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MEDITAÇÕES

' Para a comodidade das referências, seguimos a numeração da edição Khodoss (P.U.F.)i em cada Medita-
ção, cada parágrafo é numerado; as alíneas das Segundas e Quintas Respostas são numeradas com um nú-
mero de crês algarismos, dos quais o primeiro designa as Segundas ou Quintas Respostas. Por exemplo, 203
significará Segundas Respostas, § 3, e 529: Quintas Respostas, § 29. A letra G acompanhada de um alga-
rismoreaacfeeà exposição geométrica que segue as Segundas Respostas.
AOS SENHORES DEÃO E DOUTORES
D A S A G R A D A F A C U L D A D E D E T E O L O G I A D E PARIS

Senhores,

A razão que me leva a apresentar-vos esta obra é tão justa — e, quando


conhecerdes seu desígnio, estou certo de que tereis o também justo desígnio de
tomá-la sob vossa proteção — que penso nada melhor poder fazer, para torná-la
de algum modo recomendável a vossos olhos, do que dizer-vos, em poucas pala-
vras, o que me propus nela.
Sempre estimei que estas duas questões, de Deus e da alma, eram as princi-
pais entre as que devem ser demonstradas mais pelas razões da Filosofia que da
Teologia: pois, embora nos seja suficiente, a nós outros que somos fiéis, acreditar
pela fé que há um Deus e que a alma humana não morre com o corpo, certa-
mente não parece possível poder jamais persuadir os infiéis de religião alguma,
nem quase mesmo de qualquer virtude moral, se primeiramente não se lhes pro-
varem essas duas coisas pela razão natural. E na medida em que se propõem
muitas vezes, nesta vida, maiores recompensas aos vícios do que à virtude, pou-
cas pessoas prefeririam o justo ao útil, se não fossem retidas pelo temor de Deus
ou pela expectativa de outra vida. E, embora seja absolutamente verdadeiro que
é preciso acreditar que há um Deus, porque isto é assim ensinado nas Santas
Escrituras, e, de outro lado, que épreciso acreditar nas Santas Escrituras, porque
elas vêm de Deus; e isto porque, sendo a fé um dom de Deus, aquele mesmo que
dá a graça para fazer crer nas outras coisas pode também dá-la para fazer-nos
crer que ele existe: não poderíamos, todavia, propor isto aos infiéis, que pode-
riam imaginar que cometeríamos nisto o erro que os lógicos chamam de círculo.
E, na verdade, cuidei que vós outros. Senhores, com todos os teólogos, não
somente assegurais que a existência de Deus pode ser provada pela razão natu-
ral, mas também que se infere da Santa Escritura que o seu conhecimento é
muito mais claro do que o que se tem de muitas coisas criadas e que, com efeito,
esse conhecimento é tão fácil que os que não o possuem são culpados. Como é
patente nestas palavras da Sabedoria, capítulo 13, onde é dito que a ignorância
deles não é perdoável: pois se seu espírito penetrou tão a fundo no conhecimento
das coisas do mundo, como é possível que não tenham encontrado mais facil-
mente o Soberano Senhor dessas coisas? E aos Romanos, capítulo primeiro, é
dito que são indesculpáveis. E ainda no mesmo lugar, por estas palavras: o que
é conhecido de Deus é manifesto neles, parece que somos advertidos de que tudo
quanto se pode saber de Deus pode ser demonstrado por razões, as quais não é
necessário buscar alhures que em nós mesmos, e as quais só nosso espírito é
84 DESCARTES MEDITAÇÕES 85

capaz de nos fornecer . Daí por que julguei que não seria absolutamente fora de
2
humano possa jamais descobrir outras melhores; pois a importância da questão
propósito que mostrasse aqui por que meios isto pode serfeito e que via é preciso e a glória de Deus à qual tudo isto se refere me constrangem a falar aqui um
tomar para chegar ao conhecimento de Deus com mais facilidade e certeza do pouco mais livremente de mim do que de costume. Todavia, quaisquer que sejam
que conhecemos as coisas deste mundo. a evidência e a certeza que encontro em minhas razões, não me posso persuadir
E, no que concerne à alma, embora muitos tenham acreditado que não é de que todo mundo seja capaz de entendê-las. Mas, assim como na Geometria,
fácil conhecer-lhe a natureza, e alguns tenham mesmo ousado dizer que as razões há muitas delas que nos foram deixadas por Arquimedes, por Apolônio, por Pap-
humanas nos persuadem de que ela morre com o corpo e que somente a fé nos pus e por muitos outros, que são acolhidas por todo mundo como muito certas e
ensina o contrário, todavia, visto que o Concílio de Latrão, realizado sob o muito evidentes, porque elas nada contêm que, considerado separadamente, não
pontificado de Leão X, na sessão 8, os condena e ordena expressamente aos filó- seja muito fácil de conhecer, e porque não há momento algum em que as conse-
sofos cristãos que respondam a seus argumentos e empreguem todas as forças de quências não se adaptem e não convenham muito bem aos antecedentes; não
seu espírito para dar a conhecer a verdade — ousei efetivamente empreendê-lo obstante, por serem um pouco longas e exigirem um espírito inteiro, não são
neste escrito. Ademais, sabendo que a principal razão, que leva muitos ímpios a compreendidas e entendidas senão por pouquíssimas pessoas*: da mesma manei-
não quererem acreditar de maneira alguma que há um Deus e que a alma huma- ra, ainda que considere que aquelas de que me sirvo aqui igualam e até mesmo
na é distinta do corpo, é que eles dizem que ninguém até aqui pôde demonstrar ultrapassam em certeza e evidência as demonstrações da Geometria, com-
essas duas coisas; embora eu não seja absolutamente dessa opinião, mas, ao preendo todavia que não possam ser suficientemente entendidas por muitos,
contrário, mantenha que quase todas as razões apresentadas por tantas grandes tanto por serem também um pouco longas e dependentes umas das outras quanto
personagens, no tocante a essas duas questões, são outras tantas demonstrações principalmente por exigirem um espírito inteiramente livre de todos os precon-
e, quando são bem entendidas, afirme que seja quase impossível inventar novas: ceitos e que possa facilmente desligar-se do comércio dos sentidos. E, na verda-
se é que eu creio que nada se poderia fazer mais útil na Filosofia do que procurar de, não se encontram tantos no mundo que sejam próprios às especulações meta-
uma vez com curiosidade e cuidado as melhores e mais sólidas razões e dispô-las físicas quantos às da Geometria*. E, além disso, há ainda essa diferença de que,
numa ordem tão clara e tão exata que doravante seja certo a todo mundo serem estando todos prevenidos pela opinião de que na Geometria não se deve adiantar
verdadeiras demonstrações. Enfim, posto que muitas pessoas desejaram isto de nada de que não se tenha uma demonstração certa, os que não são inteiramente
mim , as quais têm conhecimento de que cultivei um certo método para resolver
3
versados nesta ciência pecam o mais frequentemente aprovando falsas demons-
toda sorte de dificuldades nas ciências; método que, na verdade, não é novo, trações, para fazerem crer que as entendem, do que refutando as verdadeiras. O
nada havendo de mais antigo do que a verdade, mas do qual eles sabem que me mesmo não acontece na Filosofia, onde, acreditando cada um que todas as suas
servi assaz felizmente em outras ocasiões; pensei que era de meu dever tentar proposições são problemáticas, poucos se entregam à pesquisa da verdade; e
algo neste tema. muitos mesmo, querendo adquirir a reputação de espíritos fortes, só se empe-
Ora, trabalhei o melhor que pude para encerrar neste tratado tudo o que nham em combater arrogantemente as verdades mais patentes . e

disso se pode dizer. Não que eu tenha acumulado aqui todas as diversas razões Eis por que, Senhores, qualquer que seja a força que possam ter minhas
que se poderiam alegar para servir de prova a nosso tema: pois jamais acreditei razões, posto que pertencem à Filosofia, não espero que exerçam grande efeito 7

que isto fosse necessário, senão quando não haja nenhuma que seja certa; mas sobre os espíritos se não as tomardes sob vossa proteção. Mas, sendo tão grande
somente tratei as primeiras e principais de tal maneira que ouso efetivamente a consideração de todos por vossa companhia, e sendo o nome da Sorbonne de
propô-las como demonstrações muito evidentes e muito certas. E direi, além tal autoridade que não somente no que concerne à Fé, depois dos Sagrados
disso, que elas são tais que eu não penso que haja alguma via por onde o espírito Concílios, jamais se deu tanto crédito ao juízo de qualquer outra companhia,

2 Cf. Pascal: " N ã o é o que diz a Escritura, que melhor conhece as coisas que s ã o de Deus. E l a
diz, ao contrário, que Deus é um Deus oculto. . . Quando afirma, em tantas passagens, que aque- 4 Descartes dirá, na carta a Clerselier, que d á sequência às Quintas Respostas: "Peço-lhes consi-
les que procuram Deus o encontram, n ã o é dessa luz que fala, como sendo o dia em pleno meio- derar que, entre os que são reputados os mais sapientes na Filosofia da Escola, n ã o há cem que
d i a . . . " (Plêiade, pág. 1184.) os entendam (os Elementos de Euclides) e que n ã o há um entre dez mil que entenda todas as
3 Possível alusão ao Cardeal de Bérulle e aos Oratorianos que haviam compreendido o valor demonstrações de A p o l ô n i o ou de Arquimedes, embora sejam tão evidentes e tão certas quanto
a p o l o g é t i c o da metafísica cartesiana. Este valor, Descartes o reafirma com muita frequência n a as de Euclides". Este argumento é invocado contra os objetantes que n ã o acham suas razões evi-
sua correspondência. Por exemplo: "Relendo o primeiro capítulo do G é n e s e , dei-me conta, n ã o dentes, como se se tratasse de uma "evidência" vulgar e n ã o elaborada pela prática das
sem espanto, que eu podia, de acordo com minhas próprias ideias, explicá-lo inteiramente de Matemáticas.
modo bem melhor do que por todas as maneiras pelas quais os intérpretes o explicaram até 5 O que n ã o quer dizer que o espírito m a t e m á t i c o está ao alcance de todos: "Nem todo mundo
a q u i . . . Mas agora, a p ó s a e x p o s i ç ã o que fiz de minha Filosofia, formulei o desígnio de mostrar tem semelhante aptidão", diz Descartes a Burman.
claramente que ela concorda muito mais com todas as verdades da F é do que a de Aristóteles". s Esse parágrafo evidencia o paralelo entre a ordem das razões m a t e m á t i c a s e a ordem das
(A. T . I V , 698.) E r a t a m b é m a o p i n i ã o , no século X V I I , de Bossuet, Malebranche, Arnaud, etc. razões metafísicas. Sobre esse ponto, cumpre remeter ao livro de Guéroult, em que as nossas
A lenda de Descartes antepassado do livre-pensamento nos leva hoje a esquecer demasiado esse notas se inspiram continuamente, e assimilar a c o m p a r a ç ã o estabelecida entre as duas "ordens"
fato. Sobre o cristianismo inequívoco de Descartes, cf. as Cartas, a Gibieuf (18 de julho de 1629)
por Vuillemiri (Math. et Méta. chez Descartes, págs. 119-127).
e a Mersenne (18 de dezembro de 1629 e novembro de 1630).
7 No texto, effort. C h . A d a m supõe que deva ser effet. (N. dos T . )
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mas também no que se refere à humana Filosofia, cada um crendo que não épos-
sível encontrar alhures mais solidez e conhecimento, nem mais prudência e inte-
gridade para formular seu juízo; não duvido, se vos dignardes a tanto cuidar
deste escrito, a ponto de querer primeiramente corrigi-lo (pois, tendo conheci-
mento não só de minha imperfeição como também de minha ignorância, não
ousaria eu assegurar que não haja nele quaisquer erros) e, depois, após acres-
centar as coisas que lhe faltam, arrematar as que não estão perfeitas e tomar, vós RESUMO
mesmos, o cuidado de fornecer uma explicação mais ampla às que dela necessi-
tem, ou, ao menos, disso me advertir a fim de que nisso trabalhe, e, enfim, depois
que as razões pelas quais eu provo que há um Deus e que a alma humana difere DAS SEIS MEDITAÇÕES SEGUINTES
do corpo tiverem sido levadas ao ponto de clareza e evidência a que eu tenho cer-
teza ser possível conduzi-las, que deverão ser tomadas como demonstrações
muito exatas, e quiserdes declarar isto mesmo e testemunhá-lo publicamente: eu
não duvido, digo, que, se isto for feito, todos os erros e falsas opiniões que jamais Na primeira, adianto as razões pelas vi-me obrigado a seguir uma ordem
existiram no tocante a essas duas questões sejam em breve expungidas do espí- quais podemos duvidar geralmente de semelhante àquela de que se servem os
rito dos homens. Pois a verdade fará que todos os doutos e pessoas de espírito todas as coisas, e particularmente das geómetras, a saber, adiantar todas as
subscrevam vosso julgamento e vossa autoridade, de tal modo que os ateus, que coisas materiais, pelo menos enquanto coisas das quais depende a proposição
são de ordinário mais arrogantes que doutos e judiciosos, se despojem de seu não tivermos outros fundamentos nas que se busca, antes de concluir algo
espírito de contradição ou talvez sustentem, eles próprios, as razões que verão ciências além dos que tivemos até o dela .
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serem recebidas por todas as pessoas de espírito como demonstrações, temendo presente. Ora, se bem que a utilidade Ora, a primeira e principal coisa
parecerem não possuir inteligência; e, enfim, todos os outros facilmente se rende- de uma dúvida tão geral não se revele requerida, antes de conhecer a imorta-
rão ante tantos testemunhos que não haverá mais ninguém que ouse duvidar da desde o início, ela é todavia nisso lidade da alma, é formar dela uma con-
existência de Deus e da distinção real e verdadeira da alma humana em relação muito grande, porque nos liberta de cepção clara e nítida, e inteiramente
ao corpo. toda sorte de prejuízos e nos prepara distinta de todas as concepções que se
um caminho muito fácil para acostu- possam ter do corpo: o que foi feito
Compete a vós, agora, julgar o fruto que proviria dessa crença, se ela fosse
mar nosso espírito a desligar-se dos nesse lugar. Requer-se, além disso,
uma vez bem estabelecida, vós que vedes as desordens que sua dúvida produz;
sentidos, e, enfim, naquilo que torna saber que todas as coisas que concebe-
mas não seria gentil de minha parte recomendar ainda mais a causa de Deus e da
impossível que possamos ter qualquer mos clara e distintamente são verda-
Religião àqueles que sempreforam seus mais firmes esteios.
dúvida quanto ao que descobriremos, deiras, segundo as concebemos: o que
depois, ser verdadeiro. não pôde ser provado antes da quarta
Na segunda, o espírito que, usando Meditação. Ademais, cumpre ter uma
de sua própria liberdade, supõe que concepção distinta da natureza corpó-
todas as coisas, de cuja existência haja rea, a qual se forma, parte nesta segun-
a menor dúvida, não existem, reco- da, parte na quinta e na sexta Medita-
nhece que é absolutamente impossível, ções. E, enfim, deve-se concluir, de
no entanto, que ele próprio não exista. tudo isso, que as coisas que se concebe
O que é também de uma utilidade clara e distintamente serem substân-
muito grande, já que por esse meio ele
estabelece facilmente distinção entre as 8 Frase capital e que muitas objeções não levarão
em conta. Daí por que Descartes responderá amiú-
coisas que lhe pertencem, isto é, à de: "Há confusão; pensais que pretendo adiantar
natureza intelectual, e as que perten- ' neste lugar' conclusões que ainda não me é dado
provar". Umadasmaioresdificuldadesdo livro é que
cem ao corpo. Mas, como pode ocorrer nos obriga a abandonar a ordem das matérias que
que alguns esperem de mim, neste nos é familiar (ainda que seja apenas pela leitura
ponto, razões para provar a imortali- dos manuais de Filosofia) em favor de uma génese
dos conteúdos, de modo que conteúdos pertencentes-
dade da alma, considero dever agora à mesma matéria hão de aparecer em diferentes pas-
adverti-los de que, tendo procurado sagens, conforme o lugar exigido pela ordem (a
natureza corpórea nas Meditações Segunda, Quarta
nada escrever neste tratado de que não e Sexta; as provas da existência de Deus na Tercei-
tivesse demonstrações muito exatas, ra, depois na Meditação Quinta).
MEDITAÇÕES 89
88 DESCARTES

cias diferentes, como se concebe o bém ele não perece de modo algum; como o artifício objetivo dessa ideia própria certeza das demonstrações
espírito e o corpo, são, com efeito, mas que o corpo humano, na medida deve ter alguma causa, a saber, a ciên- geométricas depende do conhecimento
substâncias diversas e realmente dis- em que difere dos outros corpos, não é cia do obreiro, ou de alguma outra pes- de um Deus.
tintas umas das outras; e é o que se formado e composto senão de certa soa da qual ele tenha aprendido, da Enfim, na sexta, distingo a ação do
conclui na sexta Meditação. E, na configuração de membros e outros aci- mesma maneira é impossível que a entendimento da ação da imaginação;
mesma, também isto se confirma, pelo dentes semelhantes; e a alma humana, ideia de Deus que em nós existe não os sinais desta distinção são aí descri-
fato de não concebermos qualquer ao contrário, não é assim composta de tenha o próprio Deus por sua causa °. 1 tos. Mostro que a alma do homem é
corpo senão como divisível, ao passo quaisquer acidentes, mas é uma pura Na quarta, prova-se que as coisas realmente distinta do corpo e que,
que o espírito ou a alma do homem substância. Pois, ainda que todos os que concebemos mui clara e mui todavia, eia lhe é tão estreitamente
não se pode conceber senão como indi- seus acidentes se modifiquem, por distintamente são todas verdadeiras; e conjugada e unida que compõe como
visível: pois, com efeito, não podemos exemplo, que ela conceba certas coi- ao mesmo tempo é explicado em que que uma mesma coisa com ele. Todos
conceber a metade de alma alguma, sas, que ela queira outras, que ela sinta consiste a razão do erro ou falsidade: o os erros procedentes dos sentidos são
como podemos fazer com o menor de outras, etc, é, no entanto, sempre a que deve necessariamente ser sabido aí expostos com os meios de evitá-los.
todos os corpos; de sorte que suas mesma alma; ao passo que o corpo hu- tanto para confirmar as verdades pre- E, finalmente, apresento todas as ra-
naturezas não são somente reconhe- mano não mais é o mesmo pelo sim- cedentes quanto para melhor entender zões das quais é possível concluir a
cidas como diversas, porém mesmo, de ples fato de se encontrar mudada a fi- as que se seguem. Mas, entretanto, é de existência das coisas materiais: não
alguma maneira, como contrárias. gura de alguma de suas partes. Donde notar que não trato de modo algum, que as julgue muito úteis para provar o
Ora, é preciso que saibam que eu não se segue que o corpo humano pode neste lugar, do pecado, isto é, do erro que elas provam, a saber, que há um
me empenhei, neste tratado, em dizer facilmente perecer, mas que o espírito que se comete na busca do bem e do mundo, que os homens têm corpos e
nada mais, tanto porque isto basta ou a alma do homem (o que eu absolu- mal, mas somente daquele que sobre- outras coisas semelhantes, que nunca
para mostrar mui claramente que da tamente não distingo) é imortal por sua vêm no julgamento e no discernimento foram postas em dúvida por homem
corrupção do corpo não decorre a natureza. do verdadeiro e do falso; e que não algum de bom senso ; mas porque,12

morte da alma, e assim, dar aos ho- Na terceira Meditação, parece-me pretendo falar aí das coisas que com- considerando-as de perto, chega-se a
mens a esperança de uma segunda vida que expliquei bastante longamente o petem à fé ou à conduta da vida, mas conhecer que elas não são tão firmes
após a morte; como também porque as principal argumento de que me sirvo somente daquelas que dizem respeito nem tão evidentes quanto aquelas que
premissas das quais é possível concluir para provar a existência de Deus. às verdades especulativas e conhecidas nos conduzem ao conhecimento de
a imortalidade da alma dependem da Todavia, a fim de que o espírito do lei- por meio da tão-só luz natural . 11 Deus e da nossa alma; de sorte que
explicação de toda a Física : primeira-
9 tor possa mais facilmente abstrair-se Na quinta, além de a natureza cor- estas últimas são as mais certas e as
mente, a fim de saber que, em geral, dos sentidos, não quis de modo algum pórea tomada em geral ser aí explica- mais evidentes que possam cair no
todas as substâncias, isto é, todas as servir-me nesse lugar de quaisquer da, a existência de Deus também é
coisas que não podem existir sem comparações tiradas das coisas corpó- demonstrada por novas razões, nas Cf. Quartas Respostas: "Na Meditação Quarta,
serem criadas por Deus, são por sua reas, de tal modo que talvez tenham quais todavia podem-se encontrar al-
1 1

só tive intenção de tratar do erro que se comete no


natureza incorruptíveis e jamais restado muitas obscuridades, as quais, gumas dificuldades, mas que serão discernimento do verdadeiro e do falso, e não do
podem cessar de ser, caso não sejam que ocorre na procura do bem e do mal — c sempre
espero, serão inteiramente esclarecidas resolvidas nas respostas às objeções excetuei as coisas que se referem à fé e às ações de
reduzidas a nada por este mesmo Deus nas minhas respostas às objeções que que me foram feitas; e também revela- nossa vida, quando disse que só devemos dar cré-
que lhes queira negar seu concurso me foram propostas depois. Como, por se aí de que maneira é verdadeiro que a dito às coisas que conhecemos evidentemente. . . "
Este corte entre a luz natural e a fé é essencial para
ordinário. E, em seguida, a fim de que exemplo: é bastante difícil entender o pensamento claro e distinto, na medida em que
se note que o corpo, tomado em geral, como a ideia de um ser soberanamente 1 0 Se tomardes a ideia de Deus somente enquanto Descartes não quer arriscar-se a transgredir as ver-
é uma substância, razão pela qual tam- perfeito, a qual se encontra em nós, ideia e não como conteúdo fora do entendimento, dades reveladas. Mas implica a secularização da
lemos nas Primeiras Objeções, "esta maneira de ser Filosofia.
contém tanta realidade objetiva, isto é, é apenas uma denominação externa e não comporta 1 2 As Meditações não se colocam ao nível das
9 A fim de facilitar a publicação de sua Física é participa por representação em tantos nenhuma realidade; não há razão para procurar a "verdades da vida", onde a dúvida seria ridícula e
que Descartes pede o imprimaíur da Sorbonne para as provas metafísicas despropositadas. Elas são,
a sua Metafísica. Daí por que solicita a Mersenríe graus de ser e de perfeição, que ela sua causa. Para falar propriamente, uma ideia não é
afirma Guéroult, uma análise e uma classificação
nada". Resposta de Descartes: "Se alguém tem no
que mantenha o projeto em segredo: "Isto poderia deve necessariamente provir de uma espírito a ideia de alguma máquina muito artificial, dos conteúdos (consciência de si, ideias, vontade,
talvez impedir a aprovação da Sorbonne, que eu causa soberanamente perfeita. Mas eu podemos com razão perguntar qual a causa desta inclinações) que descubro, "ao percorrer o campo
desejo, e que me parece poder servir extremamente a ideia... pois se esta ideia contém um certo artifício de meu espírito", "assim como o geômetra encon-
meus intuitos: pois eu vos diria que este pouco de o' esclareci nestas respostas, pela com- objetivo mais do que um outro, ela o deve, sem dú- tra, no campo da pura extensão, grande número de
Metafísica que vos envio contém todos os princípios paração com uma máquina muito arti- vida, a alguma c a u s a . . . " A aplicação do princípio seres reais e verdadeiros, dotados de propriedades e
de minha Física". ( H de novembro de 1640.) Em que mantêm entre si relações necessárias. . . figuras
outros termos: se aprovasse a Metafísica, a Sor-
ficial cuja ideia se encontra no espírito de causalidade ao conteúdo das ideias (à "realidade
retilíneas, triângulos e paralelogramos, retàngulos e
objetiva" delas) constitui, como se verá, o nervo da
bonne desdizer-se-ia condenando a Física. de qualquer operário; pois, assim primeira prova. gnômon. c í r c u l o . . . " (Descartes, II, pág. 288.)
90 DESCARTES

conhecimento do espírito humano. E é tir aqui muitas outras questões das


tudo o que me propus provar nestas quais também falei ocasionalmente
seis Meditações; o que me leva a omi- neste tratado.

