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Secretaria da Educação do Estado do Ceará

SEDUC-CE
Professor Nível A - Especialidade: Filosofia

Edital Nº 030/2018 – SEDUC/SEPLAG, de 19 de Julho de 2018


JL0103-2018
DADOS DA OBRA

Título da obra: Secretaria da Educação do Estado do Ceará - SEDUC - CE

Cargo: Professor Nível A - Especialidade: Filosofia

(Baseado no Edital Nº 030/2018 – SEDUC/SEPLAG, de 19 de Julho de 2018)

• Conhecimentos Específicos

Autora
Silvana Guimarães

Gestão de Conteúdos
Emanuela Amaral de Souza

Diagramação/ Editoração Eletrônica


Elaine Cristina
Igor de Oliveira
Ana Luiza Cesário
Thais Regis

Produção Editoral
Suelen Domenica Pereira
Julia Antoneli
Leandro Filho

Capa
Joel Ferreira dos Santos
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SUMÁRIO

Conhecimentos Específicos

1 A emergência da filosofia grega. ............................................................................................................................................................................01


1.1 Filosofia e a cidade. ..............................................................................................................................................................................................01
1.2 Filosofia e a democracia. ...................................................................................................................................................................................01
1.3 Filosofia e a universalização da palavra. .....................................................................................................................................................01
1.4 Filosofia, verdade e argumentação. ..............................................................................................................................................................01
2 Filosofia e os conhecimentos tradicionais (narrativas/mitos)......................................................................................................................08
2.1 Filosofia e a consciência cotidiana. ...............................................................................................................................................................08
2.2 Filosofia, a arte e as ciências. ...........................................................................................................................................................................08
3 Filosofia e ação. ...............................................................................................................................................................................................................15
3.1 Moral, ética e política. .........................................................................................................................................................................................15
3.2 Filosofia, ética e felicidade (Platão, Aristóteles, Agostinho de Hipona e Spinoza). ..................................................................15
3.3 Ética, autonomia da razão e dignidade (Kant). ........................................................................................................................................15
3.4 Crítica e genealogia da moral (Nietzsche)..................................................................................................................................................15
3.5 Contextualização histórica dessas questões e principais argumentos. .........................................................................................15
4 Filosofia e conhecimento científico. .......................................................................................................................................................................34
4.1 Racionalismo (Descartes) e empirismo (Bacon). .....................................................................................................................................34
4.2 Filosofia, Ciência e técnica (Descartes, Bacon). ........................................................................................................................................34
4.3 Filosofia e crítica da técnica (Heidegger, Benjamin). .............................................................................................................................34
4.4 Contextualização histórica dessas questões e principais argumentos. .........................................................................................34
5 Filosofia e experiência estética..................................................................................................................................................................................62
5.1 Arte e absoluto (Hegel), arte e afirmação da vida (Nietzsche). ........................................................................................................62
5.2 Arte e sentido (Heidegger e Gadamer). ......................................................................................................................................................62
5.3 Arte e capitalismo (Benjamin, Adorno e Horkheimer). .........................................................................................................................62
5.4 Contextualização histórica dessas questões e principais argumentos. .........................................................................................62
6 Ensino de Filosofia no Ensino Médio: determinações legais........................................................................................................................72
7 Reflexões acerca do ensino de Filosofia no Ensino Médio. ...................................................................................................................72
7.1 Ensino de Filosofia e interdisciplinaridade. ................................................................................................................................................72
7.2 Estratégias didáticas e a seleção de conteúdos.......................................................................................................................................72
8 Competências e habilidades propostas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio para a Disciplina de
Filosofia....................................................................................................................................................................................................................................72
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
1 A emergência da filosofia grega. ............................................................................................................................................................................01
1.1 Filosofia e a cidade. .............................................................................................................................................................................................01
1.2 Filosofia e a democracia. ...................................................................................................................................................................................01
1.3 Filosofia e a universalização da palavra. .....................................................................................................................................................01
1.4 Filosofia, verdade e argumentação. .............................................................................................................................................................01
2 Filosofia e os conhecimentos tradicionais (narrativas/mitos)......................................................................................................................08
2.1 Filosofia e a consciência cotidiana. ...............................................................................................................................................................08
2.2 Filosofia, a arte e as ciências. ...........................................................................................................................................................................08
3 Filosofia e ação. ..............................................................................................................................................................................................................15
3.1 Moral, ética e política. ........................................................................................................................................................................................15
3.2 Filosofia, ética e felicidade (Platão, Aristóteles, Agostinho de Hipona e Spinoza). .................................................................15
3.3 Ética, autonomia da razão e dignidade (Kant). ........................................................................................................................................15
3.4 Crítica e genealogia da moral (Nietzsche)..................................................................................................................................................15
3.5 Contextualização histórica dessas questões e principais argumentos. ........................................................................................15
4 Filosofia e conhecimento científico. ......................................................................................................................................................................34
4.1 Racionalismo (Descartes) e empirismo (Bacon). .....................................................................................................................................34
4.2 Filosofia, Ciência e técnica (Descartes, Bacon). . ......................................................................................................................................34
4.3 Filosofia e crítica da técnica (Heidegger, Benjamin). ............................................................................................................................34
4.4 Contextualização histórica dessas questões e principais argumentos. ........................................................................................34
5 Filosofia e experiência estética..................................................................................................................................................................................62
5.1 Arte e absoluto (Hegel), arte e afirmação da vida (Nietzsche). ........................................................................................................62
5.2 Arte e sentido (Heidegger e Gadamer). .....................................................................................................................................................62
5.3 Arte e capitalismo (Benjamin, Adorno e Horkheimer). ........................................................................................................................62
5.4 Contextualização histórica dessas questões e principais argumentos. ........................................................................................62
6 Ensino de Filosofia no Ensino Médio: determinações legais........................................................................................................................72
7 Reflexões acerca do ensino de Filosofia no Ensino Médio. ...................................................................................................................72
7.1 Ensino de Filosofia e interdisciplinaridade. ...............................................................................................................................................72
7.2 Estratégias didáticas e a seleção de conteúdos.......................................................................................................................................72
8 Competências e habilidades propostas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio para a Disciplina de
Filosofia....................................................................................................................................................................................................................................72
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia

1. A EMERGÊNCIA DA FILOSOFIA GREGA.


1.1 FILOSOFIA E A CIDADE.
1.2 FILOSOFIA E A DEMOCRACIA.
1.3 FILOSOFIA E A UNIVERSALIZAÇÃO DA
PALAVRA.
1.4 FILOSOFIA, VERDADE E ARGUMENTAÇÃO.

Os historiadores da Filosofia situam o seu nascimento no final do século VII e início do século VI antes de Cristo, nas colônias gregas da
Ásia Menor, na cidade de Mileto. E aquele a quem primeiro atribuiu-se esse título foi Tales de Mileto. Em seu nascimento a filosofia caracteri-
za-se como uma cosmologia. A palavra cosmologia é composta de duas outras: cosmos, que significa mundo ordenado e organizado, e logia,
que vem da palavra logos, que significa pensamento racional, discurso racional, conhecimento. Assim, a Filosofia nasce como conhecimento
racional da ordem do mundo ou da Natureza, de onde: cosmologia. Ainda dentro deste contexto podemos dizer que a Filosofia nasceu rea-
lizando uma transformação gradual sobre os mitos gregos, embora alguns autores defendam uma ruptura radical com os mitos.
[...] o advento da filosofia, na Grécia, marca o declínio do pensamento mítico e o começo de um saber de tipo racional
[...] homens como Tales, Anaximandro, Anaxímenes inauguram um novo modelo de reflexão concernente à natureza [...] da
origem do mundo, de sua composição, de sua ordem, dos fenômenos metereológicos, propõem explicações livres de toda a
imaginária dramática das teogonias e cosmogonias antigas (VERNANT, 2006, p. 109)
O que é um mito? Um mito é uma narrativa sobre a origem de algo, como a origem dos deuses, dos astros, da Terra, dos
homens, da água, do bem e do mal etc. e se opõe ao logos que é um tipo de raciocínio que “[...] procura convencer, acarre-
tando no ouvinte a necessidade de julgar” (BRANDÃO, 1986, p. 13). A palavra mito vem do grego, mythos, e deriva de dois
verbos: do verbo mytheyo (contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e do verbo mytheo (conversar, contar, anunciar,
nomear, designar). Para os gregos, mito é um discurso diferente do logos pois é pronunciado ou proferido para ouvintes
que recebem como verdadeira a narrativa, porque confiam naquele que narra: “Acredita-se nele ou não, à vontade, por um
ato de fé, se o mesmo parece “belo” ou verossímil, ou simplesmente porque se deseja dar-lhe crédito” (BRANDÃO, 1986, p.
14). As narrativas míticas gregas nos foram relatadas sobretudo por Homero e Hesíodo, o primeiro, segundo a tradição, é
autor de a Ilíada e a Odisséia, enquanto que o segundo é autor de Teogonia e Os trabalhos e os dias.
Quem narra o mito? O poeta-rapsodo. Quem é ele? Por que tem autoridade? Acredita-se que o poeta é um escolhido
dos deuses, que lhes mostram os acontecimentos passados e permitem que ele veja a origem de todos os seres e de todas
as coisas para que possa transmiti-la aos ouvintes. Sua palavra - o mito - é sagrada porque vem de uma revelação divina. O
mito é, pois, incontestável e inquestionável. Como exemplo dessas narrativas temos o titã Prometeu, que roubou uma cen-
telha de fogo e a trouxe de presente para os humanos. Prometeu foi castigado (amarrado num rochedo para que as aves
de rapina, eternamente, devorassem seu fígado) e os homens também. Qual foi o castigo dos homens? Os deuses fizeram
uma mulher encantadora, Pandora, a quem foi entregue uma caixa que conteria coisas maravilhosas, mas nunca deveria ser
aberta. Pandora foi enviada aos humanos e, cheia de curiosidade e querendo dar a eles as maravilhas, abriu a caixa. Dela
saíram todas as desgraças, doenças, pestes, guerras e, sobretudo, a morte. Explica-se, assim, a origem dos males no mundo.

