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Santo Agostinho

Aula 10

por Olavo de Carvalho

coleÇão

História
Essencial da
Filosofia
por OlâYo de Çârvalho

Coleçâo Híslôlâ E6senilãl dâlilôsolia

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que náo pode sêl wndido sePmilamente.

lÍrprssso uo BÍasil, abrit de 2b07


CopFight @ 2004.by Otavo de Carvalho

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q@iquu mAo ou foÍm,;eia êtâ lletiônicu 0ü ,nuú[nl Íoro0óL , !n'vçáo otr qualqdti delo.
Santo Agostinho
Aula 10

por Olavo de Carvalho

(oleção

História
Essencial da

ffi
2004
Coleçáo História Essencial da Filosofia
Santo Agostinho - Aula 10
por Olâvo de Carualho

Nâ outrâ aula, demos ümâ idéiâ da orientâçáo gerâl da frlosofia dita


"DítÍí§lica", que é à frlosofa dos primeilos padres da Igrciâ. (...) Di§-
scmos quc surSe uma dispúta em lomÔ dâ posjção que a Igreja tLeveria
tomâr com Íelaqáo àlilosofiâ gtega; que uns â sondenavam no todo e que
outÍos, como Clemente ou Justino, eram Íavoráveis a uma integração.
lustino Mártir chega a colocar o cristiânismo como o coroamento ou
a Íinalidade a que toda lilosofia busca. A mesma idéia é eompartilhada
por Clemente de Alexândria, e.como um exemplo da posiçáo contfuia
rcmos Tenuliano. que condena a Êlusoüa i,, Iolrn como uma criaçâo
cs§cncialmente Pagá.
Notem bem quetodo6 esses acontecimentos mostfam o impacto que
u m âcontecimeúto que vem de forâ tem dentro alâ âtividâde filosÓfica. É
cvidente que â revelaçâo cristá não é uma doutrina frlosófrca de maneiÉ
âlguma, é um fato da história humana. E esse lato repentinanente muda
todo o quadro, que, aliá§, já tinha mudado duas ou três vêzês antês, com
dissoluÇáo da Cidade-Estado grega, à qual eu me lehbro de ter me
rcl'erido.Isso quer dizer que este projeto socráticonáo serealizano ar:
os scrcs humanos sempre nâscem em âlgurna aondiçáo social, histfuica,
cultural dâda, e somenle aôs poucos váo encontrando, dentro ala rede
inensa de possitlilidades humanas, o seu câminho. E pode acontecer
filoúfico-
que o ca.rninlo de um deles osba.rle no prôieio
Mesmo esse encontro náo alecidirá por si umâ vocaçáo, porque o
suiciio ainda vai 1er que tômar uma posiçáo pessôâl quanto âo que
vai tàzer com isso. Ao tomar essa posiçáo pessoâI, ele vai jogu com os
clcmentos) com um repertório de possibilidades quê encoltra na sua
própriâ crltura. As possibilidades aí são infinitas, e é por isso que náo
ó possívclsc iàzcr unlâ História da Filosofiano sentido de Hegel, como
ürn dcscnvoivimcnto contínuo. Um desenvolvimento contínuo suporia
quc todos âqueles quc sededicaram àlilosofia cÍAoàzendo exaiêmcn-
ie â mesma coisa, apenas com um conreúdo difcrcnte. Mas ujna alas
rn|lhorec mânciras de Ecntc ver (umu i))o nrú ( â,,im e (umparar
r
o desenvolvimento que as rclaçôes entre religiáo e filosofiâ tíveram no
Ocidente com aqueles que iiveram no Orientc.
Náo deixa de ser estranho que a própriâ palavrâ,,Oricn1e,,aí
nuda de significado, pois o que chamamos de cristandêde oricntal é
a cristandade grega, ó aquelâ que estava no berço mcsmo do que foi
a civilizâçào ocidental. Mas usâmos esse temo a parlir da queda do
lmpério Romano no Ocidente que ó mais ou menos em 476 d.C. ,
um processo longo e enomemente complicado. Chegâ uma hora em
que realmenie nâo havia mais condiçáo de mántc,r uma administraçáo
centrâlizâda no Império, enláo o poder se dcsmembra l'ormando âquilo
que dcpois rcccberia onome de "sociedade fcudal,'. umnome técnid) c
que rcflete o desmembrâmênto do poder numâ infinidâde dc cntidades
independentes condicionadàsà posse alo terriiório. O domínio teritorial
demârcava a ju risdiçáo da auloridade político-m ililar, ou scja, a judsdi-
ção era purâmcnte lísica, naverdâde. Até onde o sujeilo iern poder pâra
manier seu ierritório contra invasões, alj elc mandâ e suâ autoridadc é
considcrada iegítima dentro desses limites.
Com o desmenrbramento da âutoridade central, as conseqüôncias
imcdiatas sáo as seguintcs: náo se tem uma administrâçáo centràlizaala
e, portanto, náo se tem mais um crilério- por exemplo, da legâlidâde ou
náo doscontratos. dosnegócios, ctc, Durantcum ceÍomomenlo. toda a
vidacuropéiâ fica enolmemenie bâgunçada, e automalicâmentc a Igreja,
que tinha um ceÍio número de pessoas letradas, começa a desempenhar
essc papel de administraÇão inlbrmal; náo tern o poder administrativo,
f riri l(nr rlgumas das funçôes, como, por exemplo, redigir os contratos,
lrz,!' ()s lsscntamentos debatidos. as cscriturâs de terras. essa coisâ
liÍLr. Nao quc ela livesse autoridade pâra isso náo iinha-, mas sabia
ljrz(r; cnláo, quein precisava lãzer um contrato naturâlmente buscava
,, |rirdrc. É importânte entender que, nessa época. considcrava-se que
,t lqucr indiúduo que soubcsse ler e esoever estâva iá âutomatica_
Irc,rtc integrâdo no clcro (a palavra "clero", nâ época, tinha um seniido
I rx)rmenlente mais elástico do que hoie).
A últimâ expressão filosófica importante nessc período tinha sido
silDto quc pode serconsiderâdo aindâ um representântc da
^.goslirho,
Etc sedao último, alguóm que assiste ao desmembramcnto
^nliguidade.
dr) lmpério Romano: assistc às invasóes, à corrupçáo generâlizada, à
qucdade iodos os pâdróes morais. Tirdo isso Santo Âgostinho vê, e tcm
u nra das reaçócs filosóiicas mais tipicamente socráiicas, mais pums que
se poderia cxigir Embora ienha rccebido o impâcto dafé cristá, ele náo
usa simplesmente os dogmas dâ Ié como um respâldo cognitivo contra
a desordem do mundo. Buscaüm fundamento, e o fundamento que ele
busca, e que encontra, é o mais tipicâmente jllosófico quc podeíâmos

Sabe-se pcrfeitâmente que quem entra nâ História como o desco


bridor do "eu pensante" como fundamento do conhecimcnto é René
Descartes, nras, naverdade, quem Íez isso foi Santo Àgostinho, müito
mles fim do século lV, comeao do século V E nola se em Santo Àgos-
linho um desejo inlenso de buscar um lundamento inabalável pdrâ o
conhecineülo:o fundamcnlo dâ cerleza, Isso qucrdizer que em nenhum
momento clc conlundiu o conteúdo da 1é rcligiosa coÍr as condiçôes
de süa crcdibilidade na alma humana. O talo de â Revclaçâo ter o seu
próprio critério de ccrteza que seria justamcnte a co iabilidade da
ionte, a coniabilidade do próprio Dcus - náo resolve para o homen o
seu problemâ cognitivo depo/qüe ele deveria ter fé nisto c corrro poderia
rr( i'lli11'r llr l) (iúo do ccrtcza que esiivesse ao seu alcance.
Si rto cstâbclece como a pdmeira certezâ apodíctica na
^fostinho
ordcnr Iillrsófica a ceÍeza que a âlma tem de sua própria exisiência. Só
que ele náo diz "o eu pensantc',, como fez Dcscartes. René Descâries
1ãrá mâis tarde todo esse trâjeto, dizendo que tudo pode sü duvidoso,
exceto o tâto de que você está duvidândo. e que, portanio, você existc.
Noie bem que a estrutum dessa explicação de Descârtes é quâse que
uma deduÇão lógica da dcfiniçAo do pensar: o pcnsar é uma atividade
humana desempenhada por um elr; portanto, enquânto você esiá pen-
sando, você tem que existiÍ necessariâmente. O ente que nào exisie
târnbén não pode agir. Pensar é unra tbrma de agir; portânto, se elc âge
é porque existc. Màs a estrutura da anátise que Sânto Agostinho lãz ó
muito difcrente, porque não é umâ análise lógica. mas sim uma análile
existencial: o "eu" a que cle se refcre...
À análisc que
Santo Agosiinho Iaz nâo é baseada num ,,eu pcn-
sante" sepa.ado do eu existenciâI, mâs cxatamente um retrospecio alo
próprio eu cxistencial quc assumc responsabilidaale pelo fato de saber

Alguns aqui dcvem tcr acompanhàdo um.l exiensâ análise que fiz
accrca de lfcscartes. mostrando que, quando ele alirma que a consciência
que o eu pen§ên1e tem de si mesmo ó a primeira dâs ce ezâs.
ele está
rcdordâmenle cnSanado, pois não examinou com suficicnte âtenaáo o
processo interiorem que embarcou pêÉ poder chegar â estaconclusão.
Em primeiro lugar, para que o eu pensante pudesse chegar auma conclu-
sáo â rcspeito de suâ própriâ exisiência baseado no fato de quc pensâ,
ele precisâria ter permanecido o rncsmo ao longo de lodo esse erame.
Portanto, a continuidâde do cu no tempo já cstáprcssupostâ no erame
que, DcscaÍtes fez. e elc náo pcrcebe isso em ncn huDr nromento. pensa
qu€ quando descobre a certcza do cu pensante, esta setá ofundamento
detudo. Náo percebe que ela iá estábaseadanunu ceÍezaânte otque

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da continuidadc do e no tempo.
Assirn, escavando, escavando, encontrei oito certezas prcliminares
(luc já eslâvam pressupostas no raciocínio que Descartes fez. E por que
clc câi neste engano? É porque o e alo qual ele estáfalando náo é o eu
11irl \unrdnu.<oeu nlo\olico. eo,ucognilr\uàocnar. EuPr, naoc..r'
eu do qual você fala todos os diâs. mas o que examina filosoficamente,
() eu considerâdo como sujeito do ptocesso de conhccimento apenâs.
Ilntão, todo o exâme que Descates faz, por elegantc que sejâ, êcaba
tcndLr uma série dc rombos iustamente por causa disto: porque o "eu
lilosófico" náo coincide enâtanente com o "elr cxistcncial", mas carega
consigoumasé edecertezasquees1áonocuexistencial.Quandopensa
que ele, o ego filosófico, está lundamentando, dando os princípios dâ
cedeza do cu cxistenciâ], é o contrátioi ele estáfundado, está assentado
nu a.cri. d( ríne/r{ que lazem pafl edn cu c\isr(ncidl. L e\xtdmenle
csse o efio que Santo Agostinho, quase mil e duzentos anos antcs dc
Descartes. nâo comete.

lÂluno: Ess€ "eu existenciaL" teia ufia afialaeia com a instinto


ufii?ercal?l
Nâol Esse "eu exislencial" é esse quc você usâ todos os diâs: "eu fiz
istu", "eu fiz aqüilo". Quem cstá sentado aí âgora?

lAluno:Er.l
Entáo, é esse mesmo. Náo ó o "eu filosófico", é o "eu existenciâI",
âquele cuia história você contâ.
Ora, o eu do quâl fala Santo Agostinho náo é o eu abstralo, o eu
filosófico. É o eu que conta a sua históriâ. Por que ele íaz isso? Porquc
tem o hábito da confissà(]:é o eu qüe contaos seus pecados. Enl ncnhüm
momento esse eu pode ser considerado apenas o sujeito do prccesso
cognitivo,porqueeletambôm jáésujeitodâssuasações.éoresponsável
noral por suas aqóes. etc. EntAo, quando Santo Agostinho diz que a
primeira e arais fundâmcntal das ccrtczas é a certezâ que a alma tem
de sua própria cxisiência, ele nào está ialando de um eu hipoiético, elc
csiá lãlando do e, real.
No meu entender, essa análisc tcm um alcance imensâmente maior
que a de Dcscârtcs. Por quê? Descartes, quando chega à conclusão dc
quc a únicacoisâ certà éâ certezâ que o eu cognosccntc, ocu pcnsânte,
tern de si mesmo enquanto sujeito do ato dc pcnsar; quando ele diz
isso cria'se um problcma que é o seguinle: como é que desta ccrtcza.
quc é puramente subjetiva, se vâi coÍseguit tirar outras ocrtczas que
sejâm âpiicáveis âo conhecinenio do mundo cxtcrior, âo mundo dâs
cjências, etc.? Sc clc eÍá buscando um lundamento para as ciências.
e o único fundâmento que encontra é puramente subjctivo, náo existe
salto possivel desse subjeiivo para o objetivo.
(...isso está naqüela âpostila. DesLaftes e a psicologia rla dú ida, qre
está na. mil],ha homepaEe. SugiÍo que leiam, porque náo acho possível
cntcndü Santo Agostinho, exceto e comparaÇáo. Sânto Âgostinho é
muito ântigo- escÍeve Dum estilo muito rcbuscâdo para o nosso padráo
aiual, e uma boa nrâneirâ de enlendê lo é compârar o quc cle está fa
zcndo com o que Descartes [ez.)
,Acontece que flescades, primeiro, se l'echa num solipsismo ("eu
consigo mcsmo, falando apcnas consigo mesmo e náoreconheccndo mâis
nada", quer dizer,:r total solidáo) e, em seguida, dcntro desse solipsismo,
encontrâ uma base de certeza: tudo podc ser duüdoso, mas tem uma
coisa qüe náo ó; ou scja, o eu, enquantlr pensa, ele eriste. Muito bem.
vocô cncontrou â primeiÍa e mais flrndamcntal das certezas. Inas daí,
como é que làz para extrair desta alguma certeza em relaçáo à tísica. à
âslronomia, à moral, ctc.? Náo iem saída para o mundo cÍtcrior!
Eleteriâ que licar Iechado nestasuaccl1eza subjetivâ edizer:"Olha,
â única certeza que existe é dc ordcm subjetiva, e o rcstante dos conhc-

l0
rirnortos continua iâo inceúo quanto no momento em que e1r comecei
(,slLr nnálise". lsso é o que ele tedâ que lãzer Para cscapâr disso, o que

clc lãz! Apcla à noção de Deus. Enlào diz: "Existe unl Dcus bom. Foi
l)cus quc botou o mundo na minha üente, que n1e mostrâ o mundo as-
sim como é, e Deus náo iâ me enganar. náo ia fazer uma mâldade dessa
c{)Irigo, me enchendo a cabeça de engano. Então, portanto, â gamntia
Llo conhccimento é Deus".Isso qlrer dizer que ele enoontra um padrão,
unr critório dc ccrtcza, que é o eu, mas em seguida eie tem que apelâr
um ouiro objeto de certeza, que é Deus.
l- qual era a ,igdqro do cgú rum Dcusl N(nhurnà. f apcnas a lc quc
clc tem. Isso qüer djzer que o padráo de certeza que Descârtes encon-
trâ em última anáiisc ó. por um lâdo, a certeza subjeliva do ego e, por
outro, â ceftezaobjetivâ sustentada na fó. Isto "saídadeleâo, chegada
é

dc cáo". Ele tentou relundamentâr tudo pa indo dc bascs puramcntc


Íâcionâis e, na hora H, náo encontrou certeza râcionâl âlguma, exceto
uma puramentc subjctiva. c pâra saltar dela para cedezas objetivas,
teve que âpelâr parâ â 1é em Deus. Ora, e a ligâçâo do cu com Deus e
de Deus com o mundo extedor é uma ligaçáo purament€ mecânica c
puramcntc lógico-dcdutiva, náo ó uma ligaÇáo orgânica! Ele náo pega
dcntro a existência dc Dcus. nâol Tcm um ea
csse er.r e deduz dâli de
aqui; ele puxâ um Deus de lbra pâra somâr corn o 2u e obter da Í)ma
dos dois a ccÍcza do mundo c{erior.
Nadà disso está em Agostinho. Agostinho primciro chcga a uma
conclusáo parecida com Descaries. Éle diz: "Bom, se eu conheço, se
cu cstou dizcndo isso para mim nresmo, então evidentemenle eu exislo
enquanto esioLr fa.lândo isso, dizendo essâs ooisâs. Porém, ao mcsmo
tcmpo em que eu tenho certeza da minha púpda exisiência, sei que
náo sou lundamento de mim mcsmo. Sci quc, por baixo de mim, exisle
algo que sustenla minha exisiência. Sei que nâo sou causa de mim
mesmo, porquc conbeço os mcus âto§, conheço a minha vida, tenho a

ll
minha história, c posso asscgurar que não lembro de ter me criado a
mim meirnu. NJo lui eu que me pu. nâ r\isrinL ia. ncm suu (u quí me

Isto qucl dizclquc, cnlAgostinho, â própriaafirmação da cedezaque


o eü tem de si m esmo já tràz dento a âfimraçâo de âlgo que o transcende.
A relação entre o eü e Deus, em Santo Agostinho, náo é exlerna como
eDr Descartes. Nâo é extcrna c mccânica, é orgânicâ. Deus ó cxigido
pela próp cono seu
à consistência do eu. O eu trâz Deus dcntro dc si
fundâmento. Não tenho em mim a explicaçáo de mim mesmo. Ele dizi
"Sei que existo. rnas náo sei por que existo. Entáo, considcrado isolâ-
damente, eu náo ienho fundamento algum. E se nâo tenho Íundamento,
não posso existir. Náoobstânte, eü existo. Entáo carregode certo modo
dentro dc mim algo que desconheço e quc mc sustcnta na cxistôncia.
Trago dentro de mim â sustentàÇão ontológicâ do meu modo de ser E
isio é o qüê? É exâtâmente Deus". Por que ele pode fazer isso? Porque,
emnenhum momento, ele isola o eu cognosccntc do cu rcal. Oex â quc
se relere é o mesno e que conlêssâ os seus pecados.
Agoslinho náo faz, enláo, apenas umaanálise cognitiva do eü, nas
uma análise existenciâl; ele conta â sua história, quer sabcr qulrm é cle.
Oü. o eu de Descârtes é un1 eu isolado que só existe num momenlo
aiomís1ico do lempo é aquele momento em que você diz: "Penso,
logo cxisto". o eu de Santo Agostinho, náo. É o cu que tcm a história.
E daí o sentido dâs Cor/rssars.'As cbrrssôes sáo uma sondâgen em
prolundidade dessa râiz ontológica do eu que esiá lá pâra irás, que é
anterior à sua cxistôncia. Elc sentc que tem que remontaraté o comcço
dâ exisiência, porque, rcmontàndo no tempo até a primeira iniânciâ,
vai chegar o mais perto possível disto que o suslenta. E âi é que ele vai
vcr quc, por si mcsmo, considerado como puro eu, náo tem nênhuma