MEDITAÇÕES

CONCERNENTES
A PRIMEIRA FILOSOFIA
NAS QUAIS A EXISTÊNCIA DE DEUS E A DISTINÇÃO REAL
ENTRE A ALMA E O CORPO DO HOMEM
SÃO DEMONSTRADAS
PRIMEIRA M E D I T A Ç Ã O 1 3

Das Coisas que se Podem Colocar em Dúvida

1. Há já algum tempo eu me aper- 2. Agora, pois, que meu espírito


cebi de que, desde meus primeiros está livre de todos os cuidados, e que
anos, recebera muitas falsas opiniões consegui um repouso assegurado numa
como verdadeiras, e de que aquilo que pacífica solidão, aplicar-me-ei seria-
depois eu fundei em princípios tão mal mente e com liberdade em destruir em
assegurados não podia ser senão mui geral todas as minhas antigas opiniões.
duvidoso e incerto; de modo que me Ora, não será necessário, para alcan-
era necessário tentar seriamente, uma çar esse desígnio, provar que todas elas
vez em minha vida, desfazer-me de são falsas, o que talvez nunca levasse a
todas as opiniões a que até então dera cabo; mas, uma vez que a razão já me
crédito, e começar tudo novamente persuade de que não devo menos
desde os fundamentos, se quisesse esta- cuidadosamente impedir-me de dar
belecer algo de firme e de constante crédito às coisas que não são inteira-
nas ciências. Mas, parecendo-me ser mente certas e indubitáveis, do que às
muito grande essa empresa, aguardei que nos parecem manifestamente ser
atingir uma idade que fosse tão madu- falsas, o menor motivo de dúvida que
ra que não pudesse esperar outra após eu nelas encontrar bastará para me
ela, na qual eu estivesse mais apto para levar a rejeitar todas *. E, para isso,
1

executá-la; o que me fez diferi-la por não é necessário que examine cada
tão longo tempo que doravante acredi- uma em particular, o que seria um tra-
taria cometer uma falta se empregasse balho infinito; mas, visto que a ruína
ainda em deliberar o tempo que me dos alicerces carrega necessariamente
resta para, agir. consigo todo o resto do edifício, dedi-
car-me-ei inicialmente aos princípios
1 3 A primeira Meditação tem como peculiaridade sobre os quais todas as minhas antigas
o fato de não se tratar aí de "estabelecer verdade
alguma, mas apenas de me desfazer desses antigos
opiniões estavam apoiadas.
prejuízos". (Sétimas Respostas.) Sua composição é 3. Tudo o que recebi, até presente-
a seguinte:
A ) §§ 1-3: o princípio da dúvida hiperbólica; mente, como o mais verdadeiro e segu-
B) §§3-13: argumentos que estendem e radica- ro, aprendi-o dos sentidos ou pelos
lizam a dúvida.
(§3): argumento dos erros dos
sentidos; 1 4 A dúvida assim posta em ação: a) distinguir-se-
(§§4-9): argumento do sonho; á da dúvida vulgar pelo fato de ser engendrada não
(§§9-13): argumento que estende a por experiência, mas por uma decisão; b) será
dúvida ao valor objetivo das essên- "hiperbólica", isto é, sistemática e generalizada; c)
cias matemáticas, em duas etapas: consistirá, pois, em tratar como falso o que é apenas
- o Deus enganador; duvidoso, como sempre enganador o que alguma
- o Génio Maligno. vez me enganou.
94 DESCARTES MEDITAÇÕES 95

sentidos: ora, experimentei algumas mente; que é com desígnio e propósito tamente falsa, certamente ao menos as quadrado nunca terá mais do que qua-
vezes que esses sentidos eram engano- deliberado que estendo esta mão e que cores com que eles a compõem devem tro lados; e não parece possível que
sos, e é de prudência nunca se fiar a sinto: o que ocorre no sono não pare- ser verdadeiras. verdades tão patentes possam ser sus-
inteiramente em quem já nos enganou ce ser tãõclaro nem tão distinto quan- 7. E pela mesma razão, ainda que peitas de alguma falsidade ou incerte-
uma vez . 1 5 to tudo isso. Mas, pensando cuidado- essas coisas gerais, a saber, olhos, za.
4. Mas, ainda que os sentidos nos samente nisso, lembro-me de ter sido cabeça, mãos e outras semelhantes, 9. Todavia, há muito que tenho no
enganem às vezes, no que se refere às muitas vezes enganado, quando dor- possam ser imaginárias, é preciso, meu espírito certa opinião de que há
18

coisas pouco sensíveis e muito distan- mia, por semelhantes ilusões. E, deten- todavia, confessar que há coisas ainda um Deus que tudo pode e por quem fui
tes, encontramos talvez muitas outras, do-me neste pensamento, vejo tão mais simples e mais universais, que criado e produzido tal corrio sou. Ora,
das quais não se pode razoavelmente manifestamente que não há quaisquer são verdadeiras e existentes; de cuja quem me poderá assegurar que esse
duvidar., embora as conhecêssemos por indícios concludentes, nem marcas mistura, nem mais nem menos do que Deus não tenha feito com que não haja
intermédio deles: por exemplo, que eu assaz certas por onde se possa distin- da mistura de algumas cores verdadei- nenhuma terrti, nenhum céu, nenhum
esteja aqui, sentado junto ao fogo, ves- guir nitidamente a vigília do sono, que ras, são formadas todas essas imagens corpo extenso, nenhuma figura, nenhu-
tido com um chambre, tendo este papel me sinto inteiramente pasmado: e meu das coisas que residem em nosso ma grandeza, nenhum lugar e que, não
entre as mãos e outras coisas desta pasmo é tal que é quase capaz de me pensamento, quer verdadeiras e reais, obstante, eu tenha os sentimentos de
natureza. E como poderia eu negar que persuadir de que estou dormindo. quer fictícias e fantásticas. Desse géne- todas essas coisas e que tudo isso não
estas mãos e este corpo sejam meus? A 6. Suponhamos, pois, agora, que ro de coisas é a natureza corpórea em me pareça existir de maneira diferente
não ser, talvez, que eu me compare e estamos adormecidos e que todas essas geral, e" sua extensão; juntamente com daquela que eu vejo? E, mesmo, como
esses insensatos, cujo cérebro está de particularidades, a saber, que abrimos a figura das coisas extensas, sua quan- julgo que algumas vezes os outros se
tal modo perturbado e ofuscado pelos os olhos, que mexemos a cabeça, que tidade, ou grandeza, e seu número; enganam até nas coisas que eles acre-
negros vapores da bile que constante- estendemos as mãos, e coisas seme- como também o lugar em que estão, o ditam saber com maior certeza, pode
mente asseguram que são reis quando lhantes, não passam de falsas ilusões; e tempo que mede sua duração e outras ocorrer que Deus tenha desejado que
são muito pobres; que estão vestidos pensemos que talvez nossas mãos, coisas semelhantes . 1 1
eu me engane todas as vezes em que
de ouro e de púrpura quando estão assim como todo o nosso corpo, não 8. Eis por que, talvez, daí nós não faço a adição de dois mais três, ou em
inteiramente nus; ou imaginam ser são tais como os vemos. Todavia, é concluamos mal se dissermos que a Fí- que enumero os lados de um quadrado,
cântaros ou ter um corpo de vidro. preciso ao menos confessar que as coi- sica, a Astronomia, a Medicina e todas ou emque julgo alguma coisa ainda
sas que nos são representadas durante as outras ciências dependentes da mais fácil, se é que se pode imaginar
Mas quê? São loucos e eu não seria
o sono são como quadros e pinturas, consideração das coisas compostas algo mais fácil do que isso. Mas pode
menos extravagante se me guiasse por
são muito duvidosas e incertas; mas ser que Deus não tenha querido que eu
seus exemplos. que não podem ser formados senão à
que a Aritmética, a Geometria e as ou- seja decepcionado desta maneira, pois
5. Todavia, devo aqui considerar semelhança de algo real e verdadeiro; e
tras ciências desta natureza, que não ele é considerado soberanamente bom.
que sou homem e, por conseguinte,
16
que assim, pelo menos, essas coisas Todavia, se repugnasse à sua bondade
gerais, a saber, olhos, cabeça, mãos e tratam senão de coisas muito simples e
que tenho o costume de dormir e de fazer-me de tal modo que eu me enga-
todo o resto do corpo, não são coisas muito gerais, sem cuidarem muito em
representar, em meus sonhos, as_mes- se elas existem ou não na natureza, nasse sempre, pareceria também ser-
mas coisas, ou algumas vezes menos imaginárias, mas verdadeiras e existen- lhe contrário permitir que eu me enga-
tes. Pois, na verdade, os pintores, contêm alguma coisa de certo e indubi-
verossímeis, que esses insensatos em tável. Pois, quer eu esteja acordado, ne algumas vezes e, no entanto, não
vigília. Quantas vezes ocorreu-me so- mesmo quando se empenham com o posso duvidar de que ele mo permi-
maior artifício em representar sereias e quer esteja dormindo, dois mais três
nhar, durante a noite, que estava neste formarão sempre o número cinco e o ta . 1 9

lugar, que estava vestido, que estava sátiros por formas estranhas e extraor-
dinárias, não lhes podem, todavia, atri- 10. Haverá talvez aqui pessoas que
júrifo ao fogo, embora estivesse inteira- 1 7 O segundo argumento encontra, pois, q seu limi- preferirão negar a existência de um
mente nu dentro de meu leito? Parece- buir formas e naturezas inteiramente te: ele não me permite pôr em dúvida os compo-
novas, mas apenas fazem certa mistura nentes de minhas percepções, a saber, as "naturezas Deus tão poderoso a acreditar que
me agora que não é com olhos adorme- simples", indecomponíveis (figura, quantidade, es-
cidos que contemplo este papel; que e composição dos membros de diver"- paço, tempo), que são o objeto da Matemática. Tais Essa "opinião" é sustentada pelos teólogos das
sos animais; ou então, se porventura
1 8

esta cabeça que eu mexo não está dor- elementos "escapam, contrariamente aos objetos Segundas Objeções: Deus, dada sua onipotència,
sua imaginação for assaz extravagante sensíveis, a todas as razões naturais de duvidar", pode nos enganar. Não é o parecer de Descartes: o
sublinha Guérouit, apoiando-se no texto da Quinta engano em Deus constituiria não só um sinal de
1 5Argumento do erro do sentido, primeiro grau da para inventar algo de tão novo, que ja- Meditação: "A natureza de meu espírito é tal que eu malignidade, mas de não-ser. (Col. com Barman.)
dúvida. É insuficiente para nos fazer duvidar siste- mais tenhamos visto coisa semelhante, não me poderia impedir de julgá-las verdadeiras Isso redunda em afirmar o valor tão-somente meto-
maticamente de nossas percepções sensíveis.
e que assim sua obra nos represente enquanto as concebo clara e distintamente". Daí a dológico dessa suposição antinatural.
1 6 Aqui começa o argumento do sonho, segundo
necessidade de recorrer ao terceiro argumento que A consideração da bondade, por si só, não basta
grau da dúvida, que irá estendê-la a todo conheci- uma coisa puramente fictícia e absolu- abalará esta certeza "natural".
1 9

para invalidar a suposição. Cf. a nota precedente.


mento sensível, ou pelo menos a seu conteúdo.
96 DESCARTES MEDITAÇÕES 97

todas as outras coisas são incertas. dosas de alguma maneira, como aca- não está -em meu poder chegar ao eu reincido insensivelmente por mim
Mas não lhes resistamos no momento e bamos de mostrar, e todavia muito conhecimento de qualquer verdade, ao mesmo em minhas antigas opiniões e
suponhamos, em favor delas, que tudo prováveis, de sorte que se tem muito menos está ao meu alcance suspender evito despertar dessa sonolência, de
quanto aqui é dito de um Deus seja mais razão em acreditar nelas do que meu juízo. Eis por que cuidarei zelosa- medo de que as vigílias laboriosas que
uma fábula. Todavia, de qualquer em negá-las. Eis por que penso que me mente de não receber em minha crença se sucederiam à tranquilidade de tal
maneira que suponham ter eu chegado utilizarei delas mais prudentemente se, nenhuma falsidade, e prepararei tão repouso, em vez de me propiciarem al-
ao estado e ao ser que possuo, quer o tomando partido contrário, empregar bem meu espírito a todos os ardis guma luz ou alguma clareza no conhe-
atribuam a algum destino ou fatali- todos os meus cuidados em enganar- desse grande enganador que, por pode- ' cimento da verdade, não fossem sufi-
dade, quer o refiram ao acaso, quer me a mim mesmo, fingindo que todos roso e ardiloso que seja, nunca poderá cientes para esclarecer as trevas das
queiram que isto ocorra por uma contí- esses pensamentos são falsos e imagi- impor-me algo. dificuldades que acabam de ser agita-
nua série e conexão das coisas, é certo nários; até que, tendo de tal modo 13. Mas esse desígnio é árduo e das.
que, já que falhar e enganar-se é uma sopesado meus prejuízos, eles não pos- trabalhoso e certa preguiça arrasta-
22

espécie de imperfeição, quanto menos sam inclinar minha opinião mais para me insensivelmente para o ritmo de Esta insistência na dificuldade de exercer uma
2 2

poderoso for o autor a que atribuírem um lado do que para o outro, e meu minha vida ordinária. E, assim como dúvida tão radical não é enfática; quanto mais a dú-
vida for vivida como radical, mais as certezas que
minha origem tanto mais será provável juízo não mais seja doravante domi- um escravo que gozava de uma liber- se impuserem, em seguida, se apresentarão como
que eu seja de tal modo imperfeito que nado por maus usos e desviado do reto dade imaginária, quando começa a inabaláveis. Tomar a dúvida levianamente é expor-
se a nada compreender da sequência das Medita-
me engane sempre. Razões às quais caminho que pode conduzi-lo ao co- suspeitar de que sua liberdade é apenas ções. A este propósito, cf. 203. — "Não há erro
nada tenho a responder, mas sou obri- nhecimento da verdade. Pois estou se- um sonho, teme ser despertado e cons- mais grave", diz Alain, "do que julgar que esta dú-
gado a confessar que, de todas as opi- guro de que, apesar disso, não pode pira com essas ilusões agradáveis para vida é fingida. Não há também erro mais comum,
porque poucos homens jogam este jogo seriamen-
niões que recebi outrora em minha haver perigo nem erro nesta via e de ser mais longamente enganado, assim te."
crença como verdadeiras, não há ne- que não poderia hoje aceder dema-
nhuma da qual não possa duvidar siado à minha desconfiança, posto que
atualmente, não por alguma inconside- não se trata no momento de agir, mas
ração ou leviandade, mas por razões somente de meditar e de conhecer.
muito fortes e maduramente considera- 12. Suporei, pois, que há não um
das: de sorte que é necessário que verdadeiro Deus, que é a soberana
interrompa e suspenda doravante meu fonte da verdade, mas certo génio
juízo sobre tais pensamentos, e que m a l i g n o n ã o menos ardiloso e enga-
2

não mais lhes dê crédito, como faria nador do que poderoso, que empregou
com as coisas que me parecem eviden- toda a sua indústria em enganar-me.
temente falsas, se desejo encontrar Pensarei que o céu, o ar, a terra, as
algo de constante e de seguro nas cores, as figuras, os sons e todas as
ciências . 20 coisas exteriores que vemos são apenas
11. Mas não basta ter feito tais ilusões e enganos de que ele se serve
considerações, é preciso ainda que para surpreender minha credulidade.
cuide de lembrar-me delas; pois essas Considerar-me-ei a mim mesmo abso-
antigas e ordinárias opiniões ainda me lutamente desprovido de mãos, de
voltam amiúde ao pensamento, dan- olhos, de carne, de sangue, desprovido
do-lhes a longa e familiar convivência de quaisquer sentidos, mas dotado da
que tiveram comigo o direito de ocu- falsa crença de ter todas essas coisas.
par meu espírito mau grado meu e de Permanecerei obstinadamente apegado
tornarem-se quase que senhoras de a esse pensamento; e se, por esse meio,
minha crença. E jamais perderei o cos-
tume de aquiescer a isso e de confiar 2 1 A função do Deus enganador e do Génio Malig-
nelas, enquanto as considerar como no é a mesma: porém o Génio Maligno é um artifí-
cio psicológico que, impressionando mais a minha
são efetivamente, ou seja, como duvi- imaginação, levar-me á a tomar a dúvida mais a
:

sério e a inscrevê-la melhor em minha memória C'é


2 0 A dúvida é agora universalizada. preciso ainda que cuide de lembrar-me dela*').
MEDITAÇÃO S E G U N D A 2 3

Da Natureza do Espírito Humano;


e de como Ele é Mais Fácil de Conhecer do que o Corpo

1. A Meditação que fiz ontem en- vel, até que tenha aprendido certa-
cheu-me o espírito de tantas dúvidas, mente que não há nada no mundo de
que doravante não está mais em meu certo.
alcance esquecê-las. E, no entanto, não 2. Arquimedes, para tirar o globo
vejo de que maneira poderia resolvê- terrestre de seu lugar e transportá-lo
las; e, como se de súbito tivesse caído para outra parte, não pedia nada mais
em águas muito profundas, estou de tal exceto um ponto que fosse fixo e segu-
modo surpreso que não posso nem fir- ro. Assim, terei o direito de conceber
mar meus pés no fundo, nem nadar altas esperanças, se for bastante feliz
para me manter à tona. Esforçar-me-ei, para encontrar somente uma coisa que
não obstante, e seguirei novamente a seja certa e indubitável 2

mesma via que trilhei ontem, afastan- 3. Suponho, portanto, que todas as
do-me de tudo em que poderia imagi- coisas que vejo são falsas; persuado-
nar a menor dúvida, da mesma manei- me de que jamais existiu de tudo quan-
ra como se eu soubesse que isto fosse to minha memória referta de mentiras
absolutamente falso; e continuarei me representa; penso não possuir ne-
sempre nesse caminho até que tenha nhum sentido; creio que o corpo, a
encontrado algo de certo, ou, pelo figura, a extensão, o movimento e o
menos, se outra coisa não me for possí-
lugar são apenas ficções de meu espíri-
to. O que poderá, pois, ser considerado
Plano da Meditação:
2 3

A) §§1-9: da natureza do espírito huma-


verdadeiro? Talvez nenhuma outra
no...: coisa a não ser que nada há no mundo
§§ 1-4: conquista da primeira certeza: de certo.
(§§1-3): procura de uma primeira
certeza;
4. Mas que sei eu, se não há nenhu-
(§4): "Eu sou, eu existo"; ma outra coisa diferente das que acabo
§§5-9: reflexão sobre esta primeira certe- de julgar incertas, da qual não se possa
za e conquista da segunda:
(§ § 5-8): quem sou eu, eu que
ter a menor dúvida? Não haverá algum
estou certo que sou? Uma coisa Deus, ou alguma outra potência, que
pensante. Determinação da essên- me ponha no espírito tais pensamen-
cia do E u ;
(§9): descrição da "coisa pensante"
tos? Isso não é necessário; pois talvez
e distinção entre o pensamento seja eu capaz de produzi-los por mim
(atributo principal desta substân- mesmo. Eu então, pelo menos, não
cia) e suas outras faculdades;
B) §§10-18: . . .e de como ele é mais fácil de
serei alguma coisa? Mas já neguei que
conhecer do que o corpo:
Contraprova da segunda certeza (o pe- 2 A primeira certeza adquirida não será, pois, a
4

daço de cera) e conquista da terceira mais alta; deve apenas inaugurar a cadeia das
certeza. razões.
100 DESCARTES MEDITAÇÕES 101

tivesse qualquer sentido ou qualquer vezes que a enuncio ou que a concebo lhantes sutilezas . Mas, antes, deter-
29
qual seja tocado e do qual receba a
corpo. Hesito no entanto, pois que se em meu espírito . 2 7 me-ei em considerar aqui os pensa- impressão. Pois não acreditava de
segue daí? Serei de tal modo depen- 5. Mas não conheço ainda bastante mentos que anteriormente nasciam por modo algum que se devesse atribuir à
dente do corpo e dos sentidos que não claramente o que sou, eu que estou si mesmos em meu espírito e que eram natureza corpórea vantagens como ter
possa existir sem eles? Mas eu me per- certo de que sou; de sorte que dora- inspirados apenas por minha natureza, de si o poder de mover-se, de sentir e
suadi de que nada existia no mundo, vante é preciso que eu atente com todo quando me aplicava à consideração de de pensar; ao contrário, espantava-me
que não havia nenhum céu, nenhuma meu ser. Considerava-me, inicial- antes ao ver que semelhantes faculda-
cuidado, para não tomar imprudente-
terra, espíritos alguns, nem corpos mente, como provido de rosto, mãos, des se encontravam em certos cor-
mente alguma outra coisa por mim, e braços e toda essa máquina composta
alguns: não me persuadi também, por- assim para não equivocar-me neste pos 31

tanto, de que eu não existia ? Certa- de ossos e carne, tal como ela aparece
25
conhecimento que afirmo ser mais em um cadáver, a qual eu designava 7. Mas eu, o que sou eu, agora que
mente não, eu existia sem dúvida, se é suponho que há alguém que é extre-
certo e mais evidente do que todos os pelo nome de corpo. Considerava, 32

que eu me persuadi, ou, apenas, pensei mamente poderoso e, se ouso dizê-lo,


que tive até agora . 28 além disso, que me alimentava, que
alguma coisa. Mas há algum, não sei malicioso e ardiloso, que emprega
6. Eis por que considerarei de novo caminhava, que sentia e que pensava e
qual, enganador mui poderoso e mui relacionava todas essas ações à todas as suas forças e toda a sua indús-
ardiloso que emprega toda a sua indús- o que acreditava ser, antes de me
alma ; mas não me detinha em pen-
30 tria em enganar-me? Posso estar certo
tria em enganar-me sempre. Não há, empenhar nestes últimos pensamentos;
sar em que consistia essa alma, ou, se de possuir a menor de todas as coisas
pois, dúvida alguma de que sou, se ele e de minhas antigas opiniões suprimi-
o fazia, imaginava que era algo extre- que atribuí há pouco à natureza corpó-
me engana; e, por mais que me engane, rei tudo o que pode ser combatido mamente raro e sutil, como um vento, rea? Detenho-me em pensar nisto com
não poderá jamais fazer com que eu pelas razões que aleguei há pouco, de uma flama ou um ar muito ténue, que atenção, passo e repasso todas essas
nada seja, enquanto eu pensar ser algu- sorte que permaneça apenas precisa- estava insinuado e disseminado nas coisas em meu espírito, e não encontro
ma coisa . De sorte que, após ter pen-
2 6 mente o que é de todo indubitável. O minhas partes mais grosseiras. No que nenhuma que possa dizer que exista
sado bastante nisto e de ter examinado que, pois, acreditava eu ser até aqui? se referia ao corpo, não duvidava de em mim. Não é necessário que me de-
cuidadosamente todas as coisas, cum- Sem dificuldade, pensei que era um maneira alguma de sua natureza; pois more a enumerá-las. Passemos, pois,
pre enfim concluir e ter por constante homem. Mas que é um homem? Direi pensava conhecê-la mui distintamente aos atributos da alma e vejamos se há
que esta proposição, eu sou, eu existo, que é um animal racional? Certamente e, se quisesse explicá-la segundo as alguns que existam em mim. Os pri-
é necessariamente verdadeira todas as não: pois seria necessário em seguida noções que dela tinha, tê-la-ia descrito
meiros são alimentar-me e caminhar;
pesquisar o que é animal e o que é desta maneira: por corpo entendo tudo
o que pode ser limitado por alguma mas, se é verdade que nao possuo
Retomemos o raciocínio. No ponto em que
racional e assim, de uma só questão, corpo algum, é verdade também que
2 5

cairíamos insensivelmente numa infini- figura; que pode ser compreendido em


estou, não poderia eu ter a certeza da existência
qualquer lugar e preencher um espaço não posso nem caminhar nem alimen-
de "algum Deus"? Não, nada o exige (e um dos dade de outras mais difíceis e embara-
princípios da análise dos geómetras é o de não de tal sorte que todo outro corpo dele tar-me. Um outro é sentir; mas não se
remontar a uma verdade superior àquela com que çosas, e eu não quereria abusar do seja excluído; que pode ser sentido ou pode também sentir sem o corpo; além
posso me contentar). Irei invocar a certeza de minha pouco tempo e lazer que me resta pelo tato, ou pela visão, ou pela audi- do que, pensei sentir outrora muitas
existência como indivíduo, sujeito concreto? Não,
nada o permite, visto que pus em dúvida a exis- empregando-o em deslindar seme- ção, ou pelo olfato; que pode ser movi- coisas, durante o sono, as quais reco-
tência de tudo o que há "no mundo". . . Mas cuida- do de muitas maneiras, não por si nheci, ao despertar, não ter sentido
do ! A "hesitação" aqui é ditada pelo medo de uma
confusão: fiel à regra da dúvida, não tenho motivo 2 O fim da frase indica que ela só é verdadeira
7 mesmo, mas por algo de alheio pelo efetivamente. Um outro é pensar; e
de abrir exceção em favor do homem concreto que cada vez que penso nela atualmente. É também uma verifico aqui que o pensamento é um
sou; mas, aquém deste, há algo que irá resistir à dú- transição, pois permitirá responder à pergunta que
vida. £ doravante o E u não será mais este E u de agora haverá de colocar-se: qual é a natureza deste atributo que me pertence; só ele não
2 9 Sobre este método de determinação do pro-
chambre e ao pé do fogo que a Primeira Meditação Eu-existente que acabo de afirmar? blema por segregação, cf. o diálogo: Recherche de
evocava (como indica Goldschmidt, Congresso 2 8 E u não conheço, ainda, o conteúdo desta exis- la Vérité (Plêiade, págs. 892-94). Ao interlocutor 3 1 Este conhecimento "natural" que eu tenho de
Descartes de Royaumont, pág. 53). tência que acabo de afirmar. Importa, pois, encon- aturdido que acaba de responder: "Diria, portanto, mim mesmo antes da prova da dúvida será inteira-
Essa frase evidencia bem o papel do "Grande trá-lo pela exclusiva análise dos dados do problema, que sou um homem", o cartesiano replica: "Não
2 6
mente falso? Não. Se a alma é concebida à maneira
Embusteiro": impor a meus pensamentos uma istolé, por determinação. levando em conta tudo o prestais atenção ao que perguntei e a resposta que dos escolásticos, em troca a distinção entre o corpo
prova de tal ordem que aquele que lhe resistir seja, que é dado, mas excluindo tudo o que não o é (a apresentais, embora vos pareça simples, lançar- e o espírito (indispensável à Física) está aí presente,
quando não garantido como verdadeiro (é impos- referência à Regra X I I é aqui indispensável). Notar vos-ia em questões muito árduas e muito embaraço- mas a título de opinião provável, sem fundamento.
sível antes da prova da existência de Deus), pelo a frase "é preciso que eu atente com todo cuidado sas, se eu quisesse apertá-las por menos que seja.. . Cf. Respostas, 204.
menos recebido como certo. Se não fosse arrancado, para não tomar imprudentemente alguma outra Não entendestes bem a minha pergunta e respondeis
coisa por mim", que seria absurdo no plano da Psi- 3 2 Mudança de plano. Do pensamento inspirado
extorquido ao Génio Maligno, o Cogito não passa- a mais coisas do que vos perguntei. . . Dizei-me,
cologia e que se justifica apenas ao nível de uma Ál- por "minha natureza" passamos à só ideia de mim
ria de uma banalidade. Sobre a originalidade do pois, o que sois propriamente, na medida em que
gebra das noções, comparável à "Álgebra dos mesmo compatível com a instauração da dúvida, da
Cogito, cf. o fim do opúsculo de Pascal: De lEsprit duvidais ".
comprimentos" das Regutae. indeterminação psicológica à determinação metafí-
Géométrique. Cf. Respostas, 508.
3 0 sica.
MEDITAÇÕES 103
102 DESCARTES

existirem, já que me são desconhe- e desviar o espírito dessa maneira de de mim mesmo? Pois é por si tão evi-
pode ser separado de mim. Eu sou, eu
cidas, não sejam efetivamente diferen- conceber a fim de que ele próprio dente que sou eu quem duvida, quem
existo: isto é certo; mas por quanto
tes de mim, que eu conheço? Nada sei possa reconhecer muito distintamente entende e quem deseja que não é neces-
tempo? A saber, por todo o tempo em
que eu penso ; pois poderia, talvez,
33 a respeito; não o discuto atualmente, sua natureza . 3 7 sário nada acrescentar aqui para expli-
ocorrer que, se eu deixasse de pensar, não posso dar meu juízo senão a coisas 9. Mas o que sou eu, portanto? cá-lo. E tenho também certamente o
deixaria ao mesmo tempo de ser ou de que me são conhecidas: reconheci que Uma coisa que pensa. Que é uma coisa poder de imaginar; pois, ainda que
existir. Nada admito agora que não eu era, e procuro o que sou, eu que que pensa? É uma coisa que duvida, possa ocorrer (como supus anterior-
seja necessariamente verdadeiro: nada reconheci ser. Ora, é muito certo que que concebe, que afirma, que nega, que mente) que as coisas que imagino não
sou, pois, falando precisamente, senão essa noção e conhecimento de mim quer, que não quer, que imagina tam- sejam verdadeiras, este poder de imagi-
uma coisa que pensa, isto é, um espíri- mesmo, assim precisamente tomada, bém e que sente . Certamente não é nar não deixa, no entanto, de existir
38

to, um entendimento ou uma razão, não depende em nada das coisas cuja pouco se todas essas coisas pertencem realmente em mim e faz parte do meu
que são termos cuja significação me existência não me é ainda conheci- à minha natureza. Mas por que não lhe pensamento. Enfim, sou o mesmo que
era anteriormente desconhecida.
34 da ; nem, por conseguinte, e com
3 6 pertenceriam? Não sou eu próprio esse sente, isto é, que recebe e conhece as
Ora, eu sou uma coisa verdadeira e mais razão de nenhuma daquelas que mesmo que duvida de quase tudo, que, coisas como que pelos órgãos dos sen-
verdadeiramente existente; mas que são fingidas e inventadas pela imagina- no entanto, entende e concebe certas tidos, posto que, com efeito, vejo a luz,
coisa? Já o disse: uma coisa que pensa. ção. E mesmo esses termos fingir e coisas, que assegura e afirma que ouço o ruído, sinto o calor. Mas dir-
E que mais? Excitarei ainda minha imaginar advertem-me de meu erro; somente tais coisas são verdadeiras, me-ão que essas aparências são falsas
imaginação para procurar saber se não pois eu fingiria efetivamente se imagi- que nega todas as demais, que quer e e que eu durmo. Que assim seja; toda-
sou algo mais. Eu não sou essa reunião nasse ser alguma coisa, posto que ima- deseja conhecê-las mais, que não quer via, ao menos, é muito certo que me
de membros que se chama o corpo ginar nada mais é do que contemplar a ser enganado, que imagina muitas coi- parece que vejo, que ouço e que me
humano; não sou*um ar ténue e pene- figura ou a imagem de uma coisa cor- sas, mesmo mau grado seu, e que sente aqueço; e é propriamente aquilo que
trante, disseminado por todos esses poral. Ora, sei já certamente que eu também muitas como que por inter- em mim se chama sentir e isto, tomado
membros; não sou um vento, um sou, e que, ao mesmo tempo, pode médio dos órgãos do corpo? Haverá assim precisamente, nada é senão pen-
sopro, um vapor, nem algo que posso ocorrer que todas essas imagens e, em algo em tudo isso que não seja tão ver- sar. Donde, começo a conhecer o que
fingir e imaginar, posto que supus que geral, todas as coisas que se relacio- dadeiro quanto é certo que sou e que sou, com um pouco mais de luz e de
tudo isso não era nada e que, sem nam à natureza do corpo sejam apenas existo, mesmo se dormisse sempre e distinção do que anteriormente . 39