Disponível em: Blog Filosofando e Historiando (Acessado em 27/01/2016)


Ver também: CHAUÍ, 2000.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Já foi há muito tempo observado que o antecedente da cosmologia filosófica é constituído pelas teogonias e cosmo-
gonias mítico-poéticas, das quais é muito rica a literatura grega, e cujo protótipo paradigmático é a Teogonia de Hesíodo,
a qual, explorando o patrimônio da precedente tradição mitológica, traça uma imponente síntese de todo o material, ree-
laborando-o e sistematizando-o organicamente. A Teogonia de Hesíodo narra o nascimento de todos os deuses; e, dado
que alguns deuses coincidem com partes do universo e com fenômenos do cosmo, além de teogonia ela se torna também
cosmogonia, ou seja, explicação da gênese do universo e dos fenômenos cósmicos.
Hesíodo imagina ter tido, aos pés do Hélicon, na Beócia, uma visão das Musas, e ter recebido delas a revelação da ver-
dade. Em primeiro lugar, diz ele, gerou-se o Caos, em seguida gerou-se Gaia (a Terra), em cujo seio amplo estão todas as
coisas, e das profundidades da Terra gerou-se o Tártaro escuro, e, por fim, Eros (o Amor) que, depois, deu origem a todas
as outras coisas. Do Caos nasceram Erebo e Noite, dos quais se geraram o Eter (o Céu superior) e Emera (o Dia). E da Terra
sozinha se geraram Urano (o Céu estrelado), assim como o mar e os montes; depois, juntando-se com o Céu, a Terra gerou
Oceano e os rios (cf. REALE, G. História da Filosofia, vol. I.)

Disponível: Blog Casalperfeito (Acessado em 27/01/2016)

O mito narra, assim, a origem das coisas por meio de lutas, alianças e relações entre forças sobrenaturais que governam
o mundo e o destino dos homens. Como os mitos sobre a origem do mundo são genealogias, diz-se que são cosmogonias
e teogonias.
Considera-se, portanto, que a Filosofia, percebendo as contradições e limitações dos mitos, foi reformulando e racio-
nalizando as narrativas míticas, transformando-as numa outra coisa, numa explicação inteiramente nova e diferente. O
pensamento filosófico em seu nascimento tinha como traços principais:
• tendência à racionalidade: a razão é o critério de explicação da realidade;
• a Natureza opera obedecendo leis e princípios racionais e, portanto, pode ser conhecida pelo nosso pensamento
e pela nossa razão;
• o Cosmo, entendido como ordem, é uma ordem racional; é a racionalidade deste mundo que o torna compreensível
ao entendimento humano; daí, Cosmologia.
A Filosofia, entendida como aspiração ao conhecimento racional, lógico e sistemático da realidade natural e humana,
da origem e causas do mundo e de suas transformações, da origem e causas das ações humanas e do próprio pensamento,
é um fato tipicamente grego. Evidentemente, isso não quer dizer, de modo algum, que outros povos, tão antigos quanto os
gregos, como os chineses, os hindus, os japoneses, os árabes, os persas, os hebreus, os africanos ou os índios da América
não possuam sabedoria, pois possuíam e possuem. Também não quer dizer que todos esses povos não tivessem desen-
volvido o pensamento e formas de conhecimento da Natureza e dos seres humanos, pois desenvolveram e desenvolvem.
Quando se diz que a Filosofia é um fato grego, o que se quer dizer é que ela possui certas características, apresenta certas
formas de pensar e de exprimir o pensamento, estabelece certas concepções sobre o que sejam a realidade, o pensamento, a
ação, as técnicas, que são completamente diferentes das características desenvolvidas por outros povos e outras culturas.
Em outras palavras, Filosofia é um modo de pensar e exprimir o pensamento que surgiu especificamente com os gregos
e que, por razões históricas e políticas, tornou-se, depois, o modo de pensar e de se exprimir predominante da chamada
cultura europeia ocidental da qual, em decorrência da colonização portuguesa do Brasil, nós também participamos. Através

