DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO

DE CABOCLO A ÍNDIO: Etnicidade e organização social e política entre povos indígenas contemporâneos no nordeste do Brasil; o caso Kapinawá José Augusto Laranjeiras Sampaio

À guisa de apresentação

Por: Maria Rosário de Carvalho

Este texto, elaborado há duas décadas e meia como projeto de pesquisa para a Unicamp, no âmbito da qual o seu autor cursava o mestrado, obteve uma bolsa-prêmio

Este ensaio foi originalmente apresentado em 1986 como projeto de pesquisa ao curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), tendo então obtido "bolsa-prêmio" de pesquisa desse programa. Em 2001 atualizei algumas informações legislativas e etnográficas, quase sempre em notas de rodapé. Por fim, em 2011, fiz pequenas modificações de caráter estilístico apenas.  Bacharel em Ciências Sociais (Antropologia) pela Ufba. Professor de Antropologia na Uneb (Universidade do Estado da Bahia). Membro da coordenação do curso de Licenciatura Intercultural em Educação Escolar Indígena (Liceei) da Uneb. Secretário do Conselho Diretor e sócio fundador da Anaí (Associação Nacional de Ação Indigenista). Pesquisador associado do Leme e do Pineb (Programa de Pesquisa Povos Indígenas no Nordeste do Brasil, Ufba).

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criada por essa instituição para os melhores projetos de pesquisa apresentados ao final da realização das disciplinas, assim como logrou a aprovação de uma bolsa junto à FAPESB, usufruindo de ambas, respectivamente, em 1986-1987 e 1987-1988. Esse êxito preliminar se estenderia pela década seguinte, inaugurando uma nova fase nos estudos sobre os povos indígenas no Nordeste. As dissertações então produzidas ao abrigo do Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro (PINEB), criado por Pedro Agostinho e sediado, desde 1971 (sob a denominação preliminar de Projeto de Pesquisa sobre Populações Indígenas da Bahia), no Departamento de Antropologia e Etnologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, foram por ele muito inspiradas, o que lhe dá um caráter de texto-formador. Inédito até agora, em boa hora o editor dos Cadernos do Leme, Rodrigo Azeredo Grünewald, decidiu publicá-lo, o que constitui um testemunho adicional da sua força entre antropólogos que compartilham o interesse pelo contexto etnográfico do nordeste. O jovem leitor que não o leu e, portanto, por ele não se deixou inspirar, haverá de indagar se um texto escrito em 1986, e sobre temática particularmente permeável a determinações de variadas ordens, terá resistido à ação do tempo. Estou segura que sim, e tentarei, ao longo desta deliberadamente sucinta apresentação, explicitar a minha posição. Dois aspectos se me afiguram especialmente relevantes neste projeto/ensaio, cujo propósito, claramente enunciado em seu longo e descritivo título, é duplo, i.e., tratar da etnicidade e da organização política de povos contemporâneos no nordeste brasileiro, tomando como eixo-condutor a sua transformação histórica (de caboclo a índio) e estreitando o foco para se deter pouco mais no caso do povo Kapinawá. Um duplo movimento, pois, em que o geral dá lugar ao particular ou específico, um informando ao outro de modo complementarmente relacional, mediante o concurso da história, na diacronia e sincronia. Se a especificidade do contexto etnográfico investigado revela-se na diacronia, as suas peculiaridades deixam-se surpreender na sincronia, como parece enfatizar o autor, nas primeiras linhas. Especificidade (histórica) e peculiaridade (cultural) constituem os dois aspectos acima referidos que serão tematizados ao longo do ensaio, não obstante a ênfase incida sobre o primeiro. O caso peculiar, assim apreendido, não corre o risco, tão frequente, de ser tomado como exótico ou decorrente de uma ação meramente instrumental por parte dos agentes sociais. Por outro lado, um outro aspecto a ser destacado decorre do deslocamento teórico que ele opera em relação à abordagem culturalista que, sob vários ângulos, guiou, em larga

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medida, os estudos produzidos entre as décadas de 1970-1980, entre os quais se inclui a minha própria dissertação de mestrado sobre os Pataxó de Barra Velha/Porto Seguro-BA, muito inspirada nas formulações de Roberto Cardoso de Oliveira sobre a fricção interétnica (Os Pataxó de Barra Velha: seu subsistema econômico, 1977). É necessário lembrar, todavia, que a pretensão de Cardoso de Oliveira ao lançar mão dessa abordagem, cujo foco é o sistema de relações sociais, as relações de conflito/poder estabelecidas, era reduzir a força da perspectiva culturalista. Nesse sentido, como o próprio autor enfatizou, muito genuinamente, não foi por outra razão que ele utilizou o conceito de fricção interétnica e não o de aculturação1 (“Problemas e Hipóteses relativos à Fricção Interétnica” In: A Sociologia do Brasil Indígena,1972. p. 85-129. De fato, a noção de fricção interétnica visava à descrição da situação de contato dos povos já incluídos em sistemas interétnicos constituídos ou em processo de constituição, ao passo que a noção de potencial de integração – características do sistema interétnico (econômicas, sociais e políticas) passíveis de serem consideradas como as responsáveis pela integração (p. 89) – asseguraria ao pesquisador efetuar o prognóstico. Mediante a avaliação conjunta do grau de dependência indígena dos recursos econômicos não indígenas; da capacidade dos grupos em contato (indígenas e regionais) para a mobilização com vistas a determinados fins; e dos meios escolhidos para atingir tais fins (p. 88-97) seria possível prever a integração dos índios ao contexto regional. Há, pois, uma correlação entre sistemas interétnicos mais integrados e sociedades indígenas mais dependentes dos contextos regionais, o que permitirá ao autor apreender a determinação do mercado sobre as organizações indígenas, em razão mesmo de ele se apresentar como um grande obstáculo para o seu desenvolvimento (idem, p. 139). Guga Sampaio preconizará que se os apreenda, de modo sistemático, através da mobilização política que eles desenvolviam, e continuam a desenvolver, nos planos interno e externo, para o que utilizavam, e continuam a utilizar, os símbolos indígenas considerados mais eficazes para o estabelecimento da sua distinção em face dos não índios. Entre esses símbolos destacavam-se, tal como ainda hoje, os rituais, sob as modalidades Ouricouri, Praiá, Toré ou Particular e, sobretudo, o uso ritual da jurema. Estudos subsequentes salientariam a especial força ritual na mobilização étnica dos povos indígenas no nordeste. Mais não digo para não retirar do leitor o direito de proceder às suas próprias descobertas e avaliações através da fonte efetivamente autorizada, o autor, a quem saúdo,
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Afinal, nessa década de setenta a oposição sociedade/cultura, entre outras distinções Durkheimianas, havia sido erradicada pela antropologia Lévi-Straussiana.

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Salvador. p. As remissões ao contexto histórico onde foram produzidos parecem supérfluas. 3. pontuada por desafios e lutas. pelo arrojo e rigor demonstrados na elaboração deste projeto/ensaio. mera curiosidade. Muito se pode aprender com este texto! Seria uma tarefa inesgotável e mesmo insana recuperar os seus muitos méritos e buscar aplicá-los a debates recentes. Destacase sobretudo o esforço do pesquisador efetivamente empenhado em ouvir os indígenas e tomá-los como sujeitos históricos. dialogar e inspirar-se permanentemente com novas demandas e questões. como diria Pierre Bourdieu. um texto erudito que investe no levantamento de fontes históricas e bibliográficas até então pouco frequentadas pelos antropólogos. de Antropologia. 2011. atos de combate. refletindo sobre as suas criações (ao invés de naturalizálos ou exotizá-los. Na contramão do ponto final. 88 – 191. O que posso fazer nesta breve nota introdutória. FFCH-UFBA Uma antropologia política dos indígenas do nordeste? Por: João Pacheco de Oliveira Alguns textos devem ser lidos como unidade pois o autor neles colocou um reconhecível ponto final. uma ampla gama de referências teóricas até aquele momento bem pouco conhecidas e citadas nos estudos sobre indígenas do nordeste. Campina Grande. Associada. é tocar Cadernos do LEME. deixar portas entreabertas. Depto. de José Augusto Laranjeira Sampaio. Jul. São. deve a meu ver ser lido com mais fecundidade nesta segunda sintonia. tanto na seleção e apropriação das fontes bibliográficas quanto das formulações produzidas. que o LEME ora disponibiliza aos leitores contemporâneos.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO uma vez mais. 31 de dezembro de 2011 Maria Rosário de Carvalho Profa./dez. O trabalho De Caboclo a Índio: etnicidade e organização social e política entre povos indígenas contemporâneos no nordeste do Brasil: o caso Kapinawá. que expressam uma dimensão bem diversa do fazer sociológico. É uma leitura prazerosa. vol. neles o autor se esmera em colocar vírgulas. como ainda era a perspectiva dominante no Brasil). Outros respondem a inquietações múltiplas e constituem sínteses provisórias em uma trajetória mais rica. nº 2. 91 .

Swartz.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO em pontos que me aproximam bastante do seu autor em termos de postura intelectual e política. ou c) as analises baseadas no método estruturalista (na época ainda iniciantes no Brasil e circunscritas aos trabalhos de Roberto da Mata). seja naquele contexto de produção do texto seja em ocasiões posteriores em que as nossas trajetórias se entrecruzaram. 1966. É em uma direção bem diversa que se move Sampaio (1986). Richard Adams e Raymond Fogelson) que a partir de duas coletâneas do final dos anos 60 e de outra na década seguinte. O leitor atual certamente buscará uma unidade teórica de referência. Turner. b) os trabalhos mais sociológicos (baseados na noção de fricção interétnica). O uso mais sistemático dessa bibliografia na pós-graduação no Brasil iniciou-se com um curso oferecido no PPGAS/Museu Nacional. possam ajudá-lo a percorrer ao reverso. 1969. Neste ano à convite de Mariza 2 Vide Swartz. 3. não como história mas como arqueologia. nº 2. Richard . conectando a disciplina de “antropologia política” no Brasil aos trabalhos dos africanistas ingleses (Evans-Pritchard e Fortes) e mais especialmente a chamada “escola de Manchester” (sobretudo Max Gluckman) bem como aos estudos sobre etnicidade (Fredrik Barth). os vinte e cinco anos que nos separam da elaboração deste texto. 1978). Victor. Marc Swartz. O programa incorporava no entanto outras preocupações (ausentes naquelas coletâneas). Foi esta a abordagem que norteou a minha monografia sobre os Ticunas. 92 . tese de doutorado defendida somente em 1986. Campina Grande. 88 – 191. a sua análise não se inscreve de maneira alguma em escolhas anteriores e então facilmente acessíveis. a partir de que matrizes disciplinares (para recuperar aqui uma expressão de Roberto Cardoso de Oliveira) o autor constitui seu objeto e propõe as questões antropológicas a investigar? Embora dialogue amplamente. enquanto Otávio Velho seguia em outras direções. ministrado por Otávio Velho e por mim (então como professor assistente e doutorando). Ou seja. (Eds) – Political Anthropology. p. Nos anos seguintes várias vezes este curso foi ministrado no MN. em 1978. Tais alternativas seriam: a) a tradição dos estudos culturalistas (onde a categoria de aculturação imperava por décadas). 2011. inspirando trabalhos de pesquisa não necessariamente relacionados com indígenas (inclusive vários destes são citados por Sampaio em sua alentada bibliografia. publicada em 1988. Cadernos do LEME. própria de um leitor voraz e meticuloso). Fogelson. São aspectos que podem surpreender ao leitor atual e.Marc. vol. Jul. foram com certa frequência agrupados sob o rótulo de “antropologia política” 2. Eu alternava esta disciplina com o curso que oferecia sobre “relações interétnicas”. Marc – Local level politics. espero. debatendo com diversos autores ingleses e norteamericanos (como Victor Turner.Political Anthropology. Raymond & Adams. mas terminada de fato em 1984. A. and Tuden./dez.

em monografia muito posterior. eu dei um curso naquela instituição. Dez anos depois do curso na UNICAMP. p. vol. O mesmo viés analítico pode ser encontrado no trabalho de Adalberto Rizzo de Oliveira. 3. então coordenadora da pós-graduação da UNICAMP. 2011. Além das demandas práticas sobre os antropólogos – laudos judiciais e relatórios de identificação de terras – havia uma forte importante convergência teórico-bibliográfica nestes estudos. 93 . onde se beneficiava do convívio com Pedro Agostinho e Rosário Carvalho). A única ocasião em que lidara anteriormente com dados e estudos dessa procedência fora no âmbito de um estudo comparativo sobre os indígenas enquanto uma modalidade de campesinato de fronteira. com os Capinawás). ministrando a disciplina “relações interétnicas”. seja nas discussões durante os seminários seja em conversas informais. quando vim a ali conhecer Guga (permito-me chamá-lo assim. reelaborando o seu material Capinawá. em texto citado por Guga (como “manuscrito”) e que de fato não cheguei a publicar.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Correa. a ênfase nos anos 90 deslocando-se crescentemente para a “etnicidade” (pensada segundo a perspectiva 3 No próprio Museu Nacional a linha de pesquisa que nos últimos 15 anos tem lecionado esta disciplina é de estudos sobre “a antropologia da política”. acho eu. em 1994. Campina Grande. em uma editada pela ANPOCS). Moacir Palmeira e aos trabalhos do Cadernos do LEME. o que antecipava um importante debate futuro sobre identidades étnicas e modalidades de reconhecimento. Jul. O uso do termo “antropologia política” progressivamente se esgarçou3. bastante visível no projeto de pesquisa que concluiu dois anos depois./dez. Estimulado pela qualidade das pesquisas ali em andamento propusemos um GT na ANPOCS onde vieram a cruzar-se pela primeira vez os estudos de coletividades indígena do nordeste com os então iniciantes estudos sobre quilombolas. nº 2. de doutoramento sobre os índios Canellas (MA). Em movimento simultâneo Guga começava a sistematizar suas fontes de informação sobre os índios da Bahia (advindas da ANAI-BA e do PINEB/UFBA. mas o homem em sua trajetória). A comunicação apresentada por Guga. foi um destaque deste GT. seu colega de turma. pois aqui entra em cena não apenas o autor. pensando incorporá-las a partir de uma experiência de campo (que faria em Pernambuco. 88 – 191. voltei a debater mais extensamente com Guga e colegas de ANAI e PINEB durante um período que estive na UFBA como professor-visitante. referida sobretudo ao prof. sendo recomendado para publicação na RBCS (o que acabou acontecendo em 1996. Aprendi com ele muito sobre os índios do nordeste. O mote porém da antropologia política (ao menos na versão abrasileirada) estava. agora também em vias de publicação.

uma 2a. Intitulada A Viagem da Volta: etnicidade./dez. assim como as hipóteses arrojadas e inovadoras formuladas. As minhas entradas de curso tem sido outras. O leitor atual pode estranhar a extensão (103 pgs). João Pacheco de Oliveira. Jul. a sólida base de conhecimentos que precede ao projeto de pesquisa. como Antropologia Histórica. Antropologia do Colonialismo e Antropologia do Território. p. um analista arguto e atualizado no debate sobre políticas públicas. a extensa bibliografia (cerca de 30 pgs). política e reelaboração cultural no nordeste indígena. 3. comentando que era o trabalho final do curso na UNICAMP (que na realidade ainda não enviara). tal coletânea têve sua primeira edição em 1999. Mesmo dando à público este projeto de pesquisa. 2011. nº 2. Cadernos do LEME. O exemplo mais articulado desta nova direção será uma coletânea da qual Guga não participou (por estar envolvido no momento em outras pesquisas). Em uma breve visita que fiz a Salvador em 1986 Guga me entregou uma versão deste texto.UFRJ Rio de Janeiro – dezembro de 2011 NUAP. direitos e mobilizações indígenas. Campina Grande. Fiquei surpreso e muito satisfeito ao deparar-me com o excelente resultado. tão rico mas ao mesmo tempo tão distante (a ponto de nos propiciar reunir alguns dados fragmentários para uma arqueologia dos estudos sobre os índios do nordeste).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO de Barth. edição acontecendo em 2004. Volto à metáfora da vírgula e do ponto final. vol. 88 – 191. 94 . uma figura importante nos debates atuais sobre laudos e perícias antropológicas. como parte de uma antropologia do conhecimento). É com tal amplitude e a disposição em enfrentar desafios cada vez maiores que devemos debater os padrões profissionais de trabalhos dos antropólogos brasileiros. A classificação do texto como um projeto de pesquisa se reporta menos a características encontráveis hoje em projetos de pesquisa do que a uma estratégia conjuntural do autor. bem como para sua separação das suas repercussões e responsabilidades sociais. mas na qual se incluía o trabalho de sua colega Sheila Brasileiro sobre os Kiriri (objeto de sua dissertação de mestrado na UFBA). Professor Titular de Etnologia do Museu Nacional . Guga continua a ser uma referência imprescindível para os estudos e políticas relativas aos indígenas do nordeste. numa conjuntura onde há crescentes pressões para uma especialização entre os domínios da antropologia.

2011. 1982 e 1983) informam e discutem algumas das questões políticas e legais que interessam diretamente aos índios no Nordeste. 3. Reesink (1983)./dez. p. Rocha Júnior (1982 e 1983) e Sampaio (1984). Antunes (1984). Bahia. 1984 e 1988).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO DE CABOCLO A ÍNDIO: Etnicidade e organização social e política entre povos indígenas contemporâneos no nordeste do Brasil. em igual período. perante o Estado e a sociedade nacional. se articula com fatos e mudanças sociais e políticas que dizem respeito ao Estado e à sociedade nacionais. Tais situações... conselheiro e ex-cacique kirirí – entrevista em Mirandela. De 'caboclo' passou para 'índio'. vol. o caso Kapinawá José Augusto Laranjeiras Sampaio "Antigamente nós era conhecido por 'caboclo'. Magalhães (1980)." (Josias Patrício. 1981 a 1985). sem duvida não se constituem em um fenômeno particular ao Nordeste mas sim em uma parcela da mobilização que. I. Figueiredo (1981). Jul. Por uma investigação sistemática de processos étnicos em segmentos sociais indígenas no sertão do nordeste do Brasil Introdução Desde meados da década de setenta do século XX se tem observado um número crescente de casos de tensão social e de conflito agrário envolvendo segmentos indígenas e parcelas da sociedade regional no Nordeste do Brasil. 61. Carvalho (1982b. vem atingindo. Campina Grande. Lea (1981). 65 e 67 (1984) e 76 a 79 (1985). 88 – 191. o jornal "Porantim". Cadernos do LEME. analíticos sobre a situação destes povos à época são: Anaí-Bahia (1980 e 1985). ainda que em níveis e de formas diversos. em igual período. Carelli (1984). maio de 1979). Dallari e Dantas (1980). Veja-se também. bem como uma crescente mobilização dos primeiros no sentido de fazer valer. 1 Uma boa síntese destes noticiários na primeira metade dos anos oitenta pode ser obtida na publicação anual "Povos Indígenas no Brasil" (Aconteceu. 1981. ou. nº 2. e que. CONDEPE (1981). As publicações da Comissão Pró-Índio (1979. 95 . os direitos pertinentes à sua condição étnica. Alguns dos trabalhos informativos e. Beltrão (1980). por sua vez. especialmente os números de 42 a 46 (1982). amplos segmentos dos povos indígenas no Brasil. frequentemente noticiadas tanto pela imprensa regional quanto pela grande imprensa nacional1. 52/53 e 57 (1983).

profundamente envolvidos econômica e culturalmente. no dito período. com preocupações 2 Sobre os índios no Nordeste diz Galvão (1959): "População estimada em 5. nº 2. Cadernos do LEME. p. A maior parte vive integrada na população regional. 96 . associações indígenas de caráter multiétnico. "decorridos quase cinco séculos de contato com o 'homem branco'. sem dúvida.) aqueles indígenas encontram-se integrados à economia da região. certamente um marco nesse processo.500 índios. segundo penso. já ao final daquela década. da criação.. vol. e fenotipicamente muito assemelhados. os próprios povos indígenas passariam a constituir.. 1975: 4) E. trezentos anos de contato intenso com a civilização européia." (Galvão.outra língua que não o Português.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Por outro lado." (Amorim. peculiares. um tanto inconvenientemente. em 1972. segundo qualquer das variantes da noção de "integração" e suas correlatas em perspectivas teóricas diversas2. Jul. Campina Grande. também./dez. Com cerca de. a partir da promulgação do Estatuto do Índio (Lei 6001 de dezembro de 1973). para a discussão de "integração" e categorias afins como "aculturação" e "assimilação" e suas aplicações a diversos casos no Brasil. com a qual se encontram. quando não indiferenciáveis. em 1980. Ribeiro (1970). essas sim.) imersos em sistema monetário de natureza capitalista (. 2011. da União das Nações Indígenas (UNI).. O que parece dar um caráter específico e até certo ponto surpreendente aos movimentos indígenas no Nordeste está relacionado com a própria história e com as características culturais atuais destes povos. os indígenas daquela região configuram.à exceção dos Fulni-ô . Cardoso de Oliveira (1960. do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Por sua vez. "a questão indígena" pode ser assinalado." (Idem: 5) Veja-se também Schaden (1967). com mais ênfase que em outras situações. em média. registrando-se considerável mestiçagem e perda de elementos culturais tradicionais. 1964 e 1967) e Cardoso de Oliveira e Faria (1969). e do surgimento de várias associações de "apoio ao índio" em diversos estados a partir de 1978. configurariam um caso extremo do que os estudiosos do "contato interétnico" no Brasil costumavam classificar como "índio integrado". sem falar . 1959: 225) Já Amorim (1975) diz: "(. 3. com a criação. o envolvimento crescente desses Estado e sociedade naquilo que se tem correntemente denominado. 88 – 191. inclusive a língua. caso-limite no processo de integração do índio à sociedade brasileira.. no âmbito da Igreja Católica. é certamente compreensível que. da população regional envolvente. Deste modo. o movimento dos índios no Nordeste se caracterize por um grande esforço político de articulação interna e externa e pelo acento e pela elaboração simbólicos e ideológicos intensos em torno dos atributos culturais identificáveis como indígenas.

em suas conclusões a respeito dos Karirí de Colégio.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO muito nítidas em delimitar fronteiras sociais e em estabelecer distinções perante a sociedade nacional de modo a marcar suas especificidades enquanto entidades sociais e étnicas diferenciadas. p. Voltarei adiante a estes processos. Pierson (1981) e Motta & Mello (1982) para o caso kapinawá. que peleja contra forças sempre superiores. nº 2. certamente coloca questões teóricas e políticas de relevância. A emergência destes povos. Bandeira (1926: 20). Pankararú. Pankararé. Tingwí-Botó. Conforme. 6 Por exemplo. Oliveira (1937: 173). como os Fulni-ô." (Hohenthal Junior.. e a matéria "As Concepções de Indianidade do Coronel Zanoni" (Aconteceu.será com certeza de interesse para historiadores e antropólogos. 97 . 3. ou ainda Sampaio (1984). a Fundação Nacional do Índio (Funai)4. sujeitas a muitas perseguições pelos colonos brancos do local. seja a iminência inevitável da sua dissolução e incorporação completa aos estratos inferiores da sociedade nacional7. mas também grupos até então considerados extintos – Pataxó. como Kapinawá. Cadernos do LEME. vol. 2011. gostaria apenas de referir que eles atingem não apenas as etnias historicamente conhecidas e bem identificadas na região. particularmente tendo em vista o fato de que elas foram. cujos "aparecimentos" provocaram. Estamos assim diante de um caso verdadeiro de persistência cultural. Trujillo Ferrari (1957). 3 4 A "extinção" destes grupos pode ser verificada em Nimuendaju (1946) e em Ribeiro (1970)." (Trujillo Ferrari. o caso Kapinawá. ou trabalhos do próprio âmbito administrativo da agência governamental sobre estas etnias como Magalhães (1980) e Beltrão (1980). seja por parte de segmentos da sociedade e dos poderes públicos regionais. 1960a e 1960 b). analisada mais profundamente.e cuja situação. tanto surpresa quanto desconfiança quanto à sua "autenticidade". Karapotó3 – e sobretudo outros que adotam denominações étnicas desconhecidas na literatura. diz: "As considerações acima. 1957: 82). Wasú. tratado adiante e em Carvalho (1982b). por exemplo. Hohenthal Junior (1954: 94. Por enquanto. especialmente durante o hiato entre o fim da Junta das Missões e o estabelecimento da Diretoria Geral dos índios. por exemplo. assistidas desde pelo menos meados do século XX pelo governo federal. 1982:82-83) para o caso Tingwí-Botó. por tantos anos. Kirirí e Potigwára../dez. essas pequenas comunidades indígenas ainda sobrevivem. Este último autor diz: "O que é surpreendente é que. Com efeito. também entre a extinção desta diretoria e a chegada do Serviço de Proteção aos índios na região. os poucos autores que se interessaram em estudar estes povos no século XX antes dos anos 70 em geral concordam em ressaltar seja sua "obstinada resistência" em permanecer indígenas apesar da quase inviabilidade disto6. 5 Veja-se. a despeito da passagem de quatrocentos anos de dominação cultural européia.) têm por finalidade apontar que o sentido de agrupamento tribal está se dissolvendo e confundindo-se na configuração geral da sociedade local de Porto Real do Colégio. (. 1960a: 59) 7 Por exemplo. apesar de levantamentos históricos bastante simples poderem confirmar a pertinência da "indianidade" em todos os casos5. seja por parte da própria agência indigenista federal. bem como o caráter particular do contexto indígena regional no qual ela se insere. Encontram-se considerações semelhantes relativas a outros casos em Amorim (1971) e mesmo em Silva (1978). Jul. num primeiro momento. 88 – 191. Campina Grande.

