Giovanni Seabra

(organizador)

Comunidades, Natureza e Cultura no Turismo

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
Reitor RÔMULO SOARES POLARI Vice-reitora MARIA YARA CAMPOS MATOS Diretor do Centro de Ciências Exatas e da Natureza ANTÔNIO JOSÉ CREÃO DUARTE Chefe do Departamento de Geociências ANIERES BARBOSA DA SILVA

EDITORA UNIVERSITÁRIA

Diretor JOSÉ LUIZ DA SILVA Vice-diretor JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS FILHO Supervisor de Editoração ALMIR CORREIA DE VASCONCELLOS JUNIOR

Capa: Cláudia Neu Arte: Cacá Soares Editoração: Ívyla Pereira E-mail: turismosertanejo@gmail.com Home Page: www.turismosertanejo.com.br

C741

Comunidades, natureza e cultura no turismo [recurso eletrônico] / Giovanni Seabra (Organizador).-- João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2012. 1CD-ROM : color. ; 4 3/4 pol. 1.335 p.: il. ISBN: 978-85-7745-556-1 1. Turismo - Brasil. 2. Turismo Comunitário. 3. Turismo Sertanejo. 4. Paisagem Natural. 5. Patrimônio Cultural. 6. Desenvolvimento Local. I. Seabra, Giovanni.

UFPB/BC

CDU: 338.48(81)

As opiniões externadas nesta obra são de responsabilidade exclusiva dos seus autores. Todos os direitos desta edição reservados à GS Consultoria Ambiental e Planejamento do Turismo Ltda.

A P R E SE N TA Ç Ã O

E

ntre os dias 6 e 9 de junho de 2012, a cidade de João Pessoa sediou o VI Simpósio de Turismo Sertanejo (STS) e o I Congresso Nacional de Turismo Comunitário (CNTC). Os eventos foram realizados simultaneamente, pela Universidade Federal da Paraíba, com o

principal objetivo de incentivar e fortalecer o turismo social de base comunitária, em nível local, regional e nacional. O turismo é um fenômeno de natureza complexa pautado nos setores econômico, social e político. Nas últimas décadas o setor turístico tem-se destacado como uma das mais importantes atividades econômicas em todo o mundo, afirmando-se como fonte geradora de serviços, produtos, emprego e renda. Contudo, a atividade revela-se economicamente concentradora, de baixo alcance social e cuja remuneração do profissional está muito aquém do que seria ideal para as funções e atividades desempenhadas. Com o tema geral “Comunidades, Natureza e Cultura no Turismo” o VI STS e I CNTC, propiciaram um amplo debate sobre o turismo comunitário no Brasil, como alternativa ao modelo atual, que é pautado na baixa remuneração do profissional, implicando no comprometimento da qualidade dos serviços oferecidos ao turista. Neste contexto, emerge o turismo sertanejo, uma forma de lazer fundamentada na paisagem natural, no patrimônio cultural e no desenvolvimento social da população residente. A paisagem é o resultado das interações entre as condições naturais e as diferentes formas de uso e ocupação decorrentes da composição socioeconômica, cultural e domínio tecnológico da sociedade. Para o turismo, a paisagem compreende o meio ambiente visível e aprazível aos olhos, incluindo as comunidades que habitam uma determinada localidade, configurando-se, no conjunto, a identidade local. Assim se define o lugar do turismo. Nesse cenário paisagístico-cultural surge o turismo comunitário, possibilitando um novo olhar direcionado aos bens patrimoniais naturais e culturais, ambos contextualizados nos arranjos produtivos do turismo de base local, oportunizando o desenvolvimento econômico e ascensão social mais igualitária aos membros da comunidade receptora. As atividades desenvolvidas e os 118 trabalhos apresentados no VTI STS e I CNTC, e publicados em forma de artigos na presente obra, registram uma grande diversidade de roteiros e destinos turísticos comunitários do Brasil, disponíveis para os viajantes brasileiros e estrangeiros. Giovanni Seabra

Sumário
1 - Planejamento, Projetos e Programas Turísticos .................................................................... 10
TURISMO SERTANEJO ESTRATÉGIAS E PLANOS DE AÇÕES EM COMUNIDADES ..........................................11 TURISMO DE BASE LOCAL EM COMUNIDADES: PROPOSIÇÕES, AÇÕES E RESULTADOS ...............................21 O NOVO PAPEL ASSUMIDO PELA GESTÃO PUBLICA NO (RE) ARRANJO DO TURISMO LOCAL: REFLEXÕES ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA ...................................................................................................................36 COMPLEXO TERMAL E TURISMO: UMA CONTRIBUIÇÃO AO DESENVOLVIMENTO DA REGIÃO DAS ÁGUAS QUENTES – GO ..........................................................................................................................................55 TURISMO COMUNITÁRIO: UM CAMINHAR PARA O DESENVOLVIMENTO LOCAL .........................................69 AVALIAÇÃO DA IMPLEMENTAÇÃO E DOS RESULTADOS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE FOMENTO AO TURISMO EM ESPAÇOS DO SERTÃO NO RIO GRANDE DO NORTE ...........................................................89 POLÍTICAS PÚBLICAS DE CAPACITAÇÃO EM PEQUENAS LOCALIDADES TURÍSTICAS ...................................101 A IMPORTÂNCIA DA GEOGRAFIA HUMANÍSTICA NO ENSINO DO TURISMO ..............................................110 A TURISTIFICAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO NO MUNICÍPIO DE BARRA DE SANTO ANTÔNIO, ALAGOAS: UMA ANÁLISE SOB A ÓTICA DA PARTICIPAÇÃO DOS STAKEHOLDERS LOCAIS .....................118 ECOTURISMO, POLÍTICAS PÚBLICAS E PLANEJAMENTO PARTICIPATIVO E COMUNITÁRIO NO MUNICÍPIO DE PRESIDENTE FIGUEIREDO/AM ...........................................................................................................127 CONTRIBUIÇÕES PARA A ELABORAÇÃO DO DIAGNÓSTICO TURÍSTICO NA ARIE DE GOIAMUNDUBA, BANANEIRAS-PB......................................................................................................................................141 PLANEJAMENTO TERRITORIAL E TURISMO RURAL DE BASE COMUNITÁRIA NO ENTORNO DO PARQUE ESTADUAL DO IBITIPOCA ........................................................................................................................151 TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA, AÇÃO ECOMUSEOLOGIA E EMPREENDIMENTOS SOLIDÁRIOS E “CRIATIVOS”: UM DIAGNÓSTICO DAS INICIATIVAS “PÓS-DESENVOLVIMENTISTAS” NO BAIRRO DE SANTA CRUZ E ADJACÊNCIAS (RJ) ...........................................................................................................162 DESENVOLVIMENTO LOCAL E OS PROCESSOS DE MUDANÇAS SOCIOAMBIENTAIS NA COMUNIDADE INDÍGENA PATAXÓ HÃ HÃ HÃE, PAU BRASIL – BA..................................................................................174 TURISMO, INDÚSTRIA E ENSINO DE GEOGRAFIA EM PECÉM - SÃO GONÇALO DO AMARANTE/CEARÁ ...187 TURISMO SOLIDÁRIO: UMA DISCUSSÃO CONCEITUAL DO SEGMENTO ......................................................200 UM ESTUDO SOBRE AS PRÁTICAS TRADICIONAIS DA COMUNIDADE XOKÓ EM SERGIPE E SUA IMPORTÂNCIA TURÍSTICO-EDUCATIVA ..................................................................................................211 ABORDAGENS DE DESENVOLVIMENTO DO TURISMO X PERSPECTIVAS DE PLANEJAMENTO TURÍSTICO: ANÁLISE DE UMA RELAÇÃO CONTROVERSA...........................................................................................218 O TURISMO COMUNITÁRIO NA RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ESTADUAL PONTA DO TUBARÃO ................................................................................................................................................230 TURISMO DAS FLORES NO BREJO: AS CONQUISTAS DA COOPERAÇÃO NO INTERIOR DA PARAÍBA ...........242 GÊNESE DO LAZER AO DESENVOLVIMENTO LOCAL DA ATIVIDADE TURÍSTICA: O CASO DE LAGOA SANTA NO ESTADO DE GOIÁS.............................................................................................................................255

EXPERIÊNCIAS DO TURISMO RURAL COMUNITÁRIO EM COMUNIDADES QUILOMBOLAS KALUNGA NO NORDESTE GOIANO ................................................................................................................................268 TURISMO EM COMUNIDADES QUILOMBOLAS: POSSIBILIDADES E ALTERNATIVAS ....................................282 ILHA DO PRÍNCIPE: POTENCIALIDADES PAISAGÍSTICAS PARA UM TURISMO COMUNITÁRIO SUSTENTÁVEL ................................................................................................................................................................292 UVA E VINHO NO CERRADO MINEIRO: ENOTURISMO COMO PROPOSTA DE GERAÇÃO DE TRABALHO E RENDA NO MUNICÍPIO DE CONQUISTA, MG .........................................................................................303 PROPOSTA DE TURISMO DE BASE LOCAL PARA A APA DO ESTUÁRIO DO RIO MUNDAÚ - CEARÁ .............312 A UTOPIA DO DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO SUSTENTÁVEL: UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL ATRAVÉS DO TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA .........................................................................................................322 TURISMO COMUNITÁRIO, CONSERVAÇÃO DA FLORESTA E A BUSCA POR MELHORES CONDIÇÕES ..........332 CONSTRUÇÃO SOCIOESPACIAL E DINAMIZAÇÃO TURÍSTICA DE BANANEIRAS-PB ......................................339 TURISMO, ECONOMIA SOLIDÁRIA E GERAÇÃO DE RENDA: UMA ANÁLISE DO MUNICÍPIO DE BANANEIRAS/PB .....................................................................................................................................350 REFLEXÕES DE TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA NA ALDEIA INDÍGENA DOS PATAXÓS DE IMBIRUÇU, EM CARMÉSIA ..............................................................................................................................................358 A CULTURA QUILOMBOLA COMO ROTEIRO TURÍSTICO NA PARAÍBA ........................................................372

2 - Qualidade do Produto e Serviço Turístico........................................................................... 385
DIAMANTE LAPIDADO: O TURISMO COMUNITÁRIO NA ORDEM DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS ..................386 A CULTURA E O NEGÓCIO DA HOSPITALIDADE NO TURISMO .....................................................................401 POTENCIALIDADES TURÍSTICAS NO MUNICIPIO DE TAPEROÁ-PB ...............................................................413 TURISMO SERTANEJO E A (RE)CONSTRUÇÃO DA IMAGEM DO SERTÃO NORDESTINO ..............................424 DEMANDA TURÍSTICA E USOS DO ESPAÇO EM CACHOEIRA DOURADA DE MINAS (MG) ...........................436 A HOSPITALIDADE CURRAISNOVENSE COMO FATOR INDUTOR DO DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO DE BASE LOCAL .............................................................................................................................................447 TURISMO CULTURAL: A CONTRATAÇÃO DE ARTISTAS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA MUNICIPAL ...........458 TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA : SANTA MARTA....................................................................................468 O PARADIGMA AMBIENTAL SOB A ÓTICA DA HOTELARIA SUSTENTÁVEL: O CASO DO HOTEL BÜHLER .....478 SISTEMA DE TRANSPORTE AÉREO E COPA DO MUNDO EM ARACAJU: PERSPECTIVAS NA QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL DO SETOR DE TRANSPORTE E O PROGRAMA BEM RECEBER COPA ...............................491 PERCEPÇÃO E FOMENTO AO TURISMO NOS MUNICÍPIOS CONTEMPLADOS PELA EXPEDIÇÃO AO SEMIÁRIDO 2011.....................................................................................................................................504 MARKETING TURÍSTICO NO BRASIL: POTENCIALIDADES PARA CRESCIMENTO ATÉ 2014...........................517

3 - Turismo, Meio Ambiente e Sustentabilidade ..................................................................... 526
COMPLEMENTARIDADES E CONFLITOS ENTRE AS ATIVIDADES TURÍSTICAS E AS POPULAÇÕES HUMANAS TRADICIONAIS VINCULADAS À PESCA ARTESANAL.................................................................................527

TURISMO NO TRÓPICO SEMIÁRIDO NORDESTINO: LIMITES E DESAFIOS PARA A GESTÃO MUNICIPAL .....537 CONTRIBUIÇÃO DO PRONAF PARA SUSTENTABILIDADE DA AGRICULTURA FAMILIAR NO MUNICÍPIO DE SÃO RAIMUNDO DAS MANGABEIRAS-MA..............................................................................................547 UMA BREVE DISCUSSÃO SOBRE MEIO AMBIENTE, SUSTENTABILIDADE E TURISMO .................................555 TURISMO E MEIO AMBIENTE: DESAFIOS PARA A SUSTENTABILIDADE .......................................................569 TURISMO NO LAGO DE FURNAS (MG): GLOSAS À ATIVIDADE TURÍSTICA ...................................................577 POTENCIALIDADES GEOGRÁFICAS NO SEMI ÁRIDO ....................................................................................593 ANÁLISE GEOAMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO MACIÇO DE BATURITÉ: O CASO DO ECOTURISMO EM GUARAMIRANGA – CEARÁ ........................................................................................602 IMPLICAÇÕES SOCIOAMBIENTAIS DECORRENTES DO TURISMO NA PRAIA DE CANOA QUEBRADA - CEARÁ ................................................................................................................................................................612 TURISMO: PRINCÍPIOS DE UMA EDUCAÇÃO AMBIENTAL VOLTADA A ESFERA SOCIOECONÔMICO E AMBIENTAL .............................................................................................................................................624 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS SOBRE O TURISMO SUSTENTÁVEL ......................................................................632 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E ÁGUA NA ZONA RURAL DO SEMIÁRIDO PARAIBANO ....................644 TURISMO SERTANEJO: OS REFLEXOS DOS IMPACTOS AMBIENTAIS DO TURISMO NOS MONÓLITOS DE QUIXADÁ ................................................................................................................................................656 SÃO JOÃO DO CARIRI – SUA MURALHA DE PEDRA: ASPECTOS AMBIENTAIS E POTENCIALIDADES TURÍSTICAS..............................................................................................................................................668 INFLUÊNCIA DO CONSUMO TURÍSTICO NA TRANSFORMAÇÃO DO ESPAÇO DA PRAIA DE JACARÉ: SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL EM QUESTÃO .....................................................................................681 A PRÁTICA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO UMA FERRAMENTA DE COMPETITIVIDADE TURÍSTICA NA MINA BREJUÍ – RN ..................................................................................................................................689 O POTENCIAL GEOGRÁFICO DOS CENÁRIOS: O AÇUDE DE CAMALAÚ .......................................................698 UM OLHAR SOBRE O TURISMO NO MUNICÍPIO DE CAIRU-BA ...................................................................706 EFETIVIDADE DAS NORMAS AMBIENTAIS SOB O ASPECTO DO LICENCIAMENTO AMBIENTAL ..................719 TURISMO, SUSTENTABILIDADE E MEIO AMBIENTE NO CARIRI ORIENTAL PARAIBANO ..............................729 TURISMO, MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE: A PRÁTICA DO ECOTURISMO COMO ALTERNATIVA À GERAÇÃO DE EMPREGO E RENDA E PRESERVAÇÃO AMBIENTAL ..........................................................743 A PRÁTICA DO TURISMO NO ESTADO DA PARAÍBA: RESSALTANDO AS POTENCIALIDADES DO INTERIOR PARAIBANO – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ............................................................................................756 TURISMO, DESENVOLVIMENTO LOCAL E SUSTENTABILIDADE NA PARAÍBA ...............................................769

4 – Patrimônio Cultural e Identidade Local.............................................................................. 779
TURISMO COMUNITÁRIO E A POTENCIALIZAÇÃO DA IDENTIDADE, DA MEMÓRIA E DO PATRIMÔNIO CULTURAL ...............................................................................................................................................780 O QUE LEVA UM TURISTA A VIAJAR PELO SERTÃO .....................................................................................789 SÃO LUÍS: PATRIMÔNIO CULTURAL E IDENTIDADE LOCAL ..........................................................................802

A COR LOCAL: O PATRIMÔNIO TURÍSTICO-CULTURAL COMO OBJETO DE CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO LUGAR ...............................................................................................................................................815 MAPA DO TURISMO URBANO EM PARACATU (MG): NOTAS INTRODUTÓRIAS ..........................................831 TURISMO E MANIFESTAÇAO CULTURAL: UMA ANÁLISE APLICADA A MATRIZ SWOT NA CANTORIA DE SÃO GABRIEL – BAHIA ....................................................................................................................................843 A IMPORTÂNCIA DE IMPLANTAR O TURISMO CEMITERIAL NA CIDADE DE JOÃO PESSOA .........................854 COMPLEXO VER-O-PESO: PATRIMÔNIO VIVO DE INTERAÇÃO SOCIAL........................................................865 O MIX MIDIÁTICO E CULTURAL DO REGGAE EM SÃO LUÍS-MA ..................................................................876 MARKETING DE DESTINOS TURÍSTICOS: UM ESTUDO SOBRE A IMAGEM MERCADOLÓGICA DE CABACEIRAS/PB - A “ROLIÚDE NORDESTINA” ........................................................................................889 CONHECENDO OS LUGARES: NOVA FLORESTA - PB ....................................................................................903 A IMAGEM COMO INFORMAÇÃO DAS ATIVIDADES GEOGRÁFICAS NA CAATINGA PARAIBANA ...............912 O POTENCIAL DO TURISMO DA BAÍA DA TRAIÇÃO NO LITORAL NORTE PARAIBANO ................................922 PERSPECTIVAS E DESAFIOS NO DEBATE DE PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL ................................930 GASTRONOMIA E AMBIENTAÇÃO NA PERCEPÇÃO CULTURAL DO BAR E RESTAURANTE VILA CARIRI – JOÃO PESSOA / PB ............................................................................................................................................938 CARNAVAL SERTANEJO - UMA PARTICULARIDADE DOS LUGARES FESTIVOS E TURÍSTICOS NO INTERIOR DE GOIÁS ......................................................................................................................................................949 MONUMENTO E MEMÓRIA ESPERANCENSE: UMA IDENTIDADE CULTURAL ..............................................963 TURISMO NO BREJO PARAIBANO: OS CAMINHOS DO PADRE IBIAPINA – NOTAS DAS OBSERVAÇÕES ATRAVÉS DO TEMPO...............................................................................................................................971 LAGOA DO CARRO - TERRA DO TAPETE: UMA TRADIÇÃO QUE NÃO PODE SER PERDIDA ..........................982 A IDENTIDADE DO SUJEITO NO ENTRE-LUGAR DO MUNDO PÓS-MODERNO .............................................992 PATRIMÔNIO CULTURAL DE CAROLINA - MA: SUBSÍDIOS PARA O TURISMO SUSTENTÁVEL ...................1003 O TREM DE CAMPINA GRANDE: HISTÓRIA, CULTURA E TURISMO ALÉM DO “MAIOR SÃO JOÃO MUNDO” ..............................................................................................................................................................1012 ESTRANGEIRISMOS NO COTIDIANO TURÍSTICO E HOTELEIRO ..................................................................1019 DO TURISMO GLOBAL AOS MODELOS ALTERNATIVOS: REFLEXÕES A PARTIR DA PERSPECTIVA DO LUGAR E IDENTIDADE ..........................................................................................................................................1028 TURISMO EM SERRA TALHADA: NO COMPASSO DE LAMPIÃO .................................................................1040 DESENVOLVIMENTO CULTURAL E TURÍSTICO: UM PASSEIO NA ROLIÚDE NORDESTINA..........................1050 O DOCE PATRIMÔNIO DE SÃO CRISTÓVÃO-SE .........................................................................................1058 EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: AÇÕES QUE VALORIZAM A IDENTIDADE DO LUGAR E PROMOVEM O TURISMO ..............................................................................................................................................................1070

5 - Turismo no Espaço Rural.................................................................................................. 1081
COMBATE AO DESMATAMENTO EM PROL DO AGROTURISMO ................................................................1082 POTENCIAL TURÍSTICO-RURAL NO VALE DO PIANCÓ: SERTÃO PARAIBANO .............................................1090

TURISMO: FLANCO PARA O DESENVOLVIMENTO RURAL NO MUNICÍPIO DE ROSANA-SP .......................1099 APRENDENDO GEOGRAFIA NO CAMPO.....................................................................................................1111 A FESTA DA MANDIOCA, COMO ATRAÇÃO TURÍSTICA NO MUNICÍPIO DE PRINCESA ISABEL – PB ..........1120 AS POTENCIALIDADES DO MUNICÍPIO DE TAVARES (PB) PARA A PRÁTICA DO TURISMO RURAL ............1132 TURISMO RURAL NO BREJO PARAIBANO: A ROTA CULTURAL CAMINHOS DOS ENGENHOS ....................1144 TURISMO ACADÊMICO E ECOLÓGICO NA CAATINGA DO CARIRI PARAIBANO ..........................................1154 TURISMO RURAL NA AGRICULTURA FAMILIAR: UMA ATIVIDADE COMUNITÁRIA ....................................1162 DO TURISMO DE MASSA AO TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA: QUAIS AS IMPLICAÇÕES NO DESENVOLVIMENTO LOCAL? UM ESTUDO DE CASO DO ASSENTAMENTO COQUEIRINHO- FORTIM/CE ..............................................................................................................................................................1174 O EXODO RURAL COMO FATOR DE DESENVOLVIMENTO DO TURISMO RURAL E DO ENOTURISMO .......1188 INVENTARIAÇÃO PARTICIPATIVA PARA O TURISMO NO ESPAÇO RURAL..................................................1197 CONTRIBUIÇÃO DOS ELEMENTOS METEOROLÓGICOS AO TURISMO RURAL NO SEMIÁRIDO PARAIBANO CABACEIRAS ..........................................................................................................................................1209 TURISMO RURAL UMA OPORTUNIDADE DE NEGÓCIO PARA O DESENVOLVIMENTO DO SÍTIO BETEL – CANTÁ – RR ...........................................................................................................................................1224

6 - Ecoturismo e Geoturismo ................................................................................................ 1235
O TURISMO GEOCIENTÍFICO NA SERRA DA SANTA CATARINA-PB ............................................................1236 GEOPARQUE SERIDÓ: UM NOVO OLHAR SOBRE O SERIDÓ POTIGUAR ...................................................1246 GEOTURISMO E IMPACTOS AMBIENTAIS NO PARQUE ESTADUAL DO PICO DO JABRE NO MUNICÍPIO DE MATUREIA-PB .......................................................................................................................................1259 AS POSSIBILIDADES DE REALIZAÇÃO DO GEOTURISMO NAS IMEDIAÇÕES DA CACHOEIRA DO OURICURI PILÕES / PB............................................................................................................................................1269 ECOTURISMO NAS MATAS DE BREJO DE ALTITUDE DA PARAÍBA: UM ESTUDO DE CASO NA RESERVA ECOLÓGICA MATA DO PAU-FERRO, EM AREIA-PB ...............................................................................1281 PRESERVAÇÃO AMBIENTAL E ECOTURISMO NA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO ESTADUAL MATA DE GOIAMUNDUBA EM BANANEIRAS-PB ..................................................................................................1290 ECOTURISMO: EMPREENDEDORISMO NAS TRILHAS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ...................................1299 ECOTURISMO EDUCATIVO COMUNITÁRIO, UMA PROPOSTA PARA A RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ESTADUAL PONTA DO TUBARÃO – RN..........................................................................1309 A PAISAGEM NO ECOTURISMO..................................................................................................................1318 GEOTURISMO, GEODIVERSIDADE E GEOCONSERVAÇÃO DO VALE DOS DINOSSAUROS – PARAÍBA ........1326

1 - Planejamento, Projetos e Programas Turísticos

TURISMO SERTANEJO ESTRATÉGIAS E PLANOS DE AÇÕES EM COMUNIDADES

Prof. Dr. Giovanni Seabra Professor Associado III da Universidade Federal da Paraíba gioseabra@gmail.com RESUMO

O planejamento pressupõe a ideia de que algo será realizado em um determinado espaço de tempo e em um dado lugar. Planejar é prever o rumo dos acontecimentos, num processo contínuo de tomada de decisões em direção aos objetivos propostos. Estratégia é o procedimento para obtenção dos fins almejados, segundo os recursos e tempo definidos. Qualquer projeto de planejamento requer cronograma de execução, planilha de custos e fontes de recursos, itens exigidos nos planos iniciais e necessários à sua execução. Contudo, na esfera governamental, são vários os projetos turísticos interrompidos ou abandonados. Na maioria das vezes os recursos utilizados para implantação dos empreendimentos turísticos são muito superiores aos anteriormente orçados, exigindo verbas adicionais para a sua continuidade. Entretanto, é possível encontrar equipamentos turísticos simples, de bom gosto, e de baixo custo em pequenas cidades sertanejas e projetos turísticos comunitários, mantendo o lugar turístico singelo e acolhedor. PALAVRAS-CHAVES: Planejamento Turístico, Turismo Comunitário, Turismo Sertanejo. O turismo é definido pela Organização Mundial do Turismo – OMT, como o deslocamento para fora do lugar de residência habitual, por um período mínimo de 24 horas e um máximo de 90 dias, motivado por razões não lucrativas. Também é considerado como atividade turística, o excursionismo, fluxo de pessoas empreendendo rápidas visitas aos destinos e pontos turísticos, com duração menor que 24 horas. O conceito de turismo, portanto, não reflete o que é a atividade na sua essência, estruturalmente sistêmica, holística e integrada, resultado de processos sociais e culturais não quantificáveis, imprescindíveis à sua sustentabilidade e perpetuação. Esses aspectos são invariavelmente esquecidos no planejamento e execução dos megaprojetos turísticos, cujo objetivo é propiciar o atendimento industrial à massa, e não ao ser. O turismo assim concebido é explicado quase que unicamente pelo caráter econômico, portanto insuficiente à compreensão do fenômeno turístico em sua totalidade. O planejamento pressupõe a ideia de que algo será realizado em um determinado espaço de tempo e em um dado lugar. É uma tomada de atitude que define um futuro desejado e aponta as
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providências necessárias ao cumprimento dos objetivos (AQUINO; SEABRA, ALMEIDA, e RODRIGUES, 2011). Nesse contexto, planejar é prever o rumo dos acontecimentos, num processo contínuo de tomada de decisões em direção aos objetivos propostos. O planejamento estratégico é um instrumento básico na definição de metas em políticas públicas e empresariais contemplando a dimensão nacional e as escalas regional e local (AQUINO; SEABRA, ALMEIDA, e RODRIGUES, 2011). Estratégia, portanto, é o procedimento para obtenção dos fins desejados, segundo os recursos e tempo definidos. Qualquer projeto de planejamento requer cronograma de execução, planilha de custos e fontes de recursos. Esses itens são exigidos nos planos iniciais e necessários à execução do projeto. Os planos definem os objetivos, estabelecendo os inventários, diagnósticos, prognósticos, estratégias e programas de ação. Contudo, na esfera governamental, são vários os projetos turísticos interrompidos ou abandonados. Os recursos destinados a implantação dos empreendimentos turísticos são comumente liberados através das emendas parlamentares. Muitos deles exigem verbas adicionais para sua continuidade e, quando não atendidos, os projetos são sumariamente interrompidos. Assim, somas consideráveis do capital público investido no turismo, trafegam no plano abstrato. Recursos vultosos são mobilizados para implantação de infraestrutura, capacitação de mão de obra, promoção de festas, feiras, mix e marketing, sem resultados palpáveis no campo socioeconômico. Revitalizações dos sítios históricos, construção de praças, monumentos, e outros equipamentos, possuem utilidade pública duvidosa, devido a sua ineficácia. Além do mais, esses elefantes brancos são erguidos a um custo bem maior do que o necessário, para serem abandonados em seguida. Essa é a regra. Entretanto, é possível encontrar equipamentos turísticos simples e de bom gosto, em pequenas cidades sertanejas e projetos comunitários, tornando o lugar turístico singelo e acolhedor. Isso pode ser constatado ao observarmos pequenas obras, como pórtigos, praças, mercados municipais e outros logradouros públicos, além da preservação do patrimônio arquitetônico, a exemplo das cidades de Alagoa Grande, no Brejo Paraibano, e de São João do Cariri, respectivamente, a seguir.

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Alagoa Grande, Brejo Paraibano; São João do Cariri, Cariri Paraibano.

O Projeto Turismo Sertanejo é um exemplo de planejamento integral participativo, apesar do desinteresse dos órgãos oficiais pelo caráter sustentável e inclusivo nele contido. Ao longo de sua trajetória iniciada no ano de 1985, com a elaboração e implantação de roteiros turísticos na Região Central da Bahia, atualmente integrados ao Circuito Turístico do Diamante, os planos, programas e ações são pautados nos princípios da sustentabilidade ambiental, socioeconômica e cultural. Um dos projetos pioneiros, sob nossa coordenação, envolveu a exploração de cavernas nos municípios de Lençóis, Seabra, Iraquara, Andaraí e Itaetê, turisticamente estruturados em rede, cujas malhas interligam os arranjos produtivos do garimpo, da agricultura familiar e do ecoturismo (Seabra, 1991). Para integrar e fortalecer o Projeto Turístico da Chapada Diamantina, outros municípios foram incorporados ao circuito turístico, como Palmeiras, Mucugê e Ibicoara (Seabra e Neu, 2010). Nos anos seguintes implantamos outros projetos turísticos na Região Nordeste, numa clara demonstração de que é possível o desenvolvimento do turismo com inclusão social e preservação ambiental. A gestão dos projetos turísticos de base local deve ser realizada não apenas através da inclusão de grupos sociais economicamente organizados ou politicamente instruídos pertencentes à comunidade. Segundo Beni (2006), o empoderamento deve incluir também o indivíduo enquanto cidadão, dando-lhe maior autonomia e autoridade sobre as decisões que influenciam a própria vida. Entendemos como arranjos produtivos, as cadeias econômicas de base local, cujos laços as vinculam fortemente aos sistemas turísticos integrados. Na cadeia produtiva do turismo de base local a comunidade participa como sujeito e não como objeto de exploração turística em todas as fases de elaboração, implantação e gestão do projeto (Seabra, 2007b). Os Arranjos Produtivos Locais – APLs são manifestações econômicas espontâneas no seio popular, surgidas quase que totalmente à margem do Estado. São iniciativas autônomas de caráter informal e familiar, via de regra criadas sem qualquer apoio governamental e/ou privado substancial. Quando muito, os
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incentivos governamentais e privados surgem na medida em que os projetos sociais apresentam resultados e ganham visibilidade, principalmente ou tão somente através da força midiática televisiva. Quando nos referimos aos sistemas integrados do turismo, pretendemos distinguir a atividade descentralizada e participativa, portanto sistêmica, daqueles denominados macrossistemas turísticos, de caráter pontual, setorial, concentrador e socialmente excludentes. Na ausência dos governos como órgão planejadores do turismo, as APLs constituem a base econômica e social do turismo sertanejo. A espacialização do turismo sertanejo abrange diferentes lugares turísticos, cuja identidade reside nos atrativos naturais e no patrimônio cultural, material e imaterial. Neste sentido, o lugar do turismo é definido com a presença destacada de monumentos geológicos, geomorfológicos, mananciais hídricos, reservas de fauna e flora, modelo econômico tradicional, como também as manifestações folclóricas e culturais. Esses elementos definem o lugar turístico, e quando compreendem um território caracteriza, no conjunto, a zona turística, onde são incorporadas e melhoradas as vias de acesso e de circulação, bem como equipamentos e serviços turísticos. Na realidade brasileira e da maioria dos países da América Latina, o turismo integrado deve ser descentralizado e (des) segmentado, de maneira a atingir maior número de usuários, sobretudo os segmentos sociais excluídos. Para o desenvolvimento do turismo com benefício social, sugerimos a estruturação do setor no modelo sistêmico (Bertalanffy, 1972; Beni, 1998), proporcionando a integração dos diversos segmentos sociais e setores econômicos envolvidos, em todos os níveis e sob todos os seus aspectos (Seabra, 2007a). Neste modelo de turismo alternativo priorizamos o ócio criativo (Masi, 2000), permitindo ao viajante ascender a níveis superiores de bem estar espiritual, através do contato com a natureza e a cultura local. Historicamente as estratégias do governo federal para o turismo deixam muito a desejar. O Plano Nacional de Turismo – PNT 2007/2010 – uma Viagem de Inclusão (Brasil, 2006) foi apresentado com destaque na mídia como um instrumento de planejamento e gestão, no qual o turismo seria o indutor do desenvolvimento, geração de emprego e renda, e inclusão social no País. Segundo o PNT, a inclusão deveria ser alcançada por meio da produção e criação de novos postos de trabalho, ocupação e renda; e através do consumo, com a absorção de novos turistas no mercado interno. O PNT previa a melhoria dos aeroportos, inclusão de 16 milhões de aposentados no turismo interno e consolidar o Brasil como um dos principais destinos turísticos mundiais. O fortalecimento do mercado interno permitiria a geração de 1,7 milhão de empregos no setor até 2010, além de aumentar para 217 milhões o número de viagens no mercado interno. Também estava previsto no PNT 2007-2010, a organização de 65 destinos turísticos, distribuídos em todo o território nacional, dentro de um padrão internacional de mercado.
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Como se sabe não foi bem assim. A partir de 2007, os aeroportos tornaram-se ainda mais caóticos, dezenas de cursos de turismo foram fechados e os aposentados, antes agracidados com o crédito fácil, agora endividados estão impedidos de viajar. Conforme Beni (2006, p.32),

a história mais uma vez, infelizmente está se repetindo; o que temos visto com muita frequência são cenários de roteirização regionalizada em vez de regionalização sustentável do turismo, pois não há planos e não existem projetos.

Por tradição no Brasil, é evidente a priorização do quantitativo em lugar do qualitativo nas políticas públicas aplicadas ao turismo. O turismo sertanejo envolve a atividade turística em toda a sua complexidade, considerando em uma de suas vertentes a cultura popular, tanto no aspecto imaginativo e criativo, como fonte geradora de renda para as famílias sertanejas. Mesmo ignorado pelos órgãos oficiais e políticas públicas, em níveis federal, estadual e municipal, o Projeto Turismo Sertanejo, tem alcançado excelentes resultados na execução dos planos para implantação de roteiros e circuitos turísticos no sertão, sempre fiel aos seus objetivos (Seabra, 2007a):
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Inventariar o potencial turístico regional e local; Elaborar diagnósticos e zoneamentos nos municípios e localidades; Resgatar e fortalecer a identidade cultural local; Definir roteiros e elaborar circuitos integrados; Melhorar infraestrutura, equipamentos e serviços; Adequar os equipamentos à paisagem natural e cultural; Capacitar membros da comunidade residente; Agregar parceiros potenciais; Elaborar calendário turístico; Adotar estratégias de Marketing.

O procedimento em tela vem sendo adotado no desenvolvimento e execução de projetos em diferentes estados da Região Nordeste, conforme a seguir. Mesmo sem os incentivos necessários à consolidação dos projetos turísticos sertanejos, alguns deles, já implantados, são amplamente divulgados através dos diversos meios de divulgação, como a Chapada Diamantina, terceiro destino turístico da Bahia e o Cariri Paraíbano, principal zona turística do interior da Paraíba.

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Vale do Pati, Chapada Diamantina; Sacas de Lã, Cariri Paraibano.

Na Chapada Diamantina, o Circuito Turístico do Diamante abrange oito municípios Lençóis, Andaraí, Mucugê, Itaetê, Palmeiras, Seabra, Iraquara, e Ibicoara, e os principais atrativos são a paisagem natural do Parque Nacional da Chapada Diamantina, a cultura garimpeira e as cavernas da região calcária (Seabra e Neu, 2011). O Cariri Paraibano compreende roteiros rurais e urbanos, que no conjunto denominamos Circuito Turístico do Bode e do Algodão integrando, através de rotas e roteiros, os municípios de Cabaceiras, São João do Cariri, Monteiro e Prata. Situado no trópico semiárido do Estado da Paraíba, a Região do Cariri se caracteriza por apresentar elevadas temperaturas e índices pluviométricos reduzidos. A região possui baixas densidades demográficas e elevados índices de emigração, necessitando permanentemente dos programas sociais governamentais para assegurar qualidade de vida mínima aos habitantes. Todavia, o Cariri Paraibano possui um potencial turístico elevado, apesar do clima hostil. Além dos quatro municípios que integram o Circuito Turístico, os atrativos turísticos paisagísticos e culturais são encontrados em toda a região do Cariri Paraibano, que abrange 29 municípios. Contudo, faltam políticas públicas eficazes para a implantação e consolidação dos projetos e roteiros turísticos na Região do Cariri. Nos arranjos produtivos locais do Cariri estão inseridos diversos elementos integrantes do sistema turístico, como os sistemas hídricos, o criatório animal, os métodos de cultivos, a culinária regional os artigos artesanais derivados da madeira, couro e algodão, o folclore a poesia e a musicalidade. As manifestações populares, folclóricas e os festejos religiosos são uma marca do da região (Seabra, 2002). No folclore regional encontramos as manifestações ligadas ao ciclo do gado, como as vaquejadas, corridas de argolinhas, a pega do boi, o aboio, emboladores de coco, as congadas, repentistas e romarias. A música está presente em toda a população do Cariri, principalmente o forró pé de serra e as bandas de forró eletrônico. Os rústicos artigos de couro,
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fibras vegetais e algodão, associados à típica culinária regional, têm mercado certo dentro e fora da Região do Cariri. O tear manual para produção de redes, tapetes, mantas e bolsas fortalece a economia regional e constitui mais um elemento para o desenvolvimento do turismo local. São também recursos turísticos do Cariri as formações geomorfológicas, destacando-se os lajedos, as pedras furadas e os mares de pedras. O Lajedo do Pai Mateus, no Município de Cabaceiras, está consolidado como um dos mais importantes destinos turísticos no interior da Paraíba. Neste local, sobre extensos lajedos, são encontradas grandes quantidades de blocos rochosos esféricos, denominados caos de pedras. A Muralha dos Gigantes, em São João do Cariri, é uma elevação de rochas graníticas e metamórficas que se prolonga desde a divisa com o Rio Grande do Norte até as proximidades de Pernambuco, cortando a Paraíba de norte a sul, por mais de cem quilômetros (Seabra, 2002). Em Monteiro destaca-se na paisagem natural a Pedra do Peru, cujo mirante permite vista panorâmica do bioma caatinga e lugarejos próximos, e a Serra do Jabitacá, onde brotam as nascentes do Rio Paraíba, maior curso d´água do Estado. Nos sítios arqueológicos são encontradas inscrições e figuras rupestres da Tradição Agreste e Itacoatiara. São registros de passagem dos pequenos grupos humanos que outrora habitaram os sertões nordestinos normalmente encontrados junto aos rústicos objetos utilitários primitivos e testemunhos da fauna pleistocênica. No tocante ao turismo rural de base local, aqui diferenciamos o turismo rural de base comunitária e o turismo no espaço rural propriamente dito. No turismo rural comunitário os turistas são recepcionados pelas famílias campesinas e usufruem da vida cotidiana, conhecendo a cultura local e se utilizando dos equipamentos rurais simples, para acomodação e lazer. Já no turismo desenvolvido no espaço rural implantado pelas empresas rurais, os turistas são recebidos e acompanhados pelos funcionários do empreendimento hoteleiro (Seabra, 2012). Na região fronteiriça entre Monteiro e Prata surge imponente a Serra da Matarina, cujas comunidades rurais da agricultura familiar tornaram-se conhecidas pela cultura musical, cuja maior expressão é Zabé da Loca, patrimônio imaterial do Cariri Paraibano, tocadora de pífano e moradora num acanhado abrigo de pedra. No Sertão do Araripe, o turismo social na agricultura familiar, cuja base é a zona rural de Ouricuri, Pernambuco, os roteiros turísticos são permeados pela paisagem natural da caatinga, a cultura popular, os métodos tradicionais de produção rural e as tecnologias alternativas para o convívio do homem com os grandes períodos de estiagem.

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Turismo Social Rural em Ouricuri, Sertão de Pernambuco.

No Agreste Pernambucano – o projeto denominado Caminho das Pedras: o turismo ecológico de base geológica no Agreste Pernambucano enfatizou, nos roteiros estruturados, as notáveis feições geológicas do Planalto da Borborema, integradas ao quadro cultural e sócio econômico dos municípios de Gravatá, Bezerros, Belo Jardim e Brejo da Madre de Deus. No Sertão do Pajeú – roteiro abrangendo a agora chamada Rota do Cangaço, nele inseridos os engenhos de rapadura, a história do fanatismo religioso e os centros da poesia sertaneja. O circuito estruturou em rede os municípios de Serra Talhada, São José do Bel Monte, Triunfo, Flores, Tabira e São José do Egito. Não obstante a comprovação da viabilidade dos roteiros acima mencionados, inclusive com vistas programadas de grupos, não houve qualquer interesse dos governos federal, estadual e prefeituras municipais na construção de parcerias necessárias à consolidação dos roteiros. A aprovação de projetos direcionados ao desenvolvimento do turismo continua centralizada politicamente e economicamente. Qualquer mudança no sentido da sustentabilidade do setor deve ser pautada na observância da base local e gestão compartilhada dos arranjos produtivos do turismo.

Caminho das Pedras, Agreste Pernambucano. 18

As políticas públicas centralizadoras, a ausência e o desinteresse dos governos estadual e municipal, a concentração de renda, as limitadas condições socioeconômicas da população, a deficiência de equipamentos e serviços urbanos, além da precária estrutura de lazer no contexto geral, são entraves ao desenvolvimento de um projeto turístico regional sustentável. É preciso, entretanto, que um projeto de turismo de base social siga um planejamento consciente, no qual os municípios envolvidos integrem circuitos e não pólos de desenvolvimento, e que tenha como principais parceiros e incentivadores a comunidade local, o estado, prefeituras municipais e o Governo Federal. O turismo é parte da cultura e esta um produto turístico, cuja sustentabilidade de ambos é proporcional ao nível de participação dos membros comunitários. A inclusão social e econômica da população residente nos projetos turísticos deve ser meta prioritária das políticas públicas para o planejamento do turismo regional e local, a fim de preservar os bens culturais materiais e imateriais para as gerações futuras.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AQUINO, Afonso R.; SEABRA, Giovanni F.; ALMEIDA, Josimar R.; RODRIGUES, Manoel G. Conhecimento, Gestão e Empreendedorismo: estratégias de ação, métodos e instrumentos do empreendedor. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2011. BENI, Mário C. Política e Planejamento do Turismo no Brasil. São Paulo: ALEPH, 2006. _____. Análise Estrutural do Turismo. São Paulo: SENAC, 1998. BERTALANFFY, L. V. General Systems Theory. New York: Braziller, 1972. BOULLÓN, Roberto C. Planejamento do Espaço Turístico. Bauru: EDUSC, 2002. BRASIL. Plano Nacional de Turismo 2007/2010: uma viagem de inclusão. Brasília: Ministério do Turismo, 2006. CRUZ, Rita de Cássia. Política de turismo e Território. São Paulo: Contexto, 2000. MAIS, Domenico de. Ócio Criativo. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2000. MOLINA, Sergio e RODRIGUES, Sergio. Planejamento Integral do Turismo: um enfoque para a América Latina. Bauru: EDUSC, 2001. NEU, Claudia. Garimpo Manual de Igatu: o Barranco de Gererê e seus efeitos no meio ambiente. In Anais do VI Encontro Regional dos Geógrafos Brasileiros. João Pessoa/Recife: Neoplanos, 1997.
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SEABRA, Giovanni e NEU, Claudia. Parque Nacional da Chapada Diamantina, Estado da Bahia, Brasil: patrimônio e turismo. In IGLESIAS, Maria Carolina C. (Org.). Patrimonio Turistico em Iberoamérica. Santiago: IPT, 2011. SEABRA, Giovanni. Natureza, Cultura e Turismo em Unidades de Conservação. In PORTUGUEZ, Anderson; SEABRA, Giovanni; QUEIROZ, Odaléia. Turismo, Espaço e Estratégias de Desenvolvimento Local. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2012. _____. Turismo Sertanejo. João Pessoa: Editora Universitária / UFPB, 2007a. _____. Turismo Sertanejo: a cultura local e o desenvolvimento regional In SEABRA, Giovanni. (Org.). Turismo de Base Local. João Pessoa: Editora Universitária / UFPB, 2007b. _____. As rotas culturais do turismo sertanejo. Revista Conceitos. V. 5, n. 7. João Pessoa: ADUF, 2002. _____. Ecos do Turismo: o turismo ecológico em áreas protegidas Parque Nacional da Chapada Diamantina. Tese de Doutorado. São Paulo: FFLCH / USP, 1998. _____. Estudo geomorfológico da Região Cárstica de Andaraí: uma contribuição à conservação de cavernas. Dissertação de Mestrado. Recife. Departamento de Geografia. CFCH/UFPE, 1991.

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TURISMO DE BASE LOCAL EM COMUNIDADES: PROPOSIÇÕES, AÇÕES E RESULTADOS

Anderson Pereira PORTUGUEZ Professor Doutor do Curso de Geografia da FACIP – Universidade Federal de Uberlândia e Professor Colaborador do Mestrado Profissional em Gestão em Negócios Turísticos da Universidade Estadual do Ceará. anderson@pontal.ufu.br

RESUMO

O presente trabalho traz reflexões acerca de temas inerentes ao desenvolvimento do turismo de base local, tendo as comunidades como escalas de reflexão e planejamento do mesmo. Propõe-se aqui, um diálogo teórico com alguns autores que vêm se debruçando sobre esta temática na perspectiva de aportar novas argumentações para uma compreensão crítica desta questão. Partiu-se do princípio de que as concepções acadêmicas de comunidade, desenvolvimento e lugar, são em termos concretos, repletos de contradições e possibilidades, o que exige uma teoria permeável e aberta para compreendê-los desde parâmetros transdisciplinares. Enquanto conceitos, estes assumem dimensões muito plurais, o que permite um rico debate sobre o tema proposto. PALAVRAS-CHAVE: Comunidades. Desenvolvimento Local. Turismo.

1 DESENVOLVIMENTO LOCAL: TERMO INCONCLUSO, COMPLEXO E CONTROVERSO

A palavra desenvolvimento tem gerado uma série de discussões acirradas entre diferentes correntes político-ideológicas e acadêmicas desde a segunda metade do século XIX. Em trabalho anterior (Portuguez, 2010) afirmamos que a construção acadêmica do conceito de desenvolvimento não é una iniciativa recente. Desde o final do século XIX, autores como A. Marshall vêm buscando amadurecer a compreensão deste processo (SFORZI, 1999). Em una atuação paralela, os setores produtivos (agronegócios, indústrias, turismo e outros) e as políticas de Estado também se enveredaram em tentativas diversas de proposição conceitual, manifestando assim concepções não científicas de desenvolvimento.

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Etimologicamente, o vocábulo originou-se do termo involvere, que em Latim significa enrolar, ou rolar sobre1. Popularmente, o desenvolvimento é entendido como um processo de avanço de determinadas condições do bem-viver. Em termos acadêmicos, este termo exige uma ampla gama de categorias de análise que envolve variáveis sociais, econômicas, ambientais, político-ideológicas, psicológicas, culturais, históricas e muitas outras. Como se trata, portanto, de um conceito polissêmico, polimorfo e inconcluso, neste momento, trataremos do desenvolvimento visto a partir de algumas escalas que nos permitirão abordá-lo de forma mais circunscrita. São elas: a escala social (no âmbito da comunidade), a escala territorial (no âmbito do lugar), a escala histórica (o tempo presente) e a escala cultural (da sociedade brasileira). Iniciemos, pois, lembrando que o conceito clássico de desenvolvimento é, por definição, um conceito capitalista e que prosperou dentro da lógica econômica e sociocultural das sociedades ocidentais, como nos ensina o Souza (2008):
As discussões sobre “desenvolvimento” têm se apresentado como extremamente viciadas: vícios como economicismo, etnocentrismo, teleologismo (etapismo, historicismo) e conservadorismo têm flagelado, em combinações e com pesos variáveis, quase toda a literatura teórica sobre o tema, que despontou após a Segunda Guerra Mundial. O usual, no tocante ao assunto, ainda é tomar o “desenvolvimento” como sinônimo de desenvolvimento econômico, e mesmo a maioria das tentativas de amenizar o economicismo (inclusive da parte de um ou outro economista) não consegue ultrapassar o seguinte ponto: no limite. A modernização da sociedade, em sentido capitalista e ocidental é o que se entende por desenvolvimento. Considerações sobre problemas ecológicos e sociais, via de regra, não têm servido para outra coisa que meramente relativizar ou suavizar o primado da ideologia modernizadora capitalista, sem destroná-la e mesmo sem questioná-la radicalmente (SOUZA, 2008, p. 60).

Como o modo de produção capitalista passou por diferentes momentos em sua história, os processos de desenvolvimento foram moldados à lógica dominante em cada momento, ainda que as premissas economicistas sempre estivessem presentes de forma muito patente em todas as suas versões. Segundo Vachon (2001), no século XX, após a 1ª Guerra Mundial, o modelo pós-fordista de desenvolvimento apoiou-se na urbanização, na industrialização (e em todas as lógicas de produção em série), na modernização/inovação e no avanço dos meios de circulação (de matérias-primas, produtos, força de trabalho e capitais financeiros).

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Disponível em: http://www.academia.org.br/. Acessado em 28 de maio de 2012.

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De acordo com Harvey (2005) este desenho de desenvolvimento se baseia em um discurso de sociedade fortemente marcada pela estratificação social, tendo o Estado como legitimador do modo de produção e dos interesses das elites que o engendra. Portanto, pensar em desenvolvimento nos moldes do pós-fordismo, significa pensar em como criar os meios para que o capital se reproduza de forma econômica e sociopoliticamente concentrada. Nesta lógica, o desenvolvimento ocorre de cima para baixo, do Estado para a sociedade, do urbano para o rural, da elite para as classes subalternas e praticamente todas as ações em favor do desenvolvimento satelitizam a dimensão econômica. Em trabalhos anteriores (Portuguez, 2004 e 2010) já apontamos que estas instâncias de decisão se restringem a pouquíssimos territórios, forçando o surgimento de uma constelação de poucas estrelas composta pelos lugares centrais do mundo capitalista e em um vasto sistema de lugares periféricos que a satelitiza. Ultimamente, tem-se lido e ouvido nos meios de informação de massa, opiniões de ditos “especialistas” que defendem que este modelo está falido, superado e ultrapassado. A despeito de todas as crises internacionais ocorridas desde a Segunda Guerra Mundial, em especial a mais recente, preferimos dizer que este modelo se redesenhou a partir da explosão técnico-científica do pós-guerra. Refazer-se significa adaptar-se a novos tempos e novo contextos e não pode ser confundido com desaparecer ou falir. Na medida em que os paradigmas mudaram, os velhos conceitos de desenvolvimento foram postos em questionamento e, desta forma, foram resignificados. Os discursos ideológicos emergentes passaram a conduzir a produção acadêmica em diversos países, impondo sérias críticas ao modo de produção capitalista, que esvaziou o conteúdo humano do desenvolvimento, condenando-o a meras cifras econômicas de países, de empresas e de sistemas produtivos. Segundo Souza (2008), estas questões são dilemas com os quais nos deparamos cotidianamente no espaço universitário. Elas são ensejadas pelos muitos adjetivos que o desenvolvimento vem recebendo ao longo do tempo e que a ele, atribuem uma roupagem mais agradável: etnodesenvolvimento, ecodesenvolvimento, desenvolvimento sustentável,

desenvolvimento endógeno, desenvolvimento social, desenvolvimento local (e/ou de base local), desenvolvimento comunitário, desenvolvimento humano (IDH), metadesenvolvimento e tantas outras denominações possíveis. Para o autor citado, este amplo contingente de parcialismos empobrece a verdadeira noção que o termo desenvolvimento deveria ter. Para ele o desenvolvimento é um processo integral, pautado nos princípios da autonomia, da justiça social e da qualidade de vida. Evidentemente, como o tema é complexo, cada um destes parcialismos comporta uma infinidade de interpretações e uma ampla possibilidade de aplicações práticas e isto tem dificultado a adoção de uma terminologia mais consistente para o estudo do desenvolvimento. Vejamos, por
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exemplo, o que tem ocorrido com a idéia de desenvolvimento sustentável, uma das mais conhecidas e debatidas. De um lado, vê-se que sob o manto da sustentabilidade, escondem-se interesses obscuros de grupos que manipulam a opinião pública e os meios de acesso ao poder e, desta forma, legitimam uma série de ações na reprodução do capital de forma descaradamente agressiva. Boa parte dos grandes projetos de agroecologia e bioenergia, por exemplo, fazem uso da sustentabilidade como cortina de fumaça para encobrir as grandes áreas de Cerrados que são desmatadas para a ampliação, por exemplo, da cana-de-açúcar (FREITAS e PORTUGUEZ, 2011). Esta manipulação despudorada do conceito de sustentabilidade pode ser constatada cotidianamente. A expressão é mencionada de modo muito reducionista pela mídia de massa e as políticas de Estado também a utilizam de forma banalizadora e superficial. Estes fatos fazem com que muitos pesquisadores desistam de fazer uso deste termo, como forma de mostrar aos seus pares que a sustentabilidade não existe e que eles não querem ser confundidos com os defensores deste modelo de (pseudo) desenvolvimento. Desta forma, criam novos termos, cunham uma nova expressão e, assim, as terminologias vão se proliferando e coexistindo ao invés de se sucederem. No plano das ações do mercado e da política, quando uma expressão de interesse acadêmico se desgasta, outra é apropriada e esvaziada pelos meios detentores do poder, em um movimento contínuo e nada ingênuo. Nesta perspectiva, sim, podemos considerar que há ausência de ética nas ações legitimadas por expressões potencialmente manipuladoras e belas, com forte apelo midiático, que se prestam a dar um caráter menos predatório e mais “humano” ao capitalismo informacional. Por outro lado, ao desistirem destes termos, como, por exemplo, o desenvolvimento sustentável (o que é compreensível), os pesquisadores acabam por presentear os grandes capitalistas com um slogan de forte impacto popular, com o qual eles seguirão fazendo apologia aos seus modelos insustentáveis e perversos de reprodução do capital. O mesmo princípio se aplica ao dito desenvolvimento local, (ou de base local, ou comunitário). Desde o início da década de 1990, com o advento do primeiro ciclo do Programa LEADER, que foi criado pela União Européia para a promoção do desenvolvimento rural, um crescente número de cientistas europeus tem se interessado em investigar as estratégias locais de desenvolvimento. No Brasil, este movimento se consolidou mais para meados desta mesma década. Desde então, figuram no meio acadêmico brasileiro, grupos discordantes quanto à possibilidade ou não de ser possível repensar a escala e a lógica do desenvolvimento, planejando-o e engendrando-o de baixo para cima, do lugar para as escalas mais amplas (PORTUGUEZ, 2010). Atualmente, são muitos os pesquisadores que se afirmam decepcionados com o dito desenvolvimento local ou comunitário, chegando a afirmar categoricamente a sua inexistência no
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plano fático, alegando que ele não passa de uma abstração teórica. De fato, a noção de desenvolvimento local (ou de base local, ou comunitário) ganhou contornos fantasiosos muito perigosos nos últimos 10 anos, pois foi inicialmente apresentado como uma grande oportunidade de recuperação econômica de comunidades marginalizadas pelo grande capital, mas que de fato, resultou em avanços extremamente tímidos e sequer chegou a contaminar o meio político da forma que se esperava. Neste sentido, sim, pode-se dizer que o desenvolvimento local converteu-se em falácia e que este discurso resultou em pouquíssimos estudos com propostas metodológicas que de fato potencializasse o dinamismo produtivo no âmbito do lugar, onde vivem as comunidades. Muitos dos pesquisadores que outrora trabalhavam com a idéia de desenvolvimento local, agora questionam esta expressão esvaziada pelo excesso de discurso e carência de efetivações. Buscam novos referenciais e novas balizas para suas argumentações, de forma que atualmente, a expressão que promete entrar em moda é “desenvolvimento comunitário”. Haveria alguma diferença significativa entre estes termos? O que houve para que a antipatia ao termo base local se agravasse? O termo desenvolvimento de base local, tão caro aos pesquisadores do turismo durante boa parte dos últimos anos, de repente, se vê mal falado por servir de cortina de fumaça que encobre os mais perversos interesses do capitalismo informacional. Além deste fato, há de se considerar que a expressão desenvolvimento de base local presume um desenvolvimento avesso ao modelo dominante, ao modelo derivado do hibridismo pós-fordista/informacional. Porém, são raros os lugares onde o desenvolvimento realmente ocorre de forma diferenciada, de baixo para cima (na estratificação social), do local para o global (em escala geográfica). Porém, advogamos uma postura menos radical por crermos que os conceitos não precisam gerar resultados plenos para gozarem de alguma efetividade prática. E é neste sentido que acreditamos na comunidade, na mobilização das bases locais, pois deveremos percorrer um longo caminho de (re)construção de ideais e ações entre o desenvolvimento que se tem (se é que se tem) e o modelo que se deseja. Não cremos na possibilidade de romper drasticamente com a tradição economicista dominante para mergulhar de uma só vez em seu contraponto. Acreditamos que a base local se constrói com o tempo e com a adoção de novas práticas sociais e comunitárias, de modo que, sim, estamos em pleno processo de amadurecimento. Por estas razões singelas, seguimos na defesa da comunidade como escala de planejamento e gestão do desenvolvimento local. Se os resultados um dia virão, só o tempo nos dirá, porém, entendemos que o ativismo acadêmico em si já se constitui em um grande passo rumo a um modelo social mais justo, mais igualitário e mais autônomo.

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2 COMUNIDADE: O PARAÍSO IMAGINADO E SUAS CONTRADIÇÕES

Para começar nossas reflexões sobre comunidades, para em seguida entendê-las como escala do desenvolvimento, precisamos, antes de tudo, entender uma distinção conceitual que será básica para nossas argumentações futuras. Neste texto, estamos entendendo que o lugar corresponde à dimensão geográfica da comunidade e esta, a comunidade, é a dimensão sociaoantropológica do lugar. Em outros termos, estamos friccionando dois conceitos escalares de dimensões reduzidas “só para ver o que acontece”. E esta ação é uma atitude deliberada, pois se desejamos o desenvolvimento do turismo a partir das bases locais, há de se entender então, o que é base social e o que é local2. De acordo com o VOLP – Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa3, o termo comunidade originou-se do vocábulo conmunitas, que em Latim, significa pessoas que partilham algo em comum, ou o que é comum a todos. Porém, a utilização corriqueira deste termo vai para além deste significado genérico, assumindo contextos muito específicos. Portanto, estamos tratando de um termo bastante controverso. O quadro 1, a continuação, traz um resumo de um balanço conceitual que realizamos recentemente para tratar desta temática:

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Também estamos, para efeitos desta reflexão, coincidindo os sentidos dos termos “lugar” e “local”. Disponível em: http://www.academia.org.br/. Acessado em 28 de maio de 2012.

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Quadro 1: Principais usos do termo comunidade no Brasil
Comunidade como agrupamento/vizinhança; como expressão de um fragmento da sociedade Muitas vezes a palavra comunidade é associada a bairro, vila, distrito de um município ou até mesmo é confundida com o termo região. Pode ainda representar o conjunto de condôminos de um edifício, assim como outros tipos de agregação de pessoas que ocupam um determinado espaço. Geralmente se organizam a partir de normas de convivência comuns e partilham do mesmo contexto socioespacial. Comunidade identitária São comunidades não definidas pelo sentido de vizinhança, mas sim de pertencimento: pessoas de uma mesma paróquia, freqüentadores de um determinado espaço religioso, grupos que partilham a mesma ideologia/filosofia política; comunidades estudantis, comunidade de empresários e outras. Comunidades tradicionais, ou não-concorrenciais Comunidades formadas por famílias que possuem a mesma origem étnico-cultural, ocupam o mesmo ambiente, partilham o mesmo sistema de normas sociais e se vinculam fortemente ao meio em que vivem, do qual dependem para assegurarem seus sustentos. São aldeias indígenas, grupos quilombolas, vilas rurais, vilas de pescadores artesanais, grupos de extrativistas tradicionais e outros. No caso dos indígenas e dos quilombolas, é relevante lembrar que eles lutam historicamente pelo reconhecimento de seus direitos constitucionais, em especial à demarcação de seus territórios. Comunidades de reivindicação Nestas comunidades o fator territorial não se mostra presente de forma direta, pois a mobilização se dá a favor dos direitos de igualdade das ditas minorias sociais. É o caso, por exemplo, das comunidades gays, comunidades negras, comunidades de imigrantes, entre outros exemplos. Comunidade como expressão de mobilização dos agentes locais de desenvolvimento Comunidades virtuais Comunidade como expressão da mobilização de um determinado grupo residente ou que trabalha em um determinado espaço, que se une para lutar por direitos e por interesses comuns; membros de associações diversas, sobretudo de moradores , sindicatos e cooperativas. Redes sociais que se intitulam de comunidades, formadas por grupos de amigos e conhecidos que se associam em páginas web destinadas a relacionamentos interpessoais. Comunidade como metáfora da geopolítica Comunidade como escala de divisão política de um determinado território. Acordos de livre comércio e/ou de cooperação entre nações são também conhecidas como comunidades. Neste sentido, a palavra comunidade assume papel de escala administrativa. No Brasil, muitas prefeituras elaboram seus orçamentos participativos com base em reuniões “comunitárias”. Na Espanha, as ditas “Comunidades Autônomas” são unidades territoriais dotadas de autonomia administrativa e legislativa Comunidades Naturais, ou biocenose Conjunto de seres vivos que fazem parte do mesmo ecossistema e que interagem entre si. Organização: Portuguez, A. P. (2012).

Estes conceitos não são precisos e frequentemente se mesclam. Bom lembrar que estas formas de comunidades frequentemente se sobrepõem, pois muitos indivíduos pertencem a mais de um formato de grupo, podendo interagir de formas diferentes com seus distintos pares. Um mesmo
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espaço pode comportar mais de uma comunidade, de tal sorte que em ambientes mais tecnificados, pode-se facilmente perceber a existência dos ditos espaços pluricomunitários. Evidentemente, quando há mais de um interesse de grupo incidindo sobre um território4 em específico, este pode se tornar palco de graves conflitos. Como nem todas as formas de comunidades reivindicam territórios, neste trabalho nos determos na concepção sociológica de comunidades locais, aqui entendidas como conjunto de pessoas e/ou famílias que ocupam um determinado lugar; vivem sob as mesmas normas de convívio e que partilham das mesmas necessidades coletivas e dos mesmos recursos socioespaciais. A comunidade é, para nós, a dimensão sociológica do lugar. É ela que lhe dá consistência e identidade, em contrapartida, o lugar, é a escala geográfica da comunidade. É aquela dimensão do espaço onde a vida se desenrola, onde as pessoas estabelecem de fato as suas relações pessoais e onde as instituições sociais ganham concretude territorial. Pensar o desenvolvimento do turismo à escala comunitária significa, portanto, manusear com muito cuidado os dois conceitos em favor de uma agenda pautada na melhoria das condições do bem-viver, na justiça social e na autonomia. Bauman (2003) traz uma série de reflexões muito inspiradoras sobre comunidades. Na introdução de sua obra ele nos lembra que há palavras, que para além de terem significados, inspiram sensações. O termo comunidade é um exemplo de vocábulo que nos faz sentir coisas boas ao falar nele, ou sobre ele dialogar. A palavra comunidade nos remete, para este autor, a uma série de impressões muito positivas, relacionadas ao sentir-se pertencente a um grupo social com o qual nos identificamos e com o qual desejamos permanecer conectados. Para Bauman (2003), esta é uma sensação aparente, pois a comunidade nos inspira a um mundo que não está ao nosso alcance, ma no qual gostaríamos de estar, de viver e de encontrar aqueles a quem nos afeiçoamos. Conclui afirmando que as comunidades seriam, em termos atuais, o paraíso perdido (ou paraíso esperado). Na realidade, o lugar da comunidade (dimensão geográfica do mundo vivido e sentido na vida ordinária) é o mesmo lugar dos conflitos. Bauman (2003) deixa esta reflexão bem clara ao discutir a noção banal de comunidade. Bem longe de ser apenas um refúgio de paz e felicidade entre pessoas que se unem por laços de afetividade, de vizinhança, de amizade e outros, a comunidade também é, cruel e contraditoriamente, onde nos deparamos com o crime de mando, com a briga de rua, a violência doméstica, a homofobia, o racismo, o bullying nas escolas, a intolerância religiosa, o assédio moral entre vizinhos, o acidente de trânsito e de muitas outras manifestações de conflitos resultante das relações humanas.

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O conceito de território, já bem amadurecido pela Geografia, pode ser genericamente entendido com sendo a porção apropriada do espaço, por uma pessoa ou grupo, de forma que sobre aquela parcela do tecido espacial haja uma clara expressão de poder e dominância.

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Isto ocorre, em grande parte, porque a vida em coletividade pressupõe um processo longo de aprendizado no qual adquirimos as habilidades necessárias para lidar com a heterogeneidade e com o que é contraditório. Neste sentido, a comunidade segue a lógica de organização da sociedade dominante e arranja-se a partir da grande complexidade que caracteriza a condição humana. A comunidade é, assim, uma escala social onde é possível estudar a luz da microsociologia, o fenômeno da pluralidade na unidade, de tal sorte que o plural não descaracteriza a unidade. Em termos acadêmicos, temos constatado diferenças significativas entre a apreensão da comunidade de acordo com a ciência que a estuda (Antropologia, Geografia, Economia, Sociologia e outras) e a fundamentação teórica adotada pelo autor de cada estudo (neopositivismo, neomarxismo, neoestruturalismo, humanismo e outros). O ir e vir do conceito e\ou o ir e vir ao conceito gera diferentes possibilidades de apreensão do que pode ser entendido como comunidade. Delimitar geograficamente o seu lugar no mundo, suas fronteiras, não tem sido tarefa fácil para os geógrafos que se dedicam ao seu estudo. Se partirmos de uma percepção superficial e frigorificada, a comunidade pode ser coincidida com a dimensão social e geográfica do bairro, da paróquia, da associação, da cooperativa, da vila, entre outros exemplos. Entretanto a pesquisa de campo tem mostrado que ao se estabelecer cartograficamente os limites dos lugares ocupados por distintas comunidades, não se pode levar em consideração apenas os aspectos objetivos do grupo humano. Há aspectos identitários de significado variável que são definidores do grupo, mas que são de difícil apreensão pragmático-espacial. Em termos tradicionais, os membros de uma comunidade geralmente são vizinhos, podem possuir (ou não) laços de parentesco e ocupam um espaço geográfico comum. Nesta visão banal, a concentração espacial das famílias facilita o mapeamento das dimensões do grupo. Porém, há exemplos de comunidades que não partilham destas características clássicas, mas mesmo assim se definem como tal. Em trabalho publicado anteriormente (Portuguez (2010), estudamos a comunidade de pescadores de Degredo, localizada no município de Linhares, no litoral norte do Estado do Espírito Santo. Esta comunidade é formada por aproximadamente 80 famílias que vivem da agricultura familiar, extrativismo vegetal e a pesca artesanal. Não há a tradicional vizinhança nesta comunidade, pois os moradores habitam residências que ficam muitas vezes a quilômetros de distância uma das outras. De norte para sul, Degredo corresponde a uma faixa alongada de litoral arenoso, de difícil acesso, que se estende por mais de 40 quilômetros e a zona de maior concentração de residências não chega a ter 20 unidades habitacionais. No entanto, durante as pesquisas que realizamos nesta localidade, ficou claro o sentimento de identidade da comunidade, que já começa a organizar, inclusive, suas primeiras associações.
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Sendo assim, para pensar o turismo a partir desta escala geográfica (lugar) e sociológica (comunidade), é necessário antes de tudo, entender que não se está operando com um grupo plenamente homogêneo, onde os interesses particulares coincidem com os coletivos; onde os sonhos e as angústias de uma família se repetem na casa vizinha. Isto porque no interior de uma comunidade encontraremos pessoas com religiões diferentes, com formações morais e éticas distintas, com percepções de prioridades diferenciadas e com expectativas próprias em relação ao turismo. Dito isto, passaremos, por fim, a algumas reflexões acerca das estratégias de mobilização de comunidades para a promoção do desenvolvimento. Trata-se de tema espinhoso, tarefa nada simples e extremamente desafiadora, mas que cremos poder gerar no longo prazo, os resultados que se deseja em favor do bem-estar coletivo.

3 UM ESTUDO DE CASO: MOBILIZAÇÃO DE COMUNIDADES PARA A PROMOÇÃO DO DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO NO ÂMBITO LOCAL.

Em 2009, quando trabalhávamos com oficinas de planejamento de base comunitária na Planície Costeira do Rio Doce (ES), elaboramos uma estratégia de atuação que se baseava em dois momentos-chave: pesquisa de opinião pública para coleta de dados sobre as atuais condições de existência nas comunidades e, em seguida, a realização de oficinas de planejamento participativo.

Fig. 1: Localização das comunidades de pescadores do Município de Linhares - Estado do Espírito Santo

Fonte: Base de dados do IBGE (2010). Organização: Portuguez, A. P. (2012).

A primeira etapa consistiu na seleção de duas amostras, sendo a primeira formada por chefes de famílias e a segunda por empreendedores locais. A coleta de dados foi realizada nas 3
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comunidades que se enquadravam na noção apresentada de comunidades locais: Regência, Povoação e Pontal do Ipiranga.

Tabela 1: Abrangência da coleta de dados em campo

Comunidades

Total de domicílios

Amostra

%

Total de empresas

Amostra

%

Regência Povoação

293 500

42 42

14,33 8,4

32 25

22 14

68,75 56,0

Pontal do Ipiranga

401

56

13,96

75

25

33,33

Fonte: Portuguez (2010, p. 67).

Após a aplicação dos questionários (fotos 1 e 2), estes foram tabulados para a produção de uma visão coletiva de cada comunidade, a partir da percepção de seus moradores. Uma lista com as 10 principais queixas em relação ao desenvolvimento das comunidades e ao bem-estar coletivo foi gerada para que na segunda etapa da campanha de campo (oficinas de planejamento participativo), pudéssemos refletir coletivamente sobre o que foi revelado pelos estudos estatísticos.

Fotos 1 e 2: Coleta de dados em residências e empresas da Planície Costeira do Rio Doce. Fonte: Portuguez (2010, p. 68)

Em cada uma das oficinas (figuras 3 a 5), realizamos uma apresentação dos principais anseios coletivos de cada um dos 3 grupos comunitários atendidos por nossa pesquisa, para em seguida, realizar uma sequência de dinâmicas de grupo (fotos 6 a 8) durante as quais debatíamos de que forma o turismo poderia colaborar para a superação daqueles entraves à uma vida mais justa para todos. Cientes da heterogeneidade interna de cada lugar e das comunidades que os ocupavam, utilizamos a estatística para apreender o que coletivamente era entendido como prioridade para cada
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comunidade. Durante as reuniões, mostrávamos de forma clara que estávamos cientes das necessidades individuais de cada família, mas que para que o turismo pudesse de fato ser bom para todos, teríamos que nos concentrar nos pontos que os uniam e não nos pontos que os diferenciavam entre si. Surpreendentemente, não foi difícil conseguir a cooperação entre os participantes das oficinas e no conjunto das 3 comunidades, elaborou-se 16 anteprojetos que foram encaminhados para os cuidados da Prefeitura. Até o fechamento da pesquisa, 7 projetos haviam tido algum resultado ou estavam em processo de viabilização.

Figuras 3, 4 e 5: Participantes das oficinas em cada uma das 3 comunidades Fonte: Portuguez (2010, p. 82).

Figuras 6,7 e 8: Dinâmicas de grupo para elaboração de projetos de desenvolvimento local com base no turismo comunitário. Fonte: Portuguez (2010, p. 517).

Como resultado desta experiência, observamos que o turismo precisa, para promover de fato o desenvolvimento comunitário, ser focado na promoção do bem-estar em escala local e deve ser engendrado pelos atores sociais do lugar, nos moldes do que nos ensina Coriolano (2012). Para esta autora, o modelo dominante de turismo foca-se em interesses externos e na acumulação de lucros, de forma que não traz para os residentes das comunidades, os benefícios esperados e pelos quais se trabalha arduamente. Ao contrário, o modelo comunitário mostra-se mais adequado, pois promove maior articulação das bases locais e é possível, ainda que com lucros reduzidos, gerar no longo prazo os benefícios desejados pela coletividade local. Seabra (2007) nos mostra caminho semelhante ao propor para Sertão nordestino, o que chamou de Turismo Sertanejo, que também se pauta no desenvolvimento a partir da mobilização
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das bases comunitárias. É também um contraponto ao modelo massificado do turismo litorâneo, que degrada o meio cultural e natural e que não respeita as identidades locais. Quando envolvidas no processo de planejamento, os moradores se posicionam coletivamente sobre o que podem ou não acatar como mudanças aceitáveis em suas vidas. Porém, observamos também que novos conflitos inevitavelmente surgem no seio da comunidade, pois o turismo não absorve de imediato todas as demandas sociais locais, mesmo quando planejado de baixo para cima. Neste ponto, o trabalho das lideranças se mostrou necessário no sentido de manter a unidade dos grupos, por meio da mediação de interesses. Bom lembrar que o turismo é uma atividade capitalista, seja ele planejado para o mercado global, seja ele planejado para pequenos fluxos. Por definição, ele não se justifica em lugares onde não geram lucratividade e seu papel primordial não é a promoção da caridade e nem gerará de forma igualitária: emprego, renda e benefícios para todos. Por isto o amplo esclarecimento é necessário. É por este motivo que as comunidades devem ter claro quais as suas expectativas com o lazer e o turismo e quais as limitações destes setores produtivos para atender às demandas locais, sejam eles dinamizados isoladamente, ou associada a outras atividades econômicas.

PARA CONCLUIR

Com este breve trabalho, desejamos mostrar o quão complexo são os conceitos de desenvolvimento e de comunidade. Vimos que existem diferentes concepções destes temas, pois eles interessam não só ao meio acadêmico, que por si só os vêem como multifacetados, mas também aos setores produtivos e às políticas públicas. Mas o fato de existirem noções diversificadas, não implica necessariamente em algo negativo. Ao contrário, talvez tenhamos aí uma riqueza que pode ser bastante útil para as pessoas que operam o planejamento de base local, quer no âmbito público, quer privado, quer no meio acadêmico. A fricção dos conceitos de lugar, comunidade e desenvolvimento nos permitiu observar que é possível trabalhar com estratégias alternativas de promoção do bem-estar baseadas nas necessidades das comunidades turísticas receptoras, focando o planejamento no enfrentamento das necessidades sociais no âmbito do lugar. Para isto, é necessário entender que o modelo pós-fordista de desenvolvimento, orientado pela economia de mercado e focado no turismo de massa não serve como parâmetro para a promoção do desenvolvimento de comunidades. Os atores sociais locais necessitam, neste caso, dotarem-se dos instrumentos necessários para a promoção do desenvolvimento e, neste sentido, há um amplo espaço para os novos profissionais de turismo e pesquisadores, que podem criar estratégias de capacitação de agendas locais de desenvolvimento.
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Como reflexão final, entendemos que não se trata, neste caso, de tutelar as comunidades. Necessitamos, como educadores, dar aos líderes locais os instrumentos necessários para que as comunidades possam empreender suas agendas com autonomia e criatividade. Nosso papel como pesquisadores deve pautar-se nesta perspectiva, na busca de modelos que possam ser apropriados pelas comunidades, maiores interessadas e beneficiárias da promoção do turismo de base local.

REFERÊNCIAS ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa. Disponível
em: http://www.academia.org.br/. Acessado em 28 de maio de 2012.

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SOUZA, M. J. L de. Mudar a cidade: uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbana. 5 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil: 2008. VACHON, B. El desarrollo local, teoría y práctica: reintroducir lo humano en la lógica del desarrollo. Tradução de Lourdes Pérez. Gijón: Trea, 2001.

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O NOVO PAPEL ASSUMIDO PELA GESTÃO PUBLICA NO (RE) ARRANJO DO TURISMO LOCAL: REFLEXÕES ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA

Paulo Sergio da SILVA Professor Doutor na Universidade Federal de Uberlândia – UFU/ESTES

RESUMO

O objetivo desse artigo em expor a trajetória do turismo e destacar os projetos desenvolvidos pela gestão pública no Brasil para o desenvolvimento desta atividade. Consiste também em fazer uma analise no âmbito da esfera pública e a efetivação destes projetos passando pelas iniciativas efetivadas no estado de Minas Gerais ao nível municipal. Para atingir este objetivo foi realizada uma incursão histórica tendo como recorte temporal o início dos anos de 1940, momento em que havia no Brasil uma tendência pública favorável à implantação dos cassinos. Posteriormente identificam-se as iniciativas públicas em nível federal voltadas para a elaboração de projetos turísticos destacando nesta esfera o Programa Nacional de Municipalização do Turismo – PNMT. Em nível estadual (Minas Gerais), foi analisado também como a gestão pública se organizou no sentido de promover a atividade e nele destaca-se a criação dos Circuitos Turísticos de forma a regionalizar e agrupar os lugares a partir das suas “tendências vocacionais” ou mercadologicamente inventadas. E finalmente foi analisado o envolvimento da gestão pública em nível local e suas articulações no sentido de também promover a atividade na municipalidade. Um resultado importante obtido após toda esta análise é que há uma dificuldade muito grande entre o planejamento turístico e sua efetivação nos locais onde estão sendo implantados. Uma das questões a ser destacada é nossa estrutura pluripartidária, em que nem sempre há um alinhamento entre as esferas públicas, ou seja, a união tem uma proposta que pode até se engajar na proposta do estado, mas não se enquadra politicamente no local. Desta forma assistimos à criação de inúmeros projetos eminentemente teóricos e que em sua maioria não se efetivam pelo fato de que não serem capazes de considerar as particularidades locais e agem tratando as comunidades e os bens patrimoniais (materiais e imateriais) do lugar de forma padronizada e homogênea. O resultado dessa falta de atenção é refletido nas descontínuas ações percebidas nos municípios que ao tentarem implantá-las, o poder público não consegue atingir satisfatoriamente a todos os segmentos envolvidos com a atividade turística. PALAVRAS-CHAVE: Arranjos turísticos, desenvolvimento local, Projetos turísticos, Gestão Pública.
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1 A INVENÇÃO DA ATIVIDADE TURÍSTICA: BREVE CONSIDERAÇÃO O turismo emerge sob a égide do capitalismo e se apresenta como uma atividade típica dessa sociedade, principalmente pós-revolução industrial, com uma capacidade múltipla de agregar diversos fatores para seu funcionamento, primeiramente individualista e altamente consumidores dos recursos naturais de forma desordenada. Talvez seja no ano de 1910 que esteja a mais antiga das definições sobre o turismo, fruto de um trabalho científico em que o economista austríaco Hermann von Schullern zu Schattenhofen, In: Wharab (1977, p76-77) definiu como:

A soma das operações, principalmente de natureza econômica, que estão diretamente relacionadas com a entrada, permanência e deslocamento de estrangeiros para dentro e para fora de um país, cidade ou região.

Ao definir o turismo sob esta perspectiva, principalmente de natureza econômica e como uma atividade comercial especializada, exclui-se momentaneamente o sentido sócio-cultural e todo envolvimento neste contexto. Para Walker (1991) o turismo é uma soma, “a ciência, a arte e a atividade comercial especializada em atrair e transportar visitantes, acomodá-los, e atender com cortesia suas necessidades e desejos”. Sob o olhar social, Trigo (2004, p. 12) analisa a atividade turística como um possível elo entre as pessoas.

Uma atividade humana intencional que serve como meio de comunicação e como elo de interação entre povos, tanto dentro como fora de um país. Envolve o deslocamento temporário de pessoas para outras regiões ou países visando à satisfação de outras necessidades que não a de atividades remuneradas. (TRIGO, 2004, P. 18)

A atividade turística surge então da convergência de diversos fatores e se transforma em práticas sociais diretamente relacionadas ao movimento e ao deslocamento espacial de pessoas, informações e serviços, como meio de comunicação e como elo de interação entre os povos, tornando-se evidente e necessário sua abordagem também no contexto social. Beni (1997, p. 37) definiu o turismo como “um elaborado e complexo processo de decisão sobre o que visitar, onde, como e a que preço”. Nesse processo intervêm inúmeros fatores de realização pessoal e social, de natureza motivacional, econômica, cultural, ecológica e científica que ditam a escolha dos destinos, a permanência, os meios de transporte e o alojamento, bem como o
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objetivo da viagem em si para a fruição tanto material como subjetiva dos conteúdos de sonhos, desejos, de imaginação projetiva, de enriquecimento existencial histórico-humanístico, profissional, e de expansão de negócios. Jafar Jafari (2002, P.109-113) define de forma holística Turismo como sendo:
O estudo do homem longe de seu local de residência, da indústria que satisfaz suas necessidades, e dos impactos que ambos, ele e a indústria, geram sobre os ambientes físico, econômico e sociocultural da área receptora, (JAFARI 2002, P.109-113).

Neste contexto, o turismo, ao possuir essas características de forma multifacedatada e multidisciplinar, nas diversas áreas de conhecimento que a ele se relaciona, pode ser definido de acordo com seus próprios interesses e para atender ao interesse específico do objeto de estudo. Iniciativas da gestão pública para o turismo no Brasil Os dados econômicos divulgados pela Organização Mundial do Turismo – OMT (2009) revelaram uma forte relação entre o ambiente econômico e o crescimento do turismo, registrado entre os anos de 1975 a 2008 em um ritmo médio anual de 4,4%, enquanto que o crescimento econômico medido pelo Produto Interno Bruto no Brasil ficou em torno de 4,5%. Nesse contingente de números favoráveis à proposta da gestão pública em nível federal para o turismo, descentralizou o Plano Nacional de Turismo, buscando fomentar a consolidação de uma rede de entidades e instituições em todo o território nacional, envolvendo políticas públicas nas três esferas de governo, na iniciativa privada e no terceiro setor. Nesse conjunto de atores relacionados ao turismo, vem promovendo ações locais no sentido de buscar sua consolidação. Uma das propostas sobreviventes nos últimos anos (1998 a 2010) está relacionada ao Programa de Regionalização do Turismo, lançado pelo Ministério do Turismo em 2004, o qual apresentou ao país uma nova perspectiva para o turismo brasileiro por meio de uma gestão descentralizada, estruturada pelos princípios da articulação entre os setores. Um dos grandes objetivos desse programa consistiu na desconcentração da oferta turística até então predominantemente localizada no litoral, propiciando uma interiorização da atividade e a inclusão de novos destinos nos roteiros comercializados. A regionalização do turismo consistiu na ampliação das ações centradas nas ações municipais que em 2006, segundo Ministério do Turismo, era composta por 249 regiões turísticas com cerca de 3.600 municípios envolvidos. Essas propostas de alavancar o turismo em todo território nacional indicaram que a atividade avançou significativamente nos últimos anos, mas ainda apresenta grandes limitações quanto ao seu potencial de desenvolvimento em virtude de uma série de comprometimentos diretamente ligados à aplicação das ações planejadas pela gestão local.
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Considerando o estágio atual do desenvolvimento da atividade no país, de acordo com as informações e dados apresentados pelo Ministério do Turismo, secretarias regionais e o trade turístico de forma geral, apontam as questões relacionadas principalmente à gestão da atividade. Muito se avançou na consolidação de um ambiente de discussão e reflexão sobre a atividade por meio da proposta de gestão descentralizada via Plano Nacional do Turismo, que estabeleceu fóruns de discussão entre o poder público e a iniciativa privada, porém a efetivação ainda não encontrou o caminho que converge a uma ligação entre os ambientes teóricos e práticos. Dessa forma, os municípios se esforçam no sentido de integrar os resultados desses diversos fóruns às diversas propostas e instâncias do poder público, de modo a alcançar os destinos turísticos.

2 A TRAJETÓRIA DOS PROJETOS GOVERNAMENTAIS PARA O TURISMO BRASILEIRO: DIFICULDADE DE EFETIVAÇÃO

As políticas públicas para o turismo brasileiro tiveram sua evolução marcada, principalmente, por alterações bruscas no seu direcionamento, visíveis na própria gestão da política nacional para o turismo nas últimas quatro décadas. A descontinuidade nas ações do governo federal torna-se preocupante por demonstrar fragilidade em relação às ações governamentais apontadas no conjunto das relações estruturais propostas por Beni (1997) em que considera a necessidade de integrar as esferas públicas na gestão do turismo. Segundo Cruz (2000) ao escrever sobre a primeira política nacional para o turismo em nível nacional, lançada em 1966, “não significa que não tenha havido anteriormente outras políticas federais para a atividade”. Alguns fatos merecem destaque ao longo da trajetória das medidas tomadas no planejamento do turismo brasileiro. Uma delas está registrada pelo Decreto-lei 9215 de 30 de abril de 1946, da vigência do artigo 50 e seus parágrafos da Lei de Contravenções Penais 5, no qual declarava nulas as licenças, concessões ou autorizações emitidas pelos órgãos federais, estaduais e municipais, para o funcionamento de cerca de 70 cassinos no Brasil, desencadeando desemprego a mais de 53 mil funcionários diretamente ligados ao setor turístico. Outro fato importante, e cerca de vinte anos após, está associado ao Decreto-Lei no. 55.66 de 18 de novembro de 1966, hoje revogado, no qual estabelece a criação da Empresa Brasileira de Turismo – EMBRATUR. Em pleno regime político militar registra a intervenção governamental nas ações da atividade turística brasileira.
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Decreto-Lei n.º 3688, de 2 de outubro de 1941

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A lei define que a política nacional de turismo cria o Conselho Nacional de Turismo e a Empresa Brasileira de Turismo, isto é, enquanto o Conselho regimenta a função normativa, a EMBRATUR desempenharia a função executiva. O Conselho Nacional do Turismo, órgão superior à EMBRATUR, composto por representantes do governo, sendo a maioria da própria EMBRATUR e do trade6 como hotéis, transportadoras e agências de viagem. Segundo Beni (1997) o modelo de gestão do turismo que segue os anos posteriores a 1966 possui características descentralizadoras, porém, influencia de forma substancial nas decisões sobre o desenvolvimento de produtos e serviços turísticos com características centralizadoras. As decisões sobre o caminho do planejamento do turismo no Brasil passavam pela aprovação do Conselho e eram executadas pela EMBRATUR. Até o final do regime militar, toda e qualquer atividade que estivesse ligada ao setor turístico deveria ser obrigatoriamente registrada, autorizada e fiscalizada pela EMBRATUR que, amparada pelo artigo 13 do Decreto 55.66, atribuía a ela “fomentar e financiar diretamente iniciativas, planos, programas e projetos que visem ao desenvolvimento da indústria do turismo”, na forma estabelecida e regulamentada pelo Decreto-Lei ou com resoluções do Conselho Nacional do Turismo. Nesse sentido, a ditadura militar, durante todo esse período, deteve o controle sobre o desenvolvimento do turismo no Brasil e também pela divulgação da imagem do país no exterior. No ano seguinte, a Embratur, em sua função estatal, tentava organizar o turismo em nível nacional como uma receita para a solução dos visíveis problemas estruturais brasileiros como o desemprego. Isso causou uma série de equívocos, principalmente por basear em modelos de planejamento turístico de países em estágios muito mais avançados que o nosso, como a França e dos Estados Unidos (TRIGO, 1993). O fim do regime militar no início da década de 1980 inicia uma transformação muito grande na estrutura de gestão e planejamento do turismo no Brasil. O Decreto-Lei 2.294 de novembro de 1986, em seu primeiro artigo, atribui que “são livres, no país, o exercício e a exploração de atividades e serviços turísticos, salvo quanto às obrigações tributárias e às normas municipais para as edificações de hotéis”. Ao fazermos uma avaliação desse decreto, observamos que por um lado assistimos certa liberdade de mercado, no qual as iniciativas para o turismo se tornaram mais independentes e abrangentes. Por outro lado, percebemos também um volume muito grande da abertura de empreendimentos turísticos que, com o slogan para a melhoria da qualidade dos serviços e equipamentos, se multiplicaram no país de norte a sul.

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Entendemos por Trade um conjunto de equipamentos da super-estrutura constituintes do produto turístico.

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Essas iniciativas foram apoiadas no fim da obrigatoriedade da classificação e do registro, junto à EMBRATUR, de empresas turísticas e, com isso, automaticamente provocando o fim da própria instituição na estrutura até então montada. A quantidade de novos negócios voltados para o turismo é refletida até hoje, 2009, no qual os problemas relacionados ao trato amador ao negócio e um descontínuo planejamento em todas as esferas da gestão pública implica numa série de problemas no setor.
A idéia de que o turismo, no Brasil, é uma rota de desenvolvimento natural e fácil é completamente equivocada. Um complexo petroquímico que pode ser construído em qualquer região produtora não impede o estabelecimento de dinâmicas concorrenciais predatórias. Seus produtos, por outro lado, desde que com preços competitivos, podem ser transportados, com várias escalas transbordos, para qualquer lugar do mundo sem maiores percalços e reclamações, o que não ocorre com o turismo (ALBAN, 2004).

Nesse sentido, o pensamento neoliberal, associado à abertura política dos anos de 1980, já não permitia mais a influência do estado no controle e gestão do setor, principalmente nas iniciativas turísticas privadas, e o cenário político nacional promovido pelos governos subseqüentes provocaram profundas transformações nas políticas públicas para o turismo brasileiro. Após o regime militar encerrado em 1984, e percorrendo a trajetória política no Brasil a partir do presidente José Sarney Filho, que substituiu o presidente eleito e falecido em 1985, Tancredo de Almeida Neves, nota-se o estabelecimento dos aspectos democráticos e a abertura ao pluripartidarismo, isto é, ocorre uma descontinuidade da gestão pública entre os regimentos federais e suas relações com os estados e municípios, uma vez que nem sempre as secretarias ou os governos são dos mesmos partidos políticos. Segundo Silveira e Medaglia (2006), não deixam de serem raras as situações em que os distintos níveis de governo federal, estadual e municipal sejam de três partidos políticos distintos e com ideologias e posicionamento divergentes. Acrescente-se ainda que a retomada desta estrutura política incida diretamente na dispersão das políticas públicas federais entre estados e municípios. Neste cenário político, sua composição fica multipartidária e é ainda agravada pela própria estrutura pública local nas quais as secretarias podem ser compostas por outros partidos políticos, isto é, as questões políticas interferem diretamente no posicionamento para o turismo. Desta forma, as ações tomadas não conseguem articular de maneira eficiente e interligada as decisões voltadas para o desenvolvimento do turismo nas esferas da gestão pública, e o reflexo está na descontinuidade das medidas voltadas para o setor em que o governo federal delibera certo projeto turístico e ele não se enquadra nas esferas locais por questões técnicas e políticas de cada lugar, esse gargalo político interfere ainda mais no enfraquecimento da EMBRATUR.
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Na gestão do presidente Fernando Collor de Melo, a EMBRATUR perde ainda mais a sua autonomia. A publicação da Lei 8.181 de 28 de março de 1991 transfere o órgão da cidade do Rio de Janeiro para a capital federal Brasília, deixando para trás boa parte do corpo técnico que prefere ser direcionados para outros órgãos na cidade, além de passar de empresa para autarquia denominada na época Instituto Brasileiro de Turismo. Outra mudança também percebida esteve ligada ao modelo de classificação dos hotéis que passam para estrelas e associa-se a Associação Brasileira da Indústria Hoteleira – ABIH. O Decreto 448 de 1992, assinado pelo então presidente Fernando Collor de Melo, sobre a Política Nacional de Turismo, regulamenta os dispositivos da Lei no 8.181/01 no qual delibera diretrizes para a prática do turismo como forma de promoção da valorização e preservação do patrimônio natural e cultural do Brasil e a valorização do homem como destinatário final do desenvolvimento turístico. Os objetivos dessas propostas, na verdade, estavam ligados à tentativa de minimizar as disparidades regionais e de promover de forma mais homogênea o país. Posteriormente a essa medida governamental, a gestão para o turismo no Brasil se sensibiliza pela proposta da Organização Mundial do Turismo – OMT (1994), na qual considera que o turismo se efetiva nos municípios com seus destinos e atrativos e que ninguém conhece melhor seus recursos que as esferas locais. A EMBRATUR começa então a repassar as diretrizes de desenvolvimento diretamente às prefeituras, baseando-se na participação comunitária e na formação de conselhos regionais e municipais para o desenvolvimento e planejamento do turismo. Essa atitude visava minimizar as diferenças e interrupções entre os órgãos públicos, e os municípios então passaram a assumir um novo papel no direcionamento das atividades turísticas em seus territórios, estruturando cada vez mais a municipalização do setor. O fato marcante na gestão do presidente tampão de Itamar Franco consistiu exatamente na regulamentação e implantação do Programa Nacional de Municipalização do Turismo – PNMT, no qual ajudou a escrever a Política Nacional de Turismo no primeiro mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso. A Lei 8.623 de 28 de janeiro de 1993 estabelece uma série de medidas para a regulamentação da atividade turística no Brasil. Entre elas a criação do código de ética sobre o guia turístico que profissionaliza sua atuação devidamente cadastrada no Instituto Brasileiro de Turismo, em que no seu “caput” descreve “exercer as atividades de acompanhamento, orientação e transmissão de informações a pessoas ou grupos, em visitas, excursões urbanas, municipais, estaduais, interestaduais, internacionais ou especializadas”.
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Essa medida governamental torna-se muito importante pelo fato de tentar dar um primeiro passo para a profissionalização do turismo no Brasil, isto é, aqueles que passam a exercer funções no setor turístico também necessitam da mesma capacitação técnica e punições como para qualquer outro setor. Envolvido neste contexto de desenvolvimento sustentável, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, no seu primeiro mandado, a partir de 1994, articula o turismo como um fator propulsor e gerador de emprego, renda e divisas. O documento Mãos à Obra Brasil, publicado pelo MINISTÉRIO DA INDÚSTRIA E COMÉRCIO E TURISMO (1996), lança a Política Nacional de turismo, no qual complementa as estratégias estabelecidas pelo “Plano Plurianual de Investimentos 1996-1999, em que destinava promover e incrementar o turismo como de renda, de geração de emprego e de desenvolvimento socioeconômico do país”. Ao todo foram lançados 24 programas para o setor turístico no Brasil, inseridos no projeto Avança Brasil. O primeiro deles, o PRODETUR7, com investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID na ordem de cerca de US$ 560 milhões, foram aplicados na melhoria de infra-estruturas e logística, na recuperação do patrimônio arquitetônico e na proteção ambiental. Dados do Ministério do Planejamento (2008), essas medidas de certa forma ajudaram a promover os destinos turísticos no Brasil, no final de 1998 influenciaram na geração de cerca de US$ 8, 5 bilhões em impostos advindos do cadastro de cerca de 1650 municípios brasileiros com alguma sensibilidade turística. No mesmo ano, a Organização Mundial do Turismo – OMT eleva o Brasil de 43º lugar para o 29º no receptivo internacional, e com um crescimento de cerca de 50% no fluxo anual de pessoas nos aeroportos nacionais. As ações deliberadas pelo Programa Nacional de Municipalização do Turismo – PNMT, iniciado no governo de Itamar Franco e encerrado no final do primeiro mandado do governo Fernando Henrique Cardoso, caracteriza-se principalmente pela tentativa de descentralização o fortalecimento dos municípios diante de ações para a gestão do turismo. Nesse contexto, caberia à gestão municipal o planejamento e execução de ações em curto e longo prazo, e o direcionamento para o turismo local, até então sob a responsabilidade da esfera federal. Em outro aspecto, o Comitê Executivo Nacional seria apoiado pelos Comitês Estaduais e os municípios representados pelo Fundo Municipal de Turismo. Os dados do MINISTÉRIO DO ESPORTE E TURISMO (2002) registraram um acréscimo de cerca de 1500 novos municípios no programa e que ao longo dos oito anos de duração ainda capacitou cerca de vinte e cinco mil agentes em todas as esferas da gestão pública.
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Programa Desenvolvimento do Turismo IN: Ministério do Planejamento, 2002.

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Essa formação de multiplicadores estava reforçada principalmente pela idéia de que os moradores capacitados tornassem as ações locais contínuas e representativas, auxiliando a elaboração de projetos turísticos e a implantação de novos negócios para o setor. Dessa forma, a proposta de Municipalização do Turismo via PNMT encontra pela frente problemas para a sua efetivação. O primeiro aspecto está relacionado aos destinos de boa parte dos recursos financeiros alocados para o setor que acabou se concentrando nos grandes projetos e nos principais centros receptivos nacionais como a cidade de Rio de Janeiro - RJ, São Paulo – SP, Salvador – BA e agora Brasília – DF, Goiânia – GO e Florianópolis - SC (MINISTÉRIO DO TURISMO, 2008). A idéia de municipalizar o turismo deixou para os gestores locais o papel de implantar suas bases, porém, aqueles municípios menos expressivos no segmento e pouco poder de decisão política ficaram com o papel de administrar as infindáveis discussões sobre a importância do turismo nos encontros promovidos pelo setor para qualificação e capacitação enquanto que na verdade pouco se efetivou nos lugares onde se projetaram. Novamente trouxemos para discussão o fato relacionado à ineficiência do diálogo entre as esferas do poder público que ao invés de promover uma aproximação entre a União, os Estados e os Municípios acabam provocando um distanciamento entre eles por tratar todos como se fossem iguais e não respeitam suas diversidades como se existisse uma fórmula única. Outro aspecto preponderante que contribuiu para a não efetivação do programa estava na ilusão da gestão pública federal em acreditar que os municípios estavam capacitados tecnicamente para gerir as ações deliberadas pelos projetos turísticos. Chegavam a avançar nas discussões teóricas, porém, ao necessitar de sua implantação, não possuía profissionais qualificados para sua efetivação. Desta forma percebe-se claramente uma postura em que a esfera federal lança os projetos turísticos, mas esquecem da viabilidade de implantação dos mesmos nos municípios por desconsiderar uma série de fatores que atrapalham a continuidade do projeto em nível local. Por outro lado o programa provocou um fluxo muito grande de pessoas assediadas pela discussão em torno da temática, tirando a questão do turismo dos bancos das Universidades e Institutos especializados no segmento e aproximando mais aqueles que estavam ligados aos aspectos relacionados ao turismo. Mas a grande crítica esboçada ao programa está focada principalmente na incapacidade de promover avanços reais e na materialização de ações nas comunidades locais, isto é, muito se discutiu, pesquisou e pouco se efetivou. Outro aspecto importante que ainda merece destaque ao programa foi na universalização das propostas emitidas. Ao lançar as bases, o PNMT visualizou o território brasileiro e seus municípios
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como um conjunto homogêneo em que se funcionasse em um determinado lugar também funcionaria no outro e acabaram banalizando ou até mesmo desconsiderando as grandes desigualdades regionais que o país possui. O programa não respeitou essas diferenças e tão pouco teve flexibilidade para a sua adequação, e o que assistimos foram municípios com recursos financeiros, técnicos e humanos despontando no cenário turístico e atraindo boa parte dos recursos, e aqueles que não tiveram condições de acompanhar o ritmo de crescimento acabaram ficando com seus projetos engavetados. Portanto, em vez de o programa promover a sociabilização do turismo, e para o turismo, acabou promovendo certo desarranjo entre os municípios que tiveram de rever novamente suas bases voltadas para o turismo local. O início do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, coincide com a criação do Ministério do Turismo – MTUR, e em abril do mesmo ano foi lançado o Plano Nacional de turismo, criado pela Secretaria Nacional de Políticas de Turismo. No ano de 2004, o Ministério do Turismo - MTUR lança o Programa de Regionalização do Turismo: roteiros do Brasil como uma forma de executar as políticas públicas para o setor. Observase nesse momento que a idéia de regionalização incorpora a proposta de arranjos produtivos como uma vertente norteadora no macroprograma do governo federal. Segundo Beni (1997) o que se tem visto com freqüência “é cenário de roteirização regionalizada em vez de regionalização sustentável do turismo, este sim é o alvo e a meta do governo federal”. Na mesma linha de pensamento CARVALHO (1994) considera que “é uma pena que tenham matado o Plano Nacional de Municipalização por mesquinhez de assessores que iludiram o atual ministro”. Ao comparar os desafios entre a proposta de regionalização e as municipalizações, ambas passam por gestão de governança, isto é, enquanto a municipalização restringia-se a ações políticas a um núcleo organizado, em termos políticos e administrativos, a regionalização dependente claramente da capacidade de absorção dos municípios e na sua força política e econômica de gerar os novos arranjos para o setor turístico local, e, mais que isso, não esteja totalmente atrelado a representantes tradicionais. A proposta do MTUR consistiu em aumentar em 50% o receptivo internacional, passando para nove milhões de estrangeiros. Até o final do ano de 2008, essa meta não ultrapassou a casa dos cinco milhões de turistas. Por outro lado, o Ministério do Turismo ficou encarregado de cuidar da imagem do Brasil turisticamente no exterior e no fomento de dados para novos produtos no segmento interno. Assim, no ir e vir das políticas públicas para o turismo no Brasil acabou gerando resultados positivos com a promoção de novos destinos, mas que ainda apresenta uma fragilidade muito
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grande na sua efetivação, pois notamos claramente um distanciamento entre os ideais de planejamento dos projetos turísticos e a acessibilidade de seus objetivos pelos municípios. Aos referir-se aos programas do governo do estado de Minas Gerais voltados para o setor turístico, dando continuidade às discussões sobre a formatação de projetos turísticos nas esferas públicas, recorremos à criação da primeira Secretaria em 28 de outubro de 1999, através da Lei no. 13.341 para lidar exclusivamente com o turismo.
Art.19 – A setur tem por finalidade planejar, coordenar, fomentar e fiscalizar o turismo, objetivando a melhoria da qualidade de vida das comunidades, a geração de emprego e renda e a divulgação do potencial turístico do Estado (SETUR, 1999).

A EMPRESA MINEIRA DE TURISMO – TURMINAS, (1999), foi criada com objetivo de se tornar a base operacional da SETUR, promover, distribuir e lançar novas ações para o turismo no estado de forma menos burocrática, e tentar uma aproximação maior entre a esfera pública do estado com os municípios. Após a criação da SECRETARIA DE TURISMO – SETUR, o governo de minas iniciou a elaboração de políticas públicas para o turismo, sustentado na descentralização das ações e na regionalização8 das sensibilidades turísticas de cada região. O programa de regionalização do turismo, adotado pelo governo do estado, apostava no estímulo e na indução das comunidades para a sensibilização do turismo de cada município objetivando a construção dos circuitos de forma a agrupar os recursos conforme suas características semelhantes. As características desses projetos indicavam primeiramente o levantamento das potencialidades de cada município, posteriormente procura-se traçar um plano comum entre eles considerando aspectos como a proximidade e por fim, de forma totalmente equivocada pensa que o lugar tem vocação ao se aplicar sob esse pretexto às ações propostas. A proposta da política pública para o turismo no estado iniciou-se com a iniciativa de interação com a gestão publica de cada município, isto é, ninguém melhor que os gestores e a comunidade de cada lugar específico para conhecer a fundo suas realidades. A iniciativa do governo em acreditar na gestão pública local para despertar a sensibilização para o turismo acabou gerando controvérsias necessárias de serem analisadas. Mesmo que a proposta tenha sido lançada com o objetivo de atingir todos os municípios do estado de Minas Gerais, ela acabou obtendo o mesmo resultado que a municipalização do turismo
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Modelo de gestão descentralizada, coordenada e integrada, com base nos princípios da flexibilidade, articulação, mobilização, cooperação intersetorial e interinstitucional e na sinergia de decisões, para o desenvolvimento turístico local, regional, estadual e nacional, de forma articulada e compartilhada. (Mtur, 2005).

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lançada pelo governo federal em 1994, ou seja, diferenças políticas e falta de conhecimento tornaram-se gargalos os projetos. Os municípios se articularam de forma muito interativa com o estado através dos órgãos de qualificação como SERVIÇO BRASILEIRO AO EMPRESÁRIO – SEBRAE e SERVIÇO NACIONAL DO COMÉRCIO – SENAC através da oferta de cursos nestes municípios, objetivando preparar o morador local para o exercício da função na atividade turística. O Estado de Minas Gerais levou a Secretaria de Turismo a acreditar na estratégia da descentralização das ações públicas voltadas para o setor do turismo, por meio da criação da regionalização do turismo. A publicação do Decreto Lei-no. 43.321 de oito de maio de 2003, em conformidade com os objetivos do MINISTÉRIO DO TURISMO – Mtur (2003), em regionalizar o turismo, institucionaliza os CIRCUITOS TURÍSTICOS DE MINAS (SETUR, 2003), conjugando municípios próximos com afinidades culturais, sociais e econômicas, imbuídos na organização e desempenho da atividade. Segundo a SETUR, o circuito turístico é composto por municípios próximos entre si, que se associam em função de interesses e possibilidades de explorar turisticamente seus respectivos patrimônios históricos, culturais e naturais, assim como outros bens afins. É indispensável que pelo menos um desses municípios disponha da infra-estrutura necessária para receber turistas, de modo que estes, a partir dali, possam desfrutar os atrativos dos demais. No estado de Minas Gerais, a idéia de se agrupar municípios em circuitos turísticos nasceu da necessidade de explorar melhor o potencial do Estado nesse setor. No final dos anos de 1990, à medida que se estimulavam as tradicionais cidades e localidades turísticas de Minas a promover uma revisão de seus posicionamentos e ações em relação ao turismo, vislumbrava-se a geração de oportunidades também para os municípios vizinhos. Estes passariam não só a explorar seus respectivos recursos, mas também a contribuir para a diversificação da atratividade e/ou da infra-estrutura turística de sua região. Dessa forma, o circuito tornou-se um meio para se estruturar melhor à atividade turística municipal9 e regional, para atrair mais turistas a determinada região e estimular aumento na sua permanência e, conseqüentemente, o movimento do comércio e dos serviços turísticos. Segundo a SECRETARIA DE ESTADO DO TURISMO (2008) foram formatados no estado 59 circuitos turísticos, dos quais 39 já foram certificados pelo fato de atenderem às exigências da qualificação como sinalização, capacitação e melhoria dos serviços.
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Ao final dessa tese há dois roteiros turísticos indicados por nós como resultado das pesquisas realizadas no município com base na comunidade em que consideramos as pessoas como sujeitos sociais nesta proposta.

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Não podemos deixar de ver os verdadeiros valores desta proposta, que se multiplicou em todo o estado com ideais realmente engajados na promoção do turismo para os municípios. Porém, a maioria deles ficou apenas em infindáveis cursos teóricos e na construção do discurso sobre a importância do turismo para o lugar, enquanto que na prática apenas alguns municípios com tendências já evidenciadas para o turismo e com força política para a captação dos recursos tiveram acessos reais à efetivação do programa. Segundo Irving (2002), “a resistência ao processo participativo parece ter sua explicação na cultura institucional brasileira e na percepção política de ‘participação’ como divisão de poder das esferas instituídas”, isto é, as secretarias municipais não são partidárias da secretaria do Estado, e suas propostas também não são vistas como prioritárias pela gestão pública local. Mesmo diante destas adversidades, o governo do estado continuou acreditando na participação da comunidade local como forma de garantir a sustentabilidade do programa de regionalização do turismo em Minas, mesmo diante das descontinuidades políticas. Nessa dosagem entre gestão, Becker (1997, p.19), afirma.

A participação social no processo de tomada de decisões constitui pré-requisito à sustentabilidade e legitimidade de todos e qualquer projeto planejado e implementado sob a denominação conceitual de sustentável. (BECKER, 1997, p. 19).

