em torno da dimensão política do universo simbólico. p. e ficando apenas num campo mais propriamente antropológico. 3. Penso em especial na formulação aqui adotada para "etnicidade" como um modo particular de se constituir ordens sociais. teremos que pensar. nº 2. a sociedade local envolvente. em suas "práticas" (Bourdieu.e estou interessado em fazê-lo – nos diversos planos de relacionamento com os povos indígenas vizinhos. com o que se quer também dizer tratar-se de uma modalidade especial de "política". Finalmente. estaremos sempre nos defrontando com padrões mais ou menos recorrentes de organização e 66 Eximo-me aqui de resenhar toda a vasta discussão em torno das dimensões simbólicas do universo político – e que teria que incluir.. acima de tudo. Bourdieu. Poder-se-á talvez pensar em termos próximos aos da dualidade "campo-arena" em Swartz (1968). algo da produção posterior de Balandier (por exemplo 1980). Acredito que. de modo amplo. Jul. "Micropolitique et Segmentarité": 253-283. as contribuições do próprio Principalmente o capítulo 9. ou no sentido de uma revisão radical das concepções de uma "estrutura social" (Sahlins. Vale a pena mencionar porém. se se quiser. 1922) – ou.

e que. 1977. tem revelado sua propriedade tanto em casos de sociedades indígenas em convívio com a sociedade nacional (Oliveira Filho. ainda que diferencial. podemos quiçá vislumbrar em um método "genealógico" de compreensão do real. Como bem observa Lea. a vida social é moldada sobre fatos e situações sempre novos. 1952 etc. Santos. "Micropolitique et Segmentarité": 253-283. 1975. Nomeadamente questões relacionadas à territorialidade.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO representação das relações sociais – as "estruturas" que. algo não muito distante daquilo que os antropólogos têm procurado fazer. os seres humanos aplicam sua irrefreável capacidade de reflexão. 88 – 191. e talvez também nas de Deleuze e Guattari (1982) 67 . podemos elaborar e aprisionar em "modelos" (conforme Lévi-Strauss. 1982. entre outros). 2011. 1983). nº 2. as classes sociais. 139 . Barata. e numa intenção. em perseguir o poder nos seus mais recônditos interstícios. Penso aqui em especial nas idéias e pesquisas – polêmicas mas sempre instigantes – de Foucault (especialmente 1979). através de uma ótica "micro". ao "campesinato indígena". Zaluar. 1981. A adoção. importância reafirmada constantemente no atual contexto de lutas. quanto em situações muito diversas (Velho. ou ao menos mencionar. Outras questões teóricas Há ainda algumas questões de relevância teórica que gostaria de discutir preliminarmente./dez.) – sabemos por outro que estas instâncias só ganham sentido e expressão no uso que delas fazem os indivíduos e grupos. "se existe uma palavra-chave ou um símbolo para os índios do Nordeste me parece ser 67 Principalmente o capítulo 9. Antes de passarmos a outras questões. Campina Grande. à tutela. vol. ao "contato" e sistema interétnicos e ao quadro socioeconômico regional. Já assinalei o lugar central do território no movimento dos índios no Nordeste. às ideias de "revitalização cultural". Ainda que colocado de modo e em bases bem diversos. p. de boa parte das ideias aqui esboçadas pela Antropologia brasileira contemporânea no estudo da política a nível de pequenos grupos sociais. de escolha e de inovação. Cadernos do LEME. ainda que basicamente sob efeito e em resposta a determinações múltiplas. tendo em vista mais diretamente a situação atual dos povos indígenas no Nordeste. para mais além desses padrões. 3. Barbosa. Barsted. elementos sobre os quais. Jul. 1985. assim como sobre as "estruturas". vale a pena ao menos referir a possível contribuição de outras vertentes teóricas para uma Antropologia Política. sem dúvida. 1981.

Enquanto em vários dos outros aspectos culturais há uma tendência à identificação entre os diversos grupos. aos marcos físicos dos seus territórios e das suas histórias. ainda que em graus diversos. a dos Kapinawá com a "Mina Grande". Cadernos do LEME. inclusive no sentido da consolidação de uma identidade de "índios do Nordeste". não pode ser encarado como conduzindo inevitavelmente a uma 68 É impressionante. 1981: 1). Isso inclui. 2011. como "perda do território – perda da identidade" (como em Ribeiro. que seriam diretamente consequentes da perda da base econômica e territorial. dos Pankararu com as cachoeiras sagradas de Itaparica. caso das diversas situações de diáspora (por exemplo Carneiro da Cunha. O que eles têm em comum é dizer que o fazendeiro fulano levanta cerca. 1985). que chamo aqui "territorialidade". relações como. como a "tradição". p. pode-se dizer que essa referência "territorial" da etnicidade. entre outras coisas. "a figura do território perpassa (. ao tempo em que afirmar o vínculo radical do território com a etnicidade. ou seja puramente imaginário. afastar as equações primárias que podem daí advir. por mais crítico que seja. dos Xukuru com a Serra do Urubá e – a mais tocante também para nós – a dos Pataxó com o Monte Pascoal e a Coroa Vermelha. como a "terra sem mal" de alguns povos tupís (Clastres. frequentemente associada a esse tipo de resolução através da identificação de "perdas culturais". e isso mesmo quando o "território de referência" esteja ausente. e o valor simbólico atribuído. Jul. 140 .. ideal. Campina Grande./dez.). em alguma medida.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO arame farpado ou cerca. a devoção que os grupos têm. o que é aqui afirmado sobre uma inconteste e rica base etnográfica68. num certo sentido. Arrisco mesmo dizer que ele é o suporte básico sobre o qual se constroem as etnicidades específicas na região. 1984: 177). Para todos os grupos o problema da posse da terra é fundamental" (Lea. e que eles cortam as cercas dos invasores de suas terras. imaginária. a origem. 1975) 69. especialmente realçado na situação aqui tratada. além das capelas e cemitérios das antigas missões respectivas a cada etnia. 1970. os Kiriri etc. Para Carvalho. 69 Aliás. Revendo criticamente a ideia de um "índio genérico". nº 2. vol. Amorim. Pretendo com essas considerações. é sempre. Já assinalei também o papel do território na definição étnica desses grupos.. Pensando em termos mais amplos acredito poder afirmar que. dos Pankararé com a "Fonte Grande". entre outras. parecendo se constituir no elemento crucial do engendramento da identidade dos povos considerados" (Carvalho. 1975 etc. tem sempre um papel indispensável nas definições étnicas. 88 – 191. Carvalho afirma: "O despojamento do patrimônio original. 3.) todo o quadro das relações interétnicas. a territorialidade é um dado cultural que.. os Potiguara. é fundamentalmente enquanto detentores de um direito histórico e protagonistas de uma disputa particulares sobre um território específico que se constituem os Kapinawá.

DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO identidade de 'índio genérico'. com segmentos da classe dominante regional. melhor dizendo no caso talvez. como bem procura demonstrar Luz (1985) estudando subsegmentos urbanos desses povos indígenas70. tal não implica em que ela não possa acompanhar prováveis novas transformações. não se pode pensar simplesmente em perdas. Portanto. Outra questão para a qual penso que o estudo da situação dos índios no Nordeste possa contribuir é a da relação entre "etnia" e "classe social" – ou talvez mais especificamente entre suas respectivas consciências – tão relevante na Antropologia mexicana (Bonfil Batalla. o que se torna tanto mais equivocado ao se tratar de uma 'cultura de contato'. há que analisar mais detidamente a figura desse 'índio genérico'. naturalmente. a oposição étnica tende geralmente a colocar os índios – ou. hoje./dez. sob pena de aceitarmos uma espécie de condenação a supostos vencidos" (Carvalho. E por se tratar de uma cultura que se reelabora por força do contato. 1976. 141 . vol. sob pena de tomarmos cultura em termos absolutos. como a que vincula a "sobrevivência étnica" à permanência de um "modo de produção" próprio à etnia em questão. 1975. Não poderei já aqui apontar o senti do teórico dessa contribuição. Os índios do Sertão mantêm tradicionalmente. mas apenas indicar alguns dados que parecem interessantes. Se. Nesse quadro. a continuar mudando. e isso naturalmente com desvantagens 70 Com relação a índios em situações urbanas no Brasil. 1978 etc. os "caboclos" – em confronto com outros segmentos locais camponeses. ver Cardoso de Oliveira (1968).). como já referido. Cardoso de Oliveira. Costa. vínculos de clientelismo muito típicos da região (Andrade. essa não pode ser dissociada de sua condição histórica de índios camponeses. Pensando do mesmo modo certamente se pode também rejeitar outras tantas resoluções simplistas do gênero. 1977. 1963. Sabemos obviamente que as "relações de produção" e as "forças produtivas" que envolvem os índios no Nordeste. Jul. o que torna o trabalho do etnólogo muito mais interessante que o simples exercício de – suposta – demonstração de um punhado de equações fáceis. ou fusões. Campina Grande. 1970. Varese. 3. como em Gomes (1977). Leal. Queiroz. concorrentes seus pelos "favores" e relações de trabalho oferecidos. e tendem. Cadernos do LEME. 1982a: 5-6). assim como sua cultura. mas em rearranjos múltiplos sob a égide da oposição que se impõe como fator dominante. p. e que sua "sobrevivência étnica" deve ser compreendida na medida da reelaboração constante de uma etnicidade. 2011. têm se modificado substancialmente desde os primeiros contatos com o colonizador. 88 – 191. nº 2. 1979). Romano (1982) e Figoli (1984). buscando situá-lo historicamente. O que faz uma determinada etnia desaparecer ou não enquanto tal deve estar relacionado com conjunções bem mais complexas de fatores e determinações.

como o que ocorreu há alguns anos. a emergência desses movimentos. incompatíveis com os novos termos em que o confronto é colocado. e sua articulação a nível mais amplo. p. O desenvolvimento dos movimentos indígenas entretanto. Compare-se essa situação com a analisada por Aquino (1977). Campina Grande. Já mencionei o fato de que esses movimentos étnicos desestimulam enfaticamente as relações acima referidas./dez. vol. já que os arraigados preconceitos são difíceis de remover e as diferenças de estatuto legal. parece de fato dar alguma base para o desenvolvimento de perspectivas comuns apoiadas numa "consciência de classe". O que quero dizer com isso. ainda que bem diferenciados entre si. Permanece entretanto em algumas situações a oposição a outros segmentos subordinados. sobretudo na medida em que ambos questionam os vínculos tradicionais de dominação. nº 2. já pareciam chegar a alguns resultados positivos em meados da década de oitenta. daria em principio a chance para modificação desse quadro. pelo menos no que diz respeito aos Xokó e Potiguara. A existência paralela dos movimentos sindical e Indígena já chegou mesmo a desencadear conflitos. 88 – 191. que "os pobres têm que se unir". de relações com as instâncias governamentais e nos próprios objetivos e estratégias dos dois movimentos concorrem em sentido oposto71. questionamento esse que. é levado a cabo através de um redimensionamento de valores étnicos. de ambas as partes. por sua vez. a título de avaliação provisória da questão. Apesar disso ouve-se com frequência. longe de ficar obscurecida ou retardada pela vigência de uma "consciência étnica". Os conflitos pela terra. A emergência de um movimento sindical rural desatrelado dos antigos vínculos. 71 72 O caso pankararé tratado em Rocha Júnior (1982) é bem ilustrativo do que digo. é que. 3. parece ao contrário passar "necessariamente" por essa72. pois temos aí um campo fecundo ao exercício dos preconceitos e estereótipos negativos. claro que nessas circunstâncias há um espaço limitado para as oposições de classe. no caso dos índios. 142 . e com a própria redefinição de valores étnicos. no caso desses grupos. 2011.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO para os índios. Assim sendo. na área pankararu. Não é tão simples porém. em vários casos. lançados que são como "pontasde-lança" dos grandes proprietários. e de forma grave. e as "boas intenções" recíprocas e os esforços no sentido de viabilizar alianças são. a emergência de uma consciência de classe. Cadernos do LEME. têm conduzido inevitavelmente a uma identificação mais acurada das forças sociais em jogo. Jul. tendem a reforçar inicialmente o mesmo tipo de confronto. já que muitas vezes são os pequenos camponeses e trabalhadores rurais os agentes mais diretos da espoliação de territórios indígenas. como ocorre em alguns municípios do Sertão onde há índios. evidentes e. vistos ainda como aliados dos poderosos.

3. 1975). de um "modo de ser" das sociedades camponesas. de uma "condição" inerente a essas74 (Redfield. Por outro lado. 1965. Thornee et al. reconhecendo o avanço representado por aquelas monografias. ao que os etnólogos usam quando se referem a um "modo de ser" das sociedades Tupí (Viveiros de Castro. por sua vez. ainda que de modos diferenciados. Sem dúvida é importante reconhecer. embora Isto possa ser tomado de modo simples e direto. 1979). as interpretações mais gerais a respeito dessas sociedades chegaram apenas a algumas poucas tentativas altamente exploratórias (Cardoso de Oliveira. chega a caracterização de um componente de sobreexploração associado à dimensão étnica desses segmentos. Santos. 1971. passando daí a uma descrição – centrada quase sempre basicamente em seus aspectos econômicos – da articulação desses segmentos camponeses etnicamente diferenciados à sociedade mais abrangente. Gostaria entretanto de. 1972. sem dúvida. ou previsíveis. N. 74 E isso num sentido análogo. de campesinato regional73. 2011. 1976. 1972. ver a revista "Actes de la Recherche" (por exemplo Grignon. como bem o demonstrou Reesink (1983a). que "a noção de campesinato indígena integra a 'questão indígena' na problemática nacional. coerente quanto a algumas questões e temáticas básicas – ao estudo dessas sociedades75./dez. 1975. vol. como faz Amorim (1971. de uma certa dimensão étnica a modelos já conhecidos. Galeski. 1974. 1965. sugerir o aprofundamento da questão numa outra direção. no que diz respeito à caracterização dessas sociedades enquanto tais. Helm. Amorim (1971). já agora como uma questão agrária" (Cardoso de Oliveira. Na verdade não interessa tanto a possibilidade de construção de modelos gerais de campesinato indígena no Brasil. Campina Grande. 1970. é certo que se tem desenvolvido um campo teórico próprio – senão homogêneo. 1977b etc. que talvez não possam mesmo ir muito além da mera superposição. Diniz.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO A produção brasileira de monografias sobre sociedades indígenas camponesas (Cardoso de Oliveira. 1966 etc. 1984) ou Jê (Maybury-Lewis. 88 – 191. e não apenas ao de sua economia (conforme em Firth & Yanley. é pertinente. talvez. 1977).) tem de modo geral se limitado. mas também de suas relações 73 Tentamos uma avaliação crítica de algumas perspectivas de análise sobre o campesinato indígena no Nordeste em Sampaio (1985a). 1970: 150). 1964. Amorim. Bohannan & Dalton. Oliveira Filho. Shanin. ( 1975). 1975. 143 . com Cardoso de Oliveira.). 75 Para uma visão mais contemporânea de "condição camponesa". 1979). Carvalho. Cadernos do LEME. a partir de dados de Nasser.). Jul. 1973. p. à demonstração do seu enquadramento a alguns padrões socioeconômicos gerais definidores do que seja uma sociedade camponesa. nº 2. Se há possibilidades de caracterização. Amorim. 1960. o que. 1980 etc. Bourdieu.