Nessa sondagem, Sanio Àgosiinho se delionta com o problema da


.q\ruqLo, t\,,o.,oarr.d,. tê \o/, 200t.
'opo
12
iirrcridâdc. Quer dizer, vocô iem quc contâr sua história tal como cla
r'rlncnie âcontcccu. Orâ, â sincefdade implica a aceitaçáo da conti-
I i(lâdc do cu no tempo, justamente aquclc ponto que Descartes passou

tn)rrimâe nempercebeu. EmDcscartes, a continüjdade do eu no tempo


(,st.i inrplicitamcntc dfnnâdà sem que ele perccbâ. Ou seja, para lazer
Lrsta sua análise é preciso qüe o eu continue no tempo, n1as ele náo diz

isso, nem percebe isso. Está acrcditando que a certeza que o cu tcm de
si ó o tundâmento. Náo, o tundamento já está dado antcdormente, é a
continuidade no tempo. A certeza que o eu tem de si mesmo é apcnas
unra conclusáo que ele tira dcssa continuidade, e ela é ncccssáriê parâ
llue ele chegue a cssa conclusáo.
orâ, em Santo Agostinho a consciênciâ que o eu tenl de si mesmo
sc identifica com o fato dc clc assumir responsabilidade por suâ con-
linuidade no tempo; portanto, a Ésponsabilidadc por sua história, â
rcsponsâbilidade por seus atos. Náo existe um "eu atomí§tico" solto
Io rcmpu: \o e\ isle essc cu rcmpural. hind'i(o. que a o mcsrnu quc ru
já erâ quando pequcnino.
É como se Descaúes lalasse de um eü vazio. o ?tl de Descades é

apenâs umoonceiio lógico deeu. Mâs o€ de que fala Santo Àgostinho


é o eu considerado em cheio, éoeü dohomem quc realmente exisle, é o
eu do próprio Àgostinho. Náo é o eu filosófico, nâo é o e lranscendental,
náo é nenhuÍn corceito. É o cu hista)rico reâI, esse mesmo que diz: '1{h.
eu fui ali na esquina", "eu casei", "eu estoü devendo dinheiro". e âssim
por diantc. Isso quer dizer que ele perccbe que só existe possibilidade
dc você tomar posse da consciôncia de existência do eu, se toma posse
dâ consciência que o eu lem de tudo o mais quc ele fez; entáo, da sua
vida intcira. Com isso. ele realmente descobre um continente Íilosófico
que era totalmente estranho àAntiguidade. Ninguém falava dc sr.
Santo Agostinho é. de certo modo, o último dos filósofos antigos,
greco-romanos, mâs sob outro aspccto- É o mâis modemo dos filósofos,

l3
porque é o pÍimeiro que mostrâ que csia capacidadc quc tcmos dc nos
rcconhcco como sujcitos de nossos atos, e náo só dos atos cognitivos,
é â base de toda ceftezâ que possamos tcr Náo é a base objeiiva da
cedeza, mas a base subjeliva usando âquelâ lãmosa distinçáo dc
Aristóietes entre o que é o mais certo ou o mais verdadeiro em si, oü o
que é o mais certo e o mais verdadeiro parâ nós. A ordcm da hicrarquia
objctiva das certezâs náo é a ordem subjetivâ, ou seja, náo é a ordem
cronológica da minha aquisição das ccÍczâs.

l,\\tÍto: O senhat disse que Santo Agoslinho Íoi a prifieira pessoa


.t A
Íi\uidade a lalar en et\ que não se íaLaaa em cu na AnÍigui-
tude...l
Náo. Náo ó que náo sc falava. Não se chegava a darüma importância
lilosófica para isto.

[,Aluno: Bem, pois é, mas a ÍilosoÍia grcEa nàa lalaz,a da oLma


indiüidual?l
Mas nunca no sentido biogÍáfico, E nunca pensou em fazer dela o
fundâmento dâ ceftezâ. Toda a filosofia grega parte da idéia de que existe
üm Cosmos objetivo ordenado e que estâmos denlro dele.

ÍAJ]]ro: E afia alfia i diüidual é collsidercda como?l


Como ulna paÍte do todo. Como Lrma expÍessáo do todo. (...) . Erâ a
alma vivente rcal. Mas cla nuncafoi colocada no centro da especulaÇáo
filosóllca; era apenas um detalhe. Veja o que Àristóteles, por cxemplo,
dcnomina "psicologia" no esludo De Anina. sua psicologia começa
con o estudo da biologia, dafisiologia, e aívai chcgar na alma. A âlma
humânâ, pêra ele, era apenas um lenômeno dentro de uma multidão
dc outros fenômenos. Por quê? Porque ele coloca ênfase na estrutura
objetivâ dâ reâlidade, e dentro dessa estutura, evidentcmentc, a alma

l4
hIIrrâ ocupa um lugâr importante, mas modesto.
lri cnr Santo Agostinho náo tcrn mais esta... Você náo pode esquecer
rt ( sanlÍ) Agostinho vive numa era de caos, estava tudo desabando;
(,rllio náo há mais estâ ordem. A idéia do Cosmos como totalidade or-
mdâ aparcciâ para os filósofos grego! refletida nê ordem cívicâ, na
(l(

ordcrn civil dâ polis; entào â percepçáo da ordem era, dc ccrio modo,


iIr. Ji rd , d(nlro deb havia de.ordcn. parciai..

lAllln0 Seú que eles Íi ham tensão sociológica ai da?l


Ccrtâmenlel O cenário no qual você vive, ó dele que você extrai os
pÍ)blemas eú que vâi pensar

lAluno: Mas chega a s cutiosa e até íLóEica, polque toda aez que
a Ee te esluda llistóia da hte, Hístóia do pefisafiefito ocidentaL,
senprc ouüe ÍaLar, pelo me os praticamente, que a Antíguídade tetia
sidô ufi período em que se coLacaria o home (...) como ser liberto,
e daí üai se (...).1
Mais ou mcnos. Esses sáo estereótipos que selvemparavocê câ m-
bâr certâs épocas. Mas esses cstcreótipos só tên funçáo mnemônica,
é só paÍa você recordar Na verdâde, nada é assim. Mas nada, nada é

ÍAluro-. Isso se não ocofieu o conlúrio-l


Naverdadc, a própria divisáo qlrelemos dc Aniiguidade, Idâde Mé
dia, Tcmpo Modemo é um problcna lávou Ínostrar o porquê. Daqui a
pouco vamos chcgar nisso. Mâs nunca acÍedite, não existc (...).
Vocês lembram que começamos falando da ordem dâ polis, etc. e
terminamos com Diórgenes qucrcndo imitâr um rato que corÍe a esmo
nc, meio do dcseÍD. Isso tudo é Antiguidade. Você diz: Que homem
antigo? Você está tàlando de quê? Está fâlando, por exemplo, de Sófo'

15
cles? Sótocles, quando escrevia uma peça, colocava a regra da ordem
cósmica tal con1o se refletia na ordem dapolis. Era isso que e1e lazia.
Mas, e Diórgenes, ele náo em dâ Àntiguidade também?
E se vocêvâidizer que "no tempo dc Platáo", por exemplo, no tem-
po de Platâo estâ ordem da polis iá náo era a mesma de antigamentc,
iá cra problemáiica. Mas a desordem da polis náo íoi suficiente para
que Platáo ou Aristóteles chegassem a duúdar da ordem cósmica. Ao
contÍário, a ordem cósmica continuou existindo para cles. Podiâ hâvêr
lá três ou quairo gregos para os quâis nâo existisse ordem cósmica
âlgurÍa, como, por exemplo. Epicuro- Epicuro é üm contcmporâneo de
Aristótelcs. Como é que ele via o mundo? Como um aglomerado. um
amontoâdo deátomos quevoavam aesmo sem nenhunâ ordcm extema
e levados apenas por seu instinio, por seu desejo, o que ele chamava
a sua "inclinaçáo", cliráme,r. quer dize! lrescura, no fim das contas:
'Ah, vou para aqueles lados. Por quô? Porque me deu na câbeça. Vou
pàrâ cá, vou Para lá...".
Mesmo a idéia da orden cósmica, náo é o "homem antigo" que
acreditâva. Algu n s homens ânligos acÍeditavam nisso, e outros viam de
n1âneiracompletanenle diferente. O que podemos dizer é que. na época,
os mais inteligentes, os mais poderosos intelcctualmente acreditavam
na ordem cósmica, e que uns tjpos esquisitos náo acreditavam. Mas
pode haver outras épocas em quc os tipos mais talcntosos náo vejâm
oÍdem algunâ; pode acontccer isso laÍnbém. Mas nada desse negôcio
dc acredilâr.
O "homem antigo", o "homem medieval", isso tudo sáotiposideâis.
Tipo idcal éumpersonagcm quevocêinventa para seNirde unidadede
medidâ para depois você comparar com a realidade. Mas você tem que
sâber que foi você que inventou. O problema é que, sc a gente inventa
um tipo ideâI, acaba tomando-o por real. Então acredita quc cÍstiu
um "homem antigo", um "homem medieval", e que ele pensava assim,
rrsiIr.. lsto úcomo aquclas bobagens comoaMârilenâChauíescreve:
"'litrkrs (,s grogos acreditâvam no eterno rctornor'. Mas que estupidez é
|s!rl I)Í)dia lcr um ou dois que acreditavâm, mâs, ccrtamcnte. primeiro,
r s.rlxn-a não fcz o recenseamento; segundo, eu encontro vários pcn-
srrrcnlo§ lá que não conferem com isso.
histódaé sempre mâis coüplicâdâ do quc a gcnte imagina. Quando
^ conta â nossa história: a gente gosta de contá-]a com todos
r ge|tc os
,hr,rllr,*r,omrndasã.conrÍadicoes pârd quc ir pes,ud\ niú noç \,,n-
lirndâ . I quando â gente olha â história dos ouiros, sempre simp]ilica
r csqucmatiza. que é para poder fald mâl do sujeito mâis facilmente
lslo violâ o2, mandamento: vamos conceder aos outros â mesmâ análisc
vagarosa e cuidadosa que conccdcmos a nós mesmos. Pessoas capâzes
(lc passar aÍos num divá de psicânàlista contando todâs âs confusiles
d.lsua mente, olham o outro e simpiificânl, botarn um carimbo. Mas
sc o outro é ião simples assim, por que você há de ser táo complicado?
Acho que ele é iáo complicâdo quanto você.
Vcmos aí que, em pleno período ântigo, sc bcm quc já no final do
Impório Romano, tem um süjeito que coloca a âlma humana no ccntro
dà cogiiaçAo filosófica. Por quê? Porquc nada mais é certo. Certo. pârâ
clc: "Bom, a fé cÍislá é certâ". Mâs o problema nâo ó esse, o prcblema
ó: como é que nós chegamos lá? Â cefiezâ objetiva da fó náo resolve o
problemâ dâ cefteza subjetiva- Vocô pode saber que uma coisa é certa,
c continua duvidando, daí â necessidade da buscâ da certeza subjetivâ.
() que Agostinho faz? Tenta reorganizar o conjuntodos conhecimentos
elll vista da ordem internada sua púpda âlma. E o que é isto? É a busca
Ja unidadc do cunheL im(nro na unidadc da (onsciência e vice v(rrd.
Ou seja. isto é Filosolia no sentido mais puro, é exatamente o projeto
socrático, só que feito num ouiro contexto, â pârtir dc outros dados.
Onde quer que você veia filosofia de fato, é islo que você vê: um
sujeito que lenta ou reorganizar sua alma à luz da ordem dos conhe-

1i
cjmentos ou vice-vcrsa; c que, de ce o modo, constrói â ordem do
conhecimcnto à medid:r que constról a si mesmo; e [ãz as duas coisas
náo invcntandLr. mâs descobrindo.

l{luna: Aí o coficeito de fé se confunde cofi ce eza?l


\ao, a rr c .u um du\ elemcnrôs dr'rc nrgi(io.

ÍAlúna: Ah, é uma das cetteztls.)


Claro. A fé é um dado. Não foi vo.ê que a inveniou, elâ tambómveio
dclorâ. O problema d.. sua almâ, com 1é ou sem lé, continua cxatâmerte
o n1esmo. Unra coisa é você âcredilat em algo que 1cn1 a âutoridade
de Deus ali - c você crê que iem a autoridade de Deus , olrtra coisa
é acreditâr porque tem as condiçôes de cerieza daquilo. Não dá pàrâ
confundjr unra coisa corn ouirâ. Esse é o dhplo sentido da palavra ié
quc eu já cxpliquei: a fó como àdmissÀo de crcdibilidade e â lé como
motivo da credibilidâde Sáo duas coisas conpletêúenie diferentcs. Você
acrcdita nisto âqlri poÍque ó a pâlâvra dc Deus. E por quc acredita que
ó a pâlavra de Deusl Tcm que ter uln motivo.

ÍAl].]na: A cerleza islencial, não é?


li m qu( lcr u rc oulía ccaczã. Por i\cmplu. p.rm:r pÍrmcira gcra. áu
de cÍistãos, a prescnça de Jesus Crisio ela um motivo suficienle. Vocé
vê que o homcnl sabe o que ninguén sabc. 1ãz o que ninguénr iaz, curâ
os lcprosos, 1ãz o pârâlitico andâr. dá visáo aos regos, elc. Bom, isto ó
um mori\ ú pàrx \ ocê acrcdilar n, lc. Uu niu r" I un, borrr I roli\ u. Náú
éuma certezâ filosófica, mas é um motivo empírico parâ você acrediiar
nele Porquc você tem este motilo, então âcrcdita no restênte do que
clc falou.
A lé se prc ó assinl: tcnr que ter um moiivo. A Ié nâo pode set um
negócio gratuito. Scvocê àcredilâ porque é a pâlavra dc Deus, reslâ saber

ls
.! t. ,r t,irlrvra dc Deus, senâo qualqucr um pode chegar e dizer "Nâo,
,rr,,ttDi r r t)âl vra de Deus '. lêm que tcl un motivo de credibilidade
,tI' rr(lLr/a vocô â acciiâr que aquilo é a pâlavra dc Dcus, entáo âcÍeditâ
r,' rr.sl,, por confiânça. Mas scmpre tem essas duas etapas. Basta dar
, :,rr crt)licnção paravocê ver que a fé não rcsolve o problema cognilivo.
l!, t)rinrciro, porque ela nAo trâz explicaÇõcs sobre todas as coisas,
11.

r,r§ s(l sobrc âlgumâs; segundo, porque e]â própria traz problernas

| Quando eLe díz "Íufidafiento tla ceÍteza" , esíá incluittdo


^lrrna:
tt l(;lotnbén, clarc. Una dessas duas concepções de té. Quando rccê
lt,:. uliás. "Fütltlanento àas {:ettezas": um Íu dafienío subíetiLo
lls t?,ttezds que el.e eslaoa buscandL'. )

Ú. a fé ó só üm dos elenentos nos quaisvocô vai ter cedeza. Vânos


sI|or quc vocô icnha enconlÍâdo o lundamento cognitivo absoluto dâ
reilczâ. Aindâ assim. aquilo quc ô matéria de lé iranscenderá o quc
v()cô pode verilicâr com esse critério dc ccrteza. HaveÍá um elemento
dr confiabilidâde a mais. Por exemplo, se Dcus diz que vai acontecer
l i clrisa assim. âssim, e acontccc dentro, por exemplo, da realizaçáo
dr profecia, eniáo vocé tenl um moiivo de credibilidade. Màs, e o que
lilc diz do Iuízo Final? Bom, a outra profccia eu acredito porque deu
ccrto. Moisés dissc quc ia fâzer assi , âssim, e lez; então tudo bem.
lcsus disse que ia ressuscitâr Lázaro e ressuscitou; entào âí eu acrcdito.
l)r)r quê? Porque aconteceu. E o Juízo Iinâl? Eu só posso âcreditar Por
quô? Porque ele me disse a verdade em tais ou quais circünstâncias,
cntAo suponho que náo cstcja mentindo âgora! Aceito â prol'ccia pela
c{)nnabilidade da lbnte. Mas, pcrgurto, qual é â fc,nte mesmo? Para
sabcr qüal é â Ionte, você precisâ ter âlgum indÍcio.
A 1é não respondc ao probleina cognitivu; ao contrário, coloca um
prcblena cognitivo. Quândo aparccer u sujeitlr dizerdo:"Ten pcssoas
qlre. .". Tcm pcssoas que conhecem mâl a religiáo! ou que a conhcccm
simplesmente desde fora. AcÍeditam nisso, quc a 1é vai dar um âlÍvio
uu prubl(rnu rugniliro \4as ic)o \o para qurm nun(r \iu. porque. ao
coniÍário. â fé coloca problemas cognitivos enormemenie cabeludos,
mais do que tinha antes ! S e você já tinha problcmas cognitivos com um
mundo existenle qüe está ai. agora aparccc um suieitolãlando do Juízo
l'inal, mostrândo o quc vai acontecer no fim. Se isso náo é problema,
entâo náo sci o quc é ptoblemal
alilosofia islâmica. ioda cla ó uma discussáo do Coráo.
Se você pegâI

Se o dogma resolvessc os problcnlas, náo te â que ler tanta filosofia


nem tanta discussáo. À) contrário, cria probleúas novos, amplia o
raio de experiência cognitivâ do ser humano c, portanto, colocà mais
problemâs. Essa é a coisâ mais óbvia do mundol Somente uma alma
ingênua pode acreditar quc csse ncgócio de invesligal a verdade é só
"pârâ nós que somos materialistâs, porque, para aqueles outros, clcs
têm a fé, repuusân na fé e náo pÍecisam pcnsar mais". Ah, que sanla
ilusãol É incrível que o próprio Max wcber nas lãmosas corÍêrências
'A ciência como vocaÇâo",r caia nessa por minutos. Ele, que passou o
rcsto da vidâ estudando religióes, cai nessa. Acrcdita quc as pessoâs
enconlram âbigo na lé... Fogem do sofdmento cognitivo, da lutâ pelo
conhecinento, buscando um abrigo nas antigas lés. Ele nào sabe o que
tem lá dcntro.
Na Escolásticavocê vê: sáo mil ânos de discussóes cabeludhsimas.
Isto âqui nâo resolveu problema algum, colocou mais um problema- E
islo supondo üma fé que seia efetival Mas a fé contém unl elenenlo
p.oblemático cm si mesmâ: nâo é possível se ter fé de uma vez para
scrnpre. Como dizem, aíévem evai. Por quê? Porque ela é uma atitudc
subjetiva. Vocé pode segurar a fé como "2 + 2 = 4"? Nâo! Você üo vê
nas histórias dos santos cies pedindo parâ Deus d
mais 1é? Por que
estão pedindo sc já a tôm? Porque só quem náo ten1 â menor idéia do
r Universidâdode lruniquc, 1913. Irn po'1uguôsr axWÉBÊil,'A ciênciaconro

20
i:
\ac4i.i . Ciên.tu e PoLítica ,ras d.aca.s São Paúlo Culirix, I 936.
,lrl,, ( r [r rcli,]iosâ é que imaginâ que e]â é um negócio que bâixou sobre
v,! r c rciLlnrou tudo. Ao coÍ{rário, criou um problcma. Sáo problcmas
i (llrvi(lls que o suieito que cstá fora dcssc âmbito rcligioso náo pode
rrr llr ir)âginar É chro que os que imaginâm â 1é como um repouso,
,-{., r(.r urr.r\iüo irleali/dda. lipoWall Diinoy. da rc Lpro\inciano.

