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Coletânea de

Apoio Ciência
Política
Ciência política é o estudo da política — dos sistemas políticos, das organizações e dos
processos políticos. Envolve o estudo da estrutura (e das mudanças de estrutura) e dos processos de
governo — ou qualquer sistema equivalente de organização humana que tente assegurar segurança,
justiça e direitos civis. Os cientistas políticos podem estudar instituições como empresas, sindicatos,
igrejas, ou outras organizações cujas estruturas e processos de ação se aproximem de um governo, em
complexidade e interconexão.
Existe no interior da ciência política uma discussão acerca do objeto de estudo desta ciência, que,
para alguns, é o Estado e, para outros, o poder. A primeira posição restringe o objeto de estudo da
ciência política; a segunda amplia. A posição da maioria dos cientistas políticos, segundo Maurice
Duverger, é essa visão mais abrangente de que o objeto de estudo da ciência política é o poder.
O termo "ciência política" foi cunhado em 1880 por Herbert Baxter Adams, professor de História
da Universidade Johns Hopkins.
A ciência política é a teoria e prática da política e a descrição e análise dos sistemas políticos e
do comportamento político.
A ciência política abrange diversos campos, como a teoria e a filosofia políticas, os sistemas políticos,
ideologia, teoria dos jogos, economia política, geopolítica, geografia política, análise de políticas
públicas, política comparada, relações internacionais, análise de relações exteriores, política e direito
internacionais, estudos de administração pública e governo, processo legislativo, direito público (como o
direito constitucional) e outros.
A ciência política emprega diversos tipos de metodologia. As abordagens da disciplina incluem a
filosofia política clássica, interpretacionismo, estruturalismo, behaviorismo, racionalismo, realismo,
pluralismo e institucionalismo. Na qualidade de uma das ciências sociais, a ciência política usa métodos
e técnicas que podem envolver tanto fontes primárias (documentos históricos, registros oficiais) quanto
secundárias (artigos acadêmicos, pesquisas, análise estatística, estudos de caso e construção de
modelos).

Histórico
Ainda que o estudo de política tenha sido constatado na tradição ocidental desde a Grécia antiga,
a ciência política propriamente dita constituiu-se tardiamente. Esta ciência, no entanto, tem uma nítida
matriz disciplinar que a antecede como a filosofia moral, filosofia política, política econômica e história,
entre outros campos do conhecimento cujo objeto seriam as determinações normativas do que deveria
ser o estado, além da dedução de suas características e funções.
Muitos pesquisadores colocam que a ciência política difere da filosofia política e seu surgimento
ocorreria, de forma embrionária, no século dezenove, época do surgimento das ciências humanas, tal
como a sociologia, a antropologia, a historiografia, entre outras.

O que os cientistas políticos fazem


Cientistas políticos estudam a distribuição e transferência de poder em processos de tomada de
decisão. Por causa da frequente e complexa mistura de interesses contraditórios, a ciência política é
freqüentemente um exemplo aplicado da Teoria dos jogos. Sob esta óptica teórica, os cientistas políticos
olham os ganhos - como o lucro privado de pessoas ou das empresas ou da sociedade (o
desenvolvimento econômico- e as perdas - como o empobrecimento de pessoas ou da sociedade (veja
Corrupção política) - como resultados de uma luta ou de um jogo em que existem regras não explícitas
que a pesquisa deve explicitar.
A ciência política busca desenvolver tanto teses positivas, analisando as políticas, quanto teses
normativas, fazendo recomendações específicas. Cientistas políticos medem o sucesso de um governo e
de políticas específicas examinando muitos fatores, inclusive estabilidade, justiça, riqueza material, e
paz. Enquanto os historiadores olham para trás, buscando explicar o passado, os cientistas políticos
tentam iluminar as políticas do presente e predizer e sugerir políticas para o futuro.
O estudo de ciência política é complicado pelo envolvimento freqüente de cientistas políticos no
processo político, uma vez que suas teorias frequentemente servem de base para ação, opção e prática
de outros profissionais, como jornalistas, grupos de interesse especiais, políticos, e o eleitorado.
Cientistas políticos podem trabalhar como assessores de políticos, ou até mesmo se candidatarem a
cargos políticos eles próprios.

Campos da ciência política


A ciência política faz parte das ciências humanas, por isso é uma ciência bastante complexa, pois
analisa o Estado, a soberania, a hegemonia, os regimes políticos, os governos, as linhas históricas destas
partes da política nos países desde a antiguidade até hoje e a influência que têm sobre a sociedade
incluindo as Relações internacionais.
Existem três formas de se abordar os objetos de estudo desta ciência:
• Política descritiva, ou empírica: nesta linha os pesquisadores optam por análises meramente
empíricas da realidade política. Sendo uma ciência muito controversa, esta fase, ou opção da
análise política é de fundamental importância na coleta de dados fiéis à realidade, distinguindo-
se assim das teorias normativas.
• Teoria política: nesta abordagem os pesquisadores, partindo dos dados empíricos articulam-nos à
teoria política propriamente dita para compreender e explicar a realidade considerando
insuficiente a mera descrição da realidade tal como é.
• Política comparada: fundamental na ciência política, esta abordagem da pesquisa busca, através
de comparações entre diversas realidades sócio-históricas, elementos mais gerais da realidade
política das sociedades. Também aqui é necessária a mediação do dado empírico com a teoria,
mas desta vez, através da comparação, tenta-se chegar a elementos generalizáveis da realidade
política e questionar hipóteses ou teorias feitas a respeito de uma única realidade delimitada.
Para que este estudo seja feito de maneira precisa, a ciência política é dividida em alguns ramos
específicos de assunto a ser tratado em questões políticas, tais como:

• Política financeira
• Política econômica
• História da ciência política
• Geografia política
• Política jurídica

Conceitos
A ciência política constitui um conceito operacional e possível, difícil de definir, porque existem várias
definições para ela. A onipresença virtual da política nos fato ou a sua politização pode depender da
correlação entre as forças políticas e ainda de acontecimentos que tenham maior ou menor impacto na
opinião pública. Também o contexto internacional pode contribuir para a politização de um determinado
fato.

Conceito operacional
Disciplina social e autônoma que engloba atividades de observação, de análise, de descrição,
comparação, de sistematização e de explicação dos fenômenos políticos. Teses sobre o objeto de estudo
da Ciência Política:

Como ciência do Estado


Já desde a Antiga Grécia que a ação política desenvolvida na pólis (cidade) se encontrava estreitamente
ligada ao Estado. Mais tarde, também Prélot veio reafirmar esta ideia clássica de que a ciência política
estava ligada e que se centrava no Estado. Esta posição assumida por Prélot foi criticada pelos seus
colegas por considerarem o Estado uma parcela redutora de tudo aquilo que a ciência política estuda.
No entanto, e em sua defesa, Prélot defende que o Estado tem de ser visto de uma forma mais profunda,
daí que chamasse a atenção para os fenômenos que dele decorriam (inter-estatais; supra-estatais; infra-
estatais; e para-estatais). A crítica, no entanto, manteve-se, por considerarem que era uma ideia
desatualizada, uma vez que apenas considera o Estado enquanto Soberano.

Como ciência do poder


As modalidades de exercício do poder, a concentração de poder, interessam à ciência política desde que
sejam fonte de poder. A manifestação de poder define-se pela capacidade de obrigar outros a aceitar ou
adotar um determinado comportamento.

Como ciência do poder político


Estuda o poder gerado numa sociedade politicamente organizada e estruturada, quando exercido como
coação.

Como ciência dos sistemas políticos


Estuda o conjunto de interações através da qual se processa a distribuição autoritária de recursos numa
determinada sociedade (concepção originada por David Easton).
Surge, então, como o estudo das estruturas e processos pelos quais o sistema político de uma sociedade
persegue sua permanência, ao mesmo tempo que procede à distribuição imperativa dos recursos de que
tal sociedade se vale, em seu funcionamento.

Objeto de estudo da ciência política


A ciência política estuda o Estado e as suas relações com os grupos humanos. Estuda, ainda, os agentes
políticos internos que lutam pela conquista, aquisição e pelo exercício do poder, ou pelo menos de
influenciá-lo, visando a satisfação dos seus interesses. Estuda, também, os agentes políticos
internacionais que influenciam ou tentam influenciar o comportamento dos órgãos que no quadro de
uma sociedade nacional exercem o poder político máximo.

Utilidade da ciência política


A utilidade da ciência política baseia-se na existência de uma disciplina que consiga sistematizar os
processos, movimentos e instituições políticas, isto é, os fenômenos políticos. Ajuda através dos seus
instrumentos analíticos e teorias a uma melhor compreensão dos sistemas políticos, o que vai
proporcionar um melhor conhecimento e aperfeiçoamento dos sistemas políticos, e que vai permitir aos
cidadãos mais esclarecidos intervir na legitimação do poder e participar de forma ativa na vida política
dos Estados.

Relevância acadêmica
Na Grécia Antiga, para Aristóteles a política deveria estudar a pólis e as suas estruturas e
instituições (a sua constituição e conduta). É considerado o pai da ciência política, porque considerou a
política a ciência “maior”, ou mais importante do seu tempo. Criou, ainda, um método de observação
que permitiu uma sistematização e explicação dos fenômenos sociais. Preocupava-se com um governo
capaz de garantir o bem-estar geral (o bom governo).
No século XVI, Maquiavel e a sua obra dão origem à modernidade política. A sua preocupação era
a criação de um governo eficaz que unificasse e secularizasse a Itália. Defende um príncipe ou dirigente
de governo sem preocupações morais ou éticas, um dirigente que não olha a sensibilidades para atingir
os seus fins. A política, era assim a arte de governar, ou seja, uma técnica que permitisse ao dirigente ou
governante alcançar os fins independentemente dos meios, não visa a realização geral mas sim pessoal.
Introduziu, ainda, um método comparativo-histórico, fazendo comparação entre dirigentes da sua época
e de épocas anteriores através de exemplos. Introduziu, também, e reforçou a importância do Estado e
da Instituição Estatal.
Na segunda metade do século XVI, Jean Bodin escreve “República”, obra que era também uma
sistematização e explicação dos fenômenos políticos. Dá também grande relevância à ideia de soberania
do Estado, é com base nesta teoria de soberania do Estado que Bodin cria o conceito de soberania
(segundo o qual, o poder não tem igual na ordem interna e nem superior na ordem externa). Divide,
portanto, o Estado em ordem interna e ordem externa e apenas considera um Estado soberano, se este
for superior nestas duas dimensões.
No século XVIII, Montesquieu em pleno iluminismo, difunde idéias políticas que têm por base a ação
humana. Esta surge, assim, como alternativa às ideias de Aristóteles, chamando a atenção para a
“natureza das coisas”. Procurou explicar a natureza das coisas pelas suas idiossincrasias. Foi com
Montesquieu que a geografia dos Estados ou a geopolítica se tornou um elemento importante na análise
política. Introduz o método comparativo de base geográfica. Faz a distinção entre república, monarquia
e despotismo, afirmando que este último deveria ser erradicado e afastado, na república o poder
pertence ao povo ou a uma parte esclarecida deste, na monarquia o poder pertence ao monarca, no
despotismo, o poder pertence a um indivíduo, o déspota que governa sem honra e que utiliza o terror e
a violência como forma de governação. Para erradicar o despotismo, Montesquieu apresenta a teoria da
separação de poderes, de forma que o poder seja descentralizado das mãos de uma só pessoa para que
não o use em proveito próprio. Resolvia-se então o perigo do despotismo com a institucionalização da
separação de poderes.
A partir da segunda metade do século XVIII, a investigação dos fenômenos políticos começaram a
perder terreno e a dar lugar a ciências como a sociologia, o direito e a economia. Embora a ciência
política não tenha desaparecido.
A prová-lo está o contributo dado por três autores e pensadores do século XIX. A. Comte (alertou para a
necessidade de analisar com objetividade os fenômenos ou fato políticos); Alexis de Tocqueville (chama
a atenção para o estudo do sistema político norte-americano, na sua análise introduziu um conjunto de
entrevistas, o que lhe permitiu uma comparação entre estas e irradiar erros ou alguma falha possível,
fazendo um quadro onde apresentava detalhadamente o sistema político norte-americano como se de
uma fotografia se tratasse); Karl Marx (introduz uma nova perspectiva de abordagem dos fenômenos
políticos e de poder, uma vez que faz uma análise do ponto de vista econômico e social, o fenômeno
político é uma consequência das relações de produção, e o regime político era o reflexo da organização
das forças produtivas). É também nesta altura que surgem as ciências políticas especializadas em
determinados fenômenos (economia política, direito político, geografia política, etc.)
Nos finais do século XIX a ciência política é reconhecida nos EUA nas universidades, como forma
de combater o caciquismo no poder local e a corrupção nos partidos políticos.
Só após a Segunda Guerra Mundial, a ciência política volta a ganhar relevo e a tornar-se também
uma disciplina autônoma nos quadros das universidades européias. Além disso ganha força a análise de
sistemas eleitorais, e também do comportamento do eleitorado.
Os fenômenos que contribuíram para o reforço da ciência política foram a proliferação dos
sistemas democráticos, dos partidos políticos, dos mass media, de organizações internacionais, pelo
próprio sistema internacional, etc. Estes fato levaram ao aumento de estudos sobre estes assuntos, o
que suscitou também uma maior proliferação da ciência política (criação da IPSA, associação onde
cientistas políticos discutiam as suas posições e que deu origem a outras organizações sobre a mesma
temática)