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
da Filosofia, os gregos instituíram para o Ocidente europeu e existencial, ao invés de uma maior preocupação centrada
as bases e os princípios fundamentais do que chamamos sobre a realidade natural, tal como encontramos nos filó-
razão, racionalidade, ciência, ética, política, técnica, arte. sofos pré-socráticos do período cosmológico. Essa mesma
Portanto, a Filosofia surge quando alguns pensadores denominação, “pré-socráticos”, já reflete a importância da
gregos, admirados e espantados com a realidade, insa- filosofia de Sócrates como um divisor de águas. Neste pe-
tisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera, co- ríodo da filosofia grega (séc. V e IV a.C.), o interesse dos
meçaram a fazer perguntas e buscar respostas para elas, filósofos gira não tanto em torno da natureza, como nos
demonstrando que o mundo e os seres humanos, os acon- pré-socráticos, mas em torno do homem e do espírito; da
tecimentos e as coisas da Natureza, os acontecimentos e as cosmologia passa-se para a antropologia, a política e a mo-
ações humanas podem ser conhecidos pela razão humana, ral. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento
e que a própria razão é capaz de conhecer-se a si mesma. grego também o nome de antropológico, pela importân-
A filosofia, enfim cia e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no
[...] vai encontrar-se, pois, ao nascer, numa posição am- sistema do mundo, até então limitado à natureza exterior.
bígua: em seus métodos, em sua inspiração, aparentar-se-á Por outro lado, os Sofistas, contemporâneos de Sócrates,
ao mesmo tempo às iniciações dos mistérios e às contro- embora com visões diferentes, compartilham o interesse
vérsias da ágora; flutuará entre o espírito de segredo pró- pela problemática ético-política, pela questão do homem
prio das seitas e a publicidade do debate contraditório que enquanto cidadão da polis, que passa a se organizar poli-
caracterizava a atividade política [...] O filósofo não deixará ticamente no sistema que conhecemos como democracia.
de oscilar entre duas atitudes, de hesitar entre duas tenta- Os Sofistas surgem no contexto da democracia grega e
ções contrárias. Ora afirmará ser o único qualificado para do apogeu das cidades-estados, onde as deliberações se-
dirigir o Estado, e, tomando orgulhosamente a posição do rão tomadas em reunião de cidadãos: as assembléias. Tais
rei-divino, pretenderá, em nome desse ‘saber’ que o eleva decisões devem ser tomadas por consenso, o que signi-
acima dos homens, reformar toda a vida social e ordenar fica explicar, justificar, discutir, convencer, persuadir, além
soberanamente a cidade. Ora ele se retirará do mundo para disso, o uso da linguagem, o modo de falar, do discurso,
recolher-se numa sabedoria puramente privada; agrupando deve ser racional. Na medida em que a palavra passa a ser
em torno de si alguns discípulos, desejará com eles instaurar, livre, ela se torna instrumento através do qual os indiví-
na cidade, uma cidade diferente, à margem da primeira e, duos podem defender seus interesses, seus direitos e suas
renunciando à vida pública, buscará sua salvação no conhe- propostas. “O filósofo é alguém que usa a palavra. Então,
cimento e na contemplação” (VERNANT, 2006, p. 64) o indivíduo que não se interessa pela palavra, que a utiliza
Mas a cosmologia não é a única característica princi- de um modo apenas pragmático, do tipo ‘me passe o sal’,
pal da filosofia grega. Se num primeiro momento a filo- que se pode fazer com ele?” (CHÂTELET, 1994, p. 29). Sur-
sofia surge como compreensão racional do cosmos, não é ge a arte do discurso, a retórica e a oratória, e os Sofistas
menos exato dizer que com a emergência da polis grega são, precisamente, os mestres de retórica e oratória. “O que
(as cidades-Estado), a filosofia irá mudar a sua ênfase de implica o sistema da polis é primeiramente uma extraordi-
pesquisa, no sentido de que a problemática agora será o nária preeminência da palavra sobre todos os outros ins-
próprio homem, enquanto ser individual, ético e cidadão trumentos de poder. Torna-se o instrumento político por
da polis. excelência, a chave de toda autoridade no Estado, o meio
Nesse momento, diz Jean Pierre Vernant, a Grécia está de comento e de domínio sobre outrem” (VERNANT, 2006,
centralizada na ágora, espaço comum, espaço público, p. 53). E mais adiante: “Doravante, a discussão, a argumen-
onde são debatidos os problemas de interesse geral. “Esse tação, a polêmica tornam-se as regras do jogo intelectual,
quadro urbano define efetivamente um espaço mental; assim como do jogo político” (id., ibidem, p. 56). Na de-
descobre um novo horizonte espiritual. Desde que se cen- mocracia ateniense, a função pública dos oradores torna-
traliza na praça pública, a cidade já é, no sentido pleno do -se fundamental e a palavra um instrumento utilizado não
termo, uma polis” (2006, p. 51) E mais adiante: mais apenas por pensadores, mas também por políticos. É
O aparecimento da polis constitui, na história do pen- necessário preparar os indivíduos para a vida pública, tor-
samento grego, um acontecimento decisivo. Certamente, no ná-los capacitados para a virtude (aretê) política e para tal,
plano intelectual como no domínio das instituições, só no é preciso adestrá-los na arte da persuasão através da pala-
fim alcançará todas as suas conseqüências; a polis conhece- vra. “Na democracia, a palavra vai impor-se, e quem domi-
rá etapas múltiplas e formas variadas. Entretanto, desde seu nar a palavra dominará a cidade” (CHÂTELET, 1994, p. 16).
advento, que se pode situar entre os séculos VIII e VII, marca Nesse período o pensamento filosófico terá como tra-
um começo, uma verdadeira invenção; por ela, a vida social ços principais:
e as relações entre os homens tomam uma forma nova, cuja • as práticas humanas, a moral, a política, dependem
originalidade será plenamente sentida pelos gregos (id., ibi- da vontade livre e da escolha racional segundo valores
dem, p. 53). estabelecidos pelos próprios seres humanos e não por
Nesse novo contexto, Sócrates e os Sofistas inaugu- imposição divina ou sobrenatural;
ram um novo momento na filosofia grega. O pensamento • a ideia de lei como expressão da vontade humana
de Sócrates é um marco na constituição da tradição filo- ordenada pela razão; “A lei da polis [...] já não se impõe pela
sófica ocidental. E pode-se dizer que inaugura a filosofia força de um prestígio pessoal ou religioso; devem mostrar
clássica dando maior ênfase a problemática ético-política sua retidão por processos de ordem dialética [do diálogo,

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
em sentido amplo]” (VERNANT, 2006, p. 56), e, mesmo que Filosofia, Sociedade e Democracia
ainda concebida como sagrada, a lei se torna uma ordem O homem é um ser que vive e se realiza através da
racional, sujeita à discussão e modificável por decreto sociedade, mas sofre com as inúmeras consequências de-
• O discurso político – a vida política grega –, ao correntes da mudança do/no tempo. E uma das formas de
valorizar o pensamento racional, cria condições para conhecimento mais antiga através da qual o homem busca
valorizar o discurso filosófico, enquanto arte retórica, explicações para a realidade social em que vive é através
oratória e objeto de debate público – um combate de do conhecimento filosófico.
argumentos cuja arena é a ágora, praça pública, lugar de A despeito disto, muitos não conseguem ver a impor-
reunião entre os cidadãos. tância da filosofia. Acham que ela é inútil e não serve para
nada. Não conseguem enxergar como a filosofia procura
A filosofia e a cidade contribuir não só com o conhecimento da ciência, mas so-
O nascimento da filosofia está vinculado a surgimento bretudo o ensino moral, ético e social. Neste sentido pode-
da polis. Esta por sua vez, transformou a vida social e as mos dizer que a Filosofia é a arte do bem viver, que estuda
relações humanas, marcando um novo começo para o as paixões e os vícios humanos, na qual analisa a capacida-
pensamento. O processo de nascimento da filosofia não de de nossa razão, onde impõe limite e nos ensina a viver
aconteceu de repente, houve um processo que levou de modo honesto e justo na companhia dos outros seres
séculos, passando por acontecimentos marcantes como: a humanos.
invenção da escrita, da moeda, da lei escrita, do surgimento Não existe uma única filosofia e não existe um único
do cidadão da polis e a consolidação da democracia. pensamento filosófico e talvez por isso muitas pessoas
Com o surgimento da escrita, os escritos passam a ter achem a filosofia algo complexo. Na filosofia não existe
uma disponibilidade maior sendo divulgados em praça uma única definição, um único pensamento, mas pensa-
pública, assim sujeito a discussão e a crítica. A escrita mentos muitas vezes divergentes que discutem entre si,
então gera uma nova mentalidade, pois exige de quem pensamentos críticos e contestatórios fazendo com que os
escreve uma postura diferenciada de quem apenas fala, filósofos cheguem a conclusões muitas vezes opostas uns
necessitando uma maior clareza e rigor. dos outros.
O surgimento da moeda por volta do século VII a.c, Mas como sempre precisamos de uma definição, va-
também foi outro fator de peso para o desenvolvimento da mos utilizar algumas ideias para melhor entender a filoso-
filosofia, pois com a mesma os produtos passam a ter valor fia. De acordo com Chauí (2012, p. 29):
de troca, transformando-se em mercadoria, revertendo a filosofia surgiu quando alguns pensadores gregos se
seus benefícios para a própria comunidade. Esse efeito de deram conta de que a verdade do mundo e dos humanos
democratização de um valor acaba remetendo a moeda a não era algo secreto e misterioso, que precisasse ser revelado
sobrepor aos símbolos sagrados e afetivos o caráter racional por divindades a alguns escolhidos, mas que, ao contrário,
de sua concepção. Essa convenção humana dava medida podia ser conhecida por todos através das operações men-
comum a valores diferentes vinculando o nascimento do tais de raciocínio.
pensamento racional crítico. E Jaspers (1992, p.138) diz que: “A filosofia entrevê os
Com a lei escrita começa-se a sinalizar uma nova era: critérios últimos, a abóbada celeste das possibilidades e
a justiça, que até então dependente da interpretação da procura, à luz do aparentemente impossível, a vida pela
vontade divina ou da arbitrariedade dos reis, tornou-se qual o homem poderá enobrecer-se em sua existência em-
codificada numa legislação escrita. Regra comum a todos, pírica”. Além disso, a filosofia é compreendida como um
norma racional, sujeita à discussão e à modificação, a lei escrita das mais importantes contribuições da civilização grega.
passou a encarnar uma dimensão propriamente humana. Uma forma racional de compreensão do real a partir da
As reformas da legislação fundaram a polis sobre qual decorre uma forma de agir, como defende uma boa
nova base: a antiga organização tribal foi abolida e parte dos filósofos, entre eles Platão e Karl Marx por exem-
estabeleceram-se relações que não mais dependiam plo. O primeiro quando afirma que
da consanguinidade, mas eram determinadas por uma (...) Deve-se considerar que nenhum de nós nasceu para
organização administrativa. Essas modificações expressam si mesmo; a pátria reclama uma boa porção de nossa vida;
o ideal igualitário que preparava a democracia nascente. outra os parentes; outra ainda, os amigos (...) Quando a pá-
É preciso enfatizar a mutação do ideal político e uma tria manda que nos ocupemos com seus assuntos, não ficaria
concepção inovadora de poder, a democracia. O hábito fazer-nos de desentendidos? Desse modo só facilitaríamos
da discussão pública, na ágora, estimulava o pensamento o acesso de gente desqualificada, que não se aproxima dos
racional, argumentativo, mais distanciado das tradições negócios públicos com boas intenções (CARTA IX – 358 a).
míticas. E Karl Marx, quando critica os próprios filósofos, por
A filosofia é filha da cidade, porque é justamente na achar que estes apenas interpretavam o mundo e o que
polis que de certo modo culminou o seu nascimento. A importava era transformá-lo.
ágora (praça publica), trás a autonomia da palavra, sem Partindo destes princípios podemos dizer então que ao
a mágica mítica, e sim com o conflito , a discussão, a compreender esse mundo real sentimos a necessidade de
argumentação humana, esses debates fazem nascer a promover mudanças, a não ser que estejamos satisfeitos
política, permitindo ao homem tecer seu destino na esfera com as formas de relações sociais existentes. Mas se nos
pública, consolidando assim o nascimento da filosofia. sentimos insatisfeitos devemos mudar. Por isso que a com-

