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Levanta-te e Anda...
Copyright by © Petit Editora e Distribuidora Ltda., 2007
1-11-07-6.000
Direção editorial: Flávio M a c h a d o
Assistente editorial: D i r c e Yukie Y a m a m o t o
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Capa e diagramação: R i c a r d o Brito
Revisão: Mareia Nunes
Auxiliar de revisão: Adriana Maria Cláudio
Fotolito da capa e impressão: S E R M O G R A F - Artes Gráficas
e Editora Ltda.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Pinto, Cenyra.
Levanta-te e anda... / Cenyra Pinto. - São Paulo : Petit, 2007.
I S B N 978-85-7253-158-0
1. Atitude (Psicologia) 2. Auto-ajuda - Técnicas 3. Conduta
de vida 4. Espiritismo 5. Realização pessoal I. Título.
07-8171 CDD: 133.901
Índices para catálogo sistemático:
1. Auto-ajuda : Espiritismo 133.901
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É proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma
ou por qualquer meio, salvo com autorização da Editora.
Q
(Lei n 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.)
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autor e conseqüentemente contribuindo para uma ótima divulgação do livro.
Cenyra Pinto
Editora
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RECEBI SEU LIVRO LEVANTA-TE E ANDA..., ESCRITO POR SUAS
mãos operosas de seareira do bem, sob a inspiração do
amigo espiritual Jacy, páginas que me proporcionaram
horas de muito estudo e consolação.
Peço aos nossos benfeitores espirituais acompanharem
suas tarefas de missionária do nosso ideal amparan-
do-lhe o coração, em todos os seus passos.
Envia-lhe um afetuoso abraço, seu irmão reconhecido,
Chico Xavier
DEDICATÓRIA
A QUERIDA LEDA AMARAL, LEDINHA, A HOMENAGEM DE
espírito, de quem muito recebeu em estímulos do seu
nobre coração.
Ao meu prezado esposo e companheiro de
tantos anos, quiçá da eternidade, dedico este modesto
livro, pelo muito que lhe devo.
Ao meu filho, nora e netos, com todo o carinho,
ofereço a herança que consegui amealhar nos cofres
da minha alma, pedindo a Deus que essas escassas
moedas venham a se valorizar mais nas suas mãos.
AGRADECIMENTOS
À FRATERNIDADE BRANCA UNIVERSAL, QUE ENVIA SEUS
mensageiros, instrutores e protetores, onde e quando
a presença da luz se fizer necessária, o meu reconheci-
mento pelo muito que me veio às mãos.
Ao meu estimado guia espiritual Jacy e aos
demais amigos da espiritualidade, que, expressamente,
me trouxeram muitas das mensagens deste livro, mi-
nha gratidão pela assistência permanente, em todos os
momentos da minha vida, mostrando-me sempre as
lições nela contidas e ensinando-me a vivê-las dentro
das minhas possibilidades.
Eis que, mescladas às páginas psicografadas,
vão outras vividas ou percebidas por mim, no dia-a-
dia, sempre inspiradas por eles.
9
Cenyra Pinto
E se aos amigos leitores não ofereço senão
lições singelas, tenho a certeza de que lhes dei opor-
tunidade de colaborar na ajuda às obras assistenciais,
a que se destina o produto da vendagem deste livro.
Que um sincero desejo de paz una todos os
corações.
autora
10
SUMÁRIO
Prefácio 15
Apresentação 19
Exortação 23
"Levanta-te e anda..." 26
Desperta! 29
Procura te encontrar 32
Conquista-te a ti mesmo 36
Educa a tua mente 39
Não te impacientes 43
Apazigua teu espírito 45
Torna-te grande! 48
Se perseveras, vencerás 50
Viver e aprender sempre 54
11
Cenyra Pinto
"Nem só de pão vive o homem" 56
Luta interna 59
A conquista do silêncio 63
Amanhã será outro dia 66
Tudo te pertence 69
Nunca estamos sós 72
Paz de consciência 74
Que a lei se cumpra 78
Reverência à cruz 81
"Paz na Terra" - Aos homens, boa vontade 84
Conselho amigo 89
Paciência 94
Tolerância 100
Quem não deve não teme 105
Avante! 108
Hei de vencer 111
Dar! 114
Servir 117
Verdadeiro serviço 122
12
Levanta-te e anda..
"A cada um segundo as suas obras" 125
"Bendito seja o que vem em nome do Senhor!" 129
Alegria 132
Serenidade 135
A missão da mulher 137
Semente de amor 139
Simplifica tua vida 142
Nosso relicário 145
O lugar do belo 148
Renúncia 151
Ajudar 156
A vida - grande mestra 160
"Não julgues..." 163
"Homem de pouca fé" 166
Covardia 170
Advertência 172
Cada um é o que é 176
A prova de resistência 179
"Não atirem pérolas aos porcos" 182
13
Cenyra Pinto
Aprender sempre 185
Sejamos compreensivos 188
Desânimo 191
Procura compreender 194
"Eu sou o caminho" 197
Fé 201
Coragem 203
Cautela! 207
Não cries fantasmas 209
Tudo é natural 211
Aceitação consciente 214
Pesquisando em silêncio 217
Trabalho 220
14
PREFÁCIO
MINHA QUERIDA AMIGA CENYRA PINTO INCUMBIU-ME DA
tarefa que muito me distingue - a de ler e apreciar
os originais deste seu livro. Procuro desincumbir-me
desse dever com a responsabilidade que o assunto
exige. Para mim não é fácil a convivência com as
coisas sagradas.
Não estamos apresentando obra de cunho li-
terário, que deva ser examinada pela plasticidade da
linguagem, pela técnica empregada ou pelos valores
de criação. Este livro não visa a tais propósitos, não
disputa lugares. Objetiva outro fim. Sob esse aspecto
é que cresce de vulto. A linguagem é mansa, simples,
humana e espiritual. Os ensinamentos que vamos en-
contrar são, para muitos, a água viva que a ingênua
samaritana desconhecia.
J5
Cenyra Pinto
E sempre assim; os grandes ensinamentos, por
descerem ao nível comum de nossa compreensão, são
tidos como fáceis, quando não vulgares, repetidos. O
sol também se repete sempre e sempre é novo. É dife-
rente o claro fulgor de sua alegria construtiva.
Coisas sagradas são as daqueles que se associam
a Deus e o tomam por testemunho e companheiro de
todos os atos. No silêncio do reino interno, sabem dis-
cernir o que é de cima, o que é de baixo e vivem a alegria
submissa de ser a vontade de Deus, conscientemente.
Nessas mensagens há clarões de luz.
Se você luta para despertar e compreender mais,
leia, releia, medite e ensaie aplicar as soluções amigas
que lhe estão sendo oferecidas. Não há um plano em
que se situe o desenrolar dos capítulos.
Os assuntos nasceram das lições do cotidiano.
Como são úteis! Eu acredito na percepção daqueles a
quem foram dirigidas. Sentirão o poder do que lhes foi co-
municado. Um instante de pausa, talvez de abatimento,
e, por fim, a vontade de retomar à luta pela renovação de
si mesmo. Renovar-se é renovar tudo. E doar-se a tudo e
a todos como a grande fonte doa incessantemente.
16
Levanta-te e anda..
A contribuição que estas páginas terão ao traba-
lho do bem é inegável. A autora, inspirada, explora um
lastro de intuições, que põe a serviço do ser humano.
Oxalá sua responsabilidade na tarefa de esclarecimento
continue crescendo e se efetuando com amor. Que a
sua árvore benfazeja nos proporcione novos frutos.
Forço os gonzos dourados. As portas já se abrem.
Entrem. Sejam felizes. Que a paz esponte em todos os
corações.
Fernando Jorge Uchôa
17
APRESENTAÇÃO
INÚTIL ME PARECE MAIS UMA APRESENTAÇÃO DO LIVRO L E -
vanta-te e anda..., de Cenyra Pinto. Entretanto, fui soli-
citada a dizer algo sobre esta pequena jóia, filigranada
pelas suaves mãos da querida irmã, que nos oferece
preciosos vasos de água viva, cujo conteúdo tanto
nos poderá tornar mais suave a sede.
A grandiosidade de uma obra não se mede
somente pelo seu aspecto ou forma, mas principal-
mente pela qualidade da matéria nela contida. E essa
é de primeiríssima, quer em espiritualismo, quer em
ética. E Cenyra nos exemplifica em cada página que
escreve, pois sua vida é um reflexo vivo de suas pró-
prias convicções.
Livros deste teor podem elevar as almas e con-
duzir a humanidade ao caminho da perfeição. A par
19
Cenyra Pinto
de ensinamentos esotéricos, vemos sadias normas de
moral cristã, que nos convidam a percorrer as estradas
palmilhadas pelos mestres e a nos sentirmos irmãos
de todos os homens, o que equivale a dizer: o céu
desceu à Terra...
Seu livro é, pois, um cântico começado no re-
cesso de seu coração e trazido a lume pela sua pena.
Nos arquivos astrais já se achava impressa
toda essa fonte de beleza que refresca e apazigua a
alma, e a irmã - canal maravilhoso que é - não teve
dificuldade em captá-la. Esta obra é como as linfas
cristalinas que correm das altas vertentes e desse-
dentam os habitantes do vale! Assim, estou certa,
todos encontraremos nestas páginas a doçura que
ameniza os corações aflitos.
É uma exuberante floração das sementes que
os mestres espalham a mãos-cheias sobre o planeta
Terra e que alguns privilegiados têm o poder de reco-
lhê-las, agasalhá-las e dar-lhes terreno apropriado.
Rendo, portanto, meu preito de profunda
admiração à autora pelas inspiradas revelações, que
com tanta ternura deposita em nossas mãos, e reco-
20
Levanta-te e anda.
mendo a sua leitura a todos os que têm "fome e sede"
de amor universal.
M a r i a P a u l a de Carvalho
21
EXORTAÇÃO
SENHOR, A CAMINHADA É LONGA E AS FORÇAS SÃO POUCAS,
por isso é que eu Te exorto, Te clamo e imploro.
Dá-me forças, Senhor, para eu me vencer! Dá-
me forças, porque a compreensão que começa a des-
pertar do meu eu me faz lutar para pô-la em prática.
Como é difícil, Senhor, executar as Tuas or-
dens! Como é difícil desvencilharmo-nos dos gri-
lhões que nos prendem há tantos séculos! E, agora,
como os sentimos fortes, queremos nos libertar!
Quando tudo nos sorri, quando a vida corre
sem atropelos, sentimos que somos capazes de grandes
feitos e que estamos a caminho da evolução. Basta,
todavia, uma nuvem toldar o céu de nossa felicidade
para cair por terra a hipotética fortaleza.
23
Cenyra Pinto
Não praticamos aquilo que ensinamos aos
outros. Somos mestres da causa alheia, alentando
e advertindo o que sofre, pretendendo ensinar-lhe
como se deve conduzir diante de tal ou qual situação,
mas na hora em que somos atingidos pela desventura,
vai-se toda a nossa pretensa teoria... E por isso que eu
Te invoco, Senhor.
Não é preciso o sofrimento atroz: basta uma
pequena sombra ainda na borda do horizonte para
nos fazer pressentir a dor, e todo o nosso ser freme
de espanto.
Eis por que, Senhor, eu Te suplico: dá-me for-
ças para eu me vencer! Nenhum inimigo fora de mim
existe, eu bem sei. Quando a minha fé for suficiente,
não existirão para mim nem temores nem apreensões...
eu saberei olhar de frente, com serenidade, aquilo que
hoje só em pensar me apavora.
Reconheço meus pontos fracos e graças a Ti,
Senhor, começo a despertar. A compreensão de Tuas
leis me abre novos horizontes. Vejo agora mais claro,
porém, aparentemente, não saí do mesmo lugar. Estou
traçando os planos para depois os executar.
24
Levanta-te e anda.
Tu, Mestre, em quem confio de todo o coração,
de quem tenho recebido as mais carinhosas e ardentes
provas de amparo na minha vida, que me derrama a di-
vina luz, que me deixa antever as belezas que aguardam
a todos no final da jornada, agora que eu sei o valor
de tudo o que me cerca, que começo a ver aquilo que
eu apenas mirava de longe, eu Te rogo: Ampara-me,
dá-me forças para que me levante destemeroso e me
aventure a caminhar junto de Ti.
25
"LEVANTA-TE E ANDA..."
"LEVANTA-TE E ANDA...". SUBLIMES PALAVRAS DO DIVINO
Mestre dirigidas a Lázaro.
Foi necessário, todavia, que alguém retirasse a
pedra que cerrava a sepultura, para que Lázaro pudesse
se levantar.
"Levanta-te e anda...". E Lázaro levantou-se e
caminhou em direção ao Mestre.
Assim devemos deixar que se processe em
nossa alma. A pedra que separa a criatura do seu Cria-
dor só a própria criatura pode, deve e tem de retirá-la
para então poder ressuscitar dos mortos e caminhar
para a vida eterna.
s
E trabalho do homem retirar a pedra da sepul-
tura e do Cristo ordenar ao morto que ressuscite e ande,
desse Cristo que mora dentro dos corações...
26
Levanta-te e anda.
Enquanto a pedra não for retirada, não haverá
ressurreição. Enquanto não houver ressurreição, não
haverá vida.
Mergulhado na escuridão do túmulo, o homem
sente-se intranquilo, insatisfeito, muito embora seja esse
túmulo feito do mais caro material, mais requintado e
mais rico.
O homem achar-se-á intranquilo, movimen-
tando-se ora por um motivo, ora por outro; revolver-
se-á, sem saber que posição tomar, pois é muito limi-
tado o espaço de uma sepultura!
Um dia, afinal, começa a perceber que está
preso, sujeito a um fosso escuro e limitado, e então
procura se erguer e investigar o porquê de semelhante
situação. Percebe que sobre seu túmulo há urna grande
pedra. Grita, urra, blasfema, chora, mas ninguém o
ouvirá, pois grande parte da humanidade está surda
aos rumores que lhe perturbam os prazeres.
Eis que, cansado, debatendo-se nas trevas, re-
conhece que suas forças se extinguem e que só sere-
nando o seu espírito poderá encontrar o modo de sair
dessa prisão! Entra dentro de si e começa a meditar.
27
Cenyra Pinto
Surgem os porquês. Finalmente reconhece que
a pedra sobre a sepultura é feita das suas imperfeições
e que, se transmutar esse material grosseiro, aos pou-
cos ele se transformará em algo sutil e leve. Então, o
Mestre surgirá à sua frente e ordenará também, como
há milênios, já fizera:
"Levanta-te e anda." E ele ressuscitará dos
mortos e subirá ao seu céu interior. É a ressurreição!
28
DESPERTA!
"Desperta tu que dormes, e levanta-te
dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá"
(Efésios, 5:15).
DESPERTA, HOMEM!
Desperta desse sono em que vives mergulhado!
Desperta para a vida!
Desperta e procura te encontrar, tão longe es-
tás de ti mesmo!
E dizes que vives! E dizes que amas!
Quem dorme não vive, vegeta apenas.
Em teus sonhos, queres encontrar os outros
homens e assim vais te distanciando de ti mesmo.
Oh! Homem! como desperdiças o teu tempo
com o teu sono, com teus sonhos!
29
Cenyra Pinto
Tu não vives, como pensas, tu não és quem te
julgas, tu nem sabes quem tu és, porque não indagaste
ainda:
"Quem sou?"
"De onde venho?"
"E para onde vou?"
Não! Não queres despertar para a vida, porque
não te interessa a realidade, porque ela te apavora,
porque és covarde.
Nada sabes, homem, e te julgas um sábio.
Teus olhos enxergam e nada vêem.
Teus pés andam, mas tu não caminhas.
Teus lábios articulam sons e tu nada dizes.
Teus ouvidos escutam, mas tu não sabes ouvir.
Tuas mãos gesticulam e se movimentam, mas
tu não trabalhas!...
A vida é luz e tu vives nas trevas; é amor e tu
o deturpas, tornando a maior beleza em repugnante
sensualismo; é verdade e tu preferes a mentira; é jus-
tiça e tu és injusto...
Entretanto, seria tão simples, tão belo, tão di-
vino, se quisesses despertar para te encontrares... após
30
Levanta-te e anda...
os primeiros choques, as primeiras experiências, as
primeiras gotas de fel, verias que valeu a pena, porque
só é homem, realmente, aquele que vive a vida verda-
deira, aquele que é, enfim, responsável pelos seus atos,
e que sabe encontrar na vida a felicidade de viver.
Que importam as glórias, se elas são efêmeras?
Que importam os tesouros acumulados, se eles
se dissipam?
Que importa a beleza exterior, se ela se esvai?
Tudo é maravilhoso e fabulosamente bom para
quem vive no amor - o amor ação, o amor fraternidade,
o amor essência!
Tudo é tão belo para o homem desperto; para
aquele que se encontrou a si mesmo... e segue a vida
sem preconceitos e sem vaidade, ajudando a despertar
seus irmãos que ainda dormem, que ainda sonham e
vivem em pesadelos.
Desperta, homem! Desperta!
31
PROCURA TE ENCONTRAR
POR QUE TE ISOLAS, MEU IRMÃO? POR QUE PROCURAS TE
afastar de teus irmãos de jornada? Por quê? Tens medo
de seu convívio?
Meu irmão! A antipatia, a prevenção que se
sente pelas criaturas é demonstração de falta de con-
fiança em nós mesmos.
De que tens medo? Por que julgas teus ir-
mãos tão mal? Há de tudo na Terra, irmão, não te
iludas. Quando te isolas, na realidade, foges de ti
mesmo, porque só poderás te achar quando em con-
tato com teus semelhantes. Em cada criatura há um
pouco de ti mesmo, e ao fugires dos outros, estás
fugindo de ti...
Encontramos quase sempre pedaços de nós
pelo caminho. Esses pedaços esparsos nem sempre
32
Levanta-te e anda.
têm bom aspecto. Ao encontrá-los, temos o dever de
retocá-los, de burilá-los para que, ao serem incorpo-
rados ao todo, possam ser úteis.
Vemos refletido sempre o nosso eu nas demais
criaturas. As coisas feias ou belas que avistamos são
apenas o nosso reflexo.
"Quando teu olho for puro, todo teu corpo será
iluminado".
Pensarás que muitos erros, muitas falhas que
tens presenciado nos outros tu não as tenhas, por isso
não podes conceber o reflexo do teu eu. O erro e a
falha moral não valem pelo que representam em si. Tu
é que lhes dás o reflexo de tua consciência, o valor e a
extensão de tua capacidade de compreensão.
Se não chegares a saber o porquê da vida, não
terás tolerância e julgarás teus irmãos sem piedade.
Darás às suas faltas o nome vulgar que tua consciência,
ainda nua de conhecimentos, te ditará. Eis, pois, teu
reflexo na falta de teu irmão. Tu espelhas na tua alma
aquilo que teus olhos vêem.
Quando se alcança a compreensão, não se tem
mais decepções, não se encontra motivo de espanto,
33
Cenyra Pinto
nem expansões de exagerado entusiasmo. A serenidade
é, então, a companheira do sábio.
Procura conquistar-te, meu irmão. Sê mais teu
amigo. Reconhece que és igual a teus irmãos, que eles
não têm nada contra ti e que, portanto, teu lugar é
junto deles, para assim poderes encontrar a harmonia
interna.
Não leves a mal a ironia, não te magoes com
a ingratidão, não te exasperes com o atrevimento;
antes, procura, no convívio com eles, descobrir-lhes a
causa disso para evitares incorrer nas mesmas faltas e
ajudares a corrigi-las.
Se fugires, não poderás enfrentar a ti mesmo,
porque, não te esqueças, esses inimigos, representados
pelas imperfeições, só existem em nossa imaginação,
quando os alimentamos. Eles, por si sós, não viveriam.
São parasitas que precisam de seiva alheia para se nu-
trirem. Uma vez que passares a te importar e te preo-
cupar com as qualidades dos frutos que queres produzir,
passarás a buscar o adubo apropriado para fortalecer
mais a árvore, e os frutos se multiplicarão. A ramagem
se espalhará em abundância e as plantas parasitas não
34
Levanta-te e anda..
encontrarão mais galhos para se enroscarem e passa-
rão a se desagregar, tombando ao solo, servindo para
alimentar a própria árvore a que tentaram, antes, su-
focar com seus ramos daninhos e usurpadores. Vê, pois,
1
que "nada se perde, tudo se transforma" .
Ninguém é melhor que tu, nem pior. A vai-
dade, a conduta irregular e outros defeitos que observas
nos demais estão na razão direta de tua capacidade de
observação.
Se passares a te misturar com a multidão,
dando-lhe amor em troca do pior que ela possa te
dar, estarás dando seiva de vida à grande árvore da
vida, para que, com isso, ela possa se fortalecer e
transformar as plantas parasitas em alimento que a
ajudará na proliferação.
Que a paz seja contigo e que, de hoje em diante,
possas te unir a teus irmãos de jornada para o grande
trabalho da regeneração humana...
1. A l u s ã o à Lei de C o n s e r v a ç ã o da Matéria, formulada pelo químico francês
Lavoisier, considerado o fundador da química moderna. ( N o t a do Editor)
35
CONQÜISTA-TE A TI MESMO
CONQUISTA O MUNDO SE TE APRAZ, MAS O MUNDO SÓ TE
dará o que do mundo é, não te esqueças disso. Terás
poder, honrarias e teu nome será pronunciado com ad-
miração pelos teus irmãos e te sentirás vitorioso. Mas
se não aliares aos predicados mundanos a compreensão
da verdadeira conquista, serás vítima de tua ambição
cega e desmedida, de teu orgulho, da tua vaidade.
Conquista o mundo, se te apraz, goza dos bens
terrenos, desfruta de tudo o que possa causar inveja aos
menos afortunados e aos despretensiosos. Conquista,
luta pela posse de tudo, mas... aguarda o dia do juízo!
Se só possuíres bens materiais, desprezando o maior
bem, a única fortuna verdadeira, a qual "o ladrão não
2
chega nem a traça rói" , tem cuidado!
2. Lucas, 12: 33. (N.E.)
36
Levanta-te e anda..
Conquista a Terra, e ela será tua até que, farta
de te saciar, ela te peça conta de tudo e tenhas de pagar
com juros o que o mundo te deu.