A ciência política no Brasil


A ciência política brasileira institucionalizou-se há relativamente pouco tempo. Ainda em meados
dos anos 1950, seu principal veículo era a Revista Brasileira de Estudos Políticos, no entanto editada
pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A Associação Brasileira de
Ciência Política (ABCP) só foi fundada em 1986 e só passou a atuar efetivamente a partir de 1996. Os
encontros da ABCP são realizados a cada dois anos e reúnem os principais cientistas políticos do país.
Os dois nomes fundadores centrais da ciência política no Brasil são Fábio Wanderley Reis, da UFMG, e
Wanderley Guilherme dos Santos, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Hoje,
sob influência das matrizes norte-americanas, a maior parte da disciplina opera com modelos neo-
institucionalistas e de "escolha racional", que estilizam fortemente a ação política, seja reduzindo o
número de atores envolvidos (tipicamente, resumindo-os a "candidatos" e "eleitorado" ou a "executivo"
e "legislativo"), seja eliminando a discussão sobre a formação de suas preferências. Os modelos, assim,
dizem respeito mais a si mesmos do que ao mundo real externo. Entre as exceções destacam-se grupos
do Departamento de Ciência Política da UFMG, com Leonardo Avritzer, inspirado pela teoria crítica
habermasiana, e do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), com Luis Felipe
Miguel, que adota uma postura radical democrática pós-marxista.
Até recentemente, não havia uma publicação institucional da Ciência Política brasileira, tal como a
American Political Science Review nos Estados Unidos. Em março de 2007, a Associação Brasileira de
Ciência Política publicou o primeiro número da Brazilian Political Science Review. No entanto, a
publicação, que é apenas eletrônica, ainda está longe de se constituir em referência na disciplina.
Atualmente, os principais artigos brasileiros da área são publicados nas revistas Dados, do IUPERJ, Lua
Nova, do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea, de São Paulo; na Revista Brasileira de Ciências
Sociais, da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS); ou, então,
na Revista de Sociologia e Política, do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira, da UFPR. As
quatro publicações possuem versão on-line, disponível em http://www.scielo.br. Em 2009, o Instituto de
Ciência Política da UnB iniciou a publicação da Revista Brasileira de Ciência Política, editada por Luis
Felipe Miguel e Flávia Biroli. A publicação está disponível on-line em http://www.rbcp.unb.br.

Em ciência política, chama-se forma de governo (ou sistema político) o conjunto de


instituições políticas por meio das quais um Estado se organiza a fim de exercer o seu poder sobre a
sociedade. Cabe notar que esta definição é válida mesmo que o governo seja considerado ilegítimo.
Tais instituições têm por objetivo regular a disputa pelo poder político e o seu respectivo
exercício, inclusive o relacionamento entre aqueles que o detêm (a autoridade) com os demais membros
da sociedade (os administrados).
A forma de governo adotada por um Estado não deve ser confundida com a forma de Estado
(unitária ou federal) nem com seu sistema de governo (presidencialismo, parlamentarismo, dentre
outros).
Outra medida de cautela a ser observada ao estudar-se o assunto é ter presente o fato de que é
complicado categorizar as formas de governo. Cada sociedade é única em muitos aspectos e funciona
segundo estruturas de poder e sociais específicas. Assim, alguns estudiosos afirmam que existem tantas
formas de governo quanto há sociedades.

Formas de governo
Tendo em mente a dificuldade em classificar-se as formas de governo, estas são tradicionalmente
categorizadas em:
• Monarquia
• República
• Anarquia (a rigor, ausência de governo)

Outras formas de exercício do poder


Esta seção combina formas de governo, sistemas de governo e conceitos afins. Cada Estado pode adotar
elementos de mais de um sistema.
• Autocracia
o Autoritarismo
 Fascismo
o Absolutismo
 Despotismo esclarecido
o Despotismo
o Ditadura
 Ditadura militar
o Monarquia (uma variante, a monarquia constitucional, não pode ser considerada
autocracia)
 Monarquia absoluta (historicamente, o mesmo que absolutismo)
o Totalitarismo
 Nacional-Socialismo (nazismo)
 Fascismo (o único a realmente se definir como totalitarista)
o Tirania

• Democracia
o Democracia direta
o Democracia semidireta
o Democracia orgânica (podendo ser semidireta em alguns países, mas sempre com
corporativismo)
 Corporativismo
o Democracia representativa
 Parlamentarismo
 Presidencialismo
 Semi-presidencialismo

• Oligarquia
o Aristocracia
o Cleptocracia
o Gerontocracia
o Meritocracia
o Plutocracia
o Tecnocracia

• Teocracia

CIÊNCIA POLÍTICA E DIREITO


Ricardo Macellaro Veiga *

O nosso objeto de estudo é o Estado; uma sociedade política, juridicamente organizada, sob dois
aspectos:

• Material – população (humanos) e território;


• Formal – poder político e ordem jurídica (lei).

(Acrescenta uma visão do Direito – IED: direito natural é aquele que vem com o ser humano, é o maior;
direito positivo é o posto, obrigatório, conjunto de normas escritas – está dividido em D. Público, que
rege o povo, o Estado, “faz andar a máquina pública”, e D. Privado, que diz respeito ao povo, às relações
intersubjetivas, v.g., Cód. Civil, Cód. Comercial etc.)

Noções sobre o Estado – Métodos de estudo

Histórico

• Aristóteles, precursor, ele se preocupou com a concepção; estudou a polis grega (Polis é a
Cidade, entendida como a comunidade organizada, formada pelos cidadãos, em grego politikos,
isto é, pelos homens nascidos no solo da Cidade, livres e iguais).
• Nicolau Maquiavel, fundador do Estado, em sua obra “O Príncipe”; toda forma de agrupamento
humano chama-se Estado; contrario sensu, é anarquismo com limites:
 Antigamente era limitado ao status (posição), limitado a determinados indivíduos.

Tríplice Aspecto
• Social - população;
• Jurídico – normas;
• Político – poder (representado pelo povo).

O Direito (IED) e o ESTADO (TGE)

Existem três doutrinas filosóficas:


• Monística (estatismo jurídico), Hans Kelsen; Estado e direito são uma coisa só;
• Dualística (pluralística), Leon Duguit; existe Direito e Estado, todavia o Direito vem antes do
Estado.
• Paralelismo (eclético), Giorgio Del Vecchio;

Há autonomia do Direito e também do Estado; Direitos que, além do estatal, vigem;


“poderes paralelos” que, pari passu, regulam a sociedade; v.g., direito natural, consuetudinário,
canônico, recíprocos – contratos, regulamento interno de empresas – etc. Em derradeiro, Direito e
Estado caminham concomitantemente e são autônomos entre si.

Noção sobre a sociedade

Origem
• Organicista (naturalista) – o homem procura apoio comum, não existe um homem singular;
Aristóteles: “o homem necessita dessa para seu bem, evolução e sobrevivência.”

• Mecanicista (contratualista) – contrato hipotético (fundado em hipótese) celebrado entre homens;


há a celebração de um contrato social – relações recíprocas -, o dever de um é o direito do outro.
“O Estado é fruto de um contrato”, afirmaram em suas teorias Thomas Hobbes, Jean Jacques
Rousseau e John Locke.

Conceitos

• Estricto sensu – contratualista, parte dessa corrente (relações recíprocas).


 Humanos – pessoas;
 Organização – normatividade;
 Finalidade – inúmeras (igreja, escola; pessoas jurídicas em geral).

Elementos formadores
• Materiais – povo, população;
• Formais – poder político, na conformidade das normas vigorantes;
• Finais – interesse público, a razão terminológica do Estafo é atendê-los, senão torna-se arbitrário.

Classificação
• Sociedade necessária
 Família (universal, moral e ética – art. 226, caput, CF); reprodução, educação,
trabalho social, cultural etc.
 Religiosa, acreditar em outro plano, independentemente do credo religioso.

• Circunstâncias (criadas pelo homem)


 Economia; filantropia (humanitarismo); são inúmeras, o homem as cria para uma
correta e justa administração da sociedade.

Governo, poder político

Nessa vereda, o Estado é uma sociedade política, juridicamente organizada para atender o bem
comum (entendido esse, o bem comum, como o conceituou o Papa João XXIII, ou seja, o conjunto de
todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da
personalidade humana". Explanação dada por Dalmo de Abreu Dallari, em Teoria Geral do Estado.

População (elemento constitutivo), território, governo.

Governo, conjunto de órgãos que exercem a soberania – é o poder absoluto e perpétuo de uma
república, usada tanto para os particulares quanto aos que a manipulam (norma fundamental rege todo
ordenamento; quem o faz, inclusive).

Todo poder emana de um povo, que elege um representante.

Soberania, portanto, é uma qualidade do poder do Estado (o povo a concede); toda soberania,
porém, há limites, acaba quando outra começa (a de outro país).

• Tipologia (espécie) do poder:

 Governo de fato – sem consentimento popular; se posta com auxílio de um grupo


antagônico (oposto).
 Governo de direito – Constituição (se promulgada vem do povo, se outorgada vem
imposta);
 Governo legal – implantado nas conformidades do direito positivo (a Constituição
não o estabeleceu, fora instituído infra constitucionalmente); o que é legal é
constitucional - KELSEN - e vice-versa; D. Positivo é infraconstitucional;
 Governo legítimo – estabelecido pelo consentimento popular;
 Governo despótico (tirânico) – não leva em conta os anseios dos governados
(povo); nesse governo (tirânico) pode ocorrer a legitimação, que é diferente de
legitimidade; legitimidade, por sua vez, é um consentimento popular, a priori, com
eleição antes; legitimação ocorre, pois, quando o governo assumido tiranicamente
é reconhecido a posteriori, em outras palavras, após a investidura.

Bem comum (fins do Estado)

O Estado existe para realizar o bem comum; o homem sem o Estado não o realiza, mata se
houver necessidade. Bem comum é a felicidade, distribuição de justiça no campo social com legislação
adequada.
Bem comum, razão teleológica (teoria dos fins, finalidades) finalística; o Estado não constitui um
fim em si mesmo, “não é autônomo em seus desejos”, ele é um instrumento (meio) necessário para que
os indivíduos evoluam (nessa vereda, não há que se olvidar, que o ser humano é frágil, se não houver
um Estado o controlando e mantendo tais relações “limitadas” ele [o homem] tende a agrupar-se).

Os homens têm o direito de procurarem felicidade;

O Estado os deve proporcionar (deveres do estado segundo sua constituição, com fim no homem e não
em si):

• Realizar justiça;
• Tutelar os direitos fundamentais;
• Desenvolvimento econômico;
• Cuidar (providenciar, inclusive) da educação e saúde.

Em nível político:

• Preservar segurança interna da população;


• Segurança externa do país;
• Manter (garantir) a ordem jurídica.

Bem comum e funções sociais

O Estado do bem-estar (além das funções políticas e jurídicas)


Plano social: alimentação, higiene, moradia, educação, saúde, cultura, trabalho, transporte etc.;
para nossa postura física e mental

Esse Estado (do bem-estar) é um Estado reformista (repudia a violência como forma de ação
política); para atingir o bem comum:

• No plano político - segurança interna e externa;


• No plano jurídico - Estado de justiça, na conformidade da lei, equilibrar os desiguais tratando-os
desigualmente, a fim de igualá-los;
• No plano social – bem-estar geral do povo (art. 6º, 7º e 78, da C.F.).

Podemos denominar o Estado liberal como:


• Estado liberal – liberdade e igualdade;
• Estado constitucional – assegurar-se contra arbitrarismo, prever direitos elementares, tripartir os
poderes para a correta administração – Constituição é o que corresponde aos princípios
fundamentais.
• Estado de direito – decorrer da lei; princípio da legalidade, a lei é a norma agendi, obrigatória,
criada pelo poder constituído – representantes dos constituidores - povo.

Decadência do Liberalismo
O Estado liberal era muito bom, com uma teoria ótima; porém, na prática, não mais prestou para
a população; Sua decadência deu-se, grosso modo, porque o Estado liberal não era titulado a cuidar da
sociedade, nem era equitativo (redistribuição – tirar de quem tem mais [rico, opulento], v.g., com
tributos legais, e aplicar em setores carente, que haja necessidade fundamental). O Estado liberal
revelou-se absolutista, voltou ao status quo ante (estado anterior à questão tratada), ficou insuficiente,
não mais bem administrava. Posto isso, o Papa Leão XXIII publicou uma encíclica, a Rerum Novarum, e
no século XIX temos o Estado Liberal-Social.

Rerum Novarum
Tratar a pessoa humana com dignidade; trabalho compatível com o ser humano; descanso
semanal; férias; amparo à velhice, à maternidade; etc.

Estado Democrático de Direito


Democracia teve origem na Grécia com Aristóteles, com o princípio da isonomia;

Conceito de democracia é: governo do povo, pelo povo e para o povo (governo da maioria, voltado ao
bem comum – conceito natural, nasce com o homem). Seus pressupostos (da democracia) são liberdade
e igualdade (“meu direito termina onde o seu começa e vice-versa”).

