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Introdução
O teatro de sombras, uma arte milenar do oriente que encantou encenadores do
ocidente, ainda é raramente praticado em nosso país. É uma linguagem que integra o
campo do teatro de animação, onde também estão inseridos o teatro de marionetes,
bonecos, objetos e máscaras. Através de uma tela branca onde um foco de luz se acende e
sombras de silhuetas de figuras humanas, animais, ou objetos, recortadas em papel, são
projetadas em conjunto, ou isoladamente nos remetendo a um mundo particular, poético e
mágico de histórias, do faz de conta.
Focaremos neste projeto conceitos relacionados a história deste tipo de teatro, em
diversos países, abordando as técnicas desenvolvidas no passado por povos mais antigos,
bem como as técnicas praticadas atualmente. Através de uma pesquisa teórica da área
educacional verificamos os benefícios comprovados por educadores, que possuem
experiências de encenação e produção de teatro de sombras com os educandos.
Descreveremos as experiências práticas com vários tipos e formas deste teatro, realizadas
por nosso grupo, na sala de aula.
Procuramos através deste projeto averiguar qual seria o envolvimento e as reações
dos educandos ao entrarem em contato com os diversos tipos e formas da linguagem do
teatro de sombras, para responder à questão: o teatro de sombras, seria uma boa ferramenta
para trabalhar em sala de aula e promover conhecimento?
Pretendemos com a realização deste projeto, divulgar essa modalidade teatral e
explorar com ela possibilidades de aguçar a imaginação, estimular o gosto pela leitura,
melhorar a comunicação e a compreensão do outro.
Este projeto nasceu da intenção de levar para a sala de aula, atividades
experimentais com técnicas específicas do teatro de sombras, para estimular processos de
criação, encenação de dramaturgia de outras tradições e culturas. Acreditamos que as
atividades propostas servirão de estímulos aos educandos no que se refere ao
desenvolvimento da coordenação motora, do raciocínio, da percepção do olhar, da
memória, da criatividade, da noção de espaços e da análise crítica dos alunos quanto às
suas produções.
Acreditamos que qualquer linguagem teatral tem a capacidade de envolver os
alunos em um processo de criação, socialização e cooperação em grupo. Esperamos que o
teatro de sombras por ser pouco conhecido pelos profissionais da educação e por
estudantes do Ensino Fundamental e Médio, venha despertar curiosidade e estimulo ao seu
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conhecimento. E que a diversidade dos recursos que o teatro de sombras utiliza, possibilite
o seu emprego em outras disciplinas do conhecimento, trabalhando conjuntamente.
1 HISTÓRICO GERAL

O teatro de sombras é um gênero teatral de origem muito antiga. Segundo a autora


Idalina Ladeira (1993) desde o período da Pré-História os homens se encantavam
com suas sombras movendo-se nas paredes das cavernas. Nessa época, as mães
teriam desenvolvido o teatro de dedos, projetando com as mãos, sombras diversas
para distrair seus filhos.
Para Marcello Santos1 estudioso do gênero, o teatro de sombras como manifestação
artística é muito popular em todo o continente Asiático. Já para Max Von Bohen
(Beltrame, 2005, p 41) tudo começou na China, enquanto para Meher Contractor
(Beltrame, 2005, p 41) os primórdios das manifestações do teatro de sombras surge na
Índia. Ambos os historiadores apresentam em suas pesquisas registros de antigas silhuetas
datadas de 2500 e 3000 anos atrás, pertencentes a acervos de museus dos dois países.
Antes de Cristo, tanto na China quanto na Índia, o teatro de sombras era muito
utilizado em rituais religiosos recitando poemas épicos, tocando músicas e articulando
silhuetas feitas em couro, sustentadas por varas de bambu, com iluminação de lamparinas
abastecidas a óleo de peixe e para a tela era utilizado um tecido.
Segundo Margot Berthold (2001), no Egito, (figura 1) o teatro de sombras surgiu
durante o século XII d.C., onde eram representados lendas populares e eventos históricos.
A forma e a técnica desenvolvida no Egito tiveram como inspiração o teatro de sombras do
oriente.

1
SANTOS, Marcello Andrade dos – 22/08/1965 – Santa Rosa – RS - Ator; Iluminador; Compositor e Produtor
Artístico, diretor da Cia. Karagoz K. Estudou teatro de sombras com Jean Pierre Lescot no Instituto Del Teatro
de Sevilha (Espanha) em 1986.
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Figura 1: Egito. Bonecos de teatro de sombras, século XIV a.C.


Segundo a Cia de Teatro Lumbra (RS), no século XII, no ocidente, principalmente na
Itália, alguns padres católicos utilizaram como recursos para a educação religiosa, as
projeções das sombras, fazendo criação de textos e encenações.
Outra pesquisadora Tâmara V. Fielding (Beltrame, 2005, p 41) defende o fato de que o
teatro de sombras era muito popular há mil anos atrás na Ilha de Java, na Indonésia (figura 2)
e seus estudos também mostram a existência dessa linguagem em países como Tailândia,
Taiwan, Grécia e no Norte Africano, principalmente na África Mediterrânea, chegando à
Europa Ocidental somente no século XVIII, diz ainda que entre 1774 e 1859, em Paris existiu
um teatro especializado em teatro de sombras chamado “Sombras Chinesas”.

Figura 2: Mestre Dalang – Ilha de Java - Indonésia

Segundo o pesquisador Valmor Beltrame (2005) as silhuetas eram chamadas na Ilha


de Java, (figura 3) de Wayang, em sua origem eram utilizadas em espetáculos que duravam 49
dias e 49 noites, com o decorrer do tempo reduziram para 7 dias e 7 noites. Atualmente é
comum encontrar performance de até 1 hora. A duração desses espetáculos baseava-se no
volume de livros sagrados da Indonésia “Ramayana” e “Mahahbarata” cujos conteúdos
trazem ensinamentos religiosos e narram aventuras de Deuses, Príncipes e Bravos Guerreiros.
1

Tendo como requisito para manipuladores, o conhecimento da Cultura Oriental para uma
devida interpretação. Com a invasão da China pelos mongóis no século XIII, o teatro de
sombras passou a ser utilizado em caráter não religioso, uma vez que foi levado aos países
islâmicos como Turquia, Síria, Afeganistão por estes invasores. Ainda no século XIII em
Bursa, na Turquia surgiu a forma mais popular do teatro de sombras do mundo árabe, que tem
como caráter a critica social–política e é chamado de teatro de Karagöz realizado em feiras à
noite cujo espetáculo conta com um único manipulador que controlava tudo: bonecos, texto e
sonoplastia.

Figura 3: Teatro de sombras – Java, na Indonésia.

No século XVIII, com o surgimento da luz elétrica os jesuítas inseriram na França o


teatro de sombras e foi considerado um dos protótipos do cinema de animação e serviu como
inspiração para a invenção das máquinas fotográficas e projetores de cinema. Na Europa
temos o conhecimento da existência dos grupos teatrais Le Phospènes (França) dirigido por
Jean Pierre Lescot e Teatro Gioco Vita (Itália) dirigido por Fabrizio Montecchi.
Durante esta pesquisa não encontramos material histórico que revelasse o período
exato em que a linguagem do teatro de sombras foi trazida para o continente americano e
atualmente existem vários grupos do gênero em atividade espalhados por todo o continente
11

americano como, por exemplo: Karagöz K de Curitiba (figura 4) e Cachiporra (Uruguai). E


através de nossa pesquisa descobrimos a Cia. De Teatro Lumbra de Porto Alegre e Cia. Luzes
e Lendas de São Paulo (figura 5)

Figura 4: Marcello Santos – Cia. Karagöz –


Curitiba. Foto: Junho/2007 (Fabiana)

Figura 5: Valter Valverde - Cia. Luzes e Lendas


São Paulo. Foto: Abril/2007 (Fabiana)

Nessa trajetória histórica, o teatro de sombras assumiu diversas vertentes de acordo


com a cultura de cada região em que foi produzido. No Brasil ainda é pouco conhecido ao
comparar-se com a popularidade de outras variedades da linguagem do teatro de animação,
1

mesmo assim vem sendo inserido por diversos grupos teatrais como recurso para
enriquecimento de seus trabalhos.
2 TEATRO DE SOMBRAS ORIENTAL

2.1 Na China

O teatro chinês possui cerca de cinco mil anos de idade. Impérios e dinastias vieram e
se foram durante toda a história da China.
Os primórdios do teatro de sombras de acordo com o cronista Ssu-ma Ch´ien
pertencente à corte do imperador Wu-ti (140-87 a.C.) surgem durante o período de domínio
deste imperador, amante das artes.
Há 2500 e 3000 anos atrás, os chineses baseavam-se em movimentos humanos do
cotidiano para animar seus personagens buscando aproximar-se da realidade através da
semelhança induzindo os espectadores ao convencimento do que viam. Os temas da
dramaturgia do teatro de sombras da China têm como base a vida cotidiana, os
acontecimentos do dia a dia que buscam reforçar valores como amizade, solidariedade,
respeito a autoridade e à natureza. É valorizada principalmente a manipulação das silhuetas
feitas pelo marionetista que busca através da observação do real os movimentos e traços das
figuras representadas (figura 6).
A partir de 1966 com novas tecnologias a estética dos espetáculos foi alterada através
das varas de manipulação trocando as de bambu por acrílico bem como a mudança das formas
de iluminação por lâmpadas fluorescentes.

Figura 6: Mestre manipulando boneco de sombra na China.


1

Para obter um bom resultado, a silhueta permanece bem próxima da tela (figura 7)
para que a fidelidade da imagem seja projetada mais fielmente possível.
O teatro de sombras da China é mais estilizado com movimentos e gesticulações
controladas. Seus figurinos e cores possuem significados próprios, ou seja, utiliza simbologia,
inventividade e não-realismo, se afasta da estética naturalista em que o ator manipulador vai
modulando a voz do narrador.

Figura 7: Crianças observam manipulação.

De acordo com Valmor Beltrame (2005), era encenado por atores que cantavam
durante a apresentação, obedecendo a um só repertório. Era mais comum encontrar apenas um
manipulador-ator, mas também existem companhias formadas por muitos atores-
manipuladores. O manipulador solista também chamado de Mestre porque realizava todas as
funções no teatro de sombras, fazia apresentações itinerantes que iam de cidade em cidade,
para festas. Hoje em dia residem em cada cidade, artistas que circulam por vilas próximas. A
formação do ator-manipulador se dava através de aprendizagem, por tradição, desde criança
aos quatro anos de idade observando o pai ou parente próximo e obedecendo a execução de
rigorosos exercícios de manipulação. O mestre ia apresentando, aos poucos, ao seu aprendiz,
as técnicas de manipulação até que atingisse a maturidade para iniciar seu trabalho
individualmente. Os objetivos do aprendiz a serem conquistados consistiam em: domínio da
1

dramaturgia, confecção das silhuetas e ser exímio manipulador. O aprendiz necessitava de


exercícios físicos diários especificamente para os dedos, pulsos e braços, pois em alguns
espetáculos deveria manipular, simultaneamente e com sincronia para produzir gestos e ações
impressionantes cheias de beleza e veracidade em cenas de combate, silhuetas de guerreiros
montados em cavalos, todos totalmente articulados com diversas varetas e fios.
Com a criação de academias especificas em 1970, aproximadamente, o ensino deixou
de ser restrito no aprendizado por tradição e hoje crianças aprendem na escola as técnicas de
silhuetas com reconhecidos professores.
De acordo com a história contada por Ssu-ma Ch´ien, citada por Margot Berthold
(2001) diz que um homem chamado Shao Wong do estado de T´si em 121 a.C. para mostrar
sua habilidade em se comunicar com fantasmas e espíritos dos mortos, fez a imagem deles,
inclusive da esposa favorita do imperador, chamada Wang, que havia acabado de falecer, e do
deus dos lares aparecessem à noite através de uma cortina.
Na China existe uma lenda conforme (Beltrame , 2005, p 41) que conta o nascimento
do teatro de sombras, revelando aspectos interessantes desta arte de silhuetas:

O Imperador Wu Ti, da dinastia dos Han, teve o desgosto de perder sua dançarina
predileta. Havia vinte anos que ele governava com sabedoria e juízo o Império
Celeste e seu reinado era dos mais gloriosos de todos os tempos. Mas Wu Ti era
muito supersticioso e acreditava na arte de mágicas. Quando certa feita sua
dançarina favorita morreu, ele, desesperado, voltou-se para o mágico da corte,
exigindo que fizesse voltar à linda defunta do “Reino das sombras”. Caso contrário
seria decapitado.
Ameaçado o mágico não perdeu a cabeça... O mago usou sua imaginação e através
de uma pele de peixe, cuidadosamente preparada para torná-la macia e transparente,
recortou a silhueta da dançarina, tão linda e graciosa como ela fora. Numa varanda
do palácio imperial, mandou esticar uma cortina branca em frente a um campo
aberto.
Com o Imperador e a corte reunida na varanda, e à luz do sol que se filtrava através
da cortina, ele fez evoluir à sombra da dançarina, ao som de uma flauta e todos
ficaram alucinados com a semelhança. (Beltrame, 2005, p 41)

Valmor Beltrame comenta que esta lenda remete às reflexões e considerações


relacionadas com o trecho: “recortou a silhueta da dançarina tão linda e graciosa como ela
fora” dizendo que o mágico marionetista procurou chegar à referência da imagem real, da
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forma mais fiel possível. Segundo o autor a impressão é de que não houve qualquer ousadia
que incluísse algum detalhe na reprodução da imagem da dançarina da lenda, pela qual o
imperador era apaixonado. Isso se confirma na lenda quando diz: “fez evoluir a sombra da
dançarina e todos ficaram alucinados com a semelhança” e faz pensar que o teatro de sombras
chinês procurava resgatar os movimentos do cotidiano tentando convencer àqueles que
assistiam ao espetáculo de que a silhueta que estavam vendo, por alguns instantes, era a
sombra da dançarina predileta do imperador. Em comparação com o teatro de sombras da
Índia e Ilha de Java, os chineses exploravam mais as referências do cotidiano principalmente
quando se destaca o teatro contemporâneo da China.
O professor e manipulador Qi Yongheng da província de Habei na China, quando
ministrou um curso na França em 1982 no Instituto Internacional de Marionete, destacou que
o teatro de seu país tem a dramaturgia caracterizada por temas do cotidiano, acontecimentos
do dia a dia que procurava valorizar amizade, solidariedade, respeito à autoridade e à
natureza.