ainda que se apresente sob perspectivas diversas de analise. e empenhado na formulação de um modelo de campesinato indígena.) assim viviam os seus últimos dias os remanescentes dos índios não litorâneos do Nordeste que alcançaram o século XX" (Ribeiro.. Campina Grande. ilhados num mundo estranho e hostil e tirando dessa mesma hostilidade a força de permanecerem índios. 9 Ver especialmente páginas 178 a 180. the only way to assure the indispensable acquisition of money. vol. na "perda da identidade étnica" (Amorim. não pela sua "perda" mas por uma revitalização e por reelaborações bastante 8 "These tribal groups have been reached by a progressive proletarization process. engajados na economia regional. como se verá. Que as pressões sobre os índios e seus territórios./dez. O mesmo acontece com relação à sempre referida importância do papel diferenciador da hostilidade. 1970: 56).. já que esta se acha profundamente vinculada à posse de um território grupal . identificadas por Amorim no inicio dos anos setenta e mesmo por autores anteriores como Oliveira (1937)9 – para não se falar também na farta documentação histórica . conclui que tal situação implicaria. Numa primeira tentativa de estudar os povos atuais na região enquanto um conjunto etnológico. 1975: 1).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Escrevendo já em 1970. já estaria implicando. Together with this it will gradually occur the loss of ethnic identity that still exists. Jul.as "reservas" .estejam sendo acompanhadas. Cadernos do LEME.e à possibilidade da manutenção de uma economia camponesa8. Ribeiro diz. identificando o processo de concentração da propriedade fundiária com uma crescente pressão sobre os territórios indígenas já insuficientes . simples resíduos." (Idem: 57). bastante recorrente na literatura. que: "(. in proportion to the insufficiency of the 'reserves' in allowing the independent work of all their group. ou melhor. 2011. 1975: 17). após breve relato da situação nos diversos grupos então melhor conhecidos. since the ones who are forced to look for a job outside their tribal setting should disguise themselves in order not to be stigmatized by the various prejudices against the indians. 98 ." (Amorim. Pelo menos tão índios quanto compatível com sua vida diária de vaqueiros e lavradores sem terra. It means that it will became necessary to sell manpower to the white man. 88 – 191. Mas diz também: "Eis o que restou no século XX dos índios do interior do Nordeste. no plano da etnicidade. 3. Amorim. nº 2.apesar das garantias legais e proteção estatal. ressalta em uma perspectiva que me parece bastante limitada quanto à posição do Estado na questão .e a consequente tendência à proletarização dos índios. Vale ressaltar que esta ideia de situação limite é também. p.

15 Quinze anos após este escrito original. qualquer parcela de território minimamente significativa em termos econômicos. a investigação sistemática da produção e reprodução de uma consciência étnica social e politicamente orientada . Jul.Pankararé na Bahia. Vale ressaltar que. ou tende a ocorrer. Cadernos do LEME.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO efetivas que. sem dúvida. Além desses. trinta e três povos indígenas com uma população de aproximadamente 70 mil índios e habitando trinta e sete territórios indígenas (Anaí. ou./dez. principalmente através de ligeiras referências a eles em Oliveira (1937) e. à época da deflagração dos seus movimentos de reivindicação étnica em fins da década de setenta. nas importantes contribuições de estudos de caso como os de Cohen (1969). De fato. Tingwí-Botó e Wasú em Alagoas e Kapinawá em Pernambuco .eram já indiretamente conhecidos de alguns estudiosos.000 indivíduos assistidos por postos indígenas da agência governamental em 197512.já viviam processos reivindicatórios com vistas ao seu "reconhecimento oficial" pelo Estado15. alguns se encontravam já totalmente proletarizados. não deixam de reafirmar uma estreita vinculação dessa etnicidade com uma "territorialidade"10. vol. Campina Grande.500 pouco mais que quinze anos antes segundo Galvão (veja-se a nota 2 acima). entre outros. de setembro de 1985. caso dos Tingwí-Botó em Alagoas e dos Xokó em Sergipe. ou do seu alcance como categoria de analise em contextos sociais pluriétnicos ou pluriculturais11. 2011. 88 – 191. 2001). apenas dez anos depois. de onze grupos com cerca de 13. pelo menos dois dos quais . enquanto pontos de referência para estas preocupações. pois. O que interessa aqui propor é. dezessete povos etnicamente diferenciados. dentre estes. com uma população de cerca de 27. em igual número de áreas e postos indígenas13.os Karapotó de Alagoas e os Tapeba do Ceará . Penso aqui. na referida região. número 79. bem como da própria etnicidade enquanto fenômeno social. Xokó em Sergipe. p. haviam então outros grupos cuja persistência étnica já se podia vislumbrar por fontes e relatos diversos. Aconteceu (1984 e 1985). é o que me parece se constituir no aspecto central a ser tratado no sentido de uma compreensão mas exata do que ocorre. 3. nº 2.uma etnicidade 10 11 Conforme Carvalho (1984 e 1988). sem possuir. 13 Funai (1983). com grupos étnicos em tais situações. há. Eram apenas 5. Os seis povos reconhecidos pela Funai em 1985 e que não o eram ate muito recentemente . que deles obtiveram informações junto a outros grupos indígenas.000 pessoas14. em Hohenthal Junior (1954 e 1960a). na faixa compreendida entre o Norte da Bahia e o Piauí. Barth (1984) e Carneiro da Cunha (1985). 99 . tinha-se. 14 "Porantim". em 2001. 12 Conforme Amorim (1975: 2).

exige. o indigenismo oficial em suas diretrizes e práticas etc. A relação entre o problema teórico proposto . 88 – 191. no âmbito de determinados processos sociais. sociais e simbólicos16 – e a escolha dos povos indígenas no Nordeste como sujeitos de investigação. nº 2. 2011. que a partir de uma tal perspectiva de unidade histórica regional. a qual.) e a constituição simultânea da comunidade que se pauta por ela. para ser mais precisa.a constituição de identidades étnicas. Campina Grande. Penso.. quanto à avaliação de suas posições estruturais perante contextos sociais significativos mais abrangentes. Carneiro da Cunha. para o caso dos segmentos sociais indígenas em situação ou em processos contemporâneos de "emergência" étnica e política. 1979) .os movimentos indígenas nos planos regional e nacional. tomando nessa perspectiva o conjunto de práticas políticas e culturais nas formas variáveis em que se apresentam em cada caso especifico. tais como as determinações do campo socioeconômico regional ou local tomando aqui o sertão como unidade sociogeográfica relevante . A partir de etnografias mais completas e da discussão das produções analíticas parciais se poderá então propor a formulação de modelos mais gerais que possam dar conta dos processos e estruturas organizacionais e simbólicos que revestem o fenômeno da etnicidade no referido contexto indígena regional. vol.. ou de etnicidade. Jul. 1985: 206). na "dupla gênese" de que fala Carneiro da Cunha: "(. se poderá estender mais consequentemente a investigação etnográfica a casos diversos em particular.entre os povos indígenas que vivem hoje na faixa de Sertão do Nordeste brasileiro. p. A elaboração do tema central de investigação. Tratarei. 1969. a afirmação étnica é uma preocupação constante e um componente organizacional angular na vida social desses povos e disto provém uma rica e 16 Penso aqui. como já se poderá antever pelo exposto acima.. o dos índios Kapinawá. Cadernos do LEME. ocasional. 100 .DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO (Barth. no sertão oriental do estado de Pernambuco. Sem dúvida. por outro lado. tanto um aprofundamento histórico que permita compreender a gênese de suas situações atuais. por exemplo.. essa cultura serve de peso e de medida" (Carneiro da Cunha. e pensando em um mesmo sentido em que Barth (1984) ou Carneiro da Cunha (1985).) nos processos de identificação étnica assistimos a uma dupla e indissociável gênese: a formação de uma cultura (. tal como aqui concebido./dez. não é. tendo em vista a proposição preliminar de algumas generalizações como. Cohen. a título de breve ilustração. tanto com relação ao contexto regional tratado quanto aos seus casos particulares. de um destes casos. basicamente. 1969. Pretendo aqui caracterizar os indígenas na região como uma unidade etnográfica e política historicamente constituída. seus componentes e determinantes políticos. 3.

nem a do seu oposto lógico e também cada vez menos sustentável no real. o "índio assimilado". no supra referido contexto do final dos anos setenta e início dos oitenta. nem a imagem cada vez mais distanciada do real do "silvícola". Além disso. Cardoso de Oliveira (1984). Gómez Quiñones (1982) e Varesi (1982). por iniciativa do próprio indigenismo oficial como. Rocha. mais que isto. a "questão da emancipação" (Comissão Pró-Índio.avaliações do futuro de diversas "situações de contato" envolvendo sociedades indígenas no Brasil. p. Para outros casos de presença indígena em sociedades nacionais na América Latina. Não cabem aqui. significativamente esta perspectiva. 1965. Cadernos do LEME. Campina Grande. há uma série de questões jurídicas e políticas apenas ensejadas por debates como os aqui referidos. de estabelecimento de "Critérios de indianidade" ("Porantim" 38. necessariamente revistas pelos seus autores e. 1983). e num momento de redefinições da própria sociedade nacional. 1979) e a tentativa. Entendo que é justamente a ausência de um maior interesse de investigação. em seus artigos 231 e 232. especialmente para o caso dos índios no Brasil. veja-se. pelos próprios fatos. Laraia e Da Matta (1967) e Amorim (1971). 18 E bem ao contrário do que tende a ocorrer em outros países americanos. Primov (1980).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO intensa elaboração política e simbólica cuja compreensão será certamente fértil e elucidativa a respeito destes processos.e em geral funestas . bem como desses povos. Carneiro da Cunha. 1988) o índio ainda é concebido antes como o "silvícola" distante18. e a correspondente insuficiência teórica no sentido da compreensão destes processos étnicos e da sua contextualização. como as contidas em etnografias como as de Wagley e Galvão (1949). esta canhestra formulação teórica que busca a conceituação formal de "não-índio" ou de "ex17 Refiro-me aqui em especial ao "Estatuto do Índio". pois. dentre outros. de 1973. é inegável que os índios do Nordeste e sua identificação étnica têm estado no epicentro de polêmicas questões políticas e legais levantadas. que está na base da falência de algumas notórias . 3. e para as quais um melhor entendimento da situação das etnias indígenas contemporâneas no Nordeste do Brasil certamente terá muito a contribuir. vol. que se mantém diferenciado apenas em função do próprio distanciamento social. de suas lutas atuais e passadas e das expectativas com relação ao futuro que orientam as suas praticas. nº 2. Jul. 1982. A Constituição Federal de 1988 alteraria. 1984. Penso aqui especialmente. quase sempre./dez. 19 Para uma abordagem das discussões a respeito de sociedades plurais ou multiétnicas veja-se MayburyLewis (1984) e aí. na importância que deve ter hoje a discussão da plurietnicidade desta sociedade19. igualmente "emancipatória". Sampaio. 2011. discussão que só tem sentido na medida em que se considere os segmentos indígenas como parcelas etnicamente diferenciadas mas amplamente participativas nesta sociedade. Em um país em que tanto na legislação17 quanto na "consciência nacional" (Cardoso de Oliveira. 88 – 191. 101 .

mais uma vez. um personagem concebido como "integrado". Hemming (1978) sintetiza bem o que foi ou. have now apparently developed a raging appetite. Most of the tribes displaced by the cattle have disappeared. embora marginal. 1978: 346) Na trilha das boiadas seguiram os missionários. Thomas More wrote in 'Utopia’:’ These placid creatures. 102 . pelo seu poder. nº 2. algo próximo da ideia nativa de "caboclo"." (Hemming. dentre os quais se destacaram.pretensões de distintividade étnica. towns. os d'Ávila. Jul. p. The natives left no written record and no one recorded their version of the fighting. Campina Grande. there is nothing from the Indian side. senhores da Casa da Torre20./dez. houses. vol. Índios no sertão: um esboço histórico Se o século XVI foi marcado pelo contato entre o colonizador e as diversas tribos tupí que dominavam o litoral nordestino. inclusive no sentido em que a ele. foi a vez dos índios do Sertão. The Tapuia tribes were forced to surrender their homes and huntinggrounds to provide grazing for these imported animals. everything goes down their throats'. quando esses se encontravam já quase que completamente dizimados pelas epidemias e guerras havidas principalmente no governo de Mem de Sá (1557-1572) e com a maior parte da sua população sobrevivente nas capitanias da Bahia. Já na segunda metade do século XVII fundaram-se missões jesuíticas na rota das boiadas. 3. The native resistance to this cattle invasion was one of the most important stages in the conquest of the Brazilian Indians. and turned into man-eaters. A penetração nessa vasta área foi feita de início principalmente a partir da Baía de Todos os Santos e através de numerosas boiadas conduzidas pelos grandes sesmeiros. as always.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO índio". Leite. Ilhéus e Pernambuco escravizada ou reduzida em aldeias missionárias em rápido declínio (Hemming. melhor. 2011. o que hoje sabemos da história do Sertão no século XVII: "Once cattle moved into an area they displace human beings. não se deve reconhecer nem se legitimar . Fields. It was also the worst recorded. no século seguinte. Aqui. 88 – 191. Cadernos do LEME. which used to require so little food. a compreensão da situação dos índios no Nordeste e de sua mobilização política atual reveste-se de uma relevância científica e pragmática destacável. 1945). 1978. entre a capital da colônia e o rio 20 Há uma boa história desta dinastia por Calmon (1939).

. do mesmo modo que a questão intimamente relacionada da liberdade dos índios não se encerrou. Primério. Os holandeses desarticularam as missões já existentes na costa (Leite. do mesmo modo. Baumann. de jesuítas. nos locais das atuais capitais dos estados de Paraíba.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO São Francisco e. Os conflitos entre sesmeiros e religiosos dão a tônica deste período. capuchinhos e franciscanos (Leite. capítulo 8). Regni. 1937.. 88 – 191. não pôs fim às disputas territoriais. deixaram importantes relatos e iconografia sobre alguns povos indígenas do Sertão. O Frei Martin de Nantes. Veja-se também Hemming (1978. 23 As prolongadas guerras entre os portugueses e os Potigwára são bem conhecidas. 1974. Willeke.) 21. 1978. 1988). em seguida. vol. Campina Grande.".que quase não os menciona . um dos protagonistas desses episódios. entretanto. comparar esses com o relato . em quadra. Certamente essa legislação. ops. 1982. Hemming. para instalação de índios e missionários" ("Informação." (1749: 393-4 e 384 respectivamente). 3. mas foi se transfigurando paralelamente à copiosa legislação a esse respeito nos séculos XVII e XVIII (Leite. mais preocupados com registros que os portugueses. 2011. principalmente. 1983). permanece até hoje. Na verdade. também juridicamente . deixou um interessante relato desses e de sua política (Nantes. 1983b e 1984). Cadernos do LEME. 1980. nº 2. 1945) mas. cits. 1749: 393). Rio Grande do Norte e Ceara23. p. que deve ter contribuído para o processo de concentração de população e de etnias indígenas dispersas. Reesink. por outro lado. 22 Transcritos em "Informação. Beozzo../dez.os direitos e as pretensões territoriais de boa parte dos povos atuais na região (Dallari e Dantas. 1945. Enquanto as boiadas se expandiam na capitania da Bahia. até certo ponto. Com base neles e em documentos posteriores a eles associados fundamentam-se historicamente . Um desfecho parcial dessa situação é marcado pelos alvarás régios de 1700 (23 de novembro) e 1703 (22 de maio) 22 que determinam que "a cada missão se dê uma légua de terra. muitas mais às margens desse rio. 1939).e. Infelizmente faltam-nos relatos na perspectiva da terceira parte envolvida. com intervenções de ambas as partes junto ao Governo Geral e à Coroa. Willeke e. ao norte do São Francisco os colonizadores e suas missões restringiam-se ainda à zona da mata quando da ocupação holandesa de 1630. Há também uma vasta documentação acerca deles nos arquivos das ordens (Regni. Leite. por exemplo em Gouvêa (1590). 1945. e que cada uma seja composta de pelo menos cem casais.do historiador dos sesmeiros (Calmon. 1707). apenas no inicio daquele século haviam se estabelecido as primeiras fortificações coloniais no território dos Potigwára. A importância daqueles alvarás.e.. 103 . com alguns dos quais foram os 21 Seria interessante comparar os relatos desses historiadores missionários com relação a estas disputas que envolveram diferentemente as principais ordens . Jul.

como no sertão. 1698 e 1699) 26 .Mulatos. entretanto. Jul. 25 Um cronista anônimo do século XVIII reserva as últimas linhas do seu extenso relato para definir as "Qualidades de pessoas de que se compõe o Pays": "Brancos . Caribocas. Baro (1651). como a carta do Padre Manuel Correia (1693) a respeito do ritual do Varakidzã. Soares de Souza. 27 Além dos já citados. 2011.. e falam língua geral. 1749: 484). são filhos de mulato com negra. 3. . 24 Os principais relatos da época disponíveis em português são os de Laet (1633). o termo "caboclos". refiro-me principalmente às telas de Albert Eckhout. que são filhos de brancos com negras. especialmente importados para tal. 1709) e Norte da Bahia (Mamiani. aldeados na zona da mata e que haviam lutado ao lado dos portugueses. Dos historiadores missionários27. Mamelucos. Campina Grande. Merece menção ainda o relato de Mascarenhas (1716) sobre os Proká do São Francisco. Os cronistas que produziram tão boas descrições dos Tupinambá na Bahia de Todos os Santos (Cardim. A estes naturais é comum o nome de índios. Deles provém quase tudo do pouco que hoje se sabe sobre os Otxukayana (que em geral aparecem como Janduí ou Tarariyú nas fontes lusitanas)./dez. Cadernos do LEME. Barléu (1659) e Nieuhof (1682).". que também lhe chamam mestiços. apenas de pequenas obras missionárias com algum interesse etnográfico relativas a povos da família linguística Karirí do vale do São Francisco (Nantes. e não falam uma língua geral. nos documentos da Companhia de Jesus. tanto aos que vivem na costa. p. com relação ao Sertão. Herckmann (1639). Marcgrave (1648). vol. Para o século XVII e início do XVIII dispõe-se.Pretos . Ikó etc. 88 – 191.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO primeiros a contatar pacificamente24. além dos holandeses. karirí ou não (Leite. Nantes. Tapuyas. são os que moram na costa. 1587) e no Maranhão (Abbeville. que vivem no sertão. apenas Serafim Leite reproduz documentos de interesse etnográfico. 1945) 25. aliados seus que dominavam os vales do Apodi e do Piranhas e que. os "Tapuia" do Sertão (Leite.Payakú. 26 Tem-se em Rodrigues (1948) um bom exemplo de aproveitamento etnológico dessas obras. e em distinção aos "índios bravos". aparentemente praticado por diversos grupos. Para o período anterior a 1630.foram dizimados após a restauração de 1654 por paulistas como Domingos Jorge Velho. Quanto à iconografia. encontramos algumas informações sobre os aldeamentos missionários e as práticas dos seus dirigentes. 104 . com referência aos falantes da"língua geral". que são filhos de índia com negro. que são filhos de índia com branco.. Serafim Leite faz a importante e interessante observação de que é a partir da restauração que surge. 1707. são os naturais da terra. também em Röwer (1942). senão cada nação a sua particular. Évreux. e também dão o mesmo nome aos filhos de mamelucos com negra. nº 2. Calderon (1970) e outros. Beck (1649). 1625. e no sertão chamam a estes salta-atrás" ("Informação. Caboclos. 1614) trazem apenas informações imprecisas e muitas vezes fantasiosas sobre os "Tapuias". Caryóz. 1945: 276-8 e 298-9). não há nada de significativo. além de fazer várias referências ao que há de mais importante em Cronistas da Companhia como Vasconcelos (1663) e Vieira. como outros povos que tiveram contatos pacíficos com os "flamengos" . 1614.

É o período da pesada legislação integracionista do Marquês de Pombal. Até o final do século todas as diretorias haviam sido extintas. entre outras. com diretores nomeados para cada aldeia. 88 – 191. excetuando-se os grupos ainda isolados nas matas do Sul da Bahia28.. que certamente se constitui na fase mais crítica para a sobrevivência dos aldeamentos indígenas no Sertão. Hohenthal Junior. sobretudo ao longo do curso do submédio São Francisco. 1802).. os quais viviam então na área extremamente árida da Serra Negra. de 21 de outubro de 1850. nº 2. p.. É também desta época o último relato conhecido a respeito da redução de índios no Sertão (Frescarolo. Campina Grande. no plano oficial.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO O século XVIII. tendo chegado a várias dezenas. Caldas (1759). Menezes (1814). 2011. Vilhena (1802). provocou o que deve ter sido. a convivência e miscigenação destes com população não indígena. Entre meados dos séculos XIX e XX houve grande interesse de estudiosos. Desse modo. Entre meados do século XVIII e as décadas iniciais do XIX produziram-se algumas importantes descrições cartográficas da região. Pernambuco. em proceder a esta 28 Evidentemente não incluo aqui a província do Maranhão que. principalmente da própria região. Couto (1757). época de plena vigência da Junta das Missões nas Capitanias da região ("Informação. 1945). como "Informação. Aires do Casal (1813). a primeira grande questão de definição étnica na região e várias aldeias perderam as suas terras. Beozzo. o que equivalia à afirmação oficial da inexistência de índios na região nordestina. 1960a." (1749). Cadernos do LEME. a nova Lei de Terras do Império. 105 . não é identificada com o Nordeste. O mesmo se observa com relação às poucas aldeias-vilas visitadas ou referidas pouco depois por Spix e Martius (1823). 1981: 130). Em seguida.. em muitos casos. 3. praticamente não havia mais "índios" mas apenas "caboclos" no Sertão. vol. em termos etnográficos e da história indígena. 1985b). e muito mais daí por diante. No inicio do período imperial são criadas. que "(.) manda incorporar aos próprios nacionais as terras dos índios que já não vivem aldeados mas dispersos e confundidos na massa da população civilizada" (Figueiredo. Jul."./dez. As possibilidades de reconstituição de uma história indígena do Sertão não podem ainda ser completamente avaliadas (Sampaio. estão já depopuladas e em muitos casos abandonadas quando da expulsão dos jesuítas em 1756 (Leite... 1749. em cada uma das províncias. as Diretorias de Índios. marca o apogeu e a decadência dessas missões que. já no início do século XIX. algumas bastante minuciosas e todas unânimes em referir a "decadência" e o "atraso" das recém-criadas vilas de "índios mansos" ou de "caboclos" e. 1983).

