DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO

DE CABOCLO A ÍNDIO: Etnicidade e organização social e política entre povos indígenas contemporâneos no nordeste do Brasil; o caso Kapinawá José Augusto Laranjeiras Sampaio

À guisa de apresentação

Por: Maria Rosário de Carvalho

Este texto, elaborado há duas décadas e meia como projeto de pesquisa para a Unicamp, no âmbito da qual o seu autor cursava o mestrado, obteve uma bolsa-prêmio

Este ensaio foi originalmente apresentado em 1986 como projeto de pesquisa ao curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), tendo então obtido "bolsa-prêmio" de pesquisa desse programa. Em 2001 atualizei algumas informações legislativas e etnográficas, quase sempre em notas de rodapé. Por fim, em 2011, fiz pequenas modificações de caráter estilístico apenas.  Bacharel em Ciências Sociais (Antropologia) pela Ufba. Professor de Antropologia na Uneb (Universidade do Estado da Bahia). Membro da coordenação do curso de Licenciatura Intercultural em Educação Escolar Indígena (Liceei) da Uneb. Secretário do Conselho Diretor e sócio fundador da Anaí (Associação Nacional de Ação Indigenista). Pesquisador associado do Leme e do Pineb (Programa de Pesquisa Povos Indígenas no Nordeste do Brasil, Ufba).

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criada por essa instituição para os melhores projetos de pesquisa apresentados ao final da realização das disciplinas, assim como logrou a aprovação de uma bolsa junto à FAPESB, usufruindo de ambas, respectivamente, em 1986-1987 e 1987-1988. Esse êxito preliminar se estenderia pela década seguinte, inaugurando uma nova fase nos estudos sobre os povos indígenas no Nordeste. As dissertações então produzidas ao abrigo do Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro (PINEB), criado por Pedro Agostinho e sediado, desde 1971 (sob a denominação preliminar de Projeto de Pesquisa sobre Populações Indígenas da Bahia), no Departamento de Antropologia e Etnologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, foram por ele muito inspiradas, o que lhe dá um caráter de texto-formador. Inédito até agora, em boa hora o editor dos Cadernos do Leme, Rodrigo Azeredo Grünewald, decidiu publicá-lo, o que constitui um testemunho adicional da sua força entre antropólogos que compartilham o interesse pelo contexto etnográfico do nordeste. O jovem leitor que não o leu e, portanto, por ele não se deixou inspirar, haverá de indagar se um texto escrito em 1986, e sobre temática particularmente permeável a determinações de variadas ordens, terá resistido à ação do tempo. Estou segura que sim, e tentarei, ao longo desta deliberadamente sucinta apresentação, explicitar a minha posição. Dois aspectos se me afiguram especialmente relevantes neste projeto/ensaio, cujo propósito, claramente enunciado em seu longo e descritivo título, é duplo, i.e., tratar da etnicidade e da organização política de povos contemporâneos no nordeste brasileiro, tomando como eixo-condutor a sua transformação histórica (de caboclo a índio) e estreitando o foco para se deter pouco mais no caso do povo Kapinawá. Um duplo movimento, pois, em que o geral dá lugar ao particular ou específico, um informando ao outro de modo complementarmente relacional, mediante o concurso da história, na diacronia e sincronia. Se a especificidade do contexto etnográfico investigado revela-se na diacronia, as suas peculiaridades deixam-se surpreender na sincronia, como parece enfatizar o autor, nas primeiras linhas. Especificidade (histórica) e peculiaridade (cultural) constituem os dois aspectos acima referidos que serão tematizados ao longo do ensaio, não obstante a ênfase incida sobre o primeiro. O caso peculiar, assim apreendido, não corre o risco, tão frequente, de ser tomado como exótico ou decorrente de uma ação meramente instrumental por parte dos agentes sociais. Por outro lado, um outro aspecto a ser destacado decorre do deslocamento teórico que ele opera em relação à abordagem culturalista que, sob vários ângulos, guiou, em larga

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medida, os estudos produzidos entre as décadas de 1970-1980, entre os quais se inclui a minha própria dissertação de mestrado sobre os Pataxó de Barra Velha/Porto Seguro-BA, muito inspirada nas formulações de Roberto Cardoso de Oliveira sobre a fricção interétnica (Os Pataxó de Barra Velha: seu subsistema econômico, 1977). É necessário lembrar, todavia, que a pretensão de Cardoso de Oliveira ao lançar mão dessa abordagem, cujo foco é o sistema de relações sociais, as relações de conflito/poder estabelecidas, era reduzir a força da perspectiva culturalista. Nesse sentido, como o próprio autor enfatizou, muito genuinamente, não foi por outra razão que ele utilizou o conceito de fricção interétnica e não o de aculturação1 (“Problemas e Hipóteses relativos à Fricção Interétnica” In: A Sociologia do Brasil Indígena,1972. p. 85-129. De fato, a noção de fricção interétnica visava à descrição da situação de contato dos povos já incluídos em sistemas interétnicos constituídos ou em processo de constituição, ao passo que a noção de potencial de integração – características do sistema interétnico (econômicas, sociais e políticas) passíveis de serem consideradas como as responsáveis pela integração (p. 89) – asseguraria ao pesquisador efetuar o prognóstico. Mediante a avaliação conjunta do grau de dependência indígena dos recursos econômicos não indígenas; da capacidade dos grupos em contato (indígenas e regionais) para a mobilização com vistas a determinados fins; e dos meios escolhidos para atingir tais fins (p. 88-97) seria possível prever a integração dos índios ao contexto regional. Há, pois, uma correlação entre sistemas interétnicos mais integrados e sociedades indígenas mais dependentes dos contextos regionais, o que permitirá ao autor apreender a determinação do mercado sobre as organizações indígenas, em razão mesmo de ele se apresentar como um grande obstáculo para o seu desenvolvimento (idem, p. 139). Guga Sampaio preconizará que se os apreenda, de modo sistemático, através da mobilização política que eles desenvolviam, e continuam a desenvolver, nos planos interno e externo, para o que utilizavam, e continuam a utilizar, os símbolos indígenas considerados mais eficazes para o estabelecimento da sua distinção em face dos não índios. Entre esses símbolos destacavam-se, tal como ainda hoje, os rituais, sob as modalidades Ouricouri, Praiá, Toré ou Particular e, sobretudo, o uso ritual da jurema. Estudos subsequentes salientariam a especial força ritual na mobilização étnica dos povos indígenas no nordeste. Mais não digo para não retirar do leitor o direito de proceder às suas próprias descobertas e avaliações através da fonte efetivamente autorizada, o autor, a quem saúdo,
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Afinal, nessa década de setenta a oposição sociedade/cultura, entre outras distinções Durkheimianas, havia sido erradicada pela antropologia Lévi-Straussiana.

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O que posso fazer nesta breve nota introdutória. como diria Pierre Bourdieu.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO uma vez mais. de José Augusto Laranjeira Sampaio. pelo arrojo e rigor demonstrados na elaboração deste projeto/ensaio. 91 . um texto erudito que investe no levantamento de fontes históricas e bibliográficas até então pouco frequentadas pelos antropólogos. vol. 3. FFCH-UFBA Uma antropologia política dos indígenas do nordeste? Por: João Pacheco de Oliveira Alguns textos devem ser lidos como unidade pois o autor neles colocou um reconhecível ponto final. deixar portas entreabertas. Associada. É uma leitura prazerosa. Na contramão do ponto final. mera curiosidade. Jul. pontuada por desafios e lutas. que expressam uma dimensão bem diversa do fazer sociológico. Depto. 31 de dezembro de 2011 Maria Rosário de Carvalho Profa. Salvador. refletindo sobre as suas criações (ao invés de naturalizálos ou exotizá-los. nº 2. São. Campina Grande. 88 – 191. tanto na seleção e apropriação das fontes bibliográficas quanto das formulações produzidas. neles o autor se esmera em colocar vírgulas. p. é tocar Cadernos do LEME. As remissões ao contexto histórico onde foram produzidos parecem supérfluas. de Antropologia. 2011. que o LEME ora disponibiliza aos leitores contemporâneos. dialogar e inspirar-se permanentemente com novas demandas e questões. como ainda era a perspectiva dominante no Brasil). uma ampla gama de referências teóricas até aquele momento bem pouco conhecidas e citadas nos estudos sobre indígenas do nordeste. O trabalho De Caboclo a Índio: etnicidade e organização social e política entre povos indígenas contemporâneos no nordeste do Brasil: o caso Kapinawá. Destacase sobretudo o esforço do pesquisador efetivamente empenhado em ouvir os indígenas e tomá-los como sujeitos históricos. atos de combate. Outros respondem a inquietações múltiplas e constituem sínteses provisórias em uma trajetória mais rica. deve a meu ver ser lido com mais fecundidade nesta segunda sintonia. Muito se pode aprender com este texto! Seria uma tarefa inesgotável e mesmo insana recuperar os seus muitos méritos e buscar aplicá-los a debates recentes./dez.

Marc – Local level politics. ministrado por Otávio Velho e por mim (então como professor assistente e doutorando). debatendo com diversos autores ingleses e norteamericanos (como Victor Turner. Foi esta a abordagem que norteou a minha monografia sobre os Ticunas. tese de doutorado defendida somente em 1986. enquanto Otávio Velho seguia em outras direções. inspirando trabalhos de pesquisa não necessariamente relacionados com indígenas (inclusive vários destes são citados por Sampaio em sua alentada bibliografia. 3. nº 2. Nos anos seguintes várias vezes este curso foi ministrado no MN. Victor. Cadernos do LEME. 92 . possam ajudá-lo a percorrer ao reverso. Jul. os vinte e cinco anos que nos separam da elaboração deste texto. and Tuden. O leitor atual certamente buscará uma unidade teórica de referência. É em uma direção bem diversa que se move Sampaio (1986). b) os trabalhos mais sociológicos (baseados na noção de fricção interétnica)./dez. (Eds) – Political Anthropology. São aspectos que podem surpreender ao leitor atual e. 1969. espero.Political Anthropology. Campina Grande. O uso mais sistemático dessa bibliografia na pós-graduação no Brasil iniciou-se com um curso oferecido no PPGAS/Museu Nacional. em 1978.Marc. conectando a disciplina de “antropologia política” no Brasil aos trabalhos dos africanistas ingleses (Evans-Pritchard e Fortes) e mais especialmente a chamada “escola de Manchester” (sobretudo Max Gluckman) bem como aos estudos sobre etnicidade (Fredrik Barth). p. Richard Adams e Raymond Fogelson) que a partir de duas coletâneas do final dos anos 60 e de outra na década seguinte. O programa incorporava no entanto outras preocupações (ausentes naquelas coletâneas). Swartz. foram com certa frequência agrupados sob o rótulo de “antropologia política” 2. Eu alternava esta disciplina com o curso que oferecia sobre “relações interétnicas”. 1978). 2011. Ou seja. Marc Swartz. 88 – 191. Neste ano à convite de Mariza 2 Vide Swartz. Tais alternativas seriam: a) a tradição dos estudos culturalistas (onde a categoria de aculturação imperava por décadas). a partir de que matrizes disciplinares (para recuperar aqui uma expressão de Roberto Cardoso de Oliveira) o autor constitui seu objeto e propõe as questões antropológicas a investigar? Embora dialogue amplamente. A.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO em pontos que me aproximam bastante do seu autor em termos de postura intelectual e política. Richard . vol. publicada em 1988. Fogelson. Raymond & Adams. 1966. Turner. a sua análise não se inscreve de maneira alguma em escolhas anteriores e então facilmente acessíveis. mas terminada de fato em 1984. ou c) as analises baseadas no método estruturalista (na época ainda iniciantes no Brasil e circunscritas aos trabalhos de Roberto da Mata). própria de um leitor voraz e meticuloso). seja naquele contexto de produção do texto seja em ocasiões posteriores em que as nossas trajetórias se entrecruzaram. não como história mas como arqueologia.

pensando incorporá-las a partir de uma experiência de campo (que faria em Pernambuco. em texto citado por Guga (como “manuscrito”) e que de fato não cheguei a publicar. Além das demandas práticas sobre os antropólogos – laudos judiciais e relatórios de identificação de terras – havia uma forte importante convergência teórico-bibliográfica nestes estudos. seu colega de turma. agora também em vias de publicação. 88 – 191. Moacir Palmeira e aos trabalhos do Cadernos do LEME. p. onde se beneficiava do convívio com Pedro Agostinho e Rosário Carvalho). ministrando a disciplina “relações interétnicas”./dez. acho eu. reelaborando o seu material Capinawá. 2011. em uma editada pela ANPOCS). voltei a debater mais extensamente com Guga e colegas de ANAI e PINEB durante um período que estive na UFBA como professor-visitante. seja nas discussões durante os seminários seja em conversas informais. sendo recomendado para publicação na RBCS (o que acabou acontecendo em 1996. em 1994. de doutoramento sobre os índios Canellas (MA). vol. nº 2. O mesmo viés analítico pode ser encontrado no trabalho de Adalberto Rizzo de Oliveira.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Correa. 93 . a ênfase nos anos 90 deslocando-se crescentemente para a “etnicidade” (pensada segundo a perspectiva 3 No próprio Museu Nacional a linha de pesquisa que nos últimos 15 anos tem lecionado esta disciplina é de estudos sobre “a antropologia da política”. referida sobretudo ao prof. pois aqui entra em cena não apenas o autor. O uso do termo “antropologia política” progressivamente se esgarçou3. mas o homem em sua trajetória). com os Capinawás). Jul. o que antecipava um importante debate futuro sobre identidades étnicas e modalidades de reconhecimento. Aprendi com ele muito sobre os índios do nordeste. A comunicação apresentada por Guga. bastante visível no projeto de pesquisa que concluiu dois anos depois. A única ocasião em que lidara anteriormente com dados e estudos dessa procedência fora no âmbito de um estudo comparativo sobre os indígenas enquanto uma modalidade de campesinato de fronteira. Estimulado pela qualidade das pesquisas ali em andamento propusemos um GT na ANPOCS onde vieram a cruzar-se pela primeira vez os estudos de coletividades indígena do nordeste com os então iniciantes estudos sobre quilombolas. O mote porém da antropologia política (ao menos na versão abrasileirada) estava. Dez anos depois do curso na UNICAMP. foi um destaque deste GT. 3. em monografia muito posterior. então coordenadora da pós-graduação da UNICAMP. eu dei um curso naquela instituição. Campina Grande. Em movimento simultâneo Guga começava a sistematizar suas fontes de informação sobre os índios da Bahia (advindas da ANAI-BA e do PINEB/UFBA. quando vim a ali conhecer Guga (permito-me chamá-lo assim.

a sólida base de conhecimentos que precede ao projeto de pesquisa./dez. Guga continua a ser uma referência imprescindível para os estudos e políticas relativas aos indígenas do nordeste. 94 . mas na qual se incluía o trabalho de sua colega Sheila Brasileiro sobre os Kiriri (objeto de sua dissertação de mestrado na UFBA). Volto à metáfora da vírgula e do ponto final. Intitulada A Viagem da Volta: etnicidade. assim como as hipóteses arrojadas e inovadoras formuladas. 2011. vol. bem como para sua separação das suas repercussões e responsabilidades sociais. Cadernos do LEME. 88 – 191. p. Antropologia do Colonialismo e Antropologia do Território. O leitor atual pode estranhar a extensão (103 pgs). um analista arguto e atualizado no debate sobre políticas públicas. como parte de uma antropologia do conhecimento). numa conjuntura onde há crescentes pressões para uma especialização entre os domínios da antropologia. João Pacheco de Oliveira.UFRJ Rio de Janeiro – dezembro de 2011 NUAP. Jul. tão rico mas ao mesmo tempo tão distante (a ponto de nos propiciar reunir alguns dados fragmentários para uma arqueologia dos estudos sobre os índios do nordeste). Professor Titular de Etnologia do Museu Nacional . Em uma breve visita que fiz a Salvador em 1986 Guga me entregou uma versão deste texto. a extensa bibliografia (cerca de 30 pgs). Fiquei surpreso e muito satisfeito ao deparar-me com o excelente resultado. É com tal amplitude e a disposição em enfrentar desafios cada vez maiores que devemos debater os padrões profissionais de trabalhos dos antropólogos brasileiros. Campina Grande. edição acontecendo em 2004. uma 2a. 3. tal coletânea têve sua primeira edição em 1999. como Antropologia Histórica. direitos e mobilizações indígenas. A classificação do texto como um projeto de pesquisa se reporta menos a características encontráveis hoje em projetos de pesquisa do que a uma estratégia conjuntural do autor.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO de Barth. comentando que era o trabalho final do curso na UNICAMP (que na realidade ainda não enviara). As minhas entradas de curso tem sido outras. política e reelaboração cultural no nordeste indígena. Mesmo dando à público este projeto de pesquisa. O exemplo mais articulado desta nova direção será uma coletânea da qual Guga não participou (por estar envolvido no momento em outras pesquisas). nº 2. uma figura importante nos debates atuais sobre laudos e perícias antropológicas.

Jul. I. nº 2. o caso Kapinawá José Augusto Laranjeiras Sampaio "Antigamente nós era conhecido por 'caboclo'. 1981 a 1985). 65 e 67 (1984) e 76 a 79 (1985).. De 'caboclo' passou para 'índio'. perante o Estado e a sociedade nacional. Carvalho (1982b. 88 – 191. 3. 1984 e 1988). Magalhães (1980). As publicações da Comissão Pró-Índio (1979. Beltrão (1980). maio de 1979)." (Josias Patrício. e que. p. vem atingindo. conselheiro e ex-cacique kirirí – entrevista em Mirandela.. Cadernos do LEME. Tais situações. o jornal "Porantim". 95 . 1981. 52/53 e 57 (1983). vol. Antunes (1984). Lea (1981). 2011. ou. Campina Grande.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO DE CABOCLO A ÍNDIO: Etnicidade e organização social e política entre povos indígenas contemporâneos no nordeste do Brasil. analíticos sobre a situação destes povos à época são: Anaí-Bahia (1980 e 1985). especialmente os números de 42 a 46 (1982). Figueiredo (1981). Bahia. em igual período. bem como uma crescente mobilização dos primeiros no sentido de fazer valer. em igual período. frequentemente noticiadas tanto pela imprensa regional quanto pela grande imprensa nacional1. por sua vez. 61. Por uma investigação sistemática de processos étnicos em segmentos sociais indígenas no sertão do nordeste do Brasil Introdução Desde meados da década de setenta do século XX se tem observado um número crescente de casos de tensão social e de conflito agrário envolvendo segmentos indígenas e parcelas da sociedade regional no Nordeste do Brasil. se articula com fatos e mudanças sociais e políticas que dizem respeito ao Estado e à sociedade nacionais. sem duvida não se constituem em um fenômeno particular ao Nordeste mas sim em uma parcela da mobilização que. 1982 e 1983) informam e discutem algumas das questões políticas e legais que interessam diretamente aos índios no Nordeste. Alguns dos trabalhos informativos e. os direitos pertinentes à sua condição étnica. Reesink (1983). 1 Uma boa síntese destes noticiários na primeira metade dos anos oitenta pode ser obtida na publicação anual "Povos Indígenas no Brasil" (Aconteceu. Dallari e Dantas (1980)./dez. CONDEPE (1981). Carelli (1984). ainda que em níveis e de formas diversos. Veja-se também. amplos segmentos dos povos indígenas no Brasil. Rocha Júnior (1982 e 1983) e Sampaio (1984).

500 índios. para a discussão de "integração" e categorias afins como "aculturação" e "assimilação" e suas aplicações a diversos casos no Brasil. registrando-se considerável mestiçagem e perda de elementos culturais tradicionais. 1964 e 1967) e Cardoso de Oliveira e Faria (1969). profundamente envolvidos econômica e culturalmente.. da União das Nações Indígenas (UNI)... sem falar . Cardoso de Oliveira (1960.à exceção dos Fulni-ô . e fenotipicamente muito assemelhados. segundo penso.outra língua que não o Português./dez. certamente um marco nesse processo. 3. Ribeiro (1970). em 1980. Por sua vez. com a qual se encontram.) imersos em sistema monetário de natureza capitalista (." (Idem: 5) Veja-se também Schaden (1967). em média. Cadernos do LEME. do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O que parece dar um caráter específico e até certo ponto surpreendente aos movimentos indígenas no Nordeste está relacionado com a própria história e com as características culturais atuais destes povos. "decorridos quase cinco séculos de contato com o 'homem branco'. com preocupações 2 Sobre os índios no Nordeste diz Galvão (1959): "População estimada em 5. da população regional envolvente.) aqueles indígenas encontram-se integrados à economia da região. associações indígenas de caráter multiétnico. um tanto inconvenientemente. também. peculiares. em 1972. segundo qualquer das variantes da noção de "integração" e suas correlatas em perspectivas teóricas diversas2. 96 . essas sim. 1959: 225) Já Amorim (1975) diz: "(. caso-limite no processo de integração do índio à sociedade brasileira. 88 – 191. Jul. "a questão indígena" pode ser assinalado.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Por outro lado. os indígenas daquela região configuram. com mais ênfase que em outras situações. quando não indiferenciáveis. da criação. e do surgimento de várias associações de "apoio ao índio" em diversos estados a partir de 1978." (Galvão. os próprios povos indígenas passariam a constituir. o envolvimento crescente desses Estado e sociedade naquilo que se tem correntemente denominado. no âmbito da Igreja Católica. Com cerca de. é certamente compreensível que. 2011. nº 2." (Amorim.. já ao final daquela década. trezentos anos de contato intenso com a civilização européia. o movimento dos índios no Nordeste se caracterize por um grande esforço político de articulação interna e externa e pelo acento e pela elaboração simbólicos e ideológicos intensos em torno dos atributos culturais identificáveis como indígenas. Deste modo. a partir da promulgação do Estatuto do Índio (Lei 6001 de dezembro de 1973). configurariam um caso extremo do que os estudiosos do "contato interétnico" no Brasil costumavam classificar como "índio integrado". sem dúvida. com a criação. no dito período. p. inclusive a língua. vol. Campina Grande. A maior parte vive integrada na população regional. 1975: 4) E.

particularmente tendo em vista o fato de que elas foram. seja por parte da própria agência indigenista federal. seja a iminência inevitável da sua dissolução e incorporação completa aos estratos inferiores da sociedade nacional7.e cuja situação. nº 2. o caso Kapinawá. Pierson (1981) e Motta & Mello (1982) para o caso kapinawá. os poucos autores que se interessaram em estudar estes povos no século XX antes dos anos 70 em geral concordam em ressaltar seja sua "obstinada resistência" em permanecer indígenas apesar da quase inviabilidade disto6. 1960a: 59) 7 Por exemplo. (.será com certeza de interesse para historiadores e antropólogos. 97 . Campina Grande. Por enquanto. como Kapinawá.) têm por finalidade apontar que o sentido de agrupamento tribal está se dissolvendo e confundindo-se na configuração geral da sociedade local de Porto Real do Colégio. Voltarei adiante a estes processos. Wasú. Cadernos do LEME. como os Fulni-ô. 88 – 191. bem como o caráter particular do contexto indígena regional no qual ela se insere. ou ainda Sampaio (1984). assistidas desde pelo menos meados do século XX pelo governo federal.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO muito nítidas em delimitar fronteiras sociais e em estabelecer distinções perante a sociedade nacional de modo a marcar suas especificidades enquanto entidades sociais e étnicas diferenciadas." (Trujillo Ferrari. 1960a e 1960 b). que peleja contra forças sempre superiores. Pankararú. 3. Oliveira (1937: 173). Encontram-se considerações semelhantes relativas a outros casos em Amorim (1971) e mesmo em Silva (1978). Bandeira (1926: 20). por exemplo. 1957: 82). cujos "aparecimentos" provocaram. e a matéria "As Concepções de Indianidade do Coronel Zanoni" (Aconteceu. A emergência destes povos. apesar de levantamentos históricos bastante simples poderem confirmar a pertinência da "indianidade" em todos os casos5. Este último autor diz: "O que é surpreendente é que. 6 Por exemplo. 5 Veja-se. 3 4 A "extinção" destes grupos pode ser verificada em Nimuendaju (1946) e em Ribeiro (1970).. especialmente durante o hiato entre o fim da Junta das Missões e o estabelecimento da Diretoria Geral dos índios. em suas conclusões a respeito dos Karirí de Colégio. 1982:82-83) para o caso Tingwí-Botó. seja por parte de segmentos da sociedade e dos poderes públicos regionais. a despeito da passagem de quatrocentos anos de dominação cultural européia. sujeitas a muitas perseguições pelos colonos brancos do local. diz: "As considerações acima. por exemplo. certamente coloca questões teóricas e políticas de relevância. gostaria apenas de referir que eles atingem não apenas as etnias historicamente conhecidas e bem identificadas na região. Trujillo Ferrari (1957). 2011. Pankararé. p. tanto surpresa quanto desconfiança quanto à sua "autenticidade". tratado adiante e em Carvalho (1982b). vol. também entre a extinção desta diretoria e a chegada do Serviço de Proteção aos índios na região. analisada mais profundamente. Conforme. mas também grupos até então considerados extintos – Pataxó. Estamos assim diante de um caso verdadeiro de persistência cultural. Karapotó3 – e sobretudo outros que adotam denominações étnicas desconhecidas na literatura. por tantos anos. Jul.. Com efeito. ou trabalhos do próprio âmbito administrativo da agência governamental sobre estas etnias como Magalhães (1980) e Beltrão (1980). a Fundação Nacional do Índio (Funai)4. num primeiro momento. Tingwí-Botó. Hohenthal Junior (1954: 94./dez. Kirirí e Potigwára." (Hohenthal Junior. essas pequenas comunidades indígenas ainda sobrevivem.

