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Universidade do Estado de Minas Gerais –

Programa de Pós-Graduação em Educação - Mestrado


Disciplina: Metodologia de Pesquisa em Educação - Professor José Eustáquio de Brito
Primeiro Semestre de 2018 - Carga Horária: 45 horas

ROTEIRO 01

A ESCRITA DA INTRODUÇÃO DO PROJETO DE MESTRADO

Na trajetória de nossa disciplina “Metodologia de Pesquisa em Educação”, nossa intenção tem


consistido em propor uma reflexão crítica sobre o processo de pesquisa em Educação tendo
por eixo a inserção desse processo no campo das ciências humanas e sociais de modo a explicitar
critérios que devem ser observados na condução da pesquisa, com destaque para a escrita da
segunda versão do projeto. A partir da interlocução com autores que apresentam reflexões
sobre o processo de pesquisa, temos a oportunidade de estabelecer contato com conceituação
de pesquisa, bem como com as possibilidades de demarcar objetivos a serem atingidos pela
pesquisa. Destacamos a proposta apresentada por Sérgio Luna (Planejamento de pesquisa: uma
introdução), que nos indica alguns objetivos da pesquisa, como transcritos abaixo:

 Demonstração da existência (ou da ausência) de relações entre


diferentes fenômenos;
 Estabelecimento da consistência interna entre conceitos dentro de
uma dada teoria;
 Desenvolvimento de novas tecnologias ou demonstração de novas
aplicações de tecnologias conhecidas;
 Aumento da generalidade do conhecimento;
 Descrição das condições sob as quais um fenômeno ocorre (LUNA,
2002, p. 15 – 16)

Na descrição que nos oferece acerca dos elementos básicos da pesquisa, o autor argumenta
acerca da necessidade da formulação do problema de pesquisa no projeto e apresenta-nos as
seguintes justificativas:

Ele [o problema] precisa existir, mesmo que sob a forma de uma mera
curiosidade, para dirigir o trabalho de coleta de informações e,
posteriormente, para organizá-las. É difícil argumentar contra a
formulação de problemas de pesquisa e desconheço a existência de uma
corrente metodológica que o faça seriamente. (...) Em resumo, toda
pesquisa tem um problema, embora a sua formulação possa variar
quanto à natureza ou modalidade (LUNA, 2002, p. 18 – 19).

Concordando com o autor sobre a necessidade de formulação do problema de pesquisa, nosso


compromisso consiste em traduzir e contextualizar essa exigência metodológica a partir do
percurso de pesquisa que cada um (a) de vocês se dispõe a trilhar. Para tal, apresento, abaixo,
uma conceituação de “projeto de pesquisa” para, em seguida, analisar como deve ser formulado
o problema de pesquisa no texto da INTRODUÇÃO do projeto.

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O Projeto de Pesquisa

“consiste basicamente em um plano para uma investigação sistemática que


busca melhor compreensão de um dado problema. É um guia, uma orientação
que indica onde o pesquisador quer chegar e os caminhos que pretende tomar.
O projeto deve indicar: a) o que se pretende investigar (o problema, o objetivo
ou as questões de estudo); b) como se planejou conduzir a investigação de modo
a atingir o objetivo e/ou a responder as questões propostas (procedimentos
metodológicos); e c) por que o estudo é relevante (em termos de contribuições
teóricas e/ou práticas que o estudo pode oferecer”. (ALVES-MAZZOTTI, 2000,
p. 149)

O texto de INTRODUÇÃO do projeto de pesquisa, de acordo com essa autora, é a parte em que
devemos “construir o problema”. De acordo com a autora, essa construção implica na
realização dos seguintes passos:

1. Apresentação do problema: logo no primeiro parágrafo do texto deve-se: expressar a


questão focalizada inserindo-a numa problemática mais ampla, de modo a estimular o
interesse dos leitores. A escrita desse parágrafo deverá conter os conceitos-chave que serão
explorados no trabalho;
2. Inserção do problema no contexto da literatura: Nos segundo e terceiro parágrafos deve-
se apresentar uma breve referência sobre o tratamento dado por alguns autores (as) em
torno do assunto a ser pesquisado, bem como expressar elementos da vivência profissional
que, de alguma forma, despertaram o interesse para a investigação em torno do tema;
3. Discussão das lacunas encontradas na literatura de pesquisa: Nesses parágrafos, deve-se
apontar aspectos não considerados pelos estudos que discutem o problema e indicar como
a pesquisa pretende superar essas deficiências. Cabe aqui apontar referências que serão
melhor explicitadas na parte do projeto dedicada às escolhas teórico-conceituais da
pesquisa;
4. Indicação dos sujeitos que podem se interessar pelo trabalho e relevância da pesquisa
para esse público: Finaliza-se a escrita da introdução do projeto fazendo referência ao
público que poderá interagir com o trabalho, apontando a relevância do estudo para esse
público.

“Uma introdução bem feita deve lembrar a imagem de um funil: começar pelo
problema mais amplo e ir tecendo a argumentação com base na análise das
lacunas e dos pontos controvertidos na bibliografia pertinente ao tema,
examinando aspectos cada vez mais diretamente relacionados à questão
focalizada no projeto, com o objetivo de demonstrar a necessidade de investigá-
la”. (ALVES-MAZZOTTI, 2000, p. 149)

Com a finalidade de tornar essas orientações mais compreensíveis, transcreveremos, abaixo,


um exemplo de texto de INTRODUÇÃO do projeto de pesquisa intitulado: “Do trabalho à rua:
uma análise das representações produzidas por meninos trabalhadores e meninos de rua”,
apresentado pela referida autora em sua obra.