sobre camponeses no Sertão. 197177) etc. p. 1983). Paine. Na prática. 1961). do seu "papel político" (por exemplo Shanin. situação agravada pelo fato de o antigo tutor dispor-se muitas vezes ainda a usar o velho instituto como instrumento de Coerção sobre os grupos e movimentos indígenas. Cadernos do LEME. no nosso caso. enquanto instrumento jurídico (. Se se puder obter algum sucesso por essa via./dez. como se tem. ou típicas (por exemplo Potter et al. com relação. Certamente há aí um interessante trabalho a ser desenvolvido. vol. impondo restrições à liberdade de manifestação e até mesmo de deslocamento físico. Jul.. 196776). 88 – 191. certamente se poderá redimensionar a própria questão dos modelos de campesinato indígena. 77 78 (1981). e à qual voltarei a seguir. 1971). ao legado da tutela em práticas do antigo órgão tutelar e de outros organismos governamentais. com relação à questão da "tutela".DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO sociais e representações peculiares. parece também colocar algumas questões ainda pouco exploradas. Para uma boa avaliação geral. Infelizmente. nº 2. Campina Grande. Garcia Júnior. tais restrições visam primordialmente não apenas minimizar 76 Ver aí especialmente os artigos de Mintz & Wolf (1950). Interessa-me em particular as contribuições referentes a relações como o "compadrio" (Arantes. e a permanência de práticas a isso associadas mesmo após a promulgação dessa. inclusive bibliográfica. A condição legal de tutelados que tinham os índios no Brasil até a Constituição de 1988. Acredito que um melhor aproveitamento do arsenal teórico e das experiências desenvolvidas no estudo de sociedades camponesas para a abordagem do campesinato indígena possa inclusive ser útil à revelação de adaptações de novas formas de organização a modelos tradicionais indígenas. e às diversas formas de "patronato" e "intermediação" ("brokerage") (por exemplo Wolf. para a zona da mata (por exemplo Heredia. ver Reesink (1965). 144 . mais que à própria condição legal. em muitos casos. transformando as reservas em algo próximo de verdadeiras "instituições totais" (conforme Goffman. Geertz (1959) e Silverman Por exemplo Shanin (1971) e Wolf (1971). Como observou Carvalho: "A tutela. 3. 1979. 2011.) tem se tornado efetivamente um instrumento cerceador. por outro lado. cuja relevância na situação aqui tratada já observei. Já referi as atitudes ambíguas que os índios e seus movimentos são ainda levados a ter perante a tutela.. Foster (1967). 1975 e 1982). bem como as diversas representações indígenas frente a essa condição. estabelecendo todo um jogo de punições e recompensas e. 1955. não se dispõe ainda de uma produção quantitativa e qualitativamente satisfatória relativa ao campesinato no Sertão nordestino78.

nos quais se verifica a produção de discursos e atitudes muito significativos com respeito à tutela. ao contrario da anterior. porém obstar a viabilização de um movimento indígena que. ao tentar romper os limites imediatos. vol. a marca étnica teria. nas lutas pelo "reconhecimento". aplicado a relacionamentos diversos entre pequenos grupos étnicos e várias instâncias e segmentos de estados e sociedades nacionais é exercitado. como os Pankararé. 2011. Campina Grande. 1983)./dez. no qual vemos como esses. 1982a: 2). Por outro lado. o caráter essencial da relação não se altera significativamente. buscando-se aquela em que. É preciso lembrar também que. pode tender a subverter a própria tutela no que esta contém de repressivo" (Carvalho. ao tempo em que reivindicam da instância competente a garantia dos seus direitos: "o índio é federal". a tutela é buscada. que já são percebidos como altamente desfavoráveis. onde esta aparece como legitimação por excelência da condição étnica frente a sociedade envolvente. de uma substituição de tutelas. Cadernos do LEME. certamente. Trata-se aqui pois. Um uso sociológico abrangente do conceito de "tutela".DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO reivindicações a nível interno a cada sociedade indígena. frequentemente. como solução para que se viabilize o rompimento dos laços clientelísticos tradicionais. refluem – (estrategicamente?) – num momento de crise política interna e do próprio órgão tutelar. argumentam a ilegitimidade da ação desses sobre si. 1977) com populações dos Inuit (Esquimó) no Ártico79. Vemos aqui. No segundo (Rocha Júnior. 1982). com bastante sucesso. Jul. como garantia de sobrevivência num meio social hostil. a uma posição de submissão a este na busca da estabilização interna e externa das suas 79 Para uma aplicação igualmente interessante do conceito de "tutela" à relação do Estado com a própria sociedade nacional num regime autoritário. e mesmo. esses mesmos movimentos "necessitam" da "tutela". no primeiro caso (Rocha Júnior. alargando o nível de articulação. dois breves estudos de caso de Rocha Júnior sobre o movimento indígena no Nordeste. em grande medida. o que é especialmente verdadeiro no caso do Nordeste. p. um sentido positivo. 3. ver Reis (1983). provavelmente um dos mais bem sucedidos na região à época. Por sua vez. presumivelmente. após conquistarem a demarcação e a remoção do maior invasor de suas terras. 145 . pressionados pelo Sindicato de Trabalhadores Rurais e por órgãos estaduais no sentido da titulação de posses dentro do seu território. 88 – 191. temos um relato do movimento dos Kiriri. através de longas e intensas pressões sobre a Funai. nº 2. nos trabalhos dirigidos por Paine (1971. dão também uma demonstração magistral das possibilidades de análise com foco nessa relação. Nessa percepção contudo.

