Você está na página 1de 4

R e s e n h a do L i v r o

Politizar as Novas Tecnologias: o impacto sócio-técnico da informação digital e genética


Laymert Garcia dos Santos1
São Paulo: Ed. 34, 2003

1Olivro reúne, a grosso modo, boa parte da res em quase todas atividades humanas, entre as
produção ensaística da década de 1990 do professor quais destaca a total virtualização do mercado finan-
Laymert Garcia dos Santos, no qual privilegia as ceiro com enormes reflexos na vida econômica dos
relações entre tecnologia e ambiente, sociedade, arte países, mas também como interferiu no consumo,
e o futuro humano. aumentando o controle das empresas sobre os con-
No primeiro capítulo trata da encruzilhada sumidores e, em última instância, como estes estão
em que se encontra a política ambiental brasileira e sendo transformados em mercadoria. Na nova eco-
daquilo que denomina “redescoberta do Brasil”, nomia o consumidor é uma mercadoria virtual.
passando pela análise das intenções e ações desen- No capítulo terceiro analisa as relações que se
volvidas por empresas transnacionais com o intuito estabelecem entre as imensas possibilidades das no-
de se apropriar da biodiversidade do País. Nessa vas tecnologias e suas aplicações nas artes e encerra
mesma linha de pensamento, relata entrevista com a com um quarto capítulo cujas análises, que tratam
física Vandana Shiva, laureada com prêmio Nobel da tecnologia e o futuro humano, mostram como es-
alternativo de 1993, que identifica a ocorrência de tá ocorrendo uma desumanização provocada pelas
uma nova colonização genética, ou seja, uma nova novas tecnologias, que estão transformando o hu-
apropriação na natureza e biodiversidade que está mano em pós-humano e fazendo surgir o pós-natu-
sendo promovida nos países do Sul por parte dos ral. Este seria produto de uma nova natureza criada
países desenvolvidos do Norte. Esclarece também pelo homem a partir das novas tecnologias que
como essa biodiversidade foi virtualizada, ou seja, superaram a natureza e adquiriram condições de
como que o que realmente interessa ao capital inter- controlá-las e manejá-las de acordo com a sua von-
nacional são apenas as informações genéticas e mo- tade.
leculares contidas nos organismos vivos e não mais O livro do professor Laymert Garcia dos San-
esses organismos em si. Como o que importa daqui tos trata, portanto, do impacto que as novas tecnolo-
para frente são apenas as informações, que têm cará- gias vêm tendo sobre o mundo e as atividades hu-
ter virtual, e como o capital internacional trabalha manas e como ocorreu uma imensa intensificação
econômica e politicamente no sentido de ter garanti- das mesmas nas últimas décadas. Faz exatamente
do acesso e controle legal sobre as mesmas. aquilo que os meios de comunicação e a comunida-
No capítulo segundo trata das relações entre de científica mais ligada às ciências naturais ou bio-
tecnologia e sociedade. Analisa como a virtualização lógicas criticam, ou seja, politizar as novas tecnologi-
das informações interfere no dia-a-dia das pessoas as e principalmente os interesses econômicos envol-
através da crescente presença dos microcomputado- vidos.
Mostra como a tecnologia que estava presente
principalmente no ambiente restrito aos laboratórios
1Doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris

VII, professor titular do Departamento de Sociologia do Instituto passa a fazer parte do cotidiano de uma massa urba-
de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Desde o final da na cada vez maior, fator decisivo de inclusão/ex-
década de 1980 tem se dedicado às múltiplas relações entre tecno-
logia e sociedade (ambiente, arte e cultura), produzindo diversos
clusão social. Chama a atenção para a “...necessidade
ensaios sobre o tema. É autor de “Desregulagens, alienação e capi- imperiosa de se discutir a questão tecnológica em toda a
talismo” e “Tempo de ensaio”.