Modalidades da democracia:

o Direta (inviável a nós) - As primeiras democracias foram diretas, como a de Atenas, por
exemplo, na qual o Povo se reunia nas praças e ali tomava decisões políticas. Neste caso,
os cidadãos não delegam o seu poder de decisão, mas, de fato, o exercem. A democracia
direta também é denominada democracia participativa. Um exemplo atual dessa forma de
organização política é o Orçamento Participativo, na qual as reuniões comunitárias,
destinadas a submeter os recursos públicos, são abertas aos cidadãos.
o Indireta – exercida por um representante que tem como incumbência levar em contas os
anseios dos representados, ele representa os órgãos (PJ, PL e PE);
o Mista (a habitual; que vigora no Brasil, inclusive) – tem-se o plebiscito, a priori (consulta o
povo antes da decisão, medida, ato etc.); também se tem o referendo, caracterizado como
a posteriori, no qual há a consulta ao povo após a medida; em derradeiro, a iniciativa
popular, raríssima em uso, mas prevista pela CF, em seu artigo 14.

Estado Democrático de Direito

Sua origem dá-se no século XVIII – o Estado de Direito não era democrático-; tem como características
(princípios básicos):
• Submissão à imperatividade da lei (CF) – a lei é heterônoma, igualmente aplicada a todos;
o - Divisão das funções em órgãos: PJ, PL e PE; não há que se confundir com “poderes”, as
funções são divididas, o poder é único (do Estado);
• Garantia de direitos individuais;
• Princípio da legalidade (art. 5º, II, CF, 1988);
• Princípio da igualdade (art. 5º, I, CF, 1988);
• Princípio da segurança jurídica (art. 5º, XXXIV, LIV e LV, CF, 1988) – a lei não prejudicará direito
adquirido, ato jurídico perfeito e coisa julgada.
• Distribuição de justiça (art. 5º, LIV e LV, CF) – direitos salvaguardados em lei, o acusado tem
direito a defesa.

Em epítome; cabe ao Estado democrático de direito levar em conta as desigualdades humanas e


sociais – tratar desigualmente os desiguais, igualando-os no plano jurídico constitucional.

Regimes Políticos

Formas de Estado (não é democrático, é federativo; essa representa sua forma na ordem jurídica):
• Unitário – Estado unitário, governado constitucionalmente, com uma legislação única; o governo
central detém o direito principal.
• Federativo, surge no séc. XVIII – aliança entre Estados, ação conjunta visando, sobretudo a
preservação da independência. Tem Constituição (não Tratado), o poder é compartilhado pela
União e pelas unidades federadas.

Formas de Governo:
• Monarquia – rei – o Estado é unitário, o poder é só do rei.
• República – criada por Maquiavel

Sistemas ou Regimes políticos:

• Parlamentarismo - o Poder Executivo é realçado - O sistema parlamentarista ou parlamentarismo


é um sistema de governo no qual o poder Executivo depende do apoio direto ou indireto do
parlamento para ser constituído e para governar. Este apoio costuma ser expresso por meio de
um voto de confiança. Não há, neste sistema de governo, uma separação nítida entre os poderes
Executivo e Legislativo, contrario sensu do que ocorre no presidencialismo.
• Presidencialismo – o chefe de governo é o Presidente.

Regimes Políticos

Todo Estado deve ter um regime político.

• União – P. Jurídica de Direito Público interno;


• Distrito Federal – capital da União;
• Estado Membro
• Município
• Unitário – um poder só.

Quando o povo concede a outrem, o poder é um Regime Democrático.

Quanto às suas classificações:


• Democrático – Estado moderno – participação do povo; “liberdade e igualdade, sem essas não há
progresso”;
• Autocrático - não democrático:
o Absolutista - sistema de governo em que o governante se investe de poderes absolutos,
sem limite algum, exercendo de fato e de direito os atributos da soberania;
o Ditadura - forma de governo em que todos os poderes se enfeixam nas mãos dum
indivíduo, dum grupo, duma assembléia, dum partido, ou duma classe;
o Déspota - sistema de governo que se funda no poder de dominação sem freios;
o Tirânico – sistema de governo opressor e cruel, o qual não leva em conta anseios
populares.

Democracia como regime político


• Direta – é pesquisada a decisão, o povo reúne-se para esse fim;
• Indireta (representativa) – confere o poder, a alguém, que leva as reivindicações;
• Semidireta (mista; Verdadeira democracia.):
• Plebiscito – antes da medida tomada;
• Referendo – depois de tomada a medida, consulta-se a sociedade;
• Iniciativa popular – a comunidade apresenta o projeto (raríssima).

O Liberalismo e sua decadência


Eis a sequência cronológica:

Liberalismo  Sua decadência  Encíclica Rerum Novarum

No século XVIII cria-se o Estado Liberal, que buscava liberdade e igualdade; também denominado
Estado Moderno, “moderno” porque contrapõe-se ao antigo, visava derrubar o absolutismo; em
derradeiro, tinha por objetivo uma

Constituição, que conteria os seguintes predicados:


• Limitação do administrador (Presidente), para não se tornar arbitrário;
• Garantir os direitos humanos, liberdade e igualdade;
• Tripartição do poder do Estado, em suas funções: PJ, PL e PE.

* Integrante do corpo discente da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

O PENSAMENTO POLÍTICO DE BURKE

Edmund Burke (1729–1797)

Famoso político inglês do século XVIII, Burke já era bem conhecido quando escreveu as suas Reflexões
sobre a Revolução em França, publicadas em Novembro de 1790.

Escolhido em 1765 para secretário privado de um dos dirigentes do partido Whig no Parlamento
britânico, escreveu em 1770 um panfleto - Pensamentos sobre a Causa do Actual Descontentamento
(Thoughts on the Cause of the Present Discontents) - em que defendia que a intervenção cada vez mais
activa do rei Jorge III nos assuntos governativos, sendo legal ia contra o espírito da constituição
britânica. Mais tarde, em 1774 e em 1775, discursou no Parlamento sobre a Guerra de Independência da
América britânica, em que defendia que, se as decisões do Parlamento de Londres eram de facto
pautadas pela legalidade, não podiam deixar de ter em conta que as «circunstâncias, a utilidade e os
princípios morais, deviam ser considerados, assim como os precedentes», na sua relação com as
colónias. Isto é, o legalismo estrito do Parlamento devia ter mais respeito e preocupação pela opinião
dos colonos, apelando por isso à «moderação legislativa».
Burke nunca sistematizou o seu pensamento político, que só pode ser conhecido pela leitura dos
seus textos e discursos. Opondo-se desde cedo à doutrina dos direitos naturais, aceitava contudo o
conceito de contrato social a que lhe juntava a ideia da sanção divina.
A sua principal obra, as Reflexões sobre a Revolução em França foram lidas por toda a Europa,
incentivando os seus dirigentes a resistir à Revolução Francesa. Mas a sua posição custou-lhe o apoio
dos seus amigos Whigs, sobretudo o de Charles James Fox. É que, para Burke, a Revolução em
França era um fenómeno de um tipo completamente novo, e por isso não podia ser associado à
Revolução Inglesa de 1688 - que tinha provocado uma mudança dinástica e constitucional ponderada e
limitada - como alguns pensadores ingleses, sobretudo Whigs, vinham defendendo. Para Burke, a
Revolução francesa baseava-se numa teoria, a teoria dos Direitos Humanos, com preposições simples,
universais e dogmáticas, que fazia apelo às leis da razão, claras e indiscutíveis, que se justificavam a si
próprias, e que levavam a pôr de parte tradições e costumes sociais de séculos, para remodelar a
sociedade de acordo com um plano inteligível e racionalmente justificado. Ora, para Burke, este
racionalismo militante estava totalmente fora de lugar na actividade política; a sociedade humana era
demasiadamente complexa para ser susceptível de uma compreensão racional simplista, e muito menos
de uma alteração completa, ou mesmo de uma interferência contínua.
Para Burke, a sociedade humana desenvolve-se não tanto por intermédio da actividade racional
do homem, mas sobretudo por meio de sentimentos, hábitos, emoções, convenções e tradições, sem as
quais ela desaparece, coisas que o olhar racional é incapaz de vislumbrar. Um racionalismo impaciente e
agressivo, virando-se para a ordem social só pode ser subversivo, atacando tanto as más como as boas
instituições. Burke defende assim a ideia da limitação da Razão em face da complexidade das coisas,
propondo que, perante a fragilidade da razão humana, a humanidade deve proceder com respeito para
com a obra dos seus antecessores, só assim conseguindo trabalhar em conjunto em prol do
desenvolvimento social. Mas a ideia de que a «Luz» apareceu de repente, após séculos de «Escuridão»,
é para Burke de um egoísmo suicida. Mas o mais importante, é que de facto é um tipo de racionalismo
incompleto, já que a vida desorganizada da sociedade, com o seu padrão de comportamento
incompreensível, não só deve ser considerado como a parte mais importante da existência de uma
sociedade, como também é, à sua maneira, racional. Assim, para Burke, numa posição que está hoje
muito na ordem do dia, com os estudos de António Damásio, os instintos e sentimentos humanos podem
levar o homem a actuar correctamente, quando a razão o engana ou abandona. Do ponto de vista da
sociedade, as tradições, tendo-se desenvolvido paulatinamente, sendo permanentemente testadas e
amplamente divulgadas, são um tipo de bom senso que está acessível a toda a gente, e que pode servir
a sociedade melhor do que uma elaborada intelectualização, sendo que os sentimentos são o
acompanhamento emocional necessário a uma opinião sólida e amadurecida. Burke chama-lhes,
provocatoriamente, preconceitos.
Não quer dizer isto que a continuidade histórica de uma determinada comunidade não imponha
mudanças, mas estas mudanças, necessárias, não devem ser resolvidas com base em experiências e
invenções, mas sim de acordo com princípios inerentes à própria sociedade. Ora, o que é impossível é
regenerar por imposição de uma doutrina utópica, que se torna fanática na aplicação da sua teoria, não
olhando a meios para conseguir os seus objectivos. É que uma teoria assim aplicada, cria um imenso
fosso entre um que «é» de facto e o que «devia» ser. Não contente com o progresso empírico, acaba por
exigir uma felicidade totalmente nova.
Para Burke a Liberdade, o grande ideal revolucionário, é um bem. Mas a justiça, a ordem e a paz,
também o são, e são indispensáveis à existência prática da liberdade. Assim, o objectivo não deve ser
um fim perfeito e final de uma sociedade, mas o que for mais praticável.
Burke deu origem ao Conservadorismo moderno, que não é um conservadorismo do medo, do
pessimismo, do pecado original, mas uma filosofia política que tem uma visão positiva da função do
estado e dos objectivos últimos da sociedade humana; afirmando que se baseava, de uma maneira que
fará escola nos constitucionalistas românticos, e de acordo com o Espírito das Leis de Montesquieu, na
descrição fiel dos princípios tradicionais da vida política britânica.

Texto em O Portal da História

Platão e a Ciência Política

"Ele foi o primeiro e talvez o último, a sustentar que o estado deve ser governado não pelos mais ricos,
os mais ambiciosos ou os mais astutos, mas pelos mais sábios."
Percy Shelley

Apelando para o mito da destruição e reconstrução do cosmo, Platão descreveu no seu diálogo "Político",
num primeiro momento, a Era de Cronos, o tempo, e sua transição para a Era de Zeus, o seu filho
(quando a Idade de Ouro dos homens esfumara-se nos pretéritos). A seguir, tratou dos humanos
nascidos neste novo período pós-Paraíso, quando eles perceberam que os tempos eram outros, que
desaparecera a harmonia que havia outrora entre eles e os animais, que os bichos não só perderam a
fala, como tornaram-se hostis e ferozes, obrigando os homens a se organizarem em grandes grupos,
fechados em regimes políticos, para poderem sobreviver à crescente selvageria dos tempos de Zeus.

Todos se consideram aptos


Para Platão, o primeiro e fundamental problema da política é que todos os homens acreditam-se
capacitados para exercê-la, o que lhe parece um grave equívoco, pois ela resulta de uma arte muito
especial. Distingue então três tipos de artes:
1 - aquelas que ele chama de auxiliares (que podemos classificar como as de ordem técnica, como o
artesanato, a marinhagem, o pastoreio, etc...);
2 - em seguida vem as artes produtoras (o plantio, a tecelagem, o comércio, etc..), e por último:
3 - a arte de saber conduzir os homens, que seria a política propriamente dita, superior a todas as
outras.

A Política é Tecelagem
Para melhor ilustrar o seu ponto de vista, recorre a uma comparação: a atividade do político,
disse ele, assemelha-se à da tecelagem. Nada mais é do que a arte da vestimenta, o que implica na
escolha do tecido, das peças que devem ser costuradas à mão, e da armação final, pois seu objetivo
maior é dar segurança e abrigo, da mesma forma que um trajo protege das intempéries e assegura os
pudores. Por isso, o político deve desenvolver habilidades tais como saber cardar e fiar, porque um dos
seus afazeres maiores é conseguir misturar o tecido maior e melhor com o menor e o pior (isto é,
encontrar o equilíbrio entre os fortes e poderosos e os mais fracos e indefesos).
Os Pretendentes à Política
Quem, porém, entre eles, pode se habilitar a esta arte, a de dedicar-se à ciência do tecer? O
pensador então estabelece uma espécie de escala da qual, a princípio, são eliminados os escravos,
fazendo a seguir restrições também a maioria dos homens livres em geral (aos camponeses, aos
artesãos, aos comerciantes e aos marinheiros, desqualificando-os para o exercício de tal arte). Entre os
que realmente ambicionam dominar a arte da política, ele aponta os pertencentes aos setores
intelectualizados da sociedade: os arautos (os mensageiros), os advinhos, os sacerdotes e os
magistrados. Ocupando um lugar especial entre esses que querem ter voz ativa na política, ele identifica
um estranho grupo que diz ser composto por centauros, sátiros e outros animais fantásticos, que
rondam por assim dizer o mundo da política, ameaçando toda hora quer dele participar ativamente (o
que nos leva a interpretar tal grupo bizarro como uma metáfora dos elementos irracionais que pululam
na sociedade tentando dominá-la).