Porém, realiza, sobretudo, a conquista mais gran-
diosa da Terra, meu irmão: conquista-te a ti mesmo.
Sê dono de ti. Sê dono de tuas emoções e sensações e
então serás dono do verdadeiro tesouro. Serás domi-
nador, em vez de seres dominado.
Então não sentirás necessidade de honrarias
e glórias, riquezas e poderes temporais, porque serás
dono do ser ideal, que é o homem que se supera, que
se vence, que se conquista.
E serás um senhor, embora vestido de escravo.
E serás um comandante, embora marchando como
soldado. E serás um rei, embora vivas num casebre e
te cubras de andrajos.
O homem que corre apenas em busca dos bens
terrenos é ainda a criança que se ilude com fantoches
s
e brinquedos. Coisas pueris! E o ser ainda envolto nas
nuvens da ilusão e que sofre, grita e gargalha como de-
mente, sujeito às circunstâncias da vida. Suas reações
são temperamentais. Suas atitudes são sofisticadas. Sua
37
Cenyra Pinto
palavra é oca, embora seu vocabulário seja imponente
e culto. Suas mãos se movem em gestos teatrais, mas
não trabalham...
Esse homem, sendo rico e poderoso, é um ver-
dadeiro paradoxo. Ora alegre e feliz, ora triste e desgra-
çado, porque é vítima de cada momento. Conquista-te
a ti mesmo, irmão, e terás conquistado o mundo.
38
EDUCA A TUA MENTE
NÃO PENSES NA QUEDA QUE LEVASTE. PROCURA APRENDER
a andar com mais cuidado e olhar onde pisas. Vê
apenas a lição que cada experiência deixou ao passares
por ela. Se mantiveres na tua mente, como num filme,
as cenas desagradáveis ou mesmo as mais agradáveis,
visto que o tempo passa, perderás a oportunidade de
atentar em outras cenas que se apresentarem em se-
qüência das anteriores.
Faz como o discípulo que não papagueia, que
não repete as lições palavra por palavra, mas que retém
a essência do que ouviu, leu ou viu e repete com as
suas próprias palavras apenas aquilo que entendeu,
que deduziu. Eis aí a melhor maneira de gravar algo
e educar a mente.
39
Cenyra Pinto
Se estiveres atento, saberás tirar proveito de
tudo o que a vida te apresentar. E serás, assim, capaz
de transmitir algo naturalmente, sem afetação, porque
não decoraste as passagens nem as palavras, mas as
compreendeste e sentiste.
Palavras não convencem ninguém se não fo
rem naturais, despretensiosas e ditas com convicção.
Para aquele que decora, basta esquecer uma palavra
ou uma frase para se perder no meio da dissertação.
Tudo porque não penetrou na essência.
Recordar, portanto, cenas e palavras que fo-
ram vistas e ouvidas é amarrar-se ao passado sem ne-
nhum proveito. As impressões deixadas pelo passado
devem ser filtradas, aproveitando-se somente o sumo
puro, para reunir-se ao que apurarmos no presente,
como preparação do futuro.
Guardar objetos antigos como recordação é
fanatismo. É ocupar espaço que poderia ser ocupado por
coisas utilizáveis. Imagine-se uma casa cheia de velharias
sentimentais! Como ficaria o progresso? Desprezado?!
Não! A vida é para ser conquistada. Ela vem
em bruto, em invólucro estranho às vezes, mas não
40
Levanta-te e anda.
viremos as costas nem nos amarguremos quando esses
invólucros forem feios e diferentes do que gostaríamos
de receber. Desatemo-los e vejamos realmente do que
se trata, procurando, com a melhor boa vontade, dar-
lhes agradável aspecto para que deles possamos fazer
bom uso. Com esse gesto, daremos um belo exemplo e
agradaremos aos mestres que estão incumbidos de nos
assistir e instruir.
Aprender na escola da vida é não fugir das li-
ções para não se atemorizar na hora das provas. Se a
matéria é difícil, não devemos nos desesperar. Ao con-
trário: façamos um apelo aos nossos mentores espiri-
tuais para que eles nos dêem força e orientação, a fim
de que possamos fazer boa prova. Nunca peçamos que
nos livrem da prova que nos compete, porque não há
suborno nos planos de luz. A lei é para todos. "A cada
3
um segundo as suas obras" . Repito sempre essas pala-
vras do Mestre, porque as acho sempre oportunas.
O ideal é que nossa consciência não nos acuse
de maldades, de injustiças e outras atitudes negativas.
3. Pedro, 1: 17. (N.E.)
41
Cenyra Pinto
Somos ainda produtos da Terra e, até sublimar a ma-
téria que carregamos por séculos e séculos, muito te-
remos de lutar.
O espírito se responsabiliza por uma determi-
nada porção de barro e, como oleiro consciente que
é, vai, em cada encarnação, procurando melhorar o
aspecto e a contextura de sua obra até conseguir apre-
sentar algo digno de figurar entre as obras-primas do
Alto, na grande coletânea dos mestres, pois teremos
de chegar a ser também mestres.
42
NAO TE IMPACIENTES
NÃO TE IMPACIENTES, NUNCA! O MOTIVO MAIS SÉRIO NÃO
é o bastante para te impacientares, se realmente tens o
olhar voltado para o Alto. Não há, na realidade, coisa al-
guma no mundo que mereça a nossa impaciência. Tudo
o que acontece, sendo necessário acontecer, é motivo
de estudo, de pesquisas, e não de impaciência.
Se tudo te persegue na vida, se aquilo com que
sempre sonhaste ainda não se concretizou, se a teu lado
vivem pessoas às quais ainda não conseguiste te ajustar,
luta, mas lembra-te de que o mal está em ti mesmo e,
se te impacientares, será contra ti mesmo que deves
te dirigir.
No dia em que conheceres a ti próprio, no dia
em que conseguires te harmonizar contigo mesmo, verás
harmonia em todos e em tudo o que te cerca, porque
43
Cenyra Pinto
terás aprendido a ver com alcance, com compreensão
e nada te será uma pedra no caminho. Eis a verdade
máxima da vida: é dentro de ti mesmo que deves pro-
curar a causa que te leva, freqüentemente, a te irritar,
te impacientar e exigir demais daqueles que de ti se
aproximam.
Queres, muitas vezes, que teus desejos preva-
leçam sobre os alheios e que tuas opiniões sejam as
únicas a serem respeitadas, além de julgares que se-
rias capaz de remover todas as pedras do teu caminho,
de consertar as falhas de todo o mundo, quando as
falhas estão justamente no teu modo errôneo de ver
o próximo.
A capacidade, o grau de consciência, as ex-
periências são individuais, portanto, não podemos ser
todos talhados pelo mesmo molde.
Cada um deve procurar se ajustar àqueles a
quem o destino colocou no seu caminho pela com-
preensão e não por imposição. Não há obrigação cum-
prida quando não existe a compreensão; sem esta, não
há tolerância; sem tolerância, não há paciência; sem
paciência, nada de bom se conseguirá na vida!
44
APAZIGUA TEU ESPÍRITO
HAVENDO OU NÃO RAZÃO PARA PROFERIRES CRUELDADES
contra teus irmãos, guarda-te de o fazeres. Fecha teus
lábios, reprime as palavras insensatas e amargas, ferinas
e vingadoras, e procura recolher-te ao teu santuário
interno lembrando das palavras do Mestre: "Antes de
colocares a oferenda no altar, volta, reconcilia-te com
4
teu irmão..." .
Tu, que almejas galgar os degraus da evolução
espiritual, jamais deverás deixar que a tua mente con-
serve pensamentos negros, ditados pelo coração cheio
do veneno da indignação. Tu te indignaste? Como é
possível que ainda te deixes arrastar por esse inimigo
tentador - o ódio?
4. Mateus, 5: 23 e 24. (N.E.)
45
Cenyra Pinto
Não digas que a indignação tem alguma jus-
tificativa, porque eu te repito que não há justificativa
para esse sentimento.
A criatura equilibrada deve serenar seus âni-
mos e manter-se sempre à altura de resolver qualquer
situação, usando a parte sublime da mente, que com-
preende a procedência dos insultos, das injustiças, das
ingratidões. Essa parte deve tomar a frente nessas
situações e agir com dignidade, mas sem indignação.
Quando se compreende a razão pela qual aqui
viemos, não há mais justificativa para certas atitudes,
certos sentimentos, pensamentos ou palavras.
Aquele que nos dirige uma ofensa é nosso
irmão, queiramos ou não. Que importa saber sua pá-
tria, seus antecedentes, suas prerrogativas? E sendo
assim, por que permitirmos que um analfabeto espiri-
tual, embora até com um diploma de filosofia, leve-nos
ao abismo, ao inferno da indignação?
E haverá mesmo razão para nos julgarmos su-
periores a alguém, quer por nascimento, posição so-
cial, cor, quer por outra diferença de condição? Será
um rei superior a um súdito diante do Pai?
46
Levanta-te e anda..
Se tu te ofendes pela ofensa, é porque menos-
prezas o que te ofende. Então, irmão, és muito mais
analfabeto do que aquele que teve a coragem de se
dirigir a ti ofensivamente.
Apazigua teu espírito e reflete bem. Não há,
em hipótese alguma, razão para nos indignarmos e es-
perarmos uma ocasião para rebater ou levar o irmão
ofensivo ao banco do réu. Aprende com ele a ter co-
ragem no bem, como ele teve no mal, e darás uma
bela lição de relações humanas e fraternas.
47
TORNA-TE GRANDE!
CRESCE! TORNA-TE GRANDE!FAZE-TE TÃO PODEROSO, TÃO
forte, que nenhuma força seja capaz de te derrubar!
Fortalece-te na fé, alimenta-te de trabalho
produtivo, repousa na esperança e segue o caminho
do amor!
Se amares, a tolerância será teu lema.
Se amares, saberás perdoar, terás paciência de
trabalhar para recuperar aqueles que te apedrejarem.
Nesse trabalho te fortalecerás e surgirão de
todos os lados obreiros da mesma obra, que te insu-
flarão coragem para prosseguires.
A fé é a certeza de que a vida é o motivo da
nossa ligação à matéria para experiências novas e que
só no convívio com outras vidas poderemos lapidar a
48
Levanta-te e anda..
pedra bruta que temos dentro da alma, que nos impul-
sionará para a frente, para a elevação.
Agiganta-te ante tua própria vista. Cresce
para ti mesmo, sem pretender nem desejar que outros
vejam e se admirem da tua altura e da tua serenidade.
Cresce assim nessa desenvoltura espiritual que faz
pequeno aquele que é realmente grande.
Não faças questão de aparentar o teu desen-
volvimento. A ação, o trabalho contínuo não deixam
tempo para narcisismo, nem para se receber lisonjas
frívolas.
Trabalha para crescer.
Torna-te grande!
Assim verás Deus...
49
SE PERSEVERAS, VENCERÁS
A LUTA É ÁRDUA NO CAMPO DA VIDA. INIMIGOS SORRA-
teiros nos espreitam e as ciladas estão à nossa frente:
em cada passo que damos, em cada minuto que passa,
em cada pulsar do nosso coração, pois em tudo o que
vemos e sentimos, existe uma porta que está aberta
para o precipício, para o abismo.
Então, dirás: a vida é uma urdidura maligna
do destino com o único fim de nos perder! Mas assim
não é. Tudo o que acabamos de figurar tão trágica e
assustadoramente é o símbolo daquilo que, estando em
nós tão integrado, não percebemos, e por isso mesmo
vamos nos deixando arrastar para o abismo, sem ne-
nhuma reação para evitarmos a queda fatal.
Os instintos, que se acham integrados no nosso
sangue, pulsam com o nosso coração, entram e saem
50
Levanta-te e anda..
na nossa respiração, pela lei da atração e da repul-
são. Não nos podemos esquivar de dar e receber da
mesma moeda, porque cada um recebe valor igual ao
que deu.
Se ao sair o alento do peito, sai com ele amor,
de volta trará ele esse mesmo amor, fortalecido pela
união que faz a força. Assim agindo e pensando, não
terás de recear os inimigos nem as ciladas, tampouco
os precipícios, porque serás luz e a luz conquista as
trevas.
Os inimigos e todo esse cortejo de acidentes
desagradáveis a que estão sujeitos os homens imprevi-
dentes, indiferentes ou irreverentes não existem para
aqueles que crêem numa força inteligente e suprema
e que se sabem parte dessa força. Nada receie aquele
que sabe ver Deus nas menores e mais insignificantes
coisas, como nas mais grandiosas.
Aquele que considera a lágrima e o sorriso
como igualmente necessários à evolução, aquele que
não se oculta nem foge à luta dos instintos e que os
deseja sublimar sabe que esses instintos são a base da
cruz ou a terra em que ela está plantada.
51
Cenyra Pinto
Essa cruz eleva-se para o alto, mas precisa pe-
netrar na Terra para ir buscar matéria grosseira a ser
utilizada para o serviço da evolução.
Não há, em verdade, nada ruim nem inferior e
sim coisas em estado primitivo, que só pela boa vontade
e perseverança do homem poderão vir a sublimar-se e
subir ao centro da cruz no qual está a rosa para expan-
dir-se em bênçãos de luz.
Persevera, pois, amigo irmão. Não te irrites
com as irreverências. Não te desanimes quando, após
lutares e julgares terminada a luta e conquistada a vi-
tória, o inimigo surgir de novo - revestido de nova
aparência e com armas diferentes - e contra ti investir
com maior violência. Isso vem para provar que não se
pode cessar a luta até a consumação dos séculos.
Sublimando um tipo de força, dominarás essa
força. Porém, outras se apresentarão mais perigosas
para que as conquistes, e assim, uma após outra sur-
girá em nossos caminhos. Não haveria progresso se a
luta paralisasse. Seria o fim. E o fim não existe.
Os que já sabem que estão a serviço são justa-
mente os que são chamados a atender incumbências
52
Levanta-te e anda..
pesadas e difíceis, pois muito se espera e se precisa
desses servidores.
Para o leigo, para o materialista, essa disser-
tação é louca ou fantasiada demais. Mas a nossa fi-
nalidade não é falar às pedras mortas... Dirigimo-nos
aos irmãos que comungam conosco e conosco estão
no afã de evoluir e de conquistar a vitória do espírito
sobre a matéria para, em dias vindouros, podermos ser
úteis realmente nessa imensa obra de regeneração...
Persevera, pois, e vencerás.
53
VIVER E APRENDER SEMPRE
SE A VIDA FOSSE UM FARDO INTOLERÁVEL, COMO SE DIZ POR
aí, não seria tão disputada das garras da morte, pois,
vermo-nos livres de algo que nos incomoda, é o nosso
desejo.
Entretanto, não há quem não lute desespera-
damente para conseguir mais dias de vida. Como se
concebe lutar para obter aquilo que nos é tão penoso,
tão intolerável?! Eterno paradoxo...
A vida é um fardo que carregamos prazerosa-
mente - desde que esteja cheio de tudo que a nossa
fantasia imagine - e com desprazer quando contém
coisas tristes e desagradáveis.
Como poderíamos tirar proveito desta passa-
gem terrena se não conhecêssemos o verso e o reverso
54
Levanta-te e anda.
da vida? Como poderíamos sorrir à alegria se não co-
nhecêssemos a lágrima de dor?
É preciso saber que a vida não é aquilo que
queríamos que ela fosse, mas o que é preciso ser. Não
é um fardo difícil de se carregar quando compreende-
mos que ela é a única oportunidade que temos para
nos reabilitarmos. Para, nas horas amargas, desenvol-
vermos em nós a resignação e a paciência; além de
cultivarmos a fé e saber, então, dar valor ao primeiro
raio de sol, após tremenda tempestade.
"Quem passou pela vida em brancas nuvens...".
Poemeto simples, que encerra a grande verdade da vida:
"foi espectro de homem, não foi homem. Só passou
pela vida; não viveu".
Só a dor é capaz de elevar o espírito às regiões
mais altas do infinito em busca de um lenitivo. E a alma
em prece é qualquer coisa de divino. Não blasfemes,
chamando a vida de "fardo intolerável". Bendize essa
passagem pela Terra e procura tirar dela todo o proveito
espiritual para que, ao transpor as fronteiras do invisível,
possas te sentir liberto das atrações terrenas e estar pre-
parado para recomeçar nova tarefa mais edificante.
55
"NEM SÓ DE PÃO VIVE O HOMEM"
NÃO VACILES EM PRATICAR O BEM. SEJA QUEM FOR QUE TE
solicite um favor, não lhe recuses, a não ser que te seja
absolutamente impossível.
E preciso estares atento às necessidades alheias
e não esperares um convite para auxiliar naquilo que es-
5
tiver a teu alcance. "Nem só de pão vive o homem."
Se teus recursos financeiros forem escassos, não
é justificativa para ficares inativo, pois possuis dons
preciosos com que poderás servir sem despender um
centavo: são os dons do coração. Um olhar, um sorriso,
uma palavra acolhedora, amiga, confortadora repre-
sentam uma boa parcela, que poderás distribuir a mãos-
cheias, vendo cada dia mais acrescido o teu tesouro.
5. Deuteronômio, 8: 3. (N.E.)
56
Levanta-te e anda..
Todas as criaturas, no momento, estão vivendo
dramas pungentes. O ciclone da dor está varrendo os
quatro cantos do universo. E cada um é levado por esse
vento assustador a situações duras, difíceis, quando não
desesperadoras.
Eis que aquele que já possui os conhecimentos
que faz de um mendigo milionário não deve ocultá-los,
mas distribuí-los amorosamente pelo caminho. Não te
recuses, pois, a servir quem quer que seja. Todos são
teus irmãos e precisam de ti, como precisas de todos.
A vida é eterna colaboração.
Não tranques egoisticamente os dons preciosos
com que a divina sabedoria te agraciou. És portador
de preciosos tesouros e é tempo de distribuí-los. "E que
são esses tesouros?", perguntarás.
O dom da palavra, a bondade do coração, o
discernimento da razão; o equilíbrio que esse conjunto
forma representa nos tempos que correm um tesouro
de inestimável valor. Então, não podes guardá-lo se ele
já não te pertence.
Acumulaste-o pelos séculos afora, com lágri-
mas e sacrifícios, não para ficar oculto "sob o alqueire",
57
Cenyra Pinto
mas para que seu resplendor se espalhe e infiltre em
todos os que passarem por ti.
Nas horas angustiantes da vida, a melhor dá-
diva é a presença amiga, a palavra consoladora, o olhar
compreensivo e as atitudes bondosas e edificantes.
E tu, que tanto almejas galgar mais um degrau
na escalada para os altos planos, mais do que ninguém
precisas estar atento a qualquer ruído, para veres e sen-
tires de onde vem e o que significa. E então agirás segui-
damente de acordo com as necessidades do momento.
Assim, compreenderás que muito poderás cola-
borar ao ajudar a alimentar os famintos da alma e perce-
berás que, realmente, "nem só de pão vive o homem".
58
LUTA INTERNA
NADA É MAIS IMPORTANTE NA VIDA QUE A PRÓPRIA VIDA.
Vivê-la é sabedoria. Interpretá-la é a grande
ciência.
Na prática, a dificuldade de exprimir o que a
teoria ensina é a chave do "Abre-te, Sésamo". Muitos
são os que ensinam, explicam com abundância de de-
talhes a beleza dos ensinamentos que a vida oferece.
Poucos são os que, na hora de viver essas explicações
tão profundas, realmente as põem em execução.
Descrever uma batalha, mostrando os pontos
estratégicos, o dever de se mostrar valente e cora-
joso, disciplinado e vigilante, é realmente digno de
admiração, mas ouvir o soar das trombetas chamando
ao campo de luta, ver frente a frente o inimigo, de-
frontar com mil peripécias, ouvir o troar dos canhões
59
Cenyra Pinto
e sentir o corpo transpassado de projéteis é a reali-
dade a que os teoristas nem sempre resistem. E, não
raro, depõem as armas e fogem espavoridos, ante o
horror da batalha.
Eis que, amigo irmão, aquele que se alistou no
grande batalhão não pode mais retroceder como um
covarde. Seu dever o chama e ele obedece. Não pensa
em depositar as armas, porque sente que só será vito-
rioso se lutar até o fim.
Não me refiro, é claro, à guerra de sangue,
à guerra propriamente dita, mas àquela mais cruel,
a que se processa na alma humana, quando se vê a
braços com os mais graves problemas que a vida possa
oferecer... Essa guerra leva o indivíduo à loucura, ao
destino ou ao domínio total, à vitória sem precedentes
- a vitória do bem contra o mal. O mal!... Como se
existisse o mal!...
Nossos sentidos desorientados e inábeis vêem
trevas em lugares nos quais a luz está oculta e aí se
apavoram. Afasta o que impede a claridade, e a treva
se dissipa, como por encanto. "Há males que vêm para
o bem!"
60
Levanta-te e anda.
Todos os supostos males são os gritos selvagens
da alma do troglodita, que ainda tem os seus ecos no
nosso mundo interior. Acalmar esses gritos, até tor-
ná-los murmúrios cariciosos, é o dever do homem que
quer se sublimar.
O afã de suavizar essa voz, cujos gritos são de
vingança, revolta, indignação, arrogância, vaidade e
outros ditames ainda selvagens, é a guerra que deve-
mos travar sem descanso.
O que vem de fora, provocando esses gritos
desesperados, não poderá mais encontrar eco naquele
que já se dominou, que já se venceu.
Luta, irmão, para que nada tenha o poder de
te atemorizar, te decepcionar e te levar ao desespero.
Luta para conquistares a tranqüilidade interna, a se-
renidade, que não se corrompe ainda que afrontada,
injuriada, apedrejada e deturpada.
Nessa luta, nesse ardor de te libertares dos
únicos inimigos reais - teus instintos ainda selva-
gens -, poderás dizer que a tua vida é importante,
porque pensas seriamente nela, com o propósito de
sublimá-la. E pensa:
61
Cenyra Pinto
O que hoje nos é tão pesado,
Difícil de carregar,
Amanhã pode ser pluma,
A nos acariciar.
62
A CONQUISTA DO SILENCIO
QUANDO EM NÓS SE FIZER SILÊNCIO, ALCANÇAREMOS A
serenidade.