2.2 Na Índia

Segundo a tradição da Índia, Brahma é o criador do universo e da arte do drama. Em


todas as apresentações teatrais, uma cerimônia inicial de benção e purificação que
expressava as ligações do teatro com a religião, antecedia os espetáculos indianos. Um sábio
chamado Bharata escreveu Natyasastra, um manual das artes da dança e do teatro onde estão
escritos detalhadamente a origem e princípios do drama. A partir do primeiro milênio a.C.,
as civilizações indo-pacificas tiveram como herança os livros de Ramayana que relata as
aventuras do príncipe real Rama e sua esposa Sita e Mahahbarata onde estão escritos
conhecimentos de mitologia e moral. Em passagens do Natyasastra são descritas hipóteses
de que uma caverna chamada Sitabenga era usada como casa de espetáculos do teatro hindu.
Um pequeno número de pessoas sentava-se no interior da gruta e o titeriteiro (bonequeiro)
estava do lado de fora projetando seus bonecos recortados em couro. No século X o
“saubhika”, um termo dado ao teatro de sombras, um homem à noite mostrava vários
personagens com a ajuda de uma cortina de pano.
Na Índia, a base da criação é a família do animador principal, suas varias esposas e
filhos. As silhuetas são diferenciadas pelo seu tamanho, sua coloração, simbolismo dos
personagens, o tema e a estética. Em certas regiões a dramaturgia era baseada na mitologia e
1

também em passagens contidas nos livros sagrados Mahahbarata e Ramayana além de serem
muito comuns passagens da vida de Krishna, Arjuna, Rama e Sita.
Meher Contractor (Beltrame, 2005, p 43) referindo-se ao teatro de sombras, diz que:
“essa foi durante muito tempo à única forma de educação popular na Índia e combinava
pensamento religioso e normas sociais privilegiando o triunfo do bem sobre o mal” e diz
também que as passagens religiosas foram substituídas por formas cômicas, tendo como
protagonistas os bufões, e desta forma foram se abrindo espaço para improvisações que
introduziam temas contemporâneos, às vezes até brincadeiras obscenas que provocavam o
riso e estimulavam o interesse do espectador.
A estrutura das apresentações do teatro de sombras da Índia tem duração de nove
noites se prolongando até o amanhecer. No ritual, os manipuladores e músicos que cantam ao
ritmo dos tambores trazem o candeeiro do templo em procissão. O marionetista chefe
(Sutradher) no espetáculo apresenta o tema e os personagens e logo em seguida os atores
manipuladores cantam e falam seus textos iniciando a recitação, a apresentação de efeitos
sonoros e cenas de batalhas impressionantes com flechas voando sobre a cabeça, membros e
cabeças decapitados voando através da cena. Na maioria das vezes a manipulação de dois
personagens em combate é feita somente por um manipulador cujo ritmo é ditado por
batimento com os pés sobre uma prancha de madeira com acompanhamento de instrumentos
da orquestra e músicas com gritos dos músicos e cantores. Os atores manipuladores
pertencem às castas nômades ou Brahmins cuja formação se dá por tradição com o
marionetista mestre revelando aos aprendizes os segredos que vão aos poucos se incorporando
com maturidade para exercer o ofício. O marionetista conhece epopéias religiosas, manipula,
toca instrumentos musicais, canta e recita além de confeccionarem as silhuetas. Uma
orquestra composta por diversos instrumentos característicos de acordo com cada região
acompanha o marionetista. Os indianos utilizam este tipo de teatro para pedir fertilidade da
terra, chuva, cura de doenças, boas colheitas ou usam para cerimônias de casamento ou outros
tipos de festas. Eles seguem calendário religioso que depende da utilização de um templo para
fazer sua realização. É uma manifestação predominantemente originaria das zonas rurais e só
recentemente, nos últimos 40-50 anos vem aparecendo nas zonas urbanas.
Devido à existência de poucas fontes, Margot Berthold levanta uma questão que ainda
não foi respondida: Qual teatro de sombras surgiu primeiro? O da Índia ou o da China? Haja
vista que na índia evidenciou-se a existência de um teatro de sombras na caverna de Sitabenga
(citada anteriormente) e a influência cultural do teatro de sombras que se espalhou através do
extremo oriente. Possivelmente seguiu o avanço do budismo pela Ásia Central ou da Indochina
1

para China. Entretanto o Império Central Chinês afirma que o teatro de sombras é uma
invenção da China defendendo o pioneirismo numa lenda que evoca espíritos sobre a tela de
linho.
Na década de sessenta do século XX, surgiram na Ìndia, iniciativas de criação de
escolas de teatro de sombras. O instituto de Darpana em Ahmedabad ministrado por Meher
Contractor. Mais recentemente as escolas públicas de algumas regiões estão incluindo no seu
currículo o aprendizado do teatro de marionetes indiano, contudo, não se pode considerar esta,
uma formação de profissionais marionetistas.

2.3 Na Indonésia

Na ilha de Java, pertencente à Indonésia, desenvolveu-se o teatro de sombras ou


Wayang, quando o hinduísmo veio da Índia através de viajantes para os impérios das ilhas
da Indonésia. Os atores são figuras planas, recortadas em couro transparente, bonecos
esculpidos em madeira em relevo inteiro ou semi-relevo com olhos estreitos e enigmáticos.
O Wayang teria surgido dos cultos ancestrais javaneses da época pré-hindu, e adquiriu suas
características durante o período de ouro da civilização indiano-javanesa. A exclusão inicial
de mulheres da platéia e atualmente sua separação dos espectadores masculinos que
compõem algumas das regras cerimoniais provavelmente está ligada as cerimônias sacras de
iniciação. Incorporaram em suas histórias os velhos mitos da primitiva religião dos hindus
escritos nos dois épicos indianos o Ramayana e o Mahahbarata e absorveu a genialidade das
personagens e seus conflitos na guerra e na paz. O wayang possui uma rica representação
descritiva assim como as figuras dos camarotes dos templos hindus javaneses e relevos de
paredes e pórticos. O termo Wayang purwa (wayang significa sombra e posteriormente
espetáculo; purwa significa antigo) nunca foi considerado um simples divertimento anti-
religioso e atualmente continua exercendo sua função mágica de fazer a mediação entre o
homem e o mundo metafísico.
Em aproximadamente 1430, período do sultão Demak, marcaram presença as
primeiras figuras wayang feitas de couro. Nesse período também se encontra o surgimento
do termo wayang Kulit (Kulit quer dizer couro). Figuras precisamente cortadas e perfuradas
feitas de couro de búfalo. Rosto sempre de perfil, corpo na posição frontal e pés apontando
para os lados na mesma direção do rosto. A figura é fixada com varetas de chifres de búfalo;
ombros e cotovelos móveis manipulados por duas varetas finas. O bonequeiro que produz as
1

figuras wayang precisa conhecer as regras iconográficas além de ter habilidade com as
ferramentas que utiliza para que mostre bem definidos no contorno e desenho dos bonecos:
em cada linha, cada traço decorativo em todas as características do corpo os significados de
cada um dos seus elementos. Ele produz o delicado trançado dos figurinos e dá a esta beleza
estranha e sobrenatural um toque de requinte como o uso de folhas de ouro, turquesa
brilhante, vermelho profundo e preto. A música Gamelan acompanha todos os espetáculos
wayang da Indonésia. Para a sua interpretação é preciso uma orquestra composta por
instrumentos de percussão, gongos, tambores e xilofone e poucos instrumentos de sopro e
cordas. No wayang kulit (figura 8) a peça é apresentada em geral pelo dalang, mestre
manipulador, à noite, exceto em cerimônia especial que simboliza o exorcismo. O numeroso
elenco de sombras é projetado numa tela de linhaço esticada sobre uma moldura de madeira
e o foco de luz é produzido por um lume brando vindo de uma lâmpada abastecida a óleo.
As personagens que representam o mal: demônios, traidores, espiões e animais selvagens
ficam numa caixa à esquerda do dalang, enquanto em outra caixa à sua direita: damas da
nobreza, rainhas, os fiéis ajudantes, heróis, todos aguardando a sua vez de serem
apresentados.

Figura 8: Encenação de teatro Wayang, local onde está manipulador mestre Dalang e orquestra.
1

Conforme Margot Berthold (2001 p 46) o dalang é considerado um mestre, pois


precisa movimentar grande quantidade de figuras com apenas duas mãos, (figura 9) reger os
músicos tamborilando com um martelinho de madeira ou chifre, algumas vezes até produzir
efeitos sonoros com ajuda de pequenos discos de madeira ou metal presos às caixas onde
guarda seus bonecos. Ele bate os discos com o pé, caso as suas mãos estejam ocupadas.
Antes de iniciar a apresentação da peça, o dalang faz uma descrição detalhada do lugar e das
personagens e depois insere a ação da peça.

Figura 9: Mestre Dalang manipulando vários bonecos de sombra.

O lakan, uma exposição de um apanhado de fatos que apresenta um enredo especifico


e criado com base em modelos tradicionais, determina a ação da peça. Depois de interpretada
a música Gamelan introdutória, o dalang faz o encantamento para afugentar os seres
diabólicos. Então, as tarefas do dalang: ator, narrador e comentarista exigem dele extrema
concentração e devoção por horas a fio na proposta e na atmosfera da peça. Além de requisitar
muitos anos de treinamento para trazer à vida, dúzias de figuras diferentes cada qual
individualmente com sua cadência e entonação.
Para Valmor Beltrame (2005, p 43), na Indonésia o Dalang (manipulador) por tradição,
é quem confecciona as silhuetas, mas atualmente existem fabriquetas especializadas em
materiais de teatro de sombras, as quais também são comercializadas como elementos
decorativos. A silhueta é confeccionada em couro de búfalo novo, ele passa por processo de
secagem da pele, desengorduramento e raspagem até obter-se a espessura desejada que varia
conforme o tamanho do personagem. O desenho se reproduz sobre o couro translúcido, tem
formas e elementos decorativos de acordo com cada personagem obedecendo às normas da
2

tradição. A pintura das cores se faz nas duas faces da silhueta mesmo que ela seja
predominantemente preta, os motivos são contornados com preto na silhueta e para proteger a
pintura é aplicada uma camada de verniz. Fios, ossos e prata fazem as amarrações das
articulações. A rigidez da silhueta e a fixação da personagem são garantidas em troncos de
bananeira que faz a sustentação de varas de bambu com partes de chifres de búfalo. Duas
varas de bambu são fixadas nas mãos para acionar a manipulação dos braços. As silhuetas
possuem coloração, detalhes de roupas e de jóias. Duas categorias diferenciam as
personagens: os bons, heróis e vencedores têm o rosto fino com nariz pontudo, orelha em
amêndoa, busto estreito e boca fechada, os maus têm a forma mais grosseira, nariz grande,
orelha arredondada e corpo grande. A personagem nobre tem olho redondo assim como o
gigante. As cores têm a função de caracterizar e dar significados aos personagens. As silhuetas
não têm características realísticas, os clowns têm formas grotescas e são parecidos com
caricaturas e ganham mais destaque em seus detalhes através da manipulação.
Valmor Beltrame diz que segundo a tradição, as mulheres tinham permissão apenas de
ficar do lado da platéia assistindo o espetáculo, impedidas de ver do outro lado da tela os
procedimentos do Dalang (manipulador) e da orquestra, enquanto os homens tinham livre
acesso aos dois lados. A estrutura da produção é formada por Dalang e uma orquestra situada
atrás dele, composta por 14 músicos que tocam instrumentos de sopro, cordas, tambores e
gongos. A comunicação entre Dalang e orquestra se dá por códigos sonoros e verbais
auxiliados com um cone de madeira que ele percute com a mão esquerda para fazer diferentes
ritmos que destacam momentos de um diálogo, pontuam uma marcha e anunciam um combate
do espetáculo. O Dalang (figura 10) é mais que um manipulador é considerado um artista
completo e está entre os homens e os Deuses e precisa dominar e compreender a filosofia dos
180 Lakans, narrativas contidas no Mahahbarata e o Ramayana, recitar parte destes textos em
Kawi (javanês antigo) e além desse domínio ele tem que improvisar o dialeto local do
espetáculo.
2

Figura 10: Mestre Dalang


Ele é conhecedor das literaturas antigas e clássicas, orações e oferendas dos rituais,
dos significados simbólicos das marionetes e peças e adereços de cada cena. Ele sabe cantar,
imitar vozes para interpretar as personagens, conhece todos os instrumentos do Gamelan
(melodias correspondentes ao texto), é o chefe da orquestra, sabe recitar poesias além de ser
grande orador e precisa estar informado dos acontecimentos do local em que irá se apresentar.
O Dalang precisa se preparar fisicamente para ficar sentado de pernas cruzadas e braços
estendidos durante nove horas atuando. Ele arranca a emoção dos espectadores com a sua
habilidade de manipular as marionetes. Faz passagens de improviso através de discursos
filosóficos evidenciando as normas de sabedoria e cria no espetáculo um ambiente agradável.
Por isso o Dalang precisa da sensibilidade de cantor, músico, poeta, filósofo e intérprete. O
Dalang que assume a tarefa de realizar cerimônias de exorcismo deverá ser o mais velho e
venerado com profunda sabedoria nascido de uma linhagem de 14 ancestrais Dalangs. Na
Indonésia existem cerca de 200 a 300 Dalangs. As características do teatro de sombras da
Indonésia impressionam por suas silhuetas expressivas, ritmo da manipulação, repetição da
música, modulação da voz do Dalang e cantores. O Lakan, a narrativa, é escolhida pelo
organizador da festa obedecendo a calendário religioso, cívico, ou social. A narrativa dá um
sentido mais profundo e traz uma lição de moral, uma sabedoria e uma filosofia.
Em Bali, o dalang apresenta a peça ao ar livre onde a platéia acomoda-se sentada no
chão. Porém é em Bali que o teatro wayang com o valor de ritual permaneceu e predominou
por seu território. Lá o hinduísmo ganhou força e adoração quando o Islã durante o século XV
invadiu a ilha. Ainda hoje em Bali, os dalangs fazem apresentações em recintos de templos,
principalmente na entrada do primeiro pátio. Em 1931, o encanto misterioso do teatro wayang
serviram de inspiração para o titeriteiro vienense R. Teschner que levou os conceitos do teatro
de sombras da Indonésia para artistas do teatro de bonecos de toda a Europa.
A arte do teatro oriental sobrevive em Java graças às academias criadas pelo Estado e
também pela ajuda dos últimos sultãos. Podem ser vistas ainda hoje em vilarejos nas estações
de seca tendo o toca fitas como substituto do trabalho de orquestra em apresentações de teatro
de sombras.
Atualmente nas cidades da Indonésia, o teatro wayang é tão comercializado quanto as
diversas formas de danças. Os indonésios ainda sentem o encanto mágico do teatro wayang a
julgar por um poema criado pelo escritor javanês Noto Suroto:
Senhor, deixe-me ser um wayang em vossas mãos. Posso ser um herói ou um
demônio, um rei ou um homem humilde, uma árvore, uma planta, um animal... Mas
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deixe-me ser um wayang em vossas mãos... Ainda não lutei minha batalha até o
fim, e logo vós me levareis: eu poderei descansar com os outros cuja peça esteja
acabada. Estarei na escuridão com as miríades... E então, após centenas ou milhares
de anos, vossa mão mais uma vez me concederá o dom da vida e do movimento... E

eu, novamente, poderei falar e lutar a boa luta. Margot Berthold,(2001, p 51),

2.4 Na Turquia

O desenvolvimento histórico e cultural da Turquia e conseqüentemente o teatro turco


sofreram influência dos rituais xamânicos (vem do xamanismo, religião de certos povos da
Ásia, baseada na crença de que os espíritos maus ou bons são dirigidos pelos xamâs) e da
vegetação trazidos da Ásia Central, misturado com o culto a Dionísio (Deus grego dos
ciclos vitais, da alegria e do vinho); influência da antiguidade; rivalidade com Bizâncio; e
influência do Islã.
A aparição do teatro de sombras turco se deu no século XIII após a invasão dos
mongóis na China que depois foram para a Turquia. Temos o conhecimento do famoso
personagem Karagöz que vem de uma lenda e que significa homem de olhos negros e ainda
vive em países de partes da Europa e África mediterrânea, Turquia, Síria e Tunísia.
Os principais personagens da comédia Turca e os dois personagens do teatro de
sombras, Karagöz e Hadjeivat viajaram através da Grécia, Hungria e Áustria, com missões
de ordem diplomática otomânica. Esses personagens tornaram-se ancestrais de uma nova e
independente forma de teatro composta por mímicos turcos, judeus, armênios, gregos, mas
sobretudo por ciganos dotados de habilidades, como malabarismo, magia, danças e jogos
acrobáticos. O herói do teatro de sombras turco e árabe é batizado de Karagöz (olho negro),
também dá o nome ao espetáculo de sombras. Karagöz (figura 11) é conhecido na Grécia,
nos Bálcãs (Península ao sudeste da Europa) e em lugares longínquos da Ásia. Espirituoso,
possui uma retórica rápida e bem elaborada, trocadilhos penetrantes aos ouvidos e jogo de
palavras grosseiras. Existe uma grande quantidade de lendas que contam a sua origem. A
mais popular lenda de Karagöz afirma que ele e seu companheiro Hadjeivat existiram no
século XIV, período em que estava sendo construída a grande mesquita de Bursa. Os dois
duelavam verbalmente e suas palavras ridículas paralisaram as obras de construção, pois os
pedreiros em vez de trabalhar ouviam as longas e divertidas discussões de Karagöz e
Hadjeivat.
2

O sultão ao descobrir tal fato, mandou enforcar os dois, como diz a lenda: Mais tarde
sentiu arrependimento de sua própria atitude. Um dos seus cortesãos teve a idéia de
ressuscitar Karagöz e Hadjeivat na forma de figuras de couro coloridas e translúcidas e
sombras numa tela de linho.