Mas é importante considerar que a sustentabilidade em uma sociedade como a nossa é um conceito criticável, ou seja, sustentabilidade para quem! Há uma tendência em promover alguns setores da economia e generalizá-los como uma realidade única. Mesmo que as comunidades sejam incluídas, mesmo assim não há sustentabilidade porque em uma sociedade de consumo o objetivo é o lucro. Seria importante considerar que o pensamento que envolve a sustentabilidade torna-se importante para tese na medida em que ela defende a participação democrática da comunidade. A valorização da comunidade local, diante da implantação de projetos turísticos, torna-se o grande eixo norteador para o sucesso da atividade e para isso não devemos observá-la simplesmente do ponto de vista de “valor”, mas como sujeitos ativos e inseridos no processo, anteriores à implantação desses projetos. Portanto, é necessário ouvir, analisar e discutir com a comunidade seu ponto de vista sobre o que será implantado. Na realidade, o que se vê na maioria das vezes são situações contraditórias em que primeiro lança o projeto, “queimam” recursos públicos com cursos e treinamento, e, por último, se volta para a comunidade e ela, por falta de meios, muitas vezes, não consegue interagir. Pelo fato de
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desconhecer seus verdadeiros direitos, o espaço que as comunidades ocupam vão ser usado e apropriado, a sua revelia, na exploração turística.

3 O NOVO PAPEL DESEMPENHADO PELOS MUNICÍPIOS NA GESTÃO PÚBLICA PARA O TURISMO

Acompanhando a mesma proposta de análise, isto é, na busca pela identificação na gestão dos projetos turísticos pelo poder público, ao transpor essa análise em nível municipal, optamos primeiramente em observar o novo papel que estes municípios assumem na administração de seus territórios. A participação dos municípios nesse novo contexto de envolvimento com a economia voltada para os aspectos turísticos parte inicialmente pela capacidade de gestão que cada um possui em aproveitar seus potenciais recursos, sejam eles naturais, culturais, antropológicos ou artificiais, e promover uma articulação entre seu uso e a preservação de suas identidades. Uma importante observação retirada ultimamente na gestão do turismo demonstra um crescente aumento da participação dos municípios no rumo do seu próprio envolvimento com a atividade. Isso está associado a um intercâmbio entre os gestores regionais e que há uma baixa interferência do poder federal. A diminuição da influência do Estado gera uma incapacidade de controlar cada vez mais processos econômicos, sociais, e culturais, ocorridos em seus territórios. A gestão local assume cada vez mais um importante papel no estabelecimento de estratégias próprias voltadas para o desenvolvimento local. Percebe-se que ao analisar os consórcios regionais de saúde em que os municípios de menor poder aquisitivo se agrupam para adquirir certo equipamento ou erguer pontos de atendimento e hospitais. Essa nova função do poder local também se torna bastante expressiva nas competências como à geração de empregos, a assistência e o bem-estar social, além do desenvolvimento econômico. Nesse sentido, a capacidade de interação com diversos atores locais como empresários, comunidade e funcionários públicos, tornam-se mais estreita, de forma que as relações políticas, a capacidade de articulação e tomada de decisão ficam mais rápidas e dinâmicas no retorno para a comunidade. Essa nova característica assumida pela gestão pública local, de certa forma, convoca as lideranças locais a compartilharem as vontades com outros agentes sociais e econômicos na gestão do território.

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Ao assumir as responsabilidades locais, os municípios acabam investindo em suas especificidades regionais, baseadas principalmente no pequeno e médio empreendedor, para se tornar substancial diante das conseqüências macroeconômicas em nível estadual e federal. Porém, ressalta neste momento a capacidade que esta gestão pública possuirá para fortalecer e promover um desenvolvimento integrado dos segmentos articulados no município, e não apenas de alguns setores na gestão do território. Na atividade turística, percebemos através dos circuitos que os municípios também estão se agrupando conforme suas afinidades políticas, buscando fortalecer e conquistar seu lugar de destaque. Porém, esse processo também nem sempre vem acompanhado de igual envolvimento e dentro dos próprios circuitos temos aqueles municípios que ainda não conseguem acompanhar estas mudanças. Nessa perspectiva articulada pelos municípios, o tema desenvolvimento local tornou-se uma questão muito discutida e debatida pelo poder público. Cada vez mais essa temática ganhou relevância e promoveu novas reflexões e práticas no processo de envolvimento dos municípios, na sua participação mais ativa diante da esfera estadual ou federal. Assim, o local (re) surge para desempenhar um novo papel nos circuitos turísticos, a partir de seus recursos e identidades. Para Coriolano (2002) o desenvolvimento local significa, acima de tudo, um desenvolvimento em escala humana, atendendo às demandas sociais. Nele, o homem passa a ser a medida de todas as coisas e não apenas os índices quantitativos e o lucro. Por outro lado, a questão local passa a servir como uma fonte de inspiração para a reorientação das ações do conjunto, entre atores sociais que encontram nele um campo propício para promover e desenvolver os novos arranjos socioeconômicos. A proposta de envolvimento dos municípios com o turismo tende mais responsabilidade a partir de estratégias e alternativas, construindo espaços de formulação e gestão publica local, baseado na participação cidadã e na reconstrução do tecido social mais homogêneo, promove o crescimento social (ZAPATA, 2004). Segundo Vázquez (1988) o conceito de desenvolvimento local se apóia na idéia de que as localidades e territórios dispõem de recursos econômicos, humanos, institucionais, ambientais e culturais, além de economias de escala não exploradas, que constituem seu potencial de desenvolvimento. A existência de um sistema produtivo capaz de gerar rendimentos crescentes, mediante a utilização dos recursos disponíveis e a introdução de inovações, garante a criação de riqueza e a melhoria do bem-estar da população local, através de programas voltados para a gestão local. Coriolano (2002, p.64-67) complementa.
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[...] o desenvolvimento local é o desenvolvimento endógeno, de dentro para fora, de baixo para cima, é o desenvolvimento social, o desenvolvimento do homem, das condições humanas, são as buscas de alternativas para criar novos cenários, priorizar outros atores sociais, como os trabalhadores, as mulheres, os jovens, os vizinhos, os residentes, os excluídos, os nativos, as comunidades. (CORIOLANO, 2002, P. 64)

Portanto, o desenvolvimento local deve, prioritariamente, se constituir por ações alternativas que conduzem a uma realização em estágios primários voltados para o morador local. Sua base essencial de existência deverá se voltar para o retorno imediato na qualidade de vida da comunidade local. A consonância de desenvolvimento endógeno ou desenvolvimento local, além de desenvolver os aspectos produtivos, se propõe a potencializar as dimensões sociais, culturais, ambientais e político-institucionais que constroem o bem-estar da sociedade. Neste contexto, a atividade turística se apresenta como uma atividade econômica que desperta o interesse por sua busca principalmente no setor de serviços e, conseqüentemente, na ampliação da oferta de emprego e geração de renda. Este fato merece um pouco mais de atenção, principalmente pela necessidade (e imposições) de os gestores locais abraçarem, em muito dos casos, somente esse viés que a atividade promove, e acabarem esquecendo-se de outras questões que não são apresentadas às comunidades como os impactos negativos10 gerados pelo turismo. Dessa forma, ao mesmo tempo em que o turismo pode promover o desenvolvimento local de forma dinâmica ou sensível, poderá também provocar danos irreversíveis ao meio ambiente, ao patrimônio cultural e às estruturas sociais. É visível que esta atividade acaba gerando valores econômicos para os cofres públicos, já que se inscreve inegavelmente como uma entrada importante, porém, torna-se necessário observar os reais interesses para a implantação dessas atividades nos municípios. No caso brasileiro, o turismo com base no desenvolvimento local, segundo Benevides (1996), apresenta-se de forma mais democrática com sensível busca pela manutenção das identidades culturais dos lugares e uma tendência menos agressiva ao uso do patrimônio ambiental. Essa questão favorece os municípios com baixa capacidade de investimento econômico nos segmentos turísticos, mas com pequenas ações voltadas para as características locais como as feiras de artesanatos e as festas populares, objetivando atrair turistas seduzidos por estes atrativos. Ao acompanhar os modelos produtivos tradicionais, não havia nenhuma preocupação com a questão do dano ambiental. Por esta razão, não vamos postular a favor de que o turismo não
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Estrangulamento da capacidade de carga dos atrativos, aumento do custo de vida do morador, influência no comportamento do jovem do lugar, inserção e aumento de vícios alóctones.

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acompanhe esse caminho, mas a atividade turística, de certa forma, considera a conservação ambiental como um fator que favorece a continuidade dos negócios. A atividade turística relacionada ao desenvolvimento local deverá envolver a comunidade, em tese ela se assenta na revitalização de pequenas ações, promovendo retorno para a comunidade, projetando uma fixação do morador e assegurando-lhe melhores condições de vida, favorecendo o estimulo à valorização de insumos locais, artesanato e outras atividades associadas ao turismo. Revendo trabalhos escritos por Cavaco (1996), na região do vale do Douro em Portugal, a autora destaca a necessidade de estimular a implantação e manutenção de unidades artesanais de produção. Um aspecto importante que se registra é o (re) despertar dos valores culturais, valorizando as manifestações antropológicas, religiosas, artísticas, folclóricas, artesanais e históricas.

CONCLUINDO

Diante destes fatores, pode-se considerar que os recursos turísticos ficam muito expostos às ações de dominação, exploração e a falta de compromisso com a preservação ou manutenção de suas características originais, geram a necessidade de satisfazer essa nova clientela que possui uma força maior que o bom senso, vê-se, portanto, que dessa forma, não há sustentabilidade. Neste sentido, não basta à elaboração de projetos turísticos que não aproxime as realidades locais, eles precisam ser elaborados com vistas a respeitar os valores locais, baseados nas relações sociais estabelecidas principalmente pela comunidade, pois se estes fatores não forem considerados, dificilmente alcançarão seus objetivos. Assim destas questões expostas, torna-se necessário considerar as ações públicas locais como gestora, direcionadoras e responsáveis pela exploração e manutenção destes recursos. Por outro lado, as iniciativas privadas devem priorizar planos de manejo e de conservação dos aspectos naturais, culturais e as identidades do lugar, concebendo-os como sendo à base de sustentação de qualquer projeto turístico. Por fim, a comunidade deve assumir o papel político na relação que se busca estabelecer com o estado, principalmente com as suas políticas públicas, pois somente assim as pessoas do lugar turístico conseguirão receber os bônus da atividade, e não somente os ônus que se tornam tão prejudiciais para aqueles que resistem em permanecer no lugar, transformado pelos usos e apropriações inconseqüentes.

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REFERÊNCIAS ALBAN, M. Turismo no Brasil: a estratégia de expansão espacial e seus problemas, In: Encontro Nacional de Turismo de Base Local, Curitiba. Anais, (2004). BECKER, B. Políticas e planejamento de turismo no Brasil. 2.ed. São Paulo: Hucitec, 1997. BENEVIDES, I. P. Para uma agenda de discussão do turismo como fator de desenvolvimento local in: RODRIGUES, A. B.(org), Turismo e Desenvolvimento Local, São Paulo: HUCITEC, 1996. BRASIL. Decreto-lei 9215 de 30 de abril de 1946. Proibição das atividades de cassino. Diário Oficial (da República Federativa do Brasil), Brasília, DF, 1946. CARVALHO, M. I. Turismo em espaço rural. Actas das 4.as Jornadas sobre Ambiente Cársico. Porto de Mós.1994. CAVACO, C. Turismo rural e desenvolvimento local. In: RODRIGUES, A.B. (org.). Geografia e turismo. Reflexões teóricas e enfoques regionais. São Paulo: Hucitec, 1996. CORIOLANO, L. N. M. T. A produção da Imagem dos Lugares Turísticos. Cabedelo – PB: LABTUR, 2002. CRUZ, R.C.A. Introdução à geografia do turismo. São Paulo: Roca, 2000. EMBRATUR, Empresa Brasileira de Turismo. Disponível em www.embratur.gov.br, acesso em 15 de agosto de 2011. IRVING, M.A. Turismo, o desafio da sustentabilidade. São Paulo: Ed. Futura, 2002. JAFARI, J.“Tourism’s Landscape of Knowledge,” Revista: Harvard Review of Latin America.www.drclas.fas.harvard.edu/index.pl/publications/revista.RODRIGUES, 1977: 161). OMT - Organização Mundial do Turismo. 2009. SILVEIRA, C. & MEDAGLIA, J. A influência da ideologia do capitalismo industrial no desenvolvimento do turismo de massa europeu e suas conseqüências na política nacional do turismo brasileiro. IV Seminário de Pesquisa em Turismo do MERCOSUL – Caxias do Sul, 7 e 8 de julho de 2006. TRIGO, L.G.G. Turismo e qualidade: tendências contemporâneas. Campinas: Papirus, 1993.
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ZAPATA, T. 2004. Estratégias de desenvolvimento local. Disponível: www.cati.sp.gov.br. Acesso em: 20 mar. 2011.

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COMPLEXO TERMAL E TURISMO: UMA CONTRIBUIÇÃO AO DESENVOLVIMENTO DA REGIÃO DAS ÁGUAS QUENTES – GO

Rildo Aparecido COSTA Flavia de Oliveira SANTOS

INTRODUÇÃO

Caldas Novas é um dos 21 municípios da Microrregião Geográfica de Meia Ponte, no Sul de Goiás, distando apenas 170 km de Goiânia, capital do estado. A cidade tornou-se conhecida por suas águas termais, que atraem, a essa cidade de 62.744 habitantes, quase um milhão de pessoas todos os anos, consideradas como uma população flutuante. Desde o descobrimento das águas quentes, em 1777, pessoas de diversas procedências, acreditando na capacidade curativa das mesmas, buscam a região de Caldas Novas, muitas ali fixando residência, o que contribuiu para a divulgação do valor terapêutico dessas águas. Entretanto, constituiu-se o município apenas em 21 de outubro de 1911 e o primeiro balneário público foi construído somente em 1920. Localizada no domínio do cerrado e cercada por relevos dobrados acabou por apresentar muitas belezas naturais, fruto do dobramento e fraturamento das rochas. Essa condição, juntamente com algumas políticas especiais, fez surgir um dos maiores mananciais hidrotermais aproveitados pelo turismo do mundo, servindo de base para a estruturação de um turismo de lazer. O município possui atrativos naturais que se localizam tanto no perímetro urbano como no rural. No Parque Estadual da Serra de Caldas, é possível caminhar por trilhas, e tomar banho em cachoeiras. A cidade conta com um complexo hoteleiro muito significativo, constituído por hotéis, pousadas, apart, flats e outros. No início deste século XXI, Caldas Novas constitui-se, junto com o município de Rio Quente, na maior atração turística do estado de Goiás. Formando a região das águas quentes. A rede conecta-se com grandes centros urbanos do país, como Brasília, Goiânia, São Paulo e Rio de Janeiro, através de rodovias asfaltadas e de um aeroporto. Do mundo da aparência, pode-se extrair a essência, que revela o dinamismo do processo de construção da paisagem. Uma paisagem marcada pelas relações sociais de produção, pelo trabalho humano, expondo uma época e um período de desenvolvimento das forças produtivas (BORGES, 2005). Vale lembrar que os homens, antes de produzirem coisas, produzem relações sociais. Portanto, a cidade é um espaço de sociabilidade, cuja paisagem mostra a realidade do momento.
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1 A FORMAÇÃO HISTÓRICA DO TERRITÓRIO DE CALDAS NOVAS – GO

A cidade de Caldas Novas entra na história com os exploradores do século XVIII, que chegaram à região das Caldas à procura de ouro, principalmente com Bartolomeu Bueno da Silva, em 1722; este, enquanto tentava achar ouro, descobriu as águas quentes que nasciam na base da Serra de Caldas, na vertente ocidental (onde hoje se encontra a Pousada do Rio Quente), formando um rio de águas transparentes que se alinhavam no sopé da serra. Ali, em suas margens, fizeram o assentamento e deram o nome de Caldas Velhas. Segundo Elias (1994):

Bartolomeu Bueno da Silva, em 1722, descobriu as fontes principais de Rio Quente, mas não encontrando grandes riquezas em ouro seguiu para outros locais para fundar as primeiras povoações do Estado de Goiás, como o arraial de Santana, hoje cidade de Goiás. (ELIAS, 1994, p. 40).

Esse local era habitado pelos índios Guaiás, da tribo Tupi, que foram dizimados por doenças trazidas pelo homem branco e pela escravidão. O governo português, ávido por riquezas minerais, procurou resguardar as águas termais de Caldas Novas para futuras explorações. Entretanto, em 1777, Martinho Coelho de Siqueira, um bandeirante paulista, procedente de Santa Luzia, atual Luziânia, chega à região conhecida como Caldas de Santa Cruz (atual Santa Cruz); essa cidade é uma das mais antigas do estado de Goiás e está localizada a, aproximadamente, 69 km da atual cidade de Caldas Novas. Os cães de Martinho Coelho de Siqueira se escaldaram nas águas da Lagoa de Pirapitinga, “um lago de cento e oitenta palmos de comprimento por vinte de largo, cuja temperatura chega à da água fervendo” (CORREA NETTO, 1918 apud TEIXEIRA NETO et al, 1986, p.17). Após o ocorrido, Martinho Coelho de Siqueira construiu sua casa, em terras onde, atualmente, situa-se o Serviço Social do Comércio (SESC). A casa permanece no mesmo local e guarda ainda feições de uma época, embora tenha passado por algumas reformas. No dizer de Albuquerque (1996), a casa de Martinho Coelho, onde este residiu, foi a primeira casa a ser construída, na incipiente Caldas Novas. Elias (1994, p.41) afirma:

Martinho Coelho de Siqueira é considerado o descobridor dessas terras, que hoje pertencem ao município de Caldas Novas. Alguns, como o historiador Oscar Santos, o consideram também o fundador da cidade, pois ele não apenas a região descobriu, como também nela se estabeleceu, construindo ali a sua primeira morada.

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Esse bandeirante, à procura de ouro e de pedras preciosas, ao encontrar as águas termais da Lagoa de Pirapitinga viu nelas “um potencial de aproveitamento econômico e resolveu se fixar na região” (ALBUQUERQUE, 1996, p. 26). Estabeleceu-se no lugar onde, posteriormente, constituiuse o município de Caldas Novas, vendo aí o despertar de uma próspera estância hidrotermal. Um dos fatores para que Martinho Coelho de Siqueira fixasse residência ali foi o ouro farto, nas margens do Córrego Caldas, na época denominado Córrego das Lavras. As minas de ouro multiplicavam-se. Apossando-se de uma gleba de terra de cerca de 40 km², tomou posse das terras na margem esquerda do Córrego Caldas e de toda a terra da margem direita, acima das nascentes. O bandeirante construiu o sítio de Caldas e, em seguida, requereu a sesmaria das terras, legalizando suas propriedades. Durante duas décadas, Martinho Coelho de Siqueira trabalhou na mineração do ouro, com a ajuda de escravos e do filho Antônio Coelho de Siqueira, até as reservas auríferas se exaurirem. Logo a notícia da existência de ouro e do valor medicinal das águas se espalhou, atraindo centenas de mineiros e de doentes, que construíram barracos às margens do Córrego das Lavras. Martinho Coelho e seu filho Antônio construíram banheiras de lajes e pedras, com bicas de madeira, para facilitar o uso das águas termais pelos inúmeros freqüentadores que buscavam o local, o que reforça a idéia de que as águas termais já eram vistas como “um potencial de aproveitamento econômico”, nos termos de Albuquerque (1996, p.26), e a base de um turismo terapêutico. Cada vez mais, pessoas portadoras de doenças contagiosas, na procura por banhos medicinais, passaram a residir em ranchos ao longo do Ribeirão das Lavras. Os moradores do povoado procuraram se afastar da estância, receosos do contágio de alguma doença, o que levou o proprietário a colocar fogo nos ranchos e a proibir a permanência de doentes no arraial (TEIXEIRA NETO et al, 1986). Entretanto, a fama das águas quentes espalhou-se ainda mais, atraindo o capitão-geral da província de Goiás, o governador Fernando Delgado de Castilho. Este, para tratar de doença reumática, deslocou-se de Vila Boa até Caldas Novas, percorrendo cerca de 400 km em liteira, carregada por escravos, a fim de se tratar. Foi recebido por Antônio Coelho, que, para ele, mandou construir uma banheira especial (BORGES, 2005). O governador, tendo sua doença curada, autorizou a propaganda oficial das águas termais. Em função do seu renome, em 1819, o naturalista francês August Saint Hilaire, financiado por D. João VI, estuda as propriedades das águas quentes. É o primeiro estrangeiro a pisar nesta região. Então, os relatos de cura pelas águas termais se tornaram freqüentes. Pessoas portadoras de doenças de pele e afecções articulares viram-se curadas por terem se banhado ou ingerido essas águas. Com isso o arraial cresce. Caldas Novas já tinha, em 1842, cerca de 200 habitantes.
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Em 1849, iniciam-se os trabalhos de demarcação dos terrenos e da praça, para o estabelecimento do arraial das Caldas Novas, que foi firmado com a escritura lavrada em 27 de janeiro de 1850 (ELIAS, 1994). Naquele ano, foi construída por Luis Gonzaga de Menezes a Igreja Matriz Nossa Senhora do Desterro. Com a transferência dos habitantes do povoado de Quilombo para o novo local, inicia-se um movimento para a criação do distrito, o que ocorreu em 1851, “pelo Conselho Municipal de Santa Cruz, a quem pertencia o então povoado de Caldas Novas” (TEIXEIRA NETO et al, 1986, p.15). Muitas famílias adquiriram propriedades e se estabeleceram na região, cultivando a terra e desenvolvendo a criação de gado. Fazendeiros de Minas Gerais e São Paulo, que se estabeleceram nessas paragens, tiveram importante papel na construção do espaço urbano de Caldas Novas. Com a criação do Município de Caldas Novas, sua sede foi elevada à categoria de Vila. Durante a administração Bento de Godoy (1911 a 1915), o desenvolvimento de Caldas Novas tomou um novo impulso. Com os conselheiros municipais, ele empenhou-se na construção da história de Caldas Novas como cidade das águas quentes, não medindo esforços para dotar o município de elementos para alcançar o progresso almejado. Em 1923, Caldas Novas é elevada à categoria de cidade; isso revela a importância que as águas termais já assumem, naquele momento. As porções desse território foram ocupadas de maneira desigual. O espaço urbano caracteriza-se, desde os primórdios, pela heterogeneidade, tanto nos níveis de vida quanto nos credos e na cultura. Imigrantes foram-se estabelecendo na pequena vila, e esta começa a apresentar ares de cidade. Se “o uso do espaço remete às profundas marcas que o homem imprime à natureza” (DAMIANI, 1999, p.49), a administração do Coronel Bento de Godoy marca-se pela construção da ponte sobre o Rio Corumbá, ligando Caldas Novas à cidade de Ipameri, que dá a Caldas Novas novo impulso para o desenvolvimento. Não se pode negar que as ferrovias tiveram um papel de destaque no povoamento goiano. Com esse acesso a Ipameri, que era servida pela estrada de ferro Mogiana, Caldas Novas estava ligada a Araguari, Ribeirão Preto, Campinas e São Paulo, facilitando, assim, o escoamento da produção e a chegada de pessoas.

2 COMPLEXO TERMAL DA REGIÃO DAS ÁGUAS QUENTES

O desenvolvimento turístico–econômico de Caldas Novas está associado, majoritariamente, à presença do aqüífero termal e estreitamente ligado com os recursos turísticos, naturais e culturais disponíveis. A localização geográfica, a facilidade dos acessos e a proximidade relativa de
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importantes centros urbanos, situam o município a uma distância favorável para captar um fluxo turístico quantitativamente significante. Cabe aqui um breve esclarecimento sobre a origem das águas quentes. Essa explicação, sem dúvida, contribuirá para se entender melhor tanto a evolução da cidade quanto alguns problemas atuais, em uma amplitude mais abrangente. Isso porque, com o desenvolvimento urbano, intensificam-se os problemas gerados por questões como a impermeabilização do solo, aumento do volume de lixo, degradação ambiental, entre outros, que por sua vez afetam, direta ou indiretamente, o aqüífero termal. A região de Caldas Novas encontra-se entre os rios Corumbá e Piracanjuba, afluentes da margem direita do rio Paranaíba. Possui um clima tropical chuvoso, com a existência de duas estações bem definidas, uma chuvosa, com temperaturas mais elevadas, e outra seca, com temperaturas mais amenas. Essas questões são importantes, pois explicam uma antiga dúvida de se a Serra de Caldas, onde se concentra a maior parte do aqüífero, seria originária de um vulcão. Além do mais, o esclarecimento sobre a origem das águas quentes permite a identificação, com maior propriedade, dos reais efeitos causados pelo processo de crescimento urbano experimentado pela cidade. Segundo Haesbaert (2003, p.3), “o Domo da Serra de Caldas destaca-se na região e é constituído por metassedimentos do Grupo Paranoá. Os terrenos rebaixados adjacentes constituemse de xistos variados e quartzitos do Grupo Araxá”. As rochas da região foram, originalmente, depositadas em um ambiente marinho. A idade para a sedimentação do Grupo Paranoá situa-se entre 950 e 1350 Ma (unidade neoprotezóica), posicionada no Meso-Neoproterozóico. O metamorfismo é de muito baixo grau, as estruturas sedimentares muito bem preservadas. A idade do Grupo Araxá situa-se entre 830  50 a 1020  100 Ma (unidade neoproterozóica). (Figura 1).

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Figura 1 – Caldas Novas: Seção Geológica Idealizada. Fonte: COSTA e HAESBAERT, 2000.

As águas termais de Caldas Novas e Rio Quente são águas de chuvas que penetram no solo e descem em profundidade de cerca de 1500 metros, através de grandes fraturamentos. No contato com as rochas, são mineralizadas e aquecidas, pelo fenômeno denominado gradiente geotérmico. O gradiente geotérmico significa dizer, simplificando, que, aproximadamente a cada 33 metros, rumo ao interior da Terra, há um aquecimento de 1 grau C. Ao se elucidar a questão de recarga do aqüífero, abre-se oportunidade para se repensar a cidade e seu crescimento, no sentido de relacioná-los com a manutenção do nível desse aqüífero (COSTA e HAESBAERT, 2000). Um modelo de fluxo dessas águas foi idealizado por Tröger et al (1999, p.2). Nesse modelo esquemático do fluxo da água subterrânea (representada pelos segmentos de cor azul), temos dois grandes sistemas de circulação da água da chuva, que infiltra e abastece o aqüífero termal. (Figura 2).

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Figura 2 – Caldas Novas: Modelo Esquemático do Fluxo de Água Subterrânea. Fonte: TRÖGER et al, 1999, p.2.

O primeiro sistema de circulação, com recarga na Serra de Caldas, permite a descida de água em profundidades de até 1500 metros, atingindo cerca de 75°C. Essas águas sobem, após aquecidas, e constituem as águas da Pousada do Rio Quente (misturada com águas mais frias) e as águas dos poços profundos com maiores temperaturas de Caldas Novas (59°C). É denominado aqüífero Paranoá. O segundo sistema de circulação, com recarga em volta da Serra de Caldas e com cotas acima de 720 metros, originam a maior parte das águas de Caldas Novas (com temperatura em torno de 38 a 40°C). É denominado Aqüífero Araxá. Segundo dados da Secretaria de Turismo (2007), a exploração do aqüífero termal, em Caldas Novas, é feita através de 149 poços, com temperaturas entre 27 a 59°C e uma vazão de 427 l/s e também na Lagoa de Pirapitinga, com temperaturas até 49,5°C e vazão de 14 l/s. As nascentes do Rio Quente constituem-se em 25 ocorrências termais e uma vazão de 1634 l/s. O nível dinâmico do aqüífero termal, que em 1979 encontrava-se na cota de 670 metros, caiu para 618 metros, em 1996. Com o gerenciamento do aqüífero, onde várias medidas de controle de exploração foram tomadas, o nível chegou a recuperar 36 metros, atingindo a cota de 654 metros, em 1998, e permanecendo até os dias atuais com uma cota média de 644 metros. Essa análise mostra que o nível do aqüífero teve uma trajetória descendente de 1979 até 1995, quando foi registrado o nível mais baixo, desde então (COSTA e HAESBAERT, 2000). Tais informações geraram grandes discussões e indagações sobre a extinção das águas quentes, em Caldas Novas. Porém, nos anos posteriores, os níveis apresentados mostraram significativas melhoras, resultado de uma campanha para a população, orientando para o uso
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abusivo da água quente, e o mais importante, a medida de proibição de abertura de novos poços de água quente, pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), bem como o registro e regularização dos já existentes. Assim, pode-se perceber a importância de se conhecer, pelo menos minimamente, a origem das águas quentes, bem como está seu estágio de exploração, no sentido de um monitoramento desse importante recurso natural, para interpretarmos as ações ocorridas no município, levando em consideração esse aspecto essencial. Todo o esquema supracitado só foi concebido e aceito depois de uma série de conflitos entre os empresários, a população e o DNPM. Cabe então resgatar, brevemente, essas questões. De acordo com informações da Secretaria de Turismo e Cultura e do geólogo Fabio Haesbaert, na década de 1970 começaram a ser perfurados os primeiros poços. Naquela época, não existia uma clareza sobre a origem, nem mesmo uma concepção comprovada do processo de recarga das águas quentes. No início dos anos 1980, existiam apenas três direitos de pesquisa: o primeiro era o Balneário Municipal, pertencente à Prefeitura Municipal; o segundo, do Sr. Hodolfo Hohr, proprietário do hotel Parque das Primaveras, e o terceiro, do empresário Sr. César Baiochi, no Bairro Bandeirante. Porém, várias pessoas começaram, ilegalmente, a perfurar poços, na cidade. Como cada alvará permite uma concessão de 50 hectares, muitos poços estavam dentro das áreas dos três proprietários citados, em desacordo com o Código de Mineração, capítulo 2:

Art. 14 - Entende-se por pesquisa mineral a execução dos trabalhos necessários à definição da jazida, sua avaliação e a determinação da exeqüibilidade do seu aproveitamento econômico. § 1º - A pesquisa mineral compreende, entre outros, os seguintes trabalhos de campo e de laboratório: levantamentos geológicos pormenorizados da área a pesquisar, em escala conveniente, estudos dos afloramentos e suas correlações, levantamentos geofísicos e geoquímicos; aberturas de escavações visitáveis e, execução de sondagens no corpo mineral; amostragens sistemáticas; análises físicas e químicas das amostras e dos testemunhos de sondagens; e ensaios de beneficiamento dos minérios ou das substâncias minerais úteis para obtenção de concentrados, de acordo com as especificações do mercado ou aproveitamento industrial. § 2º - A definição da jazida resultará da coordenação, correlação e interpretação dos dados colhidos nos trabalhos executados, e conduzirá a uma medida das reservas e dos teores. § 3º - A exeqüibilidade do aproveitamento econômico resultará da análise preliminar dos custos da produção, dos fretes e do mercado.

Naquele momento, o DNPM reuniu os titulares, junto com os interessados, e fez uma proposta de cancelar o direito dos primeiros, da forma como estava vigorando, para uma nova
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configuração que beneficiasse alguns proprietários de poços clandestinos, bem como outros com intenção de perfurar novos poços, naquela área. Dessa forma, e por concordância dos proprietários da concessão, os proprietários cancelaram os alvarás e todos os citados registraram, no dia seguinte, de forma previamente acordada entre as partes, todos os requerimentos, já em uma nova configuração. Assim, abriu-se espaço para investimento de novos empresários, o que por sua vez contribuiu para o crescimento da cidade de Caldas Novas. Porém, com a nova configuração, abriuse espaço também para a proliferação de vários outros poços, de pessoas que pleitearam o direito de exploração, posteriormente. Com essa proliferação de novos poços, o nível do lençol termal foi diminuindo, sendo necessárias perfurações cada vez mais profundas, para alcançar o lençol. Foi quando no final da década de 1980, o DNPM começou a exigir, dos proprietários de poços, que colocassem um hidrômetro, no sentido de monitorar o uso da água. Desse momento (1988-1990) até 1995, talvez por coincidir com a política adotada pelo governo Collor de Melo, onde alguns órgãos federais tiveram suas atividades desaquecidas, o DNPM teve muito pouca atuação em Caldas Novas, abandonando assim, quase por completo, a fiscalização sobre a utilização das águas quentes. Na realidade, existia a exigência dos hidrômetros, porém houve um abandono da fiscalização. No ano de 1995, o nível do lençol termal foi o mais baixo já registrado, conforme figura 3, abaixo da cota 600, limite que significa a quantidade de metros de profundidade do aqüífero, bem como serve como uma referência máxima para alerta, pelas autoridades responsáveis (significa que é o mínimo possível). Naquele momento, coincidindo com esse rebaixamento houve o fechamento da barragem do Rio Corumbá, onde estava em construção uma usina hidrelétrica, fazendo com que houvesse uma especulação em torno do esfriamento das águas quentes. Essa especulação foi intensificada com a declaração, no jornal do Brasil, do Sr. Valia Hans, um geofísico indiano, com certo renome internacional, alegando que as águas quentes de Caldas Novas iriam sofrer um esfriamento, em função do lago de Corumbá.

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Cotas Altimétricas Médias do N.E. do Aqüífero Termal Araxá
680

670

660

Cota (m)

650
36 m

640

630

620

610 Jun-79

Out-80

Fev-82

Jul-83

Nov-84

Abr-86

Ago-87

Dez-88

Mai-90

Set-91

Fev-93

Jun-94

Nov-95

Mar-97

Jul-98

Dez-99

Abr-01

Tempo (Mês-Ano)

Figura 3 – Caldas Novas: Rebaixamento do Nível Estático do Aqüífero Termal. Fonte: Tröger; et al, (1999: 6)

Com toda a repercussão sobre o assunto prejudicando, significativamente, o fluxo de turistas e, principalmente, o fluxo de investimentos para Caldas Novas, houve uma iniciativa de se fazer um estudo metódico para comprovar, não só a origem das águas, mas também o possível efeito causado pelo lago de Corumbá. Dessa forma, uma equipe formada pelos geólogos locais, Sr. Fabio Haesbaert e Fernando Gambier, juntamente com uma equipe da Universidade de Brasília e uma equipe da Universidade de Berlim (Alemanha) iniciaram um estudo, que resultou nos esquemas supracitados nas figuras 1 e 2, bem como na constatação de que a versão divulgada pelo Sr. Hans era falsa, pois a cota do lago estava mais baixa que o nível do aqüífero, portanto não havia como essa água esfriar. O resultado do estudo esclareceu uma dúvida com relação à região da Serra de Caldas, na qual alguns técnicos advogavam ser ela de origem vulcânica. Esse fato também foi esclarecido com algumas outras pesquisas, em busca de urânio, tentando achar alguma relação com vulcanismo, devido ao formato ovalizado da serra, dando a impressão de uma chaminé vulcânica. Assim, constatou-se a inexistência de rochas vulcânicas. Como resultado, também se descobriu que a Serra de Caldas era uma área de recarga. A área de recarga é a região onde as chuvas escoam pelo solo e abastecem o lençol termal. Porém, posteriormente, uma equipe de Furnas fez um trabalho e constatou que a Serra da Matinha, indo para Ipameri, seria também área de recarga, assim como toda a área do município. Levando-se em consideração todos esses estudos, foi realizado um trabalho, pelos Srs. Haesbaert e Gambier, definido como Portaria 231, do DNPM, falando da exigência para se caracterizarem as áreas de proteção do aqüífero, na qual haveria a necessidade de se definir, além da origem, o formato do balanço hídrico.
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Depois de formatados todos os estudos, o DNPM suspendeu a outorga de novos alvarás de pesquisa, através de portaria 161, renovável. Esse procedimento é em função da própria manutenção dos níveis do lençol, que envolvem também medições mensais dos poços, no sentido de monitorálos constantemente. Portanto, o estudo que revelou as especificidades do aqüífero termal, em Caldas Novas, contribuiu para que ele pudesse ser avaliado e monitorado, elucidando todas as questões a esse respeito e mais, propiciando a possibilidade de se fazer um planejamento urbano, identificando o que cada ação, no solo urbano, poderia trazer de conseqüências para o lençol.

3 DESENVOLVIMENTO TURISTICO DA REGIÃO DAS ÁGUAS QUENTES

Souza Júnior e Ito (2005, p. 1) apontam que a origem do termo pode estar relacionada a denominação tur do hebreu antigo que significa “viagem de descoberta, de exploração, de reconhecimento”. Afirmam, porém, que “um resgate sobre a ‘geohistória’ do turismo” indicaria “que o seu desenvolvimento é mais antigo do que a origem do próprio termo”. Entretanto, continuam esses autores, a maior difusão do turismo deu-se “graças ao desenvolvimento tecnológico do século XIX (máquina a vapor, trem com vagão leito, etc) e século XX (desenvolvimento dos setores de transporte e comunicação)”. Pires (2002, p. 162) afirma que a paisagem é o elemento essencial para o turismo, de modo que “o turismo pode ser concebido como uma experiência geográfica”. Por isso, “não demorou muito para que a atividade turística se utilizasse, indiretamente, do aporte descritivo fornecido pela geografia ao optar pela seleção de espaços destinados ao seu desenvolvimento”. (SOUZA JÚNIOR; ITO, 2005, p. 1). A seletividade do espaço é, a um só tempo, sua fragmentação e reconfiguração. A prática do turismo demanda infra-estrutura adequada para atender as exigências impostas pela lógica do mercado turístico (hotéis, pousadas, aeroportos, vias de acesso, saneamento básico). [...] Nesse processo, o turismo vai produzir e reproduzir espaços elitizados para atender as necessidades das classes que podem comprar o lazer. Assim, o turismo materializa-se na lógica do capital, uma vez que transfere valor aos patrimônios natural e cultural dos lugares (MOREIRA; TREVIZAN, 2005, p. 1). A expansão da atividade turística demanda a implantação de infra-estruturas básicas em escala regional; a implantação de equipamentos hoteleiros e a qualificação e formação de mão-deobra para trabalhar no setor, além de um agressivo marketing nacional e internacional, como noticia Merys (2003, p. 3).
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A atividade turística induz a profundas alterações nos lugares em que se desenvolve. Isso se deve ao fato de que, nos lugares turísticos, se confrontam a territorialidade sedentária dos que aí vivem freqüentemente e a nômade dos que por ali só passam (BORGES, 2005). Segundo a Empresa Brasileira de Turismo de Goiás (EMBRATUR, 2000 apud MOREIRA; TREVIZAN, 2005), a atividade turística no Brasil corresponde a 7% do PIB e já se tornou o terceiro segmento da pauta de exportações do país. Movimenta outros 52 setores da economia, gerando um faturamento de US$25,8 bilhões3, através das viagens de 45 milhões de brasileiros e 5,3 milhões de turistas estrangeiros que visitam o país, além de empregar seis milhões de pessoas no Brasil. O impacto da atividade turística depende da infra-estrutura regional. O sistema turístico e a rede onde este se encontra sitiado é produto da relação entre os pólos de atração e os espaços satélites cujos atrativos passam a dar sentido ao espaço turístico confabulando para a criação de espaços hierárquicos para o desenvolvimento do turismo (BARROS, 1998, p. 18). Assim, o turismo não privilegia o fixo, mas os roteiros. O turista, proveniente de qualquer parte do Brasil ou mesmo do estrangeiro, encontra magníficas atrações em Goiás. O estado apresenta um grande potencial turístico. Caldas Novas é um dos pontos de maior destaque no mercado consumidor interno de bens turísticos. Ao lado deste, no sopé da Serra de Caldas, encontra-se o resort Pousada do Rio Quente. Formando a região das águas quentes, pertencente ao Caminho das Águas (Planos Estaduais Para o Desenvolvimento do Turismo). Dentro deste “Caminho”, Caldas Novas tem papel de destaque. Se, de acordo com Albuquerque (1996, p. 25), há registros de que, no século XVII, “já eram feitas incursões de índios, com trilhas que iam do Rio de Janeiro até Machu Pichu, a capital dos Incas, no Peru”, é certo que a inserção de Caldas Novas no circuito do “turismo capitalista” ocorreu, de forma mais efetiva, na década de 1980. A partir desse período, Caldas Novas transformou-se radicalmente, tanto do ponto de vista econômico, quanto sócio-cultural e, acima de tudo, espacial. Em função do turismo de águas quentes, cresce a população e diversificam-se comércio e serviços, ao passo que os promotores imobiliários expandem o entorno da cidade (Borges, 2005 p. 32). Esse desenvolvimento turístico foi de suma importância para a região das águas quentes, pois acabou por levar um crescimento econômico e social para toda essa região, com destaque para Caldas Novas e Rio Quente. Esse crescimento pode ser visto por toda a cidade, como nos parques hoteleiros, nas feiras, nas festas e na própria condição da população local.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Observa-se, que a região das águas quentes, localizada no estado de Goiás, se insere num perfil de turismo de lazer, que devido ao beneficio da água quente, acabou sendo reconhecida por todo o Brasil e vários países do mundo. Esse elevado crescimento turístico fez com que essa região do estado de Goiás se desenvolvesse rapidamente, não respeitando os limites impostos pelo meio físico, principalmente pela quantidade de água existente no lençol termal. Esse processo acabou por influenciar na quantidade de água quente disponível para o uso do turismo, chegando a se ter uma crise de abastecimento na década de 1980 e 1990. Fazendo com que houvesse uma intervenção governamental no sentido de se planejar e coibir o uso indiscriminado desse recurso finito. Nos diais atuais está se realizando um estudo sobre a possibilidade de se fazer uma recarga artificial desse lençol de água subterrânea, ou seja, sua viabilidade econômica e social. Portanto esse desenvolvimento do turismo de lazer tem que ser muito bem elaborado, pois se trata de um recurso hídrico finito e que se mal utilizado poderá trazer seriais complicações (ambientais, sociais e econômicas) para a população local, não sendo o elo entre exploração turística e desenvolvimento local.

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TURISMO COMUNITÁRIO: UM CAMINHAR PARA O DESENVOLVIMENTO LOCAL Celso Cardoso GOMES11

O quadro social e econômico mundial tem sofrido grande turbulência em virtude, principalmente, da especulação financeira desvairada, bem como devido ao modo de produção vigente que visa apenas à lucratividade independente do que poderá ocasionar para sociedade, este modelo de desenvolvimento econômico tem por base as características hegemônicas do capital, onde as instituições, comércio, bancos, etc., perdem suas funções em busca do lucro, por conseguinte gerando e intensificando a problemática social, desta forma logo se indaga “o que fazer?” ou “como solucionar?” ou pelo menos “como mitigar tais acontecimentos?” respostas que ONGs, instituições públicas e privadas têm buscado de forma incessante, seja em termos sociais, econômicos e ambientais. Obviamente o Brasil também tem sido atingido por tal movimento e como os demais países busca encontrar soluções para superar as desigualdades sociais. A atividade turística pode contribuir e mitigar parte das desigualdades sociais, os problemas econômicos e ecológicos, em virtude que a atividade é caracterizada por ser um fenômeno social e econômico, mas que também pode oportunizar benefícios ecológicos, todavia o atual modelo econômico vigente desencadeia centralização do capital, desigualdades sociais e acúmulo de capital. A atividade turística tem crescido de forma acelerada, entretanto os resultados são centralizadores e dinamizadores de crescimento econômico na maior parte dos casos, assim como se distancia de uma prática fundamentada na sustentabilidade ambiental, com isso propiciando a maximização de impactos econômicos, sociais e ecológicos, de forma negativa, e descaracterizando a possibilidade de propiciar o desenvolvimento local. O setor turístico tem contribuído para ascensão econômica e social de diferentes grupos humanos pelo mundo. O fluxo turístico internacional tem corroborado principalmente com a receita cambial (PIRES, 2011) permitindo avaliar que esta arrancada exponencial do turismo aconteceu a partir de 1999, apesar da retração ocorrida no ano de 2009 devido à crise financeira internacional, com isso perfazendo um montante que atinge cerca de US$ 919 bilhões, de acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT) de receita gerada pela atividade. A partir do exposto o presente artigo tem por objetivo analisar os desafios e possibilidades da atividade turística na perspectiva de contribuição para o desenvolvimento local. Os resultados desta pesquisa poderão subsidiar a compreensão dos desafios e possibilidade que o a atividade turística possui para promover o desenvolvimento local.

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Mestrando no Programa de Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Pernambuco

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1 TURISMO COMUNITÁRIO, DESENVOLVIMENTO LOCAL E SUSTENTABILIDADE A Organização Mundial do Turismo - OMT (2003, p.18) conceitua turismo como “as atividades das pessoas que viajam e permanecem em lugares fora de seu ambiente habitual por não mais de um ano consecutivo para lazer, negócios ou outros objetivos”, entretanto atividade turística é complexa tal qual ressalta Coriolano (1998, p. 29), “O turismo é, pois, esta complexa atividade humana envolvendo um conjunto muito grande de relações, influências, motivações, desejos e representações”, destarte, é necessário visualizar o setor turístico de forma holística, isto é, considerando os aspectos sociais, econômicos e ecológicos, assim como dinamizando a participação dos atores sociais envolvidos, com isso possibilitando entender os problemas e virtudes condicionados pela atividade. Diante do pressuposto Silveira (1997, p. 87) contextualiza de forma abrangente e específica os aspectos direcionados ao fenômeno turístico que está

Classificado como a principal atividade econômica do mundo, superando até mesmo o petróleo em geração de divisas internacionais, o turismo tornou-se “objeto de desejo”. Para muitas regiões, essa atividade provoca impactos negativos no meio ambiente. São impactos que incidem tanto no meio natural (vegetação, rios, praias, mangues, montanhas, etc.), quanto no patrimônio histórico-cultural e modos de vida dos habitantes locais.

Considerando a definição de Silveira (1997, p. 95), fica evidente a importância da atividade turística, particularmente, no tocante ao crescimento econômico, sendo sobreposto os benefícios sociais e ecológicos, ou seja, se distanciando da possibilidade de melhoria das condições de vida da população envolvida em tal processo, por conseguinte, se percebe a complexidade do turismo. De acordo com Beni (apud COUTINHO; SELVA, 2007, p. 2) o turismo

[...] é uma atividade complexa que engloba diversos elementos que interagem entre si em um sistema mais amplo e resulta do somatório dos recursos naturais, culturais, sociais e econômicos, o que torna seu estudo abrangente, complexo, multicasual e que demanda de planejamento e gestão integrada” (BENI, 1998)

O autor destaca o turismo como uma atividade complexa que precisa ser entendida de forma sistêmica considerando o contexto socioeconômico e ecológico, assim como os atores sociais envolvidos. Desde modo poderá maximizar efeitos negativos ou positivos, assim como oportunizar o dinamismo econômico, gerar benefícios sociais e ecológicos, no entanto sendo importante a participação social, o planejamento integrado e uma gestão democrática.
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A partir do explicitado fica evidente que o turismo tem contribuído para acumulação do capital contrariando as perspectivas de atividade mitigadoras desta problemática, no entanto se construída de forma participativa e comunitária como destaca Coriolano (2005) que o “turismo comunitário é uma estratégia de sobrevivência, e de entrada daqueles de menores condições econômicas na cadeia produtiva do turismo. Uma forma de turismo que pensa o lugar, a conservação ambiental e ressignifica a cultura”, pode assim reencantar o homem através da natureza (UNGER, 1991), colaborando com o desenvolvimento da localidade. O turismo comunitário é segundo Coriolano (2003, p.14):
“[...] aquele desenvolvido pelos próprios moradores de um lugar que passam a ser articuladores e os construtores de cadeia produtiva, onde a renda e o lucro ficam na comunidade e contribuem para melhorar a qualidade de vida; leva todos a se sentirem capazes de contribuir, e organizar as estratégias do desenvolvimento do turismo”.

Sendo assim o turismo de base local comunitária é norteado pela participação dos atores sociais locais em todas as fases do planejamento e aplicação da atividade turística, diferente do modelo de turismo de massa que é setorizado e abarcado pelo capital, de acordo com Coriolano (2006): “[...] jeito diferenciado de trabalhar com o turismo. Trata-se de um eixo do turismo centrado no trabalho de comunidades, de grupos solidários, ao invés do individualismo predominante no estilo econômico do eixo tradicional”. O modelo adotado pelas grandes corporações do turismo e governos neoliberais tem como base a acumulação do capital e divisas, acarretando em um efeito inverso, isto é, potencializa efeitos econômicos e acentua os problemas sociais e ecológicos, descumprindo as promessas de geração de emprego e distribuição de renda, bem como melhoria da qualidade de vida (CORIOLANO, 2006), para minimizar este efeito contraditório uma das possibilidades é o caminhar através do turismo comunitário que rema através de um movimento contracultura do modelo hegemônico do capital, entendido como civilização do capital (CHESNAIS, 1996). O desenvolvimento do Turismo com base comunitária segundo Carvalho (2007) destaca-se :

pela mobilização da comunidade na luta por seus direitos contra grandes empreendedores da indústria do turismo de massa que pretendem ocupar seu território ameaçando a qualidade de vida e as tradições da população local. Este modelo de turismo através do desenvolvimento comunitário é capaz de melhorar a renda e o bem-estar dos moradores, preservando os valores culturais e as belezas naturais da (sic!) de cada região.

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Devido à complexidade evidenciada no contexto da atividade turística precisa, para não corroborar para maximização negativa de impactos econômicos, sociais e ecológicos, ser gerida de forma planejada e integrada através de um modelo de gestão ambiental que, conforme, Quintas (2006, p. 30) deve mediar

[...] interesses e conflitos (potenciais ou explícitos) entre atores sociais que agem sobre os meios físico-natural e construído, objetivando garantir o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, conforme determina a Constituição Federal do Brasil.

A prática da gestão ambiental encontra-se, conforme Coimbra (1999) condicionada à utilização de instrumentos como fiscalização, licenciamento, monitoramento e educação ambiental. Todavia, para o desenvolvimento de tais ferramentas torna-se preciso a instituição de instrumentos de ordenamento territorial que possibilitem, por sua vez, a correta manutenção e gerenciamento das questões pertinentes a gestão ambiental. No que tange ao modelo de gestão adequada ao desenvolvimento do turismo, percebe-se que esta atividade precisa ser inserida conforme os princípios básicos da gestão ambiental, ou seja, a prevenção, responsabilidade e cooperação (SOBRAL, 2011). Com isso, possibilita-se administrar os conflitos existentes e propiciar o desenvolvimento local, já que são estabelecidas diferenças entre as denominações dos conceitos de crescimento e desenvolvimento, conforme Furtado (1983, p. 90).

Assim, o conceito de desenvolvimento compreende a idéia de crescimento, superando-a. Com efeito: ele se refere ao crescimento de um conjunto de estrutura complexa. Essa complexidade estrutural não é uma questão de nível tecnológico. Na verdade, ela traduz a diversidade das formas sociais e econômicas engendrada pela divisão do trabalho social. [...]. O conceito de crescimento deve ser reservado para exprimir a expansão da produção real no quadro de um subconjunto econômico. Esse crescimento não implica, necessariamente, modificações nas funções de produção, isto é, na forma em que se combinam os fatores no setor produtivo em questão.

Ainda retratando Furtado (1980), o mesmo considera o conceito de desenvolvimento como um duplo sentido. O primeiro sentido conduz à ascensão de um sistema social de produção na medida em que este, mediante a acumulação e progresso das técnicas, vem tornando-se mais eficaz com isso elevando a produtividade do conjunto de sua força de trabalho. No segundo sentido notase que o autor enfatiza o interesse de melhorias para a satisfação das necessidades humanas (NEDEL, 2007). Nesta contextualização o crescimento econômico pode não ter capacidade de subsidiar o desenvolvimento, provocando, especialmente, a acumulação de capital sem distribuição,
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bem como diminuição da qualidade de vida. Sen (2000, p. 29) define o desenvolvimento corroborando para a qualidade de vida e cidadania

[...] o crescimento econômico não pode ser considerado um fim em si mesmo. O desenvolvimento tem de estar relacionado sobretudo com a melhoria da vida que levamos e das liberdades que desfrutamos. Expandir as liberdades que temos razão para valorizar não só torna nossa vida mais rica e mais desimpedida, mas também permite que sejamos seres sociais mais completos, pondo em prática nossas volições, interagindo com o mundo em que vivemos e influenciando esse mundo.

A partir da contextualização percebem-se contradições no conceito de crescimento econômico e desenvolvimento. Desta forma será considerado o conceito de Buarque (1998, p. 09) para o qual Desenvolvimento Local “é um processo endógeno registrado em pequenas localidades territoriais, com agrupamentos humanos capaz de promover o dinamismo econômico e a melhoria da qualidade de vida da população”. Endlich, (2007, p. 11) destaca que “[...] O desenvolvimento local é uma resposta à reestruturação produtiva que situa o desenvolvimento desigual num contexto de regiões ganhadoras e regiões perdedoras”, destacando também que o desenvolvimento deve estar pautado numa transformação consciente da experiência local, ou seja, preocupando-se com o presente, bem como com as gerações futuras (MILANI, 2005). Existem diversas interpretações a respeito do conceito de desenvolvimento, todavia Buarque (2001, p. 13) e Hanai (2012, p. 210) percebe o desenvolvimento local como

um processo endógeno de mudança e, para ser consistente e sustentável, deve levar ao dinamismo e à viabilidade econômica, mobilizando e explorando as potencialidades locais e contribuindo para elevar as oportunidades sociais e, ao mesmo tempo, deve assegurar a conservação dos recursos naturais locais, que são as bases de suas potencialidades.

Esta visão de mundo também é externada por Buarque (2004) quando o mesmo contextualiza o desenvolvimento local sustentável, particularmente, como um processo de transformação social com vistas a “[...] elevação das oportunidades da sociedade, compatibilizando, no tempo e no espaço, o crescimento e a eficiência econômicos, a conservação ambiental, a qualidade de vida e a equidade social, partindo de um claro compromisso com o futuro e a solidariedade entre gerações”.

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1.1 POTENCIALIDADES

Outra percepção bastante interessante é a de Jesus (2006, p. 27) que inclui, principalmente, como fator responsável do desenvolvimento, a força local, isto é, a gestão participativa local com a mobilização dos atores sociais, bem como das instituições presentes neste lugar provoca a transformação socioeconômica local, tal qual mencionado pelo autor: Pode-se, pois, dizer que se está perante uma iniciativa ou um processo de desenvolvimento local quando se constata a utilização de recursos e valores locais, sob o controle de instituições e de pessoas do local, resultando em benefícios para as pessoas e o meio ambiente local. (JESUS, 2006, p. 27). Destarte, a pesquisa tem como base os conceitos de Hanai e Buarque (idem), uma vez que engloba a conjuntura econômica, social e ecológica, preconizando assim um processo pautado na sustentabilidade. A definição do termo sustentabilidade origina-se da inter-relação entre justiça social, melhoria da qualidade de vida e equilíbrio ecológico, bem como rompe com os atuais padrões de desenvolvimento para um dado grupo (JACOBI, 1997; CAVALCANTI, 2003). Entretanto, as percepções de sustentabilidade possuem contradições, visto que ocorre um paradoxo da sustentabilidade ecológica versus a sustentabilidade social, com isso se tornando dicotômico com o atual modelo de produção capitalista, pois conduz a acumulação de capital, individualismo e aumento de consumo, sendo desta forma não direcionada à justiça social proposta por Jacobi (1997). Portanto, a sustentabilidade é um processo complexo e audacioso, motivado por questões políticas que compreende características ecológica, econômica e social, na perspectiva de constituir uma sociedade sustentável, ou seja, do equilíbrio entre as bases da sustentabilidade (SPANGENBERG e BONNIOT, 1998; HANAI, 2012). Diversos autores explicam a sustentabilidade a partir de concepções e dimensões variadas, particularmente, de um processo sistêmico de integração ecológica, econômica, social, política, demográfica, cultural, espacial, institucional e tecnológica, em nível internacional, nacional, regional, bem como da comunidade local (BOSSEL, 1999; BIDONE e MORALES, 2004; CHOI e SIRAKAYA, 2006; HANAI, 2012).

2 ANÁLISE DOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DO TURISMO

Segundo Amaral Filho (1995)

Sem dúvida alguma o segmento turismo é a opção que mais se aproxima do paradigma do desenvolvimento endógeno sustentado na medida em que consegue conjugar vários

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elementos importantes para o desenvolvimento local regional(i) forças sócio-econômicas, institucionais e culturais locais, (ii) grande número de pequenas e médias empresas locais, ramificadas por diversos setores e sub-setores, (iii) flexibilização, (iv) alto grau de multiplicação da renda local, (v) indústria limpa, (vi) globalização da economia local, através do fluxo de valores e informações nacionais e estrangeiros, sem que essa globalização crie um efeito “trade-off" em relação ao crescimento da economia local (AMARAL FILHO, 1995, p.602).

A atividade turística tem proporcionado na maior parte dos casos crescimento econômico que segundo Sachs (2004, p.13) é uma condição necessária, mais de forma alguma é suficiente [...] para se alcançar a meta de uma vida melhor, mais feliz e mais completa para todos”, todavia ocorre distinção entre o conceito de desenvolvimento e crescimento, tornando-se mais notório no período pós-guerra (BOISIER, 2001; SACHS, 2004), evidenciado na citação do britânico Dudley Seers comentado por Boisier (2001, p. 3)

Seers, fuertemente inspirado en el pensamiento de Gandhi, sostiene que debemos preguntarnos a nosotros mismos acerca de las condiciones necesarias para la realización del potencial de la personalidad humana, algo comúnmente aceptado como objetivo. A partir de esta pregunta Seers apunta a la alimentación, como uma necesidad absoluta (inmediatamente traducida a pobreza y a nivel de ingreso). Uma segunda condición básica para el desarrollo personal es el empleo y la tercera, es la igualdad entendida como equidad, aquí por tanto ya se introduce un elemento subjetivo e intangible puesto que el concepto de equidad tiene tales dimensiones[...].

A condição humana passa a ser alvo da distinção do conceito de crescimento desenvolvimento tal qual proposto por Neef , Elizalde e Hopenhayn (1986) apud Boisier (2001, p. 5) momento que condicionam uma nova direção para o conceito de desenvolvimento, partindo do pressuposto que o indivíduo é mais importante nesse contexto, denominado “Desarollo a Escala Humana”, caracterizado na seguinte explanação

Desarrollo [el desarrollo a escala humana] se concentra y sustenta en la satisfacción de las necesidades humanas fundamentales, en la generación de niveles crecientes de autodependencia y en la articulación orgánica de los seres humanos con la naturaleza y la tecnología, de los procesos globales con los comportamientos locales, de lo personal con lo social, de la planificación con la autonomía y de la Sociedad Civil con el Estado.

No desenrolar da atividade turística ocorrem impactos que podem beneficiar a população da localidade receptora, mas também podem acarretar problemas danosos para as comunidades
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envolvidas, ou seja, possíveis impactos ambientais negativos para a paisagem turística, diante do explicitado é necessário fazer um planejamento cauteloso, que coordene as ações do homem sobre o meio ambiente, bem ressaltados nos princípios do turismo local, tal qual mencionou Ruschmann (1997)

- Preservação e conservação do patrimônio natural; - Valorização do patrimônio histórico e cultural; - Desenvolvimento econômico com equidade social; - Incentivo aos micros e pequenos negócios;

De modo que as ações deverão instrumentalizar de forma adequada as construções dos equipamentos e adequação dos serviços, minorando assim, os efeitos negativos e maximizando os benefícios proporcionados pelo turismo. O planejamento do turismo requer estudos detalhados, sendo a informação uma ferramenta essencial para se realizar os procedimentos e buscar investimentos para o desenvolvimento da atividade. Para a implantação de alguma ação, é necessária uma análise das condições turísticas da localidade, levantando dados informativos e diagnosticando as reais condições para se desenvolver o turismo. O primeiro passo poderá ser o levantamento do potencial turístico da localidade, o inventário da oferta turística e verificar as condições de realização da atividade turística. Quando se refere ao turismo atrelado ao meio ambiente logo se depara com Faria e Carneiro (2001, p. 70) “A relação do turismo com o meio ambiente dá-se principalmente por meio da paisagem, transformada em produto a ser consumido”, todavia é necessário que se tenha o devido cuidado, porquanto “um segmento que utiliza de forma sustentável o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem estar das populações envolvidas” (NEIMAN; RABINOVICI 2002, p. 154). Citado também por Costa (2002, p.179) onde diz que o “ecoturismo poderá contribuir para a conservação da natureza de modo eficaz e gratificante, ainda mais se estiver amparado em certificações ecológicas das empresas envolvidas, mas para tanto, deve haver participação efetiva da sociedade e formação de profissionais qualificados”. É importante frisar que o turismo transforma espaços, não é diferente no Nordeste brasileiro, bem como citado por Rodrigues (1990, p. 56) ao se referir a essa dinâmica afirma que o turismo, enquanto consumidora de espaço, “[...] caracteriza-se pelo uso efêmero do território num processo contínuo de desterritorialização e reterritorialização”. Na perspectiva que a atividade turística é fruto da cultura, assim como a cultura é objeto do turismo, desta forma o projeto turístico social desencadeará uma maior participação dos atores
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sociais, com isso condicionará a formação de administradores locais que possibilitaram a valorização da identidade cultural, a preservação e conservação ecológica e maximizará os efeitos positivos da atividade turística, propiciando o equilíbrio do econômico, social e ecológico, isto é, a sustentabilidade, todavia o processo deve estar contido nas políticas públicas para o planejamento do turismo regional e local (SEABRA & SILVA, 2010, p. 13). A abordagem enfatizada por Silva (2010, p. 130) retrata o desenvolvimento do país pautado através da promoção de políticas públicas que acarretem o direcionamento para o turismo sustentável, portanto, socializando e beneficiando as comunidades tradicionais, contudo que esta população esteja envolvida em todas as etapas. O grande desafio para gerir a atividade turística é integrar as esferas pública, privada e as instituições/associações/organizações não-governamentais, assim como fazer uso de um modelo participativo e de certa forma o abandono do modelo empregado pelos grandes empreendedores do turismo, assim como os respeito à identidade cultural. Já em relação às possibilidades se pode dizer que a prática do turismo comunitário através de um planejamento participativo e o envolvimento da comunidade local, caminhando desta forma no sentido no sentido contrário ao da civilização do capital, possibilitará que o turismo esteja centrado na sustentabilidade e corrobore com o desenvolvimento local.

3 GESTÃO AMBIENTAL E POLÍTICAS PÚBLICAS

A atividade turística precisa esta pautada na sustentabilidade, desta forma poderá ocasionar contribuições para o desenvolvimento local, porém para que ocorra é preciso construir estratégias para o planejamento do turismo, particularmente, com base local, modelo que é um movimento contracultura hegemônica do capital e permite a participação dos atores sociais, contudo o poder público precisa gerir o conflito entre os atores locais de forma participativa. Diante do mencionado a gestão ambiental tem que ser participativa, para não se tornar excludente, especialmente quando se trata de planejar a atividade turística, uma vez que as especificidades locais precisam ser incessantemente estudadas para não ocasionar consequências danosas aos atores sociais, desta forma o governo brasileiro através do Decreto 7.381/2010, de 02 de dezembro de 2010, regulamentou a Lei nº 11.771/2008, 17 setembro de 2008, que trata da Política Nacional de Turismo
define as atribuições do Governo Federal no planejamento, desenvolvimento e estímulo ao setor turístico, dispõe sobre o Plano Nacional de Turismo - PNT, institui o Sistema Nacional de Turismo, o Comitê Interministerial de Facilitação Turística, dispõe sobre o fomento de atividades turísticas com suporte financeiro do Fundo Geral de Turismo -

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FUNGETUR, o cadastramento, classificação e fiscalização dos Prestadores de Serviços Turísticos e estabelece as normas gerais de aplicação das sanções administrativas. (BRASIL, 2010, DECRETO 7.381/2010, art. 1º)

Esta política busca o desenvolvimento social e econômico da área envolvida, atuando inclusive de maneira descentralizada, propondo um elo entre as esferas governamentais, bem como a iniciativa privada e a sociedade, para isso o Plano Nacional de Turismo vem implementando ações para regionalização do turismo, contudo ainda existe uma setorização do turismo, basicamente ligado ao sol e praia. Em se tratando das políticas promovidas pelo Ministério do Turismo se pode destacar o Programa de Ação para o Desenvolvimento do Turismo Regional (PRODETUR/NE) que tem por objetivo criar mecanismos para o desenvolvimento do turismo no âmbito regional. O PRODETUR/NE resultou da parceria do Governo Federal com a Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), a Comissão de Turismo Integrado do Nordeste (CTI/NE), Municípios e Organismos Internacionais, assim como a iniciativa privada. O PRODETUR/NE já está na sua segunda fase, na qual busca a consolidação, bem como complementação e inovação para organização da atividade turística diante do que foi realizado na primeira fase. Uma das particularidades do PRODETUR/NE II é a implementação de ações voltadas para o turismo sustentável, com isso gerando melhoria da qualidade de vida, todavia ainda ocorre uma centralização na área litorânea, assim como a gestão do turismo acontece de forma inadequada, pois os instrumentos deste processo são deficientes, principalmente em municípios fora dos polos setorizados pelo programa que pouco desfrutam dos recursos ou mesmo não recebem, com isso comprometendo a gestão turística. Este conjunto de normas e programas procuram estabelecer um padrão para o desenvolvimento do turismo no Brasil, porém como já foi mencionado a participação ativa da população local é imprescindível, pois estará em jogo o espaço geográfico dessa comunidade, consequentemente sendo os principais responsáveis pelas decisões que poderão acarretar mudanças significativas. É importante mensurar que o turismo comunitário é bastante salutar para diminuir as desigualdades sociais, podendo também contribuir ainda mais para ascensão econômica, todavia a prática do mesmo precisa envolver as questões ambientais como sendo de alta relevância para que este destino turístico possa manter-se sustentável, oportunizando assim a possibilidade das gerações futuras também poderem desfrutar desses destinos turísticos.

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4

ATIVIDADE

TURÍSTICA

NOS

MUNICÍPIOS

DE

TAMANDARÉ

E

BONITO,

PERNAMBUCO

O município de Tamandaré apresenta uma estrutura para a gestão turística, ou seja, promove uma política de gestão ambiental e turística através do ordenamento, com isso possibilitando a integração desse modelo organizacional. Todavia, é importante repensar se a atividade turística tem sido gerida de maneira sustentável, de forma a contribuir com o desenvolvimento local, pois o processo de gestão ambiental direcionada ao turismo no município de Tamandaré tem acontecido de forma desarticulada, centralizada e a participação dos atores sociais não tem sido efetiva, dinâmica e transparente, podendo, conseqüentemente, acarretar impactos sociais, econômicos e ecológicos, de forma negativa. O aumento do fluxo turístico na última década tem acarretado uma expansão urbana caracterizada por uma deficiente estrutura de saneamento, sobretudo, nas áreas cuja população apresenta um menor rendimento mensal. Segundo o IBGE (2010) o número de domicílios particulares permanentes com saneamento semi-adequado e inadequado ultrapassava os 83%. Uma das sequelas deste processo é o aumento do lixo depositado a céu aberto que expõe a população a sérios riscos no que tange a proliferação de vetores como ratos e baratas. Além disso, existem perigos eminentes como a contaminação do ar e do solo pelos componentes liberados a partir decomposição dos resíduos depositados em local indevido O turismo é uma atividade que pode contribuir para dinamizar a economia local, caso seja planejado de forma integrada e articulada a Política Nacional de Turismo, podendo minorar as desigualdades sociais em nível regional, assim como proporcionar uma valorização, neste caso, da Região Nordeste, do litoral pernambucano e, principalmente, do contexto local, possibilitando a sustentabilidade ambiental. Ficou constatada no âmbito municipal a existência da estrutura básica de gestão ambiental, tal como Secretaria de Meio Ambiente, Fundo Municipal de Meio Ambiente, Conselho Municipal de Desenvolvimento e Meio Ambiente, além da presença do Instituto Chico Mendes (ICMBIO), assim como da Agência Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Fornecendo suporte ao processo de gestão do turismo o município apresenta na sua estrutura política a Secretaria de Turismo integrada a Cultura, Conselho Municipal de Turismo (COMTUR) e o Fundo Municipal de Turismo, bem como é beneficiada pelos recursos do Programa de Desenvolvimento Turístico do Nordeste (PRODETUR), além de possuir Plano Diretor com a finalidade de integrar esse modelo organizacional. Esta estrutura tem proporcionado o desenvolvimento do turismo de forma não planejada e sem integração, possibilitando a maximização dos efeitos negativos relacionados ao social,
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ecológico e econômico, principalmente pela deficiente participação dos atores sociais, pois não têm sido efetiva, dinâmica e transparente, conseqüentemente acarretando problemas ecológicos, sociais e econômicos. Neste enfoque Ruschmann (1997) menciona a necessidade de verificar os riscos da atividade turística, pois poderá promover apenas relações econômicas, onde as manifestações culturais e ambientais, ou seja, o desenvolvimento humano será, de certa forma, desprezado em função do crescimento econômico, com isso propiciando apenas crescimento econômico e não o denominado de desenvolvimento local A atividade turística precisa ser verificada como estimuladora da construção e reprodução de manifestações de alteridade da identidade local, e não apenas como um bem de consumo do visitante, com isso propiciará o fortalecimento das próprias raízes e representam fonte de atratividade (BONFIM, 2007), todavia essa construção pouco tem acontecido no município de Tamandaré. A gestão pública no âmbito de Tamandaré está desestruturada em virtude de não possuir sistema de informações, equipamentos, perfil de demanda, fluxo de turistas, estudo de capacidade de carga, atores sociais preparados, entre outros aspectos. Torna-se uma contradição devido à existência de toda uma estrutura institucional ligada a gestão ambiental e turística do município, todavia na prática não consegue um modelo de atuação dinâmico e eficaz. O grande desafio para Tamandaré é conseguir articular os projetos e programas municipais nas esferas estadual e federal, assim como os atores locais, sociedade civil, organizações nãogovernamentais e setor privado, participarem ativamente de processo de planejamento e gestão em torno do Plano de Desenvolvimento Turístico Sustentável de Tamandaré. Nesta perspectiva as potencialidades locais seriam ampliadas. Cumpre destacar que Tamandaré possui uma beleza cênica interessante, mais 140 km² de áreas de proteção ambiental (LIMA, 2006), estrutura viária e infraestrutura hoteleira. No contexto institucional, possui Secretaria de Meio Ambiente, Fundo Municipal de Meio Ambiente, Conselho Municipal de Desenvolvimento e Meio Ambiente, além da presença do Instituto Chico Mendes (ICMBIO), assim como da Agência Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos e ainda, para dar suporte ao processo de gestão do turística, o município apresenta na sua estrutura a Secretaria de Turismo, Cultura, Conselho Municipal de Turismo (COMTUR) e o Fundo Municipal de Turismo, podendo possibilitar ações pautadas na sustentabilidade ambiental, e com isso contribuir com o turismo e o desenvolvimento local. Ressalta-se, porém, que a participação social se configura como imprescindível a este processo, em virtude que atualmente têm ocorrido desvairadamente um crescimento econômico, provocando problemas sociais, econômicos e ecológicos.
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No transcorrer da pesquisa foi realizado o levantamento bibliográfico sobre a área em questão, buscando compreender de forma minuciosa os aspectos naturais, sociais e culturais da localidade, além de entender como a atividade turística é realizada no município de Bonito. Logo em seguida se pode realizar a observação de campo que possibilitou de identificação da paisagem local, tanto de maneira contemplativa, como através da obtenção de imagens da região por meio de máquina fotográfica digital para logo em seguida fazer análise da paisagem, além de poder verificar as potencialidades turísticas do município em questão, sendo auxiliado pela bibliografia previamente consultada, porém também pela cultura popular (entrevista) e a própria averiguação da paisagem. Este objetivo da inquirição corroborou para uma visualização breve de várias localidades turísticas e de potencialidades turísticas, como por exemplo, cachoeiras, balneários, engenhos, museus, a cultura popular, os causos, entre outros, todavia os mesmo precisam ser adequados para a devida utilização. Uma vez identificadas as potencialidades turísticas se pode classificar a paisagem, vislumbrando que a mesma é recheada de aspectos culturais devido, particularmente, a influência histórica do sebastianismo, bem como do modelo rudimentar encontrado em cidades interioranas, diante disso podendo verificar os impactos socioeconômicos e ambientais da atividade turística já existente. É perceptível que as potencialidades turísticas da região podem e devem ser utilizadas no intuito do desenvolvimento local sustentável, pois farão com que o município possa desenvolver de forma mais equitativa.

Realizada a identificação e classificação da atividade turística já existente, foi iniciada a avaliação dos equipamentos, serviços e infraestrutura local, logo ficou percebido que a área em questão possui uma boa disponibilidade de hospedagem, dentre elas, pousadas, hotéis, pensionatos, entre outros. Em relação a infraestrutura local fica um pouco a desejar, em virtude de não oferecer locais para compra do artesanato local, bem como espaços destinados para apresentações culturais com artistas locais ou regionais. Já em se tratando de serviços médicos, bancários, segurança e turísticos, a cidade apresenta esta estrutura, contudo de forma deficitária, necessitando ampliação dos serviços públicos, principalmente, relacionados à orientação turística através de placas informativas, receptivos, divulgação nos mais diversos meios de comunicação. A cidade de Bonito já possui a atividade turística envolvida no seu dia-a-dia, entretanto de maneira desarticulada entre o social e o ambiental, ou seja, as localidades turísticas são na grande maioria propriedades privadas que são utilizadas sem serem preparadas para receber o ecoturista de forma adequada, visto que não existe um trabalho de identificação das localidades, bem como de melhorias das mesmas, pois como já ressaltado são propriedades particulares com isso provocando que a prefeitura deste município não consegue gerar essa integração entre a sociedade e o meio ambiente, já que os dono dessas áreas trabalham da forma que acham melhor, muitas vezes gerando impactos ambientais visíveis, visto como constroem trilhas inadequadas, permitem um número de visitas maior que a capacidade de carga, não se tem um trabalho de educação ambiental
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permanente. Os fatores mensurados só fazem crer que a atividade pode gerar valorização local do social, ambiental e econômico, no entanto, é preciso urgentemente articular, interagir e integrar os roteiros turísticos da área, para isso utilizando um planejamento baseado no turismo de base local, onde os órgãos governamentais entrariam como mediadores e financiadores do desenvolvimento local sustentável.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A região Nordeste notadamente possui uma predisposição para atividade turística, pois seu litoral vasto e de beleza cênica significante propicia o desenvolvimento do setor, apesar disso tem havido crescimento econômico que se distancia dos princípios da sustentabilidade,

consequentemente promovendo na maior parte dos casos a maximização dos impactos econômicos, sociais e ecológicos, de maneira negativa, condicionado pela falta de infraestrutura básica, assim como de planejamento do turismo. Esta realidade não é diferente no Litoral Sul do Estado de Pernambuco, pois a uma ênfase ao turismo de Sol e Praia, no entanto os planos e programas não respeitam as especificidades locais, com isso provocam problemas, enquanto poderia ser minimizador destes, assim como dinamizador da economia local, gerador de benefícios sociais e ecológicos, consequentemente o desenvolvimento local. Especificamente o município de Tamandaré se percebe possibilidades para o desenvolvimento local através de contribuições do turismo, uma vez que a cidade já tem uma estrutura de gestão ambiental e turística, desta forma a participação social é de grande importância para decidir sobre o desenvolvimento da atividade no município, todavia o que tem ocorrido são decisões centralizadoras, desintegradas da esfera estadual e federal, assim como indução da população local a perda da identidade local, já que os pescadores, agricultores e outros deixam suas atividades para servirem ao trade turístico, consequentemente se distanciando dos preceitos do desenvolvimento local. O presente artigo tinha como objetivo central analisar os desafios e possibilidades da atividade turística na perspectiva de contribuição para o desenvolvimento local, fato alcançado de maneira superficial devido ao pouco tempo de aprofundamento dos dados e de observação de campo, no entanto foram evidenciados pontos de significativa importância para o setor turístico, como a existência de uma estrutura institucional, de embasamento legal, assim como de gestão turística e ambiental, além de áreas legalmente protegidas, boa infraestrutura viária e hoteleira, com isso podendo possibilitar contribuições para o desenvolvimento local.

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Diante da contextualização geral da pesquisa se percebe que o município de Bonito-PE pode utilizar a atividade turística de maneira salutar para diminuir os problemas socioambientais, bem como econômicos, além de contribuir com o desenvolvimento cultural. As políticas públicas são ínfimas para o desenvolvimento da mesma, visto que a oferta hoteleira deixa a desejar, o receptivo aos turistas também, além de as cachoeiras que são o principal foco pertencem a proprietários privados, utilizando da maneira como é conveniente para os mesmo, com isso provocando impactos ambientais diversos pelo excesso de visitas, bem como pela falta de instrução para o devido desenvolvimento da atividade. Desta forma precisando haver um trabalho de educação ambiental permanente
A área alvo da pesquisa esta localizada no centro da Região Nordeste, fato que privilegia o espaço para o turismo regionalizado, bem como podendo gerar roteiros integrados com outras cidades próximas da área, como é o caso de São Benedito do Sul, Caruaru, Bezerros, Gravatá, entre outras.

Os resultados desta pesquisa poderão subsidiar a compreensão das possibilidades e desafios da atividade turística com foco ao desenvolvimento local.

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AVALIAÇÃO DA IMPLEMENTAÇÃO E DOS RESULTADOS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE FOMENTO AO TURISMO EM ESPAÇOS DO SERTÃO NO RIO GRANDE DO NORTE

Isabelle de Fatima Silva PINHEIRO Doutoranda em Recursos Naturais na UFCG - isabelleisp@gmail.com Vera Lúcia Antunes de LIMA Engenheira Agrícola e Professora Doutora da Pós-Graduação em Recursos Naturais da UFCG antuneslima@gmail.com Elza Maria Xavier FREIRE Bióloga e Professora Doutora do PRODEMA/UFRN - elizajuju@ufrnet.edu.br

RESUMO

O Turismo caracteriza-se como relevante alternativa econômica para diferentes cidades, regiões e países. Devido aos elevados índices de renda que este gera, o Turismo passou a ser incentivado por governos de muitos países, desenvolvendo-se de forma desordenada e sem a participação da comunidade local. No entanto, esta realidade no Brasil vem apresentando novos contornos, com a formulação e implementação de políticas públicas que objetivam ampliar a demanda turística através da qualificação e da diversificação da oferta turística nas regiões do país. Sendo assim, esta pesquisa busca analisar as políticas públicas de nível regional e local e a atuação das instituições que as executam. Realizou-se através de uma pesquisa descritiva e institucional junto aos órgãos de Turismo no Rio Grande do Norte. A pesquisa baseou-se em um recorte temporal de análise, a partir da implementação da Política Nacional de Turismo – 2007/2010 e do Programa de Regionalização do Turismo no Rio Grande do Norte, com a implantação do Pólo Seridó de Turismo; e um recorte espacial, no seridó do Rio Grande do Norte, região com atrativos naturais e culturais que permitem o desenvolvimento do Turismo Sertanejo no Estado. A avaliação constatou que o objetivo último da política de fomento ao Turismo no interior do Estado não foi alcançado, uma vez que a implementação do Pólo Seridó não ampliou e nem diversificou a demanda na região. Devido a isso, sugere-se uma política de divulgação e marketing da região em nível nacional, bem como a realização de pesquisas de demanda que levantem informações sobre a motivação do turista, nacional e internacional que desembarca em Natal, em conhecer as regiões do interior do Rio grande do Norte, bem como ter contato com serviços e produtos distintos, abrindo também espaços de discussão junto à comunidade local. PALAVRAS-CHAVE: Gestão. Diversificação. Planejamento. Políticas Públicas.
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INTRODUÇÃO De acordo com BENI (2002, p.101), “entende-se por Política de Turismo o conjunto de fatores condicionantes e de diretrizes básicas que expressam os caminhos para atingir os objetivos globais para o Turismo do país; determinam as prioridades da ação executiva, supletiva ou assistencial do Estado; facilitam o planejamento das empresas do setor quanto aos empreendimentos e às atividades mais suscetíveis de receber apoio estatal.” O Turismo em nível global é regido pela Organização Mundial de Turismo - OMT, órgão que estabelece os princípios e normas do setor turístico junto aos seus países membros. Oliveira (2004, p.103) afirma que a OMT é a “única organização que representa os interesses turísticos de organizações governamentais e oficiais. Dentre seus objetivos destacam-se o fomento à contribuição do Turismo para a paz, a saúde, a compreensão e a prosperidade em todo o mundo. Atualmente há cerca de 140 países e territórios afiliados, entre eles o Brasil.” Também cabe destacar a do Conselho Mundial de Viagens e Turismo, que trabalha junto aos governos locais para a identificação das potencialidades turísticas dos países, e seus usos para a comercialização nos mercados turísticos, nacionais e internacionais. No Brasil, O Turismo é orientado pelo “Plano Nacional de Turismo 2007\2010: uma viagem de inclusão”. Este documento caracteriza-se como um instrumento de planejamento e gestão do Turismo, e apresenta os principais programas, ações, metas e resultados a serem alcançados quanto ao desenvolvimento e a consolidação do Turismo no país. É premente uma participação efetiva do Estado para se alcançar um desenvolvimento sustentável do Turismo requer. Este deve atuar tanto como órgão indutor, financiador e regulador da atividade turística, mas principalmente, como agente de valorização do patrimônio natural, cultural e social das diferentes regiões do País. Neste sentido, faz-se necessário prover os Estados de um suporte administrativo e institucional que transforme as políticas públicas em ações efetivas, “e isso pode ser concretizado com a criação de órgãos na sua própria estrutura ou de entidades que tenham flexibilidade, agilidade e, sobretudo, representação nos diversos segmentos que atuam no Turismo” (SOLHA, 2010, p.36). No entanto, esta é uma realidade ainda difícil de ser conseguida, tendo em vista a ausência da comunidade local na elaboração de políticas públicas locais, e nas ações de planejamento e gestão do Turismo. Na verdade, o que se vê são estímulos e financiamentos para a implantação de mega empreendimentos, ou de empreendimentos privados de médio e pequeno porte, cuja população local sequer é ouvida quanto às potencialidades de sua região e o seu interesse em participar do Turismo.
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Tal problemática já vem sendo apontada em trabalhos como de Beni (2003) e (2007), Solha (2010) e Pinheiro (2011). Nestes trabalhos, os autores reforçam o fato de que os órgãos e instituições que atuam na implementação dos projetos de regionalização do Turismo, na maioria das vezes caracterizam-se como parceiros da iniciativa privada para a formação da mão de obra e qualificação dos serviços oferecidos sem, no entanto, proporcionar espaços de discussão e empoderamento da população local para inserir-se no Turismo de forma atuante e sustentável. Sendo assim, esta pesquisa buscou realizar um breve levantamento das políticas e instituições que objetivem incentivar, incrementar e desenvolver o Turismo em nível regional, estadual e local no Rio Grande do Norte, principalmente no que concerne ao Turismo Sertanejo e ao Projeto de Regionalização e Interiorização do Turismo. Nesta perspectiva, analisou-se suas atuações e efetividade, tendo em vista que a elaboração de um Plano de Desenvolvimento Turístico precisa estar em consonância com tais políticas. Além disso, o Turismo, para ser de base local, comunitária e participativa necessita de políticas públicas que atendam as deficiências locais, e da atuação de órgãos e instituições imbuídos de interesses sociais e comunitários.

1 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 1.1 AS POLÍTICAS PÚBLICAS NACIONAIS E LOCAIS E OS PROJETOS DE FOMENTO AO TURISMO EM NOVOS LÓCUS

O PNT 2007/2010 entende que o desenvolvimento do Turismo no Brasil será alcançado pelo aumento da sua oferta turística. Tal realidade será alcançada pela ampliação da oferta de destinos turísticos organizados, especialmente através da interiorização da dinâmica turística, cujo fomento faz-se em destinos localizados nas cidades do interior, trabalhando a diversidade cultural, natural e econômica de regiões que não integram a faixa litorânea do país. Para tanto, o PNT tem como objetivos gerais:    Desenvolver o produto turístico brasileiro com qualidade através das diversidades

regionais, culturais e naturais. Promover o Turismo como um fator de inclusão social, por meio da geração de

trabalho e pela inclusão da atividade na pauta de consumo de todos os brasileiros. Fomentar a competitividade de todo o produto turístico brasileiro nos mercados

nacional e internacional e atrair divisas para o País. A realização das metas do PNT orienta-se através de macroprogramas e programas, tratados de forma integrada. Os macroprogramas são desdobramentos temáticos agregados, escolhidos pelo seu potencial de contribuição para atingir os compromissos estabelecidos nas metas. (BRASIL, 2007, p. 57). Dentre estes está inserido o Programa de Regionalização do Turismo, subdividido em:
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Programa de Planejamento e Gestão da Regionalização; Programa de Estruturação dos Segmentos Turísticos; Programa de Estruturação da Produção Associada ao Turismo; Programa de Apoio ao Desenvolvimento regional do Turismo. Muito embora exista a preocupação e o estímulo para a consolidação do Turismo nas diferentes partes do país, e principalmente, nas regiões mais distantes do litoral e com características naturais e aspectos econômicos e socioculturais distintos, somente a reprodução das estratégias federais de fomento ao Turismo recai sobre problemas ainda difusos, formatando o Turismo com novas perspectivas, mas com os velhos problemas. Cabe lembrar que as políticas de Turismo, sua eficiência e dificuldades refletem o nível de desenvolvimento da região, da localização geográfica e da infra-estrutura de cada região. Dessa forma, “as principais dificuldades na coordenação e na conformação de um sistema de políticas públicas para o Turismo originam-se na dificuldade de um país que apresenta desequilíbrios regionais acumulados ao longo do processo histórico de sua economia.” (BRASIL, 2007, p.26). O MinTur dispõe sobre a necessidade de investimentos em outros setores da economia, principalmente os maiores geradores de aportes financeiros tal como a indústria, no sentido de dotar os destinos de recursos suficientes para a inserção de uma nova estratégia econômica, de modo que o Turismo deve ser uma atividade secundária e não a atividade econômica principal das localidades. Neste ínterim propõe-se que as novas perspectivas de Turismo, dentre elas o Turismo Sertanejo, não deve ser a atividade econômica principal, mas a atividade que pode agregar valor aos outros setores econômicos como a agricultura, a indústria, o comércio, dentre outros, bem como o canal de interação e complementação de renda entre estas atividades. 1.2 O PROGRAMA DE REGIONALIZAÇÃO DO TURISMO – ROTEIROS DO BRASIL E O PÓLO DE TURISMO DO SERIDÓ/RN O Programa de Regionalização do Turismo/PRT – Roteiros do Brasil caracteriza-se como um macro-programa de fomento ao Turismo brasileiro, disposto no Plano Nacional de Turismo do país. Com o objetivo de descentralizar a gestão do Turismo e diversificar a oferta turística do país através da concretização de novos destinos, o “Programa de Regionalização do Turismo - Roteiros do Brasil emerge como uma política que possibilita a estruturação, o ordenamento e a diversificação da oferta turística no País, e se constitui no referencial da base territorial do Plano Nacional de Turismo” (BRASIL, 2007, p.67). No Rio Grande do Norte, o PRT – Roteiros do Brasil foi implementado seguindo a divisão do Estado em 05 pólos turísticos, a saber: Pólo Costa das Dunas, Pólo Costa Branca, Pólo Serrano, Pólo Agreste/Trairí e Pólo Seridó. A operacionalização do programa ocorre através da Secretaria de
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Estado de Turismo do RN – SETUR, cujos pólos turísticos possuem um conselho consultivo e deliberativo formado por representantes da iniciativa privada, poder público e sociedade civil organizada. Sua gestão é realizada através do Conselho de Turismo do Pólo Seridó, com a participação de órgãos do poder público federal, estadual, municipal, setor privado e terceiro setor. No que se refere ao Programa de Regionalização em nível nacional, Beni (2007, p.133) mostra que a deficiência de implementar a regionalização do Turismo concentra-se em múltiplas razões. A primeira dela diz respeito à própria capacidade de gestão das instâncias locais e regionais de aplicar diretamente as diretivas do PNT e apontar suas ações no modelo de desenvolvimento endógeno, mobilização social, participação comunitária, empreendedorismo e empoderamento social. PROJETOS E POLÍTICAS DE FOMENTO AO TURISMO ATRAVÉS DO PRT –

1.3

ROTEIROS DO BRASIL O roteiro Seridó encontra no “Programa de SEBRAE do Turismo” o seu mais importante fomentador, tendo em vista que ambos os programas confluem no intuito de promover o empreendedorismo, a diversificação das atividades econômicas e o fomento às iniciativas empresariais e de agronegócio. De acordo com Maranhão (2009, p. 15), o Pólo Seridó, através da atuação do “Programa SEBRAE do Turismo”, configura-se como uma ação intervencionista, que busca estruturar o desenvolvimento do Turismo na região do Seridó potiguar a partir da implementação de um conjunto de ações pautadas no desenvolvimento regional, com bases na sustentabilidade. Para fins deste estudo, cabe pontuar os objetivos que o Roteiro Seridó contempla: a) Coordenar ações voltadas ao Arranjo Produtivo Local (APL) do Turismo no Seridó; b) Criar um roteiro turístico para o Seridó, integrando todos os atrativos naturais e humanos; c) Integrar poder público, privado e comunidade ao planejamento e operacionalização do roteiro Seridó; d) Conscientizar a população para o resgate e a valorização dos patrimônios seridoenses; e) Capacitar empreendedores para negócios voltados ao Turismo sustentável; f) Pesquisar como as micro e pequenas empresas estão contribuindo para a

consolidação do Turismo na região do Seridó; g) Promover a inclusão, adequação e inovação tecnológica ao produto turístico; h) Requalificar a oferta, ajustando-a as exigências da demanda;
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i)

Monitorar os impactos do turismo.

2 MATERIAL E MÉTODOS

Foi realizada uma pesquisa institucional nos meses de novembro e dezembro de 2009 junto aos órgãos SEBRAE/RN e Secretaria de Estado do Turismo do RN – SETUR para coletar informações acerca dos projetos implementados no âmbito do Pólo Seridó, bem como os resultados já alcançados a partir das ações destes órgãos e do Conselho de Turismo. A avaliação da atuação institucional e da efetividade das políticas públicas de fomento ao Turismo foi de cunho descritivo, utilizando-se de uma revisão bibliográfica e documental, bem como entrevista semi-estruturada com os representantes dos setores responsáveis pelo fomento do Turismo no Pólo Seridó. Como proposta metodológica realizou-se um recorte temporal, uma vez que buscou-se conhecer as ações e os resultados alcançados com a implementação da PNT 20072010, mais especificamente a partir da implementação do Pólo Seridó, inserido no macroprograma de Regionalização do Turismo. Também optou-se por realizar um recorte espacial, verificando o desempenho das políticas públicas de Turismo somente no Pólo de Turismo implantado na região do Seridó do Rio Grande do Norte, de modo que acredita-se ser essa a estratégia metodológica mais objetiva e informativa para pesquisas que tratam dos resultados e das estratégias de gestão de políticas públicas.

2.1 O PÓLO SERIDÓ: CARACTERÍSTICAS GERAIS

O Rio Grande do Norte está localizado na região Nordeste do país. O Estado é dotado de uma área litorânea de 410 km de extensão, além de dispor de regiões de relevante beleza cênica e diversidade de fauna e flora, o que faz do Turismo uma de suas principais atividades econômicas. De acordo com o Anuário Estatístico (IDEMA, p. 03), o Rio Grande do Norte é um dos Estados brasileiros que mais vêm se destacando no mercado turístico nacional. Devido a sua extensa faixa litorânea, seus lagos, dunas, clima, bem como sua gastronomia e demais manifestações culturais, o RN se caracteriza como importante porta de entrada para os turistas internacionais. Já o seu interior, com seus sítios arqueológicos, os grandes reservatórios d'água (Barragem Armando Ribeiro Gonçalves com 2,4 bilhões de m³), as regiões serranas, as áreas de mineração e seu rico artesanato, servem de atrativo para potenciais empreendedores. O Seridó é uma região de destaque no Estado, região esta que se diferencia pelos seus aspectos hidrológicos, geológicos, de vegetação e clima. Além disso, a região dispõe de grande riqueza mineral, e possui traços culturais distintos, que encontram na figura do sertanejo um
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importante ícone de expressão. De acordo com Maranhão (2009, p.14), o pólo Seridó, por onde veio o fomento do Roteiro Seridó, abrange uma região situada no centro-sul do estado do Rio Grande do Norte, composta de 24 municípios que são distribuídos em três Zonas Homogêneas (Serras Centrais, Currais Novos e Caicó). Ocupa uma área de 12.965 km², apresentando uma população de aproximadamente 300 mil habitantes, equivalente a 11% de toda a população. O Pólo Turístico da Região do Seridó é formado por 17 municípios. No que concerne ao Turismo, o Pólo Seridó dispõe de atrativos naturais e culturais que consistem em importantes subsídios para o fomento da atividade turística. Quanto aos atrativos naturais, ressalte-se a existência de matas com predominância da vegetação de caatinga, cânions, cidades serranas de vista privilegiada, açudes e lagoas que configuram a região rica em diversidade faunística e florística. Além disso, a região do Seridó dispõe de traços culturais arraigados e expressivos, solidificados em sua gastronomia, artesanato, costumes e na hospitalidade de seu povo.

3 RESULTADOS ALCANÇADOS E AVALIAÇÃO DOS OBJETIVOS E AÇÕES DO PROGRAMA DE REGIONALIZAÇÃO DO TURISMO NO PÓLO SERIDÓ

A avaliação das políticas públicas de Turismo para o fomento do Turismo em novos espaços e sob novas perspectivas tais como o Turismo Rural, o Turismo Sertanejo, e Ecoturismo, dentre outros, inicia-se com os dados levantados por Fonseca (2007), quando esta afirma que ocorreu, no período de 2001 a 2005, uma expressivo crescimento dos meios de hospedagem no contexto estadual. Segundo Fonseca, “os municípios do interior que se destacam pelo aumento do número de meios de hospedagem ou pelo crescimento das unidades habitacionais no período de 2001-2005 são Acarí, Assu, Caicó, Carnaúba dos Dantas, Currais Novos, Martins, Mossoró, Pendências, Portalegre, Pau
dos Ferros e Santa Cruz. Destes, Carnaúba dos Dantas, Currais Novos e Santa Cruz estão sediados no Pólo Seridó de Turismo. Levando-se em conta que o aumento dos meios de hospedagem em uma localidade pressupõe um aumento da demanda turística, realizou-se uma visita aos órgãos públicos de Turismo do Rio Grande

do Norte para verificar a ocorrência, ou não, de aumento de turistas na região analisada, fruto das ações da implantação do Pólo Seridó. De acordo com os dados coletados na SETUR e no SEBRAE/RN constatou-se que, no que concerne ao incremento da demanda turística, os turistas que visitam os municípios do Seridó são advindos da própria região, cuja permanência se concentra nos períodos das festas tradicionais como festa de padroeiros, vaquejadas e carnaval (SEBRAE\RN, informação verbal.). Cabe lembrar que os eventos religiosos e profanos da região já imprimiam grande destaque no mercado regional, com aumento expressivo do número de visitantes nas cidades-sede dos eventos durante os festejos, antes mesmo da execução do Pólo Seridó.
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Além disso, uma das maiores preocupações da academia e de setores que buscam o desenvolvimento sustentável do Turismo refere-se ao aumento de meios de hospedagem em cidades do interior, e o nível de compromisso de cunho ambiental, econômico, social e cultural com as comunidades locais que estes empreendimentos estão imbuídos. Sabe-se que o poder público, através de suas instituições e órgãos executores, se preocupa em oferecer subsídios para a implantação de empreendimentos através de infra-estrutura urbana e serviços sociais, melhoria de vias de acesso e concessão de financiamentos. No entanto, muitos dos empreendimentos privados não atuam de forma comprometida com a conservação do ambiente natural, e muito menos em inserir a população local na dinâmica do Turismo, oferecendo para a comunidade postos de trabalho e espaços para a divulgação e a comercialização dos produtos locais. Neste sentido, buscou-se conhecer como foi a participação da comunidade local na concepção do Pólo de Turismo do Seridó, assim como o papel destes órgãos no empoderamento da população quanto ao Turismo. Na entrevista, foi verificado que as pesquisas realizadas pela Secretaria de Estado de Turismo do RN levantaram somente informações sobre o produto turístico “Natal” e cidades litorâneas, e buscaram saber a opinião do turista que visita Natal quanto à qualidade do produto por ele consumido. Além disso, constatou-se que a atuação dos órgãos de Turismo voltou-se à qualificação de mão de obra para trabalhar nos empreendimentos turísticos, divulgação e marketing dos destinos, e dotação de infra-estrutura para investimentos privados nos setores de meios de hospedagem, lazer e entretenimento. Neste caso, não houve pesquisas de percepção junto à população local quanto à sua opinião sobre o Turismo, quais suas preocupações, perspectivas e motivações quanto ao desenvolvimento do Turismo na região. Este fato preocupa quanto à efetivação de planos de turismo com bases sustentáveis, pois Segundo afirma Seabra (2007, p. 79), “os objetivos definidos nos planos turísticos serão tanto mais alcançados, na medida em que estejam estruturados sobre bases sustentáveis. Esse modelo requer a inserção social da população local, como fator primordial para a perenidade dos recursos naturais e culturais”. Com a ação do Pólo de Turismo Seridó, houve a concepção de roteiros potenciais que podem diversificar a oferta turística do Rio Grande do Norte, que já são inclusive, divulgados como produtos turísticos. A partir da iniciativa do SEBRAE e dos demais órgãos e instituições que integram o Conselho de Turismo do Pólo Seridó, a região seridoense estruturou 07 roteiros turísticos que contemplam a riqueza natural e cultural do Pólo, sendo congregados nas seguintes ofertas turísticas: Roteiro de Turismo Científico-Arqueológico e Paleontológico, Roteiro de Turismo Cultural, Roteiro de Ecoturismo, Roteiro de Eventos e Negócios, Roteiro de Turismo de Esportes e Aventuras, Roteiro de Turismo Religioso e Roteiro de Turismo Rural. No entanto, o
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objetivo último da implantação do pólo, que é intensificar o Turismo no interior do Estado, desconcentrando a demanda de seu litoral, ainda não foi alcançado. Por serem geridos pelo SEBRAE, os projetos turísticos revestem-se de uma característica mais empresarial e menos comunitária. Isso fica patente quando se analisa o Plano de Desenvolvimento Turístico do Pólo Seridó, elaborado pelo Conselho de Turismo do Pólo Seridó, que apesar de ter representatividade das instâncias pública, privada e sociedade civil, não abriu espaços de debate junto à população do Seridó, através da realização de audiências públicas, pesquisas de opinião pública ou de percepção da comunidade local frente ao Turismo. De modo similar, a gestão através do SEBRAE produz uma razão mercadológica ao Turismo, e as políticas e programas de fomento são voltados à iniciativa privada, para atender as demandas de empresários que pretendam investir na localidade, através da instalação de estabelecimentos comerciais, equipamentos de hospedagem, lazer e entretenimento. Não obstante, o incremento dos produtos culturais como o artesanato, bem como a capacitação dos recursos humanos para o Turismo são revestidos de interesses comerciais e de competitividade no mercado turístico. Como afirma Beni (2007, p.131), o próprio SEBRAE, que poderia ser o grande parceiro e coadjuvante do MinTur no Programa de Regionalização, por sua inegável experiência em lidar com o desenvolvimento local e regional sustentável, mudou seu foco e trabalha outras frentes e prioridades no Sistema de Turismo. Realidade semelhante foi constatada em pesquisa sobre a implementação de projetos que visam o Turismo Sustentável em municípios de Santa Catarina. Tal pesquisa incorreu sobre a efetividade do Plano Nacional de Municipalização do Turismo – PNMT, e constatou a incipiente participação da comunidade local nos processos de decisão. Na verdade, todas as secretarias municipais de Turismo pesquisadas afirmaram utilizar processos participativos na tomada de decisão, entretanto algumas delas restringiram a participação a membros de algumas secretarias municipais ou a algumas organizações que compõem o trade turístico, negligenciando a participação da comunidade (SOUSA E SAMPAIO, 2005). Assim sendo, faz-se necessário sublinhar que as estratégias de implementação dos projetos e programas relacionados ao Turismo precisam estar concatenadas com os interesses e as perspectivas da comunidade local. Como afirma Souza (2002, p. 20) “a consideração da escala local (sem esquecer, é lógico, a contribuição de processos que emergem e operam em outros níveis) é, a esse respeito, esclarecedora, pois quanto mais frágil (socioeconômica e politicamente) é um grupo, maior tende a ser a sua dependência para com os recursos de base estritamente local. Em contrapartida, os grupos mais poderosos podem adotar atitudes mais indiferentes aos impactos negativos gerados pelo Turismo, uma vez que estes possuem maior mobilidade espacial e capacidade de relocalização.”
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CONSIDERAÇÕES E RECOMENDAÇÕES

O Turismo vêm, nas últimas décadas, destacando-se como relevante atividade econômica. Isso se deve aos elevados aportes financeiros que o Turismo gera para os destinos turísticos. Devido a isso, o governo brasileiro vem incentivando e incrementando o Turismo no país, através da consolidação de novos roteiros turísticos em diferentes regiões. Esta realidade pode ser constatada na Política Nacional de Turismo através do Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil. O Programa de Regionalização do Turismo é executado no Rio Grande do Norte através da Secretaria de Estado de Turismo e do SEBRAE/RN que, dentre outras ações, implementou o Pólo de Turismo do Seridó. Com vistas a conhecer a eficiência da execução das políticas públicas de Turismo, especificamente o PNT e o Programa de Regionalização de Turismo no âmbito do Rio Grande do Norte e principalmente, verificar como estes órgãos vêm atuando no sentido de fortalecer o Turismo de Base Local e os segmentos turísticos com propostas diferenciadas do turismo de “sol de mar”, realizou-se uma pesquisa junto aos referidos órgãos. Neste sentido, constatou-se a ausência de uma base de dados e informações que subsidiem e contribuam para o incremento do Turismo na região do Seridó, orientando a gestão municipal, a comunidade local e a iniciativa privada. Além disso, verificou-se a ausência de espaços de discussão e pesquisas de opinião junto à comunidade local tanto na elaboração do plano de turismo e na gestão do Turismo no Seridó. As ações revestem-se de intenções mais mercadológicas e menos comunitárias. Nessa perspectiva, identificar, em cada realidade que se vai intervir, os diversos grupos de interesses, manifestos ou latentes, e a partir disso, conhecer e considerar seus objetivos e estratégias/táticas são etapas fundamentais nos processos de implementação de programas e projetos. Assim, uma questão que se faz premente é um estudo da demanda turística internacional e nacional que desembarca em Natal, no intuito de saber se esta deseja estender suas viagens para os roteiros que incluem as cidades do interior do Estado, de modo que os investimentos e as iniciativas locais sejam melhor direcionados, evitando-se gastos e esforços desnecessários. O aumento da demanda turística no interior do Estado acontecerá através da divulgação dos roteiros em âmbito regional, nacional e internacional, e de estratégias criativas na internet e junto à operadores de Turismo. Deve-se haver também um trabalho de valorização da identidade local para que os eventos realizados na região não se transformem em espetáculos e festas para “agradar turistas”, carente de conteúdo histórico-cultural.
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Por fim, propõe-se a realização de reuniões, oficinas e capacitações junto à população local para fortalecê-la nos processo de decisão e de participação.

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PINHEIRO, I.F.S. Percepção ambiental e planejamento do turismo sertanejo na região do Seridó/RN. 2010. 150f. Dissertação (Mestrado em Recursos Naturais) – Programa de Pós Graduação em Recursos Naturais, Universidade federal de Campina Grande, Campina Grande/PB SEABRA. Giovanni de Farias. Turismo Sertanejo. João Pessoa – PB. Editora Universitária da UFPB, 2007. SOLHA, Karina Toledo. Papel do poder público para o turismo sustentável. In: PHILLIPI Jr. Arlindo. RUSCHMANN, Doris Van de Meene. Gestão ambiental e sustentabilidade no turismo. Barueri, SP: Manole, 2010. SOUZA, Marcelo José Lopes de. Como pode o turismo contribuir para o desenvolvimento local. In: RODRIGUES, Adyr Balastreri (org). Turismo e desenvolvimento local. 3.ed. São Paulo, Hucitec, 2002. SOUZA, Vanessa S. Fraga de; SAMPAIO, Carlos Alberto Cioce. Em busca de uma racionalidade convergente ao ecodesenvolvimento: um estudo exploratório de projetos de turismo sustentável e de responsabilidade social empresarial. Rev. Adm. Pública, Rio de Janeiro, v. 40, n. 3, Jun. 2006

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POLÍTICAS PÚBLICAS DE CAPACITAÇÃO EM PEQUENAS LOCALIDADES TURÍSTICAS

Adriana dos Santos Reis LEMOS Professora na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)/BA lemosanne@gmail.com Adailson Henrique Miranda de OLIVEIRA Professor na FTC/UNIME12/BA adailsonprofessor@yahoo.com.br

RESUMO

O presente ensaio discute a realidade de pequenos municípios turísticos no que tange a carência de mão-de-obra qualificada. As discussões são delineadas a partir da premissa de que é necessário capacitar as pessoas do local para pensar e fazer a atividade turística de modo competitivo e sustentável. Para isso, utilizou-se material bibliográfico selecionado. Denota-se que, para ser sustentável, qualquer política pública de capacitação deve prever a detecção das reais necessidades locais; obter a participação do governo em todas as esferas; a parceria da sociedade civil e da iniciativa privada; garantir a circulação da informação e, acima de tudo, qualificar não só em termos técnicos, mas formar cidadãos com visão holística, capazes não só de preencher vagas de emprego, mas, dialogar e escolher a melhor forma de gestão do turismo local. PALAVRAS-CHAVE: Políticas Públicas; Capacitação; Turismo.

INTRODUÇÃO

A educação no Brasil, como uma política de governo, tem procurado se adequar à economia vigente, propondo formas de inserir a sociedade no processo de redução do desemprego e almejando formar ou selecionar, nessa mesma sociedade, uma mão-de-obra qualificada. No entanto, não se pode constatar, ainda, que as práticas até então escolhidas tenham sido ou sejam as mais adequadas à realidade brasileira, sobretudo, quando se considera os contextos específicos das cidades turísticas de pequeno porte. De modo geral, as empresas turísticas, estabelecidas em pequenas ou grandes localidades, têm requerido profissionais cada vez mais qualificados. Na verdade, como observa Barreto (1999), qualquer serviço sem qualidade ou com desempenho abaixo do esperado pode significar a morte de
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Faculdade de Tecnologia e Ciências/União Metropolitana de Educação e Cultura

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qualquer empreendimento. No entanto, embora a qualificação profissional seja uma exigência notória e indispensável que agrega valor ao trabalhador, possibilitando maiores chances na obtenção ou permanência do trabalho, as iniciativas públicas no sentido de ofertar as condições necessárias para essa formação qualificadora ainda não alcançaram ou não foram adequadas à realidade das pequenas paragens turísticas brasileiras. Nesse sentido, objetivando compreender as práticas das políticas públicas de qualificação de mão-de-obra na conjuntura brasileira, o presente artigo buscou discutir a realidade dos municípios turísticos de pequeno porte, tendo em vista as necessidades específicas dessas localidades. Considerando a amplitude dessa discussão, esse trabalho não tem a pretensão de esgotar ou apresentar uma investigação rigorosa acerca essa temática. Desse modo, os resultados desse estudo propõem um esboço, uma visualização discursiva e pontual dessa realidade, de modo estimular a elevação dos níveis de reflexão e crítica acerca da ingerência do Estado no processo de formação de mão-de-obra especializada na conjuntura das pequenas cidades que se dedicam a explorar a atividade turística. Para alcançar esse objetivo, realizou-se uma pesquisa de cunho bibliográfico. Considerando esse direcionamento metodológico, procurou-se abranger a leitura, a análise e a interpretação de livros, textos acadêmicos, periódicos, dentre outros. Todo material recolhido foi devidamente submetido a uma triagem, a partir da qual foi possível estabelecer um plano de leitura ajustado às pretensões desse trabalho. A partir de leituras atentas e sistemáticas, foram realizadas anotações e fichamentos que serviram ao processo de fundamentação teórica do estudo em questão.

