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Manuel J. Gandra

BESTIÁRIO

simbólico e de virtude da Tradição portuguesa

ENTIDADES ATMOSFÉRICAS

1. VENTOS

Manuel J. Gandra BESTIÁRIO simbólico e de virtude da Tradição portuguesa ENTIDADES ATMOSFÉRICAS 1. VENTOS

Manuel J. Gandra

BESTIÁRIO

simbólico e de virtude da Tradição portuguesa

ENTIDADES ATMOSFÉRICAS

1. VENTOS

Mafra, 2013

Desta 1ª edição fizeram-se duas tiragens:

uma normal de 102 exemplares e outra, especialíssima, de XVII exemplares, dedicados ad personam, todos assinados pelo autor.

Manuel J. Gandra © Mafra, Abril de 2013 O conteúdo do presente panfleto, do qual se tiraram 102 exemplares, não pode ser reproduzido, sem a prévia autorização por escrito do autor.

www.cesdies.net E-mail: manueljgandra@gmail.com Tel.: 963075514

Na Bíblia o vento é identificado com o sopro ou hálito de Deus. Já os dicionários consignam-no enquanto corrente de ar, mais ou menos rápida, causada, principalmente, pelas diferenças de temperatura (e, portanto, de pressão) nas várias regiões da atmosfera. De facto, o ar mais quente tende sempre a ocupar o lugar do frio. Não obstante ser incolor e invisível, os artistas figuraram-no, no decurso dos tempos, consoante lhes ditava a sua imaginação, detentor de personalidade e fisionomia próprias, ora como “bom bailador”, ora enquanto “roubador maioral”. Entre os gregos, tão preocupados com a “figura dos ventos” que chegaram a conceber a Torre dos Ventos (ou Horologion), edifício de planta octogonal, sito na ágora de Atenas, com o propósito de o calcularem e medirem, o número de ventos passou de dois para quatro; depois para oito, ca. 850 a. C., e de 12 para 24, ca. 100 a. C.

para oito, ca. 850 a. C., e de 12 para 24, ca. 100 a. C. Figura
para oito, ca. 850 a. C., e de 12 para 24, ca. 100 a. C. Figura

Figura dos ventos: Vitrúvio e Reportório dos Tempos

No século XIV, no Atlântico, consideravam-se 16 ventos: N = tramontano; NE = grego; E = levante; SE = siroco; S =meio-dia; SW = africano; W = poente e NW = mestre; os pontos intermédios (NNE,

ENE, ESSE, SSE, SSW, WSW, WNW, NNW) correspondiam a ventos intermediários. No tempo do Infante Dom Henrique, eram 32 as quartas (N = uma quarta a NE, etc.). Por seu turno, os repertórios quinhentistas nem sempre consideraram esses 32 ventos limitando-se a mencionar apenas doze que marcavam sobre uma coroa circular dividida em doze partes iguais. Os “ventos dos marinheiros”, aos quais faz referência o Reper- tório dos Tempos de Valentim Fernandes, ainda hoje conservam os respectivos nomes. Gil Vicente menciona muitos deles nas Cortes de Júpiter (II, 401; CLXVI) e no Auto da Índia (III, 39; CXCVIIv), por exemplo.

e no Auto da Índia (III, 39; CXCVIIv), por exemplo. Por seu turno, Leite de Vasconcelos

Por seu turno, Leite de Vasconcelos agrupa a nomenclatura dos ventos em quatro categorias, consoante a respectiva origem:

1. nomes ligados às qualidades do vento;

2. nomes relativos aos pontos cardiais;

3. nomes tirados das

localidades ou lugares de cujo lado

sopram;

4.

nomes de significação vaga (cf. Opúsculos, v. 3, p. 482).

As referências ao vento abundam na mitologia, na religião, na

filosofia, na história, na literatura, etc., porém, jamais com o colorido e

a magia encantatória que lhe empresta o imaginário tradicional. No Fratel (Vila Velha de Ródão), diz-se às crianças: “Cala-te, cala-te! Que vem aí o Vento!”. No folheto de cordel A Fénix das Tempestades (Lisboa, 1732 [BPNM: 2-55-7-22 (13º)]) de António Correia de Lemos, lê-se, a propósito do vento soprado por diabos:

“É o seu movimento mais do natural, agitado de espíritos malévolos, a quem a alta Providência permite que concitem o ar, e são os que ficaram na região dele, e costumam excitar as tempestades e furacões, por cuja causa a Igreja Católica ordenou contra eles especial exorcismo. A serva de Deus Mariana de Jesus, da Terceira Ordem de S. Francisco, os viu em uma ocasião em figura de besouros, e moscões, em bandos tão espessos e numerosos, que por onde voavam escureciam o sol” (p. 15).

Preconizam os pescadores e lobos do mar portugueses que para chamar o vento no rio ou no mar se façam três nós num cabo que se molha na água, após o que se assobia e chama pelo nome de três

cornudos (segundo uma outra versão, de Setúbal, fazem-se muitos nós

e invocam-se quatro cornudos), batendo-se repetidas vezes na beira

do barco e amarrando o cabo na mescoteira de molde a seguir rente à

água. Quando, em Viseu, se deseja chamar o vento para as eiras, grita- se alto: “Bule! Bule!”. Quando sopra vento forte diz-se que: “morreu um judeu” (Sacóias), ou “morreu um judeu na Covilhã” (Castelo Branco). A voz do vento também pode ser interpretada como os gemidos de almas penadas ou de crianças falecidas sem baptismo. Por fim convém recordar as conotações eróticas do vento, tema incontornável na lenda (impregnação das éguas da região de Lisboa pelo vento), bem assim como na lírica medieval portuguesa (cantigas de Amigo), etc.

Catavento , instrumento destinado a indicar a direcção do vento: o da torre da igreja

Catavento, instrumento destinado a indicar a direcção do vento: o da torre da igreja de São Pedro, de Trancoso, ostenta o leão de Judá. No catavento do Horologion de Atenas estava representado um Tritão, filho de Poseidon, deus do mar a quem era creditado o poder de gerar tempestades, mas, igualmente, de as acalmar. Se o vento muda de quadrante diz-se que rodou ou virou, se a mudança for brusca, que saltou.

Prognósticos de vento: Olho de boi; pé de craveiro; rabo de galo; nuvem pequena, arredondada, que, num céu limpo, corre velozmente em determinada direcção; a orientação dos ventos à meia-noite de 22 para 23 de Janeiro comanda o ano agrícola: se os ventos sopram de poente (ventos de baixo) o ano será chuvoso, logo com colheita farta, se sopram do norte (ventos de cima) o ano será seco; quando faz muito vento, diz-se que morreu algum judeu (Vimieiro), ou escrivão (Mondim da Beira e Vimieiro); quando os gatos correm desordenamente, adivinham ventos; andorinha rasteira, sinal de ventaneira; corvo que grita, vento chama; canta o corvo, vento certo; pássaros do mar em terra, sinal de vendaval; choveu-te ao sol posto, amanhã te ventará no rosto; sol aceso ao deitar e malhas negras no ar, é chover e ventar; relâmpagos ao Norte, vento forte, se do Sul vem, chuva também (Açores); Santa Tecla tem capelo, venta logo ou chove cedo (Caminha); se chove, chova, se venta, vente, se neva, neve, que se

não há vento, não há mau tempo; se tens vento e depois água, deixa andar que não faz mágoa (Açores); Se vem chuve e depois vento, põe- te em guarda e toma tento (Açores); sol especado, vento dobrado (Açores); tempo traz tempo e chuva traz vento; vaga ao revés, encrespada, vai-te dar o vento saltada (Açores); vento de Leste não dá nada que preste; vento de Leste não há nada que não creste; grandes estrelas, ao terceiro dia vento; tremem as estrelas e resplandecem, verás que ventos te amanhecem; ao escarmento, ou chuva, ou vento; nunca vai mau tempo, senão quando vai vento; nuvem comprida que se desvia, sinal de grande ventania (Açores); céu pedrento, ou chuva ou vento; boa noite após mau tempo, traz depressa chuva ou vento; quando o vento ronda ao mar na noite de S. João, não há Verão; em Julho ceifo o trigo e o debulho e em o vento soprando o vou limpando; Julho quente, seco e ventoso, trabalha sem repouso.