uma compreensão mais integrada de toda uma rede de relacionamentos que envolve as sociedades indígenas ou seus segmentos discretos com setores externos diversos. nº 2. 1959. 1956. E essas "intermediações" incluem "o governo". Campina Grande. 88 – 191. ainda que refletindo semelhanças evidentes com o nosso caso.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO conquistas e de proteção diante dos seus temporariamente derrotados mas sempre perigosos inimigos. entendida de modo bastante abrangente. O que identificamos como móvel angular desses movimentos é um projeto radical e inovador de futuro. Nessas circunstâncias. a Igreja. 2011. "o índio é de menor". através do estudo da "tutela". Penso. 1980). Por sua vez. Penso que uma definição desse tipo. vol. Por fim. a questão da "liderança". de algum modo colocados entre essas e algo além na pirâmide do poder e das tomadas de decisão. 3. levaria a uma análise profundamente empobrecedora e equivocada do movimento político dos índios no Nordeste. no qual a reconexão dos laços violentamente rompidos com o passado que naturalmente não deixa de ser idealizado – assume o caráter de uma recuperação de informações e de vínculos – sobrenaturais mas também e fundamentalmente de direitos que permita aos seus protagonistas seguir adiante como senhores do seu devir. garantindo sua reafirmação no presente. p. tendo em vista a sua projeção num futuro que se impõe conquistar. 1974. as entidades e representações indígenas. O estudo de movimentos semelhantes aos aqui tratados em diversas partes do mundo conduziu ao desenvolvimento das noções de "revivalismo" e "revitalização" (conforme.. os mandantes locais. Jul. 1972). pode também. que tendem desse modo a caracterizá-los como situações nas quais grupos sociais em estado profundo de crise buscam misticamente um "retorno" ao passado.. as "entidades de apoio". com destaque para os rituais. nos mesmos termos em que Carvalho. o antropólogo. assim. sempre tão cara a qualquer Antropologia Política (Barth. presente 80 Ver Friedrich (1968). Clastres. gostaria de assinalar que parece interessante tentar. Passado. no sentido de conter o máximo possível das relações do tipo patrono-cliente e semelhantes. nas quais se constitui sempre em posição estratégica. ainda que nem sempre cômoda80. ser entendida em função dessas redes. 146 . Cadernos do LEME. no sentido de que: "Estes direitos fundam-se num passado que se torna o vetor da história./dez. idealizado como um período de paz e prosperidade. além de outras vias de compreensão. Wallace. retorno esse intentado através da adoção de praticas e símbolos culturais identificados como "tradicionais". por exemplo.

Nesse processo. essencial mas não única. assim. Cadernos do LEME. Em outros termos. nº 2. o movimento de hoje se traduz numa busca tenaz de transformação das condições objetivamente dadas. trata-se prioritariamente de superar a privação. 3. 1984: 183). Fazê-lo implica em idealizar o passado.. Campina Grande. transformando-o numa força suficientemente eficiente que possa conduzí-los à superação das relações de sujeição. "Urge. em lugar do "caboclo" (Reesink. 1956). indígena. aparece como condição. desmascarando-a como fator absoluto. por sua vez. Índio vem da ciência. Podemos entender assim a dimensão de importância dos rituais. tal qual hoje concebidas./dez. "buscar contê-las num horizonte social e político mais amplo que possa romper com as limitações impostas pelo presente. articulada no momento do transe81. Jul. pois. que não tem nada de circular. A reelaboração de identidades parece. talvez. à espera inclusive de que o estudo de movimentos como o dos índios no Nordeste possa lançar alguma luz no sentido. inclusive através de uma língua específica. em geral imputadas à situação de privação. pois. "Nesta cadeia. 88 – 191. representada pela imagem do "caboclo".)". 2011. p. vol. relativizando-a historicamente mediante o resgate cuidadoso dos fragmentos históricos.. desta reconstituição dependendo a sua viabilização como sujeitos da sua própria história" (Carvalho. 81 É interessante notar que essa "possibilidade" de contato com o passado parece afastar a ideia de uma "busca" constante e sempre irrealizável. Fortalecimento esse que. materiais pré-constrangidos que são recombinados tendo em vista a sua recontextualização" (Carvalho. da sua reelaboração. vem do berço" (Citado em Carvalho. 1982a: 10). Deixo assim em princípio de lado categorias como "revitalização". 1983b). visando revertê-las politicamente para o fortalecimento da sua identidade étnica" (idem: 10). na medida em que se constituem na "ciência" que possibilita um contato "direto" com o passado. a superação da "privação étnica". viabilizando o futuro (. se traduz principalmente no resgate do "índio". Como eles próprios dizem: "o índio tem ciência e idioma e o caboclo não tem nada. onde o futuro não é de modo algum idealizado como igual ao passado. 1982a: 11).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO e futuro são. dominar o futuro. elos de uma mesma cadeia que se busca reconstituir. à superação de toda uma situação de privação. 147 . como seria típico da maioria dos chamados "movimentos de revitalização" (conforme Wallace.

tem-se já. 2011. Por exemplo em Barbosa (1983). como já assinalado. diz respeito no nosso caso apenas à sociedade indígena (Cardoso de Oliveira. Embora não possa identificar ainda nessa produção conclusões de alcance mais amplo. o foco só pode ser mesmo o respectivo "grupo étnico". um considerável material etnográfico a ser explorado nesse sentido83. Resta. Ainda mais relevante porém será certamente a avaliação da produção sobre movimentos e organizações indígenas na América Latina82 e no Brasil. Campina Grande. ainda que não muito diretamente com relação à situação de contato. além da bibliografia então recente sobre índios no Nordeste. vol./dez. entre outros. por razões metodológicas evidentes. situar com mais clareza em nossa investigação o lugar do "sistema interétnico" e da noção de "contato". Jul. Smith (1983) etc. possivelmente não será demais. O estudo de segmentos regionais em contato com sociedades indígenas constitui uma lacuna nem sempre percebida em nossa Etnologia. a forte marca étnica presente nesses movimentos. Este participa da investigação. apesar de alguns estudos terem procurado tratar desses (por exemplo Velho. quase sempre restrito a ligeiras caracterizações descritivas gerais84.). Salazar (1977). Certamente não poderia ser de outro modo. 1972). em geral não se busca a investigação direta do chamado "segmento regional". ainda que muitas vezes se anuncie um estudo de relações interétnicas. buscar aí subsídios à comparação e reflexão sobre o nosso caso. em que. tendo em vista a qualidade desses estudos e. apenas na medida em que se constitui numa dimensão indispensável ao entendimento daquela sociedade. Desse modo. p. 82 Ver a esse respeito. 148 . 88 – 191. sobretudo. Entretanto. Bonfil Batalla (1978). por fim.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO É evidente também. Seria interessante tomar em conta também o farto material produzido pelos próprios movimentos indígenas. a não ser talvez em situações muito excepcionais de pesquisa. 84 Cardoso de Oliveira (1964. em alguns casos. por outro lado. 3. não se estará entretanto procedendo de modo diverso do que tem sido tipicamente feito pela Etnologia brasileira no estudo de sociedades indígenas em contato com a sociedade nacional. 1965) como os estudados em sociedades indígenas no Brasil por Melatti (1972). a rigor. o que. Vale enfim ressaltar que. 83 O estudo mais sistemático dos movimentos indígenas no Brasil apenas se esboçava em meados da década de oitenta. nº 2. Barros (1983) e Lea (1983). Carneiro da Cunha (1973) e Wright & Hill (1984). em se tratando de um estudo de etnicidade enquanto expressão de um movimento político.d. a natureza diversa desse movimento com relação a movimentos messiânicos (Queiróz. A esta altura já estará evidente que o objetivo aqui é a sociedade indígena e não o sistema interétnico do qual faz parte. Santana (s. Um pesquisador não pode dar conta simultânea e convenientemente de segmentos sociais em confronto. capitulo VI) é uma boa exceção a isso. Cadernos do LEME. com uma boa perspectiva histórica. Para a América do Norte ver McNickle (1973).

