Biografia Completa Freud

Sigmund Freud nasceu em 6 de maio de 1856, em Freiberg, na Morávia (hoje Pribor, na República Tcheca). Seu pai era comerciante e trabalhava com lãs. Quando os negócios fracassaram na Morávia, mudou-se com a família para Leipzig e, quando Sigmund Freud estava com quatro anos, para Viena, cidade em que Sigmund Freud permaneceu por quase 80 anos. Seu pai, 20 anos mais velho que a mãe, era severo e autoritário. Quando garoto, Sigmund Freud sentia ao mesmo tempo medo e amor pelo pai. A mãe era protetora e carinhosa; com ela, o jovem Sigmund Freud tinha uma ligação de paixão. Esse medo do pai e a atração sexual pela mãe foi que ele mais tarde chamou de complexo de Édipo. Grande parte de sua teoria possuía base autobiográfica, resultante das experiências e recordações da própria infância. A mãe de Sigmund Freud tinha imenso orgulho do primogênito, dedicando-lhe constantes atenção e apoio. Ela estava totalmente convencida de que ele teria um futuro grandioso. Entre as características da personalidade do Sigmund Freud adulto, notava-se autoconfiança, a ambição, o desejo de grandes realizações e o sonho com fama e glória. Ele disse ”Um homem que foi sem dúvida alguma o preferido da mãe mantém durante a vida o sentimento de um conquistador e a confiança no êxito que muitas vezes induz à concretização do sucesso”. Um dentre oito filhos, Sigmund Freud demonstrava considerável habilidade intelectual, que a família procurava incentivar. Seu quarto era o único provido de lamparina e óleo, que proporcionava melhor iluminação

para estudar do que as velas usadas pelos irmãos. Os pais não permitiam que os irmãos e as irmãs de Sigmund Freud tocassem instrumentos musicais, temendo que o som perturbasse o jovem estudante. Apesar desse tratamento especial, Sigmund Freud parecia ressentir-se dos irmãos.

Sigmund Freud ingressou no ensino médio um ano antes do usual e era considerado um aluno brilhante, formando-se com distinção aos 17 anos. Falava alemão e hebraico em casa e, na escola, estuda Latim, Grego, Francês e Inglês. Além disso, estudava sozinho Italiano e Espanhol. Exposto à teoria de Darwin, interessou-se pela visão científica do conhecimento, decidindo assim estudar medicina. Não se sentia inclinado à prática médica, no entanto acreditava que a formação em medicina o guiaria para a carreira da pesquisa científica.

Iniciou os estudos em 1873 na University of Vienna. Devido ao interesse em frenquentar cursos – como filosofia – que não faziam parte da grade curricular de medicina, levou oito anos para se formar. Especializouse em biologia, tendo dissecado mais de 400 enguias machos para determinar a estrutura dos testículos. Suas descobertas foram

inconclusivas, mas é interessante observar que sua primeira pesquisa já envolvia o sexo. Mudou para a fisiologia e realizou um trabalho sobre a espinha dorsal do peixe, passando seis anos debruçado sobre o microscópio no instituto fisiológico.

um dos colegas médicos de Sigmund Freud. Sigmund Freud publicou um trabalho falando sobre os benefícios da cocaína. esperava obter com essa descoberta o reconhecimento por que tanto ansiava. que durou até a década de 1920. depois de ouvir sem querer uma conversa em que ele falava da droga. pelo resto da vida. Sigmund Freud realizou experiências com cocaína. Carl koller. facilitando. pesquisa considerada desde então parcialmente responsável pela disseminação do uso da droga na Europa e nos Estados Unidos. conduziu a própria pesquisa e descobriu a possibilidade do uso da cocaína como anestésico para o olho humano. Ele próprio fez uso da droga e a fornecia para a noiva. Acreditava-se que Sigmund Freud parou de usar droga depois de terminar a escola de medicina. mas uma analise das suas cartas (dados históricos descobertos . Sigmund Freud foi muito criticado por defender o uso da cocaína para outros fins além da cirurgia ocular e por disseminar essa praga pelo mundo.Durante esses anos na universidade. assim. Convencido de haver encontrado na cocaína a droga milagrosa para a cura de todas as doenças desde a ciática até o enjôo. Ele tentou. apagar as lembranças do seu endosso ao uso da droga e omitiu da própria bibliografia as referências e essas publicações. o que não se concretizou. além de haver introduzido a substância na prática médica. os procedimentos cirúrgicos para o tratamento dos distúrbios oculares. que naquela época não era uma substância proibida. Ficou entusiasmado com o seu efeito e disse que a droga amenizava a sua depressão e a indigestão crônica de que sofria. as irmãs e os amigos.

Ele lhe escreveu. Recebeu o título de doutor em medicina em 1881 e começou a clinicar como neurologista.. dizendo: A partir de hoje. até mesmo dos familiares. 1985).. Não considerava a carreira nem um pouco mais interessante do que imaginava. o professor da escola de medicina e diretor do instituto fisiológico onde ele trabalhava. (.mais recentemente) revelou que ele teria usado a droga por pelo menos mais de 10 anos. decidiu realizar os exames de medicina e começar a atender pacientes particulares para melhorar suas condições financeiras. Sabendo que Brucke estava certo. Sigmund Freud e Martha Bernays ficaram noivos. Sigmund Freud tinha ciúmes de qualquer pessoa que chamasse a atenção ou despertasse o afeto de Martha. no entanto Ernst Brucke... mas adiaram várias vezes o casamento até finalmente terem condições de arcar com as despesas. Durante os quatro anos de noivado. mas o dinheiro falava mais alto. desencorajou-o por razões econômicas. você passa a ser visita para a sua família. (. tiveram de tomar um empréstimo e penhorar seus relógios.) Sim. mesmo assim. Sigmund Freud queria continuar a pesquisa científica em um laboratório acadêmico. até chegar à meia-idade (Masson.) Se não gosta tanto assim de mim para renunciar à sua família. Sigmund Freud era pobre demais para se sustentar e aguardar durante anos o surgimento de alguma rara posição acadêmica. Não deixarei você para ninguém. a . então deve me abandonar e arruinar a sua vida.

