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Grupos sociais e interação

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Grupo, multidão, público, massa. O que caracteriza cada um desses tipos de agrupamento social?

Quais são os mecanismos que os sustentam? O que torna inseparáveis o status que um indivíduo ocupa na sociedade e os papéis sociais que ele desempenha? Como vimos no capítulo 1, a vida em sociedade é condição necessária à sobrevivência de nossa espécie e à constituição da própria ideia de humanidade. Assim, desde suas origens, a espécie humana sempre formou agrupamentos, como os grupos de parentesco e as famílias. Para o sociólogo Karl Mannheim, os contatos e os processos sociais que aproximam ou afastam os indivíduos provocam o surgimento de formas diversas de associações. Tais formas são os grupos sociais e os agregados sociais. Os agrupamentos sociais e as diversas formas pelas quais eles se manifestam são o tema central deste capítulo.

CAPÍTULO6 Grupos sociais e interação

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Observe e responda:

1.

Como você definiria, do ponto de vista sociológico, o aglomerado de pessoas que aparecem na foto?

2.

As pessoas da foto estão interagindo

entre si? Como você chegou a essa conclusão?

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CAPÍTULO6 Grupos sociais e interação

----1

I Como os seres humanos se agrupam?
o verbete grupo social no Novo dicionário Aurélio, encontramos a seguinte definição: "Forma básica da associação humana; agregado social que tem uma entidade [individualidade] e vida própria, e se considera como um todo, com suas tradições morais e materiais". Para o psicanalista argentino José Eleger, "um grupo é um conjunto de pessoas que entram em interação, mas, além disso, o grupo é, fundamentalmente, uma sociabilidade estabelecida". Complementando o conceito de Bleger sobre o que é um grupo social, o filósofo francês Jean-Paul Sartre afirma que "enquanto não se estabelecer a interação não existe grupo, há somente uma serialidade, na qual cada individuo é equivalente a outro e todos constituem um número de pessoas equiparáveis e sem distinção entre si". (Um exemplo de serialidade são pessoas numa fila de ônibus ou de cinema. Elas estão juntas mas não Procurando interagem, pois não se comunicam entre si. Não formam, portanto, um grupo social.) Seja qual for a definição, uma coisa é certa: grupo social sempre significa a reunião de pessoas que estão mutuamente em interação (duas pessoas já podem formar um grupo). A partir daí, cada ciência amplia o conceito de acordo com o objeto e o objetivo de seus estudos. Para a Sociologia, grupo social é toda reunião

mais ou menos estável de duas ou mais pessoas associadas pela interação. Devido à interação social, os grupos têm de manter alguma forma de organização, no sentido de realizar ações conjuntas de interesse comum a todos os seus membros.
Os grupos sociais apresentam normas, hábitos e costumes próprios, divisão de funções e posições sociais definidas. Assim, são grupos sociais a família, a escola, a Igreja, o clube, a nação, etc.

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CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

Vivemos ligados a um ou mais grupos sociais
Ao longo da vida, as pessoas participam geralmente de vários grupos sociais. Eis alguns deles: • grupo [amilial - representado pela família; • grupo vicinal - formado por pessoas residentes próximas umas das outras (vizinhos) e que interagem entre si; • grupo educativo - desenvolvido na escola; • grupo religioso - representado pelos fiéis de uma Igreja (católica, islâmica, evangélica, judaica, ortodoxa, etc.);

• grupo de lazer - formado por clubes, associações esportivas, grupos de teatro, etc.; • grupo profissional - constituído por pessoas de uma mesma profissão; • grupo político - formado pelos militantes de um partido político, por integrantes de organismos do Estado, etc.

jetivo comum; quando uma parte deles coloca em dúvida algum desses princípios, o grupo se desagrega ou sofre divisões; • consciência grupal ou sentimento de "nós" são as maneiras de pensar, sentir e agir próprias do grupo; existe um sentimento mais ou menos forte de compartilhamento de uma série de ideias, valores e modos de agir; • continuidade - as interações passageiras não chegam a formar grupos sociais estáveis; para isso, é necessário que as interações tenham certa duração, como ocorre, por exemplo, com a família, a escola, o sindicato, a Igreja, etc.; mas há grupos de duração efêmera, que aparecem e desaparecem com facilidade, como os mutirões para a construção de casas populares.

Primários, secundários, intermediários
Como vimos no capítulo 3, os contatos sociais se classificam em primários e secundários. Da mesma forma, os grupos sociais podem ser classificados em: • grupos primários - aqueles em que predominam os contatos primários, isto é, os contatos pessoais diretos; exemplos: a família, os vizinhos, o grupo de lazer; • grupos secundários - g~upos sociais mais complexos, como as igrejas e os partidos políticos, nos quais predominam os contatos secundários; os contatos sociais, nesse caso, realizam-se de maneira pessoal e direta, mas sem intimidade; ou de maneira indireta, por meio de cartas, internet, etc.; • grupos intermediários - aqueles em que se alternam e se complementam as duas formas de contatos sociais: primários e secundários; um exemplo desse tipo de grupo é a escola.

Características dos grupos sociais

Os grupos sociais se caracterizam por ter: pluralidade de indivíduos - grupo dá ideia de algo coletivo: há sempre mais de uma pessoa no grupo; interação social - para que haja grupo, como vimos, é preciso que os individuos interajam uns com os outros em seu interior; organização - uma certa ordem interna é necessária para que o grupo se mantenha estável; objetividade e exterioridade - os grupos sociais são superiores e exteriores ao individuo, isto é, quando uma pessoa entra no grupo, ele já existe; quando sai, ele continua a existir; conteúdo intencional ou objetivo comum - os membros de um grupo unem-se em torno de certos princípios ou valores para atingir um ob-

• •

I Agregados sociais
Como vimos na abertura do capítulo, para o sociólogo Karl Mannheim existem sensíveis diferenças entre grupos sociais e agregados sociais. Agregado social é uma reunião de pessoas aglomeradas de forma momentânea e dotadas de um fraco sentimento grupal. Apesar disso, essas pessoas conseguem manter entre si um mínimo de comunicação e de relações sociais. O agregado social se caracteriza por não ser organizado - não tem estrutura estável nem

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CAPÍTULO6 Grupos sociais e interação

hierarquia de posições e funções. As pessoas que dele participam são relativamente anônimas, isto é, são praticamente desconhecidas entre si. O contato social entre elas é limitado e de pequena duração.

Massa, público, multidão
Os principais tipos de agregados sociais são a

multidão, o público e a massa.