mudar essa suposição, verifico que não sonhos ou quimeras. Em seguimento ainda quando aquele que me deu a
deixo de estar seguro de que sou algu- disso, vejo claramente que teria tão 10. Mas não me posso impedir de
existência se servisse de todas as suas
ma coisa . 3 6 pouca razão ao dizer: excitarei minha forças para enganar-me? Haverá, tam- crer que as coisas corpóreas , cujas 40

imaginação para conhecer mais distin-


8. Mas também pode ocorrer que tamente o que sou, como se dissesse: bém, algum desses atributos que possa imagens se formam pelo meu pensa-
essas mesmas coisas, que suponho não estou atualmente acordado e percebo ser distinguido de meu pensamento, ou mento, e que se apresentam aos senti-
que se possa dizer que existe separado dos, sejam mais distintamente conheci-
algo de real e de verdadeiro; mas, visto das do que essa não sei que parte de
3 3 Entre todas as faculdades: 1) do corpo — 2) da que não o percebo ainda assaz nitida-
alma, uma só, o pensamento, resiste à exclusão. mim mesmo que não se apresenta à
Vemos aqui a importância do fim do § 4: "Esta mente, dormiria intencionalmente a 3 E m virtude desse princípio, não me é dado abso-
7
imaginação: embora, com efeito, seja
proposição — eu sou, eu existo — é necessaria- fim de que meus sonhos mo represen- lutamente o direito de recorrer à imaginação, pois
mente verdadeira sempre que eu a pronuncio ou que "tudo quanto posso compreender por seu meio" foi uma coisa bastante estranha que coisas
tassem com maior verdade e evidência. excluído peia dúvida. Por aí eu sei, ao mesmo
eu a concebo em meu espírito ". E ao refletir sobre que considero duvidosas e distantes
esta inseparabilidade — único dado que se encontra E, assim, reconheço certamente que tempo, que minha natureza é puro pensamento
em minha posse — que obtenho imediatamente a nada, de tudo o que posso com- exclusivo de todo elemento corporal. E a segunda sejam mais claras e mais facilmente
natureza "daquilo que sou". Trata-se da primeira verdade, a qual não se deve confundir com a distin- conhecidas por mim do que aquelas
verdade da cadeia de razões.
preender por meio da imaginação, per- ção real entre a alma e o corpo, estabelecida somen-
3 4 "Anteriormente", isto é, no plano em que nos tence a este conhecimento que tenho de te na Meditação Sexta. Cf. 510.
Cumpre observar a diferença relativamente à A saber, um pensamento: a) distinto dos corpos,
colocava o parágrafo precedente, eu podia proferir mim mesmo e que é necessário lembrar 3 8

definição do § 7: "Isto é, um espírito, um entendi-


3 9

estas palavras, mas sem lhes ter determinado o sen- se os houver; b) distinto das faculdades não propria-
tido, portanto sem conhecê-lo. mento ou uma razão". Aí determinava-se a essência mente intelectuais, como a imaginação, que só me
3 Sobre o fim desse parágrafo, cf. 505 e segs. N ã o
9
da substância "coisa pensante"; aqui ela é descrita pertencem porque implicam este pensamento puro.
há necessidade alguma de ir procurar em outra revestida de seus diferentes modos. Desse novo Novo assalto do pensamento imaginativo ine-
3 6O contraditor que retorquisse haver talvez em 4 0

parte uma resposta, visto que dei a única resposta ponto de vista, reintegra-se na "coisa pensante" o rente à "minha natureza" e do qual não posso ainda
mim alguma outra faculdade desconhecida situar-
que respeitava os dados do problema: "Eu sou uma que fora excluído de sua essência. Todos esses me desprender: estou convencido, mas não persua-
se-ia no plano da Psicologia e não das razões meta-
coisa que pensa". Mas "o homem natural" sente-se modos (imaginar, sentir, querer), embora não per- dido. Daí a necessidade de uma contraprova que
físicas. Um dos princípios da análise é que não
tentado a recorrer à imaginação a fim de completar tençam à minha natureza, não podem ser postos em servirá para estabelecer a terceira verdade. Como
tenho o direito de arguir propriedades ainda desco-
esta resposta. Há nisso uma inclinação que o pará- dúvida, na medida em que se beneficiam da certeza todas as figuras de retórica das Meditações, esta
nhecidas para combater as que se acham agora
grafo seguinte irá desenraizar. do Cogito. integra-se na ordem.
estabelecidas.
DESCARTES MEDITAÇÕES 105
104

todas as coisas que se apresentavam ao segundo a extensão do que jamais ima- la, senão chapéus e casacos que podem
que são verdadeiras e certas e que per- ginei. É preciso, pois, que eu concorde
paladar, ao olfato, ou à visão, ou ao cobrir espectros ou homens fictícios
tencem à minha própria natureza. Mas que não poderia mesmo conceber pela
tato, ou à audição, encontram-se mu- que se movem apenas por molas? Mas
vejo bem o que seja: meu espírito imaginação o que é essa cera e que
dadas e, no entanto, a mesma cera per- julgo que são homens verdadeiros e
apraz-se em extraviar-se e não pode somente meu entendimento é quem o
manece. Talvez fosse como penso assim compreendo, somente pelo poder
ainda conter-se nos justos limites da concebe ; digo este pedaço de cera
atualmente, a saber, que a cera não era 43
de julgar que reside em meu espírito,
verdade. Soltemos-lhe, pois, ainda uma em particular, pois para a cera em
nem essa doçura do mel, nem esse aquilo que acreditava ver com meus
vez, as rédeas a fim de que, vindo, em geral é ainda mais evidente. Ora, qual
agradável odor das flores, nem essa olhos.
seguida, a libertar-se delas suave e é esta cera que não pode ser concebida
oportunamente, possamos mais facil- brancura, nem essa figura, nem esse 15. Um homem que procura elevar
som, mas somente um corpo que um senão pelo entendimento ou pelo espí- seu conhecimento para além do
mente dominá-lo e conduzi-lo . 4 1
rito? Certamente é a mesma que vejo,
pouco antes me aparecia sob certas comum deve envergonhar-se de apro-
11. Comecemos pela consideração que toco, que imagino e a mesma que
formas e que agora se faz notar sob veitar ocasiões para duvidar das for-
das coisas mais comuns e que acredi- conhecia desde o começo. Mas o que é
outras. Mas o que será, falando preci- mas e dos termos do falar do vulgo;
tamos compreender mais distinta- de notar é que sua percepção, ou a
samente, que eu imagino quando a prefiro passar adiante e considerar se
mente, a saber, os corpos que tocamos concebo dessa maneira? Considere- ação pela qual é percebida, não é uma eu concebia com maior evidência e
e que vemos. Não pretendo falar dos mo-lo atentamente e, afastando todas visão, nem um tatear, nem uma imagi- perfeição o que era a cera, quando a
corpos em geral, pois essas noções ge- as coisas que não pertencem à cera, nação, e jamais o foi, embora assim o
percebi inicialmente e acreditei conhe-
rais são ordinariamente mais confusas, vejamos o que resta. Certamente nada parecesse anteriormente, mas somente
cê-la por meio dos sentidos exteriores,
porém de qualquer corpo em particu- permanece senão algo de extenso, flexí- uma inspeção do espírito, que pode ser
imperfeita e confusa, como era antes, ou ao menos por meio do senso
lar. Tomemos, por exemplo, este peda- vel e mutável. Ora, o que é isto: flexí-
ou clara e distinta, como é presente- comum, como o chamam, isto é, por
ço de cera que acaba de ser tirado da vel e mutável? Não estou imaginando
mente, conforme minha atenção se di- meio do poder imaginativo, do que a
colmeia: ele não perdeu ainda a doçura que esta cera, sendo redonda, é capaz
rija mais ou menos às coisas que exis- concebo presentemente, após haver
do mel que continha, retém ainda algo de se tornar quadrada e de passar do
tem nela e das quais é composta. examinado mais exatamente o que ela
do odor das flores de que foi recolhido; quadrado a uma figura triangular? é e de que maneira pode ser conhecida.
sua cor, sua figura, sua grandeza, são Certamente não, não é isso, posto que 14. Entretanto, eu não poderia es- Por certo, seria ridículo colocar isso
patentes; é duro, é frio, tocamo-lo e, se a concebo capaz de receber uma infini- pantar-me demasiado ao considerar o em dúvida. Pois, que havia nessa pri-
nele batermos, produzirá algum som. dade de modificações similares e eu quanto meu espírito tem de fraqueza e meira percepção que fosse distinto' e
Enfim, todas as coisas que podem não poderia, no entanto, percorrer essa de pendor que o leva insensivelmente evidente e que não pudesse cair da
distintamente fazer conhecer um corpo infinidade com minha imaginação e, ao erro. Pois, ainda que sem falar eu mesma maneira sob os sentidos do
encontram-se neste. por conseguinte, essa concepção que considere tudo isso em mim mesmo, as menor dos animais? Mas quando dis-
12. Mas eis que, enquanto falo, é tenho da cera não se realiza através da palavras detêm-me. todavia, e sou tingo a cera de suas formas exteriores
aproximado do fogo: o que nele resta- minha faculdade de imaginar . 4 2
quase enganado pelos termos da lin- e, como se a tivesse despido de suas
va de sabor exala-se, o odor se esvai, guagem comum; pois nós dizemos que vestimentas, considero-a inteiramente
sua cor se modifica, sua figura se alte- 13. E, agora, que é essa extensão?
Não será ela igualmente desconhecida, vemos a mesma cera, se no-la apresen- n u a , é certo que, embora se possa
44
ra, sua grandeza aumenta, ele torna-se tam, e não que julgamos que é a ainda encontrar algum erro em meu
líquido, esquenta-se, mal o podemos já que na cera que se funde ela aumen-
ta e fica ainda maior quando está intei- mesma, pelo fato de ter a mesma cor e juízo, não a posso conceber dessa
tocar e, embora nele batamos, nenhum a mesma figura: donde desejaria quase forma sem um espírito humano .
ramente fundida e muito mais ainda 4 5
som produzirá. A mesma cera perma- concluir que se conhece a cera pela
quando o calor aumenta? E eu não
nece após essa modificação? Cumpre conceberia claramente e segundo a ver- visão dos olhos e não pela tão-só ins- 4 Cf. 513, onde Descartes se defende de ter pre-
4

confessar que permanece: e ninguém o dade o que é a cera, se não pensasse peção do espírito, se por acaso não tendido "abstrair o conceito da cera de seus aciden-
pode negar. O que é, pois, que se que é capaz de receber mais variedades olhasse pela janela homens que pas- tes". "Os acidentes são contingentes em relação à
substância, mas não a acidentalidade", especifica
conhecia deste pedaço de cera com sam pela rua, à vista dos quais não Guéroult. (Descartes, I, pág. 56.)
tanta distinção? Certamente não pode deixo de dizer que vejo homens da 4 Tal é o sentido exato do "pedaço de cera": eu
5
Raciocínio em duas partes: 1.° o que me permite
mesma maneira que digo que vejo a
4 2

ser nada de tudo o que notei nela por nada posso conhecer através da percepção ou da
reconhecer a mesma cera é sua identidade na medi-
imaginação sem compreender (ou reconhecer), atra-
intermédio dos sentidos, posto que da em que a cera é coisa extensa-, 2.° mas este con- cera; e, entretanto, que vejo desta jane- vés da pensamento, a essência da coisa. Tenho ou
teúdo só pode ser ideia e não imagem da extensão
não razão de reconhecer esta essência? Não sei
que o corpo ocupa atualmente ou daquelas (em nú-
4 3 Por onde fica provado não só que a imaginação ainda. Pois não se trata aqui de saber se eu dispo-
Em outros termos: façamos de conta que inter- mero finito) que poderia ocupar em seguida. Cf.
4 1
não pode me dar a conhecer a natureza dos corpos nho efetivamente do conhecimento da essência do
rompemos a ordem a fim de seguir o senso comum Quintas Respostas: "As faculdades de entender e de
que se lhe apresentam (o que era o objetivo da corpo, mas de saber em quais condições posso estar
em seu próprio terreno. Sobre o fato de ser esta imaginar diferem não só segundo o mais e o menos,
contraprova), mas ainda que o pensamento puro é o seguro de possuir a ideia ciara e distinta deste
transgressão apenas aparente, cf. o importantíssimo porém como duas maneiras de agir totalmente único capaz de fazê-lo. corpo. Cf. Guéroult, op. cit., págs. 144-45.
§ 515 das Respostas. diferentes".
106 DESCARTES

16. Mas, enfim, que direi desse espí- nitidez não deverei eu conhecer-me , 4 7

rito, isto é, de mim mesmo ? Pois até


4 6 posto que todas as razões que servem
aqui não admiti em mim nada além de para conhecer e conceber a natureza
um espírito. Que declararei, digo, de da cera, ou qualquer outro corpo, pro-
mim, que pareço conceber com tanta vam muito mais fácil e evidentemente
nitidez e distinção este pedaço de cera? a natureza de meu espírito? E encon-
Não me conheço a mim mesmo não só tram-se ainda tantas outras coisas no
com muito mais verdade e certeza, mas próprio espírito que podem contribuir
também com muito maior distinção e MEDITAÇÃO T E R C E I R A 4 8
ao esclarecimento de sua natureza, que
nitidez? Pois, se julgo que a cera é ou aquelas que dependem do corpo (como De Deus; que Ele Existe
existe pelo fato de eu a ver, sem dúvida esta) não merecem quase ser enumera-
segue-se bem mais evidentemente que das. 1. Fecharei agora os olhos, tampa- que pensa, isto é, que duvida, que afir-
eu próprio sou, ou que existo pelo fato 18. Mas, enfim, eis que insensivel- rei meus ouvidos, desviar-me-ei de ma, que nega, que conhece poucas coi-
de eu a ver. Pois pode acontecer que mente cheguei aonde queria; pois, já todos os meus sentidos, apagarei sas, que ignora muitas, que ama, que
aquilo que eu vejo não seja, de fato, que é coisa presentemente conhecida mesmo de meu pensamento todas as odeia, que quer e não quer, que tam-
cera; pode também dar-se que eu não por mim que, propriamente falando, só imagens de coisas corporais, ou, ao bém imagina e que sente. Pois, assim
tenha olhos para ver coisa alguma; menos, uma vez que mal se pode fazê-
concebemos os corpos pela faculdade como notei acima, conquanto as coisas
mas não pode ocorrer, quando vejo ou lo, reputá-las-ei como vãs e como fal-
de entender em nós existente e não pela que sinto e imagino não sejam talvez
(coisa que não mais distingo) quando sas; e assim, entretendo-me apenas co-
imaginação nem pelos sentidos, e que absolutamente nada fora de mim e
penso ver, que eu, que penso, não seja migo mesmo e considerando meu
não os conhecemos pelo fato de os ver interior, empreenderei tornar-me nelas mesmas, estou, entretanto, certo
alguma coisa. Do mesmo modo, se
ou de tocá-los, mas somente por os pouco a pouco mais conhecido e mais de que essas maneiras de pensar, que
julgo que a cera existe, pçlo fato de que
conceber pelo pensamento, reconheço familiar a mim mesmo. Sou uma coisa chamo sentimentos e imaginações so-
a toco, seguir-se-á ainda a mesma
com evidência que nada há que me seja mente na medida em que são maneiras
coisa, ou seja, que eu sou; e se o julgo
mais fácil de conhecer do que meu 4 8 Plano da Meditação: de pensar, residem e se encontram cer-
porque minha imaginação disso me §§1-4: recapitulação;
espírito. Mas, posto que é quase tamente em mim. E neste pouco que
persuade, ou por qualquer outra causa §5: a questão de Deus;
impossível desfazer-se tão prontamente §§6-9: discriminação dos dados do pro- acabo de dizer creio ter relatado tudo o
que seja, concluirei sempre a mesma
de uma antiga opinião, será bom que blema. que sei verdadeiramente, ou, pelo
coisa. E o que notei aqui a respeito da A) §§10-14: primeiro caminho para o exame
eu me detenha um pouco neste ponto, a menos, tudo o que até aqui notei que
cera pode aplicar-se a todas as outras do valor objetivo das ideias: o senso comum.
fim de que, pela amplitude de minha B) §§15-29: segundo caminho: sabia.
coisas que me são exteriores e que se (§§Í6-17): princípios de causali-
encontram fora de mim. meditação, eu imprima mais profunda- dade e correspondência; 2. Agora considerarei mais exata-
17. Ora, se a noção ou conheci- mente em minha memória este novo (§18): colocação do problema: em mente se talvez não se encontrem abso-
conhecimento. quais condições reconheceria eu o
mento da cera parece ser mais nítido e valor objetivo de uma ideia?
lutamente em mim outros conheci-
mais distinto após ter sido descoberto (§§19-21): exame das diferentes mentos que não tenha ainda percebido.
É a terceira verdade: o espírito é mais fácil de espécies de ideia sob este novo Estou certo de que sou uma coisa pen-
não somente pela visão ou pelo tato, 4 7

prisma;
conhecer do que o corpo. Com efeito, obtenho sante; mas não saberei também, por-
mas ainda por muitas outras causas, imediatamente o conhecimento da existência e da (§22): a ideia de Deus reconhecida
com quão maior evidência, distinção e natureza de meu espírito, ao passo que o meu pensa- como dotada de valor objetivo = tanto, o que é requerido para me tornar
mento me proporciona apenas a ideia clara e dis- primeira prova; certo de alguma coisa? Nesse primeiro
tinta dos corpos- cuja existência ainda é problemá- (§§23-28): reflexões sobre esta
4 6 Passamos, com este parágrafo, à confirmação
tica. Guéroult comenta: "Quando Descartes declara prova. conhecimento só se encontra uma
da segunda verdade: quando percebo o pedaço de
cera, seja compreendendo clara e distintamente sua que o conhecimento da alma é o mais fácil dos C) §§29-42: segunda prova: clara e distinta percepção daquilo que
natureza, seja apenas imaginando-o ou tocando-o, conhecimentos, quer dizer que é a mais fácil das (§§29-30): necessidade de outra conheço; a qual, na verdade, não seria
só uma coisa é certa, no ponto em que me encontro. verdades científicas e o primeiro dos conhecimentos prova;
É que eu penso percebê-lo. . . Mostrando que este na ordem da ciência. Não quer dizer que a ciência é (§§31-32): primeiro momento, pri- suficiente para me assegurar de que é
"pensamento" era indispensável ao conhecimento mais fácil do que o conhecimento vulgar. A passa- meira hipótese: eu existo por mim verdadeira se em algum momento
gem do senso comum à ciência é, com efeito, a mais mesmo como por uma causa;
da coisa, a análise precedente deu confirmação a
difícil das ascensões". (Op. cit., pág. 128.) (§§33-34): primeiro momento, se-
pudesse acontecer que uma coisa que
esta verdade.
gunda hipótese: eu existo sem eu concebesse tão clara e distintamente
causa; se verificasse falsa. E, portanto, pare-
(§35): segundo momento;
(§§36-37): reflexões subsidiárias. ce-me que já posso estabelecer como
§§38-42: reflexão sobre o conjunto. regra geral que todas as coisas que
108 DESCARTES MEDITAÇÕES 109

concebemos mui clara e mui distinta- rano poder de um Deus se apresenta a sem interromper a ordem de meditação 7. A g o r a , no que concerne às
54

mente são todas verdadeiras . 49 meu pensamento, sou constrangido a que me propus, que é de passar grada- ideias, se as consideramos somente
3. Todavia, recebi e admiti acima confessar que lhe é fácil, se ele o qui- tivamente das noções que encontrar nelas mesmas e não as relacionamos a
várias coisas como muito certas e ser, proceder de tal modo que eu me em primeiro lugar no meu espírito para alguma outra coisa, elas não podem,
muito manifestas, as quais, entretanto, engane mesmo nas coisas que acredito aquelas que aí poderei achar depois ' , 5 propriamente falando, ser falsas; pois,
reconheci depois serem duvidosas e conhecer com uma evidência muito cumpre aqui que eu divida todos os quer eu imagine uma cabra ou uma
incertas. Quais eram, pois, essas coi- grande. E, ao contrário, todas as vezes meus pensamentos em certos géneros e quimera, não é menos verdadeiro que
sas? Eram a terra, o céu, os astros e que me volto para as coisas que penso considere em quais destes géneros há eu imagino tanto uma quanto a outra.
todas as outras coisas que percebia por conceber mui claramente sou de tal propriamente verdade ou erro. 8. Não é preciso temer também que
intermédio de meus sentidos. Ora, o maneira persuadido delas que sou leva- se possa encontrar falsidade nas afec-
6. Entre meus pensamentos, alguns
que é que eu concebia clara e distinta- do, por mim mesmo, a estas palavras: ções ou vontades; pois, ainda que
são como as imagens das coisas, e só
mente nelas? Certamente nada mais engane-me quem puder, ainda assim possa desejar coisas más, ou mesmo
àqueles convém propriamente o nome
exceto que as ideias ou os pensamentos jamais poderá fazer que eu nada seja que jamais existiram, não é por isso,
de ideia : como no momento em que
52
dessas coisas se apresentavam a meu enquanto eu pensar que sou algo; ou todavia, menos verdade que as desejo.
eu represento um homem ou uma qui-
espírito. E ainda agora não nego que que algum dia seja verdade que eu não 9. Assim, restam tão-somente os
mera, ou o céu, ou um ano, ou mesmo
essas ideias se encontrem em mim. tenha jamais existido, sendo verdade juízos, em relação aos quais eu devo
Deus. Outros, além disso, têm algumas
Mas havia ainda outra coisa que eu agora que eu existo; ou então que dois acautelar-me para não me enganar . 5 5
outras formas: como, no momento em
afirmava, e que, devido ao hábito que e três juntos façam mais ou menos do Ora, o principal erro e o mais comum
que eu quero, que eu temo, que eu afir-
tinha de acreditar nela, pensava perce- que cinco, ou coisas semelhantes, que que se pode encontrar consiste em que
mo ou que eu nego, então concebo
ber mui claramente, embora na verda- vejo claramente não poderem ser de eu julgue que as ideias que estão em
efetivamente uma coisa como o sujeito
de não a percebesse de modo algum, a outra maneira senão como as conce- mim são semelhantes ou conformes às
da ação de meu espírito, mas acres-
saber, que havia coisas^ora de mim bo . 50 coisas que estão fora de mim; pois,
cento também alguma outra coisa por
donde procediam essas ideias e às 5. E, por certo, posto que não tenho esta ação à ideia que tenho daquela certamente, se eu considerasse as
quais elas eram inteiramente semelhan- nenhuma razão de acreditar que haja coisa ; e deste género de pensamen-
53
ideias apenas como certos modos ou
tes. E era nisso que eu me enganava; algum Deus que seja enganador, e tos, uns são chamados vontades ou formas de meu pensamento, sem que-
ou, se eu julgava talvez segundo a ver- mesmo que não tenha ainda conside- afecções, e outros juízos. rer relacioná-las a algo de exterior,
dade, não havia nenhum conhecimento rado aquelas que provam que há um mal poderiam elas dar-me ocasião
5 6

que eu tivesse que fosse causa da ver- Deus, a razão de duvidar que depende de falhar.
dade de meu julgamento. somente desta opinião é bem frágil e, 5 1 A fim de varrer definitivamente a dúvida, procu- 10. Ora, destas ideias, umas me
rar-se-á a "ocasião" de provar que há um Deus e
4. Mas quando considerava alguma por assim dizer, metafísica. Mas, a fim que ele não é enganador, mas sem interromper, no parecem ter nascido comigo, outras
5 7

coisa de muito simples e de muito fácil de poder afastá-la inteiramente, devo entanto, a cadeia das razões. Donde, até o § 15, o ser estranhas e vir de fora, e as outras
no tocante à Aritmética e à Geometria, examinar se há um Deus, tão logo a exame minucioso dos dados em meu poder sobre os ser feitas e inventadas por mim
quais eu poderia eventualmente basear minha
por exemplo, que dois e três juntos ocasião se apresente; e, se achar que prova.
produzem o número cinco, e outras existe um, devo também examinar se 5 2 Esta definição da ideia como cópia na qual se 5 4 Segunda classificação: quais são, dentre os con-
coisas semelhantes, não as concebia eu ele pode ser enganador: pois, sem o anuncia um original (a ídéia-quadro) reaparecerá teúdos anteriores, aqueles em que podemos nos
muitas vezes nesta Meditação. Importa tanto mais fiar? Todos, salvo os juízos.
pelo menos bastante claramente para conhecimento dessas duas verdades, sublinhar que os termos "como uma imagem" cons- 5 6 Enquanto conteúdo de pensamento, o juízo é
assegurar que eram verdadeiras? Cer- não vejo como possa jamais estar certo tituem apenas uma comparação destinada a expli- tão certo como os outros (parece-me que eu jul-
tamente, se julguei depois que se podia de coisa alguma. E a fim de que eu car a função da ideia. Não se trata, de forma algu- g o . . . ) . Mas cumpre excluí-lo da indagação, na me-
ma, de assimilar a ideia intelectual à imagem dida em que consiste em afirmar ou em negar sem
duvidar destas coisas, não foi por possa ter a ocasião de examinar isto sensível. Cf. o protesto contra Hobbes nas Terceiras fundamento, que o conteúdo de minha ideia corres-
outra razão senão porque me veio ao Respostas: "Pelo nome de ideia, ele quer somente ponde a uma realidade fora dela. Ou ainda: afirma
"Produz-se, em consequência, uma oscilação que se entendam aqui as imagens das coisas mate- ou nega que o conteúdo de uma ideia (sua "reali-
espírito que talvez algum Deus tivesse 5 0

entre o fato e o direito, entre a certeza do fato de riais pintadas na fantasia corpórea; e sendo isso dade objetiva") possui umwalor objetivo, sem exa-
podido me dar uma tal natureza que eu que sou quando penso e a dúvida absoluta que man- suposto, é-lhe fácil mostrar que não se pode ter minar previamente o conteúdo desta ideia.
me enganasse mesmo no concernente tém de direito a hipótese do Deus enganador. . . nenhuma ideia própria e verdadeira de Deus nem de 5 6 Restrição que tem sua importância. Tornar-se-á
Assim, enquanto o Cogito constitui o único ponto um anjo. . . " ; assim como G 2: "Pelo nome de compreensível no § 19 desta Meditação.
às coisas que me parecem as mais de apoio para a ciência, a ciência. . . é impossível, ideia. . . " Sobre a novidade do sentido dado por 5 7 "Parecem" indica que Descartes se coloca ao
manifestas. Mas todas as vezes que pois, desde que meu espírito deixa de fixar-se no Descartes à palavra "ideia", cf. Gilson, Discours, nível do senso comum. Aqui, com efeito, começa a
Cogito para se dirigir alhures, este ponto de apoio pág. 319. crítica da classificação das ideias segundo o senso
esta opinião acima concebida do sobe- se abisma na noite da dúvida universal, arrastando comum e dos preconceitos que ela implica — é o
5 3 Por esta primeira classificação, distinguem-se:
consigo toda a cadeia das razões." (Guéroult, Des- 1.° as ideias; 2.° os conteúdos nos quais uma ação "primeiro caminho" possível da investigação; o
4 9 A respeito desta regra, cf. 561. cartes, I, págs. 155-157.) do espírito se acrescenta às ideias. segundo inicia-se no § 15.
110 DESCARTES MEDITAÇÕES 111