nº 2. entre os quais os indígenas. 1984).. 1979).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO 1976. De qualquer modo. sob novas formas. Campina Grande. como outras que ajudem a entender a situação de dependência que caracteriza tanto a região nordestina. e bastante bem diferenciáveis. desses fenômenos. tenho a impressão que noções como "colonialismo interno" (Casanova. No nosso caso."contrastiva" etc.. uma tal caracterização me parece. em que a ação modificadora das "frentes" é ainda bem nítida. 2011. revela-se bem mais eficaz e elucidativo ao lidar com aquelas situações de fronteira. por sua vez./dez. sem dúvida podemos falar em "contato". sua operacionalidade. por exemplo. dos padrões regionais. foi engendrada. para dar conta de situações coloniais ou de "fronteira". em seus múltiplos aspectos. das terras. Acredito que. 88 – 191. 1966). como é ainda hoje o caso de boa parte do Brasil central e amazônico. com as situações locais dos movimentos indígenas. e com sociedades minoritárias com não muitas gerações de "contato" mais intenso. e preferiria deixar os conceitos reservados aos contextos em que possam revelar. do gráu de hostilidade presente na oposição étnica etc. no sentido de uma melhor compreensão do seu movimento indígena. sociologicamente. de acordo. 149 . 3. Entretanto. p. quanto internamente os seus segmentos camponeses. em que etnias minoritárias se viam na contingência de intensas transformações culturais. podem revelar-se esclarecedoras. todo o seu aparato conceitual envolvendo noções como "frente de expansão" e "potencial de integração". Jul. Cardoso de Oliveira. A noção de "contato interétnico". muitas vezes em função da simples presença de um agente externo até muito recentemente completamente ausente. não significando isso entretanto que se esteja subestimando a dimensão "interacional". vol. 1962. Decerto as "frentes" econômicas. de um modo Cadernos do LEME. procurei desenvolver algumas ideias no sentido de identificar algumas injunções entre as mudanças sociais provocadas pela construção da grande hidrelétrica de Paulo Afonso nos anos cinquenta e alguns aspectos do desenvolvimento do movimento étnico dos vizinhos Pankararé. em especial o Sertão. Em outro lugar (Sampaio. permanecem atuantes. Carneiro da Cunha. Talvez não estivesse necessariamente errado se tentasse aplicar esse arsenal teórico às condições do Sertão nordestino. excessiva. no plano nacional. no mínimo. é indiscutivelmente interessante que se possa dar conta de determinantes socioeconômicos no quadro regional. mais integralmente. existe "fricção" e há uma "integração" na qual poderíamos até identificar diferenciais de "potencial". Me parece que a noção de "contato" – especialmente como elaborada em Cardoso de Oliveira. com base na ideia de "fricção" – ainda que tenha sido aplicada a diversas situações interétnicas.

a interferência mais direta do Estado na região através de grandes direcionamentos econômicos – hidrelétricas. Segundo este. 88 – 191. sob forma de um "concreto figurado": "(.. mais gerais e mais abrangentes. vol.. mas tenho.) passaríamos [pela análise] a abstrações cada vez mais delicadas até atingirmos as determinações mais simples. III. Partindo daqui. Jul. pela articulação a outras totalidades do mesmo nível. Totalidade que espero. açudes. possa servir de base. cujo trilhar. 1859: 218). a representação caótica de um todo. um resultado. como procurei demonstrar. através do que se pode chamar um "processo de objetivação" (conforme. por exemplo. objetivamente. 1859). 2011. mas uma rica totalidade de determinações e de relações numerosas" (Marx. logo. Sabemos que um objeto de pesquisa nas Ciências Sociais é fundamentalmente um produto da elaboração constante inerente à própria dinâmica de pesquisa. pelas vias da ação (investigação) e da reflexão. nº 2. p. e não um ponto de partida. A expressão metodológica mais acabada e mais lúcida desse "processo" acredito encontrar-se na proposição que faz Marx (1859) de um método para a Economia Política. seria necessário caminhar em sentido contrário até se chegar finalmente de novo à população [o 'todo' no caso]. É por isso que ele é para o pensamento um processo de síntese.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO geral. 3. algumas "pistas". procedimentos O que intentarei construir como objeto de pesquisa é algo que poderia ser muito vagamente denominado o "ser" da sociedade Kapinawá. 1976). apesar de ser o verdadeiro ponto de partida e Cadernos do LEME. espero possa conduzir à apreensão e construção desse objeto enquanto "totalidade concreta" (Marx. Método. Bruyne et al. 150 . incentivos agrícolas – identificável mais intensamente a partir de meados dos anos cinquenta. unidade da diversidade. pode ser tomada como um dado básico a partir do qual se possa acompanhar algumas hipóteses de injunções sobre a situação indígena. à formulação de outras totalidades. desta vez. 1977). como também já procurei delinear. Campina Grande. Assim: "o concreto é concreto por ser a síntese de múltiplas determinações. e tendo como marco a criação da Sudene (Cohnn. a partir de uma percepção inicial caótica do "todo"./dez. Em que tal consiste. não sei. técnicas. que não seria. factuais e teóricas.

e possa muito claramente ser dela depreendido. mas um produto da elaboração de conceitos a partir da observação imediata e da representação" (Marx. 151 . melhor dizendo no caso. 86 A respeito da produção e do percurso da categoria colonial de "índio". Poderíamos absorver esse processo e essa relação de categorias reelaborando-os no sentido de uma melhor compreensão do movimento indígena no Nordeste? Acredito que o essencial do que teria a expor com relação a um método mais especificamente antropológico de investigação e analise esteja já contido na discussão teórica acima. ver Bonfil Batalla (1972). O primeiro passo reduz a plenitude da representação a uma determinação abstrata. é de fato um produto do pensamento. ela não é pois de forma alguma o produto do conceito que engendra a si próprio. tal como ocorrem entre os povos indígenas no Nordeste. que pensa exterior e superiormente à observação imediata e à representação. 3. vol. refiro o que Van Velsen (1967) identifica como elementos fundamentais no "método de caso desdobrado" ou. "This approach calls not only for the recording and presentation of the 'imponderabilia of actual life' (Malinowski. Cadernos do LEME. com um processo político de redefinição de conceitos que parece conduzir. Jul./dez. "análise situacional".pelo segundo as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto pela via do pensamento" (idem: 218-219) 85. 2011. Thus records of actual situations and particular behaviour have found their way from the fieldworker's notebooks into their analytical descriptions. Num exemplo que me parece bastante pertinente. como prefere. do primeiro ao segundo caso. Apenas a título de síntese. Campina Grande. not as 'apt illustrations' (Gluckman. 1961a: 7) of the 85 Ver também o seguinte trecho. mais simplesmente. [with the consequent] emphasis on actors rather than informants'.. to the study of complex social relationships. da atividade de conceber. p. Barnes (1958) has noted the 'shift away from the collection of statements about the customs and the details of ceremonial behavior. 88 – 191. as categorias nativas – ou. É nos termos desse processo que procuro entender a construção de "categorias científicas" através de um "diálogo" entre as "categorias nativas" e as abstrações do pesquisador. como variantes que vão desde sinônimos absolutos até opostos diametrais. 1922: 18) but also for coordinate accounts of the action of specified individuals.. enquanto totalidade-de-pensamento.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO portanto igualmente o ponto de partida da observação imediata e da representação. cada vez mais. "nativizadas" – de "caboclo" e "índio” 86 se nos apresentam hoje. nº 2. tomada aqui como paradigma da investigação antropológica sobre a dimensão ética das representações e relações sociais. numa contestação a Hegel: "A totalidade concreta. 1859: 219).