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
preensão filosófica do real necessariamente implica numa teoria pretende aplicar nas sociedades democráticas, ca-
forma de agir e não apenas de pensar ou teorizar essa rea- racterizadas por uma esfera pública denominada pelo dis-
lidade social. Ao refletir sobre os diferentes aspectos da curso e pela argumentação de interesse coletivo, propondo
realidade social, a filosofia nos convida a sermos protago- uma participação igualitária de todos os cidadãos nas dis-
nistas desta mesma realidade. cussões em torno da coisa pública. Desta análise decorre a
A sociedade impõe a existência de relações de poder, ideia de uma Democracia Deliberativa que tem como obje-
formas de organização política, abusos de autoridade, tivo promover a legitimidade das decisões coletivas, encorajan-
opressão das massas em torno das quais não podemos do a população a participar dos assuntos públicos. Habermas
permanecer passivos e acomodados. É fácil perceber a im- e  Jean-Jacques Rousseau através de suas teorias defendiam
portância da filosofia ao analisar questões sociais se tomar- que a democracia ideal é aquela em que os cidadãos têm livre
mos, por exemplo, o conceito de cidadania do filósofo gre- arbítrio para escolherem o que será melhor para a sociedade,
go Aristóteles e que pode trazer contribuições importantes tendo uma postura ativa em todas as decisões.
para a nossa época atual, segundo o qual um cidadão, para Rousseau fala sobre uma  Democracia onde a sobe-
ser considerado como tal, deveria participar diretamente rania deve ser do povo, o povo deve exercer diretamente
da coisa pública. Não bastava morar na cidade, ou ser des- essa soberania na esfera Legislativa, onde ela não pode ser
cendente de cidadãos. Para ser cidadão impõe-se “tomar Representativa, no entanto essa soberania seria limitada a
parte na administração da justiça e fazer parte na assem- uma esfera, sendo o  Poder Executivo sujeito a Represen-
bleia que legisla e governa a cidade” (REALE, 2007, p. 130). tatividade. Segundo ele cabia ao povo criar as leis que os
Em uma sociedade globalizada como a nossa que se próprios deveriam obedecer.
caracteriza pelos conflitos e contradições, é importante Em contrapartida Habermas foi mais além e defendia
pensar num indivíduo envolvido nas mais diferentes ques- um modelo de Democracia Deliberativa, onde povo deve-
tões sociais e políticas e para tal os filósofos em suas mais ria participar na esfera Legislativa e Executiva; na criação de
diferentes épocas tem importantes ideias para contribuir leis e na formulação e implementação de Políticas Públicas.
com o nosso engajamento político, como Maquiavel, Hob- Ao destacar as ideias de filósofos, de épocas distintas
bes, Rousseau, Habermas e muitos outros. e realidades bem díspares, fica evidente o que dissemos
Maquiavel foi o primeiro defensor da autonomia da mais acima, que não existe uma única filosofia e nem mes-
esfera política, sobretudo em relação a moral e a religião. mo um único pensamento filosófico. Na filosofia não existe
O realismo político de Maquiavel (que procurava a verda- uma única definição, um único pensamento, mas diferen-
de efetiva das coisas ao contrário das utopias sociais) está tes formas de pensamentos e de interpretar o mundo e
ligado a um pessimismo antropológico sobre a visão de a realidade social. Mas a despeito de tantos pensamentos
uma natureza humana corrupta. Por isso, Maquiavel en- divergentes, será que a filosofia tem algo a contribuir para
tende que o bom governante, forçado pela necessidade, pensar a nossa realidade local?
deve saber usar a violência visando o bem coletivo. Para No Brasil o caminho foi conturbado para que se che-
Maquiavel os homens sempre agiram pelas formas de vio- gasse a uma Democracia, principalmente durante o golpe
lência e da corrupção, concluindo que o homem é capaz de militar e os anos que sucederam a ditadura, que privava os
tudo. Thomas Hobbes, que também tem uma visão pessi- cidadãos de qualquer direito como a liberdade e o direto
mista da natureza humana, analisa o surgimento do Estado de voto livre. Muitas vidas foram ceifadas para que se atin-
e da Socidade como uma forma necessária de controlar gisse um Estado Democrático. Mesmo passado 30 anos de
a violência dos homens entre si e garantir a preservação tal conquista, a insatisfação está presente nos olhares dos
da vida humana. Como Maquiavel, também não confia cidadãos com atual modelo de democracia onde os polí-
nos homens, considerando-o antissocial por natureza, nos ticos eleitos pelo povo não estão correspondendo à altura
quais predominam interesses egoístas, onde o homem se e confiança que lhe foram depositadas, isso vem causando
torna um lobo para o próprio homem. Ele afirmava que atritos constantes gerando insatisfações, e tal insatisfação
o estado natural do homem é de agressividade, ou seja decorre devido a perda de noção do compromisso social
de “guerra de todos contra todos”. Sendo assim, o homem da classe política com a sociedade. Além disso fatores his-
age movido por paixões e desejos e não hesitará em tirar tóricos fazem com que os brasileiros não se vejam como
do outro algum objeto de desejo que esteja em suas mãos, cidadãos responsáveis pelo governo do país, colocando-se
inclusive a própria vida. em uma posição passiva na maior parte do tempo.
Entre os mais diferentes temas que envolvem as rela- É lamentável ver uma grande maioria da população
ções de poder e organização política, globalização, opres- se alienar, aceitar e até se enganar com propostas, pro-
são, e muitos outros, a ideia de Democracia é algo que deve gramas e projetos elaborados em períodos eleitorais, elas
ser levado em consideração, já que vivemos em um Estado que muitas vezes por falta de conhecimento e se sentirem
Democrático de Direito e os filósofos também procuraram dependentes destes, acabam colocando toda uma nação
das suas contribuições ao analisar a ideia de que como em mãos de pessoas totalmente sem conhecimento, que
a soberania de um Estado deve estar nas mãos do povo. se sustentam no poder na base da mentira enganação ao
Nesse aspecto ganham importância os filósofos Jean-Jac- passar palavras de igualdade, mudanças positivas, justiça.
ques Rousseau e Habermas. O primeiro como um teórico Dizer que vivemos em um país que exerce o poder De-
do iluminismo francês e defensor da soberania popular e o mocrático, que há liberdade de expressão, que é livre de
segundo idealizador da Teoria do Agir Comunicativo, cuja distinções ou privilégio de classes, não passa de hipocrisia,

