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- Ora Marcelle, o que é que eu te digo sempre?

Não é que você é um

Aquele contorcer de lábios era de uma eloquência tamanha, pois comu- anjo escondido em pele de menina? Não é que você é o meu anjo?

nicava a mamãe minha total incapacidade de saber quem poderia saber com cer- “Dom Teles” é pseudônimo do poeta e escritor goiano Joaquim Teles de Faria, esse filho Ansiosa eu respondia acenando com a cabeça e com palavras ávidas de esclareci-

teza que eu era um anjo, se somente ela me falava disso. Mamãe então continua- da Chapada dos Veadeiros no Nordeste Goiano, graduado em História pela Universidade Estadual mentos.

va... de Goiás - UEG e Mestrando em Literatura pela Universidade de Brasília - UNB, que desde muito - Sim mamãe é o que a senhora sempre me diz, mas eu nunca entendo
cedo quando despertava para as primeiras letras, sentiu despertar em si a vocação para a escrita pro- como sou um anjo se não tenho asas, se não posso voar, senão na minha imagi-
Minha mãe era um ser maravilhoso, tão frágil, tão dócil, tão amável e ao
mesmo tempo de uma força invencível, de uma determinação, uma resignação saica e para a poesia, com as quais sempre teve contato desde a mais tenra infância. nação!
fascinante. Ela percebia como sua história me atingia, mais do que atingia, ela Nesse percurso ao passo que crescia, aprendia a ouvir a prosa oral dos mais velhos com os Mamãe então tomava-me em seu colo e me dizia:
sabia que o que vivenciávamos enquanto mãe e filha, me marcaria para sempre,
me definiria em grande medida, enquanto pessoa e enquanto mulher. quais convivia e daí hauria toda a beleza e sedução da arte de narrar, logo estava também ele a ensaiar - Minha filha, você é meu anjo! Porque que você é meu anjo? Por que
seus primeiros versos e seus primeiros causos. assim, quis a vida. Entre tantas mulheres que poderiam ser a sua mãe Deus deci-
Acho que por tudo isso que ela via e de algum modo sabia, ela procura-
va adoçar-me temperando com sua doçura, seu amor e sua poesia sempre tão Nas primeiras poesias e escritos usava o pseudônimo de “Kiko di Faria”, alcunha com o diu que seria eu, e assim, deu-me você, um dos seus mais belos e queridos anjos.

ANJO DE ASAS QUEBRADAS


rica em esperança e transcendência. qual assinou os seus trabalhos escritos durante toda a primeira fase de sua vida produtiva, que durou Desse modo você nasceu para tornar a minha vida mais feliz, por isso você é o
Recordo-me que ela sempre me dizia, desde a minha mais tenra lem- de sua alfabetização até o ano de 2016. No ano de 2017, passou por mudanças profundas que o le- meu anjo. E porque só eu te digo que você é um anjo? Ora filha! Só eu posso
brança, que eu era um anjo, o seu anjo. Que eu nasci pequenina, frágil e sensível, varam a adotar o nome de batismo como alcunha para assinar suas criações, porém a alma fractária ver o anjo que você é, os outros não são capazes de te ver como você é verda-
linda, linda, linda... Assim, me dizia minha mãe!
do artista clamava por um novo codinome que atendesse a sua necessidade, tendo em vista que o deiramente. Só quem olha com os olhos do amor é capaz de ver o que o outro é
- ah, minha filha! Você era o bebê mais lindo que esse mundo já rece-
nome de batismo tem uma dimensão social e histórica que pesa na obra que é resultado de um pris- de verdade. Eu olho para você Marcelle com os olhos do amor e por isso eu
beu! Jamais me esquecerei da emoção que foi, olhar você pela primeira vez. To-