Rifoneiro: O vento não paga ao barqueiro [em Turquel, Alcobaça, para aludir à presteza com que o vento salta de um para outro quadrante]; Tempo traz tempo e chuva traz vento; Céu escamento, ou chuva, ou vento (Vale do Coina); Céu pedrento, ou chuva, ou vento (Estremadura, Alentejo); Quando não faz vento, não faz mau tempo; Livra-te dos ares que te livrarei dos males; Em dia de S. Bartolomeu há vento, porque anda o diabo à solta (Lisboa); Mudam-se os ventos, mudam-se os tempos (Mondim); Quem foi ao vento, perdeu o assento (idem); Vento e ventura pouco dura; De caldo requentado e de vento do buraco, guardar dele, como do diabo; Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março molinhoso, Abril chuvoso e Maio ventoso fazem o ano formoso; Quem anda no mar não faz do vento o que quer; Vaga ao revés encrespada vai dar-te o vento saltada; De caldo requentado e de vento de buraco, guarda-te deles como o diabo; Guarda-te da traseira da mula, da ilharga do carro, da dianteira do frade e do vento que entra pelo buraco.

Praga: Sumido sejas tu pelo vento.

Rosa-dos-ventos – Sebastião Lopes (1558) Também denominada Rosa-dos-rumos . Mostrador de agulha de marear

Rosa-dos-ventos Sebastião Lopes (1558) Também denominada Rosa-dos-rumos. Mostrador de agulha de marear constituído por um círculo de papelão, onde se observam os pontos cardeais (N, S, E e W), os colaterais ou partidas (NE, SE, SW e NW), as meias-partidas (NNE, ENE, ESSE, SSE, SSW, WSW, WNW, NNW) , com os sectores intermediários divididos em quartas, meias-quartas e quartos (ao todo, 128 divisões). Esse mostrador era fixado à agulha imantada de modo que a linha NS coincidisse com o eixo da agulha. Cada piloto escolhia a ornamentação da rosa-dos-ventos consoante o seu gosto. A designação rosa-dos-ventos provém da circunstância de a orientação, nos primórdios da navegação, se fazer pelos ventos e não pelos pontos cardeais. Posteriormente, substituiu-se a rosa-dos-ventos por uma circunferência subdividida em graus de arco, numerados de 0º a 360º, a partir do N, no sentido do movimento dos ponteiros do relógio. Tais rosas-dos-rumos compreendiam os quatro rumos cardeais, quatro colaterais, oito partidas e 16 meias partidas ou quartas (cada uma com aproximadamente 11º 15’). A direcção Norte das rosas-dos-ventos era assinalada com uma flor-de-lis, enquanto que para a direcção Leste, o símbolo maioritariamente adoptado foi a cruz de Cristo.

NOMENCLATURA DOS VENTOS

Abrantil Vento que sopra de Abrantes. Também *abrantino. Abrantino *Abrantil. Ábrego Vento que sopra do Sul ou de África, donde denominar-se também *áfrico. A seu respeito, escreve D. João I (Livro de Montaria, Liv. 1, cap. XVIII): “Porque dizem que quando corre o abrego, e leva as nuvens carregadas de água, e ante que todo as nuvens sejam descarregadas das águas, que se encontram com o vento do aguião, e se o vento do aguião é mais forçoso que o abrego, que faz tornar as nuvens que assim levam as águas, e pelo corrimento do vendaval, e na tornada que assim tornam lançam as águas, e que por isto parece aos homens, que pelo corrimento do aguião vêm estas coisas. Adegas de Évora No Vimieiro, quando o vento sopra do Sudoeste e traz chuva, diz-se que vem das adegas de Évora. Áfrico Vento que nasce no Ocidente, segundo Plínio. Denominado Lybs pelos gregos e na Chronographia de *Jerónimo de Chaves: “Es de naturaleza frio templadamente, y excessivamente húmido. Es viento pluvioso y tempestuoso, y suele muchas vezes causar tempestades, truenos y relampagos”. Camões reporta-se-lhe (Os Lus., I, 27). Hodiernamente, sinónimo de *ábrego. Agudo No Algarve, o mesmo que *barbeiro, *tarasca e *zimbre. Aguião Vento que sopra do Norte. O mesmo que *aquilão. Ábrego. No Livro da Guerra de Ceuta (1460) de Mestre Mateus Pisano, é referido por D. Filipa de Lencastre, no seu leito de morte, como o vento “mais próprio” para a partida da expedição a Ceuta, no dia de Santiago.

Alcaçarenho *Alcaçarense. Alcaçarense Nome que se dá ao *vento que de Alcácer sopra para Palmela.

Também *alcaçarenho. Alcantaré Vento que sopra de Alcântara (Espanha). Possui grande raio de acção que, grosso modo, abrange todo o interior de Portugal, entre Tejo e Douro. Também *alcantarenho, *alcantareno, *alcantaril, *alcantarilho, *alcantario, *cantarês, *cantaril. Alcantarenho

O mesmo que *alcantaré, *alcantareno, *alcantaril, *alcantarilho,

*alcantario, *cantarês, *cantaril. Alcantareno

O mesmo que *alcantaré, *alcantarenho, *alcantaril, *alcantarilho,

*alcantario, *cantarês, *cantaril. Alcantaril O mesmo que *alcantaré, *alcantarenho, *alcantareno, *alcantarilho,

*alcantario, *cantarês, *cantaril. Alcantarilho

O mesmo que *alcantaré, *alcantarenho, *alcantareno, *alcantaril,

*alcantario, *cantarês, *cantaril. Alcantario

O mesmo que *alcantaré, *alcantarenho, *alcantareno, *alcantaril,

*alcantarilho, *cantarês, *cantaril. Alcobês Vento que sopra do Caramulo, denominado serra de Alcoba, em documentos antigos. O mesmo que *alcoucês, *alcovês, *algovês e *austro. Vento que traz chuva, em virtude do que o povo diz a respeito do alcobês: “Venta um e chove três”. Alcoucês Também denominado *alcobês, *alcovês e *algovês. Vento do Sul

(*alcouço). *Austro. Alcouço Vento do Sul. O mesmo que *alcoucês. Alcovês Nome do vento no Caramulo (cf. J. Pedro Machado, Influência arábica no vocabulário português, v. 1, p. 173). Também denominado *alcobês, *alcocês, *algovês e *austro.

Algarvio Vento que sopra de Sul em localidades da serra algarvia e do Baixo Alentejo. Algovês O vento também denominado *alcobês, *alcocês, *alcovês e *austro. Alimpa-gata Denominação do vento de Sudoeste, na Póvoa de Varzim. Ao sopé Denominação do vento Leste, canalizado pelo vale profundo do Douro, em Baião, Marco de Canavezes, Sinfães e Castelo de Paiva. Aquilão Vento que sopra do Norte. Também *aguião. Aquilo Vento referido por *Luís de Camões (Os Lusíadas, VI, 31 e 76). Arouca, vento de Vento assim denominado em Lousada: “De Arouca, vento muito, chuva pouca”. *Arouquês, *ouroquês. Arouquês Nome que se dá em Lousada ao vento que sopra de Arouca. Também *arouca, *ouroquês. Arreganhado Vento que seca a pele e a faz estalar, denominado vento de “arreganhar o dente”. Gil Vicente designa-o por regañon (I, 81-82; XVIv e XVII) e arreganhado (Triunfo do Inverno, II, 449-451; CLXXV). No Repertório (fl. 63), Chaves chama-lhe circio (Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos), o qual com o Norte, ou Tramontana, e o Bóreas formam o grupo dos ventos setentrionais que, ainda de acordo com Chaves, “hazen los spiritos y sentidos mas puros”. Correspondente ao *barbeiro. Atravessado Denominação do vento de Oeste ou do Noroeste, nas regiões do litoral e, designadamente, em Turquel (Alcobaça). Também chamado *travessia *travessia alteira (Torreira), *travessia baixeira (idem), *travessio (Alentejo), *travesso, *travesso alto (vento de Oeste), *travesso baixo (vento do Noroeste), *vento da Nazaré. Auster Vento que sopra do meio-dia (Sul), também denominado *Noto.

Austro Vento do quadrante Sul ou Sudoeste. O mesmo que *vendaval. *Alcovês. O Non plus Ultra de Jerónimo Cortês advoga que quando o vento Sul sopra muitas vezes durante o estio, denota febres agudas e dores de ventre, nomeadamente nas mulheres e em todos aqueles que forem de “húmida compleição”. Vento mencionado por Luís de Camões (Os Lusíadas, VI, 76). Santo António reporta-se-lhe num dos seus Sermões (202b), comparando os interiores (interiora) do austro

ao Espírito Santo e ao segredo e ciência secreta da contemplação.