“Durante a construção de uma mesquita, o Sultão mandou prender e decapitar dois


obreiros, que atrapalhavam o bom andamento da obra com suas histórias
engraçadas. Então, tudo ficou muito triste neste lugar... e o próprio Sultão
arrependeu-se e ordenou que revivessem o espírito destes dois obreiros. Sem ter
outra saída, a corte, utilizou esta técnica dominada pelos Mongóis para fazer uma
representação das histórias dos operários, os quais eram chamados de Karagöz e

Hadjeivat seu amigo.

Figura 11: Turquia, teatro de sombras,


Karagöz.

Karagöz tem nariz em forma de gancho, barba negra, olhos astutos de botão e mão
direita movendo-se com violência; Hadjeivat está vestido de mercador é cauteloso e
pensativo, bom caráter e sempre sendo enrolado.
Segundo Borba Filho (Beltrame, 2005 p 45) Karagöz tem como característica um ser
trapalhão, hipócrita, brutal, egoísta e libidinoso que vive fazendo trapaças com seu
inseparável amigo Hacivad que sabe tudo, é mentiroso, inescrupuloso e tem sexualidade
espantosa, tem o corpo barrigudo, calvo, corcunda e tem órgão sexual monstruoso.
Outros personagens completavam o teatro Karagöz: Celebi: jovem que se veste com
extremo excesso; a linda Messalina Zenne; Beberuhi, anão ingênuo; o persa com sua vasilha
de madeira d’água; o albanês e os outros personagens regionais; o viciado em ópio; o
bêbado. Diversão predileta do povo e da corte do sultão, o teatro de sombras era apresentado
2

em casamentos e circuncisões. O auge de Karagöz chega com o início do Ramadã, mês


sagrado do jejum quando todos vão até os cafés ao entardecer.
2

3 TEATRO DE SOMBRAS OCIDENTAL

Na Europa é incerto o período em que o teatro de sombras foi inserido. Neste


continente ele é trabalhado mais como espetáculo do que um ritual propriamente
dito, como acontece no Oriente. É preciso encontrar um sentido para se fazer teatro
de sombras e não somente desenvolvê-lo com o propósito de obter um resultado
estético.
Neste capítulo destacamos as opiniões de Maryse Badiou2 estudiosa e
pesquisadora da área de artes cênicas sobre o teatro de sombras ocidental tanto no
âmbito teórico quanto as experiências vividas e de grupos teatrais como o diretor
teatral Jean-Pierre Lescot e o Teatro Gioco Vita que trabalham a arte do teatro de
sombras contemporâneo, falando a respeito das diferenças entre o teatro de sombras
ocidental e oriental.
Segundo Maryse Badiou o homem arcaico segmentou a realidade exterior que
se apresentava como continua, dando nome às coisas e torná-las únicas, para por um
pouco de ordem e desenvolveu a função organizadora da linguagem que possibilita
dar significado e entendimento do desconhecido através da idéia de representação.
Tais necessidades permitiram para nossa espécie achar um equilíbrio e desenvolver
cultura e civilização.
Para ela o importante não é a reprodução da realidade, mas sim a criação da
imagem que transmita o seu ideal. Essa realidade imaginada é que deverá ser
inventada e oferecida à humanidade através da ficção. O irresistível e misterioso
poder da ficção nos fazem deslizar a um nível de sensação estranha a realidade
concreta.
Quais os instrumentos que melhor materializam a ficção na existência
humana? O objeto animado - marionete e sombra - através do movimento podem
mostrar a expressão máxima da vida humana porque atua dentro do mundo da
matéria inanimada e a vida do sujeito. Este objeto animado encanta o criador quando
se procura coisas além da imediatez e quando se faz abstração do real conseguindo a

2
Professora, doutora e pesquisadora em teatro. Publicou o livro “As sombras das Marionetes ou Figuras
de Deus” pelo Instituto de Teatro de Barcelona. BADIOU, Maryse. As marionetes – A duplicidade do
ser e não ser. In: V. Beltrame (Org.) Teatro de sombras: técnica e linguagem, p. 17-24. – Florianópolis:
UDESC, 2005.
2

verdadeira essência da realidade. Sem vida as sombras com a sua grande


singularidade e o poder de manipulação vivem diante dos espectadores. A sombra
recupera através dos mitos, das crenças e das tradições ainda vivas atualmente em
sociedades consideradas “primitivas” a manifestação da metamorfose e mudanças de
sua natureza.
Outro pesquisador, Jean Pierre Lescot3 (figura 12) que trabalha com a
linguagem de sombra no teatro contemporâneo. Descobriu o teatro de sombras,
através de um espetáculo balinês, em Paris em 1968. Na mesma época aprendeu com
as lições sobre “O Teatro e seu Duplo” , as quais até hoje mantém influencia sobre as
pesquisas do seu trabalho.

Figura 12: Jean Pierre Lescot.

3
Diretor teatral da Cia. “Le Phosphènes” – Fantenayboir (França). LESCOT, Jean Pierre. Poesia e amor
no teatro de sombras. In: V. Beltrame (Org.). Teatro de sombras: técnica e linguagem, p. 9-11 –
Florianópolis: UDESC, 2005.
2

Montou com a Cia. um espetáculo quer trabalha com a mobilidade das


silhuetas, joga com a cumplicidade da luz e com a transparência de tecidos, buscando
destacar a característica expressionista da imagem.
Para Jean-Pierre, o que marca o teatro de sombras é a leitura original da
imagem produzida por esta linguagem. A imaterialidade da sombra remete
aproximação com a magia ambientando uma expressão para a linguagem relacionada
a sonhos.
As figuras que interagem com a fonte luminosa e a vida da silhueta trazem
formas muito expressivas. A sombra pode assumir várias características quando ela
se distancia ou se aproxima da tela, conseguindo vibrar, ondular, desaparecer, ser
opaca, translúcida, se deformar, ou ao contrario tornar-se nítida e contrastante.
O teatro de sombras não pode ser limitado a fórmulas ou teorias ou com
princípios técnicos que darão resultados previsíveis. Essa linguagem promove um
encontro com uma matéria que dá a possibilidade ser manipulada, contemplada,
recriada. Um espetáculo de sombras poderá promover um momento no qual
sentiremos emoções reais se deixarmos de lado as nossas idéias pré-definidas diante
das coisas. Aqueles que assistem ao espetáculo de sombras darão significadas as
coisas e importância subjetiva, e o ato de descobrir ou redescobrir nunca será
inocente.
Jean Pierre Lescot, acha que em seu trabalho atualmente, tem como tarefa
informar as pessoas o porquê das imagens, já que elas não têm mais imagens para
expressar as emoções. E acredita que o teatro de sombras deve complementar um
grande livro de imagens, animado por um narrador. Ele acha que os desenhos das
crianças são de fato formas para o teatro de sombras, porque elas soltam a
imaginação e têm menos idéias definidas; a sensibilidade está no lugar da
experiência, o amor acima da razão.
Para ele o teatro de sombras é um modo de expressão contemporânea que
possui sua linguagem específica. É o emprego de materiais simples e aparentes e a
criação de imagens. É o grande revelador do nosso mundo primitivo. Sob o aspecto
estético o poder das sombras reside na percepção pelo contorno, a visão do plano. É
algo subjetivo formado pela “visão” e não a busca de “reprodução”. O diretor ainda
acha que o teatro de sombras ocidental ainda procura sua autenticidade no
quotidiano.
2

O teatro Gioco Vita4 é um grupo de teatro de animação que trabalhava com


bonecos de vara, luvas ou marionetes e a partir de 1976 depois de um encontro com o
teatro de sombras de Jean-Pierre Lescot, num festival de Charleville-Mezières5, passou
a se dedicar exclusivamente a pesquisas sobre sombras.
O resultado dessas experimentações provocou uma verdadeira revolução no
teatro de sombras contemporâneo, tornando-se o mais importante grupo a trabalhar com
esse gênero.
Partindo do teatro de sombras tradicional europeu, cuja projeção das sombras
acontece sempre em telas com luz também fixa. Em seus espetáculos o Teatro Gioco
Vita faz a luz variar sempre, seja em relação ao espaço, seja em relação às qualidades
técnicas dos focos de luz. As telas ou telões de luz de projeção passaram a ser também
móveis e com dimensões sempre surpreendentes. Atenção especial foi dada a relação
corpo do ator-manipulador, o boneco/ objetos e as suas respectivas sombras.
Na natureza a sombra muda constantemente. Existe em função de uma luz que
flui. Trabalhar com sombras na natureza é como tentar prender o tempo, ou controlar
figuras incorpóreas. No teatro, a situação é diferente, a luz artificial pode ser controlada,
e a sombra pode tornar-se objeto de investigações artísticas.
Nos primórdios o conceito de sombra estava ligado à alma. A sombra era vista
como reflexo da parte vital do homem. A alma de um corpo material manifesta-se em
sua sombra. Pode ser vista também como o duplo. O nosso duplo, ou o nosso aspecto
sombrio, desconhecido.
Teatro de sombras é aquele em que um corpo é anulado em função de sua
sombra, tomada como tal. Um bom teatro de sombras é aquele que nos remete e nos
prende à sombra propriamente dita e não a figura/objeto.
A especificidade desse teatro está na sombra projetada pela figura do boneco. O
teatro de sombras, indiscutivelmente, tem uma poética própria que precisa ser refletida,
respeitada. É uma experiência artística e cultural restrita a um tipo especifico de teatro.

4
Grupo Italiano que trabalha com Teatro de Sombras. AMARAL, Ana Maria. Teatro de formas
animadas – Máscaras, bonecos e objetos. 3a Ed. São Paulo: Editora USP, 1996.

5
Cidade do interior da França que sedia a mais importante organização de marionetistas de todo o
mundo. AMARAL, Ana Maria. Teatro de animação - Da teoria à prática. São Paulo: Ateliê Editorial,
1997. p.10
2

Para Fabrizio Montecchi6 (Teatro Gioco vita), o que chegou na Europa foi um
conjunto de técnicas obsoletas, um gênero teatral sem conteúdo e nem contexto. Por
isso as grandes companhias teatrais contemporâneas estudam o teatro de sombras do
Oriente com objetivo de descobrir o significado que seu próprio trabalho esconde. O
Ocidente possui uma imensa distancia cultural que o separa do Oriente. Por isso é
importante buscar no nosso patrimônio cultural a nossa razão de existência para dar
sentido ao teatro de sombras Ocidental do presente.

3.1 Como fazer um filme de silhuetas

O que é uma silhueta? É uma sombra? Nem sempre as sombras reais se alargam
e se encurtam dependendo da projeção da luz. Porém uma silhueta se entende sempre
com contorno bem definido e nítido perfil. Então um filme de silhuetas poderia se
chamar um filme de recortes, porém estes recortes podem ser de todas as cores.
Os materiais necessários são: tesoura, cartolina negra, papel adesivo, arame, uma
câmera, luzes, placa de vidro e caixa de madeira para construir a mesa de animação. As
figuras podem ser movimentadas com as mãos, dispensando as varetas colocadas sobre,
uma placa de vidro, iluminada por baixo, (figura 13) fotografa-se todos os movimentos
milímetro por milímetro. Gravando e exibindo todas as fotos a impressão que se tem é
que a figura se movimenta com vontade própria.

6
É membro fundador do grupo italiano de teatro de sombras Teatro Gioco Vita. Diretor do espetáculo “O
corpo sutil” no qual abandona a silhueta de objetos e utiliza exclusivamente a sombra baseada no corpo
humano. O Gioco Vita revolucionou, desde suas primeiras montagens, a linguagem do teatro de sombras
com um uso inovador da luz, tela, silhuetas, o trabalho do ator manipulador e suas múltiplas relações.
Títulos como Gilgamesh (1982), O Pássaro de Fogo (1990) são espetáculos do grupo. MONTECCHIO,
Fabrizio. Viagem pelo reino da sombra. In: V. Beltrame (Org.) Teatro de sombras: técnica e
linguagem, p. 25-30 – Florianópolis: UDESC, 2005.
3

Figura 13: Cineasta movimentando personagem sobre placa de vidro


iluminada.

Quando se deseja contar uma história, em um filme, é necessário imaginá-lo no


papel. Não é recomendável utilizar-se somente de escritos, sendo necessária a produção
de um storyboard. (figura 14) Nele são desenhadas as cenas com personagens e falas.
Para cada cena são indicadas as quantidades de fotografias.

Figura 14 : Storyboard.
3

A construção das figuras tem as seguintes fases: primeiramente esboçadas em


papel e depois transferidas para uma cartolina preta de espessura média e recortadas em
sua íntegra. (figura 15) Depois esta figura é desmembrada de acordo com as suas
articulações. Em cada parte é feita uma perfuração onde é fixado um arame para
garantir as articulações.

Figura 15: Construção das figuras.

A
articulação da figura se faz cuidadosamente com estudo e ensaio de todos os
movimentos. Durante os ensaios é recomendável marcar as posições para assegurar que
a figura esteja no momento oportuno e lugar desejado de modo que mostre a trajetória
de um movimento contínuo, construindo dessa forma a animação das personagens.
(figura 16)

Figura 16:Articulação das figuras.


3

O cenário é o apoio para a narração da história, além de bonito deve ter um significado
de acordo com a trama. Os elementos principais do cenário estão em primeiro plano ao
mesmo nível das figuras, porém para a ação das silhuetas é necessário um fundo claro.
Para tonalidades de cenários mais claros colocar papel manteiga em último plano sobre
a placa de vidro iluminada e para cenários de tons mais escuros colocar em plano acima
mais próximo do plano das figuras, dando a impressão de profundidade para as cenas.
(figura 17)

Figura 17: Os planos de cenários das figuras.