ANJO
cá-la em sua pureza e fragilidade, tê-la em meus braços em nosso primeiro con- ma pelo qual o poeta olha como observador e criador e nessa perspectiva está então condicionado a posso te dizer com toda certeza, você é o meu anjo! Um anjo escondido em pele
tato pós-parto. Recebê-la em nosso primeiro abraço, onde você com sua pele de
uma situação, a um momento, a um período que pode durar ou não, assim, para eximir o uso do no- de menina. E tem mais, se você está escondida em pele de menina, meu anjo,
porcelana, pele de maciez incomparável e beleza indescritível, concluiu a mãe
que nascia em mim desde o primeiro momento da gravidez, dando me seu pri- me de batismo, surge um novo codinome para nominar um novo ser que emana do poeta como quem olhar pra você não verá o anjo, mas somente a pele de menina que te ves-
meiro abraço. Abraço dócil que sacramentou em mim a mãe que toda mulher é
mais uma face dessa alma multifacetada que faz o escritor joanino. te e esconde o anjo. É também por isso que ninguém te olha e te diz que você é
em potencial.
Em 2018 “Dom Teles” surge como esse codinome essa nova face do poeta e a presente obra um anjo, senão eu. Afinal eu sou a sua mãe, e mãe sabe tudo, tudo, tudo, tudo,
Quando seus pequeninos e ávidos lábios receberam e acolheram meu
seio e assim alimentou-te matando sua fome pela primeira vez, ali naquele ato, a prosaica é a primeira que vem a lume à partir dessa nova identidade. mãe sabe até o que ignora.
uma só vez, simultaneamente, você se confirmava como filha e eu como mãe, O romance ANJO DE ASAS QUEBRADAS, surge à partir de percepções do poeta de como se dá - Quanto às suas asas meu anjinho, pode ser que elas estejam crescendo
numa relação que jamais teria fim.
na pratica cotidiana a metáfora do “Anjo Caído” que constitui cada ser humano nesse mundo materi- escondidas por debaixo da pele de menina e um dia elas apareçam lindas e impo-
Quando minha mãe assim falava, ela parecia que se transfigurava, entra- al, onde transcender é por vezes um desafio titânico, quase impossível. A narrativa apresenta a jor- nentes encantando o mundo. Porém pode ser que você seja de uma espécie de
va em contato com algo que a habitava em algum lugar tão profundo que só
muito raramente conseguia soerguer-se e se fazer visível em seus olhos, mati- nada de Marcelle, uma jovem que se rivaliza com o amor, nega a sua paternidade e busca não repetir anjo que não precisa de asas!
zando seu semblante com uma luminosidade indescritível, um brilho angelical. a história de sua mãe. Ao fugir de sua história Marcelle acaba repetindo a seu modo a trajetória de Essas conversas com mamãe se deram em muitas ocasiões por várias
Então nesse instante eu imaginava como o amor era belo e irresistível, dor e sofrimento que marcam a trajetória da mulher brasileira de classe mais baixa. vezes ao longo dos anos de minha infância, e a cada conversa o assunto se tor-
porém muito raramente isso acontecia, e quando acontecia era por breves ins-

