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Curso de Tecnologia em Sistemas de Informação TDP – Técnicas de Desenvolvimento de Projetos de

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TDP – Técnicas de Desenvolvimento de Projetos de Sistemas

Técnicas de Levantamento de Dados – Observação

Introdução A observação é uma técnica de levantamento de dados aparentemente bastante simples mas, como veremos, não é de fácil aplicação. É próprio do ser humano fazer observações – é o seu método básico para colher informações, como explica ALVAREZ (1991:560). Todos observam, sempre. Mas ao fazermos observação no nosso dia-a-dia não somos muito eficientes:

prestamos atenção em algumas coisas e não em outras, percebemos objetos, movimentos e pessoas de forma diferente, enfim, somos bastante inexatos ao realizar este processo. Segundo a autora, a observação pode ser enganosa e ilusória; julgamentos e pré-conceitos podem deturpar a experiência; as sugestões, opiniões podem enganar nossos sentidos. Por estes motivos todos é necessário treinamento cuidadoso para observar e processos sistemáticos para a verificação da qualidade da observação. Não há muitas referências na literatura de Sistemas de Informação relativas a esta técnica, mas encontramos algumas orientações no campo das Técnicas de Pesquisa Científica que poderão nos ser muito úteis. A observação é uma técnica que deve ser sistematicamente planejada, registrada e ligada ao contexto de levantamento que está sendo realizado. Sem estes cuidados, pode resultar apenas em um conjunto de curiosidades interessantes, mas que pouco agregam ao conhecimento do observador. Longe de ser irrelevante, segundo ALVAREZ (1991:560), a observação é o “único instrumento de pesquisa e coleta de dados que permite informar o que ocorre de verdade, na situação real, de fato.” Muitas vezes, a observação é usada como critério para verificar a veracidade das informações obtidas através de outras técnicas, tais como entrevistas, por exemplo. Neste sentido, ela tem sido um importante instrumento de trabalho para verificação da conformidade da prática das empresas às descrições feitas acerca de seus processos (GOULART, 2003:1).

feitas acerca de seus processos (GOULART, 2003:1). Apostila Observação - pág. 1/8 - Prof. Fernando Carvalho

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Há diversas formas como a observação pode ser usada. Às vezes ela é usada de maneira exploratória, para se conseguir indicações que mais tarde serão verificadas através de outras técnicas. Em algumas situações ela é usada para obtenção de dados suplementares ou que possam auxiliar na interpretação de resultados obtidos por outros meios. Pode ser usada também como sistemática básica de coleta de dados quando se deseja uma descrição exata de situações ou a verificação de hipóteses sobre as causas de problemas. O grau de estruturação e de participação tendem a variar conforme o objetivo do levantamento. Em estudos exploratórios, a observação tende a ser não-estruturada e o observador tende mais a participar na atividade do grupo observado. Já num estudo focalizado na descrição exata de uma situação isto não acontecerá. Conforme o grau de estruturação que recebe a observação, ela pode ser chamada de Sistemática e Assistemática. As principais questões a serem enfrentadas na preparação de uma coleta de dados através de observação são:

O que deve ser observado?

Como registrar as observações?

Que processos devem ser usados para tentar garantir a exatidão da observação?

Que relação deve existir entre o observador e o observado e como estabelecê-la?

Tipos de Observação Há várias tipologias aplicáveis à técnica da observação. Segundo ANDER-EGG (1978:96) elas podem ser feitas de acordo com algumas variáveis chave:

Segundo os meios utilizados: observação não estruturada (assistemática) e observação estruturada (sistemática). Segundo a participação do observador: observação não participante e participante.

Segundo o número de observadores: individual e em equipe. Segundo o lugar onde se realiza: efetuada na vida real (trabalho de campo) e efetuada em laboratório.

1. Observação Assistemática

Também conhecida por observação participante – o observador participa do grupo observado e atua com um papel dentro do mesmo.

1.1. Conteúdo da observação

Observar TUDO pode ser desejável para os pesquisadores mais afoitos mas é um objetivo inatingível. Não devemos esperar, por mais competente que seja a equipe de levantamento,

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que ela consiga um registro completo, mesmo de coisas aparentemente simples. É impossível registrar todos os pormenores. Daí surge a primeira dificuldade do observador: o problema da

seleção do que observar e registrar. Nos estudos exploratórios, o conhecimento do observador tende a aumentar ao longo da observação, permitindo-lhe identificar quais os dados mais significativos. O observador inicia o processo de levantamento sem saber quais aspectos dos fatos se tornarão mais importantes, esta compreensão vai crescendo aos poucos. Na observação assistemática, a mudança de foco da observação não só é inevitável como desejável.

1.2. Lista de verificação.

1.2.1. Participantes: quem são, como estão ligados entre si, quantos são, idade, sexo, função oficial na empresa, como se relacionam, quais estruturas ou agrupamentos existem, “panelinhas”, pessoas isoladas etc.

1.2.2. Situação: sua aparência, que tipos de comportamento estimula, permite, desestimula, impede, comportamentos esperados, inesperados, aprovados, condenados, conformistas, divergentes etc.