Poucos são os que sobram


Em nenhum deles Platão vê qualidades que os habilitem à arte da tecelagem, à capacidade de
urdirem os delicados fios que enlaçam e fortalecem a vestimenta protetora. De certo modo, a lendária
atitude de Penélope, a mulher de Ulisses que ficava noite e dia fiando e desfiando, esperando a volta do
marido - o Rei Competente - ganhando tempo para que ele pudesse voltar e reassumir o trono,
afastando com isso os pretendentes à coroa de Ítaca, era uma versão mítica do que o filósofo pretendeu
dizer.

As formas da política
A seguir, dedica-se a descrever as formas em que os regimes político se constituem, adotando a
conhecida classificação numeral: o regime de um homem só (que se subdivide em monarquia, onde um
rei obedece a lei e a tradição), e na tirania, (o governo discricionário); o regime de alguns (o governo de
um grupo que se subdivide em oligarquia e aristocracia); e, por fim, o governo dos muitos (a
democracia). Neles opõem-se nos mais diversos graus, a riqueza e a pobreza, a violência e a liberdade, a
obediência às leis escritas ou a ausência de leis. Qual dentre eles afigura-se como o melhor?

O Rei Competente
Platão minimiza a importância das formas que os regimes políticos assumem. Neste momento da
sua exposição, por meio do Estrangeiro, personagem principal do diálogo, a monarquia, a tirania, a
oligarquia, a aristocracia ou a democracia, afiguram-lhe ser de menor interesse perante o fato maior de
saber-se dominar a ciência da política. Pois é esta ciência (a que determina o que realmente é
importante para a política), a arte de saber governar os homens, "a mais difícil e maior de todas as
ciências possíveis de se adquirir", é que nos possibilita a ajudar a afastar os rivais do Rei Competente
(isto é, o governante ideal). Ela é um instrumento de seleção que, ao mesmo tempo que nos permite
dissuadir os pretendentes equivocados, auxilia a persuadir os vocacionados a ingressarem na política.

O Rei Competente como Médico


Para o pensador é o Rei Competente quem merece ser o arcon, de ter o titulo de rei, pois
somente ele detêm o conhecimento da ciência política, estando no poder ou não. Assim,
independentemente da forma do regime político, seja monarquia, oligarquia ou democracia, só os que
possuem a ciência de saber governar os homens é que devem realmente exercer o poder. Platão ainda
não menciona aqui (o fará com maiores detalhes no diálogo "A República") que seu intuito é promover o
filósofo, o homem sábio, como o único habilitado a tal. O Rei Competente assemelha-se para ele ao
médico que, curando ou não seus pacientes, detém a arte da medicina, serão sempre chamados de
médicos.
Ele pode tudo
A partir do momento que o Rei Competente galga o poder, torna-se indiferente, sob o ponto de
vista moral, o sentido que dará a sua ação. Pode ele exilar, mandar executar, deslocar gente a sua
revelia, fazer o que lhe convier, que tudo estará justificado pela ciência que ele tem das coisas do
governo, porque seu fim último é a justiça. Até mesmo poderá governar sem leis ou a revelia delas, pois
muitas vezes o bom governante pode dispensar, em nome do bem público, que é superior a tudo, a lei
escrita e o costume. É desta passagem de Platão, que Maquiavel, bem mais tarde, no Renascimento,
extraiu os argumentos que sustentaram a sua teoria do domínio absoluto do Príncipe. Também parte
dela a atitude da maioria dos iluministas do século XVIII que justificaram o seu apoio ao Déspota
Esclarecido.

A Massa e a Elite
Platão, como é sabido, não era um simpatizante da democracia. Logo, ele não via nenhuma
possibilidade das massas conseguirem algum dia apropriarem-se da ciência da política. Elas, por sua
própria natureza, são incapazes de administrar com inteligência uma cidade. Somente um pequeno
grupo ou um só indivíduo terá o domínio desta constituição verdadeira. Poderia, pergunta ele
justificando-se, uma multidão reunida em assembléia, regular para sempre a arte da navegação ou
estabelecer o tratamento a ser dado aos enfermos? Tais regulamentos caberiam ser fixados por gente
do povo ou mesmo pelos ricos? Na verdade quem se atrevesse a tal, a ser um intrometido nas regras da
navegação ou da medicina, seria chamado de visionário ou de fraseador sofista. Se estas artes fossem
conduzidas pela sorte (Platão aqui critica abertamente o sistema eleitoral por sorteio adotado pela
democracia grega), pela letra escrita aprovada em assembléia e não pela arte da política, a vida,
assegurou ele, se tornaria insuportável.

O Verdadeiro Político
Quem realmente domina a ciência da política, não se inspira nas leis escritas mas sim na arte
com que é dotado, nesta rara habilidade de saber conduzir os homens. Portanto, o único bom governo
possível é o do "único competente". No entanto, porque isto não ocorre? Para Platão todos os regimes
conhecidos (monarquia oligarquia, democracia, e suas variáveis) nada mais são do que a expressão
juridicamente organizada da rejeição aberta ou velada que os homens têm ao único eficaz. Formada por
gente cabeça dura, a sociedade nega-se a aceitar que haja alguém, tal como o Rei Competente, que
possa, com autoridade, governar com virtude e ciência, com imparcialidade, com justiça e eqüidade,
sem precisar injuriar ninguém. Portanto, todo o regime político conhecido não passa de uma ilusão pois
ele sempre resulta dessa aversão à boa razão. De uma máscara que tenta ocultar o seu fracasso. Ao
repelirem a evidência de que o único bom governo viria do Rei Competente, todas as constituições são
imperfeitas, restando apenas a escolha da que for menos desagradável. Quanto aos politicos que
resultam delas, dos regimes assinalados, devem ser repelidos por serem uns falsos, criadores das piores
ilusões.

Em busca do Rei Competente


Como afinal encontrar em meio a tantos pretendentes da política o Rei Competente? Visto que
ele não nasce marcado como nas colméias, onde todos logo sabem quem é a rainha-abelha, é preciso
lançar-se mão de recursos especiais para alcançar a sua identificação. Socorro estes que são similares
aos que adotamos para lavrar e limpar o ouro. Do mesmo modo como um minerador com sua peneira
afasta a terra, as pedras, os minerais vis e muitas outras impurezas que se avolumam em torno do
precioso metal, com o auxílio do fogo, ele também aparta do ouro o cobre e o diamante. Este deve ser
também o proceder da ciência política.
A Arte de Peneirar
A função primeira dela é afastar tudo o que for hostil e estranho a ela, conservando apenas
aquelas artes que lhe são mais próximas, tais como a estratégia (a arte militar), a magistratura (arte de
praticar a justiça) e a retórica (arte de discursar). Artes que se equivalem tal como o cobre e o diamante
aprecem em relação ao ouro. O momento seguinte, considerando-se que a estratégia, a magistratura e a
oratória, são as que estão mais próximas à essência da política, Platão observa porém que elas também
são artes subordinadas:

Artes Próximas, mas Subordinadas à Política


Estratégia Arte de fazer a guerra Subordina-se à decisão superior
de fazer-se ou não a guerra
Jurídica Arte de aplicar a justiça Subordina-se a existência das
leis que são aprovadas em outras
instâncias, determinada pelo
arcon ( o governante) ou pela
assembléia.
Retórica Arte da Oratória Presa às circunstâncias,
estimulada e condicionada pela
situação momento, portanto
totalmente subordinada.

A Política é a Ciência Soberana


Se nem a estratégia, nem a justiça, muito menos a retórica, são artes independentes, só resta a
política como a verdadeira e única arte superior. É ela a ciência real. Ainda que não possuindo
obrigações práticas, reina sobre os demais, unindo a sociedade num só tecido perfeito. O que ela
consegue é graças a harmonia das leis que elabora. O objetivo de toda a ciência política é eliminar ao
máximo os maus elementos, conservando, porém os bons e úteis para então "fundi-los numa obra
perfeitamente una por suas propriedades e estruturas".

O Destino dos Maus Elementos


O que fazer, porém, com os maus elementos? Para Platão, deve-se submetê-los a uma prova de fogo,
confiando-os aos educadores competentes para instruí-los ou, em caso de fracasso, que sofram "por
sentença de morte".
ANEXO 1

Discurso Político

O discurso político é um texto argumentativo, fortemente persuasivo, em nome do bem comum,


alicerçado por pontos de vista do emissor ou de enunciadores que representa, e por informações
compartilhadas que traduzem valores sociais, políticos, religiosos e outros. Frequentemente apresenta-
se como uma fala coletiva que procura sobrepor-se em nome de interesses da comunidade e constituir
norma de futuro. Está inserido numa dinâmica social que constantemente o altera e ajusta a novas
circunstâncias. Em períodos eleitorais, a sua maleabilidade permite sempre uma resposta que oscila
entre a satisfação individual e os grandes objetivos sociais da resolução das necessidades elementares
dos outros.
Hannah Arendt (em The Human Condition) afirma que o discurso político tem por finalidade a persuasão
do outro, quer para que a sua opinião se imponha, quer para que os outros o admirem. Para isso,
necessita da argumentação, que envolve o raciocínio, e da eloquência da oratória, que procura seduzir
recorrendo a afetos e sentimentos.

O discurso político é, provavelmente, tão antigo quanto a vida do ser humano em sociedade. Na Grécia
antiga, o político era o cidadão da "pólis" (cidade, vida em sociedade), que, responsável pelos negócios
públicos, decidia tudo em diálogo na "agora" (praça onde se realizavam as assembleias dos cidadãos),
mediante palavras persuasivas. Daí o aparecimento do discurso político, baseado na retórica e na
oratória, orientado para convencer o povo.

O discurso político implica um espaço de visibilidade para o cidadão, que procura impor as suas ideias,
os seus valores e projetos, recorrendo à força persuasiva da palavra, instaurando um processo de
sedução, através de recursos estéticos como certas construções, metáforas, imagens e jogos
linguísticos. Valendo-se da persuasão e da eloquência, fundamenta-se em decisões sobre o futuro,
prometendo o que pode ser feito.
Teoria Geral do
Estado

1. Teoria Geral do Estado

1.1. Conceito

Os tratadistas franceses consideram a Teoria Geral do Estado ou como o complemento teórico do Direito
Constitucional ou como sua parte geral. Assim Carré de Malberg, quando afirma que a Teoria Geral do
Estado tem por objeto o estudo da idéia que convém fazer-se do Estado, esclarece: “Não se creia, no
entanto, que a Teoria Geral do Estado seja a base inicial, o ponto de partida ou a condição preliminar do
sistema do Direito Público ou do Direito Constitucional. Ao contrário, ela é - pelo menos enquanto teoria
jurídica - a conseqüência, a conclusão, o coroamento do Direito Constitucional. A idéia de Estado não
deve ser uma concepção racional, a priori, mas decorrer dos dados fornecidos pelo Direito Público
positivo.”

Alguns autores brasileiros oferecem contribuição direta à conceituação da Teoria Geral do Estado
principalmente depois que ela se erigiu em disciplina fundamental nas Faculdades de Filosofia.

PEDRO CALMON conceitua Teoria geral do Estado como estudo da estrutura do Estado, sob os aspectos
jurídico, sociológico e histórico.

QUEIRÓS LIMA considerava-a parte teórica do Direito Constitucional.

MIGUEL REALE assim se exprime: “Embora o termo Política seja o mais próprio aos povos latinos, mais
fiéis às concepções clássicas, é inegável que, por influência germânica, já está universalizado o uso das
expressões Teoria Geral do Estado e Doutrina Geral do Estado para designar o conhecimento unitário e
total do Estado. A palavra Política é conservada em sua acepção restrita para indicar uma parte da
Teoria Geral, ou seja, a ciência prática dos fins do Estado e a arte de alcançar esses fins.”

ORLANDO CARVALHO, depois de acentuar as divergência terminológicas, sintetiza seu esplêndido


trabalho: "A Teoria Geral do Estado tem por objeto o estudo sistemático do Estado".

PINTO FERREIRA define Direito Constitucional como a "ciência positiva das Constituições", e Teoria Geral
do Estado como a “ciência positiva do Estado” .

SOUSA SAMPAIO diz que, em sua acepção ampla, é uma ciência que estuda os fenômenos políticos em
seu tríplice aspectos - jurídico, sociológico e filosófico - e que melhor lhe caberia a designação de Ciência
Política, a political science dos autores de língua inglesa.

MACHADO PAUPÉRIO considera a Teoria Geral do Estado como a estrutura teórica do Direito
Constitucional e Política sua aplicação prática.

GALVÃO DE SOUSA inclina-se para encarar a Teoria Geral do Estado como a parte teórica do Direito
Constitucional.

ADERSON DE MENEZES, propõe: "a Teoria Geral do Estado é a ciência geral que, na análise dos fatos
sociais, jurídicos e políticos do Estado, unifica esse tríplice aspecto e elabora uma síntese que lhe é
peculiar, para estudá-lo e explicá-lo na origem, na evolução e nos fundamentos de sua existência".