mesmo. Pois, que eu tenha a faculdade e convincentes . Quando digo que me


58
auxílio de quaisquer coisas exteriores,
parece que isso me é ensinado pela formas de pensar, não reconheço entre
de conceber o que é aquilo que geral- embora ela não me seja ainda conheci- elas nenhuma diferença ou desigual-
mente se chama uma coisa ou uma ver- natureza , entendo somente por essa
59
da; como, com efeito, sempre me pare- dade, e todas parecem provir de mim
dade, ou um pensamento, parece-me palavra natureza uma certa inclinação ceu até aqui que, quando durmo, elas de uma mesma maneira; mas, conside-
que não o obtenho em outra parte que me leva a acreditar nessa coisa, e se formam em mim sem a ajuda dos rando-as como imagens, dentre as
senão em minha própria natureza; mas não uma luz natural que me faça objetos que representam. E, enfim , 61 quais algumas representam uma coisa
serouço agora algum ruído, se vejo o conhecer que ela é verdadeira. Ora, ainda que eu estivesse de acordo que e as Outras uma outra, é evidente que
sol, se sinto calor, até o presente jul- essas duas coisas diferem muito entre elas são causadas por esses objetos, elas são bastante diferentes entre si.
guei que estes sentimentos procediam si; pois eu nada poderia colocar em dú- não é uma consequência necessária Pois, com efeito, aquelas que me repre-
de algumas coisas que existem fora de vida daquilo que a luz natural me reve- que lhes devam ser semelhantes. Pelo sentam substâncias são, sem dúvida,
mim; e enfim parece-me que as sereias, la ser verdadeiro, assim como ela me contrário, notei amiúde, em muitos algo mais e contêm em si (por assim
os hipogrifos e todas as outras quime- fez ver, há pouco, que, do fato de eu exemplos, haver uma grande diferença falar) mais realidade objetiva, isto é,
ras semelhantes são ficções e inven- duvidar, podia concluir que existia. E entre o objeto e sua ideia. Como, por participam, por representação, num
ções de meu espírito. Mas também tal- não tenho em mim outra faculdade, ou exemplo, encontro em meu espírito maior número de graus de ser ou de
vez eu possa persuadir-me de que poder, para distinguir o verdadeiro do duas ideias do sol inteiramente diver- perfeição do que aquelas que repre-
todas essas ideias são do género das falso, que me possa ensinar que aquilo sas: uma toma sua origem nos sentidos sentam apenas modos ou acidentes . 63

que eu chamo de estranhas e que vêm que essa luz me mostra como verda- e deve ser colocada no género daquelas Além do mais, aquela pela qual eu
de fora ou que nasceram todas comigo deiro não o é, e na qual eu me possa que disse acima provirem de fora, e concebo um Deus soberano, eterno,
ou, ainda, que foram todas feitas por fiar tanto quanto nela. Mas, no que se pela qual o sol me parece extrema- infinito, imutável, onisciente, onipo-
mim; pois ainda não lhes descobri cla- refere a inclinações que também me mente pequeno; a outra é tomada nas tente e criador universal de todas as
ramente a verdadeira origem. E o que parecem ser para mim naturais, notei razões da Astronomia, isto é, em cer- coisas que estão fora dele; aquela,
devo fazer principalmente neste ponto frequentemente, quando se tratava de tas noções nascidas comigo, ou, enfim, digo, tem certamente em si mais reali-
é considerar, no tocante àquelas que escolher entre as virtudes e os vícios, é formada por mim mesmo, de qual- dade objetiva do que aquelas pelas
me parecem vir de alguns objetos loca- que elas não me levaram menos ao mal quais as substâncias finitas me são
quer modo que seja, e pela qual o sol
lizados fora de mim, quais as razões do que ao bem; eis por que não tenho representadas.
me parece muitas vezes maior do que a
que me obrigam a acreditá-las seme- motivo de segui-las tampouco no refe- terra inteira. Por certo, essas duas 16. Agora, é coisa manifesta pela
lhantes a esses objetos. rente ao verdadeiro e ao falso. ideias que concebo do sol não podem
13. E, quanto à outra razão, segun- ser ambas semelhantes ao mesmo sol; 6 1 Terceiro argumento. É o mais importante.
11. A primeira dessas razões é que do a qual essas ideias devem provir de Supondo-se que a ideia tem de fato por origem uma
me parece que isso me é ensinado pela e a razão me faz crer que aquela que coisa exterior, daí não resulta, no entanto, que ela
alhures, porquanto não dependem de vem imediatamente de sua aparência é lhe seja semelhante. O juízo sobre a origem ( X é
natureza; e a segunda, que experi- minha vontade, tampouco a acho mais causa de Y) não autoriza, de modo algum, o juízo
a que lhe é mais dessemelhante.
mento em mim próprio que essas convincente . Pois, da mesma forma
60 sobre o valor objetivo (Y assemelha-se a X). Assim
14. Tudo isso me leva a conhecer fica definitivamente afastada a "via" do senso
ideias não dependem, de modo algum, que as inclinações, de que falava há comum.
de minha vontade; pois amiúde se pouco, se encontram em mim, não obs- suficientemente que até esse momento
" E u não poderia dizer que ainda se apresenta
não foi por um julgamento certo e
6 2

apresentam a mim mau grado meu, tante não se acordarem sempre com outra via se não houvesse anteriormente rejeitado
como agora, quer queira quer não, eu minha vontade, e assim talvez haja em premeditado, mas apenas por um cego todas as outras e, por este meio, preparado o leitor
e temerário impulso, que acreditei a melhor conceber o que eu tinha a escrever." (A.
sinto calor, e por esta razão persuado- mim alguma faculdade ou poder pró- T., V, 354). Tendo decidido eliminar os "juízos" de
me de que este sentimento ou esta ideia prio para produzir essas ideias sem haver coisas fora de mim, e diferentes que parte o senso comum, partiremos das ideias
de meu ser, as quais, pelos órgãos de somente, c perguntaremos: existem ideias tais que
de calor é produzido em mim por algo não posso deixar de lhes reconhecer valor objetivo?
Começo da crítica do senso comum, que meus sentidos ou por qualquer outro
diferente de mim mesmo, óu seja, pelo 5 8
Por "ocasião" desta pesquisa é que será demons-
compreenderá três argumentos. meio que seja, enviam-me suas ideias trada a existência de Deus.
calor do fogo ao pé do qual me encon- 5 9 Primeiro argumento: impossibilidade de confiar
ou imagens e imprimem em mim suas 8 3 Cf. G 23. — A "diferença" entre os conteúdos
tro. E nada vejo que pareça mais num instinto pretensamente "natural". . . não designa apenas a diferença desses conteúdos
6 0 Segundo argumento: . . .nem na independência semelhanças. mesmos (uma cadeira, um pedaço de cera, um gene-
razoável do que julgar que essa coisa aparente das ideias adventícias em relação à minha
15. Mas há ainda uma outra v i a 62 ral), mas também a diferença de "seus graus de ser
estranha envia-me e imprime em mim vontade, para concluir que essas ideias têm certa-
para pesquisar se, entre as coisas das ou de perfeição", conforme o objeto que represen-
mente por origem uma coisa exterior a mim. É de tam. "Perfeição" designa um bem que se deve natu-
sua semelhança, mais do que qualquer notar que a ideia de uma faculdade desconhecida quais tenho em mim as ideias, há algu- ralmente possuir e, como tal, pertence pois ao ser
outra coisa. que era rejeitada na Meditação Segunda, porque ela
mas que existem fora de mim. A saber, (cf. Gilson, Discours, 317). — Esta diferença quan-
não podia valer contra uma ideia clara e distinta, é titativa entre os graus de ser dos conteúdos possibi-
12. Agora é preciso que eu veja se aqui admitida. Mas é para mostrar que nada posso caso essas ideias sejam tomadas so- litará a aplicação do princípio de causalidade, enun-
estas razões são suficientemente fortes concluir na ausência de uma ideia clara e distinta. mente na medida em que são certas ciado adiante.
112 DESCARTES MEDITAÇÕES 113

luz natural que deve haver ao menos zido em um objeto que dele era priva-
na ideia que não se encontra em sua tiradas, mas que jamais podem conter
tanta realidade na causa eficiente e do anteriormente se não for por uma causa, cumpre, portanto, que ela obte-
coisa que seja de uma ordem, de um algo de maior ou de mais perfeito . 7 0
total quanto no seu efeito: pois de onde nha esse algo do nada; mas, por imper-
é que o efeito pode tirar sua realidade grau ou de um género ao menos tão feita que seja essa maneira de ser pela 18. E quanto mais longa e cuidado-
senão de sua causa? E como poderia perfeito quanto o calor, e assim os qual uma coisa é objetivamente ou por samente examino todas estas coisas,
esta causa lha comunicar se não a outros. Mas ainda, além disso, a ideia representação no entendimento por sua tanto mais clara e distintamente reco-
tivesse em si mesma ? 6 4 do calor, ou da pedra, não pode estar ideia , decerto não se pode dizer, no
68 nheço que elas são verdadeiras. Mas,
17. Daí decorre não somente que
6 5 em mim se não tiver sido aí colocada entanto, que essa maneira ou essa enfim, que concluirei de tudo isso?
o nada oçião poderia produzir coisa por alguma causa que contenha em si forma não seja nada, nem por conse- Concluirei que, se a realidade objetiva
alguma, mas também que o que é mais ao menos tanta realidade quanto aque- guinte que essa ideia tire sua origem do de alguma de minhas ideias é tal que
perfeito, isto é, o que contém em si la que concebo no calor ou na pedra. nada. Não devo também duvidar que eu reconheça claramente que ela não
mais realidade, não pode ser uma Pois, ainda que essa causa não trans- seja necessário que a realidade esteja está em mim nem formal nem eminen-
decorrência e uma dependência do mita à minha ideia nada de sua reali- formalmente nas causas de minhas temente e que, por conseguinte, não
menos perfeito. E esta verdade não é dade atual ou formal, nem por isso se ideias, embora a realidade que eu con- posso, eu mesmo, ser-lhe a causa, daí
somente clara e evidente nos seus efei- deve imaginar que essa causa deva ser sidero nessas ideias seja somente obje- decorre necessariamente que não exis-
tos, que possuem essa realidade que os menos real; mas deve-se saber que, tiva, nem pensar que basta que essa to sozinho no mundo, mas que há
filósofos chamam de atual ou formal, sendo toda ideia uma obra do espírito, realidade se encontre objetivamente em ainda algo que existe e que é a causa
mas também nas ideias onde se consi- sua natureza é tal que não exige de si suas causas ; pois, assim como essa
dera somente a realidade que eles cha-
69
desta ideia; ao passo que, se não se
nenhuma outra realidade formal além maneira de ser objetivamente pertence encontrar em mim uma tal ideia, não
mam de objetiva: por exemplo, a pedra da que recebe e toma de empréstimo às ideias, pela própria natureza delas,
que ainda não foi, não somente não terei nenhum argumento que me possa
do pensamento ou do espírito, do qual do mesmo modo a maneira ou forma convencer e me certificar da existência
pode agora começar a ser, se não for ela é apenas um modo, isto é, uma de ser formalmente pertence às causas
produzida por uma cbisa que possui de qualquer outra coisa além de mim
maneira ou forma de pensar. Ora, a dessas ideias (ao menos às primeiras e mesmo; pois procurei-os a todos cui-
em si formalmente, ou eminentemen- fim de que uma ideia contenha uma tal principais) pela própria natureza delas.
te , tudo o que entra na composição dadosamente e não pude, até agora,
6 6
realidade objetiva de preferência a E ainda que possa ocorrer que uma
da pedra, ou seja, que contém em si as encontrar nenhum . 7 1
outra, ela o deve, sem dúvida, a algu- ideia dê origem a uma outra ideia, isso
mesmas coisas ou outras mais excelen- ma causa, na qual se encontra ao todavia não pode estender-se ao infini- 19. Ora, entre essas ideias, além
tes do que aquelas que se encontram menos tanta realidade formal quanto to, mas é preciso chegar ao fim a uma
na pedra; e o calor não pode ser produ- daquela que me representa a mim
esta ideia contém de realidade objeti- primeira ideia, cuja causa seja um mesmo, sobre a qual não pode haver
va . Pois, se supomos que existe algo
6 7
como padrão ou original, na qual toda aqui nenhuma dificuldade, há uma
6 4Primeiro princípio invocado como "manifesto a realidade ou perfeição esteja contida outra que me representa um Deus, ou-
pela luz natural": princípio de causalidade (cf. 211 e
* Do ponto de vista de sua realidade formal, as
formalmente e em efeito, a qual só se tras as coisas corporais e inanimadas,
G 20, 21). Mas será este princípio, enunciado geral- 7

mente, aplicável ao caso das ideias que nos preocu- ideias são simplesmente conteúdos do pensamento; encontre objetivamente ou por repre- outras os anjos, outras os animais,
pam? Daí a necessidade de completá-lo com o prin- mas, do ponto de vista de sua realidade objetiva, sentação nessas ideias. De sorte que a outras, enfim, que me representam ho-
cípio expresso no parágrafo seguinte, que Guéroult "aquela não há de satisfazer quem disser (somente) luz natural me faz conhecer evidente-
denomina: "princípio de correspondência da ideia e que o próprio entendimento é a causa delas". (Pri- mens semelhantes a mim. Mas, no que
meiras Respostas.) Trata-se de uma inovação de mente que as ideias são em mim como
de seu ideatum". se refere às ideias que me representam
Nesse parágrafo difícil, mostra-se que o princí- Descartes. Para a Filosofia tomista, "não havia pro- quadros, ou imagens, que podem na
6 5

pio de causalidade vale tanto no caso de uma "reali- blema especial da causa do conteúdo das ideias. . .
verdade facilmente não conservar a outros homens ou animais, ou anjos,
dade atual ou formal" quanto no caso de uma "rea- porque este conteúdo, não sendo considerado como
lidade objetiva". Traduzamos. Seja uma substância do ser, não requeria nenhuma causa própria. . . perfeição das coisas de onde foram
Nessas condições, o ser formal de meu conceito re- 7 0 Conhecido pela luz natural, este princípio,
existente em ato: uma pedra, um homem. É evidente como o anterior, faz parte dessas noções primitivas
que há na causa que a produziu pelo menos tanta quer uma causa (o intelecto que apreende' a forma
da pedra), mas o ser objetivo de meu conceito não a que escapam ao domínio do Grande Embusteiro.
realidade quanto nesta substância mesma. Seja " Há imperfeição na medida em que o conteúdo Isso não significa que as ideias sejam efetivamente
agora a ideia que eu tenho desta substância (isto é, requer". (Gilson, Discours, 322.) Com Descartes,
ao contrário, coloca-se uma questão que para a representativo é privado da existência própria ao as imagens das coisas, porém me permite apenas
uma "realidade objetiva" e não mais uma "reali- objeto que representa. Cf. Primeiras Respostas: "A aplicar o princípio de causalidade entre uma reali-
dade atual ou formal"). É igualmente evidente que Escolástica não tinha sentido: posso fiar-me na
ideia para afirmar o que se me aparece através dela? maneira de ser pela qual uma coisa existe objetiva- dade objetiva e uma realidade atual.
há no ser existente ("atual ou formalmente") que é mente ou por representação no entendimento por
"Como é que o sendo para nós é o próprio senão?", 7 1 Recapitulação da exposição precedente (desde o
causa desta ideia (ou desta "realidade objetiva") sua ideia é imperfeita".
traduz Guéroult, ao fim de seu livro. (Op. cif., I I , § 15) e posição do problema: encontrarei eu uma
pelo menos tanta realidade quanto nesta ideia
305.) Através dos termos da ontologia medieval, é a 6 9 Outra objeção possível: a ideia não terá como ideia cuja realidade objetiva seja tal que me seja
mesma.
ontologia do que se convencionou chamar "o idea- causa outra ideia e assim sucessivamente ao infini- absolutamente impossível imputar a sua causa a
6 6Uma causa contém "formalmente" seu efeito to? Resposta: esta regressão é possível, mas, cedo
lismo moderno" de Fichte a Husserl que aqui se meu exclusivo pensamento? Estapositio quaestionis
quando ela lhe é homogénea, e o contém "eminente- ou tarde, chega-se a uma causa que possui uma reali-
desenha. exige, pois, uma nova enumeração e classificação
mente", no caso contrário. Cf. G 4. dade "formal ou atual". dos diversos géneros de ideias.
116 DESCARTES MEDITAÇÕES 117

guma substância que fosse verdadeira- semelhantes: pois, ao contrario, sendo modo em mim em potência, embora capaz de adquirir algum maior acrés-
mente infinita . 81 esta ideia mui clara e distinta, e con- ainda não se produzam e não façam cimo. Mas concebo Deus atualmente
23. E não devo imaginar que não 82 tendo em si mais realidade objetiva do surgir suas ações. Com efeito, já perce- infinito em tão alto grau que nada se
concebo o infinito por uma verdadeira que qualquer outra, não há nenhuma bo que meu conhecimento aumenta e pode acrescentar à soberana perfeição
ideia, mas somente pela negação do que seja por si mais verdadeira nem se aperfeiçoa pouco a pouco e nada que ele possui. E, enfim, compreendo
que é finito, do mesmo modo que com- que possa ser menos suspeita de erro e vejo que o possa impedir de aumentar muito bem que o ser objetivo de uma
preendo o repouso e as trevas pela de falsidade. cada vez mais até o infinito ; pois, 85
ideia não pode ser produzido por um
negação do movimento e da luz: pois, 25. A ideia, digo, desse ser sobera- sendo assim acrescido e aperfeiçoado, ser que existe apenas em potência, o
ao contrário, vejo manifestamente que namente perfeito e infinito é inteira- nada vejo que impeça que eu possa qual, propriamente falando, não é
há mais realidade na substância infi- mente verdadeira; pois, ainda que tal- adquirir, por seu meio, todas as outras nada, mas somente por um ser formal
nita do que na substância finita e, por- vez se possa fingir que um tal ser não perfeições da natureza divina; e, enfim, ou atual.
tanto, que, de alguma maneira, tenho existe, não se pode fingir, todavia, que parece que o poder que tenho para a 29. E por certo nada vejo em tudo o
em mim a noção do infinito anterior- sua ideia não me representa nada de aquisição dessas perfeições, se ele exis- que acabo de dizer que não seja muito
mente à do finito, isto é, de Deus antes real, como disse há pouco da ideia do te em mim, pode ser capaz de aí impri-
fácil de conhecer pela luz natural a
que de mim mesmo. Pois, como seria mir e introduzir suas ideias. Todavia,
frio. todos os que quiserem pensar nisto
possível que eu pudesse conhecer que 26. Esta mesma ideia é também mui olhando um pouco mais de perto, reco-
nheço que isto não pode ocorrer; pois, cuidadosamente: mas, quando abrando
duvido e que desejo, isto é, que me clara e distinta porque tudo o que meu um pouco minha atenção, achando-se
falta algo e que não sou inteiramente espírito concebe clara e distintamente primeiramente, ainda que fosse verda-
de que meu conhecimento adquire meu espírito obscurecido e como que
perfeito, se não tivesse em mim nenhu- de real e de verdadeiro, e que contém cegado pelas imagens das coisas sensí-
ma ideia de um ser mais perfeito que o em si alguma perfeição, está contido e todos os dias novos graus de perfeição
e que houvesse em minha natureza veis, não se lembra facilmente da razão
meu, em comparação ao qual eu encerrado inteiramente nessa ideia. pela qual a ideia que tenho de um ser
conheceria as carências de minha 27. E isto não deixa de ser verda- muitas coisas em potência que não
existem ainda atualmente, todavia mais perfeito que o meu deva necessa-
natureza ? 83 deiro, ainda que .eu não compreenda o riamente ter sido colocada em mim por
24. E não se pode dizer que esta infinito, ou mesmo que se encontre em essas vantagens não pertencem e não
se aproximam de maneira alguma da um ser que seja de fato mais perfei-
ideia de Deus talvez seja material- Deus uma infinidade de coisas que eu to .
mente falsa, e que, por conseguinte, eu não possa compreender, nem talvez ideia que tenho da Divindade, na qual 8 6

a possa ter do nada, isto é, que ela também atingir de modo algum pelo nada se encontra em potência, mas 30. Eis por que desejo passar adian-
possa estar em mim pelo fato de eu ter pensamento: pois é da natureza do infi- onde tudo é atualmente e efetivamente. te e considerar se eu mesmo, que tenho
carência, como disse acima, das ideias nito que minha natureza, que é finita e E não será mesmo um argumento infa- essa ideia de Deus, poderia existir, no
de calor e de frio e de outras coisas limitada, não possa compreendê-lo; e lível e muito seguro de imperfeição em caso de não haver Deus. E,pergunto,
basta que eu conceba bem isto, e que meu conhecimento o fato de crescer ele de quem tirarei minha existência? Tal-
8 1 "É manifesto que tudo o que concebemos ser em julgue que todas as coisas que concebo pouco a pouco e aumentar gradativa- vez de mim mesmo, ou de meus pais,
Deus dessemelhante às coisas externas não pode vir claramente, e nas quais sei que há al- mente? Demais, ainda que meu conhe- ou ainda de quaisquer outras causas
ao nosso pensamento por intermédio destas pró-
guma perfeição, e talvez também uma cimento aumentasse progressivamente, menos perfeitas que Deus; pois nada se
prias coisas, mas somente por intermédio da causa nem por isso deixo de conceber que ele
desta diversidade, isto é. Deus." (Tsrceiras Respos- infinidade de outras que ignoro, estão pode imaginar de mais perfeito, nem
tas.) em Deus formal ou eminentemente, não poderia ser atualmente infinito, mesmo de igual a ele.
8 2 Aqui começa, até o § 29, uma reflexão sobre a
para que a ideia que dele tenho seja a porquanto jamais chegará a tão alto 31. Ora, se eu fosse independente de
prova què acabo de obter: sua certeza é inabalável. grau de perfeição que não seja ainda
8 3 Cf. 526 e 563. — Sobre a precessão da noção mais verdadeira, a mais clara e a mais todo outro ser, e fosse eu próprio o
de infinito com respeito à noção de finito, cf. Cot. distinta dentre todas as que se acham autor de meu ser , certamente não
87
com Burman (A. T . , V, 153) e, sobretudo, o seguinte
texto que nos indica a orientação antidialética de
em meu espírito . 8 4 8 5 Daí porque Descartes não poderá perceber duvidaria de coisa alguma, não mais
uma tal doutrina: "Nós não temos a intelecção do 28. Mas é possível também que eu contradição na noção do "maior de todos os núme- conceberia desejos e, enfim, não me
ros": o que me impede de enumerar indefinidamente
infinito por negação da limitação; é do fato de a
seja algo mais do que imagino ser e ou talvez mesmo infinitamente? Mas poderei pôr no faltaria perfeição alguma; pois eu me
limitação conter a negação do infinito infere-se erra-
damente que a negação da limitação contém o que todas as perfeições que atribuo à mesmo plano este infinito que o meu conhecimento teria dado todas aquelas de que tenho
é talvez capaz de atingir (nada sei dele) e a presença alguma ideia e assim seria Deus.
conhecimento do infinito; posto que aquilo pelo que natureza de um Deus estejam de algum atual do infinito à qual me envia a ideia de Deus? A
o infinito difere do finito é real e positivo, mas, ao
contrário, a limitação peia qual o finito difere do ideia dominante desse parágrafo é a oposição entre
o atualmente infinito e o infinito que não se pode 8 Sobre o sentido da segunda prova (que aqui se
6
infinito é não-ser ou negação do ser; ora, o que não 8 4 Não só posso conhecer o infinito sem o "com-
distinguir do indefinido. (Cf. Princípios, I , 27.) enceta), cf. 213.
é não pode conduzir ao conhecimento do que é; preender", mas o conhecimento desta incompreensi-
mas, inversamente, sua negação deve ser percebida bilidade me concede um conhecimento verdadeiro e Acerca da origem e do alcance matemático dessas 8 Primeiro momento desta prova: posso eu ser
7

a partir do conhecimento da coisa". (A. T., III, pág. inteiro do infinito, embora eu tenha apenas um noções, consultar o cap. IV do Leibniz Critique de por mim mesmo? A)Admitamos que sou o autor de
427.) conhecimento parcial do que ele contém. Descartes, de Belaval. mim mesmo.. .
118 DESCARTES MEDITAÇÕES 119

32. E não devo imaginar que as coi- maneira alguma das outras; e assim do menos perfeitas do que ele ? Muito 92 não pode haver progresso até o infini-
sas que me faltam são talvez mais difí- fato de ter sido um pouco antes não se ao contrário, isso não pode ser assim. to, posto que não se trata tanto aqui da
ceis de adquirir do que aquelas das segue que eu deva ser atualmente, a Pois, como já disse anteriormente, é causa que me produziu outrora como
quais já estou de posse; pois, ao não ser que neste momento alguma uma coisa evidente que deve haver ao da que me conserva presentemente.
contrário, é bem certo que foi muito causa me produza e me crie, por assim menos tanta realidade na causa quanto
dizer, novamente, isto é, me conserve. em seu efeito. E portanto, já que sou 36. Não se pode fingir também que
mais difícil que eu, isto é, uma coisa ou talvez muitas causas juntas tenham
uma substância pensante, haja saído 34. Com efeito, é uma coisa muito uma coisa pensante, e tenho em mim
clara e muito evidente (para todos os alguma ideia de Deus, qualquer que concorrido em parte para me produzir,
do nada, do que me seria adquirir as 90
e que de uma recebi a ideia de uma das
luzes e os conhecimentos de muitas que considerarem com atenção a natu- seja, enfim, a causa que se atribua à
reza do tempo) que uma substância, minha natureza, cumpre necessaria- perfeições que atribuo a Deus, e de
coisas que ignoro, e que são apenas outra a ideia de alguma outra, de sorte
acidentes dessa substância. E, assim, para ser conservada em todos os mente confessar que ela deve ser de
momentos de sua duração, precisa do igual modo uma coisa pensante e pos- que todas essas perfeições se encon-
sem dificuldade, se eu mesmo me tives- tram na verdade em alguma* parte do
se dado esse mais de que acabo de mesmo poder e da mesma ação, que suir em si a ideia de todas as perfeições
seria necessário para produzi-la e que atribuo à natureza divina . Em Universo, mas não se acham todas jun-
falar, isto é, se eu fosse o autor de meu 93
tas e reunidas em uma só que seja
nascimento e de minha existência, eu criá-la de novo, caso não existisse seguida, pode-se de novo pesquisar se
ainda. De sorte que a luz natural nos essa causa tem sua origem e sua exis- Deus. Pois, ao contrário, a unidade, a
não me teria privado ao menos de coi- simplicidade ou a inseparabilidade de
sas que são de mais fácil aquisição, a mostra claramente que a conservação tência de si mesma ou de alguma outra
e a criação não diferem senão com res- coisa. Pois se ela a tem de si própria *, todas as coisas que existem em Deus é
saber, de muitos conhecimentos de que 9
uma das principais perfeições que con-
minha natureza está despojada ; não 88
peito à nossa maneira de pensar, e não segue-se, pelas razões que anterior-
em efeito. Cumpre, pois, apenas que eu mente aleguei, que deve ser, ela cebo existentes nele; e por certo a ideia
me teria tampouco privado de nenhu- dessa unidade e reunião de todas as
me interrogue a mim mesmo para mesma, Deus; porquanto, tendo a vir-
ma das coisas que estão contidas na perfeições de Deus não foi colocada
saber se possuo algum poder e alguma tude de ser e de existir por si, ela deve
ideia que concebo de Deus, pois não em mim por nenhuma causa da qual eu
virtude que seja capaz de fazer de tal também, sem dúvida, ter o poder de
há nenhuma que me pareça de mais modo que eu, que sou agora, seja ainda não haja recebido também as ideias de
difícil aquisição; e se houvesse alguma, possuir atualmente todas as perfeições
no futuro: pois, já que eu sou apenas cujas ideias concebe, isto é, todas todas as outras perfeições. Pois ela não
certamente ela me pareceria tal (su- uma coisa pensante (ou ao menos já mais pode ter feito compreender juntas
pondo que tivesse por mim todas as aquelas que eu concebo como existen-
que não se trata até aqui precisamente e inseparáveis, sem fazer ao mesmo
outras coisas que possuo), porque eu tes em Deus. Se ela tira sua existência
senão dessa parte de mim mesmo), se tempo com que eu soubesse o que elas
sentiria que minha força acabaria neste um tal poder residisse em mim, decerto de alguma outra causa diferente de
si , tornar-se-á a perguntar, pela eram e que as conhecesse a todas de al-
ponto e não seria capaz de alcançá-lo. eu deveria ao menos pensá-lo e ter 9 5
guma maneira . 96