Multidão
Um grupo de pessoas observando um incêndio ou reunidas em um parque numa tarde de sol são exemplos de multidão. Outro exemplo são os milhares de pessoas que acorrem a uma praia aos domingos, ou a um desfile de escola de samba no carnaval.

duos que compõem o público recebem o mesmo estímulo (que vem, nos casos citados, da competição esportiva, da peça de teatro, da música, etc.). Não se trata de uma multidão porque a integração dos indivíduos que formam o público é geralmente intencional. Na multidão, a integração é ocasional. Os modos de pensar, agir e sentir do público compõem o que é conhecido como opinião pública. Para Karl Mannheim, o público é um tipo intermediário entre a multidão e os grupos sociais. Isso porque no público podem ser encontradas formas simples, limitadas ou ocasionais de organização: nele, as pessoas estão sujeitas a certos regulamentos (como a compra de ingressos, a obediência a horários, etc ... ).

• •

Características da multidão: falta de organização - apesar de contar, eventualmente, com um líder, falta à multidão um conjunto próprio de normas; seus membros não ocupam posições definidas no agregado; anonimato - os componentes da multidão são anônimos, pois, ao se integrarem a ela, seu nome, sua profissão ou posição social não são levados em conta, não têm importância alguma no agregado; objetivos comuns - os interesses, as emoções e os atos são coletivos numa multidão; indijerenciação - os indivíduos são vistos como parte da multidão; não há espaço para que as diferenças individuais se manifestem, o que torna iguais seus integrantes; proximidade física - os componentes da multidão ficam próximos uns dos outros, mantendo contato direto e temporário.

Massa
As pessoas que assistem ao mesmo programa de televisão, veem o mesmo anúncio num cartaz ou leem em casa o mesmo jornal constituem uma massa. Portanto, a massa: • é formada por indivíduos que recebem, de maneira mais ou menos passiva, opiniões formadas, que são veiculadas pelos meios de comunicação de massa (televisão, r~dio, jornais, etc.); • consiste num agrupamento relativamente grande de pessoas separadas e desconhecidas umas das outras. Como não obedece a normas, o processo de formação da massa é espontâneo. Existe uma certa semelhança entre público e massa, pois também os componentes da massa estão unidos por um estímulo. Mas há uma diferença importante: ao contrário da massa, o público não tem uma atitude passiva diante da mensagem que recebe; ele opina, por meio de vaias, palmas, críticas, debates e discussões. Ou seja, o público não apenas recebe opiniões, mas também exprime a sua, Isso em geral não ocorre com a massa. Por exemplo, ao assistir a um comício, as pessoas podem aprovar as ideias de um político com palmas, ou reprová-las por meio de vaias e impropérios. Algumas delas podem até mesmo externar

Público
O público é um agrupamento de pessoas que seguem os mesmos estímulos. É espontâneo, amorfo, não se baseia no contato físico, mas na comunicação recebida através de diversos meios de comunicação. Os indivíduos que assistem a uma competição esportiva ou a uma representação teatral ou show musical formam públicos. Todos os indiví-

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CAPÍTULO6 Grupos sociais e interação

suas opiniões no meio do público, questionando o que é dito pelo orador, refutando seus argumentos ou apoiando-os. Numa sociedade de massa, o tipo de comunicação que predomina é aquele transmitido pelos veículos de comunicação de massa (veja o boxe a seguir).

Por exemplo, ao anunciar seu produto na televisão um fabricante de sabonetes não está procurando divulqá-lo para um conjunto preestabelecido de pessoas concretas, com sexo, cor, instrução ou idade determinados, mas para as que estão diante da tela naquele momento e que, atingidas pela mensagem, eventualmente poderão comprar seu produto, muitas vezes sem necessidade imediata. Líderes demagógicos podem fazer o mesmo. Através de mecanismos de comunicação de massa podem induzir milhares de pessoas a comportamentes emotivos e irracionais, sem refletir sobre as mensagens que estão recebendo. Ao agir dessa forma, o demagogo não objetiva transmitir suas ideias ao cidadão esclarecido, mas a uma massa homogênea, informe, sem identidade, que é por ele tratada como consumidora passiva de seu discurso. De modo geral, podemos dizer que o grupo de indivíduos que se comporta como massa tende a ser manipulado, pois, na maioria das vezes, reage de forma espontânea, impensada, sem ter consciência de grupo.

A expressão

sociedade de massa foi cria-

da no século XX para designar um tipo de sociedade marcada pela produção em grande escala de bens de consumo, pela concentração industrial, pela expansão dos meios de comunicação de massa (televisão, rádio, publicações impressas e, hoje, pela rede de computadores), pelo consumismo desenfreado, pelo conformismo social e pela ação da publicidade, que induz as pessoas a se comportarem corno meros consumidores e não corno cidadãos dotados de espírito crítico. O texto a seguir analisa esse fenômeno.

A sociedade de massa surge num estágio avançado do processo de modernização. Tanto no que diz respeito ao desenvolvimento

econômico, com a concentração da indústria na produção de bens de massa e o crescimento cada vez maior do setor terciário [setor de serviços, como o de lazer}, quanto no que se refere à urbanização, com a concentração da maior parte da população nas grandes cidades. Esse processo é acompanhado da burocratização e da progressiva redução das margens da iniciativa individual. Na sociedade de massa, tendem a perder peso sucessivamente os vínculos naturais, como os da família e da comunidade local, prejudicados pelas organizações formais e pelas relações intermediadas pelos meios de comunicação de massa: daí o notável crescimento das relações mútuas entre sujeitos às vezes sumamente

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CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

distantes entre si e, ao mesmo tempo, o empobrecimento e a despersonalização dessas inter-reiações. que envolvem apenas aspectos parciais e limitados da personalidade dos indivíduos [as "comunidades" criadas via iniernet são um exemplo disso]. Já no conceito de "homem-massa" do pensador espanhol Ortega y Gasset estava presente a iâeia de conformismo, que depois havia de ser considerado como próprio da sociedade de massa. O homem-massa se sente à vontade - afirma Ortega y Gasset - quando é igual a "todo o mundo", isto é, à massa inâijerenciada. Essa ideia levou ao conceito de "conformismo de autômatos" criado por Erich Fromm em O medo da liberdade. Segundo Fromm, com o conformismo típico da sociedade de massa, o indivíduo deixa de ser ele próprio, tomando-se totalmente igual aos demais e como os outros querem que ele seja. O preço disso é a perda do "eu genuíno", da subjetividade oriqinai da pessoa, que é constrangida a "[uqir da liberdade", ou seja, a buscar uma identidade substitutiva (um "pseuâo-eu") na contínua aprovação e no contínuo reconhecimento por parte dos outros. Alguns críticos radicais que aplicam o modelo da sociedade de massa aos Estados Unidos, em especial, ou, de um modo geral, às sociedades industriais avançadas do Ocidente, reconhecem em tais sociedades, além de um conformismo difuso, uma acentuada concentração do poder. O sociólogo norte-americano Charles Wright Mills constata nos Estados Unidos, em concomitãncia com o surgimento da sociedade de massa, uma verdadeira e autêntica elite dominante, compacta e coesa, composta pelas mais altas figuras do poder econômico, dos círculos militares e da política, que detém todo o poder nas decisões importantes para a nação. O pensador alemão Herbert Marcuse, por sua vez, descreve a sociedade de mas-

o que realmente
tão atraentes?,

toma os lares de hoje tão diferentes,

colagem sobre papel do pintor inglês Richard Hamilton, 1956. Hamilton foi precursor da pop srt. movimento artistico que criticava o consumismo da sociedade de massa utilizando histórias em quadrinhos, peças de propaganda, etc.

sa estadunidense como uma sociedade "de uma só dimensão", caracterizada pelo pleno domínio econômico-tecnológico sobre as pessoas, por um controle absoluto dos meios de comunicação de massa, por uma grosseira manipulação da cultura e pela obstrução de qualquer espaço de discorâância: um estado de coisas que não hesita em chamar de "totalitarismo" (um totalitarismo não "terrorifico", mas "tecnolôqico").
Adaptado de: ORTEGATI,Cassio. Sociedade de massa. In: BOBBIO, N.; Matteucci, N. e PASQUINO, G. Dicionário de política. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1986. p. 1211-3.

