A Era dos Impérios – História Econômica do Imperialismo

Julho, 2005 Felipe Teixeira Gonçalves Introdução

A palavra Imperialismo já foi utilizada de várias maneiras diferentes ao longo da história. No presente trabalho, trataremos do imperialismo como um fenômeno histórico ocorrido no período entre 1880 e 1914. Nesse período o mundo, com exceção da Europa e da América, foi dividido entre as potências imperiais: Grã-Bretanha, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Itália, EUA, Japão e Rússia. Mais de um quarto do mundo estava sob o controle direto, ou como área de influência de pouco mais de uma dúzia de países. O fenômeno do Imperialismo possui diversas dimensões, entre elas a econômica, a política, a cultural, a ideológica e a psicológica. Pretendemos fazer uma análise da história e da teoria econômica do Imperialismo, de acordo com a tradição marxista que se ocupou do tema. Também procuraremos explicitar as principais contribuições dos principais pensadores que deram uma contribuição inigualável à compreensão do modo de funcionamento da economia capitalista a partir do Imperialismo. Portanto, adotaremos o Imperialismo como conceito da Economia Política, considerado-o, portanto, “como uma séria de estruturas e relações políticas e econômicas que constituem um marco doutrinal ou um modelo que nos ajuda a compreender o que os homens denominam impérios1”. Para termos um panorama mais geral e mais histórico, retomamos os aspectos histórico-econômicos importantes que servem para explicar porque ocorreu o Imperialismo2. Em primeiro lugar, temos a criação, pela primeira vez de uma verdadeira economia mundial. O capitalismo atinge até as regiões mais remotas do planeta e qualquer espaço do mundo passou a ser de interesse para as potências capitalistas. Em segundo lugar, o acesso às fontes de matéria prima – como alumínio, cobre, estanho, petróleo, borracha, etc. – passou a ser cada vez mais importante após a chamada Segunda Revolução Industrial. Outro fator importante, nesta época, foi o surgimento do consumo em massa de alimentos nas grandes potências. O consumo de alimentos como cereais, chá, café, açúcar e cacau foi muito maior do que em qualquer outra época. Como esses alimentos eram provenientes das colônias, foram garantidos grandes lucros a quem as controlava.

haveria uma grande diferença entre custo e preço. como nunca antes uma convergência muito grande entre economia e política. Por um lado. Isso evita que o capitalismo . o Imperialismo não passa de uma das fases do capitalismo: a sua fase monopolista.Todos esses aspectos levaram a uma competição no plano internacional entre os países industrializados. Porém. os monopolistas tenderiam a reduzir a produção e não os preços. O que pretendemos aqui é explicitar os mecanismos econômicos que explicam como uma economia monopólica leva ao Imperialismo. Para tanto. ou seja. A indústria pesada teria seus mercados retraídos. Finalmente a tendência seria o congelamento da configuração existente de cada ramo da indústria. pois os monopólios já estabelecidos relutariam em expandir a capacidade produtiva e não haveria novas firmas entrando nessas áreas. o que significaria uma alta taxa de lucro e salários muito baixos. Em caso de queda da demanda. que teria levado ao Imperialismo. assim ao Imperialismo. Outro aspecto importante a ser ressaltado é o de que se viu. as oportunidades de investimentos são reduzidas elo próprio monopólio. Por outro lado. descrita por Marx. Desenvolvimento Econômico do Imperialismo De acordo com Lênin. Assim. tenderia a haver uma redução na taxa de novos investimentos. criando uma grande capacidade excedente. Isto levaria a uma grande contradição. construiremos um modelo simplificado do modo de funcionamento de um sistema de indústria capitalista com alto grau de monopólio3. Além disso. o capitalismo monopolista levaria a uma queda dos mercados e uma deficiência crônica da demanda. Há uma busca intensificada por saídas externas para o investimento. ou seja. o que agravaria ainda mias o problema da capacidade excedente e do desemprego. Isso levaria a uma situação permanente em que a capacidade produtiva. enquanto o desemprego em massa diminuiria o consumo. de modo a maximizar seus lucros. Seria a tendência do capitalismo a eliminar a concorrência em direção ao monopólio. a concentração da riqueza provinda dos monopólios tende a aumentar a vontade de investir. um impulso por penetrar ou anexar esferas que se apresentam em relação à metrópole da indústria monopolista como colônias. Neste modelo. há uma maneira de resolver a contradição: a exportação do capital. Essa taxa decrescente de investimento levaria a um estreitamento do mercado da indústria pesada. Em quarto lugar. as fábricas e os equipamentos. o Estado defendendo diretamente os interesses das empresas. ficará subutilizada. dando origem. também haverá um grande aumento no exército industrial de reserva.