1.2. Objetivo

A Teoria Geral do Estado ou a Ciência Política tem por objetivo o estudo do fato político supremo, que é o
Estado, e de todos os outros fatos políticos.

1. 3. O método da Teoria Geral do Estado

A Teoria Geral do Estado tem sido tratada e ensinada sob dois pontos de vista distintos. Para alguns, a
preocupação do aspecto jurídico predomina; para outros, prevalece a orientação sociológica e política.

Se a análise jurídica da organização do Estado é necessária, não é menos necessário conhecer o aspecto
social e político, como nascem e evoluem as diversas instituições, qual a influência das idéias e
sentimentos, através da história, sobre essa construção há um tempo delicada e poderosa que é o
Estado.

O método da Teoria Geral do Estado tem de ser complexo. Ao lado dos processo lógicos empregados
pela ciência jurídica, terá de usar também os peculiares à Sociologia: a observação, a indução e a
generalização. Sem exageros, em silogismo que levam aos sofismas.

Miguel Reale define política como: “A Ciência Prática dos fins do Estado e a arte de alcançar esses fins”.

Os modos de surgimento do Estado

2.1. Formação natural do Estado

Estado e poder são fatos diversos, que surgiram sucessivamente e não concomitantemente, pelo menos
na maioria das sociedades primitivas.

Aceitamos a noção de Estado segundo a qual ele se forma de três elementos: território, população e
governo.

Quando as sociedades primitivas, que eram nômades, compostas já de inúmeras famílias, possuindo
uma autoridade própria que as dirigia, fixaram-se num território determinado, passaram a constituir um
Estado. Este nasce com o estabelecimento de relações permanentes e orgânicas entre os três
elementos: a população, a autoridade (ou poder político) e o território.

A vida sedentária determina a exploração sistemática da terra, o aparecimento de atividades


econômicas mais complexas, o surgimento das primeiras cidades. A vida urbana marca o início da
história e da civilização, termo cuja raiz é civitas, cidade. Por isso também política, a ciência do Estado,
tem a sua raiz em polis.

Só um fato é permanente e dele promanam outros fatos permanentes: o homem sempre viveu em
sociedade (Ubi societas, ibi jus). A sociedade só sobrevive pela organização, que supõe a autoridade e a
liberdade como elementos essenciais, a sociedade que atinge determinado grau de evolução, passa a
constituir um Estado. Para viver fora da sociedade, o homem precisaria estar abaixo dos homens ou
acima dos deuses, como disse Aristóteles, e vivendo em sociedade, ele natural e necessariamente cria a
autoridade e o Estado.

2.2. Formação histórica do Estado

São três os modos pelos quais historicamente se formam os Estados:

a) Modos originários, em que a formação é inteiramente nova, nasce diretamente da população e do


país, sem derivar de outro Estado preexistente (Ex. França).

b) Modos secundários, quando vários Estados se unem para formar um novo Estado, ou quando um se
fraciona para formar outros (Ex. EUA).

c) Modos derivados, quando a formação se produz por influência exteriores, de outros Estados (Ex.
Israel).

2.3. Formação jurídica do Estado

Segundo Carré de Malberg, desde o momento em que a coletividade estatal se organiza e possui órgãos
que querem e agem por ela, o Estado existe. Não influem sobre a sua existência as transformações
posteriores de Constituição e forma de governo: o Estado nasce e permanece através de todas as
mudanças.

Outros preferem considerar como nascimento jurídico do Estado o momento em que ele é reconhecido
pelas demais potências, o que é matéria de Direito Internacional. No entanto, os dois pontos de vista são
úteis e não se contradizem.

Origens do Estado (Teorias a respeito)

2.4. Teoria da origem familiar do Estado

As mais antigas teorias sobre a origem do Estado vêem nele o desenvolvimento e a ampliação da
família.
A sociedade em geral, o gênero humano, deriva necessariamente da família, é fora de toda dúvida e por
isso se diz com razão que a família é a célula da sociedade. Não se pode, porém, aplicar o mesmo
raciocínio ao Estado.
Sociedade humana e sociedade política não são termos sinônimos. Exatamente quando o homem, pela
maioridade, se emancipa da família, é que de modo consciente e efetivo passa a intervir na sociedade
política. Esta tem fins mais amplos do que a família e nos Estados modernos a autoridade política não
tem sequer analogia com a autoridade do chefe de família. O Estado, além disso, é sempre a reunião de
inúmeras famílias.
Finalmente, a teoria patriarcal é puramente conjectural, não tem confirmação alguma na experiência, e
do ponto de vista lógico, radica no equívoco a que aludimos: confunde-se a origem da humanidade com
a origem do Estado.

2.5. Teoria da Origem contratual do Estado


O Estado, a sociedade política, se originou de urna convenção entre os membros da sociedade humana.
Rousseau entende que o contrato deve ter sido geral, unânime e baseado na igualdade dos homens.
Rousseau funda o Direito e o Estado exclusivamente na igualdade dos homem, sem admitir nenhum
princípio ou norma permanente que limitasse a vontade geral. O problema para ele é: "Encontrar uma
forma de associação que defenda e proteja com toda a força comum a pessoa e os bens de cada
associado e pela qual cada um, unindo-se a todos, não obedeça no entanto senão a si mesmo e
permaneça tão livre como antes."
A origem contratual do Estado tem ainda menos consistência que as anteriores. É uma pura fantasia,
não constitui sequer uma lenda ou mito das sociedades antigas.
e o Estado fosse uma associação voluntária dos homens, cada um teria sempre o direito de sair dela, e
isso seria a porta aberta à dissolução social e à anarquia. Se a vontade geral, criada pelo contrato, fosse
ilimitada, seria criar o despotismo do Estado, ou melhor, das maiorias, cuja opinião e decisão poderia
arbitrariamente violentar os indivíduos, mesmo aqueles direitos que Rousseau considera invioláveis,
pois, segundo o seu pitoresco raciocínio, o que discorda da maioria se engana e ilude, e só é livre
quando obedece à vontade geral.

2.6. Teoria da origem violenta do Estado

Jean Bodin, o velho jurista filósofo, admitia que o Estado ou nasce da convenção, ou da "violência dos
mais fortes". Quase todos os sociólogos, inspirados nas idéias de Darwin, vêem na sociedade política o
produto da luta pela vida, nos governantes a sobrevivência dos mais aptos, na estrutura jurídica dos
Estados a organização da concorrência. O darwinismo político seria a expressão científica do
maquiavelismo, pois insensivelmente inclui no conceito de força não só violência mas também a astúcia.

Origem dos Estados

Teoria da força

A teoria da força, também chamada da origem violenta do Estado, afirma que a organização política
resultou do poder de dominação dos mais fortes sobre os mais fracos. Dizia Bodin que o que dá origem
ao Estado é a violência dos mais fortes.

Glumplowicz e Oppenheimer desenvolveram amplos estudos a respeito das primitivas organizações


sociais, concluindo que foram elas resultantes das lutas travadas entre os indivíduos, sendo o poder
público uma instituição que surgiu com a finalidade de regulamentar a dominação dos vencedores e a
submissão dos vencidos. Franz Oppenheimer, médico, filósofo e professor de ciência política em
Frankfurt, escreveu textualmente: "o Estado é inteiramente, quanto à sua origem, e quase inteiramente,
quanto à sua natureza durante os primeiros tempos da sua existência, uma organização social imposta
por um grupo vencedor a um grupo vencido, destinada a manter esse domínio internamente e a
proteger-se contra ataques exteriores".

Thomas Hobbes, discípulo de Francis Bacon, foi o principal sistematizador dessa doutrina no começo dos
tempo modernos. Afirma este autor que os homens, no estado de natureza, eram inimigos uns dos
outros viviam em guerra permanente - bellum omnium contra onnes. E como toda guerra termina com a
vitória dos mais fortes, o Estado surgiu como resultado dessa vitória, sendo uma organização do grupo
dominante para manter o poder de domínio sobre os vencidos.
Note-se que Hobbes distinguiu duas categorias de Estados: real e racional. O Estado que se forma por
imposição da força é o Estado real, enquanto o Estado racional provém da razão, segundo a fórmula
contratualista.
Essa teoria da força, disse Jellinek, “apóia-se aparentemente nos fatos históricos: no processo da
formação originária dos Estados quase sempre houve luta; a guerra foi, em geral, o princípio criador dos
povos”. Ademais, essa doutrina parece encontrar confirmação no fato incontestável de que todo Estado
representa, por sua natureza, uma organização de força e dominação.

Entretanto, como afirma Queiroz Lima, o conceito de força como origem da autoridade é insuficiente
para dar a justificação, a base de legitimidade e a explicação jurídica dos fenômenos que constituem o
Estado.
Ressalta à evidência que, sem força protetora e atuante, muitas sociedades não teriam podido
organizar-se em Estado. Todos os poderes, inicialmente, foram protetores. Para refrear a tirania das
inclinações individuais e conter as pretensões opostas recorreu-se, a princípio, à criação de um poder
coercitivo, religioso, patriarcal ou guerreiro. E tal poder teria sido o primeiro esboço do Estado.

Segundo um entendimento mais racional, porém, a força que dá origem ao Estado não poderia ser a
força bruta, por si só, sem outra finalidade que não fosse a de dominação, mas, sim a força que promove
a unidade, estabelece o direito e realiza a justiça. Neste sentido é magnífica a lição de Fustel de
Coulanges: “as gerações modernas, em suas idéias sobre a formação dos governos, são levadas a crer
ora que eles são resultantes exclusivamente da força e da violência, ora que são uma criação da razão.
É um duplo erro: a origem das instituições sociais não deve ser procurada tão alto nem tão baixo. A
força bruta não poderia estabelecê-las; as regras da razão são impotentes para criá-las. Entre a violência
e as vãs utopias, na região média em que fazem as instituições é que decidem sobre a maneira pela
qual uma comunidade se organiza politicamente.”

Passaremos, a seguir, ao estudo das teorias que justificam o Estado, as quais envolvem e englobam
mesmo, necessariamente, o problema da origem.

Modo de surgimento dos estados

· Formação natural do estado


· Formação histórica do estado
- modos originários: Brasil
- modos secundários: URSS
- modos derivados: Israel
· Formação jurídica do estado

Origens do estado (teorias)

1a) teoria: teoria da origem familiar do estado


2a) teoria: teoria da origem contratual do estado
3a) teoria: teoria da origem violenta do estado

Origem contratual do estado


ou
Origem convencional do estado
ou
Origem pactual do estado

"O Estado origina-se num acordo entre os homens, justificando-se seu poder com base no mútuo
consentimento de seus participantes."

Filósofos e suas teorias:

1o) Thomas Hobbes - Geração do Estado

"Ante a tremenda e sangrenta anarquia do estado de natureza, os homens abdicaram em proveito de


um homem ou de uma assembléia os seus direitos ilimitados, submetendo-se à onipotência da tirania
que eles próprios criaram."

2') John Locke - Sociedade Política

"Baseado no consentimento de todos a aceitar o principio majoritário, dando nascimento à Sociedade


Política."
3') Jean Jacques Rousseau - Pacto Social

"Contrato ou Pacto Social deve ter sido - geral, unânime e baseado na igualdade dos homens, cuja
função seria defender com toda a força comum a pessoa e seus bens, mas que permaneça obedecendo
senão a si mesma, continuando tão livre como antes."

Conclusão: Teoria Contratual Ü Teoria sem consistência devido ao estado de natureza ser uma hipótese
falsa, devido a que se o Estado fosse uma associação voluntária, cada um teria direito de sair dela Ü
Dissolução social e anarquia.

As teorias da violência

As teorias que consideram o Estado nascido da violência e da força são quase contemporâneas das
teorias contratuais.

Bodin, velho jurista filósofo, admitia que o Estado ou nasce da convenção ou da " VIOLÊNCIA DOS MAIS
FORTES."
Quase todos os sociólogos, inspirados nas idéias de Darwin, vêem na sociedade política o produto da
luta pela vida nos governantes a sobrevivência dos mais aptos, e no Darwinismo político, a expressão
científica do maquiavelismo, inclui insensivelmente no conceito de força não só violência como também
a astúcia.

Os sociológos

GUMPLOWICZ, OPPENHEIMEII, LESTER WARD e CORNEJO, estes sociólogos vêem na sociedade política o
produto da luta pela vida, e nos governantes a sobrevivência dos mais aptos e na estrutura jurídica dos
Estados a organização da concorrência.

Os elementos constitutivos do Estado

Definições de acordo com a concepção do autor ou enfoque que deseje dar (fenômeno de força; ordem
sociológica; finalista, jurídico, orgânica ou organicista)

"O Estado é a nação politicamente organizada"

"O Estado é o conjunto de serviços públicos coordenados e hierarquizados"

População: povos + estrangeiros residentes em caráter permanentes

Povo = conjunto de indivíduos ligados ao um Estado pelo vínculo político-jurídico da nacionalidade

Soberania

1. Introdução

A exata compreensão do conceito de soberania é necessário para o entendimento do fenômeno estatal,


visto que não há Estado perfeito sem soberania. Daí a simples definição de Estado como a organização
da soberania.

A soberania se compreende no exato conceito de Estado. Estado não soberano ou semi-soberano não é
Estado. A soberania é uma autoridade superior que não pode ser limitada por nenhum outro poder.