Potigwára). consequentemente. 1984). Pompeu Sobrinho (1939). 1985). Barros (1923). pelo menos no que diz respeito ao século XIX. pouco sistemática e pouco ou mal referida às fontes primárias. os cocais. impressionista. Nimuendaju (1946) refere nada menos que oitenta diferentes etnônimos na área situada entre as duas zonas referidas. Bezerra (1950) etc. Ainda que seja muito difícil avaliar a extensão dessa diversidade. Tupinikím. petições etc. Entretanto.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO investigação. Kaeté. Sabemos hoje que o sertão nordestino pré-colonial foi habitado por uma diversidade muito grande de etnias. e para o cerrado. 3. 88 – 191. 1984). graças principalmente aos trabalhos de Dantas (1973. No plano linguístico. até meados da década de oitenta do século XX. 106 . Cadernos do LEME. como cartas. Paraíso. 1984). A inclusão nessa família de línguas de grupos como os Kanindé e Ikó foi tentada por autores 29 Alencastre (1857). por exemplo. Studart (1896). Quanto a trabalhos mais recentes e mais rigorosos no levantamento e análise da documentação. pode ser identificada a grande família Karirí. 1946). Bezerra (1902). Campina Grande. Dzubukuá. também o é a sua confiabilidade. com grande concentração no curso do baixo e do submédio São Francisco. e no Piauí (Mott. além de alguns levantamentos preliminares da documentação. nº 2. Joffily (1892). vol. ainda que muitas vezes em obras de caráter mais geral29./dez. mas também aos de Figueiredo (1981) e Mott (1974). o trabalho então apenas começava (por exemplo. Na Bahia. Théberge (1869). Studart Filho (1926 e 1931). 2011. e quatro das suas línguas – Kípea. Pereira da Costa (1909). Jorge (1901). Costa Júnior (1942). com documentação produzida pelos próprios índios. alguns destes trabalhos ainda contêm as melhores pistas disponíveis para que se possa aprofundar o estudo através de outras fontes como. apenas a produção relativa à pequena área correspondente ao atual estado de Sergipe. o agreste. no que diz respeito à área do Ceará e do Piauí. 1976. e dos Timbira e Akwê. Pinto (1938). Kamurú e Sapuyá – chegaram a ser especificadas e parcialmente descritas (Lowie. isto é. O nível das informações relativas a esses etnônimos é extremamente variável e. mas a produção resultante é quase sempre imprecisa. falantes da mesma "língua geral". Apesar disso. Nas demais áreas praticamente nada havia sido feito. o mesmo ocorrendo em Alagoas (Antunes. p. grandes grupos de língua jê dos cerrados a oeste. podia-se considerar satisfatória. ela contrasta flagrantemente com a relativa uniformidade dos grandes grupos Tupí da costa a leste (Tupinambá. seguramente majoritária em grande parte da região. no sertão propriamente dito – a caatinga – e em suas faixas de transição para a mata costeira. um dos resultados significativos dos trabalhos citados é a demonstração da possibilidade de se trabalhar. Jul.

31 Bem como dentre as trinta e três existentes ao se iniciar o terceiro milênio. e também o quanto é problemático o sentido científico disto. Hohenthal Junior. 88 – 191. dos Pankararú. o Yaathê dos Fulni-ô. casos. apesar de muitos terem tido que abandonar as suas margens buscando áreas de refúgio nos brejos ou altos de serras próximos. O parco material contemporaneamente disponível sobre o Xukurú. desse total. dentre outros. 1982). rumo às melhores terras do cerrado. reforçada pela coexistência de vários grupos no vale do submédio São Francisco (Nimuendaju. no mínimo em termos ecológicos. sabe-se da filiação de duas línguas da região a famílias cujas demais línguas conhecidas estão todas ao Sul: a dos Masakará com a família Kamakã e a dos chamados Pimenteiras com a dos Botocudos. O avanço daqueles para o oeste. apesar de sua ascendência Tupí – segura no primeiro caso e bastante presumível no segundo – mantém hoje. De qualquer modo. Campina Grande. Dentre as dezessete etnias acima referidas em meados dos anos oitenta31. 1974) demonstra bem o quanto os informantes podem ser criativos para tentar satisfazer a grande curiosidade de seus inquiridores e fazer juiz aos seus préstimos. permitem localizá-la de forma isolada no tronco Macro-Jê (Rodrigues. teria sido. impedido pela presença majoritária dos Jê centrais. Vista nessa perspectiva. Pesquisas ainda mais recentes com a única língua ainda falada. 2011./dez. nº 2. os índios no Nordeste. o Xokó e o Pankararú não permite nada de conclusivo30. parece que diferentes pequenos grupos humanos foram pressionados para a zona semiárida das caatingas à medida em que os Tupí avançavam pelas matas costeiras (Métraux. em ambos os casos ainda com base em Martius (1867). Pankararé. grande parte dos índios no Nordeste hoje concentra-se ainda na área de influência do baixo e submédio São Francisco. 1946. os Potigwára e os Wasú. e se localizam muito longe do eixo delineado pelo curso do baixo e submédio São Francisco. Além disso. Jul. podemos pensar que a presumível diversidade cultural e linguística do Sertão já comportava um embrião de unificação. têm percurso histórico e bases ambientais muito diversas (ver. como historicamente. Cadernos do LEME.os quais. ainda hoje. 30 Um levantamento linguístico realizado na região na década de cinquenta (Meader. em torno do qual se articulam. os grupos indígenas no Sul da Bahia . 1977b e Paraíso. por sua vez. respectivamente. 3. p. vol. mas que. 1982). estreita relação com os demais grupos aqui considerados32. Atikúm e Kambiwá. 32 Excluem-se. De fato. mas parece não haver dados suficientes para tal. Carvalho. constituindo historicamente esta unidade. embora crescentemente relacionados aos povos aqui tratados em seus movimentos políticos e étnicos. incluem-se duas não propriamente sertanejas. 1927). por outro lado. 1960a e 1960b) – uma faixa mais propícia a uma agricultura mais intensiva – antes mesmo que as missões e as boiadas viessem reforçar a concentração e a miscigenação.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO como Pinto (1935-8). situados na zona da mata.em especial os Pataxó do Monte Pascoal e os diversos povos reunidos já no século XX na reserva Caramuru-Paraguaçu e hoje conhecidos como Pataxó Hã-Hã-Hãe . 107 .

Destacaram-se também neste sentido o jornalista Mário Mello e o Padre Alfredo Dâmaso em Pernambuco. p. no final dos anos vinte. pelo menos nos registros melhor conhecidos. 1931. nove Postos Indígenas na região. Mello. 1929. competentes 33 A conferência pronunciada por Carlos Estêvão de Oliveira no Recife em 1937 (Oliveira.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO O conhecimento dos povos indígenas no sertão no século XX No século XX. o conhecimento dos indígenas contemporâneos no Nordeste era praticamente inexistente até os anos cinquenta34 quando. 108 . Mello. 1937). 1958 e Hohenthal Junior. a começar pela criação. que desde fins do século XIX têm despertado a atenção de linguístas e estudiosos regionais (Branner. Não há. Em quase todos os casos a participação de religiosos e de intelectuais foi decisiva (Dâmaso. sobretudo em consequência da grande pesquisa coordenada por Donald Pierson sobre o vale do São Francisco (Pierson. Apenas na década de setenta aparecem monografias sobre os povos da Bahia: a de Bandeira (1972) sobre os Kirirí. Oliveira. 34 Tinha-se então basicamente o relato de visitas de Oliveira (1937). 1887. Campina Grande. 1959). até a extinção do órgão em 1967. 1931. 1983). 1929. Os curtíssimos artigos escritos por Lowie e Métraux para Steward (1946) são quase que apenas históricos e classificatórios e dão uma boa ideia da limitação do conhecimento a respeito dos grupos que então se costumava chamar de "remanescentes indígenas". pode ser considerada um marco nesta mobilização. alguma atenção lhes é dada e alguns trabalhos são realizados. Rosalba./dez. 35 Para os Xukurú veja-se também Mello (1935). não é aprofundado posteriormente e destes trabalhos apenas Hohenthal Junior (1954) e Pinto (1958) fornecem etnografias minimamente satisfatórias. 3. Pompeu Sobrinho. Pernambuco. Com exceção dos Fulni-ô. nº 2. dando conta sobretudo dos Xukurú (Hohenthal Junior. e repetida alguns anos após no Museu Nacional no Rio de Janeiro. O estudo desses grupos. 1949. 1954) 35 . Karirí-Xokó (Trujillo Ferrari. e o Padre Renato Galvão na Bahia. após a criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Jul. 1956 e Hernández Díaz. entretanto. instalaram-se progressivamente. 1935. destaque para a participação indígena nestes processos de mobilização por reconhecimento étnico e por assistência pelo Estado. Boudin. 1960a) e Pankararú (Pinto. vol. entretanto. Cadernos do LEME. do Posto Indígena Dantas Barreto para os Fulni-ô de Águas Belas. um trabalho descritivo mas bem complementado por uma interpretação dos seus dados em Carvalho (1977a). 2011. 1976) 33 . e de Nássaro Nasser (1975) e Elizabeth Nasser (1975) sobre os Tuxá sobretudo no que diz respeito a economia e relações interétnicas. 1960a). Pinto. 36 Dados sobre os Tuxá também em Hohenthal Junior (1960a) e Carvalho (1982c). 36 . 88 – 191. e as de Reesink (1978) sobre os Kaimbé. 1956 e 1957 e Hohental Junior.

teoricamente afinado com as idéias então hegemônicas a respeito de contato interétnico no Brasil e empenhado em uma compreensão modelar do campesinato indígena. em um plano externo às próprias comunidades indígenas. Rocha Júnior. Jul. passou a haver uma articulação bem mais intensa entre os diversos povos. as assembleias de líderes indígenas. quase inexistente. não havia. e Magalhães (1980).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Há ainda da época uma descrição dos Xukurú-Karirí de Alagoas (Antunes. não começou nesta época. Sampaio. qualquer estudo de possível caráter acadêmico sobre os Atikúm e sobre os Kambiwá do Sertão de Pernambuco. A nível regional. Cadernos do LEME. Luz. passam a ocorrer com 37 Para o conhecimento então disponível acerca dos Potigwára veja-se também Moonen (1975). parece ter havido um sensível aumento dos canais e das facilidades de comunicação entre estes povos e a sociedade nacional. 3. já melhor conhecido (Soares. a rigor. Praticamente todos os autores citados referem conflitos entre "brancos" e índios e registram diversas iniciativas desses para garantir os seus direitos. 1973) e o já referido trabalho de Amorim (1971) sobre os Potigwára da Paraíba. A bibliografia então disponível sobre os povos "emergentes" era.em 1981. 1983. mas em parte decorrente do anterior. Duas ordens de fatores. àquela época. parecem ter contribuído. para os Truká. ao que tudo indica em atenção a perspectivas de "estadualização" da assistência a índios passíveis de "emancipação". Em segundo lugar e principalmente. inclusive bem antes da criação dos postos. 1985). p. fazendo com que a temática indígena chegasse mais facilmente à imprensa e à opinião pública. Para os demais dispunha-se então no máximo de alguns bons relatórios administrativos como os de Beltrão (1980) para os Wasú. vol. como se poderia supor. Dentre os onze povos com postos indígenas implantados antes de 1980. organizadas pelo Cimi. esse movimento. Evidentemente. inclusive a nível inter-regional. Em primeiro lugar. Acerca desses e de outros povos em Pernambuco merece referência o levantamento realizado pela Coordenação de Desenvolvimento do Estado de Pernambuco (Condepe). excetuando-se o caso Pankararé. 1976. 1984. nº 2. mas etnograficamente bastante limitado37. O movimento étnico dos povos indígenas no nordeste Já me referi ao movimento indígena que tomou forma entre os anos setenta e oitenta no Nordeste. 88 – 191. 2011. até aquela década. 109 . para modificar. entretanto./dez. a natureza e a amplitude destas iniciativas. Campina Grande.

vol. como o compadrio. Cadernos do LEME. 3. Campina Grande. b) Assembleia Nacional Constituinte. 2011. em grande quantidade. ou outros especialistas socialmente definidos. Sergipe (conforme adiante). julho de 1985). estimulando as alianças internas entre os grupos de família através. o nível das preocupações também mudou. de tabaco 38 A primeira dessas assembleias ocorreu em 1983 na "aldeia" Kirirí (Rocha Júnior. o qual se traduz sobretudo pela redefinição e valorização de funções como as de "cacique" e "pajé" e dos "conselhos tribais". especialmente aqueles política e economicamente dominantes. 39 Um processo muitas vezes estimulado também pelo estado nacional. fibras – e que são acompanhados do uso. que frequentemente podem também ser definidos como ancestrais. e por um maior controle dos grupos sobre os seus próprios limites. e desencorajando fortemente os velhos laços de parceria econômica e social. nº 2. com setores da sociedade regional. 1983) e a segunda em setembro de 1985 na "aldeia" Xokó na Ilha de São Pedro. as próprias organizações indígenas encarregam-se de promovêlas38. dos mutirões e roças comunitárias. em seguida. por exemplo.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO frequência e. pressionando a definição de indivíduos e segmentos em situações étnicas limítrofes ou pouco definidas39. Todos esses processos transparecem no plano religioso em práticas rituais coletivas e regulares. nos discursos e avaliações críticas de líderes indígenas. Jul./dez. p. os "encantados". Nesse âmbito. Tal é propiciado por danças e cantos acompanhados pelo som de maracás e com trajes e outros aparatos específicos. Também no plano interno ocorrem mudanças sensíveis. Embora as aspirações de cada etnia com relação à garantia de seus territórios e a outras questões ligadas ao atendimento das necessidades de suas comunidades permanecessem num lugar central. de entidades sobrenaturais. Já me referi ao "esforço de organização política". 88 – 191. 110 . nos quais aparecem profusamente elementos simbólicos identificados como indígenas – plumas. a um quadro de referência bem mais amplo. d) Funai" (Apolônio Xokó. caracterizadas pela incorporação pelos "mestres". colares. elas passam então a aparecer sempre vinculadas. preocupado em delimitar a sua administração e interessado também no controle político dessas fronteiras. O seguinte trecho da carta-convite enviada pelo cacique xokó aos demais povos da região para a Assembleia Indígena de 1985 dá bem uma ideia do que aqui se diz: "Achamos o momento desta assembléia muito importante para nós porque estão acontecendo muitas mudanças nas leis que apóiam os índios e por isto achamos que devemos discutir estas coisas: a) UNI (União das Nações Indígenas). arcos e flechas. c) Reforma Agrária.

mantendo. chamados "ouricuri". com frequência.. esse sentimento de participação transfere-se à sua totalidade. por exemplo. Certamente muito há ainda a ser compreendido com relação a esses processos de identificação étnica e organização política. comportam diversas variações de etnia para etnia. o sentimento de "ser índio" apreendido no discurso desses povos passa frequentemente pela participação nestes rituais. povos indígenas no Nordeste. são elementos a mais de identificação entre os diversos povos do Nordeste. Por outro lado. 3. inicialmente projetos individualizados a nível de cada identidade especifica. 111 . A importância desses rituais nos movimentos referidos pode ser atestada por sua revalorização em muitos dos grupos e. e o que fiz aqui foi apenas descrever os seus aspectos mais visíveis. ou. Esses rituais. 1956.) tais rearranjos têm lugar no âmbito de um projeto coletivo que os circunscreve a todos. e ainda que. em alguns casos. e todos eles. o valor econômico e simbólico atribuído pelas partes aos territórios em disputa. Campina Grande. apenas parcelas relativamente reduzidas das comunidades efetivamente o façam. assim como os linguísticos tomados. tais práticas se apresentam. como condição necessária e em grande medida auto-imposta para o seu "reconhecimento" étnico. os meandros das relações internas entre os diversos grupos familiares cujos poder e prestígio são postos em cheque nestes processos. mais. bebida alucinógena preparada com a entrecasca da juremeira (Oliveira. É o campo da luta política que torna possível tal projeto. porém. inclusive em função da intensa reelaboração ritual e simbólica. nº 2. 1985). o essencial das características descritas. ao Yaathê. já que só eles. 1982a: 12). 1954. "toré" ou "particular". Hohenthál Junior. p. o uso ritual da jurema é certamente um elemento privilegiado na autodefinição étnica destes grupos em seu conjunto. os empréstimos rituais. que vão se alargando como se fora em atendimento a certas exigências históricas que só tornam possível alcançar a 'unidade' na 'diversidade'" (Carvalho. Como diz Carvalho: "(. por sua adoção por parte de outros que não os realizavam.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO e da ingestão da jurema. sem prejuízo. Para estes. a elaboração Cadernos do LEME. vol.. além de todos aqueles que aqui chamamos de "emergentes". De fato. Pinto./dez. entretanto. Martins. 2011. Aliás. a dinâmica das relações de clientelismo e. das suas individualidades. na verdade. o jogo de pressões e acordos e a subordinação com relação ao órgão governamental tutelar. a constituição e o papel das lideranças. As determinações socioeconômicas e políticas a nível regional e local. 1937. o praticam. "praiá". como os Kirirí e os Atikúm. Jul. hostilidade com os segmentos regionais. 88 – 191.

historicamente referidas a esses aldeamentos. dessem oportunidade à expressão dessa afirmação em um movimento com outra dimensão. na verdade. e mais os dois então em processo de emergência mais recente. como nos casos referidos. após alguns anos de luta. Há. ou nas proximidades desses. não eram. são outros tantos aspectos inegavelmente importantes que merecem maior investigação e que. 2011. De resto. como que no ar. Um fato bastante recorrente nos processos de emergência étnica indígena no Nordeste na época aqui tratada é a presença de vinculações mais estreitas e historicamente marcadas desses povos "emergentes" com outros já "reconhecidos": dos Pankararé com os Pankararú através da extinta aldeia missionária de Curral dos bois. consideradas 'caboclas' pelos regionais. A sua existência enquanto segmentos sociais etnicamente diferenciados parece. certamente. nº 2. os seis povos reconhecidos. seguramente. dos Kapinawá com os Xukurú e Kambiwá pela proximidade e por referências históricas comuns etc. de algum modo. até que a articulação regional dos diversos povos indígenas. nunca ter deixado de ser nítida no plano local.) tende a crescer tendo em vista fortes indícios que dão conta da existência de outras populações. e que são. a esperança depositada no "reconhecimento" e. 3. Era já bastante sabida a existência. no Sertão. Campina Grande. situam-se em áreas de antigos aldeamentos missionários. vol. enfim.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO ideológica e simbólica em torno dos rituais e a institucionalização destes face aos outros sistemas religiosos presentes no campo etc. e a oposição que sempre mantiveram com relação aos segmentos não indígenas a esse nível atesta bem a vigência anterior da sua afirmação étnica. os únicos dos quais se esperasse que pudessem empreender a uma tal "emergência". 88 – 191. evidentemente.. Carvalho diz: "Este número.. 112 . de várias comunidades rurais distintas que. já referidos. e que provavelmente Cadernos do LEME. o agravamento da situação fundiária./dez. Referindo-se à população indígena no Nordeste à época. diríamos. uma série de outras variáveis ligadas aos aspectos referidos acima. assumem configurações variáveis nos diversos casos. em meados dos anos oitenta. dos Truká com os Tuxá através da descendência comum dos Proká e das missões dos "Rodelas". de modo algum. o caso dos grupos "emergentes" que têm vivido todos esses processos geralmente de forma bem mais intensa e crítica. Jul. (. Evidentemente o movimento étnico empreendido por estes últimos também não começou "de repente". p. nas quais a identidade indígena permanece.

Cadernos do LEME. ainda que com preocupações diversas.. como alguns dos deflagradores de uma intensa polarização étnica. sirvam apenas para identificar questões gerais e orientar o percurso a ser trilhado nas investigações. até a construção das grandes hidrelétricas de Paulo Afonso. laudo antropológico situação grupo se intitula Capinauá cidade Buíque este Estado (. e consequente acumulação e incipiente hierarquização econômica na área. Sem dúvida é bom contar com essas idéias. nº 2.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO tenderão a desencadear um movimento de afirmação de sua identidade étnica. Aguardo brevidade possível orientação esse Departamento sobre assunto" (Araújo. ou "a disputa pela terra é a base dos movimentos étnicos indígenas no Nordeste". 3. Acrescento. à aceitação destas pelas partes. área esta DR [Delegacia Regional] e possibilidade processo tornar-se rotineiro virtude grande número caboclos todo Nordeste.Sª. apenas para os quais foi feita programação financeira. pretendo que afirmações aparentemente conclusivas como "o toré – ou o praiá – reafirma a identidade étnica". sua extensão e 40 Tentei. vol. Campina Grande. uma maior presença do governo federal na região e o forte fluxo migratório para São Paulo. Insistiria que esta deva ser investigada em seus casos particulares40 antes de qualquer possível generalização. há situações diversas quanto à existência de demarcações. ainda que com graus e situações variadas de "latência". Caríri-Shocó da Ilha de São Pedro. Do quanto fica aqui dito. Waçu. em Sampaio (1984). por exemplo.). esta unidade já conta mais cinco grupos: Truká. pois. Tingwí-Botó e Wasu (Alagoas) e Kapinawá (Pernambuco)" (Carvalho. neste sentido. Pankaré e Capinawá.. Jul. a presença e a quantidade de invasões. o que seria expresso. 113 . de resto historicamente sempre presente. ou ainda "a etnicidade representa um vínculo organizacional poderoso". dirigido à sede do órgão em Brasíllia pelo seu Delegado Regional no Recife à época da eclosão do caso dos Kapinawá: "Face recentes ocorrências grupos se dizem descendentes indígenas. o estatuto histórico e legal das terras. 1982a: 1). 1980). além dos 10 Postos Indígenas desta DR. A própria Funai demonstrava. nem mesmo a questão fundiária se apresenta de maneira tão uniforme quanto parece. entretanto. à semelhança do que ocorreu mais recentemente com os Pankararé (Bahia). Na verdade. p. sabendo-se da sua devida dimensão explicativa. 88 – 191./dez. desde a estrutura fundiária local e o caráter do poder político municipal. sua homologação. peço V. uma compreensão similar dos fatos na região. uma abordagem preliminar do caso dos Pankararé e as conclusões parciais apontavam uma grande diversidade de fatores. então. Quanto à gênese desses movimentos. por detrás da invariável presença de conflitos. 2011. em um radiotelegrama "urgente confidencial".

no segundo os Xukurú e os Kambiwá (Pernambuco). o que faz com que. Tremembé. conforme dito na nota 15 acima.estes uma "dissidência étnica" dos Kambiwá . veja-se a série de publicações "Povos Indígenas no Brasil" (Aconteceu). não a acionando com maior expressão política. também com relação a este aspecto. aqui. os Payaku de Caraúbas no Rio Grande do Norte (Cabral de Carvalho. os Karirí-Xokó em Alagoas e os Atikúm e Fulni-ô em Pernambuco. a saber: os Kaimbé e os Tuxá na Bahia. Cadernos do LEME. Tapeba). a uma classificação exaustiva. Tapeba. entretanto. Tendo em vista o contexto de época aqui tratado – meados da década de oitenta – podiam ser identificados. 1964)e certamente muitos outros42. deixo de identificar. 42 Como não se trata de proceder. Pipipã em Pernambuco .41. cinco dos povos "reconhecidos" antes de 1980. outros dezesseis povos indígenas perfeitamente identificados na região aqui tratada. já "reconhecidos" (Pankararé. Kalankó e Karuazú em Alagoas. Pitaguarí e Jenipápo-Kanindé no Ceará. Xokó. este último povo constituindo-se. cada caso assuma uma configuração particular. Tingwí-Botó. 1956. em 2001.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO valor econômico. Tabajára. vol. os Arikobé no oeste da Bahia. os Pankararú (Pernambuco). oito estão já "reconhecidos" pelo Estado em 2001 e outros oito ainda não. 4) povos não "reconhecidos" e que afirmam muito tenuemente uma identidade etnicamente diferenciada. 2011. os Potigwára (Paraíba). e no quarto grupos como os Tremembé do litoral oeste do Ceará (Seraine. São eles: Povos já "reconhecidos": Pankarú e Kantaruré na Bahia. 3. se pode chegar à proposição de quatro situações básicas no que diz respeito à posição de diferentes povos indígenas face ao contexto étnico e político regional: 1) povos "tradicionalmente reconhecidos" mas com mobilização étnica e reivindicatória intensa. os Kirirí (Bahia). Povos ainda não "reconhecidos": Tumbalalá na Bahia. nº 2. no primeiro caso.Kanindé. Jul. Novo. 3) povos não "reconhecidos" pelo Estado Brasileiro até a década de oitenta e com presença marcante de mobilização do tipo acima referido. no terceiro evidentemente todos os então "emergentes"./dez. 1976). 114 . se tomar a presença efetiva de movimentos étnicos ou não e o "reconhecimento" ou não pelo Estado nacional anteriormente a 1980 – ou seja. Por outro lado. Campina Grande. Se. de resto. Wasú e Kapinawá) ou não (Karapotó. 41 Para balanços e avaliações criticas da situação dos territórios indígenas no Nordeste. 88 – 191. até uma época em que passa a haver maior transparência dos movimentos – como duas variáveis especialmente significativas. Desses. como pertencentes ao primeiro ou ao segundo grupos. Potigwára do Ceará e as comunidades indígenas na cidade de Crateús no Ceará. sem dúvida o estado em que o processo aqui tratado se fez mais intenso nos últimos quinze anos. 2) povos "tradicionalmente reconhecidos" com presença pouco significativa de mobilização étnica de caráter político organizacional ou reivindicatório.. em uma situação étnica especial dada a presença de uma língua própria. Karapotó e Jeripankó em Alagoas. os Akroá no Piauí. a qualidade dos solos. a densidade demográfica etc. há. os Xukurú-Karirí (alagoas) etc. p.

nesses. da "sociedade" que porta e se pauta por essa cultura (conforme Carneiro da Cunha. os Xukurú e os Kambiwá – e. conforme dito. a qual atingiu mais diretamente uma dessas comunidades. com todas as alterações à vida de suas comunidades que isso tende a provocar. por fim.. por diferentes graus de envolvimento na situação de disputa fundiária subjacente ao processo de emergência. 2) possuírem documento de doação das terras. 4)que a imprensa estava divulgando amplamente o assunto. vol. 3.80. a 3ª DR [Delegacia Regional] informou ao DGO [Departamento Geral de Operações] através do RDG [radiograma] nº 106/3ª DR. 2011. 3) a existência de um antigo cemitério. com movimentos étnicos indígenas no Nordeste. simultaneamente. enquanto situações para investigações em torno do tema da etnicidade. que me parece de especial interesse pelo pouco conhecimento histórico acumulado sobre esse povo anteriormente à eclosão do seu movimento étnico – se comparado a outros povos em situação semelhante – pelas relativas rapidez e autonomia na ascensão desse movimento – pouco mais articulado justamente com os povos menos envolvidos. pela diversidade de níveis de identificação étnica entre as comunidades formadas.1874.01. no presente. 1981: 1). Descrevo a seguir. os procedimentos em torno da implantação efetiva da tutela do Estado sobre estes segmentos sociais indígenas. à época. Campina Grande. Cadernos do LEME. a atenção a esses casos possibilita. basicamente. 88 – 191. dada à intensidade. com cerca de trezentos indivíduos e cinquenta famílias (Vicente et al.07. Pedro II e Princesa Isabel em 30. 1985). 1985). Kapinawá "Em 23. p./dez. o comparecimento dos senhores José Antonio dos Santos e Pedro Manuel dizendo-se remanescentes de um grupo indígena 'KAPINAWá'. Macacos. 115 . a do sítio Mina Grande. um desses casos de "emergência étnica". níveis esses orientados. o acompanhamento dos processos de "reconhecimento" étnico. assinado pelo Imperador D. do processo de identificação étnica. aos casos do terceiro tipo. Jul.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Dentre os quatro tipos propostos. Informaram na oportunidade: 1) ser o grupo composto de 500 pessoas aproximadamente. em linhas gerais e a título de ilustração. Solicitaram a designação de antropólogo para verificar o grupo" (Pierson. o dos Kapinawá. entendido aqui como a produção de uma "cultura" e. dedico aqui atenção especial. inclusive. localizado no município de Buíque – PE. ainda. podendo-se surpreender aqui. pelo conjunto da população historicamente referida ao aldeamento missionário original. inclusive quanto aos parâmetros de definição e aos limites étnicos. nº 2. No plano político.