Austro Siroco Vento meridional considerado pestilencial. *Austro Noto, *Vendaval, * Euronoto, *Libanoto. Austro Noto Vento meridional considerado pestilencial. *Austro Siroco, *Euronoto, *libanoto, *vendaval. Ayre de Riba Em Terras de Miranda, nome do vento que sopra de Burgos (Nordeste). O mesmo que *burganês, *burgonês e *burguês. Também

denominado *cieiro.

Bafagem

Aragem branda. O mesmo que *bafugem. Bafo de vento

A inexistência de um bafo de vento indicia calmaria, ausência de

vento. No Minho diz-se: “nun bole uma folheirinha”.

Bafugem

O mesmo que *bafagem (cf. Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, cap.

53).

Barbeirinho Vento de Nordeste, frio, cortante, incómodo (“desagreste”), que faz gretar as mãos e os lábios e passa sobre a pele como navalha de barba. *Barbeiro.

Barbeiro Vento áspero e frio, que “causa ferida”, correspondente ao *Noruega do Faial e das Flores (Açores). O mesmo que *barbeirinho, na região de Bragança. Também *agudo, *cieiro, *ciasco ou *chiasco, *rapa- barbas, *tarasca, *zimbre. Bareiro Vento do quadrante Oeste. *Vento da Barra.

Barreiro

Vento do quadrante Oeste. *Vento da Barra. Belengra

O mesmo que Berlengueiro.

Belengreiro

O mesmo que Berlengueiro.

Berlengo

O mesmo que Berlengueiro.

Berlengueiro Vento que sopra das Berlengas, em Óbidos. O mesmo que *vento da Berlenga, *Belengra, *Berlengo, *Belengreiro e *Berlingueiro.

Berlingueiro

*Berlengueiro.

*Belengreiro e *Berlingueiro. Berlingueiro *Berlengueiro. Bóreas – Mosaico de Milreu (Algarve) Bóreas Tal como

Bóreas Mosaico de Milreu (Algarve)

Bóreas Tal como *Zéfiro, filho de Eólo, o senhor dos ventos que Homero (Odisseia) dá como anfitrião de Ulisses. Vento Norte, mencionado por Gil Vicente (Auto dos Quatro Tempos, I, 88; XVIII) e Luís de Camões

(Os Lusíadas, I, 35; VI, 31 e 76; Elegia I). Iconografado num mosaico

da vila romana de Milreu.

Bragançano O mesmo que *burgalês, *burgonês, *burguês. *Ayre de Riba. Braguês Vento do Sudoeste em Ponte da Barca (sopra dos lados de Braga). Precede ou acompanha chuvas copiosas: “Vento braguês, chuva um mês”. O mesmo que *Vento do Caramulo (antigamente, serra da Alcoba) e *alcobês. Branca Calmaria, ausência de vento.

Brisa Vento regular e húmido. Brumaço Calmaria, tempo húmido e quente, no Faial e no Pico (cf. Cândido de Figueiredo). O mesmo que *mormaço. Bulbarinho

O mesmo que *vento. Também *burbulinho e *burburinho. No

burburinho vai a bruxa, enquanto dentro do bulbarinho vai o *mafarrico. Em Lousada, quando se vê um bulbarinho, diz-se: “Credo, Santo Nome de Jesus!”, para não se ficar tolhido. *Pulverinho. Burburinho

O mesmo que *vento. Também *bulbarinho e *burbulinho. No

burburinho vai a bruxa, enquanto dentro do bulbarinho vai o *mafarrico. Em Alpedrinha crê-se que o burburinho arrebata crianças

pelo ar e até pessoas adultas que desaparecem. Em Penamacor, quando se vê um burburinho a pouca distância faz-se uma cruz com os dedos indicadores (um pouco erguidos para o ar, enquanto os braços

se estendem para diante) e pronuncia-se ao mesmo tempo a fórmula:

“Ih! Jesus, ih! Jesus! / Foge, Diabo, desta cruz!”. As crianças dizem:

“Foge, Diabo, desta cruz, / Que está aqui o Menino Jesus!”. Já em

Mangualde, diz-se, três vezes: “Burburinho, burburão, / Bela cruz de S. João!”. Ainda para livrar do burburinho, na Rapa: “Cruz de Cristo aqui! / Spritos maus, fugi de mi! / No tribo de Judiés [i. e. Judá], / Leão vencedor, / Geração da vida [i. e., geração de David] / Aleluia, aleluia, aleluia!”. Em Moncorvo, é preconizado o lançamento de um

canivete aberto contra o burburinho, acção que se crê provocar a saída

de uma feiticeira dele. *Borborinho, *espojinho, *pulverinho.

Burgalês Vento que sopra de Burgos (Espanha) e se faz sentir no Norte interior ou Nordeste de Portugal. O mesmo que *burganês e *burguês. Em Terras de Miranda chamam-lhe *ayre de Riba, continuando para Sul com o nome de *bragançano, *espanhol e *larinhato. Burganês *Burgalês. Burgonês

O mesmo que *burganês. Vento que sopra de Burgos (Espanha), em

Rabal (Bragança). O mesmo que *cieiro. Por vezes, causa sérios prejuízos nas vinhas, nas searas e nas árvores de fruto, em Abril e Maio: “Vento burgonês é o que seringa o português”. Diz-se que o que lhe modera a fúria destruidora é a circunstância de “passar por uma serra de alecrim”. Chamam-lhe barbeiro da navalha muito áspera quando sopra frigidíssimo durante o Inverno. *Ayre de Riba. Continua para Sul com a designação de *bragançano. Burguês *Burgalês.

Cabanês Vento que traz chuva. “Cabanês, venteja um e chove três”. Cabra fanada Vento de Nordeste, em Viana, Caminha e Ponte de Lima. Em Paços Ferreira, chamam cabra fanada ao vento do poente. Calceteiro da Serra

O Vento *soão, em Turquel (Alcobaça), porque faz secar as lamas dos

caminhos, endurecendo o solo. Caldense Vento que sopra das Caldas da Rainha. Calma Ausência de vento no mar. *Calmaria, *calmeiro, *calmiço. Calmaria Ausência de vento no mar. Calmeiro Ausência de vento no mar. Camacheiro Vento que sopra em rajadas fortes da Camacha (N ou NE), na Madeira.

Campeiro Vento que sopra de Leste (dos campos), em oposição a *mareiro, em Esposende. Caniçado Vento que sopra de Caniça. Cantaril Vento de Sudeste, chuvoso e quente. Traz chuva inesperadamente. Em Penedono diz-se: “Quando o vento é de Cantaril, / Solta os bois e “bota” a fugir”; em Aguiar da Beira: “Vento Cantaril, / Água no pernil”. Cão danado O vento *Soão, em Lafões. “Com vento Soão, nem rio, nem cão”. Caramuleiro Vento Sul, que sopra do Caramulo (antigamente, serra de Alcoba), em Macieira de Alcoba. O mesmo que *alcobês e *alcovês. Carapauzeiro Alcunha do vento *vareiro, na Póvoa de Varzim. Corresponde ao *gaivoteiro da Póvoa de Varzim. Carpinteiro Vento de Sueste, na baía de Angra do Heroísmo, onde dizem que “algumas vezes é tão rijo que se as amarras não são boas e de bom fio, as faz rebentar e dá com a embarcação no areal da Prainha ou no Porto Novo”. Tem o mesmo nome na Horta, ocorrendo, por vezes, naufrágios “que fazem em hastilhas as embarcações”, donde a designação deste vento. Catrineiro Vento de Sudoeste, em Turquel (Alcobaça). O mesmo que *vento de Santa Catarina. Ceboleiro Vento que sopra de Cebola. Cécias Vento de Leste, agreste, mencionado por Chaves. * Euro, *subsolano. Cerzedo Denominação do vento de Noroeste, em Castelo Branco, em virtude de soprar de Sarzedas (cf. J. Leite de Vasconcelos, Miscelânea, in Revista Lusitana, v. 20, 1917, p. 163). Chabrês O mesmo que *chiabrês. Também *Seabrês, *senabrês e *vento de Seabra.