A serenidade é o repouso, a libertação, a re-
compensa. A serenidade é a paz, a harmonia interna.
Como conquistá-la?
Lutando até vencer os desejos.
Desejar algo é estar na dependência, é estar
preocupado, é ser ainda escravo.
Quando cessa o desejo, já não há mais motivo
de luta. Já vencemos todos os inimigos. Já nos con-
quistamos. Podemos dar a ordem de comando a nós
mesmos, como quem move uma pluma sem esforço,
porque sabemos manejar as armas. Seremos, portanto,
senhores e não servos.
63
Cenyra Pinto
A simplicidade, e desse modo a naturalidade,
terá em nós suas representantes diretas. Seremos o
protótipo, sem, todavia, nem de longe entulharmos a
nossa mente com essa preocupação de comando, de
domínio, de superioridade.
Compreenderemos que não estamos fazendo
nada demais e nem sentimos o que estamos fazendo.
Não prestaremos atenção nem à lisonja, nem à crítica,
nem à censura. Apenas cumpriremos o nosso dever,
como seres humanos, integrados já na realização do
nosso eu real.
Eis que hoje, quando percebo em mim, ainda,
tendências a certas inferioridades, eu me rejubilo por já
poder percebê-las. Seria pior se eu ainda permanecesse
cego sem ter, sequer, noção da existência da luz.
Como poderia lutar pela posse de algo, se isso
não existisse para minha compreensão? Assim, com o
firme propósito de alcançar a serenidade em dias vin-
douros, hoje luto, obediente àquela máxima do Cristo:
6
"Vigiai e orai" . Estou pouco a pouco me desvendando
6. Mateus, 26: 4 1 . (N.E.)
64
Levanta-te e anda..
a meus próprios olhos e espero que cada pedacinho
encontrado em mim em mau estado eu possa corri'
gi-lo, burilá-lo e torná-lo, enfim, em condições de
obedecer ao comando.
E quando se fizer silêncio em meu íntimo,
quando eu souber, em silêncio, realizar os ensina-
mentos do Mestre, alcançarei a serenidade, porque
estarei realizado.
65
AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA
QUALQUER QUE SEJA A TUA ATIVIDADE NA TERRA, NÃO TE
envergonhes nem te orgulhes de ser ela humilde ou
elevada. Lembra-te de que só tem valor a essência, e
não a aparência.
Teu mérito não está na natureza da tua ati-
vidade, mas na maneira como a desempenhas. Se és
construtor ou servente, que importa? O importante
é que te compenetres do teu trabalho, executando-o
com critério e procurando melhorá-lo cada vez mais.
O exemplo é muito mais valioso que a palavra.
Não te importes com a classificação que te
derem, com elogios ou críticas desfavoráveis. Apenas
deves importar-te com a tua conduta, a tua consciên-
cia. Nem te entristeças quando outro menos eficiente,
menos criterioso, passar a tua frente, conquistando o
66
Levanta-te e anda.
lugar que deveria ser teu. Só tu te podes graduar ou
censurar, se já estás apto a te conheceres e saberes a
que te destinas. E sabes bem que "o teu vai a teu dono",
mais hoje, mais amanhã.
Teus irmãos de jornada terrena não têm todos o
mesmo ponto de vista. Muitos ainda nem usam a vista;
vivem às cegas, se atropelando mutuamente, por não
enxergarem o lugar que pisam nem o que estão fazendo,
julgando, cada um, ter direitos que o outro não tem.
Para esses, ainda não é possível essa orientação.
Antes eles terão de se engalfinhar até que, nessa luta,
se rasgue o véu que lhes obscurece a vista.
Não convém caminhar às cegas. Quando se
abrem os olhos e se divisam as coisas com as suas
formas verdadeiras, admite-se que a vida terrena é a
mais bela oportunidade que o espírito encarnado pode
conceber. Então, começa-se a movimentar, a devastar
a estrada, divisando mais e mais as belezas, que a ce-
gueira da ignorância ocultava.
Sábio não é o que possui muitos diplomas ou
o que discorre lindamente sobre qualquer assunto,
mas aquele que encarna seu papel com consciência e
67
Cenyra Pinto
caminha ao sol ou à chuva, quer no frio quer no calor,
quer no vento quer na calmaria, levando consigo a
paz, a serenidade.
Tudo é belo!
Sorri feliz dentro da vida
e a vida te sorrirá.
"Amanhã será outro dia"!
68
TUDO TE PERTENCE
NÃO TE ACANHES DE PEDIR QUANDO REALMENTE PRECI-
sares. Em verdade, nada se pede e nada se dá; en-
trosa-se, reúne-se, aproxima-se o que está disperso,
tão-somente à espera de ser unido.
Não há, pois, nenhum motivo para orgulho
em dar ou humilhação em pedir. Não deveríamos
pensar que alguém é proprietário de alguma coisa e
que tem o direito de reter aquilo que vem às suas mãos
para ser distribuído. Seria paralisar a cadeia magnífica
de amor universal e socorro mútuo.
No ato de pedir algo ou favor, o ser está traba-
lhando, desenvolvendo a confiança em si, a serviço da
transmutação. Quando ocupamos alguém na hora
em que realmente precisamos ou não podemos de
forma alguma executar sozinhos uma tarefa, estamos
69
Cenyra Pinto
transformando o orgulho, a vaidade e, ao mesmo tempo,
dando oportunidade a esse alguém de colaborar co-
nosco na grande obra.
Se a pessoa se recusar, é que não está ainda ca-
pacitada para o serviço. Não devemos recuar, amua-
dos ou desanimados, quando isso acontecer. Teremos,
nessa ocasião, mais uma oportunidade de transmutar
dentro de nós o ressentimento, o despeito ou a re-
volta, em compreensão, tolerância e paciência. Outros
companheiros de labuta surgirão de alguma parte e
virão colaborar conosco. A vida é um jogo de eterna
cooperação.
Ninguém pede e ninguém dá, tudo é de todos e
há de tudo para todos. Nessa atitude, portanto, pode-
remos desenvolver em nós grandes possibilidades para
grandes realizações.
Ponhamos de lado o receio de parecermos im-
portunos ou inoportunos. Pensemos que um cirurgião
só opera cercado de auxiliares para poder, no menor
espaço de tempo possível e com a máxima eficiência,
realizar a cirurgia. Somos, às vezes, cirurgiões e às
vezes auxiliares.
70
Levanta-te e anda..
O valor do trabalho não está na categoria de
quem o executa, mas sim no amor que impulsiona
aquilo que executamos. Irmanemo-nos, pois, e traba-
lhemos em conjunto, porque tudo é de todos e tudo
obedece a uma só finalidade: a integração no todo.
71
NUNCA ESTAMOS SOS
NÃO TE ESQUEÇAS, IRMÃO AMIGO, QUE POR ONDE ANDARES
não estarás só, embora a solidão se te afigure uma rea-
lidade. Nem te esqueças que teu eterno companheiro
não te abandona um só instante, estejas onde estiveres,
faças o que fizeres. Lembra-te, entretanto, que ele,
esse companheiro silencioso, discreto e amável, está
atento a teus menores pensamentos, e que teus gestos,
por imperceptíveis que sejam, são assistidos, analisados
e gravados por ele.
Vê como procedes, por onde andas, o que
pensas, pois jamais iludirás a esse amigo que nunca se
separa de ti. Ele, um dia, quando daqui partires para
outras regiões, apresentar-se-á ante teus olhos invi-
síveis, já livres da venda que a matéria pôs à tua frente,
e tu o poderás reconhecer, enfim!
72
Levanta-te e anda..
Sentir-te-ás feliz e te rejubilarás em reconhe-
cê-lo, se agires bem na Terra. E te contorcerás de remor-
sos, de arrependimento e de vergonha, se agiste mal.
Se queres despertar em paz e sentir a beleza e
a alegria deste encontro com o grande amigo e com-
panheiro, em tua última viagem, quando acordares do
outro lado da vida, meu irmão, pratica o preceito do
Mestre: "Vigiai e orai".
Esse conselho, cremos, é o mais adequado para
quem ainda não percebe que tem em si mesmo um
guardião, um vigilante atento que um dia lhe desven-
dará cena por cena toda a sua passagem pela Terra.
Procura, pois, seguir um caminho reto; faze um
apelo à misericórdia divina para que, nas lutas, nos em-
bates da vida, não te desnorteies, não te desorientes ou
desesperes e que a compreensão e a sabedoria sejam teus
auxiliares mais próximos nesta escala para a evolução.
Teu vigia, teu companheiro invisível, é a tua
consciência, o teu Deus, meu irmão. E o Eu divino,
em ti. Respeita essa presença como se a visses viva diante
de teus olhos, e teu caminho será claro e tua cami-
nhada suave.
73
PAZ DE CONSCIÊNCIA
OBSERVA, IRMÃO AMIGO, SE ESTÁS EM PAZ COM A TUA CONS-
ciência. Essa é a advertência que tem sido e será feita
em todos os tempos e a todos aqueles que se filiam
a uma escola, cuja finalidade é colocar o homem no
caminho. Paz de consciência! Essa paz, tão sonhada,
tão ansiosamente desejada, meu irmão, é o produto de
permanente esforço no sentido de nos desvencilharmos
de tantos laços que nos vêm amarrando desde o prin-
cípio dos princípios.
Há criaturas que nos dão a impressão de serem
donas dessa paz. Tão reto nos parece o seu proceder,
tanta solicitude vemos em suas maneiras, tanta noção
de responsabilidade nos dão seus menores atos, que che-
gamos às vezes a tomar tais criaturas como modelos e
74
Levanta-te e anda..
desejamos nos aproximar delas, para aprendermos, tam-
bém, a conquistar esses mesmos dons tão apreciáveis.
Mas eis que, ao nos fazermos seus íntimos, nos
decepcionamos! São mascarados, embuçados em vestes
filigranadas de ouro! Todas aquelas atitudes quase
sublimadas são tão-somente para uso externo. Seu ín-
timo é, não raras vezes, mais negro do que a mais negra
noite sem lua! Sua alma é feita de sombra...
Os atos praticados junto daqueles que os desíg-
nios colocaram sob sua guarda são frios, premeditados
ou perversos e revoltantes. As atitudes gentis que
essas pessoas dispensam aos demais são pura encena-
ção estudada para causar boa impressão. O altruísmo,
sua maneira generosa de obsequiar, de ser a primeira a
fazer doações, algumas vezes além de suas posses, são
desmentidas pela usura dentro do seu lar. E quantas
vezes esse lar é mantido pelos esforços sobre-humanos
de um cônjuge fiel e dedicado!
O modo cortês com os de fora é a máscara da
mentira que este ser retira ao transpor os portais de sua
casa, desse pequeno mundo onde deveria haver amor,
solicitude, bondade e carinho! E no lar precisamente
75
Cenyra Pinto
que se revela tal qual é na realidade: tira a máscara e se
apresenta ao natural.
Meu irmão: pensa bem em tudo isso; examina
a tua consciência. Vê se podes dizer, lealmente: "Estou
no caminho certo"? Estou me esforçando para tomar
posse dessa paz interna, tão desejada por todos? Luto
e lutarei para me libertar das minhas fraquezas, das
minhas inferioridades? Estou convicto de poder esperar
obter, com a ajuda de Deus e dos mestres, essa paz em
meu coração?
Aonde fores levarás contigo tua consciência.
Vê, pois, por onde andas e o que fazes, porque ela es-
tará sempre presente, e se tens a liberdade de realizar
tudo o que quiseres, sabes também que responderás
por tudo o que fizeres.
Se queres realmente conquistar a paz, a felici-
dade firme e duradoura, não te esqueças, meu irmão,
que tudo deve começar de dentro para fora: que o teu
lar deve ser, para ti, um templo. Deves adorná-lo com
as flores de tua amabilidade, de teu respeito, pois só
se é feliz fazendo-se felizes àqueles que nos rodeiam e
que de nós dependem...
76
Levanta-te e anda..
Faze tudo isso sem ostentação, sem exageros,
pois o excesso é, em geral, prejudicial. Sê equilibrado
e sensato em todos os teus atos. Sê também amigo,
sincero e acolhedor e procura ser teu próprio amigo,
dignificando todos os teus atos e palavras.
Mira em silêncio o teu coração; ele é como
todos os corações, o templo de Deus vivo. Não mas-
cares teus atos, porque não conseguirás enganar a ti
mesmo, e um dia serás chamado para dar conta de tudo
o que praticares... E então poderá haver "ranger de
dentes", quando te defrontares com tuas vítimas, no
outro lado da vida.
Todos os que palmilhamos este plano terreno
somos sujeitos a toda sorte de tentações. Cumpre-nos,
orando e vigiando, delas nos livrar. Que a luz bendita
se faça em todos os espíritos e que as rosas floresçam
em suas cruzes.
77
QUE A LEI SE CUMPRA
NÃO DEVEMOS CONCEDER A COISA ALGUMA O PODER DE
nos preocupar. Nossa fé deve ser tão grande, tão forte,
que não permita que outra força a sobrepuje. Não esta
fé sentimental que leva a criatura a fazer pedidos e
prometer tudo a Deus e aos santos, sem muitas vezes
cumprir com as suas promessas.
Refiro-me a outro tipo de fé, a qual, para ser
sentida, é preciso, antes de mais nada, voltar um pouco
e nos reportarmos ao princípio de tudo o que foi criado,
para chegar até o Incriado, origem de todas as coisas.
A fé piegas nos torna choramingos, infantis,
capazes de tudo prometer, em troca daquilo que pe-
dimos em dado momento.
Não concebemos maior infantilidade que a
de fazer trocas de dádivas com aqueles que já estão
78
Levanta-te e anda.
em nível tão alto e perderam o contato com as coisas
materiais.
Nós nada damos, em geral, sem esperar re-
compensa. Mas eles, os que já se superaram a ponto
de não precisarem mais voltar ao nosso plano para
viver a nossa vida, esses não se vendem mais!
Devemos aprender, antes de tudo, a conhecer
o grande poder que nos foi conferido - o poder da fé
- e dele nos utilizarmos sempre, dirigindo-o freqüen-
temente para sua fonte de origem.
Sabemos que existem seres sublimes designados
para determinados setores de trabalho aqui no nosso
plano. Porém, eles cumprem a lei, obedecem a seus
superiores hierárquicos que, por sua vez, cumprem
ordens do Senhor dos Mundos.
Tudo obedece a uma cadeia de princípios, e
fora desses princípios tudo é pueril e sem razão de ser.
Portanto, não há razão para preocupações!
Se nossa mente aceitar convictamente a infa-
libilidade de Deus e suas leis e se cumprirmos da me-
lhor forma possível seus mandamentos, não teremos,
em absoluto, motivo para nos preocuparmos com
79
Cenyra Pinto
nada, porque perceberemos que tudo o que acontece
está absolutamente certo.
Cabe-nos, criaturas ainda viventes da Terra,
apenas fazer a parte que nos compete, o mais bem-
feito possível; o resto não nos deve preocupar, porque
não está ao nosso alcance e só compete ao Senhor
Supremo. Essa fé é a única que tem sua razão de ser.
Cumpramos o nosso dever, obedeçamos às leis
da Terra e do Céu e deixemos que a lei se cumpra,
porque cumprir-se-á sempre bem.
80
REVERÊNCIA À CRUZ
COM UMA DE TUAS MÃOS, REVERENCIAS A CRUZ; COM A
outra, esmagas os teus irmãos. Com uma constróis, com
a outra destróis. Com a mão direita, acaricias; com a
esquerda, esbofeteias. Quanta coisa boa, ótima mesmo,
é feita e dentro em pouco é destruída e seus destroços
sapateados.
A criatura humana é misto de Deus e de de-
mônio. É como a Terra, com suas noites cálidas, suas
manhãs amenas e seus furacões e tempestades. A
alegria e a dor, o amor e o ódio são as manifestações
de Deus e do demônio, respectivamente. Se não se-
pararmos os autores da dor e da alegria, do amor e
do ódio, poderemos destruir a fé que as almas simples
acalentam.
81
Cenyra Pinto
Se dissermos que não existe absolutamente
nada real que não seja amor e que todas as outras ma-
nifestações de vida são como o malho e o ferro - um
batendo no outro para o aperfeiçoar -, talvez não nos
dêem crédito.
O malho representa as paixões terrenas per-
seguindo o homem até a consumação dos séculos.
Em si, o malho não é mau: é simplesmente Lúcifer
em ação. Está a serviço do mestre executando a sua
pobre tarefa.
A princípio, o homem se deixa amoldar para
se tornar belo e superior aos demais. A idade é o seu
condutor. Quando, afinal, ele chega aonde a vaidade
o levou e se envergonha de sua pequenez, pois reco-
nhece o ridículo do exibicionismo.
Então, possuidor de conhecimentos vários que
a vaidade lhe outorgou, ele se dirige para o seu ver-
dadeiro setor de trabalho, empulhando ferramentas
diferentes das que usava até então.
Mudando de indumentária e tirando a más-
cara, ele continua sendo o mesmo homem, porém,
com a alma ressuscitada dos destroços do outro que
82
Levanta-te e anda..
deixou para trás. E aí é que se processa a sua iniciação
no caminho que o levará à superação. Ergue-te e ca-
minha! Esse é o lema.
Aprende a ter sobre o teu peito, em sinal de
obediência, uma de tuas mãos enquanto ajudares, en-
quanto beneficiares teus irmãos. Não deixes que teu
lado esquerdo se dirija para a vaidade, com pretensão
de seres um Deus, só porque esbanjas tuas migalhas!
Assim não esmagarás teus irmãos com uma das mãos,
enquanto a outra reverencia a cruz!
83
"PAZ NA TERRA" -
AOS HOMENS, BOA VONTADE
VENCE PRIMEIRAMENTE OS INIMIGOS QUE TE TORTURAM
antes de desejares a paz. Não há paz sem antes ter ha-
vido guerra. Nem vitória sem luta. Não se conquistam
louros sem se ter lutado e vencido.
Paz é a companheira ideal da criatura. Mas di-
ficilmente é conquistada, porque queremos possuí-la
sem merecê-la.
Não há guerra mais nobre e edificante do que
a que se trava para a obtenção da paz interna, única e
verdadeira. Não derramamos sangue nessa guerra, mas,
simbolicamente, em cada encontro com os inimigos,
em cada investida, em cada pedacinho de terreno que
conquistamos - as almas das criaturas -, espargimos
84
Levanta-te e anda.
sangue em borbotões e os olhos, muitas vezes reflexos
amigos das confidências da alma, deixam cair torrentes
de lágrimas e lavam o solo da alma tinta de sangue. A
alma é o corpo de desejos, a outra forma de expressão
do corpo físico; ela é sempre atraída por elementos
designados para tentar o homem fraco e inexperiente,
como o homem forte e cheio de conhecimentos...
O corpo, matéria neutra, vai para onde o le-
varem, por isso o homem fraco cai mais rapidamente
que o que já conseguiu se conquistar. O corpo é um
veículo, cujo cocheiro é a mente.
A mente consciente, com as rédeas nas mãos,
dirige esse carro, o corpo físico. Começa a guerra: a
mente consciente ou superior, quando devidamente
adestrada e bem equipada, faz, aos poucos, prisioneiros
os inimigos que servem ao corpo de desejos e, à pro-
porção que os captura, educa, disciplina, até que eles
passam a se incorporar ao exército da luz. Daí a sen-
tença "nada se perde, tudo se transforma", enunciada
pelo químico Lavoisier.
Nunca, em verdade, esses elementos foram ini-
migos do homem; sendo dementais, eles agem como
85
Cenyra Pinto
ordena a sua rudimentar consciência. No entanto, uma
vez capturados e esclarecidos, passam a sua força para
o lado oposto de sua atividade e começam a colaborar
com a obra divina.
Se, porventura, essa mente superior habita
ainda recentemente nesse veículo humano, sente-se
insegura, impotente e obediente à lei do livre-arbítrio,
não pode impedir que o corpo de desejos lhe roube
as rédeas e possivelmente cometerá pela vida afora
verdadeiros desatinos.
Uma vez esse veículo tombando já para não
mais se erguer, essa alma procura insatisfeita outro veí-
culo para se alojar, até lhe ser designado outro mais
conveniente.
Perambula no espaço, atingindo os encarnados
e agindo sobre eles, cujas mentes igualmente desa-
tentas não percebem a aproximação do inimigo, dei-
xando-o, desse modo, dominar-lhes a mente. E o caso
das obsessões.
Amigo irmão em Cristo! Observa bem tudo o
que se aproximar de ti. Não com olhos desconfiados
e medrosos, mas bem abertos e conscientes para que,
86
Levanta-te e anda..
sempre que aparecer um estranho, um desses elementos
negativos, a mente seja acolhida, educada e trazida ao
seu verdadeiro lugar.
Inclinações seculares, tendências que vêm de
ancestrais e que se inocularam no sangue por provas
cármicas, não são, como muitos pensam, impossíveis
de serem transformadas.
A paciência de se estudar a si mesmo, a vigi-
lância constante, o cuidado com os menores gestos e
pensamentos são o que pouco fazemos, por isso somos
levados aos trancos e barrancos pelas estradas obscuras
e inseguras da vida.
Jamais alguém conhecerá, nem desfrutará da
verdadeira paz enquanto não descortinar dentro de
si todos os recantos para, nessa inspeção, ver o que se
oculta nas trevas para fazer a luz divina.
Isso, meu amigo irmão, é uma guerra! Uma
guerra encarniçada, de vida ou morte. Pois a vida e
a morte são justamente os opostos. O nascimento se
processa depois do aniquilamento ou morte de algo
que cede seu lugar ao que vem. O amor sucede ao
ódio. Mas enquanto existir o ódio, o amor não nasce.
87
Cenyra Pinto
Morram, pois, todos os elementos destruidores
da evolução, nessa guerra que te estimulo a iniciar para
que teus opostos possam nascer, viver e se renovar na
grande escalada da evolução.
7
"Paz na Terra" - aos homens, boa vontade.
7. Lucas, 2: 14. (N.E.)
88
CONSELHO AMIGO
O COMPORTAMENTO DAS CRIATURAS NA TERRA É OBSER-
vado, analisado e condenado ou elogiado. O homem,
usando apenas a percepção externa, não tendo ainda
a capacidade de penetrar no âmago das coisas, cos-
tuma julgar pelas aparências. Nisso consiste todo o
sofrimento, toda a dor que a humanidade sente. Nada
há mais insignificante que os atos de uma criatura.