2011. engajados na economia regional. 9 Ver especialmente páginas 178 a 180. vol.e a consequente tendência à proletarização dos índios. since the ones who are forced to look for a job outside their tribal setting should disguise themselves in order not to be stigmatized by the various prejudices against the indians. ilhados num mundo estranho e hostil e tirando dessa mesma hostilidade a força de permanecerem índios. bastante recorrente na literatura. não pela sua "perda" mas por uma revitalização e por reelaborações bastante 8 "These tribal groups have been reached by a progressive proletarization process." (Idem: 57). Ribeiro diz.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Escrevendo já em 1970. identificando o processo de concentração da propriedade fundiária com uma crescente pressão sobre os territórios indígenas já insuficientes .estejam sendo acompanhadas. após breve relato da situação nos diversos grupos então melhor conhecidos. como se verá. Mas diz também: "Eis o que restou no século XX dos índios do interior do Nordeste.e à possibilidade da manutenção de uma economia camponesa8. Cadernos do LEME. Vale ressaltar que esta ideia de situação limite é também. 88 – 191. p. 1970: 56). no plano da etnicidade. que: "(. It means that it will became necessary to sell manpower to the white man. ou melhor. Numa primeira tentativa de estudar os povos atuais na região enquanto um conjunto etnológico. na "perda da identidade étnica" (Amorim./dez. já que esta se acha profundamente vinculada à posse de um território grupal . Together with this it will gradually occur the loss of ethnic identity that still exists. ainda que se apresente sob perspectivas diversas de analise. 98 . e empenhado na formulação de um modelo de campesinato indígena. the only way to assure the indispensable acquisition of money.as "reservas" . conclui que tal situação implicaria. já estaria implicando.. identificadas por Amorim no inicio dos anos setenta e mesmo por autores anteriores como Oliveira (1937)9 – para não se falar também na farta documentação histórica . 3. ressalta em uma perspectiva que me parece bastante limitada quanto à posição do Estado na questão . Jul. 1975: 17). 1975: 1). Que as pressões sobre os índios e seus territórios. Amorim." (Amorim. Campina Grande.apesar das garantias legais e proteção estatal. O mesmo acontece com relação à sempre referida importância do papel diferenciador da hostilidade.. in proportion to the insufficiency of the 'reserves' in allowing the independent work of all their group.) assim viviam os seus últimos dias os remanescentes dos índios não litorâneos do Nordeste que alcançaram o século XX" (Ribeiro. Pelo menos tão índios quanto compatível com sua vida diária de vaqueiros e lavradores sem terra. nº 2. simples resíduos.

sem possuir. tinha-se. 88 – 191.já viviam processos reivindicatórios com vistas ao seu "reconhecimento oficial" pelo Estado15. bem como da própria etnicidade enquanto fenômeno social. de onze grupos com cerca de 13. Aconteceu (1984 e 1985). Vale ressaltar que.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO efetivas que. é o que me parece se constituir no aspecto central a ser tratado no sentido de uma compreensão mas exata do que ocorre. há. enquanto pontos de referência para estas preocupações. Eram apenas 5. 15 Quinze anos após este escrito original. p.eram já indiretamente conhecidos de alguns estudiosos. Cadernos do LEME. não deixam de reafirmar uma estreita vinculação dessa etnicidade com uma "territorialidade"10. principalmente através de ligeiras referências a eles em Oliveira (1937) e. dentre estes. 99 . Barth (1984) e Carneiro da Cunha (1985). em 2001. Xokó em Sergipe. Tingwí-Botó e Wasú em Alagoas e Kapinawá em Pernambuco . nas importantes contribuições de estudos de caso como os de Cohen (1969). qualquer parcela de território minimamente significativa em termos econômicos. trinta e três povos indígenas com uma população de aproximadamente 70 mil índios e habitando trinta e sete territórios indígenas (Anaí. Campina Grande. à época da deflagração dos seus movimentos de reivindicação étnica em fins da década de setenta. em Hohenthal Junior (1954 e 1960a). ou. O que interessa aqui propor é.500 pouco mais que quinze anos antes segundo Galvão (veja-se a nota 2 acima).uma etnicidade 10 11 Conforme Carvalho (1984 e 1988). pois.000 indivíduos assistidos por postos indígenas da agência governamental em 197512. na referida região. pelo menos dois dos quais . 2001).os Karapotó de Alagoas e os Tapeba do Ceará . nº 2. alguns se encontravam já totalmente proletarizados. Os seis povos reconhecidos pela Funai em 1985 e que não o eram ate muito recentemente . dezessete povos etnicamente diferenciados. de setembro de 1985. ou tende a ocorrer. em igual número de áreas e postos indígenas13. número 79. sem dúvida. Além desses. que deles obtiveram informações junto a outros grupos indígenas. 12 Conforme Amorim (1975: 2). ou do seu alcance como categoria de analise em contextos sociais pluriétnicos ou pluriculturais11.Pankararé na Bahia. haviam então outros grupos cuja persistência étnica já se podia vislumbrar por fontes e relatos diversos. 13 Funai (1983). com uma população de cerca de 27. Jul. apenas dez anos depois. com grupos étnicos em tais situações. vol. a investigação sistemática da produção e reprodução de uma consciência étnica social e politicamente orientada . caso dos Tingwí-Botó em Alagoas e dos Xokó em Sergipe. 14 "Porantim". Penso aqui. 3.000 pessoas14. na faixa compreendida entre o Norte da Bahia e o Piauí. 2011./dez. entre outros. De fato.

3./dez.) e a constituição simultânea da comunidade que se pauta por ela. A partir de etnografias mais completas e da discussão das produções analíticas parciais se poderá então propor a formulação de modelos mais gerais que possam dar conta dos processos e estruturas organizacionais e simbólicos que revestem o fenômeno da etnicidade no referido contexto indígena regional. A relação entre o problema teórico proposto .. a título de breve ilustração. sociais e simbólicos16 – e a escolha dos povos indígenas no Nordeste como sujeitos de investigação. que a partir de uma tal perspectiva de unidade histórica regional. Sem dúvida. 1969.) nos processos de identificação étnica assistimos a uma dupla e indissociável gênese: a formação de uma cultura (. e pensando em um mesmo sentido em que Barth (1984) ou Carneiro da Cunha (1985).. como já se poderá antever pelo exposto acima.. para ser mais precisa. na "dupla gênese" de que fala Carneiro da Cunha: "(. Cohen. exige. para o caso dos segmentos sociais indígenas em situação ou em processos contemporâneos de "emergência" étnica e política. no âmbito de determinados processos sociais. vol. no sertão oriental do estado de Pernambuco. por outro lado. 1979) . Campina Grande. tais como as determinações do campo socioeconômico regional ou local tomando aqui o sertão como unidade sociogeográfica relevante . a afirmação étnica é uma preocupação constante e um componente organizacional angular na vida social desses povos e disto provém uma rica e 16 Penso aqui. a qual. p. Cadernos do LEME. tendo em vista a proposição preliminar de algumas generalizações como. Penso. tomando nessa perspectiva o conjunto de práticas políticas e culturais nas formas variáveis em que se apresentam em cada caso especifico. Carneiro da Cunha.os movimentos indígenas nos planos regional e nacional. Pretendo aqui caracterizar os indígenas na região como uma unidade etnográfica e política historicamente constituída. A elaboração do tema central de investigação. ou de etnicidade. ocasional. 100 . de um destes casos. o dos índios Kapinawá. tanto um aprofundamento histórico que permita compreender a gênese de suas situações atuais. Tratarei. nº 2. basicamente. por exemplo. quanto à avaliação de suas posições estruturais perante contextos sociais significativos mais abrangentes. 1985: 206). não é. essa cultura serve de peso e de medida" (Carneiro da Cunha. o indigenismo oficial em suas diretrizes e práticas etc. 2011. 1969. se poderá estender mais consequentemente a investigação etnográfica a casos diversos em particular. Jul. tanto com relação ao contexto regional tratado quanto aos seus casos particulares.a constituição de identidades étnicas.entre os povos indígenas que vivem hoje na faixa de Sertão do Nordeste brasileiro.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO (Barth. seus componentes e determinantes políticos.. 88 – 191. tal como aqui concebido.

Gómez Quiñones (1982) e Varesi (1982).avaliações do futuro de diversas "situações de contato" envolvendo sociedades indígenas no Brasil. pelos próprios fatos. significativamente esta perspectiva. necessariamente revistas pelos seus autores e. e a correspondente insuficiência teórica no sentido da compreensão destes processos étnicos e da sua contextualização. há uma série de questões jurídicas e políticas apenas ensejadas por debates como os aqui referidos. veja-se. mais que isto. bem como desses povos.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO intensa elaboração política e simbólica cuja compreensão será certamente fértil e elucidativa a respeito destes processos. 3. Entendo que é justamente a ausência de um maior interesse de investigação. nem a imagem cada vez mais distanciada do real do "silvícola". p. que se mantém diferenciado apenas em função do próprio distanciamento social./dez. no supra referido contexto do final dos anos setenta e início dos oitenta. 101 . Primov (1980). pois. 1984. Rocha. Em um país em que tanto na legislação17 quanto na "consciência nacional" (Cardoso de Oliveira. na importância que deve ter hoje a discussão da plurietnicidade desta sociedade19. Cardoso de Oliveira (1984). de estabelecimento de "Critérios de indianidade" ("Porantim" 38. o "índio assimilado". 1965. a "questão da emancipação" (Comissão Pró-Índio. como as contidas em etnografias como as de Wagley e Galvão (1949). dentre outros. Para outros casos de presença indígena em sociedades nacionais na América Latina. e num momento de redefinições da própria sociedade nacional. esta canhestra formulação teórica que busca a conceituação formal de "não-índio" ou de "ex17 Refiro-me aqui em especial ao "Estatuto do Índio". 1979) e a tentativa. por iniciativa do próprio indigenismo oficial como. 1982. 1983). 18 E bem ao contrário do que tende a ocorrer em outros países americanos. Laraia e Da Matta (1967) e Amorim (1971). de 1973. Jul. nem a do seu oposto lógico e também cada vez menos sustentável no real. quase sempre. igualmente "emancipatória". especialmente para o caso dos índios no Brasil. é inegável que os índios do Nordeste e sua identificação étnica têm estado no epicentro de polêmicas questões políticas e legais levantadas.e em geral funestas . Cadernos do LEME. 88 – 191. A Constituição Federal de 1988 alteraria. 2011. em seus artigos 231 e 232. 1988) o índio ainda é concebido antes como o "silvícola" distante18. Sampaio. que está na base da falência de algumas notórias . Não cabem aqui. e para as quais um melhor entendimento da situação das etnias indígenas contemporâneas no Nordeste do Brasil certamente terá muito a contribuir. vol. Carneiro da Cunha. nº 2. de suas lutas atuais e passadas e das expectativas com relação ao futuro que orientam as suas praticas. Além disso. 19 Para uma abordagem das discussões a respeito de sociedades plurais ou multiétnicas veja-se MayburyLewis (1984) e aí. discussão que só tem sentido na medida em que se considere os segmentos indígenas como parcelas etnicamente diferenciadas mas amplamente participativas nesta sociedade. Penso aqui especialmente. Campina Grande.

and turned into man-eaters. 2011. Hemming (1978) sintetiza bem o que foi ou. Ilhéus e Pernambuco escravizada ou reduzida em aldeias missionárias em rápido declínio (Hemming. inclusive no sentido em que a ele. 1978. 1945). Most of the tribes displaced by the cattle have disappeared. os d'Ávila. which used to require so little food. foi a vez dos índios do Sertão. The native resistance to this cattle invasion was one of the most important stages in the conquest of the Brazilian Indians.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO índio". houses. no século seguinte. não se deve reconhecer nem se legitimar . algo próximo da ideia nativa de "caboclo". p. senhores da Casa da Torre20. Aqui. Jul. quando esses se encontravam já quase que completamente dizimados pelas epidemias e guerras havidas principalmente no governo de Mem de Sá (1557-1572) e com a maior parte da sua população sobrevivente nas capitanias da Bahia. embora marginal. Campina Grande. nº 2. melhor./dez. Thomas More wrote in 'Utopia’:’ These placid creatures. pelo seu poder. A penetração nessa vasta área foi feita de início principalmente a partir da Baía de Todos os Santos e através de numerosas boiadas conduzidas pelos grandes sesmeiros. Já na segunda metade do século XVII fundaram-se missões jesuíticas na rota das boiadas. o que hoje sabemos da história do Sertão no século XVII: "Once cattle moved into an area they displace human beings. It was also the worst recorded.pretensões de distintividade étnica. Índios no sertão: um esboço histórico Se o século XVI foi marcado pelo contato entre o colonizador e as diversas tribos tupí que dominavam o litoral nordestino. towns. dentre os quais se destacaram. vol. Leite. The natives left no written record and no one recorded their version of the fighting. um personagem concebido como "integrado". 1978: 346) Na trilha das boiadas seguiram os missionários. Cadernos do LEME. everything goes down their throats'. entre a capital da colônia e o rio 20 Há uma boa história desta dinastia por Calmon (1939). as always. Fields. there is nothing from the Indian side. The Tapuia tribes were forced to surrender their homes and huntinggrounds to provide grazing for these imported animals. 3." (Hemming. 88 – 191. a compreensão da situação dos índios no Nordeste e de sua mobilização política atual reveste-se de uma relevância científica e pragmática destacável. mais uma vez. have now apparently developed a raging appetite. 102 .

permanece até hoje. até certo ponto. para instalação de índios e missionários" ("Informação. Willeke e. nos locais das atuais capitais dos estados de Paraíba. 23 As prolongadas guerras entre os portugueses e os Potigwára são bem conhecidas. mais preocupados com registros que os portugueses. Beozzo. 1980. O Frei Martin de Nantes. Enquanto as boiadas se expandiam na capitania da Bahia. 1978. Hemming. 22 Transcritos em "Informação. mas foi se transfigurando paralelamente à copiosa legislação a esse respeito nos séculos XVII e XVIII (Leite. que deve ter contribuído para o processo de concentração de população e de etnias indígenas dispersas. em quadra. Certamente essa legislação. com alguns dos quais foram os 21 Seria interessante comparar os relatos desses historiadores missionários com relação a estas disputas que envolveram diferentemente as principais ordens .e./dez.". 1707). 3. também juridicamente . principalmente. 2011. capítulo 8). 1988). 1982. Rio Grande do Norte e Ceara23. nº 2.) 21. 1945. 1937. Os holandeses desarticularam as missões já existentes na costa (Leite. 103 . Jul. um dos protagonistas desses episódios. Leite. Com base neles e em documentos posteriores a eles associados fundamentam-se historicamente .DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO São Francisco e.os direitos e as pretensões territoriais de boa parte dos povos atuais na região (Dallari e Dantas. e que cada uma seja composta de pelo menos cem casais. Há também uma vasta documentação acerca deles nos arquivos das ordens (Regni. por exemplo em Gouvêa (1590). Willeke. Na verdade. Campina Grande. 1974. com intervenções de ambas as partes junto ao Governo Geral e à Coroa. Infelizmente faltam-nos relatos na perspectiva da terceira parte envolvida. não pôs fim às disputas territoriais.e. de jesuítas. deixou um interessante relato desses e de sua política (Nantes. Primério. muitas mais às margens desse rio. Veja-se também Hemming (1978. Cadernos do LEME. ops.do historiador dos sesmeiros (Calmon. Os conflitos entre sesmeiros e religiosos dão a tônica deste período. do mesmo modo. 1945) mas.. Regni. ao norte do São Francisco os colonizadores e suas missões restringiam-se ainda à zona da mata quando da ocupação holandesa de 1630.que quase não os menciona . por outro lado.. p. 1983b e 1984). Um desfecho parcial dessa situação é marcado pelos alvarás régios de 1700 (23 de novembro) e 1703 (22 de maio) 22 que determinam que "a cada missão se dê uma légua de terra." (1749: 393-4 e 384 respectivamente). apenas no inicio daquele século haviam se estabelecido as primeiras fortificações coloniais no território dos Potigwára. 1939).. 1945. 88 – 191. Baumann. em seguida. Reesink. entretanto. comparar esses com o relato .. vol. cits. A importância daqueles alvarás. deixaram importantes relatos e iconografia sobre alguns povos indígenas do Sertão. capuchinhos e franciscanos (Leite. do mesmo modo que a questão intimamente relacionada da liberdade dos índios não se encerrou. 1749: 393). 1983).

nos documentos da Companhia de Jesus. Quanto à iconografia. são os que moram na costa. 1698 e 1699) 26 . que são filhos de índia com negro. nº 2. 1709) e Norte da Bahia (Mamiani. como no sertão.". Évreux. 2011. apenas Serafim Leite reproduz documentos de interesse etnográfico. 104 . Herckmann (1639). Ikó etc. 88 – 191.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO primeiros a contatar pacificamente24. e não falam uma língua geral. refiro-me principalmente às telas de Albert Eckhout.Payakú. e no sertão chamam a estes salta-atrás" ("Informação. encontramos algumas informações sobre os aldeamentos missionários e as práticas dos seus dirigentes. além de fazer várias referências ao que há de mais importante em Cronistas da Companhia como Vasconcelos (1663) e Vieira.Pretos . com referência aos falantes da"língua geral". 1749: 484). Cadernos do LEME. 1614. que são filhos de brancos com negras. aldeados na zona da mata e que haviam lutado ao lado dos portugueses. Mamelucos. Tapuyas. como outros povos que tiveram contatos pacíficos com os "flamengos" .. e em distinção aos "índios bravos". Caribocas. vol. como a carta do Padre Manuel Correia (1693) a respeito do ritual do Varakidzã. Beck (1649). 24 Os principais relatos da época disponíveis em português são os de Laet (1633). 26 Tem-se em Rodrigues (1948) um bom exemplo de aproveitamento etnológico dessas obras. Merece menção ainda o relato de Mascarenhas (1716) sobre os Proká do São Francisco. aliados seus que dominavam os vales do Apodi e do Piranhas e que. 1945: 276-8 e 298-9). A estes naturais é comum o nome de índios. Jul. que também lhe chamam mestiços. Nantes. 1945) 25.. 1625. Deles provém quase tudo do pouco que hoje se sabe sobre os Otxukayana (que em geral aparecem como Janduí ou Tarariyú nas fontes lusitanas)./dez. Caryóz. 1587) e no Maranhão (Abbeville. entretanto. são os naturais da terra. não há nada de significativo. tanto aos que vivem na costa. 3. . 25 Um cronista anônimo do século XVIII reserva as últimas linhas do seu extenso relato para definir as "Qualidades de pessoas de que se compõe o Pays": "Brancos . 1614) trazem apenas informações imprecisas e muitas vezes fantasiosas sobre os "Tapuias". também em Röwer (1942). que são filhos de índia com branco. Barléu (1659) e Nieuhof (1682). karirí ou não (Leite. aparentemente praticado por diversos grupos. senão cada nação a sua particular. Calderon (1970) e outros. o termo "caboclos". 27 Além dos já citados. os "Tapuia" do Sertão (Leite. Baro (1651). com relação ao Sertão. Os cronistas que produziram tão boas descrições dos Tupinambá na Bahia de Todos os Santos (Cardim. e também dão o mesmo nome aos filhos de mamelucos com negra. especialmente importados para tal. Caboclos. que vivem no sertão. p. 1707. Soares de Souza. Para o período anterior a 1630. Dos historiadores missionários27. além dos holandeses. Campina Grande. Para o século XVII e início do XVIII dispõe-se. Marcgrave (1648).Mulatos. Serafim Leite faz a importante e interessante observação de que é a partir da restauração que surge.foram dizimados após a restauração de 1654 por paulistas como Domingos Jorge Velho. são filhos de mulato com negra. apenas de pequenas obras missionárias com algum interesse etnográfico relativas a povos da família linguística Karirí do vale do São Francisco (Nantes. e falam língua geral.

1749. em termos etnográficos e da história indígena. 1983). 1802). vol.. 1981: 130). Entre meados dos séculos XIX e XX houve grande interesse de estudiosos. já no início do século XIX. 1945). a convivência e miscigenação destes com população não indígena. Couto (1757). entre outras.". Jul. marca o apogeu e a decadência dessas missões que. excetuando-se os grupos ainda isolados nas matas do Sul da Bahia28. em cada uma das províncias. p.. Caldas (1759). O mesmo se observa com relação às poucas aldeias-vilas visitadas ou referidas pouco depois por Spix e Martius (1823). em muitos casos. 1960a. sobretudo ao longo do curso do submédio São Francisco. como "Informação. que "(. 105 . a primeira grande questão de definição étnica na região e várias aldeias perderam as suas terras. com diretores nomeados para cada aldeia. principalmente da própria região. de 21 de outubro de 1850. É o período da pesada legislação integracionista do Marquês de Pombal. As possibilidades de reconstituição de uma história indígena do Sertão não podem ainda ser completamente avaliadas (Sampaio. Campina Grande. tendo chegado a várias dezenas. no plano oficial. que certamente se constitui na fase mais crítica para a sobrevivência dos aldeamentos indígenas no Sertão. em proceder a esta 28 Evidentemente não incluo aqui a província do Maranhão que. No inicio do período imperial são criadas. Cadernos do LEME. e muito mais daí por diante. nº 2. 2011." (1749). algumas bastante minuciosas e todas unânimes em referir a "decadência" e o "atraso" das recém-criadas vilas de "índios mansos" ou de "caboclos" e. Desse modo. Beozzo. Vilhena (1802).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO O século XVIII. o que equivalia à afirmação oficial da inexistência de índios na região nordestina. 3. Menezes (1814). os quais viviam então na área extremamente árida da Serra Negra. Aires do Casal (1813)./dez. Pernambuco. estão já depopuladas e em muitos casos abandonadas quando da expulsão dos jesuítas em 1756 (Leite.. Em seguida. as Diretorias de Índios.. 88 – 191. praticamente não havia mais "índios" mas apenas "caboclos" no Sertão.. É também desta época o último relato conhecido a respeito da redução de índios no Sertão (Frescarolo. não é identificada com o Nordeste. Entre meados do século XVIII e as décadas iniciais do XIX produziram-se algumas importantes descrições cartográficas da região. Hohenthal Junior. a nova Lei de Terras do Império. época de plena vigência da Junta das Missões nas Capitanias da região ("Informação. Até o final do século todas as diretorias haviam sido extintas. provocou o que deve ter sido.. 1985b).) manda incorporar aos próprios nacionais as terras dos índios que já não vivem aldeados mas dispersos e confundidos na massa da população civilizada" (Figueiredo.