Chafariz do vento Alto sobranceiro à localidade de Torres, não longe das nascentes do rio Távora. Charneco Vento que sopra da sub-região da Charneca (Beira Baixa). Chata Calma, ausência de vento. Chavanelo Vento que sopra de Chavães. Também *chavanesco. Chavanesco *Chavanelo. Chiabrês Vento que sopra de Norte ou Nordeste, da serra de Senábria (Espanha). Trata-se de um vento muito frio, por esse motivo também denominado “vento da frieira”. O mesmo que *chabrês. Também *seabrês, *senabrês e *vento de Seabra. Chiasco Vento de Nordeste, particularmente frio, cortante, que greta as mãos e os lábios e passa pela pele como navalha de barba. O mesmo que *cieiro e *ciasco. Também *barbeirinho, *barbeiro, *rapa-barbas, etc. Ciasco *Chiasco. Cieiro Vento de Nordeste, particularmente frio, cortante, que greta as mãos e os lábios e passa pela pele como navalha de barba. Por soprar de Burgos (Espanha), chamam-lhe *burganês, *burgonês e *burgês. O mesmo que *chiasco e *ciasco. Também *barbeirinho, *barbeiro, *rapa-barbas. Círcio Vento que faz estalar a pele. Vento “de arreganhar o dente”. *Gil Vicente chama-lhe regañon (Auto dos Quatro Tempos, I, 81-82; XVIv-XVII e Triunfo do Inverno, II, 449-451; CLXXV). O mesmo que cierço. Coimbrão Vento do quadrante Noroeste, que sopra dos lados de Coimbra, na Pampilhosa da Serra e em Oleiros. Também denominado *vento de Viana, *vento de Mira, ou *mirão, *vento Figueiredo (Figueira da Foz), *vento de Buarcos, *vento do Cabo Mondego, *vieiro (Vieira de

Leiria), *sãomartinheiro (S. Martinho do Porto), *berlengueiro, *alcaçarenho (Alcácer do Sal) e *odemiro. Curral do vento Local junto das Penhas da Saúde (serra da Estrela).

Emerchornado Tempo calmoso, com nuvens de cor plúmbea ou cobreada. Enxuga-caminhos Vento que sopra de Nordeste, seco, por vezes, muito violento, que desseca as terras e queima pastos e culturas, porquanto, além de dessecar também congela. Igualmente denominado *rapa-vacas, *papa-feijões, e *queima-silvas. Escalhoneiro Vento que sopra de Escalhão (Beira Alta). Escova Vento Norte, em Esposende e na Póvoa de Varzim. Esfola-vacas Vento de Nordeste, na ilha Terceira e de Oeste na do Faial (Açores).

Aqui, também denominado *Cima da terra. Assaz áspero, provoca prejuízos no gado, matando os bovinos, dos quais só se lhes aproveita

o couro. Também denominado *mama-vacas, porque se crê que lhes

seca o leite. Em S. Miguel chamam-lhe mata-vacas. Espanhol Vento frio que no Inverno sopra de Levante (Torres Vedras, Alentejo, etc.). É o *soão, no Alentejo e na Guarda. *Larinhato.

Espojinho *Burburinho. Estanhada Calma, sem vento. Estramoceiro *Tramoceiro. Estrelão Vento da “Terra Chã”, na bacia do Mondego e na Estremadura, beirã,

a Sul do Rio Zêzere. Sopra da Serra da Estrela. Em Tába tem a alcunha

de *mata-cabras e na Lousã é conhecido pelo nome de *serpentino, por soprar, geralmente, dos lados de Serpins. O mesmo que *Serrano e

*Vento da Serra. Sinónimo de *gatenho ou *gatanho (vento que sopra da Serra da Gata).

Euro Vento de Leste, agreste, mencionado por Chaves. * Cécias, *subsolano. Iconografado num mosaico da vila romana de Santa Vitória do Ameixial. Euronoto Vento meridional considerado pestilencial. *Austro Siroco, *austro Noto, *libanoto, *vendaval.

Fanada Nome do *Soão (quadrantes E e NE) no Alto Minho. O mesmo que *Cabra fanada. Favónio Vento, correspondente ao *Zéfiro grego, do qual as éguas da região de Lisboa emprenhavam, consoante Homero, Aristóteles, Varrão, Virgílio, Pompeio Trogo, Plínio, o Velho, Justino, Columela, Sílio Itálico, Cláudio Eliano, Opiano de Apameia, Lactâncio, Solino, Quinto de Esmirna, Vegécio, Marciano Capela, Agostinho de Hipona, Isidoro de Sevilha, entre outros. Figueiredo Vento que sopra da Figueira da Foz. Formigueiro Vento de Sueste, no Sul da ilha de S. Miguel (Açores). Furacão Vento violentíssimo. Também vento de Noroeste. *Galego, *vento de Montouto.

Gaivoteiro Alcunha do vento *vareiro (do quadrante Oeste), na Póvoa de Varzim. Corresponde ao *carapauzeiro de Ílhavo. Galego Vento de Noroeste, em Pombal (Bragança). O mesmo que *vento de Montouto. Em Torre de D. Chama, quando sopra este vento diz-se que foi algum galego que morreu arrebentado. *Furacão. Garroa Vento fresco de Sudoeste, na região de Setúbal. Gatenho Vento que sopra da Serra da Gata, em Espanha. Girês Vento que sopra do Gerês. O mesmo que *Jurês.

Guardês Vento que sopra da Guarda. Diz o povo a respeito do guardês: “Puxa um e bebe três”. Guião Vento do quadrante Norte, também denominado *Rei dos ventos ou *Vento-Rei. *Guieira, *guiarra. Guieira Vento do quadrante Norte, também denominado *Rei dos ventos ou *Vento-Rei. *Guião, *guiarra. Guiarra Vento do quadrante Norte, também denominado *Rei dos ventos ou *Vento-Rei. *Guião, *guieira.

Julavento O mesmo que sotavento. Jurês *Vento que sopra do Gerês. Também denominado *Girês.

Lapeiro Vento de Oeste ou de Noroeste que parece nascer dos rochedos costeiros ou lapas, em Sesimbra. Oposto do *soão: “o soão mata o lapeiro”. Lariço Vento bonançoso que sopra na baía de Cascais. Larinhato Vento que sopra da povoação de Larinho (Torre de Moncorvo). O mesmo que *Espanhol. Lestada O vento *Soão no Baixo Alentejo e Algarve. *Levante. Levante Designação genérica do vento de Leste. Também *lestada, *xaroco ou *xarouco. Levante-corre-costa Vento de Leste, na Póvoa de Varzim. Libanoto Vento meridional considerado pestilencial. *Austro Siroco, *austro Noto, *eurónoto, *vendaval. Libecho Vento de Sudoeste.

Líbio Vento ocidental. *Àfrico, *Favónio ou *Zéfiro, *Corus. Lobo do mar Na Póvoa de Varzim, alcunha do *soão, por se tornar, frequentemente, perigoso para a navegação. Lousaneiro Vento que sopra da Lousã (do quadrante Sul). Lufada Rajada com vento fraco.

Mãe da auga Vento de Sueste, no Tejo. Maestral O mesmo que vento *maestro e mistral. Maestro Vento também denominado *maestral. Mama-vacas Vento do Nordeste, nas ilhas da Terceira e do Faial (Açores). Também denominado *mata-vacas, em S. Miguel, porque se crê que lhes seca o leite. Mareiro Vento de Oeste (que sopra do mar). O mesmo que *marinheiro, *vareiro, *bareiro e *barreiro. Nos planaltos da Guarda e do Sabugal tem o nome de *Vento da Serra (da Estrela), andando na boca do povo: “Vento da Serra / Chuva na terra” e “Vento da Serra, / Se melhor chove, melhor neva”. No Baixo Alentejo é denominado *Vento da maré, consistindo numa espécie de monção diurna que refresca dos calores estivais, beneficiando a agricultura. No Algarve conhecem-no pela designação de *ponente (oposta à de *levante) por soprar do lado onde o sol se põe. Marinheiro O mesmo que *mareiro. Vento assim denominado em virtude de soprar do mar. Mata-cabras Vento *Estrelão, na Tábua. O mesmo que *serpentino (Lousã), *gatanho, ou *gatenho (Beira Baixa). Ventos homónimos nos concelhos de Alvaiázere, da Sertã e de Marvão.