A. porque Martha não conseguia acompanhar o ritmo das longas caminhadas aos pontos turísticos. Penso que devo ao charuto um grande aumento da minha capacidade de trabalho e um melhor autocontrole.. não em razão de suas teses (etiológicas). como diria depois. onde teve uma acolhida glacial. primeiro cigarros. M. Traduz. Era o início de uma longa amizade e de uma soberba correspondência íntima e científica.. a hipnose e a sugestão. Em 1887. as obras deste último para o . Bernheim. aliás. Liébault e H. 1992. Erb. mas porque atribuía a Charcot a paternidade de noções que já eram conhecidas pelos médicos vienenses.minha personalidade é realmente tirânica. Fliess não conseguiria curar Sigmund Freud de sua paixão pelo fumo: “Comecei a fumar aos 24 anos. que no total foram seis. em Nancy. a eletroterapia de W. durante o verão de 1889. Saía de férias sozinho ou com a cunhada Minna.]. brilhante médico judeu berlinense. (apud Appignanesi e Forrester. e logo exclusivamente charutos [.” Sigmund Freud começa a utilizar os meios de que dispunha. 30-31). p. As longas horas de trabalho de Sigmund Freud impediram-no de passar muito tempo com esposa e filhos. Apesar de várias tentativas. um mês depois do nascimento de sua filha Mathilde (Hollitscher). que fazia amplas pesquisas sobre a fisiologia e a bissexualidade. No dia 15 de outubro Sigmund Freud fez uma conferência sobre a histeria masculina na Sociedade dos Médicos. escreveu em 1929. Sigmund Freud ficou conhecendo Wilhelm Fliess. As dificuldades encontradas levam-no a se ligar a A.H.

tão comum nos meios médicos vienenses da época. hidroterapia. Mrtin. aliviando os seus sofrimentos psíquicos. Como clínico. procurou. Oliver. A doutrina das “localizações cerebrais” era substituída pelo associacionismo. dos distúrbios de linguagem. Sophie Halberstadt. Mas logo constatou que esses tratamentos não tinham nenhum efeito. inspirando-se nos métodos de sugestão de Hippolyte Bernheim. que abria caminho para a definição de um “aparelho psíquico” tal como se encontraria na metapsicologia: ele faz sua primeira formulação em 1896 e . ante de tudo. Em setembro de 1891. na qual se baseava nas teorias de Hughlings Jackson para propor uma abordagem funcional. Sigmund Freud publicou uma monografia. e não mais apenas neurofisiológica. Anna) e de sua cunhada Minna Bernays. qualificadas como “doentes dos nervos” e sofrendo de distúrbios histéricos. cercado por seus seis filhos (Mathilde. a quem fez uma visita por ocasião do primeiro congresso internacional de hipnotismo. Encontra nelas a confirmação das reservas e decepções que ele próprio sentia por tais métodos. curar e tratar de suas pacientes. utilizou os métodos terapêuticos aceitos na época: massagens. Abandonando o niilismo terapêutico. Durante um ano. Sigmund Freud mudou-se para um apartamento situado no número 19 da rua Berggasse. tratava essencialmente de mulheres da burguesia vienense. que se realizou em Paris em 1889. Em 1891. eletroterpia. Ficou ali até seu exílio em 1938.alemão. Ernst. “Contribuição à concepção das afasias”. Assim começou a utilizar a hipnose.

para proteger o sujeito de uma representação “insuportável” ou “incompatível”. obra comum de Breuer e Sigmund Freud. as quatro seguintes devemse a Sigmund Freud. cinco observações de doentes: a primeira – de Anna O (Bertha Pappenheim) – é redigida por Breuer e é nela que se encontra a expressão tão feliz “Talking Cure”. já se encontra nele a idéia Sigmund Freudiana de defesa. de Sigmund Freud. A obra comporta. em 1893. consegue convencer seu amigo Breuer a escrever com ele uma obra sobre a histeria. como se a anatomia não existisse. A obra conclui com um texto teórico de Breuer e um outro sobre a psicoterapia da histeria. na “Revue neurologique”. que irá abrir caminho para “Estudos sobre a histeria”. Em “L‟ Hérédité et l‟Étiologie dês Névroses”. em 1896. são publicados em junho de 1895. Sigmund Freud de fato afirma: . Sigmund Freud afirma que “a histeria se comporta. No mesmo ano. proposta por Anna O. Seu trabalho em comum dará lugar à publicação. de “Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: comunicação preliminar”. em um texto intitulado “Algumas Considerações para um Estudo Comparativo das Paralisias Motoras Orgânicas e Histéricas”. Em 1890.estabelece seus fundamentos no capítulo VII da “Interpretação dos Sonhos”. além da Comunicação Preliminar. publicado em francês. Os “Estudos sobre a histeria”. nessas paralisias e outras manifestações. onde se pode ver o início do que irá separar os dois autores no ano seguinte. ou como se ela não tomasse disso nenhum conhecimento”. publicado em francês em “Archives neurologiques”.

