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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE BRAGANÇA


FACULDADE DE LETRAS - FALE
CURSO: LETRAS – LÍNGUA PORTUGUESA
DISCIPLINA: SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA
PROFESSOR: DR. ANTONIO HERIBERTO CATALÃO JR.

CANÇÃO JOÃO E MARIA -


DO ABSTRATO AO CONCRETO

Deyglyson Luan Ferreira


Gilberlândia Monteiro
Rafael Coimbra

BRAGANÇA/PARÁ
JANEIRO/2018
CANÇÃO JOÃO E MARIA - DO ABSTRATO AO CONCRETO
Deyglyson Luan Ferreira*
Gilberlândia Monteiro**
Rafael Coimbra***

1. INTRODUÇÃO
João e Maria é uma canção da MPB, cuja melodia foi composta por Sivuca em 1947;
a letra, por Chico Buarque em 1976. O tema da música é o amor. No entanto, este é retratado
a partir da ótica infantil, daí o nome João e Maria, que remete à história infantil de mesmo
nome universalmente conhecida.
O que se pretende, a seguir, é analisar a letra da canção sob a perspectiva da semiótica
francesa, segunda a qual todo texto é dotado de esquemas de organização comuns, em que é
possível perceber que diferentes elementos do nível da superfície podem significar a mesma
coisa num nível mais profundo (FIORIN, 2009).
Ainda de acordo com Algirdas Julien Greimas, autor da teoria, produzir ou interpretar
o sentido de um texto compreende percorrer três etapas fundamentais, quais sejam, o nível
profundo ou fundamental, o nível narrativo e o nível discursivo. Estes três níveis constituem o
chamado Percurso Gerativo de Sentido. A análise da letra de João e Maria será feita seguindo
exatamente esse percurso: do mais simples ao mais complexo, do mais abstrato ao mais
concreto.

______________________
* Graduado em Letras-língua inglesa. Universidade Federal do Pará - Campus de Bragança (UFPA).
Graduando em Letras-língua portuguesa. Universidade federal do Pará – Campus Bragança
E-mail: luan.ferreira914@gmail.com
** Graduando em Letras-língua portuguesa. Universidade Federal do Pará - Campus de Bragança
(UFPA). E-mail: gilberlandiamonteiro@yahoo.com.br
*** Graduando em Letras-língua portuguesa. Universidade Federal do Pará - Campus de Bragança (UFPA).
E-mail: rafael.scoimbra@gmail.com
2. NÍVEL FUNDAMENTAL
Como foi supracitado, em João e Maria o tema é o amor. Observa-se, no entanto, no
decorrer da narrativa, circunstâncias que mantêm entre si relação de oposição. Nas duas
primeiras estrofes, são narradas as situações positivas: “Agora eu era herói” / “E ensaiava um
rock para as matinês”, primeiro e último versos da primeira estrofe; “Agora eu era o rei” / “E
você era a princesa que eu fiz coroar”, primeiro e antepenúltimo versos da segunda estrofe.
Por outro lado, nas duas últimas estrofes são narradas as circunstâncias negativas.
Nota-se que a terceira estrofe já inicia com termos de negação: “Não, não fuja não”. É como
se Maria estivesse escapando ao alcance de João. A última estrofe é bastante significativa de
uma situação que chega ao fim de forma infeliz: “Agora era fatal” / “Que o faz de conta
terminasse assim”, primeiro e segundo versos; “E agora eu era um louco a perguntar” / “O
que é que a vida vai fazer de mim?”, penúltimo e último versos.
De outro modo, pode-se dizer que as duas primeiras estrofes narram o estado de
felicidade de João, os momentos em que ele tem Maria para si; ao passo que as duas últimas,
narram o estado de infelicidade de João, o momento em que Maria escapa ao alcance dele.
Temos, aí, portanto, uma oposição semântica. Dois termos que estão na base da composição
da música se opõem, e cuja existência de um pressupõe a existência do outro, e, por isso,
formam a categoria semântica do nível fundamental, quais sejam, /felicidade/ versus
/infelicidade/.
Quanto ao aspecto semântico, observa-se que as duas primeiras estrofes trazem
elementos positivos, que confirmam o estado de felicidade, como já explicitado; o inverso
ocorre nas duas últimas estrofes, onde os elementos textuais confirmam a infelicidade. A
felicidade, portanto, é termo que possui valor positivo, ou seja, eufórico; enquanto a
infelicidade possui valor negativo, disfórico.
No que concerne ao componente sintático do nível fundamental, é possível identificar,
no transcurso de João e Maria, a seguinte operação: /afirmação da felicidade/ → /negação da
felicidade/ → /afirmação da infelicidade/.
Ei-los os elementos textuais que corroboram tal operação:
 afirmação da felicidade: “Agora eu era herói”; “E ensaiava um rock para as
matinês”; “Agora eu era o rei”;
 negação da felicidade: “Não, não fuja não”; “Agora era fatal”; “Que o faz de conta
terminasse assim”;
 afirmação da infelicidade: “Pois você sumiu no mundo sem me visar”; “E agora
eu era um louco a perguntar”; “O que é que a vida vai fazer de mim?”.
Desse modo, representa-se o quadrado semiótico da seguinte forma:

FELICIDADE ---------------- INFELICIDADE

Ñ INFELICIDADE ---------------- Ñ FELICIDADE


--------- relação de contrariedade
relação de contradição

3. NÍVEL NARRATIVO
Primeiramente, percebe-se logo na primeira estrofe - a partir da construção sintática da
mesma - que o tempo de referência é o presente da enunciação. Este tempo é marcado logo no
primeiro verso da primeira estrofe: “Agora eu era o herói”. Nesta primeira estrofe, há um EU
que fala para um TU usando o marcador de tempo da enunciação AGORA; no entanto, este
EU também utiliza do verbo ERA no mesmo verso: “Agora eu era o herói”. Este verbo surge
para fazer referência a um tempo que está além do tempo referente da enunciação e, assim,
transparecer a ideia de um “faz de conta” que permeia em grande parte da narrativa que,
também, utiliza-se do pretérito imperfeito para fazer a construção do faz de conta:
E o meu cavalo só falava inglês
Eu enfrentava os batalhões
E ensaiava o rock para as matinês

A marcação temporal AGORA (presente) está em concomitância durativa em relação


ao pretérito imperfeito ERA. Fica evidente o uso da embreagem, em que o presente é
substituído pelo pretérito imperfeito. Isto acontece para indicar um fato imaginário,
hipotético. Segundo Fiorin (2016, p.166), “O tempo do discurso é sempre uma criação da
linguagem, com a qual se pode transformar o futuro em presente, o presente em passado e
assim por diante”. A expressão “Agora eu era” vem substituir a expressão “Era uma vez” para
trazer esse tempo mítico do desejo de estar ao lado de sua princesa, de seu grande amor.
É possível observar na letra de João e Maria, dentro do nível narrativo, que o sujeito
está em um estado de privação, ou seja, ele começa em conjunção com seu objeto de valor,
sua amada - por meio da imaginação - e termina em disjunção com a mesma - ao voltar a
realidade. Nas primeiras estrofes da narrativa, o sujeito vai imaginando-se numa posição
superior e tendo a amada como sua: “Agora eu era o herói” / “A noiva do cowboy era você” /
“Agora eu era o rei” / “E você era a princesa que eu fiz coroar”. A partir da penúltima estrofe,
ele começa a entrar em disjunção com ela e tenta manipulá-la, através da tentação, mas sem
sucesso. Na última, estrofe ele entra de vez em disjunção com esse “faz de conta” e
consequentemente com seu amor, levando a uma sanção negativa, ou seja, o sujeito está
disjunto de seu objeto de valor, a amada, e conjunto com a solidão, que é a sua realidade.
Dessa maneira, têm-se os seguintes esquemas:

E¹= S Ո Ov (Amada, faz de contas) → E²= S U Ov (Solidão, realidade)

E¹= S U Ov (Amada, faz de contas) → E²= S Ո Ov (Solidão, realidade)

4. NÍVEL DISCURSIVO
Observa-se neste – que é o nível mais complexo da análise semiótica – uma
construção mais concreta do enunciado para a construção dos sentidos. Portanto, partindo das
articulações e construções sintáticas e figurativas da canção pode-se depreender o conteúdo da
mesma permitindo, assim, uma construção de sentido ligada às descrições são estabelecidas
nela.
O “faz de conta”, que é uma característica da brincadeira infantil e que irá permear por
grande parte da narrativa, por pode ser inferido de logo de início, observando-se o título da
canção: João e Maria. Tal título remete ao conto de fadas infantil João e Maria; a construção
de conteúdo leva-nos, através das figuras do título, ao pensamento infantil do “faz de conta”,
da brincadeira, da imaginação. Desse modo, o título já fornece a direção de sentido que a
canção irá tomar em relação à construção do ambiente infantil; isso fica evidente nas
construções verbais – já analisadas no nível narrativo – bem como nas construções figurativas
que surgem nas estrofes que constituem a canção.
Nas duas primeiras estrofes, a canção retrata uma brincadeira entre um garoto e uma
garota - sua amiga/amada; cada verso aborda as construções imaginárias que são feitas pelo
garoto. Nas duas últimas estrofes, percebe-se a mudança do tom de brincadeira para um tom
menos feliz; nestas estrofes há a partida da amiga/amada e, assim, o fim do faz de conta - que
é marcado na última estrofe.
A canção, portanto, é figurativa, pois as figuras manifestam os temas da Brincadeira
infantil (felicidade), no primeiro caso - nas duas primeiras estrofes -, e da perda/partida
(infelicidade), no segundo - duas últimas estrofes.
Na primeira e segunda estrofes, pode-se destacar as seguintes figuras:

Primeira Estrofe Segunda Estrofe


Agora eu era o herói Agora eu era o rei
E o meu cavalo só falava inglês Era o bedel e era também juiz
A noiva do cowboy E pela minha lei
Era você além das outras três A gente era obrigado a ser feliz
Eu enfrentava os batalhões E você era a princesa que eu fiz coroar
Os alemães e seus canhões E era tão linda de se admirar
Guardava o meu bodoque Que andava nua pelo meu país
E ensaiava o rock para as matinês

Na terceira e quarta estrofes, destacam-se as seguintes figuras:

Terceira Estrofe Quarta Estrofe


Não, não fuja não Agora era fatal
Finja que agora eu era o seu brinquedo Que o faz-de-conta terminasse assim
Eu era o seu pião Pra lá deste quintal
O seu bicho preferido Era uma noite que não tem mais fim
Vem, me dê a mão Pois você sumiu no mundo sem me avisar
A gente agora já não tinha medo E agora eu era um louco a perguntar
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha O que é que a vida vai fazer de mim?
nascido

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FIORIN, José Luiz. Elementos da análise do discurso. 14. ed. 2ª reimpressão. São Paulo:
Contexto, 2009.

FIORIN, José Luís. Introdução à linguística II. 5ºedição, 3º reimpressão. São Paulo:
contexto, 2016.