P. 1
FUNÇÕES DO ESTADO

FUNÇÕES DO ESTADO

|Views: 8.235|Likes:
Os apontamentos apresentados foram recolhidos em aulas práticas de Direito Administrativo I, ministradas pela Exma. Professora Doutora Juliana Coutinho, na Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP), no ano lectivo 2010/2011.
Os apontamentos apresentados foram recolhidos em aulas práticas de Direito Administrativo I, ministradas pela Exma. Professora Doutora Juliana Coutinho, na Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP), no ano lectivo 2010/2011.

More info:

Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOCX, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

07/31/2013

pdf

text

original

FUNÇÕES DO ESTADO1

 Funções do Estado o A expressão «funções do Estado» pode ser entendida em duas acepções:  Funções como incumbências, tarefas do Estado, necessidades da comunidade (enlace entre Estado e Comunidade) justificação do poder do Estado e da sua permanência (legitimação). y Visão do Estado como poder e como comunidade. y Esta vertente encontra-se consagrada constitucionalmente: o Artigo 9.º CRP; o Tarefas plasmadas no capítulo dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais (DESC); o Artigo 81.º e 229.º CRP.  Funções do Estado como um conjunto de actos destinados à prossecução de um determinado fim e que se distinguem, entre si, sob um ponto de vista material, formal e procedimental (modo de decidir). Todas as funções devem ser tomadas sob um ponto de vista global. y Visão do Estado como poder e das funções como modo de exercício, integrando uma função constituinte de auto-organização do Estado, isto é, de definição das regras essenciais do estatuto político do Estado, no que concerne à organização, funcionamento e exercício do poder político, que irá disciplinar as restantes
Os apontamentos apresentados foram recolhidos em aulas práticas de Direito Administrativo I, ministradas pela Exma. Professora Doutora Juliana Coutinho, na Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP), no ano lectivo 2010/2011.
1

funções do Estado, agrupadas em dois patamares distintos: o Funções primárias (função política e função legislativa); o Funções secundárias (função jurisdicional e função administrativa).

o Função administrativa = Administração Pública em sentido material traduz-se numa actividade desempenhada por entidades e indivíduos públicos e privados, em nome próprio, com vista à satisfação regular e contínua de interesses públicos, subordinada às funções política e legislativa e controlada pela função jurisdicional; o Função administrativa em sentido orgânico traduz-se no conjunto de entidades públicas e privadas que desempenham a actividade administrativa;
refere-se às o Função administrativa em sentido formal formas típicas de actuação no exercício da função administrativa, que são o acto administrativo, o contrato público e o regulamento administrativo. Encontra -se limitada por um conjunto de princípios da actividade administrativa, como são o princípio da legalidade, o princípio da proporcionalidade e o princípio da prossecução do interesse público, entre outros constantes do Código do Procedimento Administrativo e do artigo 266.º CRP.

o Interesse público Necessidade colectiva  Necessidade colectiva conceito sociológico; nem todas as necessidades  Interesse público colectivas são interesses públicos, ainda que o legislador, para definir os interesses públicos, parta do

conceito sociológico. Podemos dividir os interesses públicos em duas categorias: y Interesses públicos essenciais / primários / principais o São definidos por Lei, após um processo colectivo de reflexão das necessidades colectivas; o Resultam de um processo normativo a cargo do legislador e são insusceptíveis de ponderação, de acordo com critérios da Constituição; o Constituem o ponto de partida do procedimento administrativo de decisão. y Interesses públicos secundários e dos particulares o Interesses que desempenham uma função de relativização do interesse público primário, considerando as circunstâncias do caso concreto, sendo o interesse público concreto definido procedimentalmente (resultado do procedimento administrativo ponderativo).

o Procedimento Administrativo  O procedimento administrativo inicia-se com a recolha de informação (fase de instrução) pela entidade administrativa para a prossecução de um interesse público essencial, apercebendo-se de outros interesses públicos secundários e interesses particulares, de modo a atender às diferentes posições e a salvaguardar todos os interesses. Procede-se, portanto, à audição das partes interessadas, atendendo-se posteriormente aos interesses públicos essenciais, bem como aos

interesses secundários e particulares, relativizando-os, dando lugar ao interesse público concreto. É um interesse público moldado ao caso concreto, de acordo com o princípio da proporcionalidade. Atende -se principalmente ao interesse essencial, mas também se actua em obediência aos secundários, para ser justo. É uma espécie de tese-antítese-síntese .