Mata-vacas Vento do Nordeste, em S. Miguel (Açores). Também denominado *mama-vacas, nas ilhas da Terceira e do Faial, porque se crê que lhes seca o leite. Micharelo *Misarelo. Mijão Chama-se, em Setúbal, ao vento Noroeste, porque traz aguaceiros. Mirão Vento do quadrante Noroeste, que sopra de Mira. Também denominado *vento de Viana, *vento de Mira, *vento de Buarcos, vento Figueiredo (Figueira da Foz), *vento do Cabo Mondego, *coimbrão, *vieiro (Vieira de Leiria), *sãomartinheiro (S. Martinho do Porto), *berlengueiro, *alcaçarenho (Alcácer do Sal) e *odemiro. Misarelo Vento que sopra da Frecha da Misarela, catarata do rio Caima (afluente do Vouga). Também *Micharelo. Mistral Vento que, no Mediterrâneo, sopra de entre poente e Norte. *Maestro, *mestral. Monção Vento que sopra do mar para terra, no Oceano Índico, durante o estio e, inversamente, durante o Inverno. O mais tormentoso soprava entre Maio e Agosto. *Tempos bonanças. Mormaço Calmaria, tempo húmido e quente. O mesmo que *brumaço. Morno Vento Sueste, na Póvoa de Varzim. Moseiro Vento que sopra de Porto de Mós.

Nordeste encaramujado Vento que sopra de Nordeste, no Tejo. Nordeste mijão Vento de Nordeste conjugado com aguaceiros. Nordistão Vento de Nordeste, também denominado *Norte Alto, particularmente frio, seco, coratante e incómodo. O mesmo que *barbeirinho, *barbeiro, *ciasco, *cieiro, *chiasco e *rapa-barbas.

Nortada Vento rijo do Norte. Termo utilizado pelos marítimos. O mesmo que *travessio alto. Nortão

O mesmo que *Norte rijo.

Norte alto

Vento de Nordeste, em Turquel (Alcobaça). *Nordistão. O mesmo que *barbeirinho, *barbeiro, *ciasco, *cieiro, *chiasco e *rapa-barbas. Norte brabo

O vento Norte que sopra com violência, em Arcos de Valdevez: “Norte

brabo, chuba no cabo”. Norte rijo Vento frio, por vezes violento. Também denominado *travesião e *vassoura do céu, porque varre as nuvens e faz levantar a chuva. *Nortada, *nortão. Noruega Vento áspero e frio, na Beira Alta e nas ilhas açorianas do Faial e das Flores. É o vento barbeiro de outras regiões (cf. Leite de Vasconcelos,

Lições de Filologia Portuguesa, Lisboa, 1911, p. 431). Notos Irmão de *Bóreas e de *Zéfiro, na mitologia grega. Designação do vento Sul.

Odemiro Vento do quadrante Noroeste, que sopra de Odemira. Também denominado *vento de Viana, *vento de Mira, ou *mirão, *vento de Buarcos, *vento Figueiredo, *vento do Cabo Mondego, *coimbrão, *vieiro (Vieira de Leiria), *sãomartinheiro (S. Martinho do Porto), *berlengueiro e *alcaçarenho (Alcácer do Sal).

Palmelão Vento de Sueste (sopra de Palmela), na Península de Setúbal. Papa-feijões Vento do quadrante Nordeste. O mesmo que *enxuga-caminhos, *queima-silvas e *rapa-vacas. Pardanieiro Vento que sopra de Peradanta.

Pé de vento Rabanada de vento, repentina e rápida. Súbita violência de vento, de curta duração. Antigamente, denominado *pegão de vento (cf. Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, cap. 53). Pegão de vento *Pé de vento (cf. Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, cap. 53). Pêgo Designação do vento de Sudoeste, em S. Bartolomeu (Castro Marim). Diz-se: “o tempo está de pêgo”, i. e., o vento vem do mar (pelagus = pego). O ditado “Quando Dês q’ria, / Do Pêgo aventava / E do Norte chovia”, tem paralelos em várias regiões (cf. J. Leite de Vasconcelos, Miscelânea, in Revista Lusitana, v. 20, 1917, p. 142). Fialho Pinto reporta-se a este vento no seu Conto das Águas (cf. Mensário das Casas do Povo, Nov. 1952): “Vento Pêgo, apaixonado, / Foi em loucas correrias / Por muitos dias e dias / Em procura da querida / Que lhe fora prometida / Para o princípio do Outono. / E sentiu tal abandono / Receou que a sua sorte / Fosse tal / Como o tem o vento Norte / que, por agreste e bravio /Nunca viu / Essa beldade [a chuva].” Podre Tempo calmo, sem vento. Poente Designação genérica para o vento que sopra de Oeste. O mesmo que *ponente. Pombaleiro Vento do quadrante Sueste (ou de Pombal), em Buarcos. Ponente No Algarve, designação do vento de Oeste, contraposto ao de *Levante, em virtude de soprar de onde o sol se põe. Prega calotes Vento de Nordeste, na Póvoa de Varzim. Pulverinho *Burburinho.

Queima-silvas Vento do quadrante Nordeste. O mesmo que *enxuga caminhos, *papa-feijões e *rapa-vacas.

Rabanada Rajada ou pé de vento.

Rafa Rajada de vento. *Rafada. Rafada Em linguagem náutica, sinónimo de “violência súbita mas passageira de um vento”. O mesmo que *refrega de vento. Rajada Vento incerto. A *refega dos marítimos, i. e., impulso de vento mais forte. Ralassa Calma, sem vento. Rapa-barbas *Barbeirinho, *barbeiro. Rapa-vacas Vento de Nordeste. O mesmo que *enxuga-caminhos, *queima-silvas e *papa-figos. Redemoinho Vento circular. Refrega Também denominada *refrega de vento (cf. Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, cap. 61). *Rajada. Refrega de vento *Rafada, *rajada (cf. Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, cap. 61). Refresca San-Lourenço Locução proferida pelos marítimos do Tejo para invocar os ventos. Rei dos ventos Vento Norte, em Turquel (Alcobaça). Traz bom tempo: “Quando Deus queria do Norte chovia”. Quando sopra com violência indica mudança de tempo: “Norte bravo, ou soão ou orvalho”. Regateira de Abril Nortada de Abril, em Setúbal. Remoinho Torvelinho que resulta do embate de duas correntes opostas de vento. O mesmo que *ramoinho, *remoinho de vento, *redemoinho, *balborinho (Briteiros), *buborinho (Guimarães), *puginho (Alentejo). O povo credita-lhe influência maléfica, fugindo dele e esconjurando-o (cf. Leite de Vasconcelos, Tradições, p. 46). Remoinho de vento * Remoinho.

Repiquete Salto do vento para outro rumo. Resmangueza Vento incerto e variável, no Pico (cf. O Telégrafo, n. 12283). Ribeirão Vento de Oeste, em Freixo de Espada à Cinta. Ribeirinho Vento de Sudoeste, no vale do Mondego (Penacova). Rodeiro Também vento da volta direita, que roda no sentido dextrorso, distinto do vento de saltos ou da volta de cão, o qual se faz sentir na Praia da Rocha, durante o Inverno, sendo considerado prenúncio de mau tempo.

Salseiro Vento baixo e violento, em Setúbal. Salvante Vento favorável. Samouco Vento de entre Leste e Sueste, no Samouco, onde dizem a respeito deste vento: “Vento Samouco, venta muito e chove pouco, mas se porfia, chove de noite e de dia”. No vale do Coina e em Setúbal denomina-se assim o vento de Nordeste. Sãomartinheiro Vento que sopra de S. Martinho do Porto. Sarrenho O mesmo que *serrenho. Sarzedo Vento que sopra de Sarzedas (Beira). Seabrês Vento que sopra de Norte ou Nordeste, da serra de Senábria (Espanha). Trata-se de um vento muito frio, por esse motivo também denominado “vento da frieira”. O mesmo que *chabrês e *chiabrês. Também *senabrês e *vento de Seabra. Não obstante distinto do vento *Galego, ocorre, às vezes sob a denominação de *vento dos galegos de Seabra. Senabrês *Seabrês.