Vamos pensar?
Alguns autores afirmam que as pessoas sofrem urna verdadeira "lavagem cerebral" na sociedade de massa e que todos se conformam com o que essa sociedade lhes impõe. Segundo Herbert Marcuse, a sociedade de massa tende a fazer do consumo um ideal de vida, levando as pessoas a limitar seus horizontes e suas aspirações à posse de bens corno um automóvel, urna casa equipada com geladeira e outros eletrodomésticos. etc. Hoje, poderíamos acrescentar a esses bens o celular e o computador. Você concorda com a visão desses pensadores?

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CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

3

I

Como se sustentam os grupos sociais?
do vem de seu cargo e de sua posição no grupo;

Toda sociedade conta com forças que mantêm coesos os grupos sociais. Entre elas as principais são a liderança, as normas e sanções, os símbolos e os valores sociais. Vejamos cada uma delas.

• liderança pessoal - é aquela que se origina
das qualidades pessoais do líder (inteligência, prestígio social e moral, poder de comunicação, atitudes, encanto pessoal, etc.). Entre os chefes que exercem a liderança pessoal podem surgir líderes carismáticos, ou seja, pessoas dotadas de um encanto pessoal tão forte que os torna iluminados, proféticos, ou mesmo sobrenaturais aos olhos de seu público. Alguns exemplos de líderes carismáticos: Fidel Castro, Getúlio Vargas, Evita Perón, Adolf Hitler (leia o texto O líder carismático na seção Textos complementares). Como peça importante de sustentação do grupo, o líder desempenha um papel integrador entre seus membros, transmitindo-lhes ideias, normas e valores sociais, ao mesmo tempo em que representa os interesses e os valores do grupo.

Liderança
A expressão liderança designa a capacidade de alguém, denominado líder, ou de algumas pessoas, de chefiar, comandar ou orientar um grupo de indivíduos em qualquer tipo de ação. Líder é aquele (ou aquela) que dirige o grupo, transmitindo ideias e valores aos outros membros. Há dois tipos de liderança: • liderança institucional- deriva da autoridade que uma pessoa tem em virtude de sua posição social ou do cargo que ocupa: o gerente de uma fábrica, o(a) chefe de família e o diretor de uma escola são líderes institucionais; seu poder de man-

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CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

o conceito de liderança ressalta a capacidade de alguns indivíduos comoverem, inspirarem e mobilizarem as populações de seus países na busca do mesmo objetivo. Algumas vezes, a liderança está a serviço de fins dignos; outras, não. Independentemente de seus objetivos, os grandes líderes deixam sua marca pessoal na História. A liderança pode melhorar ou piorar a condição de um povo. Alguns líderes têm sido responsáveis pelas loucuras mais extravagantes e pelos crimes mais monstruosos. Em contrapartida, outros têm sido vitais para a conquista de alguns dos avanços da humanidade, como a liberdade individual, a tolerância racial e religiosa, a justiça social e o respeito pelos direitos humanos. Não há um modo seguro de reconhecer antecipadamente se um líder trará ou não benefícios para seu povo. Um dos critérios de avaliação pode ser este: os líderes comandam pela força ou pela persuasão? Pela dominação ou pelo consentimento? Durante séculos, a liderança foi exercida pela legitimação do direito divino. O dever dos seguidores era submeter-se e obedecer. "Não perguntar por que, apenas jazer e morrer. " A grande revolução dos tempos modernos foi a introdução do direito da igualdade [veja o capítulo 5]. A ideia de que todos os indivíduos podem ser iguais perante a lei derrubou as velhas estruturas baseadas na hierarquia, ordem, autoridade e submissão. Um governo fundamentado na reflexão e na escolha passou a exigir um novo estilo de liderança e uma nova qualidade de seguidores. Tornou necessária a formação de líderes que respondessem aos anseios populares e seguidores suficientemente preparados para participar desse processo.

Um segundo critério para avaliar a liderança pode ser o objetivo do líder ao procurar alcançar o poder. Quando alguns líderes pretendem impor a supremacia de uma raça . [como ocorreu entre 1933 e 1945 na Alemanha nazista, sob a liderança de Adolf Hitler], a promoção de uma revolução totalitária, a aquisição e exploração de colônias, a manutenção de privilégios, ou a preservação do poder pessoal, é muito provável que suas lideranças resultem em retrocesso para a humanidade. Quando o objetivo do líder é a abolição da escravatura, a libertação da mulher, a justiça social, a proteção dos direitos das minorias, a defesa da liberdade de expressão e de oposição, é provável que sua liderança dê uma importante contribuição para o aumento da liberdade e do bem-estar humanos. Entretanto, mesmo os líderes mais respeitados devem ser vistos com certa cautela. [... ] Nenhum líder é infalível, e cada líder deve ser lembrado disso o tempo todo. A crítica irreverente irrita os líderes, mas é o que os salva. A submissão total corrompe o líder e degrada seus seguidores. O culto a um líder é sempre um grave equívoco.
Adaptado de: SCHLESINGERR., Arthur M. O sentido da J liderança. In: VAIL,John J. Fidel Castro. Boston: Houghton-Mifflin, 1978. p. 7-11.

Vamos pensar?

1. 2.

Para o autor, quais são os critérios que permitem avaliar um líder? Cite exemplos de líderes qúe levaram a humanidade ao progresso ou ao retrocesso, segundo os critérios citados no texto.

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CAPÍTULO6 Grupos sociais e interação

Por seu papel na condução e na sustentação do grupo, o líder é geralmente respeitado por todos os seus membros. Alguns deles chegam mesmo a ser venerados, como é o caso de Mahatma Gandhi (1869-1948), que liderou a luta pela independência da Índia, conquistada em 1947, por meio da não violência e da tolerância.