Vcjâ, sc Santo Agostinho já tinha conhecimento dâ filosoüa antiga


,.ir'r,la lrnr nruis 1 l; criila... \4â.. enrâo. para rgciocinar coÍno e55es
, iIrüradas. ele entáo já resolvcu todos os problemas? Erajustamente âo
rortrário: aí é que tinha um problema mâior Ele buscâ rovanenle tal
ronro Platáo eAristóteles. Sócrates urn fundamenio indestrutíveldo
(r)rhecimento. Busca â certezâ incgávcl. Só que essa ceftezâ inegável
( soncntc o começo dc urna sondagem. Vê que a.tlma não pode negâr
sua própria existência, mas que, âo mesno tempo, ele náo pode afiÍmar
cs tà exislênciâ em simesma. Percebe que ó uma cxistência condicionada,
!nÉ cxistôncia relativa, uma enistência que náo tem lundanento em si
nresma. Mas, por ouiro lado, ele náo poderia dizeÍ que o íundamento
que â alma iem é iotalmente externo a ela. porque, sc fossc um funda-
nrcnto cxtcrno, ela ianHis se questionâria sobre esse lundamenlo. Se
â âlma se questiona sobre esse fundamento. é porque ele lhe faz falta.
Umâ pedra nao se questiona sobre os fundamentos de si mesma. Esse
furndâmcnto cstá parâ âlém da alna, nas, de cefto modo, está dentro
dclâ. é um seu componente. Â consciênciade sua exislência incertafaz
parte dâ própria almê, "Eu seique eu existo, mas náo seipor que existo":
este saber fâz pârie da constituiçáo dâ própria alma. Sâbcr que é uma
cxistência contingente, saber que você náo é nem causâ de si meslno,
sâber que süâ existência não é uma necess idade absoluta. saber que vocô
poderia náo existir, como, aliás, você podc morcr daqui a pouco, sair
da existência, isso 1ãz paÍe dâ constituiçáo dâ púpria alma.
Vejâ â que léguas de distância estamos daqüela análise puIarnente

z1
mccânica, daqucla purâ iustâposição de talores queDescartes fará.Isso
queÍdizerque, enire Santo AgostinhoeRcné Dcscartes. existe urn recuo
lbrmidável! Descartcs náo alcanaa o grau dc complexidade dâ análise
qüe Sâirto Agostinho faz. Sânto Ágostinho está lêlando de urra alma
rcal quc se confronta realmente corn as suas inccrtczas c que teln que
darconia de suapÍópria exisiênciâ. Dcscartcs náo, cle isolà iudo isso e
1ãz uma merâ ânálise dc conccitos. E, pior, âcrediitl que está coniândo
ümâ história rcal. Acrcdita qre sras lÍeditações melalisícl7sr sáo uma
auiobiogrâÍia interio( quêndo náo sáo, rnas âpcnâs uma descriçáo de
üm raciocínjo esquemáiico. Isso ó o mcsmo que dizer: llescaÍtes não
Li.ha consciêrc ia do quc sc pâssava na sua almâ: ele se conheciâ muito
mâI, c tinha uma visáo de si nruito mecânicâ c csqucmática; deixou es
cap o personagem vivo qüelinha dcntrodc si. Compdrâdo com Sanio
é unra perda absolüiamcntc lbrmidável.
^gosljnho,
Agô,trnhn. pnrr\cmplu prr((br(l"r.rmcnrr auc quur
".onscicr.ia
âlma ten de si é problenraiizada, pelo làto dc qrc cxistem nela coisas que
c[â1t2, quc recorda e que náo qücr rccordar Ele sabeque a consciência
que a âlma te dc si nunca é tdalmente iranslúcida, como Dcscârtes
pretcndc que scjâ a consciênciê do eu pensantc. Pcrccbe, por exemplo,
que cm suas memórias, em suâs rccordaçócs, cxistem partes que são
hunilhanles e que ele prcl'cririâ náo ver e sáo jllsta ente essas quc
Tcn alguns c.pílulos das ab,?/issóes cnl que ele conla
ele vai invcstigar.
os pcnsâmcntos nlalignos que tinhâ iá no bcrcinho. Ele diz: "I'lu. corno
cdânçâ de berço, já es1âva tramândo âlgunla, cu me lembro disso".
Como J,od€ríâmos isolâr a autoconsciência !la âlina dcssas cxpcriên
cia' qu( .á,r u prúfriu r(. i.lo dr r tdr da a ln ra. qu( .áu ài iuJr ,(oe.. a
sua exisiência no tempo? Isso quü djzcr que a alnrà dâ qüal lala Santo
Agosijnho é a alma biográfica, a almâ que existe no tempo, a alma real.
Isso já é umâ idéiâ que, diríanros, é escandalosamcnte moderna, tânto
que levará séculos parâ ererceralgun cfcito. Àcho que aquiio pâirou cm
r. Dt \. qR r\ , - ." ,-.,.,- .,
'. li]ntrs.2000
Níânins "
72
, r,rr frhcÇa rlos ouvintes, que nem entendiarn direito a inportância
(LrL

, ,, tIc
, (sl.rvân lendo. I_loje, sahemos que isso é básico. Hoje, sabcmos
,11 L irtuelc quc não iem consciência de si. de sua posição cxistencidl

,rirL llrnbam náo ierá umâ visáo real dc' nundo objctivo. Hoje, pârê
ri's. islo ú bâstante claro. se beür quc licqúentenrente se pedc. c no
, r'o Lrxdcrno se perdeu müitas veze§.
( (rn cía descoberta, Agostinho é levado a uma outrâ descoberla
.LirÍkr pioÍ: que o mundo reâl tem náo apenas umâ ordem estática, corrro
rL (lesrrcviâm os gregos. Ínas uma oonstituiçáo iempoÍal histórica. Por
r llc clc dcscobriu isso? É claro, porque se descobriü quc a estruturâ de
\ur rlma é a estrutura de uma hisiória, de uÍrâ narrativâ, de unr dramâ
(l! .ruioconstituiçáo no lempo; cntáo nadâ mais naluÍal qüc clc olhasse
1) nrundo irteiro sob a catcgoria do tempo e da hisiória. Náo que isso
riao tivesse toialmcntc prccedentes, pois no mundo iudâico já se linhâ:
. a visão quc os judeus linhâm dâ hisiória. que sevê na Bíblia. A visáo
,tu, ,,' jrd(us rênr dá ,calrdadc c dí urnd hi.rorid I ã nisluria dú,tui:
lr..urn ür"nra .n qucd' un drr-nr coleli\o L,, J_àmà du Lliilopo
rnLre um povo e seu Deus: Deus mânda lãzer certas coisas, o povo
n:io 1ã2. clâí as coisas comcçam a dar enâdo, ele náo lcmbm por que.
(laí lem que reexaminar tudo, lem que voliar atrás, reconeqàr iudo .

Náo é assim?
vê exatamcntc a mesllla coisâ dentÍo dâ almâ do indiví
^gostinho
duo e deniro da história, hislória não de u povo, mas dâhumanidade.
Claro quc sua visáo de "humanidadc' é circunscrila ao universo dc
dâdos que ele linha. âbrangcndo, portanto. iudelrs,Impório Romano, â
novê situaÇáo âli; cxclui povos ilteiros, qrc clc nem sabia que e\isiiâirr.
Entâo. como visáo da Hislória Univcrsal, ela só vale simbolicamcnic,
porque não é u nra H istóriâ Universal subslân ciadâ por dados universais.
É uma história pârcial que pr€iende scr univcrsal no simbolismo do
scu conteúdo. E esse contcúdo a a da perene disputa cntrc os làtores

23
(l( ol1lc'r cspirilu.rl,
os lãiorcs interiores dà constituiçáo humana e â
consiiiuiçao cxicrnâ dâ sociedade. É o quc Agostinho chârna ,A cidade
dos lurrrrcns", quemais tarde se traduzirá mateiiâl en !e cono â disputa
t rlr, ,, f\lrJu
J lgrL i.. ou Cri\lo e Ce.àr. rnmo qucrrdm.
H

Vcjâ quc lodas as aiividades humanas, todas elas inplicam ünr jogo
dcsses dois lãtorcsr a inspiraçao interna, aquilo que ven1 do espírito,
qrc cria reàlmenie as situaçÕes, e depois â sua cstruturação material
cnl tÍrrro. Cada êtividade humanâ tem esses dois lados, um lado que
é cÍiâdor e outro quc ó entrópico. Ele se cstrutura a pariir dâquilo quc
veio da inspirâçào. mas, em seguida, sulbca o qüe veio do elpirito.
Agostinho sinbolizâ isso como â "cidade de ileus ' c a "cidade dos ho
nen!". No fundo, ó a mesnla cidâde. Matcriâlmenle làlando, é â mesma,
mas é con1o se fosscm dois planos dà rnesma reâlidade. Náo sâo duas
cidades jlrslâpostas, porque, se lc,ssem justapostas, seria âpenâs um
tipo idcal, e Agostinho náo está falando de um tipo idcal. Emborâ ele
esquematizc, cmbora esleja criândo um sínbolo, náo é um tipo ideall
eslá tàlando deumarcalidadeque de lãto acontcce. Talvez náo aconteçâ
cxâiamenle do jeito que elc a descrevell, mas bâsicâmcnte isto é uma
verdâde pcrmanente.
Agostinho cntla então nâ Llistória dâ Filosofia. [ntra, primeiro,
como o sujeilo que dcscohtc o lundamefiLo subjetiao da cetíeza. Ele à
dcscobre não só como tundamcnto cognitivo. n1as também conro fun-
dânento moral. A alma âdquire a ceÍcza de si mesrna, mas a adquirc
se assume a sua própria história, se assune o scu ârraiganento num
conjunto de condiçôes reais que implica um lundo quc a sustenia e
que é, por sua vez, ilvisível. É o quc podcriamos identiEcar até corn
o lamoso ápelro dc Anaximandro: eiste aquclc fundo desconhecido
desde o qual você emerge, que é o fundamento dâ sua cxistência e que
1ãz partc dcla também, pois, se â ahna se interrogâ sobre este fundo,
entáo essa intcflogação está dentro de]â, é urn constituinte dela.

z+
também enLra na História da Filosofia como o individuo
^!ostinho
,lU( rcâlr entedescobrc cxplicitàmeúeadime sáo histótica da rcalid4-
íir'. llssâ dimcnsáo já cstavâ implicâda, de algum modo, seja no Antigo
li stâmcnio, sc'ja na Revelaçáo Cristá, qüando Cristo prometc quc vai
(.f rl)()ra nras vai volt dcntro dc certo tcmpo. E hâverá uma consuma-
iiiro dos tcmpos - nâo se sabe quando, mâs haverá. PoÍtanto, estamos
(li rrtro de umâ dimensáo iemporal, nao de uma estrutura mcramcnte
cslática. Notebem, issonãoquerdizerqueos grcgos acrcditavamnuma
rsliülura cstática ou no etemo retorno, nenl que os cÍistãos acreditavam
rr dimcnsâo histórica. Simplesmenteos gregos náo seocuparam disso,
p()rqlrenãoerao assuntono momento. Ma§ é cvidcntc qucofato de un1
llklsoio náo tcr lãlado de alguma coisa náo qüer dizer que ele íegâsse a
cxistôncia; elesimplesmenteráosepreocupoü cornopÍoblema, porquc
)ráo csiava no repertódo das questÕes ali.
PâmAgostinho, a questáo hisiórica aparccc por dois lados: apaÍece
primciro por esta sua consciéncia do eu histórico. A consciência do
cu histórico surye do quê? Da mutaçáo que ele nresmo passa no meio
da vida. quando ele se converte ao cristianismo. Sua conversáo náo
lii como aquclas do Novo Testâmento: lesus âparecia paÍa o suieito e
instantâneâmente virâvà sua vida de cabeça para baixo; clc comcçava
outra vida e nao tinha nem tempo dc pcnsar na antigâ. Nâo lbi assim.
Àqueles pescadorcs quc resus Crisio colheu, ele inslantaneame.te os
modificou; e eles começam uma nova vida â pariir daquele instantc.
O processo da conversáo de Agostinho ó enormcmlrnic pmblemático,
se estende ao longo dc muitos ânos. com muitos conllitos interiores.
EIc tcm uma histí)ria. À subslância
e,l de Agostinho ó história.
desse
É somente a história da conversáo? Náo, a história dâ conversáo se
dá quando ele já eÍa homcm adulto, csiá vivendo isso como âdulto. À
conversâo implicava umâ tomada de consciência retroativa deloda a sua
vidâ anterio! poÍánto, aconsciência dos pecados: 'A minha conversâo
f,,fr(\'oll llor . iras 0s eus pecados comcçâram Iá para irásr'. Ele
r,slr vivur(lo unra história c oela lenr que iniegrar â narrativa dc uma
lrisl(r'ir rn(ori(n: que comcça no bercinho. E anies? Agostinho laiou:
'Arlcs do bcrcinho eu nio sei, mas, quc tcm algltma coisa âtrás, tem,
Itr,i rr ndo ,I.BiJ,,.,àda { ,rào I( lil Jí rnim nr

O ser hunrano emerge pârâ dcntro davida â padiIde um iundo que


lhc pcrmanccc desconhecido, n1âs que continuâ dcntro de si como un1
corrponenie problcmático. Entáo o honrem é aquele que sc pcrgunta
sobre o seu lundamento.lstojá estava dito nos gregos Plàtáo colocavâ
quc o homenr q0e não lem estâ inierrogaçáo sobrc o fundamenio dâ sua
existência era chamado amathes (mathes. cla biz "sàber"), o horncm
scm saber, sem sabedoia. Amathes pode set IÂdüzido como "homenr
csiúpido" (ou idiolâ, ou irnbecil).
(Quândo publiquei um li\lto chanàclo tmbeciLcoleriro, todo mundo
só pensou que cra insulio. Nàol0 concciio de "irnbecii" é um conceito
lil,,snhcnqucrc|ILrnrrrrdiriud. 2.40ui nn'. I m.ônceil,ipe,re ro..
Náo, nâo cstou brincandol ÉuÍrâ coisâ perlêitamente dclincada, quc teÍr
tlma im ens bibli.rgralia, quc vai dcsdc Platão aié o século )aX, quândo
çc rI I
c\ruJn\ \obr( ,5\1, llr u limurú L,tudn dc Rnhcfl Mu.;l Úáer
díe Dümmlrcit. Dunmheil é uma pâLavra âlé mais... âté pelo sonr sc vô.
Esse "dum" quer dizer que o sujeito ó um ncgócio lechado, sem nenhun

ificrcssc, ó maciço Dumrheii só pode scl "cstupidcz maciçâ". Esse


é uln livro dc trinta páginâs. âbsolutanenle maravilhoso, continuaçáo
Lle üma lradição.)
Então, quando um filósolo làla da imbecilidadc ou dâ cstupidcz, ele
sâbe do quc está lãtando. É um fenômeno gtavíssinlir da constituiçáo
humana que se ma lêsta por dcsintcrcssc pclo fundamenlo. O lunda
mento é aquilo quc cstá denlro de você e que Ihe transcenclc, ó a partc
nisleri.rsa, éoápeiror. o indefinido qüc cstáembaixo edeniro devocê,

Zt)
, | ,r)rL lrmbÚ . Quando você se lêcha para esle fundo, quândo náo
,1r,r rrrais sabcr dele. lechou-se só naquilo que constiiLri você mcsmo
L,rl rorro vocô cslá: lêchou-se no mcsmo. "Mesmo", en grcgo, ó ldios,

,1rrrrc vr)cô se lrâns[oÍ ou nurn idioles, que é o indivíduo que só sâbe


,1,, rlcsnro, quc náo conhece aquela âltcridade, aquele oulru, aquclc
lLr(l rlrcntoabissal qu e exisle dcntro dclc. Sósabedelemesmo, dâquilo
,tur clc mesno pôs no circuito dclc mesnlo. lLdo o quc constitui sua
vfllladciru realidade c quc vcm dc lbrâ. \,em de cimâ c vem de baixo.
vcrr do infinito. pârâ ele náo e{istc. Eniâo. é evidenle que ó üm idioiâl
Iilc não sabe onde esiál
Q u ando Âristóielcs diz "o conirecjmento corrcçâ com o e§pânio", é
( lar) qu c clc náo cstá tãlân do d e quâlq ucr cspanto. Náo é porquc vocô liri
rssâliadona ruâ e ficou com mcdo que iss.r vaiser um espanto filosófico
qualqueridiota se espanta com uma coisa dessas. Elc cstá lalando do
,,t.rnlô inre n mi5.criu ou( vu(ê lr:r/ ocnrrn dc.i. l. o(\.( n,isleriô quc
iliz Agostinho: "!,u sei que existo, mâs náo sei por que existo. Náo sei
qLrcm n1e pôs àquii não sci pârâ que, e não sei pam ondc estou indo. I-
isto é a única substância rcâl dâ ninha existôncia, porque iodo o resto
'
Iui eu mcsnú que inventei E isto. que "lui elr nesnro quc invcntei", o
idiota só se preocupa com isto. con1o se Íosse â realidadc.
É claro qlle podc hâver tâmbém uma idioticc coletiva. qusndo toda
uüa colctividâde só sc preocupa com aquilo que ela nresma inventou e
dcsconhece o lrn do realquc sustenta sua existênciâ. Ela sc desinteressoLr
pelo universo real, só sc preocupa com suas coisinhas.

lAltrlno Esse descanhecimento colfipõe o que AEostitho lttla sobrc


o esquecifiento) que a osso e é a delimitaeão da filefió/ia q e te'
nos clurunte o esquecifiefila de tuào que podetíafios saber, lnas não
Lembrutnos. i, algo assir,? )

Clâro, o lilósofo cstá sempre sondândo dcniro desse esquecinrcnto,

)i
porquc clc sabe que o Íundamento dclc cstá ali. naquilo que lbi esque-
(iJu e
"li rn,{rn,, q.i. cça o mais prsriu!u. },r ruirn quc tdreça L
por isso que Agostinho vai sondâr desde as suâs púneirâs mcmóriâs,
o quc cle pensava quando estâva no bcrcinho. Àli ele cstavâ prórimo
dlr mistério. Por quô? Porque iirha inventâdo pouca coisa, não linhâ
muita biogrâtia das suas aaõcs, rão iinhâ nuiias açôcs a contar; erâ
constiiüído de u pequeno repcrtório de açóes cornetidÍrs c de uma
grandc prcscnÇa do furdo.
É o que se busca, por cxcmpio. nas làmosas regressôcs clc mcmória.
Só quc cssâs Íegressóes sáo iêitas dc tâl nrodo que, eln vcz dc você
petlclrat no ápeircn, penetrê numa outra cxjsiôncia igual a estâ. Sc
você sai de unl círculo dc iclioticc pâra ir par.r outro circulo dc idioticc.
c ouiro, e outro, você rccua no tcmpo sem nuncâ sâir de deltro dc si
mcsmoi cntão isso é urna celebrâçâo da idioticc. evideniemente. Você
nuncâ chega no fundamento dâ existência, nuncâ vê o fundanrenio .h
cxistênciâ; vé ouira existência, c outra, e o0ila. sempre iguàI. lá ó unr
idida ncssâ exisiência e lbj na anterior tambénr, nâ outm. nâ ouira, nâ
outra... Podem scr mil cxistências iguâizinhâs, conÍituídas do inesmo
círculo de prelrcupâçócs corriquciras que você tem ncstâ é pdsão
subjctiva total e deiinilivà. nào tem mais jciio. Isio quer ^í que a
dizer
dilcrença cntrc cstavida e o seu passâdo !e torna apcnas ümâ dilerença
crcnológicà, porque âtrás dcla tcm outr:r vidtr iguâlzirhaâ cstâ. só isso.
Dá para percebeÍ cono islo é absurdo. É nccessário que, por bàixo destâ
vidâ, cxista náo outm igualzinhâ, mas algo enorncmcnic diierente qLre