No artigo. no final de 1895. em poucas semanas. sua última tentativa de apoiar a psicologia sobre os dados mais recentes da neurofisiologia. deve-se assinalar a redação. inventou o método da associação livre. que não dissimulava a . Como enfatizou Manès Sperber. e sua invenção foi atribuída a Breuer. Ao contrário de muitos intelectuais vienenses marcados pelo “ódio de si judeu”. Essa palavra foi empregada pela primeira vez em 1896. a etiologia específica da histeria”. é empregado pela primeira vez o termo “psicanálise”. é essa. pois. Sigmund Freud abandonou progressivamente a hipnose pela catarse. judeu infiel e incrédulo. Em 1897. o nome de Sigmund Freud foi proposto para receber o prestigioso título de professor extraordinário. Finalmente. Foi também durante esses anos que a reflexão de Sigmund Freud sobre a súbita interrupção feita for Breuer no tratamento de Anna O levou-o a conceber a transferência. Sua nomeação foi ratificada pelo imperador Francisco-José no dia 5 de março de 1902. no começo. hostil a todos os rituais e à religião. de “Projeto para uma Psicologia Científica” (Entwurf einer Psychologie).“Experiência de passividade sexual antes antes da puberdade. e enfim a psico-análise. nunca negaria sua judeidade. que Sigmund Freud nunca irá publicar e que constitui. com um relatório favorável de Nothnagel e de Richard von Krafft-Ebing. Sigmund Freud. ele continuaria sendo “um judeu consciente. Trabalhando ao lado de Breuer.

com dignidade e freqüentemente com orgulho. embora ela lhe causasse problemas e dificuldades suplementares. no qual é integrada a paranóia. onde crescera e à qual ficaria ligado. separando-a da categoria bastante heteróclita da neurastenia. ao contrário. a neurose obsessiva (alem. Sigmund Freud introduz na nosografia. Sua consciência da identidade judaica permaneceria assim. à qual não é indiferente. decorrente da sedução por um adulto.ninguém sua origem. constituído na infância. O sintoma é a conseqüência do recalcamento das representações insuportáveis que constituem esse núcleo. Isola. por laços indestrutíveis. Zwangsneurose) e propõe o conceito de psiconeurose de defesa. como se extrai um “corpo estranho” . alguma entidade nova. pela primeira vez. e o tratamento consiste em trazer a consciência os elementos. Sua posição doutrinária está centrada na teoria do núcleo patogênico. entretanto. Descreve a neurose de angústia. principalmente em sua vida profissional”. pois sua origem nunca foi para ele uma fonte de sentimentos de inferioridade. sendo a conseqüência do levantamento do recalque o desaparecimento do sintoma. Muitas vezes. proclamando-a. . Durante alguns dos anos que antecederam a publicação de “A interpretação de sonhos”. afirmou que detestava Viena e que se sentia como que libertado a cada vez que se afastava dessa cidade. por ocasião de um trauma sexual real.

Essa renúncia. de 14 de novembro de 1887: “Minha auto-análise continua sempre em projeto. Sigmund Freud comunicou-a a Fliesse em tom enfático.Fliess. termo que irá empregar por pouco tempo. ocorreu em 21 de setembro de 1897. Fanny Moser. Poder-se-ia pensar que tal acontecimento não foi . de outro modo não haveria mais doença”. Mathilde H. É porque não posso analisar a mim mesmo a não ser me servindo de conhecimentos adquiridos objetivamente (como para um estranho). e enfim o abandono da teoria da sedução segundo a qual toda neurose se explicaria por um trauma real. a publicação de um primeiro grande livro. para efetuar sua própria análise..” O encontro com Fliess remonta a 1887. no qual são relatadas várias histórias de mulheres (Bertha Pappenheim. Rosalie H.Porém. Anna von Lieben.. Uma verdadeira auto-análise é realmente impossível. agora compreendi o motivo. sua principal tarefa é a auto-análise. Eis o que diz sobre isto. Tudo se passa como se Sigmund Freud. ocorreram vários acontecimentos maiores na vida de Sigmund Freud: sua auto-análise. No âmbito de sua amizade com Fliess. Seu pai morreu em 23 de outubro de 1896. Elisabeth von R. na carta a W. sem antes se dar conta disso.). tivesse utilizado Fliess como intérprete. “Estudos sobre a histeria”. a partir de julho de 1895. Lucy. Sigmund Freud começa a analisar sistematicamente seus sonhos. um intercâmbio de caso (Emma Eckstein). fundamental para a história da psicanálise. em uma carta que se tornaria célebre: “Não acredito mais na minha Neurótica. Aurélia Öhm.

sentiram. sentimentos de amor para com minha mãe e de ciúme para com meu pai. um dia. Começou então a elaborar sua doutrina da fantasia. alimentando-se especialmente da obra de Shakespeare: “Uma idéia atravessou o meu espírito. de que o conflito edipiano encenado em „Édipo rei‟ de . “Cada ouvinte foi.mas a lenda grega percebeu uma compulsão que todos reconhecem. comuns a todas as crianças pequenas. Sigmund Freud era um grande leitor de literatura inglesa. o efeito percebido em „Édipo rei‟. Encontrei em mim. um Édipo.. como em todo lugar. acho eu. heróis e fundadores de religiões). concebendo em seguida uma nova teoria do sonho e do inconsciente . a seguinte primeira formulação esquemática: “Acorreu-me ao espírito uma única idéia. do qual se encontra. em germe. um ano mais tarde. apesar de todas as objeções racionais que se opõem à hipótese de uma fatalidade inexorável. sentimentos que são. em imaginação.. estremecendo conforme o tamanho do recalcamento que separa seu estado infantil de seu estado atual”. de valor geral. na carta a Fliess de 15 de outubro de 1897. centrada no recalcamento e no complexo de Édipo. pois todos a”. Se isso for assim. Seu interesse pela tragédia de Sófocles foi contemporâneo de sua paixão por Hamlet. transportado para a realidade. e espanta-se diante da realização de seu sonho. mesmo quando seu aparecimento não é tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas (de uma forma análoga à da romantização original nos paranóicos. escreveu a Fliess em 1897. pode-se compreender. Também se pode compreender por que todos os dramas mais recentes do destino deveriam acabar miseravelmente.estranho à descoberta do complexo de Édipo.