Serpentino Vento que sopra de Serpins, na Lousã, e de Serpa, em Santa Bárbara dos Padrões (Castro Verde). Serrano O mesmo que *serrenho. Serrenho Vento do Norte, no Alentejo, também denominado *sarrenho e *serrano (*vento da serra da Estrela). *Estrelão. Sertainho Vento que sopra da Sertã. Soano *Soão, *solano, *soardo, *vento Espanhol. Soão Vento de Leste. O mesmo que *solano, solestre, *soardo, * espanhol. Diz-se que “dana os cães” (Lafões), motivo por que é conhecido, em algumas regiões, pelo nome de *vento do cão danado (Alto Minho). Na Póvoa de Varzim é alcunhado de *lobo do mar, por se tornar, frequentemente, perigoso para a navegação. Também denominado *Vento da Castanheira, na Trofa, em virtude de soprar dos lados daquela localidade, i. e., de levante. O mesmo que *solanus. Como este vento queima as searas, dizem em Turquel (Alcobaça): “Aperta soão que as geiras elas darão” e “Aperta soão que a mim me chamarão”. Nesta derradeira povoação consideram este vento doentio, precursor de mudanças bruscas de temperatura. No Alentejo, diz-se que é vento “mais frio no Inverno e mais quente no Verão”. No vale do Coina crê- se que , no Verão, o soão (à semelhança do vento Norte e Nordeste) faz danar os cães. É vento sequeiro que queima os pastos e faz secar a auga”. Anexim: Com vento Soão não pesques peixe, nem caces com cão. *Suão, *vento da serra. Soão baixo Vento que sopra do lado do sol ou de Sueste, também denominado *Sul derrocado, em oposição ao vento Sul, propriamente dito, ou *Sul direito. É quente e seco, por vezes tempestuoso e chuvoso. Soardo Outro nome do *soão. Também denominado *solestre, *vento do cão danado, vento da cabra fanada, ou, simplesmente, *vento da fanada. Solano Vento que sopra do lado do sol, ou acompanha o seu curso. Hodiernamente denominado *soão (em Turquel-Alcobaça, Rabal-

Bragança e no Alentejo). Em Rabal, atribuem a este vento a criação de bicho na cereja. Em Turquel consideram-no doentio, em virtude das mudanças bruscas de temperatura que provoca. Diz-se que este vento “matou o pai na ceifa e a mãe com frio na apanha da azeitona”. Vento Leste de cujos efeitos se originou o provérbio: “De Espanha nem bom vento, nem bom casamento”. Mencionado no Triunfo do Inverno (II, 451; CLXXVv) de Gil Vicente. O mesmo que o *subsolano referido por Chaves, o qual, juntamente com o *cécias e o *euro “parescen alterar algun tanto los cuerpos”. O mesmo que *soano, *solestre, *soardo e *Espanhol. Solestre Outro nome do *soão. Vento de Leste ou *levante, também denominado *soardo, *vento do cão danado, vento da cabra fanada, ou, simplesmente, *vento da fanada. Sotavento *Julavento. Suão

O mesmo que *soão. Título de romance de Antunes da Silva.

Anexins: Vento Suão brabo traz água no rabo (Tolosa); Com vento Suão nem pesca nem furão (Tolosa); Vento Suão, chuva na mão, de

Inverno, sim, de Verão, não (Famalicão); Vento Suão, cria palha e grão

O vento Suão faz danar o cão; Vento Suão, chave na mão (Minho);

Vento Suão, molha no Inverno e seca no Verão. Subsolano

O mesmo que *solano e *soão. *Cécias, *euro.

Sul derrocado

*Sul baixo.

Sul direito

O mesmo que *soão baixo e *Sul derrocado.

Sudão

O mesmo que *sulão e *sulo.

Sulão

O mesmo que *solanus. Vento Sul, quente e saturado de humidade,

geralmente tempestuoso, sobretudo no Outono, e acompanhado de chuva e trovoada: “Nunca vi ventar do Sul / Que aos três dias não chovesse”. Omesmo que *sudão e *sulo. Sulo

O mesmo que *sudão e sulão.

Tarasca No Algarve, também denominado *agudo (cf. Revista Lusitana, v. 7, p. 256), *barbeiro e *zimbre, na acepção de vento que provoca ferimento (tarascada = mordedura, ferida provocada com os dentes; cf. J. Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, p. 428 e

432).

Taró Vento gelado. Consignado por Cândido de Figueiredo, como termo da “gíria” (cigana, consoante Max L. Wagner). Conhecido em várias regiões de Portugal e Espanha, ocorre em Ferreira de Castro: “Por muito taró que houvesse, do que rachava beiços e parecia cristalizar a atmosfera” (Terra Fria, p. 81); “Aquilino Ribeiro: “Trouxe o cangirão cheio. E foi enchendo os copos. Atesta!, Quaresma, atesta! exclamou o abade de Barrelas. – Uff! Cheguei com um taró!” (Andam Faunos pelos bosques, p. 81) e “Entro para a venda e, como a mulher era perra no vender e andava um taró dos demónios, pedi, um a seguir ao outro, dois patacos de aguardente” (Estrada de Santiago, p. 131); Alves Redol: “Os afagos da Cacilda de Muge arrefeceram como se o taró que andava no rio, lhe passasse nas mãos e na boca” (Avieiros, p. 330); etc.

Bibliografia: WAGNER, Max L., O elemento cigano no Calão e na Linguagem Popular Portuguesa, in Miscelânea de Filologia, Literatura e História Cultural à Memória de Francisco Adolfo Coelho (1847-1919), v. 1, Lisboa, 1949, p. 317-318

Tempos bonanças Designação das épocas de *monção. Terral *Terreal. Também *terrenho e *vento da terra, i. e., do quadrante Leste, no Baixo Alentejo. Terreal Vento das Flores (Açores). É o *terral madeirense. Terrenho Vento de terra ou *terral (cf. Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, cap.

23).

Traiçoeiro Vento de Nordeste, em Esposende. Também denominado *ladrão. Tramoceiro Vento do Sudoeste, em Elvas. Traz sempre chuva. O mesmo que *estramoceiro, por soprar das bandas de Estremoz. No Vimieiro é denominado *adegas de Évora.

Trancosano Vento que sopra desde Trancoso. *Trancosão. Trancosão Vento que sopra de Trancoso. *Trancosano. Traverso alto Vento do quadrante Noroeste, contrário ao *traverso baixo. Traverso baixo Vento do quadrante Sudeste, contrário ao *traverso alto. Travessia Vento forte de Oeste ou de Noroeste que sopra do mar, no litoral. O mesmo que *travessio e *travesso. Travessia alta *Travessia alteira. Travessia alteira Vento forte de Oeste ou de Noroeste que sopra no litoral. Travessia baixa Vento de Sudoeste. Traz chuva. Travessia baixeira Vento forte de Oeste ou de Sudoeste que sopra no litoral (Torreira). Travessião Vento Norte frio e, por vezes, violento. Também denominado *Vassoura do céu, *Nortão, *Norte rijo. Travessio Vento forte de Oeste ou de Noroeste, no Alentejo. O mesmo que *travessia e *travesso. Travessio alto Vento do quadrante Norte, também conhecido por *nortada. Aquele que mais fustiga o litoral nacional. Quase sempre tempestuoso, frio e acompanhado por aguaceiros. Travesso Vento forte de Oeste ou de Noroeste que sopra no litoral. O mesmo que *travessia e *travessio.

Vareiro Vento de Oeste, de Viana do Cávado (Aveiro), quase sempre chuvoso no Inverno e refrescante no Verão. O mesmo que *barreiro e *bareiro. Também conhecido por *mareiro e *marinheiro. Em Lousado (Vila Nova de Famalicão) o povo diz a seu respeito: “Está um ventinho

vareiro / Que me leva a folha ao cravo, /E tenho raiva a mim mesmo / Por não ser do teu agrado”. Vassoura do céu Vento Norte, por vezes, violento que varre as nuvens e faz levantar chuva. Também denominado *Nortão, *Norte rijo e *travessião. Vendaval Outrora, nome do vento Sul ou de Sudoeste, a par do *austro. Hodiernamente, sinónimo de temporal e de vento tempestuoso. Também vento meridional considerado pestilencial. Diz-se que se os bois bramem, cabriolando e escornichando-se uns aos outros, pressagiam vendaval forte. *Austro Siroco, *austro Noto, *euronoto, *libanoto. Ventania Vento violento, às rajadas. Ventinho Vento mais forte, em Setúbal. Vento da Barra Vento do quadrante Oeste, proveniente da Barra (de Viana, do Cávado, de Aveiro). *Bareiro, *barreiro, *vareiro. Vento da Castanheira Vento de Levante. O mesmo que *soão, na Trofa. Vento da charneca Sopra na Beira Baixa. Também denominado *charneco. Vento da Covilhã Vento do Sul, na Guarda. Vento da fanada *Cabra fanada. Vento da Grova Vento do Nordeste, em Melgaço. Vento da Maré Sopra de Oeste no Baixo Alentejo. Vento da montanha Vento de Leste, em Guimarães. *Vento da Penha. Vento da Nazaré Vento de Noroeste, em Turquel (Alcobaça). O mesmo que *atravessado. Vento da Penha *Vento da montanha.