apesar da ênfase em "atores". nº 2. não podemos minimizar a importância das entrevistas. Jul. 88 – 191. em outras palavras. importante observar que a esse nível trata-se apenas de "esboçar" relações sociais mais complexas. o que. Num trabalho de campo desse modo orientado. As proximidades e discrepâncias aqui parecem-me curiosamente extensas. e ainda em função do objetivo pretendido.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO authors' abstract formulations but as a constituent part of the analysis" (Van Velsen. 1967: 139-140)87. devemos estar empenhados acima de tudo no exercício do conjunto de procedi mentos que. Como ponto de partida à investigação. 88 Para algumas considerações bem práticas sobre "observação participante". numa população de poucas centenas de indivíduos e algumas dezenas de "famílias". dos Kapinawá. bem como a extensão da pesquisa sobre ramificações sociais de parentesco e outras para fora do grupo local. ou./dez. no caso. mais específicas. Campina Grande. 1971) sobre as quais estaremos trabalhando. Bott. A execução de um levantamento genealógico. decerto deve-se fazer um censo. Só se poderá entendê-las mais profundamente em suas múltiplas articulações e implicações observando-as em suas práticas e convivendo com elas. com um discurso destes. Cadernos do LEME. vol. só poderão ser devidamente avaliadas durante a própria pesquisa. Essa técnica mais geral entretanto. No tipo de pesquisa que se pretende desenvolver. com todas as imprecisões e subjetividades inerentes a essas. em geral pouco comum a esse nível. ver Foote-Whyte (1943) e Berreman (1962). 152 . ainda que muito pouco homogêneos e padronizados. 2011. e não exclui jamais o recurso a "informantes". por outro lado. e tendo em vista a necessidade de lidar com representações mais elaboradas dos informantes. A solução no caso parece ser o exercício – sempre mais difícil mas também mais proveitoso – de entrevistas "não diretivas" (Thiollent et al. seguramente pressupõe o uso de outras. ainda que limitado. 1982). aprendemos desde Malinowski (1922) a designar como "observação participante” 88. p. 1968. não faz sentido algum elaborar questionários ou empreender entrevistas "diretivas". certamente se revelara esclarecedora. que nos permita talvez já aí esboçar as "redes" sociais (Barnes. mas. Numa reflexão sobre minha experiência de pesquisa disse: 87 Há certamente uma vasta discussão a ser travada entre a "analise situacional" e a proposta de uma "descrição densa" em Geertz (1973). acredito possa ser feito com uma "proximidade" de relacionamento com os informantes. As dimensões desse. 3.

como qualquer relação social. remeto-me. talvez. Daí achar que a situação ideal de entrevista é aquela na qual o investigador fala o mínimo possível. Dito de outro modo. 2011. Uma questão importante que se coloca ao referido desempenho técnico diz respeito à possibilidade de adoção. 1958 etc./dez. isto é. ou na coleta mais direta de dados de modo geral.). de qualquer modo. 153 . ao deixar o informante falar livremente durante períodos relativamente longos de tempo – quando esse se dispõe a isso. o da seleção dos informantes. é preciso que se esteja ciente de que os informantes. nº 2. de algumas técnicas próprias à pratica psicanalítica. em alguns casos. sobretudo – são também "atores". o desempenho técnico de tais entrevistas porém. às minhas próprias reflexões: 89 Desenvolvi um pouco mais essa questão em Sampaio (1985c). nesse desenvolvimento técnico. através de uma convivência prolongada. na medida em que atenta a princípios estruturais básicos identificados por Freud (já em 1900 e 1901). em especial a "atenção flutuante" e a "livre associação". vol. 1985c: 5-6). por parte do pesquisador. Voltando a questões mais próximas. mesmo enquanto tais – e. Jul. com atenção a como. 88 – 191. Uma aproximação metodológica bastante abrangente e exploratória entre psicanálise e etnologia é tentada por Devereux (por exemplo 1957).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "Meu interesse pela 'não-diretividade' surgiu principalmente a partir da descoberta de que. 3. desde que se empreenda o necessário redimensionamento dessas técnicas. evidentemente – poderia colher informações e impressões insuspeitas e inatingíveis num processo padrão do tipo 'pergunta e resposta'. mas ainda com relação a um aspecto relevante na entrevista. Como disse. quando. mais uma vez. Cadernos do LEME. quem mais estava presente etc. Também não se pode esquecer que essa relação. se revela sempre mais fecunda. De princípio um grau alto de familiaridade e confiança recíprocas entre o informante ou grupo de informantes e o pesquisador é um pré-requisito indispensável e que só pode ser obtido anterior e exteriormente à relação de entrevista. ainda. deve ser vista "situacionalmente". p. não é fácil. intervindo apenas no sentido de esclarecer pontos do discurso e principalmente no de estimular o desenvolvimento das ideias e temáticas sugeridas pelo informante. sem procurar jamais redirecionar ou fragmentar-lhe o discurso" (Sampaio. levando-se em consideração as evidentes diferenças de situação entre a psicanálise e a entrevista sociológica não-diretiva89. Particularmente tenho a impressão que tal recurso possa ser tentado frutiferamente. Vislumbro. 1970). Campina Grande. onde. mesmo quando desenvolvida e complexificada em direções diversas (por exemplo em Leach. e desenvolvidos – diversamente quanto às técnicas de apreensão – em Lévi-Strauss (1949a e b. a possibilidade de um enriquecimento considerável da análise simbólica em Antropologia que.

vol. que as tradições são sempre reinventadas e que. Vansina (1961) desenvolveu um minucioso método de coleta e análise de narrativas orais. o "passado" tem uma importância decisiva no presente (Hobsbawn. Cadernos do LEME. p. quando fatores como simpatia pessoal. Um aspecto importante nesse item diz respeito aos 'especialistas' que toda sociedade produz para dar conta de tarefas e assuntos determinados. devemos atentar para questões análogas às tratadas acima no que diz respeito ao "controle de informações". só num segundo movimento. antes de mais nada. ou seja. ainda que o grau de dificuldade nessa comunicação seja bastante variável. cap. Evans-Pritchard (1940b. II) e. se tal for relevante. parece-me que uma investigação com base em história oral – e em especial uma investigação antropológica – deve procurar dar conta. 88 – 191. Jul. que "The voice of the past matters to the present" (Thompson. e que são imediatamente apresentados ao etnólogo quando esse revela interesses específicos no setor de competência de algum deles. 2011. Assim. Sabemos. cap. 90 A respeito desses temas. Ao lidar com dados históricos. entre outros. no Brasil. Vernant (1956. Naturalmente admito que toda atenção deva ser dada à palavra do especialista. disponibilidade e interesse contavam bastante. nunca empreguei critérios muito especiais. e especialmente em casos como o nosso. do processo de "produção" de um passado. Campina Grande. da elaboração que as sociedades fazem sobre suas informações históricas. mas é importante cotejá-la com a de informantes menos comprometidos com a 'guarda' de saberes especiais e que frequentemente enriquecem e reelaboram as visões 'oficiais'" (Sampaio. deixando ao contrário essa tarefa muito mais a cargo deles próprios. 1985c: 8). da a percepção que têm do "tempo" e do lugar social da "memória"90. 1978 etc. não necessariamente mais importante. 1972. Leach (1953). mas suas cuidadosas e úteis recomendações em momento algum problematizam a situação de pesquisa ou a relação pesquisador-informante durante a coleta. nº 2. 3.). acreditando que todo mundo sem exceção deveria ter algo de interessante a comunicar. em síntese. 1978: X). Ver. em especial de história oral. Um ponto fundamental a observar aqui é o "papel" da história na sociedade estudada.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "A respeito da escolha de informantes. Sigaud (1980) e Viveiros de Castro & Carneiro da Cunha (1985). Thompson. dos mais ricos em Antropologia./dez. trabalhar criticamente sobre o material coletado no sentido de uma "reconstituição" histórica. Também nunca consegui distinguir com muita precisão entre bons e maus informantes. 154 . no sentido contrário. E. 3).