Jamais alguém demonstra, por atos, aquilo que
está se realizando no seu mundo interior. E note-se,
não o faz propositadamente, com o propósito de iludir
ninguém. A própria criatura que dá vazão ao seu es-
tado d'alma não se dá conta de que a manifestação,
ou seja, a exteriorização por atos, é absolutamente
diferente do seu processo interno.
89
Cenyra Pinto
E um processo ou um fenômeno que ninguém
se interessa em observar. Por isso, Cristo disse: "Quando
8
tiverdes ouvidos de ouvir e olhos de ver..." .
O homem se satisfaz com o que seus olhos e
ouvidos materiais lhe transmitem. Não se preocupa
com o que se esconde atrás dos atos ou da causa que
produziu o efeito. Por isso vai por aí atirando fora
o que seria de grande valor para a sua evolução e
guardando os resíduos, ou seja, o que o perturba e o
faz sofrer.
O sofrimento só existe para aquele que con-
serva no seu mundo interior detritos, coisas pernicio-
sas, portanto anti-higiênicas para o seu Eu divino.
A verdade é: raro é aquele que pára para ob-
servar esses pequenos detalhes e se interessa real-
mente em solucionar os seus problemas usando a sua
mente superior. E assim vai atirando sobre os demais
o seu desapontamento, a sua insatisfação, a sua inca-
pacidade de compreensão, culpando a todos de tudo
o que lhe acontece de mal.
8. D e u t e r o n ô m i o , 29: 3. (N.E.)
90
Levanta-te e anda..
O mal é apenas o produto da incapacidade de
assimilação daquilo que transformaria a vida terrena
num campo de concentração de forças positivas a
serviço do bem.
Pára um pouco tuas atividades e pensa comigo:
quem sou eu? Por que fui colocado entre as pessoas
que compõem a minha família? Por que essas pessoas,
as mais queridas para mim, voltam-se contra mim e
tentam me amesquinhar?
Então, tu terás como resposta: eu sou um espí-
rito, de passagem pela esfera terrena, com a finalidade
de aprender. Aqueles que ora são meus parentes car-
nais são outros tantos espíritos, igualmente em apren-
dizado na Terra. Não me querem ferir nem me ames-
quinhar. Estão executando o seu trabalho.
Talvez alguns sejam escultores que, para apri-
morar a sua estátua, tenham de usar instrumentos
pesados e cortantes que, empregados por suas mãos,
ferem muito mais que pelas mãos de estranhos. Mas se
eles estão próximos de nós, a sua incumbência, embora
espinhosa, tem de ser executada. Fazem uma experiên-
cia neles próprios e nós teremos de compreender que o
91
Cenyra Pinto
sentimentalismo deve ser o nosso ponto fraco e por isso
eles tiveram de aceitar esse trabalho difícil de, ao ser-
virem de exemplo, ajudar a modelar a nossa estátua.
Aceitá-los, pois, e amá-los como colaborado-
res da nossa obra na Terra é uma forma de libertá-los
dessa incumbência desagradável; e a nós mesmos es-
taremos ajudando, aprendendo a lição da paciência e
tolerância e sublimaremos a nossa estátua de barro,
que um dia se aperfeiçoará e terá asas. Até esse dia,
tenhamos fé e coragem e oremos juntos para que não
caiamos em tentação.
Tudo é belo para os olhos que sabem ver e os
ouvidos que sabem ouvir. Transformar tudo, com a va-
rinha mágica do amor, por onde passarmos, é o segredo
da felicidade eterna.
Não ouses perdoar. Tu não tens nada para per-
doar. Ninguém te fez mal algum. E tu mesmo que estás
fechando os olhos e os ouvidos de tua alma para não
veres nem ouvires, e de olhos e ouvidos cerrados, tudo
se deforma para ti.
Abre os olhos, aguça os ouvidos e percebe o
que está a tua volta. Vê a beleza de tudo o que te cerca.
92
Levanta-te e anda..
Vê quanta grandeza existe nas almas que te rodeiam.
Ama-as e procura sacudir essa nuvem pessimista e ne-
gativa que está tentando envolver-te. Tu trazes uma
missão à qual outros seres espirituais estão ligados e
que não pode ser interrompida. Não permitas que as
aparências turvem tua fé.
Vê naqueles que te põem à prova, que querem
ajudar a aprimorar tua estátua, o amigo benfazejo e co-
rajoso que se permitiu fechar as comportas do próprio
desejo de ser bom, para exibir aquilo que ele usa, apa-
rentemente contra ti, por necessidade do momento.
Aguarda e persevera. Se ouvires as minhas pa-
lavras, o meu conselho amigo, e puseres em prática
esses preceitos, serás, em breve, convocado para tra-
balhos de alta relevância.
Já me alonguei demais e espero que, dentro de
pouco tempo, eu venha felicitar-te pelo teu "retorno
à casa paterna", mais forte, mais consciente, mais
eficiente e transbordante de fé.
93
PACIÊNCIA
APARENTEMENTE TUDO OCORRE SEMPRE DA MESMA FORMA,
uma vez que não haja nenhum acidente estranho, ne-
nhuma modificação visível no dia-a-dia. Mas é apenas
aparente essa rotina, porque a modificação se faz per-
manente a cada instante.
Não se repelem os fatos, como possa parecer,
sempre os mesmos, embora, na forma, na apresentação
sejam idênticos. Tudo se modifica continuamente. Não
imaginamos quanta transformação se opera no nosso
cotidiano, com todos os fatos repetidos, com a mono-
tonia da vida.
A monotonia é resultante dessa repetição de
fatos sem nenhuma mudança que traga uma sensação
nova, um novo aspecto na vida.
94
Levanta-te e anda..
Eu digo nós porque, embora já me encontre em
outro setor de experiência, fora da esfera terrena, me
sinto uno com meus irmãos e ainda sujeito às mesmas
falhas, aos mesmos enganos, uma vez que a evolução
não pára. Quando vencemos uma etapa, começamos
outra e as dificuldades de adaptação continuam.
Agora, permite-me, leitor, falar de mim, não
para me exibir como um espécimen diferente, mas
para trazer um pouco de mim mesmo, das minhas inú-
meras experiências.
Todas as épocas têm seus altos e baixos, seus
prós e contras. Não há época privilegiada, porque tudo
está dentro de um plano que se desenvolve normal e
ininterruptamente.
A experiência mais extraordinária que me foi
concedida realizar, a qual mais lágrimas de sangue me
fez derramar, foi no setor da paciência. Sempre me jul-
gava tolerante, paciente. Jamais poderia admitir que
abrigasse em meu ser esses sentimentos tão condena-
dos por mim. Isso porque raramente nos conhecemos.
Pois bem. Sofri muito, porque sempre quis ser
juiz, palmatória do mundo. Não concebia um deslize,
95
Cenyra Pinto
não admitia uma mentira, e as criaturas que não par-
tilhavam do meu ponto de vista, eu as acusava sem
piedade e as perseguia quanto podia.
Então, quando algo me prejudicava injusta-
mente, eu não tinha piedade, não tinha mãos a medir.
Na minha indignação, não deixava impune o erro de
alguém contra mim.
Assim caminhava eu, cheio de empáfia, de vai-
dade e desejo de mando, quando a vida me atirou de
cima do pedestal e eu me vi, em uma de minhas en-
carnações, como o mais vil dos homens, arrastando-me
pesadamente no meio do lodaçal de todos os vícios que
eu acusara e apedrejara. A lembrança não acompanha
a criatura pelas vidas sucessivas, por isso não me po-
deria imaginar um rei destronado.
Sofri todas as perseguições e castigos que a
minha inépcia havia impingido aos meus irmãos de
jornada terrena. As dores e as aflições são as melhores
amigas e, ao lado delas, atravessamos as trevas para
ver a luz.
Foi atravessando esse pântano, empurrado, es-
corraçado, perseguido, que compreendi e senti pela
96
Levanta-te e anda.
primeira vez o Deus vivo, atuando em tudo o que existe.
Não foi assim sem mais nem menos que isso se deu.
Havia eu sido levado à prisão por furto, brigas e bebe-
deiras. Apanhei muito e fui atirado ao fundo da cela.
Quando caí lá como um trapo, um companheiro
de infortúnio me amparou e sorriu para mim, com
simpatia e bondade. Estranhei que aquele homem,
largado numa cela infecta, sorrisse daquele jeito para
mim, um pária da sorte. Ele compreendeu a minha
estranheza e disse:
"Não te admires de me ver sorrir para ti, mes-
mo estando eu aqui como um trapo. Tenho aprendido
muito, não só aqui neste cubículo mas pela vida afora.
Venho de boa família, que tudo me deu para
eu ser um grande homem, na concepção deles. No
entanto, preferi perambular pelo mundo, não por va-
diagem, mas para aprender o que os livros não me
poderiam ensinar. Vi de tudo e aqui estou porque fui
apanhado dormindo num banco de jardim. Amanhã,
talvez, ou hoje ainda, me mandem embora, mas antes
de ir-me, quero deixar-te uma única advertência: não
culpes os homens do mal que te acontece.
97
Cenyra Pinto
Procura reconhecer que andas num caminho
escuro e regenera-te, pois pressinto que tua alma está
prestes a deixar este invólucro, já tão castigado pelos
vícios. As pancadas, os maus-tratos, a vida decadente
que levas têm te tirado a faculdade de raciocinar.
Tem paciência com as provas a que a vida te
submete e sabe que poderás ainda ser feliz, mesmo
aqui neste cárcere, se começares agora mesmo a pen-
sar na razão de ser da vida e perguntar a ti mesmo por
que tens rolado como uma bola e terás a resposta.
Depois, arma-te de paciência, suporta as conse-
qüências de teus erros; procura dentro de ti a centelha
divina, alimenta-te com a fé na tua reabilitação.
Todo tempo é tempo. E quando outro compa-
nheiro for atirado aqui como tu o foste, recebe-o como
eu te recebi e dá-lhe do que te estou dando e em breve
poderás ser feliz, mesmo nas mais duras provas."
Desse dia em diante, comecei a minha esca-
lada de ascensão. E a palavra paciência ficou gravada
em minha mente, e aquela intolerância passada foi
se diluindo à proporção que eu vencia o orgulho e
a vaidade.
98
Levanta-te e anda..
Hoje, sou um dos adeptos da paciência, acre-
ditando que a compreensão da vida nos ensina que
não temos o direito de julgar ninguém e que devemos
suportar consciente e pacientemente as imperfeições
dos nossos irmãos menos esclarecidos.
Bendita seja a paciência!
99
TOLERÂNCIA
Ó TOLERÂNCIA! A T É ONDE PENETRAM AS TUAS RAÍZES?
Onde te estendes?
Qual a tua trajetória?
Como em tudo na vida, deves te expressar com
equilíbrio.
Não podes dominar todo o terreno, porque ou-
tras plantas precisam também germinar junto de ti...
Se te seguirmos na tua trajetória infinita, como
acudiremos e recuperaremos aqueles que, apoiados e
acobertados por tua frondosa copa, estacionam como-
damente, absorvendo o néctar da tua seiva?
Quando destroçadas as vidas, os desgraçados
clamam contra ti porque acolhes os seus algozes.
Até onde, tolerância, devemos te acompanhar se és,
100
Levanta-te e anda.
justamente, a alcova que esconde, convidativa, os trans-
viados do caminho!
Sob a tua cobertura, o mal prossegue sua trilha.
Com a tua proteção, aquele que não conhece os direitos
alheios e as leis divinas sente-se à vontade e até incen-
tivado a prosseguir numa vida dissoluta, acarretando,
não raras vezes, dores e desespero pelo mundo afora.
Como usar-te, afinal, tolerância? Até onde le-
varás, com a tua suposta proteção, todos os réprobos
da vida?
***
Humanidade louca e desenfreada! Não ma-
cules os sentimentos mais sublimes que possuís com a
tua incompreensão.
O que denominas de tolerância, humanidade
cega? Por que abusas dos vocábulos, em vez de buscar
a essência das coisas, na fonte de onde tudo provém?
Não nos conhecendo, não nos sentindo, nem
percebendo os sentimentos palpitarem vivos dentro
do peito, como poderemos conhecê-los e sobre eles
nos expressarmos?
101
Cenyra Pinto
Por que viver indagando às cegas, confabulan-
do, armazenando novidades, se nada de útil pretendes
realizar em prol dos irmãos de quem te ocupas?
Compraz-te em salientar os fatos com deta-
lhes e, por isso, te afastas da causa que introduz os
efeitos.
Jamais te aproximarás, assim, da fonte eterna,
nem beberás da água viva se te entregares a essa espé-
cie de trabalho, qual seja o de conspirar inutilmente.
Permite que cada coisa aparentemente fique
onde está, que ela mesma sairá no seu devido tempo.
Poderás, sem embargo, auxiliar a recolocar cada coisa
no seu devido lugar, mas, para tanto, é preciso cultivar
a serenidade, produto da compreensão.
Deixa os vocábulos ficarem nos dicionários,
entra no teu coração e lá encontrarás todos os signifi-
cados, todos os substantivos, todos os adjetivos apro-
priados a cada coisa e aprenderás também a maneira
como deves te conduzir perante a tua consciência e o
teu Deus interno.
Fazes questão de aparências. Queres resulta-
dos imediatos e assim estragas uma bela ocasião de
102
Levanta-te e anda..
realização eficiente e construtiva, desviando tua aten-
ção para o efeito e esquecendo-te da causa.
Presta atenção: é a tolerância que te faz cruzar
os braços ante os erros dos teus semelhantes, quando
podias ajudá-los? E ela que igualmente te permite per-
manecer em erro e te faz encolher os ombros em pre-
sença da adversidade que atinge teus irmãos da Terra?
E ela que te fecha os olhos diante da grandeza de certos
atos, perante a beleza de certas situações, ante as atitu-
des altruístas de irmãos que já se conduzem melhor do
que tu? E ela que te concita à maledicência, a tantos
outros atos que censuras nos outros, mas não em ti?
Não, meu irmão. Isso é covardia, é inveja, é de-
samor. Se não tens capacidade de sentir o belo, mesmo
nas coisas feias, não menciones vocábulos cujo alcance
ignoras.
9
"Amai-vos uns aos outros como eu vos amei"
- assim disse Jesus. Não necessitarás empregar termos
apropriados para cada ato, porque teus atos terão a ex-
pressão adequada às tuas verdadeiras manifestações.
9. João, 15: 12. (N.E.)
103
Cenyra Pinto
E que um dia não te perturbes mais com os
significados, nem indagues mais para que lugar te levam
os sentimentos, porque teu discernimento te orientará
diretamente.
104
QUEM NÃO DEVE NÃO TEME
SE A NOSSA CONSCIÊNCIA ESTIVER EM PAZ, TODAS AS CA-
lúnias e todas as injustiças não poderão nos atingir.
Sentiremo-nos como alguém que, usando roupa im-
permeável, a lama que se lhe atiraram em cima resva-
lará, deixando as vestes intactas. No entanto, as mãos
que atiraram essa lama não se livrarão de ficar sujas
e malcheirosas.
Pobres mãos que, esquecendo a sua verda-
deira missão, comprazem-se em desvirtuar o dom di-
vino que o Senhor lhes concedeu. Ajudemos a limpar
essas mãos e ensinemo-lhes outra ocupação mais no-
bre, mais bela.
Não lhes retribuamos com a mesma lama, pois
assim de nada serviria estarmos revestidos de maté-
ria impermeável externamente, ou seja, apenas pelo
105
Cenyra Pinto
verniz da boa educação. Não basta sermos educados e
corretos, mas também bons e compreensivos.
O mundo em que vivemos não comporta de
bom grado atitudes dessa natureza. E covarde para
o mundo aquele que desafia a ofensa com a não
resistência.
Mas deixemos o mundo dos mortos e viva-
mos no mundo dos vivos. Os mortos são aqueles cuja
alma está sepultada nesse turbilhão de paixões mes-
quinhas. Deixemo-los até que eles próprios se sintam
desassossegados e apavorados com os fantasmas de
suas ações e pensamentos.
Não os desprezemos, nem ironizemos a sua
ignorância. Sejamos complacentes como se fôramos
enfermeiros ou médicos e tivéssemos de lidar com
doentes mentais. A camisa-de-força não será empre-
gada para reprimi-los. Eles mesmos se incumbirão de
vestir-se mutuamente.
Quando se sentirem perdidos, chamarão por
nós e receberão o tratamento adequado a cada caso.
Até lá, mentalizemos amor e complacência para todos
os que, iludidos pela vaidade, tentarem se antepor à
106
Levanta-te e anda..
nossa frente, armados da maledicência, do egoísmo e
outras armas que eles sabem manejar com maestria.
Portanto, caminhemos como irmãos em Cristo,
atravessando as encruzilhadas sem nos determos para
indagar por que nos perseguem.
E um dia, nós teremos a chave de todas as por-
tas e penetraremos no nosso templo interno, levando
a lâmpada acesa do amor que tudo dá e nada pede.
107
AVANTE!
NÃO DESISTAS NUNCA DA LUTA, MESMO QUE TEU ADVER-
sário pareça estar ganhando, tuas provisões escasseando
e o terreno falseando.
Não desistas! Mesmo que surja qualquer es-
pécie de imprevisto, que pareças estar irremediavel-
mente perdido. Prossegue sem desalento, sem desâ-
nimo, porque todos os obstáculos desaparecerão à
medida que confiares na possibilidade de ser vitorioso,
de ainda vencer.
Quando a luta se mostra mais encarniçada, te-
mos a prova de que o inimigo está apelando para todas
as suas reservas por nos acharem persistentes e firmes.
Avante! Mais um impulso, mais uma investida
e teremos rompido o bloqueio e nos veremos do outro
lado, exaustos, mas vitoriosos.
108
Levanta-te e anda..
A luta que travas é uma dessas que aniquilam,
que prostram um regimento inteiro se não tiver um
comandante de fibra. Mas tu não és fraco. Sabes
bem o que queres, conheces as manhas do inimigo
e suas forças; logo, não deves te entregar vencido.
Precisas vencer.
Aproxima-se o fim do combate. O inimigo de-
sesperado, já sem munições, apresenta o seu último
estratagema. Parece que ele está com tudo a seu favor,
tal o furor de seus ataques. Mas sabes que isso significa
o último alento, o desespero de causa.
Agüenta mais um pouco. Arregimenta tuas
forças de reserva, nutre-te bem e dá o golpe final.
Assim, breve nos reuniremos para festejarmos mais
essa vitória, que será mais uma, apenas, numa série
interminável de vitórias que virão.
Feliz aquele que não se importa com os ga-
lões e sim com as realizações! Feliz aquele que não
espera as condecorações dos homens, mas sim a re-
compensa de haver-se conquistado, no combate tra-
vado no seu interior, subindo decididamente no seu
próprio conceito, e estando qualificado a receber
109
Cenyra Pinto
novas incumbências cada vez mais difíceis, porém
de maior mérito.
Que Deus seja teu estandarte! A tua arma, o
teu ideal! E que o teu destino seja a perfeição!
110
HEI DE VENCER
NADA ME IMPEDIRÁ DE CAMINHAR, EMBORA TODOS OS
obstáculos se anteponham à minha frente; embora as
encruzilhadas sejam confusas e inúmeros os precipí-
cios. Nada, afirmo, poderá me retardar na caminhada,
porque eu quero e hei de vencer!
Hei de vencer todas as armadilhas, que, para
me porem em prova, surjam sob todos os aspectos e
todos os disfarces. Quando se quer realmente alguma
coisa, os empecilhos são até incentivos, provocações à
nossa capacidade, paciência e perseverança.
Só desanima e desiste aquele que não sabe
querer e não sabe o que quer. Sempre foi e será eter-
namente rodeada de armadilhas, de ciladas, a vida
terrena, não fosse esse planeta o das oportunidades, a
escalada, o meio pelo qual se chegará a um fim.
111
Centra Pinto
Sabendo de antemão que não permitiremos de
forma alguma que algo nos embargue os passos, embora
muitas vezes exaustos e desanimados tombemos, essa
queda será somente por instantes, porque não podemos
admitir em nossa perspectiva visões tétricas, nem assus-
tadoras. E esses momentos, à proporção que os formos
superando, irão se distanciando, distanciando, até
desaparecerem por completo.
Não há nada capaz de vencer aquele que se
considera invencível. E essa força, essa invencibili-
dade, só se obtém pela fé, pela certeza da existência
de um Ser Supremo que, dirigindo todos os planos, não
excluiu o nosso; e se a evolução não pára e nem retro-
cede, nós também não paramos nem retrocedemos,
senão ilusoriamente.
Uma vez conscientes dessa verdade, por que
temer, por que nos acovardar, por que não marchar
triunfantes, embora pareçamos perder terreno?
Todos temos conhecimento de que não per-
demos nunca, embora tudo se destrua e caia a nossos
pés. Toda luta é ação e toda ação é movimento sempre
compensador.
112
Levanta-te e anda.
Não há derrota, não há fracasso, não há pre-
juízo. Há sempre triunfo quando se sai em campo para
se lutar por um ideal nobre.
Nada temo, nada existe nem existirá com o
poder de me impedir os passos, nem de me desviar da
minha rota. Hei de vencer!
113
DAR!
DAR NÃO É SÓ DISTRIBUIR. DAR NÃO É ESTENDER A MÃO E
deixar em outra mão um óbolo ou um objeto. Dar é en-
tregar a alma inteira numa palavra amiga, num sorriso,
num olhar, numa prece.
Dar é atender às necessidades do corpo, mas,
antes, preparar o estado da alma.
Dar é, enfim, expandir-se em amor e caridade.
Dar é perdoar, é esquecer as ofensas, é acudir
aos que sofrem.
Dar é compartilhar do sofrimento alheio como
se o faria nas horas de festas e alegrias. Dar é ser vi-
bração e espalhar bênçãos.
Dar é unir-se ao todo e com ele unificar-se
para o bem. Eis o verdadeiro sentido desse pequenino
vocábulo.
114
Levanta-te e anda..
Compreendê-lo e interpretá-lo é sabedoria.