Toda trama se desenvolve de perfil numa superfície, fazendo-se necessário a cada


animação do personagem também se mover todo o cenário sendo que ambos são
controlados milimetricamente através de uma régua com escala para controlar a
velocidade, colocada abaixo da base do cenário. Esta mesma escala é utilizada para
compor a trilha sonora que deve obedecer ao mesmo ritmo.
3

4 TEATRO DE SOMBRAS NO BRASIL

O teatro de sombras no Brasil é uma arte muito nova e pouco popular em


comparação com o teatro de bonecos, por exemplo. Em nossa pesquisa não
encontramos a data de sua chegada ao nosso país. Neste capítulo apresentaremos
relatos e opiniões de estudiosos e praticantes do teatro de sombras, entrevistas com dois
diretores teatrais, cujos núcleos são referências no Brasil. Marcello Santos da Cia.
Karagöz K, Curitiba (figura 18) e Valter Valverde da Cia Luzes e Lendas de São Paulo
(figura 19).
Segundo Eder da Costa Paulo7, o teatro de sombras tem facilidade em produzir
imagens e a sombra corre o risco de ser simplesmente sombra. Ele na verdade tem
uma linguagem específica que se fundamenta numa dramaturgia que cria imagens
expressivas, ele não é construído no plano da narração.
Ao utilizar a fala, é conveniente que exista uma sincronia entre o movimento e
a linguagem verbal, admitindo uma convenção que diz que a personagem que estiver
em movimento é aquela que está ligada à fala, enquanto as demais ficam imóveis.
Mesmo que essa convenção não seja uma regra fixa é importante que se destaque
aquelas personagens que se manifestam.
Descrevemos a seguir alguns elementos do teatro de sombras:

4.1 Silhuetas:

As silhuetas são peças recortadas que podem ser confeccionadas com papel
como: papelão, papel couro, sola e etc. O material que permite a manipulação da
silhueta pode ser arame, bambu, ripa de madeira. As silhuetas podem ser personagens,
animais, arvores, casas, etc; inspiradas em temas, histórias, contos, contextos.
A partir das suas articulações nos braços e pernas de uma personagem surge o
movimento, a vida das silhuetas. Para iniciantes uma ou duas articulações são
suficientes, pois é preciso habilidade e prática para personagens mais elaboradas.

7
Ator, pesquisador CNPQ e aluno de graduação, curso de licenciatura em Artes Cênicas da Universidade
do Estado de Santa Catarina – UDESC. PAULO, Eder da Costa. A dramaturgia no teatro de sombras.
In: V. Beltrame (Org.) Teatro de sombras: técnica e linguagem, p. 85-91 – Florianópolis: UDESC,
2005.
3

4.2 Objetos:

A escolha dos objetos tem como critério o tema da ação que será apresentada.
Verifica-se com diversos materiais, testando-os e observando as possibilidades de
sombras que cada objeto projeta na tela. Pode-se produzir com as sombras diversas
formas, algumas pouco expressivas se for apresentada a reprodução real do objeto,
enquanto outras formas ganham significados particulares e podem ser compreendidas
de várias maneiras.

4.3 O Cenário:

O cenário pode ou não ser usado nos espetáculos, dependendo do tema. Ele
situa um lugar, um ambiente. Quando ele trabalha somente com a função de
representação, é conveniente utilizar pouco espaço da tela, geralmente um dos lados
ou na base, serve como símbolo para leitura e entendimento de um lugar.

4.4 A Sonoplastia:

A música contribui, e ajuda a criar o clima, que uma cena quer passar. A
sonoplastia pode ser constituída por músicas ou ruídos, E a música pode ser executada
ao vivo ou já gravada e reproduzida em aparelhos sonoros.

4.5 Cores:

Podem ser utilizadas na tela diante de fonte luminosa. De acordo com a cor
usada na cena, cria-se o ambiente que se deseja refletir, por exemplo uma tela
vermelha cria um clima trágico ou dramático, uma tela amarela pode trazer a sensação
de alegria, grande clareza, o azul, o aspecto de esperança, calma, serenidade, noite.
Enfim dependendo da cor utilizada na tela, poderá arrancar do público diversas
3

reações, por isso é importante conhecer as influências psicológicas que as cores


costumam provocar no ser humano.
Existe também o recurso de mudar a cor do foco luminoso usando lâmpadas
coloridas ou gelatinas, esse efeito das cores, só ocorre por causa da luz.

4.6 Iluminação:

As sombras variam de forma e de tamanho por causa do foco de luz. Seja tanto
na intensidade luminosa quanto na distância entre silhueta e foco de luz.
Geralmente a fonte de luz fica estável e imóvel, exceto em casos particulares,
ela é colocada atrás da tela e afastada da mesma de maneira a não incomodar a visão
do espectador.
Através de diversos modos de manuseio das luzes, podem-se obter muitos
efeitos visuais e provocar sensações e emoções.
A cultura ocidental acrescentou um recurso ao teatro de sombras: o plano
frente de tela, o que fez crescer as possibilidades de experimentações com as imagens
das sombras. O plano de fundo é onde se obtém a bidimensionalidade enquanto o
plano de frente trabalha-se com as três dimensões dos volumes dos objetos.

4.7 O Ator:

É tradicional o ator ocidental “encarnar” um individuo, enquanto o oriental faz


a encarnação dele mesmo. E mesmo utilizando técnicas diferenciadas, eles utilizam
uma linguagem que trabalha o diálogo que aconteceu dentro do mundo da alucinação
visual, dos sonhos, que as sombras envolvem os seus apreciadores.
E com tantas técnicas existentes a disposição para serem exploradas e com uso
da criatividade e de efeitos visuais é possível fazer um teatro de sombras
enriquecedor, desde que a dramaturgia seja fator determinante da criação e produção
deste texto. A dramaturgia poderia-se dizer que é o fator mais importante do teatro de
sombras.
3

Figura 18: Cena do espetáculo “Tecno-Shadow”, criação Cia. Karagöz.


Foto: Junho/2007 (Fabiana)

Figura 19: Cena do espetáculo “Albertinho, menino voador”, criação: Cia. Luzes e Lendas.
Foto: Julho/2007 (Fabiana)
3

5 Valter Valverde – Cia. Luzes e Lendas

Um dia, como curiosidade e busca do aprimoramento pessoal, Valter Valverde


(figura 20) inscreveu-se em um curso de teatro, pegou gosto pela “coisa”, fez um curso
profissionalizante de ator no Teatro Macunaíma e tirou sua DRT.

Figura 20: Valter Valverde, diretor da Cia. Luzes e Lendas.


Foto: Abril/2007 (Giuseppe)

Atuou em espetáculos com muito texto cuja matéria prima eram sua voz e seu
corpo. Fez paralelamente cursos de mímica, canto, clown e incorporou a arte em seu
cotidiano. Descobriu como aluno de um curso ministrado na Oficina Cultural Oswald de
Andrade, pertencente a Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo, a vertente da
animação: teatro de sombras. Há oito anos trabalha com teatro de sombras e hoje é um
dos poucos e conceituados artistas do gênero que atuam em São Paulo. Valter Valverde
também prestou assessorias no quesito sombras a outros grupos de teatro de animação:
Cia Articularte e Cia de Teatro Por Um Triz. Criou a Cia. Luzes e Lendas onde
desenvolve seus trabalhos utilizando objetos e bonecos para brincar com a luz (ou a
sombra?). Através de historias como ele mesmo diz: “busco na luz e sombra
3

possibilidades de ampliar a imaginação”. A Cia. Luzes e Lendas o longo de sua


trajetória, fazendo uso da técnica do Teatro de Sombras vem contando histórias para o
público infantil através dos espetáculos: “A Ponte Quebrada”, (figura 21) história
clássica do teatro de sombras escrita pelo francês Seraphin no século XVIII na qual um
menino conserta uma ponte sobre um rio, impedindo a passagem de um viajante para o
outro lado. O menino não faz nada para ajudar o viajante e ainda por cima zomba dele.
O viajante termina dando uma lição ao menino levado;

Figura 21: Personagens do espetáculo A Ponte Quebrada.


Criação: Teatro Seraphin no século XVIII. Adaptação: Cia.
Luzes e Lendas. Foto: Abril/2007 (Giuseppe)
3

“Os Três Porquinhos”, (figura 22) uma adaptação da conhecida história para a
linguagem do teatro de sombras, ressalta valores como amizade, companheirismo e
responsabilidade para buscar uma proximidade com a criança, tanto na leveza do
texto como nas ações, onde o conflito entre o lobo e os porquinhos é apenas uma
diversão saudável.

Figura 22: Personagem “Três porquinhos”. Adaptação: Cia. Luzes e Lendas.


Foto:Abril/2007 (Giuseppe)

“O Pescador”, (figura 23) uma historia em que um homem sai para pescar em
seu barco num local que parece poluído, pois somente sujeira vem ao seu anzol e
conseqüentemente isso o faz desistir da pesca. A historia procura trazer para o
publico, uma reflexão a respeito da importância de não se degradar o meio ambiente
e que o lixo nosso de cada dia não deve ser jogado em qualquer lugar.

Figura 23: Personagem da historia “O Pescador”. Criação: Cia. Luzes e Lendas.


Foto:Abril/2007 (Fabiana)
4

O mais recente espetáculo produzido pela Cia. Luzes e Lendas: “Albertinho, o


Menino Voador”, apresenta trechos de algumas histórias do escritor Julio Verne e da
evolução das invenções que o homem vem criando para poder voar e as aventuras de
Albertinho, inspiradas nas histórias de Santos Dumont começando pela sua infância
quando já pensava em construir uma maquina voadora até o momento em que
realizou o primeiro vôo com o “14 – BIS”. O espetáculo mistura vários elementos:
teatro de sombras com figuras recortadas, a interpretação dos atores com textos e o
teatro de animação com bonecos e objetos. (figura 24)

Figura 24 Cena do espetáculo “Albertinho, menino voador”. Criação:


Cia. Luzes e Lendas. Foto:Julho/2007 (Tânia)

Entre outras produções da Cia. Luzes e Lendas que ao longo de sua existência
apresentou espetáculos em teatros como “Arthur Azevedo”, “Martins Pena
Mesquita” em São Paulo, Casas de Cultura da Prefeitura da Cidade de São Paulo e
teatros situados em outras cidades, além de participar do “Programa Recreio no
Parque” projeto da Prefeitura de São Paulo e de Festivais de teatro de animação.
Na entrevista, Valter Valverde nos fala sobre os seus trabalhos de
experimentações e criações dentro do mundo “luz e sombra”, descreve as técnicas de
manipulação, da confecção de silhuetas, da utilização de objetos para projetar
imagens e da interpretação de ator. Ainda comenta que a arte milenar do teatro de
sombra é importante para as pessoas: ”Vejo que o mundo precisa de histórias para se
entender, para se comunicar com o outro e para melhorar o mundo. Hoje ponho a
4

mão na massa: papelão, idéias, estilete, livros e, sobretudo, pessoas. Acredito nessa
dinâmica: historias, ilustração, objetos, material, imaterial, luz e sombra...” (figura
25)

Figura 25: Valter Valverde montando o mini-teatro com


tela. Foto: Abril/2007 (Giuseppe)

A seguir os melhores trechos da entrevista de Valter Valverde, ator, sombrista e


diretor do núcleo Cia. Luzes e Lendas, falando a respeito do seu trabalho com o
mundo da luz e sombra destacando suas opiniões e experiências e falando sobre a
importância e o poder que esta arte milenar do Oriente possui de tentar melhorar o
mundo.

5.1 Entrevista com Valter Valverde

Atualmente no Brasil, o Teatro de Sombras é bem difundido?


V.V - Agora o interesse está aumentado, antes era muito raro encontrar pessoas ou
grupos que se interessassem por esta linguagem, de um tempo para cá, vem
crescendo.
4

Qual a reação das crianças, quando entram em contato com a linguagem?


V.V - Elas ficam fascinadas, querem participar de todo jeito, e quando atuam se
soltam com mais facilidade do que no teatro tradicional, elas gostam muito de
imagens.

E os adultos que as acompanham, como reagem?


V.V - Eles também ficam encantados, e acabam participando na criação de histórias
e manipulação dos bonecos.

Como é melhor se apresentar, em grupo ou individualmente?


V.V - Bem! Em grupo fica mais emocionante, os diálogos dão maior empolgação;
individualmente, é legal mais dessa forma fica mais próximo da contação de história.

Vocês participam de vários eventos, não só apresentando peças, mas também


oficinas? Cite alguns deles.
V.V - Iniciamos as atividades do grupo participando de festas infantis, daí partimos
em apresentações de teatros como Arthur de Azevedo, Martins Pena,
Mesquita, entre outros, inclusive fora da cidade de São Paulo. Participamos também
do Programa Recreio no Parque da Prefeitura da Cidade de São Paulo, Eventos em
Casas Culturais, Centro Cultural de São Paulo e Festivais de teatro de animação.

Como é a recepção nas escolas?


V.V - Com as crianças tudo vira festa e um mundo de alegria, pois elas são muito
receptivas e adoram participar. Com as pessoas envolvidas na área educacional
encontramos dificuldades, pois muitas desconhecem a linguagem.

Como é para você atuar?


V.V - É uma brincadeira fascinante, luz, sombra e objetos e cenário; tudo vai se
encaixando como num passo de mágicas é incrível, a todo instante estamos criando.
Em cada momento que trabalho, ou brinco, com a sombra, vejo que é ela que me
impulsiona a desvendar as infinitas variáveis da arte.
4

No inicio você se apresentava apenas com objetos?


V.V - Não, já fazia apresentações com sombras em festas infantis, fiz outras
experiências introduzindo os objetos e reparando que ampliavam muito as
possibilidades de criação, inclusive com efeitos incríveis conseguidos através de seus
movimentos.

O que lhe proporciona mais prazer, a sombra tradicional ou a alternativa,


criada por vocês?
V.V - Tudo! Os bonecos coloridos lembram desenho animado; os objetos são
experimentos, instigam nossa imaginação. A sombra tradicional, devido à ampliação
possibilita maior alternativa de experimentos, mais fonte de luz, mais objetos.

Quanto tempo por dia, vocês se dedicam ao espetáculo?


V.V - Depende, quando estamos atuando, ou seja, em cartaz, requer maior tempo de
dedicação. Quando estamos na entre safra, nos dedicamos à criação de peças e a
produção dos bonecos, o que também leva um bom tempo.

Vocês só trabalham com histórias consagradas, conhecidas ou também criam


suas próprias histórias?
V.V - Os dois, trabalhamos com histórias conhecidas e também criamos nossas
histórias, ligadas a vários temas como: “meio ambiente, “fatos Históricos”, e etc.”

O que mais te fascina na Sombra?


V.V - Tudo me encanta, mas os efeitos são impressionantes e a cada movimento nos
surpreendemos com eles. A sombra cativa-me sobremaneira e ainda procuro
aperfeiçoar-me neste mundo luz e sombra.

Nós estamos observando peças coloridas e peças em preto, quais as diferenças


entre elas?
V.V - As coloridas nos lembram desenhos animados, as negras, no contraste com a
tela, nos remete a algo mais antigo, com a TV preta e branca.
4

Os materiais, também são diferentes, não?


V.V - Sim! Os coloridos são de PVC Rígido e as negras de papel couro e varetas de
bambu.

Existe algum material alternativo?


V.V - Sim! Antes usávamos o acetato para os transparentes, mas além de ser bem
mais caro, também é menos resistente. Também pode se utilizar, papel cartão ou
vários outros materiais, dependendo da finalidade.

E o cenário, como é constituído?


V.V - Bem o cenário como vocês estão observando, além desse material (PVC
rígido e papel couro), também podemos usar alguns objetos que façam parte do
enredo, como no caso: plantas artificiais, barcos e etc.

Qual a razão de alguns bonecos, estarem pintados dos dois lados?


V.V - Mais uma vez entra em questão o movimento, estando pintados dos dois lados,
pode virá-los, dando nos maiores possibilidades de movimentos e efeitos.