ÍAlúa: (...) mas em rcLaç.ta a escapar de sarnsat4 daquela rcda


inlelfiill áúel, aocê nu t1cã sai?...1
Náo. Quando no mundo hindu scfalacÍr "sairdo sanlsara'r. esth-se
qucrendo dizcr cxatamenie: "Náo in1polta quantas vidâs você ienhâ
1i(l(i unr clia, vâi teÍ que sâir disso". É a anli Íegressão dc memória. Não
ir(lianta nâda vocô rccordâr n1il vidâs. o ncgócio é sair desse circulo dâ
i,l (Íice1 E sc abdr pârâ o lundâmcnto. Eles eslarlr làlando com outros
sIrhr,los. mâs dizendo eratamcntc â mesma coisa. Vocô rccordâr duâs
rrll vidas... Mas sáo duâs nil vidas huÍranas iguaizidlas a essâ, com
Ircocupaçires idênticas,1odâs consiituídas do cíuulo inierno das prc_
i)rúpaçócs humanâsl Se vocô conhecer todâs elas. não adianbu nâda.
Nr vcrdâde, é âpenas conhccimento quantilativo; quâlitativdrncnie é o
llrcsrno lipo de conhccinenlo que vocô iá tcrn ncsiavida.
O que sc tcrn que Iazer é se âbrir parâ o funda ento da cxistôncia,
tuise rompc o circulo. Entáo náo prccisa contar duas milvidas: conlâ
umâ já sai dessa. como li.z Àgostinho. Náo prccisa rcgredir pâra vidâ
e

anlerior; se vocô iá c burro nesta vida. imâgina na outral Isto náo vai
resolver nada. somar o üúmeÍo de vidas lráo vâi melhorâr nada. O
negócio é sc abrjr qu.rliiâtlvamcntc para uma outra dimensáo, qlre é a
dimensào do tundamcnto real do qllal você emcrge.
Se o sujeiio quiscssc mesmo se abrir para isto, era só olhâr cm
volia e lenrbrar quc cstá dentro de um univcrso l'ísico que o 1rânsccndc
cnormcmenle. Eru só ele pcnsar nisso. Mas às vezcs náo adiania. Você
poderia sâir nufi sentido cspâciâI, como saíram Plâtâo e Àristóleles;
tentar olhar a ord€Ill carsrnica e ver que você ó apcnas um elemento
dentro dela. Ou pode làzer con)o Agostinho. que recua aló o começo
da vida c diz: 'Ela começou cm algum ponto, e anies que cu cstivesse
1á, algo nle lundamentava".
Essas descobertas dc Agostinho sao absolutâmcnte lundameniais.
Aquilo quê dcixou de ser explorado pck» gregos, ele vai lá e dcscobre

Lr outro continenie qüe, evidentcmente, tenl que ser ârticulado com


o dos gregos. 'lànlo faz vocô ver este lllüda ento no sentido de u
simbolismo espacial de ordem cósmicâ ou de un1 simbolismo temporal
de origerr, é a mesnla coisâ. sáo dois simbolisnos em tomo da rnesmâ
buscâ do fundamento. E a busca desse fundamento é acompanhada e,
na vcrdade, se identifica com a própria elaborâÇeo da autoconsciência
de um indivíduo que vai assumindo o seu pâssado, assumindo o senso
de realidade e se tomando um homem responsável. Vai se tornândo náo
somente o homem mâduro de que falava Aristóteles, qüe é o homem
qucconhece erespondepor suas condiçócs de existência, maso homcm
cdstáo, que já responde pcrante o finâl dâ exislência, já cstá pcrânie
o luízo l'jnâI.
Ninguóm pode negdr que enlre o ideal do hoDren maduro aristotélico
c o do santo existe uma subida de nivcl, mâs náo se pode desariiculâr
uma coisa da outra. Aí temos quc concordâr comluslino, com Clcmente,
que diziam: "Náo, espera aí, o cristianismo veio depois dafilosofia, é urn
negócio quc vem adiânte, náo vem do lado. Náo sào duâs espécies do
mesmo gênero que se possa colejâr e ver qual que se vai escolher Não
se tem que escolher, unra coisa está nâ continuidade da outra".
No entanio, vcia: eu disse que Agostinho é levado a essa considera_
qáo, aessa dcscobertâ da dimensáo biográficâ, porunllado, e histórica,
por outro, cm parle pelas circunstâncias dc sua vidâ. que passa por
umâ longa e ditrcultosa modificação e que, portanto, cle jamais com'
preendeda se náo tivcsse condiçóes de contá-la. Sc esquecesse aquilo,
ele nao eniendcria ondc estava. Mas é levado à mesna consideraÇáo
pcla observaçáo da longa decomposiçâo do lmpério Romano, que nâo
l'oi uma coisa como acontcccu com âpolis grega. que suniu do diâ pra
noite porque foi invadida. Nâo é isto. Claro quc elâ iá vinha passando
poÍum prcccssode decadência, mas o seu fimfoi abrupto. rá o Império
Romano loi se desnrembrando, sc desmembrando. foi sc dccompondo
ao longo de muitas gcmriõcs nun processo extremamcnte humilhante
e dLrloroso.
Agostinho assisle a tudo isso também; é um pÍocesso tcmporal que
elc vê: "Hoje está pior do quc dez ânos anles, e dez ânos antes estava
t)ior do quc dez anos antes, c assim por diânte". lsto desperta
nele o

scntido da dimcnsáo do tcmpo, tanto que ele acabârá vendo o tempo


romo um supremo mistério: "O tempo é uma coisâ que, quando não me
pcrguniam o que é. eu sei, mas quando perguntam eu náo sei nrais"
lsso qüer dizü que o mistério do tempo iem algo a ver com esse
istério do tundamento. O lundamento é aquilo que está por baixo
do tempo c que esiá ali o tempo todo. Surgirá mais tarde, coÚ Boécio.
du tempo Lonro uma imlgem mrj!el da cl.rniddde L
:r dLl'in'çao Lrma

imagcm móvel. EnlAo você eslá dentro da imagem móvcl. rnas eÍá
dcntro da etcrnidade âo mesmo tempo. Está dentro da etcrnidade' que
ó arealidade, e está dcntro da imagem ao mesmo iempo, âssim como n
imagom que está sendo proietadâ natela de um cineina está rcalmenÍe
deniro do cinemâ. Êntáo você pode passar de uma dimensáo para oütra'
poÍque. na \crdâde. uma (\lá denlro dd outra.
Com a queda do Impéio Romano, comcçâ Lr que chamamos pro_
priamcnte a Idade Média- Nossa medidâ de Idade Média vai desde
a dissoluçAo do Império Româno do Ocidente até a lanrosa tomada
cle Constantinopla pelos iurcos, em 1455. Acontece que a tomada de
Constantinopla pclos turcos é o fim do Império Romano do Orienle. O
qlle chamamos dc ldade Módia é, entáo, todo o tempo de durâçáo do
Império Rornano, tal como identificado com o Impédo do Oriente. E
csse império do Orjente, esse Oriente começâ cm Ateras, que sob oütro
aspecto, ó o coraçáo do Ocidentc. Enláo se subeniendc que, Oricnte
e Ocidente são maneiras de dizcr: esse Oricnte era extremâmentc oci-
.lental. e ele se tornâ mais oriental por um fatot muitíssimo esquisiio
que acontecc na época.
Acontece que, enquânto no mundo latino um Santo Àgostinho
esiava claborando csta filosofia platônica e teniando inie$á_la com o
crGtianismo. no mundo oriental. ou seia, no rnundo bizaniino, ocoÍria
um processo completamcnte djlercnte. Em primeiro lugar. enquanto o

.tl
lIrt[r r) tn, Ir n, d() O.idenie vjrâva uma bâguncà,
o do Orienie sc es
inrlur|va l)r.ccisamcntc rDrnonlcntoem qllcos nobtcs,
os aristoclatas,
cslavxm âbandonândo as cidades, fugindo pâra
o cànrpo, cadâ uft sc
icclando em scu ]eudo c instituindo àli âs lcis quc
bem entcndessem
porquc náo haviâ rnais ]ei alguma fio lIpério
, Bizantino cstava se
fonnando uma ailtocràcia uluito organirada,
uln Esiâdo muito oryân!
zado, com ]cis c u râ hierârquia qlrc rlurou um
tempáo. Bâsta isso para
sc ver que o cenário crâ complctâmcnie diierenle
No Ocidente, o que veio a lbmrar â arislocraci tal
conro a conhc
ce1l1os é a misiu€ dc duâs coisas: o resíduo
dâ ântigâ nobrcza romanâ
que sobrou c â nova nobrcza quc se formou pclas
invâsítcs bárbaras. E
esta novâ nobrezâ se câractcriza por sua ú1dole
cnciusivâmenic rnilirár
suâ única ocupação digna era a guerra. Dos
assüntos actministrativos
c estatais ninguém sc ocupava, porquc náo eristia gstadoi
e a admi-
nislraçáo crâ muiio sirplcs, com.r a àdministraçáo
de urna fâzenda
O Esi.rdo não e\istia, c as poucas tarcfâs adniinistrativâs
neccssárias
à vidâ civil, a Igreja ia âssumindo. A Igrejâ
csrava conltnuamentc ior-
nrando pcssoâs letradas que, âlém de transmitirem
a dolltrina crjstá c
dc cnsinarcm as pcssoas ê lcr e a escrêver, ainda
excrcjânr, de vez cm
qlrand0, âs lunÇócs de ca[ório.
IssLr quer dizer que, no Ocidente, sc torma um clcro que dcsde o
inído cstá centmdo nâ atividade intctectuai lcirudâ, ao lado
de uma
aristocracia guerrcirâ que sc recusa tcrnlillanrementc
a aprenclcr a lcr
Por excmplo, quando Carlos Magno consenie
em aprc der :! lcr ele iá
r(m,ri.rroclrntô,àrn\.1cun\.ntL p."ri.",",.nr- p"r r,,,,.,,t..a,,,nong"
quc ele havia chamaclo para organizár a educaçáo
âli. Durânrc
^lcuino,
sóculÍrs, a edu caçâo no Ocidcn te só visa a dois lipos dc pes$as:aquelcs
que de âlgum modo visam áo clero {r as mulhcres.
Portanto. quando vocês ouvircDr uma líder leministâ
dizer qlre âs
nlulhercs ibran cxcluÍdas dâ educaqáo, era cxâtarnentc
o contrário: ent

.12
qualquer escola que se chegassc, melade erâlüturrJ pâdrc. a outrâ metade
erâ nulhcr E os homcns? Nao ianr parâ lá por nada deste mundo. Se
Lr câra achâva que tinha de ser gücrreiro, fãlavam: "Vocêvai ser padre?
Náo? Entao por que você qucr âprendeÍ â lcr?". fjra exatamcnte isto.
Sc o suicito náo quer scrpâdrc, nas quercsludar, é porque deu algumâ
.disâ.rradrÍele Era exatamentc assin. Eàs muihcre§? Diziam: "Elâs
lônl que aprendcr a ler porquc dâí decoram aqucles poeÍras, lêem pâra
nós, tocam música para nós". PaÍa clcs, as nulheres iinham tunçóes
dc cntreienirrento c de educaÇão também Llas ó que váo educâr âs
criânças. Educarn ês cÍianças c representam um elemento suâvizâdor
dos cosiumcs: i\genle está o tenpo todo cm guerra;quando chegâ em
casa, tcm que ter um negócio 'nclhorzjnho"'. Essc mundo "melhorzi_
nho" cra orgânizado pelâs ulhcrcs.

l^l.rÍ\o: Maspotqueas ulhercs titthLm que saber IeÍ para educat


as crianEls, se ds crianças fião tetíam que sabet Ler?)
Porque são clâs que passan a trâdiqáo. Vão ensinar as crianças à
rczar, por excmplo. É muito mâis Íácil iâzcr isso sâbendo ler Elâs é que
ensinam â religiáo. Até hoje. no rnundo, vê se quc dcntro de quâlquer
igrcja tem mais mulhs do que homcm. âté hoic é assim. Mas ó assim
aqui. Se você vai numâ nesquita. iem quinhcntos homens c trinLa
mulheres. As mulhercs têm preguiça dc ir licam em comparlimento
sepârado, e semprc o dos homens está cheio e o das mulheres está vâ'
zio. Embora seja obrigatório ir, elas simplesnenic náo váo No mundo
islâmico, Íclisiáo é ocupâção dc homern, âssim oomo entrc os indios.
Só homcn sc ocupa dc religião, rrulhcr não. Já âqui, no Ocidentc, por
causa deste lalor. impregDou-se ató hoje q(e âs muiheÍes iêm nuis
inicresse na rcligiâo do que os honens

:l:l
-.
ÍAtüt1o: (. .) a história de fiul.hercs lercm que sabet l.et paru poàet
bltnsmitír a reliEiAa (. ). Isto silniÍiul qúe pt a assimiLat essas ttu:ldi
ções íto é plecisa sabü Let mas pata lrunsmiÍi-las é preciso sabet?l
Era pÍeciso. sim, porque a nobreza nunca assimilou.
É no processo de passar algo dâ tradição que algumas acabam se
dcsiâcândo. poÍque qlcrcm aprender a ler, e outras nâo. âqüele
^gora,
mínino você podc aprender sem saber ler. Mas o clo de clrntinuidâdc
é dâdo pclas mulhcrcs por uin lâdo, â Isrcj os monges, os padres
cj por outro lado, as mulhcres stro o elo de continuidadc. Elas tân â
mcmóri.r do pâssâdo, os homens nio. estáotodos só qucrcndo saberdc
guerÍa, dc bagunqâ. lsso queÍ dizer quc â função leirada lica âssociadâ à
Igrcja c, porlânb, a urna organização que é disiintâ do podertenPoral
O podcr lenrporal ó dc úrdole guerreira.
No lmpório dc Bizâncio aconlece exatamcnte o contrárilr:.r coÍlc cstá
organizâdissima, existe um Esiado orgaDizâdo, e o EÍâdo prccisa de
funcionários qualificados. Qucr dizer que o ensino ali ó cstâtal. E o que
sc cnsina? As tradiçõcs antigâs: retórica, filosofia, ctc. Por outÍo lado,
o el€mcnto rcligioso ficâ à margem do cnsino. A religião sc transmite
nos mostejros e nâs igrcjas, c náo é integmdâ no cnsino lctrêdo. O que
âconiece? Acontcccque algo como o nosso famoso conllito en lÍe Igrciâ
e l,lsiado, quc perpâssâ ioda a hisiória da ldade N4édia ocidental, náo
aconteceporlá. Mâs tambóm nâo aconiece Lr Írâ co isâ caractcrística que
vai definir toda â ciapa scguinte, qlre é a Idadc Módia propriameüle diia:
o desenvolvimcnto da teologia no sentido cnl que nós aenlendcmos no
ocidcnte, como leologlâ racional.
O que éteologia racionêl? Éâ explicitâçáo dniláli.a do cLrnteúdo dafó
üa suâ prova dialética e suaadiculaçáo c dcicsa dialéticí. Os pâdrcs da lgre-
ja ocidcntal desenvolveÉo os inúrumentos lógicos e d ialóticos hcdêdos da
filosoLia gregâ para cxpor c delendeÍ a té cristá nos scus tcrmos. QLlandosc
chegaràópooa das grândes sümas dc Al.xandre de FÍâles, de SanioAlbcÍo,

34
.r
(l( srnlo lbmás de Aqu ino. se Íerá o c.,roanento dcssa teologiâ ocider tal,
,)rr scjâ, unra toial organizaçào racional do conteúdo dâ fé cxplicitado em
{lircussa)cs diâlóticas. Isso é câracteístico da Igreja ocidental. Vcnx}s quc
so r lgreja Caiólica Romana tem isto é a única rcligião do mu ndo que rem
isso , a total erplicitaç,ro e ordcnaçáo dialóticâ do conteúdo da ló. Isio â
Igrcja Oricntâl nunca aconieceu. Por quê? Porque a atividade dc cnsiro
rdigioso esiava à rnargcnr da atividade letràda c filosóficâ.
tslo quer dizer quc os filósofos ditos orientais cram grcgos, nâ
vcrdade quc continuam nesse período. clcs tâ bém náo terào csta
prcocupação intcgradora c organizadora quc sc vô no Ocidente. No
()cidente, como o problcrnâ básico era arliculâr dois lcgados dilerentes
o lcgâdo cristáo e o legado greco,romano sob a lorrna dâ explicitaÇáo
lialética da doutrina -. a doul na tinha quc dar conta de tudo isto.
linha que hâmlonizar tudo isto em iunçáo dc principios cornuns. É r.rnr
cslbrço unificador ft)nstro.
Bsse esl'orço unificador criaÍá entáo construçócs intelecluais que se
assemeihêm estrutumlncntc à dâ ârquiteturá quc loi dcscnvolvida, que
a â ârquitetuÍa góiica. Existc um Llmoso livro do Erwin Panofskv que
tl\aÍna Atquitetun gótica e Escol.áslico,a no qral clc mostrâ que â estru-
iurâ lógica dos trâtados cscolásiicos. a esirutura lógica das sumês. é a
mcsma estrulura em lriângulo quc scvô nâs caledüis góticas. quc parccen
organizadas dcsdc cimâ, não desde baixo. Elas vão por ün processo dc
ramil'icâçAo, qu€r dizc! â arquiletuÍa góticê é como um diagrâma qüe,
pârtindo de um ponto, vai sc sübdividindo, subdividindo. subdividindo.
âté ch€garcm baixo. Ele niostraque essa cstruiura é ldên tica à das sumas
cscoláslicas. l{á un1 csl'orço dc unificação e deorganizaçâo morstro, por
quc se iin hâ que ab.rrcâr o universo inteirc d as ciênciâs, ounivcrco inteiro
do conhecimcnto humano. Subnetidoaquê? Aos mesmos princípios quc
emm os pÍincípios da 1é, e articülados náo como contcúdo de fé âpenas,
rnas como doulrina djaleiicamentc cxpoía e discutidâ.
i ,i,p.r.,.'r i- 1.r. ó'. ddofjd, ,J,,
hlosoha e reôloAia un klJJe N1ódiâ Sáo Paulo N,târlirÁ FonLes. lgqt
lS
Nâda disso aconteceü no nründo bizâniino Isso quer dizer que os
filósolos de lá náo iinham que fazeruln cslbrçotáo grardc de unificação
Eles se caracierizavam nÂis como herdeiros c transmissores dc ântigas
aÍes dialética. L6gicâ, retóricâ c deciênciâs àniigas. Flntão oi\lósoio
eÍa mais ünr tipo eclóiico que sabia um montáo de coisas: sabia lógica'
rctórica. astronomia. sabiâ isso e mais âquilo, c nunca houvc a neces_
sidacle de arlicul a doutrinâ da fé num cdilicio único
Aitlda ircmos clelalhar um pouco nrais isso, ntês essadistinção básicâ

cntre o quc se pâssou na Europa nlcdieval, posteriormcnie à dissoluÇáo


do Ilnpório do ocidenlc, c o que sc pâssou no lÍrpório do oricnle, isro é
fündâmeÍi al pâra entender o dcstino dessâs duâs lgrcjas dcpois' Na lgrejâ
do Ocidonte, a partir da hora enr quc existe unlapequcna râchadura no
mundodoutrinal, tem quchâveÍumcis a, evidenicmente. ao passo que
no muncto oricntal a doutrina cristá pcrnaneceu rnujlo mais confusa'
muito mcnos uriiculâdâ diâlcticamcnte O ptoblena das hcrcsias, por
exemplo. era mais dilícil se deiinir lá o quc cra unâ hcresia do que aqüi'
Àqüitinha todo um "programadc computadof': 'A doulrinâcerLâé essa