1.2.3. Objetivo: função básica, processo, forma, como é que os participantes reagem ao objetivo oficial, aceitam, rejeitam, quais outros objetivos podem estar sendo buscados, são compatíveis ou antagônicos.

1.2.4. Comportamento: qual o estímulo ou acontecimento inicial, qual seu objetivo aparente, qual a direção, qual a atividade provocada, qualificação (intensidade, persistência, estranheza, adequação, duração, afetividade, maneirismos), quais seus efeitos.

1.2.5. Freqüência: quando a situação ocorreu, quanto tempo durou, repete-se ou foi caso único, o que a pessoa provoca, até que ponto a ocasião é típica.

Cada item acima deve ser usado quando aplicável à situação.

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1.3. Registros

Quando tomar notas? Como fazê-lo? Estas são as duas principais questões relativas ao registro da observação. Sem dúvida, o melhor momento para tomar notas é durante o desenrolar dos acontecimentos. Desta forma teremos menos problemas em lembrar o que foi

observado e evitaremos o viés seletivo que pode ocorrer pela influência de outros fatores sobre

a nossa percepção. No entanto, há situações em que é impossível fazer isso pois atrapalharia

naturalidade da situação ou despertaria a desconfiança das pessoas (no caso do observador ser um participante). Quando não é possível uma anotação imediata e minuciosa, deve-se fazê-

a

uma anotação imediata e minuciosa, deve-se fazê- a lo assim que for possível a fim de

lo assim que for possível a fim de não sobrecarregar a memória do observador.

Nestes casos, procure anotar, de forma imperceptível, palavras-chave numa pequena folha de papel ou outro material qualquer que não chame a atenção.

Se precisar fazer anotações mais extensas, afaste-se do ambiente observado (vá ao banheiro, por exemplo).

1.4. Exatidão

Com o passar do tempo, o observador desenvolve sua capacidade para lembrar e pode chegar a pensar que é capaz de registrar, quase literalmente, partes significativas de

conversas. Os riscos do viés e do ponto cego sempre existirão, portanto o observador deve prevenir-se contra problemas de inferências ou interpretações que distorçam o registro do que realmente foi observado. Não se deve esquecer também da objetividade e imparcialidade. Quando o observador participa do grupo isto se torna ainda mais problemático, pois ele desenvolve relações amistosas com algumas pessoas do grupo que está estudando.

1.5. Relação Observador x Observado

Antes de aproximar-se do grupo observado, o observador deve decidir se revelará que é um observador ou se trabalhará sob disfarce. Geralmente, parece preferível que o observador diga que está fazendo uma coleta de dados – não é prudente nem fácil disfarçar o tempo todo. Um exemplo deste envolvimento é a pesquisa do psicólogo Fernando Braga da Costa, que durante vários anos trabalhou disfarçado de gari no campus da Cidade Universitária a fim de realizar sua interessante pesquisa sobre a invisibilidade pública (GUTIERRES: 2003).

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2. Observação Sistemática Este tipo de observação é mais usado quando é necessário fazer uma descrição

estruturada de uma tarefa ou verificar hipóteses de causas para determinados fenômenos. A principal diferença em relação à observação assistemática é aqui o observador sabe quais aspectos da atividade do grupo são importantes para o objetivo da pesquisa, criando um roteiro específico antes do início do levantamento de dados. No campo da Administração, um grande usuário deste tipo de observação foi Frederick Winslow Taylor (1878-1915), tendo gerado conclusões importantes e até hoje citadas no estudo da Teoria Administrativa.

2.1. Conteúdo da observação

Neste tipo de observação há muito menos liberdade de escolha do conteúdo. O observador deve definir antecipadamente as categorias a serem avaliadas, como por exemplo:

Comunicação: formas, freqüência, intensidade.

Avaliação ou processo de feedback.

Controle: formas e maneira como é realizado.

Decisões: seus níveis e respectiva adequação.

Tensão ambiental: existência e formas de redução.

Pode-se verificar, através desta observação, os diferentes tipos de reações das pessoas aos fatos: positivas, negativas, tentativas e questionamento. O tempo de observação pode variar de alguns poucos minutos a várias horas, dependendo do tipo de fenômeno que se observa.

2.2. Registros

Sugere-se usar o recurso mais simples, rápido e econômico. A forma mais freqüente é usar uma prancheta tamanho ofício, montar mapas e quadros com a lista de variáveis, suas graduações que o observador vai assinalando no decorrer da observação. O esquema formal de anotação dos dados é importante para a quantificação e análise posterior dos resultados do levantamento. Sempre é necessário definir antes do início da observação o que se deseja observar e para que finalidade – isto dará maior eficácia ao processo.

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2.3. Exatidão

Além dos aspectos já citados, há outros itens que podem influenciar o nível de exatidão na pesquisa. Um deles é a definição objetiva das variáveis a observar. Por exemplo, pessoas diferentes provavelmente terão uma definição muito diferente sobre o que seja “ambiente agradável” – neste caso seria melhor substituir o termo por aspectos mais objetivos de observação, tais como: freqüência com que as pessoas se cumprimentam, quantidade de vezes que colegas conversam sobre outros assuntos etc.