Cinco dias depois. 116 . por outro lado. 88 – 191. o Alferes Felix Machado Gomes da Silva. concedendo uma gleba de terra aos "índios de Macaco". o pajé. 1981). toda a longa descrição de limites e de fazer a narrativa. Campina Grande. de memória. 1981). resumida a seguir: Um bisavô do informante. a Oeste da Mina Grande. e cita nominalmente todos os chefes de família beneficiários da doação. nada diz de conclusivo a respeito da "detecção étnica" a que se havia proposto. Alguns dias antes. indica ao Alferes uma fonte secreta de água e lhe concede as terras à sua volta para que este aí se estabeleça com a sua gente.600 hectares onde viviam então 48 de suas famílias (Pierson. de Brasília. da história do lugar. idêntica nos dois depoimentos. datado de doze meses depois./dez. que "Pajé pede proteção contra fazendeiros". Jul. no município de Buíque. a Funai responderia. referindo nada ter encontrado sobre os Kapinawá no Arquivo Publico em Recife ou no do Museu do Índio no Rio de Janeiro. p. ouvido pela citada pesquisadora (Pierson. Firmino Gomes da Silva. nº 2. a mando de um conhecido grileiro de terras local – Zuza Tavares – "testa de ferro" de um grande empresário do Recife – Romero Maranhão – ambos empenhados em tomar dos índios o sítio Mina Grande. Esse define os limites da propriedade através de referências a mais de uma dezena de marcos físicos naturais. Propõe. em manchete. o primeiro dos indivíduos mencionados. parte da Serra Negra. à consulta de sua DR no Recife afirmando "desconhecer a existência de aldeamento em Buíque" e que "os índios Kapinawá são considerados extintos no Brasil mas existem no Peru" (apud Pierson. uma funcionária do órgão seria enviada à área no mês seguinte e o seu relatório (Pierson. havia sido mais uma vez preso pela Polícia. pacifica e cristianiza um grupo de "índios brabos" da Serra do Puiú. era capaz de recitar. o mesmo que encabeça a lista de nomes no registro de doação. O cacique desses índios. De fato. em retribuição. uma área de 1. a criação de um Grupo de Trabalho para efetuar novas investigações. índio "civilizado". Cadernos do LEME. 1981) e por mim próprio em 1981. O relatório traz em anexo a cópia de um registro de doação imperial de 1874.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Este foi o primeiro contato dos Kapinawá com o Estado Brasileiro. 2011. 3. o "Diário de Pernambuco" da data do supra referido "comparecimento" anunciava. De qualquer modo. 1981). Um informante idoso autorizado pela comunidade. vol.

. nº 2. até 1985. mas certamente diz muito do nível de competência e seriedade com que questões desse tipo eram tratadas pelo órgão indigenista à época. grifos originais). Já nas "sugestões". após o que. Durante os anos de 1980 e 1981 a tensão e os conflitos fizeram-se crescentes na Mina Grande. a pouco mais de uma légua da Mina Grande. e chegam à "(. não ficaria vivendo por muito tempo mais junto à comunidade. 2011.. 43 Essa narrativa guarda uma série de correspondências com outra do mesmo gênero mantida e relatada por dois outros respeitados informantes idosos dos Pankararé (Sampaio. além de lesões graves em um Xokó e em um Pataxó Hã-Hã-Hãe./dez. além do caso mencionado. líder do movimento kapinawá e personagem mais visado pelos seus oponentes. Campina Grande. As primeiras determinam que "(. Pude verificar em agosto de 1981 as diversas marcas de balas nos troncos das árvores e os sinais das cercas muitas vezes derrubadas e reerguidas de parte a parte. desautorizando cabalmente a "indianidade" dos Kapinawá. Lá fica o cemitério e lá viveram e estão enterrados o avô e o pai do informante43. Consiste basicamente em uma lista de 42 "Conclusões" e 22 "Sugestões" quase que invariavelmente descabidas. no final de 1979.) a própria formação do grupo enquanto indígena. prepostos do grileiro.. como seria de se esperar. 117 . vol. as mortes de dois posseiros em um tiroteio com os Truká em 1982. Cadernos do LEME.) aceitar a limitação do conceito sociocultural de auto-identificação..) formulação da hipótese de que A IDENTIDADE DO GRUPO FOI INDÍGENA" (Motta & Mello. no reconhecimento quanto à necessidade de sua revisão. 1985). face às ameaças. 44 As ocorrências fatais não são infrequentes nos conflitos envolvendo índios no Nordeste e o saldo. é negativo para os índios. No mesmo mês de fevereiro chega à Mina Grande o Grupo de Trabalho recomendado por Pierson um ano antes (op. 1982). 1984 e Luz.. 3.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO A fonte dos Macacos existe até hoje no local da antiga aldeia. a pressa dos grileiros em estabelecer o fato consumado com relação às terras antes de qualquer possível intervenção do órgão federal. Jul. e de um Kirirí e outro Wasu em 1984. auxiliando a Polícia na identificação e prisão de índios (Levay. Esse documento informa muito pouco sobre os Kapinawá.) e no mês seguinte estaria pronto o seu relatório (Motta & Mello. rompendo o cerco determinado pelo supra citado grileiro Zuza. cit. permaneceria preso vários meses. no qual resultariam mortos dois destes44. 88 – 191. aliando-se a morosidade da Funai em dar prosseguimento a "identificação" do grupo. O pajé Zé Índio (José Antonio dos Santos). p. alguns índios foram à feira na vila do Catimbau e aí se envolveram em um conflito armado com alguns regionais. Só então um outro preposto da Funai seria enviado ao local. ocorreriam. É FALSA". Desde o assassinato do cacique dos Pankararé. Essa situação chegaria a um clímax a 7 de fevereiro de 1982 quando. 1982: 8. 1982). se propõe "(. de um índio Wasú e do chefe do Posto Indígena Atikum em 1983.

os referidos documentos. 1982) 46. 1982 e Motta e Mello. Naquele ano. o deputado federal Ricardo Fiúza. 88 – 191. tanto que a direção do órgão. os Kapinawá reocupariam por conta própria a área em 1988. 1984). vol. diante de infrutíferos protestos junto à Funai de já um terceiro proprietário da fazenda. 1981. ocasião em que a Funai negociou com o novo proprietário da fazenda em litígio com os índios da Mina Grande. de uma equipe do PINEB (Programa de Pesquisa POvos Indígenas no Nordeste do Brasil) da Ufba (Universidade Federal da Bahia). e mais uma vez a direção do órgão viria a solicitar um parecer a um pesquisador acadêmico com experiência de trabalho junto ao grupo. 1995). um breve parecer sobre o caso. Jul. em novembro de 1982. Campina Grande.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO ao lado da humildade em perceber a limitação da ciência antropológica"./dez. 3. Cadernos do LEME. de modo tal que o próprio órgão indigenista governamental acabaria por rever a sua política em relação a estes casos no sentido do "reconhecimento". 45. informada da visita à área. tendo tido. os documentos até então produzidos por técnicos do órgão a respeito dos Kapinawá (Pierson. o qual (Carvalho. o efeito de arrefecer significativamente a intensidade dos conflitos pela posse da terra. este Ministério publicaria a Portaria reconhecendo a área como de posse indígena e determinando a sua demarcação física. em agosto de 1982. O Posto Indígena Kapinawá seria finalmente criado. nº 2. 1997. "o grileiro Romero Maranhão mandou seus jagunços invadirem a área Kapinawá com tratores. novembro. somente três anos mais tarde. em 1996. O trabalho resultante. 46 O estudo de identificação e delimitação da Terra Indígena Kapinawá seria realizado em 1984 (Sant'Anna. Levay. com muitos casos de conflito armado e repercussão na imprensa regional e nacional. encaminhado a Funai naquele ano. o Ministério da Justiça. Nesse novo contexto. 45 Anos mais tarde. em 1993. o processo de demarcação da Terra Indígena só seria diligenciado pela Funai junto à instância superior encarregada. seria em seguida publicado. insistentemente. até mesmo um helicóptero deu cobertura a invasão". com pequenas alterações. Em seus primeiros anos de existência funcionava. em 1981. à sua coordenadora. e implantado no ano seguinte. 1982b) seria emitido ainda em 198245. por Portaria da Presidência da Funai. o que seria realizado pela Funai no ano seguinte. quando se encaminhava o processo de demarcação da Terra Indígena Kapinawá. 2011. Antes disto. porém. voltariam a ser percebidos como complicadores em seu andamento junto ao Ministério da Justiça. Conforme informa o "Porantim". em 1993. propondo a substituição desse conceito por outros com base na Antropologia Física (idem: 10). Conforme dito na nota anterior. sob forma de artigo (Sampaio. Por sua vez. em condições muito precárias de assistência às comunidades indígenas. 118 . desta vez eu próprio. A dita área deveria permanecer desocupada de parte a parte até que a Funai se pronunciasse sobre o estudo de delimitação da Terra Indígena. em uma operação que rendeu aos agressores cerca de 800 hectares de terra (Porantim. 1982) devem ter se tornado testemunhos incômodos no processo de implantação da administração federal junto ao grupo. a desocupação dos 800 hectares tomados à comunidade em 1982. Bastante sofisticados. p. como os demais novos postos recém-implantados na região. porém. já cresciam inapelavelmente as pressões dos movimentos indígena e indigenista pelo reconhecimento oficial dos seis povos emergentes então "em luta" no Nordeste. Entretanto. contidos no processo administrativo. passou a solicitar. conforme referido na matéria citada. contudo.

Essas duas crônicas foram publicadas pela Biblioteca Nacional em seus "Annaes" na primeira década do século XX e Hohenthal Junior.". 1802). a seguinte referência à existência então. É sabido./dez. algumas poucas dezenas de posses de não índios nela intrusadas anteriormente ao contexto das grandes disputas fundiárias a partir da década de setenta. em um trabalho publicado em 1954. o Diário Oficial da União publicaria Portaria da Funai determinando o pagamento. nas localidades de Jacaré e Gameleira. autorizando. e não surpreende que os pesquisadores da Funai não a tenham encontrado nos arquivos históricos. conforme relato do próprio padre (Frescarolo.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Uma abordagem preliminar dos episódios acima permite supor que a denominação Kapinawá tenha sido. tem uma nação de Tapuios Paraquióz. e que ainda ocupavam as melhores terras dos Kapinawá das comunidades de Ponta da Vargem e Julião. É o primeiro passo para que os Kapinawá possam vir a ocupar pacificamente a totalidade de sua Terra ainda esse ano. já menciona haver "documento da Biblioteca Nacional". a 17 de janeiro de 2001. 2011. e 182 pessoas" ("Informação. no anterior. mesmo sem ir a arquivos. 3. de uma: "Aldeia de Macaco. da qual. Campina Grande. não é distante. escrita em 1749 por um autor desconhecido.. destacadamente presente na memória social dos Kapinawá e referida no documento insistentemente apresentado por eles – e que reporta um registro original de 1874 – se poderia encontrar. entretanto. por volta de 1800. 1757: 170). Esses índios seriam aldeados nesta época pelo Padre Vital de Frescarolo. porém. ao menos em parte. situa Macacos na "Ribeira Panema" (COUto. Cadernos do LEME. 1749: 422). que refere a aldeia de Macacos ou do Macaco (Hohenthal Junior. se houvesse seguido a pista da aldeia de Macacos. separada deste pelo vale do rio Moxotó.. muito provavelmente. Jul. Finalmente. não tem missionário. do século XVIII. Permaneciam. Se. o seu registro como Terra Indígena nos cartórios competentes. 1954: 100). adotada por esses índios no próprio curso inicial do seu processo contemporâneo de afirmação étnica. Não disponho de outras referências à aldeia de Macacos anteriores ao registro de 1874. quase sempre em emboscadas solitárias nas estradas que ligam as comunidades indígenas às povoações regionais próximas. Em 1999 o Presidente da República assinaria o decreto de homologação da demarcação da área. vol. de indenizações por benfeitorias por eles implantadas "de boa fé". nº 2. enfim. p. aparentemente baseado. 119 . aos referidos ocupantes não índios. que. contudo. Entre 1988 e 2000 nada menos que seis kapinawás foram assassinados em circunstâncias não esclarecidas. e o que teve era sacerdote do hábito de Sam Pedro. na Freguesia do Ararobá. 88 – 191. no interior da área. Um outro cronista da época. que fica imediatamente a Oeste do território de Macacos. índios não submetidos a aldeias missionárias ainda perambulavam pela Serra Negra. efetivamente. já na "informação geral da Capitania de Pernambuco".

em se considerando a légua de sesmaria de 6. cada uma com o seu idioma particular. 1813: 254) Seguem-se informações etnográficas relativamente detalhadas que demonstram que o então vigário do Crato. voltando a vagar livremente pelas áridas serras da região47. dos Postos Indígenas Atikum e Kambiwá. à metade norte do dito "terreno" e mede 12. já na segunda metade do século XX. nominalmente. aldeamentos de existência efêmera. Penso que a narrativa resumida acima sobre o contato entre índios "civilizados" e "brabos" possa. "grosso modo". According to Shucuru informants in 1951 there were 'many' of the Paratió some sixty years ago. nº 2. Hohenthal Junior (1954) e Barbalho (1977) atestam fartamente essa participação para o caso dos vizinhos Xukurú. seis léguas quadradas. na verdade. 3. 88 – 191. conheceu a estes índios ou dispôs de informações seguras sobre eles. o que é atestado historicamente." 47 Aires do Casal diz mais sobre estes índios: "Eram quatro nações. ou seja. Vale lembrar que o principal representante dos índios à época da "doação" é um alferes. Sobre relações entre os índios de Cimbres. 120 . Cadernos do LEME.600 metros. não muito longe dali. provavelmente de parcela do território original da "extinta" aldeia48. isto é. que informam que o "terreno" a que teriam direito mediria seis léguas. 2011. quando das primeiras visitas de pesquisadores à área. vol. living at Aldeia do Macaco. Jul. feita às famílias indígenas. Umã e Vouvé. de fato./dez. A descrição de limites de 1874 permite estimar um território de cerca de 25 mil hectares. Campina Grande.260 hectares. Sabe-se que as aldeias de índios em Pernambuco foram formalmente extintas em 27 de março de 1872 (Hohenthal Junior. 1960a: 41) e isto explicaria a "doação" de 1874. Só voltariam a ser administrativamente aldeados quando da implantação. constituem exceções no parco acervo de informações sobre o contato com índios no Sertão antes do século XX. somado ao do próprio Frescarolo (1802). cada uma de poucas famíllias. ser uma alusão a contatos entre índios da Serra Negra e aqueles já anteriormente aldeados em Macacos e Cimbres – respectivamente Prakió e Xukurú – na primeira metade do século XIX.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Foram. Aires do Casal refere que aqueles índios já começavam a "desertar de suas aldeias" (Aires do Casal. precisamente 26. o que confere com os testemunhos dos Kapinawá. the nearest neighbors of the Shucuru of the Cimbres-Serra de Ararobá region were the Paratió.136 hectares. Escrevendo em 1813. e distinguidas pelos apelidos de Pipipã. A memória dos Kapinawá costuma associar esta doação à participação dos índios na guerra do Paraguai. mas que mostram ter uma mesma origem. 48 Não disponho de informações sobre a possível extensão original do território de Macacos. Chocó. p. ou do Ururubá – os Xukurú – e os de Macacos. O território identificado pela Funai em 1984 e demarcado em 1997 corresponde." (Aires do Casal. Esse relato. Para mais considerações sobre a constituição da Terra Indígena Kapinawá veja-se Sampaio (1995). o primeiro desses autores diz: "Historically. at which time they lived apart from the Shucuru. 1813: 254).

para ensinar o Toré aos do lugar e com eles dar início á prática regular de suas atividades rituais. 2011. possivelmente já face a pressões fundiárias./dez. ao final da década de setenta. 3. um sentido pejorativo. por extensão. no centro do terreiro preparado para os rituais. pelo menos por algum tempo. Parece provável. vol. já mencionado e com mais de cinquenta anos à época da eclosão do movimento dos Kapinawá. Cadernos do LEME. ao que parece. Ao final dos anos sessenta estabeleceu-se como pajé entre os Kambiwá. passou a desenvolver um contato regular com as comunidades do "terreno" de Macacos. como aparece nas fontes do século XVIII – o que pode ser tomado como uma indicação de que esta lhes fosse atribuída apenas por terceiros. p.). O pajé Zé índio. nº 2. desde o século XVII. o que é corroborado por testemunhos atuais dos Kapinawá. grupos de índios de Macacos tenham daí se retirado. O dia em que os Kapinawá "levantaram o cruzeiro da jurema". 88 – 191. A presença dos "Paratiós" em convivência com os Xukurú na área de influencia da Serra do Urubá – ou Ararobá – com centro na vila de Cimbres. Descendants of these so-called 'black indians' were encountered in the Serra de Ararobá" (Hohenthal Junior. a partir daí. e. Em seguida veio a estabelecer um "terreiro" na pequena cidade de Ibimirim.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "The Shucuru call these Paratió 'índíos pretos' or 'índios macunha'. Jul. por fim. par-e-passo com a luta pela manutenção da ameaçada posse da terra. 49 etc. 121 . a se estabelecer na Mina Grande. nasceu e se criou entre os Xukurú. em 1951. é atestada também pela tradição oral na região. que em algum tempo após a "extinção" de 1872. pouco antes da implantação aí de um Posto Indígena. ainda que a documentação escrita aparentemente não seja muito precisa a respeito. conforme Hohenthal Junior. signo da sacralização deste e. 1954: 108). por essas indicações. do próprio território. e antes da implantação do Posto Indígena Xukuru na década de quarenta. Os atuais Kapinawá aparentemente não "recordam" a denominação Paratió – ou Parakió. como os Xukurú. vindo. e de que tenha. na Serra do Urubá. permanecendo por algum tempo entre os Xukurú e aí deixando descendentes ainda identificáveis. Seja como for. como refere Barbalho (1977: 46. a meio caminho entre os territórios dos Kambiwá e dos kapinawá. intercâmbios relativamente intensos entre diferentes populações indígenas na região central do Estado de Pernambuco certamente não são apenas recentes nem se têm articulado somente em função de mobilizações étnicas com maior repercussão externa. Campina Grande.