33. E ainda que possa supor que conhecimento dele: mas não sinto ne- mesma razão, a respeito desta segunda
talvez tenha sido sempre como sou causa, se ela é por si, ou por outrem, 37. No que se refere aos meus pais,
nhum poder em mim e por isso reco-
91

agora , nem por isso poderia evitar a


89 nheço evidentemente que dependo de até que gradativamente se chegue a aos quais parece que devo meu nasci-
força desse raciocínio, e não deixo de algum ser diferente de mim. uma última causa que se verificará ser mento, ainda que seja verdadeiro tudo
conhecer que é necessário que Deus Deus. E é muito manifesto que nisto quanto jamais pude acreditar a seu res-
35. Poderá também ocorrer que este peito, daí não decorre todavia que
seja o autor de minha existência. Pois ser de que dependo não seja aquilo que
todo o tempo de minha vida pode ser 9 2 Segundo momento da prova: eu sei agora "que sejam eles que me conservam, nem que
chamo Deus e que eu seja produzido dependo de algum ser diferente de mim", mas este me tenham feito e produzido enquanto
dividido em uma infinidade de partes, ou por meus pais ou por outras causas ser não poderá ser algo mais exceto Deus?
cada uma das quais não depende de 9 3 Invocação do princípio de causalidade e aplica- coisa pensante, pois apenas puseram
ção ao caso precedente. algumas disposições nessa matéria, na
9 0 Cumpre justificar a equação entre criação e 9 4 A) Esta causa estranha existe por si; ela deve, qual julgo que eu, isto é, meu espírito
É impossível, em virtude do princípio: "Quem conservação, colocada ao fim do parágrafo anterior portanto, causar-se com todas as perfeições de que
8 8

pode o mais pode o menos". Ora, é mais difícil criar e sem a qual a refutação já não disporia de força. tenho ideia. Portanto, ela é Deus. — a única coisa que considero atual-
uma substância (mesmo finita) do que atribuir Mas trata-se de um princípio ainda imposto pela 9 li) Esta causa é, por sua vez, produzida por
5 mente como eu próprio — se acha
perfeições que jamais são algo exceto acidentes (cf. descontinuidade dos momentos do tempo. outra, mas é possível remontar assim indefinida-
Cf. o § 13, onde a hipótese de uma faculdade mente na série das causas? N ã o ; aqui, não nos
encerrado; e, portanto, não pode haver
G 23). Logo, como não posso produzir o menos (as 9 1

perfeições de que tenho ideia), não posso produzir o desconhecida não era repelida; mas tratava-se de assiste o direito, pois não se trata da causa que me aqui, quanto a eles, nenhuma dificul-
mais (ser o autor do meu ser). A hipótese é absurda. uma faculdade "própria para produzir ideias", e produziu (posso subsistir sem os meus pais), mas da dade, mas é preciso concluir necessa-
B) Admitamos que eu exista sem causa. A aqui trata-se de uma faculdade que poderia produzir causa que me criou ou me conserva no ser a cada
8 9

a mim próprio com meu desconhecimento. Ora, instante do tempo. Vemos quão ligada se encontra riamente que, pelo simples fato de que
descontinuidade e a independência dos momentos
do tempo invalidam de pronto esta hipótese, por- dado que eu aqui me considero sempre como sendo esta segunda prova à ideia cartesiana do tempo,
quanto implicam a necessidade para mim de ser nada mais do que uma coisa pensante, tal hipótese é imposta pela Física. (Cf. Guéroult, op. cit.. 1, págs.
conservado, em cada instante, por uma causa. dessa vez inaceitável. 272-85.) 9 6 Cf. Col. com Burman, A . T., V, págs. 154-55.
120 DESCARTES MEDITAÇÕES 121

eu existo e de que a ideia de um ser coisa imperfeita, incompleta e depen- soberana felicidade da outra vida não ção, embora incomparavelmente
soberanamente perfeito, isto é, Deus, é dente de outrem, que tende e aspira consiste senão nessa contemplação da menos perfeita, nos faz gozar do maior
em mim, a existência de Deus está mui incessantemente a algo de melhor e de Majestade divina, assim perceberemos, contentamento de que sejamos capazes
evidentemente demonstrada . 9 7 maior do que sou, mas também conhe- desde agora, que semelhante medita- de sentir nesta vida.
38. Resta-me apenas examinar de ço, ao mesmo tempo, que aquele de
que maneira adquiri esta ideia. Pois quem dependo possui em si todas essas
não a recebi dos sentidos e nunca ela grandes coisas a que aspiro e cujas
se ofereceu a mim contra minha expec- ideias encontro em mim, não indefini-
tativa, como o fazem as ideias das coi- damente e só em potência, mas que ele
sas sensíveis quando essas coisas se as desfruta de fato, atual e infinita-
apresentam ou parecem apresentar-se mente e, assim, que ele é Deus. E toda
aos órgãos exteriores de meus sentidos. a força do argumento de que aqui me
Não é também uma pura produção ou servi para provar a existência de Deus
ficção de meu espírito; pois não está consiste em que reconheço que seria
em meu poder diminuir-lhe ou acres- impossível que minha natureza fosse
centar-lhe coisa alguma. E, por conse- tal como é, ou seja, que eu tivesse em
guinte, não resta outra coisa a dizer mim a ideia de um Deus, se Deus não
senão que, como a ideia de mim existisse verdadeiramente; esse mesmo
Deus, digo eu, do qual existe uma ideia
mesmo, ela nasceu e foi produzida co-
em mim, isto é, que possui todas essas
migo desde o momento em que fui
altas perfeições de que nosso espírito
criado. pode possuir alguma ideia, sem, no
39. E certamente não se deve achar entanto, compreendê-las a todas, que
estranho que Deus, ao me criar, haja não é sujeito a carência alguma e que
posto em mim esta ideia para ser como nada tem de todas as coisas que assi-
que a marca do operário impressa em nalam alguma imperfeição.
sua obra; e não é tampouco necessário
40. Daí é bastante evidente que ele
que essa marca seja algo diferente da
não pode ser embusteiro, posto que a
própria obra. Mas pelo simples fato de
luz natural nos ensina que o embuste
Deus me ter criado , é bastante crível
98
depende necessariamente de alguma
que ele, de algum modo, me tenha pro-
carência . 99
duzido à sua imagem e semelhança e
41. Mas, antes de examinar mais
que eu conceba essa semelhança (na
cuidadosamente isso e passar à consi-
qual a ideia de Deus se acha contida)
deração das outras verdades que daí se
por meio da mesma faculdade pela
podem inferir, parece-me muito a pro-
qual me concebo a mim próprio; isto
pósito deter-me algum tempo na con-
quer dizer que, quando reflito sobre
templação deste Deus todo perfeito,
mim, não só conheço que sou uma
ponderar totalmente à vontade seus
maravilhosos atributos, considerar, ad-
Deus é colocado como causa de si, autor de meu
9 7

ser e soberanamente perfeito. É a quinta verdade. mirar e adorar a incomparável beleza


Guéroult .acentua que, se a primeira prova é a mais dessa imensa luz, ao menos na medida
importante (ao menos na ordem das razões, que não em que a força de meu espírito, que
se deve confundir com a ordem das coisas), posto
que só ela me permite colocar Deus, passar do sub- queda de algum modo ofuscado por
jetivo ao objetivo, esta segunda prova, por seu ele, mo puder permitir.
turno, me faz conhecer melhor quem ele é. Cf. Prin-
cípios, 1,22.
42. Pois, como a fé nos ensina que a
9 8 Todas as coisas criadas se parecem com seu
criador, pelo menos na medida em que são, como 9 9 Assim Fica cumprido o programa em dois pon-
ele, substâncias. Quanto mais ser ele lhes concedeu, tos, traçado no § 5: 1.° Deus existe; 2.° Deus não é
mais elas se lhe parecem. enganador.
MEDITAÇÃO Q U A R T A 1 0 0

Do Verdadeiro e do Falso

1. Acostumei-me de tal maneira ser completo e independente, ou seja,


nesses dias passados a desligar meu de Deus, apresenta-se a meu espírito
espírito dos sentidos e notei tão exata- com igual distinção e clareza; e do
mente que há muito poucas coisas que simples fato de que essa ideia se encon-
se conhecem com certeza no tocante às tra em mim, ou que sou ou existo, eu
coisas corporais, que há muito mais que possuo esta ideia, concluo tão
que nos são conhecidas quanto ao evidentemente a existência de Deus e
espírito humano, e muito mais ainda que a minha depende inteiramente dele
quanto ao próprio Deus ', que agora
10 em todos os momentos de minha vida,
desviarei sem nenhuma dificuldade que não penso que o espírito humano
meu pensamento da consideração das possa conhecer algo com maior evi-
coisas sensíveis ou imagináveis, para dência e certeza . E já me parece
102

dirigi-lo àquelas que, sendo despren- que descubro um caminho que nos
didas de toda matéria, são puramente conduzirá desta contemplação do ver-
inteligíveis. dadeiro Deus (no qual todos os tesou-
2. E certamente a ideia que tenho ros da ciência e da sabedoria estão
do espírito humano, enquanto é uma encerrados) ao conhecimento das ou-
coisa pensante e não extensa, em lon- tras coisas do Universo . 103

gura, largura e profundidade, e que 3. Pois, primeiramente, reconheço


não participa de nada que pertence ao que é impossível que ele me engane
corpo, é incomparavelmente mais dis- jamais, posto que em toda fraude e
tinta do que a ideia de qualquer coisa embuste se encontra algum modo de
corporal. E quando considero que imperfeição. E, conquanto pareça que
duvido, isto é, que sou uma coisa poder enganar seja um sinal de sutileza
incompleta e dependente, a ideia de um ou de poder, todavia querer enganar
testemunha indubitavelmente fraqueza
Plano da Meditação:
1 0 0
ou malícia. E, portanto, isso não se
§§1-2: recapituiação; pode encontrar em Deus.
§§3-5: esboço de uma solução para ino-
centar Deus do erro;
4. Em seguida, experimento em
§6: rejeição desta solução;
§§7-8: dois argumentos metafísicos pos- 1 0 2Reconheço, pois, agora, que Deus é a coisa
síveis; mais fácil de conhecer, embora sendo, lembremo-lo.
§§9-12: recurso à Psicologia e explica- incompreensível.
ção do mecanismo do erro; 1 0 3Este "caminho" é a confrontação de duas teses
§§13-14: Deus desculpado do erro; aparentemente contraditórias: 1.° fui criado por um
§§15-17: retomo à Metafísica e valida- Deus não enganador; 2.° devo reconhecer que sou
ção da regra da claridade e da distinção. sujeito ao erro. Cf. a oscilação entre o princípio da
Deus é, portanto, mais conhecido do que o
1 0 1 dúvida universal e o fato da certeza do Cogito, no
meu Eu pensante. começo da Meditação precedente.
124 DESCARTES MEDITAÇÕES 125

mim mesmo certa capacidade de jul- modo que não devo espantar-me se me 7. Considerando isso com mais mesma coisa que poderia talvez, com
gar, que sem dúvida recebi de Deus, do engano. atenção, ocorre-me inicialmente ao alguma forma de razão, parecer muito
mesmo modo que todas as outras coi- 5. Assim, conheço que o erro en- pensamento que me não devo espantar imperfeita, caso estivesse inteiramente
sas que possuo; e como ele não quere- quanto tal não é algo de real que se minha inteligência não for capaz de só, apresenta-se muito perfeita em sua
ria iludir-me, é certo que ma deu tal dependa de Deus, mas que é apenas compreender por que Deus faz o que natureza, caso seja encarada como
que não poderei jamais falhar, quando uma carência; e, portanto, que não faz e que assim não tenho razão algu- parte de todo este Universo. E, embo-
a usar como é necessário. E não resta- tenho necessidade, para falhar, de ma de duvidar de sua existência, pelo ra, desde que me propus a tarefa de
algum poder que me tenha sido dado fato de que, talvez, eu veja por expe-
ria nenhuma dúvida quanto a esta ver- por Deus particularmente para esse duvidar de todas as coisas, eu tenha
riência muitas outras coisas sem poder
dade, se não fosse possível, ao que efeito, mas que ocorre que eu me enga- compreender por que razão nem como conhecido com certeza apenas minha
parece, inferir dela a consequência de ne pelo fato de o poder que Deus me Deus as produziu . Pois, sabendo já
108
existência e a de Deus, todavia tam-
que assim nunca me enganei; pois se doou para discernir o verdadeiro do que minha natureza é extremamente bém, já que reconheci o infinito poder
devo a Deus tudo o que possuo e se ele falso não ser infinito em m i m . 10 5 fraca e limitada, e, ao contrário, que a de Deus, não poderia negar que ele não
não me deu nenhum poder para falhar, 6. Todavia, isto ainda não me satis- de Deus é imensa, incompreensível e tenha produzido muitas outras coisas,
parece que nunca devo enganar-me . faz inteiramente ; pois o erro não é
10 4 10 6 infinita ° , não mais tenho dificuldade
1 9
ou, pelo menos, que não as possa pro-
E, na verdade, quando penso apenas uma pura negação, isto é, não é a sim- em reconhecer que há uma infinidade duzir, de sorte que eu exista e seja
em Deus, não descubro em mim ples carência ou falta de alguma perfei- de coisas em sua potência cujas causas colocado no mundo como parte da
nenhuma causa de erro ou de falsida- ção que me não é devida, mas antes é ultrapassam o alcance de meu espírito. universalidade de todos os seres.
de; mas em seguida, retornando a mim, uma privação de algum conhecimento E esta única razão é suficiente para 9. E, em seguida, olhando-me de
a experiência me ensina que estou, não que parece que eu deveria possuir. E, persuadir-me de que todo esse género mais perto e considerando quais são
obstante, sujeito a uma infinidade de considerando a natureza de Deus, não de causas que se costuma tirar do meus erros (que apenas testemunham
me parece possível que me tenha dado fim não é de uso algum nas coisas físi- haver imperfeição em mim), descubro
erros e, ao procurar de mais perto a
alguma faculdade que seja imperfeita cas ou naturais; pois não me parece que dependem do concurso de duas
causa deles, noto que ao meu pensa- em seu género, isto é, à qual falte algu- que eu possa sem temeridade procurar causas, a saber, do poder de conhecer
mento não se apresenta somente uma ma perfeição que lhe seja devida; pois, e tentar descobrir os fins impenetráveis que existe em mim e do poder de esco-
ideia real e positiva de Deus, ou seja, se é verdade que, quanto mais um arte- lher, ou seja, meu livre arbítrio; isto é,
de um ser soberanamente perfeito, mas são é perito mais as obras que saem de de Deus . 110

8. Demais, vem-me ainda ao espí- de meu entendimento e conjuntamente


também, por assim dizer, uma certa suas mãos são perfeitas e acabadas, de minha vontade . Isto porque, só
ideia negativa do nada, isto é, daquilo que ser imaginaríamos nós que, produ- rito que não devemos considerar uma 112

única criatura separadamente, quando pelo entendimento, não asseguro nem


que está infinitamente distante de toda zido por esse soberano criador de nego coisa alguma, mas apenas conce-
pesquisamos se as obras de Deus são
sorte de perfeição; e que sou como que todas as coisas, não fosse perfeito e perfeitas, mas de uma maneira geral bo as ideias das coisas que posso asse-
um meio entre Deus e o nada, isto é, inteiramente acabado em todas as suas todas as coisas em conjunto . Pois a gurar ou negar. Ora, considerando-o
colocado de tal maneira entre o sobe- partes? E por certo não há dúvida de
111

assim precisamente, pode-se dizer que


rano ser e o não-ser que nada se encon- que Deus só pode me ter criado de tal Primeiro argumento metafísico possível: recur- jamais encontraremos nele erro algum,
tra em mim, na verdade, que me possa maneira que jamais eu pudesse enga-
1 0 8

so à incompreensibilidade de Deus. Ela possibilita a desde que se tome a palavra erro em


nar-me; é certo também que ele quer tese: "O erro pode ser bom sem o nosso conheci-
sua significação própria. E, ainda que
conduzir ao erro, na medida em que sempre aquilo que é o melhor: ser-me- mento ". Cf. Princípios, III, 2.
um soberano ser me produziu; mas á, pois, mais vantajoso falhar do que 1 U 9 Podemos medir a diferença entre a finitude haja talvez uma infinidade de coisas
cartesiana e a finitude kantiana, se advertirmos que neste mundo das quais não tenho ideia
que, se me considero participante de não falhar ? ' 107 Kant poderia escrever o primeiro membro desta
alguma maneira do nada .ou do não- frase, mas nunca o segundo. alguma em meu entendimento, não se
ser, isto é, na medida em que não sou " ° Fundamentação metafísica da exclusão das pode por isso dizer que ele seja privado
causas finais em Física. A respeito, cf. Col. com dessas ideias como de algo que seja de-
eu próprio o soberano ser, acho-me Estando o erro no homem devido ao fato de ele
1 0 5
Burman (A. T., V, pág. 158) e Princípios, I , 28.
também participar do nada e nao sendo o nada
exposto a uma infinidade de faltas, de causa de nada ( G 20), pode parecer que o erro fica "Não devemos presumir tanto de nós mesmos a vido à sua natureza, mas somente que
assim explicado e Deus desculpado. . .
ponto de crer que Deus nos quisesse participar seus não as tem; porque, com efeito, não há
conselhos..."
i o e p q ê? é q
o r U ã
u e 0 £ m mim como
e r r o n Q e s t e
1 1 1 Segundo argumento metafísico possível: o que
razão alguma capaz de provar que
1 0 4 E no entanto eu me engano. . . É a próprra simples falta de ser, como admite com demasiada eu percebo como imperfeição só é verdade em rela- Deus devesse dar-me uma faculdade de
colocação do problema da Teodicéia: Deus, meu rapidez a solução anterior, mas como uma "imper-
criador, é infinitamente perfeito; ora, o erro e o mal feição positiva". Não é uma simples ignorância,
ção a mim e não ao conjunto do Universo. Argu- conhecer maior e mais ampla do que
mento que se inscreve na linha das teodicéias clássi-
existem de fato; como desculpar Deus disso? A bem mas uma ignorância que eu dou por uma verdade. cas dos estóicos e de Santo Agostinho até Leibniz
dizer, o problema assim colocado preocupa menos Mais do que uma negação: uma privação. (e, se se quer, até essas teodicéias modernas que são ''2 Recurso ao exame das faculdades psicológicas.
Descartes do que este outro: como, salvaguardando 1 0 7 O reconhecimento do erro como privação des- o hegelianismo e o marxismo). Deve-se observar Será sucessivamente mostrado que, nem a presença
definitivamente a veracidade de Deus, garantir loca o problema: já que Deus quer sempre o melhor, que, apelando este argumento para a ideia de Uni- em mim do entendimento, nem a da vontade, me
definitivamente a possibilidade "do conhecimento será melhor que o homem tenha sido afetado de verso, é necessário tornar o recurso a esta compa- autorizam a queixar-me de uma privação qualquer
das outras coisas do Universo"? uma privação? tível com a ordem, neste lugar. e, portanto, de uma imperfeição em Deus.
126 DESCARTES MEDITAÇÕES 127

aquela que me deu; e, por hábil e enge- sinto ser em mim tão grande, que não e o conhecimento natural, longe de facilmente e escolhe o mal pelo bem ou
nhoso operário que eu mo represente, concebo absolutamente a ideia de diminuírem minha liberdade, antes a o falso pelo verdadeiro. O que faz com
nem por isso devo pensar que devesse nenhuma outra mais ampla e mais aumentam e a fortalecem. De maneira que eu me engane e peque . 119

pôr em cada uma de suas obras todas extensa: de sorte que é principalmente que esta indiferença que sinto, quando 11. Por exemplo, examinando, estes
as perfeições que pôde pôr em algu- ela que me faz conhecer que eu trago a não sou absolutamente impelido para dias passados , se alguma coisa 120
mas. Não posso tampouco me lastimar irríagem e a semelhança de Deus. Pois, um lado mais do que para outro pelo existia no mundo e reconhecendo que,
de que Deus não me tenha dado um ainda que seja incomparavelmente peso de alguma razão, é o mais baixo pelo simples fato de examinar esta
livre arbítrio ou uma vontade bastante maior em Deus do que em mim, quer grau da liberdade, e faz parecer mais questão, decorria necessariamente que
ampla e perfeita, visto que, com efeito, por causa do conhecimento e do poder, uma carência no conhecimento do que eu próprio existia, não podia impedir-
eu a experimento tão vaga e tão exten- que, aí se encontrando juntos, a tor- uma perfeição na vontade; pois, se eu me de julgar que era verdadeira uma
sa que ela não está encerrada em nam mais firme e mais eficaz, quer por conhecesse sempre claramente o que é coisa que concebia tão claramente, não
quaisquer limites . E o que me pare-
113 causa do objeto, na medida em que a verdadeiro e o que é bom, nunca esta- que a isso me achasse forçado por al-
ce muito notável neste ponto é que, de vontade se dirige e se estende infinita- ria em dificuldade para deliberar que guma causa exterior, mas somente por-
todas as outras coisas existentes em mente a mais coisas; ela não me pare- juízo ou que escolha deveria fazer; e que a uma grande clareza que havia no
mim, não há nenhuma tão perfeita e ce, todavia, maior se eu a considero assim seria inteiramente livre sem meu entendimento seguiu-se uma forte
tão extensa que eu não reconheça efeti- formal e precisamente nela mesma . nunca ser indiferente .
vamente que ela poderia ser ainda
11 6
11 8
inclinação em minha vontade; e fui le-
Pois consiste somente em que podemos 10. De tudo isso reconheço que vado a acreditar com tanto mais liber-
maior e mais perfeita. Pois, por exem- fazer uma coisa ou deixar de fazer (isto
plo, se considero a faculdade de conce- nem o poder da vontade, o qual recebi dade quanto me encontrei com menos
é, afirmar ou negar, perseguir ou fugir) de Deus, não é em si mesmo a causa de indiferença. Ao contrário, agora não
ber que há em mim, acho que ela é de ou, antes, somente em que, para afir-
uma extensão muito pequena e grande- meus erros, pois é muito amplo e somente sei que existo na medida em
mar ou negar, perseguir ou fugir às muito perfeito na sua espécie; nem que sou alguma coisa que pensa, mas
mente limitada e, ao mesmo tempo, eu coisas que o entendimento nos propõe,
me represento a ideia de uma outra tampouco o poder de entender ou de apresenta-se também ao meu espírito
agimos de tal maneira que não senti- conceber: pois, nada concebendo uma certa ideia da natureza corpórea;
faculdade muito mais ampla e mesmo mos absolutamente que alguma força
infinita; e, pelo simples fato de que me senão por meio deste poder que Deus o que faz com que eu duvide se esta
exterior nos obrigue a tanto . Pois, 11 7
me conferiu para conceber, não há dú- natureza pensante que existe em mim,
posso representar sua ideia, conheço
sem dificuldade que ela pertence à para que eu seja livre, não é necessário vida de que tudo o que concebo, conce- ou antes, pela qual eu sou o que sou, é
natureza de Deus. Da mesma manei- que eu seja indiferente na escolha de bo como é necessário e não é possível diferente dessa natureza corpórea, ou
ra , se examino a memória ou a
11 4
um ou de outro dos dois contrários; que nisso me engane. Donde nascem, ainda, se ambas não são senão uma
imaginação, ou qualquer outro poder, mas antes, quanto mais eu pender para pois, meus erros? A saber, somente de mesma coisa. E suponho, aqui, que
não encontro nenhum que não seja em um, seja porque eu conheça evidente- que, sendo a vontade muito mais não conheço ainda nenhuma razão que
mim muito pequeno e limitado e que mente que o bom e o verdadeiro aí se ampla e extensa que o entendimento, me persuada de uma coisa mais do que
em Deus não seja imenso e infinito . 11 5
encontrem, seja porque Deus disponha eu não a contenho nos mesmos limites, de outra: donde se segue que sou intei-
Resta tão-somente a vontade, que eu assim o interior do meu pensamento, mas estendo-a também às coisas que ramente indiferente quanto a negá-lo
tanto mais livremente o escolherei e o não entendo; das quais, sendo a vonta- ou assegurá-lo, ou mesmo ainda a abs-
abraçarei. E certamente a graça divina de por si indiferente, ela se perde muito ter-me de dar algum juízo a este
'' Nota-se que a infinidade da vontade é primeiro
3
respeito.
evocada quanto à grandeza: "Não se encontra
encerrada em quaisquer limites. . . a ideia de outra 1 1 Passagem que significa: a vontade marca a
6 1 1 8Sobre o fim desse parágrafo, cf. as especifica- 12. E essa indiferença não se esten-
mais ampla e mais extensa". É por aí, com efeito, minha semelhança com Deus, menos por ser ela ções essenciais oferecidas pela carta a Mesland, de de somente às coisas das quais o enten-
que ela mais difere do entendimento, para o qual há infinita em grandeza (pois este infinito ainda é ape- 9 de fevereiro de 1654, onde Descartes distingue
coisas incognoscíveis de direito (o conteúdo do infi- nas indefinido com respeito a Deus) do que por ser, entre a liberdade antes da ação e enquanto se exerce
nito em Deus). Nele tanto quanto em mim, poder absoluto do sim e a ação. Só no segundo momento, diz ele, é que a 1 1 9 O conhecimento do mecanismo do erro aqui
' 1 Esta passagem quererá dizer que a finitude do
4
do não. liberdade "consiste apenas na facilidade que temos obtido constitui a sexta verdade. O erro é possível
entendimento é do mesmo género que a da imagina- 1 1 Esse poder absoluto nunca está mais próximo,
7 de operar... e foi neste sentido que escrevi que me porque a vontade livre, fundamentalmente indife-
ção? Guéroult nega e observa (op. cií., págs. no homem, daquele que há em Deus, do que ao ser dirigia tanto mais livremente a uma coisa quanto rente, pode tornar-se "indiferente" no segundo senti-
328-29) que, se a finitude da imaginação é corporal, ele iluminado pelo entendimento. Eis por que era a ela impelido por mais razões". Para Mersenne, do da palavra — no caso, pronunciar-se sobre o que
a do entendimento é antes uma "indefinitude": importa distinguir aqui esta "potência real e posi- ele sublinha também "que somos sempre livres de ela não entende inteira ou suficientemente. " E quan-
nosso conhecimento pode aumentar "gradativa- tiva de se determinar" que Deus nos concedeu da deixar de perseguir um bem que nos é claramente do dela abusamos deste modo, não é de admirar que
mente até o infinito", o que constitui uma espécie de "indiferença", estado no qual a vontade, não sendo conhecido ou de adquirir uma verdade eviden- cheguemos a nos equivocar." (Princípios, I , 35.)
finitude em face da infinitude positiva de Deus. iluminada por nenhuma razão num ou noutro senti- te. . . " (27 de maio de 1641). Assim, Descartes 1 2 0Os §§ 11 e 12 tiram a conclusão da verdade
1 1 É uma maneira de falar, pois a memória (que
5
do, está afastada ao máximo da de Deus. Cf. Car- pode manter, ao mesmo tempo e sem contradição, a precedente, mostrando-me como devo usar meu
supõe a sucessão temporal) e a imaginação (que ias, a Mesland, 2 de maio de 1644. Esta "indife- liberdade-indeterminação e a liberdade-esponta- livre arbítrio a fim de evitar o erro; ao mesmo
supõe a união a um corpo), não se encontram em rença" possível da vontade humana desempenhará neidade. Cf. uma crítica desta última em Sartre, tempo, orientam-nos para outra verdade: a confir-
Deus. papel decisivo no parágrafo seguinte. Situations, I, pág. 317. mação definitiva da veracidade de Deus.
MEDITAÇÕES 129
128 DESCARTES
coisa ou um ser e que, se a relacio- criado de modo que eu nunca falhas-
dimento não tem nenhum conheci- me deu uma inteligência mais capaz,
namos a Deus como à sua causa, ela s e . Mas não posso por isso negar
127
mento, mas geralmente também a ou uma luz natural maior do que aque-
não deverá ser chamada privação mas que não seja, de alguma maneira, a
todas aquelas que ele não descobre la que dele recebi, posto que, com efei-
somente negação, segundo o signifi- maior perfeição em todo o Universo o
com uma clareza perfeita no momento to, é próprio do entendimento finito
cado que se atribui a essas palavras na fato de algumas de suas partes não
em que a vontade delibera sobre elas; não compreender uma infinidade de
Escola f. 12 serem isentas de defeitos, do que se
pois, por prováveis que sejam as conje- coisas e próprio de um entendimento
14. Pois, com efeito, não é uma fossem todas semelhantes. E não tenho
turas que me tornam inclinado a julgar criado o ser finito: mas tenho todos os
imperfeição em Deus o fato de ele me nenhum direito de me lastimar se
alguma coisa, o tão-só conhecimento motivos de lhe render graças pelo fato
haver concedido a liberdade de dar Deus, tendo-me colocado no mundo,
que tenho de que são apenas conjetu- de que, embora jamais me devesse
meu juízo ou de não o dar sobre certas não me tenha querido colocar na
ras e não razões certas e indubitáveis algo, me tenha dado, não obstante,
coisas, a cujo respeito ele não pôs um ordem das coisas mais nobres e das
basta para me dar ocasião de julgar o todo o pouco de perfeição que existe
claro e distinto saber em meu entendi- mais perfeitas; tenho mesmo motivo de
contrário. Isto é o que experimentei em^mim; estando bem longe de conce-
mento; mas, sem dúvida, é em mim me rejubilar porque, se ele não me con-
suficientemente nesses dias passados, ber sentimentos tão injustos como o de
uma imperfeição o fato de eu não a cedeu a virtude de jamais falhar atra-
ao estabelecer como falso tudo o que imaginar que ele me tirou ou reteve
usar corretamente e de dar temeraria- vés do meio a que me referi acima, que
tivera antes como muito verdadeiro, injustamente as outras perfeições que
mentê" meu juízo sobre coisas que eu depende de um claro e evidente conhe-
pelo simples fato de ter notado que se não me d e u . Não tenho também
122
concebo apenas com obscuridade e cimento de todas as coisas a respeito
podia duvidar disso de alguma manei- motivo de me lastimar do fato de me
confusão . 12 6 das quais posso deliberar, ele ao menos
ra. haver dado uma vontade mais ampla
do que o entendimento, uma vez que, 15. Vejo, no entanto, que era fácil a deixou em meu poder o outro meio,
13. Ora, se me abstenho de formu- que é reter firmemente a resolução de
consistindo a vontade em apenas uma Deus fazer de sorte que eu nunca me
lar meu juízo sobre uma coisa, quando jamais formular meu juízo a respeito
coisa, e sendo seu sujeito como que enganasse, embora permanecesse livre
não a concebo com suficiente clareza e de coisas cuja verdade não conheço
indivisível, parece que sua natureza é e com um conhecimento limitado, a
distinção, é evidente que o utilizo claramente . Pois, embora eu note
tal que dela nada se poderia tirar sem saber, dando a meu entendimento uma 128
muito bem e que não estou enganado; essa fraqueza em minha natureza, de
destruí-la; e, certamente, quanto maior clara e distinta inteligência de todas as
mas, se me determino a negá-la ou a não poder ligar continuamente meu
for ela, mais tenho que agradecer a coisas a respeito das quais eu devia al-
assegurá-la, então não me sirvo como espírito a um mesmo pensamento,
bondade daquele que ma d e u . E, guma vez deliberar, ou, então, se ape-
devo de meu livre arbítrio; se garanto o 123
posso, todavia, por uma meditação
enfim, não devo também lamentar-me nas houvesse gravado tão profunda-
que não é verdadeiro, é evidente que atenta e amiúde reiterada, imprimi-la
de que Deus concorra comigo para for- mente em minha memória a resolução
me engano, e até mesmo, ainda que jul- tão fortemente na memória, que não
mar os atos dessa vontade, isto é, os de nunca julgar a respeito de alguma
gue segundo a verdade, isto não ocorre deixe jamais de lembrar-me, todas as
juízos nos quais eu me engano, porque coisa sem concebê-la clara e distinta-
senão por acaso e eu não deixo de fa- vezes de que tiver necessidade, e adqui-
esses atos são inteiramente verdadeiros mente de sorte que eu nunca a pudesse
lhar e de utilizar mal o meu livre arbí- rir, desta maneira, o hábito de nunca
e absolutamente bons na medida em esquecer. E noto efetivamente que,
trio; pois a luz natural nos ensina que falhar. E, na medida em que é nisto
que dependem de Deus; e há, de algu- enquanto me considero inteiramente
o conhecimento do entendimento deve
ma forma, mais perfeição em minha só, como se apenas eu existisse no
sempre preceder a determinação da
natureza, pelo fato de que posso mundo, teria sido muito mais perfeito
vontade. E é neste mau uso do livre Descartes sentir-se-á agora inteiramente satis-
formá-los, do que se não o pudesse . do que sou caso Deus me houvesse 1 2 7