âqui: se saiu diss{r é hcres;â" Lá não, a coisâ em Drai§ flcxível'


nslâ mài.,r tlcxibilidadc e o relaiivo isolamcnto cm que a lgrciâ per-
mancceu ern rclâçáo aopoderestâtal pelmitiram quc, muilo mais târdc'
a Iglcja Oricntal sobrcvivesse mclhoÍ ao inpaclo do mundo modcrno
do quc a Ocidertâl Viaiando ali pclo que sobÍnI 'lô mrlndo corrunisiâ'
vê scqueaquelc pessoalé muito mais religioso do quc qualque r calólico,
muito mais. Na Ronrônia, eu estava lá jantando urnâ ve7 com quatro
repóricres, jonràlistâs. cla scxta-leirâ. F,u nern lcmbÍei que e'â scxiâ
e

lêirâ c pedi um bile. daí clâs disscram: "Náo, náo comcnros câIne às
sextâs ieims". Você iáviu iornalisiâ preocupâdo coÍn isso no Brasil'l Isto
i qJJ.c ir rp(n.J\cl.tr io'nali.rr l'.oc.rp.tJu
sextas-teiras náo existe; é a pessoa nuis indifcrente à rcligiAo quc há, e
das quâ|rc mcninas. rcnhunrâ conreu câmc.
lsio tanrhóln viconl mcLrs próprios olhos. uDr câsâncntLr na lgrejâ
( ), L,{l,xâ ltomena. lbdo mlrndo lica de pé e as pessoas entra r. sâem,
i ,, )r(1rc li1 olicilndo o rilo de câsarrenio. Quanrlo cntrava âlguóm, o
,,rrlre parava c tàlava. É um ncgócio muiro Drâis irlbmul. rigidrz do
rio oridcntâl icm a ver tambérn conr a
^
cstruturaq,ro lógica da dolrtrlna.
, ri inlornralidâctc do rito orienlal tcnr a vcr juíamclric com a infornra-

Ir(n oulro lado, clcs sc ocuparan muilo mais prolundâmeftc de unr


..rrlu,,.,..ifluirun.i' oiorgi,r i,,11..,..1.'r :r rr\1r., orlJI /idi f
rL rr conlruslc absolu(ârnenic marâvilhosol E ai qrc vocô vâi cntcndcndo
. r . .. .. ol '. . Í,, md. f, J..ri .. r i,l{,, r,,u,11,-. irL . L ",
"*,rr.
(turndo vocêvô... QutLndo dgrDr slrjeito chegnr pâravocô e disscr "Olha.
cin llisiórifl nAo e\isle o sc' ', não cspcrc a Irâsc scguinic. porquc ó
)cslrirâ AIIislóriaólcitâdc'sc . Tudo quc c da vida humana loitcito
dc m jcito, mas podcria tcr sido lcito dc olúro. lirm algLrma raTao parn
Lcr sido lcito assim, e sc r)utro l'ez de oulro jcilo. cle lrnrbóm tc unra
'rllú: portanlo. scrrpre crislc âlicrnâtivâ O quc náo tcm allcrnativa
faú ó hurnârol Scnrprc tcnr quc sc vcr dc quc outro jcito podcriâ tcr
sido. porque às vezes essc outtu jeilo que náo loi leiio rqui, i'oi lá.
Llm lcnôrnenocomo. porcrcrnplo. o rlos hcsicasrâs (Hcsicâstâ. umâ
r)rg.rrizâÇáo dc pática nristicâ .tuc hojc csiá totalmcntc rcunida nunrâ
s(yic dc ljnos quc sc cba\nà A Fila«liu.' " m(» àquilo quc é beld').
t-llcs tinha nmâ prúticana Igrejalregae russa que é r chânrada "prcce
pcrpaLua'. que é unrâ eJ{trcrna conccnlraqáo cspiÍitualn mapclnrâncntc
i vocâÇão a Nosso Scnhor lcsus Cristo. c iÍo c uma técnicâ crlsinada.
cortrolada c prâlicada metülicanrenLc. A rÍísllcr no rrLrndo ociderrlal
a unr negócio nruito rrais esl)on1ânco: âconlccc. dc rcpcnlc alguónr viu
lesus Crisio. É incrí\,cl qLrc o quc cstá orgânizado aqui cstá dcsorgani-
zado lá c vicc-vcrsâ.

' rdtQnu lilúnür: a lho disslca dr Uft)n o .rtll lii.l Nrdtr {lr Sn.r
Prnr.rl. lLrl srr)au. PI ina L9!l t7
Mas aconteceu unl tercejro fator conplicante: o Iegado da filosolia
grcqa acabou sendo absorvido pelo Estado bizaniino como elemento para

aeducaçáo dos füncionários dacorte.Isso náo aconteceulogo, porque,


logo após o enccrramento do Império Romano do Ocidente. ocore em
Bizancio aperseguiçáo aos filósolbs. Porquê? Porque o Império, sendo
cistáo, tendo se cristianizado, náo queriâ nenhuma ouira doutrina
circulando poÍ ali. Acontece quc, ali em Aienas, por exemplo, a escola
lllosófica neoplatônica continuava existindo, e náo apcnas como Aca-
demia, mas quase como umâ organizaçâo religiosa, com ritos e tudo o
mais. Entáo, o governo de Bizâncio mândâ fechara escolaneoplatônicâ,
que erâ em Atenas, e esses camaradas váo todos para a Pérsia.
Vê-se, cntâo, qüe existe mâis cortinuidade entre â filosofiâ ocidental
e a orientdl do que se imaginâva. Sempre se imaginou desenvolvimentos
toialmente independenies e qu o, depois, no século xll, com osfamosos
Tradutores de Toledo. trazem de volta Àristóteles. Náo; era o mesmo
pessoal que lbi pam lá, e depois uns quantos voliaram para Bizâncio
qüando pamu a perscguição. E foram entáo integrados noedifício estâtâl
bizantjno, mas ai à margem do ensino religioso.
O ensino religioso no mundo oriental, que é de Atenâs pâra lá, per-
manecc cntáo à margcm da vida intclectual supcrior, perman€ce mais
populd.r, mais ligado â raízes populares, e mais inteiessado na prática
místicado que nas qüestÕcs doutdnais.Isso écêracterístico atéhoie. E
é istojustamente que permite este fenômeno assombroso de que a lgreja

Oriental sobrevivessc melhor aum século de perseguiçóes comunistas do


que à lgreiâCatólicâ Ocidentai sobrevjveu a um sécülo dc prosperidade
capitalista- Quer dizet, â Igreià Oriental ó mais plástica neste sentido.
Não tendo a busca da unidade doutrinal explícitâ, â lgreia orientâl
iâmbóm tem üma cstruturâ luncional mâis plástica, na rnedida em que
admite dois cleros: o casado c o monástico, o clero casadocstândo, por_
tanto, mais integrado nâ vidâ popular do que o mongc que, pelo que o
t)rjprio nome diz, r?onos, éum ser solitário. Dequalquermodo, sernpre
\ r((onheceu na lgreid oÍienral que o .cnlro da Í, lisiáú e o morPe E n
rn()ngc o vcrdadeiro coraçáo da religiâo. O outro clero, seculat. dcpcnde
cspiritualmenle do monge, tanto que, pâra as Lunçôes superiores, ieln
quc ser mongc; se você é pâdre, padre casado, abispo náo vâi chegar. E
esses aüanjos náo lbranr possíveis na Igreia Ocidental.
ora, esta ditêrença espccificâ ocidental surge entáo do fato de que âs
tarelàs administrativas do Estadovâo sendo absolvidàs pela lgreja. Elâ
iem que se organiz& ao mesmo tempo como mantenedora e transmissora
da tradição e como poder administrativo, con1o Llma espécic de poder
tcmporal É uma dupla função, o que fatá com quc, cnquânto existir
ocidcnte, haverá â disputa entre o Estado e â lgre,ê, entre o Império c
â lgeja. Quando, múito mais tarde, â nobrezâ descobtir quc uma das
i'onies do poder da lgreia é iustâmenie o conhecimento, as letràs, ela
icntaráabso ê-lo pâra si e criará uma novâ espécie de intelectüalidâdc,
âgora pâlâciana, que era totalmcnte desconhecida na Idade Módia, c esia
é â origem das literaturas nâcionâis e das filosotas nacionais.
Esse é um processo complicâdíssimo quc vamos esiudfi um pouco
mais para adianie. Mas se vô que a lgreja Ocidental, pela acumulaaáo
de tareÍas, tendia naturâlmente náo só à unificaçáo doutrinal, mas à
centralizaçáo da autoridâde. Isso quer dizer quc, ao longo da História,
âautoridâdedo Pâpa vai au mentando (âostrâncos ebarrancos, mas vai
âumentândo), ao mesmo tcmpo em que as pafies superiores do cicro,
os grandes intclcctuais do clero, dedicam-se a um csforço monstro de
unificaçáo do conhecimento.
Mas essa ünificação do conhecimento náo era apelras um emprccn-
dimento teórico, porque erâ umâ forma específica dc sua vida cristá,
em uma tarefa cristâ. Por exemplo, se estudar os estatutos dà Ordem
Beneditinâ, você vê: o beneditino tem umâ sé e de obdgações dl,
inielectual, iem que estudar assim. tem que saber tais e quais text(»,
tuclo isso faz paÍlc dâ rcgrr. Isso queÍ dizcr que elc vâi se realizar cornÔ
(risrâo na medida em qtrc sc realizâr conro horncnl de conhcci cnto c

intclectuâlco obascdâ âscesc, issLr écâractcríslico da lgrejâ


^viclâ O esforçu lilosófico propriânlcnle
OcidcniâI. dito que ó justanentc â
unidadc clo conhccirnenio na ünidadc da ârtocorrsciôncia é iissunrido
na Isreia Ocicienlal como unra lonna dc vidâ âscéticâ. rmâ lomra de de-
oci'lcriât
voçáo. o quc nràrcârá rnuito loda a hisn-)riâ da inLclcctu.Llidâdc
0té hojc Mesmo os quc saíranr dâ tradiçao cristà e rünpcram com ela
conscrvarr âlgo disso. O tcnólncno nlodcrno do clcro lcigo Rousscau'
Diclcnn e outros, quc sào os no\,osguias 1 x'ais.lacomunidâdc.cmborâ
cstarr.lo à margcrn da rcligiáo ó um rcsiduo dâ vida intclcciurl como
práiicâ âscéiica cristi
Om, podcnus dizcr quc o divi«n dc:iguas cnlre a filosolla àntiga e â
filosolla propriar cnicnredicval édado pcloseguinteialorr tl)do uquclc
lcgado rlc filosoiia gncLr rnnanaquecrn tsi7ârrcio cslavascndo àbsorviclo
parâ a tbrNação tlos trncionários dâ cortc, à Írargcnr. portânto. da lgrcjâ,
no oci.lcntc i nbsorvido para a fomraçarÍ) do próprio clcro Nà ltorfl enr
qLrc sc anunciirr unr ccrtlr úrrcro. um ccrio volürnc de bibliogalia corr
trechos clc Plâlão c Aris{óicl§. as iócnicus rctóricàs1] dialóilcÂs. ctc
c isto corncça a scr inicgrado rro cnsiro do clcro , a pârtjr daí sc len'
a filosolir cscolásiii:â. pois a partir daí corneqa urn cslorço colclivo tlc
uniticacáo clo conlrccimcnto c dc unillcâÇáo.lal:li)u1rina. tslorqo no quâl
cadâ um participâ corlro urn aspecio dc sua vidâ clc nscctâ inlcleciual'
lsto a e\atarncnle o quc vêi definir â lilosotia cscolás1ica.
O primciro lipo quc cncáara istoplcnamenteó unr cidadáo chamado
\ni.i.. V rrrliu's,"..riru.ts,*rhiu, t!,r \olr,.1,,.'Iu\-\ I l!uc.i,,,i
ao rncsmo iempo. um homcm da lgrcja. unr funcionário da chí cclaria
LIa corte. urn conscrvador dos cscritos arrtigos, urrr imdutor c comcnlâ"
,1, ú (le Ar istóteles. Plâiâo, etc, e urn fi lósoio quc busca â uniíicaçro do
, IIlrccimento corno unr devcr increrrlc à sua vid.t âscóiica de cristáo.

Al\r1o: ELe fiua eta ba edilina?|


Não. nao em bcnedjljno Boócio ienr umâinfinidadcdc maruais para
.Isino qlrc escrcvcu. ú um dos fLrmruladores do cnsino escolásiico. l'l
chro que a filosofiâ é chamadtrcic "cscoláslica" porqueeü 4uilo que s€
(Illivâ\râ fês escolas oncle sc lirtnava o cl€ro. Parâ l'ormar as cscolas, ó

IC(cssárioque sctenll.turll matcrial.le hasc. e Ltoéciofoiunl dos primci

r1)s queâdiculârâm islo, não sc limilando. poró1n, con1o os bizântinos. â


fonservar cssc maieriali üas pârtindo para üma claboração mais lundâ.
li làilcvâdo tarnbóm â isso por uDla circunstâncin b iográfica pecü liâr: é
rrusado dc pâÍicipârdc urn oonlplô cm 1à\'or do Impório Oricntal e vâi
pârar na cadciâ, Lrndc vai scr erecutado; nos nrcscs que antcccden suâ
cxccuçâo. e§crcvc um dos gmrldcs livros do Ocidcntc, quc ó Á co sold
ção rta ÍilosoÍia' De Co saLotio e Philosoplrie -. no qual â filosofia
apârece como portadora dc um lipo dc consolâçáo crista.

Querdizcrque o contcúdoens tócnicas lodâs âssim iladas dâ fitosolia


Er.;a surle r, ra . un,u Inrr:d,rr, ' de u rra Ir, rtrccrr' . ri\lr rrrÔ irrcr'u\
lro cnsiro. mas pâtâ â arliculàqão c a cstrulumÇão dâ própÍia âlnlâ de
Boécio. Entâo aqui!o quc lustirc Mhrtir dlTia quc o cristiânisno é o
coroamcnlo dâ filosofia. o quc veln clepois da lilosofiâ -, em Boécio iá
Iáo sc pode dizcr assim. pois o crisiiârlismo é a pópriâ filL,sollâ; iá nâo
a possivel distinguir umâ coisa da outrâ. Ésiâ síntcsc. em Boócio ela
âpârêcc não apênâs como lruio dc unrà longa clabLrraÇão iniclectual,
mas conlo a vivôncir dc) prisioneiro quc tcn1 a visáo dc uma rnulhcr
quc ó o lispírito da l-ilosofiâ, da Sabcdoriâ. que âparccc e diâloga conl
cle na prisão e lhe passâ, cm linguâgcn platônico-arislolélicâ, o próprio
cristiânismo; âí sc vê que iá sintciiTou, quc rodlrs âquclcs elenrcntos

P,t'ô.h Aotel&ànda lilaitht. sxt tlulu, Manlns Fnntls,1'r98


dispersos já viraraln uma sintesc que ao mcsm{r tempo é tilosófic4, é
ieológica e é pcdagógica. Há um sistema de pedagogiâ qüc traduz ius-
iâmcnte a síntese do lcgado grcco romano com a doutrina crjslã Estâ
síntese que ocorrc na alma desle cidadáo chamâdo Roécio é o
quc será

pâssado râs escolâs, nâs quais sc cultivará en1âo â vida intclectual e'
sobrctudo. avidalilosóficâ, ou scia, abusca da unidade do conhecirncnt''
na unidadc dâ consciência c viue v{rrsa, corno o aspecto inieleciual da

Náo é neccssário dizer da imcnsâ sericdade coln que as pessoas sc


entregavâm a esse eslorço. lsso quer dizcl qüe, para o iilósolo escolás-
iico, âqucla elâboraEâo intclectuâl náo era unl jogo, e ncm sornentc â
buscâ de um conhecirnenio murldano. Eraasuareâlizaçáo, a realizâçáo
do scu dever dc cri(ão. Suâ vida cristá se davâ ahavós do eÍudo lsto
dá parâ esscs Íilósofos uma tbrça de concentrâção nos seus objetivos
que se tomâ. parâ os filósolos posieriores, âbsolutêmentc imPensávcl'
A câpâoialâde quc o escolástico tinha de investigâr ceÍtas questócs filo-
sóficas nas suas últimas minúciâs lógicâs, scm nunca sc perdcr e sen
nuncâ .rchar q ue aqu ilo era chato, d€rivava disto: cle estavâ lutando pela
salvação da suâ alma. No lnomento em que se pcrde islo, con â lilosofiâ
noclerna. evidelrtcmente todo este imenso lcgâdo escrito da filosotia
escolásticâ se tornê repentinâmentc incomprecnsível.

ÍAlrno: Í
ifiercssanÍe colocal que, de fianeia básica, essa queslao
de e te del a disp la (...) oral, laz plifieírc a base hoíe peLa í ensa
hoÍtestidade que se üê nesse peiodo ( --) lem a fianeia co a eLes
cameÇatutfi a rcÍulaf a toloc\çao do outto di2e do. "NeEo" (...)l
Nunca houve, ao longo dâHistória,üm pcriodo dc naioÍ honestidadc
inlelectual do qüc esse âí. Nunca
lAlnro: Inctusiae começarutn a rcÍutar o autto...l
Porque a gente náo plde esquecer que o exercício dâ filosolia cla uma
prática dc sântidadel A pcssoa náo estâva bincando' Por excmplo, sc
você demonsimsseunâ imensa habilidadc intelectuâl' masfalhasse um
pouquinho nâ câridade cristá, as pes$ês per'cheriâm imediâtamenie'
Vcja que o cnsino na época crâ orgânizâdo dc modo quc lãziao cstudioso
sc deLlicarà büsca da verdade com o emPcnho de qücm estava arriscândo

nisso a sâlvâçáo da sua alma- Isso querdizer quc a exigência de hone!


iirlâale e ra levâda aié âs ú ltimas conscqüências, dai todas essas práticas,
lanto práticâs pcdagógicas corno prálicas de invcstigaçáo fi]osófica,
qlre sáo âdolâdas nessc período. Esse cxenplo que ele citou, quc ó o
da discussâo chamada disputalio medie?aL ésó Dma delas
I'Iavia uma sórie de práticas pcdagógicas dilercntes. Uma delas ó
o quc se chamava a "cxposição nâgistral". Na cxposiÇáo magistral,
o nestre scnta e iàla por duas horas scm scr interrompidoi scgue um
raciocínio com começo, neio e fim. Unra outra prática, quc foÍma
tunrrd.r( r om cs.d, e a da d^rrrrrio. cm quc duas rfre\ olns r\ 'cÍãu
dettndidâs por dois cstudantcs. Como é que sc frlz disp latio? Um
^
sujejto cnuncia a sua tcsc e ienta demonstrá la; o opositor tenl quc
corncçar por rcpctir o que o outro dissc, subdividir em partes, dizcr
qual a paftc que ele vai reÍütar e sob que âspccio, e bascado em quÉ'
Por exemplo, vocô poale rclutâr â prcmissa, pode retutar â estruturâ do
ârgumcnlo, iem várilrs lâdos qlrevocê podc relutâr. A reiutaçáo nao cra
uma discussáo, conrc tcnl discus§ao política. para Sanhar â discussáo'
Nâo I ÉÍa realmcntc â discüssáo d;âléticâ tâl como ptoposta por Sócrates.
levada às suas últimas conseqüôncias. Elaborada tccnicamcntc, é iudo
aquilo que Sócrales queria como discussâo honcstâ, na qual â busca dr
vcralâde e apermanente liscalizâçâo das elâpâs pcrcoÍridas, islo é Ievâdo
às suâs últimas conseqúônciâs Isto é o próprio méiodo cjeniifico'

4l
lAluno: Mas os /ilósolos ix1(tgitd\am isso 11o plona ddconsciência
iníJiüiclual. o hanú1 discutit onsiEo lnesmo? l
Não. Discutia co seus amigos na praçâ pública.
É claro que o mesrno pr0cesso era rcpclido intcriormente Você la
zer isso absolutancnte soTinho ó impossívcl, âssim como ó impossívcl
você aprcndcr a tàlar sozinho Élxisle um trcinâmento qLLc é coleiivo, e
aos poucos o individuo vai conseguindo nlonlar â discussão dialética
dcntro dc si csmo. con1o SanLo Tomás de Aqrino Se você vô a SÍmd
??ológlcd, clâ é âssirn: coloca un1â pcrguntâ. daí colocâ uma séric dc
rcspostâs possíveis. daicoloca os a€umcnlose lavor dc câda rcsposla.
dcpois coloca as obicq(')es a cadâ uma. e depois vâi resolvendo uma poÍ
un1â. O quc é isso'? ll a estruturâ de unra disclrs!áo. disprl4Íio escola(
só que agorâ internalizada. Ele eslá Íãzcndo clrnsigo nlcslno lsso quer
dizcr que a conslruçáo dâ aimâ individual é sirnilâr à constrrçâo do
sistema pedagógicl).