Normas e sanções sociais
Toda sociedade e todo grupo social conta com uma série de regras de conduta que lhe dão coesão, orientando e controlando o comportamento das pessoas. Essas regras de ação são chamadas normas sociais. Elas têm um poder externo e coercitivo sobre as pessoas do grupo e nisso se aproximam do conceito de fato social estabelecido por Émile Durkheim (veja o capítulo 2). Segundo o que está socialmente estabelecido, as normas sociais indicam o que é "permitido" - e como tal pode ser seguido - e o que é "proibido" - aquilo que não pode ser praticado. A toda norma social corresponde uma sanção social. A sanção social é uma recompensa ou uma punição que o grupo ou a sociedade atribuem ao indivíduo diante de seu comportamento social. As sanções sociais podem ser: • aprovativas - quando são aplicadas sob a forma de aceitação, aplausos, honrarias, promoções; é o reconhecimento do grupo por ter o indivíduo cumprido o que se esperava dele; • reprovativas - quando correspondem a punições impostas ao indivíduo que desobedece a alguma norma social; tais punições variam de acordo com a importância que a sociedade dá à norma infringida; assim, são sanções reprovativas o insulto, a zombaria, a vaia, a perda dos bens, a prisão e, em alguns países, a pena de morte.

SimboLos
A todo momento nos deparamos com símbolos. Nas igrejas cristãs, por exemplo, a cruz simboliza a fé em Cristo. Nos prédios públicos, a bandeira hasteada simboliza a autonomia e a unidade da nação. A pomba branca é o símbolo da paz, e assim por diante. Um símbolo é uma coisa que representa ou substitui algo geralmente mais complexo e abstrato, di-

ferente do uso imediato dessa coisa. Por exemplo, do ponto de vista material, a bandeira nada mais é do que um pedaço de tecido. Pintado com determinadas cores, pode se transformar em um símbolo da soberania da nação. É algo, portanto, cujo valor ou significado é atribuído pelas pessoas que o utilizam. Em nossa sociedade, o tipo de anel conhecido como aliança é um objeto que simboliza a união e a fidelidade entre os cônjuges no casamento. Qualquer coisa pode tornar-se um símbolo. As pessoas atribuem significados a um objeto, uma cor, um hino ou um gesto, e estes se tornam símbolos de algo, como a riqueza, o prestígio, a posição social elevada, etc. Entre nós, a cor que simboliza o luto é o preto; entre os povos orientais, é o branco. Esse exemplo mostra que os símbolos são convenções. Ou seja, cada sociedade ou grupo social pode se utilizar de símbolos diferentes para exprimir o mesmo significado. A linguagem é um conjunto de símbolos. Por exemplo, as palavras menino, boy, garçon e bambino significam todas "crianças do sexo masculino", respectivamente em português, inglês, francês e italiano. Ou seja, são símbolos criados para designar uma só coisa. A linguagem é a mais importante forma de expressão simbólica. Sem a linguagem não haveria organização social humana, em nenhuma de suas manifestações: política, econômica, religiosa, cultural, etc. Sem ela provavelmente não existiria nenhuma norma de comportamento, nenhuma espécie de lei, nenhuma criação científica ou literária. A criança amadurece e se socializa à medida que aprende a usar símbolos. Podemos dizer que todo comportamento humano é simbólico e todo comportamento simbólico é humano, já que a utilização de símbolos é exclusiva da espécie humana. Sem os símbolos não haveria cultura. Leia no boxe da página seguinte trechos do livro O homem e seus símbolos, do psicanalista suíço Carl Jung (1875-1961).

VaLores sociais
A sociedade estabelece o que é desejável e o que é proibido, o que é bonito e o que é feio, o que é certo e o que é errado. Assim, na vida em

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CAPÍTULO6 Grupos sociais e interação

A história do simbolismo mostra que tudo pode assumir significado simbólico: os objetos naturais (como pedras, plantas, animais, homens, o Sol e a Lua, a água e o fogo); ou as coisas feitas pelo homem (casas, barcos, carros); ou, ainda, formas abstratas (os números, o triângulo, o quadrado e o círculo). Defato, todo o cosmos é um símbolo possível. O homem, com sua propensão para criar símbolos, transforma inconscientemente objetos e formas em símbolos (dotando-os, portanto, de grande importância psicológica) e os expressa em sua religião e em sua arte visual. O entrelaçamento entre religião e arte remonta aos tempos pré-histáricos, por meio de símbolos deixados na arte rupestre [ou seja, feita na parede de cavernas ou em paredões] por nossos antepassados, que para eles tinham um significado religioso.
O círculo (ou a esfera) como símbolo do "si mesmo" expressa a totalidade

todos os seus aspectos, inclusive a relação entre o homem e o conjunto da natureza. O símbolo do círculo já aparece no culto solar primitivo, na religião moderna, em mitos e sonhos, em desenhos de mandalas dos monges tibetanos, nos traçados de cidades ou nas ideias esféricas dos primeiros astrônomos, assinalando o aspecto único e vital da vida: seu total e definitivo complemento.
em
JUNG, Carl. EI hombre y sus símbolos. Madrid: Aguilar, 1974. p. 240-1.

Vamos pensar?

1. o que são símbolos? 2. Por que afirmamos que

a linguagem é uma forma de expressão simbólica? Você concorda com essa afirmação? Por quê?

da psique

sociedade, as ideias, as opiniões, os fatos, os objetos não são criados isoladamente, mas em um contexto social que lhes atribui um significado, um valor e uma qualidade determinados. Quanto maior o contexto social, maior a variedade de opiniões, de princípios, de valores sociais, muitas vezes conflitantes. Os valores sociais variam também, principalmente no espaço e no tempo, em cada época, em cada geração, em cada sociedade. O trabalho doméstico e o cuidado dos filhos, antes considerados tarefas exclusivamente femininas, hoje são normalmente divididos entre o casal. Um pai que dá mamadeira a seu filho é olhado com simpatia e aprovação (veja a foto ao lado e o boxe a seguir).

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CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

MULHERES CHEFIAM UM TERÇO DAS FAMÍLIAS
ocê se lembra da expressão análise quantitativa, utilizada no boxe O método em Sociologia do capítulo I? Se não se lembra, volte a lê-lo, pois a seguir temos um texto jornalístico com dados quantitativos de interesse sociológico. Ele trata de um assunto que antes era domínio exclusivo dos homens: a chefia da família. Pelos dados da Síntese de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 30% dos domicílios do país (29,2%) tinham, em 2006, mulheres à frente. O índice era menor em 1996 (21,6%). Segundo Ana Lúcia Saboia, coordenadora da pesquisa, a grande novidade que veio à luz nos últimos anos é o aumento de mulheres que, mesmo casadas, chefiam os domicílios. Apesar da forte expansão nos últimos anos, a chefia feminina do lar predomina ainda em residências

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onde elas vivem sem o marido: 79,3% em 2006, contra 91,9% em 1996. Segundo o IBGE, o chefe de domicílio é a pessoa responsável pela família ou assim considerada pelos demais integrantes. O principal critério é a autodeclaração, baseado na renda. Em geral, a pessoa de referência era apontada com base na maior renda e conforme a posição profissional. Nos lares chefiados por homens, 73% das mulheres ganham menos. De acordo com o estudo, o total de mulheres que chefiavam o lar subiu de 10,3 milhões em 1996 para 18,5 milhões em 2006 - uma alta de 79%. Já o de homens cresceu menos - apenas 25%. Aumentou também a proporção de domicílios com mulheres com filhos e sem marido -de 15,8% em 1996 para 18,1% em 2006.

