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Seletividade Do Sistema Penal Maas

Seletividade Do Sistema Penal Maas

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Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para obtenção do grau de Bacharel em Direito pela Universidade Regional de Blumenau. Autor: Ricardo Eliezer de Souza e Silva Maas
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para obtenção do grau de Bacharel em Direito pela Universidade Regional de Blumenau. Autor: Ricardo Eliezer de Souza e Silva Maas

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Published by: Ricardo Eliezer de Souza e Silva Maas on Sep 03, 2009
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Uma vez suscitada essa questão da teoria do etiquetamento e verificado que
a criminalidade não é a exceção, mas sim a regra em nossa sociedade, não se restringindo as
classes sociais marginalizadas, faz-se necessário analisar dois outros “problemas” com relação
à criminalidade: o crime de colarinho branco e a cifra negra.
De acordo com pesquisas realizadas pelo sociólogo norte-americano Edwin
Sutherland, existe uma modalidade de criminalidade, praticada por indivíduos de alto
prestigio social, que raramente aparece nas estatísticas criminais. São o que Sutherland
chamou de White Collar Crimes, ou crimes de colarinho branco.
Como dito, os crimes de colarinho branco são infrações praticadas por
indivíduos que gozam de prestigio social no âmbito econômico.
Alguns exemplos de crimes de abuso econômico são o dumping, truste¸
monopólio, etc. São, de uma maneira geral, ações pela quais esses indivíduos, se valendo do
poder econômico/político de que gozam, obtêm vantagens, normalmente grande acumulação
de capital.

Com apoio de dados estatísticos, Sutherland demonstrou o quão freqüentes
eram as infrações a normas gerais neste setor (BARATTA, 1999, p. 101).
Para Baratta (1999, p. 101), a criminalidade de colarinho branco

[...] correspondem a um fenômeno criminoso característico não só dos
Estado Unidos da América, mas de todas as sociedades de capitalismo
avançado. Sobre o vastíssimo alcance deste fenômeno influíram, de maneira
particular, as conivências entre classe política e operadores econômicos
privados, conivências que tiveram eficácia não só sobre causas do fenômeno,
mas também sobre a medida muito escassa, em relação a outras formas de
criminalidade, em que a criminalidade de colarinho branco, mesmo sendo

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abstratamente prevista pela lei penal, é de fato perseguida.

Em grande medida, essa impunidade ocorre, pois a criminalidade de
colarinho branco esta funcionalmente atrelada a nossa estrutura social e acaba escapando da
vigilância da lei por fatores sociais, tais quais:

O prestigio dos autores das infrações, o escasso efeito estigmatizante das
sanções aplicadas, a ausência de um estereótipo que oriente as agências
oficiais na perseguição das infrações, como existe, ao contrário, para as
infrações típicas dos estratos mais desfavorecidos (BARATTA, 1999, p.
102).

O fato é que esses crimes são praticados por quem “escolhe” o que deve, ou
não, ser perseguido pelo direito penal, em razão da constante interpenetração do poder
político pelo poder econômico.

Os poucos processo que são instaurados para apurar esse tipo de crime, “se
não terminam em absolvição, dão lugar a condenações muitas vezes puramente simbólicas,
sem o estigma e os custos da prisão (DIAS; ANDRADE, 1984, p. 536).
Os crimes de colarinho branco são considerados “crimes sem vítimas” ou
“crimes de vítimas abstratas”, pois, normalmente, não atingem uma pessoa especifica, mas
sim a sociedade como um todo.

E por isso mesmo, seus reflexos são de extrema gravidade e muito piores do
que qualquer furto ou o simples usos de substâncias entorpecentes. Por exemplo, no caso dos crimes
em que o próprio Estado é lesado e são subtraídos valores que reverteriam em investimentos na saúde,
segurança e educação, para não falar em outros serviços públicos essenciais, acarretando a perda de
vidas humanas pela deficiência desses serviços.

Ou ainda, o resultado de uma crise econômica, como a que estamos
vivenciando atualmente, com reflexos terríveis em diversos países, tudo em razão da
irresponsável especulação financeira nos Estados Unidos.

Historicamente, todas as sociedades, no seu tempo e ao seu modo,
engendraram fatores criminógenos. Os hábitos e condutas privativas dos
nobres, pelo contágio hierárquico, passaram para a burguesia, tornando-se
comuns os saques, as violações, os seqüestros, a embriaguez,
comportamentos que não acarretam punições para os nobres, mas que se
tornam criminosos quando cometidos pelos homens do povo (PIMENTEL,
1983, p. 19).

Ainda hoje em dia, esses tipos de comportamento desviantes, praticados por

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pessoas altamente situadas nas esferas governamentais e políticas, apesar de violarem o
sentimento de justiça da comunidade, normalmente não são considerados delituosos.
Não obstante, mesmo quando são consideradas como criminosas, as
condutas delituosas desses indivíduos raramente figuram nas estatísticas oficias.
A este fenômeno, pelo qual certos delitos não aparecem nas estatísticas
oficias de criminalidade, em especial aqueles praticados pelos detentores de poder econômico,
dando a impressão de que a criminalidade se restringe a determinada classe social, deu-se o
nome de “cifra negra” ou criminalidade oculta.

