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Ao longo do tempo, operadores do direito vinham percebendo a

inadequação na forma de inquirir crianças e adolescentes, vítimas de


violência sexual, numa tradicional sala de audiência, constituindo-se desse
modo mais uma forma de violência contra à vítima, que acaba sofrendo um
dano secundário decorrente da intervenção profissional.

O projeto Depoimento Sem Dano é uma iniciativa do Poder Judiciário do Rio


Grande do Sul. Criado há 6 anos pelo juiz José Antônio Daltoé Cesar, da 2ª
VIJ de Porto Alegre, com o objetivo de promover a proteção psicológica de
crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual, poupando-as de uma série
de inquirições nos âmbitos administrativo, policial e judicial.

Considerando que uma criança não poderia ser ouvida em juízo da mesma
forma que um adulto, objetivou-se uma alternativa com a finalidade de
evitar a revitimização do menor.

O projeto propõe que o depoimento da vítima seja obtido através de um


profissional de psicologia ou assistência social em um ambiente
especialmente preparado: uma sala equipada com câmeras que transmitam
os recursos audiovisuais ao juiz, representante do Ministério Público,
acusado, advogados e servidores judiciais. O encontro entre a vítima e
acusado é totalmente dispensado.

As perguntas são formuladas pelo juiz e transmitidas através de um ponto


eletrônico (fones) ao psicólogo ou assistente social, que age meramente
como intermediador, buscando adequar o questionamento do magistrado ao
nível cognitivo, intelectual e psicossocial do menor.

Neste processo, atribui-se ao psicólogo ou assistente social o papel de


mediador, o qual deve facilitar o depoimento da vítima

Nesse processo, o papel do psicólogo ou assistente social é de facilitar o


depoimento do menor, de ajuda-lo a sentir-se mais à vontade para falar
sobre o assunto constrangedor, numa postura de cuidado e acolhimento.
Dessa forma, reduz-se os danos causados, assim como faz valer a garantia
dos direitos estabelecidos no ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE.

Todo o procedimento é gravado e, posteriormente, anexado aos autos,


obtendo-se assim uma produção antecipada de provas, bem como instrução
criminal mais apurada do fato.

Em Porto Alegre este projeto já se aplicou em mais de 700 casos. Uma


proposta legislativa já foi apresentada e aprovada pela Câmara dos
Deputados, agora está no Senado. A pretensão é de incorpora-lo à
legislação nacional.

Esse modelo já vem sendo aplicado em alguns países já há algum tempo,


como por exemplo na França, Canadá, Itália, Estados Unidos, Reino Unido,
Espanha e África do Sul. Aqui no Brasil, outros estados também já aderiram,
como Goiânia, Acre, Rio Grande do Norte e Espírito Santo.
Alguns psicólogos se contrapõem à prática do DSD alegando que a
metodologia utilizada não se adequa como prática Psi e acreditam que
poderiam contribuir de forma mais efetiva.

O procedimento comumente utilizado por essa ciência leva em consideração


cada detalhe exteriorizado pela vítima, como por exemplo: lapsos, erros,
sonhos, esquecimentos, fantasias... ela é induzida a manifestar-se de
acordo com seus anseios.

Porém, no DSD, o papel do psicólogo é meramente restrito. O mesmo não


utiliza de sua prática para conduzir a situação e limita-se à função de
intermediador, transmitindo o questionamento do magistrado à vítima.

Neste contexto, observa-se que, ao contrário do que propõe o projeto, pode


haver sim dano à vítima em decorrência desse método de inquirição, visto
que o menor terá perpetuamente sua condição de vítima registrada em um
cd, podendo ser visto e reinterpretado por diversas vezes.

O projeto vem sendo muito elogiado, inclusive premiado no Brasil, por


resguardar crianças e adolescentes do trâmites prolongados dos processos
judiciais, também vem ganhando força no país:

Foi apresentado, no ano passado, um projeto de lei 7.524/2006, que altera o


Código Penal e o Código de Processo Penal, determinando que todo o
menor, quando vítima de abuso sexual, seja interrogado pelo método do
Depoimento Sem Dano.