No plano linguístico. Pompeu Sobrinho (1939). Jul. também o é a sua confiabilidade. Na Bahia. Potigwára). Nas demais áreas praticamente nada havia sido feito. Barros (1923). Nimuendaju (1946) refere nada menos que oitenta diferentes etnônimos na área situada entre as duas zonas referidas. pouco sistemática e pouco ou mal referida às fontes primárias. Paraíso. nº 2. ela contrasta flagrantemente com a relativa uniformidade dos grandes grupos Tupí da costa a leste (Tupinambá./dez. Pereira da Costa (1909). Pinto (1938). seguramente majoritária em grande parte da região. Studart Filho (1926 e 1931). mas também aos de Figueiredo (1981) e Mott (1974). p. um dos resultados significativos dos trabalhos citados é a demonstração da possibilidade de se trabalhar. 106 . alguns destes trabalhos ainda contêm as melhores pistas disponíveis para que se possa aprofundar o estudo através de outras fontes como. o trabalho então apenas começava (por exemplo. por exemplo. Studart (1896). Tupinikím. e dos Timbira e Akwê. pode ser identificada a grande família Karirí. pelo menos no que diz respeito ao século XIX. Quanto a trabalhos mais recentes e mais rigorosos no levantamento e análise da documentação. Campina Grande. Ainda que seja muito difícil avaliar a extensão dessa diversidade. Entretanto. vol. 88 – 191. e quatro das suas línguas – Kípea. e para o cerrado. grandes grupos de língua jê dos cerrados a oeste. com documentação produzida pelos próprios índios. Kaeté. Costa Júnior (1942). Sabemos hoje que o sertão nordestino pré-colonial foi habitado por uma diversidade muito grande de etnias. impressionista. 1946). ainda que muitas vezes em obras de caráter mais geral29. 1984). apenas a produção relativa à pequena área correspondente ao atual estado de Sergipe. 3. 1984). como cartas. graças principalmente aos trabalhos de Dantas (1973. isto é.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO investigação. no sertão propriamente dito – a caatinga – e em suas faixas de transição para a mata costeira. Apesar disso. 2011. Jorge (1901). Joffily (1892). o mesmo ocorrendo em Alagoas (Antunes. com grande concentração no curso do baixo e do submédio São Francisco. os cocais. e no Piauí (Mott. Kamurú e Sapuyá – chegaram a ser especificadas e parcialmente descritas (Lowie. podia-se considerar satisfatória. Théberge (1869). falantes da mesma "língua geral". mas a produção resultante é quase sempre imprecisa. Bezerra (1950) etc. no que diz respeito à área do Ceará e do Piauí. até meados da década de oitenta do século XX. O nível das informações relativas a esses etnônimos é extremamente variável e. 1985). Bezerra (1902). o agreste. Cadernos do LEME. 1976. A inclusão nessa família de línguas de grupos como os Kanindé e Ikó foi tentada por autores 29 Alencastre (1857). Dzubukuá. além de alguns levantamentos preliminares da documentação. petições etc. 1984). consequentemente.

De qualquer modo. ainda hoje. Cadernos do LEME. os Potigwára e os Wasú.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO como Pinto (1935-8). embora crescentemente relacionados aos povos aqui tratados em seus movimentos políticos e étnicos. em torno do qual se articulam. Dentre as dezessete etnias acima referidas em meados dos anos oitenta31. reforçada pela coexistência de vários grupos no vale do submédio São Francisco (Nimuendaju. podemos pensar que a presumível diversidade cultural e linguística do Sertão já comportava um embrião de unificação. Carvalho. impedido pela presença majoritária dos Jê centrais.em especial os Pataxó do Monte Pascoal e os diversos povos reunidos já no século XX na reserva Caramuru-Paraguaçu e hoje conhecidos como Pataxó Hã-Hã-Hãe . desse total. constituindo historicamente esta unidade. 1974) demonstra bem o quanto os informantes podem ser criativos para tentar satisfazer a grande curiosidade de seus inquiridores e fazer juiz aos seus préstimos. 2011. mas que. o Xokó e o Pankararú não permite nada de conclusivo30. 3. 1946. dentre outros. 1982). casos. grande parte dos índios no Nordeste hoje concentra-se ainda na área de influência do baixo e submédio São Francisco. 1960a e 1960b) – uma faixa mais propícia a uma agricultura mais intensiva – antes mesmo que as missões e as boiadas viessem reforçar a concentração e a miscigenação. 30 Um levantamento linguístico realizado na região na década de cinquenta (Meader. respectivamente. Hohenthal Junior. 1927). estreita relação com os demais grupos aqui considerados32. no mínimo em termos ecológicos. 1977b e Paraíso. e se localizam muito longe do eixo delineado pelo curso do baixo e submédio São Francisco. Pesquisas ainda mais recentes com a única língua ainda falada. 88 – 191. os índios no Nordeste. 32 Excluem-se. têm percurso histórico e bases ambientais muito diversas (ver. Além disso. incluem-se duas não propriamente sertanejas. permitem localizá-la de forma isolada no tronco Macro-Jê (Rodrigues. O parco material contemporaneamente disponível sobre o Xukurú. apesar de muitos terem tido que abandonar as suas margens buscando áreas de refúgio nos brejos ou altos de serras próximos. o Yaathê dos Fulni-ô. vol. teria sido. e também o quanto é problemático o sentido científico disto. Pankararé. por sua vez. 31 Bem como dentre as trinta e três existentes ao se iniciar o terceiro milênio. Campina Grande. por outro lado. Atikúm e Kambiwá. p. os grupos indígenas no Sul da Bahia . De fato. nº 2. parece que diferentes pequenos grupos humanos foram pressionados para a zona semiárida das caatingas à medida em que os Tupí avançavam pelas matas costeiras (Métraux. sabe-se da filiação de duas línguas da região a famílias cujas demais línguas conhecidas estão todas ao Sul: a dos Masakará com a família Kamakã e a dos chamados Pimenteiras com a dos Botocudos. 107 . Vista nessa perspectiva. rumo às melhores terras do cerrado. situados na zona da mata./dez. Jul. como historicamente. O avanço daqueles para o oeste. em ambos os casos ainda com base em Martius (1867). apesar de sua ascendência Tupí – segura no primeiro caso e bastante presumível no segundo – mantém hoje. 1982).os quais. mas parece não haver dados suficientes para tal. dos Pankararú.

Cadernos do LEME. 108 . 1956 e Hernández Díaz. 88 – 191. 35 Para os Xukurú veja-se também Mello (1935). nove Postos Indígenas na região. e de Nássaro Nasser (1975) e Elizabeth Nasser (1975) sobre os Tuxá sobretudo no que diz respeito a economia e relações interétnicas. após a criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Rosalba. não é aprofundado posteriormente e destes trabalhos apenas Hohenthal Junior (1954) e Pinto (1958) fornecem etnografias minimamente satisfatórias. Pompeu Sobrinho. 1954) 35 . dando conta sobretudo dos Xukurú (Hohenthal Junior. e as de Reesink (1978) sobre os Kaimbé. competentes 33 A conferência pronunciada por Carlos Estêvão de Oliveira no Recife em 1937 (Oliveira. vol. 1960a). nº 2. o conhecimento dos indígenas contemporâneos no Nordeste era praticamente inexistente até os anos cinquenta34 quando. 34 Tinha-se então basicamente o relato de visitas de Oliveira (1937). Destacaram-se também neste sentido o jornalista Mário Mello e o Padre Alfredo Dâmaso em Pernambuco. pode ser considerada um marco nesta mobilização. Oliveira. Apenas na década de setenta aparecem monografias sobre os povos da Bahia: a de Bandeira (1972) sobre os Kirirí. Não há. Pinto. do Posto Indígena Dantas Barreto para os Fulni-ô de Águas Belas. 1931. 1976) 33 . entretanto. e o Padre Renato Galvão na Bahia. no final dos anos vinte. Jul. pelo menos nos registros melhor conhecidos. alguma atenção lhes é dada e alguns trabalhos são realizados. e repetida alguns anos após no Museu Nacional no Rio de Janeiro. 1931. 1935. 1958 e Hohenthal Junior. O estudo desses grupos. um trabalho descritivo mas bem complementado por uma interpretação dos seus dados em Carvalho (1977a). 1929. 1949. 1929. sobretudo em consequência da grande pesquisa coordenada por Donald Pierson sobre o vale do São Francisco (Pierson. 3. entretanto. Pernambuco. p. Com exceção dos Fulni-ô.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO O conhecimento dos povos indígenas no sertão no século XX No século XX. destaque para a participação indígena nestes processos de mobilização por reconhecimento étnico e por assistência pelo Estado. 1983). Em quase todos os casos a participação de religiosos e de intelectuais foi decisiva (Dâmaso. Campina Grande. Os curtíssimos artigos escritos por Lowie e Métraux para Steward (1946) são quase que apenas históricos e classificatórios e dão uma boa ideia da limitação do conhecimento a respeito dos grupos que então se costumava chamar de "remanescentes indígenas". 36 . 1959). a começar pela criação. 1887. Karirí-Xokó (Trujillo Ferrari./dez. 36 Dados sobre os Tuxá também em Hohenthal Junior (1960a) e Carvalho (1982c). que desde fins do século XIX têm despertado a atenção de linguístas e estudiosos regionais (Branner. Mello. instalaram-se progressivamente. 1937). até a extinção do órgão em 1967. Boudin. Mello. 2011. 1956 e 1957 e Hohental Junior. 1960a) e Pankararú (Pinto.

Acerca desses e de outros povos em Pernambuco merece referência o levantamento realizado pela Coordenação de Desenvolvimento do Estado de Pernambuco (Condepe). Em primeiro lugar. em um plano externo às próprias comunidades indígenas. 1985). mas etnograficamente bastante limitado37. A bibliografia então disponível sobre os povos "emergentes" era. 2011. como se poderia supor. passou a haver uma articulação bem mais intensa entre os diversos povos. 1973) e o já referido trabalho de Amorim (1971) sobre os Potigwára da Paraíba. 1983. 1976. 3. não começou nesta época. até aquela década. e Magalhães (1980). para os Truká. quase inexistente. ao que tudo indica em atenção a perspectivas de "estadualização" da assistência a índios passíveis de "emancipação". passam a ocorrer com 37 Para o conhecimento então disponível acerca dos Potigwára veja-se também Moonen (1975). teoricamente afinado com as idéias então hegemônicas a respeito de contato interétnico no Brasil e empenhado em uma compreensão modelar do campesinato indígena. inclusive a nível inter-regional. a rigor. 1984. qualquer estudo de possível caráter acadêmico sobre os Atikúm e sobre os Kambiwá do Sertão de Pernambuco. A nível regional. Dentre os onze povos com postos indígenas implantados antes de 1980. excetuando-se o caso Pankararé. 88 – 191. Cadernos do LEME. Praticamente todos os autores citados referem conflitos entre "brancos" e índios e registram diversas iniciativas desses para garantir os seus direitos. àquela época. não havia. as assembleias de líderes indígenas. já melhor conhecido (Soares. parece ter havido um sensível aumento dos canais e das facilidades de comunicação entre estes povos e a sociedade nacional. organizadas pelo Cimi. Duas ordens de fatores. Campina Grande. Para os demais dispunha-se então no máximo de alguns bons relatórios administrativos como os de Beltrão (1980) para os Wasú. nº 2. Jul. a natureza e a amplitude destas iniciativas.em 1981. Evidentemente. inclusive bem antes da criação dos postos.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Há ainda da época uma descrição dos Xukurú-Karirí de Alagoas (Antunes. para modificar. parecem ter contribuído. fazendo com que a temática indígena chegasse mais facilmente à imprensa e à opinião pública. Luz. O movimento étnico dos povos indígenas no nordeste Já me referi ao movimento indígena que tomou forma entre os anos setenta e oitenta no Nordeste. Em segundo lugar e principalmente. Sampaio./dez. vol. mas em parte decorrente do anterior. p. Rocha Júnior. 109 . esse movimento. entretanto.

Todos esses processos transparecem no plano religioso em práticas rituais coletivas e regulares. Cadernos do LEME. Já me referi ao "esforço de organização política". Também no plano interno ocorrem mudanças sensíveis. Tal é propiciado por danças e cantos acompanhados pelo som de maracás e com trajes e outros aparatos específicos. vol. Embora as aspirações de cada etnia com relação à garantia de seus territórios e a outras questões ligadas ao atendimento das necessidades de suas comunidades permanecessem num lugar central. pressionando a definição de indivíduos e segmentos em situações étnicas limítrofes ou pouco definidas39. arcos e flechas. caracterizadas pela incorporação pelos "mestres". e desencorajando fortemente os velhos laços de parceria econômica e social. preocupado em delimitar a sua administração e interessado também no controle político dessas fronteiras./dez. p. 39 Um processo muitas vezes estimulado também pelo estado nacional. Campina Grande. fibras – e que são acompanhados do uso. com setores da sociedade regional. nos discursos e avaliações críticas de líderes indígenas. ou outros especialistas socialmente definidos.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO frequência e. colares. Sergipe (conforme adiante). dos mutirões e roças comunitárias. 2011. o nível das preocupações também mudou. nº 2. de tabaco 38 A primeira dessas assembleias ocorreu em 1983 na "aldeia" Kirirí (Rocha Júnior. O seguinte trecho da carta-convite enviada pelo cacique xokó aos demais povos da região para a Assembleia Indígena de 1985 dá bem uma ideia do que aqui se diz: "Achamos o momento desta assembléia muito importante para nós porque estão acontecendo muitas mudanças nas leis que apóiam os índios e por isto achamos que devemos discutir estas coisas: a) UNI (União das Nações Indígenas). d) Funai" (Apolônio Xokó. as próprias organizações indígenas encarregam-se de promovêlas38. julho de 1985). os "encantados". Nesse âmbito. o qual se traduz sobretudo pela redefinição e valorização de funções como as de "cacique" e "pajé" e dos "conselhos tribais". a um quadro de referência bem mais amplo. b) Assembleia Nacional Constituinte. como o compadrio. elas passam então a aparecer sempre vinculadas. 1983) e a segunda em setembro de 1985 na "aldeia" Xokó na Ilha de São Pedro. por exemplo. em grande quantidade. nos quais aparecem profusamente elementos simbólicos identificados como indígenas – plumas. 110 . estimulando as alianças internas entre os grupos de família através. especialmente aqueles política e economicamente dominantes. Jul. c) Reforma Agrária. e por um maior controle dos grupos sobre os seus próprios limites. de entidades sobrenaturais. que frequentemente podem também ser definidos como ancestrais. em seguida. 3. 88 – 191.

o jogo de pressões e acordos e a subordinação com relação ao órgão governamental tutelar. a constituição e o papel das lideranças. tais práticas se apresentam. esse sentimento de participação transfere-se à sua totalidade. 1954. Por outro lado. ao Yaathê. De fato. das suas individualidades. 1985). como os Kirirí e os Atikúm. Certamente muito há ainda a ser compreendido com relação a esses processos de identificação étnica e organização política. Aliás. na verdade. povos indígenas no Nordeste. 2011. Pinto. É o campo da luta política que torna possível tal projeto. ou. nº 2. o valor econômico e simbólico atribuído pelas partes aos territórios em disputa. e o que fiz aqui foi apenas descrever os seus aspectos mais visíveis. como condição necessária e em grande medida auto-imposta para o seu "reconhecimento" étnico. 1982a: 12). 3. Martins. apenas parcelas relativamente reduzidas das comunidades efetivamente o façam. 1937. que vão se alargando como se fora em atendimento a certas exigências históricas que só tornam possível alcançar a 'unidade' na 'diversidade'" (Carvalho. por exemplo. assim como os linguísticos tomados. o essencial das características descritas. Jul. em alguns casos. sem prejuízo.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO e da ingestão da jurema. 111 . o uso ritual da jurema é certamente um elemento privilegiado na autodefinição étnica destes grupos em seu conjunto. inicialmente projetos individualizados a nível de cada identidade especifica. o sentimento de "ser índio" apreendido no discurso desses povos passa frequentemente pela participação nestes rituais. "toré" ou "particular". p. Esses rituais.. mais. e todos eles.) tais rearranjos têm lugar no âmbito de um projeto coletivo que os circunscreve a todos. os meandros das relações internas entre os diversos grupos familiares cujos poder e prestígio são postos em cheque nestes processos. são elementos a mais de identificação entre os diversos povos do Nordeste. chamados "ouricuri". Hohenthál Junior. Como diz Carvalho: "(. os empréstimos rituais. já que só eles. porém.. As determinações socioeconômicas e políticas a nível regional e local. 1956. Para estes. a elaboração Cadernos do LEME. mantendo. bebida alucinógena preparada com a entrecasca da juremeira (Oliveira. entretanto. além de todos aqueles que aqui chamamos de "emergentes". inclusive em função da intensa reelaboração ritual e simbólica. o praticam. "praiá". a dinâmica das relações de clientelismo e. hostilidade com os segmentos regionais. com frequência. Campina Grande. A importância desses rituais nos movimentos referidos pode ser atestada por sua revalorização em muitos dos grupos e. comportam diversas variações de etnia para etnia. por sua adoção por parte de outros que não os realizavam./dez. e ainda que. vol. 88 – 191.

em meados dos anos oitenta. 88 – 191. Campina Grande. na verdade. e mais os dois então em processo de emergência mais recente. consideradas 'caboclas' pelos regionais. e a oposição que sempre mantiveram com relação aos segmentos não indígenas a esse nível atesta bem a vigência anterior da sua afirmação étnica. Evidentemente o movimento étnico empreendido por estes últimos também não começou "de repente". enfim.. os únicos dos quais se esperasse que pudessem empreender a uma tal "emergência".) tende a crescer tendo em vista fortes indícios que dão conta da existência de outras populações. certamente. diríamos. até que a articulação regional dos diversos povos indígenas. Um fato bastante recorrente nos processos de emergência étnica indígena no Nordeste na época aqui tratada é a presença de vinculações mais estreitas e historicamente marcadas desses povos "emergentes" com outros já "reconhecidos": dos Pankararé com os Pankararú através da extinta aldeia missionária de Curral dos bois. (. uma série de outras variáveis ligadas aos aspectos referidos acima. o caso dos grupos "emergentes" que têm vivido todos esses processos geralmente de forma bem mais intensa e crítica. nas quais a identidade indígena permanece. dessem oportunidade à expressão dessa afirmação em um movimento com outra dimensão. e que são. ou nas proximidades desses. após alguns anos de luta. dos Truká com os Tuxá através da descendência comum dos Proká e das missões dos "Rodelas". são outros tantos aspectos inegavelmente importantes que merecem maior investigação e que. seguramente. Há. De resto. Referindo-se à população indígena no Nordeste à época. nº 2.. situam-se em áreas de antigos aldeamentos missionários. no Sertão. de modo algum.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO ideológica e simbólica em torno dos rituais e a institucionalização destes face aos outros sistemas religiosos presentes no campo etc. a esperança depositada no "reconhecimento" e. como nos casos referidos. já referidos. vol. e que provavelmente Cadernos do LEME. não eram. evidentemente. historicamente referidas a esses aldeamentos. o agravamento da situação fundiária. Carvalho diz: "Este número. nunca ter deixado de ser nítida no plano local. 3. assumem configurações variáveis nos diversos casos. Jul. de várias comunidades rurais distintas que. A sua existência enquanto segmentos sociais etnicamente diferenciados parece. de algum modo./dez. 2011. Era já bastante sabida a existência. 112 . os seis povos reconhecidos. p. dos Kapinawá com os Xukurú e Kambiwá pela proximidade e por referências históricas comuns etc. como que no ar.

Acrescento. sirvam apenas para identificar questões gerais e orientar o percurso a ser trilhado nas investigações. peço V. uma maior presença do governo federal na região e o forte fluxo migratório para São Paulo. uma abordagem preliminar do caso dos Pankararé e as conclusões parciais apontavam uma grande diversidade de fatores. ainda que com preocupações diversas. ainda que com graus e situações variadas de "latência"./dez. 2011. Campina Grande. à aceitação destas pelas partes.). por exemplo. Caríri-Shocó da Ilha de São Pedro. sua extensão e 40 Tentei. 1982a: 1). à semelhança do que ocorreu mais recentemente com os Pankararé (Bahia). até a construção das grandes hidrelétricas de Paulo Afonso.Sª. 88 – 191. o que seria expresso. Insistiria que esta deva ser investigada em seus casos particulares40 antes de qualquer possível generalização. sua homologação. A própria Funai demonstrava. vol. Pankaré e Capinawá. ou ainda "a etnicidade representa um vínculo organizacional poderoso". além dos 10 Postos Indígenas desta DR. pretendo que afirmações aparentemente conclusivas como "o toré – ou o praiá – reafirma a identidade étnica". e consequente acumulação e incipiente hierarquização econômica na área. 113 . entretanto. Sem dúvida é bom contar com essas idéias. Aguardo brevidade possível orientação esse Departamento sobre assunto" (Araújo.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO tenderão a desencadear um movimento de afirmação de sua identidade étnica. sabendo-se da sua devida dimensão explicativa. dirigido à sede do órgão em Brasíllia pelo seu Delegado Regional no Recife à época da eclosão do caso dos Kapinawá: "Face recentes ocorrências grupos se dizem descendentes indígenas. 1980). em Sampaio (1984). pois. nem mesmo a questão fundiária se apresenta de maneira tão uniforme quanto parece. Jul. a presença e a quantidade de invasões. Quanto à gênese desses movimentos. Tingwí-Botó e Wasu (Alagoas) e Kapinawá (Pernambuco)" (Carvalho. o estatuto histórico e legal das terras. laudo antropológico situação grupo se intitula Capinauá cidade Buíque este Estado (.. Cadernos do LEME. apenas para os quais foi feita programação financeira. ou "a disputa pela terra é a base dos movimentos étnicos indígenas no Nordeste". então. área esta DR [Delegacia Regional] e possibilidade processo tornar-se rotineiro virtude grande número caboclos todo Nordeste. uma compreensão similar dos fatos na região. p. desde a estrutura fundiária local e o caráter do poder político municipal. há situações diversas quanto à existência de demarcações. neste sentido. em um radiotelegrama "urgente confidencial". nº 2. como alguns dos deflagradores de uma intensa polarização étnica.. 3. por detrás da invariável presença de conflitos. Waçu. esta unidade já conta mais cinco grupos: Truká. Do quanto fica aqui dito. Na verdade. de resto historicamente sempre presente.

em 2001. Tapeba. a densidade demográfica etc. em uma situação étnica especial dada a presença de uma língua própria. Tendo em vista o contexto de época aqui tratado – meados da década de oitenta – podiam ser identificados. no primeiro caso. no segundo os Xukurú e os Kambiwá (Pernambuco). vol. outros dezesseis povos indígenas perfeitamente identificados na região aqui tratada. 42 Como não se trata de proceder. 4) povos não "reconhecidos" e que afirmam muito tenuemente uma identidade etnicamente diferenciada. também com relação a este aspecto. de resto. já "reconhecidos" (Pankararé. como pertencentes ao primeiro ou ao segundo grupos. nº 2. Potigwára do Ceará e as comunidades indígenas na cidade de Crateús no Ceará. Novo. 3. Jul. 3) povos não "reconhecidos" pelo Estado Brasileiro até a década de oitenta e com presença marcante de mobilização do tipo acima referido. os Karirí-Xokó em Alagoas e os Atikúm e Fulni-ô em Pernambuco. Tingwí-Botó. 2) povos "tradicionalmente reconhecidos" com presença pouco significativa de mobilização étnica de caráter político organizacional ou reivindicatório. os Xukurú-Karirí (alagoas) etc. Por outro lado. 1976). Tapeba). Campina Grande. a uma classificação exaustiva. Wasú e Kapinawá) ou não (Karapotó. não a acionando com maior expressão política. 1956. há. Pitaguarí e Jenipápo-Kanindé no Ceará. este último povo constituindo-se./dez. a qualidade dos solos. 41 Para balanços e avaliações criticas da situação dos territórios indígenas no Nordeste. 1964)e certamente muitos outros42. conforme dito na nota 15 acima. p. os Payaku de Caraúbas no Rio Grande do Norte (Cabral de Carvalho. o que faz com que. Pipipã em Pernambuco . Tabajára. e no quarto grupos como os Tremembé do litoral oeste do Ceará (Seraine. Desses. os Arikobé no oeste da Bahia. 88 – 191. 114 . 2011. cada caso assuma uma configuração particular. os Kirirí (Bahia).Kanindé. entretanto. veja-se a série de publicações "Povos Indígenas no Brasil" (Aconteceu). aqui.41. sem dúvida o estado em que o processo aqui tratado se fez mais intenso nos últimos quinze anos.estes uma "dissidência étnica" dos Kambiwá . oito estão já "reconhecidos" pelo Estado em 2001 e outros oito ainda não. cinco dos povos "reconhecidos" antes de 1980. os Pankararú (Pernambuco). Tremembé. Povos ainda não "reconhecidos": Tumbalalá na Bahia. se tomar a presença efetiva de movimentos étnicos ou não e o "reconhecimento" ou não pelo Estado nacional anteriormente a 1980 – ou seja. até uma época em que passa a haver maior transparência dos movimentos – como duas variáveis especialmente significativas. Karapotó e Jeripankó em Alagoas.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO valor econômico. se pode chegar à proposição de quatro situações básicas no que diz respeito à posição de diferentes povos indígenas face ao contexto étnico e político regional: 1) povos "tradicionalmente reconhecidos" mas com mobilização étnica e reivindicatória intensa. deixo de identificar.. Xokó. no terceiro evidentemente todos os então "emergentes". Se. São eles: Povos já "reconhecidos": Pankarú e Kantaruré na Bahia. Kalankó e Karuazú em Alagoas. os Akroá no Piauí. a saber: os Kaimbé e os Tuxá na Bahia. Cadernos do LEME. os Potigwára (Paraíba).

basicamente. Cadernos do LEME. 88 – 191. aos casos do terceiro tipo. por diferentes graus de envolvimento na situação de disputa fundiária subjacente ao processo de emergência. com movimentos étnicos indígenas no Nordeste. o acompanhamento dos processos de "reconhecimento" étnico. nesses.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Dentre os quatro tipos propostos. os procedimentos em torno da implantação efetiva da tutela do Estado sobre estes segmentos sociais indígenas. inclusive. Macacos. vol. enquanto situações para investigações em torno do tema da etnicidade. inclusive quanto aos parâmetros de definição e aos limites étnicos. Kapinawá "Em 23. No plano político. Jul. no presente. 2011. Informaram na oportunidade: 1) ser o grupo composto de 500 pessoas aproximadamente. p. em linhas gerais e a título de ilustração. dedico aqui atenção especial. os Xukurú e os Kambiwá – e. a atenção a esses casos possibilita. assinado pelo Imperador D. ainda. 3./dez. 1985). nº 2. Descrevo a seguir. níveis esses orientados. à época. podendo-se surpreender aqui.. que me parece de especial interesse pelo pouco conhecimento histórico acumulado sobre esse povo anteriormente à eclosão do seu movimento étnico – se comparado a outros povos em situação semelhante – pelas relativas rapidez e autonomia na ascensão desse movimento – pouco mais articulado justamente com os povos menos envolvidos. Pedro II e Princesa Isabel em 30. a qual atingiu mais diretamente uma dessas comunidades. 4)que a imprensa estava divulgando amplamente o assunto. 2) possuírem documento de doação das terras.80. com todas as alterações à vida de suas comunidades que isso tende a provocar. o dos Kapinawá. a do sítio Mina Grande. 1985). localizado no município de Buíque – PE. simultaneamente. 1981: 1). a 3ª DR [Delegacia Regional] informou ao DGO [Departamento Geral de Operações] através do RDG [radiograma] nº 106/3ª DR. pelo conjunto da população historicamente referida ao aldeamento missionário original. Campina Grande.07. 115 . por fim. o comparecimento dos senhores José Antonio dos Santos e Pedro Manuel dizendo-se remanescentes de um grupo indígena 'KAPINAWá'. dada à intensidade. do processo de identificação étnica. com cerca de trezentos indivíduos e cinquenta famílias (Vicente et al. conforme dito. 3) a existência de um antigo cemitério. da "sociedade" que porta e se pauta por essa cultura (conforme Carneiro da Cunha.1874. entendido aqui como a produção de uma "cultura" e. pela diversidade de níveis de identificação étnica entre as comunidades formadas. um desses casos de "emergência étnica". Solicitaram a designação de antropólogo para verificar o grupo" (Pierson.01.