As maiorias das varetas estão fixas na cabeça e nas mãos, mas existem algumas
fixas em outras partes. Por quê?
V.V - A forma clássica é esta, mãos e cabeças (figura 26) reparem que com
movimento dos braços, apesar das bocas não se moverem, dá impressão que estão
falando. Os outros casos dependem da história, da necessidade do personagem de se
movimentar como queremos, então alternamos os locais de fixação das varetas
como: cabeças, pés, mãos, peito e etc.
4

Figura 26: Valter Valverde demonstrando técnica de manipulação. Foto:


Abril/2007 (Fabiana)

Às vezes a imagem fica mais nítida e também altera seu tamanho. Por quê?
V.V - Depende da fonte de luz, de sua potência e também da proximidade dos
personagens da tela. (figura 27)

Figura 27: Bonecos de sombra. Criação:


Valter Valverde. Foto: Abril/2007
(Fabiana)
4

6 Marcello Santos - Cia. Karagöz K

Marcello Santos é ator, iluminador, compositor e produtor artístico, dedica-se há 22


anos às pesquisas relacionadas com a arte milenar do teatro de sombras. Especializou-se em
teatro de sombras pelo Instituto Del Teatro de Sevilha na Espanha em 1986 com Jean-Pierre
Lescot. Criou em Curitiba – PR a Cia Karagöz onde desenvolve os equipamentos de luz e
projeção de imagens. Entre as criações da Cia. destacam-se o “Show Rock na Praia” com a
banda Barão Vermelho em 1988 na cidade de Florianópolis – SC, criação e execução de
cenário animado para o Show do Jô Soares em 2001 no teatro Guaíra de Curitiba-PR, criação
do cenário de sombras no show “O Gigante da Floresta” de Helio Ziskind apresentado no
Teatro Anchieta do Sesc Consolação em São Paulo, a criação do espetáculo “Kumbu, O
Menino da Floresta Sagrada” (figura 28) de Rogério Andrade Barbosa em 2004 baseado nos
contos de tradição oral africanos narrando as aventuras fantásticas do menino Kumbu em
terras africanas.

Figura 28: Cenas do espetáculo “Kumbu, O Menino da Floresta Sagrada” Criação: Karagöz K.

Atualmente encena o espetáculo “Tecno-Shadow” que é resultado de 19 anos de


pesquisa, um áudio visual sem texto, cujas imagens são produzidas por recortes e objetos
projetados em uma tela criando ambientes urbanos e surrealistas, o enredo é composto por
cenas do cotidiano que retratam o medo, o amor, a solidão e a beleza humana em uma
trajetória de perseguição, indicado para adolescentes e adultos, mas que também encanta as
crianças.
4

6.1 Entrevista Marcello Santos

Seus espetáculos atraem mais adolescentes e adultos, do que crianças, não?


Marcello: Sim! É um espetáculo preparado para esta faixa etária, mas as crianças também se
interessam.

Como é a produção atrás da tela?


Marcello: É uma luta contra o tempo, um corre, corre incrível, objetos, luzes e efeitos. Tudo
é feito em tempo real, portanto temos que estar bem ensaiados, e agir com sincronismo.

O Karagoz – K, no momento tem três componentes, é o número limite?


Marcello: Não! Em nossos planos pretendemos chegar a um quarto componente, com Banda,
Baixo, batera e contra-baixo. (Risos)

Porque o nome Karagoz? Está relacionado com a lenda de Karagoz (em nossa pesquisa
consta na pagina 30) do teatro de sombras da Turquia?
Marcello: Sim! Estava em Buenos Aires , Argentina e encontrei um livro que trazia esta
lenda,
me interessei, gostei do nome e o adotei para o grupo.

Porque Karagoz – K? Uma vez que na lenda é citado apenas Karagoz?


Marcello: É pura superstição! Foi sugestão dada por minha avó, a qual me disse que traria
mais sorte ao grupo.

Pelo que notamos, os materiais utilizados por vocês é bem alternativo. Quais são?
Marcello: Sim, os materiais são alternativos. Usamos papel Paraná, papelão, (figura 29)
radiografias
velhas, papelão couro, além do próprio corpo humano.
4

Figura 29: Bonecos do espetáculo Tecno-


Shadow. Criação: Cia. Karagöz K. Foto:
Junho/2007 (Fabiana)

A sua tela nos remete a idéia de cinema, devido suas grandes dimensões. Quais materiais
foram utilizados em sua confecção?
Marcello: A estrutura foi idealizada pelo grupo e mandamos fazer a estrutura em alumínio na
serralheria, e a tela é de tecido sintético, mas poderia ser usado um outro tipo de tecido
também, como uma malha.

Notamos várias cores nos efeitos das sombras, como elas são obtidas?
Marcello: Usamos várias fontes, e as variadas cores (figura 30) são obtidas com gelatinas
(películas de celofane) de colorações diferentes.
4

Figura 30: Cenas do espetáculo Tecno-Shadow. Destaque para as variações


de cores. Criação: Cia. Karagöz K. Foto: Junho/2007 (Fabiana)

Quando começaram as atividades do grupo Karagoz K?


Marcello: Em 1985, iniciamos no teatro estudantil em Itajaí-SC.

Notamos em seu espetáculo grande quantidade de instrumentos e caixas metálicas com


fontes de luz, (figura 31) em seus interiores uns carrinhos, para que eles servem?
Marcello: A mesa de som foi criada pelo próprio grupo, os carrinhos também são idéias
nossas, com eles movimentamos as lâmpadas. Estes recursos nos possibilitam maiores opções
de efeitos e nas araras deixamos os materiais a serem utilizados, já em ordem de apresentação.
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Figura 31: Suporte para máscara produção do Tecno-Shadow. Criação:


Cia. Karagöz K. Foto: Junho/2007 (Fabiana)

O trabalho de vocês é bem complexo, pelo que estamos notando. Requer muito tempo de
preparo?
Marcello: Sim! Tem que haver um sincronismo perfeito entre nós, pois como disse, nos
apresentamos em tempo real e qualquer problema será percebido pelo expectador, seja, falha
de manuseio dos objetos, ou falha de movimento dos próprios dançarinos.

O grupo tem alguma experiência no sistema educacional brasileiro?


Marcello: Sim! Participamos de um projeto de Educação em Curitiba-PR, onde
desenvolvemos oficinas e realizamos espetáculos.

E como foi a experiência?


Marcello: Foi muito legal, houve interesse pelos alunos, eles se soltaram e participaram com
afinco, criando novos efeitos, inventando histórias e personagens.
5

Dia 18/06/2007, haverá uma oficina no Núcleo de Teatro de Animação coordenada pelo
grupo. Qual objetivo deste evento?
Marcello: Queremos mostrar nossas experiências com iluminação, produção de silhuetas e
montagem de cenários, demonstrar técnicas de como se obter alguns efeitos e também passar
dicas de como se explorar sombras do próprio corpo.

No espetáculo que assistimos Tecno-Shadow, notamos a presença de uma sombra


branca. Como ela é produzida? E o nome é este?Marcello: Sim! É este o nome! Ela é
obtida com a utilização de luz branca que passa por uma máscara vazada no formato da
imagem desejada.

E a mixagem de imagens com cores diferentes. Como é obtida?


Marcello: É um processo semelhante ao da sombra branca, só que com gelatinas de cores
diferentes, as imagens são sobrepostas.

Comparando o trabalho de vocês com o da Cia. Luzes e Lendas, notamos muitas


diferenças. Quais são elas na sua opinião?
Marcello: Sim! Nosso trabalho é mais..., como posso lhe explicar...nossas personagens não
possuem um acabamento detalhado, como o deles, que são perfeitos, eu faço uma comparação
aos personagens com as silhuetas da arte milenar do teatro de sombras oriental. Nossos
objetos e sombras corporais são dispostas mais distantes da tela, enquanto em seus
personagens deles a posição é bem mais próxima. E devido ao tamanho da tela, trabalhamos
com grande variedade de instrumentos, performance corporal, e dança.

Pelo tempo que vocês estão no mercado, devem conhecer vários grupos internacionais.
Algun(s) lhe chamam a atenção?
Marcello: Sim! Vários, entre os quais: “Senhor Z”, grupo francês que trabalha com vários
manipuladores; “Teatro Gioco Vita”, grupo italiano conceituadíssimo e que revolucionou as
técnicas tradicionais do teatro de sombras, ele possui vários manipuladores e um grupo
espanhol que faz um trabalho semelhante ao nosso chamado “As Lacônicas”.
5

É claro que vocês já conheceram o trabalho da Cia. Luzes e Lendas e pelo que notamos
o grupo está presente hoje prestigiando o espetáculo Tecno-Shadow. Comente esse
intercâmbio.
Marcello: Sim, nos conhecemos há um bom tempo, e temos um bom relacionamento, isto
entre os grupos é comum, assim fazemos intercâmbio de idéias, relacionadas às técnicas e
atuações, mesmo sendo de temáticas e público de faixa etárias diferentes.
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7 Workshop - Cia. Karagöz-K.

O workshop ministrado pela Cia. Karagöz-K de Curitiba, no dia 18 de junho de 2007,


no Centro de Estudos e Práticas do Teatro de Animação, com sede na Biblioteca Municipal
Monteiro Lobato em São Paulo foi muito interessante e proveitoso; Marcello dos Santos,
diretor da Cia., iniciou a oficina contando um pouco de sua história e fez uma retrospectiva
da carreira da Cia. Karagoz-K em sua passagem pelo Brasil afora e exterior. Falou um
pouco sobre a história do Teatro de sombras, as suas origens no Oriente e a grande
trajetória que essa linguagem percorreu para chegar até o Ocidente.
Marcello demonstrou na prática as suas técnicas como: a construção de uma caixa
de luz (figura 32) comum e outra com suporte para máscaras, a confecção da tela e
demonstrou algumas de suas produções e em cada uma delas comentou a respeito dos
materiais alternativos, os preços de alguns deles, e em quais locais poderiam ser
encontrados, uma vez que no Brasil não existe nenhuma loja especifica para esta
linguagem artística.

Figura 32: Marcello demonstrando a construção do suporte de luz. Oficina


dia 18/06/07. Criação: Cia. Karagöz K. Foto: Junho/2007 (Giuseppe)
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Em seguida Marcello explicou e demonstrou técnicas relacionadas com


movimentos corporais, manipulação de luzes, mixagem de imagens e de cores,
aproximação, afastamento das sombras e como produzir a sombra branca ou luz branca
dirigida.
Aproveitou o ensejo para nos mostrar o outro lado do espetáculo, os bastidores,
tudo acontece do outro lado da tela, fazendo explicações de como montar os materiais de
trabalho. Mostrou os processos de fabricação de alguns artefatos, como: mesa de som,
carrinhos para movimentar focos de luz. Demonstrou a utilização de alguns objetos, a
confecção de máscaras, cenários, personagens e etc. Explicou o funcionamento de todos os
elementos que costuma utilizar nos espetáculos, salientou a necessidade de concentração e
sincronismo entre os atores-manipuladores. Depois de passar pelas teorias, os participantes
da oficina, a grande maioria atores de teatro e grupos de teatro de animação, tiveram seu
momento de experimentar a prática de explorar as luzes e sombras. Baseado no espetáculo
Tecno-Shadow da Cia. Karagöz-K, Marcello ia relembrando parte das cenas e ao mesmo
tempo propunha aos participantes que representassem em grupo algumas delas.
Valter Valverde, da Cia. Luzes e Lendas esteve presente participando da oficina, e
levou algumas de suas silhuetas, explicando rapidamente como elas foram confeccionadas.
Em conseqüência disso houve uma comparação e análise dos dois trabalhos, que apesar de
utilizarem a mesma linguagem, o teatro de sombras, são bem distintos em vários sentidos,
como a dimensão dos materiais, as técnicas utilizadas, a faixa etária do público.
Fazendo um paralelo, Valter Valverde produz as silhuetas a partir de figuras
recortadas e utilização de objetos e seu publico, que ele mesmo classifica, destinado ao
público infantil. Enquanto Marcello dos Santos explora no “Tecno-Shadow” as sombras do
corpo de dançarinos que realizam performances atrás da tela, de objetos e figuras
recortadas, além de fazer mixagem dos focos de luz, fazendo do espetáculo, um conjunto
de cenas construídas com imagens, sons e cenas sem textos falados, que provavelmente
atrairá um publico de jovens e adultos.
Acreditamos que a oficina foi uma experiência enriquecedora. Conhecemos através
da prática, técnicas, processos criativos e possibilidades existentes dentro do teatro de
sombras que poderemos utilizar para experimentar com os alunos em sala de aula.
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8 TECNICAS SUGERIDAS PARA A AREA PEDAGOGICA

Neste capítulo apresentamos técnicas sugeridas pela educadora e autora Idalina Ladeira
(1993) que julgamos interessante para trabalhar com educandos em sala de aula.

8.1 Teatro com tela

A confecção do teatro com tela envolve a instalação de fonte luminosa, de tela que
podem ser lençol, papel manteiga, etc e confecção de silhuetas para serem projetadas na tela.
As lâmpadas utilizadas não devem ser leitosas, pois estas não possibilitam a projeção, ou seja,
a formação de sombras na tela. O espote, por projetar luz muito forte, também não é
aconselhado. O mais indicado é utilizar lâmpadas transparentes, de 40 ou 60 watts, colocadas
dentro de latas, para possibilitar a concentração de luz.
Existe a possibilidade de confeccionar figuras coloridas, em que se pode cobrir as latas
com papel celofane na cor desejada ou construir silhueta com elementos vazados em papel
celofane colorido. A tela pode ser um tecido branco, não transparente. Duas lâmpadas ficarão
acesas do lado de dentro do palco, uma de cada lado. As figuras movimentadas atrás do tecido
ou papel, por pessoas escondidas atrás do palco e da luz irão projetar a sombra.

8.2 Mini teatro com tela

Outra opção é confeccionar o mini teatro com tela utilizando papelão, papel manteiga
ou tecido branco e abajur ou lanterna.
Aproveitando uma caixa de papelão, tamanho médio, mais ou menos 50 x 40 cm,
recortando seu fundo, deixando moldura, será colado ou grampeado papel manteiga, tecido
branco fino e etc., e as molduras externas decoradas, as silhuetas ou bonecos serão com
menores dimensões.
A área operacional do palco é escondida com uma cortina, ou qualquer tecido, o foco
de luz é direcionado para dentro da caixa, e as silhuetas são movimentadas com as mãos ou
manipuladas como marionetes, ou utilizando varas, etc.
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8.3 Palco Dobrável

Existe a possibilidade de trabalhar o teatro de sombras com palco dobrável. Utilizando


madeira, papel manteiga ou tecido branco e abajur ou lanterna.
O palco é feito de madeira em três partes, uma central com a abertura do palco na
parte superior e duas laterais presas a outra parte com dobradiças, funcionando como paredes,
os atores-manipuladores ficam escondidos, manipulando as silhuetas ou bonecos de baixo
para cima, diretamente com as mãos ou auxilio de alguns instrumentos. O teatro poderá ser
decorado externamente com criatividade, usando tinta preta e fazendo colagens.

8.4 Luz direta na parede

Bem mais simples é apagar as luzes, vedar a entrada de luz externa e direcionar uma
lâmpada para a parede que servirá de tela. Na falta da lâmpada, pode se utilizar velas. Com
imaginação e com bom posicionamento a apresentação tem inicio, as silhuetas podem ser
confeccionadas, ou utilizar o próprio corpo, parcial ou total para projetar a sombra.