Além das roças havia reduzida criação doméstica e apenas duas ou três famílias tinham algumas poucas cabeças de gado. Em várias das paredes externas e internas destas grutas há desenhos. Essas marcas. Cadernos do LEME. geólogos já haviam andado fazendo "levantamentos" na rocha da Mina Grande. num extenso vale dominado por uma imensa rocha – a Mina Grande – em cujas bases se encontram diversas grutas com ossadas e farto material cerâmico. Campina Grande. 88 – 191. não sei se havia então outro motivo especial para a cobiça sobre estas terras. onde vivem os Kambiwá. que na maior parte do ano não chega propriamente a sê-lo. mas os Kapinawá afirmavam que. a dezesseis quilômetros. Os Kapinawá moravam á época em habitações simples que seguiam o padrão típico regional. especialmente São Paulo. separa os municípios de Buíque e Tupanatinga. ou no povoado de Cabo do Campo. costuma ser referido por eles como a data de fundação de sua "aldeia" e. Luz (1985). geralmente em vermelho. animais etc. A migração. ambos na microrregião de Arcoverde. 50 Veja-se. Há porém alguns grandes fazendeiros como aqueles que lhes ameaçaram mais diretamente. por diversas vezes.. e 49 Informações sobre os Kapinawá. nº 2. Sem dúvida o aspecto da área contrasta com o da caatinga extremamente árida imediata mente a oeste. temporária ou não. uma légua ao sul. representando seres humanos. dispersas entre as roças familiares de mandioca e milho principalmente. provêm do material de campo da equipe do PINEB que os visitou em agosto de 1981. também. são consideradas boas na região em função da presença de olhos-d'água e de um pequeno riacho que corre ao longo do vale. 1981) – pouco mais que uma légua a Nordeste. do início da luta pela posse da terra49. idem). O já referido curso d'água. As feiras semanais dos Kapinawá eram feitas preferencialmente na Vila do Catimbau – 825 habitantes em 1980 (IBGE. prática que atinge em graus diversos todos os povos indígenas na região50. contudo. 1981). para o caso Pankararé. em busca de assalariamento na região. Jul. muito típicos do que os especialistas chamam "Tradição Nordeste"./dez. 2011. 3. por exemplo. eram insistentemente mostradas aos visitantes. A privação da maioria das famílias era aparentemente muito grande.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO 15 de janeiro de 1979. e da qual participei. muito importantes na afirmação étnica dos Kapinawá. Nas mesmas direções estão as sedes municipais. As terras da Mina Grande. respectivamente Buíque (4914 habitantes. Os vizinhos dos Kapinawá são em geral também pequenos e médios agricultores. ainda como estudante de graduação. p. ocorria também com frequência entre os Kapinawá. vol. mesorregião do Agreste Pernambucano (IBGE. 122 . ou nos grandes centros. quando não indicado. Além disso.

referiam. aos rituais e a relação sempre ambivalente com a Funai. mas certamente não "estavam na luta". 1985). que apesar de haver aí índios. impressionista em muitos aspectos. Campina Grande. nº 2. II.que os índios costumam designar pelo seu antigo nome de Santa Clara .(2681 habitantes. além dos Xukuru e Kambiwá. dá porém uma boa ideia da fertilidade que possa vir a ter aí uma investigação sobre processos étnicos. No caso do primeiro autor. Santa Rosa e Meirim (na sede do município de Ibimirim). ou mesmo com os antigos bandos da Serra Negra. por outro lado. faz crer que sua tutela não se estendia então muito além das quarenta e oito famílias previamente identificadas (Motta & Mello. Não conheci então estes núcleos nem como se definia sua gente. Quando indagados sobre quantos seriam. compondo o que se poderia definir como a comunidade da Mina Grande. nem procuravam a Funai então. a resposta dominante era a de que quarenta ou quarenta e poucas famílias "estão na luta". situados a oeste da Mina Grande. os Kapinawá. 88 – 191. vol. apesar dos terreiros. Acredito que este breve relato. dentro ou próximos da área definida em 1874./dez. p. tal marco significou básica mente a revisão definitiva das perspectivas culturalistas segundo as quais Cadernos do LEME. 286 indivíduos em 1983 (apud "Aconteceu". há certamente uma rica história e uma intensa elaboração intelectual e política que tem orientado este pequeno segmento social na sua crítica situação. Jul. dentre os quais três em que havia terreiros e pajés: Quiri d'Alho. aos marcos territoriais e históricos na Mina Grande e em Macacos. 1982). no sentido de que não as consideravam comunidades territorial e politicamente organizadas. Os números fornecidos por essa. estavam na área ameaçada ou de algum modo ligados às que lá estavam. 1984) e 322 em 1985 (Vicente et al. ou seja. Campo teórico: definições Etnicidade Ao lidar com a questão da etnicidade parto sobretudo do marco teórico representado pelos trabalhos de Barth (1969) e Cohen (1969). vários núcleos rurais e povoados vizinhos. 2011. 123 . Mas se se indagava acerca da existência de outros índios nas redondezas.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Tupanatinga . É provável que afirmassem vínculos com "Macacos". A definição étnica dos Kapinawá parecia então perpassada em grande medida pela disputa territorial. Diziam. não havia "aldeias". idem). Subjacente ao "estar na luta". um pouco mais distante. 3.

como se sabe. os chamados "estudos de aculturação" marcaram os trabalhos no campo das relações interétnicas nestas perspectivas51. Voltaremos adiante à questão da noção de "identidade". A definição hoje clássica de que a noção de grupo étnico designa "una comunidad que (. Jul.) cuenta con unos miembros que se identificam a sí mismos y son identificados por otros y que constituyen una categoria distinguible de otras categorias del mismo orden" (idem: 11). um instrumento frequentemente utilizado por especialistas nas discussões suscitadas pelas questões surgidas em torno do "reconhecimento" oficial de povos indígenas52. nº 2. tem sido. Campina Grande. especialmente no Brasil. 124 . Barth possibilitaria e estimularia a ascensão da noção de "identidade" a um lugar central nos estudos imediatamente posteriores nessa área. é desde então a base de qualquer critério antropológico de identificação e definição étnicas e. ao definir o grupo étnico como "um tipo de organização social" (idem: 13). 88 – 191. por tanto. 3. Desse modo.. Barth desloca o eixo da questão do "conteúdo" objetivo destes grupos para os seus "limites" e suas relações com outros grupos do mesmo tipo. vol.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO os grupos étnicos definiam-se por portarem "culturas" próprias e especificas. generalmente son el fundamento mismo sobre el cual están construidos los sistemas sociales que las contienen" (1969:10). "las dístinciones étnicas no dependem de una ausencia de ínteraccion y aceptación sociales. Cadernos do LEME. para Barth. Há uma avaliação crítica de ambos em Cardoso de Oliveira (1964). 2011. e desse modo passíveis de perder suas características e sua definição uma vez em contato com outros universos culturais. redefinindo assim o estatuto e o papel dos elementos culturais: 51 Para uma síntese do modelo teórico da "aculturação". produzidas através e em função do seu isolamento em relação a outras "culturas". p. Finalmente. Ao adotar uma perspectiva que privilegia o aspecto interacional e a "característica de autoadscrição e adscrição por outros" (idem: 15). por el contrario. veja-se Redfield et al (1936) e Siegel et al (1954). Podese entretanto ter uma ideia da sua importância no argumento pela afirmação de que "una adscripción categorial es una adscripción étnica cuando clasifica a una persona de acuerdo con su identidad básica y más general. la característica de organizar interacción entre los indivíduos" (idem: 10-11). ainda que não a tenha elaborado exaustivamente em seu trabalho de 1969. Assim. De fato. supuestamente determinada por su origen y su formación" (idem: 15).. "los grupos étnicos son categorias de adscripción y identificación que son utilizados por los actores mismos y tienen./dez. 52 Toda a discussão a respeito de critérios de identidade étnica está admiravelmente sintetizada em Carneiro da Cunha (1983).

vol. e que "ethnic groupings is essentially informal. "it is only when. Cohen preocupa-se em demonstrar o caráter inovador e dinâmico desses movimentos.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "Los razgos que son tomados en cuenta no son la suma de diferencias 'objetivas'. Jul. deve evidentemente ser relativizado e problematizado ao se tratar do caso dos povos indígenas no Brasil.) tribalism involves a dynamic rearrangement of relations and of customs. acima de tudo. and as mechanisms for political alignment". embora inegavelmente característico da organização étnica típica. an ethnic group informally organizes itself or political action. e esses podem ser acompanhados em praticamente todos os seus desenvolvimentos através da obra de Roberto Cardoso de Oliveira. Cadernos do LEME. 1969: 196). within the formal framework of a national state or of any formal organization. Cohen revela que "ethnicity is essentially a political phenomenon. "(. que envolve diversos segmentos étnicos no contexto dos grandes centros urbanos emergentes na África negra. sino solamente aquellas que los actores mismos consideram significativas" (idem: 15). nº 2. that we can say that we are dealing with ethnicity" (idem: 200). concluindo de modo definidor que. 2011. Interessado no fenômeno de "retribalização". Reencontramos aqui a colocação crítica central de Barth na afirmação de que "contemporary ethnicity is the result of intensive interaction between ethnic groupings and not the result of complete separatism" (idem: 198). Assim.. 3. It does not form part of the official framework of economic and political power within the state"53. de modo a construir oposições e classificações socialmente operacionais e simbolicamente relevantes. Já a contribuição fundamental da monografia de Cohen consiste no uso que faz da categoria "etnicidade". ao contrário do que ainda então se lhes atribuía: "To the casual observer it will look as if there is here stagnation. when in fact we are confronted with a new social system in which men articulate their 'new roles' in terms of traditional ethnic idioms" (Cohen. as traditional customs are used only as idioms. Campina Grande. 125 ./dez. conservatism. No Brasil a gênese do que se poderia hoje reunir sob o rótulo de estudos de etnicidade é anterior mesmo as obras acima referidas. and is not the outcome of cultural conservatism or continuity" (idem: 199). tomada enquanto a dimensão política de grupos organizados ("polity") informalmente com base em atributos e num "idioma" étnicos.. p. Mas. haja visto o seu estatuto jurídico diferenciado etc. or a return to the past. de modo a atuarem como "grupos de interesse" no âmbito da sociedade envolvente. 53 Esse caráter informal. 88 – 191.

assumindo esse contato muitas vezes proporções 'totais'. 1964. 1945) a respeito. por um lado. 1967) – que busca dar conta das variáveis estruturais que orientam as perspectivas e os níveis da articulação e da participação de segmentos indígenas na sociedade nacional – seria responsável. conflituosos. Melatti. por paradoxal que pareça" (Cardoso de Oliveira. Laraia & Da Matta. no mais das vezes. Trata-se assim. 88 – 191. caracterizados por seus aspectos competitivos e.e. exemplarmente elaboradas por Cardoso de Oliveira em sua aplicação ao estudo do contato entre índios e não-índios no Brasil. vol. que define aqui tanto um objeto quanto um modelo de análise. 1967. veja-se também o seguinte trecho: "Chamamos 'fricção interétnica' o contato entre grupos tribais e segmentos da sociedade brasileira. e que representam o produto de uma revisão critica das primeiras tentativas da Antropologia funcional em lidar com as questões do "contato interétnico" e da "mudança social". 1962: 127-8) 55. i.. da "elucidação dos mecanismos que norteiam a passagem da ordem tribal à ordem nacional em que se transfiguram ou tendem a se transfigurar as populações aborígenes". Cadernos do LEME. 1967. O modelo da "fricção interétnica". e por outro. expressas fundamentalmente nos trabalhos teóricos de Malinowski (1938. Campina Grande. Quanto à noção de "fricção interétnica". 126 . onde suas etapas mais significativas são marcadas pelas monografias de Gluckman (1940) e de Turner (1957). definida como "situação de contato entre duas populações dialeticamente 'unificadas' através de interesses diametralmente opostos. 54 55 Há boas sínteses históricas destes trabalhos em Galvão (1953) e em Schaden (1969). as noções e posturas teóricas que vinham se desenvolvendo também na Inglaterra. entre outros). Aquelas noções podem ser sintetizadas nas categorias analíticas de "processo" e de "situação". nº 2.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Partindo também de uma crítica aos estudos de aculturação. 2011. nos anos sessenta. 1964. 3./dez. envolvendo toda a conduta tribal e não-tribal que passa a ser moldada pela situação de fricção interétnica" (Cardoso de Oliveira. e tomando como objeto básico o "contato interétnico" – entendido sobretudo enquanto uma dimensão e uma resultante de processos coloniais – Cardoso de Oliveira (1962. ainda que interdependentes. de estudar a "situação" – "tomada como 'totalidade sincrética'" – de "fricção interétnica". Jul. 1962: 128). principalmente através de Balandier (1955). em seguida ampliado e complementado com o do "potencial de integração" (Cardoso de Oliveira. p. por uma significativa ampliação da compreensão das relações interétnicas envolvendo povos indígenas no Brasil (Cardoso de Oliveira. 1967) incorpora. até então amplamente dominantes no Brasil54.

1964). a identidade. como por exemplo as dirigidas por Gelfand & Lee (1973). 2011. Esman (1977)./dez. Keyes (1981) e Whitten Junior (1981). that ethnicity is best used as a concept of social organization. Cadernos do LEME. questão que já lhe havia sido despertada no estudo do fenômeno que denominou "caboclismo" (Cardoso de Oliveira. 1966. and most writers seem to agree. Bell & Freeman (1974).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Na década seguinte. já incorporando as formulações de Barth (1969). Tomamos como exemplo significativo desta revisão uma recente comunicação do próprio Barth (1984). Uma amostra dessa propagação pode ser fornecida pelo volume das coletâneas de estudos na área. 1912) e sobretudo à de "ideologia" (Berger & Luckmann. nº 2. 1973. 3. Preocupado com uma conceituação antropológica de "identidade". Cohen (1974). e busca sobretudo complementar o modelo sociológico da "fricção interétnica" acrescentando-lhe uma categoria de análise capaz de compreender o sistema interétnico a nível das suas representações e "ideologias". one that allow us to depict the boundaries and relations of social groups in terms of the highly selective repertoire of cultural 56 57 Sobre este ponto ver também a posição de Da Matta (1976). no universo das quais. 88 – 191. Cardoso de Oliveira dirige sua atenção especialmente para a "identidade étnica" (1971. em delimitar com mais precisão o alcance das suas ideias de 1969: "I have argued emphatically (Barth. Bennett (1975). 1969). e aqui em especial a identidade étnica. Cardoso de Oliveira articula esta noção à de "representações coletivas" (Durkheim. p. tendo chegado a um nível de dispersão que fez surgir a necessária revisão crítica já a partir do final da década. Dofuy & Akinsola (1980). Poulantzas. sobretudo a seu respeito. não necessariamente as mais significativas. entre outras coisas. vol. ocupa posição nuclear56. De Vos & Romanucci-Ross (1975). produzidas pela sociedade envolvente na situação de fricção interétnica. e que diz respeito às diferentes representações que os indígenas fazem de si mesmos e dos outros à medida que incorporam concepções. principalmente nos Estados Unidos57. ainda segundo Cardoso de Oliveira (1978). Campina Grande. 1974: 51). retendo como essencial e condição de inteligibilidade e eficácia dessas categorias. a "condição de serem referidas aos sistemas de relações sociais que lhe deram origem" (Cardoso de Oliveira. 1969). A fecundidade dos estudos de caso daí decorrentes pode ser observada em trabalhos como os de Aquino (1977) e Barros (1977). em que este ocupa-se. 1976). A noção de "identidade étnica" assim construída tem também como característica definidora a sua natureza "contrastiva" e situacional. 127 . Os estudos de etnicidade tiveram ampla propagação na década de setenta. Glazer & Moynihan (1975). Jul.

ethnicity provides only a very oblique and deceptive framework for investigating the actual bodies of beliefs. Embora esteja interessado em um caso do gênero que Barth certamente classificaria como típico de "etnicidade". quase sempre. nº 2. e trabalhando com o exemplo de uma pequena comunidade urbana (Sohar. ainda mais que. 128 .. p. o que implica tanto na abordagem de sua organização social e política quanto em. no fundo. 88 – 191. distingue-a de outras 58 Ver também o desenvolvimento inicial dessas questões em Carneiro da Cunha (1977). 2011. No primeiro destes trabalhos. a autora discute o sentido da especificidade da etnicidade enquanto modalidade de organização e de discurso político-sociais. quer com realidades culturais de maior complexidade. though it no doubt serves to identify the set of forces that affects this distribution" (Barth. 1985). Campina Grande./dez. Interessado agora em dar conta do "pluralismo cultural". 3. me parece ser a contribuição de Carneiro da Cunha (1979. vol. a uma descrição minuciosa ("depiction") de todo o contexto social no qual as tradições culturais em causa se inscrevem: "(. "give an account of their history – not in the sense of the origin of the tradition or the origin of its contents. Ainda mais importante. para uma reorientação dos estudos de etnicidade. mais uma vez. Oman) onde diversas tradições culturais e religiosas bastante vigentes e efetivas interpenetram-se e atingem diferentemente os vários estratos sociais e segmentos étnicos. we need to depict the whole context in which they are realized" (idem: 86).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO contrasts that are employed emblematically to organize identities and interactions.) since these component traditions or cultural streams are so weakly bounded. por outro lado. elas estão apenas nos remetendo. haja visto que "the things that are associated in the plurality – the cultures or traditions or streams . parece ser. se adotar a distinção entre "etnicidade" e "pluralismo cultural" – que. values and practices that are distributed in a population. interessante – essas recomendações – dirigidas sobretudo contra o uso abusivo da categoria "etnicidade" como dimensão explicativa nas mais diversas situações socioculturais – me parece inegavelmente apropriadas. Jul. Cadernos do LEME. Apontando a insuficiência nesse sentido em defini-la simplesmente como ideologia. proceder-se. no sentido da atenção metodológica e teórica as "situações" e "processos". na investigação do pluralismo. como diria Barth. com etnicidade..are things that change both their boundaries and their contents" (idem: 79) 58. imprescindível quer estejamos lidando apenas. 1984: 80). porém. For that very reason. Barth demonstra a necessidade de. but an account of the nature of continuity insofar as it can be ascertained" (idem: 80). por um lado. para esse autor.

tradicionais. 1979: 38). como uma forma de organização política: esta perspectiva tem sido muito fecunda e tem levado a considerar a cultura como algo constantemente reelaborado.. "portanto. 88 – 191. altera-lhe essencialmente a natureza" (Carneiro da Cunha.). suas tradições. nº 2. 2011. ao fazer estas considerações. 1985: 207) 59. poderia até. enquanto na etnicidade se invocam uma origem e uma cultura comuns" (Carneiro da Cunha. e creio ter sido um equívoco reificá-la como tem sido feito" (idem: 38-39). põem em causa a própria noção de cultura. Campina Grande. desses que lutam pelas suas terras invadidas e pelo seu reconhecimento. despojando-se então esse conceito do peso constituinte de que já foi revestido. sua condição de parâmetro. mas essa perspectiva acarreta também que a etnicidade não difere do ponto de vista organizatório de outras formas de definição de grupos. não mais que estes outros grupos. Tal implica em afirmar que. usada por agentes sociais para os quais ela é relevante. a 'cultura da diáspora' é coisa diversa do que poderá ter sido. isto sim.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO formas sociais de organização e expressão pela evocação que traz a uma origem (tradição. p. ser composta de 'todos' os traços de uma eventual cultura de origem: no entanto. através do que chama – apenas por conveniência. essa construção de uma cultura da diferença. suas técnicas. Cadernos do LEME. 129 . Jul.. imemoriais. de pedra de toque da identidade. ressalta – de "cultura da diáspora": "Os estudos da etnicidade. no limite. 1985: 207). que (elas) passam a marcar relações e privilégios entre 'todos' desse grupo e um grupo 'outro'" (Carneiro da Cunha. Doravante parâmetro. É em bloco.) não serão mais estritamente o que foram na origem (. Vejamos o que diz: "tentei mostrar que a etnicidade pode ser melhor entendida se vista em situação. vol. mas uma categoria 'nativa'. consiga recuperar plenamente a língua dos seus antepassados. 59 É interessante notar que. a etnicidade não seria uma categoria analítica. (Essas) (../dez. a autora tem em mente justamente a situação dos índios no Nordeste. agora. recolocando aqui criticamente a noção de "cultura". tais como grupos religiosos ou de parentesco. 3. Difere. na retórica usada para se demarcar o grupo – nestes casos uma assunção de fé ou de genealogias compartilhadas. como se pode verificar logo a seguir: "Suponhamos que um grupo indígena. A autora retoma essas questões em sua monografia de 1985 elaborando a redefinição de "cultura" consoante seu lugar na etnicidade. mesmo neste improvável caso. história) e a uma cultura comuns. 'Seleção' elaborada de traços culturais tidos por autênticos.. isto é.

tal qual delimitada acima. de sua própria ordem – organização social – mas também de ordens cósmica. Mauss. 1912. 130 . desse modo. ainda que. atinge sua dimensão cognoscitiva e elaboração teórica máximas na obra de Lévi-Strauss (especialmente 1962a e 1962b).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO No balanço critico que faz daqueles estudos Carneiro da Cunha reafirma que o que se ganhou com os estudos de etnicidade foi a noção clara de que a identidade é construída de forma situacional e contrastiva. o fazemos – como não poderia deixar de ser – enquanto uma categoria Cadernos do LEME. conforme Cardoso de Oliveira (1964 etc. sem perder de vista entretanto o legado da moderna etnologia brasileira no estudo de sistemas interétnicos. ou seja. nº 2. que ao tomá-la como fio condutor das nossas reflexões.). Cohen (1969). basicamente. 2011.. temática que nos traz desde os trabalhos clássicos de Durkheim e Mauss (Durkheim & Mauss. Campina Grande. com as quais forma um sistema. a sociedade multiétnica" (idem: 208). 3. vol. como em Dumont (1966). Voltando agora ao nosso interesse nos movimentos indígenas no Nordeste. 1938). 1903. sobretudo. É uma estratégia de diferenças" (idem: 206). 1985). p. resposta 'articulada' com as outras identidades em jogo. 88 – 191. certamente podemos e devemos tomá-la como categoria nativa. Durkheim. que ela constitui "resposta política a uma conjuntura. 'grosso modo'. passível da nossa elaboração teórica secundária. Se tomamos a etnicidade como um modo especial de pensar e articular ordens sociais em que a "cultura" – e certamente a "história" como constituinte fundamental dessa – aparece como elemento definidor. pertinente à descrição e análise dos seus processos fundamentais. principalmente. porém. natural etc. Oriento-me assim. enquanto tal. E mais adiante: "é nesse sentido que a questão da etnicidade é análoga à do totemismo: se este usa espécies naturais para pensar grupos sociais. julgamos a noção de etnicidade./dez. entendendo-se por classificações o conjunto de representações da sociedade a respeito. pela posição de Carneiro da Cunha (1979. inclusive na medida em que esta incorpora o essencial das contribuições de Barth(1969) e. como o dos "processos e lógicas sociais de classificação". Jul. em especial no que diz respeito ao desempenho estrutural e ideológico das sociedades indígenas. É preciso deixar claro. a etnicidade usa espécies culturais para pensar um conjunto social de novo tipo. desenvolvendo-se mais recentemente – e ao meu ver um tanto diluentemente – em Bourdieu (1979). Importante observar aqui como. os estudos de etnicidade se inserem num campo de preocupações mais amplo e mais tradicional na Antropologia Social – sobretudo a francesa – que podemos definir.

É evidente que sabemos que ao se tratar de etnicidade estaremos forçosamente lidando com "identidades sociais". exigiria antes que tudo uma reavaliação das suas matrizes psicológica e filosófica. por outro lado. 131 . não me disponho. Tal se deve. sendo as situações sociais das quais nos ocupamos informadas. pelo menos na Etnologia brasileira. 61 Ver também Héritier (1977) e Izard (1977). em segundo lugar. Campina Grande. uma delimitação sociológica mais segura da noção de "identidade". p. em primeiro lugar.C. "etnicidade" parece suprir a demanda teórica com vantagens significativas. além de trazer questionamentos importantes aos seus fundamentos nas Ciências Sociais. pelo menos até Erikson (1950. 1977). nº 2. 88 – 191. Dentro desses limites. vol. tarefa à qual. se possível. porém. É sabido também. como bem o demonstra Cardoso de Oliveira (1976. à primeira vista. É elementar. Caberia aqui ainda esclarecer a opção que faço por "etnicidade" em lugar de "identidade étnica". tais processos só nos serão inteligíveis através de uma Antropologia em sentido mais amplo – e mais ou menos nos termos propostos por Barth (1984) – em especial uma Antropologia Política. 3. Antropologia política 60 Ao meu ver./dez. 1978) 61. Cadernos do LEME. que dentro dos limites de investigação que aqui se propõe. organizadas e reproduzidas em termos de uma etnicidade. 1968) e Hegel (por exemplo 1802). seja lá como se possa defini-las exatamente – e a diversidade de acepções aqui é certamente ampla – o que entretanto não parece ser motivo suficiente para que se privilegie analiticamente um conceito que se tem revelado tão "difuso"60. cuja extrema difusão parece ter debilitado sua eficácia cognoscitiva e explicativa. o que quero dizer é que. 2011. para contornar a polêmica epistemológica e sociológica em torno do conceito de "identidade" (conforme por exemplo Lêvi-Strauss et al. Em outras palavras. senão até Aristóteles (século VI A. nos termos em que o coloca Cohen (1969) – e. que poderia. e que tem um uso mais estabelecido. lhe ser equivalente. que o essencial do nosso material de análise se constitui de relações sociais e suas representações.). a uma intenção em marcar a natureza essencialmente política do que estamos tratando – ou seja. mas sempre bom lembrar. tal conceito – o de uma "identidade étnica" – pode ser suficientemente bem delimitado e operacionalizado. Jul. em vista do que se torna imprescindível à eficácia e coerência dessas reflexões o recurso a outros elementos teóricos de análise que nos permitam compreender as fundamentais dimensões político-organizacional e temporal daqueles movimentos. naturalmente.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO que remete a uma ordem de fatos essencialmente políticos e marcadamente históricos.

os "limites" do "grupo político" e. Jul. enfim. clãs. ainda que limitado. os "valores místicos" etc. 88 – 191. No mesmo ano. assim como de concepções mais dinâmicas a respeito de "estrutura social". 2011. 3.. a base territorial. na base da já referida concepção "situacional" e "contrastiva" segundo a qual se pensam hoje as "identidades sociais". em seu ensaio sobre a Zululândia (1940). com a discussão da noção de "poder" e a proposição de conceitos a ela associados como os de "força organizada" e "correlação de forças". Típica deste período é certamente a coletânea organizada por Fortes e Evans-Pritchard (1940) sobre os sistemas políticos africanos. construindo oposições e alianças significativas ou não segundo níveis estruturais e situações diversas. a resultados próximos aos de Evans-Pritchard. especialmente a partir da obra de Radcliffe-Brown (por exemplo 1940). De fato tal necessidade surge fundamentalmente do trabalho na África negra. nº 2. que exige uma articulação e um conhecimento próximos dos sistemas políticos locais tradicionais. além da própria noção de "estrutura social". já traz uma preocupação transparente. abrindo-se um espaço. Voltada ainda principalmente para a compilação e comparação extensivas de diversos casos./dez. O trabalho mais significativo então é sem duvida o de Evans-Pritchard a respeito dos Nuer (1940 a e b). Discutem-se questões como "chefia" e ou "governo". intentando delimitar no plano teórico e empiricamente um campo próprio do "político" – essencialmente das relações de poder – delineando-o também em seus vínculos com o parentesco. p. mas que nem sempre aparecem convenientemente explicitadas no resultado final das pesquisas. A análise exemplar desse princípio organizacional – a "segmentaridade" – está. Gluckman chega. Gluckman propõe uma Cadernos do LEME. a demografia. ao meu ver. vol. em função sobretudo da implantação do sistema de 'indirect rule'. mas através de uma perspectiva algo diversa. se colocam de modos diversos daqueles até então amplamente estabelecidos. as respostas desses sistemas ao "domínio europeu". obscurecendo-se o desenrolar do processo analítico. para formulações em torno da ideia de "conflito" e onde a "mudança estrutural". linhagens e sublinhagens.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Já referi de passagem os desenvolvimentos da Antropologia Social britânica no sentido de introduzir em seus estudos noções como "mudança" e "contato". Partindo da constatação de que as "situações sociais" constituem a matéria-prima do trabalho etnológico. sobretudo na Introdução assinada pelos editores. Campina Grande. onde antropólogos frequentemente prestavam assessoria ao governo colonial. 132 . em que se descreve o modo segundo o qual essa grande sociedade "descentralizada" se organiza segmentarmente em tribos.