1 POLÍTICAS PÚBLICAS DE QUALIFICAÇÃO: UMA NECESSIDADE SOCIAL De acordo com Tinôco (2001), o taylorismo, baseando-se na “gestão de tempos e movimentos”, na “distinção entre trabalho manual e intelectual” e no princípio da “pirâmide hierarquizada”, não dedica grande atenção aos processos de desenvolvimento tecnológico. O fordismo, por sua vez, conhecido pelo slogan “produção de massa para consumo de massa”, concentra-se na noção de “concepção e execução do trabalho” e, também distinguindo a atividade manual da intelectual, concebe organizações verticais e hierarquizadas. Por fim, o toyotismo, sinônimo de “modo de produção flexível”, rompendo com os antigos modelos, enfatiza qualidade, “custos menores e preços baixos”. Ao se estender a diversos setores, essa perspectiva revoluciona valores, práticas e requisitos no que se refere ao trabalhador. O mundo contemporâneo tem passado por grandes transformações cujas repercussões atingem de modo contundente a organização e a gestão do trabalho. Ao que tudo indica, esses três principais modelos teóricos de produção e de gestão do trabalho taylorismo, fordismo e toyotismo e
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suas bases teórico-tecnológicas, parecem não corresponder ou atender as exigências e as necessidades impostas pela realidade atual. Afinal, com as transmutações das dinâmicas sociais, novas exigências e novos desafios em relação ao desempenho profissional se colocam diante do trabalhador para a sua inserção no mercado de trabalho (TINÔCO, 2001). Em linhas gerais, esses desafios estão relacionados aos avanços tecnológicos e as novas expectativas das empresas que agora enfrentam mercados globalizados, extremamente competitivos. Sem dúvida, a necessidade de mão-de-obra altamente qualificada tem sido fator relevante para que as empresas implantem novas tecnologias, sendo preciso investir de modo sistemático e contínuo nas pessoas, sobretudo por meio de processos formativos especializados e do desenvolvimento profissional. Uma vez que, para concorrer a um posto de trabalho no exigente e restrito mercado de trabalho contemporâneo, os indivíduos têm a necessidade de maior escolaridade, qualificação e treinamento, a educação pode ser considerada um fator imprescindível à promoção do desenvolvimento. Desse modo, a qualificação e a formação profissional necessitam ser priorizadas não apenas pela iniciativa privada, mas também pelas políticas públicas, especialmente em países como o Brasil, onde grande parte da população encontra-se despreparada em termos de qualificação e de formação para o trabalho. No que concerne às políticas públicas de geração de emprego e renda, o poder público tem tido algumas iniciativas pontuais, entre elas, a disponibilização de créditos para o setor formal e informal através do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT). Nesse sentido, utilizando os recursos do FAT, muitos instrumentos da política pública têm objetivado desenvolver ações de educação profissional capazes de contribuir tanto para a redução do desemprego e do subemprego da população economicamente ativa quanto para o combate à pobreza e à desigualdade social. Além disso, essas iniciativas têm promovido a elevação dos índices de produtividade, dos parâmetros de qualidade e dos níveis de competitividade de diferentes setores econômicos. Embora a existência desses investimentos seja uma realidade, não se pode negar que essas iniciativas ainda são muito incipientes em localidades pequenas. Essa constatação faz-se ainda mais contundente, quando se consideram as cidades que, além de estarem distantes dos grandes centros industrializados, tiveram suas atividades agrícolas e/ou comerciais fragilizadas ou mesmo destruídas por crises pontuais. No Brasil, por conta de uma espécie de “vocação natural ao turismo”, muitas comunidades pequenas, como única ou melhor alternativa, tiveram suas economias direcionadas à atividade turística. Naturalmente desprovidas de mão-de-obra devidamente qualificada para o setor turístico, essas localidades necessitaram e ainda necessitam enfrentar as diferentes formas de organização do trabalho, desenvolvidas desde o começo do século XX e que ainda coexistem na atualidade, com o objetivo comum do aumento da produtividade e do lucro. Neste sentido, pode-se considerar que
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cada uma delas, de modo diferente, passou a lidar não apenas com uma série de necessidades técnicas, mas também com certa concepção que atribui um lugar, um conteúdo e determinadas exigências ao trabalhador do setor turístico. Em termos conceituais Barreto (2000) esclarece que o turismo pode ser compreendido como o movimento de pessoas, um fenômeno que envolve gente, antes de tudo. Assim, ao permitir que o indivíduo se distancie do seu habitat e do seu cotidiano, a atividade turística tem se tornado cada vez mais uma necessidade para o bem-estar humano. Nesses termos, o turismo corresponderia a um fenômeno de interação entre turista e núcleo receptor bem como de todas as atividades decorrentes dessa interação. Na atualidade, a atividade turística configura como um dos mais importantes setores da economia brasileira e mundial. Considera-se que o turismo, quando bem planejado, tem o poder de promover o desenvolvimento e, simultaneamente, impedir a degradação dos patrimônios ambiental e cultural. Além disso, o turismo constitui uma alternativa econômica para muitos municípios, sendo potencialmente capaz de contribuir para o enfrentamento de um dos grandes problemas das sociedades modernas: o desemprego estrutural. De acordo com dados da EMBRATUR13, em relação à promoção do emprego nos últimos anos, o turismo tem gerado, em ritmo ascendente, milhares de postos de trabalho diretos e indiretos. Certamente, muitos técnicos em operações de vôo, muitas camareiras das redes hoteleiras e muitos taxistas teriam seu campo de trabalho reduzido, não fosse o fluxo de pessoas de uma cidade para outra em suas atividades de consumo turístico. Essa projeção hipotética pode ser ainda mais dramática e assombrosa, quando se considera a realidade de pequenas cidades que exploram o turismo e dispõem, por exemplo, de uma mão-de-obra sequer devidamente letrada. Segundo Barreto (1999), o desafio não seria viabilizar apenas o letramento dos sujeitos envolvidos ou interessados com o universo turístico. O verdadeiro desafio seria formar profissionais capazes de entender a totalidade do processo e de nele intervir de modo consistente, profissional e criativo, dispondo de conhecimentos aprofundados acerca de determinados aspectos fundamentais da atividade turística. Desse modo, vale salientar que, no tocante à realidade das pequenas cidades turísticas, não bastam investimentos técnicos. É preciso investir também em uma modalidade de formação teórica que seja capaz de fundamentar a prática profissional, haja vista que a qualidade dos serviços turísticos corresponde a um conjunto de características de desempenho que, em conformidade com suas especificações, deve atender e, por vezes, até mesmo superar as expectativas e os anseios do consumidor (BARROS, 1999). Sem dúvida, o mercado de trabalho da indústria do turismo contemporânea tem necessidade de profissionais que conjuguem capacidade técnica, profundidade teórica, conduta criativa e visão
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Disponível em http://www.embratur.gov.br/site/br/home/index.php

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crítica, a fim de proporcionar ao setor a eficiência que lhe compete. Diante dessa evidência e considerando um universo de indivíduos que, movidos por uma dinâmica social interiorana, muitas vezes, sequer se dedicaram a sua formação básica, quais seriam os meios mais eficazes para qualificar uma mão-de-obra capaz de atender e compreender os anseios de empresários, turistas e também da comunidade local, buscando o desenvolvimento sustentável e o ganho para todos os envolvidos nessa atividade? Com o objetivo de viabilizar as devidas melhorias no mercado turístico do interior do Brasil, faz-se necessário que as políticas públicas de qualificação profissional estejam atentas, em primeira instância, ao processo de sensibilização dessas comunidades quando ao valor e à urgência da qualificação da mão-de-obra local e em todos os setores do turismo, haja vista que uma das maiores reclamações tanto dos turistas quanto dos empreendedores fazem referência à falta de qualificação do profissional que atua na área de turismo em localidades distantes dos grandes centros.

2 POR UMA QUALIFICAÇÃO BASEADA NUM MODELO DE DESENVOLVIMENTO LOCAL INTEGRADO E SUSTENTÁVEL

É função das políticas públicas suprir determinadas lacunas provenientes de demandas da sociedade, a partir de ações efetivas e de longo prazo, voltadas para a solução ou atenuação de problemas de ordem pública. De acordo com Souza (2006), o estudo das políticas públicas se constitui um campo do conhecimento que busca, ao mesmo tempo, “colocar o governo em ação” e/ou analisar essa ação (variável independente) e, quando necessário, propor mudanças no rumo ou curso dessas ações (variável dependente). Ainda nessa perspectiva, Peters, citado por Souza (2006), afirma que política pública é a soma das atividades dos governos, que agem diretamente ou através de delegação, e que influenciam a vida dos cidadãos. Entre as diversas políticas públicas (econômica, ambiental, de ciência e tecnologia, entre outras) a política social é um tipo de política cuja expressão se dá através de um conjunto de princípios, diretrizes, objetivos e normas, de caráter permanente e abrangente, que orientam a atuação do poder público em uma determinada área (CUNHA & CUNHA, 2002). O problema da capacitação da mão-de-obra voltada para o atendimento das demandas do mercado turístico de pequenos municípios representa uma necessidade social premente que, uma vez atendida, possibilita preencher a lacuna do desemprego estrutural e proporciona efeitos multiplicadores tanto no campo econômico quanto no social. Esse entendimento é corroborado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) (2004), que aborda a capacitação como um problema de política pública social, embora venha afetar atores dos setores público e privado.
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Para uma melhor compreensão dos caminhos a serem percorridos na busca de políticas públicas de capacitação da mão-de-obra turística, é importante entender a contribuição da globalização como fator impulsionador do distanciamento entre a realidade dos grandes centros e dos pequenos municípios com vocação turística. No entendimento de Beni (1997), apesar de se caracterizar por uma contínua interação da economia mundial, a globalização provoca o aumento de desigualdades entre países e regiões, ampliando as disparidades internacionais e inter-regionais. Neste contexto, se destacam as regiões com sistema produtivo articulado, com elevado nível de competitividade nos mercados globais. Frente a esse cenário, para que as pequenas localidades desenvolvam um sistema de gestão do turismo que seja capaz de competir com sistemas articulados dos grandes centros, as políticas públicas desenvolvidas com o intuito de capacitação da mão-de-obra local, além da necessidade de integração com outras ações de desenvolvimento, precisam ser capazes de se sustentar em longo prazo. Nesse sentido, o caminho proposto por Franco (1999), chamado de desenvolvimento local integrado e sustentável, a partir da análise de fatores que são indispensáveis no processo de planejamento e implementação das políticas sociais, delineia o caminho para tornar essas ações efetivas. O referido autor define o desenvolvimento local integrado e sustentável como um modo de promover o desenvolvimento que possibilita o surgimento de comunidades capazes de: suprir suas necessidades imediatas; descobrir ou despertar suas vocações locais e desenvolver suas potencialidades específicas; fomentar o intercâmbio externo aproveitando-se de suas vantagens locais. Essa concepção de desenvolvimento seria, portanto, uma via possível para a melhoria da qualidade de vida das populações e para a conquista de modos de vida mais sustentáveis. Para Franco (1999), a qualidade de vida é resultante de um conjunto de fatores que envolve, a economia (trabalho, renda), educação, saúde, segurança, mobilidade etc. Dentre os itens, destacam-se a ocupação e a renda, que só se torna possível através de políticas de capacitação. A importância da atuação do governo Federal no desenvolvimento das diretrizes dessas políticas é um dos pontos destacados na proposta de sustentabilidade, no entanto, Franco (1999) avalia que, uma série de programas federais, apesar de coerentes na sua formulação, nem sempre atende e chega às comunidades locais. Para contemplar princípios modernos de gestão democrática, as diversas instâncias dos governos federal, estadual e municipal deveriam estar envolvidas no processo. Outro aspecto salientado por Franco (1999) é a necessidade de parceria entre Estado, mercado e sociedade civil. Tomados isoladamente ou combinados apenas aos pares, Estado, mercado ou sociedade civil revelam-se tão necessários quanto insuficientes para promover o desenvolvimento local, integrado e sustentável. Ávila (2009, p.119) destaca que, “a participação
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efetiva no planejamento turístico pressupõe divisão de poder no processo de elaboração, execução, controle e avaliação”. Para o referido autor, “participar implica codecisão e corresponsabilidade”. No entanto, para participar de forma efetiva, reflexiva e responsável, a população local precisa do entendimento necessário só possível de se construir através do conhecimento. Nesse sentido, Ávila (2009) atrela o envolvimento da população local à oferta de oportunidades concretas de benefício econômico, que começa pela ocupação de postos de trabalho, o que só é possível através da capacitação. A capacitação constitui, juntamente com a parceria institucional, um dos principais eixos da estratégia de desenvolvimento local integrado e sustentável. Dentro da perspectiva proposta por Franco (1999), a capacitação é entendida, não apenas como treinamento para a reprodução de habilidades específicas, mas como um processo dialógico, criativo, participativo, crítico, holístico e formativo e como um elo entre o local e o global. Desse modo, o modelo de capacitação de mão-de-obra dos pequenos municípios com vocação turística, para efetivamente agregar valor ao desenvolvimento sustentável da atividade econômica, requer a participação de agentes comunitários, centros tecnológicos e universidades. Cada um desses agentes, dentro do seu papel de formação, possui significativa importância para a construção das habilidades e competências requeridas pelo capital humano local. Evidencia-se, ainda, a garantia da circulação da informação como fonte contínua de capacitação da mão-de-obra local, que deve ter acesso continuado, através das tecnologias informacionais, aos mesmos meios geradores de conhecimento disponíveis a qualquer trabalhador de um grande centro. Quanto ao fator financeiro, as políticas públicas, no entendimento da proposta de desenvolvimento local integrado e sustentável, devem fazer uso de recursos exógenos e endógenos, públicos e privados. Uma vez estabelecidas as parcerias, todos os agentes são co-responsáveis pela viabilização financeira do projeto. Por fim, dentro de qualquer proposta sistêmica, é previsível o estabelecimento de indicadores que possibilitem avaliar os impactos reais do programa na vida dos seus beneficiários e na comunidade que, de uma forma geral, deverá estar preparada para melhor conceber, gerir e sustentar a atividade turística em seus municípios. Conforme corrobora Souza (2006), as políticas públicas, após desenhadas e formuladas, desdobradas em planos, programas, projetos, bases de dados ou sistema de informação e pesquisas, devem, após implementadas, ser submetidas a sistemas de acompanhamento e avaliação.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise apresentada, longe de pretender esgotar a discussão sobre o tema abordado, introduz algumas reflexões sobre a necessidade de se capacitar a mão-de-obra em pequenos municípios que enxergam na atividade turística a possibilidade de desenvolvimento econômico e social. A partir da intensificação da globalização que, ao mesmo tempo aproxima e distingue a realidade dos grandes centros turísticos, dos pequenos municípios interioranos com vocação turística, a capacitação da mão-de-obra emerge como fator indissociável da competitividade dos empreendimentos turísticos e do setor em geral, considerando, sobretudo, as novas demandas mercadológicas, que exigem uma mão-de-obra preparada para a oferta de produtos e serviços com a qualidade requerida. No entanto, ao se considerar as peculiaridades da atividade turística, que não é simplesmente econômica, uma vez que, envolve aspectos sociais, ambientais, culturais, dentre outros, capacitar a mão-de-obra não significa apenas proporcionar competitividade, mas, possibilitar a construção de um turismo sustentável em longo prazo. Assim, para que se construa um modelo de capacitação atrelado a um modelo de desenvolvimento integrado e sustentável, faz-se necessário o planejamento e implementação de políticas públicas que trabalhem habilidades e competências capazes de formar uma população local pensante e participativa, capaz de tomar decisões e intervir de forma positiva na realidade turística local. A viabilidade de projetos dessa ordem está atrelada a formação de parcerias entre os governos federal, estadual e municipal, a iniciativa privada e a sociedade civil, além de prevê financiamentos de ordem interna e externa, tanto de origem pública como privada. O suporte e envolvimento de todos os agentes co-participantes alicerçam as ações e permitem uma visualização sistêmica das carências locais o que, consequentemente, possibilita a elaboração de programas mais eficazes e sustentáveis. Destarte, cabe salientar que qualquer projeto que envolva tantas instâncias com interesses diversos, não é de fácil planejamento e execução. Além disso, a gestão da capacitação da mão-deobra com a finalidade de tornar possível o desenvolvimento do turismo em pequenas cidades é um processo de longo prazo e não pode estar dissociado de outras ações públicas que promovam a melhoria da infra-estrutura local e das condições de vida da população.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ÁVILA, Marcos Aurélio. Políticas e planejamento em turismo cultural: conceitos, tendências e desafios. In: CRUZ, Gustavo da; CAMARGO, Patrícia de. (Org). Turismo Cultural: estratégias, sustentabilidade e tendências. Ilhéus-BA: Editus, 2009. BANCO INTERAMERICANO DE DESENVOLVIMENTO (BID). Procuram-se Bons Empregos: o mercado de trabalho na América Latina. São Paulo: Saraiva, 2004. BARRETO, Margarita. Planejamento e organização em turismo. 3ª ed. Campinas, SP: Papirus, 2000. ______. Manual de iniciação ao estudo do turismo. 7ª ed. Campinas, SP: Papirus, 1999. BARROS, Claudios; D. ARTAGNAN, C de. Excelência em serviços: uma questão de sobrevivência no mercado. Rio de janeiro: Qualitymark, 1999. BENI, Mário Carlos Beni. Análise Estrutural do Turismo. São Paulo: Editora SENAC, 1997. CUNHA, Edite da Penha. CUNHA, Eleonora Schettini M. Cunha. Políticas Públicas Sociais. In: CARVALHO, Alysson (et. al.) organizadores. Políticas Públicas. Belo Horizonte: Editora UFMG; Proex, 2002. p. 11-26. FRANCO, Augusto de. A participação do poder local em processos de desenvolvimento integrado e sustentável. In: Gestão social: uma questão em debate/orgs. Elisabeth de Melo Rico e Raquel Raichelis Degenszajn. São Paulo: EDUC; IEE, 1999.p.175-188. POCHMANN, Márcio. A década dos mitos: o novo modelo econômico e a crise do trabalho no Brasil. São Paulo: Contexto, 2001. SOUZA, Celina. Políticas Públicas: uma revisão de literatura. Sociologias, Porto Alegre, ano 8, nº 16, jul/dez 2006, p. 20-45. TINÔCO, Dinah dos Santos. Os novos requisitos exigidos do trabalhador e o processo educacional vigente: elementos de reflexão para uma política de qualificação. In: X Colóquio Internacional da AFIRSE/Seção Brasiliense. 11 a 14 de set. 2001. Anais... UFRN, Natal.

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A IMPORTÂNCIA DA GEOGRAFIA HUMANÍSTICA NO ENSINO DO TURISMO

Ana Lídia FERREIRA Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Amazonas email: analidiaferreira11@gmail.com Amélia Regina Batista NOGUEIRA Professora Doutora do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Amazonas - email: ab.noguira@uol.com.br

RESUMO

O Ensino da disciplina de Geografia do Turismo seja ele nos cursos de Graduação de Geografia, ou nos cursos de Turismo está sempre vinculada à leitura das paisagens naturais, a cartografia ou ainda voltada para uma geografia econômica. Ao propormos essa discussão objetivamos ressaltar a importância da Geografia Humanista no ensino que forma os profissionais em Turismo. A Geografia Humanista pode contribuir para o planejamento do Turismo, tornando este seja menos impactante e mais humano. PALAVRAS-CHAVE: Ensino; Turismo; Geografia Humanista; Planejamento.

INTRODUÇÃO

A Geografia ao longo de seu percurso de solidificação enquanto ciência assume inúmeras perspectivas buscando sempre entender a Terra e Homem ora centrada em descrever as características físicas do mundo que vivemos, ora colocando o homem como mais um elemento da paisagem, ora procurando entender as relações econômicas e sociais que o mesmo estabelece no espaço geográfico. Em outro momento procura evidenciar o espaço geográfico a partir das relações de experiênciação que o homem estabelece com o Espaço e Lugar a partir do que vive e experiência. Ambas as perspectivas tem sua contribuição na construção teórica dessa ciência. Pautaremos nossa discussão na perspectiva da Geografia Humanística, pois a mesma traz o homem para o centro das discussões, não apenas como elemento que compõe a paisagem ou como periférico de uma discussão econômico, mas o homem que possui conhecimento acerca do seu “mundo”, valorizando a experiência que cada ser adquire ao longo da vida, percebendo assim que o homem conhece, orienta e se reconhece com este mundo vivido.

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Dada tais possibilidades propomo-nos aqui evidenciar a importância da Geografia Humanista para a discussão do Turismo, sua importância para o planejamento da atividade turística, e em conseqüência a necessidade de levar tais discussões para a formação do Turismólogo. O Turismo é um fenômeno de graves impactos ambientais, necessita superar a perspectivas de um fenômeno puramente econômico, e ser visto como um fenômeno humano, complexo e de grande subjetividade. A Geografia Humanística possibilita compreender a percepção e a representação do turismo no Espaço e Lugar, seja para visitante ou para o visitado. Ao evidenciar tal discussão não temos a pretensão de propor bases teóricas - metodológicas para a disciplina Geografia do Turismo ministrada nos cursos de Geografia, de Turismo e mesmo nos cursos de Pós-Graduação. Queremos evidenciar está reflexão mais na perspectiva do planejamento do Turismo, por conseguinte no ensino dos cursos do Turismo.

1 GEOGRAFIA HUMANÍSTICA E SUA IMPORTÂNCIA

Segundo (Claval 2007 p.19), Geografia tem primórdios no final do século XVIII e a partir das indagações do filósofo Herder, este deseja entender as relações sociedade e meio. Influenciado por este debate Ratzel traz a discussão a antropogeografia, uma nova área de estudo, que se propõe a descrever e mapear as áreas onde vivem os homens, entender o que levou a repartição dos homens sobre a terra, além de buscar entender a influência da natureza sobre os homens. Essa abordagem segue na Geografia até meados do século XX, quando a geografia com uma nova roupagem se apoia no pensamento neopositivista, em que a perspectiva geométrica dá um tom de cientificidade a ciência, propondo assim uma Geografia Quantitativa, uma Nova Geografia. Christofoletti (1985) ressalta que a Nova Geografia toma proporções na década de cinqüenta, do século XX, a partir das novas perspectivas de abordagem influenciada pelo período pós-segunda guerra, estas transformações dar-se a partir de uma abrangência no aspecto filosófico e metodológico, tenta superar as dicotomias, tentando enquadrar a Geografia dentro de rigores mais científicos. Entretanto, surgem reações a Nova Geografia de abordagem neopositivista, dentre estas reações podemos salientar a da Geografia Humanística. Em resposta a essa perspectiva a Geografia Humanística que segundo Claval (2007), começa a ser esboçada no inicio de 1950 na Grã- Bretanha no trabalho de William Kirp, em estudo do comportamento e, em meados de 1960 surge os primeiros trabalhos com pressupostos da Geografia Humanística, no entanto a mesma ganha impulso uma década depois, entre as obras mais significativas, podemos destacar o Topofilia, obra publicada pelo geógrafo Yi- Fu-Tuan em 1974 que estuda os valores, a percepção e atitudes dos homens frente aos ambientes. O homem questionava as razões de estar na Terra, desejava dar sentido à sua existência e o mundo por ele
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vivido esse pensamento passa a ser o ponto de partida dos trabalhos de muitos geógrafos, principalmente, os geógrafos humanistas que trabalham com a perspectiva existencial. Nota-se que o homem passar a ser o centro de tal discussão, não apenas da sua relação com a natureza ou classes sociais, mas o homem que vive e experiência o seu mundo. Não é a Terra o objetivo dessa abordagem teórica, mas sim a relação que o homem estabelece com a natureza e como esse percebe seu mundo. Tuan (1985) destaca que a Geografia Humanística, assume característica decorrente do humanismo provenientes do movimento Renascentista, com uma visão ampla do que é a pessoa humana, e do que ela pode fazer, luta por uma visão mais abrangente. Tenta entender os fenômenos geográficos que revelam a qualidade da conscientização humana. A Geografia Humanista torna-se uma das correntes mais significativas para a Geografia, preocupa-se com o sentido do lugar e com a importância do que é vivido pelo homem, os significados religiosos, torna-se essência para os estudos que deseja um aprofundamento na realidade cultural, o que possibilitará assim um entendimento quanto as experiências humanas, e como isso é fator determinante para suas atitudes (CLAVAL 2007). Esta corrente geográfica humanística apóia-se na perspectiva fenomenológica, pois esta busca analisar a essência dos objetos, procurando trabalha o homem e meio a partir da subjetividade. Compreendendo as experiências humanas com o mundo, entendendo que o que é experiênciado e vivido se transforma em um conhecimento. Buttimer (1985) ressalta que a fenomenologia tem desafiado as premissas e os procedimentos das ciências positivas, com serias críticas ao reducionismo, a racionalidade e da separação entre sujeito e objeto nas pesquisas empíricas. A geografia humanística tem refletido o homem e interpretado as experiências humanas, suas ambigüidades, ambivalência e complexidade entendendo assim os símbolos e as aspirações, procura entender o mundo a partir da relação homem natureza. Nota-se então que a Geografia Humanística busca ter o homem como centro de seus estudos, procura compreender as experiências humanas a partir das relações que estes têm com seu “mundo”. A Geografia Humanística possibilitar compreender essência dos fenômenos que ocorre no espaço geográfico.

2 TURISMO FENÔMENO HUMANO

Segundo Rodrigues (2001) o turismo posiciona-se com um papel significativo na economia mundial, este é responsável pela geração de riqueza que equivale a 6% do PIB global, ficando atrás da indústria de armamento e de petróleo.
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É na maioria das vezes nessa perspectiva de uma prática econômica e contemporânea que o turismo é visto, no entanto é importante evidenciar que está prática esteve presente ao longo da historia humana de acordo com o contexto histórico de cada época. Silva (2001) destaca que atividade turística reflete as condições políticas, econômicas e culturais de cada sociedade, sendo estes fatores favoráveis ou não para o acontecimento desse fenômeno. O turismo moderno, contemporâneo caracterizou-se em um turismo de massa no uso exacerbado dos recursos naturais, que acarretou inúmeras conseqüências para o meio ambiente em sua complexidade, superando o pensamento de que este é uma indústria sem chaminé, tornando-se necessário se repensar a prática da atividade turística. Almeida (citada por Castro 2006) salienta que:

Pensar o turismo é, pois, inseri-lo em um processo global em que prevalece a ampla circulação de capitais mercadorias, indivíduos, idéias e produtos culturais simbólicos e dentro do qual relevo e apelo mercadológico para a experimentação de novos lugares, sensações e diferenças culturais... (Almeida 1998, p.124)

Percebe-se que o turismo precisa ser pensado em uma perspectiva que não seja apenas econômica, mas principalmente a perspectiva humana, a partir da percepção daqueles que vivem a prática do turismo em seu cotidiano. Dentro dessa perspectiva humanística podemos evidenciar o que propõe Krippendorf (1989) quando advoga que o turismo tem que estar para o homem e não o contrário. Por ser o turismo uma atividade que se projeta de forma impactante no ambiente faz surgir à necessidade de se pensar um planejamento turístico principalmente nas áreas receptoras, para que isso ocorra e necessário recorrer a diversas áreas do conhecimento como, a Economia, Administração, Sociologia, Antropologia, Filosofia e a Geografia entre outras. O turismo e a Geografia caminham juntos, Gonçalves (2008) destaca que a Geografia interessa-se pela atividade turística devido a sua especialidade, e o turismo se beneficia devido à capacidade de análise espacial da Geografia. Podemos pensar no que argumenta Castro (2006) quando ressalta que o turismo acontece sob os pilares da territorialidade, espaço, lugar, paisagem, categorias estas próprias da Geografia, destacando assim a dimensão espacial dessa atividade. Dessa forma Geografia do Turismo, aparece como componente curricular dos cursos de Geografia e dos cursos de Turismo, bem como nos cursos de Pós-Graduação. Segundo Rodrigues (2001) a Geografia do Turismo se acentuar nos anos sessenta como resposta ao crescimento do Turismo, e destaca ainda que a mesma ainda necessite de um rigor teórico-metodológico.

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Rodrigues (2001) ressalta que muitos trabalhos geográficos com interesse no estudo do turismo, encontram dificuldade pela falta de bases teóricas. No Brasil são nos anos setenta que tem os primeiros trabalhos geográficos voltados para turismo, estes trabalhos visavam buscar títulos acadêmicos. Percebe-se um grande crescimento de cursos superior em Turismo, tendo em sua grade curricular a disciplina de Geografia, que se divide em Geografia geral, ou do Brasil com um enfoque regional. Essa disciplina busca contribuir com o estudo do turismo, mapeando os locais, além da caracterização geomorfológica dos lugares, nota-se a valorização de uma Geografia local e descritiva. Mesmo a disciplina de Geografia do Turismo não possuindo um rigor teórico- metodológica, apresenta-se inúmeros trabalhos nos programas de Pós-Graduação em Geografia que buscam investigar acerca da atividade turística e mais especificamente em Geografia Humanística. (Gandara 2009) Não temos aqui intenção de propor as bases teóricas - metodológicas para a Geografia do Turismo e sim procurar refletir o valor e a importancia da Geografia Humanística na formação dos profissionais em turismo e ainda que a mesma não seja mensurável dada sua subjetividade, pode contribuir para o planejamento do turismo. Dados os impactos ocasiona pelo turismo ao meio ambiente torna-se necessário o uso do planejamento para prática da atividade, com o intuito de reduzir os impactos sendo está uma das principais preocupações dos profissionais da área do turismo. Podemos evidenciar no que destaca Ruschmann (1997) que o planejamento tem por objetivo ordenar as ações do homem sobre o território, direcionando a construção de equipamento e visualizando a melhor forma de desenvolver a atividade reduzindo assim os efeitos negativos para evitar a destruição e a perca da atratividade e da descaracterização dos lugares. Para fazer um planejamento da atividade turística é necessário levar em consideração as informações mensuráveis como, por exemplo, o número de visitante por ano de um determinado lugar, fazer os impactos de cargas de uma determinada área para se ter uma prévia do possível número de visitante para está área. Muitas das informações necessárias para se fazer um planejamento turístico se obtém em determinada áreas do conhecimento como, por exemplo, a Geografia que possibilita entre outras um conhecimento a cerca da paisagem, da hidrografia podemos exemplificar ainda a categoria Lugar a partir das relações que se estabelece com o mesmo. A necessidade de se planejar o Turismo é principalmente com o intuito de se reduzir os impactos negativos da atividade e não apenas fazer acontecer mais uma atividade de cunho puramente econômico, é necessário superar essas expectativa e compreende - lá como uma atividade humana.
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A Geografia Humanista dada as suas bases fenomenológica possibilita estudar o turismo tendo o homem como centro e não apenas o turismo, “como um fator gerador de renda, mas como fenômeno humano que envolve muitas facetas do saber humano” (Netto 2005). O Turismo antes de ser bom para o turista e necessário ser bom para localidade receptora, valorizando a cultura o modo de vida dos que residem ali. Dessa forma nota-se que é necessário ter o morador local como parte fundamental no planejamento e na prática da atividade, entender como ele percebe o Lugar, o que existe ou existiu de mais significativo para ele, bem como perceber a prática do Turismo e colocar no planejamento o conhecimento que esses moradores adquiriram ao longo da vida, compreender esse “mundo experiênciado” tornando-se essencial para planejamento do turismo. A relação que um morado estabelece com o Lugar o conhecimento que possui pode vir a ser parte importante em um planejamento turístico e de grande relevância para o desenvolvimento da atividade e isto vem se evidenciando como, por exemplo, com o uso dos Mapas Mentais, mesmo que pouco difundido tem sido utilizado na prática da atividade turística. NOGUEIRA (2001) salienta serem estes os primeiros mapas, que aos poucos foram sendo substituídos pelos mapas de localização precisa com o intuito de dominação, tomando uma postura cientificista e distanciando-se das suas origens, enfatiza que os Mapas Mentais são construídos a partir das imagens e a mesma surge das experiências estabelecidas com os lugares. Os Mapas Mentais representam entre outras coisas o conhecimento que as pessoas adquirem a cerca do lugar a partir de suas experiências. Essas evidenciam a capacidade que cada pessoa tem de orientar e se reconhecer com o Lugar. Ainda que sendo está uma prática utilizada em algumas comunidades que desenvolve a atividade turística, o estudante dos cursos de turismo tem contato apenas com a cartografia dita cientifica. A Geografia Humanística aborda categorias de Espaço, Lugar, Representação, territorialidade, identidade cultural. Categorias, que possibilitam uma maior humanização do turismo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Geografia Humanística não é mais ou menos importante que as demais perspectivas geográficas, ela é uma possibilidade de pensar o homem e as relações que se estabelece com o mundo a partir do que ele vivi. Dessa formar evidência o conhecimento muitas vezes ignorado por não possuir bases teórica, conhecimento este que se adquiri a partir do que se aprende ao longo da vida.
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As categorias de análise da Geografia Humanística possibilitam encontrar elementos que viabilizam planejar atividade turística de forma mais humana e menos impactante. Não se pode negar que o Turismo é uma fonte de desenvolvimento econômico, entretanto, precisa ser fonte de desenvolvimento humano e valorização cultural e do modo de vida das localidades que o desenvolve, mas para que isso aconteça faz-se necessário um planejamento adequado. O planejamento da atividade deve ser uma preocupação presente nos trabalhos dos profissionais em turismo, dessa formar conhecer a Geografia Humanística é fundamental para os turismólogos, como um caminho para pensar tal planejamento, fazendo desta uma atividade econômica, mas sobre tudo, de inúmeras facetas humanas. Ao propormos tal discussão não temos a intenção de negar o conhecimento desenvolvido na disciplina de Geografia do Turismo, mas o de evidenciar o valor e significado da Geografia Humanística na formação do turismólogo, para que este não se depare de forma inesperada com essas perspectivas geográfica, para que seja esta mais um elemento essencial na formação desse profissional. A Geografia Humanística possibilitará ainda um maior enriquecimento filosófico encaminhando para um melhor entendimento acerca da subjetividade humana, e ainda ao buscar compreender a percepção e a representação de uma pessoa acerca do lugar, propiciará uma valorização da identidade local e contribui para a conservação do modo de vida de uma determinada localidade. Assim como quando se buscar compreender a percepção do turista a cerca de um lugar permitirá entender o que fazer para que este experiencie este lugar não apenas com o olhar, mas como os demais sentidos humanos.

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GANDARA. J.M.G e ALBACH, V.M. Pesquisa em Turismo e Geografia: uma análise das dissertações do Programa de Pós- Graduação em Geografia da Universidade Federal do Paraná. VI Seminário da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo. Universidade Anhembi Morumbi – UAM/ São Paulo/SP GONÇALVES, Leandro Forgiarui de. Geografia Humanística e Turismo: um enfoque humanístico para o estudo do turismo. V Seminário de Pesquisa em Turismo do Mercosul ( SemiTUR)

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A TURISTIFICAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO NO MUNICÍPIO DE BARRA DE SANTO ANTÔNIO, ALAGOAS: UMA ANÁLISE SOB A ÓTICA DA PARTICIPAÇÃO DOS STAKEHOLDERS LOCAIS

Andersson Pontes BARBOSA Estudante - Tecnologia em Geoprocessamento - IFPB anderssonap@yahoo.com.br Lindemberg Medeiros de ARAUJO Professor - Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente – UFAL lmedeirosbr@gmail.com

RESUMO

O presente estudo teve como objetivo analisar o processo de turistificação de Barra de Santo Antônio à luz da noção de participação. A participação de stakeholders no planejamento turístico tende a trazer benefícios para todos os envolvidos. O município de Barra de Santo Antônio, localizado a aproximadamente 45 km de Maceió, no litoral norte alagoano, é um lugar conhecido turisticamente a pelo menos duas décadas. Em geral o crescimento do turismo na zona costeira nordestina tem sido alvo de preocupação entre estudiosos, organizações não-governamentais, e membros da própria comunidade, devido ao vários tipos de impactos ambientais que a atividade tem causado na região. Como uma das formas de evitar tais problemas e contribuir para o desenvolvimento sustentável dos lugares turísticos, o governo federal criou diversas políticas públicas, nas quais a participação da comunidade no planejamento turístico é um princípio a ser observado. A metodologia deste estudo incluiu revisão de literatura, levantamento fotográfico, entrevistas abertas e entrevista de grupo focal, incluindo diversos stakeholders locais do desenvolvimento turístico. As entrevistas foram gravadas, posteriormente transcritas e analisadas. O estudo conclui que o turismo tem se desenvolvido em Barra de Santo Antônio de forma espontânea, e que não há participação significativa da comunidade da discussão nesse desenvolvimento. PALAVRAS-CHAVE: Turismo; Stakeholders; Participação; Desenvolvimento Local.

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INTRODUÇÃO

O turismo é um dos setores da economia que mais cresce na atualidade, já tendo atingido o status de uma das principais atividades socioeconômicas no mundo. Superou setores tradicionais como a indústria automobilística, eletrônica e a petrolífera. De acordo com Dias (2003, p. 9), citando dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), o turismo movimenta cerca de US$ 3,4 trilhões (10% do PIB mundial) e emprega 204 milhões de pessoas (10% da força de trabalho global). O turismo possui um número muito grande de outras atividades que direta ou indiretamente se conectam à sua cadeia produtiva. As atividades turísticas têm se diversificado com o passar do tempo, tendo-se tornado cada vez mais importantes para países, regiões e municípios onde essa atividade se insere. Em muitos países o turismo se tornou uma alternativa de desenvolvimento (ARAUJO, 2009). Esse é o caso do Brasil que em 2003 criou um ministério exclusivamente para cuidar do setor turístico do país. O Brasil conta hoje com grande número de políticas voltadas para explorar o turismo economicamente e para contribuir com o desenvolvimento local. Entretanto, quando a atividade se desenvolve de forma espontânea, isto é, sem planejamento, frequentemente o turismo causa muitos problemas socioambientais.

Alternativamente, o turismo pode ser planejado ao ser usado como uma alternativa de desenvolvimento, buscando-se tirar o máximo de benefícios para os lugares envolvidos. Entre vários aspectos relacionados ao planejamento do turismo, a participação de stakeholders14 no processo de planejamento pode ajudar a redefinir a identidade local, fazendo com que possam existir perspectivas reais de desenvolvimento, criando, assim, de forma positiva, o comprometimento dos atores envolvidos nas destinações turísticas (DIAS, 2003). O processo de participação de stakeholders no planejamento turístico pode trazer muitos aspectos positivos em relação à forma pela qual uma destinação turística se desenvolve, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos residentes. Por exemplo, a participação pode proporcionar benefícios para as comunidades envolvidas a exemplo do controle e gestão dos seus recursos (naturais, sociais, culturais e ambientais), muitas vezes explorados de forma irracional ou sem levar em conta os interesses de todos os stakeholders relacionados a tais recursos, mais precisamente representantes da própria comunidade local. O município de Barra de Santo Antônio, localizado a aproximadamente 45 km de Maceió, às margens da foz do rio Santo Antônio, vem passando por um processo de turistificação, o qual já se estende por mais ou menos três décadas. Há localmente uma variedade de stakeholders que de
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Segundo Gray (apud ARAUJO, 2008, p. 92), “stakeholders são todos os indivíduos, grupos ou organizações que são afetados por ações que outros stakeholders adotam para resolver um determinado problema”.

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forma direta ou indireta estão relacionados ao desenvolvimento turístico local. Entretanto, há uma separação entre esses stakeholders no que diz respeito ao planejamento turístico local, com grupos economicamente mais fortes tomando decisões de forma independente dos demais stakeholders.

OBJETIVOS GERAL:  Analisar o processo de turistificação de Barra de Santo Antônio à luz da noção de participação.

ESPECÍFICOS:  Identificar os stakeholders do turismo no município de Barra de Santo Antônio;  Identificar os aspectos naturais, ambientais e sociais presentes no município de Barra de Santo Antônio, importantes para o desenvolvimento turístico;  Estudar até que ponto a turistificação de Barra de Santo Antônio envolve a participação dos stakeholders locais.

1 METODOLOGIA

A pesquisa teve como principal objetivo estudar se há participação no planejamento turístico em Barra de Santo Antônio, e, se houver, compreender como o processo ocorre na prática. Foram realizadas cinco visitas ao município, inicialmente com o objetivo de familiarização com a área. As visitas de campo também tiveram como objetivo a realização de levantamento fotográfico, identificação dos stakeholders locais da atividade turística e a realização de entrevistas abertas. Durante as visitas de campo se informou às pessoas contatadas sobre a futura realização de uma reunião de grupo focal na comunidade para a qual foram convidados a participar. As entrevistas abertas foram realizadas com nove stakeholders, a saber: Secretário Municipal de Saúde, Secretário Municipal de Turismo, Restaurante Estrela Azul, Colônia de Pescadores (Z-14), Associação dos Jangadeiros, Bar do Piu, Escola de Ensino Fundamental 7 de Setembro, Restaurante Almirante Araújo e um residente antigo. Na reunião de Grupo Focal participaram stakeholders considerados mais relevantes para os objetivos do estudo, tendo sido convidados os que se seguem: Colônia dos Pescadores, Associação dos Jangadeiros, Bar do Piu, Diretora da Escola de Ensino Fundamental 7 de Setembro, e uma moradora.
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Adotou-se procedimento qualitativo de análise dos dados, priorizando-se os dados e informações relevantes para aos objetivos da pesquisa.

2 LOCALIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

O município de Barra de Santo Antônio está localizado no litoral norte do estado de Alagoas, a aproximadamente 45 km de Maceió. Limita-se ao Norte com os Municípios de São Luiz do Quitunde e Passo do Camaragibe, ao Sul com o município de Paripueira, ao leste com o oceano Atlântico e ao Oeste com o município Maceió (Figura 1).

Figura 1. Localização da área de estudo. Fonte: Laboratório de Geoprocessamento Aplicado – LGA/UFAL.

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3 RESULTADOS PRELIMINARES

O turismo no município de Barra de Santo Antônio vem se desenvolvendo unicamente com base nas suas características naturais (praias, sol, mar, rio Santo Antônio, manguezais, piscinas naturais e falésias). Esse conjunto de características naturais atrai não só turistas brasileiros, mas também turistas estrangeiros. É preciso haver um envolvimento direto dos gestores públicos no planejamento e gestão do turismo, de tal forma que ele possa ter alguma possibilidade de contribuir para o desenvolvimento em Barra de Santo Antônio. Isto é fundamental para que o turismo contribua efetivamente para o desenvolvimento, articulando-se ao conjunto da economia. Ficou evidente que nesse município o turismo não conta com a iniciativa do poder público local para o planejamento turístico, quer seja com participação, quer seja de forma individual, ou investimentos financeiros. O grande afluxo de visitantes a um lugar turístico em determinados períodos do ano é um fenômeno comum à maior parte dos lugares turísticos. Normalmente, isso ocorre durante a alta temporada, quando a população visitante pode superar em número a população residente, um fenômeno previsto pelo modelo de Butler (apud ARAUJO; MOURA, 2007), denominado Ciclo de Vida da Área Turística (CVAT), (Figura 6).

Figura 6. Ciclo de Vida da Área Turística. Butler (apud ARAUJO; MOURA, 2007).

Segundo esse modelo, os lugares turísticos surgem e evoluem passando por cinco fases ou estágios evolutivos: exploração, envolvimento, desenvolvimento, consolidação e estagnação, a
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partir do qual o lugar pode entrar em declínio ou passar por um rejuvenescimento, isto é, o número de turistas voltaria a crescer. De acordo com o CVAT, quando o lugar atinge a fase denominada “desenvolvimento”, o número de turistas ultrapassa a população residente durante a alta temporada. No caso em questão – Barra de Santo Antônio –, assim como em outras cidades do litoral alagoano, o Carnaval caracteriza um período de grande concentração de pessoas, semelhante à alta estação. Aplicando-se o modelo de Butler ao município de Barra de Santo Antônio, pode-se sugerir que o grande afluxo de visitantes a esse lugar durante o carnaval é semelhante ao que ocorreria durante a fase “Desenvolvimento”. Excetuando-se o período de alta temporada e o carnaval, levando-se em consideração as opiniões dos participantes do grupo focal de uma forma geral Barra de Santo Antônio encontra-se na fase de “Estagnação”. Por exemplo, esse município não tem mais o glamour de alguns anos atrás, não atrai mais tantos turistas como em anos anteriores e apresenta sérios problemas ambientais, sociais e econômicos. Como não se encontrou evidências de participação da comunidade no planejamento ou gestão do turismo em Barra de Santo Antônio, constatando-se uma grande ausência do poder público em relação à questão, verifica-se que não existe um ambiente institucional ou organizacional que permita que a comunidade expresse seus pontos de vista em relação a como o turismo deva se desenvolver no município, o que limita muito as possibilidades de o turismo contribuir para o desenvolvimento local. Os dados coletados para este trabalho não foram suficientes para uma análise do processo de turistificação do município de Barra de Santo Antônio, isto é, quais os acontecimentos e como eles se sucederam ao longo do tempo, até os dias atuais, caracterizando cada estágio do seu CVAT. Assim, a análise do fenômeno da participação no planejamento turístico nesse município foi realizada com base nos comentários colhidos durantes as entrevistas abertas e na reunião de grupo focal. Ficou claro que de uma forma geral não houve envolvimento da comunidade, seja no planejamento ou na gestão do turismo nesse município ao longo do tempo, com o turismo ocorrendo basicamente de forma espontânea. Entretanto, os participantes do grupo focal informaram que as ações de recuperação do Hotel Captain Nikolas4, localizado na restinga da sede municipal, antes dele ser arrendado, envolveu discussões com a comunidade. Esses dois fatos relacionados à capacidade de auto-mobilização por parte dos pescadores são sugestivos de que a comunidade local apresenta algum nível de capital social. Caso houvesse em Barra de Santo Antônio alguma iniciativa do poder público no sentido de criar um planejamento e

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O Hotel Captain Nikolas, inicialmente de propriedade de um grego, e que havia fechado, foi adquirido por outro grupo, que o re-abriu com o nome D’Aldeia Village Hotel.

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gestão do turismo participativo, as informações e articulações dos pescadores locais poderiam ser utilizadas com o objetivo de aperfeiçoar o desenvolvimento local com base no turismo.

CONCLUSÃO

As conclusões deste trabalho são as que se seguem: • Os stakeholders do planejamento e desenvolvimento turístico do município de Barra de Santo Antônio são muito numerosos, envolvendo os moradores antigos e os mais recentes, a iniciativa privada, as Organizações Não-Governamentais (ONGs) e a sociedade civil. Entretanto, apenas uma pequena parte desses stakeholders demonstrou interesse em discutir os problemas relacionados à questão do desenvolvimento turístico do lugar: Colônia de Pescadores (Z-14), Associação dos Jangadeiros, Bar do Piu, Escola de Ensino Fundamental 7 de Setembro. • O município de Barra de Santo Antônio tem sua oferta turística baseada exclusivamente nos aspectos naturais. Apesar disso, foram identificados problemas ambientais que os colocam em risco, principalmente lixo, vinhoto no rio Santo Antônio, esgoto sem tratamento, e erosão marinha. Do ponto de vista social, verifica-se a existência de inúmeras áreas sub-normais, com barracos e casas de taipa sem a menor condição de moradia. • Falta de mobilização por parte do poder público e da iniciativa privada para o estabelecimento de uma discussão com a comunidade relacionada a como melhor planejar e desenvolver o turismo no município. Verificou-se participação em apenas dois casos, e como resultado de auto-mobilização por parte dos pescadores, em relação à recuperação do hotel Capitão Nikolas e em relação a um resort planejado para o município, denominado Ondazul, nas proximidades da praia de Morros de Camaragibe. Conclui-se, portanto, que o processo de turistificação do município de Barra de Santo Antônio vem ocorrendo de forma espontânea, ou seja, sem um planejamento integrado, envolvendo todos os stakeholders do turismo no município. Além disso, apesar de constar das políticas públicas federais de turismo como um princípio a ser seguido, em Barra de Santo Antônio não tem havido participação da comunidade no planejamento turístico.

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MERIGUE, Geancarlo.

A “Turistificação”

– entrando na discussão. Disponível em:

<http://www.etur.com.br/conteudocompleto.asp?idconteudo=5619>. Acesso: 23 de Agosto de 2009 às 10h06min. Site A Tribuna de União. Disponível em: <http://www.tribunauniao.com.br/?p=2&id=12276>. Acesso em: 25 de Julho de 2011 às 12h06min. Site Correio do Povo. Disponível em: <http://www.correiodopovo-al.com.br/v3/municipios/14195Mais-100-famlias-esto-desabrigadas-Barra-Santo-Antnio.html>. Acesso em: 25 de Julho de 2011 às 12h13min. Site Léo Villanova Blog. Disponível em: <http://leovillanovablog.blogspot.com/2008/10/de-longetudo-perfeito.html>. Acesso em: 25 de Julho de 2011 às 12h33min.

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ECOTURISMO, POLÍTICAS PÚBLICAS E PLANEJAMENTO PARTICIPATIVO E COMUNITÁRIO NO MUNICÍPIO DE PRESIDENTE FIGUEIREDO/AM

Antonia Neidilê Ribeiro MUNHOZ Profa. Ms. no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas-IFAM neidilemunhoz@yahoo.com.br Ivani Ferreira de FARIA Profa. Dra. na Universidade Federal do Amazonas- UFAM

RESUMO

O PROECOTUR teve como objetivo geral viabilizar o ecoturismo como alternativa sustentável na Amazônia Legal, implantando pólos de desenvolvimento do ecoturismo nessa região. No Amazonas, o processo resultou na elaboração do Diagnóstico e Estratégias Municipais para o Desenvolvimento do Pólo de Ecoturismo do Estado do Amazonas, com 14 municípios, entre, eles Presidente Figueiredo. Esta pesquisa analisou a implantação dessa política neste município por meio das transformações ocorridas desde 2000 a 2008, da aplicação do planejamento participativo e comunitário, e da identificação do conceito de ecoturismo dos atores sociais envolvidos. Utilizouse como método de pesquisa o dialético, com observação participante, entrevista com perguntas semi-estruturas aplicadas ao trade turístico, às comunidades Boa União, Boa Esperança, Maruaga e São José do Uatumã, as instituições municipais Secretaria do Meio Ambiente e Secretaria de Turismo por estarem diretamente envolvidas com a atividade de turismo. Observou-se que há uma diversidade sobre o conceito de ecoturismo; e as mudanças ocorridas no município são atribuídas à atuação dos prefeitos e a políticas ambientais e não ao Proecotur. O Planejamento Participativo Comunitário está sendo viabilizado pelas UCs Rebio do Uatumã e APA Refúgio do Maruaga. Em suma, o PROECOTUR, não passou de uma política de governo e não de Estado. PALAVRAS-CHAVE: Ecoturismo; Espaço Turístico; Planejamento Participativo.

INTRODUÇÃO

O ecoturismo configura-se como um segmento do turismo de melhor rentabilidade em todo o mundo, pois vem despertando o interesse crescente tanto nos países desenvolvidos, como nos países em desenvolvimento, sendo considerado uma alternativa de desenvolvimento sustentável, principalmente para ambientes frágeis, exóticos como a Amazônia (Seabra, 2004).
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O Município de Presidente Figueiredo é privilegiado por sua condição geográfica e riqueza em recursos naturais, capaz de exercer plenamente a atividade de ecoturismo. É um município que possui Unidades de Conservação, áreas protegidas por lei para a implantação e desenvolvimento do ecoturismo. Seabra (2004), afirma que essas reservas da natureza constituem monumentos naturais e amostras representativas da biodiversidade; estando presente um sem-número de espécies raras, endêmicas e ameaçadas de extinção. Situadas em locais de difícil acesso, os santuários ecológicos estão protegidos pelos seus limites físicos e à aplicação da legislação ambiental. Contrário ao sentido de preservação ambiental, o trade turístico divulga essas áreas, por meio de marketing massificado, como sendo o principal produto a ser consumido pelos ecoturistas. Nessa perspectiva, o governo federal criou o Programa de Desenvolvimento do Ecoturismo da Amazônia Legal – PROECOTUR, que tem o intuito de incentivar a implantação da atividade de ecoturismo nos Estados Amazônicos. O objetivo maior do PROECOTUR é gerar empregos e atividade econômica direta e indireta e ampliar a arrecadação dos estados da região, absorvendo mão-de-obra e capital que de outra forma poderiam se voltar para empreendimentos economicamente não-sustentáveis. Para tanto, o programa teria que criar condições para que o setor privado pudesse investir com segurança em ecoturismo na Amazônia e criar produtos e roteiros competitivos internacionalmente. O resultado seria um programa de desenvolvimento regional eficaz e eficiente, ambiental, econômica e socialmente sustentável, dimensionada de acordo com as necessidades de cada Pólo, observada a capacidade de execução das instituições envolvidas. Desse modo, o Plano de Desenvolvimento do Pólo de Ecoturismo do Estado do Amazonas teve seu desenvolvimento através do Ministério do Meio e Ambiente da Secretaria da Amazônia, por intermédio da Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Desporto – SEC. Os estudos foram realizados nos 14 municípios que integram o Pólo (Autazes, Barcelos, Careiro (Castanho), Careiro da Várzea, Iranduba, ltacoatiara, Manacapuru, Manaus, Novo Airão, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Santa Isabel do Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira, Silves). Na Amazônia os estudos permitiram inventariar e diagnosticar as potencialidades ecoturísticas do Pólo do Amazonas, bem como a infra-estrutura e operação turística e ecoturística existentes, resultando em proposições que vão servir de referência para os investimentos das iniciativas públicas e privadas (PROECOTUR, 2002). No município de Presidente Figueiredo, o plano identificou que as comunidades consideram que o ecoturismo é uma alternativa de renda, mas reivindicam a participação no planejamento e na gestão do Plano, para área e consideram que o sucesso do mesmo está ligado ao efetivo envolvimento das comunidades em todas as etapas do processo (PLANO DIRETOR, 2007).
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Por isso, tivemos a iniciativa de verificar se de fato o ecoturismo participativo e comunitário estava sendo viabilizado por essa política pública e se a comunidade e o trade turístico tinham um verdadeiro entendimento sobre o conceito de ecoturismo, e, a partir desse prisma, verificar as mudanças ocorridas no município no período de 2002 a 2008. Dessa forma poderíamos visualizar se de fato, o PROECOTUR, como política pública federal teve mudanças significativas na vida do município. Para isso utilizamos a metodologia qualitativa cuja preocupação, segundo Marconi & Lakatos (2007), está em analisar e interpretar aspectos mais profundos, descrevendo a complexidade do comportamento humano, fornecendo uma análise mais detalhada sobre as investigações, hábitos, atitudes, tendências de comportamento etc. Desse modo, escolhemos o método dialético e a observação participante. Utilizou-se levantamentos de fontes primárias e secundárias, e entrevistas semi-estruturadas e registros

fotográficos. Como fonte secundária utilizou-se a pesquisa bibliográfica abordando os aportes teóricos sobre ecoturismo, políticas públicas e planejamento participativo e comunitário e análise documental do Plano de Diretor e Plano de Desenvolvimento do Pólo de Ecoturismo do Estado do Amazonas – PROECOTUR. Posteriormente, o levantamento de fontes primárias utilizou 30 (trinta) entrevistas semiestruturadas realizadas com o trade15 turístico, nas instituições públicas do Estado do Amazonas AMAZONASTUR, Secretaria Municipal de Meio Ambiente - SEMMA e Secretaria de Municipal de Turismo – SECTUR; nas Comunidades: Boa Esperança, Maruaga, Boa União, São José do Uatumã, onde foram aplicadas entrevistas com os representantes das associações comunitárias e com os comunitários. Essas comunidades foram selecionadas por serem citadas no Plano Participativo Diretor do Município de Presidente Figueiredo e por estarem envolvidas diretamente com a atividade de ecoturismo. Espera-se, que os conhecimentos gerados permitam uma maior compreensão do ecoturismo e os resultados possibilitem a divulgação do conceito de ecoturismo visando a diminuição dos impactos indesejados advindos da práxis ecoturística no município de Presidente Figueiredo.

1 PRESIDENTE FIGUEIREDO E ASPECTOS HISTÓRICOS E A CARACTERIZAÇÃO DAS COMUNIDADES PESQUISADAS

O município de Presidente Figueiredo foi escolhido como área de estudo para realização desta pesquisa por estar situado na área nordeste do Estado do Amazonas, privilegiado pela sua
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Termo originário da língua inglesa que designa os empreendedores e empresários do turismo ( donos de hoteis, restaurantes, pousadas e etc). trade (s.) comércio; negócio. CATUREGLI (2004)

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condição geográfica, com expressiva reservas de recursos naturais e localizado no Km 107 da Rodovia BR 174 próximo a cidade de Manaus e por ter sido identificado pelo Plano de Desenvolvimento de Ecoturismo para Amazônia – PROECOTUR a exercer plenamente a atividade de ecoturismo. O município foi criado em 25 de fevereiro de 1982, através do Decreto n°. 6.158, em obediência ao disposto 1, do Art. 177, da Constituição Estadual, introduzido pela Emenda Constitucional no. 12, de 10.12.1981, que estabelece os limites dos 71 municípios que passam a constituir o Estado do amazonas. Em 13 de maio de 1985, é declarado nulo, por inconstitucionalidade, o referido Decreto, que alterou os limites do Estado, restabelecendo-se a antiga divisão territorial e administrativa. A instalação do município efetivou-se com as eleições gerais de 1982 e conseqüentemente com a posse do Prefeito e Vereadores em Janeiro de 1983. O primeiro preito eleito de Presidente Figueiredo foi o Sr. Mário Jorge Gomes da Costa A população iniciou-se ao redor do Km 107 da BR – 174 devido à construção da hidrelétrica de Balbina e a exploração mineral do Distrito do Pitinga, do Projeto de Assentamento Dirigido Uatumã, da implantação do Projeto agroindustrial para a produção de álcool e aguardente e da Agropecuária Jayoro. Solo rochoso com várias desigualdades e sua topografia ondulada é propicio à formação de cachoeiras, grutas e cavernas. Por isso o município é conhecido como a TERRA DAS CACHOEIRA. O processo de migração principalmente do interior do Amazonas e dos estados como Maranhão, Ceara, Pará, Piauí, Minas Gerais, Acre, Rondônia e outros estados do Brasil (OLIVEIRA, 2000) fez com que a população local crescesse em 385,5%. Em 1980 o município tinha 1.476 habitantes passando para 7.089 habitantes em 1991. Em 2007 aponta para 24.360 habitantes, o que mostra um crescimento populacional de maneira exponencial (IBGE, 2007).

1.1 CARACTERIZAÇÃO DAS COMUNIDADES PESQUISADAS COMUNIDADE BOA ESPERANÇA

Fundada em 1995 está localizada do Km 120 da estrada BR 174

com as seguintes

coordenadas geográficas S 01º 56’ 506” – WO 60º 02’ 667”, percorre-se 8km até chegar a sede do município onde está localizada a associação da comunidade, que encontra-se em estado de abandono, possui 398 comunitários que correspondem a 99 famílias. (Projeto Corredores Ecológicos, 2005). Essa comunidade faz parte do Projeto Corredores Ecológicos e também faz parte da área de contenção da Rebio Uatumã.
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A Comunidade Boa Esperança tem sua base econômica na agricultura familiar no cultivo de pimentão, pimenta murupi e frutas como mamão, abacaxi e banana. Devido a maior parte das plantações serem de pimentão, a comunidade realiza no mês de agosto a Festa do pimentão, com apresentação da rainha do pimentão e guloseimas originarias desse alimento bem como das frutas produzidas na comunidade. A descoberta de uma cachoeira de aproximadamente 15m de altura que encontra-se inexplorada e de difícil acesso está localizada a 10km de distancia do centro da comunidade, tem despertado o interesse dos comunitários e da presidente da associação a estimular o desenvolvimento do turismo no local.

COMUNIDADE MARUAGA

Localizada na estrada AM 240 conhecida como estrada de Balbina no Km 07 com as coordenadas geográficas 06, S 02º 02’ 734” – WO 59º 58’ 246”, com aproximadamente 122 habitantes seu principal atrativo é a Caverna do Maruaga. Com 374.700 hectares a caverna do Maruaga encontra-se inserida em uma Área de Proteção Ambiental que, embora restrinja o uso da área, não é suficiente para garantir a efetiva proteção do conjunto de cavidades existentes. A Caverna do Maruaga foi cadastrada quando da execução dos trabalhos de levantamento espeleológico para a implantação da Usina Hidroelétrica de Balbina como Gruta Refúgio do Maruaga (Karmann, et. al., 1986). O nome “Refúgio do Maruaga” foi dado em homenagem a um chefe indígena Waimiri-Atroari, que segundo a lenda, teria ali se refugiado fugindo da perseguição dos brancos. “Maruaga”, na língua indígena, é um título Hoje, o acesso a Caverna do Maruaga é permitido somente com o acompanhamento de guias turísticos. A Secretaria de Turismo que tem o objetivo te transformar em normativa ou lei o que hoje é apenas uma regra.

BOA UNIÃO

Fundada em 06 de agosto de 1991 é considerada a maior comunidade no Município de Presidente Figueiredo possui cerca de 5.000 habitantes está localizada na BR 174 Km 165 sob as coordenadas geográficas S 01º 32’ 990” – WO 60º 10’ 503”, no ramal do Rumo Certo. Esta comunidade é a maior produtora de frutas (melancia, banana, abacaxi e mamão) e verduras e leguminosas (macaxeira, pimentão, pimenta de cheiro, cará) que são transportadas para abastecer as feiras municipais em Manaus, bem como a sede do próprio município.
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Como atrativo turístico possui a parte do lago de Balbina que é liberado para pesca onde está localizado o porto fluvial do Ramal Rumo Certo e onde é realizada a Festa da Pesca da Piranha todos os anos no mês de novembro, bem como o embarque e desembarque das frutas e verduras comercializadas na comunidade.

COMUNIDADE SÃO JOSÉ DO UATUMÃ

Fundada em 1989 está localizada no Ramal da Morena Km 13 com as coordenadas geográficas S 02º 00’ 398” – WO 59º 27’ 325”, possui 310 habitantes. Essa comunidade é privilegiada por está próxima ao lago de Balbina e ter corredeiras e cachoeiras que segundo o presidente da comunidade ainda não foram catalogadas, a mais conhecida e a corredeira do Miriti de propriedade particular. Quando da realização desta pesquisa encontrava-se a venda juntamente com o Sitio Monte das Oliveiras que tem uma linda cachoeira no fundo da propriedade que chamamos de cachoeira Monte das Oliveiras para servir ponto de identificação.

2 ECOTURISMO, POLÍTICAS PÚBLICAS E PLANEJAMENTO PARTICIPATIVO

No período dos séculos XVIII ao XX onde o turismo apresenta-se como atividade econômica e passa a desenvolver características de turismo de massa, pois sua base estar no capitalismo industrial, onde as sociedades baseavam-se seu desenvolvimento na intensa apropriação dos recursos naturais. Esse comportamento tem sido a causa, que segundo Barrett & Odum (2008):

a humanidade irá ultrapassar sua capacidade de suporte ótima, como já estamos fazendo com muitos recursos, levando a ciclos de explosão e colapso. assim, o desafio no futuro não será como evitar a ultrapassagem, mas, sim como sobreviver a ela reduzindo as dimensões do crescimento, do consumo de recursos e da poluição.

Diante desse cenário reforça-se a idéia de que algumas mudanças precisam, acontecer tanto no âmbito econômico, bem como no âmbito social e ambiental. É a partir dessa tomada de consciência que despertam o movimento de maior relevância promovido por um grupo de cientistas, economistas, educadores, humanistas, industriais e servidores públicos sob a liderança do industrial Aurillio Peccei, criador do Clube de Roma, que percebe a urgência em se preparar um relatório que foram publicados em forma de livros sobre a difícil situação da humanidade no futuro entre eles o primeiro e mais conhecido livro do Clube, The Limits to Growth (Meadows et al., 1972 apud Barrett e Odum, 2008) – com base em modelos, mostra que os métodos políticos e econômicos
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precisavam ser alterados, pois corriam sérios ciclos de explosão e colapso. (Barrett & Odum, 2008). Constata-se que a preocupação com o ambiente intensifica-se e a Ciência da Ecologia deixa de ser apenas uma simples disciplina na Biologia e passa a ser tratada de forma inter e transdicisplinar, envolvendo outras áreas do conhecimento entre elas o turismo, representado pela atividade de ecoturismo objetivo desta pesquisa.

BASES CONCEITUAIS DO ECOTURISMO

Hoje, o turismo tem uma tendência a ser praticado por turistas com consciência do dano ecológico, cientes do valor da vida natural e dos interesses das populações locais. Muito diferente do turismo praticado há cinqüenta anos pelos primeiro visitantes dos parques nacionais de Yellowstone e Yosemite, dos safáris de caças de 1909 de Theodore Rosselt para capturar as maiores cabeças e chifres que pudesse encontrar, o que constitui no exemplo clássico do século XIX, o que proporcionou uma ameaça de extinção a várias espécies da fauna e flora, bem como uma crise pelo esgotamento prematuro devido ao uso em grande escala dos recursos não-renováveis e pela exploração irracional dos renováveis causado por indústrias e também pelo turismo de massa. Essa consciência se torna mais consistente a partir da década de 1990 quando os movimentos do turismo são considerados por Poon apud Ruschmann (1989) como “turismo velho” e define “novo turismo” como aquele do futuro, caracterizado pela flexibilidade das atividades, pela segmentação dos mercados e por experiências turísticas mais autênticas. Sendo esta uma das razões pelas quais o ecoturismo vem crescendo a cada ano deixando de ser praticado por uma pequena elite de amantes da natureza, passando a ser considerada uma das maiores atividades econômicas do mundo por envolver interesses que emergem de preocupações de ordem ambiental, econômica e social. No entanto, segundo Westerm (2005), nos últimos anos, os riscos de um fluxo elevado de visitantes às áreas naturais tornaram-se uma grande preocupação, e os conservacionistas têm trabalhado muito com o objetivo de aliar o turismo à conservação da natureza. Tendo essa preocupação conservacionista, economistas e turistas, compreendem que a responsabilidade pela natureza não pode ser à custa da população local, sendo esta a que mais perde com a conservação, por isso sua ênfase “os moradores das comunidades locais devem participar do processo. Uma política justa e sensata e uma economia equilibrada devem ter como meta fazer dos moradores locais sócios e beneficiários da conservação, e não seus inimigos implacáveis” (WESTERM, 2005).
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Na visão da Sociedade Internacional de Ecoturismo (The International Ecotourism Society – TIES) ecoturismo envolve tanto um sério compromisso com a natureza como responsabilidade social, perpassando essa responsabilidade também aos viajantes daí a expressão viagem responsável, como mais uma designação para o ecoturismo que envolve objetivos semelhantes. Dessa forma The International Ecotourism Society – TIES apresenta uma definição de ecoturismo que considera um pouco mais completa: “Ecoturismo é a viagem responsável a áreas naturais, visando a preservar o meio ambiente e a promover o bem estar da população local”. Essa definição serviu de base para estruturar o conceito e os princípios das Diretrizes Nacional de Ecoturismo no Brasil que consiste em:

Segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva a sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação dos ambientes, promovendo o bem estar das populações envolvidas (EMBRATUR, 1994).

A definição de ecoturismo ainda apresenta imprecisões quanto ao significado do termo ecoturismo. Os termos e expressões utilizados são considerados por alguns autores como sinônimos ou explicações surgindo diversas denominações como turismo sustentável, turismo responsável, turismo alternativo e ainda, turismo ecológico, onde as definições direcionam o ecoturismo como sendo de natureza tendo como principal atrativo a natureza, envolvendo o patrimônio e atrativo cultural em algumas conceituações. Sob a ótica da geografia, concordamos com Faria (2007) ao entender que o “ecoturismo não poderia ser classificado como de natureza ou na natureza”, pois a motivação das viagens do ecoturista não é somente por conhecer os atrativos naturais. Partindo desse princípio fundamentou-se essencialmente o ecoturismo que consiste em utilizar como atrativo o patrimônio natural e cultural de forma integrada16, convergindo os dois em caráter comunitário pautado no planejamento participativo é o que permeia a concordância com Faria (2007) onde define o “ecoturismo como o turismo planejado que promove a interação entre natureza e comunidade com vistas a uma utilização sustentável e conservacionista do patrimônio natural e cultural, proporcionando melhorias das condições de vida da população envolvida sem causar impactos indesejáveis à mesma”.

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FARIA, F. Ivani . Ecoturismo indígena, território, sustentabilidade, multiculturalismo: princípios para a autonomia.

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SUSTENTABILIDADE / RESPONSABILIDADE SÓCIO AMBIENTAL

Com a intensificação da preocupação com a problemática ambiental e a tomada de consciência de que a sobrevivência depende da necessidade de mudanças já e que por tanto os danos irrevogáveis aos ecossistemas estão desvalorizando o status econômico de boa parte da população mundial, viu-se a necessidade precípua de buscar formas (Barrett & Odum, 2008) ou estratégias (Leff, 2007) de aumentar a cooperação entre as nações para que, em conjunto, pudessem trabalhar rumo a sustentabilidade global (Barrett & Odum, 2008). Partindo destes princípios, (Leff, 2007) iniciam-se o debate teórico e político na valorização da natureza e na internalização as “externalidades socioambientais” ao sistema econômico. Deste processo crítico surgiram as estratégias de ecodesenvolvimento, promovendo novos tipos de desenvolvimento fundados nas condições e potencialidades dos ecossistemas e no manejo prudente dos recursos (Sachs, 1982 apud Leff, 2007). Desse cenário surge o ecoturismo uma proposta de estratégia baseada nos princípios da sustentabilidade, do conservacionismo dos recursos natural e cultural, através de uma estrutura sistematizada e planejada envolvendo as populações, proporcionando melhorias das condições de vidas e direcionando a uma educação ambiental onde o ambiente seja utilizado sem impactos indesejáveis. Por isso, Brito (2002) afirma que é indispensável um trabalho de educação em questões ambientais no estabelecimento de novos valores do ser humano em relação ao seu meio, pois, a educação não é apenas um veículo que possibilite mudanças de valores, mas que se constitua em um importante instrumento para se alcançar os direitos básicos da cidadania. A Educação Ambiental está imbricada na atividade de ecoturismo, pois este não tem sido competente para barrar a devastação ambiental é o que afirma Costa, Rocha & Schumaher (2002), onde os bons resultados alcançados para atingir esse objetivo ainda são pontuais. No entanto, ainda acreditam que o ecoturismo ainda será capaz de contribuir para a conservação da natureza de modo gratificante se a sociedade se envolver nesse processo, inclusive formando profissionais qualificados. Sendo assim, o ecoturismo é entendido Mendonça & Neiman (2002) e Pedrini (2007) como um modo especial de aprender pelo contato com a natureza através de experiências práticas, podendo ser um modo de beneficiar a natureza, o visitante e a comunidade local, como uma opção efetiva de recuperar o interesse, a sensibilidade a compreensão com relação á importância de se preservar as diversidades como a biodiversidade, a geodiversidade, a diversidade cultural.

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ESPAÇO TURÍSTICO NO PLANEJAMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS Ruschmann (1977:83) a ponta o planejamento como “uma atividade que envolve a intenção de estabelecer condições favoráveis para alcançar objetivos propostos”. E para alcançar objetivos é que Boullón, (2002); Yágizi (2001); Hall (2004) e Cruz (2000) apontam no planejamento turístico a importância do estudo do espaço, do território, das pessoas, que configuram a identidade do lugar. Para estudá-lo precisamos compreendê-lo e representá-lo, precisamos ter uma idéia do todo, bem como das partes sobre as quais queremos intervir Boullón (2002); Yágizi, (2001), como o espaço turístico que consiste da presença e distribuição territorial dos atrativos turísticos que são a matéria-prima do turismo, além do empreendimento e da infraestrutura turísticas que definem de maneira suficiente o espaço turístico de qualquer país. Nesta perspectiva Cruz (2000) enfatiza a apropriação que o turismo faz por ser a única atividade econômica que consome o espaço, fundamentando suas especialidades nessa característica, tornando-se causa e conseqüência de sua intervenção espacial devido o seu importante crescimento econômico. O conjunto resultante da sobreposição desses sistemas de objetos e de ações Santos (1994, 1996, 1997) apud Cruz (2000) requerida pelo uso turístico do espaço distingue o lugar turístico da atualidade dos outros lugares. É certo que, além disso, o turismo ainda constitui uma “força e um fenômeno explicativo da manifestação do lugar” Luchiari (1999) apud Cruz (2000), Estabelecendo conexões entre o local e o global. Assim, o consumo dos territórios (meios de transporte, de hospedagem e alimentício, os serviços bancários, o comércio de bens de consumo em geral) todos esses bens de serviço compõem o “fazer turístico” (ato de praticar turismo e todas as ações que essa pratica envolve). Dessa forma, a mesma autora afirma que:

(...) apropriação de uma determinada parte do espaço geográfico pelo turismo depende da política publica de turismo que leva a cabo no lugar. À política publica de turismo cabe o estabelecimento de metas e diretrizes que orientam o desenvolvimento socioespacial da atividade, tanto no que tange à esfera pública como no que se refere à iniciativa privada. Na ausência da política pública, o turismo se dá à revelia, ou seja, ao sabor de iniciativas e interesses particulares.

Essa ausência das políticas públicas causa um impacto sobre o turismo e principalmente sobre os estados e municípios o que justificaria segundo Beni (2006) os desacertos e ausência constante de orientação sobre os objetivos, metas, prioridades e metodologia na elaboração de

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projetos e programas; e como conseqüência a ausência de uma integração com outras políticas setoriais. A verticalização é justamente a causa da exclusão da participação da população local Beni (2006); Faria (2007) a exemplo do que aconteceu no Planejamento Nacional do Turismo onde diretrizes nacionais foram elaboradas com objetivos constituídos em diretrizes para as políticas estaduais, que por sua vez com objetivos de diretrizes para os municípios. De acordo com Marques apud Beni (2006), “toda política pública é concebida a partir de uma representação do setor à qual ela se refere, assim como a um conjunto de normas, organizações, técnicas e recursos de poder que a implementarão”, onde Beni (2006) acredita ser possível por meio de articulação da produção, identificação e integração dos atores sociais e agentes institucionais (steakholders), gerando empregos locais e reduzindo a pobreza e finalmente, que abranjam a coesão social e política, a cultura associativa e a rede de empresa com vantagens comparativas e competitivas

3 DISCUSSÕES E RESULTADOS ECOTURISMO: VISÃO DO TRADE E COMUNIDADES

Podemos observar em campo o quanto é complexo e difícil executar os fundamentos do ecoturismo no Município de Presidente Figueiredo. A primeira dificuldade encontrada foi o entendimento sobre o conceito de ecoturismo que é comparado e freqüentemente confundido a outras atividades de turismo, esse fato é justificado ao analisarmos as falas de alguns entrevistados em função do município ser considerado e chamado de Terra das Cachoeiras. A partir do conceito norteador adotado por esta pesquisa verificamos que as pessoas associam essencialmente ecoturismo a turismo de aventura, turismo rural menos ecoturismo, no entanto a visão do trade turístico é que todas as atividades turísticas podem ser desenvolvidas e aceitas no município, mas o que predomina ainda é o turismo de final de semana. Os relatos defendidos pelo trade turístico, adotam o sistema de roteiro “Nos trabalhamos muito com roteiros turísticos”, onde descreve que a atividade de ecoturismo é realizada “Em algumas regiões sim, em algumas regiões que eu quero dizer é em algumas localidades de roteiros” e citam como exemplo a Caverna do Maruaga e a RPPN Complexo Ecológico Cachoeira do Santuário. APA Caverna do Maruaga encontra-se interditada, isto é proibida a visitação pública, no entanto continua sendo visitada diariamente e com intensidade nos feriados e finais de semana. Esses roteiros estão sendo realizados pela Associação de Guias no município.

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Alguns entrevistados que compõem o trade turístico do município demonstram ter dificuldades para dizer com suas próprias palavras a diferença entre as diversas atividades que o turismo apresenta e entre elas o próprio ecoturismo. Mediante entrevistas realizadas constatou-se que o conceito de ecoturismo encontra-se fragmentado, ou seja, sem unicidade não por que as pessoas não queiram saber, mas por que ainda não foram criados mecanismo que possa proporcionar e desenvolver esse entendimento. O mais preocupante foi verificarmos que o trade turístico, no segmento das pousadas, possui apenas uma proprietária que soube explicar com suas próprias palavras o que entendia sobre o ecoturismo e o mais surpreendente, é que apesar do município ter sido escolhido e constar no PROECOTUR como cidade ecoturística, essa em algumas comunidades estão ainda no campo da idéia é o caso da comunidade Boa Esperança, chegando a ser até inexistente em algumas comunidades.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Observando a história das políticas públicas destinadas ao setor do turismo, verifica-se que é fundamental conhecer seus desafios, possibilidades, erros e acertos. Esse olhar possibilita analisar o presente e o futuro desse campo, que é ainda tão pleno de potencial, visto que nessa área tem surgido novas estratégias na economia e na política nacional, pois o turismo exige maiores cuidados para não ser subvalorizado, incompreendido ou relegado a planos secundários dos governos e da sociedade em geral. As novas políticas públicas de turismo surgem em novo momento de reflexão sobre o ambiente, onde a sociedade enfrenta mudanças profundas das novas tecnologias, das novas relações profissionais e pessoais, bem como das novas articulações culturais e econômicas. O turismo será um campo de ação importante e desafiador, pois, já no século XXI, ele já surge como atividade de primeira grandeza, apesar das novas dificuldades e problemas regionais e globais, mesmo assim o turismo crescerá, a não ser se o planeta sofrer impactos indesejáveis como guerras ou catástrofes naturais generalizadas. Por isso, é tão importante que tenhamos não só as políticas públicas, mas a atitude política, a vontade de querer realizar, pois o que temos observado durante toda a pesquisa é que as políticas estão sendo elaboradas, porém não com vontade de realizá-las de fato, as pessoas envolvidas continuam sem saber para que foram elaboradas e o que elas podem fazer para beneficiar o curso de suas vidas enquanto cidadãos. Nas comunidades pesquisadas nota-se uma resistência a mudanças do tipo “andar com as próprias pernas” e menos ainda o pensamento e atitudes de empreendedor. Há em poucos o
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posicionamento da importância de estabelecer parceiros, fazer parcerias onde a troca de informação ou mesmo os benefícios seja bom para os dois lados. Acredita-se que isso mostra o árduo trabalho de implantar um processo de planejamento participativo e comunitário, ou mesmo o próprio ecoturismo, que possui em seu bojo a essência desse tipo de planejamento. Com isso podemos dizer que o Ecoturismo Participativo e Comunitário não está sendo diretamente viabilizado pelas Políticas Públicas Estaduais de Turismo, e sim por políticas ambientais a exemplo do SNUC que envolve a atividade de ecoturismo nas unidades de conservação e através da formação dos conselhos consultivo e deliberativo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Beni, Mário Carlos. Política e planejamento de turismo no Brasil. São Paulo: Aleph, 2006. – Série Turismo. _______________. Análise Estrutural do turismo. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1998. Boullón, Roberto C. Planejamento do espaço turístico. Bauru, SP: Edusc, 2002 BRASIL. 1994. Ministério de Indústria, Comércio e Tecnologia e Ministério do Meio Ambiente. Ecoturismo Diretrizes para uma política Nacional. Embratur/Ibama. Brasília:MICT/MMA. 48 p CRUZ, Rita de Cássia. Política de turismo e território. São Paulo: Contexto, 2000. Coleção Turismo. __________________. Introdução a Geografia do Turismo. 2ª. ed. São Paulo: Roca, 2003 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO ECOTURISMO: uma compilação de boas práticas. Organização Mundial do Turismo: São Paulo: Roca, 2004 FARIA, Ivani Ferreira . Ecoturismo Indígena, Território, Sustentabilidade, Multiculturalismo: princípios para a autonomia. Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Geografia. Curso de Pós-graduação em Geografia Física. (Tese de Dourado), 2007. PEARCE, Douglas G. Desenvolvimento em turismo: temas contemporâneos. São Paulo: Contexto, 2002 (Coleção Turismo Contexto). Seabra, Giovani de Farias. Ecos do turismo: o turismo ecológico em áreas protegidas. Campinas: Papirus, 2001. (coleção Turismo)

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Ruschmann, Doris van de Meene.Turismo e planejamento sustentável: A proteção do meio ambiente. Campinha. São Paulo. Papirus, 1997. (Coleção Turismo). Pedrini, Alexandre de Gusmão e BRITO, Maria Inês Meira Santos. Educação Ambiental para o desenvolvimento ou sociedades sustentáveis? Uma breve reflexão para a América Latina (artigo). Publicado em Educação Ambiental em Ação, v.17, 2006.

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CONTRIBUIÇÕES PARA A ELABORAÇÃO DO DIAGNÓSTICO TURÍSTICO NA ARIE DE GOIAMUNDUBA, BANANEIRAS-PB

Bruna Carolina Stansky D’ANGELIS Mestranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFPB; bruna05@hotmail.com Lys Gabriela Alves Correia LIMA Pós-graduanda em Turismo de Base Local; lysgabriela@gmail.com Annelyse Neiva SOUTO Bacharel em Turismo pela UFPB; anneneiva@hotmail.com Anna Karla Cavalcante MOURA Especialista Ambiental; akcmoura@gmail.com

RESUMO

A atividade turística tem sido frequentemente utilizada como um vetor de desenvolvimento em diversas cidades, seja pelo seu potencial paisagístico, seja pelo potencial artístico-cultural, dentre outros. Dessa forma, o turismo tem sido apontado como uma atividade que pode contribuir para o desenvolvimento sustentável do município de Bananeiras-PB, visto seu forte potencial para o ecoturismo, através do uso de suas áreas verdes. Dentro desse contexto, este estudo objetivou analisar, a partir de desenvolvimento de referencial teórico, coleta e levantamento de dados e documentos, as potencialidades turísticas da Área de Relevante Interesse Ecológico - ARIE de Goiamunduba. Durante a pesquisa, percebeu-se grande potencial da região em relação ao turismo, no município de Bananeiras como um todo, mais especificamente na ARIE de Goiamunduba. Entretanto, para que o turismo seja desenvolvido adequadamente, é necessário planejamento, englobando os aspectos social, ambiental, econômico e cultural. Observou-se também a necessidade da criação do Plano de Manejo para a região, sendo assim possível gerir o uso da Unidade de Conservação de forma sustentável, planejando, regulando e estabelecendo as atividades dentro da ARIE. PALAVRAS-CHAVE: Planejamento Turístico; Unidades de Conservação; Turismo Sustentável; Comunidade Local.

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INTRODUÇÃO

O turismo é uma das atividades econômicas que mais dependem da adequada compreensão e prática da sustentabilidade, especialmente nos destinos que se caracterizam por atrativos naturais, nos quais a atividade tem o potencial de proporcionar a melhoria da qualidade de vida da população residente. Os municípios do interior da Paraíba, aos poucos, vêm despertando para os benefícios advindos do turismo e têm buscado se inserir na lista dos municípios turísticos do Estado. Com Bananeiras não foi diferente. O governo municipal tem buscado inserir a cidade nos principais roteiros regionais, tendo investido ultimamente no Roteiro Caminhos do Frio e nos atrativos relacionados com o ecoturismo, tais como a Cachoeira do Roncador e a ARIE (Área de Relevante Interesse Ecológico) de Goiamunduba. Esta pesquisa objetivou verificar a potencialidade turística da ARIE de Goiamunduba, com um diagnóstico ambiental da unidade de conservação em questão. Nesse contexto, foram identificados pontos negativos e positivos do desenvolvimento da atividade turística nesta unidade de conservação – UC, bem como observadas algumas falhas, necessidades da região para a realização adequada da atividade. O estudo foi desenvolvido na ARIE de Goiamunduba, localizada no município de Bananeiras-PB, por meio de pesquisa bibliográfica, documental e coleta de dados através de pesquisa qualitativa de caráter exploratório.

1 PLANEJAMENTO TURÍSTICO E O ECOTURISMO

O turismo é uma atividade econômica que vem crescendo em todo o mundo. Em decorrência desta rápida evolução e da falta de uma definição científica existem várias discordâncias com relação à atividade. É comum que o turismo seja desenvolvido sem planejamento, verificando-se que muitas vezes seus gestores executam medidas em curto prazo, que não foram previamente programadas, visando apenas o lucro, o que acarreta impactos negativos para a localidade e a comunidade receptora. O turismo, como qualquer outra atividade, tem o potencial de gerar impactos que podem ser divididos em: negativos (degradação do meio ambiente, processo de aculturação, marginalização da comunidade local, etc.) e positivos (geração de renda, valorização da cultura, mobilidade social, etc.), a depender de seu planejamento e execução. É necessário que os planejadores de turismo busquem o desenvolvimento sustentável das regiões com vocação turística, uma vez que a filosofia da sustentabilidade sugere quatro requisitos básicos: que a atividade seja ecologicamente correta, economicamente viável, socialmente justa e culturalmente aceita.
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No turismo [...] os atrativos devem permanecer intactos ou, caso sofram intervenções, essas ações ficam limitadas à restituição de alguma qualidade que possam ter perdido, seja pela ação destrutiva de outros setores, dos próprios turistas ou pelo passar do tempo (BOULLÓN, 2002, p. 55).

O planejamento turístico envolve o levantamento de dados sobre um determinado objeto, a fim de elaborar um estudo com o intuito de executar as ações que venham a desenvolver a localidade causando o menor impacto, em um espaço de tempo delimitado. De acordo com Molina (2001, p.79):

O planejamento é o resultado de um processo lógico de pensamento, mediante o qual o ser humano analisa a realidade abrangente e estabelece os meios que lhe permitirão transformála de acordo com seus interesses e aspirações. Disso resulta que a forma adequada de planejar consiste em analisar objetivamente uma realidade e condicionar as ações ao problema.

Um bom planejamento turístico deve focalizar o desenvolvimento econômico e social, minimizando os impactos causados pela atividade, bem como visando o bem estar da comunidade local. Dentre os segmentos do turismo, o ecoturismo é um dos que mais se adéqua à região estudada. Segundo a EMBRATUR (1994), ecoturismo é:

O segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista por meio da interpretação do ambiente, promovendo o bem estar das populações envolvidas.

O ecoturismo, quando bem planejado e executado, traz para a localidade onde é desenvolvido a valorização da cultura local, da população e a conscientização da comunidade e visitantes quanto à conservação da natureza. Estes são pontos de relevante importância para que uma atividade possa ser considerada efetivamente ecoturística. Em contrapartida, se esta atividade não for desenvolvida de maneira consciente e bem planejada, implicará em danos irreparáveis ao ecossistema onde está sendo praticada. A EMBRATUR (2001) define as seguintes características para o ecoturismo:

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Acontece em espaços naturais visando à regeneração e produtividade dos recursos ambientais renováveis; costumes e diferentes maneiras de viver experiência turística; enfatiza a noção de que a população deve receber uma parcela justa dos benefícios econômicos advindos de suas atividades; afirma que o desenvolvimento turístico deve ser pautado segundo a vontade dos visitantes e das comunidades das áreas ocupadas.

Portanto, para que a atividade seja caracteriza como ecoturística, deve ocorrer em ambientes naturais, tendo como princípio a preservação, o respeito às comunidades locais, suas vontades e cultura, como também servir para melhoria da economia local, proporcionando aos autóctones os benefícios gerados pela atividade turística. Assim sendo, é imprescindível avaliar o perfil da comunidade local e dos turistas, bem como as atividades que são executadas nas UCs (Unidades de Conservação). A gestão das áreas naturais protegidas deve aliar a sua utilização sustentável à atividade turística. Entender as modificações e implicações do uso público é primordial, pois determina as atitudes a serem tomadas com relação ao manejo da Unidade de Conservação.

2 UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

O termo Unidade de Conservação (UC) é empregado no Brasil para definir as áreas instituídas pelo poder público para a proteção da fauna, flora, microorganismos, corpos d’água, solo, clima, paisagens, e todos os segmentos pertencentes aos ecossistemas naturais (SIMÕES, 2008). O SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza) define unidade de conservação como:

Espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção (BRASIL, 2000, Cap.I, Art.2°, I).

Dentre os objetivos do SNUC, que compreendem ações como proteção da fauna e da flora, promoção do desenvolvimento sustentável, entre outros, destacam-se:
XII – favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental, a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico; XIII – proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais, respeitando e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente. (BRASIL, 2000, Cap.II, Art. 4º, XII e XIII)

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Devido à grande variedade de extensões territoriais, e à diversidade de características ecológicas e particularidades das Unidades de conservação, o SNUC estabeleceu dois grupos: as Unidades de Proteção Integral e as Unidades de Uso Sustentável.

O objetivo básico das Unidades de Proteção Integral é preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais (...) O objetivo básico das Unidades de Uso Sustentável é compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela de seus recursos naturais (BRASIL, 2000, Cap.III, Art.7°, I e II).

As Unidades de Proteção Integral têm como princípio a preservação da natureza, podendo apenas serem utilizadas para pesquisa científica com a prévia autorização dos órgãos competentes, sem nenhuma ocupação humana. Estas unidades são subdivididas em: Estação Ecológica, Reserva Biológica, Parque Nacional, Monumento Natural e Refúgio da Vida Silvestre. As Unidades de Uso Sustentável caracterizam-se pela conservação da natureza atrelada ao uso consciente dos recursos pela comunidade local, visitantes e pesquisadores. Esse grupo é subdividido nas seguintes unidades: Área de Proteção Ambiental, Área de Relevante Interesse Ecológico, Floresta Nacional, Reserva Extrativista, Reserva de Fauna, Reserva de Desenvolvimento Sustentável e Reserva Particular do Patrimônio Natural. O objeto de estudo da presente pesquisa é uma Unidade de Uso Sustentável classificada como Área de Relevante Interesse Ecológico, denominada ARIE de Goiamunduba, que é dividida em três porções de mata: Mata da Bica, Boqueirão e Balanço. De acordo com o SNUC, a ARIE pode ser constituída por terras públicas ou privadas, e é definida como

(...) uma área em geral de pequena extensão, com pouca ou nenhuma ocupação humana, com características naturais extraordinárias ou que abriga exemplares raros da biota regional, e tem como objetivo manter os ecossistemas naturais de importância regional ou local e regular o uso admissível dessas áreas, de modo a compatibilizá-lo com os objetivos de conservação da natureza (BRASIL, 2000, Cap.III, art. 16).

A ARIE de Goiamunduba é de extrema importância devido à sua singularidade, pois possui um ecossistema com características extraordinárias e considerável número de espécies raras ou nativas da região. Foi transformada em UC com o objetivo de garantir a proteção e recuperação dos recursos hídricos, e de regular o uso consciente da área, a fim de assegurar o processo de desenvolvimento da localidade.
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O SNUC (BRASIL, 2000, p.1) possui critérios e normas para regulamentação, utilização e conservação dos ecossistemas e busca:

[...] o manejo do uso humano da natureza, compreendendo a preservação, a manutenção, a utilização sustentável, a restauração e recuperação do ambiente natural, para que possa produzir o maior benefício, em bases sustentáveis, às atuais gerações, mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades e aspirações das gerações futuras, e garantindo a sobrevivência dos seres vivos em geral (Brasil, 2000, Cap.I, Art.2°, II).

Entretanto, após a criação da Unidade de Conservação, a elaboração do Plano de Manejo se faz necessária, de maneira a assegurar o cumprimento dos objetivos de conservação, pois este documento se pauta nos objetivos gerais da UC, estabelecendo seu zoneamento, e ainda estabelecendo as normas para a implantação das estruturas físicas necessárias.

3 DIAGNÓSTICO DA ARIE DE GOIAMUNDUBA

A ARIE de Goiamunduba é uma propriedade mista, ou seja, de gestão compartilhada entre a associação de moradores, a Prefeitura de Bananeiras-PB e a SUDEMA (Superintendência de Administração do Meio Ambiente, órgão ambiental do Estado da Paraíba). De acordo com o Diário Oficial do Estado da Paraíba, número 12.226 de 29 de Dezembro de 2002, artigo 5º: “A SUDEMA poderá firmar convênios ou acordos com órgãos e entidades privadas, sem prejuízo da sua competência, para fiscalizar e administrar a ARIE de Goiamunduba”. Situado na Serra da Borborema, região do Brejo paraibano, o município de Bananeiras fica a 130 km da capital João Pessoa e a 70 km de Campina Grande-PB. A ARIE de Goiamunduba está localizada no município de Bananeiras – Paraíba e tem uma extensão total de 67.517,8 hectares, abrangendo três áreas não contíguas: Mata da Bica, Boqueirão e Balanço. A palavra Goiamunduba tem origem indígena e significa goiabas em abundância. A ARIE é de extrema importância devido à sua singularidade, pois possui um ecossistema com características extraordinárias e considerável número de espécies raras ou nativas da região (espécies endêmicas). Considerando que a geomorfologia da ARIE de Goiamunduba, enquanto microrregião do Brejo, possui altitudes de 300 a 400 metros, constitui as escarpas orientais do Planalto da Borborema, principal acidente de relevo do Estado da Paraíba. Possui temperaturas médias anuais entre 23ºC a 28ºC, com índice pluviométrico médio de 1.300 milímetros por ano (CARVALHO, 1982). Na Paraíba, o Planalto da Borborema é um maciço formado por rochas cristalinas (précambrianas),. É o elemento de maior visibilidade, sendo recortado pelos vales de rios e riachos que
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formam importantes bacias hidrográficas, como: do rio Paraíba, rio Curimataú e a bacia do rio Mamanguape, que se encontram na escarpa oriental da Borborema (CARVALHO, 1982). Córregos perenes integram a rede hidrográfica do município, tributária dos rios Mamanguape e Curimataú. Em Goiamunduba são encontrados vários “olhos d’água” permanentes, de boa potabilidade e até água mineral. No centro da Mata da Bica, existe a nascente do riacho da bica que forma a “Lagoa do Encanto” (CARVALHO, 1982). A vegetação original da área de estudo se caracteriza de duas formas: em decorrência da influência do relevo e da altitude. Uma delas caracteriza-se por vegetação acaatingada, na parte mais baixa e de Mata do Brejo (Latifoleada Perenifólia de Altitude). Com o uso intenso pela sociedade no desenvolvimento da monocultura canavieira e bananeira, esta vegetação foi bruscamente degradada, restando apenas pequenas porções de mata, como: Mata da Bica, Boqueirão e Balanço (CARVALHO, 1985). A fauna da região do Brejo paraibano é caracterizada pela presença de pequenos mamíferos, como saguis, morcegos, tatus, roedores, etc. e inúmeras espécies de pássaros e insetos. Constitui uma área de transição entre a mata atlântica e a caatinga, possuindo vegetação variada. É nos pontos mais altos da serra que se encontram os resquícios de mata atlântica. A área possui um grande potencial turístico, visto que se destaca pela diversidade de ecossistemas e harmonia da paisagem, podendo ser explorada pelo segmento ecoturístico através de trilhas e esportes de aventuras. Transformou-se em Unidade de Conservação em 27 de dezembro de 2002, através do Decreto Estadual n° 23.833. O fato de a mata ter sido elevada a UC não significa que ela tenha sido beneficiada com relação a projetos de proteção, conservação e conscientização ambiental da população local e visitantes, pois até o momento não foi executada nenhuma manobra que viesse a beneficiar a localidade. A UC está prestes a completar 10 (dez) anos de criação e, até então, não foi elaborado o plano de manejo para a área. Segundo o Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC – este prazo é de no máximo cinco anos a partir da sua data de criação ( BRASIL, 2000). O plano de manejo permite que se faça planejamento usos adequados da unidade de conservação, delimitando as ações permitidas ali de acordo com os objetivos estabelecidos em sua criação, orientando sua gestão e auxiliando na proteção dos recursos naturais e culturais da área. Além do mais, o plano de manejo deve compreender toda a área da UC, inclusive a zona de amortecimento e os corredores ecológicos (BRASIL, 2000). Há escassez de pesquisas sobre a região, bem como ausência de pesquisas e artigos publicados. Verifica-se ainda que não há previsão de implementação de ações que venham a ser fatores condicionantes para a formação e desenvolvimento de um plano de manejo.

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Em Goiamunduba se fazem necessárias pesquisas científicas para que a atividade turística seja realizada de maneira planejada, acarretando o mínimo impacto para o ecossistema, bem como um maior envolvimento por parte da população com a atividade.

4 IMPACTOS DA ATIVIDADE TURÍSTICA NA ARIE

A área de proteção de Goiamunduba possui grande potencial turístico, visto que nela existe a possibilidade de serem desenvolvidas atividades voltadas para o ecoturismo, segmento que vem se expandindo, por possibilitar o contato direto com a natureza, proporcionando aos seus adeptos momentos de liberdade e contemplação, caracterizando assim, uma fuga dos centros urbanos. Devido aos seus atributos naturais e culturais, a ARIE oferece aos seus visitantes a possibilidade de desenvolver atividades como: trilhas ecológicas, camping, ciclismo, corridas de aventura, dentre outros. A expressão cultural se dá através das lendas contadas pelos moradores que têm como tema principal o respeito e a proteção da mata e a história do povoado. Na UC, o turista tem a possibilidade de conhecer as ruínas da casa do antigo proprietário das terras, a Igreja de Nossa Senhora de Nazaré e a Casa de Farinha, que se encontra em funcionamento, visto que a farinha de mandioca é uma das fontes de renda da comunidade de Goiamunduba. O ecoturismo, como qualquer outro segmento do turismo, traz para a localidade receptora impactos de ordem positiva e negativa. A valorização da cultura local, da população e a conscientização da comunidade quanto à conservação da ARIE são pontos de relevante importância, proporcionados pelo desenvolvimento do turismo. Indo no sentido oposto a esses benefícios, o desenvolvimento da atividade turística na região ainda não insere a comunidade na geração de renda, fator ocasionado pela falta de infraestrutura e de incentivos a projetos que envolvam a população. Como toda atividade, se não for bem planejada, o turismo pode gerar impactos sobre o ambiente, ou seja, gerar uma modificação provocada pela ação do homem ou da natureza, que pode ter caráter positivo ou negativo para o meio ambiente físico ou social. O uso público das Unidades de Conservação acarreta interferência no meio ambiente em decorrência dos novos atores e atividades inseridas no local. Os impactos positivos mais frequentes são: aumento da renda, geração de empregos, educação ambiental para os visitantes e os autóctones, efeito multiplicador, valorização da população local e do atrativo, melhoria da infra-estrutura, criação de instalações turísticas que possam ser utilizadas pela população local, dentre outros. Porém, esses impactos só tendem a acontecer quando é feito planejamento turístico adequado nos destinos, o que não acontece na ARIE estudada.
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Embora o turismo tenha o potencial para atrair inúmeros benefícios para a comunidade anfitriã, o exercício mal planejado da atividade pode trazer danos à localidade e aos seus residentes, tais como: degradação do meio ambiente, desenvolvimento econômico desequilibrado, sazonalidade, problemas sociais (aumento da criminalidade e da prostituição), causar conflitos com a comunidade receptora, especulação imobiliária, etc. Só um planejamento responsável e bem executado é capaz de minimizar impactos negativos, maximizando impactos positivos.

CONCLUSÕES

É de conhecimento comum a importância do planejamento para o desenvolvimento turístico em áreas naturais, tendo em vista que esses ecossistemas são frágeis e as alterações ocasionadas por um turismo predatório podem acarretar em danos graves ao meio ambiente e às populações que dele sobrevivem. Com o estudo da ARIE, percebeu-se que Goiamunduba possui um potencial turístico que poderia trazer grandes benefícios à comunidade local, desde que fosse explorada através de um planejamento adequado, guiado pelos ideais da sustentabilidade. Faz-se necessária uma maior atenção dos órgãos competentes, que têm se feito presentes só no ato de instituir as unidades de conservação do Estado, tendo falhado em garantir que estas unidades cumpram o seu papel na preservação dos ecossistemas que envolvem. A falta de estudos científicos sobre a área dificulta a formulação de projetos que resultem na conservação da área e melhoria da qualidade de vida dos habitantes da região, caracterizando assim o desinteresse por parte das autoridades responsáveis. É detectada uma grande carência de projetos de capacitação e inserção da população local na atividade turística. Destaca-se ainda que a elaboração do plano de manejo auxilia as atividades executadas na unidade de conservação, sendo então indispensável e imprescindível, visto promover sua integração à vida econômica e social das comunidades do entorno da unidade e o mesmo ainda não existir na ARIE de Goiamunduba.

REFERÊNCIAS BOULLÓN, Roberto C. Planejamento do espaço turístico. Bauru-SP: EDUSC, 2002. BRASIL. EMBRATUR - INSTITUTO BRASILEIRO DE TURISMO. Programas Institucionais, ecoturismo. Disponível em http://www.embratur.gov.br, 2001.

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BRASIL. EMBRATUR e IBAMA. Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo. Brasília: Embratur, 1994. BRASIL. Lei N°9.985, de18 de julho de 2000. Regulamenta o art.225, §1º, incisos I, II, III e VII da Constituição Federal e institui o SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e dá outras providências. CARVALHO, F.A.F; CARVALHO, M.G.F. Vegetação.In: GOVERNO DA PARAÍBA. Atlas Geográfico do Estado da Paraíba. João Pessoa: Grasfset, 1985. CARVALHO, M.G. R. F. Estado da Paraíba; Classificação Geomorfológica. João Pessoa: Universitária/UFPB, 1982. MOLINA, Sergio; RODRIGUEZ, Sergio. Planejamento Integral do Turismo: um enfoque para América Latina. Bauru, SP: EDUSC, 2001. SIMÕES, Luciana Lopes. Unidades de Conservação: Conservando a vida, os bens e os serviços ambientais. São Paulo: WWFBrasil, 2008. Disponível em: <

http://www.cartilhasecia.com.br/educacao-ambiental/unidades-de-conservacao-conservando-a-vidaos-bens-e-os-servicos-ambientais >. Acesso em 02 de abril de 2012. SUDEMA-PB (Superintendência de Administração do Meio Ambiente). Decreto n°23.833/2002 de 27 de dezembro de 2002. Diário Oficial do Estado da Paraíba. João Pessoa, 29 de dezembro de 2002.

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PLANEJAMENTO TERRITORIAL E TURISMO RURAL DE BASE COMUNITÁRIA NO ENTORNO DO PARQUE ESTADUAL DO IBITIPOCA

Altair SANCHO Professor do Dep. Geografia/Curso de Turismo da UFMG - altairsancho@hotmail.com Camila Tamires Moutinho de CASTRO Graduanda em Turismo pela UFMG – camilatmcastro@gmail.com Fabiana A. Bernardes ALMEIDA Professora do Dep. Geografia/Curo de Turismo da UFMG - fabianabernardes@hotmail.com Letícia M. Badaró de CARVALHO Graduada em Turismo pela UFMG - leticiambadaro@yahoo.com.br

RESUMO O projeto de pesquisa “Áreas Protegidas, Desenvolvimento Rural e Turismo: estudo sócioambiental em comunidades do entorno do Parque Estadual do Ibitipoca (PEIB)”
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envolveu a

realização de um estudo sócio-ambiental nas comunidades rurais do entorno do PEIB (MG), com o intuito de identificar alternativas capazes de possibilitar a inclusão social-econômica dos produtores através do fomento ao turismo rural de base comunitária. A metodologia desta etapa do projeto contou com a pesquisa bibliográfica e documental; análise dos Diagnósticos Rápidos Participativos das comunidades realizados pela Emater e IEF em parceria com a EMBRAPA Gado de Leite, e observação de campo com aplicação de entrevistas semi-estruturadas, de maneira a compreender a realidade investigada. Os estudos do contexto do PEIB evidenciaram que as comunidades do entorno enfrentam diversas dificuldades, dentre elas, as oriundas da carência de infra-estrutura e do enfraquecimento da atividade pecuária leiteira, que aliada às restrições de uso do solo impostas pelas legislações ambientais no entorno do PEIB têm levado grande parte dos produtores rurais a uma situação de fragilidade econômica e social. A pesquisa identificou distintas potencialidades nas propriedades rurais do entorno, dentre elas: a presença de atrativos naturais relevantes, a confecção e venda de artesanatos típicos, a presença de serviços de alimentação e hospedagem, festas e

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Este projeto é parte integrante do projeto interinstitucional “Conhecimentos e saberes locais: inserção social e econômica de produtores de leite de base familiar e quilombolas em ambiente sustentável”, que tem como coordenação a pesquisadora Maria Fátima Ávila Pires, da Embrapa Gado de Leite – Juiz de Fora, em parceria com o CEPLANTUR Centro de Pesquisa-Ação em Planejamento Turístico do Instituto de Geociências da UFMG. A pesquisa pelo CEPLANTUR teve como coordenadores os professores do curso de Turismo da UFMG: Fabiana A. Bernardes Almeida e Altair Sancho.

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manifestações religiosas. Foram apontados aspectos centrais que devem constituir alvo de um processo participativo de planejamento do território do entorno parque, voltado para a melhoria das condições de vida do homem do campo e à estruturação do turismo. Os aspectos identificados na região se fazem relevantes para justificar a elaboração de projetos para o desenvolvimento do turismo rural comunitário. PALAVRAS-CHAVE: Planejamento territorial; Turismo Rural de Base Comunitária; Parque Estadual do Ibitipoca; Unidade de Conservação.

INTRODUÇÃO E FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Atualmente, a sociedade presencia vários problemas ambientais que vêm impulsionando uma série de debates acerca da necessidade de proteção da natureza em todo mundo, ao discutir estratégias capazes de minimizar os efeitos das atividades humanas sobre a base de recursos naturais renováveis. Nesse contexto, dentre as ações de proteção da natureza e de conservação da biodiversidade globalmente reconhecidas, uma das mais importantes estratégias tem sido o estabelecimento de áreas naturais protegidas. Todavia, a implantação dessas unidades nem sempre é feita de forma harmoniosa, principalmente as unidades de conservação criadas com base na lógica da proteção integral, como os parques, que não permitem a moradia de populações em seu interior, tornando-se lócus preferencial de tensões e conflitos. Nessa perspectiva, é importante que os parques não sejam considerados como “ilha de conservação” (DIEGUES, 2004), uma vez que as atividades exercidas nas áreas de seu entorno influenciam direta ou indiretamente a conservação ambiental e o equilíbrio ecológico de seus territórios. Nessa lógica, cumpre mencionar a importância em se considerar as comunidades18 que residem no entorno dessas áreas protegidas em iniciativas de gestão e planejamento, uma vez que a biodiversidade natural está estritamente relacionada à biodiversidade cultural. No entorno de unidades de conservação, frequentemente, habitam grupos sociais diversos, como populações tradicionais, latifundiários, populações ribeirinhas, agricultores familiares, entre outros. No caso específico de comunidades de agricultores familiares, foco deste estudo, verifica-se inúmeras dificuldades de sobrevivência e manutenção no campo, em virtude de vulnerabilidades às oscilações de mercado, alterações climáticas, ausência ou pequeno alcance de políticas rurais e infra-estruturas insuficientes (BUAINAIN, 2005). Tal contexto, muitas vezes, é intensificado pela
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O sentido de comunidade neste trabalho se refere a um lócus territorial específico, uma coletividade de atores que partilham uma área territorial, um modelo de grupo coeso, em que os membros estão ligados por relações de confiança e pertencimento (CLAVAL, 1999).