Jul. o pajé. era capaz de recitar. por outro lado. em retribuição. o primeiro dos indivíduos mencionados. O cacique desses índios. 1981) e por mim próprio em 1981. 1981). uma funcionária do órgão seria enviada à área no mês seguinte e o seu relatório (Pierson. 2011. Propõe. p. concedendo uma gleba de terra aos "índios de Macaco". 1981). no município de Buíque. índio "civilizado". a criação de um Grupo de Trabalho para efetuar novas investigações. uma área de 1. 88 – 191. ouvido pela citada pesquisadora (Pierson. em manchete. resumida a seguir: Um bisavô do informante. à consulta de sua DR no Recife afirmando "desconhecer a existência de aldeamento em Buíque" e que "os índios Kapinawá são considerados extintos no Brasil mas existem no Peru" (apud Pierson. idêntica nos dois depoimentos. toda a longa descrição de limites e de fazer a narrativa.600 hectares onde viviam então 48 de suas famílias (Pierson. da história do lugar. o mesmo que encabeça a lista de nomes no registro de doação. De qualquer modo. a Oeste da Mina Grande. pacifica e cristianiza um grupo de "índios brabos" da Serra do Puiú. Cinco dias depois. o Alferes Felix Machado Gomes da Silva. Firmino Gomes da Silva. Cadernos do LEME. vol. indica ao Alferes uma fonte secreta de água e lhe concede as terras à sua volta para que este aí se estabeleça com a sua gente. nada diz de conclusivo a respeito da "detecção étnica" a que se havia proposto. referindo nada ter encontrado sobre os Kapinawá no Arquivo Publico em Recife ou no do Museu do Índio no Rio de Janeiro. a mando de um conhecido grileiro de terras local – Zuza Tavares – "testa de ferro" de um grande empresário do Recife – Romero Maranhão – ambos empenhados em tomar dos índios o sítio Mina Grande. Um informante idoso autorizado pela comunidade. e cita nominalmente todos os chefes de família beneficiários da doação. de Brasília. Esse define os limites da propriedade através de referências a mais de uma dezena de marcos físicos naturais. havia sido mais uma vez preso pela Polícia. que "Pajé pede proteção contra fazendeiros". De fato. 1981). 116 . parte da Serra Negra. Campina Grande. de memória. O relatório traz em anexo a cópia de um registro de doação imperial de 1874. a Funai responderia. nº 2.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Este foi o primeiro contato dos Kapinawá com o Estado Brasileiro. o "Diário de Pernambuco" da data do supra referido "comparecimento" anunciava./dez. 3. datado de doze meses depois. Alguns dias antes.

permaneceria preso vários meses. alguns índios foram à feira na vila do Catimbau e aí se envolveram em um conflito armado com alguns regionais. aliando-se a morosidade da Funai em dar prosseguimento a "identificação" do grupo. de um índio Wasú e do chefe do Posto Indígena Atikum em 1983.. 43 Essa narrativa guarda uma série de correspondências com outra do mesmo gênero mantida e relatada por dois outros respeitados informantes idosos dos Pankararé (Sampaio. a pressa dos grileiros em estabelecer o fato consumado com relação às terras antes de qualquer possível intervenção do órgão federal.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO A fonte dos Macacos existe até hoje no local da antiga aldeia. O pajé Zé Índio (José Antonio dos Santos). É FALSA". prepostos do grileiro. além do caso mencionado. as mortes de dois posseiros em um tiroteio com os Truká em 1982. As primeiras determinam que "(. após o que. Essa situação chegaria a um clímax a 7 de fevereiro de 1982 quando. 1982). Já nas "sugestões". 2011. Esse documento informa muito pouco sobre os Kapinawá. grifos originais).. 44 As ocorrências fatais não são infrequentes nos conflitos envolvendo índios no Nordeste e o saldo. No mesmo mês de fevereiro chega à Mina Grande o Grupo de Trabalho recomendado por Pierson um ano antes (op. Lá fica o cemitério e lá viveram e estão enterrados o avô e o pai do informante43. rompendo o cerco determinado pelo supra citado grileiro Zuza.) formulação da hipótese de que A IDENTIDADE DO GRUPO FOI INDÍGENA" (Motta & Mello. face às ameaças. 1984 e Luz.. no final de 1979. p. líder do movimento kapinawá e personagem mais visado pelos seus oponentes. Durante os anos de 1980 e 1981 a tensão e os conflitos fizeram-se crescentes na Mina Grande. se propõe "(. Cadernos do LEME. desautorizando cabalmente a "indianidade" dos Kapinawá.. Só então um outro preposto da Funai seria enviado ao local. a pouco mais de uma légua da Mina Grande. Pude verificar em agosto de 1981 as diversas marcas de balas nos troncos das árvores e os sinais das cercas muitas vezes derrubadas e reerguidas de parte a parte. vol. 3. 88 – 191.) a própria formação do grupo enquanto indígena. não ficaria vivendo por muito tempo mais junto à comunidade. no qual resultariam mortos dois destes44. e chegam à "(.) aceitar a limitação do conceito sociocultural de auto-identificação. 1982)./dez. mas certamente diz muito do nível de competência e seriedade com que questões desse tipo eram tratadas pelo órgão indigenista à época. Consiste basicamente em uma lista de 42 "Conclusões" e 22 "Sugestões" quase que invariavelmente descabidas. auxiliando a Polícia na identificação e prisão de índios (Levay. é negativo para os índios. e de um Kirirí e outro Wasu em 1984. 117 . 1982: 8. nº 2. no reconhecimento quanto à necessidade de sua revisão. cit. Jul.) e no mês seguinte estaria pronto o seu relatório (Motta & Mello. além de lesões graves em um Xokó e em um Pataxó Hã-Hã-Hãe. ocorreriam. até 1985.. como seria de se esperar. Desde o assassinato do cacique dos Pankararé. Campina Grande. 1985).

passou a solicitar. o processo de demarcação da Terra Indígena só seria diligenciado pela Funai junto à instância superior encarregada. e implantado no ano seguinte. nº 2. e mais uma vez a direção do órgão viria a solicitar um parecer a um pesquisador acadêmico com experiência de trabalho junto ao grupo. 1982 e Motta e Mello.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO ao lado da humildade em perceber a limitação da ciência antropológica". em novembro de 1982. insistentemente. o deputado federal Ricardo Fiúza. em condições muito precárias de assistência às comunidades indígenas. "o grileiro Romero Maranhão mandou seus jagunços invadirem a área Kapinawá com tratores. de modo tal que o próprio órgão indigenista governamental acabaria por rever a sua política em relação a estes casos no sentido do "reconhecimento". contudo. p. informada da visita à área./dez. este Ministério publicaria a Portaria reconhecendo a área como de posse indígena e determinando a sua demarcação física. somente três anos mais tarde. porém. O trabalho resultante. 45 Anos mais tarde. de uma equipe do PINEB (Programa de Pesquisa POvos Indígenas no Nordeste do Brasil) da Ufba (Universidade Federal da Bahia). 1981. 46 O estudo de identificação e delimitação da Terra Indígena Kapinawá seria realizado em 1984 (Sant'Anna. 118 . A dita área deveria permanecer desocupada de parte a parte até que a Funai se pronunciasse sobre o estudo de delimitação da Terra Indígena. Entretanto. os referidos documentos. sob forma de artigo (Sampaio. Levay. um breve parecer sobre o caso. o Ministério da Justiça. em 1996. 88 – 191. O Posto Indígena Kapinawá seria finalmente criado. conforme referido na matéria citada. Antes disto. em 1981. em 1993. Nesse novo contexto. a desocupação dos 800 hectares tomados à comunidade em 1982. como os demais novos postos recém-implantados na região. tanto que a direção do órgão. Jul. por Portaria da Presidência da Funai. Em seus primeiros anos de existência funcionava. os Kapinawá reocupariam por conta própria a área em 1988. 2011. porém. tendo tido. 45. contidos no processo administrativo. 1982) devem ter se tornado testemunhos incômodos no processo de implantação da administração federal junto ao grupo. Conforme informa o "Porantim". até mesmo um helicóptero deu cobertura a invasão". Por sua vez. 1982b) seria emitido ainda em 198245. com pequenas alterações. à sua coordenadora. vol. 1982) 46. propondo a substituição desse conceito por outros com base na Antropologia Física (idem: 10). quando se encaminhava o processo de demarcação da Terra Indígena Kapinawá. com muitos casos de conflito armado e repercussão na imprensa regional e nacional. o qual (Carvalho. Campina Grande. Bastante sofisticados. em agosto de 1982. voltariam a ser percebidos como complicadores em seu andamento junto ao Ministério da Justiça. ocasião em que a Funai negociou com o novo proprietário da fazenda em litígio com os índios da Mina Grande. novembro. os documentos até então produzidos por técnicos do órgão a respeito dos Kapinawá (Pierson. desta vez eu próprio. o que seria realizado pela Funai no ano seguinte. Conforme dito na nota anterior. seria em seguida publicado. já cresciam inapelavelmente as pressões dos movimentos indígena e indigenista pelo reconhecimento oficial dos seis povos emergentes então "em luta" no Nordeste. encaminhado a Funai naquele ano. Cadernos do LEME. em 1993. 1997. 3. em uma operação que rendeu aos agressores cerca de 800 hectares de terra (Porantim. 1984). diante de infrutíferos protestos junto à Funai de já um terceiro proprietário da fazenda. Naquele ano. 1995). o efeito de arrefecer significativamente a intensidade dos conflitos pela posse da terra.

nas localidades de Jacaré e Gameleira. destacadamente presente na memória social dos Kapinawá e referida no documento insistentemente apresentado por eles – e que reporta um registro original de 1874 – se poderia encontrar. quase sempre em emboscadas solitárias nas estradas que ligam as comunidades indígenas às povoações regionais próximas. Finalmente. Essas duas crônicas foram publicadas pela Biblioteca Nacional em seus "Annaes" na primeira década do século XX e Hohenthal Junior. e não surpreende que os pesquisadores da Funai não a tenham encontrado nos arquivos históricos. de indenizações por benfeitorias por eles implantadas "de boa fé". escrita em 1749 por um autor desconhecido. Entre 1988 e 2000 nada menos que seis kapinawás foram assassinados em circunstâncias não esclarecidas. e 182 pessoas" ("Informação. o seu registro como Terra Indígena nos cartórios competentes. muito provavelmente. tem uma nação de Tapuios Paraquióz. e o que teve era sacerdote do hábito de Sam Pedro. Esses índios seriam aldeados nesta época pelo Padre Vital de Frescarolo. 88 – 191. vol. de uma: "Aldeia de Macaco. adotada por esses índios no próprio curso inicial do seu processo contemporâneo de afirmação étnica. no interior da área. Permaneciam. Cadernos do LEME. Um outro cronista da época. situa Macacos na "Ribeira Panema" (COUto. da qual. a seguinte referência à existência então. Se. já menciona haver "documento da Biblioteca Nacional". não é distante. 1749: 422). 1757: 170). já na "informação geral da Capitania de Pernambuco". É sabido. autorizando. entretanto. em um trabalho publicado em 1954. Jul. do século XVIII.. que fica imediatamente a Oeste do território de Macacos. contudo. separada deste pelo vale do rio Moxotó. por volta de 1800.. a 17 de janeiro de 2001. se houvesse seguido a pista da aldeia de Macacos. não tem missionário. na Freguesia do Ararobá. aparentemente baseado. que refere a aldeia de Macacos ou do Macaco (Hohenthal Junior. que. ao menos em parte. 2011. 1954: 100). porém. enfim. p. mesmo sem ir a arquivos. algumas poucas dezenas de posses de não índios nela intrusadas anteriormente ao contexto das grandes disputas fundiárias a partir da década de setenta. conforme relato do próprio padre (Frescarolo. nº 2. Não disponho de outras referências à aldeia de Macacos anteriores ao registro de 1874. Campina Grande.". 119 . no anterior. É o primeiro passo para que os Kapinawá possam vir a ocupar pacificamente a totalidade de sua Terra ainda esse ano. Em 1999 o Presidente da República assinaria o decreto de homologação da demarcação da área. 1802). e que ainda ocupavam as melhores terras dos Kapinawá das comunidades de Ponta da Vargem e Julião.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Uma abordagem preliminar dos episódios acima permite supor que a denominação Kapinawá tenha sido. efetivamente. 3. o Diário Oficial da União publicaria Portaria da Funai determinando o pagamento. aos referidos ocupantes não índios./dez. índios não submetidos a aldeias missionárias ainda perambulavam pela Serra Negra.

não muito longe dali. Para mais considerações sobre a constituição da Terra Indígena Kapinawá veja-se Sampaio (1995).260 hectares. According to Shucuru informants in 1951 there were 'many' of the Paratió some sixty years ago. ou do Ururubá – os Xukurú – e os de Macacos. somado ao do próprio Frescarolo (1802). ser uma alusão a contatos entre índios da Serra Negra e aqueles já anteriormente aldeados em Macacos e Cimbres – respectivamente Prakió e Xukurú – na primeira metade do século XIX. 1813: 254) Seguem-se informações etnográficas relativamente detalhadas que demonstram que o então vigário do Crato. A descrição de limites de 1874 permite estimar um território de cerca de 25 mil hectares. Umã e Vouvé. dos Postos Indígenas Atikum e Kambiwá. e distinguidas pelos apelidos de Pipipã.600 metros. em se considerando a légua de sesmaria de 6. Penso que a narrativa resumida acima sobre o contato entre índios "civilizados" e "brabos" possa. Chocó. living at Aldeia do Macaco. Sabe-se que as aldeias de índios em Pernambuco foram formalmente extintas em 27 de março de 1872 (Hohenthal Junior." 47 Aires do Casal diz mais sobre estes índios: "Eram quatro nações. Cadernos do LEME. nº 2. Jul. O território identificado pela Funai em 1984 e demarcado em 1997 corresponde. "grosso modo". o primeiro desses autores diz: "Historically. the nearest neighbors of the Shucuru of the Cimbres-Serra de Ararobá region were the Paratió. provavelmente de parcela do território original da "extinta" aldeia48. Vale lembrar que o principal representante dos índios à época da "doação" é um alferes. o que é atestado historicamente. isto é. constituem exceções no parco acervo de informações sobre o contato com índios no Sertão antes do século XX. vol./dez. de fato.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Foram. nominalmente. precisamente 26. 2011. Escrevendo em 1813. na verdade. 48 Não disponho de informações sobre a possível extensão original do território de Macacos. Esse relato. 1960a: 41) e isto explicaria a "doação" de 1874. Só voltariam a ser administrativamente aldeados quando da implantação. seis léguas quadradas. Aires do Casal refere que aqueles índios já começavam a "desertar de suas aldeias" (Aires do Casal. Campina Grande. 88 – 191. quando das primeiras visitas de pesquisadores à área.136 hectares. ou seja. cada uma de poucas famíllias. à metade norte do dito "terreno" e mede 12. mas que mostram ter uma mesma origem. cada uma com o seu idioma particular. at which time they lived apart from the Shucuru. Hohenthal Junior (1954) e Barbalho (1977) atestam fartamente essa participação para o caso dos vizinhos Xukurú." (Aires do Casal. voltando a vagar livremente pelas áridas serras da região47. aldeamentos de existência efêmera. conheceu a estes índios ou dispôs de informações seguras sobre eles. 120 . 1813: 254). A memória dos Kapinawá costuma associar esta doação à participação dos índios na guerra do Paraguai. p. o que confere com os testemunhos dos Kapinawá. que informam que o "terreno" a que teriam direito mediria seis léguas. feita às famílias indígenas. 3. Sobre relações entre os índios de Cimbres. já na segunda metade do século XX.

como os Xukurú. permanecendo por algum tempo entre os Xukurú e aí deixando descendentes ainda identificáveis. como aparece nas fontes do século XVIII – o que pode ser tomado como uma indicação de que esta lhes fosse atribuída apenas por terceiros. Campina Grande. Os atuais Kapinawá aparentemente não "recordam" a denominação Paratió – ou Parakió. intercâmbios relativamente intensos entre diferentes populações indígenas na região central do Estado de Pernambuco certamente não são apenas recentes nem se têm articulado somente em função de mobilizações étnicas com maior repercussão externa. para ensinar o Toré aos do lugar e com eles dar início á prática regular de suas atividades rituais. Em seguida veio a estabelecer um "terreiro" na pequena cidade de Ibimirim./dez. por extensão. e antes da implantação do Posto Indígena Xukuru na década de quarenta. 49 etc. passou a desenvolver um contato regular com as comunidades do "terreno" de Macacos. grupos de índios de Macacos tenham daí se retirado. desde o século XVII. 121 . Seja como for. pouco antes da implantação aí de um Posto Indígena. conforme Hohenthal Junior. Jul. pelo menos por algum tempo. como refere Barbalho (1977: 46. Ao final dos anos sessenta estabeleceu-se como pajé entre os Kambiwá. a partir daí. nº 2. em 1951. a se estabelecer na Mina Grande. por fim.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "The Shucuru call these Paratió 'índíos pretos' or 'índios macunha'. A presença dos "Paratiós" em convivência com os Xukurú na área de influencia da Serra do Urubá – ou Ararobá – com centro na vila de Cimbres. e. no centro do terreiro preparado para os rituais. do próprio território. ao final da década de setenta. e de que tenha. 2011. o que é corroborado por testemunhos atuais dos Kapinawá. par-e-passo com a luta pela manutenção da ameaçada posse da terra. nasceu e se criou entre os Xukurú. a meio caminho entre os territórios dos Kambiwá e dos kapinawá. vindo. p. que em algum tempo após a "extinção" de 1872. 88 – 191. O pajé Zé índio. Descendants of these so-called 'black indians' were encountered in the Serra de Ararobá" (Hohenthal Junior. O dia em que os Kapinawá "levantaram o cruzeiro da jurema". ainda que a documentação escrita aparentemente não seja muito precisa a respeito. possivelmente já face a pressões fundiárias. signo da sacralização deste e. um sentido pejorativo. vol. Parece provável. já mencionado e com mais de cinquenta anos à época da eclosão do movimento dos Kapinawá. ao que parece. 3.). Cadernos do LEME. é atestada também pela tradição oral na região. por essas indicações. na Serra do Urubá. 1954: 108).

nº 2. mas os Kapinawá afirmavam que. eram insistentemente mostradas aos visitantes. Cadernos do LEME. muito típicos do que os especialistas chamam "Tradição Nordeste". animais etc. provêm do material de campo da equipe do PINEB que os visitou em agosto de 1981. 50 Veja-se. também. 1981). ou nos grandes centros. prática que atinge em graus diversos todos os povos indígenas na região50. onde vivem os Kambiwá. ambos na microrregião de Arcoverde. uma légua ao sul. muito importantes na afirmação étnica dos Kapinawá. representando seres humanos.. em busca de assalariamento na região. Essas marcas. O já referido curso d'água. geralmente em vermelho. Nas mesmas direções estão as sedes municipais. por diversas vezes./dez. mesorregião do Agreste Pernambucano (IBGE. especialmente São Paulo. 3. costuma ser referido por eles como a data de fundação de sua "aldeia" e. dispersas entre as roças familiares de mandioca e milho principalmente. geólogos já haviam andado fazendo "levantamentos" na rocha da Mina Grande. Campina Grande. para o caso Pankararé. A migração. Os Kapinawá moravam á época em habitações simples que seguiam o padrão típico regional. Sem dúvida o aspecto da área contrasta com o da caatinga extremamente árida imediata mente a oeste. p. separa os municípios de Buíque e Tupanatinga. temporária ou não. ou no povoado de Cabo do Campo. respectivamente Buíque (4914 habitantes. 88 – 191. num extenso vale dominado por uma imensa rocha – a Mina Grande – em cujas bases se encontram diversas grutas com ossadas e farto material cerâmico. Em várias das paredes externas e internas destas grutas há desenhos. do início da luta pela posse da terra49.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO 15 de janeiro de 1979. que na maior parte do ano não chega propriamente a sê-lo. ainda como estudante de graduação. por exemplo. 2011. idem). são consideradas boas na região em função da presença de olhos-d'água e de um pequeno riacho que corre ao longo do vale. As terras da Mina Grande. A privação da maioria das famílias era aparentemente muito grande. ocorria também com frequência entre os Kapinawá. contudo. Além disso. Os vizinhos dos Kapinawá são em geral também pequenos e médios agricultores. Há porém alguns grandes fazendeiros como aqueles que lhes ameaçaram mais diretamente. a dezesseis quilômetros. As feiras semanais dos Kapinawá eram feitas preferencialmente na Vila do Catimbau – 825 habitantes em 1980 (IBGE. Luz (1985). 122 . vol. quando não indicado. 1981) – pouco mais que uma légua a Nordeste. e da qual participei. Além das roças havia reduzida criação doméstica e apenas duas ou três famílias tinham algumas poucas cabeças de gado. e 49 Informações sobre os Kapinawá. não sei se havia então outro motivo especial para a cobiça sobre estas terras. Jul.