5
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
ilusão por ainda acreditar nesse modelo de governo mes- Portanto, a universalização, no caso citado como
mo diante dos fatos explícitos e absurdos. Uma democracia exemplo, é a existência de todos os relógios: os que existi-
deve visar o bem em comum, mas estamos muito longe de ram, os que existem e aqueles que existirão. Acrescentase,
ver na realidade prática esse ideal teórico. ainda, que assim como a existência de todos os relógios, a
A sociedade em geral, homens, mulheres, crianças, têm Filosofia pela universalização tem o objetivo de alcançar a
que estar ligado a política de uma forma Participativa, en- consistência dessa existência universal.
trando sempre em consenso ou não diante das questões O cuidado, aqui, referese ao fato de que, por procu-
sociais, saber decidir quem melhor irá administrar o exer- rar o universal, não são os relógios que devem oferecer
cício público, deixar de só balançar a cabeça mencionando o conteúdo do pensamento filosófico, mas sim o relógio,
o positivo, deve-se principalmente colocar em práxis a co- mesmo porque os relógios, apesar de ofertarem o princí-
municação, debater, questionar, reivindicar, protestar, aliás, pio do pensamento, não permitem a apreensão de todos
não estamos condenados a continuar presenciando absur- os relógios. Em outras palavras, é fundamental o processar
dos, criança matando, roubando, usando drogas, vendo a intelectual na esfera da abstração.
violação de leis e direitos, altos impostos, corrupção sem Na universalização, o importante é fazer com que um
punição, a humanidade se destruindo e ficarmos de braços grupo dominante colonize outros grupos com suas verda-
cruzados. des. Na colonização da América, por exemplo, os valores
Enfim, há uma multiplicidade de fatos e atos desco- europeus acabaram se impondo, à força, como se fossem
nexos, que se entrelaçam no interior da sociedade, consti- universais. Nas propagandas, outro exemplo, difunde-se o
tuindo o elemento mais complexo que se pode imaginar: mundo de pessoas ricas, quase sempre brancas, e bem-su-
o homem contemporâneo, por excelência, um ser social, cedidadas, o que acaba se tornando modelo para todos,
que diante da sua realidade vê nascer seus problemas. A como as roupas da moda, quase se tornando modelo para
Filosofia desempenha um papel relevante na vida do ho- todos , incluindo os não-ricos , não-brancos, nem bem-su-
mem, buscando soluções para seus principais problemas, cedidos, pois, afinal, para ideologia, o valor de que está no
que versam sobre a moral, e a reorganização da sociedade poder deve ser o valor de todos.
e dentre outros. Sendo assim, continua disponível para dar
Argumentação, verdade e ser
a sua contribuição. Mostrar ao homem que ele não é me-
Porque em filosofia argumentamos uns com os outros
ramente um produto do meio, que sofre com as interferên-
sobre questões filosóficas é natural pensar que a filosofia é
cias das pessoas e reage como tal. O homem, por sua vez,
um processo “adverso” [antagónico] como dois advogados
transforma a sociedade. Então o discurso filosófico aparece
(o de acusação e o de defesa) que argumentam um contra
para desenvolver o pensamento crítico, buscando refletir
o outro num tribunal.
sobre as inúmeras práticas sociais, dentro da realidade na
Contudo, há duas razões pelas quais esta comparação
qual nos encontramos. Portanto, a filosofia tem um papel
dos filósofos com os advogados não é boa. Em primeiro
relevante em uma sociedade democrática, estimulando o lugar, o objetivo de cada advogado é ganhar a causa do seu
debate, a análise crítica das estruturas sociais, o diálogo cliente — quer o seu cliente esteja inocente quer não. Pelo
como forma de interação social e, sobretudo, estimulando contrário, o objetivo de dois filósofos que se encontrem a
homens e mulheres a transformar a realidade na qual es- argumentar um com o outro é chegar à verdade — seja
tamos inseridos. ela qual for e seja quem for que tenha razão. Como um
estudante afirmou, eloquentemente, o objetivo de cada
Universalização advogado é ganhar a causa, quer ele tenha a verdade quer
A universalização como marca da reflexão filosófica não, ao passo que o objetivo de cada filósofo é chegar à
pode ser entendida como a apreensão do conhecimento, verdade, quer ele ganhe o argumento quer não. (Sendo
no sentido das causas primeiras e causas últimas. Assim, a os filósofos seres humanos, nem sempre são assim tão
pretensão de tal reflexão é compreender o significado do imparciais, mas o ideal é este.)
que é o ser, isto é, do que efetivamente existe e consiste Em segundo lugar, num julgamento há uma autoridade
na sua forma mais abrangente possível, em outras palavras, (o juiz ou o júri) que os advogados tentam persuadir, e que
do que há de mais universal. Desse modo é possível, então, em última análise determina se o acusado está ou não
dizer que as características particulares ou mesmo genera- inocente. Em filosofia, pelo contrário, não há qualquer juiz
lizadas do ser não pertencem aos estudos filosóficos. ou júri com autoridade para tornar uma posição incorreta
Apesar dos exemplos constituírem em verdadeiro ve- e a outra correta. Só existimos nós. Claro que alguns de
neno para o pensamento filosófico, é possível para efei- nós sabem mais do que outros sobre questões filosóficas,
to didáticopedagógico e, somente para esse efeito, dizer e o mais sábio é ficar atento e aprender com quem sabe
que diante de um objeto qualquer, como um relógio, por mais do que nós, mas quando chega o momento de tomar
exemplo, a reflexão filosófica não busca apreender o re- decisões relativamente a um tema filosófico somos todos
lógio diante de cada um de nós; mais ainda, não fica na igualmente responsáveis pelas nossas crenças e devemos
reflexão deste ou daquele relógio. por isso tomar, cada um de nós, as suas próprias decisões.
O pensar filosófico busca fundamentalmente o relógio A argumentação, além de ser objeto da reflexão
no sentido universal. Assim, o que efetivamente importa é lógica, é também estudada pela retórica. A lógica estuda
no que existe e consiste este ser relógio. as condições que tornam a argumentação logicamente