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criação de unidades de conservação integral, que impõem restrições ao manejo da terra, ao mesmo tempo em que consideram tais comunidades do entorno como potenciais causadores de danos ao meio ambiente. Diante desse impasse, verifica-se a necessidade de se pensar em novas formas de inovação da funcionalidade do campo, de subsídio ao ordenamento territorial e novas maneiras de se pensar a natureza, não em termos de restrição ao desenvolvimento, mas como meio de agregação de valores às alternativas econômicas locais. Nessa perspectiva, as premissas para um turismo de base comunitária (IRVING, 2009), aliado a lógica sustentável, apresentam-se como uma referência para se pensar a intervenção territorial no entorno de parques. O turismo de base comunitária, pensado de forma planejada, pode ser compreendido como fenômeno capaz de agregar valor à agricultura familiar, atividade econômica central das comunidades de agricultores consideradas nesta pesquisa, e interferir positivamente nas dimensões ambiental, econômica, social e cultural que compõem o território. A partir da investigação da realidade social, econômica e física na qual estão inseridos os agricultores familiares do entorno do Parque Estadual de Ibitipoca (PEIB19) o trabalho em questão vem propor direcionamentos para o ordenamento do território limítrofe dessas áreas protegidas, compreendendo o turismo como uma possibilidade para a troca cultural, o fortalecimento das aptidões locais e a diversificação da economia no meio rural. Os apontamentos deste plano sugerem a introdução de práticas que complementem aquelas tradicionalmente empreendidas pelos agricultores familiares que têm na pecuária leiteira sua principal atividade produtiva, com vistas a fomentar as potencialidades do território que abrange tais comunidades rurais. O desenvolvimento rural local sustentável é pensado conforme a vertente da multifuncionalidade, apresentada por autores como Alentejano (2000), como finalidade deste plano de ordenamento territorial e, para tanto, postula-se algumas diretrizes gerais. A diversificação econômica, através de alternativas produtivas (pluriatividade) menos nocivas à natureza, podem fomentar a continuidade de modos de vida rurais e, ainda, favorecer a inclusão dos agricultores em novos arranjos produtivos locais, gerando renda e maior qualidade para a vida no campo. A educação ambiental20 tem função relevante como meio para a utilização racional e produtiva dos recursos naturais, minimizando os impactos nocivos da agropecuária ao meio ambiente.

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ALMEIDA, Fabiana A. B; SAADI, Allaoua; SANCHO, Altair; SILVA, Gilzilene J.; AMARAL, Fernanda M. Conhecimentos e saberes locais: inserção social e econômica de produtores de leite de base familiar e quilombolas em ambiente sustentável, 2009 20 Educação ambiental, segundo a Política Nacional de Educação Ambiental: “são os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.” (Art. 1o da Lei no 9.795 de abril de 1999).)

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O princípio da participação social (DEMO, 2009) também está entre as diretrizes que permeiam este trabalho, incluída na concepção do turismo de base comunitária e no planejamento participativo, como metodologias que posicionam as comunidades na centralidade dos processos decisórios e no controle das atividades produtivas locais. Além disso, elas estimulam o envolvimento de diferentes representatividades sociais num debate crítico sobre as possibilidades e caminhos de desenvolvimento do turismo e, sobretudo, de reestruturação das condições de vida e produção no meio rural. Os objetivos almejados com estas proposições sugerem caminhos iniciais para a necessária transformação socioespacial que venha a convergir em uma proposta de desenvolvimento diferenciada em relação ao paradigma convencional. Contudo, esclarece-se que estes são apontamentos que devem constituir-se como marcos iniciais para um trabalho executivo ainda mais abrangente e minucioso, amparado pelo planejamento territorial. Nesse sentido, pensar o planejamento territorial regional implica traçar um projeto de médio e longo prazo que tenha como meta a coesão social, mediante a redução das desigualdades regionais e sociais, melhor ordenamento do território e visão de estratégia geopolítica que inclua na articulação a integração físico-territorial, integração econômica; integração social e integração política21. O planejamento territorial amparado, bem delineado e de gestão, de fato, participativa e democrática, garantindo direitos e deveres muitas vezes relegados aos agricultores familiares que vivem no meio rural e, especialmente, em zonas de amortecimento de unidades de conservação. Desta maneira, os territórios contemplados pela presente pesquisa22 compreendem, o entorno do Parque Estadual do Ibitipoca (PEIB), localizado na Zona da Mata do estado de Minas Gerais, especificamente na comunidade de Várzea de Santo Antônio – município de Bias Fortes, comunidade de Mogol – município de Lima Duarte, a comunidade de Moreiras e o distrito de Bom Jesus do Vermelho - município de Santa Rita do Ibitipoca. A elaboração dos mapas temáticos sobre hidrografia, relevo, uso e ocupação do solo subsidiaram a identificação das singularidades das paisagens que compreendem a área de estudo, bem como permitiram a interpretação dessa realidade. O mapeamento realizado identificou ainda os atrativos naturais e histórico-culturais, reforçando a existência de potencial turístico no entorno do parque.

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Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Estudo da Dimensão Territorial para o Planejamento: Volume III Regiões de Referência. Secretaria de Planejamento e Investimentos Estratégicos. Brasília: MP, 2008. 22 A área de estudo foi selecionada com base nos resultados da primeira etapa do macro-projeto “Conhecimentos e saberes locais: inserção social e econômica de produtores de leite de base familiar e quilombolas em ambiente sustentável”, sob responsabilidade do CEPLANTUR/UFMG. O trabalho desenvolvido compreende ações de sistematização e proposição de alternativas não-agropecuárias ecologicamente sustentáveis para agricultores familiares residentes no entorno do PEIB.

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1 RESULTADOS ALCANÇADOS E DISCUSSÃO

Os estudos do contexto do PEIB evidenciaram que as comunidades de Mogol e Moreiras, em especial, enfrentam diversas dificuldades, oriundas das péssimas condições das estradas e vias de acesso, ausência de energia elétrica em muitas das propriedades, pouco engajamento de seus moradores em associações comunitárias, falta de diálogo e proximidade com a gestão do PEIB, baixo preço do leite, forte especulação imobiliária e dificuldades de acesso a insumos agrícolas e apoio técnico, bem como a serviços públicos como saúde e educação de qualidade. A comunidade de Mogol, em particular, vem sofrendo grande impacto em relação à expansão da área protegida por agentes privados. Isto tem ocorrido à custa da venda da terra pelos moradores antigos da comunidade, ocasionando um esvaziamento da mesma. Em virtude desse cenário, faz-se necessário direcionar ações voltadas à minimização dessa situação de exclusão social. O estímulo à diversificação das atividades econômicas também constitui aspecto central para a inserção destas comunidades rurais em ambiente sustentável, oferecendo condições para a reprodução da vida nos próprios territórios de origem. A pesquisa identificou diversas potencialidades nas propriedades do entorno do PEIB, entre as quais: visitação de atrativos naturais, venda de produtos fabricados na própria propriedade (cachaça, ervas medicinais, doces, biscoitos, colchas e demais artesanatos), serviços de alimentação e hospedagem, participação em festas e manifestações religiosas, entre outros. Estes aspectos identificados na região e nas propriedades rurais analisadas se fazem relevantes para justificar a elaboração de projetos para o desenvolvimento do turismo rural, numa perspectiva de sustentabilidade. Através dos levantamentos realizados, verificou-se ainda que alguns produtores têm interesse em investir na área de turismo, seja através de hospedagem familiar, serviços de alimentação ou guiamento. A essa realidade constatada, e dentro do que vem afirmando alguns autores (LOUSADA, 2007; ELESBÃO, 2008), o turismo pode constituir uma alternativa econômica e social em muitos espaços rurais, como complemento das atividades exercidas nesse espaço. Neste cenário, foi possível verificar a necessidade de investimentos prioritários em infraestrutura básica, com o intuito de fomentar condições para o incremento das atividades agropecuárias vigentes, incentivarem a permanência do homem no campo e oferecer condições de incluir atividades complementares aos agricultores familiares interessados. A partir desses investimentos, iniciativas voltadas à sensibilização e educação da população para sua transformação e desenvolvimento (que inclui o turismo), sustentadas nos aspectos culturais, ambientais e na paisagem regional, tornam-se viáveis.
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As propostas apresentadas a seguir são orientações subsidiadas pelas análises realizadas durante o processo de construção da pesquisa. É importante salientar a manutenção e intensificação de novas pesquisas, subsidiadas a partir do estabelecimento de parcerias e convênios com universidades e instituições de pesquisa. As propostas de ação foram sistematizadas seguindo a ordem cronológica. Deste modo, sugere-se que os programas, apresentados a seguir, sejam implementados seguindo as etapas aqui apresentadas, priorizando assim as melhorias da infra-estrutura, as ações de educação ambiental e, por fim, a efetivação do turismo a partir da base rural comunitária. O período de execução dos programas e projetos propostos abrange três possibilidades: curto prazo – até 2 anos; médio prazo – 3 a 5 anos; longo prazo – mais de 5 anos.

2 PROGRAMA DE INFRA ESTRUTURA

O território que compreende o entorno do PEIB apresenta severos problemas de infraestrutura, relacionados às precárias condições, principalmente, das estradas que ligam as sedes distritais aos bairros rurais, de saneamento básico e de coleta de lixo na grande parte das comunidades analisadas. Algumas propriedades sequer são assistidas por luz elétrica, apesar das melhorias empreendidas recentemente pelo programa Luz Para Todos do Governo Federal, sobretudo no município de Bias Fortes. Esta realidade afeta sobremaneira a qualidade de vida da população, que vem enfrentando dificuldades cada vez maiores para sustentarem a produção leiteira. Atividade muito tradicional entre estas famílias rurais, a pecuária do leite é a base cultural desses agricultores que a mantêm historicamente através das gerações. Vulneráveis e sem expectativas em relação à maior lucratividade do leite, alguns agricultores familiares da região do Ibitipoca também se mostram resistentes à inserção de atividades complementares que podem reaquecer a economia local e proporcionar melhores condições de vida a sua família23. Isto pode ser compreendido a partir do contexto histórico apresentado acima, em que se demonstra o caráter tradicional e peculiar do processo de apropriação do espaço pelos camponeses em busca de sobrevivência, tendo em vista o descaso das políticas públicas rurais. Nesse sentido, é fundamental que o processo de planejamento respeite as vontades dos agricultores, inclusive, em relação ao direcionamento dos investimentos. O programa apresenta projetos que visam favorecer o desenvolvimento do território, tendo em vista a necessidade da existência de condições de circulação e equipamentos básicos para fortalecer as atividades agrícolas existentes e oferecer melhores condições para inclusão de
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AMARAL, Fernanda. Estudo do contexto sócio-ambiental de agricultores familiares para o desenvolvimento do turismo: entorno do Parque Estadual do Ibitipoca – MG, 2009.

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atividades complementares aos agricultores familiares interessados, a exemplo da atividade turística. Apresentado em ordem de prioridade, os projetos se configuram como etapas da execução do programa que têm um prazo médio para sua implementação, especialmente considerando a tramitação dos processos nos órgãos públicos que os executam. No entanto, de caráter emergencial, este programa deve estar entre as primeiras pautas da agenda dos encarregados pelo seu andamento. O objetivo do Programa consiste em adequar as condições de acesso e de infra-estrutura básica dos territórios do entorno do Parque Estadual do Ibitipoca para dar subsídios ao fortalecimento das economias locais - tradicionais e alternativas, proporcionar qualidade de vida às famílias de agricultores e promover o desenvolvimento rural local sustentável. Para seu alcance foram propostos os seguintes projetos por etapas: 1ª Etapa – Calçamento das estradas; 2ª Etapa – Instalação de fossas sépticas; 3ª Etapa – Coleta de lixo seco e, por último, 4ª Etapa – Sinalização educativa e turística.

3 PROGRAMA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

O entorno do Parque Estadual do Ibitipoca é marcado em muitos pontos por paisagens que denunciam o intenso processo de degradação ambiental. Este fato contrasta, a princípio, a presença de quase 40 anos desta unidade de conservação na região. Nos dias atuais, existem pontos de “arenização” (os areais são resultados do processo de manejo inadequado da terra, com práticas de queima para limpeza dos pastos e o aumento do desmatamento24. que vêm avançando sobre as áreas de pastagens e de florestas, em decorrência das características do solo e do manejo inadequado para a pecuária, como o uso do fogo para a limpeza de pastos, e o aumento do desmatamento. Os “areais”, como são chamados localmente, indicam a fragilidade do solo e o risco de desmoronamentos e são mais intensos na divisa dos municípios de Bias Fortes e Santa Rita do Ibitipoca, e no povoado de Mogol, em Lima Duarte 25. Nestes locais, as dunas de areias se destacam na paisagem e se configuram como atrativos turísticos. No entanto, turistas, autóctones e também muitas autoridades, desconhecem ou ignoram o significado e as implicações da presença de “areais” na paisagem. Visando mais que informação, mas a conscientização acerca desses processos e a mudanças quanto ao uso e ocupação do solo, a educação ambiental será o tema abordado neste programa. Para atingir tal nível de conscientização tanto de habitantes locais como de turistas, também os aspectos culturais da região devem ser salientados e a interpretação ambiental empregada como
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AMARAL, Fernanda. Estudo do contexto sócio-ambiental de agricultores familiares para o desenvolvimento do turismo: entorno do Parque Estadual do Ibitipoca – MG, 2009. 25 AMARAL, Fernanda. Estudo do contexto sócio-ambiental de agricultores familiares para o desenvolvimento do turismo: entorno do Parque Estadual do Ibitipoca – MG, 2009.

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uma importante ferramenta para dar significação à paisagem. A partir da interpretação da paisagem, observam-se as interferências antrópicas ocorridas ao longo dos tempos, como a lavoura, e hoje intensa presença da pecuária; mas também se compreende a relação dos produtores com o meio em que vivem e como se utilizam dos recursos presentes no mesmo. O uso da terra é condição necessária a sua sobrevivência, apesar das normas ambientais decorrentes da proximidade com o parque ainda não terem incorporado este importante fator em suas concepções. A sensibilização dos atores locais e da população é imprescindível a transformação da paisagem que se torna possível a partir do estímulo e introdução de novas práticas e usos do espaço rural. Sendo assim, o programa de Educação Ambiental, composto de projetos que sinalizam as etapas de sua execução, exige esforços conjuntos de diversos órgãos municipais e instâncias regionais, bem como sua articulação com os demais programas e projetos deste planejamento do entorno do PEIB. Sem a devida integração de ações, os objetivos traçados não são passíveis de serem alcançados. Neste caso, o objetivo consiste em apresentar a relevância a esta e outras questões relacionadas ao território do entorno do Parque Estadual do Ibitipoca, de forma reflexiva, e buscar transformações conscientes e consentidas nos hábitos humanos nocivos ao meio ambiente. Considera-se que a Educação Ambiental é fundamental para estabelecer rearranjos sociais e produtivos no espaço. Os projetos delineados seguem as seguintes etapas: 1ª Etapa – Inovação no manejo de pastagens agropecuárias; 2ª Etapa – Energias limpas; 3ª Etapa – Compostagem de lixo orgânico doméstico; 4ª Etapa – Reciclagem e artesanato e, finalmente, 5ª Etapa – Monitoramento de impactos e Planejamento de Trilhas interpretativas.

4 PROGRAMA DE TURISMO RURAL DE BASE COMUNITÁRIA

A condição da atividade de pecuária leiteira aliada às restrições de uso do solo impostas pelas legislações ambientais no entorno do PEIB têm levado grande parte dos produtores rurais habitantes dessas áreas a uma situação de fragilidade econômica e social. Os baixos preços pagos pelo leite e a falta de organização dos produtores; a restrição de áreas de cultivo e pastagem, decorrentes de fiscalizações ambientais rigorosas; a especulação fundiária e imobiliária, decorrente da valorização dos terrenos no entorno dos parques; e a intensificação do fluxo turístico regional em função da proximidade a unidades de conservação demonstram as implicações socioambientais da criação deste parque
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Diegues (2002 apud CORIOLANO, 2009) explica que diferentemente dos

AMARAL, Fernanda. Estudo do contexto sócio-ambiental de agricultores familiares para o desenvolvimento do

turismo: entorno do Parque Estadual do Ibitipoca – MG, 2009.

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espaços urbano-industriais, os territórios das sociedades tradicionais são descontínuos e marcados por aparentes vazios, o que têm levado a utilização dessas áreas como unidades de conservação, a maioria delas de forte apelo turístico, já que “não são usados por ninguém”. Estas delimitações arbitrárias de reservas ambientais resumem grande parte dos conflitos entre as sociedades tradicionais ou marginais e entidades conservacionistas, como no caso da região do Ibitipoca. De acordo com Coriolano (2009), o turismo comunitário ou de base comunitária surge da demanda de comunidades tradicionais por organizar, de forma associativa, os arranjos produtivos comunitários, possuindo o controle efetivo das terras e atividades econômicas associadas à exploração do turismo. Em decorrência disso, nesta modalidade há maior interação do turista com o lugar e com as famílias residentes, favorecendo a troca de experiências, o fortalecimento dos laços de amizade e a valorização cultural. A partir do engajamento nas questões relativas ao seu território, participando desde a concepção até a gestão integrada dos arranjos produtivos, as populações se tornam mais aptas ao enfrentamento dos problemas. Em geral, essas comunidades conseguem assim melhorar suas economias, gerar mais oportunidades para o lugar e garantir condições mais dignas de vida para as famílias residentes (CORIOLANO, 2009, p.22).

Nestes termos, reconhece-se o turismo rural de base comunitária em propriedades de agricultura familiar como uma alternativa para a diversificação econômica e também um instrumento para a valorização da ruralidade e expressões culturais oriundas do campo. Além disso, esta modalidade tem condições de ocorrer de forma complementar ao ecoturismo regional.

O perfil ecoturista de grande parte dos visitantes dos parques, a presença de atrativos naturais e culturais que se apóiam nas tradições rurais dos agricultores, a existência de quartos desocupados em várias propriedades visitadas e, principalmente, o interesse demonstrado por alguns produtores em incrementar sua renda com o turismo são fatores que favorecem a viabilidade do turismo rural na agricultura familiar. Assim, propõe-se um programa de turismo rural de base comunitária com propostas que visam melhorar as condições de vida do homem do campo que habita o entorno do parque supracitado. O Programa de Turismo Rural de Base Comunitária é composto de projetos que constituem as etapas de sua implementação, devendo seguir a ordem estabelecida e a continuidade dos projetos e ações. Isso é importante para que as bases de sustentação do turismo na região sejam bem fundamentadas, e possibilitem aos proprietários rurais investirem de modo seguro e responsável na atividade. Algumas ações podem acontecer concomitantemente, como a primeira, segunda e terceira etapas (ver parágrafo abaixo).
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O objetivo almejado é a implantação de atividades turísticas de base comunitária por agricultores familiares, integrada aos modos de vida locais, de modo a melhorar as condições de vida no entorno do PEIB. As seguintes etapas foram propostas: 1ª Etapa – Fortalecimento da identidade cultural rural; 2ª Etapa – Formação e ou fortalecimento de associações e cooperativas; 3ª Etapa – Sensibilização para o turismo rural de base comunitária; 4ª Etapa – Avaliação e cadastramento das propriedades rurais; 5ª Etapa – Capacitação, formação e qualificação; 6ª Etapa – Adequação estrutural das propriedades rurais; 7ª Etapa – Formatação dos produtos turísticos rurais e, por último, 8ª Etapa – Divulgação e comercialização.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realidade socioambiental dos agricultores familiares do entorno do Parque Estadual do Ibitipoca evidenciou a necessidade de se empreender ações de planejamento com enfoque territorial, a partir de uma perspectiva que privilegie um desenvolvimento diferenciado e estruturante do turismo na região. O plano de organização e estruturação territorial de atividades não-agropecuárias, aqui proposto, apenas tornará uma realidade se contar com o interesse e a participação das comunidades do entorno. Não pretendemos esgotar neste trabalho as pesquisas no entorno deste parque, afinal a execução dos projetos almejados aqui dependem de mais pesquisas e da elaboração de um plano de trabalho com cronograma de execução e financiamento. Torna-se claro neste estudo que o entorno dos parques criados em todo Brasil merecem especial atenção dos órgãos de pesquisa e das políticas publicas, pois os agricultores familiares que hoje permanecem em seus lugares, assim o fazem com muita dificuldade, como um ato mesmo de resistência cultural e vínculo simbólico ao espaço de vida. Ainda assim, apesar das precárias condições de reprodução da família, guardam através dos modos de vida tradicionais preciosos registros da história de sua região.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENTEJANO, P. R. Novas e Velhas Questões na Análise do Espaço Agrário Brasileiro. ENGA, 2000. 17 p. CLAVAL, P. A geografia cultural: o estado da arte. In: CORRÊA, R.L. et al. (org.). Manifestações da Cultura no Espaço. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999 CORIOLANO, Luiza Neide Menezes Teixeira; LIMA, Luiz Cruz; Seminário Internacional de Turismo Sustentável. Turismo e desenvolvimento social sustentável. Fortaleza: EDUECE, 2003
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BUAINAIN, Antônio M; SOUZA FILHO, Hildo Meirelles de; Instituto Interamericano de Cooperaçao para a Agricultura. Agricultura familiar, agroecologia e desenvolvimento

sustentável: questões para debate. Brasília: Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura, 2006. DEMO, P. Participação é conquista: noções de política social participativa. São Paulo, Cortez, 1985, 6a ed. 2009. DIEGUES, A. C. S. O mito moderno da natureza intocada. Hucutec, Núcleo de Apoio a Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas do Brasil, USP. SP. 2004. ELESBÃO, I. Os efeitos do turismo no espaço rural: um olhar sobre um pequeno município brasileiro. Universidade de Cruz Alta, Cruz Alta, RS, Brasil. 2008. IRVING, Marta. Reinventando a reflexão sobre turismo de base comunitária. In: BARTHOLO, R; SANSOLO, D. G; & BURSZTYN, Ivan (Orgs.). Turismo de base comunitária: diversidade de olhares e experiências brasileiras. Rio de Janeiro. Letra e Imagem, 2009. LOUSADA, M. Geografia do turismo rural no estado de Minas Gerais: ecos contraditórios de um segmento turístico dito em expansão. Dissertação, programa de pós-graduação UFMG. Belo Horizonte, MG. 2007. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Estudo da Dimensão Territorial para o Planejamento: Volume III - Regiões de Referência . Secretaria de Planejamento e Investimentos Estratégicos. Brasília: MP, 2008.

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TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA, AÇÃO ECOMUSEOLOGIA E EMPREENDIMENTOS SOLIDÁRIOS E “CRIATIVOS”: UM DIAGNÓSTICO DAS INICIATIVAS “PÓSDESENVOLVIMENTISTAS” NO BAIRRO DE SANTA CRUZ E ADJACÊNCIAS (RJ)

Diogo da Silva CARDOSO Doutorando em Geografia diogo_georeg@yahoo.com.br

RESUMO

O texto objetiva destacar os projetos e iniciativas políticas, culturais e econômicas que vem brotando nos últimos dez-vinte anos na região histórica e cultural de Santa Cruz (RJ), cujo aspecto dela indica que alternativas pós-desenvolvimentistas vêm sendo pensadas e praticadas pelos atores locais, tendo em vista um desenvolvimento comunitário mais justo e empoderador. Essa região foi, desde meados do século passado, negligenciada pelo Poder público e a iniciativa privada, e o resultado e um quadro de periferização e precarização da população local e do seu patrimônio cultural. Entretanto, Santa Cruz foi recentemente incluída no processo de especulação imobiliária tendo em vista os megaeventos esportivos e culturais que aconteceram nos próximos anos (Jornada da Juventude 2013, Olimpíadas, Copa do Mundo), e também vislumbram a possibilidade de aumentar a sua fatia na distribuição de equipamentos e receitas advindas desses investimentos de grosso calibre. Diante deste denso cenário geográfico de disputas econômicas e simbólicas, atores locais das regiões de Santa Cruz e Guaratiba (Zona Oeste) têm lançado outras ações como contraponto ao projeto conservador de transformação da cidade do Rio de Janeiro num palco de puro espetáculo e entretenimento, especulação imobiliária e geração de novos territórios exclusivistas, que obstrui a concepção original da cidade como espaço de exercício da política (polis) e de garantia da vida pública plena. Veremos em que medida os projetos e iniciativas pautados na economia solidária e comércio justo, no fortalecimento da identidade cultural territorial e na conservação do patrimônio histórico-cultural e ambiental urbano, oferecem soluções pósdesenvolvimentistas para a construção do cotidiano dos bairros, que trazem um contraponto às soluções dadas pelos gestores públicos, técnicos e o empresariado dominante. E o turismo de base comunitária pode ser o sistema que fará com que este ciclo de tradições e inovações aumente o seu estado de potencialidade e prossiga na construção de pontes entre a periferia da Zona Oeste e a cidade do Rio de Janeiro como um todo, garantido o desenvolvimento cultural, a geração de emprego e a inserção da região em outros contextos.
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PALAVRAS-CHAVE: Santa Cruz, turismo de base comunitária, ecomuseu, economia solidária, pós-desenvolvimento.

INTRODUÇÃO

O texto parte de um diagnóstico geográfico e reflexivo das possibilidades de turistificação do bairro histórico de Santa Cruz e das localidades adjacentes que, juntas, formam uma região econômico-cultural de grande relevância para o município do Rio de Janeiro. Para este contexto, a despeito do rico patrimônio histórico-cultural e ambiental apresentado por essas localidades, privilegiar-se-á o turismo de base comunitária, pois se faz urgente pensar políticas públicas culturais para os diversos e conflituosos sub-bairros e favelas ali existentes. E o turismo de base comunitária, aliado ao turismo histórico e a outros projetos culturais já em andamento, é uma das soluções para um desenvolvimento “regional” que vise a sustentabilidade cultural e econômica das comunidades locais. A necessidade de intercâmbio sociocultural e de inclusão socioprodutiva é uma reivindicação antiga dessas comunidades, elaborada por técnicos, universitários e moradores locais. Porém, dado o processo socioeconômico analisado abaixo, as demandas foram reprimidas ou colocadas em segundo plano pelo Poder público e a iniciativa privada. Seguindo adiante, o bairro de Santa Cruz as localidades vizinhas foram duramente açoitadas pelo desenvolvimento capitalista desigual da cidade do Rio de Janeiro. E quando falo em desenvolvimento desigual uso no sentido de Smith (1990) de um fenômeno de consolidação de núcleos receptores de investimentos capitalistas e de imensas áreas excluídas ou precariamente inseridas no processo dominante. Consequentemente, a região de Santa Cruz foi estabelecida como espaço de territorialização dos processos sórdidos, periféricos e economicamente não-rentáveis que estão na outra ponta do “progresso” socioeconômico experimentado seletivamente em alguns territórios da cidade. Só para ficar em um exemplo, favelas inteiras foram removidas em meados do século passado e transplantadas para os bairros da Zona Oeste. Então, assim como Vila Kennedy, Cidade de Deus e Sepetiba, Santa Cruz foi um dos bairros escolhidos como rota de fuga das populações pobres expulsas das áreas de classe média e alta. Mas deixando de lado a resignação e o criticismo trivial, os ventos de mudança socioeconômica que sopram em toda a cidade do Rio de Janeiro apontam, com igual teor, para mudanças culturais substanciais nos espaços periféricos, englobando tanto a “nova classe média” como as camadas pobres e as políticas desenvolvidas pelo Poder público e por ONG’s, OSCIP’s, empresas, associações e outros.
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Com a recente política de pacificação das favelas da cidade (UPP)27, problemas foram solucionados nesses territórios, mas em outros lugares a violência e a degradação social não só foi ampliada como criou novos eixos de ação seletiva por parte dos órgãos públicos e das iniciativas privadas. Basta estabelecer uma comparação entre o quantitativo de ONG’s e OSCIP’s realizando projetos sociais e culturais nos territórios pacificados e nas áreas periféricas excluídas/desassistidas. Mas há outro e atualíssimo processo em curso em Santa Cruz e que promete reverter algumas questões e enraizar outros processos socioeconômicos na região: os investimentos econômicos e em infraestrutura para os megaeventos esportivos e culturais (Jornada da Juventude 2013, Copa do Mundo e Olimpíadas). Numa perspectiva materialista, significa que novas relações insurgiram tendo em vistas os novos fluxos e contatos possibilitados pela nova rede de transportes.

Imagem 1: Obras de implantação do corredor exclusivo de transporte (BRT) em Santa Cruz e Guaratiba para atender os megaeventos esportivos e os moradores locais. Fonte: <http://extra.globo.com/noticias/rio/transoeste-um-corredor-exclusivo-para-onibus-nem-tao-expresso-assim4920713.html> Acessado em: 17 mai. 2012.

Com a midiatização do Rio de Janeiro devido aos megaeventos pelos próximos quatro anos, e o investimento maciço da parceria público-privado em várias frentes de desenvolvimento (habitação, infraestrutura, transportes, equipamentos culturais e esportivos, turismo de massa, novas indústrias, políticas de redução da pobreza excessiva), a cidade está se defrontando com o debate acerca da integração dos espaços da cidade para que não lhe sobrevenha os mesmos erros e retrocessos já constatados na política urbana brasileira. Principalmente no que diz respeito à degradação ambiental e do patrimônio cultural, da perda da memória e identidade de comunidades marginais, e do aumento da criminalidade e da violência urbana, novas frentes de trabalho coletivo
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<http://upprj.com/wp/> Acessado em: 10 mai. 2012. Ver também <http://www.uppsocial.org/> Acessado em: 19 mai. 2012.

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e individual tem sido testadas em Santa Cruz e adjacências com o propósito de buscar outros sentidos de lugar e novos meios de inserção socioprodutiva e cultural que desafiem os modelos ditados pelos agentes econômicos dominantes. Defino essas novas iniciativas comunitárias e grupais de “pós-desenvolvimentistas”, dado que estão incluídas no centro dos debates descolonial (GROSFOGUEL, 2006) e pósdesenvolvimentista (ESCOBAR, s/d) que almejam produzir novas epistemologias e repertórios de ação para os lugares e grupos sociais ultrajados pela ordem modernista repressiva. A ideia é construir plataformas de ação que consigam propor alternativas frente à espoliação do capital (HARVEY, 2003) e à globalitarização (SANTOS, 2001), de modo que o “não-capitalismo e as diferentes culturas se transformem igualmente em centros de análises e estratégias para a ação (ESCOBAR, s/d, p. 13). Para isso, só a socialização do poder é o antídoto para revigorar a humilhada democracia industrial ocidental, levando sempre em conta que “todas as glocalidades são tanto locais como globais, mas não são globais e locais da mesma maneira” (Ibidem, p. 14). A ênfase contra-hegemônica supracitada será, no caso de Santa cruz, levado em conta na análise da potencialidade turística da região e as possibilidades de articulação dos empreendimentos/agenciamentos já em fluxo para a consolidação do turismo de base comunitária28. Ao contrário da perspectiva que vê Santa Cruz unicamente pelo lado “histórico”, a proposta aqui é, seguindo a linha de um grupo local, pensar o turismo de base comunitária como forma de integrar as comunidades locais (atenuar as rivalidades existentes) e promover o intercâmbio sociocultural com outras pessoas e espaços da cidade. Em qualquer atividade turística, se se deseja que ela seja um elemento de fortalecimento da identidade cultural e de ampliação dos ganhos econômicos da(s) comunidade(s) receptora(s), deve se atentar aos seguintes quesitos de formação de um sistema turístico autenticamente justo e participativo:

(...) um sistema não-linear, multifoliado, complexo, excêntrico e inconstante, uma vez que sua evolução e ramificação se tornaram imprevisíveis, apresentando vários centros simultaneamente autônomos e interdependentes e pelos quais cresce, transborda e se reproduz, à guisa de um rizoma (PINTO, 2009, p. 1).

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Vai contra a acepção do senso comum de que Santa Cruz só possui atrativos turísticos de cunho histórico, em outras palavras: que são vinculados à cultura material “oficial” (Palacete da Princesa Isabel, Fazenda Real, Ponte dos Jesuítas, Ruínas do Matadouro e Hangar do Zepellin).

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1 NOVAS INICIATIVAS ECONÔMICAS E SIMBÓLICAS EM SANTA CRUZ: ESTRATÉGIAS EMERGENTES PARA UM NOVO CONTEXTO

Neste tópico, tratarei dos empreendimentos/agenciamentos em andamento em Santa Cruz e arredores, e as possibilidades de conecta-los à atividade turística que terá como foco as comunidades locais de grande importância cultural e política. Para esse fim, dividi o item em duas partes, para tratar de dois casos específicos: a ação ecomuseologia capitaneada pela ONG NOPH (Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica) e o Ecomuseu do Quarteirão Cultural do Matadouro de Santa Cruz29; e os empreendimentos econômicos de cunho solidário ou focado na atualíssima ideia da economia criativa.

ECOMUSEU DE SANTA CRUZ

Santa Cruz possui uma densa história social e territorial que pode ser rastreada desde o tempo jesuítico30 até o atual industrialismo simbolizado na recente implantação da siderúrgica CSAThyssen Krupp. Registrar os momentos de opulência histórica e investir no revival de identidades culturais fragilizadas com o desenvolvimento econômico é uma marca comum nas sociedades ocidentais. No entanto, a perspectiva de um ecomuseu engloba isso e vai além, incorporando outros matizes e uma crítica cultural cujo intento maior é promover a conservação do patrimônio (seja este um casarão neoclássico, uma ruína, um grupo étnico ou um território comunitário). Ecomuseus são instituições complexas e não-lineares, cuja finalidade é garantir a aproximação empírico-reflexiva de uma população local com o seu patrimônio cultural. Sua linha de ação (e fuga) é o “envolvimento extensivo com o território e procura a preservação paisagística e histórica, com ou sem a comunidade originária” (OLIVEIRA, 2007, p. 2). E o autor acrescenta, citando a antropóloga Ana Cortés:

Desta maneira, o caráter social dos bens patrimoniais com histórias familiares e pessoais, reforça os laços comunitários e o como a própria comunidade vai defendendo suas próprias políticas de gestão cultural e de desenvolvimento local, em relação com o manejo dos recursos culturais, naturais, patrimoniais e turísticos (apud OLIVEIRA, 2007, p. 2, tradução minha).

29 30

Ambos sediados no Centro Cultural Municipal Dr. Antônio Nicolau Jorge. O exemplo é a Ponte dos Jesuítas, um dos primeiros monumentos tombados no Brasil – <http://www.iphan.gov.br/ans.net/tema_consulta.asp?Linha=tc_hist.gif&Cod=1781> Acessado em: 19 mai. 2012.

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Assiste-se a uma ação coletiva que, das ruínas do Matadouro às histórias de vida das pessoas do cotidiano popular, aposta na valorização da memória histórica coletiva e na mobilização de pessoas e recursos para concluir encerrar o processo de musealização do território. No site do NOPH31 – ONG que dinamiza o ecomuseu e com ele tem uma relação simbiótica, a ponto dos “de fora” não saberem onde começa um e termina o outro –, consta todas as ações, eventos e produtos feitos em conjunto ou por um de seus membros dinamizadores32. O patrimônio histórico-cultural é o alvo primordial. As medidas político-administrativas adotadas desde 1992 pela gestão municipal para o bairro de Santa Cruz, incluindo a criação da APAC33 e do ecomuseu34, são um reflexo das pautas e lutas travadas pelo NOPH-Ecomuseu para a conservação do patrimônio e o revigoramento da cultura imaterial.

Foto 1: Ecomuseu do Quarteirão Cultural do Matadouro de Santa Cruz, também sede do NOPH. Fonte: arquivo pessoal.

Em conversa com a liderança do NOPH, eles afirmaram, ainda que em tom receoso, que o turismo seria uma solução de desenvolvimento significativo para o bairro. Beneficiaria as comunidades endógenas que não estão inseridas no setor industrial local, gerando outros tipos de
31 32

<http://www.quarteirao.com.br/> Acessado em: 3 jan. 2012. Termo dado a quem colabora no NOPH. 33 Mais detalhes, ver <http://www0.rio.rj.gov.br/patrimonio/apac.shtm> Acessado em: 3 jan. 2012. 34 <http://mail.camara.rj.gov.br/APL/Legislativos/contlei.nsf/e9589b9aabd9cac8032564fe0065abb4/274ad9b4d983603e 032576ac00733736?OpenDocument&ExpandSection=-1> Acessado em: 3 jan. 2012. Tanto a APAC quanto o ecomuseu são políticas da era César Maia (1992-2008) e, ao que parece, houve uma ruptura da nova gestão (Eduardo Paes) com relação a alguns encaminhamentos anteriores (a APAC e o ecomuseu são exemplos disso).

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emprego, renda e dinâmica cultural. Entretanto, nota-se também que o ressentimento deles se deve ao fato de que a turistificação pode impactar negativamente no cotidiano relativamente ameno dos espaços populares, “exotizando” as pessoas comuns e descaracterizando as culturas e identidades em nome da “autenticidade encenada” (URRY, 2001), aspecto obrigatório em toda prática turística com base no legado cultural. Independentemente das incertezas sobre o turismo comunitário ou cultural em Santa Cruz, o planejamento que hoje os atores turísticos têm pensado para essa regionalidade (que poderia incluir também a vizinha região de Guaratiba e o município de Itaguaí) leva em conta ação ecomuseológica já instaurada. Tal atitude é fruto do diálogo, embora desconjuntado, do NOPH-Ecomuseu com os defensores do turismo: FAMA (Faculdade Machado de Assis), universitários, associações locais e agentes individuais. Um diagnóstico mais aprofundado permitirá reconhecer as tensões do campo políticocultural de Santa Cruz e arredores, entendendo o modo como os projetos culturais, incluindo o turismo, podem potencializar novas conexões e empreendimentos econômicos sem perder de vista o modo como os guardiões da história de Santa Cruz (e nisso inclui-se o NOPH), podem oferecer resistência à atual lógica que transformou toda a cidade do Rio de Janeiro num imenso balcão de negócios. EMPREENDIMENTOS SOLIDÁRIOS E “CRIATIVOS”

São poucas as instituições que engendram outros instrumentos, canais e orientações de desenvolvimento social em Santa Cruz. Mas, mesmo com poucos atores, esses poucos têm um lastro de protagonismo e visibilidade formidável, alguns com repercussão a nível nacional e internacional. Um exemplo é a Coosturart (Cooperativa de Costura Artesanal de Santa Cruz)35, que agregou mulheres costureiras e bordadeiras para realizar seus trabalhos pautados na economia solidária, no comércio justo. Com um marketing arrojado, já conseguiu desfilar suas roupas nos melhores eventos de moda do Rio de Janeiro e em Paris. Também podemos falar da Tia Gaúcha (Cleonir Alves), figura carismática que formou o Comzo (Conselho de Mulheres da Zona Oeste) e está presente em quase todos os fóruns de esquerda e reuniões cuja pauta seja o direito das mulheres.

35

<http://www.coosturart.com.br/> Acessado em: 10 fev. 2012.

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Foto 2: Imagem que manifesta o caráter popular da Coosturart. Foto tirada na comunidade João XXIII, onde está localizada a empresa. Fonte: <http://oglobo.globo.com/rio/bairros/posts/2008/06/13/colecao-desenvolvida-pela-

coosturart-de-santa-cruz-em-desfile-108304.asp> Acessado em: 19 mai. 2012.

Um grupo que não está enquadrado em nenhum dos quesitos aqui analisados, mas que mantem enorme potencial turístico devido à sua etnicidade e singularidade rural, é a Colônia Agrícola Japonesa de Santa Cruz. Encravados na Reta do João XXIII e de frente para a gigantesca siderúrgica CSA, os colonos japoneses plantam, dentre outros cultivos, o famoso aipim preto de Santa Cruz36, e possuem uma extensão de terras que já foi sondada tanto pela CSA quanto pelo sindicato patronal rural, que já cogitou a implantação do turismo rural na localidade tendo como chamariz a propriedade japonesa, onde seriam apreciados o modo de vida e o fazer agrícola dos colonos. Mas voltando aos empreendimentos solidários e criativos em Santa Cruz, além da Coosturart e do Comzo, dois chamam atenção por sua inventividade e capacidade de conexão com o turismo comunitário: O “Banco Verde, Bazar Verde”, iniciativa da professora Marilúcia Silva de incentivar os estudantes de sua escola a recolher materiais para reciclagem. Ao trazer o material, o aluno ganha moedas verdes que podem ser trocadas por produtos do bazar verde, que é alimentado com o artesanato feito na oficina de artes ou do dinheiro arrecadado da venda dos descartáveis. A princípio, o projeto era voltado para os estudantes da escola da professora, mas ganhou tamanha

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<http://www.institutomaniva.org/destaque-principal/452> Acessado em: 10 dez.. 2011.

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repercussão que já pode relatar sua experiência empreendedora em jornais, revistas e na edição do fórum social mundial realizado no Senegal37. O outro empreendimento é a Meldro Criatividades, empresa pautada no uso das tecnologias sociais e virtuais com o objetivo de construir novos ambientes de negócio e produtos culturais para a região. A maioria dos registros das culturas de Santa Cruz tem sido feitas por esta empresa, que atualmente está inserida na incubadora de projetos da coordenadoria de economia criativa da SEC/RJ38. Trata-se de um caso exemplar da mudança estrutural sofrida pelo campo da produção cultural, onde o novo modelo empreendedorista alterará substancialmente o modo como as pessoas encaram a cultura, a tradição e os processos de identificação. Dentro do projeto incubado da Meldro, está o “bairro criativo”: tem o objetivo hercúleo de mobilizar os atores econômicos e culturais locais para a interação dentro de ambientes e plataformas de interação e construção de negócios. Através dessa interligação e da consequente propaganda compartilhada entre os empreendedores, a multiplicação dos trabalhos e de novos empreendimentos é uma questão de negociação e de costura de alianças. Em todos os casos, a cultura é o vetor principal das transações. Em todos os casos listados neste sub-tópico, o turismo entraria como catalisador de iniciativas. Integrado aos processos econômicos e culturais já encaminhados, o serviço turístico entraria como um complemento de renda e como oportunidade dos atores costurarem novas relações e negócios, tendo a dimensão histórico-cultural, patrimonial e comunitária como elementos de mobilização de afinidades, pertencimentos e recursos. Como atividade inscrita no circuito pósmoderno e flexível da economia, o turismo age na valorização dos saberes e fazeres locais, ao mesmo tempo em que estrutura uma cadeia socioprodutiva que torna o processo relativamente estável, com prestígio e reconhecimento que ultrapassa as fronteiras da localidade. A turistificação ganharia uma dinamicidade absurda com agenciamentos do tipo fomentado pela Meldro e pela Moeda Verde, Bazar Verde, sendo esta última uma tecnologia social de vanguarda que poderia ajudar a divulgar o turismo de Santa Cruz e arredores como uma atividade ecologicamente correta, pautada na conservação do patrimônio ambiental urbano.

CONSIDERAÇÕES FINAIS E UMA AGENDA DE DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO PARA A REGIÃO HISTÓRICO-CULTURAL DE SANTA CRUZ

A região pode ser um constructo analítico, mas também uma categoria da norma e da prática (HAESBAERT, 2011). Santa Cruz, a despeito de ter uma regionalização oficial (im)posta pela

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Experiência registrada em <http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_materia.php?codMateria=9186> Acessado em: 10 mai. 2012. 38 <http://www.riocriativo.rj.gov.br/> Acessado em: 12 abr. 2012.

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gestão municipal, é encarada aqui como uma região praticada por seus sujeitos no cotidiano. Uma região com limites porosos, sem definição precisa, baseados nas experiências de lugar e nos deslocamentos espaciais que geram um processo, relativamente homogeneizante, de identificação dos habitantes locais com os lugares dessa Zona Oeste periférica. Dentre as incertezas e desafios que permeiam os debates sobre a implantação ou não dos turismos cultural e comunitário na Santa Cruz histórica, uma é da conscientização dos moradores e lideranças comunitárias do papel positivo que o turismo pode ter no fortalecimento dos laços comunitários, empregando a memória, a identidade e o uso do patrimônio cultural (material ou intangível) como estratégia discursiva para a consecução de melhorias na infraestrutura, no restauro do patrimônio e na criação de cooperativas e empresas solidárias que gerem emprego, renda e sustentabilidade cultural e ambiental. O turismo pode tornar a ecologia de um lugar mais dinâmica, aprazível e emancipadora, basta que não se romantize a história do território e muito menos que ele se sobreponha às formas de vida e interesses das comunidades receptoras. A geração de emprego e renda pode promover um maior intercâmbio sociocultural e melhoria da qualidade de vida dos agentes endógenos, e é nisso que o discurso deve ser modelar para convencer os atores comunitários. Uma política cultural para o desenvolvimento tanto do turismo histórico-cultural quanto do comunitário deverá levar em conta as especificidades locais, e a proposta metodológica de Barreto (2000, p. 81) é um importante passo para que, do diagnóstico das potencialidades ao monitoramento da atividade já em funcionamento, a relação dos planejadores e técnicos e com as comunidades receptoras seja um caso bem-sucedido, como registrado em alguns municípios como Triunfo (PE), João Pessoa (PB), Goiânia (GO). Enfim, os atores que estão pensando e trabalhando para que o turismo comunitário e histórico em Santa Cruz saia do “papel”, estão cientes dos desafios que é promover uma atividade moderna deste porte numa região marcada pela desmobilização popular, pela precariedade dos serviços públicos e privados e pelo aumento da criminalidade e violência39, terão que dialogar permanentemente com os órgãos públicos pertinentes, e elaborar estratégias que instrumentalize e empodere as comunidades receptoras sem cair no erro costumeiro das políticas culturais nas sociedades modernas, que Ortiz faz questão de expor:
Uma coisa é planejar a “cultura de uma empresa”, explicitar as diversas modalidades de interação entre os seus organismos e os seus empregados. Outra é definirmos uma política de “democratização dos bens culturais”, neste caso, um elemento de indeterminação se introduz: o que seria democratizar? Este é o terreno no qual a policy não possui o controle
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Os dados referentes à criminalidade e violência na Zona Oeste são sempre imprecisos e ambíguos devido a falta de diagnóstico permanente do Poder público e da ausência de estudos acadêmicos sobre a região.

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da politics. Tenho, às vezes, a impressão de que muitos dos documentos sobre cultura tendem, de alguma maneira, a diluir os conflitos. Eles partem de afirmações genéricas, sem circunscreve-las porém à realidade nada harmônica que as envolve: melhorar as condições das mulheres e dos adolescentes (sem dizer quem são essas mulheres e esses adolescentes, em que mundo vivem, que tradições possuem), trabalhar pelo desenvolvimento sustentável (sem definir o que seria sustentável), promover meios para “vivermos juntos” (esquecendo as barreiras de classe, gênero, etnias) [...] O problema é que nenhuma política cultural (e nisso inclui o turismo) pode ser realizada sem previamente se perguntar: de que desenvolvimento se está falando? (ORTIZ, 2008, p. 127).

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URRY, John. O olhar do turista: lazer e viagens nas sociedades contemporâneas. São Paulo: Nobel, 2001.

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DESENVOLVIMENTO LOCAL E OS PROCESSOS DE MUDANÇAS SOCIOAMBIENTAIS NA COMUNIDADE INDÍGENA PATAXÓ HÃ HÃ HÃE, PAU BRASIL – BA

Erlon Santos de SOUZA UESB, Especialista Fábio dos Santos MASSENA UESB, Professor Iaponira Sales de OLIVEIRA UFRN, Doutoranda

RESUMO

Este trabalho analisou o desenvolvimento socioeconômico e ambiental na comunidade indígena Pataxó Hã hã hãe, município de Pau Brasil. Para tanto, foram necessários a análise das características socioambientais, econômicos e políticos a partir do contexto sócio-histórico da comunidade. A pesquisa foi direcionada a comunidade indígena Pataxó Hã hã hãe da aldeia Caramuru, município de Pau Brasil, que teve como objetivo analisar no contexto interno e as relações estabelecidas entre a comunidade e o meio ambiente no uso sutentável dos recursos naturais a partir do conceito de desenvolvimento local, bem como as relações de cooperação estabelecidas no espaço comunitário entre os sujeitos-atores. Foram utilizados como ferramentas para coletas, formulários previamente elaborados, entrevistas, além da observação direta sobre ações cotidianas da comunidade indígena. As pessoas entrevistadas têm residência na aldeia Caramuru e seu entorno (Mundo Novo, Água Vermelha, Ourinho etc.). A base econômica atual da comunidade é basicamente voltada para o mercado, estando sustentado na criação de gado leiteiro (bovino), cultivo do cacau e menor proporção, a agricultura de subsistência, criação de abelhas e artesanato. Na comunidade existem várias organizações indígenas (associações), sendo poucas voltadas para projetos comunitários, ou seja, as organizações pertencem a grupos familiares. Nos últimos cinco anos a comunidade indígena tem apresentado um grau de desenvolvimento socioeconômico considerável quando comparado há anos anteriores, bem como foi constado a concentração e aumento de bens materiais para alguns grupos familiares em detrimento do desfavorecimento de outros. A perda de referência comunitária e coletiva, bem como política tem caracterizado o cotidiano da comunidade nos últimos anos como uma realidade atual e local. PALAVRAS-CHAVE: Comunidade indígena, desenvolvimento interno, meio ambiente.

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INTRODUÇÃO

O homem mantém uma aproximação de (inter) dependência em relação à natureza. No entanto, no contexto dessas relações, as necessidades humanas fazem prevalecer o controle antrópico sobre o meio, na utilização dos recursos disponíveis para sua existência, em alguns momentos quebrando elos que interligam os elementos na natureza, colocando em risco o ambiente e a perpetuação de sua própria espécie. As comunidades tradicionais através de suas práticas sustentáveis proporcionam no contexto sociocultural e ambiental a valorização e preservação da biodiversidade no uso dos recursos naturais, onde o conhecimento ecológico local define o perfil da tradicionalidade dessas populações ao nível de sua organização social, cultural e econômica mantendo relações de interdependência com o meio ambiente. Grande parte dos ecossistemas existentes é preservada por comunidades tradicionais, como as comunidades de coletores e indígenas, que mantém vínculos com esses ambientes, num sistema de subsistência voltada para a satisfação de suas necessidades primárias. Os povos tradicionais (indígenas, quilombolas, ribeirinhas, caiçaras etc.), tornam-se os principais protagonistas na preservação da biodiversidade tanto a nível local, regional ou até mesmo global. Cunha (1999) anota que o saber local é um processo de investigação e recriação, portanto, a produção desse saber é uma combinação de pressupostos e formas de aprendizados, de pesquisa e de experiência. O trabalho com comunidades tradicionais (indígena e pescadores) visa compreender as formas de relacionamento socioambiental a partir do conhecimento “ecológico tradicional” e a conservação da biodiversidade local, de forma que as ligações entre a conservação, populações locais e desenvolvimento interno passam a ser vistos como componentes inseparáveis do ecossistema (HAZANAKI, 2003), estabelecendo vínculos socioculturais, como conhecimentos sobre técnicas de cultivo e sustentabilidade adequados ao meio em que vivem, permitindo-lhes o papel de “guardiões do patrimônio biogenético do planeta. Seguindo o raciocínio de Hanazaki (2003), o conhecimento tradicional complementa o conhecimento acadêmico, permitindo através da experiência e da prática das comunidades tradicionais, compreender as mudanças que ocorrem com as intervenções impostas pela ação humana sobre o meio ambiente.. As comunidades tradicionais apresentam características intrínsecas ao seu próprio conhecimento, e ao seu tempo, que ao longo dos anos são transmitidos de gerações a gerações. Nas observações de Rezende e Ribeiro (2005) as relações socioambientais nas comunidades tradicionais, e a construção do conhecimento tradicional estão relacionadas ao modo de vida que
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essas comunidades adquirem ao longo do tempo, exercendo o manejo dos recursos naturais disponíveis e essenciais à subsistência. A aldeia indígena Caramuru Paraguaçu, localizada no município de Pau Brasil – BA, surgiu do processo de retomada das Terras do Posto Indígena Caramuru Catarina Paraguaçu, em abril de 1982, onde se encontravam a antiga Fazenda São Lucas, com uma extensão de aproximadamente 1.072 hectares. Até 1997, essa área concentrava toda população indígena local, que com os processos de retomadas a partir desse ano, iniciou o processo de despovoamento da comunidade quando as famílias passaram a migrar para outras áreas da reserva (Ourinho, Água Vermelha, Mundo Novo, Panelão, Braço da Duvida, etc.). A aldeia é cortada no sentido sul-norte pela Rodovia – BA 667 (estrada de terra batida) que liga o município de Pau Brasil à Itajú do Colônia. Atualmente, a comunidade de Caramuru possui serviços de atendimentos básicos como abastecimento de água potável (caminhão pipa), um colégio que atende um alunado da Educação Infantil ao Ensino Médio, Postos de Saúde e um serviço de rádio comunitária local, serviços de energia elétrica. Por muito tempo (27 anos) a aldeia foi sede administrativa do escritório local da FUNAI, que hoje se encontra descentralizado. A comunidade indígena Pataxó Hã hã hãe, objeto de análise deste trabalho, no contexto de sua dinâmica interna, está passa por momentos de mudanças e transformações (social, econômica, cultural), fato vivenciado no cotidiano das pessoas e nas diferentes formas de relacionamentos interpessoais do grupo. Portanto, foi possível identificar que as mudanças nas relações comunitárias e coletivas, entre as pessoas da comunidade indígena Pataxó Hã hã hãe estão diretamente relacionadas ao processo de desenvolvimento capital e social pela qual a comunidade está vivenciando. Como reflexo dessas mudanças, o coletivismo e o comunitárismo tornaram-se valores não tão importantes no seu cotidiano, refletindo negativamente na perda de referência identitária e o enfraquecimento do poder político local. Portanto, entende-se que é de fundamental importância a investigação sobre o desenvolvimento interno na comunidade e a capacidade de cooperação dos seus membros. Para isso levou-se em consideração o modo de vida da comunidade indígena e suas diferentes formas de perceber o lugar e os sujeitos presentes, além disso, buscou-se compreender as relações estabelecidas entre a comunidade e o meio ambiente no uso sutentável dos recursos naturais a partir do conceito de desenvolvimento local, bem como as relações de cooperação estabelecidas no espaço comunitário entre seus membros. Visando obter uma resposta representativa dentro dessa comunidade, foram feitas entrevistas com as 8 lideranças indígenas, sendo sete do sexo masculino e um do sexo feminino, com idade
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entre 36 e 61 anos. Optou-se por esta amostra, pois mesmo existindo na comunidade lideranças indígenas do sexo feminino, constatou-se durante as entrevistas que a representação masculina ainda exerce forte influência nas decisões da comunidade, uma vez que na estrutura familiar prevalece a estrutura patriarcal como forma familiar. A técnica de informação escolhida para as entrevistas foi a parcialmente estruturada, onde utilizou-se um formulário com questões estruturadas e abertas. Também foi necessária a utilização da observação strictu sensu, laçando mão de instrumentos como diário de campo, registros escritos e fotográficos de situações cotidiana dos membros da comunidade, principalmente diante de situações comportamentais e tomadas de decisões. Com o propósito de evidenciar as variáveis resultantes da pesquisa, houve a necessidades de coletar dados secundários com base de analise documental. Para isso, foram, simplificados em síntese e resumos dos primeiros, passando por um processo de seleção e julgamento dos mesmos. Por se tratar de uma pesquisa feita em uma comunidade com uma dinâmica interna complexa, todos os cuidados foram tomados durante a realização das entrevistas e interpretação das informações obtidas com a coleta de dados.

1 ASPECTOS DE ORIGEM DAS FAMÍLIAS

A história de vida ou trajetória dos grupos familiares nos permite conhecer a origem das pessoas, os locais de pertença e os fatores internos e externos que por razões circunstanciais os levaram a percorre cominhos de idas e voltas até o seu ponto de origem (MATOS, 2007). Ao serem questionados sobre o prazer em viver na aldeia, todos responderam sem restrições que gostavam, sendo que 65,5% justificaram gostar do lugar onde moram com seus familiares por considerar o lugar em que vivem, terra dos seus ancestrais (pais, avós, bisavós, etc.), por pertencerem ao lugar onde tudo começou. Sentimento este, presente nos discursos e nas manifestações socioculturais, atitudes cotidiana, mesmo naqueles que nasceram fora da aldeia, mas que construíram vínculos étnico-identitário com o lugar. Esse sentimento pode ser observado na transcrição feita de uma das entrevistas: “[...] todo local que você, você tem aquele amor [...] se apega ao local, se sente bem onde você vive [...] porque onde está todas as histórias dos nossos antepassados[...]” Os demais (35,5%) disseram gostar de viver na aldeia por se sentirem bem na comunidade, não demonstrando nas suas falas sentimentos de pertencimento, mas por questão de conforto e conformidade se comparado com a vida que levavam fora da aldeia, trabalhando nas fazendas dos
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seus opressores a baixos salários, ou como operários da construção civil nos grandes centros urbanos. Para muitos o fato de terem retornado a terra de origem dos seus antepassados, não representou a solução dos problemas inerentes ao grupo, uma vez que esses problemas passaram a ser identificados durante o convívio social de diferentes grupos familiares em um mesmo espaço. Outros tiveram suas expectativas frustradas ao sonharem encontrar terras e matas férteis, quando na verdade o que encontraram foram pastagens e a escassez de muitos recursos naturais como a falta de água, terra inapropriada para agricultura, madeira para construção de moradias e geração de energia, falta de serviços básicos como educação, atendimento medico, assistência social etc. Mas mesmo não encontrando “terra prometida” que seus pais e avós tanto falaram, para muitos, foram desafios a serem vencido, pois era melhor enfrentar as dificuldades em tom de liberdade, do que viver longe de suas terras, de sua gente, submisso aos interesses dos patrões que nem sempre eram amigáveis com os que se identificavam como indígenas, conforme transcrição a seguir:
[...] porque agente veio em busca de terra [...] chegando aqui agente conseguiu. O que queria, o que eu mais queria era viver independente, trabalhar pra mim mesmo [...] porque agente começou a trabalhar pra nóis mesmo [...] deixou de ser pessoas praticamente escravizadas [...] quando agente chegou na comunidade, agente começou a fazer nossas próprias atividades. Exerceu nossa própria cultura [...] e pra mim foi a melhor coisa eu poder sair da escravidão.

2 ASPECTOS SOCIAL, ECONÔMICO E CULTURAL

As interações socioculturais com outros grupos étnicos, ou comunidades indígenas de outras etnias, influenciaram na elaboração das representações culturais da comunidade. Essa percepção está presente nas atividades culturais do grupo, tendo como principal expoente o grupo cultural de jovens. Em relação há tempos anteriores, hoje é comum os pais batizarem seus filhos com nomes indígenas, o que antes era extremamente raro, mesmo nos registros feitos nos cartórios da FUNAI. A razão é que antes as pessoas para preservar sua integridade física, preferiam colocar nomes comuns nos filhos, além de não possuírem uma consciência de revitalização da cultura, que só aconteceu mais tarde com a escola fora do controle da FUNAI, e com a presença de professores indígenas nas salas de aulas. Atualmente a comunidade indígena conta com uma educação escolar voltado para o fortalecimento da identidade cultural do povo, com componentes curriculares voltados para
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valorização e revitalização cultural (Cultura Indígena), prática agrícola (Técnicas Agrícolas), e de uma forma pouco tímida, a questão ambiental (Meio Ambiente e Sustentabilidade Territorial). Os grupos familiares são compostos por indivíduos em sua grande maioria envolvidos pelos laços de parentescos e relações étnicas, que se manifestam em todos os aspectos da dinâmica interna da comunidade desde o econômico, relações de poder, localização espacial dos grupos familiares bem como, suas perspectivas de futuro. Entre as fontes de renda dos grupos familiares, aproximadamente 8% das famílias vivem exclusivamente da agricultura de subsistência, que comercializam o excedente da produção nas feiras livre das cidades vizinhas (Pau Brasil e Camacan); 69% vivem do cultivo do cacau e da produção de leite que são entregues diariamente nos caminhões que os leva até os laticínios da região; praticamente todas as famílias da comunidade são cadastradas e recebem benefícios dos programas sociais (Bolsa Família, auxílio maternidade, etc.); 15% são servidores públicos com salários fixos lotados em serviços e atividades como educação (professores e pessoal de apoio), na saúde (agentes comunitários de saúde, técnicos de enfermagem, pessoal de apoio, etc.); 8% vivem de aposentadoria e pensão. Muitas dessas pessoas desenvolvem dupla atividade, como por exemplo, plantam roças e criam gado de leite, possuem empregos (educação, saúde, etc.) e vendem leite etc. As quantificações apresentados acima são resultados de dados obtidos a partir de fontes não muito precisas (FUNAI/FUNASA), portanto podendo ocorrer na defasagem de informações precisas e atualizadas. As casas ou moradias na sua grande maioria são de alvenaria ou tabua entre quatro e cinco cômodos, com energia elétrica, abastecimento de água e acesso a sistema de saneamento sanitário (Caramuru), o que tem contribuído para amenização da precariedade de algumas famílias na aldeia. Pela quantidade de resíduos sólidos produzidos na aldeia, percebe-se que as pessoas são altamente dependentes dos produtos fornecidos pelo mercado externo. Não existe na comunidade serviços de coleta dos resíduos sólidos, ficando os mesmo expostos nos quintais das casas, onde quando se encontra numa quantidade incomodativa, são incinerados a céu aberto. Os restantes dos resíduos sólidos dispersos em lugares que não sejam quintais de casas ficam dispersos acessíveis a pessoas e animais. Também é comum no espaço da escola o descarte irregular dos resíduos sólidos produzidos no seu interior, muitos sendo depositados nos fundo da escola, seguida de queima sem nenhuma preocupação dos agentes gerenciadores e educadores da escola. Percebe-se que mesmo tratando de uma comunidade indígena há necessidade de incluir nos currículos da escola e na formação dos professores (formação continuada) programas que contemple ou trabalhe a educação ambiental no sentido de conscientizar não só o educando, mas os
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professores sobre sua função e responsabilidade frentes aos interesses da natureza e do meio ambiente, no sentido de formar sujeitos conscientes e menos agressivos à natureza.

3 ORDENAMENTO, APROPRIAÇÃO E USO DOS ESPAÇOS

Os espaços na região onde situa-se a aldeia Caramuru está ordenada segundo as regras de ocupação feitas pelas famílias destinadas à sua subsistência. De comum interesse, escolhem o local que melhor convém, delimitando-o e apropriando de forma coletiva. Essa lógica de divisão dos espaços serve tanto para as roças de subsistências, assim como para as pastagens. É comum nos dias de hoje, a apropriação de espaços de pastagens por grupos famílias ou indivíduos que preservam essas áreas para aluguel tanto para pessoas da comunidade (indígenas) quanto para pessoas de fora da comunidade. Em relação a esse tipo de atividade não existe nenhuma forma de controle por parte da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e das lideranças indígenas. As áreas utilizadas para as roças ou agricultura de subsistência, são as únicas que se aproximam atualmente do conceito comunitário. Não porque não exista na comunidade e nas pessoas o espírito da coletividade, mas porque atividade agropecuária (em ascensão), não envolve todos os membros de uma mesma família, ou os grupos familiares na realização dos seus trabalhos. Mesmo com esse perfil, a área que compreende a aldeia Caramuru tem características atípicas de meio rural, uma vez que o lugar se encontra bem estruturado – com colégio, radio comunitária, posto de saúde, possui energia elétrica, abastecimento de água, saneamento sanitário, etc. –, em relação às demais localidades: São Sebastião, Bom Jesus, Paraíso, Milagrosa, Mundo Novo, Ourinho, Braço da Duvida e Água Vermelha, o que faz com que muitas pessoas declararem não morar na roça, mas sim em Caramuru. A dinâmica interna da aldeia faz com que o ordenamento destes espaços esteja em constates mudanças. Sempre orquestrado pelo movimento de “retomadas” de novas áreas, permitindo a migração interna das famílias que buscam se estabelecer num espaço apenas familiar. Conclui-se que o desenvolvimento interno na aldeia indígena Caramuru proporcionou direta e indiretamente a apropriação dos recursos naturais e a divisão dos espaços socioeconômicos pelas pessoas que vivem na comunidade e que desenvolvem uma economia ativa internamente.

4 A QUESTÃO AMBIENTAL E A PERCEPÇÃO DO LOCAL

A experiência de vida da comunidade indígena Pataxó Hã hã hãe, vivenciada a partir de exíguo pedaço de terra (onde atualmente situa a aldeia Caramuru), de vegetação predominada pelo
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capim colonial, existindo apenas uma pequena ilha de mata, e por terem nos seus arredores uma vizinhança nada amistosa e hostil, fez com que os membros dessa comunidade inicialmente explorassem ao máximo os recursos naturais a seu favor. É no contexto sociocultural, político e econômico que se contextualiza a questão ambiental na comunidade indígena Pataxó Hã hã hãe. As relações socioambientais constituídas por esta comunidade perpassam por duas fases de desenvolvimento socioeconômico, político e ambiental: uma relacionada ao momento de estabelecimento do grupo a partir de 1982 na atual aldeia indígena Caramuru, localizada no município de Pau Brasil, onde desenvolveram uma atividade econômica (agricultura de subsistência) a partir do sistema de agricultura rudimentar tradicional, além do aproveitamento escasso dos recursos disponíveis no ambiente da aldeia tais como madeira, água, o próprio solo que na sua maioria não era muito propicio ao desenvolvimento da agricultura; o segundo momento, se dá a partir de 1997, marcado pela expansão do espaço geográfico da aldeia, que possibilitou a migração de grupos familiares para áreas “menos exploradas”, agilizando a exploração de atividades econômica menos agressiva com o meio ambiente com as roças de cacau. Então, o povo Pataxó Hã hã hãe vivencia duas experiências de relacionamentos socioambiental totalmente diferentes. No primeiro caso, por estarem presos a uma pequena gleba de terra e por não ter outras fontes alternativas de recursos para suprir suas necessidades básicas, exploraram ao máximo os recursos animais, vegetais e até minerais (água). Isso para manter um padrão simples de vida, que se resumia em atender o mínimo possível de suas necessidades básicas, em um lugar onde a oferta desses recursos era menor que a demanda por eles. É importante saber que a escassez dos recursos ambientais não era uma escassez regional, mas sim local. O problema é que a comunidade durante esse período não podia fazer uso dos recursos disponíveis (como a água por exemplo) em abundancia nas propriedades (fazendas) vizinhas por correrem sérios riscos de vida por “roubar” como dia os fazendeiros na época um balde d’água ou um feixe de lenha em sua propriedade. Por esta razão entre outros fatores de caráter interno e externo, grande parte dos recursos florestais foram utilizados no fornecimento de energia e subsistência da comunidade indígena por um longo período de tempo, tanto para cozimentos de alimentos, nas rústicas casas de farinhas e nas construções de moradia. Como se era de esperar quando se explora determinado recursos sem uma preocupação de reposição ou preservação pelos seus usuários, a exploração dos recursos movidos por uma necessidade primária, conseqüentemente levou a degradação de grande parte da área onde se encontra hoje a aldeia indígena Caramuru. Esse processo de degradação necessário, preciso e continuo perdurou por muito tempo, principalmente nos período de seca e estiagem, refletindo conseqüentemente na qualidade de vida das pessoas que direta e indiretamente dependiam desses recursos.
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A expansão da área territorial, possibilitou aos grupos familiares o acesso a recursos naturais em abundancia, novas fontes de renda com o cultivo do cacau na forma de cabrunca, menos agressivo ao meio ambiente, por não permite o uso de defensivos agrícolas como outrora, mantendo o equilíbrio entre a necessidades humanas e a preservação dos recursos naturais existentes nessas novas áreas. Atualmente um dos problemas que mais preocupa a comunidade como um todo, é a retirada ilegal de madeira destinada às fábricas móveis localizadas nas cidades vizinhas. Na maioria dos casos, o corte ilegal de madeira na terra indígena conta com a participação direta de pessoas indígenas, que por um valor simbólico é incentivados pelos proprietários de fabricas e moveis fazem o corte de madeira em áreas de cabruca. Portanto, não só os indígenas são responsáveis pela retirada predatória e ilegal de madeira na reserva indígena, uma vez que as fabricas de móveis, representados pelos seus proprietários e administradores incentivam esse tipo de atividade ilegal tanto nas aldeias indígenas, quanto em áreas fora da aldeia, como o vale das Cascatas no município de Pau Brasil, que tem hoje sua de preservação praticamente comprometida em função desse tipo de atividade. Portanto, a questão ambiental não é um assunto que se encerra nos conceitos e nas formulas que nos permite perceber o lugar e a paisagem que o compõem. A questão ambiental é uma questão de conscientização do sujeito, é uma questão de educação como afirma o senador Cristovam Buarque. Se o sujeito não tiver uma consciência ecológica definida pelos padrões de valores compatíveis com o uso e preservação dos recursos ambientais – seja ele indígena, ribeirinho, quilombola, empresários, ou um sujeito bem situado no mundo –, de nada adiantaria falar em preservação do meio ambiente, dos recursos naturais se a sua consciência ecológica não será considerada, respeitada diante a demanda dos interesses econômicos. Mesmo com os seus problemas internos, a comunidade indígena Pataxó Hã hã hãe tem buscado na medida do possível manter uma relação amistosa com o meio ambiente, com o lugar onde vivem. Existem na comunidade as ações positivas empreendidas coletivamente por gente simples, que passou a desenvolver no contexto interno a consciência ecológica a partir de um simples gesto de cooperação com atividades recuperação de matas ciliares, como o reflorestamento de margens do córrego do Mundo Novo com árvores frutífera típicas da região como a cajá que vem despontando como uma fonte de renda alternativa na aldeia e na região. Neste sentido, a percepção do ambiente possibilita as pessoas conhecerem o meio onde desenvolvem suas funções vitais (econômicas, sociais, culturais, etc.) e ambientais, construindo a partir da inter-relação, vínculos com os lugares que passam a fazer parte de suas experiências de vida.
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Portanto, “A perspectiva ambiental consiste num modo de ver o mundo no qual se evidenciam as inter-relações e a interdependência dos diversos elementos na constituição e manutenção da vida” (BRASIL, 2010, p. 173). As relações estabelecidas entre a comunidade indígena Pataxó Hã hãe e o meio onde vivem. Lugar, base de sustentação do seu modo de vida, tem se constituído através do domínio e manipulação dos recursos disponíveis a favor da reprodução de suas identidades físicas, culturais e sociais num espaço onde tudo parecia tão escasso. Neste lugar o conhecimento ecológico se constituiu das iterações socioambientais, de conhecimentos pré-estabelecidos por suas experiências de vida e como forma de resistência física, social e cultural. Para 80% dos entrevistados, o meio ambiente e a questão ambiental é definido a partir de uma visão antropocêntrica, utilitarista, que deve visar o conforto e o bem estar de quem a usufrui, ao mesmo tempo, manifestam preocupações no sentido de preservar o que lhes restou destes recursos, uma vez que a própria existência da comunidade depende dos recurso ofertados pelo meio ambiente onde vivem. Portanto, percebe-se o desenvolvimento de uma consciência ecológica ambiental permeando a mentalidade de muitas pessoas na comunidade. Ao serem perguntados se conhecem a vegetação do lugar onde moram, 50% dos entrevistados disseram ter conhecimento da vegetação local, sendo que a partir da visão do lugar onde vivem e de acordo com as atividades que desenvolvem, definindo sua utilidade e importância; 25%, de forma mais sintética, as definem usando o conceito de bioma, como caatinga e floresta tropical; outros 25% restante, vêem a vegetação da aldeia em desequilíbrio por conta da série de desmatamento ocorrido ao longo de décadas. Enquanto a utilidade, a conveniência antrópica prevalece sobre os valores naturais do meio onde vivem. 75% dos entrevistados apontaram o grau de importância da meio ambiente local a partir da utilidade e valor que os recursos oferecidos têm para a comunidade; os 25% definiram a utilidade da vegetação local a partir de uma visão mais naturalista, mas enfatizando o conforto que lhes pode ser proporcionado. Ao serem perguntados se é interessante preservar a paisagem que existe na aldeia, todos os entrevistados concordam que sim, sendo que dos entrevistados apenas 87% emitiram opinião. Destes, 45% concordam com a preservação da paisagem da aldeia como uma forma de guardar os recursos naturais existentes, sob uma perspectiva de evitar prejuízos com a perda desses recursos no futuro como a água que tem se tornado um recurso escasso na comunidade; 30% visam o conforto que um meio ambiente preservado pode lhes proporcionar; para 15%, só cuidando da natureza e dos recursos naturais no presente, estará preservando-os para as gerações futuras. Ao serem questionado o que deve ser feito para preservar a paisagem e os recursos naturais existentes na aldeia, 50% dos entrevistados responderam ao quesito apresentando algumas
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sugestões de como preservar os recursos ambientais da aldeia preservando sua paisagem. Dentre este, 20%, acredita nas instituições (colégio, associações, conselhos de saúde, rádio comunitária, etc.) como agentes promotores de conscientização da comunidade local; 60 % acredita que é preciso conscientizar a população através de chamadas comunitárias sobre a prática da queimada durante as limpezas de pastos, bem como sobre a caça de animais silvestres de forma descontrolada e predatória, observando que este tipo de atividade poderá trazer prejuízos à fauna e a flora no futuro próximo; para os demais 20% é preciso instituir no âmbito da comunidade a educação ambiental, como uma forma de educar as pessoas, para que essas possa cuidar melhor do lugar onde vivem. Mesmo diante das preocupações em cuidar do lugar onde vivem, não existe na comunidade até o presente momento, projetos comunitários que visem a preservação do meio ambiente atrelado a desenvolvimento social e cultural. Recentemente (julho de 2011) representantes da FUNAI, do Ministério do Meio Ambiente – MMA e organizações indígenas como APOIME, apresentou para a comunidade indígena o projeto BRA 09/32, conhecido como GEF-Indígena que apresenta no seu objetivo principal

[...] fortalecer as práticas indígenas de manejo, uso sustentável e conservação dos recursos naturais nas suas terras e a inclusão social dos povos indígenas, consolidando a contribuição das Terras Indígenas como áreas essenciais para a conservação da biodiversidade biológica e cultural nos biomas florestais brasileiros (Projeto GEF-Indígena, 2010, p. 4).

No entanto, após sua apresentação através de seminário temático, nada de concreto foi realizado na comunidade pelo projeto que se encontra sob a coordenação da Diretoria da FUNAI de Governador Valadares – MG.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os principais problemas da comunidade indígena Pataxó Hã hã hãe de Caramuru e seu entorno, se concentra nas mudanças que vem ocorrendo no interior do grupo com as novas mentalidade que está se formando entre seu indivíduos. Com o rápido processo de desenvolvimento interno – que direta e indiretamente interferi nos processos de organização social, político, econômico e cultural da comunidade –, as relações interpessoais se distanciaram, as pessoas tornaram-se independentes das decisões coletivas, deixando de participar dos eventos comunitários. O ligeiro e tão sonhado desenvolvimento interno que aos poucos vem se fincando na comunidade de forma desarticulada com o contexto social, cultural, econômico e ambiental, tem
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conduzido a desvalorização da coletividade e do comunitárismo, bem como na perda de referencia do poder político. Com isso percebe-se a fragmentação do poder político interno, fazendo surgir vários lideres sem poder de decisão, mas que vão se confundindo com os interesses coletivos da comunidade. Como conseqüência, os problemas internos vão se agravando com a ausência do senso comunitário e de uma coletividade solidária. Então, o problema se concentra em primeiro lugar na desarticulação da comunidade e de seus lideres que passam a agir por conta própria em nome do coletivo, mas sem uma base coletiva. Segundo, com o crescimento do individualismo interno, os que podem mais se apropriam da riqueza do coletivo, favorecendo um clima desigualdade social entre as pessoas, na medida que uns poucos usufrui das riquezas, bens e serviços inerentes a todo grupo. O desenvolvimento interno esta sendo neste momento um desafio na medida em que buscar atender de maneira desarticulada com a dinâmica interna grupo, toda a comunidade sem que deixe margem à exclusão social, econômica e ambiental. Mas pela ausência de maturação e experiência dos seus promotores (organizações), percebe-se que esse desenvolvimento não está alcançando todos os membros da comunidade. Apesar de a comunidade indígena ter atingido um nível de desenvolvimento econômico e social considerável, comparados a tempos anteriores, muito ainda precisa ser feito para que todos os seus membros possam viver de forma justa e em harmonia. Primeiro, que seja trabalhado o senso comunitário no grupo, onde os laços de confiabilidade e solidariedade sejam resgatados entre as pessoas, e que para isso é necessário que se tenha uma educação priorizada, capaz de promover esses princípios e valores tão distantes do contexto da comunidade. Segundo, que as lideranças indígenas assumam postura de autênticos lideres, e assumam suas responsabilidades diante da comunidade enquanto chefes responsáveis pela promoção do desenvolvimento social, econômico, político e bem-está da sua comunidade.Terceiro, é necessário que se faça uma redistribuição de toda riqueza coletiva (a terra e seus bens) de forma igualitária, para que todos possam usufruir de forma justa as riquezas naturais, bens e serviços econômicas e ambientais existente na base territorial. Quanto, que as organizações indígenas e nãoindígenas que atual na comunidade sejam capazes de expandir e descentralizar projetos que são desenvolvidos nos núcleos familiares, promovendo projetos de sustentabilidade territorial, ao invés de projetos emergências de cunho capitalista e excludente.

REFERÊNCIA BRASIL. Projeto BRA 09/32. GEF-Indígena. Catalisando a contribuição das Terras Indígenas para a conservação dos ecossistemas florestais brasileiros. Brasília, 2010.
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CUNHA, M. C. Populações tradicionais e a Convenção da Diversidade Biológica. Conferência do Mês do Instituto de Estudos Avançados da USP, 17 de junho de 1998. DIEGUES, A. C. Sociedades e Comunidades Sustentáveis. São Paulo: USP/NUPAUB. 2003. Acesso em 01.10.2009. Disponível em www.usp.br/nupaub/comsust1.pdf. DIEGUES, A.C. O Mito moderno da natureza intocada. 3ed. São Paulo: Hucitec, 2001. HANAZAKI, N. Comunidades, conservação e manejo: o papel do conhecimento ecológico local. Biotemas, 16 (1): 23 – 47, 2003. LAKATOS, E. M. Metodologia do trabalho científico. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2001. MATOS, A. P. Preservação ou uso racional de Unidades de Conservação de Proteção Integral por comunidades tradicionais: O caso do Parque Nacional do Descobrimento e a Comunidade Pataxó. Dissertação de Mestrado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente – Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, 2007. PARAÍSO, M. H. B. Relatório sobre a História e situação da Reserva dos Postos Caramuru e Catarina Paraguaçu, apresentado a Fundação Nacional do Índio – FUNAI. Convenio FUNAI-UFBA. Salvador, 1976. REZENDE, E. A. e RIBEIRO, M. T. F. Conhecimento tradicional, plantas medicinais e propriedade intelectual: biopirataria ou bioprospecção? REV. BRAS. PL. MED., Botucatu, v.7, n.3, p.37-44, 2005. SILVA, M. G. Questão ambiental e desenvolvimento sustentável: um desafio ético-político ao serviço social. São Paulo: Cortez, 2010.

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TURISMO, INDÚSTRIA E ENSINO DE GEOGRAFIA EM PECÉM - SÃO GONÇALO DO AMARANTE/CEARÁ

Felipe da Rocha BORGES Licenciado em Geografia - Bacharelando em Geografia UFC felipe_darocha@hotmail.com Juliana Felipe FARIAS Mestranda em Geografia UFC julianafelipefarias@yahoo.com.br

RESUMO

A Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), nos últimos anos, passou por intensas modificações sócio-espaciais. As políticas públicas foram responsáveis, por tais mudanças, e pela dinâmica econômica no Estado do Ceará. A implantação do porto do Pecém, distrito de São Gonçalo do Amarante, resultado de uma dessas políticas, modificou tanto as formas, quanto as funções desse município na RMF. Durante a década de 1980 e 1990, o Programa de Desenvolvimento do Turismo (PRODETUR) teve como objetivo impulsionar a atividade turística no Nordeste criando pólos turísticos ao dotar o espaço de infra-estrutura, com a construção de estradas e ampliação de aeroportos. Entretanto, no início dos anos dois mil, no município de São Gonçalo do Amarante foi construído, na Ponta do Pecém, um novo porto na RMF e instalado o Complexo Industrial. Esta atividade econômica alterou a função do município e lhe impôs outra dinâmica econômica. Este trabalho visa discutir as transformações intra-urbanas ocorridas no distrito de Pecém, o novo papel desempenhado por São Gonçalo na rede urbana brasileira, e as influências destas transformações no ensino de Geografia, mais precisamente na EEFM Edite Alcântara Mota. Para realização deste trabalho foram realizadas pesquisas bibliográficas, visitas em órgãos públicos, levantamentos de dados e cartográficos, que permitiram observar as alterações na dinâmica econômica e espacial do município e da RMF, resultado da implantação de políticas públicas, bem como entrevistas com professores e coordenadores, além da aplicação questionários com os estudantes. PALAVRAS - CHAVE: Políticas públicas, Porto do Pecém, transformações sócio-espaciais.

INTRODUÇÃO

As transformações nas quais o distrito de Pecém tem passado nos últimos anos foram motivadas pelas diferentes políticas de desenvolvimento econômico implantadas no Estado do
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Ceará. No início da década de 1990, a intenção do Governo era explorar o litoral cearense através do turismo. Dessa maneira, foram criados os Programas de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), que tiveram inicialmente investimentos estaduais e posteriormente federais. Com essa política, o espaço cearense, principalmente o litoral, foi dotado de infra-estrutura, com o intuito de receber os empreendimentos turísticos. Foram construídas rodovias, além da implantação do sistema de saneamento. Pecém recebeu a CE-085 (estruturante) e a CE-421 (de acesso). Outra obra, que de certa forma influenciou na atração de turistas, não só para Pecém, mas para todo o Ceará, foi o aeroporto internacional Pinto Martins. Além de realizar grandes obras de infra-estrutura, o Governo do Estado investiu de forma incisiva na transformação da imagem do Ceará, que até meados década de 1980 tinha uma relação intrínseca com a seca, essa sendo a principal bandeira para atração de investimentos. No entanto, para um Estado que busca atrair turistas a imagem de fome e de pobreza, onde o sol castiga a população, não interessa. Sendo assim, foram realizadas diversas campanhas publicitárias objetivando modificar a imagem do Estado cearense. A estratégia de investimentos para o litoral parecia seguir uma linha, a do turismo. No entanto, no final da década de 1990, o Governo do Estado inicia a busca por um local para abrigar um novo porto, pois o principal porto cearense, o do Mucuripe, estava saturado e não tinha mais espaço para crescer, além de ficar dentro de Fortaleza, fator que dificulta o trânsito de caminhões. Dessa maneira, o local escolhido para a implantação do novo porto foi Pecém, por três motivos principais: estar próximo a Fortaleza, acerca de 60 km; ter infra-estrutura, como rodovias; e possuir uma ponta litorânea, que reduz a ação das marés facilitando a atracagem de navios. No projeto de construção do porto do Pecém também constava um complexo industrial, que tinha como principais investimentos uma siderúrgica e uma refinaria. No entanto, esses empreendimentos não foram concretizados logo de início, fazendo com que o porto passasse a exportar outros produtos, como calçados, pescado e frutas. Dessa maneira, o fluxo de investimentos, inicialmente, centrou-se na construção do porto, fator esse que atraiu diversos trabalhadores, principalmente ligados a construção civil, para trabalharem nesse local. Com a construção do porto iniciada e a grande atração de trabalhadores, a realidade de Pecém sofre grandes transformações. A economia local se diversifica, são abertos vários empreendimentos para atender essa população, e a especulação imobiliária se intensifica. Com o fim da construção do porto, a população atraída para trabalhar nessa migra para outros locais, fazendo com que a economia local retraia. No entanto, na segunda metade da década de 2000 várias indústrias já estão instaladas gerando uma quantidade de empregos considerável, e com projeções de expansão. Além dessas indústrias já instaladas iniciam-se as obras de várias outras, que vêm gerar diversos empregos, novamente na construção civil.
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Com o fluxo de trabalhadores voltando a se intensificar, Pecém tem sua economia estimulada novamente, bem como a intensificação da especulação imobiliária, tendo em vista que os trabalhadores se instalam neste distrito. Dessa forma, os moradores locais, passam a adaptar suas casas para alugarem para trabalhadores do porto. Podem ser identificadas tanto construções com um padrão inferior, para população com renda baixa, quanto para classes mais abastadas. Além dessas transformações, Pecém passa a ter um índice de violência mais elevado, bem como tem o aumento da prostituição e de usuários de drogas.

MAPA 1: Localização do distrito de Pecém e do CIPP. Fonte: BORGES, 2011.

1 POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

No ano de 1989 é criado, pelo Governo do Estado, o Programa de Desenvolvimento do Turismo do Ceará (PRODETURIS/CE), que teve como meta principal desenvolver o turismo litorâneo no Estado. Para isso foram criadas quatro regiões litorâneas que o governo julgou possuir vocação para a atividade turística. Região I Região Metropolitana de Fortaleza; Região II Caucaia, São Gonçalo do Amarante, Paracuru, Paraipaba, Trairi e Itapipoca; Região III Aquiraz, Cascavel, Beberibe, Aracati, Icapuí, Pindoretama e Fortim; Região IV Amontada, Itarema, Acaraú, Cruz, Camocim, Barroquinha, Chaval, Granja e Jijoca de Jericoacoara. De acordo com a Secretaria Estadual de Turismo do Ceará (SETUR) os objetivos desse programa eram desenvolver o turismo de forma planejada e sistêmica: fortalecer empresas,
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prefeitura e órgãos do meio ambiente; investir em infra-estrutura; estimular a participação da iniciativa privada; fomentar os investimentos no turismo, na agroindústria e no setor de serviços dos estados envolvidos e aumentar o nível de emprego e renda das populações envolvidas visando o desenvolvimento sustentável da região. O Governo do Estado, ao investir na atividade turística, necessitava desvincular a imagem do Ceará da seca, da fome e da pobreza, pois essa foi à imagem construída do Estado durante os governos anteriores (governo dos coronéis40) para receberem ajudas assistencialistas alimentando a chamada indústria da seca41. No entanto, para o turismo se desenvolver era necessário criar uma nova imagem do Ceará. Dessa forma:

O sol, antigo portador das inclemências e flagelos das secas, passa a ser veículo irradiador de novos e bons tempos de prazeres banhados em águas tropicalientes, onde certamente não serão lavados e redimidos os flagelos sociais da maioria da população da Terra da Luz (BENEVIDES, 1998, p.38)

No período do governo dos coronéis o mote principal para atração de investimentos centrava-se na formulação de uma imagem do Estado atrelada a seca, onde a irregularidade climática atrasava o desenvolvimento do Ceará. Nesse contexto, são instalados em Fortaleza diversos órgãos públicos, como o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS), Banco do Nordeste do Brasil (BNB), Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Desse modo, nasce uma nova classe média em Fortaleza com renda fixa formada por funcionários públicos desses órgãos recém criados. Nesse contexto se inicia a ocupação do litoral cearense por residências de veraneio. Na década de 1990, impulsionado pelos Programas de Desenvolvimento do Turismo, tal processo chega ao município de São Gonçalo do Amarante. Sendo assim, Pecém, que até então era um lugarejo tranqüilo passa a ser alvo de especuladores imobiliários, e passa a abrigar residências de veraneio. Dessa forma, se inicia a produção do espaço de Pecém segundo a lógica da atividade turística

A ocupação se desenvolveu principalmente nas dunas e na entrada da vila, com segundas residências de veraneio, como pousadas e restaurantes que também foram se alocando a partir da chegada daqueles que apostavam no comércio, voltado aos visitantes e à população local (BATISTA, 2005, p.188).

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Governo dos coronéis: período em que o governo do Estado do Ceará foi dominado por latifundiários, que eram denominados por coronéis. 41 Indústria da seca: atração de investimentos utilizando o pretexto da irregularidade climática. Geralmente as verbas destinadas ao combate a seca eram desviadas.

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O principal impacto do Programa de Desenvolvimento do Turismo (PRODETUR I) em São Gonçalo do Amarante foi à construção de infra-estrutura. De acordo com a SETUR (2002), esse município recebeu investimentos para construção de estradas, além da implantação e ampliação de esgotamento sanitário e abastecimento d’água. Foram construídos ao todo 55,87 Km de estradas, sendo 34,40 Km de estruturante, que ligam Pecém a Fortaleza, e aos demais municípios do Estado, a conhecida rota do sol poente; e 21,47 Km de rodovias de acesso a São Gonçalo do Amarante. Os demais investimentos do PRODETUR em Pecém relacionados a transporte foram a construção das CE-085, CE 341 nos trechos que ligam Pecém a Taíba, e Pecém a Siupé. Outro investimento, que não foi em Pecém, mas teve influência direta no acréscimo de turistas foi o Aeroporto Internacional Pinto Martins. São Gonçalo do Amarante passou a despontar como um dos principais pontos turísticos do litoral oeste cearense. As residências de uso ocasional, utilizadas principalmente por veranistas, apresentaram um sensível crescimento no decorrer do período de 1980 a 2000. Na primeira data este município possuía 256 residências deste tipo, sendo apenas o oitavo município em termos de residências de uso ocasional. Duas décadas depois esse número é ampliado para 1.882, tendo um crescimento de 86%. Em 2000, São Gonçalo do Amarante passa a ser o quinto município cearense com mais residências de uso ocasional, impulsionado pelos distritos litorâneos Taíba e, principalmente, Pecém.

2 A CONTRADIÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS: IMPLANTAÇÃO DO COMPLEXO INDUSTRIAL E PORTUÁRIO

A estratégia de investimentos para o litoral parecia seguir uma linha, a do turismo. No entanto, no final da década de 1990, o Governo do Estado inicia a busca por um local para abrigar um novo porto, pois o principal porto cearense, o do Mucuripe, estava saturado e não tinha mais espaço para crescer, além de ficar dentro de Fortaleza, fator que dificulta o trânsito de caminhões. Dessa maneira, o local escolhido para a implantação do novo porto foi Pecém. Pesaram a favor desse distrito, principalmente, três fatores, o primeiro, um fator natural, ligado a geomorfologia da área, a presença de uma ponta litorânea42, que reduz a intensidade das ondas. O outro fator foram às vias de acesso para Pecém, que foram construídas pelos Programas de Desenvolvimento do Turismo, por último a proximidade com a capital do Estado, Fortaleza, aproximadamente 60km.

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Para saber mais sobre o litoral cearense e a ponta do Pecém consultar: CLAUDINO SALES, V. C. Os Litorais cearenses.P. 231 – 260. In_ SILVA J. S. B. [et al]. Ceará: um novo olhar geográfico. 2ª ed. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2007.

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Dessa forma, a infra-estrutura implantada para dar suporte à atividade turística passa a ser utilizada para outros fins. Atualmente, o fluxo de caminhões nas rodovias que dão acesso ao Pecém é intenso. Nesse contexto, surge a contradição de usos impostos pelo Estado ao litoral de São Gonçalo do Amarante, tendo em vista que as atividades industriais e portuárias não condizem com o turismo. Dessa forma, os turistas, que antes procuravam a praia do Pecém nos finais de semana e feriados, passaram a se dirigir ao distrito vizinho de Taíba.

2.1 CONSTRUÇÃO DO COMPLEXO INDUSTRIAL E PORTUÁRIO DO PECÉM E TRANSFORMAÇÕES SÓCIO-ESPACIAIS

Desde o fim da década de 1990, Pecém abriga um Complexo Industrial e Portuário (CIPP), que atualmente gera mais de dois mil empregos diretos, tendo como projeção para 2016 gerar mais dezesseis mil empregos diretos. Tais empregos, em sua maioria, requerem determinada especialização, por, principalmente, serem exercidos em Indústrias. Tal fato faz com que grande parte da mão de obra que atua no CIPP seja de outros estados, e países. Para a população local, formada, principalmente, por habitantes de comunidades pesqueiras, sobram os empregos no porto, que necessitam de pouca especialização. O CIPP levou para o distrito de Pecém uma série de mudanças sócio-espaciais. Inicialmente, com a construção do porto, houve considerável fluxo migratório para o local, pois foram criados diversos empregos, principalmente relacionados à construção civil. No entanto, vale ressaltar que cerca de 40% dessa mão de obra era de São Gonçalo do Amarante e de municípios vizinhos (BATISTA, 2005). Nesse primeiro momento não houve grande fixação dessa população atraída para trabalhar em Pecém, pois o preço das casas e terrenos aumentaram bastante, devido à especulação imobiliária motivada pela implementação deste projeto. A população atraída para trabalhar no porto fixou-se em municípios vizinhos, destacando-se a praia de Icaraí em Caucaia. Além de motivar à especulação imobiliária, a construção do Porto do Pecém diversificou a economia local, tendo em vista que se ampliou o número de pousadas e estabelecimentos comerciais. Após o término da construção do porto, no início dos anos 2000, muitos trabalhadores partiram, pois a atividade portuária não gera número elevado de empregos devido parte de suas atividades serem desenvolvidas por equipamentos que necessitam de poucos operadores. Dessa forma, neste segundo momento, a economia de Pecém retraiu-se por conta do deslocamento dos trabalhadores da construção civil para outros locais.
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O porto foi construído para abrigar um grande complexo industrial, e se entreposto para a produção regional. Como as indústrias não se instalaram no período esperado, o porto teve de buscar outras mercadorias para exportar. Dessa maneira, o porto do Pecém passou a exportar frutas, calçados e pescados. Atualmente esse porto é o maior exportador do Brasil dos dois primeiros produtos acima citados. No fim da década de 2010, várias empresas começaram a se instalar no CIPP - foram gerados 2.176 empregos diretos, tendo ocorrido R$ 1.743.630.000,00 de investimentos por parte das empresas instaladas - fazendo com que a economia local voltasse a ser estimulada. Até o ano de 2016 devem se instalar mais sete empresas, com investimento total de R$ 43 bilhões, gerando 14.510 empregos diretos. Dentre as empresas, que já possuem acordos para se instalar, destacam-se a Petrobrás, com uma Refinaria de Petróleo, com um investimento total de R$ 19 bilhões, gerando cerca de 8.000 empregos diretos e a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), que é uma parceria das empresas Companhia Vale do Rio Doce, Dongkuk e Posco. A siderúrgica terá R$ 13 bilhões de investimentos e deverá gerar 5.500 empregos. No novo período vivenciado nesse distrito a população atraída para trabalhar no local passa a morar em Pecém. Dessa forma, o espaço deste distrito passa a ser produzido sob uma lógica diferenciada. Dentre as modificações espaciais ocorridas destaca-se a construção de um loteamento de alto padrão, justamente para a mão de obra mais qualificada do CIPP, além do aumento da especulação imobiliária. Além de uma estratégia de atração de investimentos o CIPP representa para o Estado do Ceará a modernização de sua imagem, tendo em vista que por um longo período, até quase o final do século XX, o Ceará esteve atrelado à imagem da seca. No entanto (com a mudança no governo do Estado) com o fim da era dos coronéis, e a posse do governador Tasso Jereissati, líder do empresariado cearense, a vinculação da imagem do Ceará com a seca e a pobreza não interessa mais, pois o Estado passa a direcionar seus investimentos para o turismo. Nesse contexto, a imagem negativa que era passada do Ceará foi substituída por propagandas positivas. Dessa forma, o sol que antes era tido como causador do atraso, passa a ser visto como atrativo turístico. Na busca pela valorização da imagem cearense, são realizadas diversas outras ações, dentre elas destacam-se os Programas de Desenvolvimento do Turismo (PRODETUR) no início da década de 1990, e a construção do CIPP, na segunda metade da mesma década. Esse empreendimento não é construído por Tasso, mas por Ciro Gomes, então aliado político do antigo governador. Ciro dá continuidade ao projeto de modernização do Estado com vários projetos vultuosos. As diversas políticas públicas de desenvolvimento econômico implementadas em Pecém, entre as décadas de 1990 a 2010, propiciaram a esse um crescimento populacional superior a do
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município de São Gonçalo do Amarante. Enquanto Pecém teve um acréscimo em sua população de 61%, São Gonçalo do Amarante cresceu apenas 41%. As principais atividades econômicas desenvolvidas em SGA são o turismo, destacando-se o distrito de Taíba; e as atividades industriais, destacando-se o distrito de Pecém, devido o CIPP. As atividades turísticas em Taíba produziram segundas residências, que não atraem população para se fixar definitivamente no local. Já no distrito de Pecém, devido às atividades industriais, a população deste distrito já supera a da sede municipal. 2.2 CARACTERIZAÇÃO DOS ESTUDANTES DA EEFM EDITE ALCÂNTARA MOTA – PECÉM

Nesta etapa da pesquisa objetivou-se identificar o perfil dos estudantes da Escola de Ensino Fundamental e Médio Edite Alcântara Mota, além da relação desses com o CIPP. Dessa maneira, foram aplicados questionários em séries do ensino fundamental e médio. No total foram cem estudantes responderam os questionários, o que representa cerca de 10% dos estudantes desta escola, que possui 1.050 alunos. Na primeira etapa do questionário, identificou-se que os estudantes tinham entre 15 e 25 anos, 27% possui 15 anos e 22% possui 17 anos. Relacionando a idade dos estudantes com as respectivas séries pode-se constatar que há um pequeno número de estudantes que está fora da faixa etária correta. De acordo com a coordenadora da escola, a oferta de empregos para estudantes é intensa. Com isso, vários alunos mudam para o turno da noite para trabalhar durante o dia. No entanto, alguns ainda permanecem no turno da manhã e da tarde, trabalhando nos demais horários livres. Com a aplicação dos questionários identificou-se que apenas 8% dos discentes trabalham. Todos trabalham no CIPP. O índice dos estudantes que trabalham é maior no 3º ano, onde 20% dos alunos desenvolvem alguma atividade remunerada. Em relação à origem dos estudantes apenas 26% nasceu no distrito de Pecém. Dessa maneira, 74% dos estudantes nasceram fora de Pecém, tendo Fortaleza como principal município de origem destes estudantes, com 33%. Apenas 6% nasceu fora do estado, destacando-se São Paulo e Maranhão, cada um com 2% . Esses números revelam a intensa migração ocorrida para Pecém, devido ao grande número de empregos gerados neste distrito, principalmente na construção civil. Segundo a coordenadora da escola, devido ao fato dos empregos gerados atualmente serem na maioria ligados a construção civil, quando as obras terminam os trabalhadores atraídos para estas obras tendem a ir embora. Dessa maneira, há uma grande evasão de estudantes durante o ano.
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Em relação aos pais dos estudantes a maioria nasceu em Pecém, 31%, seguido por Fortaleza e Caucaia, com 20% e 10% respectivamente. Apenas 6% dos pais de estudantes nasceram fora do estado, tendo como destaque Maranhão, com 3%. Dessa maneira, 64% dos pais de estudantes nasceram fora de Pecém. Quando relacionamos os dados de origem dos estudantes e de seus pais podemos perceber que a maior parte dos primeiros nasceu em Fortaleza, e dos segundos nasceu em Pecém, dessa maneira fica clara a intinerancia dessa população que nasceu em Pecém, migrou para outros municípios, constituiu família e voltou para Pecém. Esse fenômeno pode ser relacionado com os diferentes momentos vivenciados pelo distrito de Pecém, quando no início da década de 1980 esse se constituía em uma vila de pescadores, passando na década seguinte para um ponto turístico e na década de 2000 passou a abrigar um Complexo Industrial e Portuário. Dessa maneira, podemos verificar que no período da década de 1980 a população não possuía empregos, com isso tinha de migrar para outros lugares em busca de oportunidades. No entanto, com o início da construção do porto do Pecém e da instalação de diversas indústrias, esta população que havia migrado para outros lugares retorna para Pecém devido à oferta de empregos. O emprego que mais se destaca entre os pais dos estudantes é de pedreiro com 15%, seguido por segurança com 6%, motorista com 5%, e ajudante no porto do Pecém também com 5%. Grande parte dos estudantes, 19%, não respondeu essa questão justificando que o pai havia falecido ou que não o conhecia. Apesar da grande oferta de empregos 6% dos pais de estudantes estão desempregados. A prestação de serviços se destaca dentre tais profissões, ligadas principalmente a construções, o que não gera estabilidade financeira para estes trabalhadores, tendo em vista que quando tais obras terminam, eles tendem a ficar desempregados e a migrar para outros locais que estejam disponibilizando empregos nesse setor. No tocante as mães dos estudantes, grande parte também nasceu em Pecém, 34%. Fortaleza e Caucaia vêm em seguida com 19% e 11% respectivamente. Dessa maneira, 66% das mães dos estudantes nasceram fora de Pecém e migraram para este distrito. Em entrevista realizada com a coordenadora da escola pôde-se constatar que grande parte das famílias que migram para Pecém têm a renda do pai como a principal da família. Sendo assim, as mulheres acompanham os maridos junto com os filhos e tendem a serem donas de casa. Dessa maneira, quando analisamos a ocupação das mães dos estudantes podemos constatar que a maior parte é dona de casa, 37%, seguido por domésticas com 19% e cozinheira com 7%. Dessa maneira, podemos observar que os empregos, tanto dos pais dos estudantes, quanto das mães, são socialmente desvalorizados, o que reflete diretamente na remuneração desses e na renda familiar. A maioria dos estudantes afirmou possuir renda familiar entre 1 e 3 salários mínimos, 86%. Os estudantes que afirmaram possuir renda familiar entre 4 e 6 salários mínimos
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somou 13%, e apenas um estudante afirmou possuir renda superior a 10 salários mínimos. Com exceção do estudante que possui renda superior a 10 salários mínimos pôde-se perceber que quando o estudante trabalha a renda familiar chega a fixar-se entre 4 e 6 salários, o que enfatiza a má remuneração dos trabalhos dos pais.

3 DESAFIOS ENFRENTADOS PELA EEMF EDITE ALCÂNTARA MOTA E O ENSINO DE GEOGRAFIA FRENTE AS TRANSFORMAÇÕES SÓCIOESPACIAIS OCORRIDAS EM PECÉM

As transformações sócioespaciais ocorridas em Pecém decorrentes das políticas públicas de desenvolvimento econômica, alteraram de forma significativa a realidade da população local. A construção do Porto e do Complexo Industrial atrairam e atraem força de trabalho para o CIPP (Complaxo Industrial e Portuário do Pecém). Essa atração populacional fez com que os preços das habitações na região aumentassem drasticamente, além da ampliação dos usuários de drogas e da prostituição. Nesse contexto, encontra-se a EEMF Edite Alcântara Mota, que enfrenta várias dificuldades frente a essas modificações ocorridas em Pecém. Dentre elas podemos citar o grande número de transferências no decorrer do ano letivo, a grande oferta de empregos para os estudantes, que ao assumirem essas atividades precisam mudar de turno no colégio. Em entrevista com a coordenadora desta escola ela afirma que as mudanças ocorridas em Pecém se acentuaram nos últimos anos. Esta professora afirma ainda que trabalha na referida escola desde o início da década de 2000, e assegura que no início os estudantes e seus pais viviam da pesca “nossos alunos viviam e só falavam de pesca, meu pai arrendou o barco não sei de quem, meu pai foi pro mar não sei que dia, tome um peixinho aqui pra professora, que eu trouxe, um camarão.” (R., R. Entrevista concedida em 21/11/2011) Esta realidade, segundo a professora, perdurou até meados de 2006, quando ela teve que mudar para a sede do município. No ano seguinte, ao retornar a mesma escola, a professora se depara com uma realidade totalmente diferente, como afirma

Quando eu entro em sala de aula, aí tudo mudou, você não escuta um menino falando de mar, não se escuta um menino falando de praia, não se escuta um menino falando de barco, não se ouve nada [...] Só se ouve que eu vou pro CINE, que eu quero me transferir para a noite porque eu arrumei um estágio, porque eu arrumei um emprego. Meu pai agora não pode vir porque está trabalhando. Meu pai entra tal hora na firma sai tal hora. Minha mãe entra na firma tal hora, sai tal hora [...] Eu digo valha-me cristo como as coisas mudam. (R., R. Entrevista concedida em 21/11/2011)

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Fica claro na fala da coordenadora da escola que a realidade dos estudantes de Pecém se transformou em um curto período de tempo, saindo da tranqüilidade de uma vila de pescadores, onde o principal assunto dos estudantes é o mar e a pescaria, para um distrito industrial, onde o tempo passa a ser regido pelo trabalho. Outra transformação ocorrida em Pecém, segundo a professora de Geografia foi relacionada à educação. Antes da instalação do CIPP não havia escolas de ensino médio em Pecém, que foram instaladas neste distrito em 2001, após a construção do Porto. Segundo a professora

Até antes do porto não havia ensino médio no Pecém. O ensino Médio no Pecém vem em 2001, devido ao porto, aumento populacional na região e da necessidade na questão das indústrias de ter pelo menos pessoas com o ensino médio, então a escola veio para Pecém. Foi uma melhoria para a população. (A.B. Entrevista concedida em 21/11/2011)

Com a criação de novos postos de empregos, principalmente, na construção civil, a população de Pecém não conseguiu suprir a demanda. Dessa maneira, são atraídos para este distrito vários trabalhadores, que em alguns casos levam a família junto. Sendo assim

Você entra em uma sala dessas de aula você vê menino de tudo quanto é canto. Porque os filhos vêm estudar. Os que trazem família, os que têm um emprego um pouco melhor, os encarregados, ou alguns Peões que não agüentam passar muito tempo longe da família, eles vêm e matriculam os meninos (R., R. Entrevista concedida em 21/11/2011)

Como a chegada de trabalhadores ocorre durante todo o ano, os filhos tendem a se matricular no decorrer do ano letivo. Nesse contexto, ocorrem vários contratempos, como os alunos virem sem transferência ou a escola de origem não possui algumas das disciplinas existentes no currículo da nova escola, fazendo com que o aluno fique sem nota, tendo arranjar outras formas para solucionar esses problemas. Em relação ao ensino de Geografia, segundo as entrevistas realizadas, não há uma preocupação da escola com deficiência dos alunos que vêm de outros lugares. Os alunos têm de recuperar o tempo perdido por conta própria. O esforço da escola refere-se a questões burocráticas de transferência e adequação das notas pendentes. Em entrevista a professora de Geografia, formada pela Universidade Vale do Acaraú, no ano de 2011, informou que tenta trabalhar os conteúdos de Geografia da forma mais adequada possível, não se utilizando apenas dos livros didáticos e buscando relacionar os conteúdos com a realidade dos estudantes. No entanto, na escola só há uma professora de Geografia, que ministra aulas para as turmas do ensino fundamental. Esta disciplina, no ensino médio é trabalhada por dois professores de
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Português, fazendo com que os demais estudantes tenham aulas centradas em métodos tradicionais de ensino (tal fato foi identificado nos questionários aplicados). No entanto, é difícil exigir destes profissionais um tratamento adequado desta disciplina, uma vez que possuem formação em outra área.

CONCLUSÃO

As transformações sócio-espaciais ocorridas nos últimos anos em Pecém influenciaram de forma expressiva na realidade vivenciada pelos habitantes deste local. Sendo assim, a EEFM Edite de Alcântara Mota teve de se adaptar a essa nova realidade, tendo que realizar campanhas contra as drogas e a prostituição, além adaptar as atividades burocráticas da escola, como a transferência de estudantes, a essa nova realidade, e a adequação dos currículos. Além desses, a rotatividade de trabalhadores, principalmente nas construções, faz com que os estudantes viajem junto com os pais, abandonando a escola no decorrer do ano letivo, elevando os índices de evasão escolar. Até o início da década de 2000, as principais atividades econômicas desenvolvidas em Pecém eram a pesca e os serviços relacionados à atividade turística. No decorrer dos anos, a atividade portuária e industrial começou a crescer, criando diversos postos de emprego, principalmente na construção civil. Dessa maneira, os estudantes também começaram a ser absorvidos pelo mercado de trabalho. No entanto, essas transformações atingiram também o ensino de Geografia, que, segundo a professora de Geografia da referida escola, se adequou a essa nova realidade, onde as aulas são contextualizadas com a realidade de Pecém e trabalhadas de forma dinâmica. Mas, devido às dificuldades enfrentadas pela escola no âmbito do quadro docente, principalmente da disciplina Geografia que só há uma professora, a grande maioria dos estudantes da escola tem aulas expositivas, centradas unicamente nos livros didáticos.