DE ASAS QUEBRADAS
Marcelle que sempre ouviu a mãe a chamar de seu anjo sofre com a perda precoce de sua nava mais complexo, em razão de minha curiosidade e elucubrações pueris sem-
tantes e logo a face monstruosa do amor dissipava essa compreensão poética e
pueril que era fruto das memórias e narrações de minha mãe, a rememorar suas mãe e com a relação tumultuada com o pai, um sujeito difícil como qual ela não se identifica. Nesse pre sedentas de sentidos e desejosas de poder voar para além da minha imagina-
alegrias, como alguém que tem nesses poucos momentos felizes a sua única ri- percurso Marcelle vai aprender a olhar para si mesmo, para suas raízes e então transcender alcançan- ção.
queza, já que a vida material e social, familiar e amorosa foi sempre marcada
pela escassez e pela dor. do sua real dimensão interior, libertando-se de tantas angustias e dores que a amarravam enquanto ela as negava e delas tentava fugir. Quando minha mãe me disse isso pela primeira vez eu levei minha mão-
Quando Marcelle se reconcilia com seu passado e com seus traumas e medo, ela então desperta para dimensões de si e da vida que lhe acompanhavam o tempo todo, mas para os quais ela zinha à boca expressando toda a minha surpresa e incredulidade. Ora, como era
Quando me lembro dessas coisas sempre fico a imaginar se teria sido de
fato assim, ou se tudo isso não passa de uma releitura de minha puerilidade, on- não tinha olhos, sendo incapaz de as conceber e perceber como parte de si e de seu mundo. O romance é uma história corriqueira, mas repleta de um olhar poético que permeia toda a prosa da obra, obvio isso que mamãe dizia, se eu estava escondida, como poderiam me ver? Eu
de algum artifício mental transfigura a infância e transmuta-a numa lembrança onde o autor transfere ao personagem muito do que tem vivido e sentido, pensado e experienciado na sua jornada mais recente. Contudo, a história de Marcelle, não é a história do autor, dialoga mentalmente concluía com espanto essa perspectiva que até então eu ignorava,
mágica que embevece a alma e convida a amar. Ou ainda, se não seria tudo isso
um belo papel de presente no qual mamãe cuidou de embrulhar nossa relação, com ela, porém é singular enquanto criação e não uma biografia. Aborda questões como sexo, droga e liberdade feminina, igualdade de gêneros e discriminação social, porém de modo bem sutil, on- enquanto exprimia em verbo oral a minha surpresa indisfarçável.
nossa história e nossas dores, para que elas me ferissem o menos possível, pois de diluído no textos estes aspectos ora ou outra fazem se perceptíveis ao leitor. Para além desses aspectos Anjos de Asas Quebradas é mais uma obra literária que jorra da relação de amor que o poe- - Mamãe! Então existem anjos sem asas?
mamãe sempre tentou me convencer com sua doçura e amabilidade maternas,
com sua eloquência mansa e serena, de que eu era um anjo escondida em pele ta goiano mantem com as palavras. Mamãe se ria deliciosamente com minha pergunta e surpresa e concluía certeira
de menina. Qualquer livro é uma forma de vencer a voracidade do tempo e de se eternizar na “memoria vegetal” (pra citar o termo magnifico do escritor italiano Umberto Eco) do objeto livro, bem co- a me convencer pelo menos por enquanto.
Lembro-me de sempre devanear na crença infantil de que minha mãe mo na memória do leitor, pois que o livro é um guardião de memórias, tanto no âmbito coletivo, quanto no individual uma vez que ainda que seja uma ficção, traz em si dimensões do real, seja da - Sim minha linda Marcelle. Existem anjos com asas e anjos sem asas.
dizia a verdade e que eu era de fato um anjo. Assim, me deitava no chão e fitava

DOM TELES
realidade do autor, seja do contexto no qual a obra foi gerada, assim, o livro é uma porta que leva para muitos lugares, dependendo tão somente do desejo que motiva o leitor e dos pressupostos que Assim, como existem pessoas de pele branca e de pele preta, de olhos escuros e
o céu azul profundo da Chapada dos Veadeiros onde de tanto olhar eu me via a
voar, a voar pela imensidão celeste. Um voo tão belo quanto era belo o olhar este possui para se apropriar do texto e por meio da memória de outrem viajar por mundos, realidades e dimensões que só o livro pode permitir-lhe experimentar. Sendo assim, desejo a todos que olhos claros, de cabelos lisos e de cabelos enrolados, de grande altura e de pe-
transfigurado de mamãe a me dizer que era eu um anjo.
se atreverem a abrir a presente porta, uma boa e edificante leitura, uma boa e inesquecível viagem. quena altura, magrinhos e gordinhos... Quer saber Marcelle, isso tudo acontece
Depois de muito voar no céu azul com as asas de minha imaginação fe- porque Deus é muito, muito, muito criativo e assim ele não para de criar novas
cundada pelas palavras de mamãe, eu sempre me inquietava e desistia do voo
para questioná-la e dizia com toda a sapiência de uma criança inquieta e angusti- coisas, novas pessoas e novos anjos e por isso ele tem anjo com asas e anjos sem
ada pela dissonância que marcava a beleza da sorte de ser um anjo e a incon- asas, pessoas pequenas e pessoas grandes, e assim por diante.
gruência de não ver em mim a aparência do anjo.
- Mas mamãe! - insistia eu curiosa - Então tem anjo na terra e no céu,
Eu ia às vezes à igreja com a minha mãe e lá na Igreja matriz de São Jo- com asas e sem asas? - ao que ela dizia:
ão d’Aliança, dedicada a São João Batista, olhava atenta as imagens dos anjos
que ornavam vitrais e paredes. - Sim filha, o céu e a terra estão juntos, juntos como nós duas quando
estamos no mesmo abraço. Nós ficamos tão juntas que parecemos uma só, as-
Nesse ambiente sempre me impressionava a imponência e a beleza do
anjo Gabriel, na pintura da cena da Anunciação de Maria no altar de Nossa Se- sim é o céu e a terra, ninguém sabe onde termina um e começa o outro e embo-
nhora, uma obra de arte pintada pelo padre Bernardo, um missionário holandês ra sejam coisas diferentes, de tão apertados que estão nesse abraço, fica difícil
que se imortalizou na memória da comunidade São-joanense.
diferenciar um do outro e saber onde cada um está de verdade. Exatamente co-
As expressões do semblante do anjo Gabriel sempre me cativavam o
mo nós duas quando nos abraçamos ninguém sabe dizer onde começa a mamãe