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
consistente, isto é, racionalmente válida. A retórica estuda ou teoria da argumentação, recupera a importância
os aspectos que tornam a argumentação eficaz, isto é, que da retórica no pensamento e para o conhecimento em
persuada. domínios em que são necessários amplos consensos,
A filosofia, a retórica e a democracia foram criações vendo na argumentação o fundamento de uma nova
dos gregos antigos, mas nem sempre as relações entre a racionalidade. Como Aristóteles, realça a importância do
filosofia e a retórica foram fáceis. No entanto, ambas são logos para provocar a adesão do auditório aos argumentos
essenciais à vida democrática. que suportam a tese de um orador.
Numa democracia, as decisões políticas são tomadas Como aprendemos na lógica, uma proposição é ver-
publicamente e não por um tirano ou por um colégio aristo- dadeira se está de acordo com aquilo que as coisas são, se
crático. Nesta forma de governo (democracia), a capacidade corresponde à realidade, e falsa se não está de acordo com
de influenciar a opinião pública é muito valiosa. Aqueles que aquilo que as coisas são, se não corresponde à realidade.
souberem persuadir, pelo uso da palavra, terão maior facili- Este (a verdade como adequação ou correspondência)  é
dade em influenciar, alcançar ou manter o poder apenas um dos múltiplos sentidos que o conceito de ver-
O período democrático vivido pelos atenienses permi- dade pode adquirir em filosofia.
tiu o aparecimento dos sofistas, dos quais se destacaram A filosofia, ao lado de outros tipos de saber, é uma
Protágoras (c. 490 - 420 a. C.) e Górgias (c. 483 - 376 a. C.), procura do conhecimento, é uma tentativa de descobrir como
professores que ensinavam retórica àqueles que podiam as coisas são realmente. A argumentação filosófica tem, por-
pagar os seus serviços e desejavam participar na gestão da tanto, em vista a verdade. E se há áreas em que os enunciados
Pólis (cidade) através do desempenho de cargos públicos. não levantam grandes problemas, noutras (por ex. aquelas
Ao aprenderem Retórica, os cidadãos ficavam em melhores em que não é possível a prova empírica) as proposições fo-
condições de  influenciar a opinião pública e, consequen- gem à tranquila classificação do verdadeiro e falso, pelo que
temente, de conseguir poder na sociedade democrática a argumentação é vista, por alguns filósofos, como um instru-
ateniense. Além da retórica (arte da persuasão), os sofistas mento na procura da verdade e da possibilidade de estabele-
ensinavam também conhecimentos da  dialética (arte da cer consensos, e não como forma de manipulação.
Reconhecemos na filosofia uma relação estreita entre
argumentação) e da erística (arte da discussão e da dispu-
a argumentação, a verdade e o ser ou realidade. Conhecer
ta), entre outros,  para dotar um cidadão de capacidades
a verdade é saber como as coisas são e a filosofia recorre
de liderança e persuasão. Os sofistas eram sobretudo educa-
sobretudo à argumentação para descobrir a verdade, uma
dores políticos que baseavam o seu ensino em pressupostos
vez que a natureza do seu objeto é metafísica. Acreditan-
filosóficos humanistas, relativistas, cépticos e agnosticistas. A
do nós que o discurso filosófico é norteado pela busca da
verdade, para os sofistas, é uma verdade relativa, é feita à me-
verdade, o filósofo trairia o seu propósito essencial se não
dida das circunstâncias e os seus ensinamentos tinham como
fizesse um uso ético da retórica e se não procurasse sem-
objetivo vencer um debate e não a descoberta da verdade. pre o confronto de ideias e de pontos de vista, as teses mais
O ensino dos sofistas foi fortemente criticado por Pla- razoáveis e os argumentos mais fortes. Como defendia Pla-
tão (c. 429 - 347 a. C.). Na verdade, Platão opôs a retórica tão, nem todas as opiniões são filosoficamente justificáveis;
(ou, pelo menos, a retórica no seu uso manipulador) à ati- apenas aquelas que têm como fundamento a verdade de-
vidade filosófica. Para Platão, o sofista ensina a conquistar vem ser justificadas. Para a filosofia, e contrariando, nes-
o poder pela manipulação, apoiando-se nas opiniões po- te caso, o legado platónico, a busca da verdade não pode
pulares e o filósofo procura o saber, visa descobrir a ver- ser incompatível com a retórica, esta pode mesmo consti-
dade que só pode ser intemporal e universal. Por isso, para tuir-se como método da filosofia, se a tomarmos por um
Platão, a retórica não é útil à Filosofia e deve ser substi- conjunto de técnicas que permitam a elaboração honesta
tuída pela argumentação não retórica: a dialética. Aliás, o e frutuosa de argumentos e não só como uma técnica de
objetivo do filósofo não é persuadir, mas ajudar a descobrir sedução, em que a verdade não é tida em conta. Também
a verdade, segundo o método maiêutico. Aristóteles, que para Perelman, a argumentação desempenha um papel im-
também foi um crítico da retórica, deixa-nos dela uma vi- portante na fundamentação de teses filosóficas, como se
são bem mais positiva. Para ele, a retórica pode ser usada pode observar neste pequeno fragmento:
para a descoberta da verdade, é um saber entre outros e, Para se assegurar de que as teses preconizadas pelos
como todo o conhecimento, pode ser bem ou mal usado. filósofos não constituem opiniões incertas e falaciosas mas
Não é a retórica que é boa ou má, mas quem a utiliza é que verdades indiscutíveis, é preciso que elas beneficiem de fun-
pode fazer dela um bom ou um mau uso. damento sólido e indiscutível, de uma intuição evidente,
Além dos gregos, também os romanos atribuíram que garanta a verdade do que é percebido como evidente. A
uma grande importância à retórica. Cícero (c. 106 - 43 evidência, assim concebida, não é um estado subjetivo que
a.C.) é normalmente apresentado como sendo um dos possa variar dum momento para o outro e de indivíduo para
maiores oradores de todos os tempos. Durante a idade indivíduo: o seu papel, com efeito, é o de estabelecer uma
média, a retórica ainda fez parte dos estudos académicos ponte entre o que é percebido como evidente pelo sujeito
e o renascimento interessa-se por ela com a redescoberta cognoscente e a verdade da proposição evidente que deve
dos autores clássicos, mas  entra em declínio, a partir do impor-se da mesma maneira a todo o ser de razão. 
século XVI, com a emergência da ciência moderna e  do
racionalismo. Na segunda metade do século XX, o filósofo Perelman(1999), O Império Retórico. Retórica e Argu-
Chaïm Perleman, com a designação de nova retórica mentação, Asa, p.25.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Mas a argumentação não é só uma ferramenta para Na análise de Cassirer, a religião e o mito têm origens
a descoberta da verdade, ela é também muito importante comuns, mas a religião vai se distanciando gradualmente
na comunicação dessa mesma verdade. Desta forma, a sua do mito. Todavia, não existe uma fronteira nítida entre o
relevância para a construção do conhecimento  é muito mito e a religião. A diferença mais evidente para os estu-
difícil de ser contestada. diosos é que na religião o ser humano tem mais indivi-
A retórica é um instrumento indispensável e crucial à dualidade do que no mito. O mito explica suas crenças de
filosofia. Contudo, a filosofia não se reduz à retórica ou à forma emocional, enquanto a religião tenta racionalizá-los,
argumentação, na procura da verdade a dúvida, a análise e a explicá-los. Exemplo de comportamento em relação aos
crítica filosóficas não poderão nunca ser dispensadas. Creio mitos é o dos antigos gregos do período clássico. Para es-
que, mais do que a argumentação que implica a tomada tes homens a relação com os deuses era bastante distante,
de posição contra ou por uma tese ou opinião, a dúvida, pois não havia o conceito da imortalidade individual que só
a análise e a crítica filosóficas permitem desconstruir e apareceria mais tarde, quando houvessem cultos mantidos
decompor a realidade de modo a separar e a identificar por sacerdotes associados aos deveres religiosos (como
nela o  que é e o que não é.1 quando surgiram os cultos órficos, cuja ideologia muito in-
fluenciou o pensamento de Platão).
“O homem grego do período clássico não é strictu senso
a “criatura” de uma divindade (idéia partilhada por muitas
2. FILOSOFIA E OS CONHECIMENTOS religiões arcaicas e pelos três monoteísmos) Por conseguinte,
TRADICIONAIS (NARRATIVAS/MITOS). ele não tem a ousadia de esperança que as suas preces pos-
2.1 FILOSOFIA E A CONSCIÊNCIA COTIDIANA. sam estabelecer certa intimidade com os deuses. Por outro
2.2 FILOSOFIA, A ARTE E AS CIÊNCIAS. lado, sabe que a sua vida já está decidida pelo destino, a
moira ou a aísa, a sorte ou o quinhão que lhe foi atribuído
– isto é, o tempo concedido até sua morte.” (Eliade, 1978).
A narrativa filosófica, comparada à mítica ou religiosa,
O filósofo alemão Ernst Cassirer defendia a tese de que vale-se de argumentos racionais, não está mais sujeita às
todo conhecimento – mítico, religioso e científico – é um prescrições dos deuses ou de seus sacerdotes. Apesar de se
conhecimento simbólico. Explicando seu pensamento, o ocuparem de temas parecidos – “a posição do homem no
filósofo apresenta uma tripla graduação na relação entre universo” –, segundo o historiador Werner Jaeger, a filoso-
signo e significado: fia aspira a um conhecimento sempre renovado e inquiri-
• a) A relação de expressividade, típica do mito. Neste dor, diferente da religião e da mitologia, que se contentam
caso, há uma identidade entre o signo e o significado; os com o ensinamento; estabelecido e aplicado sem discus-
símbolos tornam-se atributos da própria coisa que designam, sões. Com relação a sua justificação, o mito e a religião não
como a cruz representa o cristianismo, por exemplo. a precisam. A filosofia, por outro lado, vai constantemente
• b) A relação de representação, caracterizada pela elaborar novas justificativas para a sua existência ou utili-
linguagem. Aqui o nome é uma convenção e servepara dade.
representar a coisa, como um substantivo. É a maneira
mais comum de como nos utilizamos das palavras que As narrativas a respeito da origem do mundo
representam um ente. As narrativas míticas a respeito da criação do mundo
• c) A relação de significado, típica da ciência. Há são as mais variadas possíveis, dependendo da cultura em
uma independência entre signo e significado. Exemplo que foram desenvolvidas. Os mitos eram narrativas onde
disso é uma função matemática (signo), que representa sociedades arcaicas descreviam para si mesmas o nasci-
algo diferente do deslocamento do planeta (significado). mento do mundo, da sociedade, de determinada planta ou
Cassirer afirma que o mito não se reconhece a si mes- do homem. Os egípcios, talvez a mais religiosa sociedade
mo como imagem ou metáfora, a sua imagem é a própria da Antiguidade, descreviam o nascimento do universo de
realidade. Da mesma forma, o pensamento mítico não deve diversas maneiras. “Os temas alinham-se entre os mais ar-
ser compreendido como mera ilusão ou patologia, mas sim caicos: emergência de um outeiro, de um lótusou de um ovo
como forma de objetivação da realidade mais primária e de sobre as Águas Primordiais. Quanto aos deuses criadores,
caráter específico. Algumas características do pensamento cada cidade importante colocava o seu em primeiro plano.”
mítico são segundo Cassirer: (Eliade, 1978). Os antigos gregos tinham os mythói, rela-
-A produção mítica não é uma forma de ficção incons- tos que formavam o quadro mental que o povo tinha dos
ciente, tratando-se de uma produção espontânea, mas sem deuses.
consciência de sua autoria. A religião já tem um outro tipo de posicionamento
-O pensamento mítico não diferencia nem o signo do em relação à narrativa sobre a criação do mundo. Geral-
significado, nem a imagem da coisa. A palavra então não é mente, aproveita-se do relato de um mito, como fizeram
um simples símbolo, mas representa efetivamente a coisa, os escribas judeus com um mito popular da Criação que
como no caso do nome de uma pessoa. remontava aos caldeus. Transformaram este mito em parte
1 Fonte: www.jornaldefilosofia-iriodeaula.blogspot.com/sites.google.
constituinte de uma religião específica, praticada por uma
com/site/fhilos11/www.sabedoriapolitica.com.br/Alexsandro M. Medei- comunidade particular. Em função de sua incorporação a
ros/ Reinaldo Corrêa uma religião, o mito da Criação passou a assumir um sig-