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TURISMO SOLIDÁRIO: UMA DISCUSSÃO CONCEITUAL DO SEGMENTO Geniny Andrade MOREIRA43 geniny.amoreira@yahoo.com.br Nayane Gonçalves MENEZES44 nayanegm@hotmail.com Cynthia Regina Fonte Boa PINTO45 cynthia.fonteboa@ufvjm.edu.br

RESUMO

Encontra-se no setor turístico de caráter local diversas modalidades que se estendem às comunidades, tais como, Turismo Solidário, Turismo de Base Comunitária, Turismo Social, Turismo Sertanejo, Ecoturismo, Turismo Sustentável dentre outros. Esses segmentos turísticos ocorrem devido ao interesse de comunidades que estão inseridas em áreas com atrativos serem explorados adequadamente de tal forma que o desenvolvimento social, econômico, cultural, ambiental seja almejado através da atividade turística. Dessa forma, utilizando o método de pesquisas bibliográficas fundamentadas em livros e artigos publicados de diversos autores da área e de órgãos como o Ministério do Turismo, o presente artigo tem como objetivo primordial realizar uma discussão conceitual sobre o Programa Turismo Solidário que acontece nas regiões do Vale do Jequitinhonha e Norte de Minas Gerais, bem como, analisar os diferentes segmentos que se envolvem com o turismo em comunidades, além de efetuar uma relação entre a diversificação desses segmentos com o Turismo Solidário. PALAVRAS-CHAVE: Turismo Solidário; Turismo de Base Comunitária; Segmentos Turísticos; Conceituação.

INTRODUÇÃO

O turismo é uma atividade relativamente nova que somente a pouco foi considerada merecedora de investimentos e estudos. Apesar disso, a importância econômica que tem o turismo
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Bacharel em Serviço Social pela Universidade Estadual de Montes Claros e graduanda do curso de Bacharelado em Humanidades/Turismo pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri; 44 Graduanda do curso de Bacharelado em Humanidades/Turismo pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. 45 Turismóloga, Especialista em Planejamento Turístico e Desenvolvimento Sustentável, Mestre em Turismo e Meio Ambiente. Professora do Departamento de Turismo e Pró reitora de Administração da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.

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na atualidade gera um impacto bastante significativo sobre os ambientes, a sociedade e a economia, mostrando a necessidade de um maior amadurecimento da área, de acordo com Cooper (et al, 2002). Tendo em vista o fator econômico, Bartholo et al (2009) afirma que a atividade turística no Brasil é de extrema importância na geração de empregos e renda, além de contribuir para uma redução das desigualdades sociais e regionais. Os gestores e profissionais, assim, apontam a necessidade de conquistar espaços novos e diferenciados, distintas da oferta habitual, e com vistas a novas respostas às tendências das demandas turísticas. Diante de públicos tão singulares, é necessário que o turismo tenha uma dinamicidade ímpar, pois, o turismo apresenta um acelerado desenvolvimento em que, o novo turista, de acordo com Cooper (et al, 2002), não se coloca mais à disposição de uma experiência passiva, procura sim um entendimento maior da cultura, da historicidade e do ambiente ao qual se propõe visitar. Com base no que foi aposto por Cooper, se torna de extrema importância o entendimento do que são e venham a ser as novas tendências para um planejamento e gerenciamento de sucesso para satisfação das demandas cada vez maiores desse novo turista sobre os destinos pretendidos, de modo ainda, que estes destinos sejam implementados com base nos ideais de sustentabilidade 46 dos mesmos. Desta forma, é possível observar a necessidade dessas novas tendências dentro da atividade turística que contemplem as demandas atuais que envolvem algo muito mais além do que uma simples paisagem, por exemplo. O turismo deve encontrar meios contemporâneos de ofertas de destinos, pensando nos locais de forma social, econômica, histórica e culturalmente. Com a intenção de ampliar os horizontes da atividade turística no estado de Minas Gerais, foi lançado no ano de 2003 o Programa Turismo Solidário. O Programa é uma modalidade de Turismo que está baseada nessas novas tendências do turismo, onde as potencialidades do Vale do Jequitinhonha e Norte de Minas são as principais atrações. O Turismo Solidário tem o intuito de estimular a atividade turística além de despertar no turista um sentimento de humanização com objetivo de que ele ajude o desenvolvimento da região de forma direta, podendo com isso, conhecer as belezas naturais e culturais das localidades envolvidas.

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A origem do termo Desenvolvimento Sustentável surge com a Comissão Mundial Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pela Organização das Nações Unidas em 1983, originando o Relatório Nosso Futuro Comum, divulgado em 1987 e define o desenvolvimento sustentável como aquele que atende às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras atenderem também às suas. O desenvolvimento sustentável refere-se a um novo modelo de desenvolvimento e sua emergência resulta da constatação de que era preciso uma via alternativa como resposta a um modelo civilizacional caracterizado por ser ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto. Embora ideologicamente perfeito, não se pode perder de vista que o conceito de desenvolvimento sustentável está ideologicamente atrelado ao capitalismo (CORDEIRO, 2011).

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Esse é o momento em que o turismo avança de um âmbito globalizado, onde os produtos são enquadrados no marketing internacional, para entrar em um turismo regional, com um interesse local. É uma busca pela valorização das comunidades locais e de sua cultura em relação à dignidade humana.

1 TURISMO SOLIDÁRIO

Surge no ano de 2003 um novo segmento do turismo que, de acordo com Figueiredo (et al, 2006), está ligado ao fomento do desenvolvimento sustentável e à cidadania nas regiões do Vale do Jequitinhonha e Norte de Minas, tendo como base o respeito às comunidades do local. O Programa Turismo Solidário é uma estratégia de desenvolvimento territorial tendo em vista a diminuição das diferenças social, cultural e econômica que historicamente se encontram incorporadas a essas regiões mineiras e em suas sociedades. No interior de Minas Gerais, para Fonseca e Pinto (2010), existem regiões que apresentam grandes desigualdades econômicas e desequilíbrios sociais com a presença de uma estrutura de produção rudimentar, de trabalho informal e uma reduzida capacidade de geração de trabalho e renda. Entre as regiões que se enquadram nesse perfil com uma realidade de baixos indicadores de desenvolvimento estão inseridos o Vale do Jequitinhonha e o Norte de Minas. Vem com o intuito do desenvolvimento econômico, aumento do capital humano e social das regiões através da atividade turística sendo o Programa Turismo Solidário uma alternativa proposta pelo Ministério do Turismo (MTur, S/A47), em conjunto com o IDENE, a Fundação Banco do Brasil e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE Minas), para ações com cunho de desenvolvimento econômico-sustentável e regional, tendo como alicerce importante as políticas públicas voltadas para a melhoria dos índices sociais e aumento do capital humano e social do lugar . Para Luiz Carlos Dias Oliveira (2006), até então, presidente do SEBRAE Minas, a ação do Projeto Turismo Solidário é uma proposta ousada que se engaja no compartilhar dos conhecimentos, das habilidades, das percepções de mundo e modos de vida, criando oportunidades de trabalho e renda para das comunidades envolvidas, o que significa somar o turista à população local no propósito único do desenvolvimento econômico e da inclusão social da região. De forma a completar Oliveira citado acima, pode-se considerar Fonseca e Pinto (2012), que apontam o Programa como uma modalidade nova de viagem com destaque ao estímulo do crescimento do fluxo de turismo na região de forma a contribuir para o desenvolvimento das comunidades envolvidas. Significa que o Turismo Solidário vem para cobrir as necessidades dessas
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Sem ano de publicação

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novas tendências dentro da área turística, além de apresentar um objetivo econômico, social e cultural de extrema importância para a região e suas comunidades. Ermano Batista Filho (2006), secretário de Estado de Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha, Mucuri, São Mateus e do Norte de Minas na época, vai ainda mais fundo ao propor o Turismo Solidário como a construção de uma cidadania que pode ser tida como uma real a factível alternativa de um desenvolvimento sustentável para aquelas comunidades que se dispuserem a fazer parte o Programa, através de condições transformadoras das potencialidades turísticas das localidades contempladas. De acordo com Coriolano (2006), o chamado desenvolvimento social tem como principal sustentáculo a satisfação das necessidades humanas fundamentais, além da geração de níveis crescentes da independência dos indivíduos inseridos em determinada comunidade, na articulação orgânica dos seres humanos com a natureza, tecnologia, a fim de que consigam se integrar nos processos globais de modo a respeitar os comportamentos e valores locais. Tendo isso em vista, a proposta primeira do Programa Turismo Solidário é trazer para a região do Vale do Jequitinhonha e Norte de Minas um novo turista que contribuirá ativa e positivamente com as comunidades, oferecendo da sua bagagem conhecimentos, técnicas, práticas e entretenimento que são confraternizados na construção do dia a dia das localidades. O turista pode atuar em áreas como a da educação, da saúde, cultura e lazer, ou qualquer outra que poderá beneficiar as comunidades envolvidas. Tomando como referência o site do Turismo solidário, tem-se a seguinte definição:

O Programa Turismo Solidário consiste em uma inovadora modalidade de Turismo, onde o turista irá conhecer a potencialidade que o Vale do Jequitinhonha e Norte de Minas têm escondidos em sua pobreza e sofrimento causados pelas mazelas sociais e econômicas. O programa consiste em despertar no turista solidário um sentimento humanista, para ajudar diretamente no desenvolvimento da região, além de conhecer suas belezas naturais como grutas, cachoeiras, rios, montanhas, vales e veredas que em outro lugar com certeza não se encontrarão juntos e também suas belezas culturais como o folclore peculiar e característico da região e o artesanato que é reconhecido mundialmente (TURISMOSOLIDÁRIO 48, 2012).

Ainda de acordo com o site oficial do Turismo Solidário supracitado, é o despertar do interesse do turista por um compromisso de participação no processo de transformação socioeconômico; da valorização da identidade cultural e preservação dos atrativos culturais e

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www.turismosolidário.com.br – acessado em 12 de abril de 2012

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naturais nas regiões e, concomitante a isso, a contribuição para o surgimento de novas oportunidades de trabalho, de negócios e da melhoria da renda das comunidades locais. Como elementos fundamentais para a implementação da proposta do Programa, segundo Fonseca e Pinto (2010, apud Pires e Alcarino, 2008), é preciso que nas localidades hajam carências socioeconômicas, culturais e ambientais, além de projetos solidários que farão parte das possíveis formas de atuação e participação dos turistas, dando a base necessária para que sejam protagonizadas as ações solidárias. Para tanto, Fonseca e Pinto (2010, apud SEDVAN, 2009), ainda pressupõem que há sempre um turista solidário disposto a transferir, de alguma forma, suas habilidades, conhecimentos e mesmo interesses, de modo a se tornar um dos atores principais do processo de transformação proposto pelo Programa diante das tantas perspectivas de melhoras de vida. A participação se torna um ato de mobilização social que, segundo Coreolano (2006), irá protagonizar uma mudança da realidade vivenciada pelas comunidades ajudando a superar o que chama de fatalismo, além do fato de que, com essa participação chega-se a compreensão de que é possível a construção de uma ordem social diversa da vigente. A participação chega a ultrapassar o ideal de estratégia política chegando a se tornar a conquista dos direitos. De acordo com Figueiredo (et al, 2010) nada pode continuar sem a participação todos os envolvidos com responsabilidade e compromisso, pois é a união de esforços que irá garantir uma coletividade ativa por transformações. Vale ressaltar que, num primeiro momento foram consideradas 20 localidades para implementação do Programa, quais sejam, Medanha, São João da Chapada, Capivari, Milho Verde, São Gonçalo do Rio das Pedras, Mato Grosso/Ribeirão, Couto de Magalhães de Minas, Gangorras, São Gonçalo do Rio Preto, Bonfim, Alecrim, Chapada do Norte, Cachoeira do Norte, Santa Rita do Araçuaí, Grão Mogol, Extrema, Cafezal, Coqueiro Campo/Campo Buriti e Campo Alegre. Segundo Walfrido dos Mares Guia, ministro do Turismo no ano de 2005, se houver um amadurecimento do processo de mobilização e engajamento social, o Programa poderá determinar uma nova política que se envolva com o desenvolvimento regional, em que a atividade turística se posicionará como principal vetor. Para tanto, o Ministério do Turismo deve articular ações que permitam aos municípios enfrentar problemas estruturais não gerenciáveis por eles isoladamente tais como o Programa Turismo Solidário. Resumindo, a ideia do Programa está em levar a esses novos turistas o Vale do Jequitinhonha e Norte de Minas com o intuito de que eles venham a contribuir de forma positiva com as comunidades e seus moradores. O Turismo Solidário poderá contribuir para as cidades que são visitadas com técnicas diversas, conhecimentos e ações em várias áreas como na educação, lazer, saúde, cultura, entre outros, participando diretamente dos processos de desenvolvimento
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econômico e social. O turista solidário tem, ao mesmo tempo, o prazer da viagem e o conhecimento de novos lugares juntamente com a transformação social de um povo.

2 A RELAÇÃO ENTRE O TURISMO SOLIDÁRIO E OUTROS SEGMENTOS DO TURISMO EM COMUNIDADES

Tendo em vista o principal intuito do Turismo Solidário como forma de estímulo ao desenvolvimento e crescimento do turismo nas comunidades locais, torna-se viável a analogia entre as demais modalidades do turismo em comunidades, uma vez que, ambas se integram à prática turística visando a promoção local e humana, que geralmente ocorre em pequenos grupos sociais. Encontra-se no âmbito de turismo em comunidades, alguns segmentos como o Turismo de Base Comunitária, que é definido por Coriolano (2009, p. 282) da seguinte forma;

O Turismo comunitário é aquele em que as comunidades de forma associativa organizam arranjos produtivos locais, possuindo o controle efetivo das terras e das atividades econômicas associadas à exploração do turismo. Nele o turista é levado a interagir com o lugar e com as famílias residentes, seja de pescadores, ribeirinhos, pantaneiros ou de índios. Umas das primeiras ações que as comunidades realizam é a elaboração de um pacto interno com os próprios residentes em defesa de suas propriedades.

Desse modo, as comunidades obtêm uma melhoria na economia, no desenvolvimento do turismo local, e com o envolvimento da comunidade na inserção ao programa de turismo comunitário, eles têm a oportunidade de interação ao realizarem projetos comunitários para melhor atendimento ao turista com os arranjos produtivos locais. Verifica-se, no contorno dos segmentos do turismo em comunidades, uma atividade que visa o desenvolvimento da prática independente da camada social, uma atividade que por sua vez focaliza aqueles que não se integram ao movimento turístico devido ao preconceito, a que se refere às questões sociais, como renda baixa e até mesmo algum desatino seguido de alguma forma de desfavorecimento das classes inferiores. O Turismo Social, que segundo o Ministério do Turismo, “é a forma de conduzir e praticar a atividade turística promovendo a igualdade de oportunidade, a equidade, a solidariedade e o exercício da cidadania na perspectiva da inclusão” (Mtur, 201249) vem com propósito de auxiliar essa camada adversa, para a inserção adequada à atividade turística adequadamente. É notável que, seguido desse conceito, o Ministério do Turismo provisiona este segmento para as classes sociais menos favorecidas, devido às respectivas condições, pois estas, segundo o Mtur, não têm a
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www.turismo.gov.br – Marcos Conceituais, acessado em 17 de abril de 2012.

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oportunidade de participação e não são devidamente componentes da atividade turística no Brasil. E quando minimamente são, realizam as atividades de forma inadequada, o que faz tornar difícil a prática turística de benefícios a ele. Assim, o programa do Turismo Social, ocorre de forma que esta possa gerar ações favoráveis para aquela sociedade em desvantagem. Em linha contínua de inserção de cunho benéfico à atividade turística, encontra-se o programa de Turismo Sertanejo, em que seu desígnio é voltado para o desenvolvimento turístico e a preservação ambiental que marcam os sertões do país, lugar que, segundo Seabra (2007), é “onde as manifestações culturais de raízes populares se fazem mais espontâneas, construindo e dando vida à paisagem”, onde a cultural se torna um importante aliado para turismo local. A pretensão do Turismo Sertanejo é alusivo à prática do turismo envolvido com as atividades e com as relações locais, sendo elas, a cultura, as relações sociais, ecológicos e éticos da região sertaneja, para ter como efeito uma fonte de renda constante para as famílias do sertão e, consequentemente, a valorização da identidade e do cultivo regional. Tomando como base as informações contidas no site oficial do Turismo Sertanejo50, o Turismo Sertanejo possui o propósito de resgatar e revigorar a identidade cultural do sertão; demarcar roteiros para elaboração de circuitos; criar associação com órgãos potentes com o intuito de melhorar a infraestrutura, equipamentos, serviços e qualificação da população, para que, desta forma, possa receber melhor o turista. Assim, torna-se importante também, a criação de um calendário turístico seguido de ações operando com o Marketing, estratégia no qual irá trabalhar a divulgação e promoção dos produtos e serviços oferecidos, visando promover mundialmente todas as ações resultantes para a prática da atividade turística. Tendo em vista todas as mudanças para a inserção ao turismo como forma de sustentabilidade para a comunidade sertaneja, entende-se então, a importância do planejamento do processo desse programa, de forma que, essa inclusão à atividade turística se dê positivamente, tornando o programa realizável de forma sustentável. Viabilizando o contexto de desenvolvimento turístico juntamente à sustentabilidade, liga-se a este, a ideia do Ecoturismo que deriva da prática da atividade de forma que haja a utilização dos recursos naturais e culturais sem comprometê-los, incentivando assim, a educação ambiental, a conscientização e a preservação desses recursos. Verifica-se neste âmbito que, há uma relação derivada da ocorrência do Ecoturismo e da sustentabilidade, devido a utilização do ambiente como matéria-prima para a realização das atividades, em razão de ambos empregarem suas práticas em meios naturais nos quais disponibilizam recursos a serem aprimorados com a tendência de desenvolver o turismo e a melhoria de vida para a comunidade local. Dessa forma, o Ecoturismo compõe-se de práticas realizadas concomitantes à interpretação, conservação e sustentabilidade, de acordo com o Mtur. (2010). Logo, o Ecoturismo refere-se à prática turística em áreas naturais, de
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www.turismosertanejo.com.br Acessado em 20 de abril de 2012.

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modo que esta não seja prejudicial à área receptora da atividade, mas sim benefício para a preservação do ambiente e fomento ao desenvolvimento socioeconômico para a população local, consequentemente, oferecendo a eles um modo de vida favorável à situação existente. Marca-se como um fator importante nesse processo de adequação ao Ecoturismo, a participação da comunidade em toda sistematização do programa, desde o início da ideia, até a concretização do projeto. Considerando-se que, a comunidade local é a causa principal para a implantação, torna-se necessário que essa comunidade exerça uma função participativa no planejamento do programa de Ecoturismo, analisando todas as evidências e dificuldades existentes. Deste modo, os envolvidos podem se assegurar da legitimidade do programa, e consequentemente podem viabilizar a prática turística adequadamente. Deve-se levar em consideração que ainda não há um conceito oficial de Ecoturismo. Assim, torna-se viável a motivação para estudos mais aprofundados, uma vez que há a existência de outras conceituações acerca do Ecoturismo que são trabalhados por diversos autores com conceituações diferentes. O planejamento de projetos nos diversos segmentos do turismo em comunidades, é caracterizado pelas ações da própria comunidade local juntamente com aqueles que estimulam o Turismo de Base Comunitária, tendo em vista que, para a existência da atividade turística organizada, torna-se necessário primeiramente a iniciativa da comunidade que irá aguçar a vontade de, então, fazer com que o seu espaço de vida torna-se um local de interesse e estrutura turística. De forma que seja um potencial para visitas de todas as pessoas, inclusive de turistas internacionais. Sendo assim, para que as atividades sejam praticadas adequadamente, nota-se que é de cunho essencial a conscientização e qualificação da comunidade em todo o processo de adequação aos programas e segmentos, de forma que, este seja um acontecimento benevolente para a comunidade local, visando sempre o desenvolvimento socioeconômico, cultural, ambiental e de todas as formas sustentavelmente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A conceituação é uma questão extremamente importante para o desenvolver de qualquer tipo de atividade, programa, metodologia, entre outros, que esteja ligada a troca de ideias entre sujeitos. Quer seja por via oral ou outro meio qualquer, a utilização de conceitos de forma errônea pode acarretar discussões contraditórias que prejudicam o entendimento parcial ou mesmo total da temática. São os conceitos que dão os reais sentidos do que se tem a intenção de transmitir para outrem e, como pode ser analisado ao longo do trabalho, os conceitos em turismo são muito
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próximos uns dos outros podendo apresentar, para os interlocutores que têm conhecimento superficial sobre tais assuntos, algumas dificuldades, controvérsias e equívocos. Quando se considera o Turismo Solidário, pode-se notar que o mesmo tem uma especificidade em relação aos demais segmentos que tratam do desenvolvimento de base local. No Programa Turismo Solidário deve haver uma real participação do turista para com as comunidades visitadas, tendo na participação e na solidariedade do visitante o foco primeiro do programa, além do interagir, do conhecer, do conviver e do relacionar com a comunidade, os turistas utilizam do seu tempo para a prática de ações sociais, o que vem a ser a base do intercâmbio cultural do ponto de vista do Programa. Esse é o principal diferencial entre o Programa Turismo Solidário e os demais segmentos apresentados. Não tão obstante aos segmentos como o Turismo Sertanejo, o Ecoturismo, o Turismo Sustentável, o Turismo Social e o Turismo de Base Comunitária que também envolvem os turistas indiretamente, o Turismo Solidário deve ter, necessariamente, o envolvimento do turista com a comunidade. Não é simplesmente marcar uma viagem para conhecer novos horizontes e culturas. É preciso que o turista queira fazer parte da proposta e deixar algo de si para que a região possa, de alguma forma se apoderar e utilizar para proveito próprio. O desenvolvimento não deve vir exclusivamente da atividade turística por si, mas também das ações de cunho social que os turistas sugerem e realizam com a comunidade. É uma troca de informações, um aprendizado que abarca ambas as partes. Entretanto, quando se tem a intenção da prática do Turismo Solidário, há que se ter a preocupação quanto ao tipo de trabalho que será desenvolvido perante a comunidade. As ações, em sua grande maioria, devem estar voltadas para um âmbito que ultrapasse as questões emergenciais e assistencialistas caracterizadas pela caridade. Vale ressaltar que, apesar disso, ações desse cunho podem ser interessantes; até mesmo necessárias e úteis em um primeiro momento para uma melhor estruturação socioeconômica dos envolvidos, não podendo ser consideradas a intenção principal e o foco do Programa Turismo Solidário. Vale ressaltar que, quando se considera os segmentos turísticos que estão diretamente envolvidos com as comunidades, tem-se a necessidade de pensar em uma qualificação para as mesmas com o intuito de prepará-las para o recebimento dos turistas. Além disso, deve ser considerado também que a atividade turística afeta os sujeitos daquelas comunidades de formas positivas e negativas, alterando seus costumes e culturas, dentre diversas outras questões. Muitos outros aspectos estão relacionados com o desenvolvimento da atividade turística de base local, contudo, não é a intenção desde trabalho se ater a tais aspectos. Assim, o conceito do Turismo Comunitário, ao se comparar os segmentos inseridos na discussão, está presente em todos os segmentos discutidos, podendo ser observado que, entre eles é
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possível verificar que há semelhanças em alguns pontos, bem como distinções na forma como são trabalhados esses pontos em cada área. O conceito específico do que vem a ser um segmento e do que ele envolve, então, está presente justamente nessa forma diferente com que é possível trabalhar e realizar ações. A base pode ser a mesma, mas os meios e fins se destacam de acordo com o propósito da atividade a qual se insere tal conceito. Existe, a partir disso, a grande importância do aprofundamento e ampliação da discussão proposta através da definição de conceitos que possam ser tomados como oficiais e do fortalecimento e amadurecimento da ciência dentro turismo. O desenvolvimento de conceitos especificamente voltados para o pensamento e para a atividade turística caracteriza a construção de uma estrutura própria e particular da área, de forma que ultrapasse a complexa utilização de metodologias ainda voltadas para outras áreas que, histórica e consensualmente, tomam parte da conceituação do que pode vir a ser a ciência das atividades turísticas.

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UM ESTUDO SOBRE AS PRÁTICAS TRADICIONAIS DA COMUNIDADE XOKÓ EM SERGIPE E SUA IMPORTÂNCIA TURÍSTICO-EDUCATIVA51

Gisélia de Souza CARDOSO Discente do curso de Turismo da Universidade Federal de Sergipe giseliacardoso.turismo@yahoo.com.br Rosana Eduardo da Silva LEAL Docente do curso de turismo da Universidade Federal de Sergipe rosanaeduardo@yahoo.com.br

RESUMO

O projeto de pesquisa que será apresentado tem por finalidade investigar a relação entre cultura, turismo e educação em comunidade tradicional, tendo como campo empírico a população Xokó, único grupo remanescente indígena do território sergipano na contemporaneidade. Atualmente a aldeia tem sido visitada por estudantes, pesquisadores e professores interessados em conhecer os modos de vida dos nativos. Partindo desta realidade, a pesquisa buscará entender como tem ocorrido o recebimento de tais grupos, com a finalidade de propor um roteiro turístico-educativo que possa contribuir para um melhor diálogo entre visitantes e visitados. O estudo será desenvolvido por meio da pesquisa bibliográfica, documental e de campo, tendo a etnografia como principal método de pesquisa. Espera-se que a investigação e a proposta de roteirização possam contribuir para o desenvolvimento sustentável da aldeia, por meio da inclusão social, do protagonismo local e do fortalecimento da identidade Xokó. PALAVRAS-CHAVE: Turismo; Cultura; Educação; População Indígena; Xokó

INTRODUÇÃO

Situados na Ilha de São Pedro, que está localizada no município de Porto da Folha, os índios Xokó são considerados como único grupo remanescente indígena do território sergipano. A localidade que abriga a aldeia foi historicamente uma região que “[...] atraiu missões religiosas e foi palco de disputas entre portugueses e holandeses no século XVIII, sendo também apresentada quase sempre como área de disputa entre criadores de gado” (BARRETO, 2010, p.30). Um exemplo disso

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Pesquisa vinculada ao Trabalho de Conclusão do Curso de Turismo da Universidade Federal de Sergipe.

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é a missão de São Pedro do Porto da Folha, fundada no final do século XVIII, que abrigou padres, capuchinhos e jesuítas e influenciou decisivamente nos modos de vida da referida população. Júnior (2005) destaca que a missão de São Pedro permaneceu sendo administrada pelos capuchinhos franceses até sua expulsão, em 1700. Após um conturbado e violento período, em 1709, os capuchinhos italianos assumiram a responsabilidade das missões franciscanas que outrora eram geridas pelos franceses. A missão de São Pedro foi dirigida pela ordem até o início do século XIX e tinha como objetivo catequizar os índios tornando-os “aculturados”. Não diferente das demais missões existente no território sergipano e brasileiro, a missão de São Pedro também tinha o mesmo viés de imposição da cultura europeia. Portanto, assim como demais povos indígenas brasileiros, o povo Xokó sofreu momentos turbulentos de imposições de hábitos, crenças e costumes eurocêntricos no decorrer de sua existência. Barreto (2010) afirma que tal população também teve embates com populações negras, sendo ainda agrupados com diferentes grupos indígenas em um mesmo aldeamento, sob a gestão temporal e espiritual de determinadas ordens religiosas. A autora ratifica que

os Xokós passaram por mudanças jurídicas e administrativas diversificadas. Durante mais de um século foram dados com extintos e suas terras ficaram nas mãos da administração provincial, que terminou por vendê-las a particulares, mas reassumiram sua identidade, reconhecida após os confrontos com os grupos dominantes. São vistos como descendentes e pertencem a um dos grupos básicos de formação da etnia brasileira (BARRETO, 2010, p. 46).

Diante do que foi exposto anteriormente, é visível que os Xokós sofreram um processo de expropriação violento, sendo dados inclusive como extintos no estado. Entretanto, no decorrer da trajetória histórica e política, protagonizaram uma intensa disputa pelo território, onde lutas foram travadas entre fazendeiros e administração pública da época, obtendo finalmente o direito à posse da terra em março de 2003. Hoje a aldeia tem sido centro de visitação de escolas do ensino médio e fundamental, bem como pesquisadores, professores e universitários que chegam semanalmente à localidade com a finalidade de conhecer os modos de vida do grupo. Neste sentido, para compreender tal realidade, o projeto de pesquisa que será apresentado a seguir tem por finalidade fazer um estudo sobre a relação entre cultura, turismo e educação em território indígena, tendo como campo empírico o povo Xokó. A motivação do estudo se deu pelo interesse em entender como tem ocorrido o recebimento de tais grupos na aldeia, com a finalidade de propor um roteiro turístico-educativo que possa

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contribuir para o diálogo entre visitantes e visitados52. Para tanto, buscaremos: a) investigar como se dá a relação entre visitantes e visitados; b) identificar os principais aspectos que constituem a formação histórica e sociocultural do grupo; c) analisar as atividades econômicas desenvolvidas na comunidade; d) pesquisar como ocorre o diálogo dos Xokó com a sociedade mais ampla; e) detectar a visão dos índios sobre a visita de estudantes, pesquisadores e professores a aldeia.

1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

O estudo será desenvolvido por meio da pesquisa bibliográfica, documental e de campo. A pesquisa bibliográfica e documental será utilizada com a finalidade de dar suporte teórico ao tema, por meio de leituras e análises de materiais escritos e documentos sobre a comunidade Xokó. A pesquisa bibliográfica será baseada na análise da literatura publicada e ocorrerá por meio da leitura de textos presentes em livros, enciclopédias, periódicos, jornais e revistas, além de publicações como artigos científicos, resenha e ensaios escritos. Segundo Cervo (1978, p. 40), a pesquisa bibliográfica constitui parte da pesquisa de campo, pois é feita com o intuito de recolher informações e conhecimentos prévios acerca de um problema para o qual se procura resposta. Com relação à pesquisa documental pretende-se buscar documentos que relatem as informações da comunidade Xokó, ampliando a possibilidade de acesso de dados primários sobre o tema pesquisado. Como salienta Marconi & Lakatos (2008, p. 48), a pesquisa documental enquanto fonte de coleta de dados está restrita a documentos (escritos ou não), constituindo o que se denomina de fontes primárias. Com base no que os autores relatam, trata-se de um instrumento de pesquisa em que os materiais utilizados em sua maioria ainda não receberam um tratamento analítico. Este procedimento metodológico será utilizado como mecanismo de investigação e verificação da realidade do povo Xokó, por meio da coleta de informações em reportagens de jornais, documentos oficiais e fotografias antigas que possam contribuir para a proposta de roteirização. Através da pesquisa de campo será possível ter acesso ao universo simbólico do povo Xokó a fim de coletar informações possíveis sobre o grupo, como por exemplo, os dados sobre o território, suas produções culturais e econômicas, bem como aspectos sobre os membros da aldeia. Também será utilizado o registro fotográfico e a produção de filmagens das celebrações tradicionais

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Concordamos com Barretto quando salienta que “o relacionamento entre visitantes e visitados varia de caso para caso, em função de uma série de circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis, o que obriga os pesquisadores a terem muita cautela na hora das inferências visando generalizações” (2006, p.02).

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e ritualísticas, identificando os elementos da cultura material e imaterial do grupo. Tais registros têm por finalidade compreender os múltiplos aspectos do modo de vida da população Xokó na atualidade. Na pesquisa de campo serão observados os costumes, práticas alimentares, atividades econômicas e de subsistência, identificando as modificações que aconteceram no decorrer dos anos. Conforme salienta Marconi &Lakatos (2002), a pesquisa de campo é utilizada com o objetivo de conseguir informações e/ou conhecimentos acerca de um problema para o qual se procura uma resposta ou uma hipótese que se queira comprovar, bem como descobrir novos fenômenos ou as relações entre eles. Trata-se de um procedimento que deve ser realizado após o estudo bibliográfico, possibilitando ao pesquisador um aprofundamento do conhecimento sobre o assunto. É um requisito metodológico que permite ir do distanciamento à proximidade para posteriormente construir uma interpretação. Tal instrumento contribuirá para obter conhecimento das formas costumeiras de viver da comunidade indígena pesquisada, bem como ter conhecimento sobre os padrões de pensamento e comportamento dos índios no seu cotidiano, por meio de práticas, hábitos, fatos e eventos. A pesquisa de campo será empreendida tendo por base o método etnográfico53, que possibilitará a identificação in loco das práticas cotidianas entre os membros da comunidade e a sociedade mais ampla. Este procedimento metodológico

o etnógrafo, ou a etnografia, participa, abertamente ou de maneira encoberta, da vida cotidiana de pessoas durante um tempo relativamente extenso, vendo o que passa, escutando o que se diz, perguntando coisas; ou seja, recorrendo todo tipo de dados acessíveis para poder lançar luz aos temas que ele ou ela elegeu estudar (HAMMERSLEY; ATKINSON, 1994, p. 15).

Por meio da etnografia serão utilizados instrumentos como observação, entrevistas, produção de diário de campo, aplicação de questionário e registro fotográfico. A entrevista será utilizada de forma semi-estruturada, possibilitando aos diferentes entrevistados a liberdade de formular novos questionamentos durante a entrevista. Esta será feita tanto com os líderes da aldeia como também com os índios que não ocupam cargo de destaque no grupo, pois o objetivo é obter uma visão dos diferentes indivíduos sobre determinados assuntos. Para Goldenberg (2004, p.90), a entrevista é um mecanismo que serve para buscar respostas que o pesquisador não conseguiria com outros instrumentos. E ratifica ainda que, “como qualquer relação

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De acordo com Beaud e Weber (2007, p. 10) a etnografia tem por vocação dar a palavra aos que, por definição, nunca têm a palavra, tais como: tribos isoladas em campo exótico, povos colonizados, classes dominadas ou grupos em vias de extinção nas sociedades desenvolvidas.

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pessoal, a arte de uma entrevista bem-sucedida depende fortemente da criação de uma atmosfera amistosa e de confiança. As características pessoais do pesquisador e pesquisado são decisivas” (GOLDENBERG, 2004, p. 90). A utilização deste instrumento permite que o pesquisador adquira uma maior profundidade na identificação dos fatos, explorando intensamente as informações que se aproximem ao máximo do tema da pesquisa. O diário de campo servirá para o registro das observações e questionamentos feitos no local da pesquisa. Trata-se de um importante meio de investigação, por permitir o registro das reflexões do investigador no espaço pesquisado. Além disso, possibilita também o relato de experiências vividas e percebidas na aldeia, por meio da descrição de acontecimentos, conversas e observações feitas durante o período em que será possível a convivência com a comunidade. Outra técnica da pesquisa a ser utilizada será a aplicação de questionários, que terá por finalidade adquirir opiniões diversas sobre o tema abordado. Cervo (1996, p.138) afirma que o questionário é a forma mais usada para coletar dados, pois possibilita medir com melhor exatidão o que se deseja. O autor complementa ainda que, “é necessário que se estabeleça com critério quais as questões mais importantes a serem propostas e que interessem ser conhecidas, de acordo com os objetivos” (CERVO, 1996, p. 138). Tais questionários serão aplicados aos líderes da aldeia, bem como os indíos de menor destaque da comunidade, com também entre visitantes que prestigiam as festividades e acontecimentos do cotidiano Xokó. As fontes de pesquisa aqui apresentadas terão como meta aprofundar a coleta dos dados para garantir maior confiabilidade e legitimidade da pesquisa em questão, obtendo assim uma forma consistente de análise dos resultados.

2 RESULTADOS ESPERADOS

Os resultados da pesquisa serão utilizados como fontes de informação para a produção de um projeto turístico-educativo para a aldeia, que pretende sugerir o desenvolvimento de ações para a comunidade. Tais ações serão elaboradas coletivamente, estimulando a gestão participativa, com o intuito de possibilitar o contato dos grupos de visitantes com os elementos identitários locais e identificar como estes podem ser trabalhados e ofertados para sociedade mais ampla. A proposta de roteirização norteará a comunidade indígena para a geração de uma nova ação socioeconômica de forma sustentável, onde a cultura local será apresentada em seus diferentes âmbitos. O roteiro turístico-educativo será composto por aspectos fundamentais para a compreensão sobre os modos de vida Xokó, beneficiando a comunidade com a expansão da sua significância e importância. A sociedade sergipana por sua vez terá a possibilidade de contemplar de forma mais
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aprofundada e in loco as especificidades desta população indígena, permitindo maior conhecimento sobre o referido grupo. O projeto turístico- educativo irá contribuir para o avanço dos estudos sobre a relação entre cultura, turismo e educação em populações tradicionais em Sergipe, proporcionando um novo suporte teórico e prático para os pesquisadores. Além disso, fornecerá também dados empíricos sobre as peculiaridades da aldeia, contemplando desta maneira não só os pesquisadores, mas também a comunidade em estudo, estudantes e a sociedade mais ampla, que poderão compreender de forma mais sistemática a representatividade histórico-cultural da comunidade Xokó.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os dados coletados até então tem proporcionado o conhecimento do passado e da situação atual da comunidade, contribuindo para a identificação de práticas tradicionais presentes no dia-adia da aldeia. Este conjunto de elementos materiais e imateriais poderá servir como instrumento de valorização educativa e turística, tornando-se um modo de estimular o reconhecimento por parte de vários grupos sociais sobre a importância do grupo para Sergipe. A pesquisa tem a intenção de beneficiar a comunidade Xokó através de um maior envolvimento com a sua própria cultura, estimulando um novo meio de geração de renda para aldeia, com a formação de recursos humanos indígenas que assumam a gestão da comunidade, possibilitando desta maneira reafirmar-se como protagonistas de seus costumes e práticas cotidianas.

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ABORDAGENS DE DESENVOLVIMENTO DO TURISMO X PERSPECTIVAS DE PLANEJAMENTO TURÍSTICO: ANÁLISE DE UMA RELAÇÃO CONTROVERSA

Guilherme Augusto Pereira MALTA Professor e Pesquisador IGC/UFMG - Departamento de Geografia guilherme.malta@gmail.com Marly NOGUEIRA Professora e Pesquisadora IGC/UFMG - Departamento de Geografia nogueira.marly@yahoo.com.com

RESUMO

O artigo em questão é parte integrante da temática discutida na dissertação de mestrado intitulada “Turismo e Desenvolvimento: análise de uma complexa relação considerando as abordagens e concepções presentes na literatura do turismo”, defendida em março de 2011. Assim, pretende-se abordar, em especial, os enfoques de desenvolvimento identificados e suas contribuições, bem como sua relação com algumas perspectivas de planejamento turístico. Espera-se, dessa maneira, contribuir para a discussão em torno do turismo comunitário e sertanejo e das questões que tal tema deve ensejar. PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento; Planejamento; Propostas de Turismo Alternativo.

INTRODUÇÃO

O presente artigo tem por motivação inicial compreender pontos fundamentais oriundos do elo estabelecido entre o turismo e o processo de desenvolvimento54. Assim, questiona-se a forma como as obras e estudos da área trabalham e compreendem o turismo dentro da dinâmica de desenvolvimento, buscando verificar qual o lugar ocupado pela atividade turística neste processo. Desta maneira, indaga-se quais são as abordagens e os enfoques de desenvolvimento discutidos pelos autores, visando, paralelamente, discutir de forma crítica a relação estabelecida entre tais abordagens e as principais perspectivas de planejamento turístico existentes. A referência à relação estabelecida entre o turismo e o desenvolvimento é comum em grande parte das obras que têm a atividade turística como objeto de estudo. Desde os grandes manuais de

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Ao se falar em desenvolvimento são feitas referências, sobretudo, às 3 principais dimensões que estão circunscritas em seu bojo – melhora, ação e processo – que, no contexto dos debates em torno desse tema, encontram-se inextricavelmente relacionadas.

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introdução ao turismo aos artigos que se propõem a analisar sua exploração em uma dada área geográfica, há uma concordância geral de que a promoção da atividade turística contribui para a instauração de algum processo de desenvolvimento. Por se tratar de uma atividade econômica que é reconhecida pela expressiva geração de emprego e renda, tornou-se quase natural associar o turismo ao desenvolvimento, seja como uma estratégia, seja enquanto um instrumento capaz de induzi-lo em uma dada realidade. Entretanto, na literatura, raramente se percebem o questionamento e a análise crítica direcionada à compreensão da relação estabelecida entre o turismo e o desenvolvimento. Nesse sentido, foi igualmente importante perceber o amplo campo que o termo desenvolvimento abrange enquanto conceito de grande influência sobre o pensamento e o comportamento humanos. Ao mesmo tempo, a enorme variedade de conotações absorvidas pela palavra desenvolvimento, sobretudo ao longo do século XIX, acabou por desgastar uma suposta precisão de seu significado, alcançando, dessa maneira, o status de simples expressão, cuja tradução depende, na maioria das vezes, do contexto em que é utilizada. A mesma crítica, inclusive, pode ser estendida ao uso do termo desenvolvimento quando associado ao turismo, uma vez que se constatou ser recorrente seu emprego indiscriminado e pouco reflexivo pela literatura da área. Convém destacar que o turismo, além de atividade econômica, também se caracteriza como prática social, cultural e espacial. Como tal, é capaz de dinamizar e/ou articular diversas atividades e ramos da economia, sem, contudo, deixar de refletir também as determinações da sociedade na qual está inserida: contraditória, conflituosa, controversa, desigual, reflexo de lógicas do momento histórico presente, o da globalização e/ou da nova fase do capitalismo, dita ecológica ou sustentável (O’CONNOR, 1988). Dessa forma, o modelo de desenvolvimento ainda baseado na produção em massa e no consumo exacerbado associado a lógica de crescimento ilimitado, inerentes à estrutura e à dinâmica do capitalismo, se estendem também à lógica predominante no turismo, independente, muitas vezes, de qual seja sua denominação ou tipologia. Em virtude das indagações aqui propostas, espera-se, com o presente trabalho, provocar novos questionamentos e reflexões acerca do turismo e de seu estreito elo com o desenvolvimento, bem como acerca de sua relação com algumas perspectivas de planejamento. Cabe questionar, portanto, o que a relação estabelecida entre turismo e desenvolvimento pretende comunicar, dissimular, convencer. A identificação de abordagens ou enfoques do desenvolvimento implícitas no turismo, bem como as críticas direcionadas ao uso do conceito de desenvolvimento pelas obras da área surgem como uma tentativa de propiciar uma leitura mais clara e, ao mesmo tempo, mais crítica em torno deste tema. A contribuição para a consolidação de uma base mais sólida acerca do conhecimento
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turístico em relação à sua interface com o desenvolvimento surge, então, como umas das principais razões que motivou a construção deste artigo.

1 DESENVOLVIMENTO 1.1 ABORDAGENS DE DESENVOLVIMENTO

Por abordagem, compreendem-se as diferentes formas de se conceber e representar o tema do desenvolvimento, presente em estudos, planos e documentos consultados e que tratam do turismo. Ou seja, quais são as formas de se nomear, qualificar e significar o desenvolvimento pelo turismo e que são identificadas, reconhecidas e amplamente utilizadas pelos estudos desta área. A “abordagem” ou “enfoque” consistiria, então, nas formas pelas quais o turismo, por meio de suas obras e documentos, é capaz de compreender a relação estabelecida com os processos de desenvolvimento. Dessa maneira, foram identificadas, a priori, três abordagens predominantes nos trabalhos de turismo, que correspondem às referências direcionadas ao desenvolvimento do e pelo turismo, respectivamente, enquanto uma possibilidade de promovê-lo e relativo à qualidade do processo a ser desencadeado pela atividade. As abordagens identificadas foram classificadas como:

utilitarista/econômica, sustentável e comunitária/local. A seguir são apresentadas as características principais de cada uma destas abordagens. A abordagem utilitarista/econômica, identificada como umas das principais e mais recorrentes formas de se referir ao desenvolvimento dentre aquelas implícitas nos estudos de turismo, surge com maior frequência em análises que buscam ressaltá-lo em virtude de seu efeito multiplicador enquanto atividade econômica. Frequente em trabalhos que partem de uma base econômica e em documentos políticos, como exemplo o Plano Nacional de Turismo55 (PNT), esta abordagem, apesar de sua expressiva predominância, vem sendo recorrentemente questionada quanto aos seus limites, sobretudo, do ponto de vista social e ambiental. A própria existência de outros enfoques de desenvolvimento demonstra, nesse sentido, novas formas de resistência e contestação em relação à predominância desta primeira. A conformação de um discurso em torno do turismo, que confere ao mesmo o status de “passaporte para o desenvolvimento”, possui relação direta com a abordagem em destaque. Assim, como ressalta Ouriques (2008, p. 13), “o turismo desponta nas regiões periféricas como a mais recente promessa de desenvolvimento e, em alguns discursos (inclusive acadêmicos), como a única chance de alcançar o tão almejado desenvolvimento”. O desenvolvimento, aqui e conforme
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BRASIL, MINISTÉRIO DO TURISMO. Plano Nacional de Turismo 2007/2010. Uma viagem de inclusão. Brasília: MTur, 2007.

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identificado por meio das obras e estudos que tratam do turismo, é, assim, uma das possibilidades de se compreender e analisar a relação estabelecida entre o desenvolvimento e o turismo. Contudo, é notável que tal enfoque não dê conta de abarcar outros aspectos presentes na promoção do turismo, como aqueles relacionados às dimensões humana, cultural e social. Essa limitação consiste, por sua vez, em um dos principais pontos de críticas e contestações por parte da literatura. Assim como salienta Moesch (2001, p. 21), “o turismo é um processo sociocultural, ultrapassando o entendimento enquanto função de um sistema econômico”. A abordagem sustentável de desenvolvimento, por sua vez, conforme enfatizam vários autores, surge a partir de meados da década de 1980, sendo associado “a uma mudança de enfoque na definição da problemática ambiental, de visões eminentemente preservacionistas dos anos de 1960 e 1970, à associação entre crescimento econômico e preocupação ambiental” (COSTA, 2008, p. 80). Dessa maneira, ao romper com o conflito que foi gerado entre os desenvolvimentistas e ecologistas, o conceito de desenvolvimento sustentável apropria-se de uma suposta obviedade: “a de desenvolver e preservar” (LOBO,2001, p. 15). Dessa forma, desde o inicio da década de 1990, o termo “sustentável” passa a ser amplamente utilizado no debate sobre o desenvolvimento, atingindo diversos setores e atividades econômicas, dentre elas, o turismo. Por terem se intensificado as pesquisas que analisam os impactos socioespaciais do turismo, verificando que a atividade turística acaba, muitas vezes, alavancando um processo de desenvolvimento altamente impactante, ambiental e socialmente, cresce, também, de maneira significativa, nos últimos anos, o debate sobre as formas de turismo que buscam contrapor o turismo convencional ou de massa. Em especial, no que se refere aos estudos voltados para o turismo, a dimensão sustentável do desenvolvimento é comumente associada à atividade enquanto um adjetivo que qualifica e agrega valor, sobretudo comercial, à mesma. Ou seja, o turismo sustentável corresponde a um termo especifico que denota a aplicação do desenvolvimento sustentável ao contexto particular do turismo. Como acrescenta Candiotto (2007, p. 02), “com a emergência da ideia de desenvolvimento sustentável, o termo turismo sustentável vem cada vez mais ganhando espaço no debate acadêmico, bem como no marketing turístico”. Percebe-se que, assim como no conceito de desenvolvimento sustentável, o turismo sustentável baseia-se na dimensão econômica e incorpora timidamente as dimensões ambiental, social e cultural, entendendo-as, na visão de Candiotto (2007, p. 02) “como oportunidades e recursos para a continuidade da atividade turística”. Nesse contexto, a categoria de sustentável é muito mais um rótulo que de fato uma orientação para a promoção da atividade turística. Na visão defendida por Butler (1998), o turismo adquire o status de “sustentável” para que possa ser vendido, uma vez que traz vantagens econômicas nas relações públicas e no marketing, ou seja, dá lucros.
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A terceira das abordagens identificadas - comunitária/local - é apropriada pelos estudos de turismo como uma “nova” orientação, que visa transformar o caráter estritamente predatório e econômico apresentado pela atividade (RODRIGUES, 1997; BENEVIDES, 1997). Em contrapartida, a proposta baseia-se no conceito de desenvolvimento local como princípio orientador para a construção de um modelo de promoção do turismo, distinto do prevalecente. A abordagem de desenvolvimento identificada como comunitária/local, além de agregar valor ao tipo de turismo que inspira, é apresentada pelos trabalhos que a abordam como um “guia de orientação” para a construção de “outro” modelo de promoção da atividade turística, direcionada para a escala local e focada nos sujeitos sociais que participam deste processo. O turismo, associado à abordagem local de desenvolvimento e identificado como alternativo, passa a ser compreendido como um estilo contraposto às tendências e aos padrões dominantes. Há que se refletir, contudo, se o desenvolvimento local, a partir de sua apropriação pelos estudos turísticos, surge apenas como mera adaptação do modelo econômico convencional ou se se contrapõe de fato à ordem econômica vigente. Propor o desenvolvimento com base local, conforme salienta Rodrigues (1997, p. 58), “significa contrariar a racionalidade econômica hegemônica vigente e fortalecer o que Milton Santos designa por ‘contrafinalidades’ que são localmente geradas [...]”. Ou seja, torna-se necessário, para tanto, revisitar e questionar diversos conceitos prevalecentes no modelo tradicional, como, por exemplo, o conceito de eficiência, que se associa à noção de maximização da produtividade. Complementarmente, o desenvolvimento com base local, para o turismo, na visão de Coriolano (2003, p. 25), representaria, então, o:

processo de mudança de mentalidade, de câmbio social, e de troca de eixo na busca do desenvolvimento, por isso se orienta para o desenvolvimento de médias, pequenas e microempresas, tendo em vista socializar as oportunidades e promover o desenvolvimento na escala humana.

A proposição de um turismo local ou de base comunitária passaria, então, pela alusão à mesma dinâmica de participação dos sujeitos locais e de apropriação das práticas sociais locais contidas no conceito de desenvolvimento local. Novamente, percebe-se que o turismo, em relação ao contexto atual de promoção do desenvolvimento, se insere enquanto uma estratégia voltada para este fim. Acredita-se que a análise do turismo, por meio de suas abordagens de desenvolvimento, qualifica seu entendimento para além das tipologias de turismo, tidas, normalmente, como uma maneira de classificar a atividade, sendo, algumas vezes, apresentadas sob a forma de via alternativa para a promoção da atividade turística. É importante lembrar que, na verdade, elas
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podem ser entendidas como reflexos de abordagens do desenvolvimento existentes e que influenciam muitas outras atividades econômicas, assim como ocorre no turismo.

1.2 PLANEJAMENTO TURÍSITO E PERSPECTIVAS

Na mesma intensidade com que tem sido comum referir-se ao turismo, a partir de seu propalado poder de desenvolvimento, recorre-se ao planejamento como instrumento imprescindível para o bom funcionamento da atividade turística. Ao se abordar o turismo e sua relação com o desenvolvimento, quase de imediato, é suscitada por grande parte dos estudiosos da área a discussão sobre a necessidade direta do planejamento. Entre as várias definições existentes de planejamento, cita-se a utilizada por Lohmann e Panosso Netto (2008, p. 129), que o conceituam, em uma perspectiva abrangente, como o:

[...] processo que visa, a partir de uma situação dada, a orientar o desenvolvimento turístico de um empreendimento, local, região, município, estado ou país, tendo como meta alcançar objetivos propostos anteriormente ou durante a própria elaboração do planejamento.

Apesar dos benefícios gerados para uma comunidade, o turismo pode, em virtude de seu expressivo crescimento, provocar efeitos mais nocivos do que benéficos. É sempre importante lembrar que o turismo traz custos e benefícios econômicos e não econômicos para as comunidades afetadas. Goeldner et al. (2002) ressalta que o turismo mal planejado e mal desenvolvido pode trazer sérios problemas. O planejamento da atividade turística, nesse sentido, é reconhecido como um poderoso instrumento de fomento ao desenvolvimento socioeconômico de uma comunidade. Sobre o papel do planejamento para a atividade turística, segundo Solha (2004, p. 09), no turismo, “as preocupações em se estabelecer políticas para o setor só aparecem quando este adquire importância econômica, ou quando começa a causar transtornos”. Anteriormente a estas duas situações, a autora reitera que a atividade se caracteriza pela espontaneidade, com pouco ou nenhum controle de seu desenvolvimento, prevalecendo apenas as leis de mercado. Estas conclusões reafirmam e legitimam o uso do planejamento, uma vez que as situações apontadas e que justificam a elaboração de uma política de turismo consistem em aspectos corriqueiros ao processo de promoção do turismo. Contudo, percebe-se que, via de regra, a importância econômica é, em sua maioria, o principal motivador do uso do planejamento quando associado à atividade. Para uma melhor compreensão de como o planejamento é abordado no âmbito da atividade turística, cabe citar cinco principais tradições nesta área, segundo Geoffrey Wall (2000) e Donald
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Getz (1991). A primeira, denominada boosterism, consiste em uma promoção do desenvolvimento e, dessa forma, não se configura como uma forma de planejamento. A segunda tradição compreende o turismo como uma atividade econômica, dando enfoque especial em seu processo de promoção e em seu marketing. A terceira foca, sobretudo, os aspectos espaciais do turismo e o planejamento dos recursos físicos. A quarta tradição vem sendo amplamente discutida na atualidade e refere-se ao planejamento comunitário, que estipula que cada local tenha o controle dos processos de planejamento e seus objetivos. Para tanto, utilizam-se conceitos como planejamento social, participativo e comunitário e capacidade de carga. A quinta, que propõe uma abordagem integrada e sistemática, prevê que objetivos, políticas e estratégias devem estar fundamentados em uma total compreensão de como o sistema turístico funciona. Cabe ressaltar que, assim como na apresentação das principais correntes de estudo do turismo, estas tradições visam apenas permitir uma melhor visualização e organização das diversas perspectivas em torno do planejamento turístico. O que importa observar, neste momento, é qual a relação estabelecida entre as principais perspectivas de planejamento turístico e as abordagens de desenvolvimento anteriormente identificadas. Espera-se, com isto, traçar um paralelo que encontre pontos de convergência entre ambos enfoques.

1.3 PARALELO ABORDAGENS X PLANEJAMENTO

No intuito de contrastar a relação estabelecida entre as principais perspectivas de planejamento turístico e as abordagens de desenvolvimento identificadas por meio da literatura de turismo, é sugerida a leitura de tais informações a partir de um quadro síntese, disposto a seguir. Dessa forma, são relacionadas as abordagens de desenvolvimento selecionadas, bem como suas respectivas características principais e os preceitos das principais formas de compreensão do planejamento no âmbito do turismo. Vale destacar a proximidade estabelecida entre os conteúdos de ambos os elementos (Quadro 1), no sentido de evidenciar a estreita relação entre os processos de planejamento e os desdobramentos advindos dos processos de desenvolvimento. Ainda que, de início, seja difícil estabelecer uma correlação entre as noções dispostas no quadro, em virtude da não correspondência numérica entre eles, é possível perceber que as abordagens de desenvolvimento exercem uma clara influência entre as perspectivas de planejamento turístico e vice-versa. Neste sentido, é de suma importância introduzir, mesmo sumariamente, as principais fases da política pelas quais, mundialmente, passaram a atividade turística, abrangendo, para tanto, o período de 1950 até o momento atual. O primeiro momento, que compreende o período de 1950 a 1970, caracterizou-se pela expansão do turismo de massa, onde eram comuns as políticas de
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fomento, que tinham como objetivo principal o aumento do fluxo de visitantes. Em seguida, entre os anos de 1970 a 1985, observou-se o início do período no qual as políticas começavam a identificar o turismo como agente de desenvolvimento. Em virtude deste caráter atribuído à atividade, verificou-se um aumento do envolvimento governamental e o consequente fornecimento de infraestrutura para as localidades definidas como turísticas. Do ano de 1985 até o momento presente, entra-se na terceira e atual fase, um novo momento, estimulado por questões que atualmente se encontram em voga na sociedade e no meio cientifico e acadêmico. Observa-se uma maior preocupação com as temáticas ambientais, ao mesmo tempo em que se percebe um significativo aumento da competitividade, estimulando, por sua vez, um posicionamento responsável e profissional do mercado de turismo, no qual o Estado diminui sua interferência e procura assumir um papel de coordenação e estruturação da atividade (SOLHA, 2002; OMT, 2001; HALL, 2001).

QUADRO 1 Comparativo entre Abordagens do Desenvolvimento presentes na literatura de turismo X Perspectivas de planejamento turístico

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No primeiro dos casos, é notável a relação direta entre a noção de desenvolvimento econômico e a perspectiva de planejamento, que se volta para o incremento econômico do turismo. Acompanhando a mesma lógica que possibilitou o questionamento acerca dos limites ambientais do desenvolvimento econômico, cita-se o surgimento da noção de desenvolvimento sustentável e, com ela, perspectivas de planejamento, que traziam como influência principal o discurso da sustentabilidade. Por último, cabe mencionar a aproximação entre a noção de desenvolvimento comunitário/local e a noção de planejamento comunitário, tendo como foco principal as relações que serão traçadas no âmbito do local. Nota-se que a mesma lógica aplicável às abordagens presentes na literatura de turismo é estendida às perspectivas de planejamento turístico. De qualquer forma, influenciada por diferentes áreas, contextos sociais e por interesses objetivos e, mesmo em certos momentos, não declaráveis, as abordagens de desenvolvimento consistem em elementos constantes e presentes na análise do turismo.

CONCLUSÕES

A menção à capacidade do turismo de atuar enquanto agente de desenvolvimento é algo largamente apontado nos trabalhos de turismo, fato que direciona para uma espécie de consenso compartilhado também nos meios político e empresarial. O desenvolvimento turístico, assim como é utilizado pelos trabalhos da área, não distingue uma simples, mas importante diferença entre o desenvolvimento do e o desenvolvimento pelo turismo (MALTA, 2011). Ou seja, o desenvolvimento do turismo nem sempre corresponde, de forma positiva, ao desenvolvimento pelo turismo, o qual ele mesmo pode vir a ser capaz de estimular. Apesar de se observarem, em vários contextos, altas taxas de crescimento do turismo, divulgadas como parte de seu desenvolvimento, não se pode dizer o mesmo sobre evidências de benefícios concretos para as populações envolvidas. Conforme ressalta Pedro Armendáriz e Helga Serrano (2006, p. 47), em alguns países em desenvolvimento, “mais de 2/3 da renda do turismo internacional nunca chega à economia local devido a grande fuga de divisas”. Vale destacar, para tanto, a capacidade dual da atividade em proporcionar impactos tanto positivos quanto negativos para a comunidade receptora, uma vez que, para que os impactos sejam positivos, atrela-se a construção de um equilibrado e harmonioso processo de promoção do turismo ao exercício do planejamento turístico, nem sempre ao alcance das comunidades receptoras. O uso do planejamento como instrumento fundamental e indispensável à construção de um desenvolvimento harmonioso gerado pela atividade é outro ponto de concordância, quase
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consensual, nos estudos da área de turismo. Cabe questionar, no entanto, até que ponto a dinâmica de promoção do turismo deverá necessariamente estar atrelada ao planejamento, paralelamente ao fato de que nem sempre é dada a oportunidade aos envolvidos neste processo, sobretudo aos grupos menos influentes, de tornar efetivo o uso desta ferramenta, redundando em mudanças na qualidade de vida destes atores. Paralelamente, torna-se necessário apontar, na discussão acerca dos limites e possibilidades do turismo comunitário, que o termo alternativo ou a criação de adjetivos que visavam diferenciar o turismo de seu modelo tradicional, nem sempre significam, na prática, a conformação destas premissas. Assim como percebe Modesto Quintero (2006, p. 72), “nas últimas décadas, a estrutura do turismo mudou para ecoturismo, turismo solidário, de aventura, social, entre outros, mas os problemas de fundo continuam a crescer notavelmente”. Essa ponderação é fundamental para demonstrar também que, apesar dos inquestionáveis benefícios dessas novas formas de promoção do turismo, ainda pouco se contribui para amenizar os problemas básicos que ele mesmo gera. Em uma linha de raciocínio semelhante, cita-se o trabalho realizado por Souza (1997), em que é destacado que o turismo será tendencialmente benéfico ou maléfico para uma dada realidade, dependendo: do que se entenda por desenvolvimento, da natureza do turismo em questão, ou seja, da forma como ele é promovido, se baseado em uma lógica predatória ou não, e, finalmente, de quais grupos da área de destino se encontram envolvidos. Dessa forma, em meio à identificação de diferentes abordagens de desenvolvimento, cabe indagar, com base nas estratégias propostas, até que ponto elas diferem entre si quanto à forma de inserção e contestação da ordem existente, do ponto de vista social e econômico. Em diversos momentos, as abordagens utilitarista/econômica e sustentável – ao apresentarem, predominantemente, características tais como o forte caráter econômico, a utilização do desgastado chavão sustentável como um fator comercial e competitivo, entre outras – tornam-se quase um único enfoque de compreensão do desenvolvimento a partir do turismo. Destaca-se, também, em especial nas abordagens sustentável e comunitária/local, que, ao se apropriar de uma determinada perspectiva de leitura do desenvolvimento, há uma significativa diferença entre o que é o desenvolvimento e o que ele realmente deveria ser. Importa destacar, ao final, que a identificação de três abordagens não visa encerrar tal discussão, em virtude da sua complexidade e das inúmeras possibilidades de compreensão existentes. Mais do que limitar as maneiras de se compreender o desenvolvimento quando relacionado ao turismo, busca-se apontar quais são as abordagens ou os enfoques de desenvolvimento que estão implícitos na literatura e nos autores de turismo em tela nesse artigo.

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O TURISMO COMUNITÁRIO NA RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ESTADUAL PONTA DO TUBARÃO

Ismael Fernandes de MELO Ms.C. Desenvolvimento e Meio ambiente – CEMAD/UERN ismaelmelo@uern.br José Élio da Silva SOUZA Especialista em E. Ambiental e Geografia do Semiárido – IFRN/Macau-RN elioptubarao@gmail.com Ramiro Gustavo Valera CAMACHO Prof. Adjunto Dep. Ciências Biológicas/UERN ramirogustavo@uern.br Joilson Marques Ferreira FILHO Aluno do Curso de Gestão Ambiental – UERN joilson_filho@hotmail.com

RESUMO

Este trabalho permeou como temática geral a atividade turística e as experiências locais de Turismo Sustentável de Base Comunitária (TBC) estabelecidas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual Ponta do Tubarão (RDSEPT), localizada no Litoral Setentrional do Estado do Rio Grande do Norte, mais precisamente nos municípios de Macau e de Guamaré-RN. O TBC, voltado para os setores populares da economia solidaria e contra a lógica do não neoliberalismo da economia do capitalismo selvagem, apresenta-se como uma alternativa ao desenvolvimento sustentável da atividade turística, baseado não apenas na conservação dos atributos ambientais dos locais em que o mesmo pode vir a ser implantado, mas também na melhoria das condições socioeconômicas das populações locais. Diante disso, buscou-se investigar, através de pesquisas in loco e a luz de referenciais teóricos, entre os quais, Coriolano, 2003/2005/2007; Vasconcelos, 2007; Silva, 2005 e Moura, 2005, a fim de verificar de que maneira o TBC vem sendo desenvolvido na RDSEPT. A partir desse estudo foi possível verificar como se configura a percepção de visitantes/turistas, empreendedores locais e gestores da RDSEPT acerca do TBC. Assim, percebeu-se que o Turismo de Base Comunitária é uma alternativa para o desenvolvimento sustentável local, sendo um complemento na receita financeira dos sujeitos envolvidos, pautada na economia solidaria, ou seja, na divisão dos lucros advindos das atividades ou serviços prestados para os visitantes/turistas. PALAVRAS-CHAVE: Turismo Sustentável; Economia Solidária; Comunidades Tradicionais.
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INTRODUÇÃO

Historicamente, o desenvolvimento da atividade turística no Estado do Rio Grande do Norte aconteceu em três fases: a primeira fase embrionária, deflagrada entre os anos de 1930 a 1964, quando o turismo é visto como uma atividade complementar do Estado; a segunda fase de envolvimento, impulsionada durante os anos de 1964 a 1986, quando o poder público inicia a construção de uma infraestrutura para o desenvolvimento da atividade e, por fim, a terceira fase de desenvolvimento, iniciada em 1986 e prolongada até os dias atuais, onde se destaca a atuação do PRODETUR (Programa de Ação Para o Desenvolvimento do Turismo do Nordeste), cujo objetivo era aumentar a receita do turismo receptivo, induzir novos investimentos em infraestrutura em áreas turísticas; gerar emprego e renda através de atividades direta e indiretamente relacionadas ao turismo; dentre outros (BANCO MUNDIAL BRASIL, 2003; SETUR, 2004; SILVEIRA, 1999). Mediante essas considerações, buscou-se nesse trabalho investigar de que maneira o Turismo Sustentável de Base Comunitária (TBC) vem sendo desenvolvido RDSEPT (figura 01), localizada ao longo dos municípios de Macau e de Guamaré, no estado do Rio Grande do Norte, fornecendo assim subsídios teórico-metodológicos a incorporação da sustentabilidade ao manejo ambiental da reserva.

Figura 01: Localização geográfica da RDSEPT (Municípios de Macau Guamaré, RN, Brasil). Fonte: Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (IDEMA) Ano: 2006

A área da Reserva abrange dez comunidades de dois municípios, a saber: Barreiras, Diogo Lopes, Sertãozinho, Cacimba da Baixa, Pau Feito, Soledade e Chico Martins, pertencentes ao município de Macau; e Mangue Seco I e II e Lagoa Doce, pertencentes ao município de Guamaré.
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A RDSEPT, criada através da Lei 8.349 que entrou em vigor no dia 18 de julho de 2003 e a partir do desejo de suas comunidades pesqueiras, tem como objetivo fundamental preservar os recursos naturais locais e promover a sustentabilidade da população tradicional residente em suas circunscrições territoriais. Como procedimento metodológico, utilizou-se uma análise empírica que contemplou levantamentos de dados e informações atinentes ao TBC na RDSEPT através de estratégias quantitativa e qualitativa. Essa interatividade entre métodos configurou-se em algo preponderante e eficaz quando se pretendeu repisar uma leitura de fenômenos construídos socialmente, revestidos por um atributo tanto econômico, como cultural e ambiental. Nesse sentido, Minayo (2002, p.22), destaca que o conjunto de dados quantitativos e qualitativos não se contrapõe; ao contrário, “[...] se complementam, pois a realidade abrangida por eles interage dinamicamente, excluindo qualquer dicotomia”. A partir dessa interatividade entre métodos, foram elaboradas entrevistas semiestruturadas definidas como uma técnica em que “[...] o investigador se apresenta frente ao investigado e lhe formula perguntas, com o objetivo de obtenção dos dados que interessam à investigação” (GIL,1999, p.117). Para coleta de dados também foi feita uma observação participante, levando-se em consideração o contato próximo com os moradores das Comunidades Tradicionais da RDSEPT, através de uma amostragem aleatória. Como embasamento teórico-metodológico foi realizado um levantamento de bibliografias especializadas em temáticas sobre TBC, Turismo de Massa e Sustentabilidade; pesquisas em sites de buscas e consultas virtuais; como ainda consultas e pesquisas documentais no Acervo Bibliográfico e Documental da Sede da RDSEPT, onde consultamos o livro de ata, o livro de posse, livro de presença das reuniões do Conselho Gestor, artigos, monografias, mapas, fotos, minuta do Zoneamento Econômico Ecológico (ZEE), dentre outros documentos.

1 DESENVOLVIMENTO 1.1 TURISMO: UMA ATIVIDADE ECONÔMICA

O turismo é uma atividade mundialmente reconhecida na cadeia produtiva da economia global. Atividade esta que surgiu quando o homem descobre a curiosidade, o prazer, a paixão de viajar, quando a viagem deixa de ser perigo e passa a ser algo prazeroso, objeto de atração, da tão sonhada felicidade e alegria do ser humano. O conceito de turismo surge no século XVII, na Inglaterra, com suas primeiras reflexões formuladas de maneira mais intensa no período de pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A atividade turística se caracteriza pela saída de pessoas de um lugar de origem para outros lugares,
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com permanência de mais de um dia e o consequente retorno ao seu lugar de moradia. Essa atividade ainda se caracteriza pelo consumo ou apropriação de atividades pré-existentes, modificando-se para adaptá-las à recepção dos visitantes56/turistas57. Acerca dos atrativos turísticos, estes se referem a “[...] todo lugar, objeto ou acontecimento de interesse turístico que motiva o deslocamento de grupos humanos para conhecê-los” (BENI, 2000, p.330). Os bens turísticos podem ser naturais; histórico-culturais, como manifestações tradicionais e/ou populares; realizações técnico-científicas contemporâneas ou acontecimentos programados, enfim “[...] todos os elementos subjetivos e objetivos ao nosso dispor, dotados de apropriabilidade, passiveis de receber um valor econômico, ou seja, um preço” (BENI, 2000, p.38). Segundo Rodrigues (1996, p.56), “[...] o turismo é uma atividade que produz um espaço [...]. Desse modo, a escolha do local precisa ser compreendida com a qualidade física e social destes locais. E assim, trata-se de uma mercadoria cuja marca é o consumo do espaço”. Para esse fim, cada vez mais o espaço tem sido produzido pelo turismo, possibilitando que, desse modo, diversas paisagens naturais entrem no circuito da troca, apropriadas como áreas de lazer para quem as puder consumir (CARLOS 1996), já que, podemos considerar o turismo como a única atividade humana capaz de aproveitar “[...] o espaço tanto por seu valor paisagístico como pelas condições ambientais que prevalecem”. (CRUZ, 2002, p.109). O turismo é hoje uma das maiores cadeias da economia do capital neoliberal do mundo, gerando, direta ou indiretamente, milhares de empregos. Essa atividade, ainda vem sendo apontada como alternativa para melhorar a condição econômica de alguns lugares pobres. Como afirma Coriolano (2007, p. 344):

O turismo tem sido divulgado em regiões tropicais como uma atividade redentora, fonte primeira de crescimento econômico para diversas (atividades), especialmente as litorâneas que podem oferecer o turismo de sol e mar. As pesquisas mostram que ele tem sido também fonte geradora de uma série de problemas de ordem ambiental, cultural e socioeconômica, sobretudo quando não implementado de forma compatível com a ética ambiental e social.

Na reflexão acima, a autora é muito clara ao tecer comentários sobre a atividade turística desenvolvida nos territórios litorâneos. Na maioria das vezes, essa atividade se apropria de espaços historicamente ocupados por populações tradicionais, sejam de ribeirinhos, de caiçaras ou de pescadores. Como exemplo disso, podemos mencionar o caso da comunidade pesqueira de Vila de Ponta Negra, localizada na cidade de Natal/RN e formada, aproximadamente, por 100 famílias de
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É visitante aquele que se desloca temporariamente para fora da sua residência habitual, quer seja dentro do seu próprio país ou fora dele, por uma razão que não seja a de aí exercer uma profissão remunerada. 57 Visitante temporário que permanece no local visitado por mais de 24 horas.

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pescadores que desenvolvem a atividade pesqueira há mais de 90 anos, no qual vem sendo acossada pelas ressonâncias negativas do turismo de massa praticado na praia de Ponta Negra (figura 02).

Figura 02: Complexo Turístico da Praia de Ponta Negra-Natal/RN - Fonte: Revista de Turismo Rio Grande do Norte, 2008.

1.2 TURISMO SUSTENTÁVEL DE BASE COMUNITÁRIA: UMA ATIVIDADE ECONÔMICA SOLIDÁRIA

O TBC surge como uma das muitas alternativas pensadas para as populações locais, se constituindo como uma atividade econômica solidária que concatena a comunidade com os visitantes a partir de uma perspectiva intercultural, no qual as comunidades residentes58 são os agentes da atividade turística e responsáveis pelo seu desenvolvimento e gestão, propiciando o manejo adequado dos recursos naturais e a valorização do patrimônio cultural, baseado em um princípio de equidade na distribuição dos benefícios gerados. Além disso, o TBC se torna compatível com a proteção ambiental, respeitando as limitações ambientais e socioculturais existentes in lócus. Na década de 1940 surgem os primeiros projetos de desenvolvimento comunitário, por meio de convênios para incrementar a produção de alimentos, a educação industrial e rural. Esses projetos passaram a ganhar respaldo com a fundação, em 1948, de uma Associação de Crédito e Assistência Rural (ACAR) e com a criação, nas décadas de 1950 e 1960, das Campanhas de Educação Rural (CNER) e do Serviço Social Rural.

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Núcleos populacionais formados pela população tradicional e pela população residente.

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Sobre o turismo e suas relações com desenvolvimento social, Coriolano (2003, p.130) afirma que este só acontece quando “[...] todas as pessoas são beneficiadas, quando atingem a escala humana e o turismo tanto pode se vincular ao crescimento econômico concentrado, como ao desenvolvimento social, o chamado desenvolvimento local”. Diante disso, o TBC surge como uma alternativa ao desenvolvimento social, tendo em vista que ele se efetiva a partir das ações desempenhadas pela própria comunidade, onde seus moradores passam a ser ao mesmo tempo articuladores e construtores da cadeia produtiva, de maneira que a renda e o lucro permanecem na comunidade, contribuindo assim para melhoria da qualidade de vida da população e levando os envolvidos a se sentirem capazes de cooperar e organizar as estratégias do desenvolvimento do turismo. Ademais, o TBC surgiu em áreas de UC abrindo novas perspectivas de postos de emprego e geração de renda para as pequenas comunidades pesqueiras e agrícolas, funcionando também como fator de conscientização e integração das populações às políticas e ações voltadas para o desenvolvimento sustentável de forma participativa pelos envolvidos. Neste sentido, Alcântara (2003, p.28) afirma que a ideia de gestão participativa tem mostrado que, em várias partes do mundo, é uma forma mais democrática de planejar e executar, contribuindo de modo mais eficiente para a sustentabilidade da natureza e da atividade turística. O TBC ainda destaca-se pela mobilização da comunidade na luta por seus direitos contra grandes empreendedores da indústria do turismo de massa que pretendem ocupar seu território, ameaçando a qualidade de vida e as tradições da população local. Como afirma Coriolano e Vasconcelos (2007, p.269), o turismo comunitário, que é um segmento do turismo cultural, “[...] depende da participação e organização da comunidade envolvida. Agrupados, os indivíduos organizam arranjos produtivos locais, possuindo o controle efetivo das atividades econômicas associadas à exploração do turismo”. Essa alternativa do TBC já vem se concretizando em algumas comunidades pesqueiras e rurais do Estado do Ceará pela Rede TUCUM, composta por doze realidades sociais: uma Vila Indígena, oito Comunidades de Pescadores Artesanais, um Assentamento Rural, o Movimento dos Sem Terra (MST) e uma Associação de Mulheres, sediada na cidade de Fortaleza/CE. A Rede TUCUM conta com a experiência de algumas comunidades que há tempos estão inseridas no circuito nacional e internacional do turismo comunitário, como: Tremembé, Prainha do Canto Verde, Ponta Grossa e Coqueirinho. Além dessas, outras como: Tatajuba, Caetanos de Cima, Flecheiras, Conjunto Palmeira Jenipapo-Kaninde e Batoque, começaram recentemente a integrar o turismo comunitário às suas atividades tradicionais, conforme figura 03.

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Figura 03: Localização geográfica das comunidades da Rede TUCUM ao longo do 573 Km de Zona Costeira do estado do Ceará/CE - Fonte: REDE TUCUM.

Desta maneira, através dessas iniciativas e de tantas outras espalhadas pelos vários rincões brasileiros, percebe-se que um turismo mais humanitário, menos degradante e mais solidário, seja possível de ser materializado nas comunidades de populações tradicionais, com quilombolas, pescadores, agricultores e indígenas integrados a essa atividade econômica. A aplicação de questionários distribuídos entre empreendedores locais59 (2 entrevistados), visitantes/turistas60 (3 entrevistados) e gestores61 (2 entrevistados), resultaram em como esses agentes sociais, com seus modos de vida e de trabalho, interagem na produção do espaço/território da RDSEPT. Além disso, foi considerada a maneira como cada um desses entrevistados percebe o Turismo Sustentável de Base Comunitária, enquanto uma atividade que garante a geração de renda para a população local, promovendo o real desenvolvimento socioeconômico das comunidades abrangidas. Entre o Grupo de Empreendedores Locais, moradores nativos das comunidades de Sertãozinho e de Diogo Lopes, com faixa etária entre (20) vinte a (40) quarenta anos de idade, foi ressaltada a importância de manter estas comunidades tradicionais através de um desenvolvimento sustentável. A principal fonte de renda dos empreendedores entrevistados vem dos serviços de hospedagem e serviços de guia, sendo esses últimos desenvolvidos a partir de atividades de

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Foram dois entrevistados sendo que um trabalha com serviços de guias e o outro com serviços de hospedagem. Dois eram do estado do Rio Grande do Norte, mais precisamente da capital do estado e o outro de Brasília/DF. 61 Os Gestores Foram representados por dois entrevistados, sendo membros das Instituições não governamentais locais.

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acompanhamento nas trilhas existente na Reserva entre elas as trilhas das dunas e passeios de barco no estuário. Sobre a percepção dos entrevistados acerca do Turismo Sustentável de Base Local, estes afirmaram que esse tipo de Turismo é uma atividade em “[...] que os moradores são os próprios empreendedores na comunidade”, no qual a própria comunidade pode “[...] se beneficiar dos lucros, onde os atores envolvidos tomam conta das suas atividades e sempre está refletindo sobre o meio ambiente” (Filipe guia de turismo, 20 anos). O outro entrevistado relatou que “no TBC as pessoas estão envolvidas diretamente com os seus serviços prestados, o mesmo tende ser mais justo na busca do desenvolvimento comunitário” (José, Empreendedor, 36 anos). Por outro lado, no Turismo Convencional, segundo fala de um dos entrevistados, “[...] são os grandes empresários que são donos dos seus empreendimentos, ou seja, das suas empresas e os divisores econômicos são concentrados nas mãos de poucas pessoas” (José, Empreendedor, 36 anos). Acerca da criação da RDSEPT, os entrevistados afirmaram que a criação dessa Unidade de Conservação foi no sentido de garantir o território para os moradores tradicionais das comunidades residentes. Nesse sentido, pode-se inferir que a criação da RDSEPT se deu a partir do desejo dos moradores das comunidades tradicionais, expressos pelas assinaturas dos abaixo assinados e nas moções dos Encontros Ecológicos das comunidades de Diogo Lopes e Barreiras dos anos de 2000, 2001 e 2002. Os dois entrevistados foram perguntados sobre a relação da participação das pessoas das comunidades com a prática do Turismo de Base Comunitária na RDSEPT, no qual um dos entrevistados respondeu o seguinte: sabe que “[...] existe um grupo de turismo onde os prestadores de serviços são da própria comunidade e os mesmo estão inseridos no grupo, mas precisa de um envolvimento e a participação mais ativa destas pessoas envolvidas nas atividades turísticas” (José, Empreendedor, 36 anos). Fica evidenciada a existência do Grupo de Turismo de Base Comunitária da RDSEPT, como também outros grupos e associações existentes nas comunidades. Constatou-se também certa frequência de visitantes/turistas na Reserva, oriundos de vários municípios do Rio Grande do Norte e de outros Estados, bem como de outros países. Esses visitantes/turistas se direcionam a Reserva com a finalidade de conhecer o ambiente da Unidade de Conservação, através de aulas de campo, de passeios no estuário, de trilhas nas dunas, assim como, participando de apresentações de palestras sobre a historia da criação da RDSEPT e de eventos, como os encontros Ecológicos e as Regatas de veleiros de Diogo Lopes.
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Isso mostra que não há uma frequência tão grande de visitantes/turistas, mas chega a ser muito representativa para a Reserva, isso levando em consideração a pouca divulgação turística dos atrativos naturais e culturais das comunidades. Os grupos de visitantes/turistas foram abordados na comunidade de Sertãozinho, especificamente na Pousada do Élio, na qual foram averiguadas as impressões dessas pessoas sobre o TBC na RDSEPT. Alguns deles afirmaram que já tinham ouvido falar sobre o TBC e as experiências existentes no Brasil, de modo particular na região Nordeste, principalmente na Prainha do Canto Verde, localizada no estado do Ceará. Além disso, relataram que conheciam as iniciativas desse tipo de Turismo no âmbito da reserva. Os entrevistados afirmaram que o TBC é bem local, ou seja, é para beneficiar a comunidade e gerar renda para as famílias envolvidas nas atividades turísticas de forma sustentável. Note-se que os entrevistados são admiradores do TBC, atividade que proporciona aos moradores das comunidades oferecerem os produtos/serviços locais, a exemplo do artesanato, da gastronomia, entre outros, garantindo também os atrativos naturais preservados. Sabe-se que o uso da Reserva é autorizado para visitação, desde que os visitantes/turistas sejam conscientes e responsáveis pela preservação do ambiente visitado. Os entrevistados afirmaram que o turismo da forma como vem sendo desenvolvido na RDSEPT, possibilita a conservação do meio ambiente. Sobre as impressões que as visitas a Reserva proporcionam, uma entrevistada relatou que “[...] foi maravilhosa pelo passeio no estuário, passando pelas gamboas/manguezais e poder observar uma diversidade da fauna e flora”. Com base na conservação/manutenção da área da reserva, os visitantes confirmaram que a mesma está bem preservada e conservada, mas se faz necessário um trabalho de educação ambiental contínuo, pois existe lixo em locais inadequados como, por exemplo, no estuário do Rio Tubarão entres as comunidades de Sertãozinho, Diogo Lopes e Barreiras. Portanto, fica claro que se faz necessário uma educação ambiental constante e ininterrupta ao longo das comunidades, com o desenvolvimento de projetos de educação ambiental que envolva diversas atividades, desde o plantio de mudas a realização de trilhas interpretativas, de oficinas de reciclagem de lixo e dos Encontros Ecológicos. O Grupo de Gestores da RDSEPT entrevistados foram das seguintes entidades não governamentais: Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) e Área Pastoral da Paróquia de GuamaréRn. Para esses gestores, o Turismo Sustentável de Base Local corresponde a um tipo de turismo que oferece “[...] os serviços de rotina garantindo a continuidade para as gerações futuras, visando ter
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um número de empreendedores das comunidades, cada um na sua especialidade e também uma atividade desenvolvida com os moradores nativos de uma localidade” (Silvio, Pescador, 39 anos). Para o Senhor Silvio Pescador, 39 anos, existe uma diferença entre turismo de Base Comunitária e o turismo “convencional”: “o turismo sustentável de base comunitária visa explorar o meio ambiente com responsabilidade, beneficiando a comunidade de forma coletiva”. Já o turismo convencional atropela a ‘visão’ ambiental centralizando o lucro, favorecendo a quem tem mais [...]. No que concerne ao Turismo Convencional, este se configura, mediante a visão dos gestores da Reserva, como um tipo de turismo que “[...] atropela o desenvolvimento, na maioria das vezes não respeitando o meio ambiente. O mesmo concentra os lucros, favorecendo a quem tem mais e centralizando nos empreendimentos empresariais” (Edjane, professora, 37 anos). Ainda para os entrevistados o desenvolvimento do TBC na reserva, “[...] visa explorar o meio ambiente com responsabilidade, beneficiando a comunidade de forma coletiva e os divisores econômicos que são divididos com os prestadores de serviços da localidade” (Silvio, pescador, 39 anos). Para os Gestores da reserva, a criação da mesma teve como objetivo principal garantir o território para as populações locais, promovendo a sustentabilidade local. Ainda segundo o senhor Silvio, os objetivos da criação da RDSEPT estão sendo alcançados por que a população local conseguiu “[...] manter a pesca artesanal como principal fonte de renda, que tem sustentado as comunidades pesqueiras”. Acerca da preservação dos recursos naturais a partir da constituição da RDSEPT, seu Silvio afirmou que espécies da fauna, tais como: “[...] mariscos, peixes, continuam sendo explorados, porém não houve desequilíbrio no estoque pesqueiro”. Ademais, sobre o uso da RDSEPT para o Turismo Sustentável de Base Comunitária, o entrevistado supracitado discorreu que:

[...] não há lugar melhor para este tipo de Turismo onde temos uma metodologia que conseguimos manter o equilibro nas atividades oferecidas pelo próprio e ao mesmo tempo respeitamos o meio ambiente dando oportunidade aos nativos (Silvio, pescador, 39 anos).

Sobre a percepção dos gestores acerca da viabilidade do TBC como estratégia para a conservação da natureza, esses afirmaram que possibilita a conservação dos recursos naturais, tendo em vista que os seus princípios se baseiam na responsabilidade social, na valorização da cultura local e na preservação do meio ambiente. E oportuno frisar, que ao longo da pesquisa fica evidenciado a participação das pessoas no processo de gestão RDSEPT.

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CONCLUSÃO

O turismo é uma atividade que vem crescendo numa velocidade muito grande, ampliando sua importância econômica. Em consequência desta velocidade, do modelo de turismo adotado e das ineficientes políticas públicas de regulamentação e fomento desta atividade, os seus impactos negativos, como: especulação imobiliária, concentração de riqueza, degradação ambiental de ambientes frágeis, etc. se ampliam e se evidenciam no mundo inteiro. Apesar de o turismo ter propiciado um incremento econômico dos destinos turísticos nos quais foi implementado, sua massificação também resultou em um conjunto de impactos negativos, com a percepção de alguns setores conscientes de instituições e organismos ligados ao turismo, que vem dialogando para compreendermos as primeiras iniciativas contrárias ao desenvolvimento desordenado do turismo. Ancorada nos preceitos do desenvolvimento sustentável, a RDSEPT foi criada com intento de garantir o território para as populações tradicionais. Essa Reserva apresenta um potencial turístico elevado, com belezas naturais ímpares. A RDSEPT ainda se constitui de grande importância para o estado do Rio Grande do Norte, por tratar-se de uma Unidade de Conservação tendo como base a atividade pesqueira e outras atividades tradicionais desenvolvidas. Espaço este onde os empreendedores locais, tais como: donos de pousadas e restaurantes, proprietários de barcos/pescadores, agricultores, guiais, artesões, entre outros, são beneficiados com os divisores econômico das atividades turísticas desenvolvidas na Reserva. Por fim, consideramos que esse trabalho vem de encontro ao modelo adotado pelo sistema capitalista vigente, trazendo como pano de fundo uma gestão comunitária, uma socioeconomia solidária e uma conservação ambiental.

REFERÊNCIAS ALCÂNTARA, Elzenice de Nazaré Monteiro. Prainha do Canto Verde: Turismo Socialmente Responsável e Gestão Participativa. Fortaleza, 2003. 143 p. Dissertação. Curso de Mestrado Profissional em Gestão de Negócios Turístico da Universidade Estadual do Ceará. BANCO MUNDIAL BRASIL. Brasil: crescimento e redução de pobreza no Rio Grande do Norte: memorando econômico sobre o Estado. Brasília: Banco Mundial, 5 dez. 2003. Disponível em: <http://www.bancomundial.org>. BENI, M. C. Análise estrutural do turismo. 9. ed. São Paulo: SENAC, 2000.
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TURISMO DAS FLORES NO BREJO: AS CONQUISTAS DA COOPERAÇÃO NO INTERIOR DA PARAÍBA

Ivana Milena Sales Rolim de VASCONCELOS¹ Economista mestranda em Desenvolvimento Regional UEPB/UFCG lemina_sales@hotmail.com Leonardo Guilherme LEITE¹ Jornalista mestrando em Desenvolvimento Regional UEPB/UFCG leonardo.g.l@hotmail.com Raiza Madje Tavares da SILVA¹ Jornalista mestranda em Desenvolvimento Regional UEPB/UFCG raizamadje@hotmail.com Amadeus Mozart Marques OLIVEIRA¹ Graduando em Comunicação Social pela UEPB olimozart@live.com
¹ Membros do grupo de pesquisa Observatório do Desenvolvimento – PRPGP/UEPB

RESUMO

As práticas agrícolas locais, na atualidade, recebem nova significância graças às necessidades dos distintos agentes sociais de participarem da promoção do lugar e de seu consequente desenvolvimento. Seja pela necessidade de inserção no novo cenário produtivo marcadamente global, seja como uma forma alternativa que surge como um contramovimento aos ditames capitalistas de produção, o fato é que se assiste, no Brasil, a uma retomada de ações agrícolas que colocam no centro do processo os elementos característicos de criação, antes considerados “antigos”. Essa valorização da vida no campo viabiliza a permanência da população na zona rural e a valorização das potencialidades locais, a exemplo da prática da floricultura e incentivo ao turismo rural. Com base nos pressupostos enunciados, o trabalho que segue tem como objetivo apresentar a Cooperativa de Floricultores do Estado da Paraíba –COFEP– como alternativa de geração de emprego e renda ,além da busca por melhor qualidade de vida,mais ainda apresentar a relevância do grupo no processo de desenvolvimento sócio-econômico e cultural no Brejo Paraibano. PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento Local; Cooperação; Inserção; Flores.

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INTRODUÇÃO

O presente artigo procura demonstrar, de uma forma sintética como a criação/recriação de algumas atividades “antigas” antes praticadas sem o intuito de se obter lucro pode se tornar patrocinadora de desenvolvimento em algumas regiões e podem se mostrar modificadoras de realidades e de cenários caóticos de desemprego. Partimos da premissa de que a economia de mercado atuante se apresenta com ineficiências e incapacidade de auto-regulação. Sendo assim, o desenvolvimento local surge como uma alternativa propondo um compartilhamento de riquezas mais equitativo, com valorização de potencialidades e participação os atores locais. A pesquisa no campo do desenvolvimento econômico, mais especificamente quanto ao Desenvolvimento Local e a cooperação torna-se de fundamental importância visto que em suas bases essa categoria prioriza um desenvolvimento solidário, promovendo uma maior integração entre os grupos sociais e assim, como consequência, observa-se uma diminuição da exclusão. É nesse cenário que a ação dos atores locais faz toda a diferença, partindo da ideia de uma conscientização de que outra economia acontece capaz de promover a satisfação das necessidades básicas de cada um desses. A mobilização e a cooperação promotoras dessa dinâmica fazem surgir empreendimentos, a criação e/ou recriação de atividades econômicas em especial naqueles cenários de crise, capazes de propiciar a acumulação local e sadia. A iniciativa de desenvolvimento dessas atividades pode ocorrer em pequenas localidades como também podem tomar proporções maiores. Na oportunidade o exemplo aprofundado trata da Cooperativa de Floricultores do Estado da Paraíba (COFEP) com duas unidades localizadas mais especificamente nas Comunidades Sítio Avarzeado e Sítio Almecega, localizados nas cidades de Pilões (PB) e Areia (PB), respectivamente revelam uma alternativa de desenvolvimento econômico. A realização do estudo foi feito a partir de revisão bibliográfica acerca do tema e verificação in loco da atividade promotora dessa mudança na vida dessas famílias. Para uma melhor avaliação e alcance dos objetivos propostos foram utilizados instrumentos de coleta de dados: questionários e entrevistas. Os questionários e a entrevista abordaram aspectos acerca da fundação da Cooperativa, membros cooperados, parceiros e atuação da empresa, além de aspectos relacionados ao perfil sócio-econômico das comunidades atuantes na Cooperativa de Floricultores do Estado da Paraíba – COFEP. Pretendeu-se mostrar as principais atividades que são desenvolvidas nesse novo rural brasileiro e em particular as características singulares do empreendimento COFEP (Cooperativa de Floricultores do Estado da Paraíba).

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1 O NOVO RURAL

As ineficiências e incapacidade de auto-regulação apresentadas pela atual economia de mercado não passam despercebidas aos nossos olhos. Na ocasião, o desenvolvimento e/ou renovação de algumas atividades “antigas” e praticadas sem o intuito de se obter lucro surge como alternativa de compartilhamento de riqueza mais equitativa. O acúmulo progressivo de recursos financeiros não é o principal objetivo desse tipo de desenvolvimento em que se insere boa parte dessas atividades, visto que muitas delas atuam dentro do contexto de empreendimentos solidários ou cooperativistas. Ou até mesmo dentro do contexto de desenvolvimento local, que se caracteriza principalmente pela geração de emprego; promoção da melhoria na qualidade de vida e capacitação dos agentes e populações envolvidas; além do patrocínio às atividades produtivas. Quando o processo de desenvolvimento dessas novas atividades do novo rural brasileiro é discutido, ocorre uma revelação de alternativa de desenvolvimento econômico que mescla a essência do mundo rural idealizado e as inovações trazidas pela inexistência, agora presente, das delimitações do que é realmente rural. Ou seja, ao passo que a ampliação de atividades promotoras de desenvolvimento e outras atividades do meio industrial acontecem nesse cenário, acaba-se perdendo a noção de seus limites. Um novo mundo rural surge com características particulares, gerando desenvolvimento e ritmos de vida diferenciados daqueles comuns aos habitantes desse meio, em séculos passados. Com relação ao turismo, sabemos que esta não é uma atividade recente. O denominado turismo de massa, que surge no século XIX, passa por declínio, assim, em contrapartida desenvolve-se uma diversificação do turismo voltado para a questão cultural, para a natureza, para a valorização das experiências, para o conhecimento do outro, para a fuga da agitação das áreas urbanas. No mundo globalizado, também existe uma procura pela identidade e pela autenticidade, uma procura pelo passado que seria original, os turistas procuram:

(...) uma nova visão desses povos e culturas, uma renovada dimensão dos "outros", que convida a tomar a idéia evolucionista das origens e a romântica do bom passado, invade os discursos, incita a seu consumo e anima expectativas de viagem limitadamente intercultural. (TALAVERA, 2000, p.151).

Na perspectiva do consumo, do lazer, das férias, ocorre a diversificação do turismo que se configura a fim de atender a essa nova demanda de procura, pelos turistas, por algo que seja autêntico, e único. Dentre essas variações temos o turismo rural. Podemos definir o turismo rural:
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(...) como o uso ou o aproveitamento turístico do entorno não-urbano, atendendo-se às premissas do desenvolvimento sustentável: gerar efeitos eminentemente positivos (conservação do patrimônio, proteção do meio etc.), ter lugar em áreas "não invadidas", incluir os habitantes locais como atores culturais, ser minoritário e promover, por meio de encontros espontâneos e da participação, o contato cultural “(TALAVERA, 2000, p.155).

Assim, nas áreas rurais, os agentes responsáveis pela organização dos espaços voltados para o turismo tomam para si a idéia do autêntico, da procura por uma identidade ou mesmo de uma procura por tranquilidade. Além disso, o turismo se configura como uma forma de buscar alternativas econômicas, visto que nem sempre o setor agrícola tem sido capaz de melhorar as condições de vida da população rural. O espaço rural é reapropriado como uma das possibilidades de obter renda. Com essa nova apropriação do espaço rural há uma diversidade de atrativos relacionados ao ambiente em questão, além da criação de variados eventos, festas, rotas ligadas à história da região, à cultura, às condições naturais do espaço geográfico. E, esses atrativos têm gerado cada vez mais interesse dos turistas das áreas urbanas impulsionando o turismo nos espaços rurais e promovendo o desenvolvimento dos atores locais. As novas atividades/ocupações resultam de acontecimentos como a redução da oferta de emprego tanto nas atividades industriais quanto nas atividades agrícolas, além disso, o aumento da mecanização. Tudo isso resulta na prática de atividades vista como hobbies pessoais ou atividades “de fundo de quintal”. Mas enxergadas as suas potencialidades foram transformadas em atividades geradoras de emprego e renda (GRAZIANO, 1999:91). As principais atividades são as que seguem: piscicultura, criação de “aves nobres”, criação de rãs, criação de animais para corte, produção orgânica de ervas medicinais, produção orgânica para mercado internacional diferenciado, produção de verduras e legumes para as redes de supermercados e de fast-food. Ainda mais, floricultura e mudas de plantas ornamentais, fruticultura de mesa, produção de sucos naturais e polpa de fruta congelada, reprodução de plantas extrativas, cultivo de cogumelos, turismo rural, fazenda-hotel, complexos hípicos, leilões e exposições agropecuárias e festas de rodeio. Atividades intensivas agrícolas e não-agrícolas como as supracitadas podem ser encontradas em várias regiões do Brasil. No caso da Paraíba encontramos a Cooperativa de Floricultores do Estado da Paraíba – COFEP. A pesquisa revela em suas linhas um novo modo de desenvolvimento, características de empreendimentos “repaginados” capazes de promover o desenvolvimento local de algumas regiões, além da geração de emprego e renda permanente e motor gerador de grandes negócios. Dentro desse contexto, o desenvolvimento impulsionado por essas novas atividades torna-se agente
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modificador e promotor de ações capazes de renovar a vida e o cenário sócio-econômico-cultural de muitas comunidades. Sendo assim, estudar e descobrir os efeitos causados por essas atividades irá agregar mais informações e uma nova visão a cerca desse tipo de promoção de desenvolvimento.

2 DESENVOLVIMENTO E COOPERAÇÃO

O desenvolvimento e as discussões pertinentes a este assunto tornam-se cada vez mais frequentes, mais ainda diante da preocupação em definir o que seria na verdade desenvolvimento, a partir da ideia de que alguns pesquisadores acreditam na não existência deste. Sendo assim, até mesmo suas consequências, positivas ou não, perderiam a validade de discussão. A preocupação com a distinção entre desenvolvimento e crescimento econômico por volta dos anos 1960 não era algo prioritário nem muito menos necessário visto que as poucas nações classificadas como desenvolvidas, eram na verdade as que ficaram ricas com o advento da industrialização. Já os países chamados subdesenvolvidos eram os pobres, aqueles onde a industrialização não aconteceu ou se desenvolveu de forma incipiente (VEIGA, 2010). O crescimento que ocorreu na década de 1950 revelou que o acesso por parte das populações pobres a bens materiais e culturais continuou inexistindo, a citar educação e saúde. A partir dessa lacuna, passou-se a discutir sobre o que realmente significava o vocábulo desenvolvimento (VEIGA, 2010). De acordo com Sen (2010) atualmente os direitos humanos e a liberdade política fazem parte das discussões e retórica prevalecentes, são problemas novos convivendo com problemas antigos e a superação desses problemas é parte central para se alcançar o desenvolvimento. Percebese a necessidade de uma análise integrada das atividades econômicas, sociais e políticas, envolvendo uma multiplicidade de instituições e muitas condições de agente relacionadas de forma interativa. De acordo com Veiga (2010), é frequente encontrar abordagens para o desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico. Assim também como existem aqueles que não acreditam que o desenvolvimento exista, que não passa de uma crença, um mito, manipulação ideologia ou uma reles ilusão. Mas no modo de entender o desenvolvimento ainda resta a perspectiva do desenvolvimento atrelado a valorização das capacidades e liberdades individuas, priorizando a qualidade de vida, equidade de renda e eliminação de toda e qualquer privação (fomes coletivas,pouco acesso a serviços de saúde,desigualdade entre homens e mulheres,negação das liberdades política e direitos civis básicos, etc). De acordo com Sen (2000) o enfoque nas liberdades humanas contrasta com visões mais restritas de desenvolvimento, quando há uma análise voltada para índices puramente econômicos.
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As liberdades dependem de outros determinantes como as disposições sociais e econômicas, e os direitos civis. O autor revela que: como as liberdades políticas e civis são elementos constitutivos da liberdade humana, sua negação, é em si, uma deficiência. Quanto ao desenvolvimento local, o seu entendimento significa uma leitura de crescimento econômico, qualidade de vida, conservação do meio ambiente, entre outros. O DL mantém em sintonia o aumento da renda às dignas condições de trabalho dos atores sociais envolvidos e o permanente diálogo entre estes, incluindo as organizações cívicas, os empresários, as pessoas em geral com um único objetivo que é a melhoria das condições de vida dos residentes naquele local. Uma das principais ideias e base para um desenvolvimento com equidade e sustentabilidade é a existência de políticas mistas de cunho macroeconômico, mas que estejam aliadas àquelas que priorizem o fomento das potencialidades locais e as riquezas do território. Sendo assim, se por um lado o desenvolvimento concentrador prioriza os número e crescimento quantitativo, o desenvolvimento local prioriza a qualidade de vida, melhorias no emprego e na renda dos trabalhadores, além de uma sustentabilidade ambiental, ou seja, prioriza antes de tudo a satisfação das necessidades primárias dos cidadãos (ALBUQUERQUE, 1998). O Desenvolvimento Econômico Local é caracterizado pela existência de um potencial de recursos atuantes de forma endógena. Porém, esses recursos disponíveis necessitam ser mobilizados de forma competente. ”A existência de capacidade empresarial inovadora em nível local é, talvez, o elemento mais decisivo para liderar o processo de desenvolvimento e mobilizar os recursos disponíveis” (ALBUQUERQUE, 1998:73). A visão mais total do Desenvolvimento Econômico Local é a elevação do nível de qualidade de vida de todos. Entende-se, portanto, que o êxito de uma iniciativa local de desenvolvimento está condicionado, principalmente, a mobilização e articulação dos recursos envolvidos (institucionais, humanos, econômicos e culturais). Os poderes públicos locais podem, no entanto, atuar de forma mais enérgica devido a sua condição de responsáveis pela coesão territorial. As políticas de Desenvolvimento Local, diferindo das políticas de cunho industrial, têm suas atenções voltadas para as Pequenas e Médias Empresas (PME) e microempresas. Por outro lado, as grandes empresas não perdem sua contribuição para o desenvolvimento local. “Os objetivos das políticas de desenvolvimento local devem derivar das estratégias que estabeleça cada território, as quais, por sua vez, têm que guardar adequada coerência com as restantes políticas em nível do Estado” (ALBUQUERQUE, 1998:103). Os estudos e visões sobre o Desenvolvimento Local são inúmeros, porém estão sempre interligadas devido as características que embasam essas teorias. Os estudos sobre desenvolvimento local surgiram na Europa e chegaram ao Brasil revelando dois lados de sua atuação: no contexto
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capitalista e como promotor de transformações sócio-político-econômicas (ALBAGLI, 1999 apud DANTAS, 2003). Independente do direcionamento dos estudos sobre o desenvolvimento local, é mister ressaltar o está em comum que á a busca por uma forma de desenvolvimento com equidade, inovação, circulação de informações além da valorização das riquezas existentes no território. Para Mengin (1989) e Masson (1989), o desenvolvimento local objetiva a criação e/ou recriação de atividades econômicas, principalmente em cenários de crise; interação entre os atores do território trabalhando além da inserção produtiva dos grupos marginalizados da população (MENGIN e MASSON, 1989 apud DANTAS, 2003). O desenvolvimento local atua de forma contagiante em áreas urbanas e em áreas rurais a partir de iniciativas locais dos atores de cada local que acreditam em uma estabilidade de suas atividades oriundas das riquezas endógenas. Valando salientar que mesmo existindo uma iniciativa local, os recursos endógenos e as riquezas locais é que devem promover esse desenvolvimento, é algo que vem de dentro para fora. Riquezas locais e valorização do território também é uma abordagem defendida por Hassan (1999). Albuquerque (1999) faz uma junção de muitas dessas características supracitadas com a ideia de descentralização e participação com a atuação de entidades públicas e privadas existentes no território. Um dos principais objetivos de Desenvolvimento Local na percepção desse autor é o tecido empresarial local com uma envoltura inovativa; geração de emprego; enfoque na população com melhoria na qualidade de vida e capacitação; além do patrocínio às atividades produtivas (ALBUQUERQUE, 1999 apud DANTAS, 2003:39). No Brasil, o desenvolvimento local a partir das ideias de Franklin Coelho e Ângela Fontes mostra-se uma ação coordenada com foco na melhoria de vida dos habitantes de uma região, estimulando assim a ação dos atores locais, ressaltando mais uma vez o que há de comum nos pilares desse tipo de desenvolvimento (DANTAS, 2003:46). O Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável, mais uma vez valoriza os recursos endógenos e as potencialidades específicas principalmente no patrocínio do desenvolvimento e criação de comunidades rurais sustentáveis, mas com o cuidado para que a participação de atores, a citar instâncias governamentais, não promova uma “prefeiturização” desse desenvolvimento do território (DANTAS, 2003:49). De acordo com Macaigne (1998:41), Desenvolvimento Local relaciona-se ao

desenvolvimento solidário, permitindo uma diminuição da exclusão e uma melhor integração entre os grupos sociais. Ainda mais, o desenvolvimento local surge como uma alternativa à incapacidade auto-reguladora da economia de mercado. Alternativo, nessa ocasião, propõe um compartilhamento mais equitativo e não uma oposição a economia de mercado. Apesar da idéia de equidade, o autor
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lamenta a falta de solidariedade ainda existente entre as pequenas empresas, e a existência de uma deficiência quanto à cooperação inter-empresas. O desenvolvimento necessita de uma avaliação e percepção de seus aspectos de uma maneira mais completa, assim como também necessita de apoio político e administrativo principalmente quando o foco é a incorporação de inovações tecnológicas e a negociação entre atores sócio-econômicos locais. Dentro desta perspectiva o objeto de estudo em questão – Cooperativa de Floricultores do Estado da Paraíba (COFEP)– apresenta ,a partir de seus objetivos e práticas cotidianas de funcionamento a busca incessante por uma modificação do cenário em que vivem, tendo como prioridade a qualidade de vida de seus participantes e familiares, além da promoção de benefícios aos moradores da região com oportunidade de empregos indiretos no empreendimento, melhorias na educação, e maiores conquistas no que diz repeito as relações de gênero. Sendo assim, podemos encontrar a COFEP inserida nos pilares que sustentam as discussões e a teoria sobre Desenvolvimento Local, considerando o fato de que a sua fundação se deu para solucionar o cenário de caos provocado pela falência da Usina Santa Maria, resgate da dignidade daquelas pessoas e a inserção dessas pessoas novamente no meio social e no sistema econômico vigente até os dias atuais. O cooperativismo, da forma como ele é fundamentado, possibilita ao associado, independente do setor em que atua a possibilidade de participação nas decisões, além de debater os melhores caminhos para a cooperativa e em consequência para a sua vida. Isto porque, ao passo que a cooperativa está funcionando bem, os ganhos se distribuem entre os cooperados de forma igualitária.

A cooperação supõe necessariamente a liberdade de trabalhar em comunidade. Assim, a cooperação possui duas condições importantes e imprescindíveis: liberdade e comunidade; trabalho livre e grupal. Igualmente se opõe à competição e concorrência... Concebe-se a cooperativa, então, como associação e empresa, com base na cooperação. Associação porque constitui a reunião de pessoas, que trabalham juntas, livremente e com o mesmo objetivo. Empresa porque representa a conjugação dos fatores de produção: trabalho, capital, administração, tecnologia e natureza... Destacam-se as duas dimensões caracterizadoras da cooperativa: econômica e social. Se faltar uma, já não é cooperativa (MAIA, 1985:23).

Cooperativismo, de acordo com Ximenes (2001:237), é uma doutrina que propõe a disseminação das cooperativas como forma de solução dos problemas econômicos e sociais. O termo cooperar, neste caso, ressalta a iniciativa de colaborar, ajudar ou auxiliar. A cooperativa é
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definida como uma sociedade comercial que visa a desempenhar, em benefício dos seus membros, uma determinada atividade econômica. A cooperação que existe nesse tipo de atividade econômica prioriza as trocas recíprocas e benéficas entre os envolvidos, trata-se de uma relação de colaboração e trabalho mútuo.

Cooperação indica em geral qualquer forma de trabalho em conjunto,em contraste com concorrência ou oposição.Em economia e história social, o termo é empregado(como adjetivo cooperativo) para descrever qualquer forma de organização social ou econômica que tem por base o trabalho harmônico em conjunto, em oposição à concorrência (SILVA,1986:272 apud GIANNEZINI,2009:5).