Í^ú.no: exefipLo dessa hofiestiilade da coneaão da açAo da alfi 4,


Na
pode se let ali camo que um crcstimetlla. pory ue todtl s as pessoíts q ue
estatam empenhaclds em consltüit aqueLe reÍercnLial tífiham umtl
detlicaçào ttue busca?ta tat bém a salüaçdo da aL 1a.t
Náo. mas era â mcsn1â coisal Nào é que elcs buscâ\'am talnbém".
crâ a rres ra coisâ. porquc isto é uma das fonnâs do quc sc chàn)âva nâ
época dc o "cicver de Estado": âlénr dos deveres cristâos em geral, que
sáo os Dez Mândâmcntos, existemdcveres específicosque sáo inerenles
à posiçáo quc o suicito ocupa na sociedâdc. Para Lrrn rllongc. há rrnâ
obdgaÇáo quc é corrpletamente diltrcntc da do pai dc làlnflia; o suicito
que ó un militaÍ, uÍr gucrrejro, tem um dever completamenic dilêrente
do dcverdo clérigo, c assim pordiante. Estâ asccse intelcctual é Lr dever
dc l-"r"do in. r,'rr(.r con.lr;áu du iIl('c.ruàl medicv:rl. I ,,lJ'o qu, un,
nobre, ou uma lnãe dc Iamília, náo tcrn obrigaçãÍ) dc làzer nada disso,

.14
rnas pârâ cle é assiú quc vai viver â vidâ cristã: vai buscar a vcrdade
rqui até as últimâs conseqüências. com totâl responsabiiidâde do qlle

lsso qucr dizer que o suicito, anles de enLLnci Lrma idéia, tinha
qrc trabalhâr muito nclâ. Mlrito. muito. Nào havia umâ prolil'eraç:lo
dc opinióes. Havia ccrtâs correntcs, Inâs que relletiam... Quêndo hai'ia
incompaiibilidade cte dLras corIentes. é porquc hâvia uma dil'iculdade
rêâl de rcsoh.er o pÍoblcmâ. náo porque simplcsncnte u gostou disso,
o outro goíou daqriloL poquc dc fato a coisâ ó cnctcncada. Quan-
E
clo suÍge, por exemplo, o problcma dos universâis "os leÍlnos gcrâis
cxpressâm coisâs quc cxistcm realn1ente ou apenas unra âglomcrâçáL)
rncntai de entes singulâres?" . isto nào é tãcil de l,ocô rcsolver; eniáo
surge discussão:uns acham quc silll. outros acham quenáo. Mas quân_
do se pcrpassâm as discussÕcs, vê se que a qucstão náo está r{râIncnte
rcsolvida. Quando formênl lacções, é porquc náo delr para rcsolver â
queslao. apcsar dos melhores csforEos. Ninguóm cstavâ levantando
opinioes porque sim. No curír de uma jnvesiigaçâo, chegou'se â ccrtos
blocos dc problemas quc náo pudeÍanr scr rcsolvidos. en1áo sc tcm que
opiar': "Lu acho isso, o ouiro âchâ aquilo".

ÍAluno E aí as opçôes pehs oúefis rcligiosas aLé, fiao é?l


,Ai se Iormam inclusive ordcns rcligiosâs que dclindcm isso, quc
delendeff aquilo; mas isso não saiu do nâda, nâo t'oi hescura: eram di_
ticuldadcs rcais àsvezes (lc ordenâlé trágica, dc o scrhumano esbârrar
numâ dificuldade qüc nâo oonsegue resolvcr Àí. se nâo há uma soluçao
racional, entáo un adere a isso, o ouiro âdere àquilo.'Ibdâs as disputâs
doutrinais que âparecem, todâs, sáo assim. náo tcn1 nerhuma quc scia
I bascâdâ na graiuidadc da escolha, na vontadc de apareccr, nâ vontade
d( liuerlÍ nadâ. l.rú \irrtlc.Írcn,. n'ju iri\.c
Aqüclas pessoas todas, iodâs as conentes quc fossem. erafl dc umâ

45
humildadc. de uma dcvoçáo exemplar Estavânr fazendo o melhor pos-
sívcl. É por isso que, por exemplo, se o sxicito chegâva a delendcr unlâ
pos içáo heÍética. às vezes ó porque náo tinhâ havido os neios d ialélicos

dc mudar suâ opiniáo. Por isso, ântcs de se condenâr üm sujeito por


heÍesia, o que sc faziâ? Mandava_se Llm inquisidor. Qual era a função
do inqlrisjdor? Disculir com o sujeito ató o finr (podc levar anosl) pàrir
vcr se conscguia convcncê-lo.r mudar de idóia. Por erefrph. qllando
PeclroAbclârdo é acusado, qucm é o §e! inquisidor? São Bcrnardo, que
erâ scu âmigo dc inlância.
Hojeâgcntetàzumaimâgem dalnquisiçáoconlo§endoümaespécic
de KGB ou Partido Nazistâ: isso é coisa dc loucol A condcnâqáo por
hercsia é urn ncgócio enorÍrcmente trabâlhoso e ocorre depois de se
lcr csgotado todâs âs possibilidades Sc náo deu para convcncer djâle_
tioânen1e o cârâ, errtão, o que se vai fazer? Pcdirprrâelc sinplesmentc
âaleÍir. mcsmo quc sciap/o /ormd: então cle deve dcclarar em público
isto- Se depois disso ele não quer âí o negócio complicâ.

lAluno: Irlolessor, mas aí há un probLetna, potque se todas ason


tefias (... ) estãz)(tm baseadas uma à upla sincet iàade de 5e acrcclilat
naquilo ali, cotfio é que se pode conceber qtte al\uéfi quisesse que o

suieiLo adetisse {o for]mà apenas l


Nâo, nao é pro lolrrd. elc iem o dircitLr de conscNar sua dúvidâ,
porquc isto ó objeç,to dc consciência. É âssi : vânos dizcr que você
náo consegue concebcr que uma ccrtâ coisa. por exenplo, scjâ pecado'
Só pcnsâ: 'tixâminei. mâs... Entào eu náo consigo conceber, Íiras deve
scr porque a Igreja diz quc é". lsto ó suficienlc. Nio é utlt pto fotna'
âssin. dâ bocâ pâra fora. Não, vocÔ adr te quc deve ser porque a Igrcia
diz quc ó. nlas vocô naro está vcndo isso coDr seus próprios olhos. lsso
ó admissível. Entáo bastâria isso, um aiír de submissao...
| Seria nàouma discordAn Lia, mas una egaçAo em rclttção
^llü1o:

É um ato de submissão conl objeçao de consciônciâ. Qucr dizer:


âindâ continuo não vendo isso, eu ainda nAo âcho. n1as dcvo estar
" Flu

crrado, poquc â IgÍeja diz que sim, embora cu nào consiga enxcrgar
assim". Isso seria âdmissível. Entâo, náo ó ump/o /ormd.

l\l'rrc: tlpot que se imalinazn quefosse necessátia essa sublnis'


sdo?l
Porqüe, sc você âccitâsse aqnctà ruptur) dÔ ciiifnrio Íâcionâl' a
Igrcjâ toda cai a, virariâ a Igrcia Orientâll 1500 anos de civjlizâçáo
in "pro brejo". Aqui, o ocidente apostou tudo na unificaqáo total dâ
doutrina. Unificaçáo totat da doütrina, unificaçàLr da Igrcia, e, no fim
das conlas, únificaqáo dc Estâdo c Igreja. Apostou tudo nisto Bom' loi
assim âqui, em outro lugar toi do ouirc jciio. Aqui tcve seus problemas,
lá teve outros problenas

IAI'rna) Até potque, se lado nutldo esíiüel o mee?to fií?eL


de ho-

trcsLidadeelrocê nàa cofiseguitt coroencet a maiori| dialeticl ente---


ceúamente aacê eslá ettado. efitào...1
Nào, náo ó que vocô cstá erÍado. é poquc é um limite dâ intcligência

Aluna: Hó13 qüaLquet tiel pode erccat qualguo doultina? Só


poque a pessal acft.dita en Deus, e lesus ela aai l.et o catecismo
ífiteirc? Eslou díze do é par islo: a educação em ú a doulrilla ocabtt
pto(Luzitldo umar s ie de docunlentos que a pessoa precisa conhecet
pata estat a par.-)
Náo, essas cliscussócs só âparcciân eni.c intclectuais; o pováo esLá
ÍAlul.a: htatanente, isso que eu queÍo dizet l
No nn clpopular â 1é eíavâ iotâhnenlc unilicadâ, porque não chcga-
vâ ató cssâs qucstaes Mas. c quando chegassc? E se um sujeito chcgou
à conclus.to dc quc o ncgócio é complctancnie .lilercntc c começâ â
ensinar aquilo? Dâí sc iorna náo apcnâs unla obicÇáo pcssoal. rnâs uma
hercsiâ mcsnlo. quer dize( o sujcito lundou outra rcligiat)
E nào esqucç:rir o scguinte:queoúnico tãioruDilicânic crâ a lgrcja
Nào se tin ha o Esiado org,rnizado. lsso quer dizcr quc â dissoluqáo dâ
lgrejâ scria o c.Los lotall Não sc tillhu unidadc administrallvâ, só uni
dâdc rcligiosâ. A unidâdc rcligiosâ eÍa Í) fator ârbitral enirc os vários
podcres espalhados pelo mundo. Sc cstc poder arbitrâl também caíssc,
bom, cntáo cra â guerra loial.

l\lLtro Duas ttls me üierun à cabeEt con rclaçoa a islo


paqu
dqui A phneiru é a se&uiÍúe: na caso da hetesia, qual é o espaço quc
se dara à possibiLidade de que o hercÊe . l
Da prcsação dâqrilo? Nenhunâl

lAluno: lvro] ri8o. que o heregc pudesse co l)encet o inquisidar


da adnitido isso?)
sut) posiqaa? Iaru
Cl o que era adn tido! Mâs sc clc conscguisse plovâr aquilo. en
taro a lgrcjâ iâ tcr que mudar dc opiniáo, â lgrcia inieira. Quer dizcr

se o cara cstá cello. ele vâi prov que eslá ccrto, c dai ele l]hcgâ aqui
"É verdadc isto qUe vocô lalou. Entâo. pronlo. pâssamos
a pensar assim" Vcj.r, os conc,lios craln exatamcntc isto Os concílios
sao urrâ longa e cornplexíssimâ fixâçio do dogma. Sar dcpois dc cxaus
tivas discussóes dizcm: "Bonl, agora chcgâmos à conclüsáo de que o
nesócio ó assim... .

+8
lAluno: .)4 sela, 4í nào seria uma ameaÇa da oultu
porque ent

101pa o edilícto i Lein adetia...l


O. oil'i'io rrl'
jro,,u v!i loo, rrurrüô',u rr'r" \ ri ninB' crrr' í*' c'lu(
a o ponto Porque, sc o suieito cstá ccrto, às vczcs náo Ú un1â qucstâo
doutÍirâ1, pode scr alé u nra questáo pàsioral. cc'rrro, pLrr ercmplo' qüan_
do su€cnl €ssâs ordens mendicantes, o negócio dc São Francisco de
Assis. Um suicillr lnaluco ioga lbra lxdo o quc tcm. 1em visão dc lesus
C slo. tàz curas c vive. assinr. umâ vida crTênle. BLrü. clcs qüercrr
lxzer isto, estáo chamando pessoas pâÍa Íàzcr isro. Pode ou náo Podc']"
Nío pocliâ, âtó uDr ccrto plrnLo rrão podia. porquc nunca sc linha lciil)
i'.o. O .l,rc o. Jrd lal.' \ri -rc li .. ur'\ rnc( u P"fr. I nlJÔ' I rr'r''
",'r 'a
pode adnlitir à exccç,Io. r1ão lern cxceçao. Sc o negócio é ccÚo é cedo'
A lgreja inleita tcm quc aprovâl qucr rlizcrr o proccsso complicado,
intci rrhâ.
'
a lgrcjâ só sc lnove

lAlr]no: Mas ela adntite tma espécie de sefii'efteção. ttu caso


dL'

s ieito se slbtnelet mas co Íin ar con a tltiuida pessoal?l


CIa.o. admlle â criceção tcmporáriâ. nras sabeJrdo que' no lim, 'lr')s
valnos tcr quc â.crtar esta coisil âquii podc scr ctaqri a duzcntos anos'
nlasllolim vàmos t€rquc cbtgar â umí conclus:]o Àlélávocônáoiclno
,liFiiô.lii ensinar isso oorno LioLrtrina da lsrci.r. Vooa pode dizcr: 'Iu acho

assim. assirn, assil ' , mas, sc colrcÇâ â tnsirâr isso cotüo doutrilxL da
Igrcja. cntâo sc âuturoncou Pttpal O prohlcma (r'n â hcrcsiâ ó cstc: não
ó que o sujeito tcm Lr â opinião difcrenle, nàoi é quc cle adota por sua

própria contâ, a(luilo corro opinião dâ Igrcjâ, cntào elc cstá qucbrarclo
r rr,,:,lrrJ. rlJ l! r' 4 . r, -L]ánd', utrrrr. ' l. . rrrrr , r"J i'rr'1rit^'

o coisa quc
ÍA1úo: Untàa, na medi(lll en que ele altnlasse aLeut
Íosse canttátia à douítirulgercll, fias afitnasse úquilo
ca]lto posiçci.:)
pes:;aal e 0o como 0 posiçàa d4 lqteia, isso era utno coisa.- l
Isso náo sócrâ accitávcl, como crao tecido davidâ mesmo; eles vivian
ncssc iipo de discussóes. S,ro bilhoes de queíóes que esiáo ai abcrtas,
prâlicamenle tudo em âberto. Aos poucos é quc, nos concilios, vâi se
fechando. Depois dc muitas c nruitâs gcraçôes dc discussão, dizenr:
"Bom. âgora nós já chegamos a uma conclusao". E se é um ncgócio quc
arriscâ cÍiar a guerra, criâr problcrrâ mcsmo, podc-sc apelâr à âutoridade
do Pâpa, cnráo o Papã dccidc.
Conro ó que clc dccide? Ele se tranca, rezâ, c{nrversâ com Deus...
V.rcês sÂben, hoje o Papâ 1àz isso: 'Ah, tcm uma dúvidâ, nirguém con
segue resolvcr, ninguóm sabc como é que é? Enlaro eu vou perguntar
para Dcus conlo é que é". O que laz? Lle se deita no cháo da Igrcia dc
Sáo Pedro e lica lá rezando âtó achar a soluçâo. Chcga a 6car dias âli.
Lssa é a uma solução mística: "Nós náo sâbemos, hunlânamente náo
cncontrâmos, mas tcm un sujeito que está encàÍÍegâdo disto, c quc
Deus promeicu que, enr câso dc dúvida, dirá para ele".
Se vocô náo âccitâ cssa rcgra do jogo, cn1áo nâo aceitâ o Papa, está
Iorâ da lgrcjal Mas isto âí é em último caso. Se já houve dez concÍlios
c náo se rcsolveu nadâ. então continuâm a discussáo. Sc cstá dândo
brigâ, entáo se dizr "Bom, ailora apela para o Papa". lrntão há essas
duas soluçócs: o Papâ e o concílio. O (oncílio é demoradíssinro, cntáo
às vczcs o Papa tem que resolver, mas náo por sua opiniáo pcssoal. Ele
ten1 que buscar a rcsposta cm Dcus.

lAluno: Prcssupõe se que lambéÍfi üocê achou-o sinceto nesse setl


tido... a cofiunidade lodt.l
Se ele não for, isto é um problena táo grânde parâ ele que é flclhor
que clc scjal Isso, conlo direi. isslr é proble a dele; clc tcnl ó quc se
accrtarconrDeus. Ài Deus lâlaurra coisâ, mas no caminho ele decidiu
lãlar outra? ELl nâo digo quc scja impossívcl âconlecer nrits. . náo ó!

50
A outta peryunta qüe eu ti ha é a seguinte: se a lgreia,
^]üno
dk n de ser (...), também eÍa uma lEteia apan:tío eslaLaL. o ptobleÍna

Nâo, ela náo cra un aparato eslâ1ali clâ cxercia funçôes àdminis-
trulivas paraestêiais.

l{lulto: F.la ereÍcia essas lunçoes e nào (...) de origen, exercia as

I uneócs adminísttlliüas...

E cla cm o áÍbitro cnlreosvários poderes govcrnàntes. Entáoe]a, por


não scr un podcr governantc, pâirava acima dos podcrcs governantcs,
c. crn câso de dúvidâ, semprc se aceitavaa arbitragemdâ lgreia. Ela er:t
o único fâtor unificânte.

|Llüro: Co eto, fias se ela etercia uma l çao kmpatul ista nào
cria essa estrul ra uma tensao? (...))
Claro que criâl É evidentc que cria, mas náo llo scntido enr quc
criaria hoje. Porque. hoje, sc o suieito tcm uma idÉiâ c vocé olercccu
um empÍego pâra ele, elc iá eslá com um problema imediaiamcntc. A
ruptura cntre as crcnEas e os intcresses virou umâ coisa nonnal parâ
Ilós. mas, ceflamcnte. nessaópoca nio era assin Aléquc issochegâssc
a scr conllitivo. era muito tcmpo Veia você, náo se adniiia, na ópoca,
que existissc um domÍnio prolaro de direito próprio; 1udo, de certo
Inrpériotambé . o
modo. cstá inclüído na sociedadc sâgrada, o rci e o
impcrador é sâgrâdo pelo Pâpa, entáo clc também cstá investido de
autoridade divinâ secundária as cstá.
Bom, daí surge o problema. Elc diz: "Bom, csperâ aí, autoridâde se-
cundária, mas, a pârtir do momenio eln qucvocê me sagrou inperâdor,
agorê náo é mais com vocô que eu convcrso, agora ó com DeÜs. Agora
eu §ou impcrâdox náo vou perguntar para vocô conlo é que dcvo goveÍ
nâf'. Surse aí um probleÍrâ gravíssimo: o inperàdor está vinculâdo à

5l
autoridàde papal tllr ele ó uma iolrtc dc direilo próprio? Por cxcnplo, a
monaquiâ Írâncesa tona esir scgundí liireÇáo c dir:"Náo. o i perador
tLpârtirdonroncnto en1 qu c clc é sagÍado. llcus o inspiral ' Lnráo pode

slrgir um nromcnto em quco Papapensa umacoisâ, o imperadorpcnsa


outra e vâi seguiÍ a sua própia cabcça.
Vcja, é inporiântc vocô cntcnder quc, hoic ern diâ, é dliicil pâü t)
cidarlâoco Lrn imaginar o quc lenhâ sido islo. porquc ele imagina esses
con|itos douirinais conro os lonllitos doulri ais que sc icm deniÍo dc
um pârticlo políiico hoic, Por cxcnlplo. quc tc]n qtrc rcsolvcr rÂpidâmen
re para a eleição scguinie ou tem que làzcr uma rcvoluç,o. Náo. tsses
contlitos potl iâm durargcrâçôes intciras:nirguónr cstavà c.nn ple§sa dc
rcsLrvc. Essas corrcntcs não 5c translorlnâvâIn errr propostÂs dc âç:11)
lrnclliatânlcnle. nrncâ havia isso. l-lssa aLrbiçaro Llc voca irvcntar otrtro
.ründo, outra sociedade, isso náo hâvia na cirbeça das Pcssoâs.

l|lrno: Oú sela, essa rcLaúdade cansistc ..)