Não são soberanos os Estados membros de uma federação. O próprio qualificativo de membro afasta a
idéia de soberania. O poder supremo é investido no órgão federal. Foi convencionado na Constituinte de
Filadélfia, onde se instituiu o regime federalista, que as unidades estatais integrantes da União se
denominariam Estados-Membros, com autonomia de direito público interno, sendo privativo da União o
poder de soberania interna e internacional. Aliás, é mais apropriada a denominação de Província, para as
unidades federadas.

A soberania é una, integral e universal. Não pode sofrer restrições de qualquer tipo, salvo, naturalmente,
as que decorrem dos imperativos de convivência pacífica das nações soberanas no plano do Direito
Internacional.

Soberania relativa ou condicionada por um poder normativo dominante não é soberania. Deve ser posta
em termos de autonomia.

Denominava-se o poder de soberania, entre os romanos, suprema potestas. Era o poder supremo do
Estado na ordem política e administrativa. Posteriormente, passaram a denominá-lo poder de imperium,
com amplitude internacional.

Etimologicamente, o termo soberania provém de superanus, supremias, ou super omnia, configurando-


se definitivamente através da formação francesa souveraineté, que expressava, no conceito de Bodin, "o
poder absoluto e perpétuo de uma República".

Historicamente, é bastante variável a formulação do conceito de soberania, no tempo e no espaço. No


Estado grego antigo, como se nota na obra de Aristóteles, falava-se em autarquia, significando um poder
moral e econômico, de auto-suficiência do Estado. Já entre os romanos, o poder de imperium era um
poder político transcendente que se refletia na majestade imperial incontrastável. Nas monarquias
medievais era o poder de suserania de fundamento carismático e intocável. No absolutismo monárquico,
que teve o seu clímax em Luiz XIV, a soberania passou a ser o poder pessoal exclusivo dos monarcas,
sob a crença generalizada da origem divina do poder de Estado. Finalmente, no Estado Moderno, a partir
da Revolução Francesa, firmou-se o conceito de poder político e jurídico, emanado da vontade geral da
nação.

"A soberania é uma espécie de fenômeno genérico do poder. Uma forma histórica do poder que
apresenta configurações especialíssimas que se não encontram senão em esboços nos corpos políticos
antigos e medievos." (Miguel Reale)

"A soberania é a capacidade de impor a vontade própria, em última instância, para a realização do
direito justo." (Pinto Ferreira)

"Por soberania nacional entendemos a autoridade superior, que sintetiza, politicamente, e segundo os
preceitos de direito, a energia coativa do agregado nacional." (Clóvis Beviláqua)

2. Fonte do poder soberano

Para as teorias carismáticas do direito divino (sobrenatural ou providencial) dos reis, o poder vem de
Deus e se concentra na pessoa sagrada do soberano. Para as correntes de fundo democrático, a
soberania provém da vontade do povo (teoria da soberania popular) ou da nação propriamente dita
(teoria da soberania nacional).
Para as escolas alemãs e vienense, a soberania provém do Estado, como entidade jurídica dotada de
vontade própria (teoria da soberania estatal). Desdobram-se estes troncos doutrinários em várias
ramificações, formando uma variedade imensa de escolas e doutrinas.

3. As principais correntes

3. 1. Teoria da soberania absoluta do rei

Começou a ser sistematizada na França, no século XVI, tendo como um dos seus mais destacados
teóricos Jean Bodin, que sustentava: “a soberania do rei é originária, ilimitada, absoluta, perpétua e
irresponsável em face de qualquer outro poder temporal ou espiritual”.Esta teoria é de fundamento
histórico e lança suas raízes nas monarquias antigas fundadas pelo direito divino dos reis. Eram os
monarcas acreditados como representantes de Deus na ordem temporal, e na sua pessoa se
concentravam todos os poderes. O poder de soberania era o poder do rei e não admitia limitações.

Firmou-se esta doutrina da soberania absoluta do rei nas monarquias medievais, consolidando-se nas
monarquias absolutistas e alcançando a sua culminância na doutrina de Maquiavel. Os monarcas da
França, apoiados na doutrinação de Richelieu, Fénelon, Bossuet e outros, levaram o absolutismo às suas
últimas conseqüências, identificando na pessoa sagrada do rei o próprio Estado, a soberania e a lei.

3.2. Teoria da soberania popular

Teve como precursores Altuzio, Marsilio de Padua, Francisco de Vitoria, Soto, Molina, Mariana, Suarez e
outros teólogos e canonistas da chamada Escola Espanhola. Reformulando a doutrina do direito divino
sobrenatural, criaram eles o que denominaram teoria do direito divino providencial: o poder público vem
de Deus, sua causa eficiente, que infunde a inclusão social do homem e a conseqüente necessidade de
governo na ordem temporal. Mas os reis não recebem o poder por ato de manifestação sobrenatural da
vontade de Deus, senão por uma determinação providencial da onipotência divina. O poder civil
corresponde com a vontade de Deus, mas promana da vontade popular - omnis potestas a Deo per
populum libere consentientem. Sustentou Suarez a limitação da autoridade e o direito de resistência do
povo, fundamentos do ideal democrático. E Molina, embora reconhecendo o poder real como soberania
constituída, ressaltou a existência de um poder maior, exercido pelo povo, que denominou soberania
constituinte.

3.3. Teoria da soberania nacional

Ganhou corpo com as idéias político-filosóficas que fomentaram o liberalismo e inspiraram a Revolução
Francesa: ao símbolo da Coroa opuseram os revolucionários liberais o símbolo da Nação. Como frisou
Renard, a Coroa não pertence ao Rei; o Rei é que pertence à Coroa. Este é um princípio, é uma tradição,
de que o Rei é depositário, não proprietário.A este entendimento, aliás, se deveu a convivência entre a
Coroa e o Parlamento, em alguns Estados liberais.

Pertence a Teoria da Soberania Nacional à Escola Clássica Francesa, da qual foi Rousseau o mais
destacado expoente. Sustentaram que a nação é a fonte única do poder de soberania. O órgão
governamental só o exerce legitimamente mediante o consentimento nacional.

Esta teoria é radicalmente nacionalista: a soberania é originária da nação, no sentido estrito de


população nacional (ou povo nacional), não do povo em sentido amplo. Exercem os direitos de soberania
apenas os nacionais ou nacionalizados, no gozo dos direitos de cidadania, na forma da lei. Não há que
confundir a "teoria da soberania popular", que amplia o exercício do poder soberano aos alienígenas
residentes no país.

A soberania, no conceito da Escola Clássica, é UNA, INDIVISÍVEL, INALIENÁVEL e IMPRESCRITÍVEL.

UNA porque não pode existir mais de uma autoridade soberana em um mesmo território.

INDIVISÍVEL, seguindo a mesma linha de raciocínio que justifica a sua unidade.

INALIENÁVEL, por sua própria natureza. A vontade é personalíssima: não se aliena, não se transfere a
outrem.

IMPRESCRITÍVEL, no sentido de que não pode sofrer limitação no tempo. Uma nação, ao se organizar em
Estado soberano, o faz em caráter definitivo e eterno. Não se concede soberania temporária, ou seja, por
tempo determinado.

3.4. Teoria da soberania do Estado

Pertence às escolas alemã e austríaca, as quais divergem fundamentalmente da Escola Clássica


Francesa.

Seu expoente máximo, Jellinek, parte do princípio de que a soberania é a capacidade de


autodeterminação do Estado por direito próprio e exclusivo. A soberania é uma qualidade do poder do
Estado, ou seja, uma qualidade do Estado perfeito.

Dentro dessa linha de pensamento se desenvolveram as inúmeras teorias estadísticas, que serviram de
fomento doutrinário aos Estados totalitários do após Guerra.

3.5. Escolas Alemã e Austríaca

Para estas Escolas, lideradas, respectivamente, por Jellinek e Kelsen, que sustentam a estatalidade
integral do Direito, a soberania é de natureza estritamente jurídica, é um direito do Estado e é de caráter
absoluto, isto é, sem limitação de qualquer espécie, nem mesmo do direito natural cuja existência é
negada.

Só existe o direito estatal, elaborado e promulgado pelo Estado, já que a vida do direito está na força
coativa que lhe empresta o Estado, e não há que falar em direito sem sanção estatal. Negam a
existência do direito natural e de toda e qualquer normatividade jurídica destituída da força de coação
que só o poder público pode dar.

Portanto, se a soberania é um poder de direito e todo direito provém do Estado, o tecnicismo jurídico
alemão e o normativismo kelseniano levam à conclusão lógica de que o poder de soberania é ilimitado e
absoluto. Logo, toda forma de coação estatal é legítima, porque tende a realizar o direito como
expressão da vontade soberana do Estado.

Em face do princípio de estatalidade do direito, princípio Pan-Estadístico, não se concede limitação


alguma ao poder do Estado. É certo que Jellinek chegou a esboçar a doutrina da auto-limitação do poder
estatal, porém, sem nenhuma significação prática. Com efeito, se todo direito emana do Estado e este
se coloca acima do direito, ressalta a evidência de que a limitação do poder estatal por regras que dele
próprio derivam não passa de mera ficção.

O Estado não pode criar arbitrariamente o direito; ele cria a lei, o direito escrito, que é apenas uma
categoria do direito no seu sentido amplo. Como acentua Pontes de Miranda, “o Estado é apenas um
meio perfectível, não exclusivo, de revelação das normas jurídicas”. A lei que dele emana há de
corporificar o direito justo como condição de legitimidade.

As teorias da soberania absoluta do Estado, malgrado o seu caráter absolutista e totalitário, tiveram
ampla repercussão no pensamento político universal, inclusive na própria França. Justificaram os Estados
nazistas, fascistas e todos os totalitarismos, que conflagraram o mundo por duas vezes, mas foram
contidos pela força superior do humanismo liberal.

3.6. Teoria negativista da soberania

É da mesma natureza absolutista, e foi formulada por Leon Duguit que desenvolveu o pensamento de
Ludwig Gumplowics.

A soberania é uma idéia abstrata. Não existe concretamente. O que existe é apenas a crença na
soberania. Estado, nação, direito e governo são uma só e única realidade. Não há direito natural nem
qualquer outra fonte de normatividade jurídica que não seja o próprio Estado. E este conceitua-se como
organização da força a serviço do direito. Ao conceito metafísico de soberania. Para Duguit a soberania
resume-se em mera noção de serviço público.

O conceito de soberania lança raízes na filosofia aristotélico-tomista: soberania, em última análise, é a


lei, e esta encontra sua legitimidade no direito natural, que preside e limita o direito estatal. Vale
lembrar as palavras com que os constituintes argentinos de 1853 encerraram seus trabalhos: “os
homens se dignificam perante a lei, porque assim se livram de ajoelhar-se perante tiranos.”

3.7. Teoria realista ou institucionalista

Essa teoria vem se destacando bastante em faces das novas realidades mundiais.

A soberania é originária da Nação, mas só adquire expressão concreta e objetiva quando se


institucionaliza no órgão estatal, recebendo através deste o seu ordenamento jurídico-formal dinâmico.

A soberania é originariamente da Nação (quanto à fonte do poder), mas, juridicamente, do Estado


(quanto ao seu exercício).

Se é certo que Nação e Estado são realidades distintas, uma sociológica e outra jurídica, certo também é
que ambas compõem uma só personalidade no campo do Direito Público Internacional. E neste campo
não se projeta a soberania como vontade do povo, senão como vontade do Estado, que é a Nação
politicamente organizada, segundo a Escola Clássica Francesa. O Prof. Machado Paupério tira a
conclusão de que "soberania não é propriamente um poder, mas, sim, a qualidade desse poder; a
qualidade de supremacia que, em determinada esfera, cabe a qualquer poder".

Fora da teoria anarquista, o Estado é sempre a racionalização do poder supremo na ordem temporal,
armado de força coativa irredutível, autoridade, unidade e rapidez de ação, para fazer face, de imediato,
aos impactos e arremetidas das forças dissolventes que tentem subverter a paz e a segurança da vida
social.Embora seja poder essencialmente nacional, quanto à sua origem, sua expressão concreta e
funcional resulta da sua institucionalização no órgão estatal.

Passando o momento genético da sua manifestação na organização da ordem constitucional, concretiza-


se a soberania no Estado, que passa a exercê-la em nome e no interesse da NAÇÃO. Isso conduz à
conceituação da soberania como poder relatvo, sujeito a limitações.

4.1. Limitações da soberania

A soberania é limitada pelos princípios de direito natural, pelo direito grupal, isto é, pelos direitos dos
grupos particulares que compõem o Estado (grupos biológicos, pedagógicos, políticos, espirituais, etc),
bem como pelos imperativos da coexistência pacífica dos povos na órbita internacional.

O Estado, proclamou Jefferson, existe para servir ao povo e não o povo para servir ao Estado. O Governo
há de ser um governo de leis, não a expressão da soberania nacional, simplesmente. As leis definem e
limitam o poder. A autoridade do direito é maior do que a autoridade do Estado (Krabbe).

Limitam a soberania os princípios do Direito Natural, porque o Estado é apenas instrumento de


coordenarão do direito, e porque o direito positivo, que do Estado emana, só encontra legitimidade
quando se conforma as leis eternas e imutáveis da natureza.

Limita a soberania o Direito Grupal, porque sendo o fim do Estado a segurança do bem comum,
compete-lhe coordenar a atividade e respeitar a natureza de cada um dos grupos menores que integram
a sociedade civil. A família, a escola, a corporação econômica ou sindicato profissional, o município ou a
comuna e a igreja são grupos intermediários entre o indivíduo e o Estado, alguns anteriores ao Estado,
como é a família, todos eles com sua finalidade própria e um direito natural à existência e aos meios
necessários para a realização dos seus fins.

