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AGRUPAMENTO VERTICAL DE ESCOLAS OESTE DA COLINA

ESCOLA EB23 FREI CAETANO BRANDÃO – ANO LECTIVO 2009/2010


EFA ESCOLAR B3 – LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO
A IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA E AS SUAS PERSONALIDADES

NOME _____________________________________ DATA __/__/__

GUERRA JUNQUEIRO (POETA: 1850 –


1923)
OS SIMPLES (extracto)
REGRESSO AO LAR

Ai, há quantos anos que eu parti chorando


deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...


Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh, a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida.
Canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago de amargura o coração desfeito...


Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho


pedrarias de astros, gemas de luar...

Ficha de Trabalho Nº17 – Prof. Teresa Paula Alves


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LC3B – Interpretar textos de carácter informativo-reflexivo, argumentativo e literário.
LC3D – Interpretar e produzir linguagem não verbal adequada a contextos diversificados, de
carácter restrito ou universal.
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado


(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas manso, muito manso...


tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!

PÁTRIA (extracto)
PORTUGAL

Maior do que nós, simples mortais, este gigante


foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
seu torrão dilatou, inóspito montado,
numa pátria... E que pátria! A mais formosa e linda
que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro;
hortas a rir; vergéis noivando em frutos de oiro;
trilos de rouxinóis; revoadas de andorinhas;
nos vinhedos, pombais: nos montes, ermidinhas;
gados nédios; colinas brancas olorosas;
cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas;
selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
de olivais; por nogais, frautas de pegureiros;
rios, noras gemendo, azenhas nas levadas;
eiras de sonho, grutas de génios e de fadas:
riso, abundância, amor, concórdia, Juventude:
e entre a harmonia virgiliana um povo rude,
um povo montanhês e heróico à beira-mar,
sob a graça de Deus a cantar e a lavrar!
Ficha de Trabalho Nº17 – Prof. Teresa Paula Alves
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LC3B – Interpretar textos de carácter informativo-reflexivo, argumentativo e literário.
LC3D – Interpretar e produzir linguagem não verbal adequada a contextos diversificados, de
carácter restrito ou universal.
Pátria feita lavrando e batalhando: aldeias
conchegadinhas sempre ao torreão de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
por muralhas, bastiões, barbacãs, fortalezas;
e, a dar fé, a dar vigor, a dar o alento,
grimpas de catedrais, zimbórios de convento,
campanários de igreja humilde, erguendo à luz,
num abraço infinito, os dois braços da cruz!
E ele, o herói imortal duma empresa tamanha,
em seu tuguriozinho alegre na montanha
simples vivia – paz grandiosa, augusta e mansa! -,
sob o burel o arnês, junto do arado a lança.
Ao pálido esplendor do ocaso na arribana,
di-lo-íeis, sentado à porta da choupana,
ermitão misterioso, extático vidente,
olhos no mar, a olhar sonambolicamente...
«Águas sem fim! Ondas sem fim! Que mundos novos
de estranhas plantas e animais, de estranhos povos,
ilhas verdes além... para além dessa bruma,
diademadas de aurora, embaladas de espuma!
Oh, quem fora, através de ventos e procelas,
numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas,
a demandar as ilhas de oiro fulgurantes,
onde sonham anões, onde vivem gigantes,
onde há topázios e esmeraldas a granel,
noites de Olimpo e beijos de âmbar e de mel!»
E cismava, e cismava... As nuvens eram frotas,
navegando em silêncio a paragens ignotas...
– «Ir com elas...Fugir...Fugir!...» Ûa manhã,
louco, machado em punho, a golpes de titã,
abateu, impiedoso, o roble familiar,
há mil anos guardando o colmo do seu lar.
Fez do tronco num dia uma barca veleira,
um anjo à proa, a cruz de Cristo na bandeira...
Manhã de heróis... levantou ferro... e, visionário,
sobre as águas de Deus foi cumprir seu fadário.
Multidões acudindo ululavam de espanto.
Velhos de barbas centenárias, rosto em pranto,
braços hirtos de dor, chamavam-no... Jamais!
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LC3D – Interpretar e produzir linguagem não verbal adequada a contextos diversificados, de
carácter restrito ou universal.
Não voltaria mais! Oh! Jamais! Nunca mais!
E a barquinha, galgando a vastidão imensa,
ia como encantada e levada suspensa
para a quimera astral, a músicas de Orfeus:
o seu rumo era a luz; seu piloto era Deus!
Anos depois, volvia à mesma praia enfim
uma galera de oiro e ébano e marfim,
atulhando, a estoirar, o profundo porão
diamantes de Golconda e rubins de Ceilão!