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
nificado específico para o fiel, pois o que antes era mito, Para refletir torna-se necessário sair do mundo
agora passou a fazer parte de um plano de um Deus. Esta cotidiano. Este sair do mundo familiar, o “estar fora” do
a diferença básica da visão da criação do mundo entre reli- óbvio, do herdado, do cotidiano recebido pela tradição
giões politeístas e monoteístas. constitui o que os filósofos gregos denominavam o
A narrativa da filosofia em relação à criação do mun- admirar-se (thaumazein). [...] Porque para entender a
do era influenciada pelo mito e pela religião. Os filósofos filosofia é preciso romper com o mundo cotidiano.
pré-socráticos se utilizarão da linguagem da religião e do Como Abraão, devemos separar-nos do cômodo mundo
mito, talvez por desconhecerem outra forma de linguagem familiar, do lugar acolhedor; esta separação precisa ser
mais específica, mais tarde desenvolvida pela ciência. Anaxi- amadurecida. Por essa razão, aquele que quiser começar
mandro de Mileto se expressará assim sobre o início do mun- a estudar filosofia deve começar tomando consciência do
do: “princípio dos seres… ele disse (que era) o ilimitado… Pois cotidiano e, lentamente, romper com ele. Por isso, este
donde a geração é para os seres, é para onde também a cor- primeiro capítulo não é uma dissertação epistemológica ou
rupção se gera segundo o necessário; pois concedem justiça e filosófica: é tão-somente um convite. Um convite à morte
deferência uns aos outros pela injustiça, segundo a ordenação de nossa cotidianidade. Estando seguros e assegurados no
do tempo.” (Simplício, Física, in Os Pensadores, 1996). óbvio, não poderemos pensar. Este pacífico homem que
A grande diferença no relato da filosofia sobre a cria- todos nós somos é o homem que diariamente devemos
ção do mundo não estava no vocabulário, mas na maneira superar e fazer entrar em crise.
como utilizá-lo. Os filósofos pré-socráticos já não tinham
uma visão mítica do universo. Queriam chegar a uma rea- A filosofia e o cotidiano da educação
lidade última, subjacente a todo o processo. Este novo A filosofia não foi criada para circular apenas em um
posicionamento “racional” em relação ao universo é bem meio elitizado de intelectuais e acadêmicos. Para Lou
exemplificado por Nietzsche, referindo-se a Tales de Mileto Marinoff, principal líder nos Estados Unidos de uma nova
“como matemático e astrônomo, ele se havia detido em corrente de pensamento que aplica a filosofia ao dia-
tudo o que é místico ou alegórico. E não conseguiu perder as a-dia, ela era, em sua origem, um “modo de vida” e não
ilusões até chegar a essa abstração pura de que “tudo é um”,
uma disciplina acadêmica: “Somente por volta do século
onde ele se deteve numa formulação de ordem física, ele se
passado, a filosofia foi confinada numa ala esotérica da
tornou, no entanto, uma figura rara entre os gregos de seu
torre de marfim, repleta de insigths teóricos, mas vazia de
tempo. Talvez os órficos, tão singulares, possuíram em grau
aplicação prática”, escreve ele em seu famoso livro Mais
mais elevado ainda a capacidade de captar abstrações e de
Platão menos Prozac.
pensar de maneira não figurada; mas só chegaram a expri-
Segundo Marilena Chauí, Sócrates, considerado o
mi-lo sob a forma de alegoria.” (Nietzsche, 2008)
patrono da filosofia, rebelou-se contra os sofistas (mestres
Filosofia e cotidiano da oratória ou retórica), dizendo que não eram filósofos,
Pensar é refletir. Refletir é como um ruminar, um voltar pois não tinham amor pela sabedoria nem respeito pela
atrás sobre as coisas. Por isso, são poucos os que refletem verdade, elementos essenciais na discussão filosófica. Do
e muitos os que memorizam ou acumulam mecanicamente mesmo modo como vemos hoje em nosso (cada vez mais
determinadas informações. degradante) cenário político, Sócrates acusava os sofistas
Dizíamos que refletir consiste em voltar atrás sobre as de corromper o espírito dos jovens ao colocar toda ênfase
coisas; este ato constitui a origem do filosofar. Começar a nas vantagens pessoais obtidas com suas técnicas de
pensar supõe sempre um desprendimento que podemos argumentação e persuasão.
denominar crise. Crise - que em grego vem do verbo Krinein O estudo da filosofia visa, entre outros benefícios,
- indica mais distanciar-se do que julgar. É necessário formar indivíduos capazes de pensar crítica e eficazmente
“distanciar-se”, “partir” da vida cotidiana para pensá-la por si próprios, e, como consequência, serem capazes
“de fora”. [...] A cotidianidade reside, antes de tudo, na de fazer uma argumentação mais consciente, reflexiva
organização diária da vida, na repetição e reiteração das e segura em todas as áreas da vida. Nietzsche já antevia,
atividades. É a divisão do tempo e do ritmo em que se escoa no fim do século XVIII, a tendência profissionalizante e
a história pessoal de cada um. No cotidiano as coisas, as histórico-cientificista das universidades e escolas técnicas,
ações, os homens, os movimentos e todo o meio ambiente mais preocupadas em formar com rapidez indivíduos
são dados aceitos como algo conhecido. No cotidiano tudo aptos a preencher as demandas do mercado de trabalho
está ao alcance da mão e por isso essa realidade é vista e executarem serviços com eficiência do que preparar
como seu próprio mundo. humanística e qualitativamente pessoas para lidar com as
A cotidianidade constitui uma espécie de tirania condições complexas da vida. O antídoto, segundo ele,
exercida por um poder impessoal, anônimo, que impõe a para o instinto desenfreado da ciência, que tudo quer
cada indivíduo seu comportamento, seu modo de pensar, conhecer, dissecar e analisar, é a arte e a filosofia.
seus gostos, suas crenças. O mundo cotidiano é o mundo Sem a capacidade  de raciocínio e reflexão clara
do familiar. É a partir desse horizonte que compreendemos sobre nossa realidade imediata, nós nos tornamos meros
o mundo, os homens e a nós mesmos. Todos nós possuímos reprodutores do sistema de valores, crenças, preconceitos e
essa compreensão pelo simples fato de sermos homens, de costumes vigentes. Na maioria das vezes, nem percebemos
existirmos. Mas esta compreensão familiar da realidade é que nossa vida prática é guiada não por nossa própria
um obstáculo para o pensar filosófico. filosofia de vida, mas pela de nossos antepassados ou pelo