Aquilo com que estamos lidando é um texto. o sonho tem um sentido. em um pequeno castelo na floresta vienense: “Você acredita.” O postulado inicial introduz uma ruptura radical com todos os discursos anteriores. a incongruência dos sonhos não é um acidente de ordem mecânica. Da nova teoria do inconsciente nasceria um segundo grande livro. (escreveu a Fliess no dia 12 de julho de 1900). que esse sentido possa ser determinado sem a colaboração do sonhador. mas de um conjunto de elementos pertencentes ao próprio sonhador.” A ruptura definitiva com Fliess ocorrerá em 1902.Sófocles poderia estar também no cerne de Hamlet. mas o acesso a elas só pode ser . portanto. O absurdo. o ministério do sonho foi revelado ao doutor Sigmund Freud? Até agora. fazendo com que a descoberta do sentido oculto dependa das “associações” produzidas pelo sujeito. que um acontecimento real levou o poeta a escrever esse drama. em julho de 1895. que haverá um dia nesta casa uma placa de mármore com esta inscrição: Foi nesta casa que. sem dúvida. mas. o sonho é constituído principalmente de imagens. Não acredito em uma intenção consciente de Shakespeare. em 24 de julho de 1895. ocorrido quando Sigmund Freud estava em Bellevue. publicado em novembro de 1899. no qual é relatado o sonho da “Injeção de Irmã”. antes. esse sentido está escondido e não decorre das figuras utilizadas pelo sonho. tendo seu próprio inconsciente lhe permitido compreender o inconsciente do seu herói. Exclui-se. tenho pouca esperança. “A Interpretação dos Sonhos” (Die Traumdeutung).

que é preciso decifrar. O sonho é constituído como os “restos diurnos”. a condensação (um mesmo elemento representava vários pensamentos do sonho) e o deslocamento (um elemento do sonho é colocado no lugar de um pensamento latente). A posição de Sigmund Freud. Esse corte é radical e irredutível. aqui. por outro. A elaboração do sonho é feita por técnicas especiais. Sua natureza íntima nos é tão desconhecida como a realidade do mundo exterior. de uma forma camuflada. Mais do que a divisão em três instâncias. obedecendo a leis diferentes e separadas por uma fronteira que só pode ser ultrapassada em determinadas condições. por um lado. mas apenas “tendência à síntese”. que deve ser constituída pelo sujeito. pré-consciente e inconsciente. ao mesmo tempo em que protege o sono. O sentimento próprio ao eu da unidade que constitui nosso mental não é mais do que uma ilusão. que especifica o que se chama de primeira tópica. como Champollion fez com os hieróglifos egípcios. nunca poderá haver “síntese”. Resultam dessa concepção do sonho uma estrutura particular do aparelho psíquico. assegura. para descobrir seu “conteúdo latente”. que foi objeto do sétimo e último capítulo. e a consciência nos ensina sobre ela de uma . consciente-pré-consciente. uma certa “realização de desejo”.obtido pela narrativa do sonhador. estranhas ao pensamento consciente. Um aparelho desse tipo torna problemática a apreensão da realidade. O sonho. inconsciente. aos quais são transferidos os investimentos afetados pelas representações de desejo. é a mesma expressa no “Projeto”: “O inconsciente é o próprio psíquico e sua realidade essencial. convém conservar a idéia de uma divisão do psiquismo em dois tipos de instâncias. consciente. que constitui seu “conteúdo manifesto”.

tanto com motivos sexuais como a idéia de morte. aquilo que chamamos de “os limites do ato normal”. isto é. Esses fatos podem ser considerados como manifestações do inconsciente. em sua determinação.devem ter caráter de um distúrbio momentâneo. aos quais quase não se dá. os erros de leitura e escrita.maneira tão incompleta como nossos órgãos dos sentidos sobre o mundo exterior”. em 1901. os atos falhos. as “lembranças encobridoras”. Ela começa. análise já publicada por Sigmund Freud em 1898. e as conclusões concernentes ao sonho serão consideradas por ele como válidas para explicar os estados neuróticos. “A psicopatologia da vida cotidiana” (Zur Psychopathologie dês Alltagslebens) é publicado no ano seguinte. etc. Para Sigmund Freud. como os esquecimentos de palavras. 2. . nenhuma atenção. A obra reúne toda uma série de pequenos acidentes.não deve ultrapassar um certo limite fixado por nosso juízo. os equívocos. o de Signorelli. nas seguintes três condições: 1. o esquecimento associa. com um esquecimento de nome. o sonho se encontra em uma espécie de encruzilhada entre o normal e o patológico. por exemplo. via de regra.não podem ser caracterizados assim a não ser que os motivos nos escapem e que fiquemos reduzidos a invocar o “acaso” ou a “falta de atenção”. 3. os lapsos da palavra ou escrita.