Em primeiro lugar. como vimos. 2011. como também estimula pesquisas mais aprofundadas. menos provavelmente em arquivos locais. relativas a Cadernos do LEME. da etnia e da estrutura-social.. A recuperação da História como parte de uma metodologia que vise dar conta da identidade. Devo notar aqui que não estou especialmente interessado em fazer História. Além das crônicas históricas que se poderá também utilizar e que.. não são muitas. na reconstrução de processos regressivos às origens de tal ou qual movimento que diga respeito à constituição do sistema interétnico.). Campina Grande. Procurarei investigar o que é possível descobrir por essa via. lida com uma sociedade profundamente marcada pela história e por uma "historicidade". certamente não muitas mas talvez muito significativas. no sentido em que a fazem os historiadores.. mas em poder investigar e compreender dados históricos indispensáveis numa pesquisa antropológica que. devem ter seu lugar dentro da mesma perspectiva. o movimento kapinawa parece articular-se em torno de algumas posições e personagens centrais (o primeiro pajé.). para os quais a presença e atuação dessas personagens teve ou tem tido uma importância muito grande. como a que se pretende desenvolver. a "'historização' das sociedades indígenas viabiliza extraordinariamente a própria historiografia. 1978: 124). tentar reconstituí-las através de outros informantes. deve haver algumas informações sobre a área indígena em questão. ou em arquivos de ordens religiosas. tanto quanto no que se refere à apreensão pelo etnólogo do processo de mistificação ou ideologização dos eventos históricos (ao nível do grupo) e biográficos (ao nível do indivíduo) pelos agentes étnicos (. devo dizer o que me parece possível fazer com fontes escritas. Jul. por sua vez. se quisermos alcançar progressos seguros nos estudos étnicos no Brasil" (Cardoso de Oliveira. no que diz respeito à investigação histórica. além de tomarlhes diretamente "histórias de vida". Outras fontes inexploradas. 155 . os caciques.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO As "histórias de vida". como se viu.. Por fim. 3. nº 2. no duplo sentido da penetração no tempo. No nosso caso. em arquivos públicos no Recife. e inexploradas. Como percebe muito bem Cardoso de Oliveira. há em Pernambuco uma vasta produção de crônicas locais./dez. que podemos tomar aqui como uma categoria particular de "história oral". e que talvez possam trazer surpresas positivas. 88 – 191. são as crônicas regionais. Seria interessante. p. vol. [deve] ser posta como alvo imediato do etnólogo.

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municípios ou microrregiões (por exemplo Barbalho, 1977; Albuquerque, 1960 etc.), cuja exploração pode ser útil, no mínimo, à compreensão do quadro local e regional91. Deixando agora de lado os procedimentos mais puramente técnicos, gostaria de fazer algumas considerações rápidas a respeito de algo que lhes é, metodologicamente, anterior. Trata-se do relacionamento, num sentido amplo, a ser construído entre pesquisador e universo social pesquisado. Limitarei-me aqui porém a retomar sinteticamente questões que propus em outro lugar (Sampaio, 1985c). Tentei então de início avaliar algumas posturas metodológicas que me pareciam muito "idealizadas" com relação ao papel e ao "lugar" do antropólogo em campo. A posição de Seeger (1980), por exemplo, ao definir-se em tal circunstância como "uma criança no mundo", enfatizando o necessário processo de ressocialização pelo qual passa sempre o etnólogo em situação de pesquisa, em especial em sociedades muito diversas da sua própria, parece comprometer a imprescindível consciência de que se é um membro – e um membro amplamente socializado – de uma sociedade dominante com relação àquela em que se está; dominação essa, de resto, evidente na própria quantidade de técnicas e de bens que a suposta "criança" manipula em seu trabalho. Conclui-se então, facilmente, pelo prejuízo que tal perspectiva significa, tanto à busca de algumas "simetrias" básicas na relação da pesquisa, quanto à própria dimensão de realidade dessa relação. O misto de distanciamento metodológico e melancolia existencial identificado, por sua vez, por Da Matta (1978) como característica do antropólogo em campo, no que chama de 'anthropological blues', parecia-me interessante enquanto dimensão viabilizadora da transposição lógica do "estranho" ao "familiar" e vice-versa, inerente ao fazer antropológico. Disse, por outro lado, que:

"Estados agudos de 'anthropological blues' podem ser sintomáticos de falta de 'dialogicidade' entre pesquisador e sujeitos, no sentido em que Tedlock (1979) usa este termo; isto é, um procedimento de pesquisa no qual as descobertas são impulsionadas e discutidas através de um 'diálogo' entre os dois polos envolvidos na relação de pesquisa, os quais tenderiam, por essa via, a se aproximarem de uma posição de equilíbrio e identificação" (Sampaio, 1985c: 10-11).

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Não insistirei, também aqui, na necessidade de se fazer uma abordagem crítica, "contextualizada" etc., das crônicas. Mesmo porque parece não haver muito consenso sobre "como" fazê-lo. Para algumas recomendações interessantes no trato com cronistas, ver Oliveira Filho (1982).

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Introduzia assim uma discussão das possibilidades de uma "dialogicidade" na situação da pesquisa, em oposição à fórmula clássica do "estranhamento", do qual o 'anthropological blues' é "sintoma". A "dialogicidade" entretanto, levada a seus extremos, parecia-me buscar uma redução absurda de papéis irredutíveis no processo de pesquisa, com comprometimentos para a "eficácia critica" da investigação. Busquei então algumas brechas que permitissem dizer que:

"Talvez mesmo os dois procedimentos não sejam assim necessariamente excludentes (...). De qualquer modo, se o 'insight' antropológico é realmente uma experiência individual – e até certo ponto solitária como quer Da Matta [pelo menos num momento inicial em que este ocorre] – e tenho a impressão que assim o é, então a dialogicidade tem seus limites, o que também nos parece correto embora não saibamos exatamente onde estão estes e até que ponto possam ser questionados. O que parece claro porém é que a postura de "estranhamento", típica do antropólogo (...), não pode nem deve ser confundida com ausência de compartilhamento com os sujeitos das questões e interpretações" (idem: 11). Compartilhamento que me parecia, em larga medida, viável através das técnicas nãodiretivas, sem prejuízo do "estranho metodológico". O que no fundo pretendia – e certamente sem chegar a respostas muito palpáveis, o que de todo modo não invalida a busca – era procurar algumas medidas de relativização entre as perspectivas que definem o etnólogo como "decodificador" e "tradutor" da cultura nativa, num alto grau de onipotência científica; e aquelas que tendem a encará-lo como mero "interlocutor", ou "testemunha" dessas culturas, ocupado em pouco mais que apenas "fragmentar", pela sua "escritura", a "prática" viva das mesmas. Passaria daí a considerações sobre a inserção do etnólogo em uma sociedade politicamente diferenciada internamente, e de como procurar chegar a posições o mais próximas possíveis de uma equidistância com relação aos diversos "grupos de interesse" presentes. No que diz respeito às relações que viabilizem a manutenção do pesquisador em campo e o seu trabalho de "coleta" de informações, procurei desenvolver, a partir da minha própria experiência, a ideia de "reciprocidade", sempre tão presente nas sociedades com as quais trabalhamos, como orientação, nas suas diversas formas, para estabelecimento de um "modo básico" de convivência e de exercício das necessárias trocas – econômicas e simbólicas – com os sujeitos da pesquisa.