8.5 Tipos de figuras/ fantoches

Inúmeros são os tipos de figuras/ fantoches que são utilizados nesse gênero, como por
exemplo as sombras feitas com as mãos, elas são projetadas na parede durante o dia. É preciso
preparar o ambiente: fechar as janelas e ascender lâmpadas ou velas, com as próprias mãos,
(figuras 33 e 34) faz figuras de animais abrindo e fechando a boca, mexendo as orelhas e etc

Figura 33 e 34: Livro: Sombras feitas com as mãos:


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Já os fantoches manipulados com as mãos feitos de tecidos ou outros materiais em seu


interior auxilia com as mãos, onde serve para dar movimentos de pernas. braços, cabeças , etc.
Temos os fantoches de vara que são recortados em cartão, cartolina ou papel grosso ou
qualquer outro objeto.
Também podemos fazê-los de copinhos, onde são feitos de copos de papeis ou
plásticos, cortados ao meio vertical, vaze os olhos nariz boca, o chapéu pode ser feito com
outro copo, as vestes podem ser colocadas junto a vara, ex.: uma fita, vira gravata e etc. ou
ainda de cone onde preparamos um cone de cartolina ou aproveitamos um cone de linha
vazio, revista ou com papel ou tecido. A cabeça do boneco é fixada em uma haste, faça suas
roupas e braços com retalhos de tecidos, as mãos podem ser de feltro ou cartolina, papelão
etc.; passe a vareta por dentro do cone, cole a roupa com flexibilidade na parte mais larga do
cone. Os movimentos do boneco são dirigidos pela vareta, puxando, elevando, virando para
os lados.
As marionetes com tubos de papel higiênico usam-se um tubo o qual forma o corpo, e
com os outros quatro os braços e as pernas. Prende-os com um fio ou cordão. A cabeça pode
ser de papelão, cartolina e etc., prenda cada membro com fio a uma madeira de comando e
manipula-os através dos fios. Pode-se utilizar também retrós de linhas.

8.6 Materiais utilizados para confecção dos bonecos

Dentre eles estão os mais variados papéis, tecidos, plásticos, madeiras, recursos
naturais, sucatas, fios, fitas e Cia., tintas, etc.
Os papéis são utilizados não apenas para confecção das cabeças e membros, como
também das vestimentas. Podem ser utilizados jornais, papel de embrulho ou de anuncio,
revistas, invólucro de balas, bombons ou presentes, guardanapo, coador de papel e etc.
Quanto mais variado o tipo de papel, melhor. Cartolina e papelão de diversas
espessuras, também podem ser aproveitados.
Já os tecidos usam-se os retalhos de tecidos como: chita, algodão, morim, veludo, filó,
seda, cetim, feltro, tapeçaria, renda, estopa, lenços e guardanapos. Pode-se costurar ou colar.
Com os plásticos podemos aproveitar garrafas, copos, pratos, talheres, caixas,
canudos, cones, isopor, espuma e etc. Podem ser colados com fitas adesivas ou colas.
E na madeira os bonecos são mais difíceis de serem confeccionados, exigem o uso de
instrumentos especiais como serras, formões, grampos, parafusos, pregos etc. Podem se
usar colheres de pau, dão bom resultado.
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Ainda pode se usar palito ou pazinha de sorvete, palito de dente, vareta de bambu,
cabo de vassoura, tocos leves, serragem e etc. As vestimentas podem ser de tecido ou papel.
Os recursos naturais como os galhos, folhas, flores secos ou não, raízes, conchas,
pedras e pedregulhos, terra, areia, argila, grãos, sementes, caroços, algodão, paina, palha,
réstia de cebola e alho, casca de ovo, frutas e etc.
Já as sucatas desde que não sejam deterioráveis, podem ser utilizados em sala de aula,
como por exemplo: roupas velhas e acessórias (chapéus, bijuterias, maquiagens, chalés e etc.),
além de revistas, garrafas, tampinhas, caixas. Com criatividade podem se transformar em
lindos bonecos.
Os fios e cia. para dar movimento as marionetes usa-se o cordonê escuro na falta dele
podem utilizar fios de náilon, barbante, cordão e linhas.
Na confecção de cabelos e vestimentas, empregamos fios, rendas, fitas, cadarços,
botões, contas, lãs, algodão, franjas, penas, peles, sianinha, vieses, cordonês, sutaches,
elásticos e etc.
As tintas podem ser usadas variedades de tintas, isto vários tipos, como exemplo o
látex que é o que mais rende. Guache, anilina, esmalte, pó de pintor, canetas coloridas e
esferográficas, pincéis atômicos, carvão, maquiagens diversas e etc.
O uso do pincel atômico ou caneta hidrocor é desaconselhado, por possuírem
substâncias tóxicas em suas composições.
O teatro de sombra dá mais importância à forma, do que ao acabamento, então é
imprescindível uma pintura básica se necessário, formas bem definidas e elementos interiores
vazados (bocas, olhos, narizes e etc.).

8.7 Sonoplastia

É de suma importância trabalhar os mais diversos sons, levando os expectadores a


perceberem os ruídos de seu universo sonoro, a ouvir a maior quantidade de sons possível e a
identificar os objetos que os emitem. Ela deve manipular e ouvir sons de diferentes
instrumentos de percussão, de corda e sopro. Isso se faz necessário para que ela consiga
reproduzir os sons determinados pela encenação.
Com o auxilio de diversos materiais os alunos podem emitir sons adequados para
encenação, como por exemplo: panelas, regadores para imitar a chuva, apitos, sapatos,
imitação de sons de cachorros, gatos, galinhas e etc. Tudo pode ser acompanhado por uma boa
música, tocado ou cantado pelos educandos.
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9 A IMPORTÂNCIA DO TEATRO DE SOMBRAS NA EDUCAÇÃO

Este capítulo revela as interpretações e adaptações para o Teatro de Sombras que


fizemos a partir de livros de estudiosos e praticantes de teatro dentro da sala de aula.
O material reunido procurou explanar a partir das características técnicas, as
habilidades que os alunos poderão desenvolver experimentando Teatro de Sombras.

9.1 O teatro na escola

Quando os alunos se unem para formar um grupo de teatro, um grande passo é


dado, pois é um sinal de que existe vontade de dizer algo, refletir sobre alguma coisa, de
criticar, de melhorar, de conscientizar sobre a manutenção e conservação da escola, pode
ser o início de uma pratica de construção da cidadania. Segundo Tiche Vianna e Márcia
Strazzacapa (2001), “o teatro na escola deve partir do interesse do aluno, deve ter um
objetivo concreto, se deve saber como fazer e por que fazer.” As escolas têm vários
problemas dos quais os alunos, muitas vezes não entendem, ou eles mesmos como os
próprios causadores não têm consciência da existência deles.
Teatro é um trabalho de responsabilidade, e não deve ser levado como brincadeira,
mesmo que seja uma comedia, ele tem que ser sério na sua elaboração, na mensagem. Por
exemplo, a peça Lisistrata8 é uma comedia que faz rir do começo ao fim, tem um conteúdo
sério para fazer com que o povo, assistindo-a reflita sobre a situação do país.
O teatro na escola tem importância fundamental na educação, ele possibilita ao
aluno uma enorme aprendizagem como a socialização, a criatividade, a coordenação, a
memorização, o vocabulário entre outras práticas importantes para o desenvolvimento do
aluno.
As escolas quando oferecem uma vivência teatral, proporcionam um aprendizado
através da representação, que faz o aluno se expor e confrontar seu mundo com o mundo
que os rodeia. O teatro pode aproximá-lo de sua cultura e se for bem realizado torna-se
estimulante e poderá trazer outros aprendizados como a vivência em grupo, a criação
coletiva, e o ato de compartilhar diversos pontos de vista.

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As mulheres de Atenas e Esparta resolvidas a não se entregar aos belicosos maridos até que finalmente estejam
prontos a fazer a paz.
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O objetivo do teatro na escola, não é formar ator, mas proporcionar ao aluno a


vivência dessa linguagem artística para que possa conhecê-la e ter subsídios suficientes
para integrá-lo a seu universo cultural.
Através do teatro, o professor pode perceber traços da personalidade do aluno,
observar seu comportamento individual e em grupo, os traços do seu desenvolvimento, e
também permite ao professor um melhor direcionamento para a aplicação do seu trabalho
pedagógico.
O ouvinte de uma historia ao tentar compreendê-la em seus detalhes, empreende uma
atitude interpretativa, que faz nascer o pensamento critico. Ao confrontar-se com a própria
vida, no exercício de compreensão da obra, o espectador revê e reflete sobre aspectos de
sua historia, do seu passado, estando em condições de efetivar transformações em seu
presente. O espectador envolve-se num processo contínuo de sua autonomia critica e
criativa, ao assumir a sua própria historia, tornando-se capaz de redesenhar um projeto para
seu futuro.

9.2 Os objetivos do teatro de sombras na educação:

Ao jogarem com os colegas, ao inventarem diálogos, exprimindo-se, os educandos


alcançam os principais objetivos do teatro de sombras na educação, ou seja, desenvolvem
as percepções visuais, auditivas e táteis. A linguagem do teatro de sombras possibilita aos
alunos espaço para escolherem, manusearem materiais; criarem diálogos; trabalhar a
percepção da seqüência de fatos; ganhar noções do espaço temporal; desenvolver a
coordenação de movimentos ao articularem os bonecos animando-os com graça; dar
expressões gestuais; orais e plásticas; trabalhar a criatividade, na invenção de personagens,
cenários e diálogos; aguçar a imaginação; desenvolver a memória, a socialização,
enriquecendo muito seu vocabulário.
Por prender a atenção dos alunos, proporcionando distração, entretenimento, o
teatro de sombras pode ser um excelente auxiliar para trabalhos interdisciplinares,
deixando claro que não é conveniente que os bonecos substituam o professor, repetindo
simplesmente o conteúdo das matérias. Devem-se desenvolver atividades onde os bonecos
estejam presentes para discutir tais conteúdos, em diversas situações de dramatização.
Os educandos desenvolvem várias habilidades quando ocorre o contato direto com
o material, confeccionando os bonecos, criando diálogos e histórias e encenando as peças.
6

9.3 A confecção dos bonecos:

É recomendável o professor não deve usar todo material de uma só vez, e sim
planejar as atividades de forma a privilegiar o desenvolvimento de alguns aspectos da
inteligência do educando, pois todo o processo é importante. Também deve racionalizar a
quantidade de objetos empregados para promover um intercâmbio de materiais entre as
salas para que todos se beneficiem e dessa forma possibilitar maior diversificação e
maiores horizontes de aprendizagem.
Durante o manuseio com o material, o diálogo professor-aluno, poderá estimular os
alunos a enriquecer seus conhecimentos, orientando-os e fazendo-os perceber e vivenciar,
por exemplo, o sentido do tato quando estiverem em contato com uma superfície, dando-
lhes dicas, instigando sua curiosidade. Ao manuseá-las os educandos poderão perceber
como são constituídas as superfícies: ásperas, lisas, duras, moles, lixadas, escorregadias,
pastosas, líquidas e etc.
Quanto às formas, podemos separar os materiais semelhantes, agrupando as iguais,
propondo para os alunos a atividade de reconhecer e identificar algumas formas mais
usuais como: quadrado, retângulo, triângulo, círculos e etc, e assim ir construindo o
conhecimento de novas formas.
Na construção, no esquema corporal, na montagem dos bonecos, é necessário
nomear-se as partes do corpo, como: braços, pernas, olhos, bocas, nariz e etc.
Podemos brincar com as cores, dando lhes alternativas para escolherem entre uma
ou várias, que podem ser privilegiadas durante as atividades, como por exemplo, o verde, o
laranja e etc.; desenvolver-se temas correspondentes à faixa etária do educando, como:
Cores primárias, secundárias, monocromia, policromia, cores da bandeira brasileira, de
times de futebol e etc.
Quanto à espessura, podemos instigá-los a perceber com o contato e manuseio do
material, se são grossas, finas, iguais, diferentes, mais grossas, mais finas e etc.
Também a altura, pode ser trabalhada fisicamente, possibilitando aos alunos a tarefa
de distinguir entre alto, baixo, médio, mais alto, mais baixo, nem alto e nem baixo e etc.
Os tamanhos, também serão trabalhados e identificados pelos educandos com
algumas indagações entre: grande, pequeno, comprido, curto, maior e menor.
Ao trabalharmos a distância na colocação dos acessórios, como: olhos, nariz etc., o
aluno ganha noção de espaço e identifica: longe e perto, próximo e distante, mais longe,
mais perto, muito longe, muito próximo e etc.
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Quanto a localização e lateralidade, na montagem dos bonecos tomam ciência de


posições como: de atrás, na frente, ao lado, em cima, em baixo, dentro e fora; bem como
esquerda e direita.
Ao trabalharem estes aspectos, os alunos fazem associações que integram as
funções motoras, visuais, bem como as auditivas e táteis.

9.4 A criação de textos:

Ao criarem os textos os alunos poderão aguçar sua criatividade, tornando-os


naturalmente mais espontâneos, encorajando-os a terem iniciativa e poder de decisão,
enriquecendo e ampliando seu vocabulário.
Segundo Idalina Ladeira (1993) “existem dois tipos de jogos dramáticos: o jogo
pessoal e o jogo projetado, praticado com auxilio de objetos”. As crianças não precisam
decorar papéis elas criam cenas e as apresentam com palavras e manipulações próprias,
dando vida às personagens, identificam-se com as mesmas, vivem seus sentimentos, suas
emoções, reproduzem o que sentem ou o que viram ao observar outras crianças fazerem;
encenam com facilidade e sentem prazer em reproduzir histórias ou situações para elas
encantadoras. Dessa forma as crianças sentem que estão brincando ao mesmo tempo em
que aprendem.
Já entre os maiores, pode haver a dramatização formal, após a espontânea. Esta sim é
ensaiada e pode ser compostas por criações livres, feitas pelos alunos, com orientação do
professor, se necessário, ou ser uma reprodução de histórias ouvidas ou lidas, ou ainda, a
apresentação de um texto escolhido pelos alunos ou sugerido pelo professor.

