Você está na página 1de 4

unidade

6 FICHA DE AVALIAÇÃO FORMATIVA 2


História Trágico-Marítima

NOME:   N.O:   TURMA:   DATA:

GRUPO I

Parte A
Leia o excerto retirado de «As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho» (História Trágico-Marítima)
que se apresenta. Em caso de necessidade, consulte as notas.
Já a este tempo, que seriam nove horas da manhã, o navio dos corsários se não avistava; — e os Fran-
ceses que estavam na «Santo António» vendo a tormenta desencadeada, o leme desmanchado, atravessada
a nau, o rumor que fazia toda a gente, — chegavam-se aos nossos em tom amigo e cumpriam tudo que
lhes eles mandavam, como se fossem cativos dos Portugueses, e não os corsários e roubadores.
5 Dispôs-se então um bolso de vela para o porem em torno do castelo de proa,1 a ver se com isso arri-
baria a nau, e deixaria assim de se atravessar ao mar.
Às dez, escureceu por completo; parecia noite. O negro mar, em redor, todo se cobria de espumas
brancas; o estrondo era tanto, — do mar e do vento, — que uns aos outros se não ouviam.
Nisto, levanta-se de lá uma vaga altíssima, toda negra por baixo, coroada de espumas; e, dando na proa
10 com um borbotão do vento, galga sobre ela, a submerge, e arrasa. Estrondeando e partindo, leva o mastro
do traquete com a sua verga2 e enxárcia;3 leva a cevadeira,4 o castelo de proa, as âncoras; estilhaça a ponte,5
o batel,6 o beque,7 arrebatando pessoas, mantimentos, pipas. Tudo se quebra e lá vai no escuro. A nau, até
o mastro grande, fica rasa e submersa, e mais de meia hora debaixo de água.
Os sobreviventes, que se arrastavam pávidos, confluem a um padre que se acha a bordo e atropela as
15 rezas e as confissões. Um relâmpago risca, ilumina a treva: veem-se todos de joelhos, com as mãos no ar, a
pedir misericórdia e a clamar por Deus.
Jorge de Albuquerque, como de costume, falava aos outros para lhes dar coragem. Confiassem em
Deus, — e ao mesmo tempo fossem dando à bomba, esgotando a água que invadira o convés. Enquanto
houver vida — dizia-lhes — trabalhem todos por a conservar. E se Deus dispusesse por outra forma, tivessem
20 paciência ante os seus decretos: somente Ele sabe o que nos é melhor.

Com estas palavras os persuadia à faina. Deram à bomba, com imensa dificuldade de se aguentarem
de pé, e esgotaram a água.
Mas outro vagalhão se lançou sobre a nau. Cobrindo o convés, arrebatou o mastro grande, verga, vela,
enxárcias, camarotes, borda;8 levou o mastro da mezena9 com o aparelho10 todo, uma parte da popa, e
25 também um dos franceses de maior hierarquia. Os Portugueses que trabalhavam na bomba foram logo

arrojados aqui e além; cobertos pelo mar, todos se convenceram de que se afogariam. Levantaram-se aos
poucos, queixando-se este de que partira um braço, aquele uma perna. Ficou tudo mergulhado por algum
tempo; e o mar, depois, dava ainda pelos joelhos dos desgraçados. Mandou o Albuquerque alguém à coberta,
para ver a água que nela entrava. Só faltavam três palmos para chegar acima, e a encher de todo. Fuzilavam
30 relâmpagos; a força do vento, a imensidade das ondas, aterravam os ânimos; a água que entrava vinha cheia

de areia. Jorge de Albuquerque, apesar de tudo, consolava os tristes, afirmando-lhes a esperança de se


saírem daquilo.

(1) Castelo de proa: Superstrutura na parte externa da proa.