Vento da Serra Vento que sopra da Serra da Estrela. Também denominado *Serrano e *calceteiro da serra. Em Turquel (Alcobaça) o *soão sopra do lado da serra dos Candeeiros ou Albardos. “Vento da serra, chuva na terra, “Vento da serra, se melhor chove, melhor neva”. Vento da Terra Chã Vento procedente daquela região, em Carvalha (Oliveira do Hospital). Vento da Terra fria Entre os marítimos do Tejo é crença generalizada que os ventos começam a soprar ou aumentam de velocidade (refrescam) quando se lhes assobia. Vento de água *Vento temporal. Vento de Arouca Sopra de Sueste, em Lousada. “De Arouca, vento muito, chuva pouca”. Vento de baixo Vento do Sul, em Turquel (Alcobaça). Chuvoso e quente, é, por excelência, o vento da chuva, em Portugal. Na Póvoa de Varzim denominam-no *rasteiro-neblinoso. A respeito dele, lê-se na Comédia Rubena de Gil Vicente: “Que, como o vento é de baixo / Logo a chuva é no terreiro, /E o Tejo faz lameiro /Nas lezeiras [lezírias] do Cartaxo”. Vento de Buarcos Sopra de Noroeste. Também denominado *vianês, de Mira, ou Mirão, de Viana, do Cabo Mondego, Vento Figueiredo (Figueira da Foz), Coimbrão, Vieiro (Vieira de Leiria), Sãomartinheiro (S. Martinho do Porto), Berlengueiro, Alcaçarenho (Alcácer do Sal) e Odemiro. Vento de entre montes Vento do Monte da Guia e do Monte Queimado, na Horta (Açores) Vento de Espanha Vento de Nordeste a Sudeste, em Setúbal. Traz chuva. Vento de Mira Sopra de Noroeste. Também denominado *vianês, de Viana, Mirão, de Buarcos, do Cabo Mondego, Vento Figueiredo (Figueira da Foz), Coimbrão, Vieiro (Vieira de Leiria), Sãomartinheiro (S. Martinho do Porto), Berlengueiro, Alcaçarenho (Alcácer do Sal) e Odemiro. Vento de Montouto Vento de Noroeste, em Rabal (Bragança). Como é impetuoso e derruba árvores, diz-se: “Vento de Mntouto não chega o pão de um ano ao outro”. Também denominado *galego e *furacão.

Vento de Pombal Em Pombaleiro (Buarcos) diz-se deste vento que sopra de Pombal:

“Vento de Pombal promete bem e paga mal”. Vento de saltos Também *volta de cão, vento que se faz sentir na Praia da Rocha, durante o Inverno, sendo considerado prenúncio de mau tempo. Ronda no sentido oposto ao do vento dextrorso, ou da *volta direita. Vento de San Marcos Vento de Nordeste, em Cucujães (Oliveira de Azeméis). Vento de Santa Catarina Vento de Sudoeste, em Turquel (Alcobaça). O mesmo que *catrineiro. Vento de Santa Trega Sopra de Noroeste, desde o alto de Santa Tecla. Vento de São Vicente Vento que sopra desde esse lugar beirão. Vento de Seabra *Seabrês, *senabrês, *chabrês, *chiabrês. Vento de Sortelha Vento de Sueste, tempestuoso e quase sempre de temer. Em Belmonte, diz-se dele: “Com vento de Sortela, solta os bois e tira a relha”. Vento de Teira Vento de Sueste, em Turquel (Alcobaça). Precursor de chuvas abundantes: “Vento de Teira, criva os bois e larga a geira”, ou “Vento de Teira toma os bois, derrega a geira”. Vento de terra fora Vento que sopra do Pico, no Faial. Vento de Viana Sopra de Noroeste. Também denominado *vianês, de Mira, ou Mirão, de Buarcos, do Cabo Mondego, Vento Figueiredo (Figueira da Foz), Coimbrão, Vieiro (Vieira de Leiria), Sãomartinheiro (S. Martinho do Porto), Berlengueiro, Alcaçarenho (Alcácer do Sal) e Odemiro. Vento de volta direita *Rodeiro. Vento do Cabeço do Fogo Vento que sopra na Praia Grande do Faial, procedente daquele local. Vento do Cabo Mondego Sopra de Noroeste. Também denominado *vento de Viana, *vianês, *vento de Mira, ou *mirão, *vento de Buarcos, *vento Figueiredo

(Figueira da Foz), *coimbrão, *vieiro (Vieira de Leiria), *sãomartinheiro (S. Martinho do Porto), *berlengueiro, *alcaçarenho (Alcácer do Sal) e *odemiro. Vento do campo Vento que sopra da Pampilhosa da Serra. Também denominado *camponês. Vento do Caramulo Vento do Sul, em Macieira de Alcoba. Precede ou acompanha chuvas copiosas. Denominado *braguês, em Ponte da Barca. Vento do mar Vento de Oeste, em Turquel (Alcobaça). Na Póvoa é denominado *gaivoteiro. No Tejo chamam-lhe *vento de fora. O mesmo que *mareiro. Vento do Marão Vento do Norte, em Cucujães. Vento do Montemuro Sopra do quadrante Noroeste. *Vento do muro. Vento do muro Vento que sopra das Portas de Montemuro. Vento do pego Vento de Sul, ou de Sudoeste, no Alentejo. Vento da chuva ou da invernia. Vento dos tinhosos Vento Noroeste que sopra da Graciosa, cujos habitantes têm na Terceira aquela alcunha. Vento Figueiredo Sopra de Noroeste, que sopra da Figueira da Foz. Também denominado *vento de Viana, *vento de Mira, ou *mirão, *vento de Buarcos, *vento do Cabo Mondego, *coimbrão, *vieiro (Vieira de Leiria), *sãomartinheiro (S. Martinho do Porto), *berlengueiro, *alcaçarenho (Alcácer do Sal) e *odemiro. Vento galego Em Torre de D. Chama, quando sopra este vento, diz-se que um galego morreu arrebentado. Vento largo Aquele que uma embarcação recebe pelo travão da popa. Vento Leste Muito temido, sobretudo pelos pastores açorianos. “Vento Leste é pior que peste”.

Vento pego Também *vento do pego. Conhecido em todo o Alentejo e na orla meridional da Península de Lisboa. Denomina-se assim por vir do mar (do grego, pelagus, donde pego). Em virtude de trazer chuva, diz-se no Alentejo: “Quando Dês qu’ria / Do Pego ventava / e do Norte chovia”. Vento real Vento Norte (sopra de cima). O mesmo que*vento rei. Vento rei *Vento real. *Rei dos ventos, *guião, *guieira, *guiarra. Vento Sul Vento tecido Vento que traz chuva, nas Flores (Açores). Vento temporal *Vento de água, que anuncia chuva. “Nunca vi ventar do Sul, que aos três dias não chovesse”. Ventos alísios Ventos que sopram com persistência, a partir dos trópicos, em direcção ao Equador, nos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. No Hemisfério Norte sopram de Nordeste, no Hemisfério Sul de Sudeste. Ventos contra-alísios Ventos que sopram com persistência acima do Trópico de Câncer e abaixo do Trópico de Capricórnio, em sentido oposto aos ventos alísios. *Ventos gerais. Ventos gerais *Ventos alísios e *ventos contra-alísios. Vianês Sopra de Noroeste. Também denominado *vento de Viana, *vento de Mira, ou *mirão, *vento de Buarcos, *vento do Cabo Mondego, *vento Figueiredo (Figueira da Foz), *coimbrão, *vieiro (Vieira de Leiria), *sãomartinheiro (S. Martinho do Porto), *berlengueiro, *alcaçarenho (Alcácer do Sal) e *odemiro. Vieiro Vento Noroeste que sopra de Vieira de Leiria. Também denominado *vento de Viana, *vianês, *vento de Mira, ou *mirão, *vento de Buarcos, *vento Figueiredo (Figueira da Foz), *Coimbrão, *sãomartinheiro (S. Martinho do Porto), *berlengueiro, *alcaçarenho (Alcácer do Sal) e *odemiro.