arbítrio que se encontra a privação que 12 4 feito? Não parece. Pois, afinal, Deus dispunha do
constitui a forma do e r r o . A priva-
121
Quanto à privação, que consiste na meio de não permitir o erro — e ele o permitiu. Daí
por que, definitivamente, a dialética cartesiana
ção, digo, encontra-se na operação na única razão formal do erro e do peca- 1 2 5d) Mas o próprio erro, na medida em que necessita dos argumentos clássicos da Teodicéia:
medida em que procede de mim; mas do, não tem necessidade de nenhum resulta do jogo dos elementos anteriores, sem dúvi- por que não teria Deus concedido todas as perfei-
concurso de Deus, já que não é uma da é privação ou imperfeição em nós, mas não é ções? Não é melhor para o todo que haja imperfei-
ela não se acha no poder que recebi de produzido por Deus. O erro provém do fato de Deus ções nas partes? É mister, na verdade, recorrer aos
Deus, nem mesmo na operação na me- "não nos ter dado tudo quanto podia nos dar", mas fins de Deus, mesmo que nos sejam impenetráveis,
dida em que ela depende dele. Pois não "não era de modo algum obrigado" a nos dar (Prin- para inocentá-lo de nossa "finitude". Veremos, de
a) A finitude de meu entendimento não pode
1 2 2 cípios, I , 31). Assim, isso que, para nós, é privação modo mais geral, que, em Descartes, a Antropo-
tenho certamente nenhum motivo de ser imputada a Deus como uma imperfeição. Cf. ou imperfeição positiva, não passa de negação ou logia reintroduz a finalidade que a Física mecani-
me lastimar pelo fato de que Deus não Princípios I, 36. ser-limitado do ponto de vista de Deus. Em termos cista exclui.
b) Quanto à vontade, não só não tenho por
1 2 3 modernos, poder-se-ia dizer que o homem torna ser 1 2 8 Mas esta aparente insatisfação representava
que me queixar, mas devo ser reconhecido a Deus o não-ser, mas que, no absoluto, trata-se de uma ilu- apenas um desvio para outra conclusão importante:
O erro é, portanto, agora reconhecido como por ma ter dado infinita. são. Esta confirmação da veracidade e da perfeição
1 2 1 dado que, no absoluto, o erro não é nada de real, eu
privação, contrariamente ao que se passava na ' 2 c) Que minha vontade possa formar juízos é
4 de Deus pode ser considerada como a sétima jamais falharia se me lembrasse sempre que devo
pseudo-solução do § 5. E , não obstante, Deus será ainda uma perfeição. Assim, tomados um a um, os verdade. julgar o que me aparece clara e distintamente como
disso desculpado por quatro considerações: "Não elementos que concorrem ao erro humano não cons- 1 2 6 Recapitulação: Deus é inocentado. real ou verdadeiro.
tenho nenhum motivo de me lastimar..." tituem sinal de nenhum não-ser ou de nenhum mal.
130 DESCARTES

que consiste a maior e principal perfei- preciso concluir que uma tal concep-
ção do homem, considero não ter ção ou um tal juízo é verdadeiro' . 23

ganho pouco com esta Meditação, ao 17. De resto, não somente aprendi
hoje o que devo evitar para não mais
haver descoberto a causa das falsida-
falhar, mas também o que devo fazer
des e dos erros. para chegar ao conhecimento da ver-
16. E, certamente, não pode haver dade. Pois, certamente, chegarei a MEDITAÇÃO Q U I N T A 1 3 0

outra além daquela que expliquei; pois, tanto se demorar suficientemente


todas as vezes que retenho minha von- minha atenção sobre todas as coisas Da Essência das Coisas Materiais;
tade nos limites de meu conhecimento, que conceber perfeitamente e se as e, Novamente, de Deus, que Ele Existe
de tal modo que ela não formule juízo separar das outras que não com-
algum senão a respeito das coisas que preendo senão com confusão e obscu- 1. Restam-me muitas outras coisas enumerar nela muitas partes diversas e
lhe são clara e distintamente represen- ridade. E disto, doravante, cuidarei a examinar, concernentes aos atributos atribuir a cada uma dessas partes toda
tadas pelo entendimento, não pode zelosamente. de Deus e à minha própria natureza, sorte de grandezas, defiguras,de situa-
ocorrer que eu me engane; porque toda isto é, ao meu espírito: mas retomarei ções e de movimentos; e, enfim, posso
concepção clara e distinta é sem dúvi- em outra ocasião, talvez, a sua pesqui- consignar a cada um desses movimen-
Daí a oitava verdade: as ideias claras e distin-
tos toda espécie de duração.
1 2 9

da algo de real e de positivo, e portanto tas têm um valor objetivo imediatamente certo. A sa. Agora (após haver notado o que
não pode ter sua origem no nada, mas
regra segundo a qual "todas as coisas que conce- cumpre fazer ou evitar para chegar ao 4. E não conheço estas coisas com
bermos muito clara e muito distintamente são
deve ter necessariamente Deus como verdadeiras", que obtive por reflexão sobre o Cogi-
conhecimento da verdade), o que tenho distinção apenas quando as considero
to, no começo da Meditação Terceira (§ 2), é agora principalmente a fazer é tentar sair e em geral; mas, também, por pouco que
seu autor; Deus, digo, que, sendo sobe- objetivamente validada. Doravante, não mais preci- desembaraçar-me de todas as dúvi- eu a isso aplique minha atenção, con-
ranamente perfeito, não pode ser causa sarei efetuar o Cogito a fim de provar a verdade
das' em que mergulhei nesses dias
31 cebo uma infinidade de particularida-
dessa regra; bastará lembrar-me dela.
de erro algum; e, por conseguinte, é passados e ver se não é possível conhe- des' referentes aos números, às figu-
32

cer nada de certo.no tocante às coisas ras, aos movimentos e a outras coisas
materiais. semelhantes, cuja verdade se revela
com tanta evidência e se acorda tão
2. Mas, antes de examinar se há tais
bem com minha natureza que, quando
coisas que existam fora de mim, devo começo a descobri-las, não parece que
considerar suas ideias na medida em aprendo algo de novo, mas, antes, que
que se encontram em meu pensamento me recordo de algo que já sabia
e ver quais são distintas e quais são anteriormente, isto é, que percebo coi-
confusas. sas que estavam já no meu espírito,
3. Em primeiro lugar, imagino dis- embora eu ainda não tivesse voltado
tintamente esta quantidade que os filó- meu pensamento para elas.
sofos chamam vulgarmente de quanti- 5. E o que, aqui, estimo mais consi-
dade contínua, ou a extensão em derável é que encontro em mim uma
longura, largura e profundidade que há infinidade de ideias de certas coisas
nessa quantidade ou, antes, na coisa à que não podem ser consideradas um
qual ela é atribuída. Demais, posso puro nada, embora talvez elas não te-
nham nenhuma existência fora de meu
1 3 0Plano da Meditação: pensamento' , e que não são fingidas
3 3

§§1-2: exame das ideias das essências;


§§3-6: validação da verdade das essên-
cias matemáticas; as "naturezas verda- 1 3 2Após os entes matemáticos, suas propriedades
deiras e imutáveis" da Matemática não essenciais tais como Deus as instituiu.
são inventadas nem extraídas da expe- 1 3 3A separação entre a essência e a existência só
riência; tem sentido ao nível das ideias. Quando eu penso a
§§7-10: a prova ontológica; essência do triângulo e a existência do mesmo trian-
§§11-15: vantagens desta nova prova. gulo, diz alhures Descartes, esses dois pensamentos
1 3 1Programa das Meditações Quinta e Sexta: diferem apenas enquanto são pensamentos; no
estabelecer a veracidade divina em toda a sua triângulo existente fora de meu pensamento, a
amplitude. essência e a existência não podem ser distinguidas.
132 DESCARTES MEDITAÇÕES 133

por mim, conquanto esteja em minha tudo o que é verdadeiro é alguma coisa não fosse de modo algum verdadeiro, a 8. Mas, ainda que, com efeito, eu
liberdade pensá-las ou não pensá-las; e já demonstrei amplamente acima que existência de Deus deve apresentar-se não possa conceber um Deus sem exis-
mas elas possuem suas naturezas ver- todas as coisas que conheço clara e em meu espírito ao menos como tão tência, tanto quanto uma montanha
dadeiras e imutáveis. Como, por exem- distintamente são verdadeiras. E, con- certa quanto considerei até agora todas sem vale, todavia, como do simples
plo, quando imagino um triângulo, quanto não o tivesse demonstrado, as verdades das Matemáticas, que se fato de eu conceber uma montanha
ainda que não haja talvez em nenhum todavia a natureza de meu espírito é tal referem apenas aos números e às figu- com vale não se segue que haja qual-
lugar do mundo, fora de meu pensa- que não me poderia impedir de julgá- r a s : embora, na verdade, isto não
138

pareça de início inteiramente mani- quer montanha no mundo, do mesmo


mento, uma tal figura, e que nunca las verdadeiras enquanto as concebo modo, embora eu conceba Deus com
tenha havido alguma, não deixa, entre- festo e se afigure ter alguma aparência
clarae distintamente . E me recordo
13 5
de sofisma. Pois, estando habituado existência, parece não decorrer daí que
tanto, de haver uma certa natureza ou de que, mesmo quando estava ainda em todas as outras coisas a fazer dis- haja algum Deus existente: pois meu
forma, ou essência determinada, dessa fortemente ligado aos objetos dos sen- tinção entre a existência e a essência, pensamento não impõe necessidade al-
figura, a qual é imutável e eterna, que tidos, tivera entre as mais constantes persuado-me facilmente de que a exis- guma às coisas; e como só depende de
eu não inventei absolutamente e que verdades aquelas que eu concebia clara tência pode ser separada da essência mim o imaginar um cavalo alado,
não depende, de maneira alguma, de e distintamente no que diz respeito às de Deus e de que, assim, é possível ainda que não haja nenhum que dispo-
meu espírito; como parece, pelo fato de figuras, aos números e às outras coisas conceber Deus como não existindo nha de asas, assim eu poderia, talvez,
que se pode demonstrar diversas pro- que pertencem à Aritmética e à Geo- atualmente. Mas, não obstante, quan- atribuir existência a Deus, ainda que
priedades desse triângulo, a saber, que metria. do penso nisso com maior atenção, não houvesse Deus algum existen-
os três ângulos são iguais a dois retos, 7. Ora, agora , se do simples fato verifico claramente que a existência
que o maior ângulo e oposto ao maior
13 6
não pode ser separada da essência de te . Mas não é assim, é que aqui há
1 4 0

de que posso tirar de meu pensamento um sofisma escondido sob a aparência


lado e outras semelhantes, as quais a ideia de alguma coisa segue-se que Deus, tanto quanto da essência de um
agora, quer queira, quer não, reco- triângulo retilíneo não pode ser sepa- desta objeção: pois pelo fato de que
tudo quanto reconheço pertencer clara rada a grandeza de seus três ângulos não posso conceber uma montanha
nheço mui claramente e mui evidente- e distintamente a esta coisa pertence-
mente estarem nele, ainda que não iguais a dois retos ou, da ideia de uma sem vale não se segue que haja monta-
lhe de fato, não posso tirar disto um montanha, a ideia de um vale; de sorte nha alguma nem vale algum, mas
tenha antes pensado nisto de maneira
alguma, quando imaginei pela primeira argumento e uma prova demonstrativa que não sinto menos repugnância em somente que a montanha e o vale, quer
vez um triângulo; e, portanto, não se da existência de Deus? É certo que não conceber um Deus (isto é, um ser sobe- existam quer não, não podem, de
pode dizer que eu as tenha fingido e encontro menos em mim sua ideia,
13 7 ranamente perfeito) ao qual falte exis- maneira alguma, ser separados um do
inventado. isto é, a ideia de um ser soberanamente tência (isto é, ao qual falte alguma outro; ao passo que, do simples fato de
perfeito, do que a ideia de qualquer fi- perfeição), do que em conceber uma eu não poder conceber Deus sem exis-
6. E aqui só posso me objetar que gura ou de qualquer número que seja. montanha que não tenha vale . 13 9
tência, segue-se que a existência lhe é
talvez essa ideia de triângulo tenha E não conheço menos clara e distinta- inseparável, e, portanto, que existe
vindo ao meu espírito por intermédio mente que uma existência atual e eter- verdadeiramente: não que meu pensa-
de meus sentidos, porque vi algumas na pertence à sua natureza do que 1 3 8Há uma certeza da existência de Deus que é do
mento possa fazer que isso seja assim,
mesmo tipo que a certeza espontânea e ingénua que
vezes corpos de figura triangular; pois conheço que tudo quanto posso de- se atribui às verdades matemáticas. É esta certeza e que imponha às coisas qualquer
posso formar em meu espírito uma monstrar de qualquer figura ou de que ora podemos validar, assim como validamos a
necessidade; mas, ao contrário, porque
infinidade de outras figuras, a cujo res- qualquer número pertence verdadeira- certeza matemática: em nome do princípio do valor
a necessidade da própria coisa, a
objetivo das ideias claras e distintas. Por isso, a
peito não se pode alimentar a menor mente à natureza dessa figura ou desse "prova ontológica" situa-se em plano diverso do saber, da existência de Deus, deter-
suspeita de que jamais tenham caído número. E, portanto, ainda que tudo o das duas outras provas (o fato de se encontrar em
mina meu pensamento a concebê-lo
sob os sentidos e não deixo, todavia, de que concluí nas Meditações anteriores outra Meditação basta para indicá-lo) e é depen-
dessa maneira. Pois não está em minha
dente em relação a elas na ordem das razões
poder demonstrar diversas proprie- metafísicas. liberdade conceber um Deus sem exis-
dades relativas à sua natureza, bem 1 3 Retorno ao plano da "natureza" — o da Medi-
6
1 3 8Sobre a imagem da montanha e do vale: "Não
tência (isto é, um ser soberanamente
como à do triângulo: as quais devem tação Primeira — , onde me é impossível duvidar de
temos nenhuma outra razão para assegurar que não
perfeito sem uma soberana perfeição),
haja absolutamente montanha sem vale, exceto que
ser certamente todas verdadeiras, visto fato de uma verdade matemática quando ela se me
vemos ser impossível completar suas ideias quando como me é dada a liberdade de imagi-
apresenta atualmente.
que as concebo claramente . E, por-13 4 os consideramos um sem o outro, embora possa-
nar um cavalo sem asas ou com asas.
tanto, elas são alguma coisa e não um 1 3 B "Agora" = depois que estamos metafisica- mos, por abstração, ter a ideia de uma montanha ou
mente certos do valor objetivo das ideias claras e de um lugar pelo qual subimos de baixo para cima
puro nada; pois é muito evidente que distintas. sem considerar que se possa descer por aí mesmo de
' 3 Notar a partir daí os "não. . . menos" e "ao
7 cima para baixo". (A Gibieuf, 19 de janeiro de '4 0 Segunda objeção possível: não se tratará
menos": a existência de Deus, legível em sua essên- 1642.) Primeira objeção possível a esta nova prova somente de uma existência em ideia no meu pensa-
1 3A s ideias das essências matemáticas não são,
4
cia, não é menos certa do que as verdades matemá- da existência de Deus: posso conceber Deus como mento? Resposta: em minha ideia de Deus, eu per-
portanto, simuladas nem provenientes do sensível (§ ticas, mas tampouco o é mais. Devemos colocá-la não existente? Resposta: a ideia da essência de cebo a ligação da existência com a essência como
6). Cf. 543. Enquanto ideias claras e distintas, no mesmo plano que essas verdades essenciais que a Deus é inseparável de sua existência assim como uma relação de essência necessária que se impõe ao
correspondem, pois, a algo. dúvida natural não conseguia abalar. "em todas as outras coisas". meu espírito.
134 DESCARTES MEDITAÇÕES 135

9. E não se deve dizer aqui que é, na jamais eu imagine triângulo algum; clara e distintamente que têm a força natureza que, tão logo compreenda
verdade, necessário eu confessar que mas todas as vezes que quero conside- de me persuadir inteiramente. E, embo- algo bastante clara e distintamente,
Deus existe após ter suposto que ele rar uma figura retilínea composta ra, entre as coisas que concebo dessa sou naturalmente levado a acreditá-lo
possui todas as sortes de perfeições, somente de três ângulos é absoluta- maneira, haja na verdade algumas verdadeiro; no entanto, já que sou tam-
posto que a existência é uma delas, mente necessário que eu lhe atribua manifestamente conhecidas de qual- bém de tal natureza que não posso
mas que, com efeito, minha primeira todas as coisas que servem para con- quer, e haja outras também que não se manter sempre o espírito ligado a uma
suposição não era necessária; da cluir que seus três ângulos não são revelam senão àqueles que as conside- mesma coisa, e que amiúde me recordo
mesma maneira que não é necessário maiores do que dois retos, ainda que ram de mais perto e que as examinam de ter julgado uma coisa verdadeira,
pensar que todas as figuras de quatro talvez não considere então isto em mais exatamente; todavia, uma vez quando deixo de considerar as razões
lados podem inscrever-se no círculo, particular. Mas quando examino que descobertas, não são consideradas que me obrigaram a julgá-la dessa
mas que, supondo que tenho este figuras são capazes de ser inscritas no menos certas umas do que as outras. maneira, pode acontecer que nesse ín-
pensamento, sou obrigado a confessar círculo, não é de maneira alguma Como, por exemplo, em todo triângulo terim outras razões se me apresentem,
que o rombóide pode inscrever-se no necessário que eu pense que todas as retângulo, ainda que não pareça tão as quais me fariam facilmente mudar
círculo, já que é uma figura de quatro figuras de quatro lados se encontram facilmente, de início, que o quadrado de opinião se eu ignorasse que há um
lados; e, assim, serei obrigado a con- neste rol; pelo contrário, nem mesmo da base é igual aos quadrados dos dois Deus . E, assim, eu jamais teria uma
1 4 4

fessar uma coisa falsa . Não se 1 4 1


posso fingir que isso ocorra enquanto outros lados, como é evidente que essa ciência verdadeira e certa de qualquer
deve, digo, alegar isto: pois, ainda que eu nada quiser receber em meu pensa- base é oposta ao maior ângulo, não
coisa que seja, mas somente opiniões
não seja necessário que eu incida ja- mento que não possa conceber clara e obstante, uma vez que isto foi reconhe-
vagas e inconstantes.
distintamente. E, por conseguinte, há cido, ficamos persuadidos tanto da
mais em algum pensamento de Deus, 14. Como, por exemplo, quando
uma grande diferença entre as falsas verdade de um como da de outro. E no
todas as vezes, no entanto, que me considero a natureza do triângulo,
suposições, como essa, e as verda- que concerne a Deus, certamente, se
ocorrer pensar em um ser primeiro e meu espírito não estivesse prevenido conheço evidentemente, eu que sou um
soberano, e tirar, por assim dizer, sua deiras ideias que nasceram comigo e, pouco versado em Geometria, que seus
dentre as quais, a primeira e principal por quaisquer prejuízos e se meu pen-
ideia do tesouro de meu espírito, é samento não se encontrasse distraído três ângulos são iguais a dois retos e
necessário que eu lhe atribua todas as é a de Deus. não me é possível não acreditar nisso
pela presença contínua das imagens
espécies de perfeição, embora eu não 10. Pois, com efeito, reconheço de das coisas sensíveis, não haveria coisa enquanto aplico meu pensamento à sua
chegue a enumerá-las todas e a aplicar muitas maneiras que esta ideia não é alguma que eu conhecesse melhor nem demonstração; mas, tão logo eu o des-
minha atenção a cada uma delas em de modo algum algo fingido ou inven- mais facilmente do que ele. Pois have- vie dela, embora me recorde de tê-la
particular. E esta necessidade é sufi- tado, que dependa somente de meu rá algo por si mais claro e mais mani- claramente compreendido, pode ocor-
ciente para me fazer concluir (depois pensamento, mas que é a imagem de festo do que pensar que há um Deus, rer facilmente que eu duvide de sua
que reconheci ser a existência uma uma natureza verdadeira e imutável. isto é, um ser soberano e perfeito, em verdade caso ignore que há um
perfeição ) , que este ser primeiro e
1 4 2 Primeiramente, porque eu nada pode- cuja ideia, e somente nela, a existência Deus . Pois posso persuadir-me de
1 4 s

soberano existe verdadeiramente: do ria conceber, exceto Deus só, a cuja necessária ou eterna está incluída e, ter sido feito de tal modo pela natureza
mesmo modo que não é necessário que essência a existência pertence com por conseguinte, que existe? que possa enganar-me facilmente,
necessidade. E, em seguida, também, mesmo nas coisas que acredito com-
'4 1 Terceira objeção possível: concedendo a Deus porque não me é possível conceber 12. E, conquanto, para bem conce- preender com mais evidência e certeza;
todas as perfeições, não teria partido de uma falsa dois ou muitos deuses da mesma ber essa verdade, eu tivesse necessitado principalmente, visto que me lembro
suposição que tornaria minha conclusão caduca?
Resposta: esta suposição não é gratuita; ela se limi-
maneira. E, posto que há um agora que de grande aplicação de espírito, pre- de haver muitas vezes estimado muitas
ta a tomar explícito o conteúdo mesmo da essência existe, vejo claramente que é neces- sentemente, todavia, estou mais seguro
de Deus, tal como esta se acha presente em meu sário que ele tenha existido anterior- dela do que de tudo quanto me parece 1 4 4 Compreende-se aqui por que a prova ontoló-
espírito. Do mesmo modo: "Se eu benso em um gica, em relação às outras, não é apenas uma prova
triângulo, então penso em uma figura onde a soma mente por toda a eternidade e que exis- mais certo: mas, além disso, noto que a a mais: ela nos fornece imediatamente no plano da
dos ângulos é igual a dois retos". ta eternamente para o futuro. E, enfim, certeza de todas as outras coisas dela "natureza", isto é, da Psicologia, a certeza de que
Este pressuposto é que será recusado por Kant Deus existe eternamente. Poupa, assim, o constante
1 4 2