A competição tende a criar monopólios e estes podem controlar outras firmas pequenas com quem negociam. eles precisam da proteção de tarifas e eles. o melhor caminho é recorrer aos principais autores marxistas que escreveram sobre o Imperialismo e são responsáveis pelas principais obras para se entender o funcionamento do capitalismo a partir de sua etapa monopolista4. O sistema industrial fica dependendo da concorrência monopolista. É a concorrência entre os diversos monopólios nacionais das potências que causam o Imperialismo. Rudolf Hilferding Em sua obra “O Capital Financeiro”. Isso permite uma enorme concentração de poder econômico e de produção. mantendo uma pequena reserva monetária. Os bancos têm uma grande interesse em promover a centralização do capital. Sua tese é muito simples. Ele faz uma distinção entre capital financeiro (finance capital) e capital bancário (financial capital). juntando vários pequenos capitais em um só. Os atores centrais no crescimento dos monopólios eram os bancos. O capital financeiro é o produto da fusão entre o capital industrial e o capital bancário. Para isso. há uma tendência à criação de grandes blocos de capital organizados de forma hierárquica. Contudo ele não colocou esses argumentos em um conceito definido de Imperialismo. Como os monopólios não podem controlar ainda o mercado mundial. procuram estender seus mercados protegidos o máximo possível. como conseqüência para desenvolvimento do sistema econômico. Daí o apoio do capital financeiro às políticas expansionistas. pois isso reduz o risco de falência das empresas a quem eles emprestaram dinheiro. então. publicada em 1910. comercial e bancário estão interligados. na forma de capital financeiro. Porém não explica em que consistiu o fenômeno do imperialismo. Disso deriva uma tendência ao monopólio. . Os ganhos nas manobras destinadas a melhorar a posição estratégica própria passam a ser mais atraentes do que quaisquer outros lucros de uma iniciativa na esfera da produção. a mudança do foco de interesse de considerações de produção e custos produtivos para outras de supremacia financeira e comercial. Essas empresas permitem uma grande concentração de capital. Portanto. Os capitais industrial. Esse modelo de explicação econômico serve para entendermos um pouco melhor quais são as reais conseqüências derivadas de uma economia monopolista. pois eles centralizavam o capital e podiam oferece-lo como crédito. Ele apresenta a criação das empresas de ações compartilhadas (joint stock companies) como uma das principais modificações na função do capitalista. O monopólio traz. que são dominados por bancos. Hilferding explicitou a maioria dos pontos ressaltados por Bukharin e Lênin. Isso permite que donos de grandes blocos de capital usem esse tipo de organização para controlar vários pequenos acionistas.monopolista chegue às condições acima acentuadas. nesses blocos.