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LACE, ]anaina e SOARES, Pedra. Mulher chefia quase 30% dos lares do país. Folha de S.Paulo, 29.9.07.

comportamento sexual é outra área em que se notam grandes mudanças. Até meados do século XX, a sociedade exercia um controle rígido sobre a sexualidade das pessoas, especialmente com relação às mulheres. O sexo, para a mulher, só era socialmente aceito dentro do casamento, e tinha corno única finalidade gerar filhos. As mulheres que não se comportassem exatamente de acordo com esses valores eram malvistas e sofriam urna série de sanções sociais. Dessa forma, o papel dos valores sociais corno fator de coesão do grupo ou mesmo da sociedade deve ser visto em sua dinâmica e em suas contradições. Assim corno outros aspectos da vida social, eles também estão sujeitos a mudanças. Um valor corno a virgindade da mulher antes do casamento era um forte fator de coesão da família nas sociedades ocidentais até os anos 1950. Entretanto, com o advento da pílula anticoncepcional - com a qual as mulheres conquistaram o direito ao prazer sexual sem o risco de gravidez - e as lutas feministas a partir da década de 1960, a virgindade perdeu sua

o

importância simbólica. Assim corno esse, outros valores sociais caíram em desuso por essa época. Corno resultado, os jovens que passaram a cultivar os novos valores foram inicialmente condenados por suas famílias e se reagruparam em torno de movimentos corno o dos hippies, que pregavam o amor-livre, o feminismo, etc. Mais tarde, a própria sociedade nos países do Ocidente acabou aceitando alguns desses novos valores, entre os quais o direito da mulher à liberdade sexual.

Valores em confLito
Devido à pluralidade de valores e tendências em urna mesma sociedade, é comum encontrarmos pessoas que não conseguem se entender em relação a certas questões, corno religião, política, moral, etc. Isso ocorre porque elas têm escalas de valores diferentes. Conflitos de opinião entre pais e filhos também são comuns, configurando choques de geração. São problemas que sempre existiram na história da humanidade, mas que atualmente, devido às rápidas

111

CAPÍTULO6 Grupos sociais e interação

transformações sociais, tornaram-se mais complexos e evidentes. A inscrição a seguir foi feita numa placa de pedra da Mesopotâmia (região na qual se desenvolveu a primeira escrita conhecida e que hoje é parte integrante do Iraque), há 4 mil anos: "0 adolescente considera tudo o que é mais antigo do que ele corno arcaico e obsoleto. Ao passo que tudo que é seu lhe parece novo e criativo, algo que sem dúvida dará certo. Essa praga só pensa em

sexo e contestação". (In: WUSTHOF, oberto. DescoR brir o sexo. São Paulo: Ática, 1999. p. 154.) Em todos os tempos, os jovens tendem a acompanhar e aceitar com mais facilidade do que os mais velhos as mudanças que ocorrem na sociedade. Esse fato faz com que eles se desentendam com a geração anterior. Tal situação configura urna crise de valores: os novos valores chocam-se com os já estabelecidos, criando tensão entre jovens e adultos.

GERAÇÃO PONTO COM
uando os jovens de hoje nasceram, nos anos o Brasil já tinha instalado um parque industrial grande e moderno e estava conectado por redes de comunicações e por sate1ites. Na década seguinte, essa modernidade se traduziu na entrada, na vida da classe média urbana, da mesma tecnologia disponível em países mais desenvolvidos. Para o adolescente das classes médias e abastadas, telefone celular, videogame, cartão eletrônico, videocassete e computador sempre fiZeram parte de sua realidade. O PC [computador] é um equipamento que acompanhou o jovem praticamente desde seu nascimento. Muitos foram alfabetizados digitando no teclado, Uma pesquisa conduzida com 2 098 adolescentes em sete capitais brasileiras mostra que mais da metade deles sabe usar o computador e que 49% o usam regularmente na escola. A raPidez com que novas formas de comunicação foram desenvolvidas, misturando texto, som e imagem, causou uma revolução nos hábitos e costumes. A geração nascida nos anos 1970 enfrentou o desafio de crescer nos centros urbanos sem a presença da mãe, inserida no mercado de trabalho, e com os olhos grudados na telinha da TV, em atitude passiva. Em tese, pouca coisa mudou: os jovens de hoje também passam boa parte do tempo sozinhos, sem a presença de adultos. A diferença é que o computador se transformou numa babá eletrônica mais interessante que a televisão. Com a internet, o centro do mundo dessa geração, o hábito do entretenimento eletrônico passou a ser interativo e nada solitário. O adolescente pode participar de um jogo virtual com um amigo conectado do outro
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lado do mundo ou se comunicar com a namorada via e-mail. A internei também serve para ajudar em trabalhos escolares, baixar a música da banda favorita ou entrar num chat de discussão sobre o filme do momento. [. ..] A raPidez e a destreza em localizar e selecionar informações são alguns dos trunfos dessa geração digital. Muitos educadores se preocupam com os efeitos que a comunicação eletrônica possa ter sobre os adolescentes. Notam entre muitos deles a dificuldade de ler textos discursivos ou de se concentrar por um tempo razoável numa única atividade, Aulas tradicionais, nas duais o professor fala e escreve com giz no quadro-negro, já não prendem a atenção dos alunos. "O adolescente está superexposto à informação e tem habilidade para processar várias coisas ao mesmo tempo ", diz o diretor de informática de uma escola particular de ensino médio da cidade de São Paulo, pioneira na utilização de métodos compuiacionais em sala de aula. "Mas tem dificuldade em se aprofundar em qualquer assunto", completa, Para compensar os excessos da linguagem eletrônica, algumas escolas têm aumentado a carga de leitura nos cursos e oferecido atividades complementares típicas da era pré-digital, como cursos de atividades manuais, Os alunos se dedicam a montar caixas e prismas para treinar a observação de objetos tridimensionais. É possível que muitos deles apanhem feio na hora de maniPular réguas, tesouras e papelão. Mas são imbatíveis com um mouse na mão,
Adaptado de: Veja Especial: Jovens, jul. 2003.