Vem do Alto a ordem: "Dai de graça o que de
10
graça recebestes" . Pessoas há que vieram com a missão
de cumprir essa ordem suprema. Feliz aquele que, rece-
bendo essa ordem, prontifica-se a pô-la em execução.
Esquece de ti que já tens luz e lembra-te dos
cegos de espírito, dos doentes do corpo e, ainda mais,
dos que ainda não encontraram o caminho na estrada
da vida. Tu que vieste para dar, dá a mãos-cheias. Não
reserves nada para ti, senão as sobras, e terás a mais
farta recompensa.
Um gemido, um grito de angústia, um passo
para o abismo, uma blasfêmia, e deves estar pronto a
acudir, para amparar a queda, para salvar do naufrá-
gio a alma que está prestes a se afogar no desespero, e
assim trabalhando, incansáveis para a causa do Cristo,
estarás conquistando a palma da vitória que receberás
das mãos do Mestre Supremo.
É difícil atravessar uma estrada pedregosa e
cheia de espinhos, mas se conseguirmos isso veremos
10. Mateus, 10: 8. (N.E.)
115
Cenyra Pinto
que o outro lado dela é tão divino, tão maravilhoso,
que valeu o sacrifício.
Dá-me a mão amiga, e caminhemos juntos
por essa estrada. Os espinhos apenas te arranharão,
as rochas duras não te tocarão os pés porque o bem
tem asas e voa. Curaremos, ampararemos, consola-
remos um ao outro e, juntos para a finalidade má-
xima da vida, chegaremos ao outro lado da estrada
e contemplaremos a luz bendita do crepúsculo da
suprema glória.
Glória a Deus!
116
SERVIR
PARA SERVIR, SÓ É PRECISO QUERER SERVIR.
Quem não pode servir?
Tu, por que és pobre?
E tu, por que és doente?
E tu, ainda, por que teus afazeres
ou teus deveres sociais não te permitem?
E tu, por que alguém a teu lado te impede?
***
Tu não serves, irmão, porque não queres servir,
porque teu coração é árido, porque o gemido do teu
semelhante não chega ao teu coração, porque te fazes
cego, mudo e surdo por comodismo, por conveniência.
Hoje te retrais para não servires, amanhã cho-
rarás as oportunidades perdidas e também por não seres
117
Cenyra Pinto
ouvido, nem visto nem sentido na tua dor, no teu de-
sespero, quando também precisares de quem te sirva.
Servir é amar, é dar-se num sorriso, num aperto
de mão, numa palavra amiga e compreensiva. É ser leal,
justo, e não infiel a ponto de contaminar a vida da-
queles que já levam consigo seu farnel envenenado.
E, enfim, estar atento a todos os momentos da
vida para, em qualquer setor, em qualquer situação,
estar apto a ser o elemento de paz, de concórdia, de
harmonia.
Teu tempo, irmão, deve ser melhor aproveitado.
Deves começar a descascar esse fruto precioso, cuja
casca o impede de ser conhecido e aproveitado. Teu co-
ração é esse fruto - nutritivo delicado e macio, porém
envolto ainda por uma casca grosseira, áspera e feia.
Afasta essa casca e usa esse fruto para ali-
mentar a vida de um animal de forma humana. Sua
função verdadeira foi anulada, e seu conteúdo inu-
tilizado. Es responsável por esse fruto, cuja raiz se
aloja no cérebro, de onde parte o alimento para ele.
Trabalha para que essa raiz se abasteça no seio
da terra mãe, porém vai buscar seu alimento na beleza
118
Levanta-te e anda..
que essa matriz maravilhosa tem e não nos seus esgo-
tos, nos seus detritos.
Sabes qual é o significado dessa alegoria? A
Terra é tua nutriz; ela te deu a matéria e a alimenta, mas
tem as suas impurezas, ou seja, material ainda grosseiro
em potencial, cujo aspecto é, para os leigos, repelente;
além de seu campo magnético ser negativo.
A Terra, portanto, dá-nos o material em bruto,
em essência; filtrá-lo é trabalhar na alquimia que trans-
forma o metal grosseiro em ouro puro. É preparar o
"elixir de amor", o néctar sublime da vida eterna.
E hora de enfrentares esse trabalho. Como des-
bravador indómito, deves ser o caminhante que tomou
conhecimento de onde pisa e para onde se destina.
Teu coração deve ser a tua meta. É o fruto
ainda envolto em grossa e áspera casca. É o casulo
que oculta a linda borboleta. Mais um impulso e ele
será desembaraçado dessa feia casca e será o alimento
apetitoso e nutritivo com que te alimentarás e darás
a mãos-cheias a todos os transeuntes que passarem
por ti, para que eles sintam que, também como tu,
podem ser ricos de amor.
119
Cenyra Pinto
Teu trabalho é apenas forçar essa casca e reti-
rá-la de uma vez. Então saberás o que de maravilhoso
possuis sem que ainda soubesses. E a única parte ainda
em bruto que apresentas, por isso usas o amor de forma
rudimentar, superficial e incompleta.
Não basta para o adepto ao caminho da luz
amar apenas aos seus familiares e a uns e outros afins.
Essa é ainda uma forma egoísta de amor. Só recebe o
título de adepto aquele que já sabe servir a qualquer
um, a qualquer hora, em qualquer lugar e situação.
Que só tem ouvidos, olhos e boca para o bem e cujas
mãos não se cansam de produzir as mais variadas e
preciosas prendas para dar em bênçãos, em trabalho
de cura, de carícias, de benefícios...
Trabalha, irmão, pois é hora de servir de co-
ração. Esquece-te de tuas aflições e necessidades,
dedica-te ao serviço redentor do Cristo. "E dando
11
que se recebe."
E do que mais precisa o homem? Dos bens pe-
recíveis, que jamais produzem o que deles se espera ou
1 1 . Frase p e r t e n c e n t e à " O r a ç ã o da paz", atribuída a S ã o Francisco de
Assis. (N.E.)
120
Levanta-te e anda.
dos bens do espírito, que fazem sempre do mais pobre
um milionário, do mais ignorante um sábio?
Servir! Eis a finalidade do ser espiritual.
Servir é amar.
121
VERDADEIRO SERVIÇO
ALIVIAR OS MALES ALHEIOS, SEJAM ELES DE QUE NATUREZA
forem, é ainda o melhor meio de nos libertarmos de
nosso grande inimigo: o egoísmo.
Pensar com amor em nosso irmão e levar-lhe
sempre o nosso auxílio quando ele for requisitado é o
maior bem que podemos fazer a nós mesmos.
Todo auxílio prestado oportunamente e de
boa vontade é a forma exata de entrarmos em con-
tato direto conosco e nos reabilitarmos dos delitos
passados.
Se fores requisitado para levares teu auxílio,
quer em palavras quer em atos, não te detenhas em
indagar se deves ou não atender.
Logo que te integrares nessa campanha de de-
votamento e assistência ao sofrimento de teus irmãos,
122
Levanta-te e anda.
verás teus males se afugentarem como se um terrível
dragão os perseguisse.
É a lei. Todos os vermes e insetos da sombra se
afugentam da luz. E os males são os vermes e as serpen-
tes venenosas que se ocultam na sombra para atacar.
Temem a luz, que é o bem desinteressado.
Que te importa que vás socorrer quem esteja
coberto de maldades e indignidades? Que te importa
que, ao levares teu auxílio, sejas seguidamente enxo-
tado, injuriado e maltratado? Só te deve importar o
serviço que prestares. As conseqüências, não.
Não digas nunca que não sabes fazer, seja o que
for que te peçam. Todos nós podemos realizar verda-
deiros milagres quando estamos convictos de que agi-
mos em nome de Deus.
Dá, no momento, aquilo que te pedem. Quer
a palavra consoladora, o conselho sensato, um passe
magnético, uma bênção para um agonizante, um bál-
samo para qualquer dor de que natureza fores tu podes
dar, porque Deus age pelas mãos dos Seus discípulos.
Sejas tu um discípulo do Mestre. Sejas o "sal
da Terra" e a tua vida se transformará num esplêndido
123
Cenyra Pinto
jardim, cuja beleza e perfume serão o repouso, o con-
vite ao verdadeiro colóquio da alma com o seu grande
amor - Jesus.
Que a bênção dos altos dirigentes dos planos
da luz te sejam propícias; que jamais desperdices uma
oportunidade de levar luz onde haja treva; amor onde
haja ódio, paz onde haja guerra.
Purificado o coração, teu corpo será purificado
e tuas mãos obedecerão ao impulso benéfico de teus
mentores espirituais que estão a teu lado sempre, para
que, sem receio, realizes o que deves e precisas realizar.
Paz e amor é o que desejo.
124
"A CADA UM SEGUNDO
AS SUAS OBRAS
CADA UM TEM O QUE MERECE. CADA UM COLHE O QUE
semeia. Não importa a época em que a semente foi
lançada ao solo, o que importa é que ela foi.
Se o terreno era fértil, germinou seguidamente
e, se não, custou um pouco mais, porém germinou na
certa. A colheita será sempre de acordo com o plantio:
boa ou má, farta ou escassa.
O cético, ou seja, o presumido, o que se se-
para ostensivamente do todo, crente de que ele so-
zinho caminhará e chegará à meta, esse se perderá
na estrada, porque seu egoísmo e sua vaidade o des-
nortearão. Ele se julga um deus, antes de haver sido
primeiro um homem.
125
Cenyra Pinto
O castigo é mera fantasia, e o prêmio, um cha-
mariz aos interesseiros. Os caminhos para se alcançar
a meta são vários, mas ela é a mesma para todos.
Cada um burila-se, constrói-se, mas no con-
vívio com seus semelhantes. Ninguém constrói sem
material. E cada um de nós é um material diferente
que deverá ser reunido para que o edifício se erga. E
essa troca de material leva o operário a examinar a
qualidade e selecionar os melhores.
As escórias, não podendo ser aproveitadas na
obra, não são inutilizadas e sim devolvidas a locais onde
entrarão em fusão novamente, voltando, de quando
em quando, até não mais sobrar escolhos no paneiro.
Feliz de quem se deixa misturar a outros para poder se
transformar em material útil.
Quem condena a vida por sentir-se espezinhado
por ela e procura desiludir aqueles que a vêem com bons
olhos - embora esteja fornecendo material de trabalho,
pois está investido de forças luciferinas tentadoras - está,
todavia, em um período doloroso da vida. Lançará cha-
mas e poderá ser queimado por elas mesmas, purificado
por esse elemento ou perder-se no meio da fumaça.
126
Levanta-te e anda..
É difícil e espinhosa a missão de sacudir as
massas, com o fuzil ou o chicote nas mãos. O seme-
lhante atrai o semelhante. O que não pôde ser re-
conduzido ao aprisco com amor não encontra outra
solução, outro processo, senão o chicote. Então ele
se chicoteia, incita outros a fazerem o mesmo, ou os
atinge com seu próprio chicote.
Trazer tal alma à razão, mostrar-lhe a doçura
do amor, é irritá-la mais ainda, pois só concebe a
evolução por meio da flagelação!
Quando cessarem os estertores, quando não
restar de si senão um molambo, ele se compadecerá de
si mesmo e então se penitenciará, não mais com o chi-
cote, mas sim com lágrimas humildes e compreensivas.
Então essa alma que passou pelo cadinho da
flagelação, ao se encontrar com o seu Cristo interno,
reconhecerá que a vida não é um indivíduo, mas o
todo. Que enquanto o chicote revolteava no ar, muitos
gritos e gemidos se elevaram, quer de desespero, de
revolta, de amargura, e despertaram ao serem sacu-
didos, e ele será convidado a apaziguar esses gritos e
gemidos em vindouros dias.
127
Cenyra Pinto
Só a convicção de que a cooperação e a sim-
plicidade - que não considera o intelecto individual
e isolado como chave e se confunde no intelecto uni-
versal - integrando-se conscientemente ao trabalho,
dará ao homem encarnado a paz e a serenidade tão
ambicionadas. Portanto, cada um colhe o que semeia.
"A cada um, segundo as suas obras".
128
"BENDITO SEJA O QUE VEM
EM NOME DO SENHOR!"
CERTOS MOMENTOS EM NOSSA VIDA SÃO DE UMA CRUEL-
dade sem par! Somos submetidos a provas que ultra-
passam todos os limites. Ferem-nos no que há de mais
sagrado para nós, atacam-nos com as armas mais ter-
ríveis e somos forçados a crer que esses momentos são,
na realidade, as páginas mais vivas, mais fortes, porém
as mais belas de nossas existências, se conseguirmos
nos manter com dignidade, serenidade, compreensão...
Quando se fala em superação, por certo quer
se dizer: vencer a natureza animal, transformando-a
em foco de luz, isto é, em natureza divina.
As pessoas que são incumbidas de nos pôr à
prova são quase sempre aquelas a quem mais amamos,
129
Cenyra Pinto
aquelas por quem somos capazes de tudo sacrificar, de
tudo renunciar em seu favor!
Eis por que nos ferem mais fundo, porque o
nosso amor é enlameado, porque são deturpados os
nossos sentimentos, é, enfim, enxovalhado o nosso
mais puro ideal.
Devemos recriminar essas criaturas? Não!
Devemos, antes, perguntar: de que plano vieram? Por
que estão ao nosso lado? Por que representam tudo o
que de mais caro há para nós?
E temos como única resposta: mistério! Não
podemos, pela nossa condição de criaturas em evo-
lução, devassar os mistérios divinos.
Contentemo-nos em saber que, seja qual for
o motivo que leva essas pessoas a nos ferir, sobretudo
quando o fazem injustamente, estão elas diretas ou in-
diretamente trabalhando para a nossa regeneração e
ajudando-nos a descontar as nossas grandes dívidas.
Não convém nos exaltarmos, revidarmos as in-
justiças sofridas ou mesmo apedrejá-los. Não! Seria des-
truir tudo o que já fizéramos. Devemos silenciar covar-
demente? Também não! Todavia, quando chegarmos
130
Levanta-te e anda..
a esse ponto de compreensão, não estaremos mais em
companhias desagradáveis.
Aqueles que nos orientam e nos guiam, já fa-
zendo parte de nosso eu, a tudo assistem e não nos
deixarão desarmados e desamparados nessas horas
dolorosas; teremos o olhar voltado para o Alto e sabe-
remos agir de acordo com a lei do eterno - a única lei
que não falha jamais!
Por essa razão, quando algo desagradável nos
acontecer, devemos repetir esse sábio e consolador
ensinamento: "Bendito seja o que vem em nome do
12
Senhor!" .
12. M a t e u s , 23: 3 9 . (N.E.)
131
ALEGRIA
O ESPÍRITO, AINDA OBSCURECIDO PELAS NUVENS NEGRAS da
ignorância, vale-se de tudo para melhor explorar suas
tendências inferiores.
Vale-se da alegria para confundir aquele que
sôfrego a busca e que qualquer situação divertida é
capaz de confundi-lo e fazê-lo dócil, maleável a inten-
ções menos dignas daqueles que vivem à espreita de
oportunidades para arrastar vítimas ao seu covil.
Ninguém que esteja com a mente sempre vol-
tada para o Mestre Supremo cai nessas ciladas, por-
que está a todo momento em atitude de vigília e o
seu coração não anda em busca de falsas alegrias. Ele
sabe que a alegria verdadeira não é aquela que nos
oferecem aereamente, mas a que sentimos, no íntimo
132
Levanta-te e anda.
do nosso ser, quando somos capazes de reconhecê-la,
mesmo no meio das lágrimas.
Ela é algo muito sutil e só a percebe a pessoa
que se colocou à altura de reconhecê-la, venha ela em
vestes nobres ou em andrajos, chorando ou sorrindo.
Ela é produto de grandes conhecimentos que a expe-
riência da vida nos dá; é filha da compreensão que
conhece todas as facetas da vida e com ela se une para
o trabalho da evolução.
Não é egoísta a verdadeira alegria, nem se re-
sume em fatos concretos, porque se oculta atrás deles.
E sutil demais para ser vista e sentida pelos profanos.
A alegria é a alma da alma. Sem ela, a criatura
vegeta na vida. E senti-la, no seu verdadeiro sentido, é
já se ter superado. E já ter vencido a matéria e ser se-
nhor de qualquer situação.
Ela é o resultado da conquista permanente do
espírito sobre a matéria. Quando sobrepujar uma si-
tuação difícil, mas sem mágoa, nem revolta, compreen-
dendo a causa que impulsiona aquela dificuldade e, por
outro lado, já tendo passado pelo fogo das coisas cruéis
e dolorosas da vida, mas com ânimo sereno e com a
133
Cenyra Pinto
compreensão da vitória que logrou sobre si mesmo, en-
tão a alegria, essa alegria real, se apossa do seu ser que
está fortalecido pela luta e, quanto mais lutas enfrentar
e quanto mais vitórias alcançar, mais se libertará das
ataduras terrenas.
A alegria permanente será, em épocas futuras,
um elemento abençoado e espalhará bênçãos pela hu-
manidade ávida de aventuras, mas ignorante da fina-
lidade da vida.
134
SERENIDADE
SE SABES ESPERAR, SE CONFIAS E TENS A CERTEZA DE QUE
nunca estás só, se sentes a presença do eu sou, saberás,
por certo, que tudo o mais te será acrescentado.
Nada pedirás, nada esperarás, porque sabes
que nada é em vão, que tudo será feito na hora exata
e oportunamente.
Se algo tentar te afligir, saberás como te des-
vencilhar disso, porque não te sentirás atingido pelas
setas venenosas que a maldade humana tão bem
sabe dardejar.
Caso te tentarem desviar da meta que tra-
çaste, teus sentimentos apurados te intuirão e tu sa-
berás a tempo te livrar das traves, dos empecilhos e
das armadilhas.
135
Cenyra Pinto
Se tu, meu irmão que palmilhas a Terra, crês
realmente, nada te mudará de rumo, porque alcançaste
a serenidade que te ajudará a refletir nas investidas
que a tentação da matéria oferecer e a retroceder.
Vive tua vida, com harmonia, vibra serena-
mente e, como as águas mansas de um regato, tua
alma deslizará calma. As amarguras que a vida te possa
trazer, por necessidade cármica, tu saberás contorná-las
com sabedoria e compreensão, e tua jornada pela Terra
será mais uma etapa vencida, na grande escalada.
136
A MISSÃO DA MULHER
TUAS ATIVIDADES COTIDIANAS SÁO JUSTAMENTE TUA IN-
cumbência espiritual. É em cada ato, em cada gesto,
em cada pensamento que está a tua possibilidade de
realização.
É o teu lar que deves, em primeiro lugar, aten-
der. A ele precisas dar tudo o que de melhor tiveres
para que dele saia o melhor para os que virão depois.
Quando se diz "a justiça começa em casa",
queremos dizer que devemos dar o exemplo a partir
do nosso lar. Não convém pregar doutrinas, fazer ca-
ridade fora dele sem que primeiro acudamos aos que
estão sob a nossa guarda.
A mulher, sendo colaboradora da divindade,
aquela que representa a beleza, a doçura e o amor,
deve ser no lar o anjo bom e, ao mesmo tempo, o juiz
137
Cenyra Pinto
inflexível. Deve ela ser tolerante, quando preciso, e
intransigente, se o caso o exigir.
Com os filhos, a sua missão é de uma beleza
sem par. Em relação ao esposo, a missão é grandiosa e
eloqüente. Com aqueles que, por lei cármica, habitam
sob seu teto, deve ela ser de uma benevolência sem
limites, para não vir a molestar e constranger os que já
estão atravessando transe tão doloroso.
Não há palavras que traduzam a grandiosi-
dade do papel da mulher no lar, na sociedade e na
espiritualidade. Sua missão pode ser divina ou dia-
bólica. Como anjo bom, é a representante direta das
hierarquias superiores, para desempenhar magníficos
trabalhos. Como anjo mau, é diabólica e representa as
forças negras, no trabalho de destruição e involução.
Sê tu, mulher que pretendes galgar os degraus
da evolução, verdadeira sacerdotisa do amor divino,
dentro e fora do lar, para seres um exemplo vivo e digno
de ser imitado.
138
SEMENTE DE AMOR
EU S O U UM ESPÍRITO E N C A R N A D O , Q U E T R A G O EM MIM A
semente do amor universal e procuro dar aos meus
atos o mais puro e transbordante otimismo.
Isso porque creio no universo e no seu Criador.
Vejo em cada criatura uma partícula do todo e vejo o
todo em cada criatura. Sei que devo amar a cada um
e procurar a ele me ajustar, como se ajustam em uma
máquina os seus pequeninos parafusos e peças, sem o
que essa máquina não funcionaria regularmente.
A máquina é o todo. Nós, as criaturas, as pe-
queninas peças que a compõem. Os parafusinhos são
como a nossa boa vontade de cooperação, desejosos
de que toda a engrenagem se ajuste e a máquina fun-
cione bem.
139
Cenyra Pinto
Qualquer peça é digna de maior atenção. Faz-se
necessário que cada uma procure se ajustar e veja nas
outras uma parte de si mesma. E assim deveremos
proceder para que o universo atinja a perfeição.
Não teremos mais razão para tristezas e dúvi-
das, porque trabalhando para o mesmo fim, cada um
no seu setor, estaremos contribuindo para a evolução
de todo o universo.
Seja qual for o nosso lugar na grande máquina,
procuremos desempenhar a nossa tarefa com carinho,
sem mágoa, sem inveja, sem despeito por aquele a
quem foi conferido mais importante papel.
Cada um, dentro do seu raio de ação, deve de-
sempenhar sua obrigação com carinho e estar certo
de que contribuirá fartamente com o seu quinhão, na
grande obra universal, nesse imenso laboratório de
transmutações diárias.
Desprendamo-nos de tolos preconceitos, de
vãs ilusões, e procuremos nos ajustar à grande má-
quina. Sejamos pequeninas peças, mas úteis.
Procuremos dar o máximo do nosso amor na
execução da tarefa que nos foi confiada e estejamos
140
Levanta-te e anda..
certos de que, se uma vara só não se põe em pé, um
feixe delas, bem atado, se conservará firme por tempo
indeterminado.