As pesquisas sobre esta forma de criminalidade [criminalidade de colarinho
branco] lançaram luz sobre o valor das estatísticas criminais e de sua
interpretação, para fins de analise da distribuição da criminalidade nos vários
estratos sociais, e sobre as teorias da criminalidade relacionadas com estas
interpretações. De fato, sendo baseadas sobre a criminalidade identificada e
perseguida, as estatísticas criminais, nas quais a criminalidade de colarinho
branco é representada de modo enormemente inferior à sua calculável “cifra
negra”, distorceram até agora as teorias da criminalidade, sugerindo um
quadro falso da distribuição da criminalidade nos grupos sociais
(BARATTA, 1999, p. 102).

As estatísticas oficiais sobre a criminalidade mascaram a real criminalidade,
deixando de fora os crimes praticados por aqueles no topo da pirâmide social (criminalidade
oculta), e reforçando o estigma, a etiqueta de delinqüente dos desfavorecidos, dando a falsa
impressão de que a criminalidade está restrita aos estratos mais baixos da sociedade.
O objetivo disso é claro: legitimar e orientar a atuação seletiva do sistema
penal, mostrando a criminalidade como somente originada de pessoas pobres, em má situação
familiar e acometidas de desvios psicológicos.

Estas conotações da criminalidade incidem não só sobre os estereótipos da
criminalidade, os quais, como investigações recentes têm demonstrado,
influenciam e orientam a ação dos órgãos oficiais, tornando-a, desse modo,
socialmente “seletiva”, mas também sobre a definição corrente de
criminalidade, que o homem da rua, ignorante das estatísticas criminais,
compartilha. Realmente, esta definição de criminalidade, e as
correspondentes reações não institucionais por ela condicionadas (a reação
da opinião pública e o alarme social), estão ligadas ao caráter estigmatizante
que a criminalidade leva, normalmente, consigo, que é eficacíssimo no caso
da criminalidade de colarinho branco (BARATTA, 1999, p. 103).

Em poucas palavras, pode-se dizer que a criminalidade oculta, ou cifra
negra, é a criminalidade não apresentada ao sistema formal de controle ou por ele não
recebida.

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A verdade, é que a estatística criminal, ao invés de quantificar a
criminalidade realmente ocorrida, pouco informa nesse sentido, mas proporciona dados
precisos sobre a magnitude da criminalização e reforçando a teoria do etiquetamento.
Constado isso, as estatísticas criminais adquirem uma nova dimensão
científica, como instrumento privilegiado para o estudo da lógica do controle social e dos
modelos de comportamento seletivo das agências de controle penal e das suas especificas
clientelas (ANDRADE, 1997, p. 262).

Nesse sentido, Dias e Andrade (1984, p. 137) citam um estudo sobre a
delinqüência de jovens estudantes universitários, oriundos de classes sociais privilegiadas:

A sua conclusão mais significativa é a de que, em matéria de delinqüência
real, não há diferenças significativas entre estes jovens e os jovens
estudantes pertencentes aos estratos mais desqualificados. A única diferença
é que, ao contrário do que sucede com estes últimos, a delinqüência dos
primeiros escapa sistematicamente aos registros oficiais. Um dos temas
centrais deste tipo investigação tem sido precisamente o problema da
localização social da delinqüência, sendo recorrente a conclusão de que a
uma homogeneidade tendencial no que toca à criminalidade real corresponde
um peso diferencial nas estatísticas oficiais em função da raça e do estatuto
econômico-social.

Daí se deriva a conclusão fundamental de que “a imunidade e não a
criminalização é a regra no funcionamento do sistema penal (HULSMAN apud ANDRADE,
1997, p. 266).

A conduta criminal é, então, o comportamento de muitos ou até da maioria

dos membros de nossa sociedade.

Na realidade, em qualquer sociedade onde existe liberdade e onde as
pessoas são, em tese, livres, há que se suportar certa taxa de criminalidade.

O que é preciso, como disse Durkheim, é lembrar que quando a taxa de
criminalidade é inusitadamente alta, como acontece agora no mundo
capitalista, esse excesso é de natureza mórbida e revela que essa sociedade
está doente ou que algo não está certo em seu seio (PIMENTEL, 1983, p. 24)

Assim, levando-se em conta que a conduta desviante é majoritária e
disseminada por toda a pirâmide social, mas, em quase todos os lugares do mundo, a clientela
do sistema penal normalmente é formada por pessoas pertencentes às classes sociais mais
baixas, conclui-se, então, que há um processo de seleção de pessoas que são etiquetadas como
delinqüentes e não, com se pretende, um mero processo de seleção de condutas tidas como
criminosas.

Desta forma, a “minoria criminal” a que se refere a explicação etiológica (e a

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ideologia da defesa social a ela conecta) é o resultado de um processo de
criminalização altamente seletivo e desigual de “pessoas” dentro da
população total, enquanto a conduta criminal não é, por si só, condição
suficiente deste processo. Pois os grupos poderosos na sociedade possuem a
capacidade de impor ao sistema uma quase que total impunidade das
próprias condutas criminosas (ANDRADE, 1997, p. 267)

A atuação do sistema geralmente imuniza o comportamento desviante dos
poderosos, enquanto superestima infrações de menor danosidade social (crimes contra o
patrimônio), especialmente quando esses são praticados por indivíduos pertencentes aos
estratos sociais marginalizados, agindo assim de forma altamente seletiva, tanto
quantitativamente como qualitativamente.

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