O poder da soberania exercido pelo Estado encontra fronteiras não só nos direitos da pessoa humana
como também nos direitos dos grupos e associações, tanto no domínio interno quanto no internacional.

Notadamente no plano internacional, a soberania é limitada pelos imperativos da coexistência de


Estados soberanos.

Teoria Geral do Estado


ANEXO 2
Ciência política e teoria geral do estado - Morais; Streck

Guilherme Ricken*

STRECK, Lenio Luiz; MORAIS, José Luis Bolzan de. Ciência política e teoria geral do estado. Porto Alegre:
Livraria do Advogado, 2000. 183 p.

PARTE I – Elementos que caracterizam o Estado: a importância da Ciência Política

1 – A aptidão da Ciência Política para a compreensão do nascimento do Estado Moderno

Não é possível fazer um estudo de qualidade sobre o Estado sem utilizar a Ciência Política. É ela
que se encarregará da análise de Democracia, Governo, entre outras instituições. Por ser uma ciência
humana ela possui dificuldades características, como o fato dos homens serem teleológicos, simbólicos e
ideológicos. Devido a isso, a Ciência Política se relaciona com todas as demais ciências. Assim, dentro
dela está presente a Teoria Geral do Estado. (págs. 17-19)
Para estudar o Estado, é preciso conhecer as formas nas quais ele se manifestou ao longo dos
séculos. (págs. 19-20)
O Estado Antigo localizava-se no Oriente e no Mediterrâneo, e tinha por característica principal o
emaranhado formado pelo Direito, a economia, a ética, a religião e a família. No Estado Grego
destacavam-se os territórios independentes denominados Cidades-Estado. Já o Estado Romano era
governado por magistrados, e passou tanto pela fase de república quanto de ditadura. (págs. 19-20)
Com a fragmentação do Império Romano após as invasões bárbaras, foram formados os feudos,
uma forma estatal medieval. O sistema feudal era baseado na situação patrimonial e em relações de
dependência. O poder era fragmentado, havia instabilidade social, política e econômica e o sistema legal
era consuetudinário. O modo de produção feudal, no qual os servos trabalhavam para seus senhores, se
expandiu pela Europa. Quando esse sistema começou a decair, deu-se o surgimento do capitalismo, que
foi fundamental para a formação do Estado Moderno. (págs. 20-24)
O Estado Moderno baseia-se na autoridade (poder centralizado), no povo (direitos e deveres
uniformes) e no território definido. Isso foi uma novidade, principalmente pelo fato do poder carismático
dos senhores feudais ter sido substituído pelo poder estatutário de um chefe. O primeiro Estado
centralizado era estamental, e foi sucedido pelo Estado Absolutista, o primeiro dentre os Modernos. O
divisor de águas entre eles e as formas medievais de Estado foi a dicotomia público-privado, o que
garantia segurança jurídica àqueles que não pertenciam à nobreza ou ao clero. (págs. 24-29)

2 – O Estado na Teoria Política Moderna

A gênese do Estado não é certa, e, portanto, há uma série de teorias que tentam explicá-la.
Entre elas destacam-se a teoria da força, as psicanalíticas, a economicista e a contratualista. Elas
concordam com uma afirmação: o Estado é uma forma de dominação, que atende as classes
hegemônicas. (pág. 30)
A teoria economicista – ou marxista – é conhecida como a “visão negativa sobre o Estado”. Para
os adeptos desta teoria, o Estado é um poder que mantém o conflito de classes nos limites ordeiros. Por
meio destes conflitos haverá uma rotatividade no poder, o que culminará com a extinção das classes
sociais e do Estado. (págs. 31-33)
No modelo contratualista – também chamado de “visão positiva sobre o Estado” –, o Estado é
baseado em um consenso. Para os contratualistas, ele é uma criação artificial, um acordo firmado entre
a maioria ou a totalidade dos indivíduos que querem atingir determinadas demandas. Pelo contrato, dá-
se a passagem do Estado de Natureza para o Estado Civil. (págs. 34-35)
O Estado Natural é um estágio pré-político do homem. Nele haveria uma permanente situação de
tensão, segundo Thomas Hobbes, ou uma sociedade de relações pacíficas, como afirmou John Locke.
Com o advento do contrato, os homens autorizaram a um único ou a um grupo deles o direito de
governar e decidir pelos demais. Daí surgiu o Estado Civil, que consiste na transferência dos interesses
individuais, com exceção da vida, para um soberano, acumulando este as responsabilidades por toda
uma comunidade. Na sociedade civil, conforme Locke, o homem traz direitos que estavam presentes já
no Estado de Natureza, visto que eles são inerentes à pessoa humana. (págs. 35-43)

3 – A segunda versão do Estado Moderno: o modelo liberal e o triunfo da burguesia

Durante o período no qual duraram os Estados Absolutistas, a burguesia havia sido relegada a
um segundo plano. Ela detinha o poder econômico, mas não o político, sendo este privilégio dos
aristocratas. Devido a isso, na França, ela se uniu ao povo e, posteriormente, a alguns membros do clero
e da nobreza, para derrubar o Rei e poder participar das decisões políticas. Isso culminou, em 1789, na
Revolução Francesa, de ideais iluministas, que marcou o início da Idade Contemporânea. O
contratualismo foi essencial para os revoltosos, pois eles visavam a criação de uma Constituição
(contrato social) para a França. Da luta contra o absolutismo surgiu o liberalismo, uma ideologia de
princípios individualistas, que preconizava garantias contra os poderes arbitrários, direitos humanos,
liberdade, mobilidade social e, principalmente, a limitação da área de ingerência do Estado, entre outras
idéias. (págs. 44-49)
O liberalismo pode ser dividido em três núcleos: moral, político e econômico. O núcleo moral
afirma os direitos básicos do ser humano, como vida, liberdade e dignidade. O núcleo político contém os
direitos políticos dos indivíduos, que são a representação, o consentimento individual, a soberania
popular e o constitucionalismo. O núcleo econômico traz os pilares capitalistas: economia de mercado
livre, a competição e a propriedade privada. Como o liberalismo prega a não-interferência do Estado, a
não ser em algumas poucas atividades, ele também é entendido como uma ideologia antiestado. (págs.
49-54)
No fim do século XIX, o ideário liberal concebeu um novo projeto, que foi chamado de justiça
social. Essa justiça consistia em uma ajuda do Estado àqueles indivíduos de baixa autoconfiança e de
fraca iniciativa, abatidos pelo mercado. A partir daí surgiu o Welfare State (Estado de bem-estar social).
(págs. 55-57)

4 – O Welfare State e a transformação do liberalismo

A não-intervenção do Estado na sociedade nunca foi alcançada. Apenas por sua existência, ele já
significa interferência, mesmo que em baixo grau. Essa interferência teve seu ápice no New Deal de
Roosevelt. (pág. 58)
Dentre as muitas conseqüências do plano liberal – causadas principalmente pela Revolução
Industrial, e pelas duas guerras mundiais – é possível mencionar a valorização do indivíduo, o progresso
econômico e a criação do proletariado. Cabe lembrar que após a I Guerra Mundial, devido à necessidade
da produção de armas e da guarda de suprimentos, chegou-se à conclusão de que havia necessidade do
Estado controlar a economia. E foi durante a depressão norte-americana que a máquina pública e a
iniciativa privada se reconciliaram. (págs. 59-61)
Outros fatores também contribuíram para a desagregação liberal, como a formação de
monopólios, as crises de desemprego e a adoção do modelo planificado de economia em países antes
capitalistas. (págs. 62-64)
Entretanto, mesmo com o Estado tendo adotado o modelo intervencionista, a base do sistema
liberal, que é a mais-valia, continuou. (pág. 65)
O início da intromissão estatal pode ser explicado por duas razões básicas: o receio dos
burgueses das tensões sociais geradas pelo liberalismo e a necessidade, por parte destes burgueses, de
que fosse criada uma infra-estrutura com dinheiro público para a concretização de sua prosperidade
econômica. Assim, eles lucraram com a concessão de serviços e obras públicas, com a infra-estrutura
custeada pelo povo e com a suavização do sistema liberal, abrandando a indignação das pessoas. (págs.
66-67)

5 – A idéia do Estado de Bem-Estar e a questão brasileira

O Estado de Bem-Estar Social surgiu formalmente no México em 1917, e foi fortalecido pelo New
Deal e pelas duas guerras mundiais. Ele foi consolidado graças às lutas pelos direitos individuais que
garantissem uma vida decente e pela transfiguração do modelo econômico agrário para o formato
industrial. Com isso, é atribuída ao Estado uma função social, que se baseia na promoção de ações que
garantam condições de vida e dignidade aos habitantes. (págs. 68-70)
No Brasil, assim como no restante da América Latina, o Estado de Bem-Estar Social não está
constituído e nem o estará tão breve. Nesta parte do continente, o intervencionismo estatal serviu
apenas para concentrar a renda em uma minoria de pessoas. (págs. 70-71)
A globalização e o neoliberalismo vêm enfraquecendo as diferenciações entre o Estado Moderno
e o regime feudal, entre elas as dicotomias público-privadas e político-econômicas. (pág. 72)
E é o neoliberalismo que vem sendo aplicado no Brasil. Ao contrário do que estabelece a
Constituição – um Estado forte, intervencionista e regulador – existem políticos que defendem o
desmonte do Estado, justamente quando ele se faz mais necessário para reduzir as desigualdades
sociais. Esse Estado forte, moderno, deve ser implantado com a ajuda do Direito, sem, é claro, esquecer
do Executivo e do Legislativo. (págs. 72-76)
As desigualdades sociais brasileiras são tão gritantes que o país é o último colocado
mundialmente em distribuição de renda, 59% da população é considerada socialmente excluída, 89%
não cursaram além da 8ª série e 4,5 milhões de agricultores não possuem terra para trabalhar. Nas
cadeias, 98% dos encarcerados não possuem condições de contratar um advogado, o que evidencia o
fato de as leis serem feitas para favorecer as camadas mais abastadas da nação. (págs. 77-82)

6 – O Estado de Direito

Para que o conjunto de itens que forma o Estado funcione, o Direito se faz necessário. Portanto, é
possível afirmar que Estado e Direito são interdependentes e complementares. (pág. 83)
O Estado de Direito nasceu na Alemanha, na metade final do século XIX. Ele pode ser visto de
maneira formal, hierárquica ou material. Ele também se diferencia do Estado Legal e do Estado Polícia.
Além disso, ele não é apenas uma ferramenta para conter o poder do monarca, mas sim um conjunto de
idéias sobre liberdade e democracia. Para isso, ele pode ser tanto liberal quando social ou democrático.
(págs. 83-85)
O Estado Liberal de Direito tem por características a cisão entre Estado e sociedade civil, a
afirmação das liberdades individuais e a redução das funções estatais. Nesse caso a lei é uma ordem
geral e abstrata que possui como principal instrumento a coerção, aplicada por meio de sanções. (págs.
86-88)
Já o Estado Social de Direito recusa a premissa da não-interferência pública. Nele, as leis deixam
de ser uma ordem meramente abstrata e passam a ser instrumentos de ação, visando uma situação de
bem-estar que garanta dignidade para toda a população, embora isso seja uma mera alteração da
ordem pré-estabelecida. (págs. 88-89)
Superior aos dois anteriores, o Estado Democrático de Direito é baseado na transformação da
realidade. Para realizá-la, ele tem como preceitos a organização democrática da sociedade, a
constitucionalidade, os direitos fundamentais coletivos e individuais, a segurança jurídica e a justiça
social, esta última visando retificar as desigualdades sociais. (págs. 89-96)

7 – A Democracia no Estado Democrático de Direito

O conceito de democracia é muito amplo. Ela é uma invenção constante, na qual novos direitos
são criados e a definição de justiça é uma incógnita. Em uma determinada visão de mundo, ela é um
agrupamento de normas que definem quem está apto a apresentar resoluções coletivas. (pág. 97)
O regime democrático difere-se dos demais por entender o conflito como algo legítimo e também
por ser passível de renovações e transformações. Entretanto, alcançar este regime não é algo simples.
Sua conquista ocorreu mediante lutas, inclusive na América Latina. Nesta parte do continente americano
foi preciso conviver com ditaduras, eleições fraudulentas e escandalosas alterações constitucionais.
(págs. 97-98)
Um modelo democrático concebido recentemente é a democracia delegativa, que se pauta
basicamente na premissa do presidente eleito governar como melhor lhe convém, mesmo se para isso
precise ignorar suas promessas eleitorais e as instituições públicas e privadas. Também é
costumeiramente utilizado o instrumento da eleição em dois turnos, para que o governante eleito seja
legitimado pela maior parte do eleitorado. Esse modelo floresce especialmente durante crises
econômicas e sociais. (págs. 98-105)
Contrapondo-se ao caráter delegativo existe o representativo. Ele consiste em um Congresso
Nacional heterogêneo, para que as diversas camadas da população tenham participação nos debates.
Esse modelo encontra dificuldades no Brasil, visto que vários segmentos sociais não encontram
representação no Parlamento e algumas unidades da federação possuem proporcionalmente mais
deputados federais do que outras. (págs. 105-107)
A democracia liberal pode ser caracterizada tanto como o sistema político de um Estado
capitalista como uma sociedade na qual os indivíduos são livres na busca pela felicidade. (págs. 107-
108)
A história da democracia transcorreu de maneira tortuosa, e por isso alguns contrapontos devem
ser explicitados. O primeiro é o nebuloso fato de que grupos de interesse dominam o atual sistema
político, em detrimento dos indivíduos. Além disso, é possível afirmar que o poder está pulverizado e, o
que é mais significativo, nas mãos de elites concorrentes. Outro fator obscuro é a invisibilidade das
decisões, pois não há transparência nas votações para que a população possa controlar as atitudes de
seus eleitos. (págs. 108-110)
Essas contradições do modelo democrático de governo resultaram principalmente da
complexificação da sociedade, devido à passagem da economia de subsistência para uma economia
capitalista, e do processo de democratização da sociedade, que acabou bombardeando o Estado com
proposições cada vez mais complexas de participação do povo. Essas propostas acabaram por
sobrecarregar o Estado, atrofiando-o. (págs. 111-112)
Por estar intimamente comprometida com a liberdade, a democracia não pode adotar a
perenização de seus princípios. A estabilidade jurídica é imprescindível, mas ela não pode significar o fim
da renovação das regras, pois isso se encaminharia para um totalitarismo. (págs. 112-119)
O Estado totalitário é aquele que controla completamente a sociedade, tanto no campo político
quanto no que condiz aos rumos da economia. Para isso o governante faz uso de força e de aparelhos
ideológicos. Desta maneira, ele e seu partido tornam-se os únicos capazes de decidir em quais verdades
o povo acreditará. (págs. 120-121)