ou seja. Isso porque as tarifas definem um território nacional maior.Hilferding dá uma grande ênfase no papel das tarifas protecionistas. O crescimento da divisão social do trabalho e a crescente internacionalização do capital são partes integrantes da exportação de capital. Ele também aponta a tendência ao monopólio como é explicitada por Hilferding. Bukharin vê dois: a internacionalização e a nacionalização do capital. Ele cria uma relação social de produção numa escala mundial. contudo. Contudo. de outro. mas só publicado depois da Revolução Russa – colocou as idéias já existentes de Marx. Outro motivo é que os laços de unidade com o Estado e suas fronteiras são. a centralização do capital. produzindo dentro do território em que a tarifa opera. Os cartéis são estruturas com propensão a se quebrar em dois casos. O importante. Para ele. o movimento do capital procurando a maior taxa de retorno é normal no capitalismo. É a partir da exportação de capital que ele conecta as idéias anteriores. Estas passaram de uma forma de proteção das industrias infantes contra a conquista do mercado interno por industrias estrangeiras para um meio de conquista de mercados externos pela industria nacional. Onde Hilferding via apenas um processo. como a tentativa de superar as tarifas protecionistas dos outros países. as diferenças existentes de estrutura econômica e de custos de produção tornam acordos desvantajosos para os grupos nacionais avançados. mas também entre os trabalhadores e capitalistas dos diferentes países. Isso ocorre porque é muito mais fácil superar a competição em escala nacional do que em escala mundial. A contradição entre essas duas tendências levaria o sistema à guerra e ao colapso. Nicolai Bukharin Foi Bukharin que – em seu livro “O Imperialismo e a Economia Mundial” escrito em 1915. dando-lhes privilégios no comércio internacional. Além disso. em si. Esta estabelece relações de produção não só entre unidades produtivas. Um ponto essencial para a teoria de Bukharin é a idéia de que os monopólios se organizam na forma de cartéis. é que as “joint stock companies” permitem que subsidiárias se estabeleçam em outros países sem a emigração do próprio capitalista. De um lado havia o crescimento da interdependência internacional da economia mundial e. a sua divisão em blocos nacionais. Se a força competitiva dos membros for . um monopólio sempre crescente que garante lucros adicionais. porém ele explicita o motivo pelo qual o monopólio se estabeleça em bases nacionais. Hobson. A ligação entre os bancos e as industrias permitem acesso fácil ao dinheiro necessário para isso e o grande tamanho das empresas lhes davam as vantagens necessárias para construir instalações novas em outros lugares. O comércio internacional. os mercados das colônias se tornam “mercados internos” das potências. é apenas uma versão da divisão social do trabalho assim como a troca de bens entre diferentes empresas. a exportação de capital tem características específicas. para ele. Rosa Luxemburgo e Hilferding em uma teoria completa e coerente sobre o Imperialismo.

Lênin também procurou explicar porque os trabalhadores apoiaram seus países com o começo da Primeira Guerra Mundial. parte da classe trabalhadora se beneficiava com a posição de monopólio que seus patrões capitalistas possuíam no mercado mundial e isso explicava o apoio. mas uma mudança na sua forma. O texto de Lênin é um panfleto destinado a servir de base para a ação política. O principal disso tudo é sua descrição de duas principais tendências: por um lado. o poder se concentrou nas mãos de grandes blocos de capital financeiro e a riqueza foi canalizada para classes de rentistas parasitas.desigual. com pouca contribuição original. Fase Superior do Capitalismo” de Lênin é a obra marxista mais conhecida sobre o Imperialismo. Esta seria a última fase do capitalismo. o mais forte pode ter mais ganhos se sair do cartel do que se continuar nele. devido ao desenvolvimento desigual das nações. Vladimir Ilych Lênin O texto “Imperialismo. Para ele. Por outro lado. Ele evidencia as principais tendências do capitalismo na época em que ele estava escrevendo. A formação de blocos capitalistas monopolistas internacionais que dividem o mundo entre si. a exportação de capital levou a uma internacionalização da produção capitalista e a extensão de relações de produção capitalistas a todos os cantos do planeta. Como a cartelização e a formação de monopólios prometem altos lucros e uma grande vantagem competitiva no mercado mundial. Ele chamou essa categoria de trabalhadores de aristocracia operária. São elas: • • • • • • • A concentração da produção e do capital se desenvolveu a tal ponto que criou monopólios que desempenhavam um papel central na economia. O que Lênin pretendia era fazer uma oposição ao Kautsky. há um grande incentivo para as empresas capitalistas se associarem em uma base nacional. estava levando a Segunda Internacional para uma direção totalmente equivocada. A fusão do capital bancário com o capital industrial. Esses fatores são especialmente fortes no nível internacional. A tendência ao monopólio não significaria uma eliminação da competição. que logo seria superado. Como ela foi praticamente eliminada no nível nacional. ele apenas organiza e expõe a análise já realizada por outros autores. que garante a satisfação da divisão do mercado entre os membros do cartel. o acordo da divisão do mercado pode não ser mais apropriado. criando o capital financeiro e uma oligarquia financeira. que. A competição entre as potências levaria inevitavelmente à guerra. . segundo ele. A divisão territorial do mundo entre as maiores potências capitalistas. A exportação de capital adquire uma importância central. Portanto. se as forças relativas dos membros mudarem. ela se mostra agora como uma rivalidade política e militar entre “trustes capitalistas estatais”. por outro lado. apesar de ter sido publicado antes. que só ocorria nessa parte dos trabalhadores. Ele é posterior ao de Bukharin.