A atividade econômica desempenhada nesse modelo de produção revela aspectos singulares e específicos. O objetivo de modificação de realidades permeadas por problemas financeiros e sociais a partir de atividades cooperativistas e associativistas apresenta em seu pano de fundo a necessidade de uma divisão igualitária de bens e a possibilidade do funcionamento de atividades que primam pela sustentabilidade. O acontecimento de uma ação associativa se dá a partir de um direcionamento coletivo priorizando e objetivando o bem comum. Os interesses da coletividade e as estratégias a serem seguidas para o alcance de uma melhor qualidade de vida, melhores colocações profissionais e melhoria social são prioridades, enquanto os fins lucrativos são deixados de lado. De acordo com Gianezini (2009:5), o compromisso é com a educação, com o econômico e o social. O desenvolvimento necessita de uma avaliação e percepção de seus aspectos de uma maneira mais completa, assim como também necessita de apoio político e administrativo principalmente quando o foco é a incorporação de inovações tecnológicas e a negociação entre atores sócio-econômicos locais. Em linhas gerais, revelou-se no brejo paraibano o acontecimento dessa nova economia, que não a de mercado, priorizando o desenvolvimento a partir de potencialidades locais, melhor qualidade de vida e desenvolvimento humano. E é nesse cenário que se insere a Cooperativa de Floricultores do Estado da Paraíba (COFEP) A crise canavieira ocorrida na década de 80 afetou maciçamente a região do Brejo Paraibano. A falência da Usina Santa Maria localizada na cidade de Areia (PB) foi considerada o ápice dessa crise. Na ocasião, as famílias que tiravam da usina seu único sustento ficaram desoladas. Uma parte dessa população migrou para a cidade, principalmente os jovens. Outra parte foi absorvida na agricultura, no cultivo da banana. Os demais que ficaram desempregados se tornaram vítimas da depressão, do alcoolismo e outras mazelas (ALMEIDA, 2008:22). O cenário de desesperança não permitiu que as mulheres desistissem da conquista por dias melhores. Em 1999, passados muitos anos, essas mulheres criaram a COFEP na zona rural da
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cidade de Pilões (PB), mais precisamente na Comunidade Sítio Avarzeado. A iniciativa partiu da necessidade de se obter alguma renda, diminuindo assim o grau de pobreza ali existente (ALMEIDA, 2008:22). O ramo escolhido foi exploração da floricultura. Atualmente a COFEP tem em seu quadro 42 colaboradores. Já o número de estufas passou de 18 para 64, distribuídas agora em não mais três hectares e sim sete hectares. A mão-de-obra predominante é a feminina, 91% e apenas 9% do gênero masculino, 84% da mão-de-obra é familiar. A faixa etária está entre 18 e 51 anos. O número de analfabetos é baixo. Quanto a localização de suas residências, todos os cooperados moram na zona rural.Mais precisamente 72,72% moram na Comunidade Sítio Avarzeado, 9,09% moram na Comunidade Sítio Almecega e 18,18% em outras comunidades vizinhas. A inserção da cooperativa no turismo rural aconteceu a partir da realização do projeto Roteiro Caminhos do Frio, que vai de julho à agosto, destacando o clima frio da região nesta época e a cultura, o caminho.Tal projeto é “filho” da Instância de Governança Regional do Brejo Paraibano, denominada de Fórum Regional de Turismo Sustentável do Brejo Paraibano (FRTSB/PB), surgiu do convênio nº. 343/2004, firmado entre a Secretaria do Estado de Turismo e do Desenvolvimento Econômico (SETDE/PB) e o Ministério do Turismo, em parceria com o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). (SILVESTRE, 2010). O Roteiro “Caminhos dos Engenhos” abrange seis cidades da micro-região do Brejo paraibano, e o Roteiro Nacional Civilização do Açúcar, que integra os três roteiros do interior da Paraíba e outros roteiros de dois Estados: Pernambuco e Alagoas; e foi criado em 2004, com a proposta de revitalização dos locais de visitação, os engenhos, e valorização da cultura local e do saber-fazer com a produção de cachaça e rapadura. A rota Caminho dos Engenhos tem como proposta a utilização da histórica, da sua participação no ciclo da cana-de-açúcar, resgatando a memória e a identidade local elevando à reutilização e conservação do patrimônio e o melhoramento dos equipamentos turísticos pra melhor receber os turistas. Participam dessa rota seis cidades paraibanas que estão localizadas na Microrregião do Brejo: Alagoa Grande, Bananeiras, Serraria, Pilões, Alagoa Nova e Areia. Diante do exposto a cooperativa tornou-se ponto de visitação neste roteiro devido a riqueza e variedade de flores cultivadas em um cenário rodeado por engenhos seculares. A visitação ocorre o ano todo, porém com uma maior ênfase no período do Caminho dos Engenhos. Os turismos têm a possibilidade de conhecer a prática de cultivo, enveredar pelos canteiros e se entregar aos encantamentos de cada espécie ali cultivada.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesse sentido, surgiu uma nova forma de economia diferente da de mercado, em que é privilegiado o desenvolvimento a partir da exploração dos recursos locais disponíveis, proporcionando uma melhor qualidade geral de vida e desenvolvimento humano. É nesse contesto que se encaixa a Cooperativa de Floricultores do Estado da Paraíba (COFEP). E essa nova forma de mercado propiciou o crescimento da renda familiar, que anteriormente não alcançava sequer um salário mínimo ou era inexistente e atualmente com a fundação da COFEP chega até dois salários mínimos/mês. A única fonte de renda dos cooperados antes da COFEP era oriunda da agricultura. A geração de renda promovida pela COFEP é considerada a segunda base da cidade de Pilões (PB), sendo superada apenas pela prefeitura local. A COFEP pode ser considerada um case, exemplo de inclusão social, geração de renda, combate à pobreza rural, além do destaque de ser um empreendimento administrado por mulheres.De acordo com Almeida (2008), a Cooperativa apesar de ter derrubado fronteiras e preconceitos, gerado emprego e renda, beneficiando famílias e proporcionando a permanência destas em suas comunidades; a atividade enfrenta alguns entraves, que são entendidos como pontos de estrangulamento.

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GÊNESE DO LAZER AO DESENVOLVIMENTO LOCAL DA ATIVIDADE TURÍSTICA: O CASO DE LAGOA SANTA NO ESTADO DE GOIÁS
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Jean Carlos Vieira SANTOS

RESUMO

O objetivo principal deste artigo é desenvolver uma análise em torno da gênese do lazer ao desenvolvimento local da atividade turística, mostrando o comportamento sociocultural, econômico e organizacional de uma pequena cidade goiana que utiliza os lugares e territórios turísticos como espaço produtivo e da vida. Por isso, realizamos uma incursão ao tempo e ao espaço de Lagoa Santa para apresentar os arranjos econômicos, as especificidades sócio-territoriais e particularidades culturais expressas no lugar, bem como aos sujeitos que agrupam diferentes saberes e fazeres turísticos, com suas seduções e possibilidades de valorização da cultura local. Quanto aos aspectos metodológicos este foi dividido em duas fases: pesquisa documental, ou seja, levantamento das referências (autores como: Santos, 2010; Muller, 2002; Dumazedier, 1976; entre outros) e trabalho de campo e, por meio, deste foi construído o material fotográfico. Definiu-se como área de estudo o município de Lagoa Santa localizado na microrregião geográfica de Quirinópolis no Estado de Goiás. PALAVRAS-CHAVE: Águas Termais; Lugar Turístico; Atividade Turística; Interior de Goiás

INTRODUÇÃO

Este artigo vem trazer as discussões parciais acerca do lazer e turismo no município de Lagoa Santa (GO), desenvolvidas na Tese “63Políticas de Regionalização e Criação de Destinos Turísticos entre o Lago de São Simão e a Lagoa Santa no Baixo Paranaíba Goiano”. O objetivo principal é desenvolver uma análise em torno da gênese do lazer ao desenvolvimento local da atividade turística, mostrando o comportamento sociocultural, econômico e organizacional de uma pequena cidade goiana que utiliza os lugares e territórios turísticos como espaço produtivo e da vida.

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Doutor pelo Instituto de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia (IGUFU/MG), foi Bolsista CAPESPDEE/Universidade do Algarve (Portugal). É Professor e Coordenador do Departamento de Geografia da Universidade Estadual Goiás - Campus Quirinópolis (UEG). E-mail: svcjean@yahoo.com.br 63 Investigação Desenvolvida (2007-2010) por Jean Carlos Vieira Santos no Instituto de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia – IGUFU (Brasil) e orientado por Rosselvelt José Santos.

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Por isso, realizamos uma incursão ao tempo e ao espaço de Lagoa Santa para apresentar os arranjos econômicos, as especificidades sócio-territoriais e particularidades culturais expressas no lugar, bem como aos sujeitos que agrupam diferentes saberes e fazeres turísticos, com suas seduções e possibilidades de valorização da cultura local. Quanto aos aspectos metodológicos este foi dividido em duas fases: pesquisa documental (levantamento das referências) e trabalho de campo e, por meio, deste foi construído o material fotográfico, a obtenção dos relatos dos pesquisados, ou seja, antigos moradores e frequentadores da área de lazer. Definiu-se como área de estudo o município de Lagoa Santa localizado na microrregião geográfica de Quirinópolis (Mapa 01/Município 01) no Estado de Goiás.

Mapa 01: Mapa Microrregião de Quirinópolis – 2008. Fonte: SANTOS, J. C. V. Políticas de Regionalização e Criação de Destinos Turísticos entre o Lago de São Simão e a Lagoa Santa no Baixo Paranaíba Goiano – Instituto de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia, IGUFU/Uberlândia (Minas Gerais), 2010.

De acordo com Santos (2010, p. 132) essa cidade tem sua origem vinculada aos desbravadores sertanistas que, no início do século XIX, penetraram a região em busca de novas

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terras nos Cerrados de Goiás. Entre 1880 e 1890, o pioneiro responsável por desbravar e fixar morada nesse território foi o fazendeiro Virgílio Martins Ferraz. A primeira capela nessa paisagem foi erguida no início dos anos de 1960. Em 1971, foi construído o Salão Paroquial da Capela de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do município. Lagoa Santa foi elevada a distrito pela lei estadual número 10.446 em 14 de janeiro de 1888, com o nome de “Termas do Itajá”, lei sancionada pelo então Governador Henrique Santillo. Tornou-se município denominado Lagoa Santa pela lei número 13.134 em julho de 1997, sancionada pelo Governador Luiz Alberto Maguito Vilela (PREFEITURA MUNICIPAL DE LAGOA SANTA, 2005-2008). Em Lagoa Santa, localiza-se a Lagoa de Águas Quentes (Foto 01), considerada o principal atrativo natural da microrregião de Quirinópolis, com suas águas termais de 31°C e fontes naturais sulfurosas, com vazão de 3.600.000 metros cúbicos hora. Não é a única, pois existe uma outra sem infraestrutura de acolhimento conhecida como lagoinha do Brás, nas margens do rio Corrente no município de Itajá, com temperatura média de 42°C. Os descendentes dos Ferraz e Moraes construíram o primeiro empreendimento de hospedagem nas proximidades da Lagoa de Água Termal:

Essa pensão é considerada o primeiro comércio do povoado, fazendo do lugar a mais antiga referência turística do rio Aporé (margem esquerda 64). Os principais meios de transporte utilizados na época eram cavalos e carros de boi, devido à escassez de veículos motorizados e às dificuldades de acesso, poucos visitantes chegavam ao lugar. Um visitante do lugar construiu uma pequena Capela nas rochas que ficam no centro da lagoa, onde as pessoas que ali chegavam depositavam sua fé, fazendo do lugar turístico um espaço de religiosidade (SANTOS, 2010, p.132-133).

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Na margem direita do rio Aporé, encontra-se o distrito de São João do Aporé, pertencente ao município de Paranaíba (Mato Grosso do Sul), cidade sede que inspirou o Visconde de Taunay a escrever o romance “Inocência”. Neste lugar estão localizados vários meios de hospedagem que também recebem os turistas presentes em Lagoa Santa.

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Foto 01: Águas Termais de Lagoa Santa. Essas águas captadas por poços tubulares profundos ou lagoas naturais como mostra a fotografia, são exploradas turisticamente como balneareoterapia, estando entre os principais atrativos turísticos da microrregião, principalmente no município de Lagoa Santa, onde o mercado hoteleiro já privatizou uma de suas nascentes. Vieira Santos, J. C. 2010.

De acordo com os relatos dos antigos moradores (SANTOS, 2010, p.132-133), as visitas ao lugar se iniciaram por volta da década de 1940, quando foi construída essa primeira casa de taboa no entorno do atrativo. Surgiu ali o primeiro hotel que também era de taboa e telhado de cavaco de madeira. O estabelecimento foi nomeado de Pensão Goiana. Com o passar dos anos, a cobertura da habitação foi substituída por telhas comuns e depois, por francesas, mas as paredes continuaram de madeira. Nesse contexto, as atividades de lazer e turismo vão se tornando fundantes no lugar, o que provocará mudanças significativas nessa paisagem nas últimas décadas do século XX.

1 LAZER EM LAGOA SANTA: DISCUSSÃO TEÓRICA ASSOCIADA AO LUGAR

Embora seja possível afirmar que as primeiras buscas pelo lazer e turismo não possuíam um significado relevantes de que estavam constituindo um espaço turístico e sim “era mais um fazer sem um compromisso maior (MÜLLER, 2002, p.09)”; é inegável que esses momentos constituíram-se em passos importantes para que lugares, como Lagoa Santa no interior de Goiás, se firmassem como turísticos. Pois segundo, Müller (2002, p.12) destaca que o lazer “acontece no tempo disponível das pessoas e dentro de uma experiência de acordo com a atitude adotada de forma gratuita e rica em ludicidade”.
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Nesse contexto, Dumazedier (1976, p. 27-32) define o lazer como oposição ao conjunto das necessidades e obrigações da vida cotidiana. Deve-se, ainda, salientar que o lazer só é praticado e compreendido pelas pessoas que o praticam, segundo uma dialética da vida cotidiana, na qual todos os elementos se ligam entre si e reagem uns sobre os outros. Para Dumazedier, “alguns estudiosos negam” que seria possível estabelecer uma distinção das atividades no meio rural entre o trabalho e lazer, pois, em certas regiões, o trabalho nunca acaba. No geral, as primeiras buscas pelo lazer nas águas quentes de Lagoa Santa foram proporcionados pelos pequenos deslocamentos. Essas pequenas viagens esboçavam regionalmente um movimento de organização familiar em busca de algumas horas de lazer e diversão, processadas em espaços sem ou com pouca infraestrutura, mas que possibilitavam o desenvolvimento de momentos de entretenimento entre as diversas classes sociais rurais e urbanas do Cerrado goiano. De acordo com Dumazedier (1976, p. 34-35) esse tipo de lazer é:

[...] um conjunto de ocupações às quais o indivíduo que pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se ou, ainda para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais (DUMAZEDIER, 1976).

As relações entre o lazer e as obrigações da vida cotidiana e as existentes entre as funções do lazer determinam, de certo modo, uma participação crescente e ativa na vida social e cultural dos habitantes dos lugares. Essas relações são de grande importância para o modo de vida das pessoas e muitas foram responsáveis por semear o desenvolvimento do turismo, elaborando e despertando transformações em lugares e paisagens com novas formas econômicas e de sociabilidade, desconhecidas até as últimas décadas do século XX no município de Lagoa Santa. Nesse caso, “o lazer não pode ser considerado unicamente como um tempo liberado, um quadro temporal, um espaço no qual se dá o desenvolvimento do humano. Compreende-se o lazer como sendo um conjunto de atividades ambíguas, ligadas a modelos e valores (DUMAZEDIER, 1976, p.141)”, formando um conjunto de relações sociais e econômicas.

2 ÁGUAS TERMAIS E A GÊNESE DO LAZER EM LAGOA SANTA - GOIÁS

Os primeiros visitantes foram chegando para aproveitar as águas quentes de Lagoa Santa, porém não se pode falar que houve entre as décadas de 1940 e 1970, uma mudança estrutural profunda nesse lugar, com um movimento de abandono “das práticas agrícolas e pecuárias visando a uma nova organização em torno da atividade turística, pois, na realidade, o que ocorreu foi a
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possibilidade de empreender um novo negócio e o capital necessário para criação dessa primeira infraestrutura veio de fontes rurais (SANTOS, 2010, p.152-153)”. O dono do primeiro hotel era o proprietário da fazenda Jaborandi (atual Fazenda Caçula), distante 5 quilômetros da lagoa. De acordo com a filha do antigo proprietário, o pai:
“Tomou conta de uma gleba aqui, que hoje é o hotel termas, só que ele que tomava conta, mais isso não era dentro da fazenda, era anexo à fazenda dele, mais nunca pertenceu a ele. Só que ele que disfrutava, ele que zelava, cuidava. Era dum doutor de São José do Rio Preto. Aí foi começando, ele foi fazendo mais casa, fez barzinho tudo muito simples né? [...] Na pensão tinha muito quarto, era tudo muito humilde, muito simples né? Mais tinha bastante quarto igual hotel mesmo. Só que naquele tempo num tinha esse negócio de água encanada, tinha alguns banheiros, mais eram poucos. Esses banheiros era lá fora, aqueles banheiros de buraco no chão. A água pegava assim, pra lavá roupa, louça a aguada era na beira do rio, era bem pertinho da casa. Agora pra cozinhá pegava num poço de água da lagoa mesmo, mais só que nesse ninguém entrava pra tomá banho, era um lugar que todo mundo, turista pegava água dali pra tomar, pra cozinhar, era água potável, né? (Relato pesquisa informal de campo, com antiga moradora da cidade de Lagoa Santa, setembro de 2009)”.

Assim, o proprietário do primeiro estabelecimento de hospedagem conciliou os serviços de receptividade com o trabalho desenvolvido na sua propriedade rural, fazendo gerar no lugar uma fonte de renda paralela às atividades praticadas no campo. A lagoa de águas quentes foi se tornando uma mercadoria inserida na lógica de consumo dos hóspedes que ocupavam os quartos da Pensão Goiana. Constatou-se nos relatos obtidos junto à população local, que no século XX existia uma ponte com estrutura de madeira no lugar, conhecida regionalmente por “65pinguela (Foto 02)” que tinha a finalidade de facilitar o acesso dos visitantes à lagoa. Vale ressaltar que o movimento de construção da pinguela, nesse período, foi organizado pelos poucos moradores que existiam no lugar, como uma forma de ocupação do atrativo, que acabou possibilitando o acesso dos visitantes e integração à comunidade. Desse modo, seus antigos habitantes foram deixando suas significativas contribuições para os usos de lazer nesse lugar e estabelecendo cotidianamente suas relações com esse espaço de visitação. Na construção dos equipamentos, utilizaram antigas técnicas e madeiras extraídas do Cerrado.

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Segundo Bueno (1996, p.505), “Pinguela é uma viga ou prancha que, atravessada sobre um rio”, serve de caminho para as pessoas.

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Foto 02: Antiga “pinguela”. Infraestrutura pretérita, que era utilizada para facilitar o acesso de moradores e turistas, a foto foi tirada em 1984. Pela fotografia é possível visualizar a proximidade das residências com o atrativo. Foto (1984) cedida por Kamilla Ferreira Bueno, 2008.

Como já salientado, sabe-se que os primeiros turistas que chegaram ao lugar tinham a sua disposição uma pequena infraestrutura de acolhimento, porém outras informações vão surgindo, como por exemplo, a energia produzida por motores (diesel). A limitação do uso do atrativo pode ser percebida no relato da turista da cidade goiana de Quirinópolis que frequentava o lugar, na década de 1970:
“Lagoa Santa era um Paraíso. Nos finais de semana ia à tarde dormia lá, aí voltava no outro dia de tarde. Nem sempre ficava na Pousada, tinha umas casinhas a gente tinha que levar colchonete, era tudo muito rústico. Não tinha luz elétrica, tinha luz de motor, então ficava acesa até certa hora. Depois de certo horário apaga lá, fechava porque tinha as entradas né, fechava aí ninguém entrava não. E a gente não pagava nada pra freqüentar, né?(Relato pesquisa informal de campo, com antiga turista que frequentava Lagoa Santa e moradora da cidade de Quirinópolis, outubro de 2009)”.

A produção de energia por meio de um motor, por exemplo, adentrava nos pequenos lugarejos do Cerrado, principalmente, em Estados como Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul na região Centro-Oeste brasileira. Isso explica que, no caso da antiga Lagoa Santa, já existiam sensibilizações para colocar alguma infraestrutura na paisagem que ao se tornar turística, diferenciava-se da economia regional, fortemente marcada pela agropecuária extensiva.
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Também foi citado pelos entrevistados que os banhos de homens e mulheres eram separados no período da noite, mas durante o dia, eram permitidos alguns horários mistos. O responsável por controlar esses momentos de lazer era o dono da Pensão Goiana, para isso usava um sinal emitido por um
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sino. No entanto, os entrevistados também relataram a falta de infraestrutura e as

dificuldades enfrentadas pelos turistas, no deslocamento de seus destinos emissores ao antigo distrito de Itajá:
“Naquele tempo médico aqui não existia de jeito nenhum, né? Aqui era a custa de chá, de banho de raízes, era aquele tratamento natural mesmo né? [...]. Antes o povo vinha aqui há 20 anos, 30 anos atrás era em busca de cura. E muita coisa a gente presenciou mesmo. Nisso o povo foi descobrindo, a conversa foi espalhando, as curas né que o povo achava maravilhoso, recebia milagre mesmo. O povo vinha de caminhão, vinha mais era de caminhão naquele tempo, caminhãozinho antigo né, porque vinha de turmas grande, fazia lá uma excursãozinha de três família, vinha bastante gente 20, 25 pessoas. Vinha encima da carroceria, fazia aquele toldo né, e trazia de tudo e aqui ficava 15 dias, 20 dias, um mês, e assim foi progredindo. Aqui foi muito frequentado pelos mineiros, quem vinha muito aqui era família mineira de Ituiutaba, de Gurinhatã, de Santa Vitória. Aí o pessoal veio de todos os lugares (Relato pesquisa informal de campo, com antiga moradora da cidade de Lagoa Santa, setembro de 2009)”.

Os moradores mais antigos destacaram as formas coletivas com que foram chegando os primeiros turistas e os meios de transporte utilizados. Eles iam para o lugar induzidos pela cura, por acreditar no poder milagroso das águas quentes. Outro fato marcante é que alguns antigos moradores tinham por tradição, aos domingos, fazer em suas residências um prato que atualmente é tradicional na microrregião de Quirinópolis, a galinha caipira com arroz no fogão a lenha, pois antes não existiam restaurantes no lugarejo:
“A gente ia nas fazenda pra comprar galinha, pra fazer galinhada de galinha caipira para os turistas né. Antigamente era tradição no domingo fazer a galinhada prus turistas, era a galinhada do domingo e não sobrava nem a rapa da panela, eles comia tudo. A galinhada era muito boa né (Relato pesquisa informal de campo, com antiga moradora da cidade de Lagoa Santa, setembro de 2009)”.

Esse núcleo urbano, a partir de seu principal atrativo, passava a se enquadrar em torno de serviços vinculados aos cidadãos exógenos à localidade. Essas atividades eram incorporadas ao cotidiano como opção de complemento de renda e trabalho, visto que a refeição era ofertada apenas
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Segundo alguns antigos visitantes da lagoa de águas quentes, não era um sino e sim uma peça de trator que era utilizada para fazer o sinal ou barrulho (Fala colhida na Lagoa em agosto de 2010).

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aos domingos. A ruralidade local proporcionou a apropriação do prato típico “galinhada” e a sua comercialização para os turistas, pois segundo os moradores, essas aves eram adquiridas a baixo custo no meio rural. Nessa trajetória histórica de formação do lugar turístico, existiam outras relações de subsistência com o espaço, mas os relatos apontam que o principal sentido de uso do lugar estava voltado especificamente para religiosidade e encantamentos com as curas recebidas. Como resultado dessas práticas religiosas, foi construída, no local, uma capela para homenagear Nossa Senhora Aparecida, fato que reforçou a fé entre os visitantes, chegando até ocorrer casamentos e procissões que aproveitavam a estrutura de madeira (pinguela) para ter acesso também à capela. Com a apropriação do atrativo pelas lógicas mercantilistas, o patrimônio religioso foi destruído com a finalidade de revalorização do local, privilegiando-o apenas como produto turístico, capaz de oferecer descanso, turismo e lazer. Se por um lado, essa mudança estrutural processou a expansão das atividades turísticas no município de Lagoa Santa, por outro, antigas tarefas desempenhadas pelos primeiros habitantes e que foram relevantes na consolidação da arquitetura e religiosidade, nessa paisagem de águas quentes, foram perdidas com a ocupação capitalista do atrativo nas últimas décadas do século XX. Com as transformações do território, Lagoa Santa foi se tornando um espaço de vivência, sobrevivência e de interação de seus moradores com as atividades de turismo e lazer.

3 APROPRIAÇÃO MERCANTILISTA DAS ÁGUAS QUENTES DE LAGOA SANTA

Diante das observações anteriores, pode se dizer que as características do lugar construído pelo homem não se restringem apenas ao ambiente da lagoa de águas quentes, mas ao povoado que acompanhava as transformações sociais, econômicas e culturais da época. Nesse contexto, as mutações do atrativo não se compartimentam apenas ao local e ao alcance visual, pois identificamse, nos relatos dos antigos moradores, a expansão e propagação do poder medicinal das águas termais pelas regiões próximas aos Estados goiano e mineiro. Pode-se afirmar que houve um movimento de divulgação que integrou o atrativo ao contexto regional. Durante essa fase inicial de apropriação do lugar pelas iniciativas de turismo, o povoado pertencia ao município de Itajá, mas o poder público se manteve ausente do desenvolvimento e da chegada do turismo no lugar. Como apresentado neste artigo, às primeiras iniciativas turísticas partiram de ações dos moradores locais. Com a construção da “Pensão Goiana” e com ações dos moradores locais, como a “galinhada de domingo” e a “pinguela para facilitar o acesso à lagoa”, as atividades de lazer e turismo desenvolvidas no espaço urbano do distrito de Itajá foram se tornando uma prática comum
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na vida dos seus habitantes, contribuindo para a emancipação política do lugar, para o surgimento de novas oportunidades e ampliação das atividades de receptividade praticadas atualmente nesse município. Nesse contexto, Chastan (1996, p.165) traz em sua obra que o primeiro passo para a apropriação mercantilista contemporânea da lagoa de águas quentes no distrito de Termas do Itajá, deu-se quando o proprietário e presidente da INDAIATUR (Indaiá Turismo LTDA), empresa turística sediada na cidade do Rio de Janeiro, conheceu o atrativo turístico nas margens do rio Aporé. Posteriormente, apresentou um projeto para construção de um complexo turístico no local, que foi aprovado pelo Governo Federal da época, o senhor Emílio Médici. Após essa aprovação, no ano de 1970, o Presidente da INDAIATUR adquiriu os direitos de Antônio Luiz de Moraes e as áreas dos demais moradores que ocupavam o entorno da lagoa de águas quentes. Porém, as obras do hotel só se iniciaram no ano de 1983, e essa foi a primeira ação do empreendedor para dar uma (re)significação ao atrativo. Em 1987, foi realizada a remoção das casas dos moradores da área entre a lagoa e o rio Aporé, onde foi recuperada a vegetação nativa e foi construída uma lanchonete. Essa ação colocou a população para fora do entorno do tradicional local de visitação e lazer, e o lugar foi apropriado para fins mercantis. Esses antigos residentes que foram considerados posseiros, para facilitar o processo de desapropriação, passaram a ocupar os novos loteamentos dentro do atual núcleo urbano. Os relatos obtidos durante os trabalhos de campo indicam que atualmente (2010) não há como quantificar as cifras recebidas pelos antigos donos das residências que cercavam o atrativo até 1987. Segundo os entrevistados, não ocorreram focos de resistências perante as mudanças territoriais, apenas algumas insatisfações perceptíveis na época, mas que foram administradas pelos novos empresários e praticamente sem um envolvimento direto dos gestores responsáveis pela Prefeitura Municipal de Itajá. Para que ocorresse essa “pacífica desapropriação”, foi utilizada pelos compradores do atrativo a ideologia do “desenvolvimento” que estava chegando à Lagoa Santa. De acordo com Santos (2010, p.159):

As pessoas que, durante décadas, foram estabelecendo suas relações culturais e sociais com o espaço vivido, foram visualizadas pelo capital como posseiros, sem direito a terra. Assim, seus valores humanos repletos de representações e conteúdos concretos e simbólicos não foram respeitados (SANTOS, 2010, p.159).

De sua urbanidade inicial e existente até a década de 1980, no entorno da paisagem de atração regional, encontramos, na memória e em fotografias dos habitantes pretéritos, alguns
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fragmentos de um modo de vida que se estabeleceu no entorno da lagoa. Com a desapropriação, compreendemos que todos os habitantes considerados posseiros, sem exceção, foram obrigados a sair da área. Provavelmente suas propriedades foram adquiridas por um baixo custo, principalmente por esses pioneiros não terem sidos enquadrados como verdadeiros donos do lugar. Em termos de organização espacial, foi a paisagem que sofreu e ainda tem mutações resultantes dessa atividade. A privatização do espaço (Foto 03) que compõe o atrativo foi responsável por várias metamorfoses, entre elas, o mapa urbano fazendo surgir um espaço funcional ao turismo (Figura: 05).

Figura 01: Imagem retratando as mudanças no espaço urbano e entorno da lagoa de águas quentes no município de Lagoa Santa. Fonte: SANTOS, J. C. V. Políticas de Regionalização e Criação de Destinos Turísticos entre o Lago de São Simão e a Lagoa Santa no Baixo Paranaíba Goiano – Instituto de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia, IGUFU/Uberlândia (Minas Gerais), 2010.

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Foto 03: Hotel Termas Lagoa Santa. Passarela de Madeira moderna que substituiu a antiga pinguela. Estrutura utilizada por turistas para chegar à lagoa de águas quentes, construída pelos gestores do Hotel. Vieira Santos, J. C. 2010.

Efetivamente, a construção do hotel foi finalizada e inaugurada no mês de julho de 1990. A privatização e mercantilização das águas quentes nas margens do rio Aporé foram responsáveis por fazer surgir no lugar não só um novo município, mas novos empreendimentos turísticos, principalmente hoteleiros, fazendo dessa atividade um vetor hegemônico na produção desse pequeno espaço urbano. Segundo relatos de antigos e atuais moradores, a chegada de turistas, ou seja, do visitante que tem uma relação de consumidor com o lugar, ocasionou o aumento comercial em hotéis, bares, restaurantes, lojas de vestimentas, de banhos e artesanato.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Assim, pôde-se constatar, que as mudanças espaciais processadas pela privatização do principal atrativo do município de Lagoa Santa, efetivaram um novo processo de ocupações comerciais e hoteleiras, especialmente ao longo da “praça central” da cidade. Essas ações foi resultado da vontade e sensibilização de sujeitos sociais que procuraram alternativas de renda nas atividades de atendimento e receptividade, enquadradas na nova expansão dos setores de lazer e turismo. Não se pode negar que as práticas de lazer foram alteradas, principalmente, pela propriedade daquilo que era usado pelas pessoas do lugar. A propriedade privada criou, na municipalidade estudada, uma outra realidade, a do lucro, pois o que passa a interessar é vender aquilo que se
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oferece nos locais e não os lugares. É interessante observar, que perante essa nova realidade, os proprietários dos espaços de hospedagem e visitação terão que remunerar os capitais investidos, desse modo, não há mais os usuários e sim os compradores. Deve-se salientar que, no caso desse espaço urbano do interior de Goiás, esses grupos de empresários atribuíram ao lugar um novo significado por meio da implementação de empreendimentos turísticos diferentes da organização regional predominante em torno da agricultura e pecuária, embora parte desses negócios vinculados ao atendimento de visitantes, sejam de propriedade de empresários rurais e também de políticos locais, como prefeitos e vereadores. Esses espaços foram ordenados também a partir das primeiras práticas sociais, culturais e econômicas surgidas ao longo do processo de ocupação do cerrado goiano.

REFERÊNCIAS BUENO, F. da S. MINIDICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA. São Paulo: FTD/Lisa, 1996. CHASTAN, Lita. Goiás – Extremo Sudoeste: geo-história e ecoturismo na trilha dos Caiapós. Goiânia (Goiás): Cerne, 1996. DUMAZEDIER, Joffre. Lazer e Cultura Popular. São Paulo (SP): Editora Perspectiva, 1976. MÜLLER, Ademir. Lazer, Desenvolvimento Regional: como pode nascer e se desenvolver uma idéia. In: MÜLLER, A.; DaCosta, L. P. (Org.) Lazer e Desenvolvimento Regional. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2002. P. 09 – 40. PREFEITURA MUNICIPAL DE LAGOA SANTA. Lagoa Santa (Goiás): O Fantástico Mundo das Águas Termais. Lagoa Santa: Edição Prefeitura Municipal, 2005 – 2008. SANTOS, J. C. V. Políticas de Regionalização e Criação de Destinos Turísticos entre o Lago de São Simão e a Lagoa Santa no Baixo Paranaíba Goiano. Tese de Doutoramento em Geografia. Universidade Federal de Uberlândia (UFU) - Instituto de Geografia. Uberlândia (MG), 2010.

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EXPERIÊNCIAS DO TURISMO RURAL COMUNITÁRIO EM COMUNIDADES QUILOMBOLAS KALUNGA NO NORDESTE GOIANO

Lara Cristine Gomes FERREIRA Mestre em Geografia e Geógrafa do LABOTER / IESA, Universidade Federal de Goiás. laracristineufg@yahoo.com.br Laura Marina Jaime RAMOS Doutora em Geografia, Universidade Federal de Goiás lauralijaime@yahoo.com.br Maria Geralda de ALMEIDA Doutora em Geografia e docente do IESA, Universidade Federal de Goiás mgdealmeira@gmail.com

RESUMO

O presente texto traz como discussão a atividade turística sob a perspectiva da base comunitária que se desenvolve, ainda que de forma embrionária e em diferentes estágios de organização, em duas comunidades remanecentes de quilombos Kalunga/GO. A partir de uma breve discussão a respeito da noção de turismo de base comunitária e suas peculiaridades, apresenta-se uma caracterização geral das comunidades Kalunga estudadas, seus atrativos de potencial para o turismo e forma de organização das atividades de receptivo. Nota-se que, nos casos estudados, o turismo de base comunitária tem se instalado de forma espontânea na comunidade do Engenho II, enquanto que na comunidade Ribeirão dos Bois, faz-se necessário ainda uma maior intervenção, seja por parte de agentes planejadores do turismo seja no exercício do olhar para o próprio exemplo da comunidade vizinha, no sentido de auxiliar à comunidade no entendimento e na implementação do turismo de base comunitária. PALAVRAS-CHAVE: Comunidade quilombola Kalunga/GO; Turismo Sertanejo; Turismo de Base Comunitária.

INTRODUÇÃO

A rica biodiversidade, a paisagem natural peculiar da região do chamado sertão de Goiás, seus povos e sua cultura são características importantes que imprimem à região o status de um dos principais destinos turísticos do estado de Goiás. A criação da Região da Reserva da Biosfera
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Goyaz – RESBIO, que em sua segunda fase destinou-se ao desenvolvimento da Região Nordeste de Goiás, esta iniciada em outubro de 2000, delimita e abriga territórios significativos para a conservação dessa biodiversidade, de suas belezas cênicas e riquezas culturais, tendo como exemplos o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, o Parque Estadual de Terra Ronca, as APAs do Pouso Alto e do Rio Vermelho e o Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga. Diversos municípios que compõem o território da RESBIO já são destinos turísticos representativos, como Alto Paraíso de Goiás e Cavalcante. Em ambos, a atividade turística tem se desenvolvido às custas de novos empreendedores que se mudaram para os municípios e alí constituem a rede de pousadas e restaurantes locais, algumas pequenas agências de prestadoras de serviços de guiagem e condução turística com incipientes exemplos de organização da atividade, sendo de base local ou comunitária67. A exceção a esta forma de organização turística nos centros municipais está justamente nas comunidades rurais quilombolas existentes, sobretudo, as do município de Cavalcante e Teresina de Goiás. Como veremos, estas desenvolvem, ainda que de forma embrionária, suas atividades turísticas tendo como base o empreendedorismo de base local (Teresina de Goiás) e as organização comunitárias para atividade turística (Cavalcante), como detalhado a seguir. O turismo de base comunitária, bem como o de base local, diferenciam-se de outras formas de organização e gestão da atividade, sobretudo, por seu caráter de inclusão, de protagonismo e de empoderamento dos próprios membros da comunidade frente à atividade turística. Mesmo assim, faz-se necessário esclarecer a diferenciação entendida aqui entre o que considera-se como turismo de base local e turismo de base comunitária, conceitos semelhantes e por vezes utilizados como sinônimos, que podem também, em determinado casos, coincidirem-se. Com base em Bartholo, Sansolo e Bursztyn (2010), o entendimento aqui adotado para o turismo de base comunitária, o considera como a organização da atividade cujos protagonistas são organizações comunitárias, como associações e grupos organizados de determinada comunidade, cujo princípio geral é a economia solidária. Como turismo de base local, considera-se as atividades turísticas geridas e organizadas por empreendedores locais, moradores e nativos do município em questão mas que não estejam, necessariamente organizados em associações ou com foco na economia solidária (MALDONADO, 2010). Diante disso, o presente artigo buscou trazer reflexões sobre o turismo de base comunitária e local, utilizando-se da observação de duas comunidades de remanescentes quilombolas no Nordeste

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As informações são resultados parciais obtidos a partir do inventário turístico da Região da Biosfera Goyaz, em desenvolvimento pelo projeto “Potencialidades da interação Cultura e Turismo na difusão do conhecimento e desenvolvimento de novos produtos turísticos”, desenvolvido pela Universidade Federal de Goiás, Laboratório de Estudos e Pesquisas das Dinâmicas Territoriais – LABOTER, com recursos da Fundação de Amparo `a Pesquisa – FAPEG/Goiás.

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goiano, os Kalunga, por meio de uma abordagem comparativa entre a comunidade Engenho II, do município de Cavalcante, e Ribeirão dos Bois, de Teresina de Goiás. A empírica deste artigo, resulta-se de obervações, durante a realização do Projeto de extensão “Troca de saberes no Cerrado: valorização dos quintais, segurança alimentar e cidadania nas comunidades Kalunga em Teresina de Goiás”, com recursos do MEC/SISU (2011).

1 TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA E DE BASE LOCAL, ALGUNS APONTAMENTOS

O turismo rural comunitário encontra-se presente atualmente em toda a América Latina, cujas iniciativas têm sido observadas com frequência em locais de beleza paisagística excepcional, dotada de vida selvagem, de atrativos culturais únicos, e produção econômica incipiente, conforme nos lembra Maldonado (2010). Assim, essa modalidade de turismo surge, segundo o autor, a partir de “uma vontade de superar a pobreza que levou milhares de comunidades a buscar fontes alternativas de renda, frente aos limitados resultados da economia de sobrevivência, sobretudo, das atividades rurais” (MALDONADO, 2010, p 27). Na perspectiva da comunidade, este tipo de turismo se caracteriza pela autogestão dos empreendimentos, do uso sustentável dos recursos patrimoniais e da atividade como um todo, privilengiando as iniciativas dos membros da própria comunidade, bem como inserindo-os na dinâmica do fluxo dos recursos e da oferta e demanda, de acordo com as práticas de cooperação e equidade no trabalho e na distribuição dos benefícios gerados pela prestação dos serviços turísticos. A noção de protagonismo está presente no sentido de que os membros da comunidade são protagonistas de suas próprias atividades econômicas e sociais, a partir do exercício de empoderamento das condições sociais e dos bens culturais e naturais de que são depositários. A característica distinta do turismo comunitário frente ao turismo convencional é sua dimensão humana e cultural, incentivando o diálogo intercultural de qualidade, na perspectiva de que os visitantes possam conhecer e aprender com os modos de vida tradicionais. Por parte da demanda turística, o turismo comunitário se caracteriza, como reforça Maldonado (2010), como um segmento do mercado especializado, por atender a pequenos grupos de viajantes que buscam experiências pessoais originais e enriquecedoras, combinando vivências culturais autênticas, desfrutando de cenários naturais e de uma remuneração adequada do trabalho comunitário. Esta modalidade contrasta com o padrão convencional do turismo de massa, cujos pacotes rígidos e impessoais obedecem a uma lógica econômica de um retorno imediato e máximo dos investimentos. No mesmo sentido, Zaoual (2010) afirma que o surgimento do turismo de base comunitária, bem como a própria organização das comunidades para tal, se deu pois a demanda turística tornou270

se mais exigente, variada e variável. “Ela (a clientela) tende a se focar cada vez mais sobre a qualidade e exprime as necessidades da cultura e do meio ambiente. (...) procura verdadeiros sítios que combinam a autenticidade e a profundidade do intercâmbio intercultural e a harmonia com a natureza e a memória dos lugares visitados” (ZAOUAL, 2010, p.57). Na América Latina, diversos são os exemplos do turismo rural comunitário que já se solidificaram, sejam no sentido da própria organização das comunidades tradicionais rurais, seja no âmbito das políticas públicas nacionais, impulsionados pela Organização Internacional do Trabalho, com a criação da Rede de Turismo Comunitário da América Latina - REDTURS. Como exemplos disso, Maldonado (2010) cita a Guatemala e Costa Rica como países onde o turismo rural comunitário tornou-se modelo, graças a base cooperativa das atividades turísticas, o papel e atuação do terceiro setor e os grupos familiares, em que a população local, através de múltiplas parcerias trabalha pela proteção e pela educação ambiental e, mais genericamente, pela conservação de suas biodiversidades. Também no México, são os próprios indígenas da comunidade da selva Lacandona, em Chiapas, que participaram efetivamente da elaboração dos projetos turísticos, como de acampamentos, centros turísticos comunitários, com assessoria externa, e os implementam mediante assembleia comunitária (ALFONSO, LÓPEZ, 2010). No Brasil, pode-se citar como exemplo do turismo de base comunitária implementado com sucesso, a experiência da comunidade de Prainha do Canto Verde, localizada no litoral leste do Ceará (cerca de 120 km do aeroporto internacional de Fortaleza). O destino corresponde a uma comunidade de pescadores artesanais, que apresenta uma organização comunitária, na forma de uma cooperativa de turismo e artesanato (MENDONÇA, 2010). O diferencial turístico da Prainha, além da atratividade natural de sua orla, vem da participação e da integração dos visitantes com os moradores da comunidade. Na visitação à Prainha os turistas podem vivenciar uma experiência intensa combinando o uso e desfrute dos atrativos naturais ao conhecimento e imersão às práticas culturais e modo de vida dos pescadores que se organizaram em receptivos comunitários. Em Goias, demanda turística existente nas comunidades Kalunga, sobretudo, a do Engenho II, no município de Cavalcante, cuja riqueza em atrativos naturais aliado as peculiaridades da cultura e do modo de vida rural dos Kalunga, constituem-se como os grandes atrativos para o turismo na região. Já em Teresina de Goiás, município que abriga a comunidade de Ribeirão do Bois, o turismo ainda se dá de forma emergente, em detrimento às caracteristicas culturais e naturais também presentes na região, como dicute-se mais detalhadamente a seguir.

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2 COMUNIDADES KALUNGA EM CAVALCANTE E TERESINA DE GOIÁS – GO

As comunidades Kalunga são constituídas por remanescentes quilombolas, sendo a origem de sua constituição associada aos escravos desertores das minas de ouro, àqueles alforriados, e seus descendentes. Essas comunidades se localizam nos municípios de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás, no nordeste goiano (figura 1).

Figura 1: Localização do Sitío Histórico Kalunga em Goiás.

A região onde se encontram as comunidades Kalunga é conhecida como Vãos da Serra Geral, parte ocupada pelo vale do Rio Paranã e seus afluentes, às bordas da Chapada dos Veadeiros, na qual se encontra o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. É uma área peculiar, pela presença de uma natureza cerradeira dominante, destacando-se também por abrigar o Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, criado pela Lei Complementar do Estado de Goiás, nº 19, de 05 de janeiro de 1996, território que se estende a uma área de 253, 2 mil hectares (ALMEIDA, 2010). Segundo a Fundação Cultural Palmares (ALMEIDA, 2010), os Kalunga são comunidades afrodescendentes, remanescentes das comunidades dos quilombos, inicialmente constituídos pelos escravos que conseguiam fugir e se refugiar nas matas e, posteriormente, por ex-escravos que
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procuravam terras para se abrigar, sobretudo, após sua libertação e, após a decadência do ciclo do ouro e da Abolição da Escravatura. As comunidades Kalunga do nordeste goiano, segundo proposta de Marinho (2008), foram subdivididas em quatro núcleos principais: o Engenho II, o Vão do Moleque, o Vão de Almas e o antigo Ribeirão dos Negros rebatizado como Ribeirão dos Bois. Destes núcleos, o Engenho II, localizado no município de Cavalcante, é o mais dotado em infraestrutura, está mais próximo aos núcleos urbanos de Cavalcante e Alto Paraíso e é de considerável fácil acesso. O Ribeirão dos Bois, localizado no município de Teresina de Goiás, e mesmo sendo também acessível, não possui muita disponibilidade em infraestrutura, além de ter problemas com a disponibilização de água potável, devido ao lençol freático estar muito profundo nessa localidade. Conforme já discutido por Almeida (2010), há um crescente interesse pelos bens culturais, pelos saberes, pelos grupos étnicos o que pode explicar o fato do Sítio Histórico Kalunga ter se transformado em um dos atrativos turísticos mais visitados pela população do Distrito Federal. Segundo esta autora, os visitantes ao adentrarem-se no Sítio Kalunga demandam pela beleza cênica, como as cachoeiras, por exemplo, mas, se interessam também pelos conhecimentos sobre o Cerrado e os saberes locais. Nesse sentido, a atividade turística na comunidade Kalunga, considerado enquanto um turismo situado de base local e comunitária oferece a oportunidade de incremento econômico às comunidades que sobrevivem da atividade rural de subsistência. A partir do fortalecimento das bases principais dessa forma de desenvolvimento turístico, ou seja, o protagonismo social e o empoderamento das ações práticas e políticas, os Kalunga oferecem exemplos positivos, e outros ainda incipientes, de organização comunitária e local do turismo.

3 TURISMO NAS COMUNIDADES KALUNGA, UM COMPARATIVO

As comunidades Kalunga do Engenho II e Ribeirão dos Bois apresentam características distintas tanto em termos de sua infraestrutura geral, conforme já mencionado, quando se comparado ao desenvolvimento turístico. Utilizar-se-á como comparativo dos diferentes estágios de organização e desenvolvimento do turismo de base comunitária, estas duas comunidades, no sentido de apresentar suas características gerais para atratividade turística e forma de organização comunitária no receptivo dos turistas.

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ENGENHO II

Esta comunidade está localizada no município de Cavalcante, o qual foi ocupado no século XVIII. A primeira penetração no território de Cavalcante ocorreu em 1736, por garimpeiros que encontraram uma mina de ouro no local. A notícia da descoberta de ouro foi responsável pela atração de muitos, o que culminou com a criação do arraial de Cavalcante, em 1740 (IBGE, 2012). Atualmente, possui uma população total de 9.393 habitantes, sendo 4.742 na área urbana e 4.650 na área rural, e está conectada a Brasília pela BR 010 e pelas GOs 241 e 118, distante 306 Km. Esta acessibilidade, e os vários atrativos naturais, além do próprio sítio histórico Kalunga, favorecem as visitações. Este elemento imprime a Cavalcante de imediato, uma característica diferenciada em relação ao município de Teresina de Goiás. A diversidade de atrativos, somado a uma infraestrutura turística estruturada a partir de empreendedores, em sua maioria, migrantes, possibilitam ao turista conhecer, além da cultura e tradição quilombola, o Cerrado, com suas fitofisionomias preservadas, suas inúmeras cachoeiras, cursos d’água e mirantes. No entanto, a forma de gestão e gerenciamento dos empreendimentos turísticos do município de Cavalcante não permite afirmar que lá tenha se estruturado, de forma ampla, um turismo de base local. Isso porque, a maior parte dos empreendimentos turísticos do município é gerido por novos moradores, sobretudo, empresários oriundos do Distrito Federal. O que diz respeito à comunidade Kalunga do Engenho II, a realidade é díspare ao que encontramos no município. Dentro do sitio histórico Kalunga a comunidade do Engenho II é a que mais se desenvolveu em relação ao turismo, tanto no que diz respeito à oferta de seus atrativos ao turista em geral, como à forma de organização de base comunitária dessas atividades. Em parte porque, nesta comunidade, a principal liderança foi fortemente influenciada pelo SEBRAE para o desenvolvimento de atividades turísticas e, com este propósito, procurou realizar o envolvimento dos moradores para que o turismo seja uma atividade econômica geradora de renda para a comunidade de forma participativa. Ali, existe uma organização comunitária da atividade turística. Quando se chega à comunidade todo o mecanismo do receptivo ao turista é mediado por membros da comunidade, seja no recebimento dos valores cobrados como ingresso ao sítio, nos condutores que acompanham os visitantes aos atrativos, seja no oferecimento de serviços diversos, como o preparo da refeição e no aluguel de animais de carga para passeios específicos. Outro fator importante, conforme já foi dito, é a liderança local, na pessoa do presidente da Associação Quilombola Kalunga do Nordeste de Goiás, que tem um papel decisivo como mediador das ações ali desenvolvidas e nas tomadas de decisão da comunidade, além de ser o responsável pela gestão da estrutura turística existente, mencionada anteriormente.
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Em pesquisas empreendidas na região, foi relatado o projeto de construção de uma pousada Kalunga que será localizada na casa do presidente da Associação, que já funciona como ponto de apoio aos turistas que chegam ao Engenho II, a qual já disponibiliza, para a venda, alguns produtos como doces e geléias feitas com produtos locais e refeições. Nesse sentido, há uma convergência de fatores que favorecem para que o turismo local se dê de forma à promoção de um desenvolvimento efetivo nessa comunidade. Em primeiro, está a própria localização da comunidade próxima da cidade de Cavalcante, com razoável infraestrutura, já mencionada, e sua importância no cenário turístico regional, pois parte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros pertence a este município, além de outras reservas e áreas de proteção ambiental, contribuindo para a criação e desenvolvimento de políticas públicas voltadas para o turismo de natureza. Em segundo lugar, o fato de que o turismo na comunidade seja organizado pela, e para a própria comunidade, permite imprimir ao Engenho II a marca de um receptivo turístico de base comunitária modelo. E por último, o fator riqueza em atrativos naturais, os quais são responsáveis por uma das maiores belezas cênicas da região, bem como a própria cultura e modo de vida Kalunga. As figuras 2 e 3 mostram a cachoeira Santa Bárbara, o principal atrativo natural do Engenho II e o mirante próximo à entrada da sede da comunidade.

Figura 2: Cachoeira Santa Bárbara – Engenho II Foto: L. C. G. Ferreira, abril de 2010.

Figura 3: Mirante próximo ao Engenho II. Foto: L. C. G Ferreira, abril de 2010.

RIBEIRÃO DOS BOIS

Esta comunidade Kalunga está localizada no município de Teresina de Goiás, que conta com 3.016 habitantes, sendo 2.134 na área urbana e 882 na área rural (IBGE, 2010), dista 283 Km de Brasília, sendo também servida pela BR 010 e GO 118. O município de Teresina de Goiás possui,
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se comparado à Cavalcante, uma menor quantidade de atrativos naturais, apesar da relevância dos existentes. Em termos de infraestrutura urbana para o receptivo ao turista, o município conta apenas com os seguintes equipamentos turísticos: Hotel Entre Serras, Uirapuru, Pousada Estrela d’Alva, e os restaurantes Zero Hora, Beira Serra e Chão de Palha. Esses empreendimentos são geridos por membros da própria cidade, havendo ainda pouca interferência do capital privado de empresários oriundos de outras regiões, caracterizando um incipiente turismo de base local. Na comunidade Kalunga de Ribeirão dos Bois, o principal atrativo natural, além das fitofisionomias do Cerrado, está nas águas caudalosas do rio Paranã, que forma um funil em seu leito ao se aproximar da Serra do Vão de Almas. No entanto, para tal, o local requer uma estrutura que garanta maior segurança e viabilize o acesso a pessoas das mais variadas idades e condições físicas. Este local, Funil do Paranã, devido à intensidade de suas águas, atualmente atrai muitos pescadores e já está sendo assediado para a construção de uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH), o que se for aprovado, impossibilitará o desenvolvimento do potencial turístico de natureza existente neste local. Ainda são consideráveis atrativos, nesta comunidade, apontados por Lima, Deus e Almeida (2011), o rio e as trilhas. O Ribeirão dos Bois, por se tratar de áreas boas para banho em épocas não chuvosas e possibilitar a prática de atividades como canoagem e bóia-cross em partes mais profundas do rio. As Trilhas pelo Cerrado permitem visualizar a vegetação, espécies animais como o pássaro preto, quero-quero etc, e espécies vegetais como mangaba, baru, pequi, cagaita, araçá, araticum, buriti, entre outras. Além disso, assim como outras atividades, as trilhas e caminhadas pela mata favorecem um contato maior com moradores locais, que se mostram sempre dispostos a receber visitantes, demonstrando seus conhecimentos sobre as espécies, saberes e tradições locais. É a biodiversidade que se conhece nestas trilhas. No percurso da trilha que dá acesso ao Funil do Paranã é possível observar nascentes hídricas que cruzam o caminho, rochas expostas e o rio Paranã, que hora ou outra, aparece na paisagem ao lado da trilha. As figuras 4 e 5 mostram a trilha e o funil do Paranã.

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Figura 4: Percurso da trilha – Ribeirão dos Bois Foto: L. C. G. Ferreira, abril de 2010.

Figura 5: Funil do Paranã – Ribeirão dos Bois. Foto: L. C. G. Ferreira, abril de 2010.

Como potencial turístico, cabe ressaltar que os Kalunga são portadores de saberes e revelam profundos conhecimentos sobre plantas e animais, associam as mudanças de estação, fases lunares e ciclos biogeoquímicos, ecológicos e hidrológicos ao conhecimento dos diferentes tipos de solo, utilizando seus espaços em interação com a natureza do Cerrado. De acordo com Almeida (2003, p.78), “isso permite afirmar que a natureza converte-se, assim, em um patrimônio cultural e a biodiversidade deste ecossistema é, na atualidade, parcialmente de domínio destas populações”. Poucas casas nessas comunidades recebem água encanada, apenas aquelas que possuem poços artesianos próximos. Por esse motivo, há a necessidade de ir até o rio, seja para buscar água para casa, seja para lavar louças e panelas, ou ainda para banhar-se. Lima, Deus e Almeida (2011), destacam que o acesso às moradias dá-se, muitas vezes, por pequenas trilhas no meio do Cerrado. A distância entre uma casa e outra é considerável, exceto aquelas cujos parentes próximos vão ocupando o mesmo terreno. Toda a região possui trilhas abertas e envoltas por vegetação do Cerrado, pelas quais, esporadicamente, no decorrer do dia, passam veículos, pessoas se deslocando a pé ou a cavalo. Marinho (2008), pensando o consumo como um meio de aquisição da cidadania, explica que a pouca disponibilidade de recurso, tanto de renda quanto de acesso a produtos do mercado, também fragiliza essas comunidades, colocando-os numa condição de cidadania incompleta. O território em que se estabelece a comunidade Ribeirão dos Bois possui atrativos turísticos naturais significativos, assim como a comunidade Engenho II. Contudo, comparando-se as duas comunidades, observa-se que o turismo em Ribeirão dos Bois se dá de forma ainda não organizada, nem por parte da própria prefeitura municipal, tão pouco pela própria comunidade Kalunga. Em novembro de 2000, foi realizado pelo Grupo Nativa, em parceria com o SEBRAE/GO, o Inventário da Oferta Turística de Teresina de Goiás. Segundo os resultados desse trabalho, existem 27 atrativos
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turísticos na região, mas somente as corredeiras do Funil estão no Sitio Historico dos Kalunga (LIMA, DEUS, ALMEIDA, 2011). Podem-se mencionar alguns fatores que devem estar relacionados ao turismo incipiente nesta comunidade: o município de Teresina de Goiás, mesmo localizado na região de maior biodiversidade de Cerrado preservada, e próxima à Chapada dos Veadeiros, não possui políticas públicas locais, sobretudo, voltadas para o turismo de base local ou ao turismo comunitário. Além disso, há uma posição conflituosa do poder público local em relação à existência da APA do Pouso Alto, uma Área de Proteção Ambiental que envolve os municípios adjacentes à Chapada dos Veadeiros (FERREIRA E ALMEIDA, 2011). Ainda conforme estas autoras a resistência em relação à APA se dá, pois esta é vista como um fator de entrave econômico ao modelo desenvolvimentista convencional, ali baseado principalmente na agropecuária, devido à necessidade de preservação de algumas áreas de preservação permanente, bem como a exigência de um uso sustentável, o que limita o plantio agrícola e a pecuária. Esta problemática foi observada em outro município adjacente a Chapada dos Veadeiros, Colinas do Sul. Esta reflexão é importante no sentido de que as políticas associadas ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC podem colaborar com a preservação ambiental local, bem como associar ao desenvolvimento turístico, já que nesta categoria de Unidade de Conservação (UC), permite-se um uso sustentável, dentre eles as atividades turísticas, sobretudo, de base sustentável. Ao aliar o turismo comunitário ao ecoturismo desenvolvido nas UCs, a própria comunidade Kalunga ampliaria assim, sua perspectiva de atuação e desenvolvimento socioeconômico. Outro fator que pode ser apontado como um entrave ao desenvolvimento do turismo comunitário em Ribeirão dos Bois é justamente a falta de uma liderança atuante, sobretudo no aspecto político e de ações efetivas geradoras do desenvolvimento econômico da comunidade. Em Teresina de Goiás, a liderança Kalunga está localizada em outra comunidade, a comunidade de Emas, cuja líder é vice-presidente da Associação Quilombola, a qual o presidente encontra-se no Engenho II. Alguns projetos significativos, como capacitação em turismo e a construção de um Museu Kalunga, isto é, o Memorial de D. Lió, construído com apoio da Universidade de Brasília (UnB), localizam-se na comunidade de Emas, que apesar de não ter atrativos turísticos significativos como a de Ribeirão dos Bois, a articulação da liderança local capta e organiza ações mais efetivas para a sua comunidade. Em Ribeirão dos Bois, em detrimento de seus atrativos naturais, a falta de uma mobilização da comunidade para se organizarem, em parte pela falta de uma liderança local impede que a atividade turística seja desenvolvida ali de forma a realmente contribuir para a melhoria da qualidade de vida daquela comunidade.
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Nesse sentido, compreende-se que o alavancamento do turismo de base comunitária tem como alicerce o empoderamento da comunidade perante o patrimônio e os saberes dos quais são depositários, e daí então a atuação como protagonistas das relações econômicas no uso e benefício destes bens. Sendo assim, faltaria então, em Ribeirão dos Bois uma articulação políticoinstitucional, que os auxiliasse na compreensão e na incorporação dos mecanismos de atuação do turismo de base comunitária, sobretudo, de seus benefícios, como bem coloca Zaoual:

A consolidação do turismo de base comunitária enquanto atividade geradora de benefícios diretos as comunidades locais necessita de um esforço conjunto dos setores público e privado, da sociedade civil organizada e de instituições de ensino em todo o país ( 2010, p. 65).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir desse estudo inicial, pode-se considerar que o turismo no município de Cavalcante se estruturou de forma convencional, sobretudo, em se considerando os equipamentos de hospedagem e alimentação gerenciados por novos moradores do município. Não há como se afirmar que ali exista um turismo de base local consolidado, tão pouco iniciativas empresariais de base comunitária. Isso a despeito da comunidade Kalunga do Engenho II, cujo o mais fácil acesso ao turista e com características paisagísticas naturais e culturais significativas já bem difundidas, e uma liderança atuante, permitiu a organização de uma atividade turística de base comunitária. Além disso, a acessibilidade a infraestruturas básicas de saneamento como a água, por exemplo, possibilitam a comunidade do Engenho II uma maior completude em termos de sua cidadania e disponibilidade estrutural para o desenvolvimento de atividades econômicas diversas, dentre elas, e especialmente, o turismo. Em Teresina de Goiás, com poucos incentivos do poder público, a incipiente oferta em infraestrutura turística do município se dá em base local, pois ainda é gerida pelos próprios moradores nativos do município. O atual prefeito da cidade, afirma que a região das comunidades abordadas é dotada de potencialidades, incluindo a própria cultura Kalunga, as festas, as danças, etc.. Entretanto, não há demanda turística, nem capital para ser investido no local, ou seja, não existe a captação de recursos para o setor turístico. Além disso, há a precariedade de itens básicos para o completo acesso a cidadania dessa comunidade, considerando, por exemplo, saneamento básico e uma maior facilidade de acesso a bens de consumo, dificuldades cujas políticas públicas em conformidade com uma maior articulação da comunidade deveriam sanar.

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A incipiência do desenvolvimento turístico municipal, tanto no que diz respeito a oferta quanto a demanda turística, destoa das relevantes possibilidades do aproveitamento dos atrativos naturais, sobretudo, da comunidade Ribeirão dos Bois. Ali, faz-se necessário uma maior articulação para que o turismo de base comunitária se instale. Para isso, é fundamental a articulação de uma liderança local efetivamente representativa e atuante, que possibilite a organização da comunidade como um todo, no exercício do empoderamento e do protagonismo da autogestão do turismo que ali se instale.

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TURISMO EM COMUNIDADES QUILOMBOLAS: POSSIBILIDADES E ALTERNATIVAS

Leilane Oliveira CHAVES Mestranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/UFC leilane_chaves@hotmail.com Edson Vicente da SILVA (Orientador) Prof. Dr. da Universidade Federal do Ceará cacau@ufc.br

RESUMO

A propagação da atividade turística em diversas regiões brasileiras tem possibilitado o desenvolvimento local de muitas comunidades, no entanto alguns estudiosos ainda mantêm-se apreensivos quando a inserção das práticas turísticas em comunidades locais, principalmente em decorrência das alterações socioambientais evidenciadas em algumas localidades receptoras dessa atividade. Dessa forma, o presente trabalho tem como objetivo contribuir para a incitação das discussões a cerca dessas práticas, buscando a partir do olhar de diversos estudiosos, a proposição de estratégias alternativas para a efetivação da atividade turística, que contemplem não só os paradigmas da sustentabilidade, mas também que possibilitem o desenvolvimento da economia local das comunidades envolvidas. Nessa perspectiva o turismo de base local tem ganhado destaque no cenário nacional, principalmente porque tem sido utilizado como instrumento da regeneração e revitalização da atividade, indo de encontro às concepções do “turismo de massa”. Essa nova vertente também tem cooperado para a valorização do patrimônio local, além de incitar o envolvimento da comunidade receptora, onde cada família tem um papel fundamental na manutenção da atividade. O diferencial do turismo comunitário está justamente na participação da comunidade no planejamento, implementação e no monitoramento da atividade, cooperando para a diversificação da economia local, práticas de trabalho coletivo, valorização e resgate da cultura local. PALAVRAS-CHAVE: Turismo; Comunidade; Meio Ambiente.

INTRODUÇÃO

A propagação da atividade turística ocorreu inicialmente em localidades litorâneas onde a busca pelo turismo de “sol e mar” se tornou uma prática comum. A modernização e os investimentos em infra-estrutura, transportes e qualificação profissional se limitaram ao espaço
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territorial denominado faixa de praia, ocasionando de certa forma uma divisão entre os empreendimentos localizados nessa área e as comunidades tradicionais. Apesar de iniciarem em momentos diferentes, o tipo de atividade turística praticada pelos grandes empresários, na faixa de praia vai ser diferente daquelas observadas nas comunidades locais. Essas diferenças estão presentes principalmente porque a primeira não leva em consideração os desejos das comunidades locais, tentando apenas realizar a ambição dos visitantes. A intensificação dessa atividade de forma desordenada tem contribuído para o afluxo de turistas, comprometendo importantes recursos naturais, além de alterar significativamente o modo de vida das comunidades receptoras. Como aponta Bursztyn et al (2009)

[...] a súbita valorização de territórios, antes esquecidos pelo mercado imobiliário, provocou forte impacto sociocultural desestruturador do modo de vida e do patrimônio relacional de comunidades que, pressionadas por forte especulação imobiliária, terminam muitas vezes por vender suas terras a preços irrisórios, passando a viver de subempregos vinculados ao turismo ou a residências-secundárias [...] (p. 83)

A ausência de planejamento, investimento em infra-estrutura e a falta de dialogo e inserção das comunidades locais nesse processo colaboram para a estagnação de alguns pontos turísticos que anteriormente eram redutos de muitos visitantes. Ruschmann (1997, p. 27) profere que “é preciso que o turismo e o meio ambiente encontrem um ponto de equilíbrio, a fim de que a atratividade dos recursos não seja a causa de sua degradação [...]”. Nesse panorama ponderar as formas de desenvolvimento da sociedade vem se tornando cada vez mais uma necessidade da atualidade, tendo em vista o impacto que determinadas ações tem acarretado aos recursos naturais. Essas alterações no final da década de 1960 estiveram em pauta com a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente em Estocolmo, em 1972. Foram propostas várias formas de minimizar os impactos negativos ao meio ambiente, dentre elas a necessidade de que o desenvolvimento seja realizado de forma sustentável, ou seja, os recursos naturais devem ser utilizados de tal forma que as futuras gerações também possam usufruir de seus benefícios. A difusão da idéia de desenvolvimento sustentável influenciou diversos setores da economia. O turismo é um deles, que em meio aos novos paradigmas da sustentabilidade tem buscado alternativas para ser ecologicamente viável e socialmente justo. A busca por lugares mais tranqüilos e que permitissem não só o contato com a natureza, mas que possibilitassem um maior envolvimento com os moradores da comunidade, tem atraído muitos visitantes permitindo a revalorização de alguns espaços. Com as questões socioambientais em evidencia, novas vertentes
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para as práticas turísticas surgiram, mas aqui não pretende-se abordá-las em todos os aspectos possíveis, mas nos ateremos a discorrer a cerca do turismo comunitário, que se diferencia do turismo de “massa” por ter a comunidade local como agente atuante no desenvolvimento dessa atividade, cooperando para a diversificação da economia local, práticas de trabalho coletivo, valorização e resgate da cultura local. O turismo comunitário destaca-se como instrumento da regeneração e revitalização da atividade, indo de encontro às concepções do “turismo de massa”, pois busca a partir do planejamento das áreas receptoras uma melhor utilização destes recursos, visando organizar as atividades desenvolvidas para que possam ter o menor impacto possível e que sejam compreendidas como um fator de desenvolvimento econômico e social. Além disso, nas concepções do turismo de base local tem-se o cuidado com a manutenção da biodiversidade. Aliás, a introdução do planejamento na atividade turística a nível global e local tem possibilitado maiores cuidados com a qualidade de vida das comunidades que vivem nessas localidades. A conscientização dos atores envolvidos (comunidade receptora e visitante) tem sido o principal instrumento de mudança comportamental, onde se deve retirar apenas o que pode ser reposto ou no mínimo, recuperar a degradação ambiental causada, sem comprometer a utilização do mesmo pelas futuras gerações. Desta forma, o propósito desse documento é discutir diferentes perspectivas a cerca do desenvolvimento da atividade turística em comunidades locais, na tentativa de contribuir com o desenvolvimento da atividade em comunidades quilombolas de forma sócio e economicamente justa.

1 TURISMO COMUNITÁRIO: POSSIBILIDADES E ALTERNATIVAS
“O turismo de base comunitária, [...], é uma modalidade do turismo sustentável cujo foco principal é o bem-estar e a geração de benefícios para a comunidade receptora”. (Bursztyn, et al)

TURISMO DE BASE LOCAL: ALGUMAS CONCEPÇÕES

A imagem do turismo tradicional durante muitos anos esteve relacionada às paisagens litorâneas, entretanto muitos são os fatores que estão impulsionando o crescimento do turismo, permitindo que essa atividade se adéqüe a cada ambiente, como podemos observar no turismo rural, ecoturismo, turismo de aventura, turismo cultural, turismo gastronômico e outras vertentes que tem possibilitado a expansão desse segmento econômico.
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Entretanto alguns estudiosos ainda se mantêm apreensivos quanto as dualidade (impactos negativos e positivos) decorrentes dessa atividade. Souza (1997) manifesta que

[...] o turismo de massa possui não apenas grande significado econômico em muitos casos (fonte de renda e divisas), mas também exerce impactos outros igualmente relevantes, notadamente sobre a cultura e o espaço (natural e, ou, social) da área receptora dos turistas. Atividade complexa, de importância e de significativo potencial de impacto (negativo e positivo) sobre as relações sociais e o meio ambiente [...] (p. 17)

Essas ponderações e ressalvas vão se estender à inserção dessa prática como complementação da renda para as comunidades locais. Como aponta Schneider (2006) ao abordar alguns questionamentos a cerca da atividade turística dissertando que

[...] a questão a saber é que possibilidades ou vantagens pode trazer o turismo rural para as comunidades rurais formadas por pequenos agricultores ou outro tipo de moradores identificados como produtores tradicionais tais como os remanescentes de quilombolas, descendentes de indígenas, coletores de produtos das florestas (quebradeiras de coco, seringueiros, etc), pescadores, ribeirinhos, etc. Mais do que isto, deve-se indagar quais os possíveis impactos ou efeitos sobre os modos de vida destas populações que podem ser alterados abruptamente pela intensificação de empreendimentos turísticos. (p. 6)

O mesmo autor lembra, contudo que

[...] focalizando as pequenas comunidades, a questão a saber não é se haverá mudanças e impactos sobre o modo de vida das populações envolvidas, o que por certo ocorrerá. A questão pertinente a saber é como dever-se-ia agir e/ou intervir para que os resultados das transformações inexoráveis tragam resultados que sejam desejados e compartilhados pela coletividade (inclusive as minorias mais fragilizadas). Trata-se, na verdade, de alterar o vetor das relações do sentido vertical para o horizontal, que busca valorizar a sincronia entre o saber-fazer de quem oferece e de quem demanda. (p. 7)

Diante desse quadro contraditório de riscos/benefícios, a busca por estratégias que envolvam o poder público e a comunidade local são substanciais para que de fato a atividade tenha êxito e ocorra de forma continua. Além disso, ter consciência da dimensão das transformações que a atividade possa provocar tanto aos recursos naturais, como nas relações sociais da comunidade receptora é fundamental. Mesmo com ressalvas, a introdução das práticas turísticas nas comunidades locais vem ocorrendo em várias cidades brasileiras, onde já é notório a intensificação e maior envolvimento das
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comunidades tradicionais nesse segmento econômico. O despertar para a inserção das comunidades indígenas e de pescadores já vem ocorrendo, onde as principais atrações estão no modo de vida dessas comunidades (pesca, artesanato, práticas agrícolas, alimentação, crenças, danças, entre outras). Mesmo o turismo comunitário sendo uma prática recente, a demanda por esse tipo de atividade está justamente no seu diferencial, como alega Fonseca (2003)

A noção de patrimônio como recurso para o desenvolvimento é uma construção recente e está intimamente associada à especificidade que lhe permite fazer do espaço onde se localiza um lugar diferente de todos os outros, transformando-o numa atração turística, o artesanato, a gastronomia, as festas, as crenças, os modos de vida tradicionais e outros bens não materiais que lhe estão associados, ensejando a experiência da descoberta, de exotismo, de auto-realização e de evasão do cotidiano. (p. 48)

O que se evidencia na prática do turismo comunitário é a procura pelo envolvimento no cotidiano dos moradores, onde cada experiência vivenciada nessas localidades é única. Cada comunidade a partir do planejamento deve encontrar um caminho para o desenvolvimento dessa atividade, buscando meios que viabilizem a atividade turística, pautando-se na sustentabilidade ambiental, equidade social e viabilidade econômica.

ESTRATÉGIAS DE PRÁTICAS TURÍSTICAS EM COMUNIDADES QUILOMBOLAS

O desafio de promover um turismo que pense não só na manutenção dos recursos naturais, mas que também esteja articulado com as práticas sociais tem sido o desafio das comunidades locais. Mas ressalta-se que as estratégias de desenvolvimento local por meio do turismo comunitário devem contemplar alguns critérios, como apresenta Benevides (1997)

a)

a manutenção da identidade cultural dos lugares, como próprio fator de atratividade turística, e o estabelecimento de um maior intercâmbio e integração entre as populações hospedeiras e os visitantes;

b) a construção de uma via democrática para o desenvolvimento de certas localidades, articulada pelo turismo como fator estruturante da valorização das suas potencialidades ambientais e culturais, com a participação da população local na condução ativa desse processo. Dadas suas características socioeconômicas, essas participação ativa só seria viável em “projetos” turísticos de pequeno porte e com baixos custos de instalação e de operação;

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c) estabelecimento de pequenas escalas de operação e baixos efeitos impactantes dos
investimentos locais em infra-estrutura, ou mesmo nenhuma transformação adicional destes espaços, tendo em vista que estes estariam subordinados aos parâmetros da conservação do meio ambiente e da “rusticidade local”, num processo de “valorização sem transformação” dos elementos “naturais” da paisagem e dos traços culturais das populações “nativas”, como fundamento de atratividade turística. (p. 25)

Essa realidade já vem ocorrendo em algumas regiões brasileiras. Diversas comunidades quilombolas têm ganhado destaque como local de destino de muitos visitantes, principalmente por que até recentemente, só se ouvia falar de quilombos nos livros didáticos. Contudo, em função dos diversos movimentos de diferentes setores da sociedade essa realidade vem sendo modificada, tendo-se assim, um novo olhar para os remanescentes dos antigos quilombos. Paralelamente a isso, nos últimos anos, o governo federal tem assumido o compromisso de promover a inclusão social das chamadas populações tradicionais, entre as quais se incluem as quilombolas. Para isto, tem desenvolvido ações visando à melhora da qualidade de vida dessas populações, criando condições para que o seu desenvolvimento ocorra em bases duradouras e sustentáveis. Segundo o governo federal brasileiro até o ano de 2002 já haviam sido identificados 743 comunidades remanescentes de quilombolas em vários estados brasileiros. No entanto em decorrência da criação de programas e da elaboração de projetos específicos por parte do governo federal e até mesmo em função do auto-reconhecimento dos remanescentes de quilombolas esse número em 2007 chegou a 3.524, segundo dados da Secretária de Política de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR. De acordo com a Associação Brasileira de Antropologia, as comunidades quilombolas são entendidas como, “[...] grupos que desenvolveram práticas de resistência na manutenção e reprodução de seus modos de vida característicos num determinado lugar”. Esses grupos, no entanto apesar do reconhecimento de diversos setores do governo ainda tem enfrentado dificuldades quanto à permanência nas terras conquistadas. As ações desenvolvidas pelo poder público tem sido de fundamental importância tendo em vista que suas mobilizações vêm resultando em publicações das mais diversas. Umas das principais conquistas na regularização dos direitos dessas comunidades foi à elaboração do Programa Brasil Quilombola em 2005 tendo como objetivo

[...] o desenvolvimento sustentável dos quilombos em consonância com as especificidades históricas e contemporâneas, garantindo os direitos à utilização e a permanência na terra, à documentação básica, alimentação, saúde, esporte, lazer, moradia adequada, trabalho,

287

serviços de infra-estrutura e previdência social, entre outras políticas públicas destinadas à população brasileira (BRASIL, 2005).

A criação desse programa tem facilitado através de suas diretrizes a inserção de práticas turísticas em comunidades quilombolas. Esse documento ressalta que as comunidades devem promover ações que valorizem seus aspectos naturais, culturais e sociais para atrair visitantes, incorporando-se assim, na economia local. O turismo em comunidades quilombolas vem ganhando espaço no cenário nacional, tendo em vista que o turismo massificado, com seus horários e roteiros pré-estabelecidos já não satisfazem mais os visitantes. A partir disso, algumas estratégias têm sido discutidas para a inserção de práticas turísticas alternativas nessas localidades, são, resumidamente, as seguintes: - contrapor-se as idéias vivenciadas hoje pelo turismo de massa, que só favorece os grandes empreendedores em detrimento das comunidades locais e dos recursos naturais; - criar espaços na comunidade que permitam ao visitante vivenciar o dia-a-dia da comunidade, com a promoção de atividades ao ar livre e que permitam trocas de experiências, colaborando para um processo de autoconhecimento; - possibilitar o envolvimento e articulação das comunidades nas tomadas de decisões, principalmente no processo de planejamento e implementação da atividade. Essa é uma das principais estratégias para que a atividade turística possa ocorrer de forma continua, a participação da comunidade é vital; - interligar as ações do poder público com as comunidades receptoras, por meio da capacitação dos moradores envolvidos, para que estes possam se tornar multiplicadores em suas comunidades. Ao estreitar os laços tem-se uma interligação e maior apoio quanto à fiscalização e monitoramento da atividade, além de incentivos financeiros; - promover a fiscalização continua da atividade por parte dos agentes locais, interferindo em suas transformações, ligadas as questões de infra-estrutura e serviços, para que essas possam ter o mínimo de interferência; - compatibilizar as formas de desenvolvimento com a conservação dos recursos naturais de cada localidade, além de respeitar e valorizar as heranças culturais e o modo de vida de cada comunidade. Logo o turismo comunitário em comunidades quilombolas surge como uma forma de valorizar a patrimônio local, além de cooperar para o envolvimento da comunidade receptora, onde cada família tem um papel fundamental na manutenção da atividade. O diferencial do turismo de base local está justamente na importância da participação da comunidade no planejamento, na implementação e no monitoramento da atividade.
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Para que a atividade turística ocorre com bases sustentáveis é imprescindível a participação da comunidade, como evidencia Azevedo et al (2005)

A efetiva participação das comunidades locais no processo de planejamento e gestão da atividade turística parece, portanto, essencial, pois a população local é conhecedora e vivencia a sua realidade imediata, sendo capaz de identificar problemas e necessidades, avaliar alternativas, desenvolver estratégias para proteção e/ou valorização do patrimônio natural e cultural e buscar soluções para os problemas identificados, sugerindo caminhos que levem à melhoria da qualidade de vida, ao fortalecimento da cultural local e ao bem estar social. (p. 05)

Por possuir uma nova vertente o turismo comunitário traz em seu bojo, a busca pela simplicidade, pela valorização dos saberes locais, visto que o que se busca no turismo local é ir além da preservação/conservação dos recursos naturais, mas principalmente a valorização do social, ou seja, um conhecimento do cotidiano dessas comunidades, destacando-se elementos como a dança, a religião, a música, a capoeira, além do artesanato e de atividades como os engenhos e as casas de farinha que fazem parte do dia-a-dia dessas comunidades. A participação dos visitantes nos afazeres cotidianos dos moradores da comunidade, tem contribuido para trocas de experiências, configurando como um processo de transformação e de aprendizagem de ambas as partes. As diferenças existentes entre a comunidade receptora e os turistas devem ser respeitadas, onde essa atividade possa ser compreendida como uma forma de emprego e ampliação de renda das famílias colaborando para a diversificação da economia local.

CONCLUSÃO

Algumas evidencias demonstram a dualidade entre os estudiosos a cerca da inserção da atividade turística em comunidades locais, principalmente porque estas tem sido concretizadas sem a efetiva participação da comunidade local. Mas sabe-se também que uns dos instrumentos fundamentais para que a atividade de fato possa contribuir e funcionar de forma continua é o planejamento e gestão envolvendo toda a comunidade receptora. Muitos são os desafios para que de fato essa prática possa estar sendo desenvolvida sem que comprometa os recursos naturais e o modo de vida dessas comunidades e que, além disso, promova a inclusão dos atores locais envolvidos. A efetiva participação das comunidades locais no processo de planejamento e gestão da atividade turística parece, portanto, essencial. A valorização e conservação do patrimônio para o desenvolvimento da atividade turística têm possibilitado que os moradores dessas comunidades tenham consciência da real importância
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que seu território possui, contribuindo para sua autogestão, sendo está um instrumento eficiente na busca e delineamentos de possíveis alternativas que levem à consolidação de comunidades sustentáveis. Muitas são as estratégias que podem ser utilizadas para que a atividade possa de fato contribuir para o desenvolvimento sustentável das comunidades envolvidas. O processo de autogestão é a principal delas, pois permite que essa prática perpasse diferentes dimensões,

contemplando a participação da comunidade local, o respeito a diversidade social e cultural, a manutenção da biodiversidade e a compreenssão de que essa atividade deve ser entendida como uma complementação da economia local e não como única fonte de renda. Em suma, as comunidades quilombolas devem buscar um modelo de desenvolvimento que seja realmente sustentável, no que concerne a conservação e perpetuação de seus recursos, de forma que eles possam também estar à disposição das futuras gerações, primar pela igualdade social, em benefício da melhoria da qualidade de vida da população e seus descendentes como um todo. É cada vez mais urgente a concretização de práticas alternativas de exploração de recursos naturais através de medidas de planejamento e gestão, trilhando caminhos para o desenvolvimento sustentável.

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SOUZA, Marcelo José Lopes de. Como pode o turismo contribuir para o desenvolvimento local? In: ______ ADYR, Balastreri Rodrigues (Org).Turismo e Desenvolvimento Local. São Paulo: HUCITEC, 1997, p. 17-22.

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ILHA DO PRÍNCIPE: POTENCIALIDADES PAISAGÍSTICAS PARA UM TURISMO COMUNITÁRIO SUSTENTÁVEL

Lúcio Correia MIRANDA Mestrando em Desenvolvimento e Meio Ambiente – UFC lcmiranda-ufc@hotmail.com Francisco Davy Braz RABELO Mestrando em Geografia – UFC davyrabelo@yahoo.com.br Julio Acácio Antonio PACHECO Doutorando em Desenvolvimento e Meio Ambiente – UFC jpachecobuzi@yahoo.com.br Sílvia Maria Lopes MONTEIRO Doutoranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente – UFC silviamonte81@hotmail.com Orientador68

RESUMO

No presente artigo pretende-se estabelecer uma reflexão sobre as relações entre as formas de uso e ocupação do solo, meio ambiente e as estratégias de desenvolvimento adotadas pelas políticas nacionais de desenvolvimento de São Tomé e Príncipe, com ênfase nas trilhas das propostas de desenvolvimento seguida na ilha do Príncipe. As interações entre o meio ambiente, comunidades tradicionais e planos de desenvolvimento local configuram-se como alicerce indissociável deste trabalho de caráter reflexivo e norteador da inserção da população local nas iniciativas da expansão turística da ilha do Príncipe. É a partir das práticas de uso e ocupação do solo que as transformações dos componentes ambientais se alteram por meio de um dinamismo acelerado e contínuo, rumo à deterioração ambiental que consequentemente amplia os empecilhos determinantes da qualidade de vida almejada socialmente na escala espaço temporal. A pesquisa objetivou instigar uma reflexão sobre a estratégia local de desenvolvimento com base nas práticas turísticas reforçada no crescimento da implementação dos resorts, visualizando novas possibilidades de inserção dos moradores tradicionais nas propostas do crescimento do turismo na ilha. Todavia, a proposta de um

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Orientador: Prof. Edson Vicente da Silva – UFC E-mail:cacau@ufc.br

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turismo comunitário é ressaltada como motivadora e precursora de maior qualidade de vida da população local, associada a medidas de manejo ambiental sustentáveis. PALAVRAS-CHAVE: Turismo; Comunidades Locais; Paisagem; Ilha do Príncipe.

INTRODUÇÃO

A Ilha do Príncipe é uma parcela territorial do arquipélago de São Tomé e Príncipe, com uma superfície total de aproximadamente 1001 Km², sendo a Ilha de São Tomé com 859 km² e Príncipe com 142 km², com 137.599 habitantes em todo o território nacional (INE, CENSO 2001). Este ambiente insular é constituído por duas ilhas (Ilha de São Tomé e Ilha do Príncipe) e alguns ilhéus, merecendo destaque os seguintes: Ilhéu das Cabras; Ilhéu das Rolas, ambos localizados nas proximidades da ilha de São Tomé e nas imediações da ilha do Príncipe integrando Ilhéu Bombom, Sete Pedras e Boné de Jóquei. A ilha do Príncipe localiza-se a nordeste da Ilha de São Tomé e estão afastadas por uma distância de 145 km. Separada aproximadamente 300 km da costa ocidental africana, a República Democrática de São Tomé e Príncipe é um dos países insulares do continente africano, situado no Golfo da Guiné, na proximidade da interseção ente a linha de Equador e o Meridiano de Greenwich. Cortado pelo Equador, a maior parte do território nacional é banhado pelo Oceano Atlântico no hemisfério norte. Este arquipélago se agrega ao alinhamento vulcânico do Golfo da Guiné que se estende desde ilha de Ano Bom até a margem sul do lago Tchad, chegando a atingir mais de 2000 km de comprimento (TENREIRO, 1956). Modelados pelas explosões magmáticas, neste conjunto maciço destacam-se as seguintes elevações: ilhas de Ano Bom (990 m), São Tomé (2024 m), Príncipe (948 m), Fernando Pó ou Bioko (2850 m), e os montes Camarões (4070 m), Kupé (2050 m) e Bambuto (2420 m). São Tomé e Príncipe possui um relevo acidentado, sendo que maior parte do país está situada abaixo dos 800 metros. O relevo da ilha do Príncipe é mais acidentado na sua região sul, enquanto na zona norte a planície é mais acentuada e poucos pontos ultrapassam 200 metros de altitude. De acordo com os estudos pedológicos realizados, os diferentes tipos de solos identificados são paraferralíticos, fersialíticos tropicais castanhos e barros pretos (VAZ; OLIVEIRA, 2007). Em geral são solos derivados de rochas vulcânicas (basalto) e apresentam grande poder de fertilidade e com boa capacidade de retenção de água. A pluviosidade média anual varia entre 2.000 a 3.000 mm, e podendo atingir médias superiores nas áreas montanhosas (zona sul das ilhas). Localizado na zona equatorial, na imediação
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latitudinal com a Bacia do Congo, este arquipélago é caracterizado por clima tropical úmido, com duas estações bem definidas: a chuvosa e gravana (relativamente seca). A estação chuvosa estende-se por um período de aproximadamente nove meses, enquanto a seca é a estação mais curta estendendo-se entre meados de junho a setembro. Situada à baixa latitude, as ilhas de São Tomé e Príncipe registram temperatura média anual de 26°C. As condições climáticas determinam uma umidade relativa do ar médio anual acima de 85%. O país foi uma das primeiras colônias portuguesa na África. Segundo Tenreiro, (1956) a chegada dos portugueses na Ilha de São Tomé é datada de 1471, um ano depois alcançaram Ilha do Príncipe. Entusiasmados com a beleza paisagística e sua localização, o arquipélago favorecia aos navegantes um excelente ponto estratégico para se conectar outras áreas que lhes despertassem interesses. O povoamento da ilha de São Tomé iniciou-se em 1485 com a chegada dos portugueses da Metrópole, madeirenses, alguns judeus, castelhanos, franceses e genoveses, como continuidade à política expansionista iniciada com o Infante D. Henrique na ilha de Madeira (TENREIRO, 1956). Segundo o mesmo autor, a ilha do Príncipe foi efetivamente povoada só em 1502, com a participação da família de António Carneiro, a quem fora doada pelo Rei de Portugal em 1500. Paulatinamente, São Tomé e Príncipe passa à definir-se como um crescente território de exploração agrícola para o beneficio da Metrópole. Embora de pequena dimensão, este país insular foi transformado numa área agrícola extremamente importante para a economia colonial portuguesa, pois, a natureza oferece condições propícias para esta prática. A economia de São Tomé e Príncipe ainda é marcada por forte dependência da produtividade agrícola, desde sua ocupação pelos portugueses, a exploração agrícola percorreu fases diferenciadas de cultivos de determinadas culturas: cana-de-açúcar que acompanha o início de povoamento da ilha de São Tomé a partir do século XV (1485) e no século XIX; A introdução do café em (1800) e cacau em 1822, que por sua vez, o cultivo do cacau se mantém como um dos maiores produtos de exportação do país. (TENREIRO, 1956).

1 ÁFRICA E SUAS POTENCIALIDADES TURÍSTICAS

As viagens, deslocamento ou mobilidade de um lugar para o outro estão associadas à existência e sobrevivência da espécie humana. Quando a viagem deixa de representar risco transformando-se em objeto de consumo da elite, algo prazeroso ou ainda como elemento catalisador da felicidade, surge o turismo.
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O desenvolvimento da atividade turística produz diferentes impactos como resultados das diferentes atividades socioeconômicas a ela relacionadas, no entanto, nem sempre se caracteriza como ações/atividades inclusivas, pois deixa maior parte da comunidade alheia ao desenvolvimento, sem participação nos lucros e/ou benefícios gerados. Na África, o safári é responsável pela produção da maior oferta de turismo por meio da exploração em abundância da fauna e da flora em áreas protegidas e em terras comunitárias, assim como o turismo de praias. A palavra “safári” é proveniente do Swahili significando “jornada”, que por sua vez é originária do árabe “safara” de viagem, portanto, viagem para contemplação das paisagens naturais africanas. Os safáris espalhados por toda a área das savanas africanas representam, em grande parte, propriedades mantidas por empresas multinacionais de ecoturismo que operam no continente. Atualmente, incentivadas por reformas de lei sobre recursos naturais que concedem aos operadores benefícios fiscais, às populações locais direitos de usar os próprios recursos naturais para produção de renda e sustento. Com foco na ampliação e dinamização das atividades, alguns operadores de safáris têm desenvolvido parcerias com comunidades locais (MOÇAMBIQUE, 2004). As atividades são intensivamente exploradas por meio de imagens sedutoras e convidativas apresentando as praias tropicais das extensas costas ocidental e oriental da África austral e central, associadas às oportunidades de mergulho, sol, pesca e passeios de barco. Outro aspecto chamativo nesse processo é o ambiente continental, a cultura, a culinária local com a diversidade de iguarias típicas. Algumas limitações para o desenvolvimento desta atividade podem estar relacionadas com a deficiente monitoria e acompanhamento das parcerias pelos governos, a distribuição desigual dos lucros, a predominância de grupos marginalizados que são exaustivamente explorados, por se constituírem mão-de-obra barata e desqualificada articuladas a falta de capacidade técnica e políticas eficientes de manutenção e preservação dos recursos naturais pelas comunidades.

2 A ILHA DO PRÍNCIPE E SEUS POTENCIAIS PAISAGÍSTICOS

O alto índice pluviométrico anual da ilha do Príncipe lhe proporcionou uma cobertura vegetal densa, predominantemente arbórea, com uma grande taxa de endemismo. Situada a pouca distancia da linha do equador, o clima lhe favorece o desenvolvimento da rica biodiversidade característica do ambiente insular. Tanto a fauna como flora da ilha do Príncipe é de difícil ocorrência em outros lugares do mundo. Na sua maioria, cercada por belas praias de areias quartzosas claras, a ilha do Príncipe possui um contingente populacional de 5966 habitantes (INE, CENSO 2001). Pela ausência de
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grandes indústrias e empresas nacionais e multinacionais de grande porte, as modificações das paisagens naturais seguem num ritmo relativamente lento, se comparado aos outros países em via de desenvolvimento. Numa ilha predominantemente agrícola e pesqueira, a poluição sonora e do ar é um flagelo desconhecido pelos que ali perambulam ou moram. Fazendo desta, um ponto de forte atratividade turística, embora ainda pouco conhecida pelo mundo afora. Na figura 01 esta representada alguns dos pontos de grande atratividade turística.

Figura 01: Representação fotográfica de alguns dos pontos de atratividade turística.

Composta por uma população mestiça, possui uma diversidade cultural de grande especificidade, podendo ser percebida nos costumes, musicas, danças, culinária, língua local, artesanatos, historia e no ambiente. Percebe-se ainda que a riqueza cultural do Príncipe se deve, principalmente, ao fruto das concentrações de povos provenientes dos países sob a influência dos portugueses durante o período de colonização (TENREIRO, 1956). Apreciando belas paisagens definidas pelo relevo acidentado, nessa ilha pode ser desenvolvida diversos tipos de turismo, entre estes destacam-se: turismo de sol e praia; cultural; pesca artesanal; rural; ecoturismo e outros.

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3 PROPOSTAS PARA O DESENVOLVIMENTO DE UM TURISMO COMUNITÁRIO SUSTENTÁVEL NA ILHA DO PRÍNCIPE

Ao longo dos séculos, a economia de São Tomé e Príncipe desenvolveu-se sobre árduas tarefas de trabalho escravo direcionado à produtividade agrícola. Estes eram submetidos a uma exigência rigorosa de trabalho como um mecanismo de garantir o permanente crescimento da economia metropolitana. Para alcançar os objetivos da produção constatou-se a necessidade de buscar trabalhadores escravos de outras colônias, principalmente nas regiões de Benim, Guiné e Gabão e ainda em algumas outras de Angola (TENREIRO, 1956). Após a abolição de trabalho escravo surgiu uma nova categoria de trabalhador das roças, o contratado, estes trabalhadores provinham de outros países africanos colonizados pelos portugueses como Moçambique, Guine Bissau, Angola e Cabo Verde. O trabalhador contratado diferia da condição de escravo em geral apenas pela nomenclatura, na realidade as condições de trabalho continuavam sendo as mesmas. Nas últimas décadas de colonização, com as plantações distribuídas em capitanias, separadas em pequenas empresas (roças) agrícolas geridas por um colono português, o cultivo de cacau no arquipélago desempenhava um papel significativo para a economia da época. Atualmente, os antigos trabalhadores contratados e seus descendentes permanecem nas roças embora não exercendo função de contratados, as cicatrizes da era colonial demonstram se perpetuar no cotidiano dos pequenos agricultores localizados nos diversos pontos das ilhas. Paralelos às problemáticas camponesas destacam-se as comunidades pesqueiras, em geral localizadas nas proximidades das praias. Na busca pelas novas estratégias de expansão de capital, os investidores nacionais e internacionais, na sua maioria, associados aos gestores públicos desenham padrões de investimentos que pouco ou nada contribui para melhoria das condições de vida da população que ainda sobrevivem através das técnicas herdadas dos seus ancestrais. Percebe-se que a caça, pesca e lavoura, constituem as atividades diárias de manutenção de vida de uma parcela significativa da população da ilha do Príncipe. A busca pela ocupação do litoral na ilha do Príncipe sempre foi ligada às práticas pesqueiras, pequenos grupos tradicionais de pescadores migram para diferentes pontos da ilha em busca de melhor local de abundancia e facilidade da pesca. A fixação de suas moradias nas faixas de praia é predominantemente temporária, determinada pelo dinamismo dos cardumes de peixes em diferentes estações do ano.

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Embora sendo um processo antigo em maioria dos países, a demanda pelo litoral é um fato ainda em evolução tardia. Num ritmo lento, as comunidades locais de pescadores e agricultores percebem-se cada vez mais limitados e privados na garantia dos seus meios de sobrevivência. No plano de desenvolvimento da ilha do Príncipe, apresentado pelo governo regional desta ilha, trilha um desenvolvimento calcado nas práticas turísticas e proliferação de “resorts” nas zonas costeiras, área de grande atratividade dos empreendimentos hoteleiros através da beleza paisagística e incomparável conforto térmico oferecido pelas brisas marinhas. Pelas experiências de fracasso nos diversos países, o turismo de massa com base nas proliferações de “resorts” produz mais impactos do que benefícios para a camada populacional menos privilegiada economicamente. A concentração de riquezas e distribuição de impactos ambientais é uma das características dessa nova ordem econômica de relações com as tradições locais e diversidade biológica. Se medidas de precaução não forem tomadas no momento preciso, na ilha do Príncipe pode ser apenas o inicio de um velho problema vivido e experimentado em varias partes do mundo. Percebe-se o turismo como uma das práticas atuais de grande contribuição para a economia das mais diversas nações e, também, um gerador de problemas socioambientais e culturais quando não articula no seu desenvolvimento os saberes e vivencias da população local. O turismo comunitário demonstra ser o menos impactante, tanto na esfera social ou ambiental, uma vez que a capacidade de suporte das unidades ambientais é respeitada e as interações das populações locais são massivas no processo de produção que tem como característica uma distribuição de lucro equitativa. Para Coriolano e Lima, (2003), turismo comunitário é:

Aquele desenvolvido pelos próprios moradores de um lugar que passam a ser os articuladores e os construtores da cadeia produtiva, onde a renda e o lucro ficam na comunidade e contribuem para a melhorar a qualidade de vida; levar todos a se sentirem capazes de contribuir, e organizar as estratégias do desenvolvimento do turismo (CORIOLANO; LIMA, 2003, p.41 apud SILVA et al, 2011, p.48).

Atualmente, planejar é uma tarefa fácil, o mais complexo é seguir o plano durante as práticas de gestão, considerando que interesses divergentes associados à ganância e expansão de lucros se sobrepõem aos benefícios da nação como um todo. Infelizmente, as metas são planejadas e traçadas desrespeitando as potencialidades das unidades geoecológicas e diversidade cultural em momentos e espaços diferenciados. A sucessiva incapacidade de gestão, muitas das vezes por falta de qualificação ou por corrupção, deixou suas marcas nas difíceis condições de vida da população das ilhas. Refletindo
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com maior incidência nas áreas rurais, abrangendo comunidades agrícolas e pesqueiras, pois estas constituem como um espaço de maior vulnerabilidade aos empecilhos do desenvolvimento. Refugiar-se para outros lugares não seria a opção satisfatória, mas, como mecanismo de livrar das difíceis condições de vida, uma parcela da população busca novas oportunidades de sobrevivência na cidade de São Tomé e poucos privilegiados procuram novas perspectivas nas diásporas. A agricultura local gira em torno das capacidades que os produtores têm para lidar com as oscilações de natureza diversas que diretamente determinam a produtividade e as condições ambientais e sociais no campo, uma vez que a exploração agrícola das ilhas é predominantemente do tipo familiar. A reforma agrária iniciada nos limiares dos anos 1990, depois das inúmeras tentativas do estado em manter as empresas estatais agropecuárias, anteriormente sob o domínio da metrópole, em bom ritmo de produção, deixou sua marca tanto nas condições de vida no campo e nas novas relações com o meio ambiente. A economia de São Tomé e Príncipe, assim como de muitos outros dos países considerados subdesenvolvidos ou em via de desenvolvimento, é dependente da ajuda externa para manter o ritmo de organização vigente. Essa condição de dependência das forças externas lhe transforma numa nação sujeita a adotar modelos de desenvolvimento semelhantes às exigências impostas pelas organizações mundiais, modelos esses que em maior parte das vezes não leva em consideração a especificidade sociocultural e ambiental local. O não cumprimento desses parâmetros dificultará e/ou impossibilitará o alcance aos créditos ou a qualquer natureza de ajuda externa. Neste contexto a reforma agrária firma como um dos modelos impostos ou estimulados pelas forças externas para a implantação na exploração agrícola do arquipélago. Os pequenos produtores da Ilha do Príncipe enfrentam dificuldades extremas oriundas da separação da capital São Tomé, pelo Oceano Atlântico e outros motivos de ordem políticas e financeiras associadas à ausência de um meio para conservação e transporte mais acessível e seguro para o escoamento dos produtos entre mercados consumidores locais, nacional e internacional. Durante o período da exploração portuguesa, a ilha do Príncipe dispunha de vias de acesso razoável a todos os pontos produtivos e habitados. Mas, logo após a independência, pela incapacidade de gestão do estado foram paulatinamente abandonadas. Em contra partida, o abandono de uma fração das áreas agrícolas serviu para a regeneração de uma porcentagem significativa da floresta e consequentemente ampliou a possibilidade de preservação das espécies biológicas do arquipélago. Contudo, no limiar da reforma agrária, a impossibilidade de escoamento dos produtos já se firmava como um flagelo gritante.
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A localização das propriedades em relação à residência dos agricultores é um dos tantos outros empecilhos do desenvolvimento do sector primário. Além da venda das propriedades, as famílias camponesas comercializam madeiras a qualquer preço. Descreve Espírito Santo, (2009), que:

Como a maioria não pôde cultivar as terras por falta de recursos, alguns optaram por vender, ilegalmente, o título de sua posse enquanto outros encontraram no derrube das arvores de sombra uma forma fácil de obtenção de meios para suprir as suas necessidades mais imediatas (ESPÍRITO SANTO, 2009.p.124).

Não havendo, durante vários anos, pouca ou nenhuma fiscalização dos órgãos ambientais competentes, estas práticas foram sendo desenvolvidas como uma alternativa de sobrevivência. Em geral, as comunidades agrícolas e pesqueiras se configuram como os de maior vulnerabilidade no desenrolar das trilhas rumo ao desenvolvimento local. Tanto as limitações naturais ou sociais são manifestadas de forma impactante no circuito das comunidades tradicionais. Com base no retrato da realidade, não se pode falar na deficiência de idéias sobre o modelo de desenvolvimento sustentável, carece de uma visão cautelosa e sistemática deste princípio de modo que oriente uma ação prática capaz de exaltar este modelo num patamar além da utopia. Pensar o desenvolvimento através das práticas turísticas requer um planejamento e gestão integrada, articulando os diferentes fatores e elementos socioeconômicos, culturais e ambientais que com esta prática se modificam num ritmo cada vez mais acelerado. Planejar o turismo exige:

Uma discussão ampla sobre o modelo de desenvolvimento. Essa discussão envolve outras questões como a cidadania, o meio ambiente, a ética, a sustentabilidade e a necessidade de uma inclusão maciça de pessoas.Turismo é um fenômeno que não cria apenas empregos, impostos e desenvolvimento. Se mal planejado, é fator de poluição, exclusão social, concentração de renda, aumento da prostituição, incremento da exploração sexual infantil e comprometimento de investimentos em projetos mal elaborados (TRIGO et al, 2007.p.12).

Segundo os mesmos autores o sucesso da atividade turística não depende exclusivamente dos governos, mas da sociedade organizada em geral. A participação maciça dos empresários, profissionais, organizações não-governamentais, sindicatos e as comunidades organizadas, definem como um comprometimento ao alcance de resultados mais proveitosas à toda sociedade. Para que a articulação social concretize nesse processo, exige-se necessariamente o acesso à educação e informação.

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Desta forma, os moradores locais podem contribuir para o desenvolvimento de um turismo sustentável, quando o processo de planejamento destaca e reconhece os valores da comunidade na participação do desenvolvimento local. Tanto as comunidades pesqueiras como camponesas têm potenciais e atratividade para desenvolver no seu entorno um turismo de apreciação e valorização das culturas e especificamente da biodiversidade local. Para isso, atividades de educação fazem-se necessários para maior articulação das comunidades locais. Nesse processo, os êxitos no desenvolvimento das práticas turísticas podem estar associados aos programas de educação que possibilitam a construção de novos saberes e fazeres.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O planejamento e a gestão de caráter integrado e participativo são determinantes para se alcançar um mínimo possível de impactos nas esferas socioeconômico, cultural e ambiental. Ignorar esta nova estratégia de planejar pode ocasionar em impactos socioambientais negativos de grande repercussão à ampliação das dificuldades no cotidiano da população local. Embora as comunidades pesqueiras e agrícolas exerçam forte influência no processo de desenvolvimento local, não se percebe uma ação significativa dos governos para reverter à caótica situação daqueles que procuram um modo de vida mais favorável ao combate das limitações impostas pelo índice de pobreza cada vez mais alarmante. Percebe-se que dificilmente os planos políticos ambiciosos de desenvolvimento tragam contribuições significativas para melhoria da qualidade de vida da população de menor influência e de baixo poder econômico. Na atualidade, pode-se interpretar que o planejamento do turismo na ilha do Príncipe contribuiu para estender a especulação das áreas costeira. Fato este de grande preocupação sobre o futuro das comunidades pesqueiras e agrícolas, que direta ou indiretamente se beneficiam destas áreas para desenvolverem suas atividades de subsistência. Diante destas circunstâncias fica clara a necessidade do desenvolvimento de um turismo comunitário na ilha. Percebe-se que a superação das experiências problemáticas das praticas turísticas é possível com base nas ações que indiquem e valorizem um turismo promotor do bem-estar social da população nativa.

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REFERÊNCIA ESPÍRITO SANTO, Armindo de Ceita do. São Tomé e Príncipe: problemas e perspectivas para o seu desenvolvimento. Lisboa: Edições Colibri, 2009. INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE. São Tomé e Príncipe em Números. São Tomé, 2006. MOÇAMBIQUE; Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Turismo 2004 -2013; Maputo: (2004) disponível em http:// www.portaldogoverno.gov.mz/.../turismo/Plano_Estrategico_pt_MIT. Acessado em: 07/05/2012. SILVA, Edson Vicente da et al. Planejamento Ambiental e Bacias hidrográficas. Fortaleza: edições UFC, 2011. (Coleção estudos geográficos, nº9, Tomo 3 – Turismo e Sustentabilidade) TENREIRO, Francisco. As Ilhas de São Tomé e Príncipe e o Território de São João Batista de Ajudá. Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa. Semana do Ultramar, 1956. TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi et al. Aprendiz de lazer e turismo. São Paulo: IPSIS, 2007. VAZ, Hamilton; OLIVEIRA, Faustino. Relatório Nacional do Estado Geral da Biodiversidade de São Tomé e Príncipe; Ministério do Meio Ambiente, STP: 2007.

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UVA E VINHO NO CERRADO MINEIRO: ENOTURISMO COMO PROPOSTA DE GERAÇÃO DE TRABALHO E RENDA NO MUNICÍPIO DE CONQUISTA, MG

Mônica Arruda ZUFFI Discente do curso de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia. Email: monicazuffi@hotmail.com Jaqueline Borges INÁCIO Mestranda em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia. Email: jaquelinebinacio@yahoo.com.br. Rosselvelt José SANTOS Professor Doutor do Instituto de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia. Email: rosselvelt@ufu.br.

RESUMO

Neste trabalho, temos como objetivo, traçar um perfil de uma atividade produtiva desenvolvida por migrantes italianos a mais de um século no município de Conquista-MG. A partir do enoturismo consideramos que a produção de vinho poderia ser uma opção de trabalho e renda para produtores rurais daquele município. Considerando que as práticas produtivas envolvendo a produção de uva e vinhos continuam sendo processadas, apresentaremos neste trabalho uma análise do atrativo, visando ressaltar não só essa tradição da produção de vinhos artesanais, mas também uma reflexão sobre as possibilidades de desenvolvimento de outra atividade que não seja a monocultura da canade-açúcar. PALAVRAS-CHAVE: Enoturismo; Vinho Artesanal; Lugar; Identidade; Imigração.

INTRODUÇÃO

O município de Conquista está inserido no Bioma Cerrado, cujas especificidades naturais são complexas. As formações vegetais se apresentam em uma ampla divisão fitofisionômica, constituindo formações campestres, savânicas e até florestais (cerradão), além das florestas decíduas e de galerias, sendo esta diversidade associada a uma sazonalidade pluviométrica em que as estações do ano são bem definidas, com o verão quente e chuvoso e o inverno frio e seco, sendo este o principal fator determinante da distribuição espacial e temporal das fisionomias vegetais do cerrado (CARVALHO, 2010).
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O município, conforme dados do IBGE, foi formado a partir de uma expedição no ano de 1803, na qual teve como objetivo da viagem a exploração do Triângulo Mineiro. Alguns dos participantes da referida expedição se fixaram na região e por intermédio da posse da terra, baseado nas sesmarias, foram formando seus territórios. O primeiro a se fixar na região foi o Coronel Domingos Vilela de Andrade, que fundou a fazenda da conquista, onde servia de ponto de pouso para quem tinha como objetivo chegar ao porto de ponte Alta, onde se fazia o escoadouro dos sortimentos dos mascastes dos sertões de Minas, Goiás e Mato Grosso. No entorno desse entreposto de trocos, pessoas foram atraídas para o lugar, em função das oportunidades que se apresentavam. Tempos depois se iniciou a construção da ferrovia e também a extração de látex de mangabeira. A oferta de trabalho nessa época serviu como forma de atração de imigrantes que buscavam trabalho, principalmente, os italianos, que ao final do século XIX, chegaram ao Brasil em busca de melhores condições de vida. Quando os navios que transportavam os italianos atracavam nos portos brasileiros, principalmente em grupos familiares, eles eram conduzidos ao departamento de migração e lá destinados às colônias de pequenos agricultores. Podemos entender que essa política migratória contribuiu para demarcar uma nova dinâmica de reocupação de terras e reorganização do trabalho no campo brasileiro. Desse modo, a chegada de contingentes de italianos ao Brasil não trouxe apenas força de trabalho para produzir riquezas, mas outros valores humanos. São modos de vida, saberes e fazeres que contribuíram para criar algumas peculiaridades, marcados por fragmentos de pensamentos, sentimentos e práticas socioculturais (BOTELHO, BRAGA & ANDRADE, 2007). A partir de alguns trabalhos de campo no município de Conquista, fomos observando várias manifestações de fragmentos de um modo de vida relacionado aos migrantes italianos. Curiosamente, mesmo cercados pelas grandes lavouras de cana-de-açúcar, constatamos que o costume de cultivar videiras e produzir vinho tinha se fixado na paisagem e fazia parte dos saberes e fazeres trazidos pelos descendentes dos migrantes italianos. Em um primeiro momento pareceu-nos que havia entre eles um compromisso em manter aquilo que os seus pais e avós conquistaram. Afinal eles tinham conseguido cultivar em meio ao cerrado, videiras que lhes permitiram obterem alguns tipos de vinhos. Essas conquistas revelam orgulhos que ao mesmo tempo em que caracterizam o processo de reocupação do Cerrado, revelam atributos da cultura italiana que na prática possibilitaram aos camponeses realizarem outros usos dos solos do Cerrado. Neste momento, (2012) os produtores rurais que continuam a produzir uva e a fabricar vinho, realizam essa façanha, em um contexto socioeconômico que inclui a reprodução do setor sucroalcooleiro.
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Isso significa existir num lugar em que a agroindústria para obter produção e produtividade vai usar de recursos técnicos, geralmente sem se importar com o seu entorno. No município de Conquista, nos tratos culturais com a cana-de-açúcar, por exemplo, usa-se a pulverização aérea. A aplicação de maturadores com uso de avião, quando atinge os parreirais quase não se tem produção. Contudo, a identidade de italiano produtor de uva e vinho é manifestada no cotidiano e entranhada nas práticas sociais é defendida no lugar. Esses produtores são conhecidos pela fabricação artesanal dessa bebida. Para realização deste trabalho, além de levantamentos bibliográficos, periódicos e teses sobre o assunto, incorporamos também os testemunhos dos produtores rurais, técnicos agrícolas e pessoas ligas a administração pública, todos obtidos a partir de entrevistas semi-estruturadas, observação da paisagem e trabalhos de campos.