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Coloca-se aqui então o problema das diversas "demandas" que esse sujeito dirige ao pesquisador, de acordo com anseios e expectativas não só com relação à pesquisa, mas ao próprio pesquisador enquanto agente externo "interessado" em seus problemas e aspirações. Dizia então:

"Evidentemente a demanda dos sujeitos pelas muitas formas de relacionamento com os pesquisadores – enquadráveis ou não nas diversas categorias estabelecidas, como clientelismo, paternalismo, intermediação, assessoria etc. – varia de acordo com os níveis de organização, participação e consciência política daqueles próprios, muito mais que em função de posturas adotadas ou sugeridas pelos últimos. Responder, discutir ou desencorajar estas demandas é uma questão pessoal e política a ser enfrentada por cada pesquisador em cada situação particular, e decidida de acordo com sua consciência e sua sensibilidade. Não acredito em fórmulas de uso geral para tanto (...). Pessoalmente tenho procurado me comportar com relação a isto de acordo com diretrizes políticas que me parecem claras e que julgo comprometidas com as causas vitais dos próprios sujeitos, o que não quer dizer que tenha sempre claro (...) o melhor caminho a seguir. A única atitude realmente improcedente entretanto, embora não infrequente, parece-me ser a de tentar fechar os olhos à essas demandas, buscando envolver a situação de pesquisa numa atmosfera artificial de distanciamento e 'neutralidade', claramente impossíveis" (idem: 14-15). Chegava assim enfim, inevitavelmente, a questão mais candente da "participação" do antropólogo nas "lutas" dos segmentos sociais envolvidos em suas pesquisas; e na discussão daquilo que se tem um tanto vagamente definido como "pesquisa participante" (por exemplo em Brandão, 1981), e que é muitas vezes tomado, facilmente, como um "rótulo" capaz de legitimar social e politicamente qualquer pesquisa e, às vezes, em detrimento de uma maior atenção aos procedimentos científicos utilizados. Procurei, naquela ocasião, refletir sobre minha própria prática, reconstituindo a articulação que sempre buscara entre uma "participação" – política – e minhas pesquisas "científicas". Hoje talvez saiba mais claramente da natureza radical e indissolúvel desse vinculo, nos termos em que o expressa Viveiros de Castro (1980), ao comentar posições que: "Consideram o trabalho teórico – dos 'antropólogos acadêmicos' – como irrelevante, alienado, desvinculado das lutas concretas dos povos indígenas. Ao contrário dos que sustentam aberta ou veladamente esta posição, não creio haver nenhuma Cadernos do LEME, Campina Grande, vol. 3, nº 2, p. 88 – 191. Jul./dez. 2011. 158

assim. pior ainda. formalista. que insistimos em desenvolver trabalhos de pesquisa entre povos indígenas no Brasil. e o farei./dez. através do que pude repensar sobre o meu próprio trabalho. acamponesada e assemelhada à população envolvente. 159 . isto é. cheguei aos meandros políticos internos e Cadernos do LEME. Se não pudermos e soubermos entender isso nosso compromisso de antropólogos não passará do estágio de uma indignação abstrata. ou música) quando os índios estão lutando pela terra ou morrendo de fome' é. 1980: 5. com os índios. E é certamente por sabermos da eficácia especifica do nosso saber e da nossa prática – antropológicos – na compreensão dessa "luta" específica. Reproduzo-o aqui apesar de a situação hoje. vol. Campina Grande. dirigindo meu interesse para as questões da etnicidade.mesmo a fome e a luta pela terra – em certas situações. é cega para o que faz daqueles homens.) Mas o que precisamos nos perguntar – e é esse o trabalho teórico e essa a nossa responsabilidade – é se. Jul. Termino aqui tentando voltar à questão inicial deste tópico. 'Ser índio' é. a mitologia ou a musica são tão importantes para homens que lutam pela terra e morrem de fome. imaginando estar 'ao lado' dos índios. cairemos numa prática indigenista concreta que. p. grifos originais). ao terminar a elaboração desse plano de pesquisa. nº 2. 3. 88 – 191. necessariamente. que se recusa intransigentemente a distinguir e diferenciar. há algum tempo atrás. homens" (Viveiros de Castro. O juízo muito comum 'é absurdo estudar parentesco (ou mitologia. genérica e estéril diante dos crimes contra os índios e de uma solidariedade abstrata e 'humanista' para com essa luta. índios. por reduzir a variedade e a riqueza das situações e motivações a uma lógica abstrata. apesar das crescentes dificuldades que a isto se tenta impor. Ou. (. talvez por localizar aí os aspectos culturais mais 'puros' numa sociedade profundamente alterada historicamente. por ser 'terrorista' no sentido que Sartre dá a este adjetivo: isto é. sobre tudo – por que o parentesco. uma ocupação quase cotidiana de boa parte dessas populações do Sertão do Nordeste e. ser já.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO contradição em princípio entre a lógica própria da atividade científica e o compromisso ideológico e prático com o trabalho indigenista. Descobri nesses rituais a busca da afirmação daquilo que realmente os preocupa: sua identificação étnica enquanto grupos diferenciados perante uma sociedade que insiste em estigmatizá-los ao mesmo tempo em que negar-lhes tal condição. desta vez. Certamente é absurdo 'estudar' qualquer coisa . de fato. e da importância dessa compreensão para estas mesmas "lutas". absurdo. quanto as forças que combatemos são cegas para o que faz daqueles índios. 2011. como – e. tinha inicialmente um maior interesse pelos rituais. ligeiramente diversa: "Ainda apegado a uma imagem 'idealizada' de índios... a da "construção do objeto". em si mesmo.

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externos por onde passam as discussões e articulações relativas a cada grupo étnico em particular, através dos quais estes constroem seus discursos e viabilizam suas lutas. A etnicidade fornece o suporte ideológico-organizacional de um amplo processo de reconquistas territoriais e, trabalhando com os índios no encaminhamento dessas lutas, descobri a relevância das informações históricas e o próprio interesse que os índios demonstram neste sentido (...). Assim, meus interesses atuais de pesquisa têm a ver com uma tentativa de enfeixar todas estas diretrizes temáticas e pô-las em discussão com algumas questões teóricas pertinentes. Tenho a impressão – e a intenção – que isto possa ser caracterizado como a construção de um objeto de pesquisa junto com seu próprio sujeito" (Sampaio, 1985c: 16-17).

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