Unamo-nos e formemos um grande feixe de
almas que se amam. Façamos o possível para tirar o
melhor de nós, para a execução do planejamento do
bem universal. Assim não dissiparemos a força que se
acha concentrada em nós para ser, um dia, integrada
no grande todo. Concluímos: tudo está no todo e o
todo está em tudo.
141
SIMPLIFICA TUA VIDA
PROCURA SIMPLIFICAR TUDO AO TEU REDOR E TODAS AS
coisas se tornarão simples para ti. Facilita sempre tudo o
que puderes. Não olvides, entretanto, que é preciso co-
nhecer profundamente tudo o que te cerca, para pode-
res fazer parte de tudo, com simplicidade e facilidade.
Simplifica tuas atitudes, teus gestos e, só assim,
terás a teu lado criaturas que te estimem, que te sirvam
porque não serás para elas um estorvo. Não te mostres
altivo e superior porque alcançaste o nível mais alto; sê
simples pela tua dignidade e desce ao mais baixo degrau
pela tua simplicidade.
Facilita sempre tudo o que puderes e, com
isso, atrairás as almas puras para o rebanho do Senhor.
Sê bondoso, compreensivo, tolerante e simples, para
exemplificares os ensinamentos do Mestre Jesus. Não
142
Levanta-te e anda.
te detenhas somente em palavras; faze tua a vontade
de servir. Serve verdadeiramente.
Age e sê um eleito de Deus no agir. Dá o que
de melhor houver em ti e lembra-te de que cada um
dá o que tem e todos têm algo para dar. Mas, sem em-
bargo, procura não misturar o trigo com o joio. Se o
servires assim misturado, desmancharás muitas vezes
com os pés o que fizeste com as mãos.
Não sejas nunca um destruidor, nemaniquiles
o teu trabalho. Procura fazê-lo tão perfeito que não
tenhas necessidades de o inutilizares.
Estuda quanto puderes; medita sempre que
puderes; ora quando puderes, mas trabalha sempre.
Trabalhando, estarás lendo no livro da vida, estarás
meditando nas coisas sagradas e orando no santuário
de tua alma.
Procura, pois, tu que tanto anseias subir um
pouco mais, trabalhar aqui, neste mundo. Orienta-te
bem, pois a bússola que trazes, se não a abandonares
na estrada, não te deixará errar o caminho.
Deixa que a humanidade ironize teus sonhos e
repudie teu ponto de vista, por não poder alcançá-lo.
143
Cenyra Pinto
Não estás, e nem estarás, jamais só, pois na disciplina
há ordem e onde há ordem há união.
Simplifica tua vida! Torna-te o apoio, o cajado
e a mão amiga que a ninguém se recusa e facilita aquele
que ainda não conhece a estrada, mostrando-lhe o fanal
da fé que jamais deixou de brilhar e jamais deixou um
viajante abandonado à margem do caminho.
144
NOSSO RELICÁRIO
QUE GRANDIOSIDADE ENCERRA O CORAÇÃO HUMANO!
Que maravilhas oculta, tão modestamente, no âmago
de cada coração! E esse esplendor não é privilégio de
ninguém.
Assim como em todos os seres a função fisio-
lógica do coração é igual, como órgão propulsor da
vida, também é ele o relicário onde se guarda o mais
precioso tesouro que se pode conceber.
"Mas como existem criaturas tão perversas,
tão mesquinhas, tão sórdidas, se todos possuem um
coração e se todo coração é um cofre de preciosas
jóias?", perguntarão alguns.
Muito simplesmente, responderemos: cada um
faz uso daquilo que possui da melhor maneira e como
lhe aprouver. O material empregado na confecção de
145
Cenyra Pinto
um punhal é o mesmo que se empregará para se fazer
um belíssimo estojo, que guardará raras e preciosas
pedrarias... É, ainda, o mesmo material com que se
fabricarão inofensivos instrumentos domésticos, que
tanto são úteis!
Logo, todos possuem o seu tesouro. Uns ainda
não se aperceberam dele e vivem à procura de aven-
turas, quando poderiam ter tudo, se se dispusessem a
dar uma olhada no seu pequeno cofre. Alguns reco-
nhecem que são possuidores de grandes coisas, mas
as utilizam para fins egoístas e mercenários. Outros,
enfim (os únicos que se aperceberam desse tesouro e
o empregam para altas finalidades), preparam os seus
objetos e o fazem em silêncio.
Não alardeiam sua riqueza, não se envaidecem
de suas jóias, mas, por onde passam, deixam que fique
uma pérola e do seu coração se irradia uma luz mara-
vilhosa! Fazem dessa luz as suas jóias e distribuem-nas
a todos ao seu redor, formando, assim, o colar das ver-
dadeiras pérolas do mais puro amor!
Aqui fica a minha modesta contribuição para
meu irmão meditar:
146
Levanta-te e anda..
Cultiva as prendas que tens dentro de ti.
E que o teu coração seja um relicário de amor!
Que a tua compreensão te descortine um mun-
do melhor, dentro do teu pequeno mundo interior.
Que a paz seja sempre a tua companheira!
147
O LUGAR DO BELO
ENFEITA TUA VIDA! ADORNA-A O MAIS QUE PUDERES PARA
que possas te sentir feliz! Tua vida terrena, tua morada
transitória, é a escola onde preparas as lições para
as provas finais.
Procura te ajustar a ela e não sentirás as
penas, nem as amarguras, de que é tão comum se
queixarem as criaturas. Não há amarguras nem penas.
Há páginas belíssimas que são folheadas descuidada-
mente, por isso não são apreciadas as belezas nelas
contidas.
O que é a vida? Acaso há apenas nascimento,
vida e morte e depois mais nada? Seremos, então, fan-
toches nas mãos de um destino ignaro, que tão mau se
apresenta para uns e tão pródigo para outros?
148
Levanta-te e anda..
Esse Deus, esse Criador, será mera fantasia? Se
Ele existe, como poderá brincar com os seres criados
por Ele próprio?
Sim! Seria cruel se assim fosse. Mas nós, fe-
lizmente, sabemos que não é. Temos certeza de que a
vida terrena é uma seqüência de outras vidas e que,
após deixarmos o corpo físico sob a Terra, continuare-
mos a nossa peregrinação até atingirmos a finalidade
planejada pelo nosso Criador.
Portanto, se temos necessidade de morar numa
casa, por mais humilde que ela seja, sejamos sensatos
para não nos revoltarmos com isso. Deveremos, den-
tro de nossas posses, tornar esse cantinho o mais aco-
lhedor possível, para que não somente nós, mas todos
os que de nós se aproximarem, sintam-se bem no nosso
convívio e no nosso ambiente.
Eis por que te concito: enfeita tua vida. Não te
importes com as condições em que tenhas de viver; pro-
cura amenizar, quanto possas, as dificuldades financeiras
ou morais, em um acorde de alegria e compreensão!
E nessa luta para que não se desmorone esse
lar, que corresponde ao teu eu, apela para Deus que te
149
Cenyra Pinto
enviará em forma de flor a aceitação do que não puder
ser mudado, e em forma de força as tuas debilidades
para as transformar em luz e dissipar as trevas com as
quais te deparares em tua jornada.
Tua vida é um jardim onde o Senhor passeia
continuamente. Trata-o sempre, traze-o com cuidado e
as maravilhosas flores da sabedoria vão se abrir para ti.
150
RENÚNCIA
RENUNCIAR NÃO É PERDER, É CEDER LUGAR A OUTREM EM
nosso próprio favor.
Renunciar é, também, às vezes, saber perder,
sem revolta nem rancor.
Renunciar é sentir, é alcançar o valor da
perda, sem, contudo, permitir que a mente se deixe
envolver pelas nuvens do desânimo, da descrença ou
do desespero.
Renunciar não é deixar para trás algo, que era
todo nosso sonho, que nos pertencia ou que imaginá-
vamos possuir.
É preciso que nos abandonemos ou nos resig-
nemos com o fato consumado de não obtermos aquilo
que tanto desejávamos. Renunciar, consiste, enfim,
numa aceitação sem revolta.
151
Cerryra Pinto
Quando idealizamos alguma coisa, fazemos mil
planos; edificamos nosso castelo à sombra de nossas
douradas ilusões. Fazemo-lo maravilhoso, cheio de tudo
o que imaginamos que nos tornaria felizes.
Tão imbuídos ficamos com o nosso anelo que
chegamos a tocá-lo, tão próximo de nós está a sua
realização. Então vibramos de emoção... De repente,
como uma espuma que se dissipa com o vento, ele se
desfaz, deixando-nos atordoados, decepcionados.
Nosso primeiro sentimento é de revolta, de
tristeza, de desapontamento... Todo um sonho feito
de encantamento, que chegou a ser quase tangível às
nossas mãos, esvai-se como uma nuvem que se esgarça
no céu tempestuoso.
Mas, quando acordamos desse choque, com-
preendemos e vemos com imparcialidade tudo o que
nos rodeia. A decepção e aquele vazio que a carac-
teriza cedem lugar a um sentimento suave: a doce
compreensão.
Se realmente cremos em uma providência
divina, se temos como certos seus desígnios, se co-
nhecemos as leis que regem os mundos, não devemos
152
Levanta-te e anda.
permanecer sob os escombros para chorar, nem nos
lamentar pela perda sofrida.
Tudo está certo, absolutamente certo! Não per-
demos nada, nem mesmo o tempo que empregamos na
organização de nosso plano. Não nos enveredamos por
caminhos errados ou obscuros; apenas deixamos de
obter aquilo que queríamos, porém certamente tive-
mos aquilo de que precisávamos. Muitas vezes, confun-
dimos desejo de posse com verdadeira necessidade. De-
sejamos algo. Lutamos para consegui-lo. Não obstante,
não o conseguimos a curto prazo...
Porém, pelo caminho, enquanto marchávamos
ao encontro de nosso ideal, fomos colhendo tudo o que
de real precisávamos para as lutas futuras, muitas vezes
em setores bem diversos do que tínhamos em mente.
O homem é, por conseguinte, o resultado de
suas inúmeras experiências... Já diz o rifão popular:
"Barco parado não ganha frete". Realmente... E traba-
lhando que se está sempre edificando, construindo...
Eis por que não devemos desanimar ante os su-
postos fracassos. Quem somos nós para nos rebelarmos
contra aquele que tudo sabe! Para renunciar, é preciso
153
Cenyra Pinto
perder-se algo de si mesmo ou daquilo que mais almejá-
vamos e que temos em perspectiva em nosso íntimo.
Nada cai por terra quando sabemos construir
de baixo para cima. Iludimo-nos demais, deixando-nos
arrastar no remoinho do pessimismo, quando nossos
sonhos não se concretizam.
Afinal, que são nossos sonhos, comparados à
realidade das coisas? Apenas bolhas de sabão; belos
na sua colorida fantasia, mas ocos no seu significado,
na sua estrutura...
Todavia, se penetrarmos na essência das coisas,
veremos que os sonhos, por mais banais que pareçam,
são a promessa que atrai, que convida à luta, reunindo
os idealistas, os sonhadores, em um só rebanho. E por
meio deles e atrás deles que subimos. Eles nos chamam,
nos seduzem e nos conduzem ao trabalho para con-
seguirmos a sua realização. E nesse trabalho, nesse
afã de obter o material, incentivamos também o di-
vino em nós.
Caminhando, caindo, levantando, lutando, en-
fim, em prol do nosso sonho, estamos procurando nos
encontrar na estrada real da vida.
154
Levanta-te e anda.
E todos os que passam por nós, quer nos aper-
tem a mão, quer nos esbofeteiem, quer nos acariciem,
quer nos empurrem, estão, sem o saber, como nós tam-
bém, buscando-se por intermédio de seus sonhos.
Se soubermos renunciar, sem revolta, sem ódios,
sem maldições, teremos certeza de que não foi inglória a
nossa luta! Perdendo, às vezes ganhamos muito mais!
155
AJUDAR
SE DESEJAS AJUDAR ALGUÉM, SE PRETENDES LEVANTAR
alguém do lodo em que está mergulhado, não o faça
com reprimendas ou sermões. Aprende a usar o esca-
fandro da bondade e do amor, que vai a todos os níveis
para servir.
Só a compreensão da vida nos dá alavanca
capaz de levantar o mais pesado fardo, por mais repug-
nante que ele seja, sem nojo nem reclamação.
Saibamos que o nosso irmão que está na lama
dos vícios é um ser em evolução. Ele não está assim
por ser repelente, mas porque ainda não tem forças
bastantes para se soerguer, e talvez nem saiba que está
em estado tão repulsivo.
Ajudar não é impor, não é amesquinhar nem
ferir aquele a quem se pretende levantar! É apenas
156
Levanta-te e anda..
acolher, dar a mão, não alardeando as próprias virtu-
des, para que não se estabeleçam comparações, desi-
guais para o que já está tão lamentavelmente deprimi-
do. Ajudar é ainda ser discreto, natural, simples, tudo
fazendo sem trombetear, para não demonstrar o que
foi feito.
Somos descendentes do mesmo Pai e temos
uma única pátria. Somos, portanto, irmãos e compa-
triotas. Se algum de nós já aprendeu algo, pelas várias
vezes que passou aqui pela escola da Terra, justamente
esse deve ser o coadjutor do mestre e não o verdugo
implacável.
Quantas vezes já atravessamos o mesmo cami-
nho e nos encontramos na mesma decadência em que
hoje, porventura, pode estar o nosso irmão! E aqui
estamos, no entanto, já refeitos das quedas e agora
libertos de algumas prisões da matéria.
Os vícios são prisões infectas, que precisam do
ar puro da consolação e dos raios do sol do amor. A
criatura é a escada pela qual sobem os vermes até se
transformarem em anjos e adejarem para outras para-
gens, servindo em outros setores.
157
Cenyra Pinto
Se trilhaste o mesmo caminho, hoje palmi-
lhado pelo teu irmão decadente, fazes com ele o que
desejarias que contigo fizessem em tais condições. Sê
paciente, tolerante e, despretensiosamente, caminha
ao lado dele como companheiro igual, para que ele
adquira confiança em si mesmo e comece a dar os pri-
meiros passos com os próprios pés.
Talvez ele ainda tombe! Talvez ainda tenhas
que auxiliá-lo a sair da lama para onde ele voltará de
quando em quando! Mas com a ajuda e a misericórdia
divinas, talvez ele possa melhorar rapidamente.
Mas não te revoltes nem te impacientes. Per-
severa ajudando sempre. Talvez, nesse trabalho, tu
te reajustes contigo mesmo e encontres dentro de ti
aptidões, até então desconhecidas, e forças que igno-
ravas possuir.
Avante, amigo!
Ajuda a erguer aquele que está caído e en-
sina os primeiros passos àquele que ainda está se
arrastando. E assim, nessa benemérita obra, verás
resplandecer, no horizonte de tua vida, um sol mais
claro, mais belo e mais vivificante e serás por ele
158
Levanta-te e anda..
iluminado internamente e nenhuma tempestade te
abaterá, porque estarás escudado pelo mais belo sen-
timento - o amor.
O amor em ação.
O amor a serviço da causa do Cristo.
O amor que vai a todos os níveis para servir!
159
A VIDA - GRANDE MESTRA L. . .
DEIXA QUE A VIDA CAMINHE. NÃO PROCURE PERTURBAR-LHE
a caminhada. O destino da vida tem uma meta. Ela
terá de alcançá-la. Nada impedirá que ela prossiga
sempre, apesar de tudo e de todos. Ela tem uma fina-
lidade e terá de realizá-la. Se tu tentares embargar-lhe
os passos, sofrerás as conseqüências.
Dá a mão à vida e caminha solidário com ela,
obedecendo-lhe as diretrizes e acatando-lhe as deter-
minações. Ela é sábia. Sabe o que faz.
Pedes-lhe absurdos, ela te recusa e, com isso,
sofres e a acusas de megera. Ingrato que és. Ela é a tua
oportunidade e está em ti para te ajudar a alcançar
a meta.
Tu a segues, quer queiras quer não, porque ela
está e estará presente enquanto respirares. E quando a
160
Levanta-te e anda.
vida te deixar nesse plano, quando esse corpo, do qual
ela se serve, tiver terminado a sua peregrinação neste
plano terráqueo, ela continuará ainda e sempre, porque
ela é a chama que arde em cada coração e em cada
semente. Ela é a eterna vivente. Ela é a condutora que
dirige tudo o que existe para a evolução dos tempos.
A vida é Deus em ação. Está em cada grão, em
ti, em mim e em tudo o que existe, porque matéria e
espírito são vidas em evolução.
E quando o caminho que trilhares for ponti-
lhado de espinhos, quando te sentires à beira de pre-
cipícios, não blasfemes contra a vida nem te iludas
tentando contra ela, porque aqui, como Além-túmulo,
a vida prossegue em seu trabalho enquanto de ti não
houver tirado todas as experiências nem sublimado
todas as escórias que reúnes em tua personalidade fí-
sica pelos tempos!
A vida te acompanhará eternamente até te
tornares luz e te integrares na fonte de luz, da qual
todos partimos. Sê paciente com a vida; caminha de
mãos dadas com ela, embora tu não a compreendas
muitas vezes.
161
Cenyra Pinto
A tua trilha terá de ser percorrida por ti, e se
caminhares com a mente voltada para a causa de tudo
o que existe, para a fonte de luz, não serás arrastado
pelos vendavais, pelos tufões das paixões humanas. Sê
solidário com a vida e, em breve, ela e tu estarão tão
fortemente unidos para o grande trabalho da reden-
ção que já não sentirás nem penas nem amarguras;
estarás, então, de posse do grande conhecimento.
Tudo é aprendizado, não te esqueças. A vida
não fere ninguém nem a ninguém persegue. Ela é irmã
gêmea da evolução e ambas em comunhão trabalham
para o mesmo fim.
Sejamos, irmão, amigos da vida que o Pai nos
concedeu. E dentro dela, procuremos aprender as li-
ções sábias, nas provas difíceis a que ela tantas vezes
nos submete.
E, com o coração e a mente unidos em um só
fim, para o mesmo ponto, em direção à luz inefável,
caminhemos de mãos dadas com a vida, essa grande
mestra...
162
"NÃO JULGUES..."
NÃO JULGUES! PROCURA NÃO DETURPAR OS SENTIMENTOS
alheios. Podes ver os atos, mas não aquilatá-los do teu
sentimento, da causa que os impulsionou.
Sabes, caro irmão, que a evolução se processa
de baixo para cima, de dentro para fora. O ato é ex-
pressão grosseira, deturpada do sentimento que, em
essência, é todo ele puro e nobre.
Deus age por trás de tudo. O homem comum,
não tendo ainda meios de externar Deus em Sua gran-
diosidade durante a vida cotidiana, fá-lo como pode,
como sabe. Só por meio de múltiplas encarnações, ele
toma conhecimento de sua origem divina e então a
expressa no seu verdadeiro sentido.
163
Cenyra Pinto
Até alcançar esse estado, vai o homem trope-
çando em tudo e em todos, caindo e derrubando os
que passam pelo seu caminho, porque, mergulhado
na matéria, vai se apossando do lenho com que irá
construir a sua cruz, para depois nela se crucificar. Daí
surgirá, após muitas idas e vindas, a sua ressurreição.
Todos passam pela mesma escala ascensional,
palmilham a mesma estrada e lutam com as mesmas
feras.
Não sabes, entretanto, em que degrau da evo-
lução se encontra aquele que julgas, nem sabes em que
terreno tu pisas.
E melhor não fazeres julgamento precipitado
para não maculares a tua mente com a nódoa de um
pensamento negativo emitido contra teu próximo.
Lembra-te de que "com a medida com que
13
medires, serás medido" . Deixa que as criaturas vivam
a sua própria vida. E, quando algo te prejudicar ou
parecer que, premeditadamente, te querem preju-
dicar, lembra-te de que a vida terrena é transitória
13. Mateus, 7: 2. (N.E.)
164
Levanta-te e anda.
e efêmera. Os males só poderão atingir-te nos teus
veículos inferiores, não alcançando o teu verdadeiro
ser, se souberes olhar compreensivamente e sentires
compassivamente que tudo o que fazem as criaturas
é a expressão exata da sua verdadeira essência.
Respeita o espírito divino que habita em cada
ser humano, em cada átomo, em cada semente, em cada
estrela. Respeita também a divindade que está em tudo
e procura olhar para a frente e para o alto, vendo so-
mente a manifestação do eterno em suas várias formas.
Assim, não serás perseguido pela dúvida, pela
desconfiança, pelo pessimismo, pela revolta, causados
pelo mau julgamento que fizeres do teu semelhante.
Procura estar sempre vigilante. Não permita
que se albergue em tua mente nada que a manche,
nada que a deprima... nada que a envenene e mate.
Ergue bem alto a bandeira branca da paz e do
amor! Põe bem seguro o altar do teu Cristo interno,
e as labaredas das paixões inferiores não te atingirão,
porque possuis o extintor de todo mal: o amor! Amor
que não julga, não condena, não duvida, porque sabe
que tudo é Deus em ação!
165
"HOMEM DE POUCA FÉ"
DEUS É VERDADE. DEUS É SABEDORIA. DUVIDAR DE DEUS
e de seus princípios de sabedoria é duvidar da própria
existência.
Tudo tem um fundo real; se nosso raciocínio
não se detiver nas imperfeições da alma - as quais se
apresentam em forma de subterfúgios ardilosos - muita
coisa nos surpreenderá. Os instintos, maldosos às vezes,
levam o homem a reduzir a escombros e desmoronar
as suas mais belas ilusões. Isso porque ele constrói
seus ideais sobre a areia, sem base sólida. Então vem
a onda furiosa ou o vento tempestuoso, e o edifício de
seus sonhos se desfaz. E o homem sofre e clama contra
Deus e seus princípios e O acusa de injusto.
Para que um edifício resista ao tempo e às in-
temperies naturais, é necessário que sua orientação
166
Levanta-te e anda..
tenha sido correta, seu alicerce sólido e o material
nele empregado de primeira qualidade.
14
"Homem de pouca fé..." , assim se expressou
Jesus. Sim! Homens de pouca fé! Homens de muitas
palavras e escassas ações! Muito falam, mas pouco
produzem.
Para que algo tome forma, é preciso ação,
movimento, coragem e fé para impulsionar até a sua
realização. Realização... Quantos falam esse vocábulo
simplesmente pela sua agradável ressonância!