But it was still the social morphology that we were aiming to present" (Gluckman. como o próprio Gluckman faria questão de ressaltar ainda muitos anos após (1959. Ver também a respeito Durhan (1978). 1947) 63. Cadernos do LEME. Gluckman crítica demolidoramente as concepções malinowskianas de "dinâmica cultural". e contra o que se chamou de "método da ilustração adequada" ("method of apt illustration"). por um lado. 63 No primeiro desses artigos. mas através dessa mesma ênfase nos "casos". uma preocupação já bastante explícita da "análise situacional" era também dar conta da mudança social. os objetivos finais da analise de caráter essencialmente morfológico eram ainda dominantes: "we called these complex events 'social situations'. combinar os progressos do método etnográfico desenvolvido por Malinowski (1922 etc. within these situations to exhibit the nature of the social structure. Entretanto. e por outro. tal qual se apresenta em contextos social e historicamente datados62.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO descrição minuciosa de "situações". 2011. 1946. seguida de uma interpretação bastante direta. Tem-se assim. da obra de Malinowski para a Antropologia Social. Pretendia-se então. 1959: 66). dando lugar ao estudo das transformações. em especial sua tentativa de considerar os dois segmentos sociais envolvidos numa situação de contato como sistemas autônomos. A essa altura a noção de "situação social". quando não propriamente histórico. enquanto expressões acabadas da morfologia social. através da qual se procura lograr uma demonstração da "estrutura social". 88 – 191. delimita a contribuição. em que "cada caso era selecionado de acordo com sua adequação a um item particular da argumentação. hoje sobejamente reconhecida. selecionadas sobretudo em função da importância social nelas investida e vivenciada pelos próprios atores. embora angular. Jul. O próprio Gluckman sintetiza o resultado desse desenvolvimento teórico e metodológico do 62 No caso desse ensaio de Gluckman se pode definir esse objeto de demonstração como a sociedade colonial da Zululândia por ocasião da consolidação administrativa do domínio britânico. o que é feito sobretudo através de um acompanhamento etnológico a bem mais longo prazo. imediatamente anterior à Segunda Guerra.) não havia conexão regularmente estabelecida entre as séries de incidentes nos casos citados em diferentes momentos da analise" (Gluckman. nº 2. eventualmente. não parecia requerer muita elaboração teórica e. ainda que informada pelo conhecimento de outros fatos e situações. 1967). uma ênfase sempre crescente no estudo e na descrição sistemática de "casos". 1959 etc. p. vol. entendendo-se por "casos" uma sequência temporal relativamente longa de "situações" correlatas (Gluckman.. 1967: XIV). 133 . (. e isto marcaria o seu desenvolvimento subsequente. da contradição nos sistemas sociais. 1957. Campina Grande. No segundo. 3./dez. de qualquer modo. um interesse decrescente nas "estruturas". da flexibilidade e.) com uma revisão do casamento mal sucedido entre a sua teoria funcional e as questões impostas pela necessidade de se lidar com a mudança e o "contato" (Gluckman..).

"O uso mais fecundo que se pode fazer dos casos consiste em tomar uma série de incidentes específicos ligados às mesmas pessoas ou grupos. 3. menos rígido. Sempre que se aplicou este método a monografias que usavam o método da ilustração adequada. A expressão mais acabada de uma análise de variabilidade estrutural. já então. inclusive exógeno. emergiu um quadro muito diferente do sistema social: mais complexo. p. Já em Turner (1957).) on the way to making the kind of analysis of how the many different components in a social system operate with varying weight in different types of situation" (Gluckman. nº 2. 1967: XX).)./dez.. Jul. entretanto. no decorrer de um período suficientemente longo. Sem abrir mão de uma competente descrição morfológica da "estrutura social" da aldeia que estuda e dos "princípios abstratos" que orientariam a constituição dessa estrutura. Gluckman dedicaria boa parte da sua produção nos anos quarenta e cinquenta – reunida principalmente em 1955 e 1963 – à discussão do "conflito" em suas relações com as estruturas sociais. Cadernos do LEME. vol. etc. relativo ao eixo temático da série de situações abordadas. "I was (. seja como agente modificador (por exemplo 1954b). menos amarrado" (idem: 68). numa avaliação bastante posterior do seu ensaio pioneiro de 1940. a série de questões que acompanhamos ao longo da obra de Gluckman desaguam no pleno desenvolvimento metodológico do que viria a ser designado "método de caso desdobrado" ("extended case method") e na formulação do conceito de "drama social". sempre com base no seu rico material etnográfico banto.. ao lado de uma demonstração etnologicamente cuidadosa dos complexos princípios que operam essa variabilidade. 2011. se relacionam com o desenvolvimento e a mudança das relações sociais entre essas pessoas e grupos. Enfim. descritos sistematicamente numa sequência de episódios relacionados. Gluckman reconhece que. 134 . por assim dizer. o seu enredo. 88 – 191.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO seguinte modo: "se pretendemos penetrar mais profundamente no processo real pelo qual pessoas e grupos convivem com um sistema social. agindo no quadro de sua cultura e do seu sistema social. constituindo. onde. ritualizado e absorvido por esta (1952. é certamente a monografia de Leach (1954) sobre as diferentes ordenações políticas dos povos Kachin do Norte da Birmânia. Turner acompanha a vida da aldeia e dos seus habitantes ao longo de vinte anos. 1954a. e demonstrar como esses incidentes. esses casos. seja enquanto elemento rotinizado. têm-se conclusões que instigam a discussão em torno da definição teórica da noção de "estrutura social". Campina Grande. sob uma cultura. temos que utilizar uma série de casos conexos ocorrendo dentro da mesma área da vida social" (idem: 69).

estudar a sua presença em terrenos diversos da vida social. 88 – 191. 1968). observam que "There has been a trend (. 2011. por sua vez.. 1966) e por Swartz (1968). Essa perspectiva porém parece muito centrada no "nível local" e exige a elaboração da dicotomia "campo" X "arena". nº 2. Pensando em termos bem práticos. Campina Grande. 1966: 1). "how certain principles of organization and certain dominant values operates through both schisms and reconciliations. Swartz contesta a necessidade da presença de "poder" na definição do "político". como se verá a seguir. 1957: XI). A apropriação das ideias e posturas próprias da chamada "escola de Manchester" na constituição teórica de uma Antropologia Política com diretrizes e procedimentos bem definidos pode ser observada nos trabalhos reunidos por Swartz. Por exemplo./dez. Cadernos do LEME. acompanhando o desenvolvimento dos trabalhos na área. e nas "Introduções" desses a estas coletâneas em que. por outro lado.. A adoção de uma perspectiva "processualista" – como de fato se tornaria conhecida – mais atenta aos "eventos" (Swartz.) away from the early preoccupation with the taxonomy. and values which are involved in the processes centering around those goals" (Swartz. structure. com as disputas em torno da sucessão à chefia – em que aqueles princípios estruturais são vistos em sua ação e manipulação – tomados como vetor principal para caracterização do "drama social" em torno do qual se desenrola a análise que. Essa delimitação do "político" permite..) is the study of the 'processes' involved in determining and implementing public goals and in the differential achievement and use of power by the members of the group concerned with those goals" (swartz et al. mais além que apenas nas esferas ou "estruturas" tradicionalmente identificáveis como políticas. orientada sobretudo para a definição e busca de metas coletivas ("public goals"): "the study of politics (. Swartz diz que "our first task in a political study is to determine what public goals are present and to move from there to the investigation of the social arrangements. 135 . and how the individuals and groups concerned try to exploit the varied principles and values to their own ends" (Gluckman. 3. vol. p.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO fundamentalmente. 1968: 3).. and function of political systems to a growing concern with the study of political processes" (Swartz et al. principles. pretende demonstrar. Jul. considerando principalmente a possibilidade de "metas" envolvendo de modo uniforme todo o grupo considerado. "if we look at the religious ceremony from the point of view of the processes by which the group goals are determined and implemented (how it was decided that a ceremony was to be held. how the time and 64 No trabalho seguinte (1968). basicamente. Turner e Tuden (Swartz et al. desenvolve uma delimitação marcadamente teleológica do "político". 1966: 7) 64.

88 – 191. 1966: 8). mudam de posição e de conteúdo. etc. bem Cadernos do LEME. how the things to be used in the ceremony were obtained etc. É importante notar contudo que tal não implica na exclusão da investigação daquelas instituições. vol. 2011. apenas que essas devem ser tomadas em sua ação no "campo" político.. A noção de "campo" ("field"). Dada a necessária fluidez desses limites à medida que os indivíduos e grupos envolvidos. 1966: 7). interesses etc. Its unit of time is no longer 'structural time'. nº 2. resources and relationships./dez. como uma melhor integração da investigação com os dados e com uma perspectiva históricos. Campina Grande. how these experts marshal support for their power and undermine that of their rivals etc. composta pelos indivíduos e grupos de algum modo relacionados àqueles presentes no "campo". Swartz chega entretanto a tentar uma delimitação mais formalizada do que venha a ser um "campo". crenças. 3.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO place were determined. seus recursos. "The greatest value of the 'political field' view is to broaden the scope of data collection at the same time it brings about closer scrutiny of social behaviour that might be neglected were we to assume an already known boundary to political activity on the beginning of our political investigation or a predetermined basic outcome of that activity" (idem: 8). Swartz propõe a caracterização de uma "área sociocultural espacial e temporalmente adjacente ao 'campo'". it tends to be the political 'field'. interesses. seu repertório cultural de valores. Jul. busca tanto maior fluidez e abrangência quanto aos fatos a serem tratados. ou da estrutura social. employed by these participants in that process" (Idem: 9). repetitive societies. The combined unit is a spatial-temporal continuum" (Swartz et al. Desse modo. 136 .) we are studying politics" (Swartz et al. Its unit of space is no longer the isolated 'society'. it is historical time. ou mesmo saem e entram no "campo". p.) and by which power is differentially acquired (which ritual experts are successful in telling the 'laity' what to do. 1968: 6). "'Field' is a concept which allows for both continuity and change in the relations among the participants in politics and it does not have the rather rigid quality carried by such more common terms as 'political system' or 'political structure'" (Swartz. que ele chama de "arena". "A field is defined by the 'interest and involvement of participants' in the process being studied and its contents include the values. meanings.. assim como seus valores. "political anthropology no longer exclusively studies – in structural functionalist terms – political institutions of cyclical. aqui desenvolvida.

das práticas sociais e políticas no grupo em questão. aspectos com relação aos quais certamente encontraremos internamente diferenciais de opiniões e avaliação. por parte do pesquisador. enfim. 137 . Penso o conceito de "parentela" no sentido em que o utiliza Campbell (1963). as relações sociais internas e externas desse grupo. 3. um processo histórico: a constituição de um grupo local indígena. vale dizer que julgo fundamental no estudo de grupos políticos de pequenas dimensões. conflitos. 1968: 9ss. Outra possibilidade interessante que se nos apresenta é a de delimitarmos um "campo" político com base na articulação entre seus membros e nos objetivos desse movimento. clivagens. É certo que 65 Com relação aos levantamentos genealógicos como método de pesquisa. por um lado a auto-delimitação étnica do grupo. sem dúvida. aliada a um acompanhamento o mais duradouro e próximo possível. e mais uma vez voltando a pensar mais explicitamente em termos dos interesses de pesquisa aqui delineados./dez. mas não diretamente acionados no processo em estudo (Swartz. a adoção de práticas coletivas com uma organização prévia (rituais. Teríamos assim.). a investigação detalhada das genealogias. reordenações.). fatos e fatores que se poderá certamente dispor numa sequência lógica e cronológica estruturalmente ao estilo de um "drama social". Poderíamos ter assim algo como. Para uma discussão da noção de rede social e suas aplicações. Uma questão com a qual teremos que lidar diz respeito à articulação do nosso "campo" com as instâncias externas a ele relacionadas e que nele interferem. p. roças comunitárias). mas também para orientação da analise. Cadernos do LEME. 2011. ou "de nível local". e suas representações e os desdobramentos contemporâneos desse movimento. ver especialmente Barnes (1968) e Bott (1971). a consolidação interna de uma série de valores e posições sociais etc. a instituição e distribuição de posições de destaque (cacique. e o que se nos apresenta à investigação é. o "reconhecimento". e por outro a retomada e garantia do território. uma boa base lógico-descritiva para ordenação do material etnográfico.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO como todos esses atributos possuí dos pelos membros do "campo". a "assistência" governamental. parece-me. Tentando sintetizar o que me parece essencial no desenvolvimento teórico acima resenhado. pajé etc. nº 2. – é seguramente indispensável à compreensão e delimitação de todo o processo que compete investigar. parentelas e redes sociais envolvidas65. 88 – 191. Campina Grande. se possível desde antes do seu aldeamento pelo colonizador até a emergência de um "movimento étnico" na segunda metade do século XX. Jul. ver Barnes (1967). vol. A possibilidade de articulação crítica e descritiva do material assim obtido com os dados históricos – tanto os da história oral quanto os de documentos escritos etc. apenas a título de exemplo..

Cadernos do LEME. 138 . de modo amplo. pelo menos com relação aos rituais – mas sobretudo pela abertura que isso da no sentido de se poder pensar. Cohen (especialmente 1968. 1969. algo da produção posterior de Balandier (por exemplo 1980).1976. estaremos sempre nos defrontando com padrões mais ou menos recorrentes de organização e 66 Eximo-me aqui de resenhar toda a vasta discussão em torno das dimensões simbólicas do universo político – e que teria que incluir. ou ideologias. acima de tudo. numa outra perspectiva. em suas "práticas" (Bourdieu. 1967) na medida em que permitem – sem que se tenha que entrar mais profundamente na discussão das relações entre "estrutura" e "acontecimento" ou "estratégias". a sociedade local envolvente. ou no sentido de uma revisão radical das concepções de uma "estrutura social" (Sahlins. p. 3. a própria noção de "ideologia política" – ou mesmo até em torno da dimensão política do universo simbólico. Finalmente. teremos que pensar. mas.). "Micropolitique et Segmentarité": 253-283./dez. Vale a pena mencionar porém. e ficando apenas num campo mais propriamente antropológico. 1969b. o que equivale a dizer. quanto para a vida social em sua atividade cotidiana constantemente criadora e "imponderável" (conforme Malinowski.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO muitas dessas "interferências" poderão ser analiticamente subsumidas ao próprio "campo". por um lado. o governo etc. Penso em especial na formulação aqui adotada para "etnicidade" como um modo particular de se constituir ordens sociais. vol. Bourdieu. a discussão da "etnicidade" seja já suficiente para os nossos objetivos de analise. 1968. com o que se quer também dizer tratar-se de uma modalidade especial de "política".e estou interessado em fazê-lo – nos diversos planos de relacionamento com os povos indígenas vizinhos. 1974 etc. a dimensão eminentemente simbólica da própria "política". os núcleos camponeses próximos – "indianizáveis" ou não – o movimento indígena a nível regional e nacional. 1972) – dirigir a investigação tanto para as instâncias socioculturais mais estáveis e recorrentes. Poder-se-á talvez pensar em termos próximos aos da dualidade "campo-arena" em Swartz (1968). as contribuições do próprio Principalmente o capítulo 9. Sabemos que se. 1974) e. no sentido de uma certa "simbologia política". mas muito provavelmente não de modo tão esquemático. 1922) – ou. de pensá-las. Sabemos que no plano da nossa investigação estaremos certamente sendo levados a dimensionar todo o "campo político" fundamentalmente em termos de uma etnicidade66. parece fundamental poder-se dimensionar em termos políticos todo um conjunto bastante vasto de relações sociais e principalmente de representações. representá-las. 1972).1981. se se quiser. Jul. alguns dos elementos teóricos tratados parecem interessantes (conforme Van Velsen. de qualquer modo. entre outros aspectos. Com relação ao sentido e à abrangência em que devemos tomar a categoria "política". nesse terreno. 2011. 88 – 191. e isso não apenas pela necessidade de acompanhar desdobramentos políticos em áreas diversas do social – do modo bem característico de boa parte da obra de Turner (1966. Campina Grande.. nº 2. Acredito que.

p. em perseguir o poder nos seus mais recônditos interstícios. nº 2. 1981. as classes sociais. e numa intenção. os seres humanos aplicam sua irrefreável capacidade de reflexão. Zaluar. ainda que basicamente sob efeito e em resposta a determinações múltiplas. para mais além desses padrões. através de uma ótica "micro".DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO representação das relações sociais – as "estruturas" que. Penso aqui em especial nas idéias e pesquisas – polêmicas mas sempre instigantes – de Foucault (especialmente 1979). sem dúvida. Barata. Nomeadamente questões relacionadas à territorialidade. quanto em situações muito diversas (Velho. de boa parte das ideias aqui esboçadas pela Antropologia brasileira contemporânea no estudo da política a nível de pequenos grupos sociais. 1981. 3. 1952 etc. e que. 139 . "Micropolitique et Segmentarité": 253-283. Antes de passarmos a outras questões. algo não muito distante daquilo que os antropólogos têm procurado fazer. e talvez também nas de Deleuze e Guattari (1982) 67 . tendo em vista mais diretamente a situação atual dos povos indígenas no Nordeste. de escolha e de inovação. às ideias de "revitalização cultural". Ainda que colocado de modo e em bases bem diversos. ainda que diferencial. Barsted. vol. ao "contato" e sistema interétnicos e ao quadro socioeconômico regional. vale a pena ao menos referir a possível contribuição de outras vertentes teóricas para uma Antropologia Política. elementos sobre os quais. A adoção. 1985. Barbosa. 1977. Cadernos do LEME. 1983). 88 – 191. Já assinalei o lugar central do território no movimento dos índios no Nordeste. Campina Grande. Como bem observa Lea./dez. podemos quiçá vislumbrar em um método "genealógico" de compreensão do real. podemos elaborar e aprisionar em "modelos" (conforme Lévi-Strauss. ao "campesinato indígena". 1982. 2011. Jul. a vida social é moldada sobre fatos e situações sempre novos. 1975. à tutela. importância reafirmada constantemente no atual contexto de lutas. Santos. "se existe uma palavra-chave ou um símbolo para os índios do Nordeste me parece ser 67 Principalmente o capítulo 9.) – sabemos por outro que estas instâncias só ganham sentido e expressão no uso que delas fazem os indivíduos e grupos. Outras questões teóricas Há ainda algumas questões de relevância teórica que gostaria de discutir preliminarmente. ou ao menos mencionar. assim como sobre as "estruturas". entre outros). tem revelado sua propriedade tanto em casos de sociedades indígenas em convívio com a sociedade nacional (Oliveira Filho.

140 . "a figura do território perpassa (. Para Carvalho. Enquanto em vários dos outros aspectos culturais há uma tendência à identificação entre os diversos grupos. que seriam diretamente consequentes da perda da base econômica e territorial. a devoção que os grupos têm. afastar as equações primárias que podem daí advir. 1970. num certo sentido. dos Pankararu com as cachoeiras sagradas de Itaparica. frequentemente associada a esse tipo de resolução através da identificação de "perdas culturais". Revendo criticamente a ideia de um "índio genérico". 1981: 1). dos Pankararé com a "Fonte Grande". especialmente realçado na situação aqui tratada.. dos Xukuru com a Serra do Urubá e – a mais tocante também para nós – a dos Pataxó com o Monte Pascoal e a Coroa Vermelha. em alguma medida.. como a "terra sem mal" de alguns povos tupís (Clastres. relações como. não pode ser encarado como conduzindo inevitavelmente a uma 68 É impressionante. os Potiguara. inclusive no sentido da consolidação de uma identidade de "índios do Nordeste". Cadernos do LEME. é sempre. entre outras coisas. como "perda do território – perda da identidade" (como em Ribeiro. que chamo aqui "territorialidade". e o valor simbólico atribuído. vol. Carvalho afirma: "O despojamento do patrimônio original.). Pretendo com essas considerações. Já assinalei também o papel do território na definição étnica desses grupos. ideal. como a "tradição". 1975 etc. a origem. 3. a territorialidade é um dado cultural que. nº 2. O que eles têm em comum é dizer que o fazendeiro fulano levanta cerca. pode-se dizer que essa referência "territorial" da etnicidade. aos marcos físicos dos seus territórios e das suas histórias. o que é aqui afirmado sobre uma inconteste e rica base etnográfica68. Arrisco mesmo dizer que ele é o suporte básico sobre o qual se constroem as etnicidades específicas na região. além das capelas e cemitérios das antigas missões respectivas a cada etnia. Amorim.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO arame farpado ou cerca. 1975) 69. Pensando em termos mais amplos acredito poder afirmar que. 69 Aliás. Jul. entre outras. é fundamentalmente enquanto detentores de um direito histórico e protagonistas de uma disputa particulares sobre um território específico que se constituem os Kapinawá. p. parecendo se constituir no elemento crucial do engendramento da identidade dos povos considerados" (Carvalho. ou seja puramente imaginário. por mais crítico que seja. a dos Kapinawá com a "Mina Grande". caso das diversas situações de diáspora (por exemplo Carneiro da Cunha. 88 – 191. 1985). Isso inclui. ainda que em graus diversos. ao tempo em que afirmar o vínculo radical do território com a etnicidade.) todo o quadro das relações interétnicas. e que eles cortam as cercas dos invasores de suas terras. Para todos os grupos o problema da posse da terra é fundamental" (Lea. imaginária.. Campina Grande. tem sempre um papel indispensável nas definições étnicas. 1984: 177)./dez. os Kiriri etc. e isso mesmo quando o "território de referência" esteja ausente. 2011.

Não poderei já aqui apontar o senti do teórico dessa contribuição. Queiroz. sob pena de tomarmos cultura em termos absolutos.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO identidade de 'índio genérico'. 1978 etc. e que sua "sobrevivência étnica" deve ser compreendida na medida da reelaboração constante de uma etnicidade. 1977. Outra questão para a qual penso que o estudo da situação dos índios no Nordeste possa contribuir é a da relação entre "etnia" e "classe social" – ou talvez mais especificamente entre suas respectivas consciências – tão relevante na Antropologia mexicana (Bonfil Batalla. p. Varese. Campina Grande. têm se modificado substancialmente desde os primeiros contatos com o colonizador. e tendem. Romano (1982) e Figoli (1984). 141 ./dez. mas em rearranjos múltiplos sob a égide da oposição que se impõe como fator dominante. com segmentos da classe dominante regional. melhor dizendo no caso talvez. essa não pode ser dissociada de sua condição histórica de índios camponeses. há que analisar mais detidamente a figura desse 'índio genérico'. 88 – 191. a continuar mudando. E por se tratar de uma cultura que se reelabora por força do contato. Os índios do Sertão mantêm tradicionalmente. 1975. Portanto. como em Gomes (1977). o que se torna tanto mais equivocado ao se tratar de uma 'cultura de contato'. ver Cardoso de Oliveira (1968). vol. concorrentes seus pelos "favores" e relações de trabalho oferecidos. buscando situá-lo historicamente. 2011. Jul. 1976. tal não implica em que ela não possa acompanhar prováveis novas transformações. hoje. O que faz uma determinada etnia desaparecer ou não enquanto tal deve estar relacionado com conjunções bem mais complexas de fatores e determinações. mas apenas indicar alguns dados que parecem interessantes. como a que vincula a "sobrevivência étnica" à permanência de um "modo de produção" próprio à etnia em questão. 1979). o que torna o trabalho do etnólogo muito mais interessante que o simples exercício de – suposta – demonstração de um punhado de equações fáceis. ou fusões. 3. Cardoso de Oliveira. Leal. 1982a: 5-6). como bem procura demonstrar Luz (1985) estudando subsegmentos urbanos desses povos indígenas70. Pensando do mesmo modo certamente se pode também rejeitar outras tantas resoluções simplistas do gênero. Sabemos obviamente que as "relações de produção" e as "forças produtivas" que envolvem os índios no Nordeste. Costa. naturalmente. vínculos de clientelismo muito típicos da região (Andrade.). 1970. como já referido. os "caboclos" – em confronto com outros segmentos locais camponeses. e isso naturalmente com desvantagens 70 Com relação a índios em situações urbanas no Brasil. Se. não se pode pensar simplesmente em perdas. Nesse quadro. Cadernos do LEME. assim como sua cultura. sob pena de aceitarmos uma espécie de condenação a supostos vencidos" (Carvalho. nº 2. 1963. a oposição étnica tende geralmente a colocar os índios – ou.