Anthony. London and New York. Para Kautsky. Maurice. Madrid. Essa teoria poderia fortalecer ainda mais o apoio pela paz na classe dominante. Essa competição levou à primeira guerra de proporções mundiais da história. Após a deflagração da Primeira Guerra. essa parte da burguesia poderia superar o imperialismo e o militarismo. pois eles enfrentariam ameaças provindas dos povos coloniais oprimidos e do seu próprio proletariado. que seria a possibilidade de que as grandes potências pudessem fazer um acordo para explorar o mundo conjuntamente. imperialismo e guerra era a base central para sua defesa da luta pelo socialismo. estabelecendo colônias na África e na Ásia. Kautsky elaborou a teoria do Ultra-Imperialismo. 1987. Conclusão Assim. marcando de forma decisiva o futuro humanidade no século XX. Alianza Editorial. É essa conexão que Lênin tenta demonstrar em seu texto. Portanto. com a fusão do capital bancário e do capital industrial. militar e econômica. A Evolução do Capitalismo. a economia capitalista entrou numa fase de crescente concentração do capital. mas defendia que uma parte do capital industrial ainda tinha interesse na paz e no livre comércio. Para Lênin. ele acreditava que . as políticas imperialistas expressavam o interesse do capital bancário e de certos grupos de monopólio. Após a Grande Depressão de 1873. ou seja. BROWN. de modo a garantir seu poder e os interesses financeiros dos monopólios nacionais. Com isso os Estados das principais potências capitalistas entraram em um período de disputa política. Este capital adquiriu nova forma. se fez necessária a expansão territorial e a exportação de capital. Rio de Janeiro. assim como para Bukharin. Marxist Theories of Imperialism. a inevitabilidade da competição entre as potências capitalistas e o seu resultado lógico: a guerra. temos um quadro geral do desenvolvimento históricoeconômico característico do fim do século XIX e começo do século XX: o Imperialismo. Esses cartéis tinham que se organizar em uma base nacional. Michael Barrat. Routledge & Kegan Paul. . com a criação de grandes monopólios ou cartéis. Para que estes não levem a uma nova depressão. DOBB. a conexão entre desenvolvimento capitalista. Bibliografia BREWER. 1975. garantindo a paz. com o apoio da classe operária. Editora Guanabara. 1980. La Teoría Económica del Imperialismo.Contudo um dos principais objetivos de Lênin era fazer uma crítica a Kautsky e ao Partido Social Democrata alemão. o capital financeiro.

Lenin Obras Escogidas. Vladimir I. A Era dos Impérios 1875-1914.HOBSBAWN. Eric J. Rio de Janeiro. El Imperialismo. Fase Superior del Capitalismo. in V. Instituto de Marxismo-Leninismo do CC do PCUS. I. LENIN. 1988. Paz e Terra. . Moscou. 1960.

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