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Apresentação do problema:

“Durante a década de 80, a população das grandes cidades brasileiras viu, entre assustada e
perplexa, os espaços urbanos serem ocupados por um crescente contingente de crianças e
adolescentes que buscavam, nas ruas, meios de sobrevivência. Embora o problema da “infância
desvalida” não seja novo nem circunscrito aos países pobres, constituía-se aí um novo objeto
social, uma vez que, por seu número e modos de agir, aqueles que passaram a ser chamados
genericamente de “meninos de rua” representavam um fenômeno ainda desconhecido.

Inserção do problema no contexto da literatura

A gravidade do problema deu origem a um número significativo de pesquisas sobre essas crianças
e adolescentes no decorrer da última década (Alvim & Valadares, 1988). Essas pesquisas,
realizadas em diversas cidades, apresentam entre si um alto grau de consistência no que se
refere ao perfil e às “estratégias de sobrevivência” utilizadas pelos “meninos de rua”, as quais
incluem uma série de ocupações ligadas ao mercado informal e também, embora em número
significativamente menor, atividades ilegais tais como roubo, furto, mendicância, consumo de
drogas e prostituição. As pesquisas indicaram ainda que, ao contrário do que se pensava até
então, ao lado de um pequeno grupo que, tendo rompido parcial ou totalmente os laços
familiares, mora efetivamente na rua, encontra-se uma grande maioria que, ao término de suas
jornadas de trabalho, volta ao convívio familiar (Rizzini & Rizzini, 1992).

Discussão das lacunas encontradas na literatura de pesquisa

O fato de que a identificação dessas duas subpopulações não se deu senão muito recentemente
faz com que a quase totalidade das caracterizações existentes trate os “meninos de rua’” como
uma população homogênea na qual aqueles mais propriamente chamados “de rua” estão sub-
representados, além de impedir comparações entre os grupos. A não diferenciação entre os
grupos parece ser também, em parte, responsável pela ampla prevalência, nesses estudos, das
interpretações de natureza sociológica sobre os motivos que levariam os meninos à rua.
Podemos resumi-las no seguinte esquema:

Migração  desemprego  desagregação familiar  necessidade de gerar renda 


menino de rua.

Tais explicações, porém, deixam de lado uma questão crucial para a compreensão do problema
dos meninos e meninas de rua, e que procuramos investigar em estudo anterior: “o que faz com
que, aparentemente enfrentando condições socioeconômicas igualmente desfavoráveis,
algumas crianças permanecem ligadas a suas famílias enquanto outras trocam a casa pela rua?
(Alves, 1992). Os resultados desse estudo, que distinguiu e comparou famílias de meninos
trabalhadores e de meninos de rua – aqueles que romperam os vínculos familiares e moram na
rua – indicaram que os rendimentos desses dois grupos eram equivalentes, não constituindo,
portanto, fator relevante na distinção entre eles. Mais ainda, a investigação de fatores
socioeconômicos, familiares e individuais nos permitiu concluir que somente a análise da
interação entre esses fatores seria capaz de levar a uma compreensão mais acurada do
problema. Em outras palavras, uma abordagem psicossocial fazia-se necessária.

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Identificação da audiência e explicitação da relevância do problema

Cabe assinalar que, paralelamente às tentativas de ampliar o conhecimento sobre esses grupos,
realizadas no âmbito da pesquisa, um número crescente de atores sociais vem se mobilizando
com o intuito de lhes oferecer alguma forma de ajuda. Valladares e Impelizieri (1991), em
minucioso levantamento da ação não-governamental voltada para as crianças carentes,
localizaram, apenas no município do Rio de Janeiro, 619 iniciativas de natureza e filiações
diversas, das quais 39 dirigidas exclusivamente aos meninos e meninas de rua. A quase
totalidade desses projetos data, igualmente, da década de 80, em consequência da agudização
do problema. Considerando-se que as autoras trabalharam com dados disponíveis até maio de
1991, e que aí não estão incluídas as ações governamentais, pode-se concluir que o número de
iniciativas é hoje muito maior.

Face à magnitude desses esforços e aos modestos resultados até agora obtidos, torna-se urgente
a produção de conhecimentos que possam orientar as práticas e políticas públicas dirigidas à
ressocialização dos meninos e meninas de rua”.

ooooo xxx ooooo

Com a formulação desse roteiro, convido vocês a produzirem uma escrita do texto de
INTRODUÇÃO do projeto de pesquisa de modo a considerarem a “estrutura lógica” proposta no
exemplo acima transcrito. De forma distinta em relação a outras modalidades de textos
acadêmicos, o texto da INTRODUÇÃO deve ser concebido como um ponto de partida a sintetizar
as principais formulações a serem desenvolvidas ao longo do texto do projeto. Por essa razão,
a INTRODUÇÃO é o ponto de partida para a escrita de outras partes do projeto. No entanto,
tenham também consciência de que se trata de uma construção que comporta a possibilidade
de passar por várias versões, dada a dinâmica da pesquisa. Essa primeira escrita a partir das
regras apresentadas deve ser enviada a mim até o dia 01 de junho para que eu possa preparar
a sistematização dos textos, bem como propor o debate sobre os conteúdos. Essa escrita
comporá parte da avaliação de nossa disciplina.

Boa Escrita!

Referências:

ALVES-MAZZOTTI, Alda Judith & GEWANDSZNAJDER, Fernando. O método nas ciências naturais
e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo: Pioneira, 2000.

LUNA, Sérgio. Planejamento de pesquisa: uma introdução. São Paulo: EDUC, 2002.