é levado a cabo através de um redimensionamento de valores étnicos. em vários casos. a emergência desses movimentos. já que muitas vezes são os pequenos camponeses e trabalhadores rurais os agentes mais diretos da espoliação de territórios indígenas. Já mencionei o fato de que esses movimentos étnicos desestimulam enfaticamente as relações acima referidas. nº 2. 88 – 191. e de forma grave. tendem a reforçar inicialmente o mesmo tipo de confronto. O que quero dizer com isso. lançados que são como "pontasde-lança" dos grandes proprietários. e as "boas intenções" recíprocas e os esforços no sentido de viabilizar alianças são. de relações com as instâncias governamentais e nos próprios objetivos e estratégias dos dois movimentos concorrem em sentido oposto71. O desenvolvimento dos movimentos indígenas entretanto. de ambas as partes. Os conflitos pela terra. Apesar disso ouve-se com frequência. por sua vez. já que os arraigados preconceitos são difíceis de remover e as diferenças de estatuto legal. que "os pobres têm que se unir". evidentes e. no caso dos índios. 2011. pois temos aí um campo fecundo ao exercício dos preconceitos e estereótipos negativos. a título de avaliação provisória da questão. Campina Grande. Permanece entretanto em algumas situações a oposição a outros segmentos subordinados. e com a própria redefinição de valores étnicos. claro que nessas circunstâncias há um espaço limitado para as oposições de classe. A emergência de um movimento sindical rural desatrelado dos antigos vínculos. têm conduzido inevitavelmente a uma identificação mais acurada das forças sociais em jogo. questionamento esse que. longe de ficar obscurecida ou retardada pela vigência de uma "consciência étnica". pelo menos no que diz respeito aos Xokó e Potiguara. ainda que bem diferenciados entre si./dez. p. já pareciam chegar a alguns resultados positivos em meados da década de oitenta. 142 . sobretudo na medida em que ambos questionam os vínculos tradicionais de dominação. na área pankararu. parece de fato dar alguma base para o desenvolvimento de perspectivas comuns apoiadas numa "consciência de classe". vistos ainda como aliados dos poderosos. vol. a emergência de uma consciência de classe. Jul.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO para os índios. no caso desses grupos. A existência paralela dos movimentos sindical e Indígena já chegou mesmo a desencadear conflitos. Assim sendo. como ocorre em alguns municípios do Sertão onde há índios. incompatíveis com os novos termos em que o confronto é colocado. 3. Não é tão simples porém. é que. e sua articulação a nível mais amplo. daria em principio a chance para modificação desse quadro. Compare-se essa situação com a analisada por Aquino (1977). como o que ocorreu há alguns anos. parece ao contrário passar "necessariamente" por essa72. 71 72 O caso pankararé tratado em Rocha Júnior (1982) é bem ilustrativo do que digo. Cadernos do LEME.

é pertinente. 88 – 191. à demonstração do seu enquadramento a alguns padrões socioeconômicos gerais definidores do que seja uma sociedade camponesa. vol. 1975). como faz Amorim (1971. ainda que de modos diferenciados. p. ou previsíveis. de uma "condição" inerente a essas74 (Redfield. Campina Grande. 2011. Carvalho. Jul. talvez.) tem de modo geral se limitado. Bohannan & Dalton. é certo que se tem desenvolvido um campo teórico próprio – senão homogêneo. chega a caracterização de um componente de sobreexploração associado à dimensão étnica desses segmentos. embora Isto possa ser tomado de modo simples e direto. N. por sua vez. nº 2.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO A produção brasileira de monografias sobre sociedades indígenas camponesas (Cardoso de Oliveira.). reconhecendo o avanço representado por aquelas monografias. de uma certa dimensão étnica a modelos já conhecidos. que talvez não possam mesmo ir muito além da mera superposição. já agora como uma questão agrária" (Cardoso de Oliveira. 1975. de campesinato regional73. Diniz. 1966 etc. e não apenas ao de sua economia (conforme em Firth & Yanley. no que diz respeito à caracterização dessas sociedades enquanto tais. Na verdade não interessa tanto a possibilidade de construção de modelos gerais de campesinato indígena no Brasil. 1979). 1970. 1965. 1977b etc. de um "modo de ser" das sociedades camponesas. Sem dúvida é importante reconhecer. sugerir o aprofundamento da questão numa outra direção. Galeski. 1973. que "a noção de campesinato indígena integra a 'questão indígena' na problemática nacional. Helm. 75 Para uma visão mais contemporânea de "condição camponesa". o que./dez. Se há possibilidades de caracterização. Oliveira Filho.). sem dúvida. com Cardoso de Oliveira. 1965. Amorim (1971). Bourdieu. Shanin. coerente quanto a algumas questões e temáticas básicas – ao estudo dessas sociedades75. Cadernos do LEME. 1972. mas também de suas relações 73 Tentamos uma avaliação crítica de algumas perspectivas de análise sobre o campesinato indígena no Nordeste em Sampaio (1985a). 1975. 3. Amorim. 1971. 1984) ou Jê (Maybury-Lewis. 1976. 1960. Santos. ( 1975). Por outro lado. a partir de dados de Nasser. 143 . Amorim. 1964. 1974. 74 E isso num sentido análogo. as interpretações mais gerais a respeito dessas sociedades chegaram apenas a algumas poucas tentativas altamente exploratórias (Cardoso de Oliveira. 1980 etc. Gostaria entretanto de. 1970: 150). como bem o demonstrou Reesink (1983a). passando daí a uma descrição – centrada quase sempre basicamente em seus aspectos econômicos – da articulação desses segmentos camponeses etnicamente diferenciados à sociedade mais abrangente. 1977). 1972. Thornee et al. ver a revista "Actes de la Recherche" (por exemplo Grignon. 1979). ao que os etnólogos usam quando se referem a um "modo de ser" das sociedades Tupí (Viveiros de Castro.

1979. 1971). ao legado da tutela em práticas do antigo órgão tutelar e de outros organismos governamentais. no nosso caso. ou típicas (por exemplo Potter et al. com relação. com relação à questão da "tutela". do seu "papel político" (por exemplo Shanin. Na prática. 77 78 (1981). 1955. p. tais restrições visam primordialmente não apenas minimizar 76 Ver aí especialmente os artigos de Mintz & Wolf (1950). Se se puder obter algum sucesso por essa via. Já referi as atitudes ambíguas que os índios e seus movimentos são ainda levados a ter perante a tutela. nº 2. 88 – 191. Foster (1967). 144 .DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO sociais e representações peculiares. para a zona da mata (por exemplo Heredia. 196776).) tem se tornado efetivamente um instrumento cerceador. Interessa-me em particular as contribuições referentes a relações como o "compadrio" (Arantes. Paine. Geertz (1959) e Silverman Por exemplo Shanin (1971) e Wolf (1971). 1975 e 1982). impondo restrições à liberdade de manifestação e até mesmo de deslocamento físico. como se tem. 1983). em muitos casos. inclusive bibliográfica... Certamente há aí um interessante trabalho a ser desenvolvido. Acredito que um melhor aproveitamento do arsenal teórico e das experiências desenvolvidas no estudo de sociedades camponesas para a abordagem do campesinato indígena possa inclusive ser útil à revelação de adaptações de novas formas de organização a modelos tradicionais indígenas. Campina Grande. e a permanência de práticas a isso associadas mesmo após a promulgação dessa. estabelecendo todo um jogo de punições e recompensas e. A condição legal de tutelados que tinham os índios no Brasil até a Constituição de 1988. 1961). e às diversas formas de "patronato" e "intermediação" ("brokerage") (por exemplo Wolf. parece também colocar algumas questões ainda pouco exploradas. e à qual voltarei a seguir. transformando as reservas em algo próximo de verdadeiras "instituições totais" (conforme Goffman. cuja relevância na situação aqui tratada já observei. por outro lado. 2011. ver Reesink (1965). vol. Para uma boa avaliação geral. Cadernos do LEME. situação agravada pelo fato de o antigo tutor dispor-se muitas vezes ainda a usar o velho instituto como instrumento de Coerção sobre os grupos e movimentos indígenas. mais que à própria condição legal. Jul. enquanto instrumento jurídico (. Infelizmente./dez. Como observou Carvalho: "A tutela. não se dispõe ainda de uma produção quantitativa e qualitativamente satisfatória relativa ao campesinato no Sertão nordestino78. Garcia Júnior. sobre camponeses no Sertão. certamente se poderá redimensionar a própria questão dos modelos de campesinato indígena. 3. 197177) etc. bem como as diversas representações indígenas frente a essa condição.

nos trabalhos dirigidos por Paine (1971. provavelmente um dos mais bem sucedidos na região à época. ao contrario da anterior. que já são percebidos como altamente desfavoráveis. buscando-se aquela em que. ao tempo em que reivindicam da instância competente a garantia dos seus direitos: "o índio é federal". Trata-se aqui pois. nº 2. após conquistarem a demarcação e a remoção do maior invasor de suas terras. um sentido positivo. e mesmo. alargando o nível de articulação. 1982a: 2). No segundo (Rocha Júnior. onde esta aparece como legitimação por excelência da condição étnica frente a sociedade envolvente.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO reivindicações a nível interno a cada sociedade indígena. argumentam a ilegitimidade da ação desses sobre si. vol. porém obstar a viabilização de um movimento indígena que. ver Reis (1983)./dez. ao tentar romper os limites imediatos. pressionados pelo Sindicato de Trabalhadores Rurais e por órgãos estaduais no sentido da titulação de posses dentro do seu território. 2011. em grande medida. com bastante sucesso. como os Pankararé. temos um relato do movimento dos Kiriri. como garantia de sobrevivência num meio social hostil. aplicado a relacionamentos diversos entre pequenos grupos étnicos e várias instâncias e segmentos de estados e sociedades nacionais é exercitado. Campina Grande. dois breves estudos de caso de Rocha Júnior sobre o movimento indígena no Nordeste. o caráter essencial da relação não se altera significativamente. no primeiro caso (Rocha Júnior. dão também uma demonstração magistral das possibilidades de análise com foco nessa relação. nas lutas pelo "reconhecimento". esses mesmos movimentos "necessitam" da "tutela". 3. no qual vemos como esses. o que é especialmente verdadeiro no caso do Nordeste. frequentemente. a uma posição de submissão a este na busca da estabilização interna e externa das suas 79 Para uma aplicação igualmente interessante do conceito de "tutela" à relação do Estado com a própria sociedade nacional num regime autoritário. Um uso sociológico abrangente do conceito de "tutela". a tutela é buscada. a marca étnica teria. 1977) com populações dos Inuit (Esquimó) no Ártico79. Jul. Por outro lado. através de longas e intensas pressões sobre a Funai. de uma substituição de tutelas. pode tender a subverter a própria tutela no que esta contém de repressivo" (Carvalho. 1983). p. presumivelmente. Nessa percepção contudo. nos quais se verifica a produção de discursos e atitudes muito significativos com respeito à tutela. como solução para que se viabilize o rompimento dos laços clientelísticos tradicionais. É preciso lembrar também que. Cadernos do LEME. Por sua vez. certamente. refluem – (estrategicamente?) – num momento de crise política interna e do próprio órgão tutelar. 145 . 88 – 191. 1982). Vemos aqui.

ser entendida em função dessas redes. nos mesmos termos em que Carvalho. ainda que nem sempre cômoda80./dez. as "entidades de apoio".. Penso que uma definição desse tipo. presente 80 Ver Friedrich (1968). no sentido de conter o máximo possível das relações do tipo patrono-cliente e semelhantes. a Igreja. 1972). 1980). tendo em vista a sua projeção num futuro que se impõe conquistar. 146 . 3. 1974. os mandantes locais. Jul. o antropólogo. "o índio é de menor". retorno esse intentado através da adoção de praticas e símbolos culturais identificados como "tradicionais". assim. idealizado como um período de paz e prosperidade. Campina Grande. Passado. Por fim. gostaria de assinalar que parece interessante tentar. O estudo de movimentos semelhantes aos aqui tratados em diversas partes do mundo conduziu ao desenvolvimento das noções de "revivalismo" e "revitalização" (conforme. Clastres. no qual a reconexão dos laços violentamente rompidos com o passado que naturalmente não deixa de ser idealizado – assume o caráter de uma recuperação de informações e de vínculos – sobrenaturais mas também e fundamentalmente de direitos que permita aos seus protagonistas seguir adiante como senhores do seu devir. Cadernos do LEME.. que tendem desse modo a caracterizá-los como situações nas quais grupos sociais em estado profundo de crise buscam misticamente um "retorno" ao passado. entendida de modo bastante abrangente.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO conquistas e de proteção diante dos seus temporariamente derrotados mas sempre perigosos inimigos. nº 2. ainda que refletindo semelhanças evidentes com o nosso caso. através do estudo da "tutela". Wallace. no sentido de que: "Estes direitos fundam-se num passado que se torna o vetor da história. as entidades e representações indígenas. 1959. E essas "intermediações" incluem "o governo". pode também. por exemplo. além de outras vias de compreensão. p. garantindo sua reafirmação no presente. 1956. Por sua vez. vol. O que identificamos como móvel angular desses movimentos é um projeto radical e inovador de futuro. de algum modo colocados entre essas e algo além na pirâmide do poder e das tomadas de decisão. nas quais se constitui sempre em posição estratégica. a questão da "liderança". Nessas circunstâncias. 88 – 191. sempre tão cara a qualquer Antropologia Política (Barth. com destaque para os rituais. levaria a uma análise profundamente empobrecedora e equivocada do movimento político dos índios no Nordeste. uma compreensão mais integrada de toda uma rede de relacionamentos que envolve as sociedades indígenas ou seus segmentos discretos com setores externos diversos. 2011. Penso.

trata-se prioritariamente de superar a privação.. em lugar do "caboclo" (Reesink. da sua reelaboração. como seria típico da maioria dos chamados "movimentos de revitalização" (conforme Wallace. por sua vez. tal qual hoje concebidas. desta reconstituição dependendo a sua viabilização como sujeitos da sua própria história" (Carvalho. vol. visando revertê-las politicamente para o fortalecimento da sua identidade étnica" (idem: 10). "buscar contê-las num horizonte social e político mais amplo que possa romper com as limitações impostas pelo presente. materiais pré-constrangidos que são recombinados tendo em vista a sua recontextualização" (Carvalho. pois. "Urge. em geral imputadas à situação de privação. pois. vem do berço" (Citado em Carvalho. relativizando-a historicamente mediante o resgate cuidadoso dos fragmentos históricos. 81 É interessante notar que essa "possibilidade" de contato com o passado parece afastar a ideia de uma "busca" constante e sempre irrealizável. o movimento de hoje se traduz numa busca tenaz de transformação das condições objetivamente dadas. à espera inclusive de que o estudo de movimentos como o dos índios no Nordeste possa lançar alguma luz no sentido. Fortalecimento esse que. 1956). Como eles próprios dizem: "o índio tem ciência e idioma e o caboclo não tem nada. Nesse processo. se traduz principalmente no resgate do "índio". p. 1984: 183). viabilizando o futuro (. Índio vem da ciência. 1983b). 3. Deixo assim em princípio de lado categorias como "revitalização". que não tem nada de circular. Cadernos do LEME. A reelaboração de identidades parece. 1982a: 11). aparece como condição. a superação da "privação étnica". representada pela imagem do "caboclo". 1982a: 10). 2011. indígena. transformando-o numa força suficientemente eficiente que possa conduzí-los à superação das relações de sujeição.)". desmascarando-a como fator absoluto. Em outros termos. nº 2. Fazê-lo implica em idealizar o passado. "Nesta cadeia. dominar o futuro./dez. Jul. Podemos entender assim a dimensão de importância dos rituais.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO e futuro são. 88 – 191.. 147 . Campina Grande. onde o futuro não é de modo algum idealizado como igual ao passado. elos de uma mesma cadeia que se busca reconstituir. articulada no momento do transe81. assim. essencial mas não única. talvez. na medida em que se constituem na "ciência" que possibilita um contato "direto" com o passado. à superação de toda uma situação de privação. inclusive através de uma língua específica.

por razões metodológicas evidentes. Por exemplo em Barbosa (1983). Vale enfim ressaltar que. 1972). sobretudo. 84 Cardoso de Oliveira (1964. 1965) como os estudados em sociedades indígenas no Brasil por Melatti (1972). Embora não possa identificar ainda nessa produção conclusões de alcance mais amplo. com uma boa perspectiva histórica. em se tratando de um estudo de etnicidade enquanto expressão de um movimento político. a rigor. Certamente não poderia ser de outro modo. Smith (1983) etc. possivelmente não será demais. p. como já assinalado. Cadernos do LEME. um considerável material etnográfico a ser explorado nesse sentido83. ainda que muitas vezes se anuncie um estudo de relações interétnicas./dez. A esta altura já estará evidente que o objetivo aqui é a sociedade indígena e não o sistema interétnico do qual faz parte. 82 Ver a esse respeito. em geral não se busca a investigação direta do chamado "segmento regional". tendo em vista a qualidade desses estudos e.). a não ser talvez em situações muito excepcionais de pesquisa. a natureza diversa desse movimento com relação a movimentos messiânicos (Queiróz. diz respeito no nosso caso apenas à sociedade indígena (Cardoso de Oliveira. Bonfil Batalla (1978). Para a América do Norte ver McNickle (1973). Resta. vol. Jul.d. 88 – 191. a forte marca étnica presente nesses movimentos. em alguns casos. Este participa da investigação. Salazar (1977). capitulo VI) é uma boa exceção a isso. quase sempre restrito a ligeiras caracterizações descritivas gerais84. 2011. Desse modo. em que. tem-se já. Um pesquisador não pode dar conta simultânea e convenientemente de segmentos sociais em confronto. Barros (1983) e Lea (1983). por fim. nº 2. buscar aí subsídios à comparação e reflexão sobre o nosso caso. 83 O estudo mais sistemático dos movimentos indígenas no Brasil apenas se esboçava em meados da década de oitenta. apesar de alguns estudos terem procurado tratar desses (por exemplo Velho. 3. além da bibliografia então recente sobre índios no Nordeste. Campina Grande. o que. entre outros. situar com mais clareza em nossa investigação o lugar do "sistema interétnico" e da noção de "contato". o foco só pode ser mesmo o respectivo "grupo étnico".DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO É evidente também. Seria interessante tomar em conta também o farto material produzido pelos próprios movimentos indígenas. não se estará entretanto procedendo de modo diverso do que tem sido tipicamente feito pela Etnologia brasileira no estudo de sociedades indígenas em contato com a sociedade nacional. Ainda mais relevante porém será certamente a avaliação da produção sobre movimentos e organizações indígenas na América Latina82 e no Brasil. Carneiro da Cunha (1973) e Wright & Hill (1984). por outro lado. ainda que não muito diretamente com relação à situação de contato. apenas na medida em que se constitui numa dimensão indispensável ao entendimento daquela sociedade. Santana (s. 148 . O estudo de segmentos regionais em contato com sociedades indígenas constitui uma lacuna nem sempre percebida em nossa Etnologia. Entretanto.

revela-se bem mais eficaz e elucidativo ao lidar com aquelas situações de fronteira. e bastante bem diferenciáveis. no plano nacional. sem dúvida podemos falar em "contato". muitas vezes em função da simples presença de um agente externo até muito recentemente completamente ausente. das terras. no sentido de uma melhor compreensão do seu movimento indígena. em que etnias minoritárias se viam na contingência de intensas transformações culturais. Cardoso de Oliveira. em seus múltiplos aspectos. no mínimo. p. Acredito que. Entretanto. é indiscutivelmente interessante que se possa dar conta de determinantes socioeconômicos no quadro regional. de acordo. 1966). todo o seu aparato conceitual envolvendo noções como "frente de expansão" e "potencial de integração". sua operacionalidade. excessiva. dos padrões regionais. 1979). Jul. Me parece que a noção de "contato" – especialmente como elaborada em Cardoso de Oliveira. por sua vez. e com sociedades minoritárias com não muitas gerações de "contato" mais intenso. procurei desenvolver algumas ideias no sentido de identificar algumas injunções entre as mudanças sociais provocadas pela construção da grande hidrelétrica de Paulo Afonso nos anos cinquenta e alguns aspectos do desenvolvimento do movimento étnico dos vizinhos Pankararé. e preferiria deixar os conceitos reservados aos contextos em que possam revelar. quanto internamente os seus segmentos camponeses. em especial o Sertão. em que a ação modificadora das "frentes" é ainda bem nítida. para dar conta de situações coloniais ou de "fronteira". A noção de "contato interétnico". desses fenômenos. mais integralmente. como é ainda hoje o caso de boa parte do Brasil central e amazônico. vol."contrastiva" etc.. nº 2. uma tal caracterização me parece./dez. com as situações locais dos movimentos indígenas. Carneiro da Cunha. de um modo Cadernos do LEME.. Talvez não estivesse necessariamente errado se tentasse aplicar esse arsenal teórico às condições do Sertão nordestino. 88 – 191. 2011. No nosso caso. foi engendrada. como outras que ajudem a entender a situação de dependência que caracteriza tanto a região nordestina. 1962. entre os quais os indígenas. com base na ideia de "fricção" – ainda que tenha sido aplicada a diversas situações interétnicas. 1984). tenho a impressão que noções como "colonialismo interno" (Casanova. Decerto as "frentes" econômicas. do gráu de hostilidade presente na oposição étnica etc. existe "fricção" e há uma "integração" na qual poderíamos até identificar diferenciais de "potencial". sociologicamente. Em outro lugar (Sampaio. podem revelar-se esclarecedoras. permanecem atuantes. De qualquer modo. sob novas formas. 149 . 3. por exemplo. não significando isso entretanto que se esteja subestimando a dimensão "interacional". Campina Grande.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO 1976.

não sei. pelas vias da ação (investigação) e da reflexão. mas tenho. 1859: 218). 2011. logo. procedimentos O que intentarei construir como objeto de pesquisa é algo que poderia ser muito vagamente denominado o "ser" da sociedade Kapinawá. É por isso que ele é para o pensamento um processo de síntese. Jul. 88 – 191. possa servir de base. a partir de uma percepção inicial caótica do "todo". e tendo como marco a criação da Sudene (Cohnn. Totalidade que espero. desta vez./dez. III.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO geral. pela articulação a outras totalidades do mesmo nível. 1859). que não seria. mais gerais e mais abrangentes. Segundo este. Sabemos que um objeto de pesquisa nas Ciências Sociais é fundamentalmente um produto da elaboração constante inerente à própria dinâmica de pesquisa. 1977). p. Campina Grande. 1976). A expressão metodológica mais acabada e mais lúcida desse "processo" acredito encontrar-se na proposição que faz Marx (1859) de um método para a Economia Política. nº 2. técnicas. Bruyne et al. sob forma de um "concreto figurado": "(. Assim: "o concreto é concreto por ser a síntese de múltiplas determinações. por exemplo. cujo trilhar. pode ser tomada como um dado básico a partir do qual se possa acompanhar algumas hipóteses de injunções sobre a situação indígena. factuais e teóricas. algumas "pistas". como também já procurei delinear. Partindo daqui. açudes.) passaríamos [pela análise] a abstrações cada vez mais delicadas até atingirmos as determinações mais simples. a representação caótica de um todo. vol. através do que se pode chamar um "processo de objetivação" (conforme. seria necessário caminhar em sentido contrário até se chegar finalmente de novo à população [o 'todo' no caso]. à formulação de outras totalidades.. unidade da diversidade. e não um ponto de partida. espero possa conduzir à apreensão e construção desse objeto enquanto "totalidade concreta" (Marx.. um resultado. a interferência mais direta do Estado na região através de grandes direcionamentos econômicos – hidrelétricas. 3. Método. incentivos agrícolas – identificável mais intensamente a partir de meados dos anos cinquenta. apesar de ser o verdadeiro ponto de partida e Cadernos do LEME. Em que tal consiste. como procurei demonstrar. 150 . mas uma rica totalidade de determinações e de relações numerosas" (Marx. objetivamente.

pelo segundo as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto pela via do pensamento" (idem: 218-219) 85. vol. Cadernos do LEME. Num exemplo que me parece bastante pertinente. Jul.. é de fato um produto do pensamento. 1922: 18) but also for coordinate accounts of the action of specified individuals. com um processo político de redefinição de conceitos que parece conduzir. 1859: 219). Poderíamos absorver esse processo e essa relação de categorias reelaborando-os no sentido de uma melhor compreensão do movimento indígena no Nordeste? Acredito que o essencial do que teria a expor com relação a um método mais especificamente antropológico de investigação e analise esteja já contido na discussão teórica acima. como variantes que vão desde sinônimos absolutos até opostos diametrais. e possa muito claramente ser dela depreendido./dez. ela não é pois de forma alguma o produto do conceito que engendra a si próprio. ver Bonfil Batalla (1972). to the study of complex social relationships. 151 . Apenas a título de síntese. mas um produto da elaboração de conceitos a partir da observação imediata e da representação" (Marx. É nos termos desse processo que procuro entender a construção de "categorias científicas" através de um "diálogo" entre as "categorias nativas" e as abstrações do pesquisador. "This approach calls not only for the recording and presentation of the 'imponderabilia of actual life' (Malinowski. tal como ocorrem entre os povos indígenas no Nordeste. O primeiro passo reduz a plenitude da representação a uma determinação abstrata. as categorias nativas – ou. melhor dizendo no caso. Barnes (1958) has noted the 'shift away from the collection of statements about the customs and the details of ceremonial behavior. tomada aqui como paradigma da investigação antropológica sobre a dimensão ética das representações e relações sociais. Campina Grande. da atividade de conceber. cada vez mais. como prefere. Thus records of actual situations and particular behaviour have found their way from the fieldworker's notebooks into their analytical descriptions. numa contestação a Hegel: "A totalidade concreta. nº 2. do primeiro ao segundo caso. "nativizadas" – de "caboclo" e "índio” 86 se nos apresentam hoje. "análise situacional". 1961a: 7) of the 85 Ver também o seguinte trecho. mais simplesmente. enquanto totalidade-de-pensamento. [with the consequent] emphasis on actors rather than informants'. not as 'apt illustrations' (Gluckman.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO portanto igualmente o ponto de partida da observação imediata e da representação. 3.. 86 A respeito da produção e do percurso da categoria colonial de "índio". 2011. que pensa exterior e superiormente à observação imediata e à representação. p. 88 – 191. refiro o que Van Velsen (1967) identifica como elementos fundamentais no "método de caso desdobrado" ou.