em sua crítica à prova ontológica: a existência não


porque conheço uma infinidade de ou- depende tão absolutamente que, sem recurso às difíceis provas a priori. O raciocínio
é uma perfeição que pertença ao conceito. Cumpre, tras coisas em Deus, das quais nada esse conhecimento, é impossível jamais matemático, por exemplo, está assegurado, sem que
todavia, observar que Descartes não tira a exis- posso diminuir nem mudar. conhecer algo perfeitamente . 1 4 3 eu tenha necessidade, ao efetuá-lo, de reativar as
tência de Deus da ideia que eu tenho dele. Depois de "razões" da Meditação Terceira.
estabelecer que a ideia de Deus corresponde a uma 11. De resto, de qualquer prova e 13. Pois, ainda que eu seja de tal 1 4 6 As provas a priori garantem a evidência atual
essência, mostra que, estando eu atento a esta essên- argumento que eu me sirva, cumpre (é nisso que desempenham papel primordial e indis-
cia (já não se trata da ideia como representação da Diferença entre a essência de Deus e as essên- pensável); a prova ontológica assegura a lembrança
essência), percebo nela necessariamente a existên-
sempre retornar a este"ponto, isto é, 1 4 3

cias matemáticas: aquela pode garantir a certeza das evidências. Cf. o comentário feito nas Segundas
cia. que são somente as coisas que concebo destas. Respostas, 222.
136 DESCARTES

coisas como verdadeiras e certas, que, pela qual me certifico da verdade, era
em seguida, outras razões me levaram levado a acreditar nelas por razões que
a julgar absolutamente falsas. reconheci depois serem menos fortes
15. Mas, após ter reconhecido do que então imaginara. O que mais
haver um Deus, porque ao mesmo poderão, pois, objetar-me? Que talvez
tempo reconheci também que todas as eu durma (como eu mesmo me objetei
coisas dependem dele e que ele não é acima) ou que todos os pensamentos
enganador, e que, em seguida a isso, que tenho atualmente não são mais
julguei que tudo quanto concebo clara verdadeiros do que os sonhos que ima-
e distintamente não pode deixar de ser ginamos ao dormir? Mas, mesmo que MEDITAÇÃO S E X T A 1 4 7

verdadeiro: ainda que não mais pense estivesse dormindo, tudo o que se apre-
nas razões pelas quais julguei tal ser senta a meu espírito com evidência é Da Existência das Coisas Materiais e da Distinção
verdadeiro, desde que me lembre de absolutamente verdadeiro. E, assim, Real entre a Alma e o Corpo do Homem
tê-lo compreendido clara e distinta- reconheço muito claramente que a cer-
mente, ninguém pode apresentar-me teza e a verdade de toda ciência depen-
razão contrária alguma que me faça ja- dem do tão-só conhecimento do verda- 1. Só me resta agora examinar se objeto das demonstrações de Geome-
mais colocá-lo em dúvida; e, assim, deiro Deus: de sorte que, antes que eu existem coisas materiais: e certamente, tria, visto que, dessa maneira, eu as
tenho dele uma ciência certa e verda- 0 conhecesse, não podia saber perfeita- ao menos, já sei que as pode haver, na concebo mui clara e distintamente . 1 4 a

deira. E esta mesma ciência se estende mente nenhuma outra coisa. E, agora medida em que são consideradas como Pois não há dúvida de que Deus tem o
também a todas as outras coisas que que o conheço, tenho o meio de adqui- poder de produzir todas as coisas que
me lembro ter outrora demonstrado, rir uma ciência perfeita no tocante a 1 4 7 Plano da Meditação: sou capaz de conceber com distinção;
A) §§ 1-16: problema da existência das coisas e nunca julguei que lhe fosse impos-
como as verdades da Geometria e ou- uma infinidade de coisas, não somente materiais:
tras semelhantes: pois, que me poderão das que existem nele mas também das §1: reconhecimento da possibilidade de sível fazer algo, a não ser quando
objetar, para obrigar-me a colocá-las que pertencem à natureza corpórea, na sua existência; encontrasse contradição em poder con-
§§2-4: reconhecimento da probabili- cebê-la . Demais, a faculdade de
em dúvida'.' Dir-me-âo que minha natu- medida em que ela pode servir de obje- dade de sua existência: exame da imagi-
1 4 9

reza é tal que sou muito sujeito a enga- to às demonstrações dos geómetras, os nação; imaginar, que existe em mim e da qual
nar-me? Mas. já sei que me não posso quais não se preocupam, de modo §§5-16: análise da sensação e colocação vejo por experiência que me sirvo
do problema:
enganar nos juízos cujas razões conhe- algum, com sua existência * . 1 6
(§7): recordação das coisas que eu
quando me aplico à consideração das
ço claramente. Dir-me-ão que outrora considerava como verdadeiras; coisas materiais, é capaz de me persua-
tive muitas coisas por verdadeiras e (§§8-12:) recordação dos motivos dir da existência delas : pois, quan-
1 5 0
Esta Meditação Quinta contém a nona verdade de meus "prejuízos";
certas, as quais mais tarde reconheci
1 4 6

da ordem das razões: temos certeza absoluta de que (§§12-15): recapitulação das ra- do considero atentamente o que é a
serem falsas? Mas eu não havia conhe- as propriedades das essências são as propriedades zões extraídas da Meditação Pri- imaginação, verifico que ela nada mais
das coisas e, no que concerne à essência de Deus, de meira e nova crítica dos prejuízos; é que uma aplicação da faculdade que
cido clara nem distintamente tais coi- que aí está inscrita a existência necessária, portanto (§ 16): no ponto em que cheguei, no
fas e, não conhecendo ainda esta regra eterna. que posso crer? conhece ao corpo que lhe é intima-
B) §§17-29: as três verdades últimas:
§§17-18: a décima verdade: distinção
real da alma e de corpo: 1 4 8 A existência das coisas materiais é primeira-
§§19-20: a décima primeira verdade: há mente reconhecida como possível, posto que as
coisas corporais que existem; ideias claras e distintas que tenho de suas essências
§§21-29: a décima segunda verdade: envolvem a possibilidade de sua existência.
união de fato da alma e do corpo. — 1 4 9Alusão à complexíssima teoria da possibili-
Justificação e limitação do valor do sen- dade, analisada por Guéroult (op. cit., I I , págs.
timento natural como órgão de informa- 26-39): 1.° posso afirmar a possibilidade de uma
ção biológica. coisa quando tenho ideia clara e distinta de sua
C ) §§30-41: minha natureza não será, no possibilidade ou quando não tenho ideia ciara e dis-
entanto, intrinsecamente errónea? tinta de sua impossibilidade; 2." devo manter em
§§30-32: colocação do problema e a re- suspenso o meu juízo quando não tenho ideia clara
cusa da solução materialista; e distinta de sua possibilidade nem de sua impossi-
§§33-41: justificação de Deus em vista bilidade; 3.° posso negar a sua possibilidade quando
da dificuldade no dado psicofisiológico tenho ideia clara e distinta dessa impossibilidade.
do problema. ' 9 0O exame da imaginação levará a reconhecer
D) §§42-43: conclusão. como provável a existência das coisas materiais.
138 DESCARTES MEDITAÇÕES 139

mente presente e, portanto, que exis- estabelecem a diferença entre o quilio- que difere de meu espírito . E conce-
1 5 4 pórea que é o objeto da Geometria, a
te' 5 1 gono e os demais polígonos 1 5 2 bo facilmente que, se algum corpo saber, as cores, os sons, os sabores, a
2. E , para tornar isso mais manife» existe ao qual meu espírito esteja con- dor e outras coisas semelhantes, embo-
to, noto primeiramente a diferença que 3. Quando se trata de considerar jugado e unido de tal maneira que ele ra menos distintamente. E na medida
há entre a imaginação e a pura intelec- um pentágono, é bem verdade que possa aplicar-se a considerá-lo quando em que percebo muito melhor tais coi-
ção, ou concepção. Por exemplo, quan- lhe aprouver, pode acontecer que por sas pelos sentidos, por intermédio dos
posso conceber sua figura, assim come este meio ele imagine as coisas corpó-
do imagino um triângulo, não o conce- quais, e da memória, elas parecem ter
a do quiliogono, sem o auxílio da reas: de sorte que esta maneira de pen- chegado até minha imaginação, creio
bo apenas como uma figura composta
e determinada por três linhas, mas, imaginação; mas posso também imagi- sar difere somente da pura intelecção que, para examiná-las mais comoda-
além disso, considero essas três linhas ná-la aplicando a atenção de meu espí- no fato de que o espírito, concebendo, mente, vem a propósito examinar ao
volta-se de alguma forma para si mesmo tempo o que é sentir, e ver se,
como presentes pela força e pela apli- rito a cada um de seus cinco lados e, mesmo e considera algumas das ideias das ideias que recebo em meu espírito
cação interior de meu espírito; e é ao mesmo tempo, à área ou ao espaço que ele tem em si; mas, imaginando, por este modo de pensar, que chamo
propriamente isso que chamo imagi-
que eles encerram. Assim, conheço cla- ele se volta para o corpo e considera sentir, posso tirar alguma prova certa
nar. Quando quero pensar em um nele algo de conforme à ideia que for-
quiliogono, concebo na verdade que é ramente que tenho necessidade de par- da existência das coisas corpóreas . 1 5 6

mou de si mesmo ou que recebeu pelos


uma figura composta de mil lados tão ticular contenção de espírito para ima- sentidos. Concebo, digo, facilmente 6. E , primeiramente, recordarei em
facilmente quanto concebo que um ginar, da qual não me sirvo que a imaginação pode realizar-se minha memória quais são as coisas
triângulo é uma figura composta de absolutamente para conceoer ; e 1 5 3 dessa maneira, se é verdade que há que até aqui considerei como verdadei-
apenas três lados; mas não posso ima- corpos; e, uma vez que não posso ras, tendo-as recebido pelos sentidos, e
ginar os mil lados de um quiliogono esta particular contenção de espírito sobre que fundamentos estava apoiada
encontrar nenhuma outra via para
como faço com os três lados de um mostra evidentemente a diferença que mostrar como ela se realiza, conjeturo minha crença. E , depois, examinarei as
triângulo, nem, por assim dizer, vê-los há entre a imaginação e a intelecção. daí provavelmente que os há: mas não razões que me obrigaram em seguida a
como presentes com os olhos de meu ou concepção pura. é senão provavelmente e, embora exa- colocá-las em dúvida. E , enfim, consi-
espírito. E conquanto, segundo o cos- mine cuidadosamente todas as coisas, derarei o que devo a respeito delas
tume que tenho de me servir sempre de 4. Noto, além disso, que esta virtu- não verifico, no entanto, que, desta agora acreditar . 1 6 7

minha imaginação, quando penso nas de de imaginar que existe em mim, na ideia distinta da natureza corporal que 7. Primeiramente, pois , senti 1 5 8

coisas corpóreas, ocorra que, conce- tenho em minha imaginação, possa que possuía cabeça, mãos, pés e todos
medida em que difere do poder de con-
bendo um quiliogono, eu me represente tirar algum argumento que conclua os outros membros de que é composto
confusamente alguma figura, é, toda- ceber, não é de modo algum necessária
necessariamente a existência de algum este corpo que considerava como parte
via, evidente que essa figura não é um à minha natureza ou à minha essência, corpo . 1 5 5 de mim mesmo ou, talvez, como o
quiliogono, posto que em nada difere isto é, à essência de meu espírito; pois, todo. Demais, senti que esse corpo es-
daquela que me representaria se pen- ainda que nao a possuísse de modo 5. Ora, acostumei-me a imaginar tava colocado entre muitos outros, dos
sasse em um miriágono, ou em qual- algum, está fora de dúvida que eu muitas coisas além desta natureza cor- quais era capaz de receber diversas
quer outra figura de muitos lados; e permaneceria sempre o mesmo que sou comodidades e incomodidades e adver-
que ela não serve, de maneira alguma, atualmente: donde me parece que se ' ' Segunda presunção. Esta contingência da pre-
6
tia essas comodidades por um certo
sença de imaginação em mim é fundamental em
para descobrir as propriedades que pode concluir que ela depende de algo relação à teoria das Matemáticas expostas nas sentimento de prazer ou de voluptuo-
Regulae: embora possam e devam apoiar-se na sidade e essas incomodidades por um
imaginação, as Matemáticas são essencialmente
'5 1 Para situar "a imaginação", ora em exame, cf. obra do entendimento. O modelo matemático de sentimento de dor. E , além desse pra-
1 "Como (a alma) não pode traçar assim mil
5 2
Regula X I I : "É uma só e mesma força que.. ., se
pequenas linhas e lhes dar uma figura no cérebro, a Descartes é a teoria das proporções de Eudoxo (li- zer e dessa dor, sentia também em mim
se aplica à imaginação somente, enquanto coberta vros V a V I I de Euclides), que a Álgebra permite
de figuras variadas, se chama lembrar-se; se se apli-
não ser confusamente, resulta daí que ela não imagi-
universalizar, e não a Geometria "imaginativa" de
a fome, a sede e outros semelhantes
na distintamente um quiliogono, mas apenas de
ca à imaginação para criar novas figuras, se chama Euclides, pela qual, segundo Baillet, seu biógrafo,
imaginar. . . " (Ed. Plêiade, pág. 79.) Aqui_parece uma maneira confusa..." (Col. com Burman,
não sentia quase nenhuma estima. Este ponto nos Depois do recurso ao entendimento e da aná-
tratar-se do primeiro caso. Quanto à distinção entre ibid.) 1 5 6

parece capital para qualquer cotejo entre Descartes lise da imaginação, a análise da sensação.
imaginar e sentir, cf. Col. com Burman (A. T., V, 1 Sobre esta diferença entre a finitude da imagi-
5 3
e Kant e para todo estudo do conceito clássico de 1 Anúncio dos momentos da pesquisa.
5 7

pág. 162): na sensação, "as imagens são traçadas nação e a "infinitude" do entendimento, cf. Medita- "imaginação" nos séculos X V I I e X V I I I . 1 "Primeiramente, recordarei em minha memó-
5 8

pelos objetos externos, e estando estes presentes, ao ção Quarta, § 8. É a primeira presunção em favor 1 Recapitulação: ao passo que a imaginação em
5 5
ria quais são as coisas que até aqui considerei como
passo que na outra elas o são pela alma, sem obje- da existência de um outro, além do pensamento, que mim prova a existência dos corpos, a explicação verdadeiras, tendo-as recebido pelos sentidos", a
tos externos e, por assim dizer, com todas as janelas explicaria esta "particular contenção de espírito" e que se lhe dá aqui só será verdadeira quando esta saber, que estou unido a um corpo e que as coisas
fechadas". que poderia muito bem ser o corpo. existência estiver comprovada. materiais existem.
140 DESCARTES MEDITAÇÕES 141

apetites, como também certas inclina- daquelas que eu mesmo podia simular, pois não há, certamente, qualquer afi- 14. E a essas razões de dúvida
ções corporais para a alegria, a triste- em meditando, ou do que as que nidade nem qualquer relação (ao acrescentei ainda, pouco depois, duas
za, a cólera e outras paixões semelhan- encontrava impressas em minha me- menos que eu possa compreender) outras bastante gerais. A primeira é
tes; e, no exterior, além da extensão, mória, parecia que não podiam proce- entre essa emoção do estômago e o de- que jamais acreditei sentir algo, estan-
das figuras, dos movimentos dos cor- der de meu espírito; de sorte que era sejo de comer, assim como entre o sen- do acordado, que não pudesse, tam-
pos, notava neles a dureza, o calor e necessário que fossem causadas em timento da coisa que causa a dor e o bém, algumas vezes, acreditar sentir,
todas as outras qualidades que se reve- mim por quaisquer outras coisas. Coi- pensamento de tristeza que esse senti- ao estar dormindo; e como não creio
lam ao tato. Demais, aí notava a luz, sas das quais não tendo eu nenhum mento engendra. E, da mesma manei- que as coisas que me parece que sinto
cores, odores, sabores e sons, cuja conhecimento senão o que me forne- ra, parecia-me que eu aprendera da ao dormir procedam de quaisquer
variedade me fornecia meios de distin- ciam essas mesmas ideias, outra coisa natureza todas as outras coisas que eu objetos existentes, não via por que
guir o céu, a terra, o mar e geralmente me podia vir ao espírito, só que essas julgava no tocante aos objetos dos sen- devia ter antes essa crença no tocante
todos os outros corpos uns dos outros. coisas eram semelhantes às ideias que tidos; porque eu notava que os juízos, àquelas que me parece que sinto ao
8. E, por certo, considerando as elas causavam. que eu me acostumara a formular a estar acordado. E a segunda é que, não
ideias de todas essas qualidades que se 10. E já que eu me lembrava tam- respeito desses objetos, formavam-se conhecendo ainda ou, antes, fingindo
apresentavam ao meu pensamento, e bém que me servira mais dos sentidos em mim antes que eu tivesse o lazer de não conhecer o autor de meu ser, nada
as quais eram as únicas que eu sentia do que da razão e reconhecia que as pesar e considerar quaisquer razões via que pudesse impedir que eu tivesse
própria e imediatamente, não era sem ideias que eu formava por mim mesmo que me pudessem obrigar a formulá- sido feito de tal maneira pela natureza
razão que eu acreditava sentir coisas não eram tão expressas quanto aquelas los . 1 6 0 que me enganasse mesmo nas coisas
inteiramente diferentes de meu pensa- que eu recebia dos sentidos e, mesmo, 13. Mas, depois , muitas expe- que me pareciam ser as mais verdadei-
1 6 1

mento, a saber, corpos de onde proce- que eram, as mais das vezes, compos- riências arruinaram, pouco a pouco, ras.
diam essas ideias . Pois eu experi-
1 5 9
tas de partes destas, eu me persuadia todo o crédito que eu dera aos senti- 15. E, quanto às razões que me ha-
mentava que elas se apresentavam ao facilmente de que não havia nenhuma dos. Pois observei muitas vezes que viam anteriormente persuadido da ver-
meu pensamento sem que meu consen- ideia em meu espírito que não tivesse torres, que de longe se me afiguravam dade das coisas sensíveis, não tinha
timento fosse requerido para tanto, de antes passado pelos meus sentidos. redondas, de perto pareciam-me qua- muita dificuldade em rejeitá-las. Pois,
sorte que não podia sentir objeto 11. Não era também sem alguma dradas, e que colossos, erigidos sobre parecendo a natureza levar-me a mui-
algum, por mais vontade que tivesse, razão que eu acreditava que este corpo os mais altos cimos dessas torres, pare- tas coisas de que a razão me desviava,
se ele não se encontrasse presente ao (que, por um certo direito particular, ciam-me pequenas estátuas quando as não acreditava dever confiar muito nos
órgão de um de meus sentidos; e não
estava de maneira alguma em meu
eu chamava de meu) me pertencia mais olhava de baixo; e, assim, em uma infi- ensinamentos dessa natureza. E, embo-
Doder não o sentir quando ele aí esti-
propriamente e mais estreitamente do nidade de outras ocasiões, achei erros ra as ideias que recebo pelos sentidos
vesse presente.
que qualquer outro. Pois, com efeito, nos juízos fundados nos sentidos exte- não dependam de minha vontade, não
jamais eu podia ser separado dele riores. E não somente nos sentidos pensava que se devesse, por isso, con-
9. E, dado que as ideias que recebia como dos outros corpos; sentia nele e exteriores, mas mesmo nos interiores: cluir que procediam de coisas diferen-
pelos sentidos eram muito mais vivas, por ele todos os meus apetites e todas pois haverá coisa mais íntima ou mais tes de mim, posto que talvez possa
mais expressas e mesmo, à sua manei- as minhas afecções; e, enfim, eu era to- interior do que a dor? E, no entanto, haver em mim alguma faculdade (ape-
ra, mais distintas do que qualquer uma cado por sentimentos de prazer e de aprendi outrora de algumas pessoas, sar de ter até agora permanecido
" . . . e sobre que fundamento era apoiada
dor em suas partes e não nas dos ou- que tinham os braços e as pernas cor- desconhecida para mim) que seja a
tados, que lhes parecia ainda, algumas causa dessas ideias e que as produ-
1 5 9

minha c r e n ç a . . . " : enumeração até o § Í2 das tros corpos que são separados dele.
motivações dos "prejuízos da infância". Os argu- 12. Mas, quando examinava por vezes, sentir dores nas partes que lhes za 1 6 2

mentos serão os seguintes: a) a coerção (cf. Princí- 16. Mas, agora que começo a me-
pios, II, § 1: "Não está em meu poder fazer com que
que desse não sei que sentimento de haviam sido amputadas; isto me dava
experimentemos um sentimento de preferência a dor segue a tristeza do espírito, e do motivo de pensar que eu não podia lhor conhecer-me a mim mesmo e a
outro. . . " ) ; b) vivacidade particular das ideias
sensíveis; c) maior importância aparente das ideias
sentimento de prazer nasce a alegria, também estar seguro de ter dolorido descobrir mais claramente o autor de
sensíveis, na qual se baseia a teoria escolástica do ou, ainda, por que esta não sei que algum de meus membros, embora sen- minha origem, não penso, na verdade,
conhecimento e todo empirismo em geral; d) não emoção do estômago, que chamo tisse dores nele.
posso ser separado de meu corpo como dos outros Crítica dos argumentos a) e g) expostos
corpos; e) é nele que sinto minhas afecções e meus
fome, nos dá vontade de comer, e a se- 1 6 2

anteriormente: como já notara a Meditação Tercei-


apetites (noção do corpo próprio); f) e em suas par- cura da garganta nos dá desejo de 1 6 0É a definição do "pré-juízo". ra, a "natureza" pode contravir a razão, e o argu-
tes que sinto prazer e dor; g) o laço entre os estados beber, e assim por diante, não podia ' " E , depois, examinarei as razões que me obri- mento proveniente da coerção é abalado pela hipó-
fisiológicos e as afecções da alma (contrações do garam em seguida a colocá-las em d ú v i d a . . . " Os tese de uma faculdade desconhecida que poderia
estômago e fome) pode provir tão-somente de um
apresentar nenhuma razão, senão que §§ 13 e 14 recapitulam as razões tiradas da Medita- produzir, sem o nosso conhecimento, as ideias
ensinamento da natureza. a natureza mo ensinava dessa maneira; ção Primeira. sensíveis.
142 DESCARTES MEDITAÇÕES 143

que deva temerariamente admitir todas já que, de um lado, tenho uma ideia contra-se em mim certa faculdade pas- mente. Pois, não me tendo dado nenhu-
as coisas que os sentidos parecem ensi- clara e distinta de mim mesmo, na me- siva de sentir, isto é, de receber e ma faculdade para conhecer que isto
nar-nos, mas não penso tampouco que dida em que sou apenas uma coisa conhecer as ideias das coisas sensí- seja assim, mas, ao contrário, uma
deva colocar em dúvida todas em pensante e inextensa, e que, de outro, veis ; mas ela me seria inútil, e dela
1 6 8 fortíssima inclinação para crer que
geral . 1 6 3 tenho uma ideia distinta do corpo, na não me poderia servir absolutamente, elas me são enviadas pelas coisas cor-
17. E, primeiramente, porque sei medida em que é apenas uma coisa se não houvesse em mim, ou em porais ou partem destas, não vejo
extensa e que não pensa, é certo que outrem, uma faculdade ativa , capaz como se poderia desculpá-lo de embai-
que todas as coisas que concebo clara 16 9

este eu, isto é, minha alma, pela qual de formar e de produzir essas ideias. mento se, com efeito, essas ideias par-
e distintamente podem ser produzidas tissem de outras causas que não coisas
por Deus tais como as concebo, basta eu sou o que sou, é inteira e verdadei- Ora, essa faculdade ativa não pode
ramente distinta de meu corpo e que existir em mim enquanto sou apenas corpóreas, ou fossem por elas produzi-
que possa conceber clara e distinta- das. E, portanto, é preciso confessar
mente uma coisa sem uma outra para ela pode ser ou existir sem ele . 1 6 6 uma coisa que pensa, visto que ela não
18. Ainda mais, encontro em mim pressupõe meu pensamento , e, tam- que há coisas corpóreas que exis-
estar certo de que uma é distinta ou 1 7 0

tem .
diferente da outra, já que podem ser faculdades de pensar totalmente parti- bém, que essas ideias me são frequen- 1 7 2

culares e distintas de mim, as faculda- temente representadas sem que eu em 21. Talvez elas não sejam, todavia,
postas separadamente, ao menos pela inteiramente como nós as percebemos
onipotência de Deus; e não importa des de imaginar e de sentir, sem as nada contribua para tanto e mesmo,
quais posso de fato conceber-me clara amiúde, mau grado meu; é preciso, pelos sentidos, pois essa percepção dos
por que potência se faça essa separa- sentidos é muito obscura e confusa em
ção, para que seja obrigado a julgá-las e distintamente por inteiro, mas que pois, necessariamente, que ela exista
não podem ser concebidas sem mim, em alguma substância diferente de muitas coisas; mas, ao menos, cumpre
diferentes . E, portanto, pelo pró-
164
confessar que todas as coisas que, den-
prio fato de que conheço com certeza isto é, sem uma substância inteligente mim, na qual toda a realidade que há
à qual estejam ligadas. Pois, na noção objetivamente nas ideias por ela produ- tre elas, concebo clara e distintamente,
que existo, e que, no entanto, noto que isto é, todas as coisas, falando em
não pertence necessariamente nenhu- que temos dessas faculdades, ou (para zidas esteja contida formal ou eminen-
servir-me dos termos da Escola) no seu temente (como notei antes). E esta geral, compreendidas no objeto da
ma outra coisa à minha natureza ou à Geometria especulativa, aí se encon-
conceito formal, elas encerram alguma substância é ou um corpo, isto é, uma
minha essência, a nao ser que sou uma tram verdadeiramente. Mas, no que se
espécie de intelecção: donde concebo natureza corpórea, na qual está conti-
coisa que pensa, concluo efetivamente que são distintas de mim, como as refere a outras coisas, as quais ou são
que minha essência consiste somente da formal e efetivamente tudo o que apenas particulares, por exemplo, que
figuras, os movimentos e os outros existe objetivamente e por represen-
em que sou uma coisa que pensa ou modos ou acidentes dos corpos o são 0 sol seja de uma tal grandeza e de
uma substância da qual toda a essên- tação nas ideias; ou então é o próprio uma tal figura, etc, ou são concebidas
dos próprios corpos que os sustentam. Deus, ou alguma outra criatura mais
cia ou natureza consiste apenas em menos claramente e menos distinta-
pensar. E, embora talvez (ou, antes, 19. Reconheço, também, em mim nobre do que o corpo, na qual isto mente, como a luz, o som, a dor e ou-
certamente, como direi logo mais) eu algumas outras faculdades, como as de mesmo esteja contido eminentemen- tras semelhantes, é certo que, embora
tenha um corpo ao qual estou muito mudar de lugar, de colocar-me em te . 1 7 1
sejam elas muito duvidosas e incertas,
estreitamente conjugado , todavia, 166
múltiplas posturas e outras semelhan- 20. Ora, não sendo Deus de modo todavia, do simples fato de que Deus
tes, que não podem ser concebidas, algum enganador, é muito patente que não é enganador e que, por conse-
assim como as precedentes, sem algu- ele não me envia essas ideias imediata- guinte, não permitiu que pudesse haver
" E , enfim, considerarei o que devo a respeito
1 6 3

delas agora acreditar." Em outros termos, não se


ma substância à qual estejam ligadas, e mente por si mesmo, nem também por alguma falsidade nas minhas opiniões,
trata mais "agora" de voltar aos "prejuízos" elimi- nem, por conseguinte, existir sem ela; intermédio de alguma criatura, na qual que não me tivesse dado também algu-
nados pela prova da dúvida; mas tampouco se trata mas é muito evidente que essas facul- a realidade das ideias não esteja conti- ma faculdade capaz de corrigi-la, creio
de recusar os dados sensíveis em geral, sem anali- dades, se é verdade que existem, devem
sá-los à luz da veracidade divina. Começa, aqui, a
da formalmente, mas apenas eminente- poder concluir seguramente que tenho
parte principal dessa Meditação, em que serão esta- ser ligadas a alguma substância corpó- em mim os meios de conhecê-las com
belecidas as três últimas verdades. . rea ou extensa, e não a uma substância 1 Passagem à prova da existência das coisas
6 8
certeza . 1 7 3
1 6 É o elemento essencial da prova da distinção:
4
inteligente, posto que, no conceito materiais. Parte-se do reconhecimento em mim da
Deus não pode deixar de fazer o que eu concebo
clara e distintamente. Só este princípio basta para claro e distinto dessas faculdades, há existência de uma sensibilidade passiva.
de fato alguma sorte de extensão que 1 "Se acreditei que a ação e a paixão são apenas
6 9 1 Se Deus não nos proporcionou nenhum meio
7 2
invalidar todas as conclusões derivadas da união de
uma única e mesma coisa a que se atribuíram dois de reconhecer ou de evitar um erro, é porque esta-
fato entre a alma e o corpo. se acha contida, mas de modo nenhum nomes diferentes..." (A Hyperaspistes, 27 de julho mos diante de uma verdade: processamento análogo
Notar a reserva: não sabemos ainda se a prova
1 8 5

poderá ser aplicada. Cf.: " E se Deus mesmo jun-


qualquer inteligência . Demais, en-
1 6 7 de 1641.) ao de uma prova por absurdo. Assim, fica estabele-
1 Se esta faculdade ativa pressupusesse meu
7 0 cida a décima primeira verdade: certeza absoluta da
tasse tão intimamente corpo e alma que fosse
pensamento, eu haveria de sabê-lo. existência dos corpos.
impossível uni-los mais, e fizesse um composto des-
1 Esta faculdade ativa deve estar colocada numa
7 1 O valor do sentimento é especificado: ele vai
tas duas substâncias assim unidas, concebemos 1 É a décima verdade. Acerca das noções de dis-
8 6
1 7 3

substância fora de mim que, em virtude do princípio mais longe do que a simples atestação da existência
também que permaneceriam realmente distintas, tinção real e modal, cf. Princípios, I , 60-61.
de causalidade, será, ou mais "nobre" do que o dos corpos. Por menor que seja o valor objetivo da
não obstante tal união, porque, qualquer que seja a ' Esta distinção dos modos da substância exten-
6 7
corpo (causa eminente), ou o próprio corpo (causa verdade sensível, esta possui, no entanto, um valor.
ligação que Deus estabeleça entre elas, não poderia sa e dos modos da substância inteligente anuncia
formal). Ora, a primeira dessas possibilidades Sem embargo, não é ainda visível qual a verdadeira
desfazer-se do seu poder de separá-las. . . "(Princí- que deve haver em mim outra coisa além do puro
infrineiria o princípio da veracidade divina. função do sentimento e o fim que o justifica.
pios, I, 60.) pensamento.
144 DESCARTES MEDITAÇÕES 145