DOM TELES
olhar e, me levavam a sonhar e a acreditar que eu era de fato um anjo e que
quando eu crescesse também minhas asas cresceriam e eu então tornar-me-ia e onde ela termina, onde começa a Marcelle e onde ela termina somos pessoas
uma figura magnifica como aquela que tanto me impressionava.
diferentes, mas estamos uma na outra como o céu e a terra perpassam um ao
Porém os anos iam passando e eu crescendo e nada de minhas asas nas- outro.
cerem. Nem mesmo uma pontinha! Em razão disso, sempre que me demorava a
fitar o céu imaginando que eu era um anjo a voar livremente pela imensidão - Que bonito mamãe! Eu não entendo direito, mas gosto disso, gosto de
azul, eu me inquietava e buscava a minha mãe a questioná-la sobre eu ser mes- quando estamos abraçadinhas forte, forte, forte e nos tornamos uma. No entan-
mo um anjo.
to eu quero minhas asas! Mesmo sabendo que papai-do-céu tem muitos tipos de
- Mãe diga-me de verdade e não brinques comigo... anjos, eu quero ser um anjo de asas. Um anjo de asas tão grandes e belas como
Eu sou mesmo um anjo? Se é verdade que sou um anjo, onde estão as as asas do Anjo Gabriel. E assim, como ele mamãe eu quero voar no céu, levan-
minhas asas? Porque elas não nascem? No que minha mãe se ria, tomava-me em do os filhos de Deus para morar na barriga das mamães, igual ele fez com Nossa
seus braços e cobria-me de beijos e cócegas a esfregar seu rosto embaixo do
meu queixo arrancando-me gargalhadas enquanto repetia entre carícias e risadas Senhora, quando ele levou Jesus para morar na barriga dela.
que eu era um anjo escondido em pele de menina. - Você é uma gracinha meu anjo! Mamãe dizia não cabendo em si de feli-
- Sim Marcelle você é um anjo, mas não é um anjo qualquer. Você é o cidade e eu não parava de perguntar.
meu anjo, anjo escondido em pele de menina... - Mamãe, mas não eram as cegonhas que levavam as crianças para as mamães?
Em face de minha insistência em saber de minhas asas, ela sempre dizia. Por que não foi a cegonha que levou Jesus para Nossa Senhora? Ela não gostava

- Ora minha filha! Quem você acha que sabe que você é um anjo?

Eu respondia em silêncio com um torcer de lábios que exprimiam me-


2018 de cegonhas?
Assim, entre questões e poesia, entre amor e fé, a pequena menina crescia e dava
lhor do que qualquer palavra, que eu não tinha a menor ideia. Afinal só ela me vazão à mulher que lhe habitava em potencial enquanto o anjo se desfigurava
dizia que eu era um anjo, nem meu pai me chamava assim. nas mãos do tempo a perder-se na infância que ficava a cada dia mais distante,
sobrevivendo tão somente nos olhos e nos lábios de minha amorosa mãe.