Qucr clizcr quc o choquc cloutrjrraL crâ nmilo lrrcrlos clrâr ático cto
q c hojr Se você in,aginâr por !\cmpio, quc dcnlro do Partido Co-
munlsla ürr slrieito dissc unrâ virgulâ lora. clc tcnr quc sc desdizcr nL)

dia seguintc. ou. cntào. 'rrÍis o fuzilârrcs''. Iror qlrô? Porquc tcnr prcssâ
pam rcsolvei as coisas.
Nao se csqucqâ quc â Íormaqáo da lgreia foi nrujlo lcnta. Nenlrum
grupo lrurnâno tinha mcios dc açáo paú sacudir a§sirü, â Euroira ilrtcirâ.
únruILi, inl.jr', \a,,.i,lr'r'Scnz.*(ur ratu'lrr\'r'i.'r''rrrr'i ''in'.'!
rcgionalquc IIâ cidadcvizinhaningüónr trcm ll"!x (âh'rÍIr EnlÀo
'ão
lra\ iu , *â tr . J .'.\r ur,\'nJiJ q r' ',r uepi\.

lAluno: f...) essrs lurçdes admi isttãtitas oü pataadllliListtdttuas


nlio podetiaÍt cotlslihtl tenhções à próptia:iacie|lade! Setia una
Poderiam, nrâs a fâlta delâs também podeÍia
Vcja. o lãto de a lgrcja teÍ uma funÇáo parâlclâ ao Estàdo e coilto
que de tiscaldo llsiado, bom. "rcprcscntâção ' represen ta. l i a do mongc
oriental? "Eu não icnho nada quc vcr com lsso, o imperador cortou três
mil cabcças, rnâs isso é problel|ra dele." Não é terÍação iânlbém? Nâo
orcioque exisla um a situ ação cs pccificam ente tenlâdora. tudo pode ser
bom e tudo pode scr ruim, dcpcndc do momenio, do jeiio quc as coisas
lôm fcitas. PorcxeDrplo. â confusiro que surge no mundo bizântinoem
torno do culto d:rs inragens. Morrcu gcnlc pra caramba nesse negócio.
UDrí lâcçáo achâva quc crâ parâ ter culto das irragens, outra âchava
que iinha qüc âcabar... Por causâ disso noíeu muiiâ gcntc. Por que
..onrL(cu i\!,' Liún,,,.,o rinl,i uIr nnd, r uril rdd,'r prrJ ui,/er -l:
assin' ou "N,ro é assim '. ou "Cala â boca, burrol", ou "Não sâbemos,
só vâmos resolver no próximo corcilio; âté lú você ten qüe scntâr c
esperâr". Não tinha isio. A fonníçâo .le tacÇões lá foi muito mais lãcil.
Pior: aslãcções,láo logo se formâvam. gânhavan âpoio râ corte, entáo
tinhâ apoio aÍffado
AqLri era dificílimo lãzer isso. Quakluer dissensâo dcntro da lgrejâ
Cat(ilicâ ocidental levavâ lnuito icmpo parâ poder se n1aleÍialirar nu
conlliio. !i, nole beÍr, quando surgc a Retbma protestante, quâl ó o
público iriicialâ qucLutero scdirige? Os principes, náogcntc da Igrcia
Elc atâca a Isreja de fora, ganhâ um público forâ e ataca. Por que isso lbi
possivei? Porque os príncipcs iá tinhârn aprcndido â ler e conreçâvam
a ler idéias iambém. Sc fosse erplicar unlâ dispuia ieológica para um
senhorfcudal, cle nâo iê nen entender Náo sabia [cr, náo acompânhava
esse negócio e não queria sabcricntáo, nãoia enlender nada, náotinha
posiqáo algunra. Elc dizia: "Não. isso é problema dos pâdrcs, o quc cu
tenho a vcr oon isso?". No nundo bizântino, náo. a corte era lettadâ,
estnvà cheia de lilósoÍosi cntão, sc surgia unl problena na lgrcja, logo
os lilósolos iam qucrcr dar pâlpite.

5.1
Mais iarde, no Ocidentc, quando se fornra unu arisiocrâcia iá
ctidí â letradâ. âcontcce a mesma colsa: a aristocracia comcça a
trnnar posiÇáo nâs qucstóes roLigiosas. A Rcn má ó frDn' disio unla
discussáo religiosa que saiu dc denlro do âmbito do clero c ganhou a
adcsáo da aristocracia. Isso seda diticílimo rlc sc lazer durânte â ldade
Média. Às vczes podia âié:rcontccer, mirs náo coú esta ânplitudc, com
esia grâvidâde. Primeiro porque a aristocrâcia cstavâ Íadicâlnentc
dcsinteressarLâ dcssas qrlcslôes. Enl geral, §eguia a lgreia. F- iâmbém
porque estâ ârislocraciâ, sendo dc lormaÇáo bárbara. conservavâ uma
espécic de lernor anccstÍal corno se fossc âos druidas. Os padrc§ erâm
os rcmânesccntcs alos druidês. Tinhâ rnedol Erâ unr lemor irracionâI.
mâs iinha cste lundo. Entáo. â ligação da âristocrâcia conr o clcro eÍa
n1ais dcsse tipo mágico do quc outrâ coisâ.
A pârtjr da hora e
quc os aristocraias comcçanr a ler livros, comc

çam a tcr suas opiniócs. Isso náo quer dizer que IIâ ldade Módia não
pudcsse aparcccr um ou outro ariíocrata letrâdo; claro quc podia. mas
a classe como tâl era fcita de ânallabclos. Acho que lbi hollível. nuncâ
dcvirm ier cnsinâdo os ârislocratas â ler. o sujeito (]stá âflrado até os
dentcs, âinda vou cnsiná-lo lerl Claro, cIa Inelhor âssiln: "olha. 4Lri eu
a

nãonrnhoârmas. lnas cu tenho con hecimento c tal e o carâ merespeita".


E, dLr oütro lâdo, o suicitir eslá armado. então sabe: "Bom, o pâdre, a
ge tc vai seguindo. mas sc o pâdre comcçar a rnc cncher nruito, vo 1á
e coúo a cabcça dele' Acho que tinhâ unl equilíbrio rnelhor
q uc â ârislocracia comcQâ a dâr pâlpite, primcir')

^pariirdahorâenr
surge uma filosofia horroÍosa. corneçâ Dcscaícs. I Iurnc, etc ,
Quândo
há uma filosofia tào tosca c táo imbccil, se corrpârada com o nível âl_
cançêdo ân1cs...l_oi uflr vcrdadeiro dcsâslre lllosófico. Il o quc eu châmo
a "paÍalâxc'. Pâralaxc ó Lr següintc: o suieito está vendo uma coisa na
suâ vida real, ncntal elc vê oxlm, c cscrevc sobre esia,
âs na suit lela
âcrcalitâ nestâ. Isso quer dizcr que clc esiá construindo uma obÍa dc

5.1
ii(çio, porque só náo é licçáo âquilo que ve ros desde a nossa pessoa
rcal; poriânh, o qüc assumimos intciramcntc. Sc é uma coisa quevis-
lLÍnbro só numa tclinha mcntâI, princiro, cu náo vcio aquilo o tenpo
t(ido. só vejo quândo penso naquilo; segundo, pàra eu me transportar
pàra aquele mundinho, preciso cntrar num cstado dc cspírito cspccial.
exaiamcntc o mcsmo cm quc cntro quando vou assistir a uDra pcçâ de
tcâtro ou sejâ, concedo uma crcdibilnhde lenporáriâ r âlgo que sei

'lu( nco pu\\l, ler.rr lulrlnr(rle J s(no r13 F r lámô:J


no r(.rânle dJ !
Irorâl provisória dc Dcscartcs: "Vou pcnsârr coisas aqui, nÉs no fun-
do nào vou acrcditar porquc, sc eu âcreditar nisso, cstou louco, enláo
continuo vivendo de acordo com umâ oulrâ morâ]".
I-sse desmenrbrâmento entrc a pcssoa rcal c o ego pcnsaric faz quc
c,r loda a filosofiâ núdcrnâ. quasc quc sc)n exccçâo só veio duas
cxceçócs, que é Leibniz c Schclling , etes estâvâm iodos brincândo
de construir obra! de ficçáo, e nerD sabiam pelceber a diíererça enl.e
umâ obra dc ficçáo c a filosofia. Isso ó unl dcsâstrc filosófico fora do
riolruml Só quc só âgora a gentc pcrcc'bc isto. a humanidadc inteira

lAtuno: E ã Íibsoha cotltenpoúnea?l


En paÍtc sctcnl o âgrâvâmento disso até suâs últimâs conseqütucias,
que éi por exe plo, esse negócio do desconstrucionisrno; e, em pa{e,
se tenluÍra tomada dc consciônciâ, quc iá aparccc, por cxcmplo, cm
umâ ncccssidâdc dc sc reinscrir o nundo do conhecimcnto filosófico nâ
responsâbilidáde reâl d() sujeilo erisienle, que é n lanoso lebe szrell
dc Hüsserl. Qrando Hrsscrl tãla lebelrsurell. csiá qucrcndo dizcr isto,
quc as idóias valcln na mcdidâ enl que cstcjam afia\gadas ro mundo
da rid|, ríu podem ser douiriràs construídas no ar 'lbdâ a escola
cÍistcncialista ó unr proicsto conlra isso, contra cssa âlicnação; ai.da
quc scjâ unl protcsto crrado, ela é isto.

55
Por outro lado, ten1 se o agravímenio extrcno disso, que chegâ ao
desconsirrcionis o, quando Jacqucs Derrida diz quc nm iexto nào §e
relêre a nâda Iorâ do tcxto. só sc rclitre a ortro teflo, quc sc relêre a
oütro tcxto, que sc relere a outro texto. . É olaro que, rum icxto. locô
sempre encontra retêrÔncia aolrlro, a outro. à Lrutroi scnPre, clâro. Mas
àco lccc que. paravocôler o primciro texio, como é quevocê 1ãz? Você
só pode ler mcdianle a idéiâ dc umâ relerônciâ cxterna quc náo é iexto.
porque §elrão, pârà ler o primeiro texto, você iá teria quc ter lido todos
os iextos. lsso qucr dizer que Jacques DerÍida pode âprescrrtar csiâ te-
oria na Univcrsidade. cscrevcr um montc... Mâs nio podc lcr um úrico
livro baseado cm sua teoria. Ele.ao podc praiicar â tcoriâ no scü at.'
de leitura, é inpossívcl. a alionaçào. a rupturâ cntre o suicito real e

ocu rilu\uli.orhcgr,u ruma\inr,, .hegôu "opdrú\i.no
É clârc q c o sujeito esrá oompletalnenic loucoquando diz unrâ coisa
dcssàsi Só quc é !mâ loucura soclâlmcnte âdnriiidâ. Por qué? Porque se

montou um aparato universitário quc é üm ccnário no qual a§ pessoas


prccisâme ie dcscmpen|am o pâpel do "eu filosófico" Oscaras que com_
(cus
paÉcern â con$essos de fi losolla não sáo pcssoas de câIne e osso, são

losóficoJ' invost idos dos seus cargos. en1áo lá clcs podem dizcr abestcira
fi

qu\ qui.(r!r r. ( quJl JL, \"o Dard f'r'J elc! \"lidrn J \er nt sn'rt ror.r âr\.
Quer rlizer, nax criârnos unr tcal nho mentâI... ljoneça conl o teatrinho
mentâlde Descades, deMaquiàvel, ctc., e lermina com unl teairc montado
com dinheiÍo público pâra as pcssoas brincarcn dcssà coisa.
Por exemplo, onlem eu cstavâ ialando do iivro do István Mészáros,
Paru além ào .upilal,t ün livro de il páginâs. O süjcito começa dizcn-
do o seguinte: "Olha, o capltalismo é um regimc totàlitáÍio, porque ele
obrigou lodo mundo produzir ou perccer, todo nlundo cstá cnvolvido
zr

na produção". E o senhor? O senhor náo lbi dispensado da produçào


parâ se dedicar a tarclãs intelectuais? E âs pessoas parâ âs quâis o seDhoÍ
cscreveu este livro. também náo sáo todas assin? Ê as pcssoâs com as
-,".""-,,,,,''''''-
§6 Sào l.ulo I loi teÍrpdtrnicaDrp. 2 002
quâis o senhor eslá disculindo a idéia? E toda cssa inielectuâlidade
mundial que sc âhncnta dcssa idéia, náo lbi precisamentc dispcnsâda
da pÍoduqão para poder sc dcdicar a isto? Mc lnostre algunr outro sis
tcr a cconômico que lenha dispensâdo mâis pcssoâs rla produqáo. uÍi
sistenlâ econômico quc tivcssc uma mâis váslê clâsse ociosa do quc o
tapiialisnro. lsso quer dizcr o següintc: â condição socioecoÍônlica do
Sr. István Mészáros desrnenle o quc clc cÍá cscrcircndo. E, rnais ainda:
se ele âprcscnta jsto num congresso de lilosoliaou disiribuio livro para
milhares de estudantes êcâdêmicos. â condição social de lodos eles des
mcntc o quc clccstádizendo lln tAo. náo podc ser na condição rcâl deles
,t-. rlr. pL n.rlr ouâI.ln, .rau ,l', .\u rrnrq-e{.uu[àcni\a. I
'li/.1
nrr capitâlisrno i venlâdo, o qual coincidirá coln a rcâlidade em ccrtlrs
pontos, natumlncnic, crcelo no ponto ondc cles cstào.
Quândo cu crâ molcquc, tinhâ uff poelliinha que a gcntc dccorava
c qnc lalava: 'A ltlicidadc é uDra árvore dc dDurados pomos: ela está
scmprc ondc nax a pomos. e nunca a pomos onde nós cstâúros". Olha,
o nundo dos filósotbs modcrnos é corno a Íelicidade do pocnrinha: â
rcalklade está onde vlrcê a póc. mas vocô nunca â póe oüde está. lle,
suhado: vocô cstá tãzcnrlo uma obra dc iicçAo Gârânto quc SóÍocles.
llürípides ou Shêkcspcârc iânrâis prcicndlrrarn estàr dentro dc suâ pcça
i la.. . l,ui assisiir â
com o os perconâgens. Se você pcgâr unl a pcÇâ, ass ist
rlrr o(r , dc shdl\cçp.a.c I
pn\ urci tvncur.i nir.
.1r:rirrdr U,, /o: I I r.
tnlha Sh akespcarc âlgum. Nao óâssiIr queaclrntece? O Dr ndodcscrilo
por csses lilósoibs Lodos é ulll D ndo no qrâl eles nurca estáo, quc é
cxatamcntc o conlrário do que laTia Agostin|o corneçê por
se rcsponsabilizâr c dizcr: "Olha.
^gostinhol
quem está enlrnciândo isto sou cu,
Agosiinho, que levei esia vida âssirn, âssim, e cÍoll dizendo por causa
dcssâ cxpcriência toda que eu vivi'. tàziâ â nresma coisa,
^ristótclcs
Plaláo iazia a mcsrnâ coisa. Sócrâtes làzia a rnesmâ coisâ. oscscolásticos

todos laziam â mesma coisâ, c clc rcpcntc se perde lstLr.


Veia, qudndo os cxislenciâlistas começâm a cscrever livros ülosóficos
sob a lbrma, por cxemplo, de autobiografia ou de corrfissôes íntimas,''

Quando Kierkcgââtl ficou hormrizadlr com aquelâ construçao dc Hegel,


cle d;z: "Tudo islo ó loucurâl Eu tenho quc vera salvaçáLr da minhaalmâl
E eu, onde é quc csiou nisso?". llssc prote§to é aulênlico. Kierl(cgaard
Íãosâhiâcomo sâirdessa. os ex istcncialisias lodos também náo sabian.
mas que o lrotesto cstava ceÍto, cstâvâ. É o lalrloso negócio de Migucl
deOnamüil). F,L homb/e de car ee hueso,caó(:l Esse homcm iilosófico

d e quc vocês falam Dão cxiste. É como o pÍotcs to do Irranz Roscnzweig,


qucdizia: "Eu nào qu cro nnda dcstâ convcrsâ, querco lleus dc
^braão,
lsââc e Iacó. Aquclc falâvâ comiso. vocôs cstáo lalando dc um negócio

ly'i1rno: Aptot)eitando o assunto (--.) de d.iÍeeão, isso e Lenbru ('--)


ele comeQaüa citando uma ft.tse ào Leafidn Kofidet (elt achei uma
pércLa), qüe àiz o seguintc: "No sécülo XXI' faremos mdis utopias,
poryue sen utopias Íicatnos ptisíoneircs da teaLidaLle".l
l:1, acho quc clc tcrll toda a razáo. Acho que aquclc pessoal todl)
Duncacscreveu uma ún ica palavÍa sobre a rcalidàde, porque a rcalidade
só está ondc você está. Naro é isio?