Quão poucos, todavia, conhecem a sua es-
sência e a sentem... Realizar não é exteriorizar, não
é apresentar algo palpável e visível aos olhos da ma-
téria. Essa é a realização objetiva, concreta, com seus
adeptos na Terra para os aplausos a que a humanidade
tanto aprecia.
A realização real, no entanto, é solitária, silen-
ciosa, invisível e também impalpável. Nenhuma palavra
traduziria essa realização simbólica. Porém, há quem a
persiga tenazmente, desejoso de a encontrar e a sentir.
14. Mateus, 1 4 : 3 1 . (N.E.)
167
Cenyra Pinto
Mas essas criaturas ainda não podem perceber
as coisas sutis e, se assim não fosse, não diriam que
desejam e anseiam mesmo alcançar essa felicidade
tão fugaz...
Há coisas demasiadamente altas e profundas.
Tão altas e tão profundas que a mente humana não
poderia conceber, quanto mais sentir.
Todavia, há seres, ainda dentro do plano fí-
sico, capazes de realizar realmente. No entanto, até
onde vai a sua realização, o que produziu em outros
planos, qual o resultado desse trabalho, isso o homem
não poderia perceber, porque o seu organismo não está
adaptado para essa sensação. Seus sentimentos estão
ainda embotados, motivo por que as coisas demasiado
sutis não lhes chegam ao conhecimento do eu.
Irmão amigo e companheiro de luta, não esmo-
reças, aconteça o que acontecer. Sê fiel a teus princí-
pios. Convence-te de que "não há mal que sempre
dure" e, sobretudo, não existe o mal. Tudo é bem.
Deus, supremo Criador, criador de tudo, não
criaria o mal. Aquilo que se nos afigura um mal é apenas
a escória do bem, que, ao passar pelo filtro, deixa suas
168
Levanta-te e anda.
impurezas na vela. A vela é o corpo físico, que retém
as impurezas para passá-las sempre pelo filtro, até que
toda aquela escória se purifique e a vela possa se apre-
sentar limpa, clara, e então, não mais necessitar tomar
forma, porque ela própria será diluída na essência, a
própria essência - Deus.
169
COVARDIA
SER COVARDE!
Ter medo da vida, ter medo da morte, ter medo
de si próprio!
Ser covarde é ser desgraçado.
Ser covarde é não ter fé, nem esperança, é vi'
ver sem viver.
A covardia anula a criatura.
O covarde não caminha porque tem sempre
medo do que o aguarda fora do seu âmbito.
Ser covarde é paralisar-se.
A covardia é própria do ser distanciado de
Deus.
Ver Deus em tudo e em todos. Sentir Deus em
si e marchar sem medo, confiante, sereno, certo de que
170
Levanta-te e anda..
a sua jornada pela Terra não é apenas para prazer da
matéria, mas muito mais: para a evolução do espírito.
Não ter medo de nada; olhar sempre para o
alto e para a frente, em busca do ideal máximo, do
aperfeiçoamento, que só se adquire quando a covardia
se afasta para sempre.
171
ADVERTÊNCIA
APOIAR-SE EM ALGO É TER CERTEZA DE QUE NÁO SE TOMBA.
Dirão alguns: "Por que haveremos nós de viver apoiados
em alguma coisa ou em alguém? Por que não procu-
rarmos viver por nós mesmos?".
Então eu lhes responderei: "Quando vivemos
por nós mesmos, acaso não estamos apoiados na fé,
na confiança que temos em nossas possibilidades de
nos mantermos de pé, em qualquer situação? A fé não
é por acaso algo divino, que nos serve de escora, que
nos mantém de pé e nos convida a caminhar?".
Mas nem todos possuem ainda a autocon-
fiança. Nesse caso, precisam apoiar-se naquilo que os
mantém de pé.
A criança não pode prescindir, primeiro do
colo, depois da mão que a encoraja a andar, até que
172
Levanta-te e anda..
caminhe por conta própria. Mesmo assim, não pres-
cinde da assistência de alguém adulto que a dirija, a
discipline, a ensine.
Assim, caminhamos pela vida, sempre necessi-
tando de um apoio, de uma ajuda, e só a vaidade impede
certas criaturas de se convencerem dessa necessidade.
O homem que se tranca no seu mundo interno
e rechaça todo e qualquer auxílio mesmo sentindo que
está arrasado, que está tombado, esse é um tolo, um
presunçoso que não consegue se manter nas próprias
pernas, julga-se superado e sem necessidade de nada.
E importante viver em função de um todo. O
que um possui, outro tem carência. E da troca, do in-
tercâmbio, que a vida marcha.
Fugir a essa regra comum é isolar-se do todo e
ficar na retaguarda. Apoiar-se na própria resistência,
na própria fé, é condição daquele que adquiriu certa
evolução e já pode ser bússola na estrada.
Mas aquele que ainda não sente em si essa
força, essa segurança, nem conseguiu ainda desven-
dar-se a seus próprios olhos, entender-se a si mesmo,
não pode prescindir da ajuda, do estímulo, da amizade
173
Cenyra Pinto
e dedicação de outros que, já mais avançados na es-
trada, lhe poderão servir de guia.
Guiar não é afastar ninguém da própria rota,
mas ensinar como se caminha sem muitos tropeços.
Os livros ensinam, com abundância de detalhes, coisas
fabulosas, mas não conseguem atravessar a barreira
da incompreensão de certas almas aferradas aos seus
pontos de vista.
Um exemplo, uma palavra fraterna e despre-
tensiosa de quem tem vivência ou de quem já dominou
certos instintos, vale mais que todos os livros e todos
os discursos.
Abrir uma alma é como desabrochar uma flor.
A mãe natureza é sábia e trabalha em silêncio, e nin-
guém poderia acompanhar o mistério do desabrochar
de uma flor, tão lento e silencioso é esse processo.
Assim também só a paciência, a tolerância e o
amor desinteressado ajudarão uma alma a desabrochar
para embelezar e perfumar a sua própria existência.
Assiste todos, irmão amigo, com amor e paciên-
cia. Emprega a tolerância e a bondade para ajudar e
nunca desistas quando a luta for difícil.
174
Levanta-te e anda.
Apóia-te na tua vivência de milênios e ajuda
a desabrochar as flores cujos botões secam e murcham
sem sequer entreabrirem.
Apóia-te nessa certeza de que o Pai está sempre
presente e trabalha no jardim do paraíso, adubando,
removendo pedras, regando e assistindo amorosamente
ao desenvolvimento das plantas, e o desabrochar das
flores coroarão ainda a tua existência terrena.
Paz e amor.
175
CADA UM É O QUE É
LEVAR A VIDA MUITO A SÉRIO, DESEJOSO DE QUE TODOS
caminhem pelo ritmo de teus próprios passos, não ad-
mitindo que outros viajantes façam de sua caminhada
aquilo que desejam, é perder-se num labirinto de in-
quietações e torturas.
Ao contrário, levar a vida a sério é justa-
mente viver em harmonia com todos, aceitando cada
um como é e conservando o bom humor em todas as
situações. Isso é levar a vida a sério, porque é interpre-
tá-la em seu verdadeiro sentido.
Ninguém pode fazer um molde para si e desejar
que todos se vistam por ele, pois os corpos físicos são
diferentes, assim como as mentalidades e o grau espi-
ritual de cada um.
176
Levanta-te e anda..
Vivamos nós o melhor que pudermos, no
molde que traçamos, nos aprimorando todos os dias,
dando sempre um toque de beleza e graça em nossa
indumentária interior, e assim estaremos servindo de
modelo para outros que, embora sendo diferentes, têm
como nós o desejo de se aprimorar, ainda que alguns
não se tenham apercebido disso.
Se cada um cumprir o seu dever amorosa-
mente, não interceptando o caminho do outro, não di-
tando normas de conduta nem se exasperando, porque
não correspondem os demais às suas expectativas ou aos
seus pontos de vista, certamente seremos sempre bem
recebidos, com atenção e carinho, no local em que pe-
netrarmos, pois não desejamos obrigar ninguém a aceitar
o nosso prato favorito. Com paciência faremos mais pela
humanidade do que com intolerância e intransigência.
As normas de conduta variam muito, de
acordo com o nível educacional, mental e espiritual.
Sejam nossos amigos, filhos, parentes próximos, não
temos o direito de deturpar-lhes o modo de ser. E se
formos bons psicólogos e soubermos aproveitar as opor-
tunidades que surgem, faremos como o escultor que,
177
Cenyra Pinto
com um simples toque dos dedos, aprimora e embeleza
a sua estátua. No entanto, não lhe tira nunca a forma
original.
Cada um trouxe uma mensagem. Deixa que
essa mensagem chegue ao seu destino sem interfe-
rência. Cada um deve lutar para conquistar a posição
a que faz jus.
A imposição e a austeridade afrouxam o caráter,
tirando-lhe a sua característica própria. Sê, pois, cons-
ciente. Não perturbes a caminhada dos teus irmãos, im-
pondo-lhes que caminhem pelo ritmo de tuas passadas.
Não leves a vida a sério assim nesse sentido. Leva-na a
sério interpretando-a e vivendo-a tal qual ela é. Assim,
colaborarás mais eficientemente na obra universal.
178
A PROVA DE RESISTÊNCIA
NÃO HÁ MAIOR PROVA DE RESISTÊNCIA QUE A PERSEVE-
rança, apesar das circunstâncias desfavoráveis.
Aquele que tem um ideal e que, ao se dirigir ao
objeto de sua conquista, é detido no caminho, assal-
tado, desprezado, injuriado e se, em vez de retroceder,
enfrenta todas as situações usando a lei da não-resis-
tência ao mal, prosseguindo, cada vez mais convicto
de que o seu ideal merece todas as lutas, todos os sa-
crifícios, mostra que é possuidor de uma fibra de aço e
que a sua têmpera é à prova de fogo.
Todas as pedras do caminho, os precipícios, as
tentações, enfim, tudo o que se anteponha à realização
do seu ideal é a prova cabal de que ele é nobre e tem
real valor.
179
Cenyra Pinto
As coisas fúteis, passageiras, em geral, são de
fácil conquista, porque os caracteres que as engen-
dram são maleáveis e não relutam em transigir, con-
tanto que lhes venha às mãos aquilo que o seu desejo
ainda primário exige para seu gozo terreno.
Mas o ideal, o anelo, é de alto preço e, para
obtê-lo, para realizá-lo, é necessário lutar e nos de-
frontarmos com aqueles que estão incumbidos de nos
distrair, confundir ou impedir a caminhada.
Na Terra, há seres que desvirtuam o que é
nobre, menosprezam o que tem valor e, não raro, bus-
cam, no fundo da criatura, aquelas armas de guerra
que correspondam às que eles usam. E aquele que se
dirige ao seu destino, ao destino do seu ideal, muitas
vezes têm de reconhecer, para surpresa sua, que ainda
guardava no quartel general de sua personalidade tais
armas mortíferas e destruidoras. Então a sua luta tem
de se virar para dentro de si mesmo e desencadear
uma verdadeira guerra interna.
Reconhecer que guardava instintos selva-
gens e procurar não utilizá-los sem que estejam do-
mados e civilizados para mais adiante sublimá-los,
180
Levanta-te e anda.
eis a trajetória do ser humano, ao seu calvário, à
sua redenção.
Da crucificação haverá a ressurreição, depois
do que o homem atingirá o seu ideal divino e se con-
fundirá no eterno. É essa a sua prova de resistência.
181
"NÃO ATIREM PÉROLAS
AOS PORCOS"
COMO SERIA POSSÍVEL CONVENCER ALGUÉM DAQUILO QUE
ele não quer se convencer? Quais as provas que se
poderia apresentar a quem de antemão se recusasse a
aceitá-las como verídicas?
Realmente não se pode forçar ninguém a acre-
ditar em coisa alguma. O tempo é o único mestre... o
grande mestre. Dentro dele estão as provas espontâ-
neas e apropriadas a cada um.
A verdade sempre está reconhecida, mas con-
venhamos que ela se apresenta sob vários aspectos, de
acordo com a capacidade de cada um para reconhe-
cê-la. Ela usa roupagens diferentes, pois a concepção
de cada um varia muito.
182
Levanta-te e anda.
Não se força, pois, alguém a aceitar qualquer es-
pécie de ensinamento de ordem espiritual. Tudo vem a
seu tempo. Tenhamos paciência e jamais nos deixemos
impregnar pela irritação, decepção ou outro sentimento
negativo, quando alguém recusar a aceitar ou mesmo
a dar atenção àquilo que para nós tem tanto valor.
Deixemos de falar vagamente de coisas dife-
rentes daquelas que aquele que nos ouve sabe ouvir e
entender. Apenas não usemos a linguagem vulgar, em
hipótese alguma, nem desçamos a pilhérias pesadas
para satisfazer o apetite dos glutões de pratos in-
digestos. Sejamos apenas nós mesmos, despretensio-
samente nós. Simples, seguros, dignos, sóbrios, mas,
sobretudo, bem-humorados.
O bom humor está não somente no olhar, no
sorriso, no aperto de mão, na cordialidade amistosa,
mas também na palavra como no silêncio, quando a
criatura já o traz em si.
Finalmente, procuremos não externar nossos
planos secretos, nossos pontos de vista com qualquer
pessoa. Tenhamos cuidado com a palavra, assim como
com o silêncio.
183
Cenyra Pinto
Isso é importante, pois, muitas vezes, o silêncio
que é considerado de ouro pode esconder propósitos
intencionais e venenosos. Quando desejarmos espraiar
nossas idéias, procuremos alguém que como nós tam-
bém partilhe dos mesmos ideais e deseje, como nós, su-
bir mais um degrau na escala espiritual. "Não atirem
15
pérolas aos porcos."
15. M a t e u s , 7: 6.(N.E.)
184
APRENDER SEMPRE
APRENDER NÃO É JÁ SER PROFESSOR. QUEM ESTÁ APREN-
dendo está sujeito a errar muitas vezes. Não há desdouro
em errar. E necessário, todavia, que se reconheça o erro,
sem o que se tornará difícil e moroso o aprendizado.
Também o professor não é infalível. Muitas
vezes terá de recorrer aos compêndios e buscar novos
conhecimentos, ou mesmo uma explicação que lhe
escapa, algo que ele deverá transmitir aos alunos.
A humildade de se sentir capaz de errar faz do
analfabeto um sábio. Essa é a sabedoria: saber que ainda
falta aprender muita coisa e não se envaidecer porque
conseguiu algo que a sua memória foi capaz de reter.
Não é propriamente a memória o mais impor-
tante na evolução. A memória retém com maior ou
menor facilidade aquilo que viu, leu ou ouviu. Mas a
185
Cenyra Pinto
que nos interessa nesse momento é a memória sensitiva.
Sentir é alcançar o valor de cada coisa e saber usá-lo
nos momentos oportunos, de acordo com a necessidade
e o entendimento daqueles a quem nos dirigimos.
Há quem aprenda e saiba muito, por isso se co-
loca tão alto, tão acima do nível comum dos homens,
mas que nada oferece senão vaidade e presunção.
Esse é o saber do ignorante espiritual, do que
não calcula nem de leve a grandeza e a beleza da sabe-
doria universal, esparsa pelos mundos e ao alcance de
todos, principalmente das almas simples, aquelas que
já entendem a lição da vida.
Aprende-se a cada passo com qualquer cria-
tura, com a natureza, com a própria vida. Tudo é lição
para o discípulo atento. Recorrer, quando necessário,
aos que já passaram e deixaram rastros de luz, não se
constranger de fazer perguntas e transmitir também
seus conhecimentos é o intercâmbio a que ninguém
deve se recusar.
Permanecer no erro, depois de conhecer a lei,
é estar acorrentado a punições amargas pelas conse-
qüências que teus erros espalharem.
186
Levanta-te e anda...
A escola da vida é para todos os peregrinos
que aportam a esse grande porto e se incorporam à
legião de aprendizes recalcitrantes.
Se queres, irmão, ser mestre, aprende a ser
aluno. Só obedecendo poderás, um dia, ser obedecido.
Obedecer a voz da própria consciência, entender e
aplicar tudo o que essa voz superior ditar é se pre-
parar para fazer parte do quadro de instrutores, em
dias vindouros.
Procura apurar teus sentidos para não de-
turpar as lições que eles deverão captar em todas as
direções, até poderem canalizá-las e distribuí-las pelos
meios adequados, em cada setor de trabalho e para
cada consciência.
Entender, pois, é dar e receber a cada instante,
sem constrangimento por precisar pedir ou quando
for solicitado a dar. Aprender sempre, pois a isso se
destina a humanidade.
187
SEJAMOS COMPREENSIVOS
N O S S O MAL, NOSSO GRANDE MAL, É N Ã O PERMITIRMOS
que as criaturas sejam sinceras conosco. Apreciamos
a lisonja, adoramos ser enaltecidos, embora saibamos
que, na maioria das vezes, essa adulação é a máscara
da ironia, da censura, da zombaria.
Se alguém mais experiente do que nós nos
adverte da nossa cegueira, revoltamo-nos e tacha-
mos essa criatura, que nos vem auxiliar, de despei-
tada e invejosa, quando deveríamos agradecer-lhe o
benefício.
Se algumas vezes a censura, a crítica ostensiva,
é perversa e esconde propósitos inconfessáveis, ela não
nos atingirá; como donos de nosso autodomínio, te-
remos confiança em nós mesmos, em nosso trabalho e
188
Levanta-te e anda..
no poder de trabalharmos para o bem, no nosso modo
de agir. Só nos revoltamos com as censuras quando
ainda estamos perdidos no mundo das paixões.
Devemos fugir de estarmos sempre prevenidos,
como quem receia uma cilada ou inimigo oculto, que
poderá surgir das sombras da noite...
Procuremos estabelecer uma linha divisória
entre a luz e as trevas, entre o bem e o mal, entre o céu
e o inferno. Um começa quando o outro termina.
Mais adiante perceberemos que tudo é uma só
coisa e que todos somos um. Enquanto palmilharmos
a estrada da vida, muitas coisas nos sucederão.
Não culpemos ninguém pelos fatos desagra-
dáveis que nos sucedem, pois, quando algo de bom
nos acontece, raramente o atribuímos a outrem: ao
contrário, sempre nos consideramos os donos exclu-
sivos de nosso sucesso.
A vida é uma sucessão de acontecimentos vá-
rios. Preparemo-nos para poder ouvir os elogios sem
vaidade e reprimendas, os conselhos ou meras opiniões
sem ressentimentos, aproveitando o que nos convier
e deixando passar o que não nos servir.
189
Cenyra Pinto
Assim criaremos uma atmosfera simpática, for-
mando amigos sinceros, ao invés de bajuladores fingidos.
Devemos igualmente usar da mesma lealdade com os
nossos irmãos, companheiros de jornada terrena,
dando-lhes o que de melhor e mais puro tivermos
em nosso coração.
Compreendamos que a paz e a felicidade são
reflexos do amor que emitimos aos outros. E assim
criaremos ao nosso redor um núcleo, formado pelos
nossos melhores pensamentos e sentimentos, que nos
prestará os mais relevantes serviços e nos ajudará a
deixar algo de bom à posteridade.
190
DESÂNIMO
NÃO PERMITAS QUE O DESÂNIMO SE APODERE DE TI. JAMAIS.
Reage. Luta com todas as forças, mas não te entregues
a esse inimigo que, qual vampiro, suga as energias e
reduz suas vítimas a um farrapo de gente.
Lembra-te de que o trabalho do príncipe das
trevas é este: atrair para baixo. Mas, pensa, também,
que dentro de ti há um Senhor que só espera o teu
chamado, para enviar o socorro imediato, por mais
terrível que seja a situação em que te encontres.
O desânimo, meu irmão, é amigo da descren-
ça. Mostra-lhe a cruz da fé, e ele fugirá espavorido.
Sempre o precede uma comitiva de seus comparsas.
Trazem material convincente para desiludir as almas
incautas. Mostram quadros desoladores, perfídias
191
Cenyra Pinto
cruéis, chagas profundas, que nos fazem duvidar de
Deus e das criaturas.
Só o desânimo tem poder perante as almas
sem fé, aquelas que se distanciaram do Pai.
Não te entregues! Não te deixes arrastar para
o caminho da destruição.
A criatura é feita à imagem do seu Criador. E,
como tal, traz em si poderes em potencial, que jazem
adormecidos no fundo do seu eu. Nenhum sentimento
negativo deve permanecer em nós. Para isso, necessi-
tamos ficar alertas.
O desânimo penetra em porta sem vigilante.
Uma vez dentro, recusa-se a sair. É preciso que não
o deixes entrar! Ele traz mensagens de destruição e
morte! Não lhe dê ouvidos, irmão amigo.
A taça de fel que todos fatalmente teremos
de sorver tem o propósito de nos preparar o paladar;
no caso, apreciarmos devidamente a taça do mel, que
a sucederá.
Levanta-te! Luta! Mas não desanimes, não
deixes impregnar o ambiente do teu lar com o odor
venenoso e contagiante desse terrível tóxico.
192
Levanta-te e anda..
Es senhor, e não escravo. Quebra agora mesmo
as algemas. Atira-as longe. Ergue bem alto a tua ban-
deira de fé e lança o grito de libertação; o eco de tua
voz repercutindo em todos os recantos despertará e
concitará outras almas prestes a sucumbir, e outras
vozes também se erguerão; o desânimo perderá o seu
domínio e a alegria verdadeira, baseada na esperança
e na fé, voltará a morar contigo para sempre.
193
PROCURA COMPREENDER
"Toda pedra que um homem, com rancor,
atira, fere-lhe os próprios pés na estrada."
C. G. URUTIGARAY
E TU SOLUÇAS, BLASFEMAS E TE ARRENEGAS DA VIDA! POR
quê? Já indagaste de onde provém a tua desdita? Já
examinaste o recôndito do teu eu? Já puseste à tua
frente o teu passado, com teus atos, pensamentos, pa-
lavras? Já pensaste também que, sendo espírito imortal,
já viveste outras vidas e que esta tua vida atual é uma
seqüência de outras vidas?
Se tens de reclamar da sorte, não é a Deus que
deves dirigir tuas reclamações, e sim a ti mesmo. Deus
não castiga e não premia, porque Ele é amor e justiça.