8 – A crise do Estado

O Estado Moderno, fundado por volta do século XVI, sofre atualmente uma crise de identidade,
tanto conceitual como estruturalmente. As duas principais questões são a soberania, que cada vez mais
vai de encontro aos interesses de corporações multinacionais, e o Estado de Bem-Estar Social. (pág.
122)
A crise conceitual refere-se às bases do Estado, sua caracterização. Destacam-se nesse quesito
as questões de soberania e direitos humanos. (págs. 122-123)
O conceito de soberania surge no século XVI, e seu primeiro ideólogo foi Jean Bodin. Ela era
primeiramente concentrada na pessoa do monarca. Posteriormente, J.J. Rousseau transfere a titularidade
dela para o povo, que é quem legitima o poder do soberano. Atualmente é a pessoa jurídica estatal
quem a detém. (pág. 123)
A soberania caracteriza-se por ser imprescritível, inalienável, indivisível e una. Com ela, o Estado
legisla e aplica normas dentro de um determinado território, pois é o único centro de poder. (pág. 124)
Contudo, a soberania estatal vem se esvaindo devido a organismo supranacionais, que ignoram
o poder constituído pelos países em nome dos interesses da maioria. As associações de nações visando
o livre-comércio, as alianças militares e a emissão de uma única moeda em países vizinhos limitam a
indivisibilidade do poder, característica fundamental de um Estado soberano. Além disso, também
determinadas Organizações Não-Governamentais e sindicais e aglomerados empresariais colaboram
para o enfraquecimento do Estado, visto que possuem preocupações internacionalizadas, seja com o
lucro ou com o bem-estar de alguma classe de indivíduos. (págs. 125-127)
Outra questão diz respeito aos direitos humanos. Eles também colaboram para a progressiva
diminuição da soberania estatal porque não mais possuem como objetivo prioritário a defesa contra os
atos do Estado, mas sim uma tentativa de reflexão sobre a continuidade da espécie humana. Desta
maneira, é preciso agir de maneira global, pois a transgressão dos direitos humanos afeta todos os
habitantes do planeta. (págs. 128-130)
No tocante à crise estrutural, ela é movida pelos problemas no Estado de Bem-Estar Social. (pág.
131)
Esse tipo de Estado molda-se no intervencionismo, contrariando as premissas liberais antes
vigentes. Ele beneficiou tantos as classes trabalhadores quanto os demais setores da sociedade, pois
esteve atento às demandas que provinham da sociedade e fez maciços investimentos em infra-
estrutura. Ele não se baseia no assistencialismo, mas em conceder aos cidadãos condições para o
exercício de uma vida digna por meio de direitos consagrados. (págs. 131-132)
A principal dificuldade desse modelo de Estado é o custeio das benesses legais. Para que as
despesas sejam devidamente sanadas, é necessário que se faça um aumento na carga tributária ou uma
diminuição no aparato governamental. Caso contrário, assim como os ganhos, as perdas também serão
distribuídas para os cidadãos. (págs. 133-135)

PARTE II – Elementos que caracterizam o Estado: a importância da Teoria Geral do Estado

9 – Elementos constitutivos do Estado

Todo Estado fundamenta-se em algo. No caso do Estado Moderno, seus pilares são o território,
o povo, o governo e a soberania. (pág. 139)
O território de um Estado é composto, além do solo no qual a população vive e produz, de
subsolo, de espaço aéreo e de uma estipulada extensão marítima. É nessa delimitação que será
exercido o poder estatal. (págs. 140-141)
Os membros do povo são aqueles, dentre toda a população, ligados ao poder estatal. Eles são
cidadãos, possuem direitos políticos e legitimam a soberania do governante. (págs. 141-143)
A soberania significa o poder que o Estado possui para fazer valer as normas constituídas dentro
de seu território. Ela tem por características, como citado anteriormente, o fato de ser una, indivisível,
inalienável e imprescritível. Ela pertence ao povo, que a usa para legitimar um governante. Ela é o poder
maior dentro da jurisdição do Estado, e, na qualidade de imprescritível, não possui prazo de validade.
(págs. 143-145)

10 – Formas de Estado

O Estado Moderno pode se apresentar tanto da forma federada quanto unitária, ou até mesmo
regionalizada, sendo esta última uma tentativa de se colocar entre as anteriores. (pág. 146)
O Estado Federado, que é o modelo adotado atualmente pelo Brasil, caracteriza-se pela
fragmentação do poder político. Aos entes federados não é permitida a secessão da União, mas eles
possuem competência para legislar sobre uma grande gama de assuntos, contanto que suas resoluções
não se contraponham à Constituição Federal. (págs. 147-148)
O Estado Unitário é o antônimo do Federado. No Unitário o poder é concentrado, sendo que a
atividade jurídica e o desenvolvimento de normas são as mesmas em todo o território nacional. A
burocracia é elevada e não há autonomia dos componentes inferiores para com o poder central, o que
resulta numa diminuição dos direitos democráticos. (págs. 149-150)

11 – As funções do Estado

No momento em que o Estado divide suas funções com determinados órgãos, ele tenta evitar um
retorno ao absolutismo. Isso o leva para perto da população, o que engrandece a democracia. (págs.
151-152)
As principais maneiras de cindir o poder estatal são sua tripartição em Legislativo, Judiciário e
Executivo e o constitucionalismo. Desta forma, cada um dos poderes constituídos passa a fiscalizar os
demais, o que significa que há uma colaboração mútua. (págs. 152-153)

12 – Formas de Governo

Os Estados Contemporâneos possuem duas formas de governo, pois eles podem ser repúblicas
ou monarquias. (pág. 154)
A república tem por principal aspecto o compromisso com a democracia. Nela o povo é soberano,
que autentica um chefe de governo por um período de tempo pré-estipulado. E esse chefe tem por
obrigação explicar à população as políticas escolhidas para definir o rumo do país. (págs. 154-155)
A forma monárquica é aquela presente nos primórdios dos Estados. Ela passou a perder força
durante o início do capitalismo, e foi radicalmente modificada com as revoluções liberais. Seus traços
precípuos são a vitaliciedade e a hereditariedade. (págs. 155-156)

13 – Sistemas de governo

Assim como as formas, os sistemas de governo também se apresentam de maneira dual, pois
podem ser parlamentaristas ou presidencialistas. (pág. 157)
As origens do parlamentarismo remontam à Inglaterra do século XII, e desde então ele vem se
desenvolvendo. Nesse sistema coexistem as figuras do chefe de Estado e do chefe de governo. O
primeiro pode ser um membro da família real ou um presidente eleito. O segundo recebe o cargo de
primeiro-ministro, e é eleito pelos parlamentares, que por sua vez foram eleitos pelos cidadãos. (págs.
157-158; 160)
O sistema presidencialista teve início nos Estados Unidos da América, quando de sua
independência da coroa britânica. O chefe de Estado e o chefe de governo são o mesmo indivíduo, eleito
pelo povo para um mandado que possui um tempo previamente estabelecido. O presidente possui,
inclusive, poder de veto às decisões do parlamento. (págs. 158-159; 160)

14 – A democracia representativa: partidos políticos e sistemas eleitorais

Para que seja possível a compreensão do conceito de democracia representativa, é necessário


um exame acerca dos partidos políticos e dos sistemas eleitorais. (pág. 161)
Os partidos políticos são entidades que agem como intermediários entre os cidadãos e o poder
público. Eles têm sua origem moderna na Revolução Francesa, no embate entre girondinos e jacobinos,
e surgiram no Brasil durante o período imperial. Um partido político pode ser caracterizado como um
grupo de pessoas de mesma ideologia, que possuem vontade de participar do jogo político com a
intenção de concretizarem seus ideais. Os partidos podem ter caráter sociológico, jurídico, psicológico ou
político e, normalmente, são classificados como direitistas, esquerdistas ou centristas. (págs. 161-166)
Para fiscalizar e garantir a alternância do poder nos regimes democráticos surgiram três tipos de
sistema eleitoral: o majoritário, o proporcional e o distrital. (pág. 166)
No sistema majoritário vence o candidato que receber o maior número de sufrágios, não
importando a vantagem sobre o segundo colocado. Ele proporciona ao vencedor uma grande
responsabilidade, pois expressa a vontade da maioria dos votantes. No Brasil esse sistema é utilizado
para a escolha de senadores e dos ocupantes de cargos executivos. (págs. 166-168)
O sistema proporcional é utilizado em nosso país para a escolha de deputados e vereadores. Por
meio dele os votos são recebidos pelas agremiações, que elegem seus candidatos conforme o
coeficiente eleitoral necessário para a ocupação das vagas. (págs. 167-168)
No sistema distrital, que pode tanto ser puro quanto misto, os colégios eleitorais são divididos
em distritos eleitorais, e os eleitores votam apenas nos candidatos registrados em seu distrito. O
vencedor é escolhido de forma majoritária. (pág. 168)

15 – A opinião pública

A opinião pública é um mecanismo para que seja feito um controle parcial sobre a classe política,
por meio de protestos ou consentimentos. Mas para que tais atitudes sejam tomadas, é necessário que
os meios de comunicação dêem visibilidade aos acontecimentos da esfera estatal. (pág. 169)
De origem iluminista, a publicidade das decisões dos representantes do povo reflete um ideal
democrático, em oposição ao sigilo que anteriormente regia as decisões. O problema acontece quando o
número de informações torna-se imenso e impossibilita o receptor de emitir um parecer crítico sobre
elas, tomando como verdade tudo o que toma conhecimento. (págs. 169-170)
No que tange à função comunicacional, a ideologia também possui fundamental importância. Ela
é um projeto de poder, um falso pensamento. Por meio dela conseguimos averiguar as divergências da
sociedade e quais os interesses do povo. Todavia, não devemos ignorar o fato de que a opinião pública
também é influenciada pelas ideologias, diminuindo assim sua autonomia e tomando ares de
institucionalização. (págs. 171-174)
Exercícios
O que é liberdade negativa? Em que sentido ela pode ser dita a “liberdade dos modernos”?
De acordo com o texto de Bobbio, caracterize o Estado liberal.
Diferencie o Estado liberal “forte” do Estado liberal “fraco”.
Esclareça a relação, em Montesquieu, entre liberdade e separação dos poderes?
Em que sentido a teoria de Montesquieu pode ser dita uma teoria “liberal”?
De que maneira os diferentes poderes exercem “controle” uns sobre os outros na teoria de
Montesquieu?
Explicite duas diferenças fundamentais entre o sistema de separação dos poderes de Montesquieu e o
atual sistema de separação dos poderes (presidencialismo) no Brasil.
Diferencie democracia direta e democracia representativa.
Compare as teorias de Rousseau e de Sieyès.
O que é mandato imperativo e mandato livre? Qual deles está mais próximo da idéia de democracia
direta?
De que forma elementos de democracia direta estão presentes na Constituição Federal de 1988?
Explicite as diferença entre parlamentarismo e presidencialismo.
Exponha as três formas de configuração do gabinete no parlamentarismo.
Como se caracteriza a relação entre os poderes executivo e legislativo no atual presidencialismo
brasileiro (Const. Fed. de 1988)?
O que significa o “poder de agenda” do executivo? Por que o presidencialismo brasileiro pode ser
chamado de “presidencialismo de coalizão”?
O que é república? E principado?
O que é ideologia? Comente sobre a ideologia religiosa e a capitalista.
Fale sobre a naturalização das classes sociais.
O que significou o humanismo-renascentista?
Quais fatores contribuíram para o fim do feudalismo?
O que caracteriza um sistema político?
Como se caracteriza a democracia brasileira?
Comente a afirmação: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar.”
Por que é necessário separar a moral pública da moral privada?
Qual a diferença entre classe operária e trabalhadora?
O que é política?
O que podemos chamar de bem comum?
O regime político no Irã é democrático?
Qual o alinhamento político de Chávez? Justifique citando um exemplo.