a condensação e o deslocamento. não perderam toda a possibilidade de se manifestar e se exprimir”. embora recalcados pela consciência. O prazer que o espírito engendra está ligado à técnica e à tendência satisfeita. O terceiro texto. a saber. “O espírito reside apenas na expressão verbal”. porque suas teses eram difíceis de pôr em evidência.“Ao colocar os atos falhos na mesma categoria das manifestações das psiconeuroses. que não tem equivalente em francês. damos um sentido e uma base a duas afirmativas que ouve repetir com freqüência. enfim. “Os chistes e sua relação com o inconsciente” (Der Witz und seine Beziehung zum Unbewuften). com uma classificação complicada. não existe um limite claro e marcado (. Todos os fenômenos em questão. aquele no qual é realizada a intenção do espírito. Os mecanismos são os mesmos do sonho. Diante desse material logo e difícil. aquele que se diverte com a verve hostil ou sexual e. é publicado em 1905... sem nenhuma exceção. que entre o estado nervoso normal e o funcionamento nervoso anormal. que é a de produzir prazer”. “O espírito em geral precisa da intervenção de três personagens: aquele que faz a palavra. e é isso o que o distingue do cômico. Eis as principais. permitem que se chegue aos materiais psíquicos reprimidos incompletamente e que. hostil ou obscena. por aquilo que acaba de ser . Compreende-se então a dificuldade para traduzir a palavra alemã “Witz”. Sem dúvida. Porém. mas também a dificuldade de seu manejo em alemão. Finalmente: “Só é espirituoso aquilo que é aceito como tal”. alguns se perguntaram por que Sigmund Freud tinha julgado necessário acumular uma quantidade tão grande de exemplos.). um terceiro ocupa sobretudo nele um papel principal.

onde é afirmada e ilustrada a importância da sexualidade infantil e proposto um esquema da evolução da libido. por assim dizer. é definida como um “perverso polimorfo”. A especificidade do “Witz” explica a atenção que Sigmund Freud tem em distingui-lo do cômico. irão se suceder um grande número de textos referentes à técnica e. trocadilhos. “Fragmento da análise de um caso de histeria”: observação de uma paciente chamada Dora. distinção assim resumida: “O espírito é. por suas fases caracterizadas pela sucessiva dominância das zonas erógenas bucal. No mesmo ano. Entre estes últimos estão as “Cinco psicanálises”: Em 1905. anal e genital. e a neurose é situada como “o negativo da perversão”. apresentações de casos clínicos. a contribuição que lhe vem do domínio do inconsciente”. Em 1909. . Nesse texto a criança. “Análise de uma fobia em um menino de cinco anos” (o pequeno Hans): Sigmund Freud verifica a exatidão das “reconstituições” efetuadas no adulto.lembrado e pela diversidade dos exemplos utilizados. centrada em dois sonhos principais. etc. em relação à sexualidade. histórias engraçadas. Mais ou menos entre 1905 e 1918. cujo trabalho de interpretação ocupa sua maior parte. para o cômico. chistes. surgem os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie). para ilustra-la.

primeiro círculo da história do Sigmund Freudismo. “Notas sobre um caso de neurose obsessiva” (O Homem dos Ratos): a análise é dominada por um voto inconsciente de morte. ela forneceu uma exata ilustração da constituição do fantasma e do lugar da cena primitiva. “ainda mais” em um obsessivo. com Alfred Adler. fundou a Sociedade Psicológica das QuartasFeiras. ela demonstrou a importância dos motivos libidinais e a ausência de aspirações culturais. Isidor Sadger. na criança.Também em 1909. as descobertas feitas no estudo da histeria. muitas personalidades do mundo vienense se juntaram ao grupo: Paul Federn. de uma neurose perfeitamente constituída. Ela fornecia a prova da existência. Finalmente. Fritz Wittels. “História de uma neurose infantil” (O Homem dos Lobos): a observação foi para Sigmund Freud de particular importância. Em 1911. em 1918. nada mais sendo a do adulto do que uma exteriorização e repetição da neurose infantil. Otto Rank. seja ela aparente ou não. Wilhelm Stekel. contentando-se em trabalhar com as “Memórias” nas quais este descrevera sua doença. e Sigmund Freud se espanta ao verificar. Em 1902. Durante os anos que se seguiram. dando a elas um interesse científico. Max Kahane (1866-1923) e Rudolf Reitler (1865-1917). “Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia” (Dementia paranoides) (o presidente Schreber): a particularidade dessa análise se prende ao fato de que Sigmund Freud nunca encontrou o paciente. ao contrário de C. Foi durante essas reuniões que se elaborou a idéia de uma possível . Jung.

Depois de várias horas de conversa. médico-chefe da clínica do Hospital Burghölzli de Zurique. publicando uma fantasia literária: “Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1907)”. a doutrina Sigmund Freudiana se implantou em vários países: Grã-Bretanha. história. inventando ao mesmo tempo a noção de esquizofrenia.aplicação da psicanálise a todas as áreas do saber: literatura. com a adesão à psicanálise de Hanns Sachs. Em 1907 e 1908. Carl Gustav Jung. antropologia. etc. O próprio Sigmund Freud defendeu a noção de psicanálise aplicada. Abraham Arden Brill e Max Eitingon. Durante o primeiro quarto do século. . começou a aplicar o método psicanalítico ao tratamento das psicoses. Alemanha. Sandor Ferenczi. Hungria. aluno e assistente de Bleuler. Karl Abraham. ficou encantado com esse novo mestre. Uma nova “terra prometida” se abriu assim à doutrina Sigmund Freudiana: ela podia a partir de então investir o saber psiquiátrico e tentar dar uma solução para o enigma da loucura humana. foi a Viena para conhecer Sigmund Freud. Seria o primeiro discípulo não-judeu de Sigmund Freud. Na Suíça produziu-se um acontecimento maior na história do movimento psicanalítico : Eugen Bleuler. o círculo dos primeiros discípulos Sigmund Freudianos se ampliou ainda mais. Ernest Jones. No dia 3 de março de 1907. costa leste dos Estados Unidos.