(2) Verga: Peça de madeira ou metal onde se liga a parte superior da vela.
(3) Enxárcia: Conjunto de todos os cabos de um navio que seguram os mastros e mastaréus.
(4) Cevadeira: Vela que pende de uma verga atravessada no gurupés (mastro colocado na extremidade da proa).
(5) Ponte: Coberta ou sobrado do navio.
(6) Batel: Embarcação maior do navio que ia acomodada no convés da nau.
(7) Beque: Parte mais avançada da proa.
(8) Borda: Limite superior do costado (invólucro do casco acima da linha de água).
(9) Mezena: Vela latina do mastro de ré.
(10) Aparelho: Conjunto de cabos, velas e mastros de um navio.

298 ENTRE NÓS E AS PALAVRAS  •  Português  •  10.o ano  •  Material fotocopiável  •  © Santillana

565039 289-314 U6.indd 298 12/03/15 20:08


unidade

6
Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1 A
 tente ao primeiro parágrafo do excerto. Indique quais os dois obstáculos que se colocam,

História Trágico-Marítima
nesse momento, à tripulação da nau Santo António.

2 D
 escreva a tempestade relatada no texto, referindo os aspetos que realçam o seu poder
destruidor. Fundamente a sua resposta com transcrições textuais.

3 I ndique de que forma está presente no excerto a ideologia cristã.


3.1 M
 ostre que Jorge de Albuquerque é apresentado como um homem prático e como um herói
cristão.

Parte B
Leia o excerto retirado de «As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho» (História Trágico-Marítima)
que se apresenta. Em caso de necessidade, consulte as notas.
Então, vendo-se desamparados na vastidão oceânica, sem nenhuns recursos […] caíram de joelhos no
convés da nau, puseram-se a rezar o Miserere.1
Rezado o Miserere e as ladainhas, Jorge de Albuquerque começou a mandar, a tomar providências para
a salvação de todos. Só se encontraram em todo o navio: numa botija, duas canadas de vinho; uma pequena
2
5 quantidade de cocos; alguns poucos punhados de farinha-de-pau; e meia dúzia, ao todo, de tassalhos de

carne e de peixe-cavalo. Isto, — para quarenta pessoas que a bordo havia.


Jorge de Albuquerque repartiu os mantimentos por suas mãos, reservando para si mesmo um quinhão
menor que o que dava aos outros. Todos se espantavam de como se sustentava de tão pouco, com tanto
trabalho em que lidava sempre, tanto de dia como de noite. Ao parecer, mais se doía das necessidades alheias
10 que das próprias.

Homem para comandar liberalmente, pela bondade e pela persuasão, e de todo o ponto admirável.
Antes da partida dos Franceses, um caso lhes sucedeu que muitos tomaram por milagre. E foi assim:
No dia em que a tormenta se desencadeou, mandou Jorge de Albuquerque Coelho, a pedido de alguns
15 companheiros, lançar às ondas uma cruz de oiro que tinha uma partícula do santo lenho.3 Amarrou-se para
isso a dita cruz, com um cordão de retrós verde, a um cabo grosso e muito forte, com um prego grande por
chumbada; e o chicote do mesmo cabo se prendeu bem à popa da nau.
Passada a tormenta, lembrou-se o Albuquerque do seu relicário. Chegou-se à popa, e viu que o cabo
se embrulhara nuns pregos. Pediu a Afonso Luís, piloto, que vinha a bordo por passageiro, se quisesse
4
20 embalsar em um cabo, e desembaraçar o do relicário. Afonso Luís o fez assim. Desembaraçado o cabo,

disse que alassem5 por ele de cima. Alaram; e, acabado de recolher o cabo, caiu a cruz solta, com a argola
partida, na tolda da nau.
(1) Miserere: Prece (com ou sem cânticos) de apelo à misericórdia de Deus, baseada no Salmo 51.
(2) Tassalhos: Pedaços.
(3) Santo lenho: A cruz em que Cristo foi crucificado.
(4) Embalsar: Meter-se num balso, isto é, numa laçada que se dá num cabo para poder suster um homem.
(5) Alassem: Fizessem subir.

Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1 
O excerto refere-se ao momento da narrativa em que o corsário francês espolia a nau portuguesa
e se afasta.
1.1 M
 ostre que a reação dos tripulantes portugueses ao afastamento da nau francesa reflete a sua
crença religiosa.

2 Contraste a figura de Jorge de Albuquerque com a restante tripulação.

ENTRE NÓS E AS PALAVRAS  •  Português  •  10.o ano  •  Material fotocopiável  •  © Santillana 299

565039 289-314 U6.indd 299 12/03/15 20:08


unidade

6 GRUPO II
Leia o texto que se segue.
História Trágico-Marítima

Recensões
A História Trágico-Marítima (Análises e Perspetivas), Maria Alzira Seixo e Alberto Carvalho (org.), Lisboa, Cosmos, 1996,
235 págs. (Col. «Viagem», n.º 1)
A conhecida antologia do erudito setecentista Bernardo Gomes de Brito, em 2 vols., História Trágico-
-Marítima, de 1735-36, continua a ser um inesgotável manancial para estudos de natureza antropológico-
-cultural, histórico-política, e, sobretudo, de âmbito estético-literário. Uma demonstração do visível interesse
que esta literatura realista e dramática do período da Renascença, do Maneirismo e do Barroco tem suscitado,
5 está no elevado número de trabalhos dispersos por várias revistas e livros publicados nos últimos tempos;

nos seminários de investigação que se tem organizado sob inspiração das comemorações dos Descobri-
mentos; nas diversas teses académicas de Mestrado e Doutoramento, apresentadas nos últimos anos em
universidades portuguesas, especificamente sobre a Literatura de Naufrágios; e ainda nas sucessivas edições
da História Trágico-Marítima, ou de alguns naufrágios individualmente, com destaque para o inesquecível
10 Naufrágio de Sepúlveda.

Os investigadores agrupados à volta do Seminário «A Viagem na Literatura», de vocação comparatista


e até interdisciplinar, têm nesta obra a primeira publicação conjunta dos seus trabalhos. A sua organização
coube a Maria Alzira Seixo, que também assina o Prefácio, e a Alberto Carvalho. Por conseguinte, na prome-
tedora Coleção «Viagem» das Edições Cosmos, coordenada por Maria Alzira Seixo, é a primeira obra que
15 esta investigadora organiza à volta da temática da Literatura de Viagens, com realce, neste volume, para o

redescoberto subgénero da Literatura de Naufrágios. Trata-se de um volume coletivo, reunindo nove traba-
lhos de outros tantos investigadores de universidades portuguesas de Lisboa, Évora e Madeira: Alberto
Carvalho, José António Costa Ideias, Carlos Figueiredo Jorge, Maria Luísa Leal, Helena Maria Matos, Maria José
Meira, a própria Maria Alzira Seixo, Clara Vitorino e Christine Zurbach.
20 Com a publicação destes trabalhos, dá-se um notável contributo para o estudo dos relatos de nau-
frágio como género especificamente literário, alargando assim o âmbito histórico-cultural em que estes
«documentos» eram tradicionalmente considerados. Como admiráveis «monumentos» literários, os relatos
de naufrágio patenteiam uma riqueza estética que só várias abordagens críticas e de natureza manifesta-
mente interdisciplinar poderão estudar de um modo adequado.
25 É sobre algumas pertinentes questões ou perspetivas de análise da multifacetada riqueza literária
contida na História Trágico-Marítima que versam os estudos dos autores referidos. Apesar da dificuldade de
as apreciar individual e criticamente nesta oportunidade, as reflexões proporcionadas por estes autores
revelam-se tão estimulantes, que só nos resta esperar, com uma certa ansiedade, pelos próximos volumes
consagrados à temática da Literatura de Viagens e de Naufrágios. Em suma, trata-se de uma das áreas que
30 merece melhor aproveitamento nas aulas de Português ao nível do Ensino Secundário; mas também mais

aprofundamento interdisciplinar nas nossas universidades, em cadeiras de Cultura Portuguesa, de Literatura


Comparada ou, naturalmente, de Literatura Portuguesa.
J. Cândido Martins, http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/letras/recen038.htm, consultado a 17 de outubro de 2014
(com adaptações).