9.5 Encenação de peças:

Uma dramatização formal respeita as seguintes fases: planejamento, execução e


avaliação.
O planejamento deve ser feito pelos alunos e pelo professor, conjuntamente,
compreendendo desde a escolha do tema, das personagens, a caracterização dos mesmos,
bem como a escolha do local para a apresentação, sempre orientados e supervisionados
pelo mestre para que não fujam do exercício proposto.
A caracterização das personagens deve ser simples. O importante é deixar que o
aluno descubra por si só qual a melhor maneira de vestir os bonecos, e decida qual a roupa
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mais adequada e mais fácil de confeccionar, de acordo com o texto. O importante é dar ao
aluno o poder de liberdade de escolha para que ele possa demonstrar seu poder de
iniciativa e decisão.
Nos ensaios, as histórias são estudadas quanto ao enredo; cada um decora a parte da
personagem que vai representar. Os ensaios devem ser de preferência, executados na
própria sala, com a presença de todos os alunos para que estes aprendam as suas técnicas.
O professor pode repetir o ensaio fazendo um rodízio com as crianças, para que todos
participem e se integrem.
No que diz respeito a apresentação da dramatização já pronta e ensaiada, onde o
aluno desenvolve seu papel e passa a ser “vidraça”, é importante orienta-lo para alguns
tropeços, preparando-o para improvisações caso seja necessário.
A avaliação deve ser considerada como incentivo ao educando. A observação do
professor é muito importante, com a experiência, os alunos aprendem a conviver uns com
os outros e revelam muito do seu eu. O professor tem a oportunidade de averiguar
habilidades, analisar atitudes, observar comportamentos, aprender a conhecer seus alunos,
o que muito o auxiliará no processo educativo. O esperado da avaliação é a constatação das
mudanças de comportamento da criança, seu crescimento integral ao longo do processo
educativo, não somente a partir do resultado final de um trabalho, mas levando – se em
consideração o desempenho da criança durante todo o decorrer da atividade, ou seja, a
avaliação deve ser contínua.
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10 Como trabalhar o teatro de bonecos:

O educador primeiro precisa verificar o nível de desenvolvimento em que os alunos


se encontram. Pode-se fazer isso através da manipulação de vários materiais e bonecos
prontos oferecidos às crianças, com a organização de atividades desafiadoras, que
valorizem a capacidade de descoberta de cada um em relação ao seu boneco.
Os materiais devem estar de acordo com o desenvolvimento psicológico da criança,
ser desafiante e proporcionar prazer durante a atividade.
É importante que o educador faça sugestões e indagações estimulantes à criança no
decorrer do processo, estimular o diálogo sem fazer correções, apenas observar e perceber
se os trabalhos estão de acordo com o nível em que as crianças se encontram. Essa atitude
não significa que tudo deve ser permitido e aceito. O professor deve interferir questionando
a criança sobre o trabalho, levando a tomar consciência de sua ação e refletir sobre ela.
Questionar significa ouvir a opinião da criança, valorizando-a e respeitando-a.
O teatro de bonecos, mesmo profissional, costuma ser altamente participativo e
questionador. Às vezes, trabalha-se apenas com um personagem, que conta histórias, canta,
dança, aborda o público e conversa com ele. Um de seus objetivos na escola são a criação e
recreação.
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11 As características de uma história:

Para se construir uma história, devemos partir de:


Introdução: Fase em que se apresentam as personagens, locais e época em que
se passa a história. O local e a época podem ser descritos por um narrador ou representado
pelo cenário. Os personagens podem ser da vida real, de contos, ou criados pelos alunos.
Enredo: Refere-se às ações de cada personagem, ao desenrolar dos fatos.
Clímax: É a parte culminante da história, que leva rapidamente à conclusão.
Conclusão: É o desfecho, deve ser, dentro do possível, inesperado,
surpreendente ou engraçado.
Saber narrar histórias é uma arte. Elas divertem, dão prazer, desenvolvem a
criatividade, a memória, despertam todos os nossos sentimentos. Um dos elementos mais
importantes para que o jogo do teatro de bonecos alcance seus objetivos é a paciência do
professor.
6

12 Os PCN e o Teatro:
Os Parâmetros Curriculares Nacionais – Arte no Ensino Fundamental, Partes 1 e 2
da linguagem do Teatro, traz as seguintes orientações:
Com a sanção da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394, em 20 de
dezembro de 1996, após muita luta debates, manifestações de educadores, a atual
legislação educacional brasileira reconhece a importância da arte na formação e
desenvolvimento de crianças e jovens, com sua inclusão como componente curricular
obrigatório da educação básica, em seus diversos níveis. (artigo 26, parágrafo 2º).
No ensino fundamental a Arte passa a vigorar como área de conhecimento e
trabalho e visa à formação artística e estética dos educandos. A área de Arte refere-se às
linguagens artísticas: Artes Visuais, Música, Teatro e Dança.
Ao fazer, conhecer, apreciar produções artísticas, o aluno desenvolve sua cultura;
ações estas que integram o perceber, o pensar, o aprender, o recordar, o imaginar, o sentir, o
expressar, o comunicar. A realização de seus próprios trabalhos, assim como apreciação
destes, dos seus colegas, e a produção de artistas, se dá mediante a elaboração de idéias,
sensações, hipóteses e esquemas pessoais, tudo estruturado e transformado com a
interação, com os diversos conteúdos de arte manifestada nesse processo dialógico.
Os objetivos gerais do teatro ao longo dos terceiro e quarto ciclos, são os seguintes:
Conhecer as dimensões artísticas, históricas, estéticas, sociais e antropológicas do
teatro;
Conhecer organização dos papéis sociais e contexto da construção da linguagem
teatral;
Improvisar com elementos da linguagem teatral com recursos disponíveis na escola
e na comunidade;
Apreciação com vocabulário apropriado dos próprios trabalhos, dos colegas e de
diferentes profissionais;
Identificar os momentos históricos do teatro, estéticas predominantes, tradição dos
estilos e sua presença no teatro contemporâneo;
Conhecer acervo histórico do teatro e seus profissionais;
Acompanhar e registrar produção teatral da escola, da comunidade, pela mídia e as
criticas sobre essas produções;
Manter relação de respeito com seu próprio trabalho e o de seus colegas;
Tomar conhecimento de profissões, aspectos artísticos, técnicos e éticos, do teatro e
sobre seus profissionais. Reconhecer a pratica teatral como coletiva e solidária.
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13 Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Médio, Parte II, Linguagens,


Códigos e suas Tecnologias – orientações.

Através da produção e apreciação artística o aluno apropria – se de saberes culturais e


estéticos, fundamentais na formação social do cidadão. No Ensino Médio oferecer a
continuação deste aprendizado pode levar o educando a trabalhar com arte ao longo de sua
vida; quer seja música, artes visuais, dança, teatro ou outras manifestações, provenientes
da ampliação dos saberes.
Com o intuito de auxiliar o professor do ensino médio a melhor compreender a
disciplina, o sentido do ensino aprendizagem de linguagens artísticas, sua relação com a
área de linguagens, Códigos e suas Tecnologias, algumas das competências gerais que
possam ser desenvolvidas com o educando.
É fundamental a continuidade do aprendizado de arte no Ensino Médio, pois assim
estará aplicando seus saberes sobre produção, apreciação e história expressas em música,
artes visuais, dança, teatro e artes audiovisuais.
Os assuntos e atividades a serem desenvolvidos no Ensino Médio devem ser
escolhidos com intuito de possibilitar o exercício de colaboração artística e estética com os
outros, com sua cultura e patrimônio artístico da humanidade, capacitando os estudantes a
se humanizarem melhor como cidadãos com ética e respeito pela diversidade.
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14 EXPERIENCIAS PRÁTICAS EM SALA DE AULA

Demonstraremos a seguir nossas experiências vivenciada na Escola Estadual Professor


Wolny de Carvalho Ramos com alunos das 7º séries, interdisciplinarmente com as disciplinas
de Leitura e Língua Portuguesa, conforme cronograma abaixo:

14.1 Cronograma

Aulas: Atividades:
1ª, 2ª e 3ª Histórico, explicação, contos de lendas.
4ª, Encenação de história e manipulação pelos alunos.
5ª, 6ª e 7ª Produção de histórias pelos grupos.
8ª Explicação de técnicas para confecção dos personagens e
cenários.
9ª Levantamento dos personagens, cenários e técnicas de
sonoplastia.
10ª , 11ª e l2ª Confecção dos personagens e cenários pelos grupos.
13ª, 14ª e 15ª Ensaios gerais.
16ª, 17ª e 18ª Apresentações dos espetáculos.
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14.2 Experiência prática (figura 35) interdisciplinar:

A seguir descrição de todas as etapas, aula a aula:

Figura 35: Mapa rizomatico para o projeto ação. Foto: Agosto/2007 (Giuseppe)

1ª aula Dia: 22/08/07

Introdução histórica.

Falamos inicialmente sobre o tema com uma apresentação geral dos conteúdos. No
inicio os alunos imaginavam que o teatro de sombras tratava-se somente das brincadeiras
de sombras que se faz com as mãos. Muitos ficaram surpresos quando falamos que as
sombras poderiam ser obtidas com figuras chapadas e serem manipuladas por detrás de
uma tela, onde está um foco luminoso refletindo luz.
Apresentamos para os alunos o histórico geral do material que reunimos e
interpretamos na pesquisa deste projeto.
7

2ª aula Dia: 24/08/07

Explicação sobre história.

Realização de apresentação mais detalhada da história do Teatro de Sombras em


diversos países Orientais. Falamos e mostramos imagens a respeito das produções artísticas
contemporâneas da Europa, como J. Pierre-Lescot e o grupo Gioco-Vita. Foi realizada a
exibição de um DVD que filmamos e editamos de uma encenação de Teatro de Sombras
apresentada por Valter Valverde da Cia Luzes e Lendas – São Paulo/SP , durante entrevista
que nos concedeu. Também mostramos as fotos desta entrevista e de outra que fizemos
com Marcello Santos da Cia Karagöz K – Curitiba/PR. Os alunos gostaram muito das
idéias dos grupos teatrais e vislumbraram possibilidade de suas próprias criações. A
maioria deles que gostam de desenhos e se identificaram mais com os bonecos articuláveis
de sombra criados por Valter Valverde. Enquanto que os outros que aparentemente são
mais desinibidos e que acham que não sabem desenhar gostaram da mistura de expressões
corporais, dos trabalhos variados de iluminação e bonecos das criações da Cia Karagöz K.
Notamos nos alunos manifestação para começar a produção de histórias, fazendo
uso da imaginação, da pratica da criação e apresentando sugestões e soluções para as
técnicas do Teatro de Sombras.

3ª aula Dia: 29/08/07

Contos das lendas: “A bailarina” da China e “Karagöz e Hadjeivat” da Turquia

Contamos detalhadamente as lendas da China e da Turquia que dão uma explicação


para o surgimento do Teatro de Sombras. O tema parece ter estimulado os alunos, eles
realizaram voluntariamente uma pesquisa sobre a história do Teatro de Sombras Oriental e
encontraram na Internet as lendas oriundas do Oriente. Alguns alunos e nós também nos
surpreendemos ao constatar a coincidências de encontrar as mesmas lendas. Então durante
a aula houve uma discussão, troca de opiniões, de informações. Foi um momento muito
interativo, uma ótima relação professor aluno.
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4ª aula Dia: 31/08/07


Encenação da historia de moral: “A cobra e o vaga-lume”

Encenamos com técnicas do Teatro de Sombras, para os alunos uma história de


moral chamada “A cobra e o vaga-lume”.
Ficamos contentes com a reação dos espectadores que demonstraram entusiasmo e
aplaudiram muito. Os alunos mais extrovertidos arriscaram uma manipulação das
personagens da “cobra e vaga-lume”, improvisando outras histórias. Os mais tímidos
criaram coragem ao observarem os colegas , saíram de suas carteiras e também
participavam fazendo pequenas encenações.

5ª aula Dia: 05/09/07

Início da produção das histórias.

A 5ª, 6ª e 7ª aulas foram destinadas para os primeiros contatos dos alunos com a
elaboração ou escolha da história para produção do Teatro de Sombras, consideramos estas
aulas muito importantes, foram destinadas ao planejamento, à criação da idéia
principal,que fará nascer a produção teatral dos alunos. A maioria dos grupos tinha idéias
pré-definidas para as suas criações literárias.
Eles apresentavam os argumentos, os temas das histórias e nós conversamos a
respeito de possibilidades de criação dos elementos dos textos: diálogos, ações dos
personagens, entre outras. Para os grupos que escolheram uma história montada achamos
necessário verificar o conjunto: bonecos de sombras, encenação e adaptação do texto para
o ritmo do Teatro de Sombras que é diferente das outras vertentes do teatro. Tivemos um
momento para refletir num contexto geral a escolha dos principais materiais a serem
utilizados na construção do espetáculo; dar estimativa de tempo de produção e ensaios e
duração das apresentações finais. Em todos os momentos das aulas deixamos os alunos
conduzirem o processo criativo, porém eles solicitaram a nossa opinião para as suas
escolhas. Nós demos acessórias como sugestões, mas no final a decisão deles é que dava
definição às histórias.
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6ª aula Dia: 12/09/07

Produção das histórias

Aqui descrevemos um diálogo do momento em sala de aula:


Victor: Professor. A nossa história não tem diálogo, só ruídos
Ricardo: A gente vai fazer como história em quadrinhos, desenhos!
Thales:É melhor a gente escrever e desenhar!
Natália: Professor lê a nossa história vê se ta boa?
Ohana:Entendi! A gente vai aumentar!
Alexander: Profesor! Você empresta o lobo pra gente?
Henrique: É que a gente quer fazer um em movimento, correndo!
Caio: É da hora! O lobo como atleta!

7ª aula Dia: 14/09/07

Produção de histórias pelos grupos.

A maioria dos grupos já está em fase final das histórias, alunos que aparentavam ser
desligados, estão mais antenados e produzindo! Novos diálogos:

Rafael: A nossa história, o final é surpresa, a gente não vai te mostrar antes!
Victor: É , se não, perde a graça!
Lucas: Professor! Lê a nossa? Eu leio pra você, porque é rascunho!
Alessandro: Sim! Nós estamos bolando!
Leonardo: Qualquer nome?
Amanda: Professor! Ó, eles não estão ajudando!
Cainã: Não professor! É que a gente tem outra idéia!
Carlos:Elas não querem ouvir a gente!
Stéphanie: Não professor! A gente vai entrar num acordo!

Nesse diálogo, percebemos que o trabalho em grupo ajuda nas socialização de


idéias e tarefas.
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8ª aula Dia: 19/09/07

Explicação de técnicas para confecção dos personagens e cenários.

Durante as 8ª e 9ª aulas nós fizemos uma apresentação das características técnicas do


Teatro de Sombras, como escolha da estética e estilo das silhuetas e cenografias; dos tipos de
articulações; uso do corpo ou não; os elementos sonoros (ao vivo ou gravação); sonoplastias;
quantidade de silhuetas e cenários; duração de cada cena. Passamos para os alunos uma lista
com estes elementos e explicamos cada um dos itens. (figura 36) Distribuímos estas listas
para tentar otimizar o tempo e organizar as tarefas sem qualquer intenção de impor regras ou
prazos rigorosos.

Figura 36 : Explicação das técnicas do teatro de sombras. Foto: Setembro/2007 (Fabiana)


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9ª aula Dia 21/09/07

Levantamento dos personagens, cenários e técnicas de sonoplastia.

Neste encontro trabalhamos com mais detalhes as características técnicas do teatro de


sombras: estética e estilo da criação e construção das silhuetas das personagens, cenários, e
técnicas de sonorização que inclui a sonoplastia e trilha sonora.
Considerando a duração de cada cena, a partir do roteiro da história foi realizado um
levantamento de quantidades de personagens e cenários.
As silhuetas seriam confeccionadas com papel ondulado extraído de caixa de papelão
ou papel cartão, ou ainda com outro papel mais rígido e resistente. Os alunos escolheriam
dentre estas opções, o material mais acessível.
Partindo de um contexto geral do espetáculo, os alunos foram imaginando e
registrando as idéias de sonorização do espetáculo. Sugerimos que fizessem
esquematicamente o desenho de cada cena do espetáculo incluindo as falas das personagens.
Os alunos estariam então produzindo um storyboard. Acreditamos que dessa forma os alunos
conseguiriam visualizar e organizar melhor a produção do espetáculo.
Com o storyboard elaborado, os alunos conseguiram idealizar mais claramente os
efeitos sonoros necessários para compor a encenação. Cada grupo registrou para cada cena as
sonoplastias enumerando os materiais preferencialmente os reutilizáveis, de pouco custo, para
produzir os sons desejados.
Ao chegar no final desta etapa, a 9a. aula, os alunos haviam concluído o planejamento
para a construção da história e estavam cientes dos materiais necessários para levar para os
próximos encontros.

10ª aula Dia: 26/09/07

Confecção dos personagens e cenários pelos grupos.