Em 1933. a Sociedade Psicanalítica de Viena “Internationale Psychoanalytische Vereinigung” (IPV). a sigla alemã seria abandonada. desconfiaria do espírito pragmático e puritado desse país que acolhia suas idéias com entusiasmo ingênuo e desconcertante. Entre 1909 e 1913. Sigmund Freud não gostou do continente americano. criou com Ferenczi. a questão da transferência e da . Durante toda a vida. em Massachusetts. em 1910. do movimento. Às rivalidades narcísicas se acrescentaram críticas sobre a duração dos tratamentos. à Clark University de Worcester. a expansão do movimento se traduziu por dissidências. A partir de 1910. Sigmund Freud publicou mais duas obras: “Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância” (1910) e “Totem e tabu” (1912-1913). em Nuremberg. para dar cinco conferências. Sigmund Freud decidiu “desjudalizá-la”. pondo Jung à frente. como presidente. A IPV se tornaria então a Associação Internacional de Psicanálise “International Psychoanalytical Association” (IPA). Temendo o anti-semitismo e que a psicanálise fosse assimilada a uma “ciência-judaica”. que reuniu em Salzburgo em 1908 todas as sociedades locais. Depois de um primeiro congresso. que seriam reunidas sob o título de “Cinco lições de psicanálise”.Em 1909. em companhia de Jung e de Ferenczi. Apesar de um encontro produtivo com James Jackson Putnam e de um sucesso considerável. Sigmund Freud foi. tendo como motivo simultaneamente quer elas pessoais e questões teóricas e técnicas. uma associação internacional. a convite de Grandville Stanley Hall.

na experiência psicanalítica. em uma visão que chama de metapsicologia. a maior alteração decorreu da conceitualização do automatismo de repetição e do instinto de morte. “O estranho” (Das Unheimliche). Inicialmente. Sigmund Freud nunca deixou de tentar reunir. foi o conceito de narcisismo que foi objeto do grande artigo em 1914. o lugar da sexualidade e a definição da noção de inconsciente. Finalmente. em “Moisés e o monoteísmo” (1932-1938). que são o assunto de “Além do princípio de prazer” (Jenseits dês Lustprinzips. e retomada a partir de um exemplo particular. “A Negativa” (Die Verneinung. 1925) irá sublinhar a primazia da palavra. 1921). “Sobre o narcisismo: uma introdução”.contratransferência. devido ao polimorfismo da função paterna em sua obra. Porém. A teoria do eu e da identificação serão os temas centrais de “Psicologia de grupo e análise do ego” (Massenpsychologie umd Ich-Analyse. mas também para esboçar uma teoria do eu. as descobertas que sua técnica permitiu e as elaborações que nunca deixaram de acompanhar sua prática. está a questão do pai. publicado em 1919. em “Totem e tabu”. mesmo afirmando que . Ela constitui um dos pontos mais difíceis da doutrina de Sigmund Freud. refere-se especialmente à problemática da castração. ao mesmo tempo em que define um modo particular de presentificação do inconsciente. Mais tarde. necessária para levantar as dificuldades encontradas na análise de Schreber e tentar explicar as psicoses. tratada com uma excepcional amplidão. 1920).

considerado. isso. “O Homem dos Lobos”. o último texto. a introdução da segunda tópica. por volta de 1910. constituída pela três instâncias. nos remanejamentos tornados necessários devido ao desgaste dos termos (embora muitos outros motivos o justifiquem). As teses de “Além do princípio do prazer” permitirão a concepção de um masoquismo primário. as novas considerações sobre a angústia. que Sigmund Freud será levado a tornar equivalente. sintomas e ansiedade/angústia [Hemmung. Symptom und Angst]. Certos remanejamentos valem como correções de posições anteriores. no qual Sigmund Freud anuncia que. . como sinal de perigo (Inibições. em “O problema econômico do masoquismo” (1925). o que irá dizer. Este é o caso da teoria do fantasma que. inacabado. ao instinto de morte e ao sentimento de culpa irredutível e inexplicado. “A divisão do ego no processo de defesa (Die Ichspaltung im Abwehvorgang. pode-se classificar. revelado por certas análises. finalmente. eu e supereu (O ego e o id [Das Ich und das Es]. irá substituir a primeira teoria traumática da sedução precoce (Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância. apesar das aparências. Esse também foi o caso do masoquismo. 1907. 1918). Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. De forma sem dúvida arbitrária. 1911. 1923). como uma inversão do sadismo. num primeiro momento. 1938).esse esforço não deveria ser interpretado como uma tentativa de constituição de uma nova “visão do mundo” (Weltanschauung). 1926) e.

à luz da experiência psicanalítica. Isso ocorre. em “O mal-estar”.referindo-se à observação do artigo de 1927. aparentemente. publicado em 1927. com a questão do pai e a de Deus. São eles “O futuro de uma ilusão” (Die Zukunft einer Illusion). Na realidade. e “O mal-estar na civilização” (Das Unbehagen in der Kultur. . em “O Futuro”. as formulações nele propostas apresentem-se como um esboço de uma remodelagem de toda a economia de sua doutrina.” Na obra de Sigmund Freud. a maldade fundamental do ser humano e a constatação paradoxal de que quanto mais o sujeito satisfaz os imperativos morais. que examina a questão da religião. o ângulo escolhido para tratar de qualquer questão servelhe. 1929). dedicado ao problema da felicidade. mais este se mostra exigente. considerada pro Sigmund Freud inatingível. e às exigências exorbitantes da organização social ao sujeito humano. os do supereu. antes de tudo. trata-se da consideração de fenômenos sociais. E. sobre o fetichismo. De fato. para dar esclarecimentos ou indicações sobre aspectos importantes da experiência. de fato. como sempre acontece com Sigmund Freud. como seu corolário. dois textos possuem. também era então totalmente novo. um estatuto um tanto especial.