ou mesmo com os antigos bandos da Serra Negra. aos marcos territoriais e históricos na Mina Grande e em Macacos. 1984) e 322 em 1985 (Vicente et al. II. Subjacente ao "estar na luta". mas certamente não "estavam na luta". idem). No caso do primeiro autor. não havia "aldeias". 88 – 191. Campina Grande. apesar dos terreiros. É provável que afirmassem vínculos com "Macacos". os Kapinawá. 1985). tal marco significou básica mente a revisão definitiva das perspectivas culturalistas segundo as quais Cadernos do LEME. impressionista em muitos aspectos.(2681 habitantes. além dos Xukuru e Kambiwá. a resposta dominante era a de que quarenta ou quarenta e poucas famílias "estão na luta". Santa Rosa e Meirim (na sede do município de Ibimirim).que os índios costumam designar pelo seu antigo nome de Santa Clara . nem procuravam a Funai então. estavam na área ameaçada ou de algum modo ligados às que lá estavam. vários núcleos rurais e povoados vizinhos. dentre os quais três em que havia terreiros e pajés: Quiri d'Alho. Campo teórico: definições Etnicidade Ao lidar com a questão da etnicidade parto sobretudo do marco teórico representado pelos trabalhos de Barth (1969) e Cohen (1969). no sentido de que não as consideravam comunidades territorial e politicamente organizadas. Não conheci então estes núcleos nem como se definia sua gente.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Tupanatinga . Mas se se indagava acerca da existência de outros índios nas redondezas. dentro ou próximos da área definida em 1874. há certamente uma rica história e uma intensa elaboração intelectual e política que tem orientado este pequeno segmento social na sua crítica situação. 3. p. dá porém uma boa ideia da fertilidade que possa vir a ter aí uma investigação sobre processos étnicos. Os números fornecidos por essa. Jul. Quando indagados sobre quantos seriam. Diziam. aos rituais e a relação sempre ambivalente com a Funai. compondo o que se poderia definir como a comunidade da Mina Grande. vol. A definição étnica dos Kapinawá parecia então perpassada em grande medida pela disputa territorial. 2011. que apesar de haver aí índios. 286 indivíduos em 1983 (apud "Aconteceu". um pouco mais distante. faz crer que sua tutela não se estendia então muito além das quarenta e oito famílias previamente identificadas (Motta & Mello. situados a oeste da Mina Grande. 1982). referiam. ou seja./dez. Acredito que este breve relato. 123 . por outro lado. nº 2.

veja-se Redfield et al (1936) e Siegel et al (1954). Finalmente. 3. Podese entretanto ter uma ideia da sua importância no argumento pela afirmação de que "una adscripción categorial es una adscripción étnica cuando clasifica a una persona de acuerdo con su identidad básica y más general. generalmente son el fundamento mismo sobre el cual están construidos los sistemas sociales que las contienen" (1969:10). p. Voltaremos adiante à questão da noção de "identidade". vol. "los grupos étnicos son categorias de adscripción y identificación que son utilizados por los actores mismos y tienen. para Barth. por el contrario. 124 . produzidas através e em função do seu isolamento em relação a outras "culturas". ao definir o grupo étnico como "um tipo de organização social" (idem: 13). redefinindo assim o estatuto e o papel dos elementos culturais: 51 Para uma síntese do modelo teórico da "aculturação". especialmente no Brasil. 52 Toda a discussão a respeito de critérios de identidade étnica está admiravelmente sintetizada em Carneiro da Cunha (1983). e desse modo passíveis de perder suas características e sua definição uma vez em contato com outros universos culturais. "las dístinciones étnicas no dependem de una ausencia de ínteraccion y aceptación sociales. Ao adotar uma perspectiva que privilegia o aspecto interacional e a "característica de autoadscrição e adscrição por outros" (idem: 15).. Assim. 2011.) cuenta con unos miembros que se identificam a sí mismos y son identificados por otros y que constituyen una categoria distinguible de otras categorias del mismo orden" (idem: 11). 88 – 191. ainda que não a tenha elaborado exaustivamente em seu trabalho de 1969. nº 2. Jul. como se sabe. Barth possibilitaria e estimularia a ascensão da noção de "identidade" a um lugar central nos estudos imediatamente posteriores nessa área. De fato. Barth desloca o eixo da questão do "conteúdo" objetivo destes grupos para os seus "limites" e suas relações com outros grupos do mesmo tipo. um instrumento frequentemente utilizado por especialistas nas discussões suscitadas pelas questões surgidas em torno do "reconhecimento" oficial de povos indígenas52. Há uma avaliação crítica de ambos em Cardoso de Oliveira (1964). la característica de organizar interacción entre los indivíduos" (idem: 10-11). por tanto. tem sido.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO os grupos étnicos definiam-se por portarem "culturas" próprias e especificas. os chamados "estudos de aculturação" marcaram os trabalhos no campo das relações interétnicas nestas perspectivas51. supuestamente determinada por su origen y su formación" (idem: 15). Cadernos do LEME. Campina Grande./dez.. é desde então a base de qualquer critério antropológico de identificação e definição étnicas e. A definição hoje clássica de que a noção de grupo étnico designa "una comunidad que (. Desse modo.

de modo a construir oposições e classificações socialmente operacionais e simbolicamente relevantes. Cadernos do LEME. 1969: 196). e esses podem ser acompanhados em praticamente todos os seus desenvolvimentos através da obra de Roberto Cardoso de Oliveira. 88 – 191. nº 2. ao contrário do que ainda então se lhes atribuía: "To the casual observer it will look as if there is here stagnation. 2011. conservatism. No Brasil a gênese do que se poderia hoje reunir sob o rótulo de estudos de etnicidade é anterior mesmo as obras acima referidas. Campina Grande. or a return to the past. 125 . and as mechanisms for political alignment". sino solamente aquellas que los actores mismos consideram significativas" (idem: 15). Reencontramos aqui a colocação crítica central de Barth na afirmação de que "contemporary ethnicity is the result of intensive interaction between ethnic groupings and not the result of complete separatism" (idem: 198).. tomada enquanto a dimensão política de grupos organizados ("polity") informalmente com base em atributos e num "idioma" étnicos. and is not the outcome of cultural conservatism or continuity" (idem: 199).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "Los razgos que son tomados en cuenta no son la suma de diferencias 'objetivas'. 3./dez. "(. Já a contribuição fundamental da monografia de Cohen consiste no uso que faz da categoria "etnicidade". It does not form part of the official framework of economic and political power within the state"53. as traditional customs are used only as idioms. that we can say that we are dealing with ethnicity" (idem: 200). deve evidentemente ser relativizado e problematizado ao se tratar do caso dos povos indígenas no Brasil. Jul. when in fact we are confronted with a new social system in which men articulate their 'new roles' in terms of traditional ethnic idioms" (Cohen. Interessado no fenômeno de "retribalização". e que "ethnic groupings is essentially informal. acima de tudo. de modo a atuarem como "grupos de interesse" no âmbito da sociedade envolvente. an ethnic group informally organizes itself or political action. Cohen preocupa-se em demonstrar o caráter inovador e dinâmico desses movimentos. vol. haja visto o seu estatuto jurídico diferenciado etc. embora inegavelmente característico da organização étnica típica. Cohen revela que "ethnicity is essentially a political phenomenon. Assim. que envolve diversos segmentos étnicos no contexto dos grandes centros urbanos emergentes na África negra. p..) tribalism involves a dynamic rearrangement of relations and of customs. "it is only when. within the formal framework of a national state or of any formal organization. 53 Esse caráter informal. concluindo de modo definidor que. Mas.

DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Partindo também de uma crítica aos estudos de aculturação. Campina Grande. no mais das vezes. Melatti. onde suas etapas mais significativas são marcadas pelas monografias de Gluckman (1940) e de Turner (1957). nº 2. da "elucidação dos mecanismos que norteiam a passagem da ordem tribal à ordem nacional em que se transfiguram ou tendem a se transfigurar as populações aborígenes". 2011. de estudar a "situação" – "tomada como 'totalidade sincrética'" – de "fricção interétnica". 1964. exemplarmente elaboradas por Cardoso de Oliveira em sua aplicação ao estudo do contato entre índios e não-índios no Brasil. as noções e posturas teóricas que vinham se desenvolvendo também na Inglaterra. envolvendo toda a conduta tribal e não-tribal que passa a ser moldada pela situação de fricção interétnica" (Cardoso de Oliveira. por um lado. caracterizados por seus aspectos competitivos e. principalmente através de Balandier (1955). 1964. por paradoxal que pareça" (Cardoso de Oliveira. 1962: 128). conflituosos. p. 1967. vol.. 54 55 Há boas sínteses históricas destes trabalhos em Galvão (1953) e em Schaden (1969). Cadernos do LEME. Jul. por uma significativa ampliação da compreensão das relações interétnicas envolvendo povos indígenas no Brasil (Cardoso de Oliveira. Aquelas noções podem ser sintetizadas nas categorias analíticas de "processo" e de "situação". em seguida ampliado e complementado com o do "potencial de integração" (Cardoso de Oliveira. 1967) – que busca dar conta das variáveis estruturais que orientam as perspectivas e os níveis da articulação e da participação de segmentos indígenas na sociedade nacional – seria responsável./dez. definida como "situação de contato entre duas populações dialeticamente 'unificadas' através de interesses diametralmente opostos. e por outro. 88 – 191. expressas fundamentalmente nos trabalhos teóricos de Malinowski (1938. Laraia & Da Matta. 1967) incorpora. que define aqui tanto um objeto quanto um modelo de análise. até então amplamente dominantes no Brasil54. 126 . 1945) a respeito. ainda que interdependentes. 1962: 127-8) 55. assumindo esse contato muitas vezes proporções 'totais'. 3. i. 1967. Quanto à noção de "fricção interétnica". e que representam o produto de uma revisão critica das primeiras tentativas da Antropologia funcional em lidar com as questões do "contato interétnico" e da "mudança social". Trata-se assim. veja-se também o seguinte trecho: "Chamamos 'fricção interétnica' o contato entre grupos tribais e segmentos da sociedade brasileira. entre outros). O modelo da "fricção interétnica". nos anos sessenta.e. e tomando como objeto básico o "contato interétnico" – entendido sobretudo enquanto uma dimensão e uma resultante de processos coloniais – Cardoso de Oliveira (1962.

88 – 191. 1969). Dofuy & Akinsola (1980). 1973. tendo chegado a um nível de dispersão que fez surgir a necessária revisão crítica já a partir do final da década. e aqui em especial a identidade étnica. 1974: 51). ocupa posição nuclear56. Esman (1977). sobretudo a seu respeito. em que este ocupa-se. that ethnicity is best used as a concept of social organization. ainda segundo Cardoso de Oliveira (1978). Cadernos do LEME. Campina Grande. questão que já lhe havia sido despertada no estudo do fenômeno que denominou "caboclismo" (Cardoso de Oliveira. Bennett (1975). produzidas pela sociedade envolvente na situação de fricção interétnica.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Na década seguinte. 1964). entre outras coisas. como por exemplo as dirigidas por Gelfand & Lee (1973). A fecundidade dos estudos de caso daí decorrentes pode ser observada em trabalhos como os de Aquino (1977) e Barros (1977). 3. Keyes (1981) e Whitten Junior (1981). retendo como essencial e condição de inteligibilidade e eficácia dessas categorias. vol. one that allow us to depict the boundaries and relations of social groups in terms of the highly selective repertoire of cultural 56 57 Sobre este ponto ver também a posição de Da Matta (1976). A noção de "identidade étnica" assim construída tem também como característica definidora a sua natureza "contrastiva" e situacional. Preocupado com uma conceituação antropológica de "identidade". p. Glazer & Moynihan (1975). Uma amostra dessa propagação pode ser fornecida pelo volume das coletâneas de estudos na área. 127 ./dez. and most writers seem to agree. a "condição de serem referidas aos sistemas de relações sociais que lhe deram origem" (Cardoso de Oliveira. Os estudos de etnicidade tiveram ampla propagação na década de setenta. e que diz respeito às diferentes representações que os indígenas fazem de si mesmos e dos outros à medida que incorporam concepções. 2011. Cardoso de Oliveira articula esta noção à de "representações coletivas" (Durkheim. principalmente nos Estados Unidos57. Cohen (1974). em delimitar com mais precisão o alcance das suas ideias de 1969: "I have argued emphatically (Barth. 1969). Cardoso de Oliveira dirige sua atenção especialmente para a "identidade étnica" (1971. Bell & Freeman (1974). Poulantzas. Tomamos como exemplo significativo desta revisão uma recente comunicação do próprio Barth (1984). De Vos & Romanucci-Ross (1975). não necessariamente as mais significativas. Jul. no universo das quais. nº 2. 1912) e sobretudo à de "ideologia" (Berger & Luckmann. e busca sobretudo complementar o modelo sociológico da "fricção interétnica" acrescentando-lhe uma categoria de análise capaz de compreender o sistema interétnico a nível das suas representações e "ideologias". a identidade. já incorporando as formulações de Barth (1969). 1976). 1966.

For that very reason.. Interessado agora em dar conta do "pluralismo cultural". 1985). por outro lado. proceder-se. 1984: 80). elas estão apenas nos remetendo. para uma reorientação dos estudos de etnicidade. Ainda mais importante. we need to depict the whole context in which they are realized" (idem: 86). e trabalhando com o exemplo de uma pequena comunidade urbana (Sohar. a uma descrição minuciosa ("depiction") de todo o contexto social no qual as tradições culturais em causa se inscrevem: "(. imprescindível quer estejamos lidando apenas. interessante – essas recomendações – dirigidas sobretudo contra o uso abusivo da categoria "etnicidade" como dimensão explicativa nas mais diversas situações socioculturais – me parece inegavelmente apropriadas./dez. 128 . ainda mais que. quase sempre. but an account of the nature of continuity insofar as it can be ascertained" (idem: 80). Oman) onde diversas tradições culturais e religiosas bastante vigentes e efetivas interpenetram-se e atingem diferentemente os vários estratos sociais e segmentos étnicos. haja visto que "the things that are associated in the plurality – the cultures or traditions or streams . quer com realidades culturais de maior complexidade. Cadernos do LEME. se adotar a distinção entre "etnicidade" e "pluralismo cultural" – que. no fundo. no sentido da atenção metodológica e teórica as "situações" e "processos". na investigação do pluralismo.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO contrasts that are employed emblematically to organize identities and interactions. 2011. por um lado. ethnicity provides only a very oblique and deceptive framework for investigating the actual bodies of beliefs. distingue-a de outras 58 Ver também o desenvolvimento inicial dessas questões em Carneiro da Cunha (1977). vol. Apontando a insuficiência nesse sentido em defini-la simplesmente como ideologia. though it no doubt serves to identify the set of forces that affects this distribution" (Barth. Campina Grande. me parece ser a contribuição de Carneiro da Cunha (1979. para esse autor. mais uma vez. como diria Barth.are things that change both their boundaries and their contents" (idem: 79) 58.) since these component traditions or cultural streams are so weakly bounded. com etnicidade. o que implica tanto na abordagem de sua organização social e política quanto em. parece ser. Embora esteja interessado em um caso do gênero que Barth certamente classificaria como típico de "etnicidade". p.. Barth demonstra a necessidade de. Jul. porém. nº 2. a autora discute o sentido da especificidade da etnicidade enquanto modalidade de organização e de discurso político-sociais. No primeiro destes trabalhos. values and practices that are distributed in a population. "give an account of their history – not in the sense of the origin of the tradition or the origin of its contents. 3. 88 – 191.

É em bloco. vol. a 'cultura da diáspora' é coisa diversa do que poderá ter sido. põem em causa a própria noção de cultura. despojando-se então esse conceito do peso constituinte de que já foi revestido..) não serão mais estritamente o que foram na origem (. como se pode verificar logo a seguir: "Suponhamos que um grupo indígena. mas essa perspectiva acarreta também que a etnicidade não difere do ponto de vista organizatório de outras formas de definição de grupos. a etnicidade não seria uma categoria analítica. altera-lhe essencialmente a natureza" (Carneiro da Cunha. de pedra de toque da identidade. agora. "portanto. Campina Grande. que (elas) passam a marcar relações e privilégios entre 'todos' desse grupo e um grupo 'outro'" (Carneiro da Cunha. sua condição de parâmetro. e creio ter sido um equívoco reificá-la como tem sido feito" (idem: 38-39). A autora retoma essas questões em sua monografia de 1985 elaborando a redefinição de "cultura" consoante seu lugar na etnicidade. história) e a uma cultura comuns. Cadernos do LEME. desses que lutam pelas suas terras invadidas e pelo seu reconhecimento. suas tradições.). imemoriais. Jul. consiga recuperar plenamente a língua dos seus antepassados. através do que chama – apenas por conveniência. suas técnicas. tais como grupos religiosos ou de parentesco. 1985: 207). Doravante parâmetro. 2011.. mas uma categoria 'nativa'. não mais que estes outros grupos. no limite. ao fazer estas considerações. usada por agentes sociais para os quais ela é relevante. Difere. poderia até. 1985: 207) 59.. na retórica usada para se demarcar o grupo – nestes casos uma assunção de fé ou de genealogias compartilhadas. ser composta de 'todos' os traços de uma eventual cultura de origem: no entanto. Tal implica em afirmar que. (Essas) (. 88 – 191. isto sim. 129 . nº 2. ressalta – de "cultura da diáspora": "Os estudos da etnicidade. Vejamos o que diz: "tentei mostrar que a etnicidade pode ser melhor entendida se vista em situação. 59 É interessante notar que. essa construção de uma cultura da diferença. 3. a autora tem em mente justamente a situação dos índios no Nordeste. isto é.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO formas sociais de organização e expressão pela evocação que traz a uma origem (tradição. recolocando aqui criticamente a noção de "cultura". 'Seleção' elaborada de traços culturais tidos por autênticos.. 1979: 38). enquanto na etnicidade se invocam uma origem e uma cultura comuns" (Carneiro da Cunha. tradicionais. p./dez. mesmo neste improvável caso. como uma forma de organização política: esta perspectiva tem sido muito fecunda e tem levado a considerar a cultura como algo constantemente reelaborado.

resposta 'articulada' com as outras identidades em jogo. Se tomamos a etnicidade como um modo especial de pensar e articular ordens sociais em que a "cultura" – e certamente a "história" como constituinte fundamental dessa – aparece como elemento definidor. inclusive na medida em que esta incorpora o essencial das contribuições de Barth(1969) e. pertinente à descrição e análise dos seus processos fundamentais. Oriento-me assim.). Campina Grande.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO No balanço critico que faz daqueles estudos Carneiro da Cunha reafirma que o que se ganhou com os estudos de etnicidade foi a noção clara de que a identidade é construída de forma situacional e contrastiva. como o dos "processos e lógicas sociais de classificação". 3. os estudos de etnicidade se inserem num campo de preocupações mais amplo e mais tradicional na Antropologia Social – sobretudo a francesa – que podemos definir. 130 . 'grosso modo'. julgamos a noção de etnicidade. conforme Cardoso de Oliveira (1964 etc. de sua própria ordem – organização social – mas também de ordens cósmica. com as quais forma um sistema. em especial no que diz respeito ao desempenho estrutural e ideológico das sociedades indígenas./dez. ainda que. enquanto tal. 1938). desenvolvendo-se mais recentemente – e ao meu ver um tanto diluentemente – em Bourdieu (1979). Durkheim. temática que nos traz desde os trabalhos clássicos de Durkheim e Mauss (Durkheim & Mauss. basicamente. 1903. sobretudo. pela posição de Carneiro da Cunha (1979. que ao tomá-la como fio condutor das nossas reflexões. o fazemos – como não poderia deixar de ser – enquanto uma categoria Cadernos do LEME. Importante observar aqui como. como em Dumont (1966). sem perder de vista entretanto o legado da moderna etnologia brasileira no estudo de sistemas interétnicos. 1912. Mauss. 1985). certamente podemos e devemos tomá-la como categoria nativa.. atinge sua dimensão cognoscitiva e elaboração teórica máximas na obra de Lévi-Strauss (especialmente 1962a e 1962b). E mais adiante: "é nesse sentido que a questão da etnicidade é análoga à do totemismo: se este usa espécies naturais para pensar grupos sociais. 88 – 191. Cohen (1969). a etnicidade usa espécies culturais para pensar um conjunto social de novo tipo. p. nº 2. natural etc. principalmente. passível da nossa elaboração teórica secundária. ou seja. desse modo. Jul. 2011. vol. Voltando agora ao nosso interesse nos movimentos indígenas no Nordeste. É uma estratégia de diferenças" (idem: 206). É preciso deixar claro. entendendo-se por classificações o conjunto de representações da sociedade a respeito. porém. que ela constitui "resposta política a uma conjuntura. tal qual delimitada acima. a sociedade multiétnica" (idem: 208).

sendo as situações sociais das quais nos ocupamos informadas. Campina Grande. senão até Aristóteles (século VI A. pelo menos até Erikson (1950. e que tem um uso mais estabelecido. porém./dez. 61 Ver também Héritier (1977) e Izard (1977). tal conceito – o de uma "identidade étnica" – pode ser suficientemente bem delimitado e operacionalizado. a uma intenção em marcar a natureza essencialmente política do que estamos tratando – ou seja. cuja extrema difusão parece ter debilitado sua eficácia cognoscitiva e explicativa. organizadas e reproduzidas em termos de uma etnicidade. para contornar a polêmica epistemológica e sociológica em torno do conceito de "identidade" (conforme por exemplo Lêvi-Strauss et al. nº 2. se possível. Antropologia política 60 Ao meu ver. seja lá como se possa defini-las exatamente – e a diversidade de acepções aqui é certamente ampla – o que entretanto não parece ser motivo suficiente para que se privilegie analiticamente um conceito que se tem revelado tão "difuso"60. por outro lado. Dentro desses limites. mas sempre bom lembrar. o que quero dizer é que. É evidente que sabemos que ao se tratar de etnicidade estaremos forçosamente lidando com "identidades sociais". à primeira vista. 1978) 61.). 2011. que o essencial do nosso material de análise se constitui de relações sociais e suas representações. não me disponho. Cadernos do LEME. "etnicidade" parece suprir a demanda teórica com vantagens significativas. Caberia aqui ainda esclarecer a opção que faço por "etnicidade" em lugar de "identidade étnica". pelo menos na Etnologia brasileira. 131 . em vista do que se torna imprescindível à eficácia e coerência dessas reflexões o recurso a outros elementos teóricos de análise que nos permitam compreender as fundamentais dimensões político-organizacional e temporal daqueles movimentos. em segundo lugar. naturalmente.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO que remete a uma ordem de fatos essencialmente políticos e marcadamente históricos. 88 – 191. Em outras palavras. 1977). que poderia. 3. Jul. tarefa à qual. p. em primeiro lugar. além de trazer questionamentos importantes aos seus fundamentos nas Ciências Sociais. nos termos em que o coloca Cohen (1969) – e. lhe ser equivalente.C. exigiria antes que tudo uma reavaliação das suas matrizes psicológica e filosófica. É elementar. Tal se deve. 1968) e Hegel (por exemplo 1802). como bem o demonstra Cardoso de Oliveira (1976. que dentro dos limites de investigação que aqui se propõe. vol. tais processos só nos serão inteligíveis através de uma Antropologia em sentido mais amplo – e mais ou menos nos termos propostos por Barth (1984) – em especial uma Antropologia Política. É sabido também. uma delimitação sociológica mais segura da noção de "identidade".

construindo oposições e alianças significativas ou não segundo níveis estruturais e situações diversas. Típica deste período é certamente a coletânea organizada por Fortes e Evans-Pritchard (1940) sobre os sistemas políticos africanos. mas que nem sempre aparecem convenientemente explicitadas no resultado final das pesquisas. a demografia. intentando delimitar no plano teórico e empiricamente um campo próprio do "político" – essencialmente das relações de poder – delineando-o também em seus vínculos com o parentesco. 88 – 191. em função sobretudo da implantação do sistema de 'indirect rule'. linhagens e sublinhagens. os "valores místicos" etc. No mesmo ano. abrindo-se um espaço. especialmente a partir da obra de Radcliffe-Brown (por exemplo 1940). p. enfim.. sobretudo na Introdução assinada pelos editores. nº 2. clãs. se colocam de modos diversos daqueles até então amplamente estabelecidos. Voltada ainda principalmente para a compilação e comparação extensivas de diversos casos. a resultados próximos aos de Evans-Pritchard. 132 . assim como de concepções mais dinâmicas a respeito de "estrutura social". obscurecendo-se o desenrolar do processo analítico. vol. A análise exemplar desse princípio organizacional – a "segmentaridade" – está. ao meu ver. mas através de uma perspectiva algo diversa. em seu ensaio sobre a Zululândia (1940).DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO Já referi de passagem os desenvolvimentos da Antropologia Social britânica no sentido de introduzir em seus estudos noções como "mudança" e "contato". na base da já referida concepção "situacional" e "contrastiva" segundo a qual se pensam hoje as "identidades sociais". já traz uma preocupação transparente. em que se descreve o modo segundo o qual essa grande sociedade "descentralizada" se organiza segmentarmente em tribos. que exige uma articulação e um conhecimento próximos dos sistemas políticos locais tradicionais. além da própria noção de "estrutura social". Discutem-se questões como "chefia" e ou "governo". 2011./dez. ainda que limitado. Gluckman propõe uma Cadernos do LEME. Jul. De fato tal necessidade surge fundamentalmente do trabalho na África negra. os "limites" do "grupo político" e. Gluckman chega. Partindo da constatação de que as "situações sociais" constituem a matéria-prima do trabalho etnológico. a base territorial. Campina Grande. 3. O trabalho mais significativo então é sem duvida o de Evans-Pritchard a respeito dos Nuer (1940 a e b). as respostas desses sistemas ao "domínio europeu". com a discussão da noção de "poder" e a proposição de conceitos a ela associados como os de "força organizada" e "correlação de forças". para formulações em torno da ideia de "conflito" e onde a "mudança estrutural". onde antropólogos frequentemente prestavam assessoria ao governo colonial.