Agric. São Paulo, São Paulo, v. 51, n. 1, p. 125-128, jan./jun. 2004


126 Laymert Garcia dos Santos

sua complexidade. Vale dizer: da necessidade de se politi- rações farmacêuticas, agroquímicas e de petróleo,
zar completamente o debate sobre a tecnologia e suas rela- que inicialmente monopolizaram o mercado global
ções com a ciência e com o capital, em vez de deixar que ela de fertilizantes, em seguida transformaram a produ-
continue a ser tratada apenas no âmbito das políticas ção de sementes num imenso negócio e agora têm na
tecnológicas dos Estados ou das estratégias das empresas mira a própria vida. Denuncia o fato de que as em-
transnacionais, como quer o ‘stablishment’ ”. Considera presas de sementes fundadas na biotecnologia bus-
que as opções tecnológicas são sempre questões só- cam, na realidade, através da intervenção tecnológi-
cio-técnicas e devem ser encaradas pela sociedade ca, transformar a biodiversidade de recurso renová-
como de interesse público. vel em recurso não renovável. Nesse processo, a
Com relação ao ambiente, trata da crise am- semente natural que é produto e meio de produção
biental e em especial de aspectos relacionados com a passaria a ser apenas matéria-prima. A conclusão
importância da biodiversidade da Amazônia para o mais geral que tira de todo esse processo que está
futuro do País e do interesse do capital internacional em andamento é de que “...com a biotecnologia é possí-
em relação a sua biodiversidade. Considera que vel uma apropriação direta da vida. Isto é: a vida pode ser
“...em matéria de biodiversidade há uma dupla ignorância: monopolizada”. E afirma que com a biotecnologia tor-
a ignorância do que ela é, porque a desconhecemos, porque nou-se possível converter “...valores que eram ambien-
ela ainda não foi amplamente estudada pela ciência ociden- tais em valores econômicos através da metamorfose da se-
tal e porque o saber tradicional desaparece sob golpes da mente e do patenteamento de seres vivos, que transformam
sociedade moderna antes mesmo que o seu valor seja reco- a biodiversidade em matéria-prima”. Considera que a
nhecido; e a ignorância do que a biodiversidade poderia vir maneira pela qual o Brasil vai lidar com a questão da
a ser, ignorância irresponsável e inconseqüente de quem biodiversidade é fundamental para os destinos do
dilapida uma riqueza do futuro sem nem ao menos anteci- País. O professor Laymert alerta para o fato de que,
par seus benefícios no presente”. Considera que “A ri- com a biotecnologia, plantas, animais e microorga-
queza da biodiversidade brasileira vem sendo dilapidada nismos tornaram-se uma riqueza econômica poten-
para promover a integração da região amazônica na eco- cial. E que, portanto, o que interessa ao capital inter-
nomia de mercado...”. Considera que a biotecnologia nacional é o controle dos recursos da floresta tropi-
parece expressar um novo tipo de predação, uma cal.
forma bastante perversa de destruição, e uma ma- Pode-se destacar que o autor faz critica con-
neira sofisticada de submeter a biodiversidade à lei tundente à chamada “obsessão do descompasso”,
do mercado. Segundo o autor, o interesse do merca- frase criada por Alfredo Bosi, segundo o qual seria:
do seria o de “pulverizar” em fragmentos microscó- “...Tal obsessão domina a mente dos economistas, polí-
picos a biodiversidade brasileira, apropriar-se de ticos, homens de mídia, empresários e professores univer-
algumas dessas unidades mínimas e conferir-lhe um sitários, expressando-se como síndrome de modernização”.
valor econômico que pode render milhões no mer- “... a obsessão em relação ao descompasso faz com que pen-
cado mundial. Considera que “...a biotecnologia é o sem apenas no que está faltando (ao País) e não no que
dispositivo através do qual a própria vida é extraída das efetivamente existe. E o que está supostamente faltando é a
diversas formas de vida que fazem parte de uma planta ou moderna cultura ocidental, a capitalista que poderia levar
animal selvagens e incorporada como matéria-prima num ao desenvolvimento. Assim, a razão do subdesenvolvimen-
processo industrial que está criando o mais promissor dos to não deve ser procurada na condição colonial do País,
mercados : o biomercado”. mas no comportamento atrasado do povo e na ‘cultura na-
Informa que a biorevolução na agricultura es- cional’”. Afirma que no Brasil essa “...obsessão pelo des-
tá seguindo o mesmo caminho aberto pela denomi- compasso é uma eterna corrida entre dois pólos: de um
nada revolução verde dos anos 50s e 60s. E que esse lado, a sociedade capitalista existente, cujos efeitos capita-
caminho está sendo construído pelas mesmas corpo- listas são, no entanto, negados, de outro, uma sociedade

Agric. São Paulo, São Paulo, v. 51, n. 1, p. 125-128, jan./jun. 2004


Politizar as Novas Tecnologias: o impacto sócio-técnico da informação digital e genética 127