Só se poderá entendê-las mais profundamente em suas múltiplas articulações e implicações observando-as em suas práticas e convivendo com elas. e não exclui jamais o recurso a "informantes". Numa reflexão sobre minha experiência de pesquisa disse: 87 Há certamente uma vasta discussão a ser travada entre a "analise situacional" e a proposta de uma "descrição densa" em Geertz (1973). ou. 88 Para algumas considerações bem práticas sobre "observação participante". e ainda em função do objetivo pretendido. As dimensões desse. dos Kapinawá. numa população de poucas centenas de indivíduos e algumas dezenas de "famílias". Essa técnica mais geral entretanto. que nos permita talvez já aí esboçar as "redes" sociais (Barnes. nº 2. seguramente pressupõe o uso de outras. Campina Grande. certamente se revelara esclarecedora. bem como a extensão da pesquisa sobre ramificações sociais de parentesco e outras para fora do grupo local. Como ponto de partida à investigação. Num trabalho de campo desse modo orientado. No tipo de pesquisa que se pretende desenvolver. 88 – 191. e tendo em vista a necessidade de lidar com representações mais elaboradas dos informantes.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO authors' abstract formulations but as a constituent part of the analysis" (Van Velsen. com todas as imprecisões e subjetividades inerentes a essas. As proximidades e discrepâncias aqui parecem-me curiosamente extensas. A execução de um levantamento genealógico. apesar da ênfase em "atores". só poderão ser devidamente avaliadas durante a própria pesquisa. em geral pouco comum a esse nível./dez. devemos estar empenhados acima de tudo no exercício do conjunto de procedi mentos que. não faz sentido algum elaborar questionários ou empreender entrevistas "diretivas". 1982). 1968. com um discurso destes. 2011. por outro lado. vol. ainda que muito pouco homogêneos e padronizados. decerto deve-se fazer um censo. mais específicas. acredito possa ser feito com uma "proximidade" de relacionamento com os informantes. aprendemos desde Malinowski (1922) a designar como "observação participante” 88. Bott. em outras palavras. importante observar que a esse nível trata-se apenas de "esboçar" relações sociais mais complexas. Cadernos do LEME. Jul. 152 . 1971) sobre as quais estaremos trabalhando. no caso. ver Foote-Whyte (1943) e Berreman (1962). não podemos minimizar a importância das entrevistas. 1967: 139-140)87. p. mas. 3. A solução no caso parece ser o exercício – sempre mais difícil mas também mais proveitoso – de entrevistas "não diretivas" (Thiollent et al. o que. ainda que limitado.

mais uma vez. talvez. 3. Voltando a questões mais próximas. o da seleção dos informantes. Também não se pode esquecer que essa relação. quem mais estava presente etc. 1970). Cadernos do LEME. em especial a "atenção flutuante" e a "livre associação". e desenvolvidos – diversamente quanto às técnicas de apreensão – em Lévi-Strauss (1949a e b. Particularmente tenho a impressão que tal recurso possa ser tentado frutiferamente. se revela sempre mais fecunda. de algumas técnicas próprias à pratica psicanalítica. Dito de outro modo. nº 2. com atenção a como. Como disse. 88 – 191. 2011. evidentemente – poderia colher informações e impressões insuspeitas e inatingíveis num processo padrão do tipo 'pergunta e resposta'. 153 . Campina Grande. não é fácil. Uma aproximação metodológica bastante abrangente e exploratória entre psicanálise e etnologia é tentada por Devereux (por exemplo 1957). a possibilidade de um enriquecimento considerável da análise simbólica em Antropologia que. ao deixar o informante falar livremente durante períodos relativamente longos de tempo – quando esse se dispõe a isso. ou na coleta mais direta de dados de modo geral. por parte do pesquisador. quando. na medida em que atenta a princípios estruturais básicos identificados por Freud (já em 1900 e 1901). em alguns casos./dez. nesse desenvolvimento técnico. sobretudo – são também "atores".DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "Meu interesse pela 'não-diretividade' surgiu principalmente a partir da descoberta de que. Uma questão importante que se coloca ao referido desempenho técnico diz respeito à possibilidade de adoção. 1985c: 5-6). remeto-me. o desempenho técnico de tais entrevistas porém. levando-se em consideração as evidentes diferenças de situação entre a psicanálise e a entrevista sociológica não-diretiva89. De princípio um grau alto de familiaridade e confiança recíprocas entre o informante ou grupo de informantes e o pesquisador é um pré-requisito indispensável e que só pode ser obtido anterior e exteriormente à relação de entrevista. é preciso que se esteja ciente de que os informantes. Vislumbro. onde. sem procurar jamais redirecionar ou fragmentar-lhe o discurso" (Sampaio. intervindo apenas no sentido de esclarecer pontos do discurso e principalmente no de estimular o desenvolvimento das ideias e temáticas sugeridas pelo informante. Daí achar que a situação ideal de entrevista é aquela na qual o investigador fala o mínimo possível.). mas ainda com relação a um aspecto relevante na entrevista. às minhas próprias reflexões: 89 Desenvolvi um pouco mais essa questão em Sampaio (1985c). de qualquer modo. através de uma convivência prolongada. ainda. deve ser vista "situacionalmente". isto é. como qualquer relação social. 1958 etc. mesmo quando desenvolvida e complexificada em direções diversas (por exemplo em Leach. p. Jul. mesmo enquanto tais – e. vol. desde que se empreenda o necessário redimensionamento dessas técnicas.

Vansina (1961) desenvolveu um minucioso método de coleta e análise de narrativas orais. no sentido contrário. deixando ao contrário essa tarefa muito mais a cargo deles próprios. em síntese. II) e. só num segundo movimento. que as tradições são sempre reinventadas e que. cap. Também nunca consegui distinguir com muita precisão entre bons e maus informantes. Ver. mas é importante cotejá-la com a de informantes menos comprometidos com a 'guarda' de saberes especiais e que frequentemente enriquecem e reelaboram as visões 'oficiais'" (Sampaio. p. ainda que o grau de dificuldade nessa comunicação seja bastante variável. 1978 etc. Leach (1953). quando fatores como simpatia pessoal. do processo de "produção" de um passado. entre outros. o "passado" tem uma importância decisiva no presente (Hobsbawn. disponibilidade e interesse contavam bastante. trabalhar criticamente sobre o material coletado no sentido de uma "reconstituição" histórica. Thompson. Ao lidar com dados históricos. 90 A respeito desses temas. Campina Grande. 1978: X). 3). Jul. e especialmente em casos como o nosso. Assim. em especial de história oral. parece-me que uma investigação com base em história oral – e em especial uma investigação antropológica – deve procurar dar conta. 2011. 1972. Um aspecto importante nesse item diz respeito aos 'especialistas' que toda sociedade produz para dar conta de tarefas e assuntos determinados. 1985c: 8).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "A respeito da escolha de informantes. Cadernos do LEME. antes de mais nada. nº 2. no Brasil. Naturalmente admito que toda atenção deva ser dada à palavra do especialista. cap. se tal for relevante. Um ponto fundamental a observar aqui é o "papel" da história na sociedade estudada. devemos atentar para questões análogas às tratadas acima no que diz respeito ao "controle de informações". da a percepção que têm do "tempo" e do lugar social da "memória"90. da elaboração que as sociedades fazem sobre suas informações históricas. nunca empreguei critérios muito especiais. não necessariamente mais importante.). E. e que são imediatamente apresentados ao etnólogo quando esse revela interesses específicos no setor de competência de algum deles. acreditando que todo mundo sem exceção deveria ter algo de interessante a comunicar. Vernant (1956. vol. dos mais ricos em Antropologia. Evans-Pritchard (1940b. 154 . que "The voice of the past matters to the present" (Thompson. 88 – 191. Sabemos. mas suas cuidadosas e úteis recomendações em momento algum problematizam a situação de pesquisa ou a relação pesquisador-informante durante a coleta. Sigaud (1980) e Viveiros de Castro & Carneiro da Cunha (1985). ou seja./dez. 3.

Por fim.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO As "histórias de vida".. Procurarei investigar o que é possível descobrir por essa via. ou em arquivos de ordens religiosas. A recuperação da História como parte de uma metodologia que vise dar conta da identidade. como a que se pretende desenvolver. no que diz respeito à investigação histórica. [deve] ser posta como alvo imediato do etnólogo. se quisermos alcançar progressos seguros nos estudos étnicos no Brasil" (Cardoso de Oliveira./dez. Em primeiro lugar. os caciques..). que podemos tomar aqui como uma categoria particular de "história oral". devo dizer o que me parece possível fazer com fontes escritas.. 88 – 191. devem ter seu lugar dentro da mesma perspectiva. como também estimula pesquisas mais aprofundadas. não são muitas. Devo notar aqui que não estou especialmente interessado em fazer História. lida com uma sociedade profundamente marcada pela história e por uma "historicidade". menos provavelmente em arquivos locais. Jul. em arquivos públicos no Recife. mas em poder investigar e compreender dados históricos indispensáveis numa pesquisa antropológica que. na reconstrução de processos regressivos às origens de tal ou qual movimento que diga respeito à constituição do sistema interétnico. há em Pernambuco uma vasta produção de crônicas locais. por sua vez. certamente não muitas mas talvez muito significativas. a "'historização' das sociedades indígenas viabiliza extraordinariamente a própria historiografia. e que talvez possam trazer surpresas positivas. relativas a Cadernos do LEME.). Campina Grande. para os quais a presença e atuação dessas personagens teve ou tem tido uma importância muito grande. tanto quanto no que se refere à apreensão pelo etnólogo do processo de mistificação ou ideologização dos eventos históricos (ao nível do grupo) e biográficos (ao nível do indivíduo) pelos agentes étnicos (. deve haver algumas informações sobre a área indígena em questão. 3. vol. da etnia e da estrutura-social. como vimos. no sentido em que a fazem os historiadores. e inexploradas. no duplo sentido da penetração no tempo. 2011. Como percebe muito bem Cardoso de Oliveira. tentar reconstituí-las através de outros informantes. são as crônicas regionais. 155 . Seria interessante. p. No nosso caso. como se viu. nº 2.. Outras fontes inexploradas. além de tomarlhes diretamente "histórias de vida". Além das crônicas históricas que se poderá também utilizar e que. 1978: 124). o movimento kapinawa parece articular-se em torno de algumas posições e personagens centrais (o primeiro pajé.

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municípios ou microrregiões (por exemplo Barbalho, 1977; Albuquerque, 1960 etc.), cuja exploração pode ser útil, no mínimo, à compreensão do quadro local e regional91. Deixando agora de lado os procedimentos mais puramente técnicos, gostaria de fazer algumas considerações rápidas a respeito de algo que lhes é, metodologicamente, anterior. Trata-se do relacionamento, num sentido amplo, a ser construído entre pesquisador e universo social pesquisado. Limitarei-me aqui porém a retomar sinteticamente questões que propus em outro lugar (Sampaio, 1985c). Tentei então de início avaliar algumas posturas metodológicas que me pareciam muito "idealizadas" com relação ao papel e ao "lugar" do antropólogo em campo. A posição de Seeger (1980), por exemplo, ao definir-se em tal circunstância como "uma criança no mundo", enfatizando o necessário processo de ressocialização pelo qual passa sempre o etnólogo em situação de pesquisa, em especial em sociedades muito diversas da sua própria, parece comprometer a imprescindível consciência de que se é um membro – e um membro amplamente socializado – de uma sociedade dominante com relação àquela em que se está; dominação essa, de resto, evidente na própria quantidade de técnicas e de bens que a suposta "criança" manipula em seu trabalho. Conclui-se então, facilmente, pelo prejuízo que tal perspectiva significa, tanto à busca de algumas "simetrias" básicas na relação da pesquisa, quanto à própria dimensão de realidade dessa relação. O misto de distanciamento metodológico e melancolia existencial identificado, por sua vez, por Da Matta (1978) como característica do antropólogo em campo, no que chama de 'anthropological blues', parecia-me interessante enquanto dimensão viabilizadora da transposição lógica do "estranho" ao "familiar" e vice-versa, inerente ao fazer antropológico. Disse, por outro lado, que:

"Estados agudos de 'anthropological blues' podem ser sintomáticos de falta de 'dialogicidade' entre pesquisador e sujeitos, no sentido em que Tedlock (1979) usa este termo; isto é, um procedimento de pesquisa no qual as descobertas são impulsionadas e discutidas através de um 'diálogo' entre os dois polos envolvidos na relação de pesquisa, os quais tenderiam, por essa via, a se aproximarem de uma posição de equilíbrio e identificação" (Sampaio, 1985c: 10-11).

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Não insistirei, também aqui, na necessidade de se fazer uma abordagem crítica, "contextualizada" etc., das crônicas. Mesmo porque parece não haver muito consenso sobre "como" fazê-lo. Para algumas recomendações interessantes no trato com cronistas, ver Oliveira Filho (1982).

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Introduzia assim uma discussão das possibilidades de uma "dialogicidade" na situação da pesquisa, em oposição à fórmula clássica do "estranhamento", do qual o 'anthropological blues' é "sintoma". A "dialogicidade" entretanto, levada a seus extremos, parecia-me buscar uma redução absurda de papéis irredutíveis no processo de pesquisa, com comprometimentos para a "eficácia critica" da investigação. Busquei então algumas brechas que permitissem dizer que:

"Talvez mesmo os dois procedimentos não sejam assim necessariamente excludentes (...). De qualquer modo, se o 'insight' antropológico é realmente uma experiência individual – e até certo ponto solitária como quer Da Matta [pelo menos num momento inicial em que este ocorre] – e tenho a impressão que assim o é, então a dialogicidade tem seus limites, o que também nos parece correto embora não saibamos exatamente onde estão estes e até que ponto possam ser questionados. O que parece claro porém é que a postura de "estranhamento", típica do antropólogo (...), não pode nem deve ser confundida com ausência de compartilhamento com os sujeitos das questões e interpretações" (idem: 11). Compartilhamento que me parecia, em larga medida, viável através das técnicas nãodiretivas, sem prejuízo do "estranho metodológico". O que no fundo pretendia – e certamente sem chegar a respostas muito palpáveis, o que de todo modo não invalida a busca – era procurar algumas medidas de relativização entre as perspectivas que definem o etnólogo como "decodificador" e "tradutor" da cultura nativa, num alto grau de onipotência científica; e aquelas que tendem a encará-lo como mero "interlocutor", ou "testemunha" dessas culturas, ocupado em pouco mais que apenas "fragmentar", pela sua "escritura", a "prática" viva das mesmas. Passaria daí a considerações sobre a inserção do etnólogo em uma sociedade politicamente diferenciada internamente, e de como procurar chegar a posições o mais próximas possíveis de uma equidistância com relação aos diversos "grupos de interesse" presentes. No que diz respeito às relações que viabilizem a manutenção do pesquisador em campo e o seu trabalho de "coleta" de informações, procurei desenvolver, a partir da minha própria experiência, a ideia de "reciprocidade", sempre tão presente nas sociedades com as quais trabalhamos, como orientação, nas suas diversas formas, para estabelecimento de um "modo básico" de convivência e de exercício das necessárias trocas – econômicas e simbólicas – com os sujeitos da pesquisa.

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Coloca-se aqui então o problema das diversas "demandas" que esse sujeito dirige ao pesquisador, de acordo com anseios e expectativas não só com relação à pesquisa, mas ao próprio pesquisador enquanto agente externo "interessado" em seus problemas e aspirações. Dizia então:

"Evidentemente a demanda dos sujeitos pelas muitas formas de relacionamento com os pesquisadores – enquadráveis ou não nas diversas categorias estabelecidas, como clientelismo, paternalismo, intermediação, assessoria etc. – varia de acordo com os níveis de organização, participação e consciência política daqueles próprios, muito mais que em função de posturas adotadas ou sugeridas pelos últimos. Responder, discutir ou desencorajar estas demandas é uma questão pessoal e política a ser enfrentada por cada pesquisador em cada situação particular, e decidida de acordo com sua consciência e sua sensibilidade. Não acredito em fórmulas de uso geral para tanto (...). Pessoalmente tenho procurado me comportar com relação a isto de acordo com diretrizes políticas que me parecem claras e que julgo comprometidas com as causas vitais dos próprios sujeitos, o que não quer dizer que tenha sempre claro (...) o melhor caminho a seguir. A única atitude realmente improcedente entretanto, embora não infrequente, parece-me ser a de tentar fechar os olhos à essas demandas, buscando envolver a situação de pesquisa numa atmosfera artificial de distanciamento e 'neutralidade', claramente impossíveis" (idem: 14-15). Chegava assim enfim, inevitavelmente, a questão mais candente da "participação" do antropólogo nas "lutas" dos segmentos sociais envolvidos em suas pesquisas; e na discussão daquilo que se tem um tanto vagamente definido como "pesquisa participante" (por exemplo em Brandão, 1981), e que é muitas vezes tomado, facilmente, como um "rótulo" capaz de legitimar social e politicamente qualquer pesquisa e, às vezes, em detrimento de uma maior atenção aos procedimentos científicos utilizados. Procurei, naquela ocasião, refletir sobre minha própria prática, reconstituindo a articulação que sempre buscara entre uma "participação" – política – e minhas pesquisas "científicas". Hoje talvez saiba mais claramente da natureza radical e indissolúvel desse vinculo, nos termos em que o expressa Viveiros de Castro (1980), ao comentar posições que: "Consideram o trabalho teórico – dos 'antropólogos acadêmicos' – como irrelevante, alienado, desvinculado das lutas concretas dos povos indígenas. Ao contrário dos que sustentam aberta ou veladamente esta posição, não creio haver nenhuma Cadernos do LEME, Campina Grande, vol. 3, nº 2, p. 88 – 191. Jul./dez. 2011. 158

mesmo a fome e a luta pela terra – em certas situações.. 'Ser índio' é. é cega para o que faz daqueles homens. 3. 159 . Campina Grande. Descobri nesses rituais a busca da afirmação daquilo que realmente os preocupa: sua identificação étnica enquanto grupos diferenciados perante uma sociedade que insiste em estigmatizá-los ao mesmo tempo em que negar-lhes tal condição. e o farei. apesar das crescentes dificuldades que a isto se tenta impor. Ou. assim. Termino aqui tentando voltar à questão inicial deste tópico. e da importância dessa compreensão para estas mesmas "lutas". sobre tudo – por que o parentesco. a mitologia ou a musica são tão importantes para homens que lutam pela terra e morrem de fome. isto é. ser já. uma ocupação quase cotidiana de boa parte dessas populações do Sertão do Nordeste e. Se não pudermos e soubermos entender isso nosso compromisso de antropólogos não passará do estágio de uma indignação abstrata. p. por reduzir a variedade e a riqueza das situações e motivações a uma lógica abstrata. tinha inicialmente um maior interesse pelos rituais. por ser 'terrorista' no sentido que Sartre dá a este adjetivo: isto é. genérica e estéril diante dos crimes contra os índios e de uma solidariedade abstrata e 'humanista' para com essa luta. formalista. O juízo muito comum 'é absurdo estudar parentesco (ou mitologia. através do que pude repensar sobre o meu próprio trabalho. ao terminar a elaboração desse plano de pesquisa. dirigindo meu interesse para as questões da etnicidade. absurdo. necessariamente. quanto as forças que combatemos são cegas para o que faz daqueles índios. cairemos numa prática indigenista concreta que./dez. desta vez. cheguei aos meandros políticos internos e Cadernos do LEME. grifos originais). Reproduzo-o aqui apesar de a situação hoje. há algum tempo atrás. E é certamente por sabermos da eficácia especifica do nosso saber e da nossa prática – antropológicos – na compreensão dessa "luta" específica. ligeiramente diversa: "Ainda apegado a uma imagem 'idealizada' de índios. de fato. em si mesmo. Certamente é absurdo 'estudar' qualquer coisa . que insistimos em desenvolver trabalhos de pesquisa entre povos indígenas no Brasil. nº 2. a da "construção do objeto". pior ainda. 88 – 191. 1980: 5. imaginando estar 'ao lado' dos índios. com os índios. que se recusa intransigentemente a distinguir e diferenciar. como – e. vol. talvez por localizar aí os aspectos culturais mais 'puros' numa sociedade profundamente alterada historicamente.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO contradição em princípio entre a lógica própria da atividade científica e o compromisso ideológico e prático com o trabalho indigenista. homens" (Viveiros de Castro. índios. 2011. (.) Mas o que precisamos nos perguntar – e é esse o trabalho teórico e essa a nossa responsabilidade – é se. Jul. acamponesada e assemelhada à população envolvente.. ou música) quando os índios estão lutando pela terra ou morrendo de fome' é.

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externos por onde passam as discussões e articulações relativas a cada grupo étnico em particular, através dos quais estes constroem seus discursos e viabilizam suas lutas. A etnicidade fornece o suporte ideológico-organizacional de um amplo processo de reconquistas territoriais e, trabalhando com os índios no encaminhamento dessas lutas, descobri a relevância das informações históricas e o próprio interesse que os índios demonstram neste sentido (...). Assim, meus interesses atuais de pesquisa têm a ver com uma tentativa de enfeixar todas estas diretrizes temáticas e pô-las em discussão com algumas questões teóricas pertinentes. Tenho a impressão – e a intenção – que isto possa ser caracterizado como a construção de um objeto de pesquisa junto com seu próprio sujeito" (Sampaio, 1985c: 16-17).

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