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CAPÍTULO6 Grupos sociais e interação

Osjovens como objeto da Sociologia
interesse acadêmico pela juventude corno categoria social específica tornou vulto a partir da década de 1960, quando começaram a surgir formas ousadas de manifestação cultural juvenil e o comportamento de grupos de jovens contestadores passou a contrastar abertamente com os padrões sociais estabelecidos. O conceito usual de juventude refere-se a urna faixa de idade que vai dos 14 aos 19 anos. Trata-se de um período da vida em que o jovem completa seu desenvolvimento físico e passa por importantes mudanças biológicas, psicológicas e sociais. Deixa de ser criança e dá início à sua entrada no mundo dos adultos. No Brasil, enquanto a geração de jovens adolescentes de 1990 foi numericamente superior em 1 milhão de pessoas à de 1980, a nova geração de adolescentes no ano 2000 já era 2,3 milhões superior à dos jovens de 1990. Seria preciso, então, oferecer a esses milhões de jovens educação e preparação profissional adequadas para facilitar seu ingresso no mercado de trabalho, criando para eles, ao mesmo tempo, formas de convivência e de participação na sociedade. Mas essa nova "onda de adolescentes" ocorre

o

em meio a urna crise econômica que já dura mais de vinte anos. Há, atualmente, no país, urna oferta insuficiente de postos de trabalho e urna enorme competição pelas poucas vagas existentes. Os dois fenômenos somados - escassez de emprego e aumento no número de jovens - criam urna situação socialmente explosiva. Nos últimos anos, a sociedade brasileira tem se mostrado incapaz de absorver os 2 milhões de jovens que entram todos os anos no mercado de trabalho. Nessas condições, milhares de jovens não conseguem sequer seu primeiro emprego. A intensificação do processo de globalização na última década reduziu drasticamente as oportunidades de trabalho para os jovens. Os jovens e os idosos poderão ser os grandes excluídos das sociedades societárias na era da globalização. De acordo com alguns economistas, urna parcela da juventude poderá passar até a vida inteira sem obter trabalho. Essa perspectiva pode levar o jovem a urna direção que ultrapasse o mero conflito de gerações. Assim, muitos jovens atualmente se revoltam contra outros grupos sociais, contra a sociedade e contra o sistema que os marginaliza.

PRE - REG

CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

Não se trata, agora, da utopia dos jovens rebeldes dos anos 1960, que queriam construir um novo mundo e reformar ou revolucionar a sociedade, mas de jovens que desejam ser incluídos nela. Essasociedade acena para uma vida repleta de bens materiais e de possibilidades de consumo quase ilimitadas, mas ao mesmo tempo nega a muitos jovens acesso a esses bens e possibilidades. Tudo isso gera ressentimento e respostas agressivas, levando jovens da periferia de grandes cidades a sentirem-se cada vez mais atraídos pela marginalidade e a ingressar no crime organizado ou em gangues de rua. Outro fenômeno é o de jovens de classe média que tendem a formar bandos e a agir com violência, espancando ou matando pessoas gratuitamente, ou ingressando em grupos neofascistas e racistas (veja o boxe a seguir).

No dia 23 de junho de 2007, cinco homens jovens de classe média atacaram a socos e pontapés uma empregada doméstica que esperava o ônibus para ir trabalhar, no Rio de Janeiro. Não foi um acontecimento isolado. Ataques assim têm ocorrido com frequência em cidades brasileiras. Um caso emblemático desse tipo de agressão gratuita ocorreu em Brasília em abril de 1997, quando cinco jovens de famílias ricas puseram fogo ao índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, que morreu em consequência das queimaduras. O texto a seguir analisa a agressão cometida no Rio de Janeiro.

Na madrugada do último sábado, a empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho, 32, foi assaltada e covardemente agredida, inclusive com pontapés na cabeça, num ponto de ônibus na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. O crime chamou a atenção prin-

cipalmente pelo perfil dos agressores: cinco jovens de classe média, sendo quatro universitários, entre eles um estudante de direito. O que faz pessoas que têm acesso à educação, saúde de qualidade e outros bens cometerem um crime com tamanha brutalidade? Para especialistas, a falta de limites impostos pelos pais e até a certeza da impunidade podem ser a resposta à pergunta. Luâovico Carvalho, pai de Rubens Arruda, um dos agressores, disse anteontem que considera o filho uma criança. "Eu queria dizer para a sociedade que nós, pais, não temos culpa disso. Eles cometeram erro? Cometeram. Mas não vai ser justo manter presas crianças que estão na faculdade, estão estudando, trabalham ", disse. Para especialistas, Carvalho. pode estar perpetuando a falta de limites, que provavelmente não soube impor ao filho. função
J~

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CAPÍTULO6 Grupos sociais e interação

Índios Pataxó fazem orações em torno de escultura erguida em Brasilia em homenagem à memória de Galdino Jesus, Pataxó queimado por jovens de classe média naquela cidade em abril de 1997. Brasilia, novembro de 2001.

do pai é orientar e limitar os excessos. Mas dessa forma, ele não está cumprindo a função dele. O filho tem que saber que não pode tudo, que tem direitos e deveres. Esse pai não está vendo o filho como um sujeito, uma pessoa, capaz de conviver e se encaminhar na vida social", analisou Maria José Salum, psicanalista e membro do Instituto da Criança e Adolescente (ICA) da Poniificia Universidade Católicade Minas Gerais (PUCMinas). Na avaliação da psicóloga Márcia Stengel, Carvalho acaba dizendo para o filho que, de uma certa forma, o que ele fez não é problemático e que ele é um sujeito sem responsabilidades. "Ele está destituindo a responsabilidade do filho pelos atos que cometeu ", afirmou. Para Maria José Salum, se o rapaz não encontrar punição na família, vai encontrar na lei.

Mas ainda não é certo que os jovens serão punidos pela lei. Para o desembargador Alexandre Victor de Carvalho, da 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e especialista em direito penal, a Constituição garante direitos iguais a todos os brasileiros, mas há razões práticas para que pessoas de classes mais altas fiquem menos tempo presas, o que leva à sensação de impunidade. Entre elas está a capacidade de se contratar um bom advogado. [Em 31 de janeiro de 2008, os jovens foram condenados a penas que variam de 6 a 7 anos de reclusão em regime semiaberto.]
GIUDICE, Patricia e BARBOSA, Lívio. Sem limites e certos da impunidade. O Tempo. www.otempo.com.br. 27 .6.07. Acesso: 11.10.07.

Pesquise e responda

Infelizmente é possível encontrar outros relatos de agressão de jovens de classe média contra pessoas pertencentes a grupos de baixa renda e a minorias étnicas, religiosas e sexuais, como índios, homossexuais, negros, judeus, etc. Se possível, colete dados sobre esses assuntos com seus alunos e organize um debate em sala de aula.

É nesse contexto que a juventude se revela como tema para a Sociologia. Não se trata mais de um jovem que está em permanente conflito de gerações. Trata-se de jovens que têm dificuldade de se integrar à sociedade globalizada, que estão se tornando mais violentos por se sentir socialmente excluídos e que participam de grupos tribais, como os punks, para não se sentirem solitários. Ao mesmo tempo, há jovens que não recebem li-

mites de seus pais, que já não têm ideais, que adotam uma atitude cínica diante da vida e que se acreditam acima da lei. Muitos destes últimos consomem drogas, entre as quais o álcool, abusam da velocidade ao dirigirem seus Carros (ou os de seus pais) e assumem comportamentos racistas, sexistas e homofóbicos. Alguns, como vimos, são capazes de ir até a agressão física e o assassinato de pessoas inocentes.