Entre 1919 e 1933. Isolado em Viena. “A história do movimento psicanalítico”. o fenômeno da dissidência deu lugar às cisões. com a responsabilidade de resolver todos os problemas técnicos relativos à formação dos psicanalistas. Sigmund Freud prosseguiu sua obra. aos quais distribuiu um anel de fidelidade. às vésperas da Primeira Guerra Mundial. . Não suportando desvios em relação à sua doutrina. no qual denunciou as traições de Jung e Adler. Dois anos depois. enquanto os austro-húngaros (Rank e Ferenczi) se interessavam mais pelas inovações técnicas. Longe de evitar as dissidências. um verdadeiro panfleto. criou um Comitê Secreto. A partir daí eram os grupos que se enfrentavam. Adler e Stekel se separaram do grupo Sigmund Freudiano. Uma nova dissidência marcou ainda a história desse primeiro Sigmund Freudismo: a de Wilhelm Reich. característica da transformação da psicanálise em um movimento de massa. sem conseguir controlar a política de seu movimento. composto de seus melhores paladinos. Apoiados por Jones.Em 1911. os berlinenses (Abraham e Eitingon) preconizava a ortodoxia institucional. a IPA se transformou em uma verdadeira máquina burocrática. Jung e Sigmund Freud romperam todas as suas relações. essa iniciativa levou a novas querelas. Depois. Por volta de 1930. Sigmund Freud publicou. mas célebre no mundo inteiro. não mais os discípulos ou os pioneiros em rivalidade com o mestre.

com o aparecimento das neuroses de guerra. sua principal rival no campo da psicanálise de crianças. Sigmund Freud manteve sua teoria da libido única e do falocentrismo. Anna Sigmund Freud. Esta não tardaria a tornar-se chefe de escola e opor-se a Melanie Klein. Sigmund Freud interveio de maneira magistral para demonstrar a superioridade da psicanálise sobre todos os outros métodos. e as numerosas atividades do instituto de Frankfurt em torno de Otto Fenichel e da “esquerda Sigmund Freudiana”. como provou a criação do Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI). Sigmund Freud foi então confrontado com seu velho rival Julius Wagner Jauregg. a discussão sobre o caráter traumático das afecções psíquicas foi relançada. Nesse aspecto. que se desenvolveu na IPA a partir de 1924 e que girava em torno da questão da sexualidade feminina. acusado de ter submetido soldados julgados simuladores a inúteis tratamentos elétricos.No fim da Primeira Guerra Mundial. mostrou o lugar cada vez mais importante das mulheres no movimento psicanalítico. sem com isso mostrar-se misógino. Enquanto os americanos afluíam a Viena para se formar no divã do mestre. Berlim se tornou a capital do Sigmund Freudismo. Nesse debate. No centro dessa polêmica. Com o desmoronamento do império austro-húngaro. Ligado em sua vida . a oposição entre a escola vienense. este analisava a própria filha.

a fim de melhor suportar a vida”. adotava todavia. Para postular a existência de uma pulsão de morte. centrada na dialética da vida e da morte e em uma acentuação da oposição entre o eu e o isso. no qual Sigmund Freud sublinhava a necessidade para o sujeito de “organizarse em vista da morte. em suas amizades com mulheres intelectuais. “O eu e o isso” (1923). quando da publicação de um artigo dedicado à questão do narcisismo. Nos anos 1920. se confrontava com a negação absoluta de sua identidade: a Áustria dessa . Dessa reformulação.particular a uma concepção burguesa da família patriarcal. moderna e igualitária. Por sua doutrina e por sua condição de terapeuta. Confirmou-se. já preocupada com a sua própria morte desde o fim do século. Ego Psychology. Self Psychology. Essa revisão da doutrina original se produziu em um momento em que a sociedade vienense. em 1915. Independentes. nasceriam as diferentes correntes do Sigmund Freudismo moderno: kleinismo. através das quais definiu sua segunda tópica e remanejou inteiramente sua teoria do inconsciente e do dualismo pulsional: “Mais-além do princípio do prazer” (1920). annaSigmund Freudismo. Sigmund Freud revalorizou duas figuras da mitologia grega: Eros e Tânatos. com a elaboração de uma metapsicologia e a publicação de um ensaio sobre a guerra e a morte. Esse movimento de reformulação conceitual já começara em 1914. lacanismo. “`Psicologia das massas e análise do eu” (1921). desempenhou um papel na emancipação feminina. uma atitude perfeitamente cortês. Sigmund Freud publicou três obras fundamentais.