INTERESSES DIFUSOS 2

ARTIGO: O DIREITO DE ACÇÃO POPULAR NA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA (MARIANA SOTTO MAIOR, Técnica Superior do Gabinete de Documentação e Direito Comparado da Procuradoria-Geral da República) Antes da revisão constitucional de 1989 As matérias em que o direito de acção popular foi consagrado, em legislação ordinária, relacionam-se directamente com a protecção de interesses difusos e colectivos, sendo de referir o artigo 59.º da Lei do Património Cultural 3 e a alínea b) do n.º 1 do artigo 6.º da Lei que garante os direitos das associações de mulheres4, que dispõe terem esta legitimidade para exercer o direito de acção popular, em defesa dos seus direitos. Em ambos os casos, o exercício deste direito é exercido nos termos do artigo 52.º da Constituição da República Portuguesa, pelo que, estando dependente da sua regulamentação, ainda não tiveram aplicação prática.

Colaço Antunes, Para uma tutela jurisdicional dos interesses difusos , in B.F.D.U.C., vol. LX, 1984, p. 25 e ss. (leitura recomendada) 3 Lei n.º 13/85, de 6 de Julho, que dispõe: qualquer cidadão no uso dos seus direitos civis, bem como qualquer associação de defesa do património legalmente constituída tem, nos casos e termos definidos na lei, o direito de acção popular em defesa do património cultural . 4 Lei n.º 95/88, de 17 de Agosto.

2

Depois da Revisão Constitucional de 1989 Com a revisão constitucional de 1989, o n.º 3 do artigo 52.º reuniu num único preceito as hipóteses em que, de uma forma dispersa, era aflorado no texto anterior, o direito de acção popular, eliminando as disposições específicas dos n.os 3 dos artigos 66.º e 78.º, relativos a matéria ambiental e património cultural. De acordo com a nova redacção deste preceito constitucional é conferido a todos, pessoalmente ou através de associações de defesa dos interesses em causa, o direito de acção popular nos casos e termos previstos na lei, nomeadamente o direito de promover a prevenção, a cessação ou a perseguição judicial das infracções contra a saúde pública, a degradação do ambiente e a qualidade de vida ou a degradação do património cultural, bem como de requerer para o lesado ou lesados a correspondente indemnização. O novo regime do artigo 52.º, ampliando consideravelmente o âmbito do direito de acção popular, faz aparecer sob a qualificação unitária de acção popular, duas figuras de recorte distinto. Por um lado, subsiste o tradicional instituto da acção popular, referenciado à actividade da Administração, ora como meio de suprir a sua inércia, ora como reacção à prática de actos ilegais. O direito de acção popular é também consagrado como instrumento de tutela dos interesses colectivos e difusos. A Constituição introduz, na opinião do Dr. Colaço Antunes, uma acção popular especial que não se confunde com a acção popular tradicional, configurando uma nova acção para a tutela dos interesses plurindividuais, designada por acção popular de massas . 5 As precisões introduzidas no novo texto constitucional tiveram como propósito aprofundar e desenvolver as condições de acesso à justiça e reforçar a tutela de interesses difusos. Estas opções foram determinadas pelo acordo político de revisão celebrado entre o Partido Social-Democrata e o Partido Socialista, em 14 de Outubro de 1988, no qual os dois partidos assumiram o compromisso de consagração do direito de acção popular em defesa dos direitos dos consumidores, protecção do ambiente, qualidade de vida e património cultural, a exercer nos termos da lei .
Na regulamentação deste direito, a legitimação principal deveria caber às associações e entes intermédios que tenham como fim estatutário a defesa dos interesses difusos, sem prejuízo da legitimidade de todo e qualquer particular, como acontece com as class actions do direito norteamericano. A legitimidade principal não deveria caber ao Ministério Público que, pela sua colocação no âmbito da Magistratura não pode assumir, como é necessário, uma posição de protagonismo cívico. A nível processual, devia ser criado um processo padrão, que garanta a inexistência de fraudes ou extorsões baseadas no poder legal que este direito confere, como o controlo da representação adequado do proponente, com normas processuais específicas, nomeadamente no que se refere aos poderes do juiz, ónus da prova e eficácia erga omnes do caso julgado. Cfr. Colaço Antunes, Para uma tutela jurisdicional dos interesses difusos e A tutela dos interesses difusos e o acesso ao direito e à justiça.
5 

Como exemplo de protecção de interesses difusos, temos uma acção de impugnação intentada por qualquer pessoa sobre a atribuição de licença de construção em local de Reserva Natural. O direito de acção popular encontra-se igualmente previsto no n.º2 do artigo 9.º CPTA, como forma de salvaguarda de interesses difusos, insusceptíveis de apropriação individual e que servem como fundamentação de legitimidade activa;  O princípio da prossecução do interesse público e da protecção dos direitos e interesses dos cidadãos encontra-se previsto no artigo 266.º, n.º1 da CRP e no artigo 4.º CPA.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->