de qualquer modo. em que "cada caso era selecionado de acordo com sua adequação a um item particular da argumentação. da obra de Malinowski para a Antropologia Social. um interesse decrescente nas "estruturas". não parecia requerer muita elaboração teórica e. hoje sobejamente reconhecida. eventualmente. em especial sua tentativa de considerar os dois segmentos sociais envolvidos numa situação de contato como sistemas autônomos. Jul. vol. But it was still the social morphology that we were aiming to present" (Gluckman. através da qual se procura lograr uma demonstração da "estrutura social". 3. Ver também a respeito Durhan (1978). Entretanto. 133 . da contradição nos sistemas sociais.. (. embora angular. Cadernos do LEME. da flexibilidade e. 1959: 66).) com uma revisão do casamento mal sucedido entre a sua teoria funcional e as questões impostas pela necessidade de se lidar com a mudança e o "contato" (Gluckman. Gluckman crítica demolidoramente as concepções malinowskianas de "dinâmica cultural". 1967). uma ênfase sempre crescente no estudo e na descrição sistemática de "casos". 2011. ainda que informada pelo conhecimento de outros fatos e situações. nº 2. A essa altura a noção de "situação social". within these situations to exhibit the nature of the social structure. e isto marcaria o seu desenvolvimento subsequente. delimita a contribuição. 1957. os objetivos finais da analise de caráter essencialmente morfológico eram ainda dominantes: "we called these complex events 'social situations'. 1947) 63. 1959 etc. quando não propriamente histórico. No segundo. uma preocupação já bastante explícita da "análise situacional" era também dar conta da mudança social. O próprio Gluckman sintetiza o resultado desse desenvolvimento teórico e metodológico do 62 No caso desse ensaio de Gluckman se pode definir esse objeto de demonstração como a sociedade colonial da Zululândia por ocasião da consolidação administrativa do domínio britânico. como o próprio Gluckman faria questão de ressaltar ainda muitos anos após (1959. tal qual se apresenta em contextos social e historicamente datados62./dez. Tem-se assim. e contra o que se chamou de "método da ilustração adequada" ("method of apt illustration"). dando lugar ao estudo das transformações.. entendendo-se por "casos" uma sequência temporal relativamente longa de "situações" correlatas (Gluckman.) não havia conexão regularmente estabelecida entre as séries de incidentes nos casos citados em diferentes momentos da analise" (Gluckman. 88 – 191. mas através dessa mesma ênfase nos "casos". combinar os progressos do método etnográfico desenvolvido por Malinowski (1922 etc. Pretendia-se então.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO descrição minuciosa de "situações". seguida de uma interpretação bastante direta. Campina Grande. 1967: XIV). o que é feito sobretudo através de um acompanhamento etnológico a bem mais longo prazo. 1946. por um lado.). e por outro. imediatamente anterior à Segunda Guerra. 63 No primeiro desses artigos. p. enquanto expressões acabadas da morfologia social. selecionadas sobretudo em função da importância social nelas investida e vivenciada pelos próprios atores.

entretanto. é certamente a monografia de Leach (1954) sobre as diferentes ordenações políticas dos povos Kachin do Norte da Birmânia. e demonstrar como esses incidentes. temos que utilizar uma série de casos conexos ocorrendo dentro da mesma área da vida social" (idem: 69). Gluckman dedicaria boa parte da sua produção nos anos quarenta e cinquenta – reunida principalmente em 1955 e 1963 – à discussão do "conflito" em suas relações com as estruturas sociais. a série de questões que acompanhamos ao longo da obra de Gluckman desaguam no pleno desenvolvimento metodológico do que viria a ser designado "método de caso desdobrado" ("extended case method") e na formulação do conceito de "drama social".) on the way to making the kind of analysis of how the many different components in a social system operate with varying weight in different types of situation" (Gluckman. numa avaliação bastante posterior do seu ensaio pioneiro de 1940. ritualizado e absorvido por esta (1952. esses casos. agindo no quadro de sua cultura e do seu sistema social. Já em Turner (1957). Cadernos do LEME. Turner acompanha a vida da aldeia e dos seus habitantes ao longo de vinte anos. relativo ao eixo temático da série de situações abordadas. Enfim. Sem abrir mão de uma competente descrição morfológica da "estrutura social" da aldeia que estuda e dos "princípios abstratos" que orientariam a constituição dessa estrutura. 1967: XX).. 134 . 88 – 191. onde. inclusive exógeno. 2011. sempre com base no seu rico material etnográfico banto. menos rígido. vol.). menos amarrado" (idem: 68). o seu enredo. têm-se conclusões que instigam a discussão em torno da definição teórica da noção de "estrutura social". Jul. seja como agente modificador (por exemplo 1954b). nº 2. já então. constituindo. seja enquanto elemento rotinizado./dez. p. 3.. A expressão mais acabada de uma análise de variabilidade estrutural. no decorrer de um período suficientemente longo.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO seguinte modo: "se pretendemos penetrar mais profundamente no processo real pelo qual pessoas e grupos convivem com um sistema social. sob uma cultura. "I was (. se relacionam com o desenvolvimento e a mudança das relações sociais entre essas pessoas e grupos. 1954a. Gluckman reconhece que. Sempre que se aplicou este método a monografias que usavam o método da ilustração adequada. "O uso mais fecundo que se pode fazer dos casos consiste em tomar uma série de incidentes específicos ligados às mesmas pessoas ou grupos. ao lado de uma demonstração etnologicamente cuidadosa dos complexos princípios que operam essa variabilidade. emergiu um quadro muito diferente do sistema social: mais complexo. etc. por assim dizer. Campina Grande. descritos sistematicamente numa sequência de episódios relacionados.

Jul. com as disputas em torno da sucessão à chefia – em que aqueles princípios estruturais são vistos em sua ação e manipulação – tomados como vetor principal para caracterização do "drama social" em torno do qual se desenrola a análise que. p. Essa perspectiva porém parece muito centrada no "nível local" e exige a elaboração da dicotomia "campo" X "arena". 1966: 1). 1966: 7) 64. how the time and 64 No trabalho seguinte (1968)..) away from the early preoccupation with the taxonomy. Swartz diz que "our first task in a political study is to determine what public goals are present and to move from there to the investigation of the social arrangements. 1968: 3). and how the individuals and groups concerned try to exploit the varied principles and values to their own ends" (Gluckman. por sua vez. Essa delimitação do "político" permite. observam que "There has been a trend (. pretende demonstrar. 3. nº 2.) is the study of the 'processes' involved in determining and implementing public goals and in the differential achievement and use of power by the members of the group concerned with those goals" (swartz et al. principles. 1966) e por Swartz (1968). Swartz contesta a necessidade da presença de "poder" na definição do "político"./dez. Por exemplo. e nas "Introduções" desses a estas coletâneas em que. estudar a sua presença em terrenos diversos da vida social. "how certain principles of organization and certain dominant values operates through both schisms and reconciliations. orientada sobretudo para a definição e busca de metas coletivas ("public goals"): "the study of politics (. como se verá a seguir. desenvolve uma delimitação marcadamente teleológica do "político". 2011. Pensando em termos bem práticos. 135 . por outro lado. and values which are involved in the processes centering around those goals" (Swartz. Turner e Tuden (Swartz et al. acompanhando o desenvolvimento dos trabalhos na área. 1957: XI). basicamente... mais além que apenas nas esferas ou "estruturas" tradicionalmente identificáveis como políticas. vol. Campina Grande. Cadernos do LEME. 88 – 191.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO fundamentalmente. considerando principalmente a possibilidade de "metas" envolvendo de modo uniforme todo o grupo considerado.. A apropriação das ideias e posturas próprias da chamada "escola de Manchester" na constituição teórica de uma Antropologia Política com diretrizes e procedimentos bem definidos pode ser observada nos trabalhos reunidos por Swartz. and function of political systems to a growing concern with the study of political processes" (Swartz et al. A adoção de uma perspectiva "processualista" – como de fato se tornaria conhecida – mais atenta aos "eventos" (Swartz. structure. 1968). "if we look at the religious ceremony from the point of view of the processes by which the group goals are determined and implemented (how it was decided that a ceremony was to be held.

The combined unit is a spatial-temporal continuum" (Swartz et al. Its unit of time is no longer 'structural time'. É importante notar contudo que tal não implica na exclusão da investigação daquelas instituições. ou da estrutura social. Swartz chega entretanto a tentar uma delimitação mais formalizada do que venha a ser um "campo". interesses etc. 136 .) and by which power is differentially acquired (which ritual experts are successful in telling the 'laity' what to do. seus recursos. "political anthropology no longer exclusively studies – in structural functionalist terms – political institutions of cyclical. Dada a necessária fluidez desses limites à medida que os indivíduos e grupos envolvidos. mudam de posição e de conteúdo. 1966: 8). etc. busca tanto maior fluidez e abrangência quanto aos fatos a serem tratados. seu repertório cultural de valores. composta pelos indivíduos e grupos de algum modo relacionados àqueles presentes no "campo". ou mesmo saem e entram no "campo". "The greatest value of the 'political field' view is to broaden the scope of data collection at the same time it brings about closer scrutiny of social behaviour that might be neglected were we to assume an already known boundary to political activity on the beginning of our political investigation or a predetermined basic outcome of that activity" (idem: 8). Campina Grande. "'Field' is a concept which allows for both continuity and change in the relations among the participants in politics and it does not have the rather rigid quality carried by such more common terms as 'political system' or 'political structure'" (Swartz. Jul. assim como seus valores.. Desse modo. Its unit of space is no longer the isolated 'society'.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO place were determined. 1968: 6). 1966: 7). how these experts marshal support for their power and undermine that of their rivals etc. resources and relationships. crenças. apenas que essas devem ser tomadas em sua ação no "campo" político. employed by these participants in that process" (Idem: 9). meanings. how the things to be used in the ceremony were obtained etc. 3. que ele chama de "arena". aqui desenvolvida. it tends to be the political 'field'. 88 – 191. repetitive societies. it is historical time. bem Cadernos do LEME. A noção de "campo" ("field"). vol. interesses. como uma melhor integração da investigação com os dados e com uma perspectiva históricos. nº 2.. 2011. p. Swartz propõe a caracterização de uma "área sociocultural espacial e temporalmente adjacente ao 'campo'"./dez.) we are studying politics" (Swartz et al. "A field is defined by the 'interest and involvement of participants' in the process being studied and its contents include the values.

e por outro a retomada e garantia do território. a instituição e distribuição de posições de destaque (cacique. Penso o conceito de "parentela" no sentido em que o utiliza Campbell (1963). reordenações.). 2011. a "assistência" governamental. É certo que 65 Com relação aos levantamentos genealógicos como método de pesquisa. mas também para orientação da analise. parentelas e redes sociais envolvidas65.. a investigação detalhada das genealogias. p. 3. Cadernos do LEME.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO como todos esses atributos possuí dos pelos membros do "campo". um processo histórico: a constituição de um grupo local indígena. das práticas sociais e políticas no grupo em questão. A possibilidade de articulação crítica e descritiva do material assim obtido com os dados históricos – tanto os da história oral quanto os de documentos escritos etc. 1968: 9ss./dez. apenas a título de exemplo. ou "de nível local". 137 . e o que se nos apresenta à investigação é. Outra possibilidade interessante que se nos apresenta é a de delimitarmos um "campo" político com base na articulação entre seus membros e nos objetivos desse movimento. por um lado a auto-delimitação étnica do grupo. pajé etc. por parte do pesquisador. vol. nº 2. e mais uma vez voltando a pensar mais explicitamente em termos dos interesses de pesquisa aqui delineados. 88 – 191. as relações sociais internas e externas desse grupo. fatos e fatores que se poderá certamente dispor numa sequência lógica e cronológica estruturalmente ao estilo de um "drama social". e suas representações e os desdobramentos contemporâneos desse movimento. Teríamos assim. ver Barnes (1967). Jul.). enfim. parece-me. vale dizer que julgo fundamental no estudo de grupos políticos de pequenas dimensões. ver especialmente Barnes (1968) e Bott (1971). uma boa base lógico-descritiva para ordenação do material etnográfico. a adoção de práticas coletivas com uma organização prévia (rituais. o "reconhecimento". aliada a um acompanhamento o mais duradouro e próximo possível. sem dúvida. clivagens. roças comunitárias). conflitos. Para uma discussão da noção de rede social e suas aplicações. aspectos com relação aos quais certamente encontraremos internamente diferenciais de opiniões e avaliação. Uma questão com a qual teremos que lidar diz respeito à articulação do nosso "campo" com as instâncias externas a ele relacionadas e que nele interferem. – é seguramente indispensável à compreensão e delimitação de todo o processo que compete investigar. Tentando sintetizar o que me parece essencial no desenvolvimento teórico acima resenhado. Campina Grande. a consolidação interna de uma série de valores e posições sociais etc. mas não diretamente acionados no processo em estudo (Swartz. se possível desde antes do seu aldeamento pelo colonizador até a emergência de um "movimento étnico" na segunda metade do século XX. Poderíamos ter assim algo como.

se se quiser. ou ideologias. Com relação ao sentido e à abrangência em que devemos tomar a categoria "política". quanto para a vida social em sua atividade cotidiana constantemente criadora e "imponderável" (conforme Malinowski. o que equivale a dizer. as contribuições do próprio Principalmente o capítulo 9. 3. mas muito provavelmente não de modo tão esquemático. 88 – 191. estaremos sempre nos defrontando com padrões mais ou menos recorrentes de organização e 66 Eximo-me aqui de resenhar toda a vasta discussão em torno das dimensões simbólicas do universo político – e que teria que incluir. alguns dos elementos teóricos tratados parecem interessantes (conforme Van Velsen.1981. Sabemos que se. 1969b. a própria noção de "ideologia política" – ou mesmo até em torno da dimensão política do universo simbólico. Sabemos que no plano da nossa investigação estaremos certamente sendo levados a dimensionar todo o "campo político" fundamentalmente em termos de uma etnicidade66. de pensá-las.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO muitas dessas "interferências" poderão ser analiticamente subsumidas ao próprio "campo". Cohen (especialmente 1968. no sentido de uma certa "simbologia política". vol. algo da produção posterior de Balandier (por exemplo 1980). entre outros aspectos. acima de tudo.1976. parece fundamental poder-se dimensionar em termos políticos todo um conjunto bastante vasto de relações sociais e principalmente de representações. ou no sentido de uma revisão radical das concepções de uma "estrutura social" (Sahlins. e ficando apenas num campo mais propriamente antropológico. teremos que pensar. 1974) e. 1974 etc. com o que se quer também dizer tratar-se de uma modalidade especial de "política". Acredito que. nesse terreno. Cadernos do LEME. pelo menos com relação aos rituais – mas sobretudo pela abertura que isso da no sentido de se poder pensar. Finalmente. 1967) na medida em que permitem – sem que se tenha que entrar mais profundamente na discussão das relações entre "estrutura" e "acontecimento" ou "estratégias". p. nº 2. Jul. mas. a dimensão eminentemente simbólica da própria "política".. e isso não apenas pela necessidade de acompanhar desdobramentos políticos em áreas diversas do social – do modo bem característico de boa parte da obra de Turner (1966. a sociedade local envolvente. 1922) – ou. "Micropolitique et Segmentarité": 253-283. 2011. 1968. Poder-se-á talvez pensar em termos próximos aos da dualidade "campo-arena" em Swartz (1968). de modo amplo. de qualquer modo. por um lado. Vale a pena mencionar porém. Campina Grande. em suas "práticas" (Bourdieu. 1969. 138 . os núcleos camponeses próximos – "indianizáveis" ou não – o movimento indígena a nível regional e nacional.). a discussão da "etnicidade" seja já suficiente para os nossos objetivos de analise. numa outra perspectiva. representá-las./dez. Bourdieu. Penso em especial na formulação aqui adotada para "etnicidade" como um modo particular de se constituir ordens sociais. 1972). o governo etc. 1972) – dirigir a investigação tanto para as instâncias socioculturais mais estáveis e recorrentes.e estou interessado em fazê-lo – nos diversos planos de relacionamento com os povos indígenas vizinhos.

à tutela. Barsted. Campina Grande. "se existe uma palavra-chave ou um símbolo para os índios do Nordeste me parece ser 67 Principalmente o capítulo 9. vale a pena ao menos referir a possível contribuição de outras vertentes teóricas para uma Antropologia Política. 3. e numa intenção. tendo em vista mais diretamente a situação atual dos povos indígenas no Nordeste. ainda que diferencial. tem revelado sua propriedade tanto em casos de sociedades indígenas em convívio com a sociedade nacional (Oliveira Filho. Já assinalei o lugar central do território no movimento dos índios no Nordeste. sem dúvida. 1983). de boa parte das ideias aqui esboçadas pela Antropologia brasileira contemporânea no estudo da política a nível de pequenos grupos sociais. nº 2./dez. entre outros). Outras questões teóricas Há ainda algumas questões de relevância teórica que gostaria de discutir preliminarmente.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO representação das relações sociais – as "estruturas" que. 1981. algo não muito distante daquilo que os antropólogos têm procurado fazer. Penso aqui em especial nas idéias e pesquisas – polêmicas mas sempre instigantes – de Foucault (especialmente 1979).) – sabemos por outro que estas instâncias só ganham sentido e expressão no uso que delas fazem os indivíduos e grupos. Nomeadamente questões relacionadas à territorialidade. ainda que basicamente sob efeito e em resposta a determinações múltiplas. Antes de passarmos a outras questões. 1985. 1982. Ainda que colocado de modo e em bases bem diversos. p. em perseguir o poder nos seus mais recônditos interstícios. Como bem observa Lea. vol. 2011. A adoção. às ideias de "revitalização cultural". as classes sociais. importância reafirmada constantemente no atual contexto de lutas. ou ao menos mencionar. através de uma ótica "micro". Barbosa. 139 . Cadernos do LEME. podemos elaborar e aprisionar em "modelos" (conforme Lévi-Strauss. 1977. quanto em situações muito diversas (Velho. 1981. os seres humanos aplicam sua irrefreável capacidade de reflexão. Jul. assim como sobre as "estruturas". podemos quiçá vislumbrar em um método "genealógico" de compreensão do real. ao "campesinato indígena". elementos sobre os quais. Zaluar. "Micropolitique et Segmentarité": 253-283. Santos. 1975. 1952 etc. de escolha e de inovação. Barata. 88 – 191. e que. e talvez também nas de Deleuze e Guattari (1982) 67 . para mais além desses padrões. ao "contato" e sistema interétnicos e ao quadro socioeconômico regional. a vida social é moldada sobre fatos e situações sempre novos.

entre outras coisas. como a "tradição".) todo o quadro das relações interétnicas. por mais crítico que seja. e o valor simbólico atribuído.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO arame farpado ou cerca. Para Carvalho. nº 2. Isso inclui. ao tempo em que afirmar o vínculo radical do território com a etnicidade. 2011. que seriam diretamente consequentes da perda da base econômica e territorial. 3.. 88 – 191. inclusive no sentido da consolidação de uma identidade de "índios do Nordeste". os Potiguara. ainda que em graus diversos. é sempre. imaginária./dez. e isso mesmo quando o "território de referência" esteja ausente. 1975 etc. Já assinalei também o papel do território na definição étnica desses grupos. 1975) 69. parecendo se constituir no elemento crucial do engendramento da identidade dos povos considerados" (Carvalho. vol. relações como. 1985).). dos Xukuru com a Serra do Urubá e – a mais tocante também para nós – a dos Pataxó com o Monte Pascoal e a Coroa Vermelha. como "perda do território – perda da identidade" (como em Ribeiro. os Kiriri etc. 140 . Para todos os grupos o problema da posse da terra é fundamental" (Lea. é fundamentalmente enquanto detentores de um direito histórico e protagonistas de uma disputa particulares sobre um território específico que se constituem os Kapinawá. afastar as equações primárias que podem daí advir. tem sempre um papel indispensável nas definições étnicas. o que é aqui afirmado sobre uma inconteste e rica base etnográfica68. num certo sentido. caso das diversas situações de diáspora (por exemplo Carneiro da Cunha. Campina Grande. Amorim. Pretendo com essas considerações. aos marcos físicos dos seus territórios e das suas histórias. e que eles cortam as cercas dos invasores de suas terras. não pode ser encarado como conduzindo inevitavelmente a uma 68 É impressionante.. frequentemente associada a esse tipo de resolução através da identificação de "perdas culturais". ou seja puramente imaginário. 1984: 177). a devoção que os grupos têm. O que eles têm em comum é dizer que o fazendeiro fulano levanta cerca. entre outras. Enquanto em vários dos outros aspectos culturais há uma tendência à identificação entre os diversos grupos. a dos Kapinawá com a "Mina Grande". Pensando em termos mais amplos acredito poder afirmar que. dos Pankararé com a "Fonte Grande". ideal. "a figura do território perpassa (. p. além das capelas e cemitérios das antigas missões respectivas a cada etnia. Jul. especialmente realçado na situação aqui tratada.. 1970. 1981: 1). em alguma medida. como a "terra sem mal" de alguns povos tupís (Clastres. a origem. que chamo aqui "territorialidade". Cadernos do LEME. pode-se dizer que essa referência "territorial" da etnicidade. dos Pankararu com as cachoeiras sagradas de Itaparica. Revendo criticamente a ideia de um "índio genérico". 69 Aliás. a territorialidade é um dado cultural que. Arrisco mesmo dizer que ele é o suporte básico sobre o qual se constroem as etnicidades específicas na região. Carvalho afirma: "O despojamento do patrimônio original.

p. melhor dizendo no caso talvez. mas apenas indicar alguns dados que parecem interessantes. buscando situá-lo historicamente. concorrentes seus pelos "favores" e relações de trabalho oferecidos. 1982a: 5-6). vol. Campina Grande. como já referido. naturalmente. 1977. Não poderei já aqui apontar o senti do teórico dessa contribuição.). a continuar mudando. Pensando do mesmo modo certamente se pode também rejeitar outras tantas resoluções simplistas do gênero. a oposição étnica tende geralmente a colocar os índios – ou. ou fusões. o que se torna tanto mais equivocado ao se tratar de uma 'cultura de contato'. têm se modificado substancialmente desde os primeiros contatos com o colonizador. Portanto. 1975. Cadernos do LEME. vínculos de clientelismo muito típicos da região (Andrade. hoje. e que sua "sobrevivência étnica" deve ser compreendida na medida da reelaboração constante de uma etnicidade. Sabemos obviamente que as "relações de produção" e as "forças produtivas" que envolvem os índios no Nordeste. Se. 1963. e tendem. como bem procura demonstrar Luz (1985) estudando subsegmentos urbanos desses povos indígenas70. os "caboclos" – em confronto com outros segmentos locais camponeses. essa não pode ser dissociada de sua condição histórica de índios camponeses. Varese. 1970. nº 2. Costa. Leal. tal não implica em que ela não possa acompanhar prováveis novas transformações. Romano (1982) e Figoli (1984). 88 – 191. ver Cardoso de Oliveira (1968). sob pena de tomarmos cultura em termos absolutos. Nesse quadro. como a que vincula a "sobrevivência étnica" à permanência de um "modo de produção" próprio à etnia em questão. 1976. Queiroz. E por se tratar de uma cultura que se reelabora por força do contato. mas em rearranjos múltiplos sob a égide da oposição que se impõe como fator dominante. há que analisar mais detidamente a figura desse 'índio genérico'.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO identidade de 'índio genérico'. 1978 etc. como em Gomes (1977). Outra questão para a qual penso que o estudo da situação dos índios no Nordeste possa contribuir é a da relação entre "etnia" e "classe social" – ou talvez mais especificamente entre suas respectivas consciências – tão relevante na Antropologia mexicana (Bonfil Batalla. O que faz uma determinada etnia desaparecer ou não enquanto tal deve estar relacionado com conjunções bem mais complexas de fatores e determinações. 3. Jul./dez. Cardoso de Oliveira. o que torna o trabalho do etnólogo muito mais interessante que o simples exercício de – suposta – demonstração de um punhado de equações fáceis. 1979). 141 . 2011. Os índios do Sertão mantêm tradicionalmente. e isso naturalmente com desvantagens 70 Com relação a índios em situações urbanas no Brasil. assim como sua cultura. com segmentos da classe dominante regional. não se pode pensar simplesmente em perdas. sob pena de aceitarmos uma espécie de condenação a supostos vencidos" (Carvalho.