Viração Vento que sopra do mar. Em Setúbal, diz-se do vento que sopra do quadrante Sul, no Verão. De acordo com Gaspar Correia (Lendas da Índia), “com ela entram nos portos e rios os navios, e com ela não podem sair”. Volta de cão

Também *vento de saltos, que se faz sentir na Praia da Rocha, durante

o Inverno, sendo considerado prenúncio de mau tempo. Ronda no

sentido oposto ao do vento dextrorso, ou da *volta direita. Volta direita Vento característico da Praia da Rocha (Algarve), oposto do *vento de

saltos ou da *volta de cão.

Xalouco Vento morno, de Sueste, que sopra no litoral, da região de Loures às Caldas da Rainha. O mesmo que *xarouco. Por vezes, traz alguma chuva. Na região de Palmela é denominado *palmelão e temido pelos marítimos. Xaroco *Vento terral (Morais), ou vento quente de Sueste, que sopra no Mediterrâneo. Nome derivado do italiano Sirocco, vento quente e seco que sopra do deserto do Saará. No Turcifal (Torres Vedras) diz-se que

sopra “de entre soão e Lisboa”, i. e., de um quadrante entre nascente e Sul. Leite de Vasconcelos recolheu no Bombarral, uma quadra alusiva

a este vento, variante de uma outra publicada por Óscar de Pratt na

Revista Lusitana (v. 17, 1914, p. 199): “O vento Xarôco / Promete muito e dá pouco; / Mas se porfia, é de noite e de dia” (cf. Revista Lusitana, v. 20, 1917, p. 163). Xarouco *O mesmo que *xaroco.

Zéfiro Irmão de *Bóreas e Notos, na mitologia grega. Vento ou “sopro harmonioso e refrescante”, correspondente ao *Favónio latino, que, consoante Estrabão (Geografia, III, 2, 13), se levanta do Oceano (Oeste) e favorece o clima temperado do ocidente da Hispânia. Iconografado no mosaico central da vila romana de Milreu.

Bibliografia: FIGUEIREDO, António Pereira de, Das égoas da Lusitânia, de que se creo que se concebiam do Zefyro, e onde era nos campos de Lisboa que ellas pastavão, in Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, v. 9 (1825); MARIA CANTO,

Alicia, Un ‘Mito’ Homérico en Ibéria: Zephyrus y las Yeguas de Olisipo. Nuevos Textos Ensayo de Explicación desde la Genómica, in Lusitânia Romana entre o Mito e a Realidade Actas da VI Mesa Redonda Internacional sobre a Lusitânia Romana, Lisboa, 2012, p. 165-218

sobre a Lusitânia Romana , Lisboa, 2012, p. 165-218 Zéfiro - Mosaico de Milreu (Algarve) Zimbre

Zéfiro - Mosaico de Milreu (Algarve)

Zimbre *Agudo. Zurrá o Ribamá Vento do quadrante Sul, no Vale de Lafões, onde é sempre sinal de chuva.

BIBLIOGRAFIA

CORTEZ, Russel Os Corta-ventos e a superstição dos Pescadores, in Douro-Litoral, v. 3 (1941), p. 43-48 GANDRA, Manuel J. Portugal Sobrenatural, v. 1, Lisboa, 2007 idem Astrologia em Portugal: dicionário Histórico-Filosófico, Lisboa, 2010 GIRÃO, A. de Amorim Ventos predominantes em Portugal e seus nomes populares e tradicionais, O Instituto, v. 115 (1953), p. 656-687 LEMOS, António Correia de A Fenix das Tempestades renascida no dia 15 de Outubro de 1732 com um discurso sobre os ventos, Lisboa, 1732 [saíu anónimo, tendo suscitado o surgimento de outro folheto intitulado Pennas que cahiram de uma das azas ao celebrado Fenix das Tempestades (Lisboa, 1733), subscrito por Cosme Fragoso de Matos, mas atribuível ao Padre Vitorino José da Costa] PRATT, Óscar de Nomes de ventos, in Revista Lusitana, v. 17 (1914), p. 198s; v. 18 (1915), p. 219-222; v. 20 (1917), p. 119-128 RIBEIRO, L. Nomes de vento e do diabo, in Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, v. 2 (1944), p. 299-302 VASCONCELOS, J. Leite Tradições da Atmosphera em Portugal, in Revista Lusitana, v. ?? (1880?), p.

216-223

Idem Nomes de ventos, in Revista Lusitana, v. 20 (1917), p. 162-163

DOIS POEMAS SOBRE O VENTO

Afonso Lopes Vieira

DANÇA DO VENTO

e o vento as deixa, abalando,

- e lá vai!

O vento é bom bailador,

 

baila, baila e assobia,

O

Vento é bom bailador,

baila, baila e rodopia

baila, baila e assobia,

e

tudo baila em redor!

baila, baila e rodopia

 

e

tudo baila em redor!

E

diz às ondas que rolam:

 

-

Bailai comigo, bailai!

E

diz às flores, bailando:

e

as ondas no ar se empolam,

-

Bailai comigo, bailai!

em seus braços nus

E

elas, curvadas, arfando,

o

enrolam, e batalham,

começam, débeis, bailando,

e

seus cabelos se espalham

e suas folhas tombando,

uma se esfolha, outra cai,

e o vento as deixa, abalando,

- e lá vai!

nas mãos do vento, flutuando,

e o vento as deixa, abalando,

- e lá vai!

O vento é bom bailador,

O

vento é bom bailador,

baila, baila e assobia,

baila, baila e assobia,

baila, baila e rodopia

baila, baila e rodopia

e

tudo baila em redor!

e

tudo baila em redor!

 

E

diz à chuva caindo:

E

diz às altas ramadas:

-

Bailai comigo, bailai!

-

Bailai comigo bailai!

E

ao dela seu corpo unindo,

E

elas sentem-se agarradas,

beija-a na boca, sentindo

bailam no ar desgrenhadas,

que ela o abraça, sorrindo,

bailam com ele assustadas,

e

desmaia, volteando,

cansadas, suspirando,

e

já verga ao beijo, e cai,

e o vento as deixa, abalando,

e

o vento a deixa, abalando,

- e lá vai!

-

e lá vai!

O vento é bom bailador,

baila, baila e assobia, baila, baila e rodopia

e

tudo baila em redor!

E

-

No quieto chão remexidas,

as folhas, por ele erguidas,

diz às folhas caídas:

Bailai comigo, bailai!

Manuel Alegre

TROVA DO VENTO QUE PASSA

Pergunto ao vento que passa notícias do meu país

pobres velhas ressequidas

e

o vento cala a desgraça

e

pendidas como um ai,

o

vento nada me diz.

bailam, doidas e chorando,

Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas

ai rios do meu país

minha pátria à flor das águas

para onde vais? Ninguém diz.

Vi navios a partir

(minha pátria à flor das águas)

vi minha pátria florir

(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada

e fale pátria em teu nome.

Eu vi-te crucificada

nos braços negros da fome.

Se

o verde trevo desfolhas

E

o vento não me diz nada

pede notícias e diz

o silêncio persiste.

ao

trevo de quatro folhas

Vi

minha pátria parada

que morro por meu país.

à beira de um rio triste.

Pergunto à gente que passa

Ninguém diz nada de novo

por que vai de olhos no chão.

se

notícias vou pedindo

Silêncio -- é tudo o que tem

nas mãos vazias do povo

quem vive na servidão.

vi

minha pátria florindo.

E

a noite cresce por dentro

Vi florir os verdes ramos

direitos e ao céu voltados.

dos homens do meu país. Peço notícias ao vento

E

a quem gosta de ter amos

e

o vento nada me diz.

vi

sempre os ombros curvados.

Mas há sempre uma candeia

 

dentro da própria desgraça

E

o vento não me diz nada

sempre alguém que semeia

ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

nos braços em cruz do povo.

canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão

Vi

minha pátria na margem

sempre alguém que resiste

dos rios que vão pró mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar.

sempre alguém que diz não.