POESIAS DISPERSAS (extracto)


ADORAÇÃO

Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão


Em mim não é amor; filha, é adoração!
Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.
Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,
E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa
Em meus lábios, oh! Quando essa infinita graça
do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante
Eu sinto – virgem linda, inefável, radiante,
Envolta num clarão balsâmico da lua,
A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua!
Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa:
Além de bela és santa; além de estrela és rosa.
Bendito seja o deus, bendita a Providência
Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,
O deus que te criou, anjo, para eu te amar,
E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...

EM VIAGEM

Desde aquela dor tamanha


Do momento em que parti
Um só prazer me acompanha,
Filha, o de pensar em ti:

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LC3D – Interpretar e produzir linguagem não verbal adequada a contextos diversificados, de
carácter restrito ou universal.
Por sobre a negra paisagem
Do meu ermo coração
O luar branco da tua imagem
Veste um benigno clarão.

A tarde, no azul celeste,


Há uma estrela esmorecida,
Que é o beijo que tu me deste
Na hora da despedida.

Beijo tão longo e dolente,


Tão longo e cortado de ais,
Que o meu coração pressente
Que não te torno a ver mais.

Conto no céu estrelado


Lágrimas de oiro sem fim:
É o pranto que tens chorado,
De dia e noite, por mim...

Quando me deito na cama


E vou quase adormecido,
Oiço a tua voz que me chama,
Num suplicante gemido.

Num gemido tão suave,


Tão triste na noite escura,
Que é como uma queixa d'ave
Presa numa sepultura!...

Em sonho, às vezes, meu Deus,


Cuido que vou expirar,
Sem levar nos olhos meus
O teu derradeiro olhar.

E sem extremo conforto


Que eu ness'hora quero ter:
Beijar a fronte do morto
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Aquela que o fez viver.

E é esta ideia constante,


É esta ideia sombria
Que me eclipsa, a todo o instante
O sol da alma, a alegria.

Partir!... Partir-se a cadeia


Da vida, Senhor, senhor!
Quando o azul doirado arqueia
Bênçãos ao meu sonho em flor!...

Morrer amanhã talvez!


Morrer!... Endoideço, quando
Me lembra a tua viuvez,
Entre dois berços chorando!..

Morrer, entregar à treva,


Aos vermes e às podridões
O meu coração, que leva
Dentro mais três corações!

É duro, é cruel... No entanto,


Antes da hora final,
Eu quero dizer-te o quanto
Te amei, lírio virginal!

Eu vinha de longe, exangue,


A alma despedaçada,
deixando um rastro de sangue
Nas urzes da minha estrada.

Brancas ilusões mimosas,


Vastas quimeras febris,
Abelhas doirando rosas,
Águias c'roando alcantis.

Oh, desse mundo risonho


Havia apenas ficando
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A bruma vaga dum sonho
Que a gente sonha acordado...
.......................
Nessa tremenda ansiedade
É que tu verteste, flor,
A tua imensa piedade
Na minha infinita dor!...

Eu era a sombra funesta


E tu o clarão doirado;
Juntámo-nos, que é que resta?
Um céu de Maio estrelado.

Quando vais serena e calma,


Linda, inefável, como és,
Vou pondo sempre a minha alma
No sítio onde pões os pés.

Corre o mundo, (o mundo é estreito)


Podes mil mundos correr,
Que hás-de calcar o meu peito
sempre por ti a bater.

......................
Meus sofrimentos partilhas
E meus regozijos vãos:
Minhas dores são tuas filhas;
Meus cuidados teus irmãos.

Não Há dif'rença nenhuma


Em nossas almas, eu creio
Que foram feitas só duma
Que Deus dividiu ao meio.

Por isso penso há dois meses,


Desde a hora em que parti,
Que morreria cem vezes
Morrendo longe de ti:

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LC3B – Interpretar textos de carácter informativo-reflexivo, argumentativo e literário.
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carácter restrito ou universal.
Mas ai! se assim fosse, quando
Me sepultassem, então
Estalariam chorando
As tábuas do meu caixão.

E do meu peito gelado,


Na terra do cemitério,
Brotaria ensanguentado
Um lírio roxo, funéreo.

Um lírio estranho, imprevisto,


Feito pela minha dor
Das cinco chagas de Cristo
Reunidas numa só flor...

E a estrela, d'alva inocente,


Cheia de dó tombaria,
Lagrimosissimamente
Na urna da Flor sombria!...

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