É essa a Sua lei.
194
Levanta-te e anda.
Nós fazemos hoje o nosso amanhã, e o nosso
hoje nós o preparamos ontem. Somos o arquiteto do
nosso destino, uma vez que nos foi concedido o livre -
arbítrio.
Transmuta, pois, a tua revolta em compreen-
são. Vê que ainda sofres pouco, comparado com o que
já fizeste e fazes outros sofrerem.
Muitas vezes nos julgamos com muita indul-
gência. Sentimo-nos em paz com a nossa consciência
só porque não matamos, não roubamos, nem comete-
mos atos indignos perante a justiça da Terra. Todavia,
por palavras, por olhares e pensamentos, cometemos
crimes hediondos que de nós mesmos queremos
ocultar. Mas teremos de prestar contas. A justiça di-
vina a tudo assiste.
Eis, pois, a razão do nosso sofrimento. São
situações criadas por nós, sem que muitas vezes nos
detenhamos para analisá-las. Chegado o momento do
ajuste de contas, revoltamo-nos e maldizemos a sorte.
Procuremos ser honestos e reconheçamos que
não é Deus que nos está castigando, mas estamos co-
lhendo o que semeamos. E façamos um apelo ao Mestre
195
Cenyra Pinto
Supremo para que aprendamos essa grande lição da vida:
"Quem semeia vento, colhe tempestade."
Tenhamos paciência no sofrimento e que Deus
nos ajude a corrigir as nossas falhas, para que o nosso
amanhã seja radioso e possamos, em dias vindouros,
compreender melhor a vida.
196
"Eu sou o CAMINHO"
HÁ MUITOS CAMINHOS À NOSSA FRENTE. QUAL DELES
devemos trilhar? Um nos convida pela beleza da
vegetação, pelo perfume que se exala das suas flo-
res coloridas. Outro, com regatos mansos e arbustos
verdejantes, onde os pássaros canoros gorjeiam amo-
rosamente. Outro ainda nos oferece a planície infinda
e, ao longe, como se o horizonte fosse o fim, o repouso,
a tranqüilidade. E outros e outros, cada qual com seus
atrativos naturais e encantadores.
Nossa mente se extasia e leva ao nosso coração
essas miragens magníficas, e o coração se enternece
e os olhos choram. Tanta beleza à nossa disposição!
Tanta coisa sublime, encantadora, e nós, quantas vezes,
choramos porque nossas posses não nos permitem
assistir a espetáculos de diversões mundanas!
197
Cenyra Pinto
Pois bem, irmão! Deixei-te, de propósito, nessa
expectativa do caminho a escolher e te levei ao mundo
das coisas fictícias para te mostrar o caminho, ou seja,
aquele pelo qual qualquer ser menos previdente pode
enveredar, ainda que à tua frente estejam todos os lagos
serenos, todas as flores perfumadas, todas as montanhas,
todas as belezas naturais, o que seria o suficiente para
qualquer alma sentir-se feliz ao poder desfrutá-las.
Tudo está à disposição de todos; à frente de
todos; as criaturas ainda são como borboletas: não
se satisfazem em percorrer um caminho que as leve a
um fim determinado. Querem adejar, ora aqui, ora ali,
sempre ávidas de novidades que supram a sua falta de
acuidade para avaliar o que realmente vale a pena
ser apreciado.
Almas desse calibre vivem aí, aos milhões,
tontas, esvoaçantes, cheias de complexos, a se tortura-
rem intimamente por não poderem encontrar a vereda
que as liberte de suas deficiências. E põem-se de braços
cruzados à espera de que o milagre se faça. E se admiram
de que outras pessoas sejam felizes com o pouco de que
dispõem e as invejam e as caluniam e as perseguem.
198
Levanta-te e anda.
Ter muito é saber viver com o que se tem e
sentir-se feliz em qualquer situação e em qualquer am-
biente. Quantos caminhos abertos? Mas na realidade,
só há um caminho...
16
"Eu sou o caminho" ...
17
Tudo mais é miragem, é Maia .
As flores perfumadas simbolizam a essência das
almas puras; o regato manso, a serenidade; os arbustos, a
força viva da natureza que brota mesmo sem que a mão
do homem semeie. E a vontade que deve brotar com
vigor, dentro do ser, para o impulsionar para a frente.
O céu constelado é o convite para que o ho-
mem, contemplando o firmamento, admirando tanta
grandiosidade, deixe o orgulho e a vaidade e procure
brilhar como as estrelas no céu da sua bondade e
amor fraterno.
Enfim, tudo, todos os caminhos são simbólicos,
porque o homem é o ser privilegiado que tem à sua
frente tudo o que o possa fazê-lo feliz. O feio, o mau,
16. J o ã o , 14: 6. (N.E.)
17. A p a r ê n c i a ilusória da diversidade do m u n d o na c o n c e p ç ã o hinduísta.
(N.E.)
199
Cenyra Pinto
o odor desagradável são produtos das paixões e vícios
que pululam no nosso ambiente.
Transmutemos, com vontade firme, tudo que
seja contrário à evolução, em dons imperecíveis, e
o caminho se apresentará iluminado dentro de nós,
e poderemos dizer como disse o Mestre: "Eu sou o
caminho"...
200
FÉ
"A ESPERANÇA É INCENTIVO; A FÉ É LUZ; O AMOR É VIDA."
Crer é ter fé. Ter fé é apoiar-se, com segurança e con-
fiança, em uma força superior, certo de que não tom-
bará nunca!
Essa força que se manifesta em nós e que cresce
com o nosso desejo de crescer é a fonte da coragem,
da paciência; é a chave que abre a porta da perseve-
rança; é a luz que clareia a nossa estrada; é o cajado
que nos ampara; é a bússola que nos dirige, porque só
ela, tão pequena no seu formato e tão grandiosa no
seu significado, nos levará até o infinito.
Almas sem fé que perambulam pelos mundos!
Eu as lamento... E se me for concedido algo que mereça
dos mestres, rogo que a luz se faça nessas almas, que
elas despertem e se tornem receptivas, a fim de que,
201
Cenyra Pinto
banhadas dessa grandiosa força, possam, um dia, libertas
do pessimismo avassalador, da descrença dolorosa, do
egoísmo corrosivo, saturadas de fé, caminhar livres e
felizes em direção à verdadeira pátria celestial.
202
CORAGEM
CORAGEM DEVE SER O TEU LEMA. CORAGEM DE ENFRENTAR
as situações criadas por ti mesmo. Coragem de colher
o fruto cuja semente semeaste.
Coragem, enfim, de reagir e prosseguir na luta,
embora tudo pareça tombado e destroçado.
A vida é a mestra que, de quando em quando,
convida-nos a enfrentar uma banca examinadora, para
que nos vejamos e encontremos no fundo de nosso ser
o Eu divino - que pouco tem se expressado por nosso
intermédio - tal o vozerio louco do nosso eu inferior.
Muitas lágrimas, muita tristeza sentimos quando
percebemos que estamos nos arrastando ainda no lo-
daçal das paixões mesquinhas. Por que será que, para
nos vermos realmente, temos de ser arrastados pelas
circunstâncias dolorosas da vida?
203
Cenyra Pinto
Caminhamos felizes, despreocupados, con-
victos de que estamos indo muito bem. De repente,
tudo muda. A vida nos põe à prova e nos leva a situa-
ções que, quando acordamos, sentimos que vivemos
um pesadelo, tal a sensação crucial em que nos acha-
mos. São, realmente, provas inesperadas, situações
surgidas de repente e nós nos portamos como seres
pequeninos, inferiores.
Depois, as conseqüências... as dolorosas conse-
qüências... Quanto daríamos para retroceder e fazer tudo
de novo, consertando ou evitando o erro cometido?!
Só a coragem nos poderá salvar de um desmo-
ronamento total. A coragem de não nos acovardarmos
e de reconhecermos que realmente cometemos uma
falta, mas que, para "os grandes males", há "grandes
remédios".
Surgirá, por certo, uma solução, um modo de
corrigirmos o erro, uma vez que reconhecemos que
erramos e queremos corrigi-lo. "Tudo é possível àquele
que cre .
18. Marcos, 9: 23. (N.E.)
204
Levanta-te e anda..
É importante entregar-se às mãos do Mestre
Jesus, implorar a sua misericórdia para a nossa fraqueza
e ter a certeza de que tudo será resolvido do melhor
modo possível.
Não desanimemos, não nos revoltemos contra
nós mesmos nem contra ninguém. E fundamental ver
em tudo o que nos acontece apenas a lição que a vida
nos oferece, a prova de cada dia, para que, em dias
vindouros, estejamos mais alertas, mais vigilantes e
sobretudo mais obedientes às leis do Pai, que nos quer
tanto e que deseja que nós, aqui na Terra, sejamos
compreensivos, para poder nos libertar do sofrimento
causado pela invigilância.
E um dia não teremos mais medo de quedas,
porque aprenderemos a caminhar corajosamente e nos
conduziremos à altura do nosso Pai, e a vida não terá
mais necessidade de nos pôr em frente a nós mesmos,
de nos pôr à prova.
Coragem, amigo! Não desanimes quando tro-
peçares ou caíres. Tudo é necessário e oportuno.
Aprende sempre e não te envergonhes quando tiveres
de repetir a lição.
205
Cenyra Pinto
Que o Senhor Jesus te aclare a mente. Que o
Pai te acalente e conforte nas duras provas para que,
em breve, estejas dispostos a enfrentar, de pé e com
coragem, o temporal, o vento e a chuva sem revolta,
certos de que "após a tempestade vem a bonança".
206
CAUTELA!
VIANDANTE! DEPARARÁS NO TEU CAMINHO COM MILHÕES
de obstáculos e precipícios. Tu te sentirás atraído pelas
tentações que, em vestes reluzentes, te procurarão
seduzir.
Muitas coisas, belas na aparência, surgirão
diante de teus olhos e tentarão te encantar. Foge caute-
loso de tudo o que brilha demasiado. Seu reflexo poderá
deslumbrar-te e, cego, cederes aos prazeres... Procura o
meio termo, o sóbrio, o real. O homem cauteloso, que
vive em Deus, não se deixará arrastar ao abismo.
Na Terra, tudo é necessário! Tanto o belo
como o feio têm o seu lugar. O bom e o mau têm di-
reito a um lugar ao Sol. Tudo tem sua razão de ser,
para que a comparação seja feita e a lição aprendida
e aproveitada.
207
Cenyra Pinto
O homem fátuo, vão e tolo deixa-se arrastar
nas asas das seduções terrenas; mas aquele que está
atento, olha, examina, medita e sabe como se libertar
delas. Aquele que já alcançou o domínio dos sentidos
é um vitorioso. Já chegou ao clímax. Já se superou.
208
NAO CRIES FANTASMAS
"QUANDO TE SENTIRES FRACO, DESAMPARADO E SÓ, CLAMA
pelo teu Pastor". Para que te atormentares com pres-
ságios fúnebres? Para que procurares a tortura com
tuas próprias mãos? E por que tanto pessimismo?
Vê que a maioria dos sofrimentos que antes
aguardavas ficaram na tua imaginação, não se con-
cretizaram. Sofreste, augurando o pior que não veio.
Todavia, viveste momentos de ansiedade e desespero
porque tinhas como certo aquilo tudo que profetizavas.
É esse, meu irmão, o inferno, onde os pessi-
mistas, os descrentes de Deus e de si mesmos vivem de-
sorientados. É esse o tenebroso inferno que acompanha
o ser, após a morte, porque ele o criou na sua mente.
Aquele que não tem fé nem confiança em
si, muito menos a tem em Deus. E deixa-se arrastar
209
Cenyra Pinto
nas ondas do pessimismo, e a desorientação é como
uma tempestade que ruge dentro do seu peito, pe-
trificando-o.
Não cries fantasmas. Não procures ferir-te
com tuas próprias mãos. Cria na tua mente um mundo
bom e promissor. Vê em cada criatura um irmão amigo,
e, para cada fato que suceder na tua vida, encara-o
com serenidade e confiança, sabendo que quem fez
as leis não pode errar. Sendo assim, tudo é necessário;
a luz e a treva, a tempestade e a bonança.
Verás que a alegria de viver te abrirá novos ca-
minhos e que tudo de mau que auguraste eram fan-
tasmas criados por ti mesmo.
Olha para dentro de ti e sente a divina pre-
sença dirigindo a tua caminhada, e os espinhos não
te ferirão, pois saberás como tomá-los entre os dedos
para colheres a rosa que te aguarda no alto da roseira.
210
TUDO É NATURAL
NÁO VALORIZES DEMASIADO AS COISAS QUE ACONTECEM
contigo. Sê sóbrio. O meio termo, o caminho do meio,
é o caminho certo. Tudo é natural.
A dor e a alegria são naturais. São estados emo-
cionais, de acordo com a sensibilidade de cada um. Se
dissecares as coisas, pouco encontrarás que seja capaz
de causar pânico ou demasiada alegria. Tudo acontece
naturalmente para fins úteis.
A compreensão humana fantasia ora com
vestes negras, ora berrantes, espalhafatosas, conforme
o acontecido.
Conhecer o caráter das coisas, perscrutar-lhes
o interior, é trabalho do homem que já descobriu a
razão de ser da vida. Não se limitar aos fatos em si, e
211
Cenyra Pinto
sim descobrir-lhes a origem, e só ela deve ser encarada
e levada em consideração.
Só se vem ao planeta Terra para esse fim: tra-
balhar. Mas o trabalho que o homem conhece é o que
dá o sustento para o corpo físico. Sem dúvida, esse
trabalho é o único talvez que o homem comum possa
executar. Mas é justamente na rotina, nas lutas pela
vida, nesse trabalho do pão de cada dia, que se oculta
o seu sentido espiritual.
Não há necessidade de algo especial, dife-
rente, para o homem evoluir no plano espiritual. Não
se faz necessário embrenhar-se nas matas, recolher-se
a mosteiros ou levar vida de asceta.
O importante é ser como a salamandra - entrar,
viver no fogo e não se queimar. É em cada ato, em cada
situação, boa ou má, que está oculta a chave que nos
abrirá a porta do nosso santuário interno, onde reina
o nosso Cristo. E no meio da luta que se encontram
os bravos, os valentes, os heróis.
Não procures situações à parte da vida terrena
para alcançares a meta. Vive tua vida, essa vida que
Deus te deu, procurando no desenrolar dos fatos,
212
Levanta-te e anda.
contigo e a teu lado, o fio da meada, a causa que produz
os efeitos, e estarás realmente desenvolvendo a tua
capacidade em todos os planos.
Portanto, sê sóbrio, equilibrado e não fantasies
a vida, não deturpes essa oportunidade magnífica que
a Terra, mãe amantíssima, te oferece.
213
ACEITAÇÃO CONSCIENTE
PARA QUE NOS APOSSEMOS DE TODO MATERIAL COM O QUAL
teremos que trabalhar em cada período da nossa evo-
lução, temos de estar em atitude de alerta para não
recusarmos nenhuma espécie de material que nos vier
às mãos, pois nos trazem apenas aquilo que nos cabe,
aquilo que nos comprometemos a realizar.
Não reconhecemos muitas vezes e nos rebe-
lamos quando vêm, até nós, material cujo aspecto nos
repugna, nos constrange, nos entristece. Mas não nos
esqueçamos de que nada vem com destino errado.
Tudo vem a seu dono, e o dever do dono é reconhe-
cer a sua própria bagagem.
Não é, absolutamente, aconselhável distri-
buirmos com os demais o trabalho que nos compete
realizar. Sem embargo poderemos, se nos foi confiada a
214
Levanta-te e anda.
atividade de distribuidores de atribuições, preparar cada
invólucro de acordo com a capacidade e a aceitação de
nossos companheiros de luta, distribuir atividades vá-
rias, quando essa for a nossa missão. Mas não estaremos
trabalhando no nosso ofício quando estivermos prepa-
rando equipes de trabalho e distribuindo serviços?
Nesse caso, é o material de atividade de cada
um que deve ser encarado como aquele que compete
a cada um e nunca rejeitado como não condizendo
com a nossa apreciação.
"Que se pode entender por material de traba-
lho?", perguntarão. Material de trabalho são as circuns-
tâncias da vida, com seus prós e contras, com suas
situações, com tudo, enfim, que entrar na nossa vida.
Não recusar ou não renegar isso significa entender a
vida e ver, em tudo o que nos acontece, o material
com que temos de trabalhar para a nossa evolução.
São situações cruéis ou alegres, que devem
ser vividas sem revolta e sem euforia. Entender que
cada situação traz em si uma lição ou um material
que precisa ser trabalhado para entrar no plano do
equilíbrio.
215
Cenyra Pinto
Assim, amigo, advirto-te que aceites sem re-
volta tudo o que vier até ti e que, antes de tomares ati-
tudes de represália contra aqueles que trazem a ti tais
situações, deves meditar muito e só depois agir, dentro
de um plano de serenidade, de aceitação consciente.
Paz e luz.
216
PESQUISANDO EM SILÊNCIO
EU ERA UM OBSERVADOR ASSÍDUO DE T U D O O QUE C O N -
cernia às atividades terrenas. Não perdia ocasião de pe-
netrar em qualquer situação emaranhada para verificar
onde começava e em que se prendia o fio inicial.
Meus companheiros, conhecedores desse meu
tipo de trabalho, apiedavam-se do que eles chamavam
de mania, tolice ou, por que não dizer, começo de
loucura.
Eu não me ofendia com essas insinuações, mas
passei a ser mais reservado: já não comentava, nem
expandia as minhas idéias e silenciava quanto às
minhas descobertas. Compreendi que não era opor-
tuno esse gênero de conversa e passei a adotar ati-
tudes convencionais, como o ambiente exigia. Todavia,
jamais perdi uma ocasião de perseverar nas linhas de
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Cenyra Pinto
investigações. A princípio, tomei esse gênero de es-
tudo como passatempo; depois, com mais interesse e
finalmente por convicção.
As grandes realizações na vida são produto
de investigações, pesquisas, análises e tenacidade. Os
grandes descobridores, os gênios e os santos são o re-
sultado de séculos de evolução por meio de estudos e
trabalhos incessantes. Cada um de nós tem concorri-
do com uma parcela de trabalho para que esses seres
pudessem realizar a sua obra.
No anonimato, no silêncio, na obscuridade,
trabalhamos mais eficientemente. Não necessitamos
gritar ao mundo que nós vivemos; basta que a nossa
presença o ateste. Vivemos sim, e viveremos por meio
da obra que executamos no passado e as que plane-
jarmos para o futuro.
Por que eu pesquisei no recesso das coisas apa-
gadas e quase sem vida? Por que eu fui atrás do fio que
transcende, deixando os fios que estão visíveis? Porque
eu quis entrar na consciência cósmica, nela viver e ser
parte dela, conscientemente. As coisas superficiais são
sem substância, sem resistência e sem profundidade?
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Levanta-te e anda..
Para que não te suceda o que sucedeu comigo,
para que não menosprezem teus planos e tentem obs-
truir o teu caminho, pesquisa em silêncio. Não faças
alarde, nem te demonstres empolgados, nem exteriorizes
o teu intento. Não por egoísmo; não por maldade, mas
por necessidade, por dever.
E assim, podes legar à posteridade o produto
de tuas pesquisas, de teu aproveitamento nesse imenso
laboratório que é a Terra.
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TRABALHO
POR CERTO, AQUELES QUE JÁ PUSERAM "O PÉ NO CAMINHO"
não desconhecem o verdadeiro sentido da palavra
trabalho. Quão velha e quão nova, se a analisarmos
no seu real valor. Quem não trabalha?!
Embora nem todos tenham o mesmo ofício,
uns sejam ricos, outros pobres, uns ativos, outros ina-
tivos, uns adormecidos, outros despertos, todos tra-
balham. Se para uns não é trabalho o mister pesado,
para outros, o simples gesto de levar a comida à boca
já é trabalho.
Por isso dizemos que a palavra trabalho é velha
como as montanhas e ao mesmo tempo nova, como
um infante, para aqueles que só superficialmente co-
meçam a sentir-lhe o significado exato.
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Levanta-te e anda..
Quando a mente começa a dissipar as nuvens
que lhe obscurecem a visualização, ela não tem outro
panorama ante seus olhos senão trabalho. E se analisar-
mos ainda mais a fundo, veremos que aquilo que ignorá-
vamos, aquilo que até então era vulgar para nós, cresce,
avoluma-se e toma feição nova.
Os vocábulos simples e corriqueiros passam a
ser compreendidos de outro modo. Aquilo que parecia
simples coincidência, simples acidente comum a todas
as criaturas, passamos a ver como efeito de certa causa.
E assim vamos, de degrau em degrau, galgando
essa imensa escada, toda feita de luta, renúncia, per-
dão, sacrifício e tolerância.
Vemos, então, que trabalhar não é ser rotineiro,
não é ser máquina, mas sim pôr a alma em movimento.
É viver e manter-se em equilíbrio, embora o lugar que
pisamos seja falso e vacilante.
O que importa não é onde estamos e sim o que
estamos fazendo. Estamos sempre no lugar em que se
faz necessária nossa presença, porque nosso ambiente
não é preparado por mão inexperiente, mas sim por
aquele que sabe o que faz.
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Cenyra Pinto
Aproveitemos o momento que passa e não es-
peremos nunca o "daqui a pouco", que poderá não vir.
Mãos à obra. Trabalha e vencerás.
Trabalha e tudo te será facultado.
Trabalha e não temas o amanhã, pois só no tra-
balho se encontra a paz e a alegria de viver.
Trabalhar é orar e vigiar para não cair na prova.
Ao terminar a leitura deste livro, talvez você tenha ficado com algumas dúvidas e per-
guntas a fazer, o que é um bom sinal. Sinal de que está em busca de explicações para a
vida. Todas as respostas que você precisa estão nas Obras Básicas de Allan Kardec.
Se você gostou deste livro, o que acha de fazer com que outras pessoas venham a
conhecê-lo também? Poderia comentá-lo com aquelas do seu relacionamento, dar
de presente a alguém que talvez esteja precisando ou até mesmo emprestar àquele
que não tem condições de comprá-lo. O importante é a divulgação da boa leitura,
principalmente a da literatura espírita. Entre nessa corrente!
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