capitalista avançada ideal e inatingível que poderia existir O autor denuncia o fato de que “...As promes-
mas não existe”. Essa situação seria a derradeira ma- sas de que o desenvolvimento tecnocientífico iria permitir
nifestação da mente colonizada. Laymert discute a inclusão progressiva de todos numa sociedade moderna
nesse contexto importantes questões ligadas a sobe- esfumaram-se e só se mantêm no ar graças ao assédio
rania brasileira. permanente que as mídias e a publicidade fazem à mente
No cenário dos interesses das empresa trans- dos espectadores”. Para ele o Darwinismo social se le-
nacionais pelo acesso, controle e apropriação dos re- gitimou e se torna o natural. Ou seja, os excluídos
cursos genéticos dos países do Sul, mostra como vão permanecer nessa condição de sem emprego, de
esses são extremamente necessários à próxima revo- sem terra, de sem teto e de sem dinheiro. Essa última
lução tecnológica. Na realidade, estaria ocorrendo situação faz com que deixem de existir, pois não são
uma nova colonização através da engenharia genéti- consumidores. O direito de existir passa a se con-
ca e do patenteamento da vida, pois para os interes- fundir com o direito de consumir. Nessa mesma li-
ses econômicos todo ser vivo é uma colônia poten- nha de pensamento aos que foram incluídos cada
cial ou pacote de genes. vez mais vêem sua condição de cidadãos reduzida
Com a introdução das patentes de seres vivos, apenas à condição de consumidores.
o que está ocorrendo é uma revolução jurídica pela Baseado em Jeremy Rifkin, desvenda o fato de
qual a concepção sagrada do ser vivo desemboca nu- que “...Na era do capitalismo proprietário, a ênfase recaía
ma concepção instrumental e até mesmo industrial. na venda de bens e serviços. Na economia do ciberespaço,
“...a vida torna-se um patrimônio genético suscetível de a transformação de bens e serviços em mercadorias torna-
apropriação...”. Ocorre na realidade a derradeira pri- se secundária face a transformação das relações humanas
vatização, ou seja, a dos recursos genéticos em nível em mercadorias”. E conclui dizendo que “...O consu-
molecular. midor não é mais o alvo do mercado, ele torna-se o próprio
Registra o livro as várias tentativas de equipa- mercado cujo potencial é preciso conhecer, prospectar e
rar legalmente os recurso genéticos aos recursos ou processar”.
riquezas do subsolo, pois isto permitiria a apropria- Conclui analisando as relações entre a tecno-
ção da biodiversidade brasileira através da sua nor- logia e o futuro humano. Nesse sentido, o desenvol-
matização jurídica que a transformaria em patrimô- vimento tecnocientífico se dá num cenário no qual,
nio genético da União. Essa alteração da legislação com a vitória do capitalismo global sobre o socialis-
permitiria a livre negociação desse patrimônio pela mo, foi totalmente desarmado qualquer referencial
União. Equiparado o patrimônio genético à condição alternativo, o que dificulta mais ainda a acumulação
dos minérios, o Estado poderia negociar concessões para o terceiro mundo. Refere-se ao pensamento de
da sua titularidade para a exploração privada da bio- Richard Buckminster Fuller que considera que com a
diversidade. Uma vez transferida a titularidade des- aceleração da aceleração tecnológica, a tecnociência e
ses recursos genéticos para outrem, este poderia o capital global vêm desqualificando e tornando ob-
atualizar as informações virtuais de nível molecular, soletos os modos de produzir, de viver e de pensar
modificá-las, patenteá-las e explorá-las no mercado tradicionais. É nessa dinâmica que Heiner Muller de-
global. tecta o desaparecimento do humano no vetor da tec-
Laymert questiona se é “...O mundo atual que nologia. Face a isso considera que “...Os progressos
passa a ser tão real quanto o mundo virtual?”ou se é “...o científicos contemporâneos - particularmente a revolução
mundo virtual que passa a ser tão real quanto o atual?” e genética - trouxeram grandes esperanças, mas também
afirma que “...Tudo se passa como se, graças ao fantásti- questões alarmantes”.
co desenvolvimento tecnológico, nosso velho mundo atual Em síntese Laymert considera que desde os
estivesse sendo progressivamente abandonado em troca de anos 60s e 70s muitas das transformações que estão
um mundo da realidade virtual”. ocorrendo hoje já estavam sendo gestadas, mas foi

Agric. São Paulo, São Paulo, v. 51, n. 1, p. 125-128, jan./jun. 2004


128 Laymert Garcia dos Santos

nos 90s, “...com a disseminação dos computadores e da saram a ser constantemente modificadas, reordenadas ou,
Internet, com a digitalização dos sistemas, com os avanços para usar uma expressão emprestada da linguagem da in-
da biotecnologia e com as promessas da nanotecnologia, formática, reconfiguradas”.
que ficava patente que as inovações tecnológicas já não se
encontravam predominantemente nos laboratórios, mas Richard Domingues Dulley
faziam parte do cotidiano de um contingente cada vez Engenheiro Agrônomo, Doutor, Pesquisador
maior das massas urbanas, cujas percepções e práticas pas- Científico do Instituto de Economia Agrícola.

Agric. São Paulo, São Paulo, v. 51, n. 1, p. 125-128, jan./jun. 2004