22. E, primeiramente, não há dúvi- quando meu corpo tem necessidade de coisa de semelhante à ideia do calor ensine que dessas diversas percepções
da de que tudo o que a natureza me en- beber ou de comer, simplesmente per- que existe em mim; que, em um corpo dos sentidos devêssemos jamais con-
sina contém alguma verdade. Pois, por ceberia isto mesmo, sem disso ser branco ou negro, há a mesma brancura cluir algo a respeito das coisas que
natureza, considerada em geral, não advertido por sentimentos confusos de ou negrume que sinto; que, em um existem fora de nós, sem que o espírito
entendo agora outra coisa senão o pró- fome e de sede. Pois, com efeito, todos corpo amargo ou doce, há o mesmo as tenha examinado cuidadosa e madu-
prio Deus, ou a ordem e a disposição esses sentimentos de fome, de sede, de gosto ou mesmo sabor e assim por ramente. Pois é, ao que me parece,
que Deus estabeleceu nas coisas cria- dor, etc, nada são exceto maneiras diante; que os astros e as torres, e somente ao espírito, e não ao com-
das. E, por minha natureza, em parti- confusas de pensar que provêm e todos os outros corpos distantes, têm a posto de espírito e corpo, que compete
cular, não entendo outra coisa senão a dependem da união e como que da mesma figura e grandeza que parecem conhecer a verdade dessas coisas . 1 7 1

complexão ou o conjunto de todas as ter de longe aos nossos olhos, etc. 1 7 6 28. Assim, ainda que uma estrela
mistura entre o espírito e o corpo.
coisas que Deus me deu. 25. Além disso, a natureza me ensi- 27. Mas, a fim de que nada haja não cause em meus olhos mais impres-
23. Ora, nada há que esta natureza nisso que eu não conceba distinta- são do que o fogo de uma vela, não há,
na que muitos outros corpos existem
me ensine mais expressamente, nem mente, devo definir com precisão o que todavia, em mim nenhuma faculdade
em torno do meu, entre os quais devo
mais sensivelmente do que o fato de propriamente entendo quando digo que real ou natural que me leve a acreditar
procurar uns e fugir de outros. E, a natureza me ensina algo. Pois tomo
que tenho um corpo que está mal dis- que ela não é maior do que esse fogo,
certamente, do fato de que sinto dife- aqui a natureza numa significação
posto quando sinto dor, que tem neces- mas que assim o julguei desde meus
rentes sortes de cores, de odores, de muito mais limitada do que quando a primeiros anos sem nenhum funda-
sidade de comer ou de beber, quando sabores, de sons, de calor e de dureza,
nutro os sentimentos de fome ou de denomino conjunto ou complexão de mento razoável. E, conquanto, ao me
etc, concluo, com segurança, que há todas as coisas que Deus me deu; visto aproximar do fogo, sinta calor e,
sede, etc. E, portanto, não devo, de nos corpos, de onde procedem todas
modo algum, duvidar que haja nisso que esse conjunto ou complexão com- mesmo, sofra dor, aproximando-me
essas diversas percepções dos sentidos, preende muitas coisas que pertencem perto demais, não há, todavia, nenhu-
alguma verdade 1
algumas variedades que lhes corres-
24. A natureza me ensina, também, apenas ao espírito, das quais não pre- ma razão que me possa persuadir de
pondem, embora essas variedades tal- tendo falar aqui, ao falar da natureza: que haja no fogo alguma coisa de
por esses sentimentos de dor, fome, vez não lhes sejam efetivamente seme-
sede, etc, que não somente estou aloja- como, por exemplo, a noção que tenho semelhante a esse calor, assim como_a
lhantes. E, também, do fato de que, desta verdade, de que aquilo que foi essa dor; mas tenho somente razão
do em meu corpo, como um piloto em
entre essas diversas percepções dos uma vez feito já não pode de modo para acreditar que há alguma coisa
seu navio, mas que, além disso, lhe
estou conjugado muito estreitamente e sentidos, umas me são agradáveis e ou- algum deixar de ter sido feito, e uma nele, qualquer que seja, que provoca
de tal modo confundido e misturado, tras desagradáveis, posso tirar uma infinidade de outras semelhantes, que em mim estes sentimentos de calor ou
que componho com ele um único consequência completamente certa, conheço pela luz natural, sem a ajuda de dor.
todo . Pois, se assim não fosse,
1 7 5
isto é, que meu corpo (ou, antes, eu do corpo, e que compreende também 29. Do mesmo modo, também, em-
quando meu corpo é ferido não sentiria mesmo por inteiro, na medida em que muitas outras que pertencem apenas bora haja espaços nos quais não
por isso dor alguma, eu que não sou sou composto do corpo e da alma) ao corpo e que aqui não mais estão encontro nada que provoque e que
sehão uma coisa pensante, e apenas pode receber diversas comodidades ou incluídas sob o nome de natureza: mova meus sentidos, não devo concluir
perceberia esse ferimento pelo entendi- incomodidades dos outros corpos que como a qualidade que ele tem de ser daí que esses espaços não contêm em
mento, como o piloto percebe pela o circundam. pesado, e várias outras semelhantes, si nenhum corpo; mas vejo que, tanto
vista se algo se rompe em seu navio; e 26. Mas há muitas outras coisas das quais não falo tampouco, mas nisso como em várias outras coisas
que parece-me terem sido ensinadas somente das coisas que Deus me deu, semelhantes, acostumei-me a perverter
pela natureza, as quais, todavia, não como sendo composto de espírito e de e a confundir a ordem da natureza,
1 7 4Depreende-se agora, o que de verdade contém recebi verdadeiramente dela, mas que corpo. Ora, essa natureza me ensina porque, tendo estes sentimentos ou
"o ensinamento da natureza", ou, ainda, qual o realmente a fugir das coisas que cau- percepções dos sentidos sido postos em
papel original do sentimento. Em seu «nível, desven- se introduziram em meu espírito por
da-se a décima segunda verdade: eu tenho um corpo certo costume que tenho de julgar sam em mim o sentimento da dor e a mim apenas para significar ao meu
ao qual estou jungido. inconsideradamente as coisas; e, dirigir-me para aquelas que me comu- espírito que coisas são convenientes ou
1 Frase capital. Descartes não estabeleceu que
7 5

assim, pode ocorrer facilmente que nicam algum sentimento de prazer; nocivas ao composto de que é parte, e
eu sou um entendimento -1- um corpo, porém que
em mim há, além do mais, uma "mistura" dessas contenham alguma falsidade. Como, mas não vejo que, além disso, ela me sendo até aí bastante claras e bastante
duas substâncias. E esta mistura de fato corrige o
dualismo de direito. A ideia de que sou totalmente
por exemplo, a opinião que tenho
corpo e totalmente espírito anuncia um tema funda- segundo a qual todo espaço, no qual ? e N ã estarei indo longe demais ao conceder
0 Distinção das ordens. "A natureza" designa
1 7 7

esta "verdade" ao sentimento? Não redundará isso somente a substância composta, a zona de mistura
mental da Antropologia moderna. Pode-se dizer, nada há que se mova e cause impres- em justificar os "prejuízos da infância" e os erros de da alma e do corpo; e seu "ensinamento" em nada
por exemplo, que a Phênoménologie de la Percep-
tion de Merleau-Ponty constitui, em certo sentido, são em meus sentidos, é vazio; que, em uma Física "fenomenológica", como a de Aristó- concerne ao conhecimento: limita-se à informação
um comentário dessas linhas. um corpo que é quente, há alguma teles e dos escolásticos? biológica.
146 DESCARTES MEDITAÇÕES 147

distintas, sirvo-me delas, no entanto, impelidos pela natureza, como acon- considerando a máquina do corpo hu- homem, tomada desse modo, seja falí-
como se fossem regras muito certas, tece com os doentes, quando desejam mano como formada por Deus para ter vel e enganadora . 181

pelas quais possa conhecer imediata- beber ou comer coisas que os podem em si todos os movimentos que costu- 33. Para começar, pois, este exame,
mente a essência e a natureza dos cor- prejudicar. Dir-se-á talvez aqui que a meiramente estão aí, eu tenha motivo noto aqui, primeiramente, que há gran-
pos que existem fora de mim, da qual, causa de se enganarem eles é que sua de pensar que ela não segue a ordem de de diferença entre espírito e corpo, pelo
todavia, nada me podem ensinar senão natureza é corrompida; mas isso não sua natureza quando a garganta está fato de ser o corpo, por sua própria
algo muito confuso è obscuro' . 7 8 afasta a dificuldade, porque um seca e que beber prejudica-lhe a con- natureza, sempre divisível e o espírito
30 Mas acima já examinei suficien- homem doente não é menos verdadei- servação; reconheço, todavia, que este inteiramente indivisível. Pois, com efei-
temente como, não obstante a sobe- ramente criatura de Deus do que um último modo de explicar a natureza é to, quando considero meu espírito, isto
rana bondade de Deus, ocorre que haja homem que goza de plena saúde; e, muito diferente do o u t r o ' . Pois esta
80 é, eu mesmo, na medida em que sou
falsidade nos juízos que formulo dessa portanto, repugna tanto à bondade de não é outra coisa senão uma simples apenas uma coisa que pensa, nao
maneira. Somente ainda se apresenta Deus que ele tenha uma natureza enga- denominação, a qual depende inteira- posso aí distinguir partes algumas,
aqui uma dificuldade relativa às coisas nadora e falível quanto o outro. E mente do meu pensamento, que com- mas me concebo como uma coisa
que a natureza me ensina que devem como um relógio composto de rodas e para um homem doente e um relógio única e inteira. E, conquanto, o espí-
ser seguidas ou evitadas e, também no contrapesos não observa menos exata- mal feito com a ideia que tenho de um rito todo pareça estar unido ao corpo
que concerne aos sentimentos interio- mente todas as leis da natureza quando homem são e de um relógio bem feito, todo, todavia um pé, um braço ou
res que ela pôs em mim; pois parece- é mal feito, e quando não mostra bem e a qual não significa nada que se qualquer outra parte estando separada
me ter reparado nelas algumas vezes a encontre na coisa da qual ela é dita; ao do meu corpo, é certo que nem por isso
as horas, do que quando satisfaz intei-
existência do erro, e, assim, que sou passo que, pela outra maneira de expli- haverá aí algo de subtraído a meu espí-
ramente ao desejo do artífice; da
diretamente enganado por minha natu- car a natureza, entendo algo que se rito. E as faculdades de querer, sentir,
mesma maneira também, se considero conceber, etc, nao podem propria-
reza . Como, por exemplo, o gosto
1 7 9
o corpo do homem como uma máqui- encontra verdadeiramente nas coisas e,
agradável de algum alimento ao qual portanto, não deixa de ter alguma mente ser chamadas suas partes: pois o
na, de tal modo construída e composta mesmo espírito emprega-se todo em
se tenha misturado veneno pode convi- de ossos, nervos, músculos, veias, san- verdade.
dar-me a tomar este veneno e, assim, querer e também todo em sentir, em
gue e pele que, mesmo que não hou- 32. Mas, certamente, embora em conceber, etc. Mas ocorre exatamente
me enganar. É verdade, todavia, que vesse nele nenhum espírito, não deixa- relação ao corpo hidrópico trata-se
nisto a natureza pode ser escusada, o contrário com as coisas corpóreas ou
ria de se mover de todas as mesmas apenas de uma denominação exterior, extensas: pois não há uma sequer que
pois ela me leva somente a desejar o maneiras que faz presentemente, quan- quando se diz que sua natureza está
alimento no qual encontro um sabor eu não faça facilmente em pedaços por
do não se move pela direção de sua corrompida, pelo fato de que, sem ter meu pensamento, que meu espírito não
agradável, e não a desejar o veneno, necessidade de beber, não deixa de ter
vontade, nem, por conseguinte, pela divida mui facilmente em muitas par-
que lhe é desconhecido; de maneira a garganta seca e árida; todavia, com
ajuda do espírito, mas somente pela tes e, por consegumte, que eu não reco-
que disso não posso concluir outra
disposição de seus órgãos, reconheço respeito à totalidade do composto, isto nheça ser divisível. E isso bastaria
coisa senão que minha natureza não
facilmente que seria tão natural a este é, do espírito ou da alma unida a este para ensinar-me que o espírito ou a
conhece inteira e universalmente todas
as coisas: do que, certamente, não há corpo, sendo, por exemplo, hidrópico, corpo, não se trata de pura denomina- alma do homem é inteiramente dife-
que espantar, posto que o homem, sofrer a secura da garganta que costu- ção, mas, antes, de verdadeiro erro da rente do corpo, se já não o tivesse
sendo de uma natureza finita, não pode ma significar ao espírito o sentimento natureza, pelo fato de ter sede, quando suficientemente aprendido alhures . 1 8 2

também ter senão um conhecimento de da sede, e dispor-se por esta secura a lhe é muito nocivo o beber; e, portanto,
34. Noto também que o espírito não
uma perfeição limitada. mover seus nervos e suas outras partes resta ainda examinar como a bondade
recebe imediatamente a impressão de
da forma requerida para beber e assim de Deus não impede que a natureza do
31. Mas nós nos enganamos tam- todas as partes do corpo, mas somente
bém bastante frequentemente mesmo aumentar seu mal e prejudicar-se a si do cérebro, ou talvez mesmo de uma
nas coisas às quais somos diretamente mesmo, quanto lhe é natural, quando 1 8 0 Antes de passar à justificação de Deus, Des-
de suas menores partes, a saber, aquela
não tem nenhuma indisposição, ser le- cartes afastará uma solução inaceitável. Trata-se de
compreender por "minha natureza" o corpo mate-
1 7 8Longe de ser "natural", o emprego dos aaaos
vado a beber para sua utilidade por rial como máquina. Portanto, já não procede falar ' ' Após o malogro da solução materialista, a difi-
8

sensíveis com vistas ao conhecimento é, pois, uma semelhante secura da garganta. E, de falha na natureza, assim como não procede dizer culdade subsiste, pois, totalmente.
que um relógio é "falível" quando não marca a hora O que vai desculpar Deus é a consideração das
extrapolação ilegítima em relação ao ensinamento ainda que, no concernente ao uso ao certa: não há patologia das máquinas. Mas esta
1 8 2

da "natureza". A falta só cabe a mim. dificuldades suscitadas de fato pela união entre a
' 7 3 Não haverá, todavia, erros inevitáveis e aos qual o relógio foi destinado por seu solução, que consiste em reduzir a substância com- alma e o corpo. Daí por que Descartes, aqui, come-
quais me conduz o ensinamento da natureza? Acei- artífice, eu possa dizer que ele se des- posta-humana ao corpo físico (ou ao animal-má- ça pondo em evidência a incompatibilidade dos dois
tá-lo é pôr em causa, através da infalibilidade desta, quina), é evidentemente incompatível com a união termos a unir: o divisível e o indivisível; união,
a bondade de Deus. Tornamos, assim, a um pro-
via de sua natureza quando não marca substancial. Em Descartes, a psicoflsiologia huma- aliás, que jamais poderemos compreender, mas ape-
blema de Teodicéia. bem as horas; e que, do mesmo modo, na não é materialista. nas constatar e descrever.
148 DESCARTES MEDITAÇÕES 149

onde se exerce a faculdade que cha- mas somente algumas de suas partes da espinha dorsal até o cérebro, provo- dor como se ela estivesse no pé e o sen-
mam o senso comum, a qual, todas as que passam pelos rins ou pelo pescoço, ca uma impressão no espírito que lhe tido será naturalmente enganado; por-
vezes que está disposta da mesma isso excite, não obstante, os mesmos faz sentir algo, isto é, dor, como estan- que o mesmo movimento no cérebro
maneira, faz o espírito sentir a mesma movimentos no cérebro que poderiam do no pé, pela qual o espírito é adver- não podendo causar no espírito senão
coisa , embora as outras partes do
183 nele ser excitados por um ferimento tido e excitado a fazer o possível para o mesmo sentimento e este sentimento
corpo possam estar diversamente dis- recebido no pé, em decorrência do que afugentar sua causa, como muito peri- sendo muito mais frequentemente exci-
postas, como o testemunha uma infini- será necessário que o espírito sinta no gosa e nociva para o pé. tado por uma causa que fere o pé, do
dade de experiências, que aqui não é pé a mesma dor que sentiria se aí tives- 38. E verdade que Deus podia esta- que por alguma outra que esteja alhu-
necessário relatar . 18 4 se recebido um ferimento. E cumpre belecer a natureza do homem de tal res, é bem mais razoável que ele leve
35. Noto, além disso, que a natu- julgar algo semelhante a respeito de ao espírito a dor do pé do que a dor de
sorte que esse mesmo movimento no
reza do corpo é tal que nenhuma de todas as outras percepções de nossos alguma outra parte . E, embora a
cérebro fizesse com que o espírito sen- 188

suas partes pode ser movida por outra sentidos . 18 6


secura da garganta nem sempre prove-
tisse uma coisa inteiramente diferente:
parte um pouco distanciada, que não 36. Enfim, noto que, como de todos por exemplo, que o movimento se nha, como de ordinário, do fato de que
possa sê-lo também da mesma forma os movimentos que se verificam na fizesse sentir a si mesmo, ou na medida beber é necessário para a saúde do
por cada uma das partes que estão parte do cérebro do qual o espírito re- em que está no cérebro, ou na medida corpo, mas algumas vezes de uma
entre as duas, ainda que esta parte cebe imediatamente a impressão, cada em que está no pé, ou ainda na medida causa inteiramente contrária, como
mais distante não aja de modo algum. um causa apenas um certo sentimento, em que situado em qualquer outro experimentam os hidrópicos, todavia é
Como, por exemplo, a corda ABCD nada se pode desejar nem imaginar lugar entre o pé e o cérebro, ou, enfim, muito melhor que ela engane neste
que está inteiramente tensa, se chegar- nisso de melhor, senão que esse movi- caso do que se, ao contrário, ela enga-
qualquer outra coisa, tal como ela
mos a puxar e mexer a última parte D, mento faça o espírito sentir, entre nasse sempre quando o corpo está bem
possa ser; mas nada disso teria contri-
a primeira A não se mexerá de maneira todos os sentimentos que é capaz de disposto; e, assim, em relação às ou-
causar, aquele que é mais próprio e buído tão bem para a conservação do
diferente da que poderíamos fazê-la corpo quanto aquilo que lhe faz sentir. tras coisas.
mexer-se, se puxássemos uma das par- mais ordinariamente útil à conserva-
ção do corpo humano quando goza de 39. Da mesma maneira, quando 42. E certamente essa consideração
tes médias B ou C, e a última D, no me serve muito, não somente para
plena saúde . Ora, a experiência nos temos necessidade de beber, nasce daí
entanto, permanecesse imóvel. E, da 18 6

reconhecer todos os erros a que minha


leva a conhecer que todos os senti- certa secura na garganta que move
mesma maneira^ quando sinto uma dor natureza está sujeita, mas também
mentos que a natureza nos deu são tais seus nervos e, por intermédio deles, as
no pé, a medicina me ensina que esse para evitá-los ou para corrigi-los mais
como acabo de dizer; e, portanto, nada partes interiores do cérebro; e esse
sentimento se comunica por meio de facilmente: pois, sabendo que todos os
se encontra neles que não torne paten- movimento faz com que o espírito
nervos dispersos no pé, que se acham
tes o poder e a bondade de Deus, que experimente o sentimento da sede por- meus sentidos me significam mais
estendidos como cordas desde esse
os produziu . 18 7 que, nessa ocasião, nada há que nos ordinariamente o verdadeiro do que o
lugar até o cérebro, quando eles são
37. Assim, por exemplo, quando os seja mais útil do que saber que temos falso no tocante às coisas que se refe-
puxados no pé, puxam também, ao
nervos que estão no pé são movidos necessidade de beber, para a conserva- rem às comodidades ou incomodi-
mesmo tempo, o lugar do cérebro de
fortemente, e mais do que comumente, ção da saúde; e assim quanto aos dades do corpo, e podendo quase sem-
onde provêm e onde chegam, e aí exci-
seu movimento, passando pela medula outros. pre me servir de vários dentre eles para
tam certo movimento que a natureza
instituiu para fazer sentir dor ao espíri- 40. Donde é inteiramente manifesto examinar uma mesma coisa e, além
to, como se essa dor estivesse no pé.
1 8 O sistema nervoso é apresentado como um
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que, não obstante a soberana bondade disso, podendo usar minha memória,
feixe de fios que partem da periferia para o centro.
Mas, já que esses nervos devem passar Por isso, qualquer que seja o nível do nervo de onde de Deus, a natureza do homem, en- para ligar e juntar os conhecimentos
pela perna, pela coxa, pelos rins, pelas se desencadeia o movimento (pé, perna, coxa, rins), quanto composto do espírito e do presentes aos passados, e meu entendi-
ele chegará sempre ao mesmo ponto.
costas e pelo pescoço, para estender-se 1 8 Seja qual for o ponto de partida da tração exer-
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corpo, não pode deixar de ser, algumas mento, que já descobriu todas as cau-
desde os pés até o cérebro, pode ocor- cida sobre ela, a glândula só pode, portanto, receber vezes, falível e enganadora. sas de meus erros, não devo temer
um único movimento, o que acarreta uma limitação
rer que, embora suas extremidades que considerável da integração nervosa. Deus precisou 41. Pois, se há alguma causa que
se acham no pé não sejam movidas, escolher, para o conjunto dos movimentos indife- excite, não no pé, mas em qualquer 1 8 8"Justificação" da ilusão dos amputados. Po-
rençáveis de cada nervo, a sinalização mais útil ao der-se-ia perguntar se Deus é inteiramente descul-
homem.
uma das partes do nervo que está ten- pado. Afinal de contas, por que colocou ele os
' 8 3A glândula pineal. 1 8 Essa solução do problema, conforme ao princí-
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dido desde o pé até o cérebro, ou dados do problema da união de maneira que não
1 8 Somente ao nível da glândula pode o espírito
4 pio do melhor, possibilita todavia o erro. Mas ela mesmo no cérebro, o mesmo movi- haja solução perfeita? A Meditação Quarta, porém,
receber as impressões sensoriais, e o sentimento só surge agora como o preço inevitável do mal míni- nos ensinou que ignoramos quais são os fins de
varia em função da variação na disposição dessa mo, tornando-se, pois, compatível com a bondade mento que se faz ordinariamente quan- Deus e que a imperfeição do pormenor pode contri-
pequena glândula. de Deus. do o pé está mal disposto, sentir-se-á a buir para a perfeição do conjunto.
ISO DESCARTES

doravante que se encontre falsidade elas me aparecem e quando, sem


nas coisas que me são mais ordinaria- nenhuma interrupção, posso ligar o
mente representadas pelos meus senti- sentimento que delas tenho com a
dos . E devo rejeitar todas as dúvi-
18 9 sequência do resto de minha vida,
das desses dias passados como estou inteiramente certo de que as per-
hiperbólicas e ridículas, particular- cebo em vigília e de modo algum em
mente esta incerteza tão geral no que sonho. E não devo de maneira alguma
diz respeito ao sono que eu não podia duvidar da verdade dessas coisas se,
distinguir da vigília: pois agora encon- depois de haver convocado todos os
tro uma diferença muito notável no meus sentidos, minha memória e meu
fato de que nossa memória não pode entendimento para examiná-las, nada
jamais ligar e juntar nossos sonhos uns me for apresentado por algum deles
com os outros e com toda a sequência que esteja em oposição com o que me
de nossa vida, assim como costuma for apresentado pelos outros. Pois, do
juntar as coisas que nos acontecem fato de que Deus não é enganador
quando despertos. E, com efeito, se segue-se necessariamente que nisso
alguém, quando eu estou acordado, me não sou enganado.
aparecesse de súbito e desaparecesse
da mesma maneira, como fazem as 43. Mas, como a necessidade dos
imagens que vejo ao dormir, de modo afazeres nos obriga amiúde a nos
que eu não pudesse notar nem de onde determinar antes que tenhamos tido o
viesse, nem para onde fosse, não seria lazer de examiná-las tão cuidadosa-
sem razão que eu consideraria mais mente, é preciso confessar que a vida
um espectro ou um fantasma formado do homem está sujeita a falhar muito
no meu cérebro e semelhante àqueles frequentemente nas coisas particula-
que aí se formam quando durmo do res; e, enfim, é preciso reconhecer a
que um verdadeiro homem. Mas quan- imperfeição e a fraqueza de nossa
do percebo coisas das quais conheço natureza . 1 9 0

distintamente o lugar de onde vêm e


aquele onde estão, e o tempo no qual 1 9 0 Embora nos proporcione o fundamento da ver-
dade e nos desvende os mecanismos do erro, a
Metafísica não nos fornece, igualmente, o meio infa-
O mundo é restabelecido na sua verdade: dis-
1 8 9 lível de não falhar. De resto, ela nos ensinou tam-
pomos dos meios de evitar ao máximo o erro. bém a medir mais exatamente a nossa finitude.