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CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

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Sistema de status e papéis sociais
Em uma empresa, o patrão tem direitos e deveres, além de privilégios, diferentes dos de seus empregados. Numa escola, os direitos e deveres do professor são diferentes dos de seus alunos. Todo indivíduo ocupa na sociedade em que vive posições sociais que lhe dão maior ou menor destaque, prestígio social e poder. A posição ocupada pelo indivíduo no grupo social ou na sociedade denomina-se status social. O status social implica direitos, deveres, manifestações de prestígio e até privilégios, conforme o valor social conferido a cada posição. Assim, os diretores de uma grande empresa gozam de certas regalias - altos rendimentos, carro à disposição, sala bem decorada, secretárias, tratamento cerimonioso por parte dos funcionários =, vantagens que os outros empregados não têm. Ou seja, o status dos diretores é mais elevado. Seus deveres e responsabilidades estão ligados a esse status. Para não perdê-lo, muitas vezes eles precisam tomar decisões difíceis a favor da empresa, como demitir funcionários ou cortar salários. Na sociedade, o individuo ocupa tantos status quantos são os grupos sociais a que pertence. Vejamos o exemplo de uma pessoa que é pai de família, ocupa o cargo de gerente de vendas de uma empresa, é sócio de um clube, frequenta a igreja de seu bairro e integra o diretório regional de um partido político. Essa pessoa tem um status no grupo familiar, outro no ocupacional, um terceiro no grupo de recreação, um status no grupo religioso e outro ainda no partido político. Dependendo da maneira pela qual o indivíduo obtém seu siatus, este pode ser classificado em: • status atribuído - não é escolhido voluntariamente pela pessoa e não depende de suas ações ou qualidades. Por exemplo, o status de "filho de operário" ou de "irmão caçula". Os principais fatores atribuidores de status são: idade, sexo, raça, laços de parentesco, classe social, etc.;

• status adquirido - obtido com base nas qualidades pessoais do indivíduo, na sua capacidade e habilidade. Os status que uma pessoa obtém ao longo da vida como resultado de competição e trabalho são status adquiridos, pois dependem de suas habilidades pessoais e supõem uma vitória sobre outros concorrentes e o reconhecimento de tal êxito pelo grupo social. Nas sociedades feudais da Idade Média, na Europa, os status eram quase exclusivamente atribuídos (uma pessoa era nobre porque sua família pertencia à nobreza). Já nas sociedades capitalistas modernas, predominam os status adquiridos. Um exemplo de sociedade em que ainda imperam os status atribuídos é a Índia, onde as pessoas já nascem dentro de uma categoria social -. a casta - e nela permanecem até a morte, sem possibilidade de mudança de status (sobre as castas, veja o capítulo 9). Na sociedade capitalista, que estimula a competição, os indivíduos geralmente buscam status mais elevados. Isso explica a insistência com que se procura "subir na vida". Quanto mais escassas as oportunidades para se conquistar determinado status, mais intensa é a competição entre os concorrentes em disputa por ele.

Papel social
Ao dar uma aula e exigir que os alunos prestem atenção, o professor está cumprindo os deveres e exercendo os direitos ligados a seu status social. Ou seja, está cumprindo seu papel social. Papéis sociais são os comportamentos que o grupo social espera de qualquer pessoa que ocupe certo status social. Corresponde mais precisamente às tarefas, às obrigações inerentes ao status. Por exemplo, de um médico se espera que atenda corretamente seus pacientes, que se preocupe com eles, que ouça suas queixas, que faça um diagnóstico preciso e que trate as enfermidades de modo competente. Caso não aja assim, não estará cumprindo o papel que seu status de médico determina e será, portanto, questionado pela sociedade. Status e papel social são coisas inseparáveis e só os distinguimos para fins de estudo. Não há status que não corresponda a um papel social, e vice-

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versa. Assim, no exemplo considerado, uma mesma pessoa desempenha simultaneamente diversos papéis na vida social, como os de pai de família, gerente de vendas da empresa em que trabalha, de sócio de seu clube, frequentador da igreja de seu bairro e integrante do diretório regional de seu partido político.

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I

Estrutura e organização social
soas que a constituem não estão desempenhando seus papéis habituais. Assim, enquanto a estrutura social dá ideia de algo estático, que simplesmente existe, a organização social dá ideia de algo dinâmico, em permanente movimento. A estrutura social se refere a uma totalidade composta de partes, enquanto a organização social se refere às relações que se estabelecem entre essas partes. Quanto mais complexa a sociedade, tanto maiores e mais complexas serão sua estrutura e sua organização social. Embora uma seja mais estática do que a outra, tanto a estrutura quanto a organização social são passíveis de mudanças. Elas podem passar, e passam com frequência, por processos de mudanças sociais. Exemplos disso já foram dados em diversas passagens deste capítulo e de outros, nas referências a mudanças de comportamento de década para década, como a do papel do homem que divide as tarefas domésticas com a mulher ou as mudanças de papel da mulher no decorrer do tempo.

Uma escola é formada por pessoas que estudam - os alunos - e por pessoas que trabalham - entre as quais o diretor, o coordenador pedagógico, os professores, o secretário e os serventes. Cada um desses individuos ocupa uma posição social, um status no grupo. Cada posição está relacionada com as demais, e todas elas, em conjunto, formam a estrutura social da escola. Desse exemplo, pode-se concluir que estrutura social é o conjunto ordenado de partes encadeadas que formam um todo. Dito de outro modo, a estrutura social é a totalidade dos status existentes num determinado grupo social ou numa sociedade. Cada participante de uma estrutura desempenha o papel correspondente à posição social que ocupa (status). O conjunto de todas as ações realizadas quando os membros de um grupo desempenham seus papéis sociais compõe a organização social. Esta corresponde, portanto, ao funcionamento do organismo social. Durante o período letivo, a organização da escola é bastante dinâmica. No período de férias baixa a níveis mínimos, pois quase todas as pes-

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CAPÍTULO Grupos sociais e interação 6

,..---e:
• •

Livros sugeridos -------------------,

VANEIGEM,Raoul. A arte de viver para as novas gerações. São Paulo: Conrad, 2002. NOVAES,Regina e VANNUCHI,Paulo. Juventude e sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004. RAMALHO,José Ricardo e SANTANA,Marco Aurélio. Sociologia do trabalho no mundo contemporâneo. Janeiro: Zahar, 2004 . Rio de

.----e: Filmes sugeridos
• • •

Juventude transviada, de Nicholas Ray, 1955. Jovens em conflito com os pais enfrentam uma realidade opressiva e
repressora nos Estados Unidos dos anos 1950.

Woodstock, de Michael Wadleigh, 1970. Sobre o festival hippie e pacifista de Woodstock (1969), do qual
participaram cerca de um milhão de jovens. do ABC paulista em 1979 e o papel do então lider

Peões, de Eduardo Coutinho, 2004. A greve dos metalúrgicos
sindical Luiz Inácio da Silva (Lula). Documentário.