1 
Para responder a cada um dos itens de 1.1 a 1.5, selecione a opção correta. Escreva, na folha
de respostas, o número de cada item e a letra que identifica a opção escolhida.
1.1 O artigo apresentado centra-se na apresentação dos aspetos positivos
(A) da antologia História Trágico-Marítima.
(B) das características da literatura de naufrágios.
(C) dos ensaios acerca da História Trágico-Marítima.
(D) da publicação dos ensaios acerca da História Trágico-Marítima.

300 ENTRE NÓS E AS PALAVRAS  •  Português  •  10.o ano  •  Material fotocopiável  •  © Santillana

565039 289-314 U6.indd 300 12/03/15 20:08


unidade

6
1.2 A primeira informação a que o leitor tem acesso é
(A) a referência bibliográfica do livro de ensaios apresentado.
(B) um conjunto de dados acessórios sobre a edição do livro de ensaios.

História Trágico-Marítima
(C) a indicação da data de publicação da História Trágico-Marítima.
(D) a época em que os relatos de naufrágios foram publicados por Gomes de Brito.
1.3 N
 o primeiro parágrafo do texto são enumeradas as seguintes manifestações concretas de interesse
pelo estudo da História Trágico-Marítima:
(A) organização de congressos sobre literatura de naufrágios e sucessivas edições da narrativa
«Naufrágio do Sepúlveda».
(B) aumento do número de artigos, seminários, teses e edições da História Trágico-Marítima.
(C) surgimento de revistas e livros sobre literatura de viagens.
(D) edição de livros do período da Renascença, do Maneirismo e do Barroco.
1.4 O artigo defende que a publicação da obra A História Trágico-Marítima (Análises e Perspetivas)
(A) demonstra que os relatos de naufrágios são documentos históricos.
(B) mostra que os relatos de naufrágios são textos de natureza descritiva.
(C) confirma que os relatos de naufrágios reunidos por Bernardo Gomes de Brito são documentos
de natureza histórico-literária.
(D) permite analisar os relatos de naufrágios como obras individuais.
1.5 O texto apresentado pode enquadrar-se no género
(A) narrativo.
(B) descritivo.
(C) argumentativo.
(D) expositivo.

2 
Responda aos itens apresentados.
2.1 Identifique a função sintática desempenhada pelos constituintes indicados.
a) «de natureza antropológico-cultural» (linhas 2-3)
b) «nos últimos tempos» (linha 5)
c) «a Maria Alzira Seixo» (linha 13)
d) «naturalmente» (linha 32)
2.2 Classifique as orações presentes nas expressões seguintes.
a) «apesar da dificuldade de as apreciar individual e criticamente nesta oportunidade»
(linhas 26-27)
b) «que só nos resta esperar pelos próximos volumes consagrados à temática da Literatura de
Viagens e de Naufrágios.» (linhas 28-29)
2.3 A
 tente nos vocábulos «Renascença», «Maneirismo» e «Barroco» (linha 14). Indique o campo lexical a
que estas palavras pertencem.

GRUPO III
Com base na sua experiência de leitura do texto «As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho»,
construa um artigo de apreciação crítica em que se refira ao interesse que a leitura de relatos de naufrágios pode
suscitar num jovem do século xxi.
Construa um texto bem estruturado, com um mínimo de cento e quarenta e um máximo de cento e sessenta
palavras.

ENTRE NÓS E AS PALAVRAS  •  Português  •  10.o ano  •  Material fotocopiável  •  © Santillana 301

565039 289-314 U6.indd 301 12/03/15 20:08