Outro fator importante é que o observador deve isentar-se em relação às suas próprias crenças e julgamentos. Se ele acredita numa coisa ao observar, é grande o risco de interpretar as variáveis conforme seu ponto de vista particular. O autopoliciamento é necessário para que o observador conduza uma investigação mais equilibrada.

2.4. Relação Observador x Observado

A não ser que esteja oculto atrás de uma tela de visão unilateral, ou diante de um monitor de vídeo de circuito interno fechado, e que sua presença seja ocultada do grupo, o observador não-participante enfrenta os mesmos problemas do outro tipo ao estabelecer relacionamento com as pessoas que observa. Só o fato do grupo saber que está sendo observado já pode inserir alguma distorção em seu comportamento natural.

inserir alguma distorção em seu comportamento natural. 2.5. Local da observação Normalmente as observações são

2.5. Local da observação

Normalmente as observações são feitas no ambiente real – o local onde os eventos ocorrem são o melhor local para que sejam observados. No entanto, a observação também pode ser feita em laboratório. Para MARCONI & LAKATOS (2006:92), há algumas condições melhor controláveis nesta situação:

“A observação em laboratório é aquela que tenta descobrir a ação e a conduta que tiveram lugar em condições cuidadosamente dispostas e controladas. Entretanto, muitos aspectos importantes da vida humana não podem ser observados sob condições idealizadas no laboratório. A observação em laboratório tem, até certo ponto, um caráter artificial, mas é importante estabelecer condições o mais próximo possível do natural, que não sofram influências indevidas pela presença do observador ou por seus aparelhos de medição e registro.”

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3. Avaliação da técnica de observação

3.1. Vantagens:

Permite o registro do comportamento, tal como este ocorre.

Não depende da capacidade ou facilidade de verbalização do sujeito pesquisado.

Não depende da disposição da pessoa para fazê-lo.

Permite estudar uma gama muito diversificada de fatores.

Proporciona a demonstração clara da riqueza de inter-relações entre as pessoas do grupo.

Localização exata de pontos críticos e “gargalos”.

3.2. Desvantagens:

É impossível predizer a ocorrência espontânea de um acontecimento com a exatidão suficiente para permitir que o observador esteja a postos para observá-lo.

A possibilidade prática de aplicação de técnicas de observação é limitada pela duração dos acontecimentos.

Alguns acontecimentos que as pessoas podem descrever, e estão dispostas a fazê-lo, raramente são acessíveis à observação direta.

Fatores imprevisíveis que interferem na observação.

4. Resumo

Técnica

Definição básica

Indicação

 

Restrições

 

Observação Assistemática

Observador participante ou não-participante ativo, conhecido ou não, é colocado dentro de um determinado ambiente para coleta de dados.

Coleta

de

dados

Difícil registro, consome muito tempo, difícil tabulação, não têm padrões de comparação, envolvimento emocional, perda da objetividade, não pode estar presente em todas as situações.

quantitativos, necessidade

de

conhecimento

ambiental,

níveis

e

práticas

de

liderança,

relações

interpessoais,

 

grupos

e

“panelinhas”,

detecção

de

forças

atuantes no ambiente.

 

Observação Sistemática

Coleta de dados in loco, por pessoa não envolvida no trabalho.

Dados quantitativos, uso de tempo, níveis de cooperação, competição, facilidade de mudanças

Difícil

estabelecer

ocorrência

dos

fatos,

limitado

pelo

tempo

de

 

duração

dos

fatos,

não

nos

parâmetros,

permite

registro

de

verificação

 

de

observação

de

alguns

informações coletadas

atos.

nas entrevistas.

 

Tabela 1 – Quadro-resumo das técnicas de observação Fonte: ALVAREZ (1991:570)

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Referências bibliográficas

1. ANDER-EGG, Ezequiel. Introducción a las técnicas de investigación social: para trabajadores sociales. 7. ed. Buenos Aires: Humanitas, 1978, Terceira Parte APUD MARCONI, Marina de Andrade & LAKATOS, Eva Maria. Técnicas de Pesquisa:

planejamento e execução de pesquisa, elaboração, análise e interpretação de dados. São Paulo: Atlas, 2006.

2. ALVAREZ, Maria Esmeralda Ballestero. Organização, Sistemas e Métodos. São Paulo:

McGraw Hill, 1991, v. 1 e 2

3. GUTIERRES, Marcelo. "Invisibilidade pública" transforma pessoas em objetos. In:

http://www.usp.br/agen/repgs/2003/pags/036.htm em 19/08/06.

4. GOULART, André Moura Cintra. Contribuição da Teoria da Observação à prática da Auditoria in Anais do 3o. Congresso USP de Controladoria e Contabilidade. São Paulo:

2003 disponível em http://www.eac.fea.usp.br/congressousp/congresso3/trabalhos/15.pdf

5. MARCONI, Marina de Andrade & LAKATOS, Eva Maria. Técnicas de Pesquis:

planejamento e execução de pesquisa, elaboração, análise e interpretação de dados. São Paulo: Atlas, 2006.

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