escreveu Zweig. seu médico. já representara o trabalho da morte. Mas não abandonava seus interlocutores. Cada vez que eu o via. Felix Deutsch. como enfatizou Stefan Zweig. Sigmund Freud se indispôs com ele.].. do lado direito de seu palato. Nunca tive coragem de mostrá-lo a Sigmund Freud.” . Sigmund Freud foi obrigado a suportar uma prótese. e cada vez mais sublime à medida que se estendia. Hans Pichler. Era um combate terrível. em sua clarividência. Enquanto eu falava. Um dia. apenas “uma luz crepuscular”. a morte jogava mais distintamente sua sombra sobre seu rosto [.. da antiga monarquia imperial”. levei comigo Salvador Dali. ele tinha visivelmente dificuldade para falar [. pois Dali. Em um primeiro tempo. procedeu a uma intervenção radical: a ablação dos maxilares e da parte direita do palato. sob a supervisão de Max Schur. Sigmund Freud descobriu. ele desenhou um esboço. lhe ocultou a natureza maligna desse tumor. cirurgião vienense. que ele chamava de “monstro”. a meu ver o pintor mais talentoso da jovem geração. que devia ser logo extirpado.. Sua alma de aço tinha a ambição particular de provar a seus amigos que sua vontade era mais forte que os tormentos mesquinhos que o seu corpo lhe infligia [. no mapa da Europa. era. quando de uma de minhas últimas visitas. um pequeno tumor. Seis meses depois. “Com seu palato artificial. Trinta e uma operções seriam feitas posteriormente. uma “sombra cinzenta.]. Em fevereiro de 1923.]. difusa e sem vida...época.. que devotava a Sigmund Freud uma veneração extraordinária.

Cada vez mais pessimista quanto ao futuro da humanidade. em 1930. manteve uma crônica de seus encontros (Kürzeste Chronik. com “O mal-estar na cultura”. mas o mantinha afastado das questões do movimento psicanalítico. Crônica brevíssima). e foi Jones quem presidiu os destinos da IPA a partir de 1934. com Ferenczi.A doença não impedia Sigmund Freud de prosseguir com suas atividades. publicando “A questão da análise leiga”. obra na qual comparava a religião a uma neurose. tomou vigorosamente a defesa dos psicanalistas nãomédicos. entre 1921 e 1933. decidiu com . Sigmund Freud não hesitou em se dedicar. no dia seguinte ao incêndio do Reichstag. científica e médica. que seria publicada por Michael Molnar em Londres. Entre 1929 e 1939. a experiências ditas “ocultas”. deflagrou com seu amigo Oskar Pfister uma polêmica ao publicar “O futuro de uma ilusão”. escreveu Zweig. ele estava profundamente abalado. em 1992. mas o pensador não se surpreendia absolutamente com a espantosa irrupção da bestialidade. enfatizou que o desenvolvimento da cultura era sempre uma maneira de trabalhar contra a guerra. Apaixonado por telepatia. que iam contra a política jonesiana. questionava a capacidade das sociedades democráticas modernas de dominar as pulsões destrutivas que levam os homens à sua perda. Enfim. que visava dar à psicanálise uma base racional. Sigmund Freud não tinha nenhuma ilusão sobre a maneira como o nazismo tratava os judeus e a psicanálise: “Como homem verdadeiramente humano. Em 1926. No ano seguinte. em um intercâmbio com Albert Einstein (1879-1955). depois de um processo intentado contra Theodor Reik. Dois anos depois.” Entretanto. data na qual Max Eitingon foi obrigado a deixar a Alemanha.

Aos seus familiares. Graças à intervenção do diplomata americano William Bullitt (1891-1967) e a um resgate pago por Marie Bonaparte. Embora não aprovasse a política de “salvamento” da psicanálise. exterminadas em campos de concentração. Sigmund Freud pôde deixar Viena com sua família. instalou-se em uma bela casa em Maresfield Gardes 20. No começo do mês de setembro de 1939. no momento da invasão da Áustria pelas tropas alemãs. ao invés de recusar qualquer compromisso com Matthias Heinrich Göring. Mas em março de 1938. No momento de partir. cometeu o erro de privilegiar a luta contra os dissidentes (Reich e os adlerianos). o que teria levado à suspensão de todas as atividades psicanalíticas. decidindo recusar a política de Jones e não criar em Viena um instituto “arianizado” como o de Göring. escutava o rádio todos os dias. “Moisés e o monoteísmo”. Em Londres. preconizada por Jones.Eitingon manter a existência do BPI. redigiu sua última obra. futuro Sigmund Freud Museum. logo que Hitler chegou ao poder. que lhe perguntavam se aquela seria a última guerra. Richard Sterba agiu em sentido contrário. Ali. Nunca saberia do destino dado pelos nazistas às suas quatro irmãs. foi obrigado a assinar uma declaração na qual afirmava que nem ele nem seus próximos haviam sido importunados pelos funcionários do Partido Nacional-Socialista. em Berlim. Tomou-se então a decisão de dissolver a Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV) e transportá-la “para onde Sigmund Freud fosse morar”. .

” As cinzas de Sigmund Freud repousam no crematório de Golders Green. seus amigos. se ela achar que está bem. daquela época mortífera.” Depois. este livro fala de definhamento e de morte por inanição.” Em 21 de setembro. Anna quis adiar o instante fatal.” Iniciou então a leitura de “Peau de chagrin” de Honoré de Balzac (1799-1850): “É exatamente disso que preciso. Sigmund Freud morreu tranqüilamente: “Foi a sublime conclusão de uma vida sublime. às três horas da manhã. pegou a mão de Max Schur e lembrou o primeiro encontro dos dois: “Você prometeu não me abandonar quando chegasse a hora. Por três vezes.html . sabíamos que confiávamos à terra inglesa o que a nossa pátria tinha de melhor. Agora é só uma tortura sem sentido. Em 23 de setembro.com/Sigmund-Freud/biografia-de-sigmund-freud-parte-i/Todas-Paginas/TodasPaginas. uma morte memorável em meio à hecatombe. enterramos seu caixão. depois de dois dias de coma. vamos acabar com isso. ela deu a Sigmund Freud uma injeção de três centigramas de morfina.” Consultada.psicoloucos. disse. http://www. mas Schur insistiu e ela aceitou a decisão. E quando nós. escreveu Zweig.respondia: “Será minha última guerra. acrescentou: “Fale com Anna.

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