As 10a, 11a e 12a. aulas foram muito produtivas; os principais momentos de


construção dos elementos do espetáculo. Pudemos observar e até interagir no envolvimento
dos alunos com a linguagem do teatro de sombras.
Os alunos começaram a construir as silhuetas da cenografia. Para isso desenharam os
cenários no papel e os experimentaram na tela de 60 x 30cm, coletiva com o foco de luz
7

ligado. Isso possibilitou verificar a projeção da sombra do cenário e fazer correções


necessárias. A preocupação maior deles, fundamental para obter um bom efeito visual no
teatro de sombras foi a estética gráfica do espetáculo, e o tamanho dos cenários. A proporção
deles dará espaço para a sombra refletida das figuras chapadas. Um cenário grande ocupará
muito espaço visual da tela e poderá comprometer a animação das personagens.
Recomendamos para que os alunos não construíssem figuras excessivamente incrementadas,
com recortes complicados pois isto poderá enfraquecer a estrutura e a estética.
Terminados os cenários, os alunos iniciariam a construção das personagens. Primeiro
fizeram os protótipos desenhando em folha sulfite os bonecos de sombra. Todas as figuras
iniciais foram testadas na tela para fazer se necessárias correções quanto à proporção entre
cenário e personagem e também quanto à utilização de espaço visual na tela. A ação que o
personagem faz em cena é o principal fator que define a construção, tamanho, articulações das
figuras de sombras. Os alunos concordaram que peças móveis e articulações facilitam e
divertem a manipulação. A maioria da classe optou por mostrar ações simples com as sombras
que necessitavam somente de silhuetas simples, montar cenas curtas e dar ênfase à
manipulação e improvisação.
A etapa seguinte foi compor a sonoplastia e escolher a composição da trilha sonora.
Notamos que os alunos sentiram mais dificuldades em trabalhar com esta técnica, do que com
instrumentos ou acessórios para obter os sons desejados. Este foi um processo investigativo,
existiam muitas idéias e possibilidades de produzir um som. A percepção auditiva foi uma
habilidade muito explorada nesta fase de experimentação. O som e a trilha sonora são
importantes para dar pontos de tensão às cenas, para criar por exemplo clima de suspense,
alegria, tristeza e etc, dependendo da sensação que se deseja causar no espectador.
Os alunos foram descobrindo que podem produzir efeitos sonoros com objetos,
percussão corporal ou utilizar sons gravados.

11ª aula Dia: 28/09/07

Confecção dos personagens e cenários pelos grupos. (figura 37)

Apesar das dificuldades com a sonoplastia, essa aula foi produtiva e demonstram
interesse, como mostra o diálogo.
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Gabriela; Nossa sonoplastia está quase resolvida!


Thayna A nossa ainda temos dúvidas. Nós vamos poder ler o texto ou
temos que decorar!
Willian: Professor! Como a gente fixa aqui ó?
Tamires: Assim é melhor! Fica mais firme!
Alessandro: Nós não estamos com muitas idéias da sonoplastia.
Alex: É sim professor! Ajuda a gente!

Figura 37: Alunos confeccionando personagens. Foto: Setembro/2007 (Giuseppe)

12ª aula Dia: 03/10/07

Confecção dos personagens e cenários pelos grupos. (figura 38)

A maioria dos grupos continua finalizando a confecção dos personagens; mas um


grupo já terminou e pede para ensaiar; como deu um problema com a fonte de luz (fio
solto), ensaiaram só com a tela.
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Figura 38: Alunos confeccionando personagens. Foto: Outubro/2007


(Giuseppe)

13ª aula Dia: 05/10/07

Ensaios gerais. (figura 39)

Os ensaios da 13ª., 14ª.e 15ª. aulas foram experiências para verificar se os alunos
estavam satisfeitos com os elementos que produziram nas aulas anteriores. Nesses testes
utilizamos um recurso que os alunos gostaram muito. Na frente da tela colocamos um espelho
que mostrava todo o espaço visual do espetáculo. Dessa maneira os alunos conseguiam ver as
ações das silhuetas e em cada teste de manipulação eles treinavam a percepção visual. Ao
7

mesmo tempo eles descobriam as diferenças estéticas e dramáticas ao variar os modos de


movimentar as silhuetas. Muitos descobriram que ações simples, bem definidas, econômicas e
objetivas tornavam as informações que desejavam transmitir, mais claras. E poucos efeitos
proporcionavam sensação de mistério e magia às projeções das sombras.
Acreditamos que os ensaios contribuíram para a realização de ajustes finais às
produções teatrais e dar mais confiança aos alunos.

Figura 39: Alunos ensaiando o espetaculo. Foto:


Outubro/2007 (Giuseppe)

14ª aula Dia: 10/10/07

Ensaios gerais. (figura 40)

Os grupos que ensaiaram nesta aula saíram-se bem, pois mesclaram alunos
extrovertidos com introvertidos, com exceção de um grupo que desde o inicio foi
problema, os outros dois, com pequenas correções, ficaram prontos para se apresentarem.
7

Figura 40: Alunas ensaiando o espetaculo.


Foto: Outubro/2007 (Giuseppe)

15ª aula Dia: 17/10/07

Ensaios gerais. (figura 41)

Os grupos que não se saíram bem nos ensaios repetiram os exercícios para
aprimoramento.
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Figura 41: Alunos ensaiando o espetaculo.


Foto: Outubro/2007 (Giuseppe)

16ª aula Dia: 19/10/07

Apresentações (figura 42)

Os grupos que se apresentam neste dia tiveram bom desempenho durante o trabalho
e se saíram muito bem.
O grupo da Amanda, Flavio, Stéphanie, Carlos e Cainã, no inicio deu algum
trabalho mas depois seguiram e deixaram os demais para trás e com as pequenas correções
dos ensaios se saíram muito bem com a história: “O grande mentiroso”.

O grupo do Lucas, Lucas Henrique, Ricardo, Thales e Victor Stefan., após


pequenos reparos, se saíram muito bem com a história “Pediu tem que aguentar“,
produziram vários sons com objetos, chocalhos artesanais e as próprias mãos.

Alexander, Caio, Henrique, Rafael e Vitor, com a história: “O sonho dos Pan-
americanos”, inspirados pelo evento realizado em nosso país neste ano se saíram muito
8

bem criando os melhores personagens em termos de articulação e com pequenos reparos


deram um show de técnica e sonoplastia.

Figura 42: Alunas apresentando o espetáculo.


Foto: Outubro/2007 (Giuseppe)

17ª aula Dia: 24/10/07

Apresentações (figura 43)

O grupo da Jéssica, Luana, Marcus, Paula e Natália, com a história: “Fazenda,


fazendinha”, também conforme era esperado se saíram bem, fazendo os pequenos reparos
necessários e improvisando quando preciso.

O grupo da Luana, Mariana, Natália, Ohana e Tamires, após alguns problemas


resolvidos internamente no grupo, melhoraram e se saíram dentro do esperado.

A dupla Aline e Jacqueline, que com a nova constituição passou a ser um trio, se
saiu muito bem em sua apresentação e não tiveram seu desempenho atrapalhado pela nova
integrante, muito pelo contrário, contribuiu muito, pois estavam sobre-carregadas na
apresentação.
8

Figura 43 : Detalhe de apresentação do espetáculo. Criação


dos alunos. Foto: Outubro/2007 (Giuseppe)

18ª aula Dia: 26/10/07

Apresentações (figura 44)

Os grupos que se apresentaram por último, apesar de terem dado trabalho durante
as atividades, se saíram dentro do esperado, pois também tiveram as outras apresentações
como exemplo.

O grupo do Alessandro, Alex, Jair, Leonardo e Lucas, após várias interferências


proveitosas se apresentaram e também se saíram bem, improvisando quando necessário e
criando uma sonoplastia com a boca muito engraçada, fazendo a todos rirem.

O grupo da Érika, Tamiris e Thayna, como já era esperado se saíram bem, após os
reajustes necessários de confecção de personagens, cenário e sonoplastia; depois que se
“ligaram” melhoraram muito seu desempenho.
8

O grupo da Amanda Pontes., Claudia, Gabriela e Paloma, deu um pouco de trabalho na


parte final de preparação, mas no final com a história:”Tempestade na ilha“ acabou se
superando e se saíram muito bem com os ajustes e reestruturação feita.

Figura 44: Alunos apresentando espetáculo.


Foto: Outubro/2007 (Giuseppe)

15 CONCLUSÃO
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O teatro de sombras é uma arte milenar oriental, nasce da mistura da matéria com a
projeção da luz, sua imagem projetada em plano revela um sinal oculto e nos remete a um
ambiente flutuante. Sabe-se que o teatro de sombras já era praticado na pré-história quando o
homem projetava imagens de sombras nas paredes das cavernas.
A linguagem das sombras em nossa interpretação é um mergulho não intencional na
essência das coisas. É uma arte do irreal transformado em realidade. Ela nos fez refletir sobre
outras possibilidades diferentes do teatro objetivo e imediato, real ou racional. Ela explora o
imaginário algo além do que vemos com os “olhos da razão”. O teatro de sombras faz parte
do teatro de formas animadas que está ligado a rituais primitivos devido as suas características
animistas, objetos sagrados e visual incorporado de simbologias. Este teatro está ligado ao
mundo da fantasia infantil e pensamento poético do adulto. Trabalhar com a linguagem de
sombras é exercitar-se em gêneros que são diferentes do teatro convencional. É desenvolver
formas mais abstratas, mais visuais que exploram a sensibilidade, os meios de expressão, da
comunicação interna e externa.
Propor o desafio de realizar um espetáculo teatral é dar ao aluno um exercício de
comunicação em que ele precisará se expressar e encontrar meios de se fazer entender.
Através das atividades deste projeto cada aluno teve um encontro com um espaço para
expressar a si mesmo e uma cultura diferenciada como o teatro de sombras. Na experiência
prática notamos nos alunos envolvimento num processo de aprendizagem que desenvolveu
habilidades como a socialização, a criatividade, a coordenação, a memorização, vocabulário,
o pensamento crítico entre outras importantes para a formação de um individuo. As atividades
proporcionaram uma vivência com a linguagem do teatro de sombras que possivelmente
ampliou o universo cultural do aluno.
Este projeto nos trouxe um entusiasmo de trilhar um caminho desconhecido.
Descobrimos técnicas diferentes, sensações inéditas, dificuldades novas. E proporcionar aos
alunos uma vivência de algo estranho à cultura brasileira foi um desafio porque tínhamos
poucas referências e também prazeroso pela tentativa de experimentar.
Consideramos esta experiência uma tentativa de resgatar o primitivo do ser humano.
Percebemos que não existe o certo ou errado, o importante é conseguir estimular a
curiosidade, a vontade de fazer e se arriscar sem medo de errar, incorporar a experiência como
uma brincadeira que diverte. Cada aluno passou e recebeu um significado das encenações de
todos os seus elementos: nos personagens, nas formas das projeções das sombras, nas
manipulações dos bonecos, nas experimentações das projeções, na criação das histórias, nas
8

manipulações das luzes, na encenação ator-manipulador. Acreditamos que os alunos tiveram


seu momento de artesão oriental: construir bonecos delicados que transmitam uma força
sobrenatural imensa, capazes de expressar a sentimentalidade e delicadeza do ator-
manipulador.
8

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

• AMARAL, Ana Maria. Teatro de animação - Da teoria à prática. São Paulo: Ateliê
Editorial, 1997.

• AMARAL, Ana Maria. Teatro de formas animadas – Máscaras, bonecos e objetos.


3a Ed. São Paulo: Editora USP, 1996.

• AND, Metin. Aspectos e funções do teatro de sombras turco. In: V. Beltrame (Org.)
Teatro de sombras: técnica e linguagem, p. 31-39 – Florianópolis: UDESC, 2005.

• BADIOU, Maryse. As marionetes – A duplicidade do ser e não ser. In: V. Beltrame


(Org.) Teatro de sombras: técnica e linguagem, p. 17-24 – Florianópolis: UDESC,
2005.

• BELTRAME, Valmor. O ator no teatro de sombras. In: V. Beltrame (Org.). Teatro


de Sombras: técnica e linguagem, p.41-56 – Florianópolis: UDESC, 2005.

• BERTHOLD, Margot. Historia mundial do teatro. [ tradução Maria Paula V.


Zurawski, J. J. Guinsburg, Sergio Coelho e Clóvis Garcia ] – São Paulo: Perspectiva,
2001.

• BRASIL/MEC - PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS - ARTE (1ª a 4ª),


Brasília, 1997.

• BRASIL/MEC - PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS – ARTE (3º e 4º


ciclos do Ensino Fundamental). Brasília, 1998.

• BRASIL/MEC - PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS – ARTE (Ensino


Médio, Parte II – Linguagens, Códigos e suas Tecnologias). Brasília, 1998.

• LADEIRA , Idalina; CALDAS, Sarah; Fantoche & Cia. 2 a Ed. São Paulo: Editora
Scipione, 1993.
8

• LESCOT, Jean Pierre. Poesia e amor no teatro de sombras. In: V. Beltrame (Org.).
Teatro de sombras: técnica e linguagem, p. 9-11 – Florianópolis: UDESC, 2005.

• LESCOT, Jean Pierre. Da projeção da luz misturada à matéria, nasce o teatro de


sombras. In: V. Beltrame (Org.) Teatro de sombras: técnica e linguagem, p. 13-16 –
Florianópolis: UDESC, 2005.

• MONTECCHIO, Fabrizio. Viagem pelo reino da sombra. In: V. Beltrame (Org.)


Teatro de sombras: técnica e linguagem, p. 25-30 – Florianópolis: UDESC, 2005.

• PAULO, Eder da Costa. A dramaturgia no teatro de sombras. In: V. Beltrame (Org.)


Teatro de sombras: técnica e linguagem, p. 85-91 – Florianópolis: UDESC, 2005.
• REINIGER, Lotte. Filme/Películas. Insituto Goethe. Editora Mayr – Miesbach.
Munich, 1999.

• VIANNA, Tiche; STRAZZACAPA Márcia. O teatro na sala de aula. In: S. Ferreira


(org). O ensino das artes: - construindo caminhos, p.115-139. Papirus 4ª. Edição
(coleção Ágere) Campinas – SP: 2001.

OUTRAS REFERÊNCIAS:

• GIRAMUNDO TEATRO DE BONECOS. Boneco de sombra. Disponível em:


http://www.giramundo.org/tecnica/sombra.htm - Acesso : em 12 mar.2007.

• KARAGOZ K. Um pouco de história sombras “chinesas”. Disponível em:


http://www.marcello.pro.br/sombras.htm Acesso em: 12 mar. 2007

• MINHA CHINA. Pi Ying-o Show de Sombra. Disponível em:


http://www.minhachina.com/chinaarte.htm - Acesso em: 12 mar.2007.
8

• PROJETOS DE PESQUISA – ARTES CENICAS. CEART – Universidade do


Estado de Santa Catarina. Disponível em:
http://www.ceart.udesc.br/projetos/artescenicas/Teatrodesombras.php - Acesso em: 12
mar.2007.

• SOMBRA, Clube da. Ensaio – Sombras sobre o corpo, Adriana Donato – Artista
Visual. Disponível em: http://www.clubedasombra.com.br/artigos_full.php?id=29 -
Acesso em:13 abr.2007.

CRÉDITO DAS IMAGENS:

• Figura 1:
BERTHOLD, Margot. Historia mundial do teatro. [ tradução Maria Paula V. Zurawski,
J. J. Guinsburg, Sergio Coelho e Clóvis Garcia ] – São Paulo: Perspectiva, 2001, p 15

• Figuras 2, 8 e 10:
WARD, Keeler. Javanese Puppets

• Figuras 3, 6, 7, 9, 12, 33 e 34:


Teathres D’Ombres – Tradition et Modernite

• Figuras 4, 5, 18 a 27, 29 a 32 e da 35 a 44:


Fotografias tiradas pelo grupo de autores.

• Figura 11:
AMARAL, Ana Maria. Teatro de formas animadas – Máscaras, bonecos e objetos. 3a Ed.
São Paulo: Editora USP, 1996, p 81

• Figuras 13 e 17:
DVD the art of Lotte Reiniger (Criação de um filme de silhuetas), 1969.
8

• 14 a 16:
REINIGER, Lotte. Filme/Películas. Insituto Goethe. Editora Mayr – Miesbach. Munich,
1999, p 25, 30 e 32 respectivamente.

• Figura 28:
Disponível em: http://www.marcello.pro.br/sombras.htm Acesso em: 12 mar. 2007