ÍAluno. Si,r. MLs eLe lalou.. I


Sc você escreveu dc umzr coisâ que e§tá lora do seu cÍculo de e{_
periôncià rcal, da sDa biografia rcàI. então nad é rrnrí rcalidade é uma
lipótesc. ó umâ possibilidadc. l\4 as ó un1a possibiiidadc quc, Pclo simples
lãto dc poder scr enurrciada por você, pÍova que rrão se realizou no scu
caso. que esta parâlâlc üra o "modlrs rdc iocinalldi" do ltósola
^contccc
Mas sáotodos malucosl É porissoquc, quàrdovocê lê David
moderno.
ILümc ou l)escaÍes, scmpre sentc que ter âlglr dc csquisito, que elcs
esiáo exigilldo ale vocô unla atitude mcniai que náo é a sua' E quando

5ri
lô umAristóteles, iem a scnsaçio exâtâmcntc conlrátia... Não é assinr?
Aristóteles ou sanio Tomás de Aqüino, olr o própdo Lcibniz...
Quando LcibDiz diz para vocô: "Olha, erhüm obieto real podc se
reduzirâ pcso e medldâ", vocêjá náo sabc disso? Todo mundo sâbcl Ele
csiá lãlardo desdc suâ experiênciâ rcal M.Ls qüando Espinosâ chegâ c
diz: "Olha. o conhccjriento por cxpcdênciâ náo cnsina nadâ: nâdâ; o
qüe está na crperjênc iâ é tu do bobagem, sócxisic aqul âdeduÇáo purâ",
vocô sabe que elc cstá nalüco (
). Você accil.t â prcorissa e conlinua
raciocnrando. vô? E, lá para adianic, ele crioü uma construção táo bo
nilâqücvocêficaextasiado. Cornoobrâdcartcâquiloéum símboloda
reâlidade. e conro tâl cla luncionâ VocÔ lcr Espirlosa ou lcr Descàties
é Lrmà erpcriôncia esiética; clc nào vai lãlar nâdâ da realidâdc. mas
ântes vâi, dc cerlo modo. cnriquecer sua cxpcriancia e âirâ\rós daquilo
vocô rcparará ern aspcctos alâ realidâdc que náo conhecia antes. llntáo,
rão se podc dizer que [oi tüdo tcmpo perdi.lo Só fica perdido sc você

acreditar que aquilo é .câlidâde.

l^luno: Una íLúüida: naa kt obiclos tlo conhecime to q e sàa


luito ambíg os, que sào.. o co|1ÍdÍo dieto é tltlilo dilícil, assiúl,
estabel"cer fia ittíeLigênciu ptitnátia ta lo nlttiot?)
lssol A csscs. só se uonhccc por cspeculâqao. Só que, qüando vocô
esiá fâzcndo espcculaÇáo, sabc que em cspcculâçío e, portanto, sâbe
quc sobre aqueles obictos vocé não vai alcânçâr ceÍleza algumâ; vâi ter
no máxinrô uma cspeculaçao râzoávcl. il o que tazArisióteles, qüe diz;
"Olhâ. isso aqui náo dá para conhecer dircito, mas deve scr ais ou mc
oos assim '.lá o filósolo moderno, não, clc enlra de cabcÇâ, juslamenle
ai que ele cntra. Quando Espinosa diz: "Olhâ, aqui nào dá parâ você
saber râdâ por experiônciâ, nlas dá pam sâbcr o que se pâssa ra mcnte
dc Deus"... ora, â mim Dre parecia quc crâ o contrário. até o monenlo errr
que eu comccci a ler esse livro. 'Mâs. enl'hr, você cstá dizendo, \,ârrlos
iopar para vcr ondc é que chega isso" e daí vocô coniinuâ lcndo e o
negócio lica bo ilo nrais parâ adiantc.
Vcja. quando o Dr Frcuci, por e\cnlplo (quc já está bern na ponta,
. uIia\,b\nr u\àn'rJu Jr purrlJ'Ll Ji..( quc á .ô,,:cr, n. ia \.rn.
plcsnrente é urn subproduto do inconscicntc, mâs qLre, depois, faTendo
psicirálisc, vocô rclàz o trajcto todo e a consciência ganha cntão o
inconsoicntc, quc agora pâssa a ser um conleúd() do conhccinrcnto psi-
canalítico. clenunca nre cxplicou c.nno é possívclcomcçârâ psicanálisc.
Porquc o segundo psicanalisado cu já enlendo, vocô psicânâlisou-o. E
vocô? Como ó quc vocô ltz esie lnil;rgre? Padindo dâ consciônciâ, quc
c apcnas uln subproduto clo inconscientc, vocô o abârcou rctroativâ
lnenre. Você ó unr camnrÍiio podcrosol Sc a Leoria do Dr Freüd ó rcâl,
a psicanálisc ráo ó possivcl c sc cla é possí,el, é porquc â tcoria cstá
ILlrâda cnl algum ponto.

ÍAluna: Frcud se Lobou actma du ca cliçào hüfiana.)


Dlc sc cohca âcima da condiçaro hurnana lripol€ticârncntc. E o suicltt,
náo podc tãzer isso sem licar iouco Vocô vô, mâis lârdc, todos aqueles
sinds dc paranóià quc Irrcud tin1llr, i)bvios sjnais de pârâla)ia, achâr
quc todo nrurdo cstava conspirando conlü ele "Náo só qucrcN me
dcrrubar. qucrcm me destruirl". Digo: "Vrcô irlvcntou cssa hiltória,
cstá ficândo clolclo por câusa dâ maLuquicc que invenlou e se trâncou
lá denlro. Vocô sc 1râncl)u nâ jaulâ c jogou a chave i)m".
E uur proccsso de alienaEío nresmo. gravíssi o. c quândo chegâ
ao sóculo xx... Quando chegâ no sócülo xx, aliás, já nL, sécult, xlX.
Acho que Kierkcgaard ó um dos primciros que tonra consciência disso.
Vocó vô urn lticrkcgaard. unl Nlisuel Llc OnaÍruno, um Franz ltoscn
zwcig... Ilosenz§cig, no rneio da gucrrâ (clc cm soldâdo na gucrra),
rqu(Lnu cLl.r', l:r.oil. uliih.. u ,^ruu J,tui: frrJ q,. \or nr.\r\ I
René Dcscartcs ncstâ hora? Se alglré r pode mc tirâr da cncrcnca, é o
lclho Dcus dc Abraão, Isaac c Jacó; entáo é Ltessc quc cu vou lalâÍ, o
resio náo intcrcssa". Qucr djzer que toda csiâ filosl,fiâ é umâ cspccu'
laçáo, é uma alicnàçAo. llle tarnbóm nào sabe como sâir dcla. nào tem
ouUâ proposla. nras a qucixa a intciramenie iustâ.
Muitos camaradas nessa época dcsistirâm da filosoliâ. Porcxcmplo,
Lr negócio dc cscrcver rornârrccs, cscrcvcr pcça de leaim, como Gabriel
NIârrcl, o próprio Jeao-Pâul Saúrc, é uma exprcssáo dc um desejo de
sair dc diinlro da armâdilhâ filosólicâ e recnconirur o nundo dâ vida.
\1,\ .snna{,pod, \.rlei.ô4.'1\,.J ,brru(J rL fôr qu,J LqL. l;iJ
obm dc artequeprcrrdouvocô lá denlro.loi,r rcdução da filosoii.r à obrâ
dc alte que prendcu vocô lá dentro, enlão ráo âdiantâ lâzer ouira obrâ
de arte. o burâcLr é rnais cllrbâiito. c só é possível sâir disso mcdiarle
â dcsir içào loiâl da lllosofiâ modenra. lijm quc cxplodir tudo e dizer:
''OIhâ, isso é lLrdo llcçá{). Tcnr o vâlor de licçao, c mâis nada".
Ni€izschc qucriâ lair dessa, s(i quc invcntou ouira piol: Por quô?
Porquc nâ hora em que dcscobre csta prisrto, elc âcrcdita que tbi iodâ â
tradiEáo iilosólica qrc o colocou lá clentr.r. c náo stj â DrLrdcrna Enião
eie qlrer explodir tudo delcle SócÍâlcs. Uns visâram u alvo pcqucno
dcrnais. Nietzsche visou um grân.lc deuais: "Não, vou cxplodjr ludo,
dâí só sobra eu". Não, nâo ó possí,el. lilc qucr cxplodir a lilosoliâ e rnais
o c
siianismo c mais nio sci r) quô. A qucixa lanbém é legíiima, Illas
vocô achou nuis culpados do quc rcâlIncnte cxlstiânr, cnráo exagerou
um pouco, não é? O próprio tQrl Nrarx, quando diz: "Os hlósolbs sc
lilnitaram a intcrprctâr o nmndo. rrâs o quc inporta é liansforrná_ki',
cle eslá prdcstando cl,nlra.r prisáo modcrna. Ho que ele fâz com isso'l
Em voz dc descrever a prisão. descobrir ondc cstâva a sâidâ e estourâr os
mLüos dessa prisão, clc pega c ilvenlâ rm modo de ação qüc conÍitui

Todo esse pcssoâl scntiu o problema ceÍ1o, mâs. cn1 vez de e\arniná
lLr coú lodo o cuidado... Por exernplo. vcio con1o üm Rosefizwcig ou
Lrm Unâmuno podc an ter dcscobcÍo a solução se quisesse . mas o
desespeÍo era tarnanho, o desespero que sâía de dentro dâquilo eratáo
grandc, quc clcs apelârâÍn Rosenzweig o que Lêz? Disse: "Olhà, nâo
qucroDrais sâbcr dcsta coisâ, vou voltâr pâra a sinagoga .". Isso é deses
pero 1o1al. lsto náo é umâ soluçáo. Outrospartcm pâra â iracnmalidadc
tÍÍal, mas issotamhónr náoéumê soluçáo. A slrluEáo é aseguinte:você
está conr um problcma nâ máo: o pmhlemaéque a lilosolia lIe prcndeu
dentro de unla caixa prctâ, cntâovocô tcm qucvcr como ó qrc montarâm
cssâ câixa prc1a, corro é que ela loi rontada peça por pcça: e daí você
âprcnde a dcsmontarl É criatamcntc isso que eu estotl tentando lãzeÍ
hú dez ânos. Estou tcntando náo, âcho quc iá conscguii dcscobri a
chavc do negócio Sei onde é que a coisâ virou mesmo umâ arnudjlhâ:
virou iustamcntc na horâ cm que a responsabilklade pessoal do lilósolb
virou uma coisa e a sua rcsponsabilidadc iniclcciual virou outrâ. Ai é
tudo mcnllrâ, prssa a ssr tudo mcntira, ó tudo ficcional.
É a furnosa pcrgunta quc fiz sobre Maquiavel: Mâquiavel clescreve
o principe c diz: "Olha, o principc dcvc subir na vidâ alcanÇar todo o
poLlereDralar lodos aqueles queoajudârâm". Masqucm o ajudou mâis
do quc o sujcito quc cscrcvcu o Ínanuâl para ele lazer isso? Se seus
ensinâmcrltos fosscm aplicados. clc scria â primcirâ vítimâr "Maiarnos
Mêquiâvel e queimàmos lodos os exenplarcs do iivro parâ ninguénr
cntcndcr". E cstâ pcryuntâ náo lhe ocorre !lm único omeirtol lile está
filosolando nurn príncipe hipotótico nunr palácio hipotético dc invcnÇáo
dele, nras no qual ele, Maquiavel. náo cstá lá. circunslância política
quc clc dcscrcve não ó aquela que o envolve. é^Lrma quc cle inveDlou.
Êntão, é claro que csse príncipc dc Mâquiavcl náo cxistia. náo vcio a

e\istir, e se ele livesse exislido, rós jamais tcríanos ouvido lalar de


Maquiavcl.
Náo é unr erro universal, nào c uma "culpa univcrsal", como diz
Nietzsc|e. Porque Nietzschejoga àculpa en1 todomundo: todomundo
é culpâdo, menos elêl ora, o ncgócio está ruinr, mâs nâo é possível que
ienha que mâtar todâ a hunanidâdc pâra sobrâr só vocé. flsse é um
brlrtal cxagcro. provavelnrenle vocô cstá inculpândo inocertes. Acho
quc Sócrates erâ inocentc, quc Plâiâo era inocente, que AristaÍclcs era
inocente Maschcgaumpontopamadiantc cm quc conleqam á aparecer
os culpados. E os cândradas que tcntarr sair dc deriro disso e constrocm
tlma prisáo pior àinda, como ó o câso dc [(arl Marx? Com clc, a prisiio
dcixa de ser umâ prisão intclcctual e pàssa a ser o Galdg, LLmâ pdsALl

Jc \crdi,lc Aquu (..rrn.rr.r.lás trcniad, r. . or, ir'firrrin, o rra7r.rn,,.


como Stelàn Ceorge e ouiros. o quc qucrianl Queriam rompcr con1
o artificiâlismo intelcctual c voliâr pâra o mundo rcâl sob a forma do
"sarguc". O protcsto cra verdâdeiro. mas â solução que inventam ó um
horror E todas âs ideologias iotalitárias no fundosaeÍ|disso: não cstáo
agúcntando mâis a lilosofia modema.
tinião nós tcmos quc nos livrâr dclas, cc(amcntc, rnâs senr injuíi
çâ c scnl oriar proietos rnegalônrânos, c sem slrbsiituir u a coisa pclâ
outra. Não precisa inlentar nadâ, nàLr precisâ criaÍ outro sistcma, é só
desmc,nlar este c voltar ao de selllprc, voliar à normâlidade. A saúde
náo ó um outro lipo dc doençâ; quando sai da doenqa. você voltâ parâ
â saúdc âpenas, não prccisa invcntar uma doenÇa mclhor. Nâo pÍecisâ
criâr n,rda, ó só tirâr o clemenio quc cstá âí atrapâlhando Só que o
sâcÍifício â fazcl é um sâcrilicio dolon)Ír para o orgulho modcrno.

I Atuno: EIe étutoLmenle co,úru o pngrussismo, nao é?l


(i,nrrr u p'ugrc\.rs,In. Af,,rr. urr.t o,rrJ ,lu, .r f.guct p"Í ()rm
plo, é o l-eo Stmuss. Elc pcrccbeu isso clâramcntc, só que não esludou
muito â filosofiâ cscoláslica. Iniáo clc diz: "Olha, só sollrarr Platáo c
Aristótclcs". Mâs iamhórn náo óassim. Clâroque a bâsc continua scndo
P]âláo e AÍisiótclcs. Não se 1rà1à de voltar â Platão e llles
^ristóleles
scnprc cstiveúrr ai. nao se lem que voliâr coisíssimâ ncnhunra. Sa)
tcm que pegarccrios elemcntos queloram cotocâdos dcpois, quc dcrâ r
un1a tonalidade artificial e pucril de lailr à invcsiigâçáo filosólica. e os
rejcitar É isso ai.
E, dcpois,lcnic denronstrarque ês coisas nio sáo.xâtânrentc coffn
eltáo nâ peça. Vocô náo podcl Vocô yaj lá. âssisle Ha,r,l€t, c como ó
que voca vâi .lizer: Náo loi assjnf'? Náo ren1 scnri.lo dizcrquc,,naL)
tol assin"; vocô âceita ou csquece. As filosot'iàs rnodcrnâs lanrbím são
assin: sc você entra nurra delas, accilr intcgrâlmcnt€; e sc sâi, csquece
aquilo. porque viu quc náo lem inportânciâ Náo ó conro nâ ciônciâ.
quc vocé diz: "ou é assin ou iáo é assinr,, Numa icoriâ {:i rrÍfi..
você podc âceitar uma pâde e rcicitar a L,utrâ. Já essas fiiosofias, nao:
ou você conrc inlcira ou náo, ou cnira lá dentro oü náo cntl?. N,L)
tôm partcs. Ea csirulura do sistema dcArisióieles ó talque voca pode
accitâr unr.r parlc c rcieitar outra. sirD, porquc tem â csrluturâ dc !mâ

As lilosofiâs nrodernas Irão sao rcLrriâs cienrÍlicâs dc raneira atgu-


rnâ. lantu que a ciôncia ai sc
tí[Irâ ulna atji,idade scparadâ, na qua]
conlifuam vigorardo os \lclhos critóri$ Se bem quc rão lalrc qucllj
no pr(iprio mundo dils ciônciâs len te rranslornrar êquilo nu rna criacão
licci(,lâl complctinhâ, bonitinha c lal Loria do àig àrlrf, tcoriu dâ
evoluçio sáo isso: vâ ro5 invcntar aqui unla coisa quc chânrânros
dc teoria cicDtíficâ ^h,
nlas ú uma lllosofia, nâ verdude.
ó uma cosruovisão,
na vcrdadc" Essâ teoria da cvolução tambónr ó assiDr: ou você gosrâ
dela ou ráo gosta. Por quê? Urnâ tcoria que cliz rcspcito a rUdo iâ ráis
scrá comprovada nenr jnpugnada. claro. Aí. o século XIX. estn oojsa
ficcionâi ircâba por inrpregnar o próprio nundo (l4s ciônciâs. [niro elr
lenho quc alender ao apelo de Husscrl: ,,Uspcra âí. tcmos quc !ollar
às condiçarcs do co.hccimcnto cicntiÊco cfetivo,,.
nrdo isso já são cspeculaçôcs que dizeni rcspcito. . Maisiardevamos
dcscrcvcr passo por passo. conoa quc cntra enr ccnaesta paralâxe coDr
NlÍrquiavel. l)escartes, lluüe. varnos ver urr por üm.

lAluno: Pr.]lessor; eu quetia sobet se o se ho|tot bém aai laLat


al\u M coisd sabrc Plolü1o, ou se é secundãtia.l
Não ialei sobrc Plolino? lralci da cscolâ nooplatônica.

l^luno:Sr7,, r?.rs r7íris especiÍicametlte o itltpottância dele tnesmo


parc o pellsatnetlto de Agoslinho. Llssin. enb'anda c.n l
Eu mc lcmbro dc tcr fâlado dc Plotino, lnâs não dc tcr cxposto lon-
sârnente. Mâs náo dá pra J.rentc cxpor nada lonsarnente âqni. Vocô nào
pode esquecer que nesl:r exiens:r() dc âula o que ell estou dando é ulna
ârrradura dâ Hisióriâ dâ Filosofia, c náo o scrr prccnchimenio Sc vocô
for prccnchcr cada Lrnr dcsscs cspaços com os coricúdos cspccificos,
dai 24 aulas para um cursl, de História dâ Fik sofiâ ncssa basc sâo uma
prctensáoi nós náo vâmos conseguir isio.
Acho mâis importantc. nüm passo qrc a gcnlcpule, mas quc assinâle
que pulou, dar â vcrdadcira comprccnsáo diâlótica dos pâssos mâis
irnporiântes e esiar conlinLramente arljculando o (lue esli àconlecerdo
nunr icmpo corr o quc âcontcccu ânlcs e corn o que viria a âconiecer
dcpois. Porcxcmplo. cssc ncg(rcio dc Agost in ho: nrrilo nrais importârie
do que detalhar seu pensamento é articulá lt) com o de Itené Dcscartes
depois. porque a t€ma dâ hisiória é csiâ.
Não tenho â firfuirnâ prctensáo de que cslc cuÍso lomeça todos os
elcmcntos cncichpódicos ncccssairiÍrs. Náo, a idóia náo ó csta. A idóiâó
d aÍ u lna armâdura su licienlern ente râzlrávelparâ lnoslrfi que atlistória
da Iilosofia pode ser conlada como unl processo r€al. qlre nem se dis
solvc numa totâl hctcrogcncidadc ncnr tcm â unidadc dada por Hcgcl,
mas len1 a unidâde rcc()nhecível. Por quê? Porque iem uma unidade
iemáiica. E csse 1emâ centrâl é a buscâ dâ unidâde da consciên.ià nâ
LFitúr*§ §u§Errils§

À6e6}.liÉr{4 3 Ío.,41r,í,iúilr, 1'rã,.8n êBo§tuBi Bêlío4a!


§,ân S&rlii: Pi,nqi 1998

t{ei{t'drD1,J: !8d. q!-{E Pêq k ú.


§aâ.Pánlqllitôttna.!úÉí$qi19{4.! !
-
..çi,ú§í.!ê-aad: Frúrêlkooâ]En k*w &sa@.
sÁo &!lD t ibra d<. Aiá'i.áÁ Lgq

Íir,iÍp$ í. *e€Níó" ni)l ntnaÁd.4.t4 Edbn,N44al


^toG. M;dirni 6redôq 1463-.

§,
Dados Inlei'â.ionais de CatâlôgâÇáo na publicacão (Ctpl
(Câmar BÉsileira do Livrô. SP Brasil)

História esenciâl da filosolia /


por Olavo dc Ca alho Sáo Paulo: É Realizaqóes, 2OO5

Contcúdo âúla I Hislória das históriar daÊlosofia-


3úlâ2 O prcjcto soüáti.. nulaJr Sóüates e plaLao
aula4 Arhlórêles aul!5: Pré{ocráricos
aula 6: ttriodo helenGti.. I âula 7: Periodô helcnislico tI
aula 3: Ad!ênro do oúiiánisnô
aula 9: Filosofia pa&hri.â e escolástica - aulâ 10: sanroAsoÍinho
r Sanlo, Bi!po dc Hiponâ, 354 .t3l]
2 Filosóna
^gosiinho.
Ésludo c c.sino 3.lil{rsoia - ttistória
4 FiLosoia . lnlroduçoes L Titulo

Ín diús para catíl.go si stcm árico:

Este liúo é a transüiçào dá aula que


loi gravada hó dia t0de janeitudc2005,
na E Realizâçó.s. em Sáo Paulô - §q Brasil.

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E R.álizaçóes, abril dc 2007.
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