incompatíveis com os novos termos em que o confronto é colocado. por sua vez. e com a própria redefinição de valores étnicos. que "os pobres têm que se unir". daria em principio a chance para modificação desse quadro. Já mencionei o fato de que esses movimentos étnicos desestimulam enfaticamente as relações acima referidas. no caso dos índios. A emergência de um movimento sindical rural desatrelado dos antigos vínculos. Permanece entretanto em algumas situações a oposição a outros segmentos subordinados. de ambas as partes. O que quero dizer com isso. vol. Assim sendo. claro que nessas circunstâncias há um espaço limitado para as oposições de classe. O desenvolvimento dos movimentos indígenas entretanto. Apesar disso ouve-se com frequência. é levado a cabo através de um redimensionamento de valores étnicos. têm conduzido inevitavelmente a uma identificação mais acurada das forças sociais em jogo. Não é tão simples porém. em vários casos. A existência paralela dos movimentos sindical e Indígena já chegou mesmo a desencadear conflitos. sobretudo na medida em que ambos questionam os vínculos tradicionais de dominação. 71 72 O caso pankararé tratado em Rocha Júnior (1982) é bem ilustrativo do que digo. Cadernos do LEME. Compare-se essa situação com a analisada por Aquino (1977). a emergência desses movimentos. é que. Campina Grande. 3. já pareciam chegar a alguns resultados positivos em meados da década de oitenta. Os conflitos pela terra. 2011. pelo menos no que diz respeito aos Xokó e Potiguara. parece ao contrário passar "necessariamente" por essa72. como o que ocorreu há alguns anos. tendem a reforçar inicialmente o mesmo tipo de confronto. 88 – 191. e sua articulação a nível mais amplo. evidentes e.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO para os índios. pois temos aí um campo fecundo ao exercício dos preconceitos e estereótipos negativos. parece de fato dar alguma base para o desenvolvimento de perspectivas comuns apoiadas numa "consciência de classe". e as "boas intenções" recíprocas e os esforços no sentido de viabilizar alianças são. 142 . na área pankararu. nº 2. longe de ficar obscurecida ou retardada pela vigência de uma "consciência étnica". ainda que bem diferenciados entre si. já que os arraigados preconceitos são difíceis de remover e as diferenças de estatuto legal. e de forma grave. vistos ainda como aliados dos poderosos. a emergência de uma consciência de classe. no caso desses grupos./dez. lançados que são como "pontasde-lança" dos grandes proprietários. de relações com as instâncias governamentais e nos próprios objetivos e estratégias dos dois movimentos concorrem em sentido oposto71. Jul. como ocorre em alguns municípios do Sertão onde há índios. a título de avaliação provisória da questão. p. já que muitas vezes são os pequenos camponeses e trabalhadores rurais os agentes mais diretos da espoliação de territórios indígenas. questionamento esse que.

Na verdade não interessa tanto a possibilidade de construção de modelos gerais de campesinato indígena no Brasil. Se há possibilidades de caracterização. talvez. sugerir o aprofundamento da questão numa outra direção. 1965. 2011. 1977). Diniz. chega a caracterização de um componente de sobreexploração associado à dimensão étnica desses segmentos. 74 E isso num sentido análogo. Cadernos do LEME. Bohannan & Dalton. Amorim. 1964. 1970: 150). Jul. 1973. 1971. de um "modo de ser" das sociedades camponesas. Shanin. é certo que se tem desenvolvido um campo teórico próprio – senão homogêneo. ver a revista "Actes de la Recherche" (por exemplo Grignon. com Cardoso de Oliveira. as interpretações mais gerais a respeito dessas sociedades chegaram apenas a algumas poucas tentativas altamente exploratórias (Cardoso de Oliveira. nº 2. que talvez não possam mesmo ir muito além da mera superposição. embora Isto possa ser tomado de modo simples e direto. Gostaria entretanto de. no que diz respeito à caracterização dessas sociedades enquanto tais. 1976. a partir de dados de Nasser. Thornee et al. p.). N. de uma certa dimensão étnica a modelos já conhecidos. 1970. 75 Para uma visão mais contemporânea de "condição camponesa"./dez. e não apenas ao de sua economia (conforme em Firth & Yanley. 88 – 191. ( 1975). 1979). como faz Amorim (1971.). 1980 etc. 1975. 1975). 1974. coerente quanto a algumas questões e temáticas básicas – ao estudo dessas sociedades75. 1975. reconhecendo o avanço representado por aquelas monografias. vol. sem dúvida. que "a noção de campesinato indígena integra a 'questão indígena' na problemática nacional.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO A produção brasileira de monografias sobre sociedades indígenas camponesas (Cardoso de Oliveira. o que. passando daí a uma descrição – centrada quase sempre basicamente em seus aspectos econômicos – da articulação desses segmentos camponeses etnicamente diferenciados à sociedade mais abrangente. Santos. 1972. de uma "condição" inerente a essas74 (Redfield. mas também de suas relações 73 Tentamos uma avaliação crítica de algumas perspectivas de análise sobre o campesinato indígena no Nordeste em Sampaio (1985a). Bourdieu. de campesinato regional73. Sem dúvida é importante reconhecer. 1960. 1966 etc. Campina Grande. Helm. Oliveira Filho. Amorim. Galeski. ou previsíveis. 3. 1977b etc. por sua vez. Carvalho. 143 . como bem o demonstrou Reesink (1983a). 1984) ou Jê (Maybury-Lewis. 1979).) tem de modo geral se limitado. Amorim (1971). Por outro lado. ao que os etnólogos usam quando se referem a um "modo de ser" das sociedades Tupí (Viveiros de Castro. 1972. à demonstração do seu enquadramento a alguns padrões socioeconômicos gerais definidores do que seja uma sociedade camponesa. ainda que de modos diferenciados. é pertinente. 1965. já agora como uma questão agrária" (Cardoso de Oliveira.

sobre camponeses no Sertão. Infelizmente. ou típicas (por exemplo Potter et al. bem como as diversas representações indígenas frente a essa condição. com relação. em muitos casos. com relação à questão da "tutela". 144 .. 88 – 191. Garcia Júnior. parece também colocar algumas questões ainda pouco exploradas. impondo restrições à liberdade de manifestação e até mesmo de deslocamento físico.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO sociais e representações peculiares. cuja relevância na situação aqui tratada já observei. 1975 e 1982). Como observou Carvalho: "A tutela. tais restrições visam primordialmente não apenas minimizar 76 Ver aí especialmente os artigos de Mintz & Wolf (1950). certamente se poderá redimensionar a própria questão dos modelos de campesinato indígena. estabelecendo todo um jogo de punições e recompensas e. por outro lado. transformando as reservas em algo próximo de verdadeiras "instituições totais" (conforme Goffman. Para uma boa avaliação geral. 197177) etc. para a zona da mata (por exemplo Heredia. 2011. Geertz (1959) e Silverman Por exemplo Shanin (1971) e Wolf (1971). p. Na prática. 1961). Campina Grande.. Cadernos do LEME. 1971). Interessa-me em particular as contribuições referentes a relações como o "compadrio" (Arantes. 1955. A condição legal de tutelados que tinham os índios no Brasil até a Constituição de 1988.) tem se tornado efetivamente um instrumento cerceador. inclusive bibliográfica. 3. Paine. 1979. Se se puder obter algum sucesso por essa via. nº 2. Certamente há aí um interessante trabalho a ser desenvolvido. não se dispõe ainda de uma produção quantitativa e qualitativamente satisfatória relativa ao campesinato no Sertão nordestino78. no nosso caso./dez. vol. enquanto instrumento jurídico (. situação agravada pelo fato de o antigo tutor dispor-se muitas vezes ainda a usar o velho instituto como instrumento de Coerção sobre os grupos e movimentos indígenas. mais que à própria condição legal. Jul. Acredito que um melhor aproveitamento do arsenal teórico e das experiências desenvolvidas no estudo de sociedades camponesas para a abordagem do campesinato indígena possa inclusive ser útil à revelação de adaptações de novas formas de organização a modelos tradicionais indígenas. e às diversas formas de "patronato" e "intermediação" ("brokerage") (por exemplo Wolf. do seu "papel político" (por exemplo Shanin. ao legado da tutela em práticas do antigo órgão tutelar e de outros organismos governamentais. 196776). e a permanência de práticas a isso associadas mesmo após a promulgação dessa. Foster (1967). ver Reesink (1965). e à qual voltarei a seguir. 1983). 77 78 (1981). Já referi as atitudes ambíguas que os índios e seus movimentos são ainda levados a ter perante a tutela. como se tem.

onde esta aparece como legitimação por excelência da condição étnica frente a sociedade envolvente. nos quais se verifica a produção de discursos e atitudes muito significativos com respeito à tutela. ao tentar romper os limites imediatos. certamente. pressionados pelo Sindicato de Trabalhadores Rurais e por órgãos estaduais no sentido da titulação de posses dentro do seu território. frequentemente. 2011. como os Pankararé. aplicado a relacionamentos diversos entre pequenos grupos étnicos e várias instâncias e segmentos de estados e sociedades nacionais é exercitado. com bastante sucesso. Vemos aqui. que já são percebidos como altamente desfavoráveis. a marca étnica teria. nos trabalhos dirigidos por Paine (1971. após conquistarem a demarcação e a remoção do maior invasor de suas terras. Trata-se aqui pois. p. pode tender a subverter a própria tutela no que esta contém de repressivo" (Carvalho. e mesmo. em grande medida. ver Reis (1983). dois breves estudos de caso de Rocha Júnior sobre o movimento indígena no Nordeste. um sentido positivo. esses mesmos movimentos "necessitam" da "tutela". como garantia de sobrevivência num meio social hostil. temos um relato do movimento dos Kiriri. no qual vemos como esses. 88 – 191. vol. o caráter essencial da relação não se altera significativamente. Por outro lado. 1977) com populações dos Inuit (Esquimó) no Ártico79. 3. refluem – (estrategicamente?) – num momento de crise política interna e do próprio órgão tutelar. Um uso sociológico abrangente do conceito de "tutela". alargando o nível de articulação. Jul. a tutela é buscada. nas lutas pelo "reconhecimento". Nessa percepção contudo. no primeiro caso (Rocha Júnior. Campina Grande. nº 2. 1982)./dez. como solução para que se viabilize o rompimento dos laços clientelísticos tradicionais. a uma posição de submissão a este na busca da estabilização interna e externa das suas 79 Para uma aplicação igualmente interessante do conceito de "tutela" à relação do Estado com a própria sociedade nacional num regime autoritário. É preciso lembrar também que. dão também uma demonstração magistral das possibilidades de análise com foco nessa relação. Cadernos do LEME. Por sua vez. buscando-se aquela em que. 1983). argumentam a ilegitimidade da ação desses sobre si. No segundo (Rocha Júnior. 1982a: 2). porém obstar a viabilização de um movimento indígena que. de uma substituição de tutelas. 145 . provavelmente um dos mais bem sucedidos na região à época. presumivelmente. o que é especialmente verdadeiro no caso do Nordeste. ao tempo em que reivindicam da instância competente a garantia dos seus direitos: "o índio é federal".DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO reivindicações a nível interno a cada sociedade indígena. através de longas e intensas pressões sobre a Funai. ao contrario da anterior.

Cadernos do LEME.. uma compreensão mais integrada de toda uma rede de relacionamentos que envolve as sociedades indígenas ou seus segmentos discretos com setores externos diversos. Jul. Penso que uma definição desse tipo. assim. E essas "intermediações" incluem "o governo". sempre tão cara a qualquer Antropologia Política (Barth. idealizado como um período de paz e prosperidade. nas quais se constitui sempre em posição estratégica. ser entendida em função dessas redes. no qual a reconexão dos laços violentamente rompidos com o passado que naturalmente não deixa de ser idealizado – assume o caráter de uma recuperação de informações e de vínculos – sobrenaturais mas também e fundamentalmente de direitos que permita aos seus protagonistas seguir adiante como senhores do seu devir. levaria a uma análise profundamente empobrecedora e equivocada do movimento político dos índios no Nordeste./dez. Passado. "o índio é de menor". 1959. Clastres. o antropólogo. os mandantes locais.. 146 . O estudo de movimentos semelhantes aos aqui tratados em diversas partes do mundo conduziu ao desenvolvimento das noções de "revivalismo" e "revitalização" (conforme. presente 80 Ver Friedrich (1968). p. tendo em vista a sua projeção num futuro que se impõe conquistar. a questão da "liderança". retorno esse intentado através da adoção de praticas e símbolos culturais identificados como "tradicionais". 2011. 88 – 191. 1980). gostaria de assinalar que parece interessante tentar. no sentido de conter o máximo possível das relações do tipo patrono-cliente e semelhantes. 3. pode também. a Igreja. vol. Penso. as "entidades de apoio". além de outras vias de compreensão. Campina Grande. 1974. no sentido de que: "Estes direitos fundam-se num passado que se torna o vetor da história. Wallace. 1972). Nessas circunstâncias. ainda que refletindo semelhanças evidentes com o nosso caso. O que identificamos como móvel angular desses movimentos é um projeto radical e inovador de futuro. nos mesmos termos em que Carvalho. 1956. com destaque para os rituais. por exemplo. garantindo sua reafirmação no presente.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO conquistas e de proteção diante dos seus temporariamente derrotados mas sempre perigosos inimigos. nº 2. ainda que nem sempre cômoda80. Por fim. as entidades e representações indígenas. através do estudo da "tutela". de algum modo colocados entre essas e algo além na pirâmide do poder e das tomadas de decisão. entendida de modo bastante abrangente. Por sua vez. que tendem desse modo a caracterizá-los como situações nas quais grupos sociais em estado profundo de crise buscam misticamente um "retorno" ao passado.

147 . como seria típico da maioria dos chamados "movimentos de revitalização" (conforme Wallace. vem do berço" (Citado em Carvalho. visando revertê-las politicamente para o fortalecimento da sua identidade étnica" (idem: 10). a superação da "privação étnica". 1982a: 11). onde o futuro não é de modo algum idealizado como igual ao passado. à superação de toda uma situação de privação. 1982a: 10). assim. 1984: 183). vol. à espera inclusive de que o estudo de movimentos como o dos índios no Nordeste possa lançar alguma luz no sentido. Nesse processo. 81 É interessante notar que essa "possibilidade" de contato com o passado parece afastar a ideia de uma "busca" constante e sempre irrealizável. da sua reelaboração. articulada no momento do transe81. desta reconstituição dependendo a sua viabilização como sujeitos da sua própria história" (Carvalho. indígena. tal qual hoje concebidas. em lugar do "caboclo" (Reesink. dominar o futuro. essencial mas não única. o movimento de hoje se traduz numa busca tenaz de transformação das condições objetivamente dadas.. trata-se prioritariamente de superar a privação. relativizando-a historicamente mediante o resgate cuidadoso dos fragmentos históricos. 1983b).. Deixo assim em princípio de lado categorias como "revitalização". pois. materiais pré-constrangidos que são recombinados tendo em vista a sua recontextualização" (Carvalho. em geral imputadas à situação de privação. inclusive através de uma língua específica. Fortalecimento esse que. pois. transformando-o numa força suficientemente eficiente que possa conduzí-los à superação das relações de sujeição. 3. A reelaboração de identidades parece.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO e futuro são. Índio vem da ciência. viabilizando o futuro (. se traduz principalmente no resgate do "índio". "Nesta cadeia. elos de uma mesma cadeia que se busca reconstituir. representada pela imagem do "caboclo"./dez. Jul. nº 2. aparece como condição. 88 – 191. que não tem nada de circular. "Urge. desmascarando-a como fator absoluto. talvez. "buscar contê-las num horizonte social e político mais amplo que possa romper com as limitações impostas pelo presente. Cadernos do LEME. na medida em que se constituem na "ciência" que possibilita um contato "direto" com o passado. Como eles próprios dizem: "o índio tem ciência e idioma e o caboclo não tem nada. p.)". Podemos entender assim a dimensão de importância dos rituais. Em outros termos. 1956). 2011. Campina Grande. por sua vez. Fazê-lo implica em idealizar o passado.

Este participa da investigação. Salazar (1977). Por exemplo em Barbosa (1983). tem-se já. Jul./dez. Um pesquisador não pode dar conta simultânea e convenientemente de segmentos sociais em confronto. situar com mais clareza em nossa investigação o lugar do "sistema interétnico" e da noção de "contato". Entretanto. ainda que não muito diretamente com relação à situação de contato. Desse modo. Embora não possa identificar ainda nessa produção conclusões de alcance mais amplo. não se estará entretanto procedendo de modo diverso do que tem sido tipicamente feito pela Etnologia brasileira no estudo de sociedades indígenas em contato com a sociedade nacional.). por fim. por razões metodológicas evidentes. Vale enfim ressaltar que. Carneiro da Cunha (1973) e Wright & Hill (1984). em se tratando de um estudo de etnicidade enquanto expressão de um movimento político. 3. vol. ainda que muitas vezes se anuncie um estudo de relações interétnicas. possivelmente não será demais. a natureza diversa desse movimento com relação a movimentos messiânicos (Queiróz. Para a América do Norte ver McNickle (1973). em alguns casos. além da bibliografia então recente sobre índios no Nordeste. um considerável material etnográfico a ser explorado nesse sentido83. Barros (1983) e Lea (1983). tendo em vista a qualidade desses estudos e. p. sobretudo. 1972). A esta altura já estará evidente que o objetivo aqui é a sociedade indígena e não o sistema interétnico do qual faz parte. Seria interessante tomar em conta também o farto material produzido pelos próprios movimentos indígenas. Campina Grande. Certamente não poderia ser de outro modo. capitulo VI) é uma boa exceção a isso. nº 2. como já assinalado. 1965) como os estudados em sociedades indígenas no Brasil por Melatti (1972). a forte marca étnica presente nesses movimentos. por outro lado. o foco só pode ser mesmo o respectivo "grupo étnico". quase sempre restrito a ligeiras caracterizações descritivas gerais84. apenas na medida em que se constitui numa dimensão indispensável ao entendimento daquela sociedade. O estudo de segmentos regionais em contato com sociedades indígenas constitui uma lacuna nem sempre percebida em nossa Etnologia. a rigor. em que. Cadernos do LEME. 2011. o que. Smith (1983) etc. entre outros. 82 Ver a esse respeito. Resta. 83 O estudo mais sistemático dos movimentos indígenas no Brasil apenas se esboçava em meados da década de oitenta. Ainda mais relevante porém será certamente a avaliação da produção sobre movimentos e organizações indígenas na América Latina82 e no Brasil. apesar de alguns estudos terem procurado tratar desses (por exemplo Velho. 88 – 191. 148 . diz respeito no nosso caso apenas à sociedade indígena (Cardoso de Oliveira. com uma boa perspectiva histórica. Santana (s. buscar aí subsídios à comparação e reflexão sobre o nosso caso.d. 84 Cardoso de Oliveira (1964.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO É evidente também. Bonfil Batalla (1978). em geral não se busca a investigação direta do chamado "segmento regional". a não ser talvez em situações muito excepcionais de pesquisa.

Campina Grande. podem revelar-se esclarecedoras. 1966). Talvez não estivesse necessariamente errado se tentasse aplicar esse arsenal teórico às condições do Sertão nordestino. sob novas formas. quanto internamente os seus segmentos camponeses. 88 – 191./dez.. existe "fricção" e há uma "integração" na qual poderíamos até identificar diferenciais de "potencial". em que etnias minoritárias se viam na contingência de intensas transformações culturais. no mínimo. 2011. vol. Carneiro da Cunha. Me parece que a noção de "contato" – especialmente como elaborada em Cardoso de Oliveira. entre os quais os indígenas. No nosso caso. mais integralmente. de um modo Cadernos do LEME. com as situações locais dos movimentos indígenas. por sua vez. excessiva. e bastante bem diferenciáveis. procurei desenvolver algumas ideias no sentido de identificar algumas injunções entre as mudanças sociais provocadas pela construção da grande hidrelétrica de Paulo Afonso nos anos cinquenta e alguns aspectos do desenvolvimento do movimento étnico dos vizinhos Pankararé. sua operacionalidade. revela-se bem mais eficaz e elucidativo ao lidar com aquelas situações de fronteira. 149 . no sentido de uma melhor compreensão do seu movimento indígena.. dos padrões regionais. De qualquer modo. p. em seus múltiplos aspectos. sem dúvida podemos falar em "contato". Cardoso de Oliveira. tenho a impressão que noções como "colonialismo interno" (Casanova. com base na ideia de "fricção" – ainda que tenha sido aplicada a diversas situações interétnicas. como é ainda hoje o caso de boa parte do Brasil central e amazônico. nº 2. das terras. não significando isso entretanto que se esteja subestimando a dimensão "interacional". Em outro lugar (Sampaio. 3."contrastiva" etc. Jul. do gráu de hostilidade presente na oposição étnica etc. foi engendrada.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO 1976. permanecem atuantes. A noção de "contato interétnico". 1979). e com sociedades minoritárias com não muitas gerações de "contato" mais intenso. 1984). de acordo. por exemplo. sociologicamente. muitas vezes em função da simples presença de um agente externo até muito recentemente completamente ausente. e preferiria deixar os conceitos reservados aos contextos em que possam revelar. uma tal caracterização me parece. é indiscutivelmente interessante que se possa dar conta de determinantes socioeconômicos no quadro regional. todo o seu aparato conceitual envolvendo noções como "frente de expansão" e "potencial de integração". como outras que ajudem a entender a situação de dependência que caracteriza tanto a região nordestina. 1962. em especial o Sertão. desses fenômenos. Acredito que. em que a ação modificadora das "frentes" é ainda bem nítida. Decerto as "frentes" econômicas. Entretanto. no plano nacional. para dar conta de situações coloniais ou de "fronteira".

factuais e teóricas. espero possa conduzir à apreensão e construção desse objeto enquanto "totalidade concreta" (Marx. unidade da diversidade. vol. 1976).. pela articulação a outras totalidades do mesmo nível. possa servir de base. algumas "pistas". cujo trilhar. açudes. pelas vias da ação (investigação) e da reflexão. pode ser tomada como um dado básico a partir do qual se possa acompanhar algumas hipóteses de injunções sobre a situação indígena. III. Método. um resultado. mas uma rica totalidade de determinações e de relações numerosas" (Marx. por exemplo. que não seria. procedimentos O que intentarei construir como objeto de pesquisa é algo que poderia ser muito vagamente denominado o "ser" da sociedade Kapinawá. 2011. como procurei demonstrar. como também já procurei delinear. Jul. 1859).. 1859: 218). através do que se pode chamar um "processo de objetivação" (conforme. Campina Grande. 3. Totalidade que espero. a interferência mais direta do Estado na região através de grandes direcionamentos econômicos – hidrelétricas. não sei. técnicas. Em que tal consiste. incentivos agrícolas – identificável mais intensamente a partir de meados dos anos cinquenta. mas tenho. A expressão metodológica mais acabada e mais lúcida desse "processo" acredito encontrar-se na proposição que faz Marx (1859) de um método para a Economia Política. logo. seria necessário caminhar em sentido contrário até se chegar finalmente de novo à população [o 'todo' no caso]. desta vez. 150 . à formulação de outras totalidades. e tendo como marco a criação da Sudene (Cohnn. apesar de ser o verdadeiro ponto de partida e Cadernos do LEME. Partindo daqui./dez. nº 2. Sabemos que um objeto de pesquisa nas Ciências Sociais é fundamentalmente um produto da elaboração constante inerente à própria dinâmica de pesquisa. sob forma de um "concreto figurado": "(.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO geral.) passaríamos [pela análise] a abstrações cada vez mais delicadas até atingirmos as determinações mais simples. objetivamente. a representação caótica de um todo. e não um ponto de partida. 88 – 191. Assim: "o concreto é concreto por ser a síntese de múltiplas determinações. 1977). Segundo este. a partir de uma percepção inicial caótica do "todo". É por isso que ele é para o pensamento um processo de síntese. p. Bruyne et al. mais gerais e mais abrangentes.