1 O LUGAR E AS RELAÇÕES SOCIAIS

De acordo com a Emater local, o município de Conquista tem, atualmente, 33 famílias produtoras de vinho, junto a um programa de vitivinicultura em parceria com a empresa, em um programa que visa organizar a produção. A Emater promove reuniões e cursos para orientar essas famílias a desenvolverem técnicas de cultivo e melhoramento da produção. No ano de 1998 foi estabelecida uma parceria entre a Emater-MG, os produtores Rurais e a prefeitura de Conquista, envolvendo a Embrapa Uva e Vinho, instituição de pesquisa situada no município de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, que possibilitou um aperfeiçoamento da produção vinícola no município. Como estratégia de fortalecer a vinicultura, há também os eventos para a divulgação e celebração da atividade. Como filosofia de trabalho, a Emater enfatiza a valorização das práticas culturais, seguramente residual dos migrantes italianos, envolvendo a produção vinícola. Nos dias de campo, por exemplo, valorizam-se as técnicas camponesas envolvendo a poda das videiras. Essa instituição de assistência técnica rural, a partir de seu corpo técnico, valoriza a poda das videiras, pois compreende que a atividade envolve todo seu contexto técnico e cultural. Especialmente e propositalmente a poda das videiras abrange trocas de conhecimentos, trazendo e exercendo novas sociabilidades às relações sociais. Trata-se de uma reunião com os produtores que acontece entre o final de julho, começo de agosto. Para a Emater, a poda é uma forma de desempenhar uma relação e um diálogo com os produtores de vinho. Nesses encontros as práticas produtivas mais antigas dos camponeses aparecem e revelam seus conteúdos, desvendando as adaptações das videiras ao bioma Cerrado. Valorizados nos seus saberes e fazeres o camponês parece aceitar mais facilmente as outras orientações.
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Para a administração pública do município de Conquista, a reminiscência das práticas sociais envolvendo o fabrico do vinho em Conquista deve ser relacionada a cultura italiana. Nos documentos oficiais do município, a migração de italianos teve início com a chegada das primeiras famílias no final do ano de 1890. Naquele momento o café se apresentava como riqueza brasileira, suscitando interesse de famílias italianas em trabalharem no plantio do café. A presença italiana foi tão intensa, que fez do município, conforme o Jornal do Triângulo, o berço da imigração italiana no Triângulo Mineiro [...] 2011. O Jornal também destaca que os italianos “trouxeram com as tradições: comidas, a cultura e as primeiras cepas de uvas e atualmente 33 famílias fabricam vinhos para consumo próprio (2011). Segundo dados da Emater, o município conta com uma área de 5 hectares destinada para o plantio de uva, essa produz cerca de 45.000 Litros de vinho, dado que também pode ser confirmado pelo censo do IBGE, conforme Tabela 1.

Tabela 1: Quantidade Produzida de Uva QUANTIDADE PRODUZIDA DE UVA Estado Minas Gerais Município Conquista Tonelada 75 Hectares 5

Fonte: Adaptado do IBGE Cidades, 2006.

Tendo em vista que a produção é em grande parte voltada para o consumo familiar, 5 hectares é uma área razoável. Contudo, mesmo que a maior parte dessas famílias não comercialize seu vinho, a pesquisa revelou que em duas propriedades há comercialização, sendo uma delas, a pioneira na produção de vinhos artesanais, (Jornal do Triângulo, 2011.). Para as famílias que produzem vinho, essa bebida é necessária e na Itália, ela é sagrada. Servida apenas para adultos, inclusive nas festas, esse costume continua fazendo parte das práticas sociais das pessoas. O vinho tradicionalmente faz parte das refeições. A celebração da vida se realiza nestes atos simples, revelando que a identidade do descendente de italiano é marcada e reafirmada também pela presença do vinho em vários momentos da vida. A memória daquilo que representa o vinho se revela quando um membro da família produtora de vinho relata que: O vinho era sagrado, era escondido pelo meu pai!69. O consumo da bebida é parte de rituais, e por isso teve sua reprodução no lugar, evocando constantemente identidade e pertencimento ao lugar vivido.

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Fala de um dos produtores de vinho do Município

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Cabe aqui, neste momento, compreender o significado que o espaço tem enquanto condição, meio e produto da realização da sociedade em toda sua multiplicidade, não é apenas como um receptáculo de sua história, mas uma condição qualificada para sua realização. (CARLOS, 2001).

2 O ENOTURISMO E O LUGAR

Para se compreender como o turismo atua no lugar, é necessário antes que se compreenda o que ele expressa, uma vez que se justifica nas razões sociais e ambientais que os sujeitos vivem, se adaptam e constrõem ao longo de suas vidas, afinal o lugar é:

[...] o produto das relações humanas, entre homem e natureza, tecido por relações sociais que se realizam no plano do vivido o que garante a construção de uma rede de significados e sentidos que são tecidos pela história e cultura civilizadora produzindo a identidade, posto que é aí que o homem se reconhece porque é o lugar da vida (Carlos, 2007, p. 19).

O lugar é o espaço do vivido é onde somos capazes de expressar sentimentos, reconhecimentos dos nossos vínculos sócio-territoriais. Pensar o lugar como espaço de pertença pode contribuir para que o turismo possa se afirmar também valorizando as origens daquele mundo vivido. No mundo contemporâneo, as especificidades do lugar é uma das razões da existência do turismo em áreas rurais. No Brasil, por exemplo, temos no Rio Grande do Sul, mais

especificamente na Serra Gaúcha, as especificidades de um turismo que usa de um conjunto de lugares para propiciar prazeres relacionados ao cultivo da uva e fabrico do vinho.70 Os modos de vida presentes nos lugares relacionados ao turismo geral usam dessas especificidades turísticas. Podemos estar diante de propostas turísticas que ao se vincular com elementos de origem local, cultural, criam formas de se identificarem com o ambiente. O lugar criado historicamente é organizando, talvez reorganizado para daí usar da paisagem já existente como forma de reprodução turística. Desse modo, o lugar não desaparece, mas nele aparece o turismo. Isso significa que no caso da Serra gaúcha aquilo que gerou um número de vinícolas na região, cultura, modo de vida, práticas sociais é usado para desenvolver o turismo. Assim, o atrativo é voltado para a especificidade italiana, sobretudo para o vinho e alguns outros atrativos, derivados da culinária italiana. Neste caso, mesmo parecendo reducionismo, o turismo pode ser entendido de duas características que o diferenciam das demais atividades econômicas, uma delas é o fato do turismo
70

Na comparação com o município de Conquista, nos aproximamos das seguintes idéias: como um fio condutor do processo de imigração italiana para a região e a manutenção de identidades e tradições ligadas ao cultivo da uva e à produção do vinho. ( FRIGERI, 2009, p. 9).

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ser antes de mais nada uma prática social e a outra é de ter no espaço o seu principal objeto de consumo. (Cruz, 2006). O enoturismo, para a Embratur (Empresa Brasileira de Turismo), pressupõe

o contato direto do turista com os processos produtivos, o conhecimento e a prova dos vinhos das regiões visitadas, passeios e percursos que envolvem o patrimônio paisagístico e arquitetônico relacionados à cultura da vinha e à produção do vinho. E são essas as características e os aspectos que colocam o turismo como uma das melhores alternativas de valorização dos espaços rurais visando seu desenvolvimento sustentável. (Embratur, 2008. p17).

Para COSTA E DOLGNER, 2003, o enoturismo é um tipo de turismo que, fora das áreas metropolitanas, gera emprego e desenvolvimento regional. DIAS, ressalta a necessidade de preservar e requalificar o território, como forma de experiência territorial, em que se engloba (enotecas, restaurantes, adegas, museus, lugares e objetos), e acima de tudo elementos imateriais, que somente podem ser percebidos quando manifestados na história do lugar e da interpretação do vinho quando se prova. Assim, podemos definir essa atividade, como sendo um segmento turístico que ressalta o interesse de determinadas pessoas, que, motivadas pelas propriedades materiais e imateriais engendradas na elaboração e degustação do vinho, procuram as regiões produtoras para satisfazerem o desejo de saborearem uma bebida que descreve e ressalta a cultura do lugar. Este cenário permite ao setor turístico uma forma de usar dessas condições como meio de desenvolvimento e ao mesmo tempo desempenhar intervenções que possam considerar em seu curso a importância das culturas e tradições locais. As atividades relacionadas as vitivinículas existente na Serra gaúcha e o turismo já consolidado são exemplos desse processo e podem sugerir novas iniciativas para outros lugares, inclusive para o município de Conquista. No município de Conquista, durante nossos trabalhos de campo e no estudo das publicações de jornais locais e regionais, pudemos observar um apelo ao resgate das tradições relacionadas a produção de vinho. Por várias vezes, observamos a comunidade citar as festas locais. Há registros da festa italiana realizada em 2008. Neste evento houve iniciativas de resgatar a história da imigração e por intermédio da gastronomia e da música, trazer para a festa os membros da comunidade italiana. Também foi inserido no espaço da festa o coral de músicas italianas e a poda das videiras. Por isso, justifica-se no enoturismo uma forma de dar suporte ao turismo no município de Conquista. Contudo, para que o turismo não apenas use os elementos da cultura local é necessário o envolvimento efetivo dos seus representantes, cabendo ao poder local, as pessoas que
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detém conhecimentos do patrimônio cultural material e imaterial, comprometimento e seriedade na condução deste processo.

CONCLUSÃO

O turismo como possibilidade de desenvolvimento local não pode se desvincular das comunidades, das tradições locais. As iniciativas no município de Conquista devem ser

implantadas de forma que a qualidade e estrutura dos modos de vida existentes no lugar sejam respeitados e valorizados socialmente, lhe permitido amplo direito de existirem localmente. No espaço rural de Conquista, estabelecer parcerias com orgãos e instituições não podem se restringir apenas visando o bem estar do turista. As iniciativas de inclusão sócio-cultural dos produtores rurais, e acima de tudo, tendo compromisso com o desenvolvimento local por meio de programas de educação patrimonial e ambiental são fundamentais. O poder público e a sociedade organizada precisam participar do turismo local organizando o espaço para que os saberes e fazeres dos produtores de uva e vinho não se tornem apenas um negócio. O enoturismo é uma possibilidade de criar renda e trabalho para produtores rurais que vivem as pressões do arrendamento vindos do setor sucroenergético. Para que isso ocorra a comunidade terá que contar com vários apoios públicos e da própria sociedade civil organizada. A produção vitivinicultura que os descendentes de italianos desenvolveram precisa ganhar espaço e ser,

possílvemente, enquandrada entre uma das tipologias turísticas. Devemos lembrar ainda que o vinho produzido em Conquista envolve gentes, valores humanos que caracterizam a sociabilidade do homem desta parte do Cerrado mineiro, fundamentais para a autenticidade da atividade turística a ser oferecida.

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VALDUGA, Vander. O processo de desenvolvimento do enoturismo no Vale dos Vinhedos. 2007. Dissertação (Mestrado) – UCS, Caxias do Sul, 2007.

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PROPOSTA DE TURISMO DE BASE LOCAL PARA A APA DO ESTUÁRIO DO RIO MUNDAÚ - CEARÁ

Paula Alves TOMAS Graduanda em Geografia - UFC Jocicléa de Sousa MENDES Mestranda em Geografia – UFC jociclea30@hotmail.com Leilane Oliveira CHAVES Mestranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/UFC leilane_chaves@hotmail.com Adryane GORAYEB Profª Dra. da Universidade Federal do Ceará adryanegorayeb@yahoo.com.br

RESUMO

Nas últimas décadas, o uso e ocupação indevidos da costa cearense vêm comprometendo a sustentabilidade ecológica em alguns setores, o que proporciona mudanças na dinâmica ambiental e no fluxo de matéria e energia, bem como no modo de vida das comunidades tradicionais, apresentando a atividade turística convencional como elemento que contribui para essas transformações. Na tentativa de minimizar os danos causados por essa atividade vê-se como alternativa a implantação de um turismo de base local, valorizando a cultura e as paisagens naturais. A proposta é dada para a APA do Estuário do Rio Mundaú que abrange uma área de 15,9637 Km 2 e localiza-se na divisa dos municípios de Trairi e Itapipoca, na costa oeste do estado do Ceará, a aproximadamente 165 km de Fortaleza. O objetivo é colaborar com o manejo da Unidade de Conservação, através de práticas turísticas sustentáveis, visando melhorar a qualidade de vida, além da preservação do ambiente e dos hábitos tradicionais. PALAVRAS-CHAVE: Turismo de base local; Unidade de Conservação; Qualidade de Vida e Comunidade.

INTRODUÇÃO

As áreas litorâneas do Ceará, região Nordeste do Brasil apresentam grandes belezas cênicas e elevado valor paisagístico, sendo as áreas mais ocupadas em todo o estado do Ceará. São áreas
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dinâmicas e frágeis, mostrando-se altamente vulneráveis as atividades humanas. A planície litorânea cearense tem aproximadamente 570 Km2 de extensão, apresentando diversas unidades de paisagem. Souza (2005) destaca como principais unidades: a faixa de praia, a faixa de pós-praia, o campo de dunas, as planícies lacustres e flúvio-lacustres e as planícies flúvio-marinhas. A atividade turística nos últimos anos vem ganhando destaque no cenário cearense, contribuindo para as transformações no modo de vida das comunidades litorâneas. Dessa forma e atentando para a necessidade de maiores estudos sobre a inserção da atividade turística em comunidades litorâneas, permanece a questão: como a inserção dessa atividade vem influenciando no modo de vida das comunidades tradicionais e como a realização de um planejamento pode colaborar para um melhor usufruto das atividades na comunidade? Diante de tais colocações, os estudos sobre a inserção da atividade turística nas comunidades litorâneas tem sido imprescindível para responder a esses questionamentos, visto que o seu surgimento tem contribuído de forma significativa para as transformações no modo de vida das comunidades pertencentes à APA do Estuário do Rio Mundaú. Em relação às atividades desenvolvidas e suas influências na reorganização do espaço, é justificável que as mesmas ocorram, tendo em vista o desenvolvimento da comunidade nas últimas décadas, porém é necessário que se entenda que essas atividades em algumas localidades tem se tornado um potencial gerador de alterações não só nos ambientes naturais, mas principalmente no cotidiano das comunidades litorâneas. Essas preocupações estão relacionadas, principalmente, com a qualidade de vida das comunidades que vivem no entorno dessas áreas, buscando inserir essas discussões acerca da introdução da atividade turística conscientizá-los da necessidade de um planejamento pensando para além do imediato. Assim, a partir dessa pesquisa pretende-se propor alternativas para um turismo sustentável e de base local, no qual vise uma melhor qualidade de vida, visto que a renda não ficará restrita a um grupo pequeno, além de preservar o ambiente e os hábitos tradicionais, uma vez que se sabe que o turismo de base local é uma atividade voltada para os interesses da população local, priorizando a cultura e a identidade dos núcleos receptores (CORIOLANO; FERNANDES, 2005). A vertente do turismo de base local que se sugere para a APA seria o Turismo Comunitário, por se tratar de um turismo que usa o patrimônio natural e cultural minimizando ao máximo os impactos causados ao ambiente e contribuindo de alguma forma com o desenvolvimento socioeconômico da população local. De acordo com Silva (2007), as unidades de conservação são destinos turísticos que tanto favorecem como também se beneficiam do turismo. Para que se desenvolva o turismo comunitário
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nesses locais é necessária a incorporação da população local no planejamento e na gestão, assim como no beneficiamento dessa atividade econômica.

1 PRÁTICAS TURÍSTICAS EM COMUNIDADES LITORÂNEAS A VALORIZAÇÃO DA ZONA COSTEIRA

A zona costeira cearense vem ao longo dos anos sofrendo com o processo de ocupação nas mais diversas atividades. Shirley Dantas (2003) destaca que “a vertiginosa valorização de certos lugares no litoral parecem, no entanto, ter escapado a todo tipo de orientação e controle, suscitando conflitos de interesse, destruição de paisagens e desequilíbrios ecológicos”. A valorização da zona costeira tem acarretado grandes modificações não só aos recursos naturais, mas também mudanças significativas no modo de vida das populações residentes nessas localidades. Sabe-se que o litoral cearense tem sido ocupado de forma intensa e que a atividade turística tem contribuído para a disseminação dessa forma de ocupação. Nas últimas décadas, uma série de iniciativas governamentais, de entidades empresariais e da mídia despertou atenção sobre as potencialidades turísticas do estado do Ceará. A intensificação da utilização da zona litorânea vem se expressando principalmente pela especulação imobiliária. O que temos observado é que as comunidades litorâneas que antes residiam nessas áreas vêem seus espaços invadidos para a construção de empreendimentos para atender as necessidades dos turistas. O tipo de empreendimento observado ao longo da zona costeira como resorts, segundas residências, hotéis, barracas de praia e o crescente investimento nesse tipo de construção tem ocasionado uma maior valorização desses espaços. A apropriação desse espaço para a construção dessas residências não inclui a população local, mas são direcionados para um pequeno grupo que acabam transformando esse local em propriedade privada, restringindo o acesso de pessoas de fora, que são vistas como invasores. Com o passar dos anos, muitas pessoas foram atraídas a fixar residências, nestas localidades, embora em diferentes esferas. Empresários e empreendedores objetivando obter lucros do turismo, além de pessoas de outros municípios que vêem na atividade turística uma oportunidade de emprego. Essa nova configuração espacial possibilita o surgimento de grupos articulados que lutam para manter o seu modo de vida. Nesse contexto, está inserida a APA do Estuário do Rio Mundaú (Figura 1) que localiza-se nos municípios de Trairi e Itapipoca, aproximadamente a 165 km de Fortaleza. O acesso rodoviário pode ser realizado pelas rodovias estaduais CE- 085 e CE-163 que dão acesso à sede do município de Trairi e as suas praias, ou pela CE-085 e CE-168, fazendo ligação com o município de Itapipoca e a praia da Baleia.
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Localizada nas coordenadas geográficas de 03º10’32’’ e 03º13’04’’ de Latitude Sul e 39º22’53’’ e 39º25’55’’ de Longitude Oeste, a APA abrange uma área de 15,9637 Km 2, compreendendo a desembocadura do rio Mundaú (Figura 1). A APA não tem marco físico como limite, inserida quase que totalmente dentro da Área de Preservação Permanente (APP) do rio Mundaú (LIMA, 2008).

Figura 1 – Localização da APA do Estuário do Rio Mundaú, Ceará, Brasil.

No entorno da APA existem doze comunidades tradicionais que sobrevivem diretamente da utilização dos recursos naturais da área, podendo ser pesca artesanal, artesanato, agricultura ou turismo: Mundaú, Estiva, Lavaginha, Córrego dos Pires, Tigipió, Palmeira, Lavagem Grande, Cajueiro Ferrado, Panã, Canaã, Alagadiço e Jandaíra.

TURISMO EM COMUNIDADES LITORÂNEAS: DESAFIOS E POSSIBILIDADES

A partir da década de 1980, a atividade turística ganha destaque no litoral cearense onde recebeu grandes incentivos tanto privados como de políticas públicas, esta última dando maior visibilidade com o surgimento do Programa de Desenvolvimento do Turismo (PRODETUR), implantado em dezembro de 1994. “O Programa tinha como finalidade promover o desenvolvimento socioeconômico da região Nordeste, através da dinamização da atividade turística” (Pedroza; Freire, 2005). Apesar dessa finalidade, o que observamos é a ausência de planejamento por parte do poder público, e até a omissão na mediação e intervenção dos conflitos existentes.
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Apesar da dualidade existente na dimensão da atividade turística, o que observamos, de fato, é que quando realizado sem planejamento e envolvimento comunitário, esta acaba acarretando profundas transformações no modo de vida das comunidades receptoras. Muitos moradores deixam de exercer suas atividades habituais para se dedicarem exclusivamente aos trabalhos ligados ao turismo, ficando sujeitos à sazonalidade e a dependência excessiva dos visitantes. Como exemplo, podemos citar os períodos de baixa estação, onde há uma queda da demanda turística, provocando uma retração tanto da atividade turística como das atividades que a ela estão ligadas e, consequentemente, um aumento do desemprego. Além dessa dependência financeira, os moradores, dependendo da área onde residem, são realocados para áreas mais distantes da comunidade, com o objetivo de manter o turista literalmente à beira mar. Por isso, é vital o envolvimento da comunidade na implementação e monitoramento da atividade turística. Talvez esse seja o principal diferencial, do turismo de base local ou mais precisamente o ecoturismo, o envolvimento da população local nas tomadas de decisões. A atividade turística deve ser compreendida como um complemento e não como atividade principal e como salienta Coriolano; Fernandes (2002) “nunca deve substituir nenhuma atividade econômica tradicional, pois o turismo se sustenta nessas atividades”. Na verdade, o que observamos no litoral cearense, onde o turismo de massa se alocou, foi uma descaracterização quase que completa das atividades locais, sejam elas culturais, econômicas, paisagísticas ou sociais. Apesar dessas transformações, há locais que tentam resistir ao grande capital e preservar a sua cultura, em detrimento dos empreendimentos que cada dia mais se instalam nos litorais cearenses. Resistir ao grande empreendimento significa não só garantir a posse da terra, mas preservar a cultura local e os recursos naturais.

ESTRATÉGIAS DE IMPLANTAÇÃO DE PRÁTICAS TURÍSTICAS EM COMUNIDADES LITORÂNEAS

O turismo é uma atividade que vem se desenvolvendo no município, recebendo apoio do âmbito federal, atuando nos municípios realizando algumas melhorias na infraestrutura de estradas e iluminação. O município de Trairi é composto por, aproximadamente 40 km de praia, sendo elas: Guajiru, Flecheiras, Emboaca e Mundaú. Além das praias, destacam-se duas lagoas interdunares: a Criancó e Almécegas. Itapipoca apresenta 25 km de praia, sendo a Praia da Baleia o principal atrativo turístico, além do monólito da pedra ferrada e outros atrativos encontrados na serra de Arapari.
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É importante destacar a resistência das comunidades litorâneas dos municípios à lógica turística, guardando traços de comunidades tradicionais. Apesar de toda essa transformação nas comunidades e no mundo ainda existem grupos organizados que resistem a essa atividade turística e a esse sistema que impõe sua cultura de massa. Dentro de uma lógica cultural cada vez mais dominante e massificada têm-se, como coloca Santos (2000), culturas que tentam resistir à dominação globalizada da cultura que muitos chamam de cultura do capital ou cultura ocidental. Dessa forma, trava-se uma luta desigual que permeia o cotidiano de comunidades tradicionais que tentam preservar suas tradições, muitas vezes como única fonte de legitimação de identidade. Dentro dessa lógica, se enquadram as comunidades litorâneas e alguns pontos de resistências são notados como algumas casas de pescadores na faixa de praia, contrastando na paisagem entre barracas de praia, pousadas de luxo e casas de veraneio. Nas comunidades pertencentes à APA do estuário do rio Mundaú, observa-se um turismo no qual as comunidades são excluídas do processo, não desconsiderando o fato da atividade gerar emprego e renda para as localidades. Entretanto, o que se vê é um turismo que beneficia poucos, além do fato da falta de infraestrutura na comunidade de Mundaú, principal localidade que recebe turistas na APA. O fato da área ser uma APA devia supor um planejamento da atividade turística desenvolvida, na qual pudesse ter um envolvimento com a comunidade, respeitando as tradições culturais, além da preservação ambiental. Dessa forma, deve-se ter um conhecimento das potencialidades e limitações da área para, assim, se chegar a uma proposta adequada. As potencialidades naturais justificam a beleza cênica do local, composta por praias, campo de dunas, lagoas, rio e estuário. Na praia de Mundaú é possível observar a presença de um banco de arenito, fator positivo para o local, já que é um atrativo a mais, com a formação de piscinas naturais de águas transparentes, além de sua importância para a pesca. As dunas apresentam uma beleza singular, com presença de lagoas, que podem ser contempladas pelos turistas, além de dunas diferenciadas representadas pelos eliolitos. Da duna do por do sol se pode ter uma visão panorâmica do campo de dunas, da foz do rio Mundaú, do manguezal, bem como da serra de Uruburetama. A praia é aproveitada pelos turistas e pela população local, através dos banhos de mar, na prática de caminhadas, passeios de buggys, bem como utilizada pelos pescadores para ancoragem de jangadas. O estuário do rio Mundaú é a feição natural mais relevante da área, destacando sua função social e ecológica. A área é utilizada como fonte de alimentação, lazer e renda para muitos moradores e empreendedores do local. Na área ocorrem passeios ecológicos de catamarã, ofertados
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por duas pousadas. No passeio é possível conhecer parte do ecossistema manguezal e campo de dunas. A preservação desse ambiente é de suma importância para garantir uma melhor qualidade ambiental e econômica na área. São diversos os atrativos naturais da área, entretanto a cultura é algo que deve ser destacada, apresentando no artesanato o maior elemento, passado através das gerações. O artesanato é rico e com uma representatividade para o município, assim como para o estado. Encontram-se peças esculpidas em madeira, com aplicação de conchas, tecidos e renda de birro (Figura 02). A renda de birro é o produto de maior importância, sendo referência em todo o país. O artefato é confeccionado em todas as comunidades da APA do estuário do rio Mundaú, por mulheres e crianças, sendo comercializado localmente e escoado para outros polos de venda. Canaã e Mundaú são as comunidades de maior destaque econômico, com uma melhor infraestrutura de transporte e comunicação, dessa forma recebem a mercadoria das comunidades vizinhas e escoam para os intermediários. Além do artesanato a culinária é evidência. As casas de farinha (Figura 03) ainda são utilizadas nas localidades da APA, sendo fonte de renda para algumas famílias, assim como potencialidade turística.

Figura 02: Rendeira em Mundaú

Figura 03: Casa de farinha em Tigipió

Apresentaram-se diversos fatores favoráveis ao desenvolvimento da atividade turística na APA do Estuário do Rio Mundaú, entretanto sabe-se que o turismo desenvolvido é uma atividade excludente. Assim, propõe-se para a área um turismo de base local, no qual venham ser desenvolvidas atividades inclusivas e de preservação cultural e ambiental. A hospedagem poderia ser realizada nas casas dos pescadores, podendo ser construídos quartos ao lado das casas, tomando como exemplo as comunidades que já desenvolvem essa prática turística, como Ponta Grossa, em Icapuí, litoral leste do Ceará. Os pescadores podem oferecer, além da hospedagem, a alimentação caseira e típica da localidade.
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Tratando-se de uma APA, para ter uma melhor gestão e controle dos usos, faz-se necessário a divulgação da existência da UC no local, sendo a sinalização uma prática eficaz, já que a implantação de placas sinalizadoras viria a informar a comunidade e aos turistas de sua existência. Além das placas informativas, a área deve possuir lixeiras e contêineres para facilitar a disposição dos resíduos sólidos e inibir a deposição de lixo em lugares inadequados. A construção de um centro de visitantes traria mais conforto e informação aos visitantes. No local, sugere-se uma placa com o histórico da UC, incluindo fotos, mapas com sua delimitação, cartazes com instruções de usos adequados, ficha de visitantes e espaço de agendamento para a execução das trilhas. Assim, a visitação controlada gera um ordenamento e o monitoramento inibe usos inadequados. O local pode servir de base para os gestores da APA, assim como uma área de práticas ambientais, na qual propicie à comunidade informações e capacitação a cerca de assuntos ambientais e formas de uso sustentável. Podem ser planejadas trilhas na praia, no ecossistema manguezal e no campo de dunas. No manguezal, podem-se enfocar as espécies da fauna e da flora e a dinâmica natural do ecossistema. No campo de dunas, pode-se dar destaque ao valor paisagístico da área. Já na praia pode ser relatado o conflito entre a pesca, o cultivo das algas e o turismo de esporte, tendo o banho de mar como atrativo. Juntamente com a criação de trilhas, vê-se a importância da capacitação de agentes e guias ambientais da própria comunidade. Esses agentes podem atuar em conjunto com os fiscais, colaborando com o monitoramento das ações e na gestão local. A inclusão de visitas às casas de farinha encontradas na região seria interessante e atraente, além da valorização da cultura, seria conhecimento para muitas pessoas que desconhecem os saberes tradicionais. Essas práticas que estão relacionadas ao turismo comunitário, além de incentivar a preservação e conservação da paisagem, também valorizam e fortalecem as atividades tradicionais, fazendo circular a economia local e, mais que isso, possibilitando uma aprendizagem que envolve o visitante e a comunidade.

CONCLUSÃO

A partir do estudo, compreendemos as dificuldades que essas comunidades enfrentam para poder manter o seu modo de vida tradicional, que inclui conservar a prática de pesca artesanal, realizar pequenos plantios, criar animais de pequeno porte e, principalmente, conviver com problemas que vem juntamente com a prática do turismo de massa.
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Viu-se que a inclusão de um turismo de base local viria a ser uma opção adequada à área, já que a mesma trata-se de uma comunidade tradicional e uma APA. Com inserção desse turismo, a comunidade seria incluída no processo econômico, além de estar resgatando e cultivando seu modo de vida. Sabe-se que a implantação de um turismo alternativo com princípios sustentáveis não é simples, tendo que ter uma comunidade organizada e apoio do poder público, para assim se chegar a um modelo mais harmônico, no qual envolva o social, o econômico e o ambiental.

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A UTOPIA DO DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO SUSTENTÁVEL: UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL ATRAVÉS DO TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA

Plínio Guimarães de SOUSA Professor Mestre do Instituo Federal de Ciência, Educação e Tecnologia de Pernambuco plinio@barreiros.ifpe.edu.br

RESUMO

Este artigo analisa o desenvolvimento turístico sustentável sob a ótica de uma utopia, apresentando o turismo de base comunitária como uma verdadeira alternativa sustentável para o desenvolvimento da atividade turística. Faz-se uma breve leitura da evolução do conceito de desenvolvimento sustentável, a partir do movimento ambientalista da década de 60, que culminou com a Conferência de Estocolmo e outros eventos importantes relacionado as discussões globais provocadas pela crise ambiental, bem como o tradicional conceito resultante do Relatório de Brundtland, intitulado “Nosso Futuro Comum”, que consagra a clássica definição “Desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem suas próprias necessidades”. O artigo também se propõe a demonstrar a impossibilidade do desenvolvimento turístico sustentável de ser alcançado, pela impossibilidade de se livrar das amarras que o prende à lógica capitalista, e por ser forjado a partir da “adaptação” do capitalismo às novas realidades que constantemente se apresentam, sendo insuficiente para dar cabo dos graves problemas socioambientais que ameaçam a qualidade de vida das comunidades tradicionais, fortemente impactadas pela a atividade. Para isso, fez-se uma revisão bibliográfica em livros e estudos científicos que tratam de turismo sustentável, turismo de base comunitária, participação social, impactos sociais e ambientais do turismo, entre outros assuntos correlatos. Faz-se um contraponto com um modelo de desenvolvimento da atividade turística baseado na lógica do desenvolvimento de base local, o turismo de base comunitária, ressaltando suas caraterísticas de economia solidária, participação social, empoderamento e formação do capital social, e que põe fim ao nativos mudos, dando voz a comunidade. A análise procurou demonstrar a importância de um processo de educação diferente, da participação social e envolvimento da comunidade, bem como de seu empoderamento, bases do turismo comunitário, no planejamento da atividade turística, consequentemente, como elementos básicos e fundamentais para a garantia da sustentabilidade em comunidades tradicionais, principalmente da zona costeira do Nordeste Brasileiro, ressaltando os impactos socioambientais negativos que a ausência destes elementos pode provocar. Desta forma, conclui-se que a única alternativa da atividade turística se desenvolver de forma sustentável é
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através de modelos de desenvolvimento de base local, como o turismo comunitário, que vão além da lógica capitalista dominante, sendo baseados na educação, participação e envolvimento da comunidade, que ao mesmo tempo em que a empoderam, possibilitam a formação do capital social, em um ciclo virtuoso que, ao contrário do capital econômico, não se acaba, pondo fim aos “nativos mudos” de Krippendorf (2000), formando-se, então, uma rede de solidariedade e comportamento recíproco, onde os valores sociais e culturais são partilhados. PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento Turístico Sustentável; Turismo de Base Comunitária; Participação Social; Planejamento Turístico e Sustentabilidade.

INTRODUÇÃO

Esse artigo se propõe a apresentar o turismo de base comunitária, ou de base local, como uma alternativa ao utópico desenvolvimento turístico sustentável. No artigo nos propomos a demonstrar que o desenvolvimento turístico sustentável é utópico e impossível de ser alcançado, por não ser capaz de se livrar das amarras que o prende à lógica capitalista de crescimento ilimitado em um mundo limitado em seu espaço e recursos naturais. O conceito de desenvolvimento turístico sustentável, forjado a partir da “adaptação” do capitalismo às novas realidades que constantemente se apresentam, é insuficiente para dar cabo dos graves problemas socioambientais que ameaçam a qualidade de vida das comunidades tradicionais, fortemente impactadas pela a atividade. É impossível se obter avanços concretos nas questões de ordem social e do esgotamento dos recursos naturais, estancando e revertendo a grave crise socioambiental pela qual passamos sem que haja envolvimento de fato de todos os atores desta crise, não só os governantes, as ONG’s, os empresários, mas todos aqueles que de uma forma ou de outra contribuem com os problemas e sofrem com suas consequências, incluindo-se ai os atores sociais que formam as comunidades tradicionais. As relações entre o desenvolvimento da atividade turística e as comunidades tradicionais são conflituosas, tendo em vista, principalmente, a segregação sócioespacial provocada pelo turismo, própria da ordem de mercado e expressa na “distribuição espacial das classes pelo mercado imobiliário/fundiário onde mecanismos institucionais aparecem subordinados a lógica de mercado” (LAGO apud SILVA, 2008, p. 58). Como ser sustentável quando a lógica dominante é a do mercado, onde os mais desfavorecidos devem se sujeitar a perversa ordem econômica mundial?

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1 DESENVOLVIMENTO

O conceito de desenvolvimento turístico sustentável nasce dos resultados de um processo iniciado na década de 60, pelo movimento ambientalista, quando o conceito de desenvolvimento voltou a ser questionado, em virtude da crise ambiental que começava a preocupar o mundo naquela época, porém em novo contexto, diferentemente do que se discutia até então, quando o conceito estava concentrado apenas no fator econômico de desenvolvimento e subdesenvolvimento. O ponto culminante desse movimento ambientalista ocorreu com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972. Como resultado da Conferência, principalmente pelo envolvimento da ONU, via PNUMA e de outras organizações, surgem propostas que combinavam desenvolvimento econômico e defesa do meio ambiente. utópica integração da riqueza material, indispensável a lógica

Buscava-se, portanto, uma

capitalista, com os recursos oferecidos pela natureza. A discussões da Conferência de Estocolmo resultaram, segundo Castro (1996) em dois novos conceitos:

O primeiro conceito a surgir foi o de ecodesenvolvimento, defendido por Ignácio Sachs que faz uma dura crítica dos modelos comerciais e, também, da idéia de crescimento zero defendida pelo Clube de Roma. A partir da denúncia dos desvios e equívocos desses pontos de vista, o desenvolvimento é mantido como objetivo, aspiração e mesmo como um direito de todas as sociedades do planeta. Assim, advoga-se uma concepção de desenvolvimento em que este deve atender ao objetivo de eficácias econômicas, representadas pelo aumento de riqueza, simultaneamente com os requisitos de ordem ecológica, social, cultural e espacial (…) Um segundo conceito contraposto ao primeiro começa a tomar corpo no encerramento da reunião de Cocoyoc no México em 1974. Contestando a teoria do ecodesenvolvimento, a assembléia de Cocoyoc, em seu encerramento, declara que “os enormes contrastes no consumo per capita entre minoria rica e a minoria pobre têm um efeito muito maior do que seus números relativos sobre o uso e esgotamento dos recursos” (apud McCORMICK, 1991, p.153).

Nasce, portanto, o conceito de desenvolvimento sustentável como resultado destes dois novos conceitos, fortalecido, principalmente por duas razões:

A primeira é que, por ser uma expressão mais neutra axiologicamente, pode ser incorporada tanto em propostas liberais como de esquerda. A segunda é que, por exprimir uma economia maior com o funcionamento dos ecossistemas naturais, tornou-se atrativa para os ambientalistas (CASTO, 1996).

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Em 1987, com o Relatório de Brundtland, intitulado “Nosso Futuro Comum”, a expressão desenvolvimento sustentável se consagra com sua clássica definição “Desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem suas próprias necessidades” (BRUNDTLAND, 1991, p.46). Desta forma, o conceito aplicado ao turismo de desenvolvimento sustentável pode ser entendido como o processo de desenvolvimento do tripé da atividade turística (agenciamento, transportes e meios de hospedagem), garantindo às gerações futuras o atendimento de suas próprias necessidades. Isso é possível? Como garantir para as gerações futuras das comunidades tradicionais, como por exemplo da zona costeira nordestina (espaço altamente cobiçado e instrumento de perpetuação do processo de acumulação de capital a serviço de grandes incorporadores imobiliários, investidores nacionais e estrangeiros, ou grupos empresariais turísticos e hoteleiros) o atendimento de suas necessidades sem expulsá-las dos espaços ocupados por elas e seus antepassados durante séculos? No Brasil, a atividade turística tem sido constantemente utilizada como a grande “salvadora da pátria” dessas comunidades. Na região Nordeste, em especial, alardeada aos quatro cantos como a “Cancún Brasileira”, a força da atividade turística como instrumento de desenvolvimento torna-se ainda maior, principalmente pelos baixos indicadores sociais, pelo extraordinário potencial natural, localização geográfica, clima, e até pela natural hospitalidade, tão característica dos habitantes desta região. Segundo Cruz (2000, p. 152), porém, esta “apologia ao turismo como possível vetor de desenvolvimento econômico regional tem levado localidades litorâneas do Nordeste a optar por investimentos no setor em detrimento de outras eventuais alternativas econômicas, que incluem os setores primário (principalmente a agricultura) e secundário”. Ela completa, dizendo:
[...] desenvolvimento turístico não é – como não poderia ser - sinônimo de desenvolvimento econômico-social. Nenhuma atividade econômica setorial pode garantir esse

desenvolvimento, já que no imenso jogo de relações que comanda esse processo, cada uma dessas atividades representa apenas uma parte. [...] O modelo de desenvolvimento que se tem levado a cabo no Brasil, ao qual se `sujeita também o turismo, é concentrador de renda, excludente e perpetuador de desigualdades socioespaciais, e o turismo, inserido nesse modelo, reproduz, tal como qualquer outra atividade econômica, contradições do sistema (CRUZ, 2000, p. 153).

Desta maneira, o espaço litorâneo nordestino torna-se extremamente atrativo para atividade turística. Para Cardoso (2009, p. 04) “a atração por esta faixa, relativamente exígua, apesar da extensão do litoral brasileiro, promove uma pressão para ocupação (...) e consequentemente um processo de valorização das terras litorâneas”, tornando-se, desta forma, um espaço de profundas
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transformações socioambientais e conflitos. Com o aumento da procura pelo lazer de sol e mar, as terras litorâneas se valorizam e as comunidades autóctones passam a sofrer forte pressão por conta da especulação imobiliária, com um fator agravante, a implantação em todo litoral brasileiro de um mercado de terras com ações de reivindicação de propriedade (MORAES, 2007), muitas de forma criminosa. Em várias comunidades costeiras, quando não foram ludibriados em manobras escandalosas, muitos nativos venderam suas terras para pessoas de fora da comunidade, em alguns casos para incorporadores imobiliários ou diretamente para grupos estrangeiros, para empreendimentos turísticos imobiliários, tornando-se, com frequência, caseiros, domésticas, marinheiros, para os novos ocupantes do espaço que antes era seu (CARDOSO, 2009). O espaço de permanência dos autóctones (pescadores e agricultores) é modificado para receber um público especifico que busca lazer e descanso, tornando-os extremamente vulneráveis a agressividade da atividade turística tradicional, como se observa na citação a seguir:

Uma grande dependência do uso dos recursos naturais renováveis, [...] pelo conhecimento aprofundado dos ciclos naturais que se refletia na elaboração de um sistema de manejo de recursos naturais carregados de conhecimento e tecnologias patrimoniais; pelo pertencer e apropriar-se de um território onde os grupos sociais se reproduzem econômica, social e simbolicamente; por pertencer e ocupar esse território por várias gerações, ainda que membros individuais possam ter-se deslocado para centros urbanos de onde podem voltar para terras de seus antepassados; pela importância das atividades de subsistência, ainda que a produção de mercadoria, mais ou menos desenvolvida indique vinculação ao mercado local e regional; pela reduzida acumulação de capital; pela importância dada à vida domestica ou comunal e as relações de parentesco e compadrio para o exercício das atividades econômicas, sociais e culturais; pela importância atribuída às simbologias, mitos rituais, associados a caça e a pesca; pela reduzida divisão técnica e social do trabalho ; pelo fraco poder político, em mãos de classes urbanas, em geral associadas à comercialização da produção local; pela identidade cultural do grupo.(DIEGUES, 2001, p. 175)

A atividade turística para se expandir consome e transforma diretamente o espaço (ASSIS, 2001). Essa necessidade de expansão resulta em um processo de segregação social e espacial próprio do capitalismo, onde, conforme Santos (1998, p. 17), o território se organiza e se reorganiza muitas vezes e de formas diversas para atender aos reclamos da produção da qual é arcabouço, onde crises surgem ciclicamente como forma de manter esse perverso sistema de retroalimentação. Segundo Harvey (2001, p. 133), essas crises são “inevitáveis (...), independentemente das medidas adotadas para mitigá-las”. Para esse autor, por não haver outras forças competitivas, essas crises possuem uma função importante dentro da lógica capitalista:

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Elas impõem algum tipo de ordem e racionalidade no desenvolvimento econômico (...) algum tipo de racionalização arbitrária (...) Essa racionalização apresenta um custo social e provoca trágicas consequências humanas na forma de falências, colapsos financeiros, desvalorização forçada de ativos fixos e poupanças pessoais, inflação, concentração crescente de poder econômico e político em poucas mãos, queda dos salários reais e desemprego. (HARVEY, 2001, p. 47).

Cada nova crise pode ser entendida como um novo degrau no processo de acumulação, motor cuja potência cresce no modo de produção capitalista. Em determinado momento o capitalismo “constrói uma paisagem física apropriada à sua própria condição, apenas para que destruí-la, geralmente gerando uma crise, em um momento subsequente” (HARVEY, 2001, p. 54). Segundo Santos (1988, p. 6) “o que estamos vivendo agora foi longamente preparado (...) através de séculos de expansão capitalista para finalmente ganhar corpo no momento em que uma nova revolução cientifica e técnica se impõe e em que as formas de vida do planeta sofrem uma repentina transformação”. Portanto, compreendendo-se que o desenvolvimento sustentável, embora surgido por conta da preocupação da sociedade moderna com a grave crise socioambiental que a humanidade vive, seja fruto de uma bem arquitetada estratégia do capital na busca incessante por mais acumulação, torna-se insuficiente para garantir às gerações futuras a satisfação de sua necessidades. Quais seriam estas necessidades? São as mesmas em todos os estratos sociais? Diante de tais questionamentos, encontramos na lógica do turismo de base comunitária a verdadeira alternativa para garantia às gerações futuras da satisfação de suas necessidades. O turismo de base comunitária pode ser conceituado como:

Aquele desenvolvido pelos próprios moradores de um lugar que passam a ser os articuladores e os construtores da cadeia produtiva, onde a renda e o lucro ficam na comunidade e contribuem para melhoria da qualidade de vida; levar todos a se sentirem capazes de contribuir, e organizar as estratégias do desenvolvimento do turismo” (CORIOLANO, 2002).

Uma das principais características do modelo de turismo base local, é que a atividade turística nunca suplantará as atividades produtivas tradicionais da comunidade. A lógica econômica em que o turismo de base comunitária se insere é solidária, onde todos da comunidade devem participar. O turismo surge como um complemento às demais atividades econômicas da comunidade, nunca como atividade principal. É ai onde se encontra o grande diferencial desse modelo e que o torna verdadeiramente sustentável. Na atividade turística tradicional, a dimensão econômica da sustentabilidade é privilegiada e é o mercado que se encarrega de promover o equilíbrio, enquanto que a dimensão social da sustentabilidade é buscada apenas comum uma ponte
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para a dimensão ecológica (FOLADORI, 2005). O turismo de base comunitária é planejado contemplando um equilíbrio entre as dimensões da sustentabilidade, pressupondo uma ação prática transformadora e não mantenedora da situação da realidade social. No desenvolvimento da atividade turística de base comunitária essa ação transformadora ocorre com a participação organizada da comunidade, aliada a um processo de educação para a libertação, “onde educar é um ato de conhecimento e um método de ação transformadora que os seres humanos devem exercer sobre a realidade” (FREIRE, 1981, p 73). Esse processo de planejamento a partir da lógica de um modelo de desenvolvimento local, característico do turismo de base comunitária, possibilita que a comunidade torne-se o instrumento e não o alvo da intervenção, livre das amarras da “educação domesticadora, onde educar é um ato apenas de transferência de conhecimento” (FREIRE, 1981, p 73). No turismo de base comunitária, a conscientização da população torna-se fundamental no desenvolvimento da atividade turística, ocorrendo na medida em que o individuo assume sua condição de cidadão, e passa a decidir sobre os rumos de sua vida, de maneira autônoma e reflexiva. O problema do insucesso em muitos destinos com extraordinário potencial turístico é que “o processo de planejamento do turismo nas comunidades tendem a ser simplista, ou em alguns casos, inexistente. Com frequência as destinações turísticas são criadas por um empreendedor, empresa privada ou governo nacional, e todo o planejamento parte dessa perspectiva” (Beni 2006, p. 137). A força do turismo comunitário está exatamente na percepção crítica das injustiças sociais pelos “sem poder”, que à medida que se conscientizam tomam posse do poder. Como se fora um sistema que se retroalimenta, a comunidade, de posse do poder, vai se “apossando” de mais educação, participação, envolvimento, vai se “empoderando” e se “apossando”, em um ciclo virtuoso. No turismo de base comunitária, diferentemente do turismo tradicional, a partir desse ciclo virtuoso, surge então, a ideia de capital social, que, segundo Kliksberg (apud MENDONÇA, 2004, p. 180), é composto pelos valores partilhados, cultura, tradições, saber acumulado, redes de solidariedade, expectativas de comportamento recíproco. O capital social, diferentemente do capital econômico, não se acaba, dá dignidade e cidadania à comunidade e põe fim aos “nativos mudos”.

CONCLUSÃO

Conclui-se, portanto, que o desenvolvimento sustentável da atividade turística é impossível de ser alcançado a partir da lógica hegemônica capitalista, tendo em vista ser esse modelo de desenvolvimento resultante de uma bem arquitetada estratégia do capital na busca incessante por mais acumulação. Não há possibilidade de se garantir às gerações futuras a satisfação de suas necessidades através de um modelo baseado em crescimento ilimitado, baseado em uma perspectiva
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equivocada e uma visão simplista das questões socioambientais, e que não reconhece que o problema da sociedade humana não é de relações com as demais espécies e sim consigo mesma, entre classes e grupos. São as relações sociais que determinam o tipo de relação técnica que se estabelece e, com isso, a maneira como o ser humano se relaciona com seu entorno. Fica evidente que as implicações das relações capitalistas sobre o trabalho geram pobreza, segregação socioespacial, perda de diversidade cultural, dentre outros impactos socioambientais, ou sejam são relações que não condizem com desenvolvimento sustentável. Conclui-se também que a única possibilidade de tornar prático o conceito de desenvolvimento turístico sustentável, ou seja, de vê-lo aplicado e promovendo resultados que, além de promover desenvolvimento econômico, possam reduzir as desigualdades sociais e, consequentemente, melhoria da qualidade de vida das comunidades tradicionais onde a atividade turística se desenvolve, é através de modelos de desenvolvimento de base local, que contemple a realidade e os anseios da comunidade receptora da atividade turística, levando-se em consideração, não apenas a geração de emprego e renda, mas também as questões de ordem social, cultural e ambiental desta comunidade, envolvendo-a desde o planejamento da atividade turística, até a sua execução, com o cuidado de não torná-la hegemônica. É importante que novos estudos sejam desenvolvidos questionando o modelo hegemônico da atividade turística, contribuindo com a quebra de paradigmas e mudança da lógica apenas “desenvolvimentista” do turismo, e que estes estudos se aprofundem na análise dos impactos e benefícios que outros modelos de turismo, como o de base comunitária proporcionam às comunidades autóctones, possibilitando desta forma, alternativas que vão além da lógica capitalista dominante, sendo baseados na educação, participação e envolvimento da comunidade, que ao mesmo tempo em que a empoderam, possibilitam a formação do capital social, em um ciclo virtuoso que, ao contrário do capital econômico, não se acaba, pondo fim aos “nativos mudos” de Krippendorf (2000), formando-se, então, uma rede de solidariedade e comportamento recíproco, onde os valores sociais e culturais são partilhados.

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insulares: um estudo sobre o litoral sul da Ilha de Itamaracá. 2001. 177 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Centro de Filosofia e ciências Humanas. Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2001. BENI, Mário Carlos. Política e Planejamento de Turismo no Brasil. São Paulo: Aleph, 2006.
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CARDOSO, Eduardo Schiavone. Comunidades costeiras frente à expansão do turismo. In: SEMINÁRIO DIÁLOGOS DO TURISMO, 2005, Brasília. Anais…Brasília: IBAM /Ministério do Turismo, 2009. CASTRO, Manuel Cabral de. Desenvolvimento sustentável: a genealogia de um novo paradigma. In: Revista Economia & empresa. São Paulo, v. 3, n.3, julho/setembro de 1996. CORIOLANO; Luzia N. M. Do local ao global: O turismo litorâneo cearense. São Paulo: Papirus, 2002. CRUZ, Rita de Cássia. Política de Turismo e Território. São Paulo: Contexto, 2000. DIEGUES, Antonio Carlos. Ecologia humana e planejamento costeiro. São Paulo: NUPAUB / USP, 2001. FOLADORI, Guillermo. Por una sustentabilidad alternativa. Uruguai: Editora Colección Cabichui, 2005. In: Revista Eletrônica de Gestão Organizacional, v. 4, n. 1, jan./abr. 2006. Disponível em: <www.gestaoorg.dca.ufpe.br> Acesso em: 14 jan. 2010. FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. 5 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2001. KRIPPENDORF, Jost. Sociologia do turismo: para uma nova compreensão do lazer e das viagens. Trad. Contexto Traduções. São Paulo: Aleph, 2000. MARCELINO, Ana Maria T. O turismo e sua influência na ocupação do espaço litorâneo. In: RODRIGUES, Adyr A. B. (Org.). Turismo e geografia: reflexões teóricas e enfoques regionais. 3.ed. São Paulo: Hucitec, 2001. MENDONÇA, Teresa Cristina de Miranda. Turismo e participação comunitária: Prainha do Canto Verde a “Canoa” que não quebrou e a “Fonte” que não Secou? 2004. 209 f. Dissertação (Mestrado em Psicossociologia de Comunidade e Ecologia Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2004. MORAES, Antonio Carlos Robert. Contribuições para a gestão da zona costeira do Brasil: elementos para uma geografia do litoral brasileiro. São Paulo: Annablume, 2007. RELATÓRIO BRUNDTLAND. Nosso futuro comum. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getulio Vargas, 2ª ed., 1991. SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado: fundamentos teóricos e metodológicos da geografia. São Paulo: Hucitec, 1988.
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SILVA, Alzení Gomes da. O turismo e as transformações socioespaciais na comunidade de Nossa Senhora da Penha em João Pessoa – PB. 2006. 118 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal da Paraíba, CCEN. 2008.

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TURISMO COMUNITÁRIO, CONSERVAÇÃO DA FLORESTA E A BUSCA POR MELHORES CONDIÇÕES

Rachel Dourado da SILVA Vanessa Tonelli da SILVA Vera Lúcia da Silva SANTOS

RESUMO

O artigo tem como objeto de investigação as atividades agroflorestais em comunidades organizadas, que buscam no turismo comunitário oportunidades de ampliação de ganhos para melhoria das condições de vida local. É extensa a produção acadêmica sobre a conservação ambiental e a sobrevivência do homem, da floresta, este é foco de pesquisa por viver equilibrando o seu fazer com a manutenção dos recursos florestais. O segmento do turismo que ganha espaço no campo ambiental é o de base comunitária, turismo comunitário, que para as comunidades produtoras é nada mais que mostrar as alternativas de extração dos recursos naturais através do manejo florestal, o seu fazer cotidiano nas atividades já desenvolvidas. PALAVRAS-CHAVE: Manejo florestal; Conservação ambiental; Turismo Comunitário.

INTRODUÇÃO

As populações que vivem nas florestas da Amazônia em diversos períodos organizam-se para minimizar as dificuldades de sobrevivência, e assim que comunitariamente executam o plantar, extrair, colher, escoar e em especial o permanecer na terra que é ao mesmo tempo rica e cheia de dificuldades. Na cidade de Nova Califórnia – RO a 151 km da capital do Acre, Rio Branco, há 23 anos produtores perceberam que a plantação de arroz não era promissora e criam a Associação de Reflorestamento Econômico Consorciado Adensado, pelo Projeto RECA. No inicio, explica a técnica do projeto, “os produtores juntaram muitas sementes em mercados de Rio Branco, pois o foco desses produtores era chegar à produção regional de cupuaçu, pupunha, açaí, entre outros frutos locais. O projeto agrega mais de 300 associados, e a atividade central é o plantio de pupunha para extração de palmito e cupuaçu, de onde tiram o óleo. Toda essa atividade é produzida pelos sócios e as ações continuada são diversas de forma que beneficia as famílias associadas seja com trabalho ou assistência à saúde. Cuidam da piscicultura, as mulheres produzem uma diversidade de doces, licores, óleos naturais, farinha de castanha do Brasil, farinha de pupunha que são alocados na loja de produtos RECA. Ao visitar uma das propriedades mais
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próximas do local de beneficiamento encontra-se produtores associados colhendo cupuaçu, cuidando de atividades diversas no entorno da casa, tais como cultivo de hortaliças, ervas medicinais, além do cultivo maior na área que é cupuaçu, pupunha, abacaxi, laranja, araçá, copaíba, sangue de dragão entre outros. Segundo informações coletadas junto a gestão, “o Projeto conta com mais de 1.500 ha de sistemas agroflorestais – SAFs - implantados. São vários tipos e esquemas de plantios, com pouquíssimas áreas de monocultura. Mais de 95% de áreas são de SAFs. Várias espécies foram introduzidas pela RECA tais como: cupuaçu, castanha do Brasil, pupunheira para frutos, pupunheira para sementes certificadas, acerola, araçá-boi, patoá, abacaba, seringa, copaíba, andiroba, teca, cedro, mogno, Cumarú, Rambotã, abiu, cerejeira, açaí de touceira, açaí solteiro, ipê e amarelão.” O Projeto Reca, bem como o Projeto de Assentamento Porto Dias – Acrelândia-Acre, recebem constantemente pesquisadores de diversas áreas do conhecimento na busca de vivenciar experiências, acompanhar os fazeres e saberes do povo da Amazônia, o modo de produzir e conhecer as alternativas para a vivência em meio à tão rica biodiversidade Amazônica. O movimento constante de pessoas visitando as áreas de uso comunitário mostra o crescimento da atividade turística dos povos da floresta da Amazônia, o desenvolvimento de um turismo alternativo ou comunitário, impulsionado pela estrutura de cooperação entre famílias produtora. Consolida o eixo do turismo de base local, ou o seringueiro, componente da floresta, que pratica a ecologia. Oportunizar e construir com as comunidades organizadas o turismo que deixe ganhos, sendo um passo “fácil” já que recebem visitantes sem gerar receita, pois acontece tudo de modo informal.

1 O TURISMO NA FLORESTA

O turismo em áreas de floresta cresce cada vez mais nos últimos tempos com o aumento de pessoas à procura de áreas verdes e locais tranquilos para momentos de descanso, recreação e lazer. O Brasil é um país privilegiado em relação a áreas naturais, com grande diversidade de espécies da flora e da fauna, além de possuir muitos biomas preservados, mesmo sendo espaços já alterados. Grande parte de pessoas que procuram o turismo em áreas naturais, principalmente o segmento do turismo comunitário, vem em busca do contato com comunidades e cultura tradicionais. Os turistas querem ver de que forma vive uma comunidade indígena, como é retirada a borracha nos seringais ou até mesmo ser surpreendido por animais silvestres dos locais visitados. Levando em consideração a pratica de atividade econômica em ambientes naturais faz-se necessária conduta de conservação para poder usufruir da natureza. Falar sobre a sustentabilidade no turismo leva a crer a real importância desta idéia, visto que o turismo comunitário é um dos
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segmentos do turismo que cresce em comunidades buscando na conservação dos bens naturais e culturais ou a sustentabilidade. O turismo sustentável segue a idéia de se praticar atividades sem deteriorar o local a ponto de gerações futuras não poderem usufruí-lo. Tal termo é discutido principalmente quando se trata de atividades no meio ambiente natural, geralmente frágeis para suportar determinadas cargas de atividades. Surge a capacidade de carga que determina o quando o lugar, comunidade ou ecossistema suporta. Segundo Boo (1990, p. 67), “capacidade de carga é o conceito dado para a quantidade máxima que determinado terreno suporta em relação a visitantes que uma área pode acomodar, mantendo o mínimo de impacto negativo sobre os recursos”. A comunidade ao receber visitante deve ser orientada a trabalhar a medição dos impactos, e ao perceber desequilíbrios entrar com ação de manejo urgente para reduzir danos ambientais, sociais e culturais. Proporcionando ao mesmo tempo conservação, educação ambiental e oferecer aos visitantes aconchegos com alto índice de satisfação, pelo acolhimento não mercadológico. A atividade turística segue regras de mínimo impacto, com respeito à capacidade de carga, além de conservar o local visitado, trará mais satisfação aos turistas, visto que estes estarão contribuindo para a sustentabilidade do local. O termo desenvolvimento sustentável é definido pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer as possibilidades de as futuras gerações atenderem às suas próprias necessidades”. Theobald (2004) afirma que, com o aumento da população mundial, o mundo passa por transformações no modo de agir das pessoas o que se torna essencial para a conservação do planeta terra. O homem, desde os tempos mais remotos utiliza os recursos da natureza, transformando-os e os utilizando de forma desordenada e sem pensar na conservação gerada ao meio ambiente, fator primordial para a saúde do planeta. Somente nos últimos anos passou-se a defender com mais ênfase a conservação dos recursos que o planeta terra oferece, para que gerações futuras possam desfrutar. O desenvolvimento sustentável visa conservar as condições naturais a fim de garantir a preservação no futuro. O turismo depende diretamente dos recursos naturais, histórico-patrimoniais e os chamados de culturais. Desta forma, faz-se necessário que cada recurso seja utilizado de maneira a conserválos, considerando também a importância dos mesmos para o habitante do lugar e para o turista.

Para o residente a paisagem é virtualmente conclamada a desempenhar várias funções, entre ela a de espaço mediador para a vida, onde as coisas acontecem – não apenas receptáculo, mas em permanente transformação; a de referências múltiplas: geográficas, psicológicas (lúdicas, afetivas), informativas; fonte de contemplação que, como a arte, pode significar

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contraponto ao consumo; a de fonte de inspiração e, sobretudo, a de alimento à memória social, através de todas as suas marcas, afirma Yázigi (2002, pg.133)

O turismo, na perspectiva global é excludente, pois em grande parte é ofertado e consumido por classes sociais favorecidas economicamente, a classe que consome a maioria dos produtos e serviços turísticos. Além disso, as experiências negativas da atividade são foco de discussão, mas muitas vezes não é levado em conta que os impactos negativos são maiores por falta de planejamento, organização e colaboração de profissionais qualificados. Como viabilizar o turismo com responsabilidade social? Como utilizar o turismo como alternativa de conservação da floresta e das comunidades produtoras que vivem nas floretas? Daí a necessidade do fortalecimento numa perspectiva comunitária, que diferente da perspectiva do turismo convencional, vem para “quebrar” paradigmas, em especial de que a atividade é para ser apreciada por quem tem acesso a grandes recursos financeiros. O turismo comunitário vai além das comunidades, mostra que os modelos de turismo de grande volume são mais impactantes a natureza. Segundo Sansolo (2009, pg. 122)

A popularização do debate ambientalista cria massa critica ao modelo de desenvolvimento e, por outro lado, gera novas oportunidades ao capitalismo contemporâneo. Há uma

demanda crescente por áreas naturais para o lazer e entretenimento em função do processo de urbanização no mundo ocidental.

As comunidades que trabalham com o turismo comunitário não querem grandes volumes de visitantes, por provocar impactos negativos e não colaborarem com o desenvolvimento local. Além disso, o movimento ambientalista provocou no turista um conceito socioambiental que leva esse a busca não só uma simples viagem, mas a busca por uma experiência com troca, com convívio no ambiente visitado, conforme a comunidade vive na prática dos trabalhos com fins de desenvolvimento pessoal. Esse perfil de turista chega a adotar alternativas de investimentos para realizar viagens de experiências, em destinos comunitários onde os conhecimentos adquiridos pela vivência são diversos e vão de bioindicadores naturais à forma de utilização do solo e as experiências no campo social. A região da Amazônia é rica em diversidade e o turismo é uma alternativa de redução aos desequilíbrios sociais. Segundo Cruz, (2009, pg. 101)

A pobreza tem, em essência, uma causa estrutural e como fenômeno social não pode ser alijada facilmente de contextos históricos e espaciais. A pobreza na região do nordeste brasileiro, por exemplo, não é fruto das condições naturais da região, embora não se possa negar que tais condições agravam os efeitos da pobreza bem como constituem, ao mesmo tempo, dificuldades conjunturais à sua superação.

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No Acre, devido à grande concentração de Áreas Protegidas tais como: reservas extrativistas, florestas nacionais, estaduais, reservas indígenas é de fundamental importância realizar pesquisa para constatar quais recebe visitante, e destas quais estão com interesse em trabalhar com o segmento do turismo comunitário. Destaca-se que pensar com a comunidade não é assumir a responsabilidade por ela, e em desenvolver a atividade. Não deve ser gerada expectativa de retorno financeiro imediato e em grandes proporções, o que deve ser fortalecido é a organização e solidariedade pela atividade turística. O turismo não substitui as atividades tradicionais não vem para cobrir a demanda de produção da comunidade, mas sim, como alternativa a comunidade, de incremento da composição da renda familiar. Além de proporcionar aos visitantes e visitados as trocas de experiência, a diversidade cultural, onde a comunidade que se abre ao turismo passa a contribuir com suas experiências na formação de uma sociedade diversa e rica em experiências positivas. O Centro dos Trabalhadores da Amazônia - CTA, ONG fundado em 1982 para abrigar o Projeto Seringueiro, projeto articulado com intuito de criar escolas nos seringais, atua com comunidades de Projetos de Assentamento Agroextrativistas, em Florestas Nacionais (FLONA), como a Flona Macauã, em reservas Extrativistas e incentiva o turismo. O foco do trabalho é cone base técnica para as comunidades produtoras. Segundo informações dos técnicos do CTA as comunidades estão sempre questionando a possibilidade de desenvolver atividades com foco no turismo, uma vez que já recebem visitantes. Segundo a técnica que assessora a organização um dos “gargalos” para o desenvolvimento da atividade nas áreas é a falta de formação para a comunidade com foco para o turismo de base comunitária, pois o CTA está com a preocupação que a atividade possa ocorrer de forma desordenada e que venha a interferir no bom desenvolvimento social. Outro fator é a não articulação com instituições como ICMBIO, Secretarias de Turismo para planejar e verificar o que pode e não pode ocorrer em determinadas áreas, bem como a falta de investimento para o desenvolvimento de infraestrutura básica. Neste sentido, o turismo entra na composição da renda familiar, não como atividade produtiva principal, mas, como atividade complementar. Daí a necessidade de realizar estudos para verificar o interesse da comunidade pela atividade turística, mapear com a comunidade as necessidades de capacitação que fortaleça a produção local e o conhecimento tradicional da população, que contribua com o desenvolvimento turístico. Nas comunidades onde o turismo foi implementado a atividade deve ser avaliada, com fins de averiguar se vem sendo desenvolvida de forma equilibrada, sem provocar danos sociais, culturais e ambientais, uma vez que o turismo relacionado ao turismo comunitário assume a importância da atividade para a conservação e preservação do conjunto social, cultural e ambiental, distanciando antigas práticas de turismo que se desenvolvem na perspectiva capitalista do produto da indústria e do consumo. Dai afirma Coriolano
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(2006) que mesmo que as estratégias dos pequenos produtores tenham encontrado espaço para o turismo local no global a exclusão precisa ser banida da sociedade, pela manifestação da indignação de todos, o que implica na adoção de estratégias para além de conceitos acadêmicos, de resistências populares com movimentos solidários em torno de ações concretas que possibilitem a inclusão dos excluídos, a evolução humana, a participação efetiva de todos no mercado, no consumo e no lazer e turismo.

CONCLUSÃO

O Manejo florestal e o processo de organização comunitária hoje é uma atividade que vem crescendo em vários estados da região amazônica, e esse comportamento tem mostrado em algumas comunidades, como a do projeto RECA na vila Califórnia e o Seringal Porto Dias no município de Acrelândia, que é possível usar com sabedoria os recursos da natureza de forma que estes possam renovar-se continuamente. O processo de exploração, o manejo adequado da produção, o aperfeiçoamento das técnicas e o desenvolvimento das tecnologias e do indivíduo, são capazes de nos mostrar que há aprendizado e evolução por parte das comunidades, advindos por meio do exercício da liberdade, da autonomia e da soberania, sendo essas algumas das condições básicas para o desenvolvimento do turismo de base comunitária. Dessa forma, considerando as diversas formas de sustentabilidade, o projeto analisado proporciona renda e trabalho em uma extensa cadeia produtiva que vai do interior da floresta aos centros comerciais mais distantes. Em cada elo nota-se melhoria da qualidade de vida dos participantes e esse tipo de organização comunitária, dentre outras coisas, une as famílias e integra comunidades, promove a inclusão e assegura direitos aos seus participantes. É notória a satisfação de vários membros do Reca, muitos já idosos, que enfrentaram as dificuldades iniciais do projeto e hoje colhem os frutos dessa organização junto com seus familiares. Esses pioneiros são peças principais, pois o seu testemunho de persistência em continuar na organização tem potencial para motivar a entrada de novos participantes. Tudo isso só é possível se observamos as palavras de Tucun, em que diz: “O turismo de base comunitária é aquele no qual, as populações locais possuem o controle efetivo sobre o seu desenvolvimento e gestão comunitária ou familiar das infraestruturas e serviços turísticos, no respeito ao meio ambiente, na valorização da cultura local e na economia solidária” (Tucun 2008). Assim sendo, entendemos que as referidas organizações comunitárias reúnem os requisitos necessários para desenvolver o turismo de base comunitária, pois já trabalham atividades de manejo florestal, conservação ambiental e recebem visitas de acadêmicos e pesquisadores de várias áreas do
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conhecimento. O que é necessário para projetos, tais quais o analisado nesse trabalho, é a oferta de treinamentos adequados para receber turistas e gerar novas alternativas de renda para os associados.

REFERÊNCIAS BARTHOLO, Roberto; SANSOLO, Davis; BURZTYN, Ivan, Organizadores: Turismo de Base Comunitária: diversidade de olhares e experiências brasileiras Editora Letras e Imagens, Rio de Janeiro 2009. BARTHOLO, Roberto, coordenador: Marco Referencial Teórico para o Turismo de Base Comunitária. Relatório Técnico Cientifico. Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, 2011. BOO. Ecoturismo. In: Potenciales y escollos. Londres: WWF/Conservation Foundation, 1990. CORIOLANO, Luzia Neide. Turismo de Inclusão. Fortaleza, FUNECE, 2003. PORT THEOBALD, W.F. Turismo global. São Paulo: Senac, 2004. PROJETO RECA, www.projetoreca.com.br/site, acessado em 03 de abril 2012.

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CONSTRUÇÃO SOCIOESPACIAL E DINAMIZAÇÃO TURÍSTICA DE BANANEIRAS-PB

Roberlândia da Costa Rodrigues Pós-graduanda em Geografia e Território– UEPB/CH E-mail: roberll22@hotmail.com Renata de Sousa Cordeiro Mestranda em Desenvolvimento Regional – UEPB/CH E-mail: renata.sousa12@yahoo.com.br

RESUMO

As cidades resultam de uma construção cultural, em função de um pensamento social e político em diversas regiões. Na qual, materializam itinerários conceituais, ideológicos e de funções políticas e institucionais na conjuntura específica de cada região. Que por sua vez, está inserida num processo de fragmentação territorial para melhor desempenho administrativo capitalista, aonde ao mesmo tempo, vem adquirindo novas funções e assim integrada ao mundo globalizado. O objetivo deste artigo consiste em realizar uma reflexão sobre a dinamização social das cidades, considerando o território como elemento ativo de desenvolvimento impregnado de contradições, históricas e atuais, subjacentes ao processo de ocupação e de transformação funcional por que passaram estas aglomerações urbanas. Os mecanismos de produção recíproca dos territórios e das identidades revelam as relações em sociedade na qual pessoas aspiram à cidadania e a uma melhor qualidade de vida. A pesquisa foi realizada a partir de levantamento bibliográfico, com uma discussão reflexiva dos fundamentos teóricos dos processos territoriais, urbanos e sociais a partir de um reconhecimento detalhado da área de estudo. A contribuição do respectivo trabalho é o estudo do das interações históricas e sociais da cidade de Bananeiras/PB, desenvolvimento territorial. PALAVRAS-CHAVE: Sociedade, território e turismo. em um processo de

INTRODUÇÃO

A configuração territorial de Bananeiras evidencia um espaço suscetível

a constantes

modificações regionais. A cidade destaca-se no cenário turístico do Estado, tanto pelo fator natural como pelos aspectos históricos e culturais. O espaço geográfico não apenas revela o transcurso da história como indica a seus atores o modo de nela intervir de maneira consciente. (SANTOS, 2008, p.80) Seus atrativos turísticos estão baseados principalmente na cultura, na história e nos aspectos
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naturais, dentre estes, principalmente o clima e a vegetação. A implementação de políticas públicas ocasionou a expansão urbana do município, dinamizando a economia local em todo território de Bananeiras. O objetivo deste artigo consiste em realizar uma reflexão sobre a dinamização social da cidades, considerando o território como elemento ativo de desenvolvimento impregnado de contradições, históricas e atuais, subjacentes ao processo de ocupação do território e de transformação funcional por que passaram estas aglomerações urbanas. A contribuição do respectivo trabalho é o estudo do espaço territorial da cidade de Bananeiras/PB, suas interações históricas e sociais, em um processo de desenvolvimento social. A metodologia utilizada nesse trabalho leva em consideração dois aspectos do município de Bananeiras; O primeiro é a

identificação do contexto histórico e socioeconômico e as interações territoriais. O segundo é a implementação de politicas públicas voltadas para o turismo e os segmentos explorados dessa atividade. Na realização da pesquisa foi feito levantamento bibliográfico para a fundamentação teórica de autores que discutem os fundamentos teóricos dos processos territoriais, urbanos e sociais a partir de um reconhecimento detalhado da área de estudo. Em seguida, foi realizado levantamento das instituições envolvidas na gestão e no acompanhamento das atividades turísticas no município com análise de documentos nos órgãos competentes. O Município de Bananeiras está localizado na Microrregião do Brejo Paraibano e na Mesorregião do Agreste (Figura 1), a população total é de 21.810 habitantes distribuídos numa área de 258 km².(IBGE,2010). “ Inseri-se na Unidade Geoambiental do Planalto da Borborema, formada por maciços e outeiros altos, com uma altitude aproximada de 520 metros e seu relevo é geralmente movimentado, com vales profundos e estreitos dissecados”. (CPMR,2010)

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Microrregião do Brejo Paraibano, municípios de: - Alagoa Grande, - Alagoa Nova,

Figura 1: Brejo Paraibano. Fonte: IDEME, 2011
- Areia, - Bananeiras, - Borborema,

1 RESULTADOS E DISCUSSÕES
- Pilões, e 1.1 DINAMIZAÇÃO TERRITORIAL E CONSTRUÇÃO SOCIAL DAS CIDADES - Serraria.

- Matinhas,

Há diferentes expressões da questão social que se dão no contexto dos territórios de vivência através das cidades brasileiras, distintas nas suas dimensões populacionais, nas suas áreas geográficas e nas suas configurações econômicas, políticas, culturais e sociais. As cidades estão inseridas num processo de fragmentação territorial para melhor desempenho administrativo capitalista, ao mesmo tempo, vem adquirindo novas funções e integrada ao mundo globalizado. “Os territórios tendem a uma compartimentação generalizada, em que se associam e se chocam o movimento geral da sociedade planetária e movimento particular de cada fração, regional ou local, da sociedade nacional.” (SOARES, 2009, p. 79) Essas diferenciações presentes na dinâmica de ocupação, formação e relações estabelecidas que colocam a dimensão territorial para além do espaço geográfico das cidades, leva em conta sua inserção junto a processos econômicos, políticos e sociais.

As situações assim criadas são variadas e múltiplas, produzindo uma tipologia de atividades cujos subtipos dependem das condições fundiárias, técnicas e operacionais

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preexistentes. Numa mesma área, ainda que as produções predominantes se assemelhem, a heterogeneidade é de regra. Há, na verdade, heterogeneidade e complementaridade. Desse modo, pode-se falar na existência simultânea de continuidades e descontinuidades. (SANTOS, 2008, p.90)

Nessa direção, Ross (2009) esclarece que, as organizações humanas

ou sociais se

estruturam e funcionam apoiadas em outra lógica, que se definem por sistemas socieconômicos. Sobre a cidade George (1988) afirma que “seu desenvolvimento é estimulado pela aparição de novas atividades ou pela ampliação ou transformação de empreendimentos antigos”. O território municipal corresponde a um agrupamento de pessoas e de objetos num dado espaço. Em função dessas pessoas e desses objetos, os espaços e a vida urbana se organizam. São os objetos, pessoas e seus movimentos que a compõem. O cotidiano de vivência das pessoas é produzida na cidade, e reproduzido no espaço habitado através da ação humana. Para Soares (2009), as ações resultam de necessidades, naturais, ou criadas. Essas necessidades - econômicas, sociais, culturais, morais, afetivas - é que conduzem os seres humanos a agir e levar funções. É neste espaço denominado cidade que as pessoas se familiarizam e compartilham de afetividade constituindo a sua identidade territorial. É um lugar de conectividade que apresenta diversidade em arranjos espaciais socioeconômicos. Nesse sentido, Singer conforme ressalta Sposito (1989), diz que “ a constituição de uma cidade é, ao mesmo tempo, uma inovação na técnica de dominação e na organização da produção.”

É nas cidades que as sementes políticas germinam, por que é nela que se dá o encontro entre a parcela técnica e a parcela política da produção, entre a tendência a homogeneização rural e a emergência de novas heterogeneidades urbanas, entre verticalidade. ( SANTOS, p 60,2009). horizontalidade e

O acirramento na disputas territoriais si constituem num fato corriqueiro nas sociedades atuais. Cada território existe em função de suas necessidades econômicas, sociais e políticas. Nele são projetadas as concepções ideológicas e culturais baseadas nas relações sociais.

O conceito de território não deve ser confundido com o de espaço ou lugar, estando muito ligado a idéia de domínio ou de gestão de determinada área. Assim, deve-se ligar sempre a idéia de território à ideia de poder, quer se faça referência ao poder público, estatal, quer ao poder das grandes empresas [...] (ANDRADE, 2004, p.19) A cidade é um lugar que expressa várias territorialidades, onde cada uma se diferem umas das outras. Os lugares se especializam, em função de suas virtualidades naturais, de sua realidade técnica, de suas vantagens de ordem social. Isso responde à exigência de maior segurança e rentabilidade para capitais obrigados a uma competitividade sempre crescente,

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isso conduz a uma marcante heterogeneidade entre unidades territoriais. (Mlinar, 1990 apud Santos, 2009, p. 248).

Na concepção de Santos (2009), as formas novas criadas para responder a necessidades renovadas, tornam-se mais exclusivas, mais endurecidas, material e funcionalmente mais rígidas tanto do ponto de vista das técnicas implicadas como de sua localização. Passamos de uma cidade plástica a uma cidade rígida. “O endurecimento da cidade é paralelo diante dos usos preestabelecidos.”(SANTOS, p 251,2009). à ampliação da

intencionalidade na produção dos lugares, atribuindo-lhes valores específicos e mais precisos,

1.2 CONTEXTO HISTÓRICO E SOCIECONÔMICO E O TURISMO EM BANANEIRAS.

Historicamente, desde os primórdios de sua fundação este município destaca-se economicamente no cultivo do café. A cidade se constituiu num importante centro comercial da Paraíba no século XIX e também da região Nordeste.
“Bananeiras foi o maior produtor de café da Paraíba e o segundo do Nordeste. Em 1852, o café de Bananeiras rivalizava em qualidade e aceitação com o de São Paulo. Aqui, produzia-se um milhão de sacas ao ano. O transporte era precário, para fazer o produto chegar aos principais centros consumidores. O trem só chegaria 72 anos depois.” (BANANEIRAS, 2011)

As bases socioeconômicas estruturadas a partir do desenvolvimento do comércio e do acúmulo de riquezas, refletiram-se na arte, cultura e arquitetura local.
As edificações do Período colonial (séc.18), neoclássico, ecléticos, art-decô e protomodernistas, que ainda existem na cidade, são o resultado da opulência vivida pela aristocracia rural. O dinheiro do café permitia a construção de palacetes, com ladrilhos importados. (BANANEIRAS, 2011).

A cidade dispõe de um rico acervo histórico, cultural e ambiental, apresentando recursos potenciais e infra-estrutura viáveis economicamente para o turismo. Fundamenta-se nesses aspectos o planejamento para a criação de uma linha voltada para um segmento de mercado não explorado anteriormente numa cidade.

A problematização do espaço é estratégica na medida em que aumenta a procura por informação e conhecimento para se planejar o território do município, entendido como um

343

conjunto complexo de zonas urbanas e rurais, como determina o Estatuto da Cidade (Lei Federal nº 10.257/01.)

As esferas de gestão territorial ligadas aos poderes públicos têm realizado estratégias para o desenvolvimento da atividade turística. Dentre estas estratégias podemos citar a elaboração do Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil, lançado pelo Ministério do Turismo, (BRASIL, 2010a) que abrange todo o Brasil e onde cada Estado é responsável por elaborar a própria metodologia de identificação de regiões turísticas. A partir deste incentivo o município de Bananeiras e outros municípios do Brejo Paraibano aos poucos tem se consolidado como região turística com a prática do turismo rural agregado ao turismo urbano cultural que vem ocasionando o desenvolvimento de diversos segmentos da economia local.
“Quando a capacidade criativa do homem se volta para a descoberta de suas potencialidades, e ele se empenha em enriquecer o universo que o gerou, produz-se o que chamamos desenvolvimento. Este somente se efetiva quando a acumulação conduz à criação de valores que se difundem na coletividade” ( FURTADO, 2001, p. 47)

O reconhecimento do enorme potencial turístico local se deu a partir da reestruturação administrativa da Prefeitura de Bananeiras, através da Lei nº 312/2005. Sancionada pela prefeita Marta Eleonora Aragão Ramalho, esta lei criou a Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esporte. Após a criação da Secretaria, a gestão turística municipal ficou responsável pela elaboração e execução de políticas públicas voltadas para a cultura e o turismo. Na área do turismo, a Secretaria é responsável pela promoção de eventos turísticos e outros de interesse para o calendário de festejos populares, cívicos e religiosos do município. Uma medida para conservação do patrimônio arquitetônico da cidade foi o requerimento de tombamento do Centro Histórico Municipal de Bananeiras (Figura 1) concretizado através da homologação do Decreto nº 31.842 de 03 de Dezembro de 2010, onde decreta no Art. 1º que fica Homologada a deliberação nº 0021/2010 do Conselho de Proteção dos Bens Históricos Culturais – CONPEC, do IPHAEP delibera a importância do Centro Histórico da Cidade de Bananeiras para Paraíba no aspecto cultural, histórico, político e arquitetônico. (PARAÍBA, 2006)

344

Foto 1 – Centro Histórico da Cidade de Bananeiras Fonte: MURILO, 2011

A implementação dos roteiros turísticos foi fundamental na divulgação do município de Bananeiras que logo atraiu a atenção de turistas interessados em adquirir terreno no loteamento para construir sua casa de campo nessa região serrana. A habitação torna-se um produto financeiro atrativo em termos de investimento numa segunda residência, destinada às férias em uma área tomada pelo verde e de clima ameno, que vem despertando o interesse dos moradores de João Pessoa e de outras capitais e cidades do Nordeste. Inclusive, alguns proprietários de casas nos condominíos da cidade residem em outros países. Os instrumentos utilizados pelo poder público municipal em especial os incentivos fiscais, têm feito emergir práticas sociais diversificadas, articulando interesses econômicos de grupos econômicos voltados para a expansão imobiliária. O fluxo de turistas permitiu o desenvolvimento dos serviços, da especulação imobiliária e proporcionou a criação de novos empreendimentos imobiliários voltados à habitação, ao comércio e serviços. E acarretou novas formas de geração de renda a partir da atividade turística e pela especulação imobiliária, cuja renda vem de fatores como a compra de terrenos loteados nos condomínios ou da instalação de empreendimentos no ramo da hotelaria. A expansão de empreendimentos deve-se ao investimento de capital associado a grupos empresariais imobiliários e turísticos. Uma mudança recente de comportamento entre turistas é observada, há uma nova tendência em procura de “paisagem”, de “natureza”, de “verde”, de “ar puro”, de “tranqüilidade” de condomínios fechados. O mercado imobiliário agregou ao seu produto a paisagem como um componente imobiliário. O clima frio, as serras e o verde da natureza passam a ser inseridos no discurso imobiliário valorizando os empreendimentos.

345

A construção de condomínios e hotéis, como o Águas da Serra, Serra de Bananeiras, Caminhos da Serra, Eco Spazzio Tropical, entre outros. Como também a reestruturação do casarão centenário, que faz uma dialética entre o velho e o novo, pois exteriormente, preserva a arquitetura colonial, e interiormente esbanja tecnologia e sofisticação, esta última característica também está presente nos outros hotéis e condomínios, anteriormente citados. (COSTA & SOUZA, 2010,p. 8)

O ecoturismo se caracteriza por ser um segmento de turismo de natureza que vem se expandindo no município, buscando utilizar o patrimônio natural de forma sustentável. O meio abiótico apresenta vários aspectos atrativos para o ecoturismo, como as rochas e o relevo. Porém, a fauna e a flora representam os maiores atrativos para este segmento.

O Turismo é uma atividade que pode estar intimamente relacionada ao meio físico, em especial aquele que está vinculado à exploração das belezas naturais de uma determinada área, o turismo de aventura, o turismo ecológico, o turismo saúde, o turismo lazer, o turismo rural, o turismo climático, e hidrotermal etc [...] Tem sido a atividade econômica que mais tem crescido nas ultimas décadas, acontecendo praticamente em qualquer parte da superfície terrestre (GUERRA & MARÇAL, 2006, p. 42).

No intuito de relacionar as opções de oferta turística, a gestão municipal de Bananeiras também implementou algumas ações de conservação do patrimônio natural. Nesse aspecto, pode-se citar o caso da criação da Área de Proteção Ambiental do Roncador, através de requerimento da Prefeitura Municipal de Bananeiras ao Governo do Estado, foi elaborado o Decreto nº 27.204, de 06 de junho de 2006, usando das atribuições que lhe confere o artigo 86, inciso VI, da Constituição do Estado. Este Decreto foi o responsável pela criação da Área de Preservação Ambiental Roncador (Foto 2), situada entre os municípios de Bananeiras e Pirpirituba, neste Estado, possuindo uma superfície de 6.113,00h (seis mil cento e treze hectares). O Artigo 2º dessa lei incube à Superintendência de Administração do Meio Ambiente – SUDEMA a tomar as providências necessárias para a implantação e administração da área de proteção ora citada (PARAÍBA, 2006).

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Foto 2 – Cachoeira do Roncador Fonte: Machado, 2009

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Constatamos que as políticas públicas regionais são um marco fundamental para a expansão urbana de Bananeiras. Observamos que a configuração territorial vem apresentando-se como um espaço regional de transformações significativas em curso. Estamos, portanto, diante de um novo ordenamento territorial que expressa suas manifestações na expansão imobiliária com a construção de condomínios, e empreendimentos que vem atraindo investidores para a região em conseqüência das inovações advindas da implementação de políticas públicas setoriais voltadas para o desenvolvimento turístico que promovem uma verdadeira metamorfose no espaço. O dinamismo urbano no município, a partir dos expedientes adotados pelo capital imobiliário para agregar valor ao produto, através do marketing turístico local, reforça atributos do território como arquitetura, cultura e meio ambiente. A partir dessas novas relações, entre espaço social e poder público, surge nesse território uma nova dinamização social. É possível aproveitar de forma responsável os atrativos turísticos da localidade, garantindo benefício a todos os atores do processo a partir de ações conjuntas entre municípios, população, iniciativa privada e pública.

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Os patrimônios culturais e naturais devem ser geridos de forma eficaz voltada para o desenvolvimento socioeconômico e para conservação ambiental, almejando o consumo turístico responsável e com menos impactos para a sociedade e para a natureza. No entanto, é fundamental que a implementação do turismo seja pautada numa conduta direcionada a atingir níveis sociais elevados para que o processo turístico possa atingir objetivos ambientais, sociais e econômicos desejados.

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TURISMO, ECONOMIA SOLIDÁRIA E GERAÇÃO DE RENDA: UMA ANÁLISE DO MUNICÍPIO DE BANANEIRAS/PB

Samantha Rodrigues da ROSA Estudante de Esp. em Geografia e Território - UEPB E-mail: rodrigues_darosa@hotmail.com Renata de Sousa CORDEIRO Mestranda em Desenvolvimento Regional – UEPB/UFCG E-mail: renata.sousa12@yahoo.com.br Laura Izabel Guimaraes de SOUZA Bacharel em Turismo – FACISA E-mail: laurinha_gui@hotmail.com

RESUMO

O presente trabalho pretende analisar o turismo de base local desenvolvido a partir dos preceitos da economia solidária, que tem como objetivo principal a distribuição igualitária da renda, participação efetiva dos sujeitos no processo de produção e comercialização dos produtos para uma vida digna da população nativa de pequenas localidades. Tem como objetivo analisar o turismo de base local e a economia solidária como uma alternativa sustentável. O método a ser utilizado é o materialismo histórico dialético evidenciando a diferenciação de classes, onde se pretende analisar as relações do turismo em pequenas localidades e como a economia solidária poderia ser inserida para um melhor rendimento da atividade para a população local, então a pesquisa se pautará em uma busca conceitual de como a economia solidária se desenvolveria atrelada a atividade turística aplicada nas pequenas comunidades. A confecção do trabalho se configura em pesquisa bibliográfica a respeito do tema abordado, visita aos órgãos competentes como o próprio Estado e observação indireta do objeto de estudo a fim de que se possam analisar as potencialidades de tal organização e qual as probabilidades de se obter sucesso em uma possível implantação em outro espaço analisando evidentemente as diferenças culturais, econômicas e ambientais de uma realidade para outra e adequar o estudo a tais circunstâncias. No entanto, concluiu-se que o turismo de base local é uma importante ferramenta para a geração de renda, preservação da identidade cultural e ambiental das pequenas comunidades, em especial no município de Bananeiras-PB. PALAVRAS–CHAVE: turismo, desenvolvimento, sustentabilidade, cultura.

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho pretende analisar o turismo de base local desenvolvido a partir dos preceitos da economia solidária, que tem como objetivo principal a distribuição igualitária da renda, participação efetiva dos sujeitos no processo de produção e comercialização dos produtos para uma vida digna da população nativa de pequenas localidades. O trabalho aqui exposto foi desenvolvido a partir de leituras e vivências no âmbito acadêmico. Os objetivos específicos do trabalho pretendem identificar as relações desenvolvidas a partir da atividade turística e como esta atividade pode ser utilizada para a manutenção do desenvolvimento: ambiental, social e econômico das pequenas comunidades utilizando uma política de organização diferenciada das demais encontradas na atualidade. Para a composição e redação final do texto aqui apresentado, trabalhou-se com diversos autores diretamente que são os autores citados no decorrer do texto, sendo o trabalho também apresenta ideias de autores que contribuíram de forma indireta, não apresentando citações para a confecção deste escrito, porém suas ideologias foram de suma importância para o embasamento conceitual do mesmo. Alguns dos nomes de importância para o texto foram: Tuan (1980), Xavier (2007), Santos (2007), Singer (2002), Ávila (2009) entre outros. Este trabalho se originou da observação das atividades turísticas desenvolvidas no território nacional, o qual se mostram ineficazes do ponto de vista de geração de renda para as populações mais vulneráveis que muitas vezes são relegadas as periferias, não participam e consequentemente não usufruem dos espaços turísticos, pois estes viraram produtos do capitalismo, juntamente com sua cultura, e como menciona Xavier (2007) a paisagem que se compõem na principal matériaprima do turismo é a mais desgastada e saturada. A economia solidária tem se mostrado como uma importante estratégia de inserir a população nos meios de produção e lucros dos sistemas econômicos a fim de garantir um melhor funcionamento dos processos e melhorar a qualidade de vida da população, que terá uma maior participação nos ganhos. Este sistema promove certa descentralização do poder, gerando cooperação entre os indivíduos, já que o seu principal objetivo é a troca de experiência entre as pessoas e com as cooperativas, a autogestão dos negócios, eficácia e efetividade. Baseado nesses preceitos pretende-se discutir como a atividade turística pode se relacionar segundo os princípios de tal política estatal, a economia solidária. Neste mesmo contexto procura-se entender como a atividade turística tem sido desenvolvida na cidade de Bananeiras/PB, tanto no aspecto econômico, como de contato da população com os visitantes, avaliando as relações moldadas através do turismo.
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1 DESENVOLVIMENTO 1.1 ECONOMIA SOLIDÁRIA

A indústria do lazer tem movimentado enormes quantias no setor terciário da economia no espaço mundial, movimentando o sistema capitalista, desta forma, por diversas vezes vemos o enriquecer dos grandes empresários e o empobrecer das comunidades e população mais frágil, através de formas desiguais de acesso aos princípios básicos essenciais a vida digna e reconhecidos por lei que estão enunciados na constituição brasileira, como a educação, a saúde, a moradia, o trabalho e etc. No sistema capitalista tem-se observado que muitas dessas premissas indispensáveis a adequada qualidade de vida da sociedade e dos indivíduos não tem sido respeitadas na sua integridade, se observarmos os dados citados pela economista Tania Bacelar de Araújo veremos que no nosso país encontra-se uma imensa ilha de desigualdade, localizada principalmente na região Nordeste, como pode ser constatado na afirmação a seguir,
Levantamento recente do Instituto de Planejamento Econômico e Social – IPEA mostra que, em 1990, dos 32 milhões de brasileiros indigentes, 17,3 milhões estavam no Nordeste (55% do total nacional). Mais de 10 milhões residiam na zona rural da região. Assim, como 46% da população rural brasileira, o Nordeste tem 63% dos indigentes brasileiros que vivem nas áreas rurais. Dos indigentes urbanos do País, quase 46% estão no Nordeste (IPEA, 1993). (ARAÚJO, ANO, pp02, 03)

Com este argumento pode-se ver que a competição exacerbada tem levado o país a uma imensa desigualdade, deixando muitos em estado de extrema pobreza. O sistema capitalista mostra uma contradição se comparado a estratégia adota por Robert Owen em sua empresa logo após a Revolução Industrial na Grã-Bretanha.

O tratamento generoso que Owen dava aos assalariados resultou em maior produtividade do trabalho, o que tornou sua empresa bastante lucrativa, apesar de gastar mais com folha de pagamento. (...). Visitantes do mundo inteiro vinham a New Lanark tentar decifrar o mistério de como o dinheiro gasto com o bem-estar dos trabalhadores era recuperado sob a forma de lucro, ao fim de cada exercício. (SINGER, 2002, p25)

Visando uma melhoria na distribuição dos recursos e no bem-estar dos indivíduos que é uma característica indispensável ao desenvolvimento, encontrou-se na economia solidária associada a atividade turística uma alternativa viável ao desenvolvimento humano, econômico e ambiental.

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A economia solidária é um sistema que prioriza a “propriedade coletiva e a liberdade individual”, neste sistema não existem patrões ou empregados, mas sócios. Estimulados pelo bem comum a empresa solidária, onde não existe competição, mas cooperação ao contrário da corporação capitalista. Na empresa solidária cada sócio tem direito a participação, tanto nas decisões, como nos lucros, porém a retirada a que cada sócio tem direito é decidida em assembleia. Em certos casos pode haver diferenciação nas retiradas, porém estas são decididas de forma a maximizar o bem de todos os participantes da organização, no entanto há casos em que há diferenciações nas retiradas, entretanto essas devem ser decididas de forma a maximizar o bem de todos os societários e apenas será permitida se for para o benefício da empresa, como John Rawls salienta, “Desigualdades são permissíveis quando elas maximizam, ou ao menos todas contribuem para [elevar] as expectativas de longo prazo do grupo menos afortunado da sociedade (RAWLS apud SINGER, 2002, p13)”. Tais premissas podem ser articuladas aos diversos ramos da economia, incluindo o turismo, ou até mesmo reduzir a desigualdade com programas de direcionamento mais específicos a área do trabalho, como o Observatório do Trabalho criado no Rio Grande do Sul que tem como “objetivo principal o melhor conhecimento dos mecanismos do mercado de trabalho para conseguir uma melhor planificação dos fluxos e a adaptação dos recursos humanos às necessidades de produção da economia” (CASTILHO, 2002, p12). Estas políticas públicas têm amenizado ou antecipado conclusões a respeito do mercado de trabalho, facilitando a tomada de decisões pela população. 1.2 BANANEIRAS – PB

A cidade de Bananeiras se localiza na Mesorregião do Agreste Paraibano e na microrregião do Brejo, situando-se na região do Planalto da Borborema, com altitude que varia de 650 a 1.000 m, sua distância da capital João Pessoa é de 94, 1236 km, seu clima é o tropical chuvoso com verão seco, sua vegetação é subcaducifólia e caducifólia na qual apresenta assim uma transição para Agreste, história, cultura e apropriação do território. O município possui uma área de 258 km² e sua população é de 21. 851 habitantes (IBGE, 2010). Seus limites são ao Norte com os municípios de Dona Inês e Tacima, ao Sul com Borborema e Pirpirituba, a Oeste com a cidade de Solânea e a Leste com o município de Belém (CPRM, 2005). A cidade situa-se em um relevo com fortes ondulações o que inscreve na paisagem formas que levam ao psicológico humano um imaginário de calma e magia, como Tuan (1980, p130), descreve: “As pessoas sonham com lugares ideais. A Terra, devido aos seus vários efeitos, não é vista em todas as partes como a morada final da humanidade. Por outro lado, a nenhum meio ambiente falta poder para inspirar a devoção, pelo menos de algumas pessoas”. Nesta afirmação
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percebe-se uma veia bem peculiar do turismo, as pessoas não gostariam do “lugar” como sua residência habitual, mas se encantam pela sua beleza e pelo prazer que novo ambiente pode lhe proporcionar, no entanto a paisagem confere um fascínio no seu psicológico. Portanto, a cidade de Bananeiras, com seu clima ameno, em comparação a outras cidades do Agreste paraibano, casarios antigos, inscrições rupestres, reserva florestal e cultura típica nordestina tem sido palco da recente atividade turística, através do projeto Caminhos do Frio, também realizado nas cidades de Areia, Serraria, Alagoa nova, Alagoa Grande e Borborema. Enfatizando o Projeto de Regionalização do Turismo criado pelo Ministério do Turismo que pretende viabilizar o turismo regional baseado no “processo de roteirização” do turismo, unindo assim as capacidades e cada município, aumentando e valorizando o processo turístico e resgatando a cultura de tais localidades (GALVÃO; MILITO & ALEXANDRE, 2011). Este resgate cultural objetivado pelo MTur (Ministério do Turismo), corresponde tanto a forma de percepção da população sobre o seu espaço, crescendo o seu sentimento de pertencimento ao espaço, ligando-o novamente a suas raízes, considerando que este sentimento ligado ao fomento da atividade turística visa a geração de renda para a população e a fixação da população na localidade, já que muitas vezes os mais jovens tendem a migrar a procura de emprego, em alguns casos não pelo fato de não se sentirem bem em sua localidade, mas por necessidade, pois o homem recebe diferentes valores de acordo com o espaço que habita. “o espaço tem uma significação diferente segundo o nível de renda e classe social a que se pertence” (SANTOS, 2007, p115). A partir desta nova configuração a cidade tem recebido consideráveis empreendimentos do setor de serviços, como o loteamento Águas da Serra, os hotéis Eco Spazio Tropical, Serra Golf, além de ser a primeira cidade paraibana a ter um campo de golfe. Estes empreendimentos têm atraído turistas de várias regiões. A cidade resguarda arquiteturas antigas e possui uma cultura bem tradicional do nordeste. O que se percebe é que a atividade turística desenvolvida no município é recente e realizada por empresários do Rio Grande do Norte, ocorrendo uma apropriação do território paraibano, por parte do estado vizinho. O alto custo dos serviços turísticos encontrados em Bananeiras sugerem que os turistas que usufruem deste espaço são tem um alto poder econômico, sendo que toda a demanda que os turistas requerem são encontradas ou realizadas dentro dos condomínios fechados, desta forma conclui-se que a população em si pouco relevância ou envolvimento no processo turístico da cidade, além de que ela própria não usufrui do turismo. Neste ponto de vista pensa-se o turismo a partir do materialismo histórico-dialético evidenciando a diferenciação de classes, onde se pretende analisar as relações do turismo em Bananeiras-PB. A pesquisa se pautará em uma busca conceitual de como a economia solidária se
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desenvolveria atrelada a atividade turística aplicada nas pequenas comunidades. Para isso pretendese observar e analisar os efeitos que a implantação da economia solidária tem implicado nas comunidades já implantadas e como ela se portaria em uma pequena comunidade. A confecção de todo trabalho científico se pauta em uma intensa pesquisa bibliográfica a respeito do tema abordado, tanto em bibliotecas, como em periódicos da internet, órgãos competentes como o próprio Estado e observação indireta e direta do objeto de estudo a fim de que se possam analisar as potencialidades de tal organização e qual as probabilidades de se obter sucesso em uma possível implantação em outro espaço analisando evidentemente as diferenças culturais, econômicas e ambientais de uma realidade para outra e adequar o projeto a tais circunstâncias.

CONCLUSÃO

A economia solidária é uma atividade econômica baseada na distribuição igualitária da renda entre os sócios da empresa solidária. O turismo também é uma atividade econômica influenciada e caracterizada pela indústria capitalista e nomeada como a “indústria sem chaminé”, entretanto, este tipo de atividade tem sido corrosiva para os espaços, flagelando vidas e pessoas no seu desenrolar, enriquecendo poucos e mutilando muitos que perdem o próprio significado de ser e de estar do lugar, onde cresceram, viveram e hoje apenas sobrevivem das migalhas da atividade turística gerada pelos grandes proprietários do capital. Desta forma a economia solidária mostra-se um importante instrumento na realização do desenvolvimento social e humano dos pequenos e novos empreendedores. Apesar de a empresa solidária ser menos lucrativa do que a empresa capitalista, ela se mostra muito mais eficiente na distribuição da renda e desenvolvimento humano, com maiores índices de participação dos sócios na direção da empresa. Na economia solidária os lucros são distribuídos de forma mais igualitária diferente da empresa capitalista, no entanto, se observou que em Bananeiras o processo turístico não tem chegado as camadas mais carentes da população estas apenas reproduzem o quadro de submissão da economia, mesmo porque os investimentos que chegam a cidade são de fora do estado, sendo que na sua maior parte a renda não permanece no município, os pequenos comerciantes muitas vezes não conseguem retorno, pois eles mesmos não oferecem os produtos ou serviços que os turistas demandam. Em suma, as atividades turísticas tem sido fator de exclusão da população nativa, pois esta não usufrui do espaço do turismo, tampouco participa da receita gerada pela atividade, a não ser pelos empregados dos condomínios. Esta realidade se apresenta na maioria das cidades brasileiras,
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favorecendo ou reproduzindo a mesma apropriação do espaço pelos grandes empreendedores. Vê-se na economia solidária uma forma de intervenção benéfica para a população local, mesmo que em uma pequena escala.(GALVÃO; MILITO & ALEXANDRE, 2011)

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REFLEXÕES DE TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA NA ALDEIA INDÍGENA DOS PATAXÓS DE IMBIRUÇU, EM CARMÉSIA71

Keila de Freitas da SILVA. Graduanda em Turismo na UFMG. keilaemail@yahoo.com Taina Gonçalves BULHÕES. Graduanda em Turismo na UFMG. taina_gbulhoes@yahoo.com.br Thiago Lima de ALMEIDA. Graduando em Turismo na UFMG. talmeida@ufmg.br Viviane P. Fontoura GOULART. Graduanda em Turismo na UFMG. vivianepfg@yahoo.com.br

RESUMO

O presente artigo tem por objetivo trazer uma discussão sobre alguns temas que, acredita-se, fornecerão uma melhor compreensão do contexto turístico da comunidade indígena dos Pataxós, na aldeia Imbiruçu, em Carmésia – MG, por meio da identificação dos processos de organização sociais e políticos existentes. O embasamento teórico forneceu instrumento para a verificação da articulação do grupo na busca por atender as necessidades e interesses do coletivo e sobre a participação, turismo comunitário e o contexto indígena, bem como comunidades indígenas e o histórico dos Pataxó da Aldeia Imbiriçu. E por fim, foi analisado o processo de organização social da comunidade indígena Pataxó por meio de reflexões feitas acerca das informações observadas in loco. Uma das conclusões a que se chegou foi o fato da comunidade possuir todo o aparato, tem em vista a sua “cultura comunitária” e o exercício de participação social, para se trabalhar o turismo comunitário na aldeia. PALAVRAS-CHAVE: Participação social, políticas sociais indígenas, direitos sociais, organização política indígena, turismo comunitário, turismo de base comunitária.

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Orientadora: Fabiana A. Bernardes. fabianabernardes@hotmail.com

Profa.

do

Depto.

Geografia/Curso

de

Turismo

na

UFMG

-

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INTRODUÇÃO

O presente artigo se iniciou durante a disciplina de Turismo de Base Comunitária, ministrada pela professora Fabiana Bernardes e foi estruturado a partir de trabalhos de campo realizados no ano de 2010 e 2011 pelos discentes do curso de graduação em Turismo pela Universidade Federal de Minas Gerais. Nessa oportunidade, o objeto de estudo foi a Aldeia Imbiruçu do povo indígena Pataxós, localizada no município de Carmésia - MG. O Turismo de Base comunitária vem se desenvolvendo em algumas regiões do Brasil, de modo que é visto, hoje, como uma forma não só de complementação de renda, mas de fomento a participação social local e aumento da autonomia de pequenas comunidades e, por consequência, o fortalecimento de lideranças locais, associações e reafirmação da cultura. Já o turismo comunitário é fruto de um sentido comunitário e de participação social já consolidado no seio da comunidade, sendo buscado pelas mesmas como mais uma forma de complementação de renda e estratégia de identidade O objetivo geral desta pesquisa é analisar o processo de organização política e social da comunidade indígena Pataxó e investigar possibilidades da atividade turística de base comunitária local. E sendo o principal objetivo específico verificar a capacidade de articulação da comunidade na busca de atender as necessidades do grupo.

1 METODOLOGIA

A metodologia dividiu-se em três momentos: levantamento de dados cartográficos, documentais, iconográficos acerca do objeto de estudo; pesquisa empírica para aprofundamento dos conhecimentos previamente obtidos, observação do modo de vida, relação e organização social e, por último; reflexão e análises dos dados obtidos que teve como resultado a resposta dos questionamentos levantados inicialmente. O primeiro momento consistiu na pesquisa de gabinete a fim de levantar informações diversas sobre os Pataxós, o papel da FUNAI e artigos sobre participação, política social, autonomia, turismo comunitário, além do aprofundamento nos textos dados em sala de aula. A pesquisa bibliográfica procura identificar os materiais já existentes. O resultado dessa pesquisa inicial foi o desenvolvimento de um roteiro de entrevistas qualitativas a serem realizadas com os atores identificados em campo, a fim de melhor distribuir o grupo pelo território. O segundo momento da pesquisa foi realizado in loco durante pesquisas de campo, desenvolvida por alunos do curso de turismo nas disciplinas Turismo de Base Comunitária e Etnogeografia, Etnoambientalismo. Em campo, ocorreram conversas com as lideranças locais das
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Aldeias Imbiruçu e Sede e seus familiares mais próximos, assim como moradores do município de Carmésia. Em um terceiro momento, de posse dessas informações foi definido o título do artigo e, a análise dos dados deu origem à resposta das questões orientadoras do trabalho.

2 TURISMO COMUNITÁRIO E O TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA

O turismo comunitário surgiu como um contraponto a lógica de dominação e degradação imposta pelo turismo globalizado (Costa, 2009), dando vazão às lutas pela terra e articulação contra a expropriação de comunidades, efetivando a noção de empoderamento das mesmas da sua realidade de forma a militar por seus objetivos comuns. Assim, segundo Luzia Coriolano o turismo comunitário é aquele em que: “As comunidades de forma associativa organizam arranjos produtivos locais, controlando as terras e as atividades econômicas associadas ao turismo”, seu objetivo é o trato igualitário por toda comunidades dos problemas e benfeitorias advindas do turismo, ou seja, primando pela gestão participativa. O contrário do turismo global, que acaba motivando o abandono das atividades anteriores praticadas pela comunidade e criando dificuldades em razão do turismo ser uma atividade que sofre com a sazonalidade nos seus serviços e provocando a “desestruturação de economias locais”. Já o Turismo de Base Comunitária-TBC, no plano global, é fruto de novas tendências que têm marcado a (re)significação do turismo, o que se deve à discussão sobre participação social e governança democrática e o perfil dos turistas que estão conectados com temas da responsabilidade social e ambiental só poderá ser desenvolvido se os protagonistas deste destino forem sujeitos e não objetos deste processo. A autora Marta Irving relata que o “TBC resulta de uma demanda direta dos grupos sociais que residem no lugar turístico, embora atores externos funcionem como indutores do turismo de base comunitária”. No entanto, como mencionado supra, é fundamental que a iniciativa parta da comunidade, pois é dela que partirá as iniciativas, a atuação junto ao turista, e por fim, o seu objetivo último de “protagonismo social, condição para este tipo de turismo”. Sendo assim a autora define bem o TBC na seguinte parte:
“É uma nova filosofia de se fazer e pensar o turismo, associados a compromissos de responsabilidade social e ambiental, no qual não apenas se busca assegurar a participação das populações locais em todas as etapas do processo, mas também a qualidade ambiental e social do destino; indicando a necessidade de parcerias com a gestão pública, numa perspectiva estratégica”.

