Você está na página 1de 3

PUBLICIDADE INFANTIL SEGUNDO O CDC E O ECA

Importa à análise jurídica a despeito da publicidade infantil, passa


necessariamente ao estudo do Código de Defesa do Consumidor bem como o
próprio ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) Lei nº 8.069, de julho de
1990.

Dessa forma, nota-se do códex consumerista em seu artigo 37, §2º, considera
abusiva e a coloca como ilegal, “É abusiva, dentre outras, a publicidade (…) que
se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança (…)”.

Muito embora haja uma discussão em relação ao conceito de abusividade


aplicada a propaganda, o fato é que tal entendimento tem sido adensado caso
a caso pelos tribunais, contudo a celeuma continua a gerar debate.

Trata-se, porém, de um debate oportuno, que traz à baila a necessidade de


uma adequada regulamentação nessa matéria, afinal os argumentos a favor e
contra são diametralmente opostos, na medida em que de um lado a
publicidade fica vinculada ao desenvolvimento da livre iniciativa sendo aquela
uma forma de liberdade de expressão, e de outro, levam-se em consideração a
hipervulnerabilidade da criança e o princípio da proteção integral da infância,
consoante o artigo 227, da Constituição Federal, o qual determina que “é
dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente
e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à
educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à
liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de
toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão”.

O ECA, por sua vez, vai além, influindo inclusive nas exibições de rádio de
televisão, estabelecendo horário limite para apresentação de programas de
conteúdo infantil, consoante o artigo 76: “as emissoras de rádio e televisão
somente exibirão, no horário recomendado para o público infanto-juvenil,
programas com finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas”.

Vejamos o que tem entendido a jurisprudência:

“TJ-SP - Apelação APL 00356145820108260053 SP 0035614-


58.2010.8.26.0053 (TJ-SP).Data de publicação: 14/10/2014.Ementa: AÇÃO
ANULATÓRIA. Multa. PROCON. Propaganda enganosa e abusiva. Promoção do
álbum de figurinhas "Disney Stars Prêmios". Omissão de dado essencial acerca
da quantidade de prêmios relativos a cromos ilustrados (vale brinde laranja) e
aos demais prêmios, brinquedos, MP3, cartões de R$100,00 (vale brinde verde).
Omissão que induz à erronea conclusão de que o slogan "mais de um milhão de
prêmios" referia-se a estes últimos (vale brinde verde). Proporção real que
corresponde a um milhão de cromos ilustrados e 15.700 dos demais produtos,
de um total de 21 milhões de embalagens de figurinhas. Propaganda abusiva,
considerados o apelo imperativo de consumo e a vulnerabilidade do público
alvo, o infantil. Prática abusiva consistente em fazer uso de imperativos para
utilização do CPF dos pais no cadastro do vale brinde no site oficial do produto.
Infração aos arts. 37, §§ 1º e 2º e 39 do CDC. Imposição de penalidade de
multa consoante os parâmetros e limites de valor do art. 57, parágrafo único, do
CDC. Portaria 26 do PROCON que apenas dá publicidade e transparência aos
critérios utilizados pela Administração na fixação das multas. Sentença que
julgou improcedente a ação. Recurso não provido.”

“TJ-SP - Inteiro Teor. Agravo de Instrumento: AI 1286285620138260000 SP


0128628-56.2013.8.26.0000.Data de publicação: 27/08/2013.Decisão: pratica
propaganda abusiva, valendo-se de forma peculiar de merchandising dirigido ao
público infantil... DE INSTRUMENTO AÇÃO CIVIL PÚBLICA PROPAGANDA
ABUSIVA Veiculação de propaganda considerada abusiva em telenovela...
pública versa sobre limitação de propaganda abusiva, atinente às relações de
consumo, matéria não PODER”.

Por outro lado, em 2014, fora baixada a Resolução 163 do Conanda –


Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente que consolida o
entendimento da abusividade do direcionamento às crianças da publicidade e
da comunicação mercadológica e estabelece princípios dessas práticas aos
menores.

A referida resolução declarou a abusividade somente de publicidade e


comunicação mercadológica dirigida à criança, enquanto que para os
adolescentes, pessoa "entre doze e dezoito anos de idade" (ECA, artigo 2º),
estabeleceu apenas os princípios para a atividade. Logo, é equivocada a
comparação da abusividade da publicidade infantil estabelecida na Resolução
com o direito político de voto exercido por adolescentes maiores de 16 anos.

"Nota-se, portanto, que a menção que o CDC faz à publicidade dirigida às


crianças é pontual, com uma regra bastante genérica. Limita-se a proibir
publicidade enganosa ou abusiva, definindo-a, entre outras coisas, como aquela
que se aproveita da deficiência de julgamento e experiência da criança. E nesta
menção, o legislador utilizou um termo bastante questionável," deficiência ". Não
existe, na psicologia, qualquer referência a esta suposta" deficiência ", e sim a
uma vulnerabilidade gerada pelo seu estágio de desenvolvimento intelectual e
por sua inexperiência, que a impede de contrastar, comparar e corretamente
julgar a publicidade” divulgou em nota o Conselho Nacional de Psicologia a
respeito do tema.

“A OMS (Organização Mundial da Saúde) já se pronunciou pela necessidade da


regulação da publicidade de alimentos e, em 2012, a Opas (Organização Pan-
Americana da Saúde) publicou recomendações http://www.idec.org.br/em-
acao/em-foco/idec-cobra-do-governo-regulaco-da... para a regulação da
publicidade de alimentos não-saudáveis direcionada às crianças. Resta que os
governos adotem essas recomendações e implementem políticas para regrar a
publicidade direcionada às crianças”, afirma a advogada Mariana Ferraz do
IDEC.

Logo, fica claro que a ilegalidade da publicidade infantil e sua consequente


proibição, explicitada pelo Conanda, tem bases jurídicas no Código do
Consumidor, especificamente nas disposições do parágrafo 2º do artigo 37,
que estabelece – com o uso da expressão "dentre outras" –, um rol
exemplificativo de publicidades abusivas, destacando aquela que "se aproveite
da deficiência de julgamento e experiência da criança".

Assim sendo, um anúncio publicitário que abuse da deficiência de experiência


de uma criança constitui burla à regulamentação do mercado de consumo e
sua publicidade, sendo, portando, vedado pelo Código de Defesa do
Consumidor.

Conclui-se daí, que a legislação vigente, a saber, o ECA e o CDC visam coibir a
publicidade e a comunicação mercadológica que abusa da
hipervulnarabilidade da criança e viola, de forma clara, os direitos
assegurados pela Constituição, mostrando-se como instrumentos importantes
para impedir violações aos direitos das crianças e adolescentes.