ver Bonfil Batalla (1972). como variantes que vão desde sinônimos absolutos até opostos diametrais. "análise situacional". 1859: 219). nº 2. tal como ocorrem entre os povos indígenas no Nordeste. O primeiro passo reduz a plenitude da representação a uma determinação abstrata. Thus records of actual situations and particular behaviour have found their way from the fieldworker's notebooks into their analytical descriptions. melhor dizendo no caso. Poderíamos absorver esse processo e essa relação de categorias reelaborando-os no sentido de uma melhor compreensão do movimento indígena no Nordeste? Acredito que o essencial do que teria a expor com relação a um método mais especificamente antropológico de investigação e analise esteja já contido na discussão teórica acima. 86 A respeito da produção e do percurso da categoria colonial de "índio". que pensa exterior e superiormente à observação imediata e à representação. vol. ela não é pois de forma alguma o produto do conceito que engendra a si próprio. como prefere. "nativizadas" – de "caboclo" e "índio” 86 se nos apresentam hoje. 1961a: 7) of the 85 Ver também o seguinte trecho. mas um produto da elaboração de conceitos a partir da observação imediata e da representação" (Marx. refiro o que Van Velsen (1967) identifica como elementos fundamentais no "método de caso desdobrado" ou. Cadernos do LEME. to the study of complex social relationships. com um processo político de redefinição de conceitos que parece conduzir. Jul. Num exemplo que me parece bastante pertinente.. as categorias nativas – ou. 151 . Apenas a título de síntese. cada vez mais. é de fato um produto do pensamento.pelo segundo as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto pela via do pensamento" (idem: 218-219) 85. É nos termos desse processo que procuro entender a construção de "categorias científicas" através de um "diálogo" entre as "categorias nativas" e as abstrações do pesquisador. 3. enquanto totalidade-de-pensamento. 2011. numa contestação a Hegel: "A totalidade concreta. Barnes (1958) has noted the 'shift away from the collection of statements about the customs and the details of ceremonial behavior. tomada aqui como paradigma da investigação antropológica sobre a dimensão ética das representações e relações sociais. da atividade de conceber./dez. 88 – 191.. p. 1922: 18) but also for coordinate accounts of the action of specified individuals. do primeiro ao segundo caso. mais simplesmente. Campina Grande. [with the consequent] emphasis on actors rather than informants'.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO portanto igualmente o ponto de partida da observação imediata e da representação. "This approach calls not only for the recording and presentation of the 'imponderabilia of actual life' (Malinowski. not as 'apt illustrations' (Gluckman. e possa muito claramente ser dela depreendido.

p. por outro lado. seguramente pressupõe o uso de outras. aprendemos desde Malinowski (1922) a designar como "observação participante” 88. Cadernos do LEME.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO authors' abstract formulations but as a constituent part of the analysis" (Van Velsen. não podemos minimizar a importância das entrevistas. 88 Para algumas considerações bem práticas sobre "observação participante". e ainda em função do objetivo pretendido. Só se poderá entendê-las mais profundamente em suas múltiplas articulações e implicações observando-as em suas práticas e convivendo com elas. numa população de poucas centenas de indivíduos e algumas dezenas de "famílias". No tipo de pesquisa que se pretende desenvolver. certamente se revelara esclarecedora. 1967: 139-140)87. mas. decerto deve-se fazer um censo. mais específicas. importante observar que a esse nível trata-se apenas de "esboçar" relações sociais mais complexas. acredito possa ser feito com uma "proximidade" de relacionamento com os informantes. com todas as imprecisões e subjetividades inerentes a essas. A execução de um levantamento genealógico. com um discurso destes. ainda que muito pouco homogêneos e padronizados. devemos estar empenhados acima de tudo no exercício do conjunto de procedi mentos que. 2011. só poderão ser devidamente avaliadas durante a própria pesquisa. 88 – 191. As proximidades e discrepâncias aqui parecem-me curiosamente extensas. 1968. apesar da ênfase em "atores". no caso. não faz sentido algum elaborar questionários ou empreender entrevistas "diretivas". em outras palavras. A solução no caso parece ser o exercício – sempre mais difícil mas também mais proveitoso – de entrevistas "não diretivas" (Thiollent et al. ainda que limitado. Essa técnica mais geral entretanto. Como ponto de partida à investigação. ver Foote-Whyte (1943) e Berreman (1962). As dimensões desse. que nos permita talvez já aí esboçar as "redes" sociais (Barnes. Num trabalho de campo desse modo orientado. 1971) sobre as quais estaremos trabalhando. 152 . e não exclui jamais o recurso a "informantes"./dez. dos Kapinawá. 3. Bott. vol. e tendo em vista a necessidade de lidar com representações mais elaboradas dos informantes. Numa reflexão sobre minha experiência de pesquisa disse: 87 Há certamente uma vasta discussão a ser travada entre a "analise situacional" e a proposta de uma "descrição densa" em Geertz (1973). Jul. nº 2. em geral pouco comum a esse nível. bem como a extensão da pesquisa sobre ramificações sociais de parentesco e outras para fora do grupo local. Campina Grande. 1982). o que. ou.

o da seleção dos informantes. em especial a "atenção flutuante" e a "livre associação". Campina Grande. evidentemente – poderia colher informações e impressões insuspeitas e inatingíveis num processo padrão do tipo 'pergunta e resposta'. quando.). Jul. mesmo quando desenvolvida e complexificada em direções diversas (por exemplo em Leach. Dito de outro modo. como qualquer relação social. mesmo enquanto tais – e. Voltando a questões mais próximas. Particularmente tenho a impressão que tal recurso possa ser tentado frutiferamente. 3. em alguns casos. onde. mas ainda com relação a um aspecto relevante na entrevista. com atenção a como. Uma aproximação metodológica bastante abrangente e exploratória entre psicanálise e etnologia é tentada por Devereux (por exemplo 1957). remeto-me. de qualquer modo. nesse desenvolvimento técnico. 88 – 191. se revela sempre mais fecunda. quem mais estava presente etc. 2011. intervindo apenas no sentido de esclarecer pontos do discurso e principalmente no de estimular o desenvolvimento das ideias e temáticas sugeridas pelo informante. 1970). é preciso que se esteja ciente de que os informantes. De princípio um grau alto de familiaridade e confiança recíprocas entre o informante ou grupo de informantes e o pesquisador é um pré-requisito indispensável e que só pode ser obtido anterior e exteriormente à relação de entrevista. ou na coleta mais direta de dados de modo geral. vol. deve ser vista "situacionalmente". Daí achar que a situação ideal de entrevista é aquela na qual o investigador fala o mínimo possível. ao deixar o informante falar livremente durante períodos relativamente longos de tempo – quando esse se dispõe a isso. 1985c: 5-6). não é fácil. levando-se em consideração as evidentes diferenças de situação entre a psicanálise e a entrevista sociológica não-diretiva89. 1958 etc. às minhas próprias reflexões: 89 Desenvolvi um pouco mais essa questão em Sampaio (1985c). por parte do pesquisador. sobretudo – são também "atores". o desempenho técnico de tais entrevistas porém. talvez./dez. através de uma convivência prolongada. sem procurar jamais redirecionar ou fragmentar-lhe o discurso" (Sampaio. a possibilidade de um enriquecimento considerável da análise simbólica em Antropologia que.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "Meu interesse pela 'não-diretividade' surgiu principalmente a partir da descoberta de que. nº 2. ainda. isto é. Vislumbro. Também não se pode esquecer que essa relação. Como disse. na medida em que atenta a princípios estruturais básicos identificados por Freud (já em 1900 e 1901). 153 . desde que se empreenda o necessário redimensionamento dessas técnicas. de algumas técnicas próprias à pratica psicanalítica. mais uma vez. e desenvolvidos – diversamente quanto às técnicas de apreensão – em Lévi-Strauss (1949a e b. Cadernos do LEME. Uma questão importante que se coloca ao referido desempenho técnico diz respeito à possibilidade de adoção. p.

Um aspecto importante nesse item diz respeito aos 'especialistas' que toda sociedade produz para dar conta de tarefas e assuntos determinados. 88 – 191. ou seja. 154 . ainda que o grau de dificuldade nessa comunicação seja bastante variável. Sigaud (1980) e Viveiros de Castro & Carneiro da Cunha (1985). Jul. Leach (1953). acreditando que todo mundo sem exceção deveria ter algo de interessante a comunicar. devemos atentar para questões análogas às tratadas acima no que diz respeito ao "controle de informações". se tal for relevante. só num segundo movimento. em síntese. II) e. E. 90 A respeito desses temas. que "The voice of the past matters to the present" (Thompson. não necessariamente mais importante. Ver. nunca empreguei critérios muito especiais. e que são imediatamente apresentados ao etnólogo quando esse revela interesses específicos no setor de competência de algum deles.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO "A respeito da escolha de informantes. cap. Thompson. Campina Grande.). dos mais ricos em Antropologia. vol. o "passado" tem uma importância decisiva no presente (Hobsbawn. 1972. cap. entre outros. no Brasil. antes de mais nada. mas suas cuidadosas e úteis recomendações em momento algum problematizam a situação de pesquisa ou a relação pesquisador-informante durante a coleta. Cadernos do LEME. Ao lidar com dados históricos. 3). trabalhar criticamente sobre o material coletado no sentido de uma "reconstituição" histórica. Sabemos. em especial de história oral. Também nunca consegui distinguir com muita precisão entre bons e maus informantes. deixando ao contrário essa tarefa muito mais a cargo deles próprios. da elaboração que as sociedades fazem sobre suas informações históricas. Vernant (1956. parece-me que uma investigação com base em história oral – e em especial uma investigação antropológica – deve procurar dar conta. 1978 etc. mas é importante cotejá-la com a de informantes menos comprometidos com a 'guarda' de saberes especiais e que frequentemente enriquecem e reelaboram as visões 'oficiais'" (Sampaio. 1978: X). 1985c: 8). Naturalmente admito que toda atenção deva ser dada à palavra do especialista. Evans-Pritchard (1940b. que as tradições são sempre reinventadas e que. nº 2. 3. Um ponto fundamental a observar aqui é o "papel" da história na sociedade estudada. 2011. quando fatores como simpatia pessoal. no sentido contrário. disponibilidade e interesse contavam bastante. p. Assim./dez. da a percepção que têm do "tempo" e do lugar social da "memória"90. do processo de "produção" de um passado. e especialmente em casos como o nosso. Vansina (1961) desenvolveu um minucioso método de coleta e análise de narrativas orais.

155 . menos provavelmente em arquivos locais. No nosso caso. devem ter seu lugar dentro da mesma perspectiva. Por fim. em arquivos públicos no Recife. A recuperação da História como parte de uma metodologia que vise dar conta da identidade. 3. Como percebe muito bem Cardoso de Oliveira. por sua vez. nº 2. os caciques. a "'historização' das sociedades indígenas viabiliza extraordinariamente a própria historiografia.). deve haver algumas informações sobre a área indígena em questão. devo dizer o que me parece possível fazer com fontes escritas.). no sentido em que a fazem os historiadores. que podemos tomar aqui como uma categoria particular de "história oral".. e inexploradas. no que diz respeito à investigação histórica.. vol. Além das crônicas históricas que se poderá também utilizar e que. 2011. Em primeiro lugar. o movimento kapinawa parece articular-se em torno de algumas posições e personagens centrais (o primeiro pajé. Procurarei investigar o que é possível descobrir por essa via. Campina Grande. ou em arquivos de ordens religiosas. Outras fontes inexploradas. como se viu. tentar reconstituí-las através de outros informantes. para os quais a presença e atuação dessas personagens teve ou tem tido uma importância muito grande. 88 – 191. como vimos. no duplo sentido da penetração no tempo. 1978: 124). tanto quanto no que se refere à apreensão pelo etnólogo do processo de mistificação ou ideologização dos eventos históricos (ao nível do grupo) e biográficos (ao nível do indivíduo) pelos agentes étnicos (. como a que se pretende desenvolver. na reconstrução de processos regressivos às origens de tal ou qual movimento que diga respeito à constituição do sistema interétnico. se quisermos alcançar progressos seguros nos estudos étnicos no Brasil" (Cardoso de Oliveira. mas em poder investigar e compreender dados históricos indispensáveis numa pesquisa antropológica que. Jul. como também estimula pesquisas mais aprofundadas. da etnia e da estrutura-social. lida com uma sociedade profundamente marcada pela história e por uma "historicidade"./dez. além de tomarlhes diretamente "histórias de vida". Devo notar aqui que não estou especialmente interessado em fazer História. p. são as crônicas regionais. há em Pernambuco uma vasta produção de crônicas locais.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO As "histórias de vida". [deve] ser posta como alvo imediato do etnólogo. Seria interessante. certamente não muitas mas talvez muito significativas.. e que talvez possam trazer surpresas positivas. não são muitas.. relativas a Cadernos do LEME.

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municípios ou microrregiões (por exemplo Barbalho, 1977; Albuquerque, 1960 etc.), cuja exploração pode ser útil, no mínimo, à compreensão do quadro local e regional91. Deixando agora de lado os procedimentos mais puramente técnicos, gostaria de fazer algumas considerações rápidas a respeito de algo que lhes é, metodologicamente, anterior. Trata-se do relacionamento, num sentido amplo, a ser construído entre pesquisador e universo social pesquisado. Limitarei-me aqui porém a retomar sinteticamente questões que propus em outro lugar (Sampaio, 1985c). Tentei então de início avaliar algumas posturas metodológicas que me pareciam muito "idealizadas" com relação ao papel e ao "lugar" do antropólogo em campo. A posição de Seeger (1980), por exemplo, ao definir-se em tal circunstância como "uma criança no mundo", enfatizando o necessário processo de ressocialização pelo qual passa sempre o etnólogo em situação de pesquisa, em especial em sociedades muito diversas da sua própria, parece comprometer a imprescindível consciência de que se é um membro – e um membro amplamente socializado – de uma sociedade dominante com relação àquela em que se está; dominação essa, de resto, evidente na própria quantidade de técnicas e de bens que a suposta "criança" manipula em seu trabalho. Conclui-se então, facilmente, pelo prejuízo que tal perspectiva significa, tanto à busca de algumas "simetrias" básicas na relação da pesquisa, quanto à própria dimensão de realidade dessa relação. O misto de distanciamento metodológico e melancolia existencial identificado, por sua vez, por Da Matta (1978) como característica do antropólogo em campo, no que chama de 'anthropological blues', parecia-me interessante enquanto dimensão viabilizadora da transposição lógica do "estranho" ao "familiar" e vice-versa, inerente ao fazer antropológico. Disse, por outro lado, que:

"Estados agudos de 'anthropological blues' podem ser sintomáticos de falta de 'dialogicidade' entre pesquisador e sujeitos, no sentido em que Tedlock (1979) usa este termo; isto é, um procedimento de pesquisa no qual as descobertas são impulsionadas e discutidas através de um 'diálogo' entre os dois polos envolvidos na relação de pesquisa, os quais tenderiam, por essa via, a se aproximarem de uma posição de equilíbrio e identificação" (Sampaio, 1985c: 10-11).

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Não insistirei, também aqui, na necessidade de se fazer uma abordagem crítica, "contextualizada" etc., das crônicas. Mesmo porque parece não haver muito consenso sobre "como" fazê-lo. Para algumas recomendações interessantes no trato com cronistas, ver Oliveira Filho (1982).

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Introduzia assim uma discussão das possibilidades de uma "dialogicidade" na situação da pesquisa, em oposição à fórmula clássica do "estranhamento", do qual o 'anthropological blues' é "sintoma". A "dialogicidade" entretanto, levada a seus extremos, parecia-me buscar uma redução absurda de papéis irredutíveis no processo de pesquisa, com comprometimentos para a "eficácia critica" da investigação. Busquei então algumas brechas que permitissem dizer que:

"Talvez mesmo os dois procedimentos não sejam assim necessariamente excludentes (...). De qualquer modo, se o 'insight' antropológico é realmente uma experiência individual – e até certo ponto solitária como quer Da Matta [pelo menos num momento inicial em que este ocorre] – e tenho a impressão que assim o é, então a dialogicidade tem seus limites, o que também nos parece correto embora não saibamos exatamente onde estão estes e até que ponto possam ser questionados. O que parece claro porém é que a postura de "estranhamento", típica do antropólogo (...), não pode nem deve ser confundida com ausência de compartilhamento com os sujeitos das questões e interpretações" (idem: 11). Compartilhamento que me parecia, em larga medida, viável através das técnicas nãodiretivas, sem prejuízo do "estranho metodológico". O que no fundo pretendia – e certamente sem chegar a respostas muito palpáveis, o que de todo modo não invalida a busca – era procurar algumas medidas de relativização entre as perspectivas que definem o etnólogo como "decodificador" e "tradutor" da cultura nativa, num alto grau de onipotência científica; e aquelas que tendem a encará-lo como mero "interlocutor", ou "testemunha" dessas culturas, ocupado em pouco mais que apenas "fragmentar", pela sua "escritura", a "prática" viva das mesmas. Passaria daí a considerações sobre a inserção do etnólogo em uma sociedade politicamente diferenciada internamente, e de como procurar chegar a posições o mais próximas possíveis de uma equidistância com relação aos diversos "grupos de interesse" presentes. No que diz respeito às relações que viabilizem a manutenção do pesquisador em campo e o seu trabalho de "coleta" de informações, procurei desenvolver, a partir da minha própria experiência, a ideia de "reciprocidade", sempre tão presente nas sociedades com as quais trabalhamos, como orientação, nas suas diversas formas, para estabelecimento de um "modo básico" de convivência e de exercício das necessárias trocas – econômicas e simbólicas – com os sujeitos da pesquisa.

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Coloca-se aqui então o problema das diversas "demandas" que esse sujeito dirige ao pesquisador, de acordo com anseios e expectativas não só com relação à pesquisa, mas ao próprio pesquisador enquanto agente externo "interessado" em seus problemas e aspirações. Dizia então:

"Evidentemente a demanda dos sujeitos pelas muitas formas de relacionamento com os pesquisadores – enquadráveis ou não nas diversas categorias estabelecidas, como clientelismo, paternalismo, intermediação, assessoria etc. – varia de acordo com os níveis de organização, participação e consciência política daqueles próprios, muito mais que em função de posturas adotadas ou sugeridas pelos últimos. Responder, discutir ou desencorajar estas demandas é uma questão pessoal e política a ser enfrentada por cada pesquisador em cada situação particular, e decidida de acordo com sua consciência e sua sensibilidade. Não acredito em fórmulas de uso geral para tanto (...). Pessoalmente tenho procurado me comportar com relação a isto de acordo com diretrizes políticas que me parecem claras e que julgo comprometidas com as causas vitais dos próprios sujeitos, o que não quer dizer que tenha sempre claro (...) o melhor caminho a seguir. A única atitude realmente improcedente entretanto, embora não infrequente, parece-me ser a de tentar fechar os olhos à essas demandas, buscando envolver a situação de pesquisa numa atmosfera artificial de distanciamento e 'neutralidade', claramente impossíveis" (idem: 14-15). Chegava assim enfim, inevitavelmente, a questão mais candente da "participação" do antropólogo nas "lutas" dos segmentos sociais envolvidos em suas pesquisas; e na discussão daquilo que se tem um tanto vagamente definido como "pesquisa participante" (por exemplo em Brandão, 1981), e que é muitas vezes tomado, facilmente, como um "rótulo" capaz de legitimar social e politicamente qualquer pesquisa e, às vezes, em detrimento de uma maior atenção aos procedimentos científicos utilizados. Procurei, naquela ocasião, refletir sobre minha própria prática, reconstituindo a articulação que sempre buscara entre uma "participação" – política – e minhas pesquisas "científicas". Hoje talvez saiba mais claramente da natureza radical e indissolúvel desse vinculo, nos termos em que o expressa Viveiros de Castro (1980), ao comentar posições que: "Consideram o trabalho teórico – dos 'antropólogos acadêmicos' – como irrelevante, alienado, desvinculado das lutas concretas dos povos indígenas. Ao contrário dos que sustentam aberta ou veladamente esta posição, não creio haver nenhuma Cadernos do LEME, Campina Grande, vol. 3, nº 2, p. 88 – 191. Jul./dez. 2011. 158

por ser 'terrorista' no sentido que Sartre dá a este adjetivo: isto é./dez. a da "construção do objeto". vol. ser já. que insistimos em desenvolver trabalhos de pesquisa entre povos indígenas no Brasil. necessariamente. grifos originais). 159 . 88 – 191. uma ocupação quase cotidiana de boa parte dessas populações do Sertão do Nordeste e. 1980: 5. é cega para o que faz daqueles homens. através do que pude repensar sobre o meu próprio trabalho.. 3. homens" (Viveiros de Castro. por reduzir a variedade e a riqueza das situações e motivações a uma lógica abstrata. Termino aqui tentando voltar à questão inicial deste tópico. desta vez. apesar das crescentes dificuldades que a isto se tenta impor. tinha inicialmente um maior interesse pelos rituais. pior ainda. de fato. genérica e estéril diante dos crimes contra os índios e de uma solidariedade abstrata e 'humanista' para com essa luta. ligeiramente diversa: "Ainda apegado a uma imagem 'idealizada' de índios.) Mas o que precisamos nos perguntar – e é esse o trabalho teórico e essa a nossa responsabilidade – é se. dirigindo meu interesse para as questões da etnicidade. assim. quanto as forças que combatemos são cegas para o que faz daqueles índios. índios. O juízo muito comum 'é absurdo estudar parentesco (ou mitologia. Campina Grande. absurdo. talvez por localizar aí os aspectos culturais mais 'puros' numa sociedade profundamente alterada historicamente. Reproduzo-o aqui apesar de a situação hoje. isto é. Se não pudermos e soubermos entender isso nosso compromisso de antropólogos não passará do estágio de uma indignação abstrata. em si mesmo. que se recusa intransigentemente a distinguir e diferenciar. e da importância dessa compreensão para estas mesmas "lutas". E é certamente por sabermos da eficácia especifica do nosso saber e da nossa prática – antropológicos – na compreensão dessa "luta" específica. acamponesada e assemelhada à população envolvente. 2011. a mitologia ou a musica são tão importantes para homens que lutam pela terra e morrem de fome. sobre tudo – por que o parentesco. imaginando estar 'ao lado' dos índios. Jul.DE CABOCLO A ÍNDIO – JOSÉ AUGUSTO LARANJEIRAS SAMPAIO contradição em princípio entre a lógica própria da atividade científica e o compromisso ideológico e prático com o trabalho indigenista. cairemos numa prática indigenista concreta que. nº 2.. com os índios. formalista. Descobri nesses rituais a busca da afirmação daquilo que realmente os preocupa: sua identificação étnica enquanto grupos diferenciados perante uma sociedade que insiste em estigmatizá-los ao mesmo tempo em que negar-lhes tal condição. p. cheguei aos meandros políticos internos e Cadernos do LEME. como – e. ao terminar a elaboração desse plano de pesquisa. Certamente é absurdo 'estudar' qualquer coisa . e o farei. (. ou música) quando os índios estão lutando pela terra ou morrendo de fome' é.mesmo a fome e a luta pela terra – em certas situações. há algum tempo atrás. Ou. 'Ser índio' é.

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externos por onde passam as discussões e articulações relativas a cada grupo étnico em particular, através dos quais estes constroem seus discursos e viabilizam suas lutas. A etnicidade fornece o suporte ideológico-organizacional de um amplo processo de reconquistas territoriais e, trabalhando com os índios no encaminhamento dessas lutas, descobri a relevância das informações históricas e o próprio interesse que os índios demonstram neste sentido (...). Assim, meus interesses atuais de pesquisa têm a ver com uma tentativa de enfeixar todas estas diretrizes temáticas e pô-las em discussão com algumas questões teóricas pertinentes. Tenho a impressão – e a intenção – que isto possa ser caracterizado como a construção de um objeto de pesquisa junto com seu próprio sujeito" (Sampaio, 1985c: 16-17).

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