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Observou-se que, os conceitos citados se assemelham ao enfatizarem que a comunidade tem o controle efetivo da atividade turística, ressaltado a importância do envolvimento participativo, já presentes no turismo comunitário e condição de existência para o TBC. O turismo comunitário e o TBC, assim, são realizados de forma integrada às demais atividades econômicas, promovendo simultaneamente, iniciativas que fortaleçam, por exemplo, a agricultura, a pesca ou o artesanato, buscando a geração de emprego e renda para os residentes locais, por meio da priorização dos pequenos empreendimentos, a dinamização do capital local e a garantia da participação de todos os grupos de interesse, utilizando-se de um planejamento que é descentralizado.

2.1 O SENTIDO DE COMUNIDADE E AS COMUNIDADES INDÍGENAS

Para compreendermos o turismo comunitário em comunidades indígenas, primeiramente é preciso o entendimento do conceito índio, bem como o de comunidades indígenas. O segundo está intrinsecamente relacionado com o sentido autóctone da palavra índio. As primeiras definições acerca do que é “o” e “ser” índio foram na década de 1949, no II Congresso Indigenista Interamericano no Peru, que formulou da seguinte forma:
“O índio é o descendente dos povos e nações pré-colombianas que têm a mesma consciência social de sua condição humana, assim mesmo considerada por eles próprios e por estranhos, em seu sistema de trabalho, em sua língua e em sua tradição, mesmo que estas tenham sofrido modificações por contatos estranhos."

Posteriormente em 1957, o antropólogo Darcy Ribeiro reiterou a definição de indígena no contexto brasileiro, como:
“[...] aquela parcela da população que apresenta problemas de inadaptação à sociedade brasileira, motivados pela conservação de costumes, hábitos ou meras lealdades que vinculam a uma tradição pré-colombiana. Ou, ainda mais amplamente: índio é todo indivíduo reconhecido como membro por uma comunidade pré-colombiana que se identifica como etnicamente diversa da nacional e é considerada indígena pela população brasileira com que está em contato.”

Este conceito expõe o ser índio como identificação coletiva, onde o grupo identifica o outro como índio. Não se trata apenas de auto-identificação, mas de um sentido comum entre o grupo, através de seus costumes, tradições e modo de vida, que vai além do contexto histórico, e sim do sentido cultural do ser com seu coletivo. Esta definição contribuiu significante para a elaboração de diretrizes e políticas indigenistas como a criação do Estatuto do Índio que segundo a FUNAI
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norteou as relações do governo brasileiro com as populações indígenas. Tendo em vista as definições acima, o termo comunidades indígenas vai de encontro com o conceito de comunidade e também no seu sentido de pluralidade. Assim o conceito de comunidade é entendido por Monteiro (2004), como
“[...] comunidade envolve relações e interações, ambos de fazer e saber como de sentir, pelo fato de compartilhar os aspectos comuns. E essas relações não são à distância, se dão em um contexto social em qual se tem desenvolvido historicamente e culturalmente determinados interesses ou certas necessidades, em um contexto determinado por circunstâncias específicas que, para bem ou para mal, afetam em maior ou menor grau a um grupo de pessoas que se reconhecem como partícipe, que desenvolvem uma forma de identidade social devido a história compartilhada e constroem um sentido de comunidade.”

Já o conceito de comunidades indígenas no seu sentido de pluralidade e em território indígena, respectivamente, entende-se como aquelas comunidades que se consideram segmentos distintos da sociedade nacional em virtude de uma consciência de sua continuidade histórica com sociedades pré-colombianas. Cunha (1985). Assim as comunidades indígenas são um conjunto de pessoas ou indivíduos que possuem aspectos, hábitos, modo de vida e contextos diferentes dos demais indivíduos da sociedade, devido ao seu processo histórico-cultural antecedente ao período do descobrimento do Brasil. Entretanto, estes aspectos, costumes e modo de vida são o que fazem esses grupos se constituírem como comunidade, segundo a percepção de Monteiro (2004) pois, os índios vivem em coletivo e em uma dinâmica social de relações compartilhadas conforme os costumes e crenças que se transcendem no tempo e espaço. Tendo em vista as considerações teóricas de comunidades indígenas, o envolvimento destas com a atividade turística surgem como uma alternativa de revitalização cultural e fortalecimento da etnicidade, onde os indígenas desenvolvem formas e/ou condições de assegurar sua existência. Segundo alguns estudos no campo da antropologia os povos indígenas têm se posicionado conscientemente diante desta realidade, acionando a cultura não só como um marcador de identidade, mas também como mecanismo político de retomada do controle da própria autonomia, Sahlins (1997). Dessa forma, no cenário contemporâneo as aldeias indígenas passam a empreender e dialogar com a estrutura oficial do setor, ou seja, eles se reconhecem como atores do processo, e passam a “autogerir” diante das necessidades sentidas, um espaço para “o fazer” turístico.

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2.2 HISTÓRICO DA COMUNIDADE PATAXÓ DA TERRA INDÍGENA GUARANI

O povo indígena Pataxó habitante no município de Carmésia em Minas Gerais reside hoje na T.I. Guarani. Nesta área vivem populações indígenas do tronco linguístico Macro-Jê, das etnias Pataxó, e também Krenak e Maxacali, e neste território dividem-se em famílias nas aldeias Imbiruçu, Retirinho e Sede - Fazenda Guarani. Os pataxós de Carmésia vieram do extremo sul da Bahia, mais precisamente da aldeia Barra Velha. O processo de ocupação e migração desses povos em Minas Gerais deu-se por dois fatos históricos: Revolta dos Caboclos em Porto Seguro no ano de 1951 conhecida também pela oralidade indígena como Fogo de 51 e a transformação das terras indígenas no Parque Nacional Monte Pascoal, em 1943. O Fogo de 51 ocorreu na aldeia Barra Velha quando o cacique Honório Borges retornara à aldeia, após sua luta pela conquista das terras indígenas no Rio de Janeiro, neste momento três homens que se diziam autoridade do governo chegaram à aldeia com o pretexto de demarcar as terras reivindicadas pelos índios, e convidá-los a visitar um lugarejo vizinho chamado Corumbau, porém o intuito dos homens era fomentar um assalto neste lugarejo que envolvesse os índios e que os mesmos fossem os autores do crime. Após o assalto a polícia militar saiu em uma noite de Porto Seguro, Prado e Itamaraju para atacarem a aldeia e a incendiaram, muito dos índios não conseguiram escapar do conflito e foram capturados, torturados e levados à Caraíva, cidade vizinha onde foram recebidos com hostilidade. Os outros índios que conseguiram fugir se refugiaram na floresta e outros partiram para a venda de mão-deobra para fazendeiros da região. Neste momento iniciou-se a diáspora dos Pataxós, pois após o massacre de 51 várias unidades foram quebradas e muitas famílias se desmembraram e se dispersaram no estado da Bahia e Minas Gerais em busca da sobrevivência. O outro acontecimento influente no deslocamento dos índios Pataxós à Minas Gerais foi à criação do Parque Nacional Monte Pascoal pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal em 1961 em propriedade indígena. Nesta época os Pataxós sofreram um processo violento de esbulho e muitos índios deixaram a região, porém outros resistiram e resolveram enfrentar os agentes florestais de IBDF. Como resultado disto somente 8.627 ha de área do Parque foi destinado para os Pataxós, sendo que a realização da demarcação da área do Parque foi em desacordo com a reivindicação dos índios, pois tal demarcação exclui os limites da terra indígena à área de mangue, da mata Monte Pascoal e da aldeia Pé da Pedra. Atualmente o Parque conta com uma área de 22.500 ha distribuída em território indígena e unidade de conservação. A chegada dos Pataxós em Minas Gerais deu-se em decorrência destes acontecimentos, e na realidade estes povos indígenas se instalaram inicialmente na cidade de Resplendor (MG), onde havia um reformatório para índios em território indígena dos Krenak. Este reformatório foi
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oficializado na década de 69 e funcionava o Posto Indígena Guido Marliére. Posteriormente o reformatório foi transferido para uma extinta base militar em Carmésia, devido aos conflitos entre comunidades indígenas e proprietários rurais do entorno. Assim o reformatório passou a ficar em Carmésia e ganha o nome de Fazenda Guarani. Como anteriormente citado, a região da fazenda funcionou antigamente como um centro de treinamento antiguerrilha da Polícia Militar de Minas Gerais, somente no ano 1972 por meio de um acordo, o Estado doa a área para a FUNAI, e esta transforma a área em colônia agrícola, transferindo para esta região comunidades das etnias Krenak, e posteriormente os Guaranis e Pataxós. Os pataxós investem na recuperação de sua cultura e de seus direitos, por meio de projetos e ações na área de educação, meio ambiente, sociedade e cultura, participam de um momento histórico atual pautado na reinvenção, no resgate, e na reafirmação de sua cultura étnica enquanto Pataxó – povo com origem na água da chuva e do Deus Txó Pai e com dialeto “adormecido” no qual trabalham para “acordá-lo”, este o Patxohã. Como exemplo disto a aldeia está inserida no Programa de Implantação das Escolas Indígenas de Minas Gerais, dirigido pela Secretaria de Educação do Estado, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, o Instituto Estadual de Florestas e a Fundação Nacional do Índio. Os pataxós reconhecem que a escola é resultado da luta e fortalecimento da identidade dos povos indígenas do Brasil.

3 RESULTADOS ALCANÇADOS E DISCUSSÃO

De acordo com o que foi percebido em campo, os pataxós possuem uma organização política pautada na base participativa, embora tenha a figura patriarcal do Cacique Romildo na aldeia Imbiruçu, nota-se que os interesses, expectativas, e até mesmo formas de poder são construídos em ações compartilhadas da aldeia. Dessa forma ocorrem reuniões para que sejam abordados os interesses do grupo, bem como suas necessidades, conflitos, direitos e também a nomeação das lideranças da tribo como: definição do cacique, dos agentes comunitários de saúde e os professores. Estas reuniões acontecem sempre em que é percebida uma necessidade da aldeia e em seguida toda aldeia é convocada a participar. Alguns dos interesses e necessidades identificados pelos índios que são requeridos pelo Estado é a educação indígena, a questão fundiária e a saúde do índio. Os Pataxós da aldeia Imbiruçu, participam do Programa de Implantação de Escolas Indígenas em Minas Gerais e o Projeto de Formação de Professores Indígenas, hoje possuem uma escola em alvenaria, com salas de aula, cozinha, banheiros e uma biblioteca, no formato padrão referente ao programa. Nas Aldeias Sede -Guarani e Retirinho uma observação em relação a arquitetura de suas escolas é o formato circular das salas de aulas, lembrando a estrutura das ocas e do Centro Cultural – espaço de convivência da aldeia, onde são realizados rituais e celebradas as festas tradicionais da
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aldeia. As dinâmicas das aulas acontecem entre crianças e adultos, ou seja, não existe diferenciação de séries e/ou idades, todos aprendem coletivamente. O projeto de formação de professores indígenas está presente tanto na aldeia Guarani quanto na aldeia Imbiruçu, esta última possui nas ações da professora indígena Lucidalva uma grande liderança indígena. Segundo seus relatos, ela se tornou professora por desejo da comunidade e pela percepção que tivera de como as lideranças antigas lutavam pela educação e uma escola que correspondesse à cultura indígena. Este programa é uma ação conjunta da SEE/MG, FUNAI, UFMG e IEF, realizada no ano de 1993 com o objetivo de elaborar um plano pedagógico de acordo com as diretrizes da Secretaria de educação-SEE/MG e com a realidade das aldeias indígenas mineiras. As ações do Programa de Implantação das Escolas Indígenas em Minas Gerais baseiam-se em viabilizar o ingresso do professor indígena na carreira de magistério, assim como habilitar o professor indígena em formação para o exercício da profissão. Existem vários projetos em andamento nessas comunidades da T.I Guarani, como o de educação mencionado acima, o de saúde indígena, o de piscicultura e Carteira indígena, este último programa que repassa recursos diretamente para as associações indígenas para que elas possam desenvolver seus projetos e o Projeto de Reflorestamento e Recuperação Ambiental da Reserva Pataxó – desenvolvido desde 2010 pelo Povo Pataxó e financiado pelo Ministério do Meio Ambiente em parceria com a FUNASA, este projeto tem como intuito conscientizar e retratar a reflexão e o saber indígena da aldeia pataxó sobre os elementos naturais através de uma cartilha. As fontes de renda relatadas foram o artesanato, e os salários dos agentes de saúde indígena e professores. Quanto à produção agrícola, na aldeia Imbiruçu pauta-se na subsistência local, familiar. Seus rituais são celebrados em casamentos, batizados, e na Festa das Águas realizada em 05 de outubro, estes acontecem no espaço que tem o nome do pai do cacique Romildo, Môgâga (antigo cacique de Imbiruçu). Todos os rituais fazem referencia aos seus ancestrais, demonstrando grande respeito às vidas Pataxós que ainda encontra-se viva na memória da comunidade. Nos rituais são cantadas suas músicas, de acordo com relatos “só a fé que muda em função da cerimônia”, e as danças e cantos são uma forma de se conectarem com os ancestrais. Ao receberem visitantes, promovem o que se entende pelo “encontro eu-tu” de Roberto Bartholo; eles ensinam a suas brincadeiras e pedem que os visitantes ensinem uma a eles. É na figura do cacique e vice-cacique que é feita a representação política da aldeia, cabendo a estes buscar os benefícios para a comunidade, assim como participarem de reuniões e

seminários/congressos envolvendo entidades e grupos étnicos. Sobre este assunto foi relatado um histórico de “briga”, luta junto a FUNAI e FUNASA pelos direitos próprios da comunidade, de forma que os projetos não fossem desenvolvidos de cima para baixo, mas com a participação da
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comunidade na construção deste para a aldeia. Esta foi uma reclamação que se repetiu que os projetos são trazidos prontos de dentro destes órgãos sem conhecer a realidade da comunidade e se realmente os atende. Além do cacique, foi relatado o papel de participação nas decisões das aldeias pelas lideranças conferidas aos professores e agentes de saúde indígena. A professora Lucidalva mencionou que a língua encontra-se “congelada”, sendo dada o sua continuidade a partir deste momento que ficou estática. Demonstraram interesse na implementação do turismo e relataram que já recebem visitantes, geralmente grupo de estudantes e pesquisadores e na Festa das Águas, expressão ritual que também se realiza como manifestação cultural na aldeia Imbiruçu, ao consistir numa proposta de encontro para com as culturas tradicionais étnicas que se (re)inventam e se (re)significam nestes novos territórios, representados politicamente no cenário federal nas T.I. – Terras Indígenas.

4 ANÁLISES E REFLEXÕES

Durantes os encontros e percepções adquiridas nas experiências empíricas na aldeia,foi possível perceber que as lideranças da comunidade Imbiruçu possuem uma articulação interna satisfatória, e, pode-se dizer que isto é possível devido aos princípios e sentido de comunidade presentes. É neste sentido que, sim, as necessidades e interesses do grupo são buscados, sendo o nós, o coletivo, a base de suas reivindicações. Foi mencionado pelo cacique que as reuniões são realizadas quando surge uma necessidade, como para tratar de algum projeto, ou quando recebem visitas. Além de momentos de ritual da comunidade, como casamentos e batizados, sendo, portanto, os temas e caráter das reuniões promovidas pelo coletivo. Quanto à atual pauta de interesses da comunidade, foi percebida que é aquela pleiteada por toda a população indígena do Estado. Questões sobre saúde, alimentação, educação, delimitação de terras e transporte consistem hoje as principais necessidades do grupo que vem sendo buscada junto aos órgãos estaduais e federais. Vale ressaltar que nada mais é do que a reivindicação dos direitos sociais instituídos pela Constituição de 88 e regulado pelo Estatuto do Índio e decretos. E, como mencionado pelo cacique, tal militância não consiste apenas em requerer os seus direitos, mas também ao de ampliar a atuação dos mesmos nos processos de decisão e implementação das políticas sociais voltadas para o povo indígena. Na voz do próprio cacique: “Querem propor os projetos de cima para baixo, sem saber o que a aldeia realmente precisa”. É neste ponto que foi possível observar que a comunidade Pataxó faz jus a democracia participativa, no qual o acesso aos seus direitos é buscado, reivindicados, partindo, portanto, da comunidade, ao invés de unicamente recebê-los do Estado, primazia da democracia representativa.
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Tendo em vista o histórico do povo indígena no Brasil, não foi só um contexto da muitas carências e abandono que permitiu este quadro de lutas e “brigas” pelos seus direitos, mas também devido à insatisfação de que as políticas sociais para o índio brasileiro não o atendia verdadeiramente, conforme comentário do cacique Romildo, de que os órgãos que os representava não conhecem a sua realidade. É aqui que entra a participação indígena nos seus processos de política social, no qual é reivindicados suas necessidades e interesses conforme a sua realidade. Foi observado que as ações coletivas em busca de seus interesses são realizadas de forma organizada, por meio de um conselho instituído pela própria comunidade indígena, o Conselho dos povos indígenas de Minas Gerais. Pode-se inferir, no entanto, que não consiste num conselho instituído na base de um órgão, como o da FUNAI, e sim da sua própria iniciativa, utilizam de mecanismos presentes na democracia participativa para fazer jus aos seus direitos, como em plenárias na assembleia legislativa e em encontros com grupos indígenas. Pode-se inferir que este é um genuíno quadro de participação social conforme conceituação de Demo (1993), no qual consiste num processo, em longo prazo, que visa à transformação de sua realidade. É categoricamente a sua autopromoção72 por requererem uma política social indígena centrada nos seus próprios interesses, sendo articulada, pelo menos, uma co-gestão, caso ainda não seja a de autogestão, das suas demandas. Mesmo a comunidade participando de programas assistencialistas foi observado que sua atuação no sentido de autopromoção e co-gestão, segundo Demo (1993) não necessariamente visa superar as formas assistencialistas da política social indígena praticada atualmente. Como mencionado pelo autor, a autopromoção não se “encerra em seu aspecto político”, tendo em vista “a indissolubilidade das duas faces da política social”, ou seja, o lado socioeconômico. O que compromete a essência da participação social, não sendo aqui confundida como um estado acabado, mas sim em processo de conquista das duas faces que a complementa. Tal argumento pode ser justificado tendo em vista as seguintes afirmações colhidas em campo: os projetos em implementação na comunidade são a educação escolar indígena, projeto de piscicultura, que foi apontado que ainda é tímida a sua produção; projeto saúde indígena, “composição ambiental”, para a conservação de suas terras. O artesanato foi relatado como fonte de renda, mas cabe dizer que foi entendido como uma renda sazonal; outra fonte de renda observada foi os salários recebidos pelos agentes de saúde indígena e professores; foi relatado que o cultivo de gêneros alimentícios é apenas para o abastecimento da aldeia. A comunidade participa do programa Bolsa família e também da carteira indígena voltada para as associações indígenas implantarem os seus projetos.
72

Segundo Pedro Demo (2001) a autopromoção é a característica da política social centrada nos interessados, que passam a autogerir ou co-gerir a satisfação das suas necessidades, para superar a situação assistencialista

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O que cabe ressaltar, já que há apenas os projetos mencionados acima e, talvez, as fontes de renda, o que se defende é a busca, por parte da comunidade, de projetos que visem uma maior independência financeira, para suprir, no mínimo, a escassez de alimentos reclamada pelos mesmos. Não se deve deixar de mencionar o interesse da comunidade pelo turismo como fonte de renda. Pode-se entender tal interesse como uma forma de complementar os benefícios do assistencialismo, mas não para supri-lo, tanto pela postura da comunidade quanto pelo caráter conferido ao turismo. Pois, como ressaltado no encontro em campo, o turismo não pode ser considerado como uma alternativa que irá sanar a questão da baixa renda, tendo em vista seus impactos e sazonalidade. O aspecto positivo é que, a concepção de turismo almejada, o turismo comunitário ou de base comunitária, vai de encontro às peculiaridades do contexto social e natural da comunidade, permitindo inferir um processo de implantação do mesmo de forma menos impactante. Observa-se que o Povo Pataxó estão em processo de conquista de uma maior participação junto às políticas sociais que visam beneficiar o modo de vida tutelado pelo Estado, em busca da promoção do desenvolvimento dos serviços públicos básicos e acesso aos mesmos, sobretudo no que tange os direitos sociais, como saúde, educação, moradia e questão fundiária. Tendo em vista esta questão, compreende-se que este processo de participação é de fato moroso, e que o fortalecimento da etnicidade pataxó e consolidação dos interesses coletivos são o caminho para uma mobilização frente às ações pelo Estado, início de uma autogestão e conquista de direitos, que vão desde a saúde até a fase de complementação da renda por meio do turismo comunitário. Por fim, retomando a problemática do presente artigo, caberá aqui, na realidade, uma análise do contexto sócio-político, exposto brevemente acima na Aldeia Pataxós no município de Carmésia. Assim, quais são os processos de organização política da comunidade indígena Pataxós? Pode-se dizer que o princípio que condiciona os processos de organização política da comunidade em questão está diretamente ligado à sua forma de organização social, ou seja, está associada ao sentido de comunidade. A forma como são tratadas as questões de política social indígena é condicionada, primeiramente, pela “cultura comunitária”, que segundo Demo (1993) “é a parteira da participação. Não há projeto comum de vida, assumido em coesão comunitária, sem identidade do grupo”. É nesta base considerada sólida que os processos de organização política estão firmados, garantindo, pode-se afirmar melhores resultados nas mobilizações e militâncias, além da noção de “empoderamento”.Gohn (2001). Acredita-se que estes condicionantes permitem, em longo prazo, maior estrutura organizacional e capacitação política, contribuindo para o processo de organização política no que se refere a articulação com o Estado e sociedade civil, na figura das ONGS, para atingir os seus objetivos. Como relatado, a participação social é, também, uma das bases de alicerce da organização política, e como processo, está em constante mudança e fase de conquista, cabendo a ela a
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autopromoção da comunidade, atrelando as suas duas faces, a política e socioeconômica, para que os Pataxós possam, futuramente, atingir mais que uma co-gestão, ou seja, a uma autogestão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente artigo alcançou o intuito de verificar e analisar uma das prerrogativas necessárias para a organização de práticas turística em comunidades, no caso em questão, na comunidade indígena dos Pataxós. Vale dizer que, como observado, a articulação e sentido comunitário que propiciam os processos participativos, permitem ao grupo engendrar processos de organização política. E, originariamente, tais processos de participação e organização política presente dentro da comunidade em função de motivações coletivas, estão diretamente ligados as experiências de turismo comunitário, como foi observado na experiência empírica dos autores e relatos da tribo grupos que visitam a aldeia. Entretanto, cabe dizer que, quanto às conclusões a que se chegou sobre a autopromoção e sua relação com os possíveis níveis de dependência ao assistencialismo, tais discussões consistem em um tema que necessita um melhor aprofundamento em seu estudo, tendo em a fragilidade da pesquisa considerada por necessidade de maior contato com comunidade indígena ou de uma vivência imersiva. Uma prova de tal necessidade de aprofundamento dos estudos nesta temática consiste no fato de que não foi possível concluir sobre o caráter de gestão da comunidade, sendo considerada que há a busca por uma co-gestão nas políticas e projetos sociais, restando ainda outros indicadores a serem averiguados para se concluir pela presença da autogestão na comunidade. Por fim, pontua-se que os processos de organização política, no qual estão presentes os processos de participação social, por se tratar de uma dinâmica, é conferida o status de sempre. Exemplo de Estrutura, a comunicação e educação da comunidade junto ao Estado e sociedade civil. Vir a ser, ou seja, de não chegar a ser, um dia acabada e suficiente. Mas, se todos os seus pontos não forem devidamente trabalhados, como no caso das duas faces da autopromoção, no qual suprir o assistencialismo se faz importante, os processos de organização política permanecerão na lógica da militância por seus direitos sociais entendidos como os mais básicos. O que se quer dizer é quê, engendrar novos mecanismos de mobilização, de reivindicações, irão conferir um considerado desenvolvimento de sua organização sócio-política e, por fim da condição indígena brasileira, ainda percebida de grande carência e miséria.

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A CULTURA QUILOMBOLA COMO ROTEIRO TURÍSTICO NA PARAÍBA

Ívyla Monteiro PEREIRA Graduanda em Turismo pela UFPB ivynhamp@gmail.com Maria Eduarda C. G. PEREIRA Graduanda em Turismo pela UFPB dudapereira__@hotmail.com Maysol André de SOUZA Graduanda em Turismo pela UFPB maysol1@hotmail.com Verônica Vanessa R. FRAZÃO Graduanda em Turismo pela UFPB vanessafrazao_19@hotmail.com Orientadora73

RESUMO

O objetivo deste trabalho é apresentar um roteiro turístico para a Comunidade Quilombola do Ipiranga/PB, como fonte de renda dos moradores. Através de uma pesquisa exploratória e descritiva, foi exposta a história dos quilombos, seu contexto histórico-cultural, os aspectos culturais, sociais e econômicos da região, os impactos positivos e negativos de um possível turismo na localidade. Após uma entrevista74 e trilha feita na comunidade, propusemos um roteiro turístico, de forma a contribuir como fonte de renda e meio de valorização da cultura existente. PALAVRAS-CHAVE: Quilombo; Comunidade Quilombola do Ipiranga; Aspectos HistóricoCulturais; Roteiro Turístico.

INTRODUÇÃO

Os quilombos não consistiam apenas em comunidades vivendo em pontos ermos. Deve-se atentar para o fato de que, ao mesmo tempo em que havia quilombos completamente isolados, havia,também, aqueles localizados próximos a fazendas, engenhos, vilas e até mesmo das cidades
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Orientadora: Regina Maria Rodrigues Behar. Professora Associada, do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Paraíba. 74 Informações cedidas na entrevista por Ana Lúcia Rodrigues do Nascimento.

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(os chamados quilombos suburbanos). Esta era a principal preocupação dos senhores e governantes daquela época, pois estes quilombos:
“Mantinham rede de apoio e de interesses que envolviam escravos, negros livres, e mesmo brancos, de quem recebiam informações sobre movimentos de tropas e outros assuntos estratégicos. Com essa gente eles trabalhavam, se acoitavam, negociavam alimentos, armas, munição e outros produtos; com escravos e libertos podiam manter laços afetivos de parentesco, de amizade” (REIS, 2007, p.20).

Os escravos amocambados costumavam invadir fazendas e engenhos para roubá-los e, posteriormente, tentar destruí-los. Também assaltavam viajantes nas estradas, atacavam povoados, enfim, aterrorizavam os senhores e governantes daquela época. Já nos mocambos, eles tinham uma vida com muitos afazeres: plantavam e colhiam, sobretudo a mandioca com a qual faziam a farinha, plantavam também o milho, caçavam e constituíam família. Neste ambiente, que para eles representava mais liberdade e autonomia, expressavam através de seus costumes algumas de suas tradições trazidas da África. Para alguns historiadores, os escravos fugitivos buscavam recriar nos quilombos a África que deixaram para trás, afim de “[...], construir uma sociedade alternativa à escravocrata” (REIS, 2007, p.21). Deve-se considerar que, tanto nas senzalas, como nos quilombos, os escravos nativos da África buscavam aproveitar as tradições relacionadas com aquelas deixadas no continente negro. Estas tradições, em alguns casos, foram submetidas às alterações por parte da sociedade escravocrata, outras vezes, sofreram a influência de costumes e tradições originariamente dos índios, brancos e, até mesmo, das várias etnias africanas. No âmbito da religiosidade dos quilombolas, além de observarmos a influência dos cultos portugueses, encontramos também aspectos tipicamente africanos, como pode ser percebido na descrição de um comandante de expedição antiquilombo, ao se deparar com o quilombo no Limoeiro no Maranhão em 1877:
“Duas casas de santos; sendo uma com imagem de santos, e outra onde encontramos figuras extravagantes de madeira, cabeças com ervas podres e uma porção de pedras de que em tempos remotos os indígenas se serviam como machados, as quais a maior parte dos mocambeiros venera como a invocação de Santa Bárbara” (REIS, 2007, p.22).

Nesta descrição, está nítida a mistura de valores e instituições dos negros, brancos e índios em um só contexto cultural, constituindo a religião negra. Através de uma visita feita ao quilombo do Ipiranga, recolhemos os dados necessários para a exposição das características e aspectos históricos e culturais, suas tradições, seus costumes antigos,
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suas atividades cotidianas. Desta forma, observamos o que e como estes aspectos podem contribuir para a construção de futuros roteiros turísticos que integrem, principalmente, a cultura e a história da Paraíba, tendo em vista a responsabilidade social e ética para o desempenho de tais roteiros. Desde já, é sabido que muito destes aspectos se perderam ao longo do tempo e a comunidade que encontramos é composta por pessoas com hábitos cotidianos comuns, assim como qualquer outra comunidade rural. Entretanto, o que diferencia a comunidade quilombola do Ipiranga das demais é a consciência de que são herdeiros de uma cultura de grande valor, a qual buscam resgatar e resguardar, dentro de suas possibilidades. Portanto, dada uma breve contextualização sobre os quilombos, apresentaremos sucintamente os quilombos paraibanos, a caracterização da Comunidade Quilombola do Ipiranga/PB e uma proposta de um roteiro turístico para a região, abordando os impactos positivos e negativos do turismo.

1 OS QUILOMBOS NO CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL

Durante, e até mesmo, depois do período da escravidão no Brasil, que oficialmente acabou em 1888 com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, era constante a formação de grupos de escravos fugitivos chamados de quilombos ou mocambos. Estes agrupamentos se formaram também em outras áreas do Novo Mundo, onde houvesse escravidão: a Jamaica, o México, as Guianas coloniais, a Venezuela e Colômbia também testemunharam a formação destes ajuntamentos. “No século XVIII, quilombo já era definido como ajuntamento de cinco ou mais negros fugidos arranchados em local despovoado” (REIS, 2007, p.20). Com relação ao número de membros de um mesmo quilombo, isto é relativo, uma vez que, muitos fugitivos migravam de um quilombo para outro. O quilombo dos Palmares, por exemplo, que foi o mais famoso de todos, possuía milhares de negros. Este se localizava na serra da Barriga, atual região de Alagoas. Na verdade, Palmares correspondia a uma federação de vários outros quilombos da região. Um de seus principais líderes foi Zumbi, que presenciou a assalto final a Palmares em 1694. Devido à repercussão do quilombo de Palmares, os senhores e governantes coloniais criaram o posto de capitão-do-mato, “[...], instituição [...] como milícia especializada na caça de escravos fugidos e na destruição de quilombos” (REIS, 2007, p.20). Após a apreensão, seguiam-se as punições, que eram estabelecidas por autoridades locais ou pelos próprios governantes. Estes castigos se constituíam em ações bárbaras, desde o corte de uma das pernas ou o tendão de Aquiles do escravo, até a pena de morte, em caso de reincidência de ‘delito capital’. Em outros casos, a Metrópole era responsável em marcar com a letra “F” o ombro do escravo e, para esta pena, em caso de reincidência, cortava-se uma orelha.
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QUILOMBOS PARAIBANOS
“O mais antigo quilombo de que se têm notícias na Paraíba, data de fins do século XVII. Segundo dados fornecidos, na Paraíba tiveram notícias de um mocambo em 1691, localizado na Serra da Cupaoba (atual Serra da Raiz)”. (AQUINO, 2001, p. 225).

Dos antigos quilombos existentes na Paraíba, o mais conhecido é o do Cumbe. E o pouco que se sabe sobre ele advém dos documentos transcritos por Irineu Ferreira Pinto, nas suas “Datas e Notas Para a História da Paraíba”. As informações a respeito da localização deste quilombo são muito vagas e controversas. Alguns afirmam que ficava onde se encontra a atual Usina Santa Rita, na várzea do rio Paraíba, pelo fato de lá ter existido um engenho denominado Cumbe que, por sua vez, seria o nome remanescente de um antigo quilombo. Outros acreditam que este mocambo localizava-se nos arredores da atual Campina Grande. Há ainda aqueles que afirmam que o quilombo Cumbe estava localizado na região da aldeia Cariri, atual município de Pilar. Nenhum quilombo de relativa importância foi documentado na Paraíba. Todos foram destruídos facilmente sem resistência. Em Boa Vista, município localizado no Cariri paraibano, encontra-se um lugar denominado “Pai Mateus” ou “Lajedo de Pai Mateus” que corresponde a um ponto de visitação turística no estado. Lá existe uma caverna com evidentes sinais de ter sido habitada por um possível negro ermitão, fugido de cativeiro, e que ali viveu isoladamente. A beleza natural do lajedo, agregado a estes aspectos da tradição popular, tornam este local um ponto turístico na Paraíba, além de resgatar valores de nossa história, mesmo que seja por meio de fantasias ou lendas, como afirma o dito popular “povo falou, vai vê, foi ou é ou ta pá ser”. Atualmente a Paraíba possui remanescentes de quilombos em 22 municípios – Santa Luzia, Areia, Guriém, Ingá, Alagoa Grande, Varzéa, Conde, Cajazeirinhas, Riachão do Bacamarte, Coremas, São Bento, Catolé do Rocha, João Pessoa, Serra Redonda, São José de Princesa, Dona Inês, Tavares, Livramento, Cacimbas, Diamante, Manaíra e Nova Palmeira/Picuí -, totalizando 32 comunidades em todo estado.

2 METODOLOGIA

Este trabalho constitui-se em uma pesquisa exploratória e descritiva, na qual utilizou-se como fonte de pesquisa, inicialmente informações da internet, livros, artigos e monografias, sobre a história dos quilombos e dos quilombos paraibanos. Em seguida, fez-se uma visita técnica à Comunidade Quilombola do Ipiranga/PB, onde entrevistamos uma moradora e líder da comunidade.
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A visita de campo foi realizada no dia 4 (quatro) de junho de 2011, das 8h às 12h, com a utilização de um questionário preestabelecido, uma câmera fotográfica para a filmagem e gravação da conversa e registro de fotos do local. A partir desta entrevista e do referencial teórico pesquisado, obtemos as informações necessárias para o desenvolvimento deste trabalho.

3 DESCRIÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

A Comunidade Quilombola do Ipiranga está localizada na Mesorregião da Mata Paraibana e na Microrregião João Pessoa, tendo com limites: ao norte, João Pessoa; ao sul, Pitimbu; a leste, o Oceano Atlântico; e a Oeste, Alhandra; situada no litoral sul da Paraíba, mais precisamente no município do Conde, a aproximadamente 20 quilômetros de João Pessoa. Constitui-se basicamente em uma área rural, que além do recurso paisagístico, outros atributos chamam a atenção dos visitantes. Tais aspectos serão desenvolvidos abaixo.

ASPECTOS CULTURAIS

O coco de roda é a principal manifestação cultural observada na comunidade quilombola do Ipiranga. Anteriormente, seus membros apresentavam-se para outras localidades, entretanto, há dois anos teve-se a preocupação de organizar reuniões onde as pessoas da localidade pudessem “brincar” o coco. Esta foi a forma que os moradores encontraram de incorporar esta manifestação cultural entre as crianças e os jovens da comunidade. A ideia deu certo, e hoje as brincadeiras acontecem todo último sábado do mês com as crianças participando ativamente do coco de roda, dançando, cantando ou até mesmo tocando. Umas das moradoras da localidade, Ana Lúcia Rodrigues do Nascimento, graduada em geografia pela Universidade Federal da Paraíba, foi premiada pelo trabalho de resgate da cultura local, no Prêmio Cultura Viva Mestra Izabel que prestou homenagem à Dona Izabel Mendes da Cunha, artesã e ceramista de 85 anos do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. O valor do prêmio corresponde a 10 mil reais e o contemplado tem o compromisso de empregar boa parte deste dinheiro no projeto sociocultural em que trabalha. No caso da premiação de Ana Lúcia, segundo ela, mais de 80% do dinheiro foi usado para comprar roupas e instrumentos musicais adequados para as crianças da comunidade e, hoje em dia são utilizados nas apresentações e brincadeiras do coco, além disto, este dinheiro está sendo utilizado também para a construção de um pavilhão que será aproveitado pela comunidade para as apresentações e reuniões comunitárias, uma vez que as reuniões da Associação da Comunidade Negra do Ipiranga são realizadas em um bar da localidade.
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Casa de taipa. Comunidade Quilombola do Ipiranga/PB, 4 de junho de 2011.

Como forma de manifestação cultural também encontramos o ritual da incelença75 que, na comunidade, corresponde às músicas cantadas exclusivamente na ocasião de falecimento de um membro, quando este deseja tal rito. Segundo a tradição local, não se pode cantar a incelença em outra situação porque atrai mortes. São as próprias mulheres do quilombo que cantam (geralmente as mais velhas) e, consiste basicamente em versos triste de saudosismo que são repetidos 12 vezes, tais como: “Adeus, mamãe! Já vou! Até dia de juízo!” A realização deste ritual não é uniforme entre os remanescentes quilombolas, pois, tais cânticos são mais comuns no funeral dos mais velhos, uma vez que estes são mais ligados às tradições. E algumas famílias, pelo fato de participarem de outras religiões ou simplesmente por não gostarem, não o fazem. No quilombo do Ipiranga, a tradição da reza é empregada por duas senhoras – Helenita e Bilma – mas, infelizmente, tal costume não tem ganhado força dentro da comunidade. As rezas devem ser feitas na pessoa três vezes, caso seja quebrada, a rezadeira vai perdendo as suas forças; é um ato onde deve haver o comprometimento de ambas as partes, quem reza e quem precisa dela. Para acontecer, devem ser observadas algumas ‘regras’ que os rezadores devem seguir: a reza tem que ser feita com o sol vivo no céu, não com ele se pondo; deve-se pedir licença ao “pé da planta” (pinhão roxo, manjerioba) usada; a rezadeira mulher deve passar a experiência para
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Valdemar Valente trata a incelença como uma prática do catolicismo popular correspondente à “cantos Também pode ser chamada de

entoados à cabeceira dos moribundos ou dos mortos. Uma espécie de ritual de velório, com benditos e as frases apenas rimadas”. incelência ou excelência. Disponível em:

http://www.jangadabrasil.com.br/novembro27/cn27110a.htm

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meninos, e rezador homem, para meninas. Diz-se que dessa forma a reza, e consequentemente o rezador, ficam mais fortes. No local nenhuma criança teve o interesse despertado em aprender as rezas, nem as benzendeiras quiseram repassar para alguém. Segundo nossa guia, “pensam que irão viver para sempre”. Sendo assim, corre-se o risco de uma tradição tão importante em um quilombo, deixar de existir. Na gastronomia, os habitantes do quilombo do Ipiranga ainda carregam alguns aspectos herdados de seus antepassados, principalmente no modo de preparo de alguns alimentos. Além da moqueca que são comidas feitas a base do leite de coco, encontramos a jiquitaia, uma espécie de molho ou pasta amassada na quenga de coco e feita com ingredientes simples que podem ser encontrados na região: cebola, coentro, pimenta malagueta e sal. A jiquitaia é muito consumida no acompanhamento do peixe assado na palha da bananeira sem nenhum condimento, principalmente quando as pessoas do quilombo vão para os mangues pescar. Com a mandioca fazem a tapioca e o bejú. Há algum tempo atrás estes eram produzidos nas casas de farinha da região. Entretanto, nos dias de hoje pela falta das referidas casas de farinha, as mulheres do quilombo fazem todo o preparo destas comidas em suas casas. A questão da preservação dos costumes quilombolas é trabalhada em alguns aspectos e outros não. Por exemplo, observa-se que, pela falta de interesse, tanto dos mais velhos em repassar, como dos mais jovens em aprender, a tradição das rezas está sendo deixada pra trás, em contra partida, tradições como o coco de roda e algumas formas de preparo das comidas estão tendo maior interesse em resguardar. Está sendo implantado na comunidade um curso de culinária organizado pela CENDAC (Centro de Apóio à Criança e ao Adolescente) e, os líderes da comunidade interessaram-se em resgatar as comidas antigas empregando nestas aulas as receitas das matriarcas mais velhas que ainda possuem tal conhecimento.

ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS

Na comunidade, a principal atividade econômica é a agricultura de subsistência baseada no cultivo de culturas como milho, inhame (São Tomé), jerimum e mandioca. Cada morador possui seu próprio lote de terra, dos quais 80% são utilizadas pelos agricultores e os 20% é preservado.

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Área de plantação. Comunidade Quilombola do Ipiranga/PB, 4 de junho de 2011.

A venda de frutas é uma das fontes de renda da região. Conde/PB, 4 de junho de 2011.

Observamos, em nossa área de estudo, algumas ações dos governos federal, estadual e municipal. O programa social com maior força na localidade é o Bolsa Família do governo federal; existe um programa de habitação que há dois anos já construiu na comunidade 69 casas populares e tem a previsão para entregar mais moradias a 83 inscritos no projeto; além do Programa do Leite e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti). A questão da água na localidade é uma das mais reivindicadas pela população junto a Prefeitura Municipal do Conde, a qual sustenta a promessa de perfurar um poço para os moradores. Quanto à educação, encontramos duas escolas de ensino fundamental na localidade, das quais, segundo Ana, uma apresenta boas condições, enquanto que a outra, como ela mesma descreve, “comparamos com um chiqueiro”. A creche local também
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não apresenta boas condições. Ou seja, a comunidade do Ipiranga, assim como tantas outras comunidades quilombolas, necessita de investimentos em políticas públicas, uma vez que possuem um importante valor histórico-cultural que deve ser valorizado e preservado. Com este propósito é que as três comunidades remanescentes de quilombo do município do Conde - Mituaçu, Gurugi e Ipiranga - estão se unindo, no esforço reivindicatório aos poderes públicos, bem como a partir de iniciativas comunitárias, em busca de melhorias para seus membros. Através da visita e conversas com alguns moradores, observamos que a principal fonte de renda para aqueles indivíduos, quando não é a agricultura de subsistência, é o cargo de funcionário público na prefeitura. Também foi relatada a situação daqueles que migram para outras cidades em busca de melhores condições de vida. De acordo com este cenário, o intuito dos moradores é encontrar formas pelas quais a população local possa sobreviver e desenvolver-se sem a necessidade de migrar para outros locais, de maneira a integrar conservação dos patrimônios histórico, cultural e ambiental, com o possível desenvolvimento de um turismo rural articulado pela própria comunidade, buscando constituir um nicho econômico que cria possibilidades de inserção dos jovens e adultos em atividades que geram trabalho e renda e que, se desenvolvidas a partir da reflexão sobre o diferencial cultural, podem também fortalecer a identidade étnico-cultural do grupo.

4 REALIDADE E IMPACTOS POSITIVOS DO ROTEIRO PARA A COMUNIDADE LOCAL

Em visita ao quilombo do Ipiranga observamos um grande desejo de alguns moradores em desenvolver uma atividade turística rural ou qualquer outra atividade com base no desenvolvimento sustentável. Tendo em vista este interesse, analisamos os pontos positivos e as potencialidades turísticas nesta comunidade. Atualmente as comunidades remanescentes de quilombos, estão passando por um processo de enfraquecimento da cultura local. A perda de seus valores históricos, devido às influências externas, é cada vez mais visível na realidade dos descendentes do grupo que participou do processo civilizatório nacional. Alguns fatores vem agravando ainda mais a realidade destes, tais como: baixa qualidade de vida e as dificuldades na legalização da terra, que são um dos principais problemas enfrentados. A prática do turismo em quilombos pode trazer benefícios para essas comunidades, reduzindo os seus problemas sócio-econômicos e restaurando sua identidade cultural. Basta que essas atividades turísticas estejam aliadas à conscientizações sociais, culturais e ambientais. Para isto é necessário que o turismo se torne um aliado na inclusão dessas comunidades na sociedade, ajudando no desenvolvimento, expansão e restauração da identidade quilombola.
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Sugere-se, então, o turismo rural em comunidades negras rurais como meio alternativo de subsistência, onde os turistas tenham contato com a etnicidade destas comunidades e possam conhecer o cotidiano local; onde também a comunidade possa difundir sua história através da oralidade, mostrar os seus traços culturais e suas manifestações nos diversos campos que vão da gastronomia à arte. Decerto, para a implementação do turismo em propriedades remanescentes de quilombos é necessário que a comunidade, como um todo, esteja aberta a receber os turistas e que tenham plena consciência dos efeitos positivos e negativos que o turismo pode causar. A participação comunitária é essencial para que os efeitos negativos sejam minimizados e para que o turismo, juntamente às demais atividades de subsistência, gerem o desenvolvimento social e a consequente melhora econômica.
“Ampliando a consciência comunitária, o nível de participação e de integração, as comunidades passam a encontrar os caminhos para gerar seu crescimento econômico, seus próprios benefícios que deixam de ser vistos como alvo da doação, da generosidade, da concessão dos políticos e dos governos [...] Os ganhos passam a constituir o fruto da conquista de grupos organizados em comunidades. Prevalece a percepção que tem como referencia as pessoas e não os objetos, por isso ele se dá na escala humana. Quando relativo aos objetos, às técnicas, deve ser identificado como progresso; quando visa à acumulação de capital, é considerado apenas crescimento econômico; quando prioriza o homem trata-se do desenvolvimento social.” (CORIOLANO, 2003, p. 36).

Portanto, com a visitação turística planejada comunitariamente, pode-se projetar a imagem dos quilombos e fazer com que estes sejam reconhecidos primeiramente pela comunidade e posteriormente tenham destaque estadual para que todos tenham conhecimento da sua história, cultura e modo de vida promovendo o devido valor a este grupo étnico e a luta que estes travam para conseguir manter (às vezes, reconstituir) suas tradições e garantir condições de vida dignas aos seus membros.

5 PROPOSTA DE ROTEIRO TURÍSTICO

No último Sábado do mês, com visita marcada, os turistas chegarão ao município do Conde, mais precisamente na Comunidade Quilombola do Ipiranga, no período da tarde, para conhecer a comunidade e conversar com suas lideranças comunitárias. Serão direcionados a fazer uma trilha eco histórico-cultural na localidade, com o intuito de “vivenciar” e conhecer o passado dos moradores e aprender sobre a fauna e flora local, tendo algum
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guia regional conhecedor da história e tradições, que possa durante o percurso fazer com que os visitantes saibam sobre as mesmas. Durante a trilha, passarão pelo Rio dos Homens, com uma bela paisagem. Continuando o percurso, encontrarão a fonte de água mineral, que os moradores consideram como um bem cultural. Também encontrarão dendezeiros, cujo fruto foi bastante utilizado tempos atrás pelo povo da região. Seguindo a trilha, chegarão ao Rio da Ilha, que é a junção do Rio dos Homens com outros rios, onde saberão de histórias envolvendo o mesmo. O guia deve informar aspectos importantes da história e cultura envolvendo os locais e os objetos vistos durante o percurso. No percurso final da trilha, poderão conversar com os produtores agrícolas locais, para saber e conhecer um pouco sobre o sustento dos moradores. Na sequência, será oferecida a água de coco, para refrescar os visitantes. Voltarão para a casa de um membro da comunidade, onde poderão acompanhar o preparo de uma comida típica e saborear outras, como a moqueca, a jiquitaia, a tapioca e o bejú. A comunidade escolherá que locais os visitantes conhecerão e os produtos a serem vendidos, como o milho, o inhame, o jerimum e a mandioca, que são cultivados na própria região. Deste modo, a atividade turística beneficiará a todos os moradores envolvidos. Pondo fim ao roteiro, após a degustação, os visitantes poderão acompanhar a brincadeira do Coco de Roda, onde poderão também brincar, dançar ou apenas observar. Todos os visitantes/turistas deverão marcar com antecedência a data da visitação, sendo proibida a entrada na comunidade sem autorização; deverá ser proibido o registro fotográfico sem autorização; e os turistas deverão estar acompanhados de algum morador. Essas medidas deverão ser tomadas para que não interfiram na tradição da comunidade e evite problemas maiores, como a perda de identidade, da privacidade e a espetacularização da cultura.

SUGESTÕES:  DATA: último sábado do mês; outro sábado do mês.  CONVERSA: conversar com Ana ou com outra pessoa que conheça a comunidade.  CAPACITAÇÃO: capacitar alguns moradores locais para a função de guia, buscando incentivos com a prefeitura do município junto a algumas instituições como UFPB, SEBRAE, SENAC e outros.  TAXA: a taxa do guia deverá ser cobrada. O equivalente a R$ 5,00 (cinco reais) por pessoa ou um valor estabelecido por grupo.

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 GRUPO: o número máximo de visitantes para realizar a trilha é de 20 (vinte) pessoas, para que haja rendimento de informações passadas e aproveitamento econômico. (Ficará a critério da comunidade).  CULINÁRIA: o acompanhamento do preparo não será cobrado, mas as comidas típicas terão um custo razoável, sendo dividido com as mulheres que prepararam.  CAPACITAÇÃO: além do incentivo a produção de pratos típicos, as mulheres devem fazer um curso de capacitação para administração e organização das atividades culinárias.  CASA: escolher a casa de uma moradora que já conhece como se prepara as comidas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do momento que passou a ser reconhecida a identidade do Povo Brasileiro e a inserir a Raça Negra como aquela formadora da nossa identidade, começamos a identificar traços ricos na nossa cultura, religião, culinária, dança e música. Estudiosos buscam descobrir mais dos descendentes daqueles que, por muito tempo, a duras repreensões, foram a base do Brasil. Nós, estudantes das atividades turísticas, antes de qualquer coisa, constituintes do povo brasileiro, precisamos adequar a forma de fazer turismo às necessidades dos remanescentes quilombolas. Por muito tempo o Turismo de Sol e Mar foi o mais procurado, entretanto, o perfil do turista contemporâneo tem mudado. Não se busca conhecer aquilo que já está tão divulgado, procura-se algo novo. E o que vimos em nossa visita ao Quilombo Ipiranga foi justamente traços da cultura de um povo que por muito tempo foi esquecida e pouco valorizada - a “Cultura Quilombola”-, apesar de que ainda não é dado o devido merecimento. A partir da comunicação entre os quilombolas e os turistas, seria possível proporcionar um espaço onde as pessoas poderiam refletir e valorizar tal cultura. Portanto, com a integração de um turismo sustentável, social e comunitário é possível desenvolver atividades que supram as necessidades econômicas da comunidade e proporcione o crescimento da Cultura Popular. O principal objetivo do roteiro turístico proposto é o de fazer com que o turista de adapte e faça parte dos costumes e tradições alheias, sem desfragmentá-los. Por sua vez, os moradores devem mostrar ao visitante aquilo que eles vivem, sem que haja uma espetacularização.

REFERÊNCIAS Aquino, A. V. Quilombos e Remanescentes de Quilombos na Paraíba. In: MOURA, C. (org). Os Quilombos na Dinâmica Social do Brasil. Maceió: UFAL, 2001. p. 255-267.
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REIS, J. J. Ameaça negra. Revista de História da Biblioteca Nacional. n. 27, p. 18-23. dez. 2007. GOMES, F.; PIRES, A. L. C. S. Origens da roça negra. Revista de História da Biblioteca Nacional. n. 27, p. 24-27. dez. 2007. PALMARES fundação cultural. Brasília, 2011. Disponível em:

<http://www.palmares.gov.br/?page_id=88&estado=PB>. Acesso em: 30 jun. 2011. YAGUI, M. M. P. Turismo e Inclusão Social: as comunidades remanescentes de quilombos. São Paulo. Disponível em: <http://www.rimisp.org/getdoc.php?docid=6570>. Acesso em 20 jun.2011. VALENTE, Valdemar. Incelências. Revista Jangada Brasil. 2011. Disponível em:

<http://www.jangadabrasil.com.br/novembro27/cn27110a.htm>. Acesso em: 04 jun. 2012.

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2 - Qualidade do Produto e Serviço Turístico

DIAMANTE LAPIDADO: O TURISMO COMUNITÁRIO NA ORDEM DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS

André Luiz Piva de CARVALHO Docente / UFPB profpiva@uol.com.br

RESUMO

Procuramos situar, num exercício de construção teórico-epistemológica, aliado a pragmáticas proposições, o turismo comunitário como segmento do rol das indústrias criativas, por reconhecermos, em seus princípios, programas e atividades perfis inovadores, que fazem convergir para seu campo criativo todas as instâncias do desenvolvimento sustentável: a economia solidária, inclusão social, valorização da cultura autóctone, conscientização política, ações cooperativistas e preservação ambiental. Desenvolvemos o texto na compreensão de que o turismo comunitário, assim como a economia criativa, é campo de amplo domínio da cultura, fato que o faz ter alta representatividade simbólica, em virtude de ser enaltecido pelas suas contraposições ao turismo convencional, segmento tão criticado pelo seu formato mercantil, e por ter originais configurações, que proporcionam convivências e narrativas locais a visitantes desejosos de autenticidade. PALAVRAS-CHAVE: Indústrias criativas, economia criativa, economia da cultura, turismo comunitário.

Indústrias criativas, economia criativa, ou mesmo economia da cultura são expressões sinonímicas, por isso a possibilidade do uso livre de qualquer uma delas, conforme o fazemos neste texto, para designar a produção de bens e serviços que dependem da criação intelectual, campo, portanto, de larga vastidão, para a circulação da produção artístico-cultural, além de atividades com origem na criatividade, habilidade e talentos individuais ou em grupos, com potencial para movimentar a economia, sendo que o corel group (atividades mais centrais) da área é formado pela propaganda, arquitetura, o mercado de artes e antiguidades, artesanatos, design, design de moda, filme e vídeo, software de lazer interativo, música, artes cênicas, publicações, software e jogos de computador, televisão e rádio. (BRITISHCOUNCIL, 2005, apud MIGUEZ, 2007, p. 102)76. Percebemos que o turismo não é elencado entre as produções do setor, constatação que pode causar estranheza – principalmente a quem, mediante a emergência do tema, ainda não teve
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MIGUEZ DE OLIVEIRA, Paulo César. Economia criativa: uma discussão preliminar. In: NUSSBAUMER, Gisele Marchiori. (org.). Teorias e políticas da cultura: visões multidisciplinares. Salvador: EDUFBA, 2007, p. 96-97.

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oportunidades de verificar as amplas possibilidades dessa nova forma de circulação da cultura – nossa iniciativa de tentar, com o presente estudo, contribuir com os conhecimentos relativos a turismo comunitário, reconhecendo-o como atividade das indústrias criativas ou da economia da cultura. Entretanto, justificamos nossa proposta investigativa já a partir das propostas básicas dos programas articulados pelas indústrias criativas que, inspirados no projeto australiano relativo à Creative Nation, elaborado em 1994, propiciou o surgimento do conceito de economia criativa. Entretanto, logo em seguida, foi o governo inglês, já no início da administração de Tony Blair, que, com objetivos de fornecer mecanismos para o país liderar as disputas econômicas do mundo globalizado, formou um grupo de trabalho multissetorial incumbido de apontar as tendências do mercado internacional e as vantagens competitivas do Reino Unido, que definiu as indústrias criativas, “como indústrias que têm sua origem na criatividade, habilidade e talento individuais e que apresentam um potencial para a criação de riqueza e empregos por meio da geração e exploração de propriedade intelectual” (REIS, 2008, p. 17). Depois dos passos iniciais dos estudos e projetos das indústrias criativas, o Reino Unido tratou de aperfeiçoar suas ações no setor, sendo que as medidas adotadas se tornaram paradigmáticas para diferentes países que adotaram políticas de desenvolvimento similares, por elas sugerirem respostas aos avanços do quadro socioeconômico global, privilegiarem as áreas de maior vantagem competitiva para o país e reordenar as prioridades públicas para fomentá-las, divulgar estatísticas reveladoras da representatividade da economia da cultura na riqueza nacional (7,3% do PIB, em 2005) e com crescimento recorrentemente significativo (6% ao ano, no período 1997-2005, frente a 3% do total), reconhecer o potencial da produção criativa para projetar uma nova imagem do país, interna e externamente, sob os slogans Creative Britain e Cool Brittania, com a decorrente atratividade do turismo (grifo nosso), investimentos externos e talentos que sustentassem um programa de ações complexo. Por outro lado, a Inglaterra criou um ministério dedicado à área, em total associação com o turismo: o Ministério das Indústrias Criativas e Turismo (Minister for Creative Industries and Tourism). Além de os britânicos agregarem o turismo aos projetos das indústrias criativas, Reis (2008, p. 17) afirma: “Tendo em vista que as vantagens comparativas de cada país são distintas, a lista é diversa, incluindo eventualmente turismo, gastronomia, folclore, joalheria ou outros” (grifo nosso). Todavia, ao pensarmos a temática numa perspectiva acadêmica, percebemos haver poucas contribuições científicas que enfocam o turismo como área envolta às concepções das economias criativas, as quais se debruçam sobre a tal relação de forma automática, como se ela fosse autoexplicativa, sem bases conceituais e teóricas mais consistentes que abalizem suas escolhas.
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Os referidos estudos se apoiam em definições que induzem ao automatismo ou à ampla liberdade de se conectar indústrias criativas a qualquer expressão cultural da humanidade, conforme a definição de Warnier (2000, p. 19) que considera o setor como “atividades industriais que produzem e comercializam discursos, sons, imagens, artes e qualquer outra capacidade ou hábito adquirido pelo homem na sua condição de membro da sociedade”. Logo, qualquer atividade humana objeto de prática comercial poderia ser reconhecida como produção das indústrias criativas, entendimento que nos parece por demais elástico, ao abrir brechas para compreensões conceituais díspares sobre o assunto, facilitadas pelo estado de emergência da matéria em termos científicos77. Tanto, que há entendimentos preocupados sobre a área possivelmente não trazer em seu bojo novas questões ou conhecimentos, mas somente empregar expressões linguísticas diferenciadas para tratar de desenvolvimento econômico, numa acepção em que a economia criativa pode ser reconhecida como um mero reordenamento de iniciativas já conhecidas, principalmente se a criatividade for lembrada como objeto de inovações, de mudanças socioeconômicas inerentes a diferentes períodos histórico-sociais, desde os inícios das civilizações humanas. Contudo, na contemporaneidade, ações inovadoras são vistas pela sua capacidade de convergir para um mesmo campo criativo, negócios que movimentam a economia e ações de cunho social, ao reunir talentos, novas tecnologias, novidades derivadas da globalização antes nunca vistas, metas de aprimoramento político, inclusão social e cultural com o objetivo de promover um desenvolvimento socioeconômico mais rápido e uniforme, coisa ainda deficitária na aplicação de velhos modelos. A criatividade, portanto, na função de apontar para novas fórmulas de aperfeiçoamento humano, de forma mais ampla e eficaz possível, em programas organizacionais compatíveis às potencialidades de geração de emprego e renda de determinada comunidade, objetivos também concernentes ao turismo comunitário o que subsidia, de forma inicial, nosso propósito de situar tal segmento à economia criativa. Shorthose (2004) considera que as indústrias criativas têm como maior particularidade tratar a cultura em parâmetros econômicos e mercadológicos, em sistemas que entrelaçam consumidores, atividades industriais e midiáticas, além da diversidade de expressões artísticas que se destacam pela criatividade, segundo as formas estabelecidas pelo capitalismo de nossos dias, de modo que devem ser consideradas as relações entre cultura e economia, na escala, abrangência e efetividade do mercado global de bens e serviços simbólicos que envolvem a preservação das culturas locais e suas possibilidades de gerar desenvolvimento, com rentabilidade financeira para os atores sociais do lugar envolvido nos programas de economia da cultura.
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As ideias sobre as indústrias criativas e a economia criativa surgiram no Brasil apenas nos últimos anos. Emergência que não diz respeito apenas ao nosso país, mas também à maior parte das nações em desenvolvimento em que as potencialidades culturais não são devidamente avaliadas no âmbito econômico, em razões de posições equivocadas das estratégias de desenvolvimento. Ou mesmo pela carência de organismos oficiais e políticas públicas eficientes, com força para se interpor à grande concentração do mercado global de produção e distribuição dos bens e serviços criativos.

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Evidenciamos, assim, que o campo das indústrias criativas é de amplo domínio da cultura, a qual se evidencia em tal setor num perfil mercadológico, mas com a particularidade de gozar de considerável prestígio por também propiciar oportunidades de inclusão social e econômica, na promoção e valorização das diversidades culturais identitárias, perfil que comunga com as características do turismo de base local e o turismo comunitário. O turismo de base local é apregoado pela comunidade acadêmico-científica como o tipo de atividade mais recomendável, caracterizando-se numa linha diferenciada dos discursos oficiais e empresariais predominantes, numa postura humanística em favor da sustentabilidade dos núcleos receptores do turismo convencional e em respeito às interfaces peculiares de cada um deles. Apregoa a prática turística que respeite o ambiente natural, proporcione experiências culturais positivas para os turistas e proporcione resultados econômicos que beneficie toda a comunidade de forma a promover a inclusão social e a preservação cultural o que corresponde diretamente à manutenção da “cor local”, a personalidade turística do lugar78. O turismo de base local deve ser promovido pelos agentes envolvidos na sua efetivação, governos, empresários e trabalhadores do setor, de modo que a população pode ou não se envolver diretamente na organização do turismo em seu território, diferentemente do turismo comunitário, no qual os próprios habitantes da comunidade são agentes dos serviços turísticos ali prestados, particularmente na condição de proprietários, geralmente em negócios familiares de pequeno porte, todos agindo de forma cooperativa, com oportunidades igualitárias para todos os membros do grupo social se inserir nos processos de exploração turística do território de forma solidária e em estágios de plena sustentabilidade econômica, ecológica, cultural, social e política. Logo, grandes empreendimentos turísticos não são possíveis no turismo comunitário. Se a economia criativa é campo de forte presença da cultura, o turismo comunitário também o é, sendo que cada lugar com potencial em tal segmento estabelece feixe de relações que garantem suas particularidades culturais, mesmo se sofrer influências do mundo global, concretizando-se na construção de sua identidade, por meio das vivências e trocas sociocomunicacionais de seu cotidiano, momentos em que se materializam seus costumes, comportamentos, saberes, ofícios, saberes e fazeres, visíveis segundo seus particularismos e singularidades de grande expressividade simbólica, ainda potencializada se houver expressões artísticas e estéticas produzidas pelos talentos locais, um conjunto de alto valor para o turismo. A Rede Tucum, associação de turismo comunitário do litoral cearense, reconhecida por implantar projetos pioneiros do segmento, afirma oferecer “produtos turísticos genuíno e de qualidade, projetado para a interação entre povos e culturas, atento

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Empregamos o termo personalidade turística metaforicamente, como neologismo para significar as especificidades e originalidades de um lugar turístico.

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a proteger e valorizar culturas e territórios, economicamente integrado às atividades tradicionais e com a finalidade de produzir recorrentes benefícios à toda a comunidade”.79 As configurações culturais identitárias do turismo comunitário são exemplares para acionar o mecanismo de atratividade para o olhar do outro, de quem é de outros territórios, especialmente do mundo urbano, o tipo de turista particularmente desejoso de ter acesso às narrativas locais. Wainberg (2003, p. 7), ao considerar o turismo principalmente com uma experiência comunicacional direta entre turistas e população local, classifica a atividade como “a indústria da diferença”, considerando que o contato de pessoas com diferentes culturas “é o fator cognitivo decisivo que ‘dispara’ o processo perceptivo e a recepção” das experiências turísticas. O processo é simbólico, porém com efeitos econômicos concretos, segundo a compreensão de que o turismo precisa de lugar, do espaço sociogeográfico original e diferenciado, com autenticidade, configurações tão substanciais no turismo comunitário, que o credenciam a se aliar às indústrias criativas em virtude de seus objetivos comuns no âmbito do desenvolvimento socioeconômico de territórios com reconhecido potencial criativo, particularmente no campo da cultura. Mas o segmento ainda se credencia junto às indústrias criativas em virtude de seus atrativos oferecidos pela natureza: praias, sol e mar, montanhas, áreas verdes e rurais, espaços que propiciam a diversidade das práticas ecoturísticas, turismo esportivo e de aventura, além das demais atividades de lazer e entretenimento que se efetivam em áreas naturais, até mesmo o turismo contemplativo. O perfil privilegiado em relação à ecologia ainda se potencializa pelo fato de as configurações geomorfológicas e paisagísticas, tanto das áreas rurais como das urbanas, fazerem parte do arcabouço cultural do lugar, cujas vivências turísticas se sobressaem como intensas e genuínas experiências culturais, questão devidamente estudada pela geografia cultural, área do conhecimento que percebe a paisagem como resultado de determinada ação cultural que a construiu, vista como uma representação permanente do saber comunitário, sendo ao mesmo tempo funcional e simbólica, cujos elementos se ocupam de mediar a transmissão de conhecimentos, valores e símbolos da sociedade local, de uma geração para outra. O turismo comunitário se estabelece em total interação com o meio ambiente, na busca e valorização das paisagens e espaços naturais, um conjunto de alta motivação para turistas de diferentes perfis, ainda particularmente valorizado pelos atrativos e atividades possíveis de realização apenas em seus domínios, os quais se desenvolvem com rígidas normas de conservação territorial, de forma que cause o menor impacto possível, “contribuindo com os projetos de manejo sustentável de recursos naturais, recuperação de áreas degradadas, utilização de energias renováveis, educação ambiental e destinação de resíduos sólidos” (Zanotti, 2010).
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Tucum – rede cearense de turismo comunitário. Disponível em: <http://www.tucum.org/oktiva.net/2313/secao/18703>. Acessado em: 8/maio/2012.

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O TURISMO COMUNITÁRIO NOS TRILHOS DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS

Diferentes e elogiosos apontamentos e contextualizações projetam o turismo comunitário de forma muito positiva, principalmente pelos seus princípios de promover a cultura local, preservar o ambiente natural e alavancar o desenvolvimento socioeconômico, em especial nas palavras de seus próprios agentes, nos posicionamentos acadêmico-científicos que tanto insistem no

desenvolvimento turístico em bases sustentáveis, e até mesmo em ações do Ministério do Turismo, organismo que apregoa a atividade como forma de inclusão social livre e democrática, além de apoiar projetos na área, conforme informações da Turisol - Rede Brasileira de Turismo Solidário e Comunitário, associação que tem a meta de levar o Brasil à liderança e referência pra o turismo comunitário, sendo composta por 12 projetos, os quais envolvem cem comunidades, de 61 municípios em oito Estados. Inicialmente, o turismo comunitário é enaltecido pela sua contraposição ao turismo de ordem global, ou massiva, tão criticado no pensamento acadêmico, por diferentes saberes multidisciplinares, em virtude de seus formatos artificiais, pasteurizados e alienantes, entendimento ilustrado pelas palavras de Carlos (2002, p. 26):
Cidades inteiras se transformam com o objetivo precípuo de atrair turistas, e esse processo provoca de um lado o sentimento de “estranhamento” - para os que vivem nas áreas que num determinado momento se voltam para a atividade turística - e de outro transforma tudo em espetáculo e o turista em espectador passivo

O pensamento turístico crítico também aponta para o fato de as atividades do setor permitir a predominância da mimese, do simulacro, do clichê, em destinos que se enquadram na tipicidade de mercadorias do mundo das trocas, fazendo da viagem turística, a realização da “fantasia do ir e vir”, vivências culturais com experimentações de atrativos que se assemelham a produtos ofertados e comprados conforme as estratégias da indústria cultural, definidos, segundo os escritos frankfurtianos80, por signos imagéticos, que os enunciam como mercadorias eivadas de fetiches, segundo os pensamentos marxistas81.
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Os sociólogos da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, especialmente Adorno e Horkheimer (1988), na década de 1940, ocuparam-se de analisar sociologicamente o “modo de vida americano”, principalmente aquele veiculado no cinema, rádios e revistas. Entenderam que as indústrias culturais formam um sistema de produção similar aos industriais de montagem em série, com a função de mediar comportamentos de consumo massificando os modos de vida, em ações que procuram assegurar o escoamento dos produtos culturais para entretenimento, renovados o tempo todo para dinamizar a atividade econômica, porém com conteúdos que se repetem dando a tudo um caráter de semelhança. 81 Marx considerou o fetiche das mercadorias uma relação social definida, estabelecida entre homens, porém com forma fantasmagórica de relação entre coisas. “Quando a fórmula capital-lucro, ou melhor capital-juro, terra-renda fundiária, trabalho-salário, essa trindade econômica, passa a configurar a conexão entre as partes componentes do valor, da riqueza em geral e as respectivas fontes, completa-se a mistificação do modo de capitalista de produção, a reificação das

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É esclarecedor e altamente representativo os posicionamentos de agentes do turismo comunitário que estabelecem, com firmeza e coerência, seus ideários de se contrapor ao turismo global:
O turismo comunitário nasce da percepção das comunidades de que não é suficiente apenas fazer a crítica ao modelo de turismo convencional, gerador de segregação sócio-espacial, de concentração de renda e de problemas sócio-ambientais. Aliado à crítica, é necessário vivenciar uma outra lógica de construção da atividade turística. (REDE TUCUM) 82

Concordamos com as colocações enaltecedoras ao turismo comunitário e com os entendimentos que o classificam como força de resistência aos modelos turísticos ditados pela ordem capitalista global, além de reconhecer e aplaudir as iniciativas implantadas, porém, ao mesmo tempo nos preocupamos com o fato de o segmento não ser mais abrangente, não fazer parte de forma mais efetiva de planos de desenvolvimento turístico no âmbito regional, não se fazer presente em todos estados do país, os quais possuem comunidades com natural vocação para implantar a atividade e ávidas por crescimento sustentável. Em nossa Paraíba, por exemplo, não detectamos nenhum programa concreto na área, apesar de haver uma ação embrionária na Região do Cariri denominado Circuito Turístico do Bode e do Algodão no Cariri Paraibano, conforme apresentação de Silva e Seabra (2008), “cuja base de sustentação do sistema turístico é pautada na paisagem natural, no patrimônio cultural, na organização social comunitária e nos arranjos produtivos locais”. A carência de projetos de turismo comunitário em nosso Estado, como também nas demais regiões do país, deve-se à inexistência de parcerias, trabalhos de cooperativismo e ações solidárias entre os próprios moradores de lugares que têm potencial para alavancar o setor, iniciativas que, certamente, não dependem da vontade de tais atores, mas sim de suas condições financeiras que os colocam em níveis de exclusão de qualquer iniciativa que exige investimento pecuniário, seja o homem sertanejo, obrigado a conviver com a seca de forma cíclica, ou a população costeira que nem tem garantia de moradia e segurança alimentar. A solução para o problema pode vir do acionamento de políticas públicas contundentes e contínuas, principalmente de governos estaduais e municipais, os quais, até agora, não mostram qualquer interesse sobre a matéria, mediante suas proposituras centralizadoras que se fecham em torno do turismo que segue a lógica do capital, mesmo nas suas formas artificiais, em procedimentos que não titubeiam em manchar as belas cores das autenticidades locais, no campo
relações sociais, a confusão direta das condições materiais de produção com a determinação histórico-social dessas condições; é o mundo enfeitiçado, desumano e invertido, onde o senhor Capital e a senhora Terra, protagonistas sociais e, ao mesmo tempo coisas, fazem suas assombrações” (MARX, 1991, p. 953). 82 Disponível em: <http://www.tucum.org/oktiva.net/2313/secao/18703>. Acessado em: 8/maio/2012.

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cultural e no ecológico. O poder público, assim, privilegia o turismo convencional massivo, apregoando o ufanismo sobre a potencialidade comercial da atividade com perfil de mercadoria de consumo, nos patamares da produção da economia mundializada, mediante o lucro resultante do setor que leva à expressiva concentração de capital e renda nas mãos de corporações transnacionais, com poucas empresas de grupos empresariais de pequeno porte. As populações, diante sua carência de melhor qualidade de vida e necessidade de colocação no mercado de trabalho, reféns das ações empresariais e estatais, porém sempre esperançosas e com boa vontade, acabam sendo cooptadas, e passivamente se deixam levar. Políticas públicas mais coerentes e democráticas, com real intenção de promover a inclusão social no campo do turismo, em especial no segmento comunitário, poderiam contar com os direcionamentos da economia criativa, conforme o possível alinhamento já esclarecido neste mesmo texto, com breves incursões teórico-epistemológicas, restando-nos, então, trazer o tema para a dimensão do pragmatismo, no apontamento de ideias, com a devida contextualização, de como o turismo comunitário deve se guiar de forma mais arraigada possível pelos parâmetros das indústrias criativas. Mendes e Coriolano (2003), ao analisar o turismo comunitário no litoral cearense, discorrem sobre os esforços empreendidos pelos seus agentes para mudar a realidade, ao reconhecerem o turismo convencional como uma atividade predadora. As autoras comentam que contrariamente à maior parte das comunidades que aceitaram passivamente as atividades turísticas em seus espaços, outras, inteligentemente, fizeram do turismo “uma oportunidade de ganhos, uma maneira de promover o desenvolvimento do lugar, com a venda de produtos turísticos, instalação de pequenas pousadas, restaurantes e valorização do artesanato” (p. 173). O desenvolvimento local é questão central e convergente entre o turismo comunitário e as indústrias criativas, sendo que ambos os setores comungam dos objetivos de promover o avanço socioeconômico, em processos que sobrepõem a cultura, por tal instância ter sido elevada, nos últimos anos, de ferramenta indispensável para o aprimoramento das sociedades autóctones, fato instigante para debates intelectuais típico dos tempos atuais, em virtude de as questões culturais na história da civilização humana serem vistas, segundo olhares antropológicos, como expressividades das diferenças entre os povos, elementos, no caso, com a função limitada de apontar para usos, tradições, costumes, modos de vida, conhecimentos, arte e estética, e outras experiências do grupo social, numa ortodoxia que redundaria em causas impeditivas de mudanças, progresso tecnológico e crescimento socioeconômico. Porém, nos últimos tempos, desapareceram os entendimentos de a cultura ser representação do conservadorismo, mas sim instrumento indispensável para a evolução humana, diminuição das desigualdades e avanço educacional, surgindo iniciativas de grandes organismos internacionais de apoio ao desenvolvimento, caso da ONU (Organização das Nações
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Unidas) que inclui a questão no seu conhecido Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD), Organização Internacional do Trabalho (OIT), instituições que adotaram o paradigma de a cultura ser objeto de grande valia para seus projetos de desenvolvimento, em todos os países, principalmente naqueles com maior dificuldade em tal quesito, desde que os programas envolvessem as populações locais no papel de agentes ativos nas ações concretas em favor de seu próprio avanço. O mundo se convenceu da lógica de que a cultura é vetor de ponta para o desenvolvimento, conforme coloca Hermet (2002, p. 91):
Ao levar em conta a cultura e, através dela, a diversidade cultural, não só aboliu-se uma representação hierárquica do desenvolvimento, coroada pelo padrão ocidental da modernidade, mas também deu-se uma voz à maioria dos habitantes do planeta, que se sentem alheios a esse padrão. O acontecimento é de primeira magnitude, pois derruba a escala vertical e desigual das culturas e isso não somente em teoria ou em um plano sentimental, mas agora na ordem prática, tornando-a mais horizontal e igualitária.

Há o consenso no qual o princípio norteador do desenvolvimento cultural se concretizar em respeito às raízes locais, porém sem impedir as mudanças, diretriz que considera a necessidade de se respeitar, o conhecimento, usos, costumes, comportamentos, modos de vida e demais manifestações que compõem o mundo cultural das comunidades, conseguindo seu envolvimento nos planos acordados, sua participação ativa aberta à evolução em programas que também incluem metas de crescimento econômico, mediante o consenso de que o avanço social depende de investimentos. Por mais original e caudaloso que seja o cabedal cultural de um povo ou de uma comunidade, como comungar tal privilégio com o desenvolvimento se a vida comunitária acontecer num ambiente insalubre, de necessidades materiais, violência, sem assistência médica, escolas e processos políticos democráticos? Yúdice (2004, p. 11), sua visão da “cultura como recurso”, na qual os atrativos artísticoculturais são reconhecidos como objetos de investimento, em suas mais diferentes manifestações, por isso tão empregados no desenvolvimento econômico, particularmente em projetos de turismo, além de serem fatores propulsores das indústrias culturais, ou mesmo fontes inesgotáveis “para novas indústrias que dependem da propriedade intelectual”83. As indústrias criativas preconizam que as naturais configurações culturais do lugar, perceptíveis nas vivências do cotidiano, e criações artísticas façam parte do circuito do mundo das
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O autor referencia as indústrias criativas, ou economia criativa, a recente forma de se ver as atividades econômicas derivadas da propriedade intelectual, a exemplo da arquitetura, design, cinema, televisão, a diversidade das criações artísticas, atrativos turísticos, entre outras atividades.

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trocas, no campo da economia da cultura, com diretrizes e limites que garantam a sustentabilidade da comunidade objeto do processo, no que tange à conservação ambiental, rendimento econômico compartilhado, inclusão social, valorização e preservação dos aspectos culturais, suas raízes, diversidades e evolução. No caso, podemos sim ter o ideário romântico, bucólico e nostálgico para a configuração dos espaços territoriais e atrativos turísticos de base comunitária, que nos levem a clamar por projetos para o segmento que objetivem fomentá-lo com as diretrizes da economia criativa, os quais, mesmo fortemente imbuídos dos princípios que respeitem as configurações históricas culturais do território, inclusive na sua utilização como atrativo, evitando sua pasteurização, devem ser pensados como programas com caráter de inovação, em procedimentos que em nada ameaçam a originalidade local, mesmo com a meta de trabalhar, investir, em função de sua efetividade econômica, procedimento que atende às ideias de Reis (2008, p. 15):

Criatividade. Palavra de definições múltiplas, que remete intuitivamente à capacidade não só de criar o novo, mas de reinventar, diluir paradigmas tradicionais, unir pontos aparentemente desconexos e, com isso, equacionar soluções para novos e velhos problemas. Em termos econômicos, a criatividade é um combustível renovável e cujo estoque aumenta com o uso. Além disso, a “concorrência” entre agentes criativos, em vez de saturar o mercado, atrai e estimula a atuação de novos produtores.

Logo, o processo não é automático. Sua exequibilidade e alcance de resultados depende de adequações às realidades locais. O próprio termo e conceituação de economia criativa já sugerem a necessidade de adaptações, do complemento específico, do toque especial e particular das diferenciações que estabelecem a identidade sociocultural do lugar, que também redundam em sua personalidade turística. Um dos caminhos mais recomendáveis consiste na implementação de programas eficazes que tragam expressões da cultura local, materiais e imateriais, para o campo das indústrias criativas, de modo que eles tenham representatividade para as trocas comerciais inerentes à economia da cultura, em atenção ao que comenta Wainberg (2003, p. 45 a 57) ao discorrer sobre a força e sentido da comunicação intercultural no turismo, na acepção em que “a diferença que separa o espírito e atrai o olhar”, fenômeno que se confirma nas práticas do turismo comunitário, segundo a descrição de uma agente líder de um programa do segmento estabelecido no estado de Santa Catarina: “Além da importância de aumentar a renda do agricultor e vender direto ao consumidor, tem todo um convívio entre as pessoas da cidade e do campo sem agredir tanto o meio ambiente.”84 As atividades culturais, tão presentes no turismo comunitário nascem ou são criadas em um dinâmico movimento de difusões e de interações que primam pela criatividade, cujas ações fazem
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Declaração de Leonilda Boing Baumann, agricultora e coordenadora geral da Associação de Agroturismo Acolhida na Colônia – Santa Catarina. Site da Rede Brasileira de Turismo Solidário e Comunitário. Disponível em: Acessado em: 9 de maio de 2012.

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com que as identidades socioculturais se habilitem espontaneamente como bens de interesse do mercado turístico, promovendo o avanço socioeconômico do lugar. O desafio, assim, é agir de forma a implantar programas que tenham rentabilidade econômica, numa conjuntura em que, mesmo diante de avanços no entrelaçamento entre cultura e desenvolvimento, especialmente na valorização da diversidade cultural, há fortes imposições da voraz globalização que aglutina os maiores mercados de consumo, ao impor a homogeneização cultural, segundo coloca Barber (2005, p. 44):
A cultura americana universal Mcworld é quase irresistível. No Japão, por exemplo, os hambúrgueres e as batatas fritas praticamente substituíram as massas e os sushis; os adolescentes debatem-se com expressões inglesas cujos significados mal percebem para parecerem cool. Na França, onde mais de dez anos os puristas da cultura fazem guerra às depravações do franglês, a saúde econômica mede-se também pelo sucesso da Disneylândia-Paris. O sucesso repentino do Halloween, como nova festa francesa para estimular o comércio no período de marasmo que antecede o Natal, não é senão o exemplo mais consternador dessa tendência à americanização.

Há, portanto, um cenário de consumo cultural mundial padronizado que limita os espaços para as expressões locais, em virtude da força econômica e política de mandatários públicos neoliberais, banqueiros, investidores internacionais e conglomerados transnacionais que investem altas somas no mercado cultural de forma a conseguir o domínio da produção simbólica de nossos tempos, em escala planetária, principalmente por contar com a mídia para distribuir seus produtos. Contudo, Yúdice (2004), pontua uma série de movimentos culturais com resultados profícuos em termos de desenvolvimento, particularmente na perspectiva econômica, de diferentes territórios, a exemplo das iniciativas para a cidade espanhola de Bilbao, capital da Pátria Basca, para se tornar um centro turístico-cultural de primeira linha, o trabalho do grupo baiano Afro Reggae, Miami como capital cultural da América Latina, o Funk do Rio de Janeiro, entre outros. Os exemplos do autor têm o objetivo de demonstrar como a cultura local tem valor econômico ao ser empregada como ferramenta para o desenvolvimento. Desde que haja ações exequíveis em tal sentido, a partir de políticas públicas sérias e realmente comprometidas, sabendo-se que há espaços preenchidos pelas indústrias culturais transnacionais por falta de iniciativas autóctones. Na mesma linha de pensamento, reconhecemos que a criatividade e um pouco de ousadia do turismo comunitário conseguem fazer de seus programas alternativas às imposições globais, com amplas possibilidades de fazer das especificidades locais85, em termos de cultura e ecologia, estratégias
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“A principal ação turística é o modo de vida da comunidade, ou seja, sua forma de organização, os projetos sociais que faz parte, formas de mobilização comunitária, tradição cultural e atividades econômicas.” Projeto Bagagem. ZANOTTI, Cecília. Rede Brasileira de Turismo Solidário e Comunitário.

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precisas para atuar de forma diferenciada, tecendo projeções simbólicas com concretos resultados no campo da economia criativa, segundo as palavras de um agente do setor: “O turismo comunitário é mais lucrativo e o outro é mais lucrativo para as empresas e as agências, não para a comunidade.”86 Como não poderia deixar de ser, em virtude de a dialética ser matéria intrínseca ao mundo do conhecimento, em particular quando surgem novos conceitos ou fenômenos da vida societária, as indústrias criativas são suspeitas de comunhão com a cultura industrializada, principalmente por entrelaçar cultura à economia, algo que historicamente incomoda artistas e produtores culturais que resistem a ideia de suas criações serem confundidas com mercadorias, segundo os mais rígidos preceitos da indústria cultural elencados pela teoria crítica frankfurtiana, quando as indústrias criativas, segundos seus parâmetros, procuram, justamente, diferenciarem-se, a exemplo de seu direcionamento de não comercializar a cultura de forma massiva, além de se tratarem de produções com a identidade do local em que são geradas e veiculadas, dependentes de valorizações, mecanismos que as insiram na economia da cultura autóctone, tal qual acontece no turismo comunitário.

As atividades [do turismo comunitário] são criadas para proporcionar intercâmbio cultural e aprendizagem ao visitante. Não se trata de apresentações folclóricas da cultura popular, e sim de atividades que fazem parte do cotidiano que o turista vai experimentar. Estamos falando de reconhecer o valor dos mestres da cultura oral no turismo e proporcionar uma reflexão sobre a própria identidade no visitante. 87

De modo a reforçar o pragmatismo que orienta nossa intenção de refletir sobre o turismo comunitário como área das indústrias criativas é esclarecedor, como também um sustentáculo às nossas ideias, apontamentos sobre o fato de a atividade, como qualquer outra do circuito do mundo das trocas, também se articular numa dimensão comercial, do contrário, seus norteamentos de práticas associativas entre os moradores, sobrepondo o espírito de solidariedade e cooperativismo, com inclusão socioeconômica, não vingariam. Por isso, o princípio do segmento em estabelecer o objetivo de promover a “geração e distribuição de renda equitativa, praticando preços justos, satisfazendo comunidade e turistas, além de promover a distribuição de renda, entre os moradores locais” (Instituto Terramar)88, em programas que privilegiam iniciativas de cunho mercadológico.
Disponível em: <http://www.tucum.org/oktiva.net/2313/nota/147443>. Acessado em: 9 de maio de 2012.
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Declaração de Natalino Pereira dos Santos, da comunidade remanescente quilombola do Remanso, Lençóis, Bahia. Ibidem.
87 88

Princípios do Turismo Comunitário elencados pelo Projeto Bagagem e Ação Griô Nacional. Ibidem, Ibidem. Site da Turisol - Rede Brasileira de Turismo Solidário e Comunitário. Disponível http://www.turisol.org.br/quem-somos/plano-de-acao-2010-2012/. Acessado em: 9/maio/2012.

em:

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Em seu plano de trabalho para o biênio 2010-2012 a Rede Turisol selecionou seis linhas prioritárias, na seguinte ordem: 1. Comercialização, 2. Comunicação, 3. Formações e Intercâmbios, 4. Influência em Políticas Públicas de Turismo, 5. Juventude e Turismo Comunitário, 6. Universidade e Turismo Comunitário. A comercialização inclui diferentes estratégias de vendas, publicidade e marketing promocional, captação de parceiros comerciais e de recursos para programas de treinamento da comunidade, participação em eventos e feiras, realização de famtours, entre outras ações especialmente destinadas a fazer do turismo comunitário da Rede um produto competitivo. A comunicação, de acordo com a concepção de tal segmento no campo das organizações que têm metas mercadológicas, também contempla iniciativas de marketing promocional e de captação de recursos. A rede Tucum, por sua vez, ao se organizar em “estratégias e parcerias que permitam avançar em pontos importantes para o desenvolvimento do turismo comunitário”, planeja a “construção de estratégia de marketing e promoção dos produtos e serviços turísticos comunitários; estabelecer relações “com os organizadores e operadores de viagens e a comercialização do turismo comunitário e solidário”. Concordamos com o pensamento acadêmico que refuta o turismo pautado pelas ditaduras das lógicas capitalistas, contudo os ideários de proteção à sustentabilidade sociocultural e ecológica dos lugares não devem admitir a ingenuidade de se acreditar que na atividade turística, em qualquer um de seus segmentos, a regulação se dá fora das instâncias políticas e econômicas. Se os saberes críticos sobre o turismo, sagaz e lucidamente, insistem em alertar sobre os perigos da atividade que sobrepõe os propósitos de lucro financeiro, sem considerar os complexos fenômenos humanísticos, agora já é hora de reflexões desses mesmos saberes avançarem, para não parecerem inócuas junto ao mundo societário, no sentido de considerar a indispensabilidade das agendas econômicas nos processos de desenvolvimento do turismo local. Tal posicionamento não implica numa capitulação em favor da dimensão comercial da atividade, mas apontar e combater as iniciativas puramente mercantilistas em discutir formas de enfrentamentos, denunciar projetos que não atendam aos princípios da sustentabilidade, apresentar proposições em que a economia local tenha perfil humanístico, indicar, com a devida contextualização, caminhos exequíveis, com reais chances de proficuidade, princípios norteadores do turismo comunitário. REFERÊNCIAS ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. Indústria Cultural: o iluminismo como mistificação das massas. In LIMA, Luiz Costa (org.). Teoria da Cultura de Massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
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A CULTURA E O NEGÓCIO DA HOSPITALIDADE NO TURISMO

Davi Alysson da Cruz ANDRADE Universidade Federal do Maranhão daviandrade.ufma@gmail.com Docente do Departamento de Turismo e Hotelaria

RESUMO

Neste trabalho, buscamos refletir e contribuir com as discussões que analisam a hospitalidade enquanto prática cultural e negócio. As reflexões são instigadas pelas leituras dos trabalhos de alguns autores, como Boff, Baptista, Camargo, Gotman e Grinover, e recebem a influência das observações do cotidiano, como estudioso da cultura, do turismo, da hotelaria e da hospitalidade. Direcionando os olhares por meio e além dos embates conceituais, percebemos que a prática da hospitalidade compreende elementos culturais e comerciais, sem prejuízos para alguma das partes. No turismo, ambas as possibilidades são utilizadas para garantir o melhor acolhimento e a felicidade das pessoas, na realização do sonho de uma viagem inesquecível. PALAVRAS-CHAVE: hospitalidade, turismo, cultura e negócio.

INTRODUÇÃO

A hospitalidade, como prática e área de estudo da academia, vem ganhando cada vez mais importância para a sociedade diante das diversas situações favoráveis à prática da hostilidade entre as pessoas. No cotidiano, está associada ao “bem receber”, seja na forma de como acolhemos um familiar, amigo ou visitante, em nossa casa ou cidade, ou ainda, no aspecto mais comercial, em atender/receber clientes. Os lugares para a apresentação desta hospitalidade/hostilidade são diversos, como a cidade e espaços mais específicos, privados ou públicos, tais como residências, hotéis, restaurantes, shoppings centers e universidades. Tradicionalmente, o acolhimento, que resulta do ato de ser hospitaleiro, é direcionado ao visitante, o “estrangeiro”, que nesta situação demanda esforços do anfitrião para que possa ter garantidas suas necessidades de acomodação, segurança e alimentação, ou mesmo emocionais, de se sentir bem-vindo. A prática da hospitalidade, inclusive como obrigação moral-religiosa, data de períodos bem anteriores ao advento do turismo, como atividade econômica, sendo verificada, por exemplo, em
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passagens bíblicas. Mas encontramos nos fluxos turísticos, o contexto mais próximo do ideal para a realização e experimentação desta prática, sem implicar na desconsideração de situações diversas, distantes da atividade turística, que podem evidenciar atitudes de hospitalidade, como discutiremos a seguir. Neste sentido, o cotidiano de “viajante”, cidadão, consumidor, e o olhar interessado de pesquisador, revelam situações em que a hospitalidade tem características acentuadas de prática cultural, no retrato mais espontâneo, e outros casos em que esta hospitalidade é desfrutada como um negócio, sem preconceitos com a relação comercial. Estas impressões não são inéditas, vários teóricos já escreveram sobre estes aspectos da hospitalidade: Derrida, Grinover, Gotman, Lashley, Morrison e Camargo, para citar exemplos. Alguns direcionam suas análises para o aspecto sócio-antropológico, outros, para o cultural ou comercial, e ainda, para as relações entre o social, cultural e o comercial, chegando ao turismo. Buscamos aqui refletir e contribuir com as discussões que analisam a hospitalidade enquanto prática cultural e negócio. A aproximação do olhar do pesquisador para o turismo e a hotelaria é inevitável, pelo mundo onde atua. As reflexões são instigadas pelas leituras dos trabalhos de alguns autores e recebem a influência das práticas observadas no cotidiano, como estudioso da cultura, do turismo, da hotelaria e, enfim, da hospitalidade. Sem a pretensão de criar ou refutar teorias, convidamos os leitores a se envolverem na leitura, de maneira confortável e crítica, com o desejo de que a hospitalidade seja mais presente em seus olhares e práticas cotidianas.

1 AS ORIGENS DA HOSPITALIDADE
“Todos devemos alimentar a hospitalidade de uns para com os outros, pois, como dizem as Escrituras judaico-cristãs, todos somos hóspedes nesta Terra e não temos aqui morada permanente” (BOFF, 2005, p. 14).

Para indicar marcos da preocupação com a hospitalidade entre as pessoas, chegamos à mitologia e verificamos a relação entre homens e deuses: no “mito da hospitalidade”, um casal de idosos, Báucis e Filêmon, abrigaram o deus Júpiter e seu filho Hermes, e como retribuição tiveram atendido o pedido de morrer juntos [...] Báucis e Filêmon foram transformados em duas árvores frondosas, que cobriam um templo, deixando a lição de que “quem hospeda forasteiros, hospeda a Deus”. (BOFF, 2005, p. 78-84) As origens da hospitalidade no cotidiano das pessoas remetem há tempos distantes, e, mesmo nos dias atuais, verificamos os traços da religiosidade, de dádiva, do “receber e retribuir”.
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Na Bíblia, um versículo diz “não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos” (HEBREUS, 13:2) Boff (2005, p. 13) destaca a hospitalidade como uma das quatro virtudes (a primeira) sem as quais nenhum convívio é verdadeiramente humano e nenhuma globalização é benfazeja e portadora de promessas. As demais virtudes são: a convivência, a tolerância e a comensalidade. Além de virtude necessária, “a hospitalidade é um sinal de nostalgia e uma nova moda intelectual” (MONTANDON apud CAMARGO, 2005, p. 713). Se os olhares sobre a realidade contribuem para o interesse dos estudos acadêmicos sobre a hospitalidade, cada vez mais observamos que as “pessoas que viajam necessitam de acolhimento, envolvimento e a hospitalidade torna-se um tema caro à economia moderna, na proporção direta do que as pessoas consomem e gastam nessas migrações lúdicas” (CAMARGO, 2005, p. 715). Camargo (2005, p. 713), buscando as justificativas para a nostalgia que envolve o tema da hospitalidade, viaja ao período paleolítico (8.000 a. C.) e diz que naquela época “a população da terra era marcada pela intensa expectativa de encontrar, receber e conhecer outros seres humanos, o que, ao deixar de povoar o pequeno universo sociológico então existente, passou a se chamar hospitalidade”. Camargo confirma que a hospitalidade

foi e ainda é o princípio básico de uma grande número de ordens religiosas católicas, desde os primeiros beneditinos e cistercienses, cujos mosteiros até hoje cultuam as regras originais da hospitalidade e muitos deles vêm mesmo se transformando em hotéis e pousadas, até as mais recentes ordens e congregações religiosas. De resto, a noção de hospitalidade coaduna-se com os princípios básicos de todas as religiões e todas elas, sem exceção, têm um lugar de destaque para a ideia de hospitalidade. (CAMARGO, 2002, p. 5)

Aproximando-se do que hoje são os meios de hospedagem, as primeiras práticas de hospitalidade estão associadas ao acolhimento de pessoas enfermas, em casas de saúde, ou de estrangeiros em mosteiros, baseadas em princípios de solidariedade.

O sentido da palavra hospitalidade, como conhecemos hoje, tem origem na palavra latina hospitalitas, derivada de hospitalis, e começou a ser usada na Europa, no século XIII, para definir a hospedagem gratuita e caridosa para os indigentes e dos viajantes acolhidos nos conventos, hospícios e hospitais. (GRINOVER, 2002, p. 27)

Verificamos o respeito àquelas regras da hospitalidade em experiências pessoais, quando recebidos na “casa das irmãs” (convento das Filhas do Amor Divino), em várias cidades do Rio
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Grande do Norte: na arrumação do quarto de hóspedes, com cartão de boas-vindas e presentes sobre a cama, na organização da mise-en-place e da mise-en-scène, com os talheres especiais para os visitantes, na preocupação em proporcionar a interação do hóspede com a comunidade e na oferta de alimentação a quem batesse à porta... Tudo sem qualquer aspecto comercial. Decorridos os séculos e os acontecimentos que levaram ao afastamento de algumas práticas espontâneas de hospitalidade, como destaca Camargo (2005): a divisão do trabalho, o conflito/luta de classes, tratados por Marx, as guerras, o crescimento das cidades e dos problemas urbanos, que nos impedem de falar com estranhos. Observamos que estes e novos motivos, como os movimentos migratórios e o turismo, dão força à busca da hospitalidade.

2 OS ASPECTOS CULTURAIS DA HOSPITALIDADE

Até aqui vimos que a hospitalidade, antes de tudo, faz parte (ou não) da cultura de um povo. É natural, por exemplo, que ao chegar na casa de um sertanejo, mesmo sendo um estranho, você seja convidado a entrar e tomar assento, um copo d’água ou um café, provavelmente, lhe será oferecido. Outra experiência pessoal, que evidencia esta cultura da hospitalidade: quando criança morava em uma casa ao lado da igreja, em uma pequena cidade no interior da Paraíba. Nos dias de missa, e principalmente na festa da padroeira, sabia que devia encher o filtro e as garrafas na geladeira, pois muitas pessoas, moradores da zona rural, viriam beber água depois da missa. Ao ouvir alguém na porta: “dona Maria, me dê um copo d’água”; a resposta era imediata: “já vai”. Desde pequeno sabíamos que “era pecado negar água”. Sobre o entendimento do que é cultura, Burke relata:

no século XIX, cultura era um termo geral que descrevia a arte, a literatura, a música, a filosofia e a ciência. Do início do século XX em diante, graças a argumentos de antropólogos como Franz Boas, houve uma mudança gradual no uso do termo ‘cultura’, tanto nos Estados Unidos quanto em outros locais, um distanciamento daquilo que às vezes se chama de ‘cultura das salas de concerto’ em direção ao que se pode chamar de ‘cultura cotidiana’ (em outras palavras, os costumes, os valores, os modos de vida). Uma mudança da cultura no singular, frequentemente grafada com ‘C’ maiúsculo, para ‘culturas’ no plural. (BURKE, 2008, p. 28)

Como a hospitalidade acontece no cotidiano, na relação entre as pessoas, percebemos nestes costumes e valores sua materialização. Burke (2008) refletindo sobre a chamada “nova história cultural”, que se desenvolveu na década de 1980, afirma que esta assumiu a definição antropológica de cultura com outras ideias oriundas da antropologia. Dentre as novas ideias incorporadas nessa
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nova história cultural, o autor aponta a moda, o turismo e a gastronomia, vistos como tentativas de se criar uma identidade, quando se escolhe um estilo de vida. A hospitalidade, salvo as características específicas de cada região, é apresentada como aspecto positivo para qualquer destino turístico, especialmente no Brasil, que é associada ao calor humano e alegria das pessoas, como será discutido adiante. Por vezes, até diferenciamos o que é cultural e o que é profissional, como nos relatos de turistas que, ao voltar da França, por exemplo, dizem: “os serviços têm muita qualidade, mas as pessoas não são acolhedoras como no Brasil”. O governo da França reconhece esta situação: em novembro de 2011, foi publicado um estudo que mostra os pontos fortes e fracos do turismo no país, que levou o Ministro de Turismo da França a afirmar que “a qualidade do acolhimento é um dos principais problemas”. (LEFEBVRE, 2011) Nesta época, vimos nos telejornais, notícias relatando os esforços do governo francês para sensibilizar a população e os empresários, em prol de um país mais hospitaleiro. Podemos pensar: “é apenas interesse em se manter como principal destino turístico do mundo e garantir os recursos financeiros que esta posição traz”. Nos perguntamos: seria uma mudança de hábitos, de estilo de vida, de cultura? Adiante voltaremos a esta questão. Camargo (2005) nos lembra que a hospitalidade está próxima à dádiva, que é “é toda prestação de serviços ou bens efetuada sem garantia de retribuição, com o intuito de criar, manter ou reconstruir o vínculo social” (CAILLÉ, 2002 apud CAMARGO, 2005, p. 717). Esta dádiva tem desdobramentos, implica no tríplice dever que Mauss descobriu no seio da socialidade (do núcleo central do social): dar, receber e retribuir. (CAMARGO, 2005, p. 717) Para Camargo, por mais que não haja qualquer obrigação, nesta relação de dádiva e hospitalidade, existem “leis não-escritas”, ou costumes que devem ser respeitados, e uma destas leis, diz “a hospitalidade deve ser retribuída”. Assim, dentre as dimensões da hospitalidade, verificamos na hospitalidade doméstica, ou seja, no acolhimento que oferecemos em nossa casa, sem interesses comerciais, “a matriz e o espaço de preservação dos rituais legados pela tradição, tanto na forma de recepcionar, como de hospedar, alimentar e entreter” (CAMARGO, 2005, p. 718). Podemos visualizar esta hospitalidade em cenas comuns do cotidiano, como na preocupação em oferecer água ou em mais um exemplo empírico: em época de festa, como o São João, as famílias do interior recebem visitantes em casa, seja por não haver meios de hospedagem suficiente na cidade, seja pela tradição do acolhimento (em alguns casos é uma agressão hospedar-se em uma pousada em vez da casa de um familiar). Se a festa for animada, é provável que o parente leve ainda outros convidados, seus amigos (com o consentimento do anfitrião, claro). Chegando a casa, os visitantes encontrarão grande variedade de produtos da gastronomia local, interesse dos familiares em conversar e conhecer o “novo amigo”, e na hora do descanso, mesmo que não haja um quarto de
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hóspedes, é garantido uma cama ou uma rede aconchegante (pode até ser que alguém lhe ofereça sua própria cama ou quarto, para garantir a privacidade do visitante), o importante é “ajeitar” todo mundo. Com poucas horas de convívio, o amigo do parente já é família. Cumprida a estada, após o desfrute da acolhida, na despedida, os agradecimentos dos hóspedes são feitos com uma retribuição: “quando for a minha cidade, pode ficar lá em casa...” E assim, são tecidos aqueles laços de socialidade, e tem continuidade o processo da dádiva. Grinover (2002, p. 27) confirma estes efeitos afirmando que “no fim de uma relação de hospitalidade, os anfitriões e os hóspedes modificam-se, não sendo os mesmos de antes. A hospitalidade muda, transforma estranhos em familiares, inimigos em amigos”. A prática da hospitalidade é um caminho que facilita a aproximação entre culturas distintas, permitindo que sejam desfeitos preconceitos, a troca e o enriquecimento dos povos envolvidos.

3 A HOSPITALIDADE COMO NEGÓCIO

A associação entre hospitalidade e negócio é verificada desde as primeiras atividades comerciais, nos movimentos migratórios e nas peregrinações. Os locais especializados em oferecer repouso e acomodação desde os tempos romanos (WALTON, 2004). Chegando aos tempos modernos, temos uma hospitality industry, que compreende os serviços de hospedagem, alimentação e entretenimento em todo o mundo. Hospitalidade “é fundamentalmente o ato de acolher e prestar serviços a alguém que por qualquer motivo esteja fora de seu social de domicilio, é uma relação especializada entre dois protagonistas, aquele que recebe e aquele que é recebido, mas não é só isso” (GOTMAN, 2001 apud GRINOVER, 2002). No entendimento dos autores, a hospitalidade está centrada na prestação de serviços de quem recebe para quem é recebido. Verificamos claramente a ação de acolher tanto quando recebemos um familiar em casa, como quando recepcionamos um hóspede em um hotel. Na segunda situação, esta relação é mediada por um contrato de hospedagem, naquela, não há contrato, mas existem “leis não-escritas”. Camargo esclarece que existem duas escolas de hospitalidade:

A francesa, se interessa apenas pela hospitalidade doméstica e pela hospitalidade pública e que tem na matriz maussiana o dar-receber-retribuir a sua base, ignorando a hospitalidade comercial. A americana, passa ao largo da matriz maussiana, tudo se passa como se da antiga hospitalidade restasse apenas sua atual versão comercial, calcada no contrato e na troca estabelecidos por agências, hotéis e restaurantes. (CAMARGO, 2005, p. 715)

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Estas especificidades no entendimento do que é hospitalidade são percebidas desde as definições mais simples, como nos dicionários de línguas francesa e inglesa:
Action de recevoir et d’héberger quelqu’un chez soi, par charité, liberalité, amitié” (Le Petit Larousse, 1993 apud Camargo, 2002, p. 4); The food, drink and other conforts that a organization sometimes provides in order to keep its guests happy (Cambridge International Dictionary of English, 1995 apud Camargo, 2002, p. 4)

Camargo (2005, p. 716), analisando a relação da hospitalidade com os negócios, afirma que “hospitalidade não é negócio, nada tem a ver com negócio”. No texto, a assertiva é base para as reflexões e análises, e não conclusão definitiva. O autor diz que a dificuldade de aceitar a hospitalidade como negócio, está na abolição do sacrifício, que é presente na dádiva, pois o serviço é trocado por dinheiro e esta relação é mediada por um contrato. Esta relação de interesse pecuniário abortaria a hospitalidade e a transformaria em negócio. Por outro lado, Camargo aponta três dimensões da hospitalidade: a doméstica (já descrita aqui), a comercial e a pública. Na hospitalidade comercial, a hospitalidade propriamente é percebida em atitudes que vão além do contrato estabelecido, como na dádiva de uma camareira que se preocupa em atender um pedido do hóspede, mesmo que tenha vencido sua jornada de trabalho, cumprindo hora-extra, que não terá garantia de pagamento, nem do empregador, nem do hóspede. Na outra dimensão, considera-se que, além do acolhimento doméstico e dos cuidados que um hotel pode oferecer, o interesse do hóspede está na cidade que o recebe. Se a cidade não o agradar, ele não voltará para nossa casa ou para o hotel. O verdadeiro espaço de hospitalidade é a cidade. Assim, a hospitalidade pública se preocupa em fazer da cidade, com suas ruas, praças e pessoas, um lugar acolhedor. Para Camargo (2005), neste contexto, a necessidade de uma hospitalidade incondicional (defendida por Derrida) assume toda a sua atualidade e importância. Na prática, verificamos que estas dimensões da hospitalidade e os entendimentos propostos pelas escolas francesa e americana, coexistem no cotidiano das pessoas, no mercado e, inclusive, na academia. No mercado, empresas e profissionais, oferecem hospitalidade, em forma de sorrisos e acolhimento, em hotéis, restaurantes, hospitais e condomínios residenciais. Na academia, os cursos de graduação e pós-graduação em hotelaria, turismo, gastronomia e hospitalidade, têm em seus currículos e práticas de ensino-aprendizagem, a preocupação em formar os profissionais e estudar os diversos aspectos da hospitalidade. Freire (1959 apud Burke, 2008), destacando o papel do hotel para a sociedade da época, afirma que “o século XIX criou o ‘grand hotel’ como o século XI criou a catedral gótica [...]
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destacando a lenta ascensão do hotel, retardada por tradições patriarcais de hospitalidade, como também a ‘decoração rococó’ e os ‘grandes espelhos’ do Hotel Globo no Rio.” Superando as discussões teóricas sobre o que (não) é hospitalidade, Camargo (2005, p. 720), sugere: “não seria mais rico para hotéis e restaurantes passarem a pensar suas práticas como portadoras da mais nobre das missões, de espaço privilegiado para a prática das tradições da hospitalidade, e tentar ir além desse impasse teórico?” Neste sentido o autor indica caminhos para proporcionar o encontro entre hospitalidade e negócio, especialmente no contexto do turismo:

os estudos da hospitalidade querem e precisam resgatar, sobretudo na hospitalidade comercial, as verdadeiras virtudes da hospitalidade, com todos os desafios que essa diretriz implicam, quais sejam: repensar as cargas turísticas, os receptivos locais, a formação do pessoal envolvido e, resumidamente, auxiliar as comunidades a pensar um estilo de hospitalidade e educar os turistas para a hospitabilidade. (CAMARGO, 2005, p. 721).

O destaque para a hospitalidade, associada a serviços e como valor cultural das comunidades receptoras, é uma realidade em todo o mundo. A seguir, aproximamos nosso olhar para a hospitalidade no contexto do turismo.

4 TURISMO E HOSPITALIDADE: CULTURA E NEGÓCIO

Baptista (2002), considera que a hospitalidade pode contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas, pois, pelo relacionamento entre as pessoas e a definição de laços, permite o combate aos não-lugares, apontados por Augé. Para a autora,

as práticas da hospitalidade contribuem decisivamente para dar uma configuração antropológica aos chamados não-lugares, potencializando a humanização de espaços de trânsito como estações de trem, aeroportos, hotéis, cafés, centros comerciais, parques, praças públicas e todos os