O senhor da guerra, de Franklin Schaffner, 1965. Camponesa casa-se com servo, mas é obrigada a passar a noite de núpcias com o senhor feudal. Esse privilégio do senhor fazia parte de seu status de nobre e vigorava em algumas regiões da Europa medieval.

• • • •

Coração de cavaleiro, de Brian Helgeland, 2001. Na Idade Média, escudeiro de origem pobre se faz passar por nobre
para disputar um torneio como cavaleiro.

Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, 1975. A ascensão social de um jovem que, no século
nobre por meio do casamento.

xvm,

conquista o status de

Viva Zapata, de Elia Kazan, 1952. As lutas do lider camponês Emiliano Zapata durante a Revolução Mexicana de
1910-1917.

Norma Rae, de Martin Ritt, 1979. Em 1978, operários têxteis no interior dos EUA se organizam para lutar por
melhores condições de vida e de trabalho.

Para complementar o estudo do capítulo, assista a um ou mais dos filmes indicados e reflita sobre as seguintes questões:
• Que relações podem ser estabelecidas • Há referências, • Há referências entre o enredo do filme e os conceitos estudados neste capítulo? no filme, à noção de liderança? Quais são elas e onde aparecem no filme? ao conflito de gerações na vida em sociedade? Sob que formas ele se manifesta no filme?

• Há referências à questão do status social? Quais são elas e onde aparecem no filme?

Questões propostas

1.

Pense e responda: a. Grupo, multidão, público e massa. O que caracteriza cada um desses tipos de agrupamento social?

b. Quais são os principais mecanismos de sustentação dos grupos sociais?
c. O que torna inseparáveis o status que um indivíduo ocupa na sociedade e os papéis sociais que ele desempenha?

2.
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Relacione alguns dos grupos sociais a que você pertence.

CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

r------------ - -- -- - - --3. Tomando por base os contatos sociais, como 4. Comente uma participação sua em:
a. multidão;
b. público;

classificamos os grupos sociais?

c. massa.
dos

5. 6.

Como você explica a necessidade da existência de mecanismos de sustentação grupos sociais? Responda citando tais mecanismos. Dê seu ponto de vista sobre:

a. um valor social que você identifica corno necessário à vida em sociedade; b. um valor social que poderia ser superado nos tempos atuais.

7.

Escreva sobre alguns dos status sociais que você ocupa, se são atribuídos ou adquiridos e quais os papéis que você representa em cada um. Qual deles é o mais importante para você?

o líder carismático
popularizado por Max Weber, que primeiro o empregou com o sentido relativamente técnico que os historiadores das religiões lhe atribuem. O carisma é o encanto ou a graça que acompanha certos personagens sobre os ouais recaíram [na opinião de seus seguidores] o olhar e a escolha de Deus. [ ...] poder carismático identifica-se por seu caráter "extraordinário, sobre-humano, sobrenatural". Aquele que o possui é um "enviado de Deus", um herói - um "guerreiro furioso" - ou um chefe. O que caracteriza o chefe carismático não é tanto o conteúdo de sua missão, mas a maneira como ele a executa - seu estilo. Por isso, o fenômeno carismático só pode ser abordado adequadamente sem juízos de valor. Mesmo se, em nome de seus próprios valores, ou mesmo à luz de uma previsão bem fundamentada, o sociólogo é levado a condená-I o como criminoso ou absurdo, o projeto do chefe carismático deve ser compreendido como um tipo de ação original, com lógica própria [...]. Esse aspecto da noção de carisma, no qual Max Weber insiste, é atualmente quase sempre negligenciado. Ouve-se dizer com frequência que um indivíduo "simpático" ou

o termo carisma foi

o

"charmoso" - no sentido banal do termo tem carisma. Na linguagem corrente, carisma e popularidade são tratados como sinônimos. Ora, esses termos se distinguem um do outro por diferenças de significado, que convém manter. Assim, um indivíduo popular, simpático, ou "cujo rosto nos agrada" não é necessariamente alguém cujas convicções mais pessoais compartilhamos. Não nos sentimos inclinados a permitir que um indivíduo popular fixe por nós nossa linha de ação. Quase sempre, ele é popular porque não nos pede nada - o que não acontece absolutamente no caso do líder carismático, que, ao contrário, é um mestre muito exigente, como sugere de modo claro a injunção de Jesus ao jovem rico: "Vende todos os teus bens e segue-me". [...] Assim como não é redutível à popularidade, o carisma não pode ser reduzido à pura

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CAPÍTULO 6 Grupos sociais e interação

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sugestão. É verdade que frequentemente é associado a manifestações de entusiasmo, a cenas de transe, descritas por Gustave Le Bon em sua Psicologia das massas. Profetas, demagogos, "guerreiros furiosos" parecem tomar posse de seus auditórios, substituir as vontades de seus fiéis e de seus seguidores por suas próprias vontades. [...] No processo de confirmação que consagra o personagem carismático, o imaginário social é um recurso, não único, mas às vezes decisivo. Infalivelmente, o êxito em alguma medida milagroso fortalece o prestígio do líder carismático. Contribui para convencer os fiéis de que o projeto ao qual ele Ihes pede que se consagrem inteiramente não é uma quimera; de que, de certa maneira, seu Reino é desse mundo. O carisma pode ser definido como uma relação de poder fortemente assimétrica entre um guia inspirado e um grupo de seguidores que reconhece nele e em sua mensagem a promessa e a realização antecipada de uma nova ordem, a que aderem com convicção mais ou menos intensa. Para o líder carismático, a mensagem é uma missão. Essa mensagem não é apenas a descrição de uma ordem possível ou desejável. Ele próprio se compromete - eventualmente com fanatismo - a realizá-Ia. [...] A relação do líder carismático com seus fiéis não é absolutamente da mesma ordem da que une o líder democrático a seus eleitores. O líder democrático busca ser reconhecido por aqueles que o percebem como mais visível, mais requisitado, mais apreciado do que outros. O líder carismático, diferentemente do político popular, não vai buscar sua legitimidade na opinião favorável que os outros têm dele, mas na missão de que ele mesmo se investiu. O poder carismático é, portanto, um poder pessoal. Por isso parece muitas vezes arbitrário àqueles que escapam ou resistem a sua atração. Em relação a um líder cujo carisma não reconhecemos, tendemos a tomar uma atitude não indiferente, mas hostil ou desdenhosa. Nesse caso, para nós, ele é um impostor ou um leviano. Para autenticar seu apelo, o único recurso do líder é insistir no caráter radicalmente original de sua mensagem.
BOUDON, R. e BOURRICAUD, F.Dicionário crítico de sociologia. 2. ed. São Paulo: Ática, 2004. p. 48-50.

1-- ...• :

Pense e responda

Reflita sobre o conceito de carisma apresentado no texto e tente responder à seguinte pergunta: Que líderes carismáticos você destacaria no mundo atual?

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