9
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
input cultural. Não que estejamos errados em nos apoiar Então, surge um dilema sério sobre nossa existência.
nos valores e tradições que nos ensinaram, mas poderíamos Nossa essência e condição de liberdade são diminuídas
desenvolver esta capacidade inata de discriminar melhor o quanto mais se estabelecem padrões para tudo: consumo,
que nos serve e que aumenta nossa vitalidade e criatividade. lazer, trabalho, educação, características culturais. Neste
O evoluir do autoconhecimento, proporcionado por contexto, diminuímos a condição de seres históricos para
uma constante reflexão sobre nós mesmos, nossas atitudes sermos máquinas programadas e conformadas. Assim, o
e nossas experiências, está na base de uma postura ética tema da consciência e da visão de mundo se tornaram cen-
de vida, pois ser ético e moral não significa apenas seguir trais no pensamento filosófico.
à risca um código social de leis e normas de conduta.
Sem uma ética pessoal e a busca por autoconhecimento, O surgimento da filosofia ocidental
perdemos parte de nosso livre-arbítrio, criando situações Para melhor compreendermos a relação da filosofia na
de vida caóticas e insatisfatórias. educação devemos localizar-mo-nos na origem da própria
na cultura ocidental. A filosofia tem seu início na Grécia, no
A filosofia sempre esteve relacionada ao conceito de
século VI a.C. Quando alguns cidadãos propuseram uma al-
reflexão, conhecimento e autoconhecimento. A palavra filo-
ternativa a explicação do mundo através do conhecimento
sofia, de origem grega significa amizade pela sabedoria. Em-
mitológico. Tal atitude inaugurou o pensamento racional.
bora para muitos ela esteja confinada ao campo estritamente
teórico, o desafio consiste em relacionar e pontuar a teoria O conhecimento filosófico se apresenta na passagem
com a prática, ou seja, a práxis teórica. Neste texto vou abor- gradativa das crenças mitológicas. Alguns pensadores utili-
dar de maneira resumida a relação que a filosofia tem com zam o termo “passagem do mito para a razão” para descre-
a educação, alguns dos principais filósofos que deram base ver isso. Porém, não se trata aqui de uma passagem clara e
ao início da educação bem como correntes de pensamentos objetiva, pois a mitologia não desapareceu por completo,
vigentes, numa abordagem humanizada da educação. mas influencia até as culturas contemporâneas. Esse mo-
É nos apresentando que a filosofia envolve conceitos mento de ascensão do pensamento racional não foi exclu-
como: sabedoria, atitude, conhecimento, postura crítica, sivo da Grécia, ocorreu em outras culturas como a China e
visão de mundo, estado de atenção e busca pela verdade Índia, em momentos e condições ainda diferenciados.
das coisas. E a ideia de “pensamento filosófico” está pro- O berço cultural da Grécia, por volta de 550 a.C., foi
fundamente interligada com a ideia de “atitude filosófica”. onde nasceu a filosofia, possivelmente a ideia de ciência,
A postura de aceitar a realidade como algo natural e cos- em meio a divisão por diversas cidades-estado, ponto de
tumeiro, significa opor-se à proposta da atitude filosófica. partida para a formação do pensamento ocidental. Os pri-
Neste ponto não significa negar a realidade, mas apenas meiros passos em direção ao pensamento filosófico, por
não aceitar a proposta: é assim, porque é assim, a atitude consideração, ocorreram numa região chamada Jônia, no
filosófica significa buscar entender o porquê das coisas se- século VI a.C. Com um grupo de pensadores, mais tarde
rem como são e, se necessário, criticá-las. chamados “pré-socráticos”, seu objetivo primordial era en-
A relação da amizade com a filosofia significa estar contrar um elemento básico na natureza que constituísse
atento e em constante reflexão sobre o mundo a nossa vol- todas as coisas. (TOMELIN; SIEGEL, 2013 / REALE; ANTISERI,
ta, a qual nos instiga a sair do estado de acomodação de 2002).
nosso estado crítico, ou seja, nos impõe à sermos críticos. Até certo ponto, essa busca foi o embrião para o sur-
O filósofo Sócrates corrobora dizendo: gimento das disciplinas da física e da química, em que a
“Uma vida sem busca não é digna de ser vivida” (Sócra- especulação central   tratava da origem da natureza e da
tes apud REALE; ANTISERI, 2002)
realidade física. Personagens como Pitágoras, Heráclito,
Uma vez esta perspectiva já consolidada na filosofia,
Parmênides, Tales entre outros destacam-se neste período.
esta frase pode ser completada com dois questionamen-
Assim, a explicação mitológica da natureza física aos pou-
tos: “Qual o sentido de nossa busca?” ou “O que realmente
cos perdeu espaço para o avanço das teorias pré-socráticas
devemos buscar?”. Assim a proposta da filosofia é ampliar
nossa consciência, fazer-nos questionar e refletir sobre e logo em seguida para: Sócrates, Platão, Aristóteles e um
nossa realidade sendo contrário a: série de escolas filosóficas.
• Aceitação inconsciente da rotina do mundo a Tratar de conhecimento filosófico significa desenvolver
nossa volta; consciência e emancipação da condição humana. É tratar
• Permanência do discurso conformista da realidade; de liberdade e responsabilidade, pois o objetivo do conhe-
• Naturalização da história e dos processos sociais; cimento também passa pela busca de verdades.
• Estagnação do desenvolvimento cultural;
• Ausência de consciência crítica. A filosofia e o educador
Nesse sentido a filosofia distingue um papel único, nos A reflexão significa a ideia de voltar atrás. É um repen-
fazendo questionar e refletir sobre o que talvez jamais fa- sar, e, se toda reflexão é pensamento, nem todo pensa-
ríamos porque tendemos a agir diante do mundo como mento é reflexão. O educador deve estar em constante
se tudo fosse programado. Não notamos que nossa qua- processo de reflexão, e fazer uso da filosofia. No entanto, a
lidade humana de transformação e evolução é substituída filosofia não é qualquer tipo de reflexão, é preciso que ela
pela continuidade de programa. E isso significa perda de se enquadre em três requisitos: a radicalidade, o rigor, e
liberdade. (TOMELIN; SIEGEL, 2013). o conjunto (SAVIANI, 2007).

10
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Radical, no seu sentido bem próprio e profundo como Seu trabalho mais clássico, extraído de seu livro A Re-
quer a filosofia, quer dizer chegar até as raízes do que se pública, o mito da caverna (ou alegoria da caverna), gera
pretende estudar; Rigoroso é ter rigor sistemático, ter mé- um intenso debate sobre a questão do sentido da filosofia
todos e clareza do que se faz; e Conjunto é a perspectiva na educação. Nesse sentido Carneiro faz uma reflexão so-
de estudo que deve sempre levar em conta o conjunto e bre:
a complexidade da realidade, nada sendo isolado de seu Quando aplicada em sala de aula, tal alegoria resulta
contexto. A tarefa da filosofia na educação é oferecer aos em boas reflexões. A tendência é a elaboração de reflexões
educadores um método de reflexão que lhes permita en- aplicadas a diversas situações do cotidiano, em que o mun-
carar os problemas educacionais, penetrando na sua com- do sensível (a caverna) é comparado às situações como o
plexidade e encaminhando às soluções. O educador deve uso de drogas, manipulação dos meios de comunicação e
estar aberto e efetuar o pensamento e a prática filosófica. do sistema capitalista, desrespeito aos direitos humanos,
à política etc. Ao materializar e contextualizar o entendi-
Sócrates na educação, diálogo e autoconhecimento mento desse mito é possível debater sobre o resgate de
Sócrates foi um questionador em seu tempo, tinha uma valores como família, amizade, direitos humanos, solidarie-
posição independente sobre a crítica social e utilizou um mé- dade e honestidade, que podem aparecer como reflexões
todo para a compreensão do bem e do mal, com base no do mundo ideal. (CARNEIRO, 2010).
questionamento da realidade (TOMELIN; SIEGEL, 2013). Resumidamente, o mito da caverna para a dimensão
De maneira resumida, a proposta de Sócrates apresen- pessoal, deve incitar o permannente desenvolvimento do
tava-se com os seguintes aspectos: senso crítico e a superação da  alienação humana.
• Busca assumida pela sabedoria e virtude;
• Promoção de um saber mais autêntico sobre a Paulo Freire: a educação como processo de huma-
realidade; nização
• Incentivo à ampliação do autoconhecimento; Freire é brasileiro, filósofo da educação contempo-
• Evitar qualquer julgamento sem conhecimento rânea e é reconhecido internacionalmente na área. Seus
profundo de causa;
trabalhos mais importantes são Pedagogia do Oprimido
• Desconfiar das aparências para verificação das
e Pedagogia da Autonomia, obras estas publicadas em
verdades;
mais de 20 idiomas. Os conceitos pertinentes sobre Freire
• Reconhecer as limitações do discernimento
são: humanização, autonomia, consciência de sujeito e de
humano;
mundo, aprendizagem e função da escola. (MORELL, 2014).
• Promover o desenvolvimento da capacidade
A concepção de Freire sobre o processo educativo e
intelectual dos indivíduos;
• Ampliação do método racional para a compreensão a metodologia de aprendizagem, partem necessariamente
da realidade. do aluno e o contexto social em que está imerso. Desse
As principais concepções da educação atual, indiscutivel- modo, a aprendizagem acolherá a complexidade da exis-
mente, reproduzem as ideias que foram sistematizadas pela tência de quem está ensinando e aprendendo, jamais iso-
filosofia socrática. A figura de Sócrates foi divisora na história lando o indivíduo como se fosse apenas uma ferramenta
da filosofia. Por isso, os filósofos anteriores a seu tempo, cuja ou objeto isolado de sua realidade. (KEIM, 2001; FREIRE;
preocupação era com a natureza física, eram conhecidos como 1996).
pré-socráticos. A partir dele, a filosofia alterou-se para um novo
centro de atenções: o desenvolvimento do ser humano, a capa- Conceito de humanização
cidade intelectual do conhecimento, a política e a ética. A formação da sociedade (relação que os homens esta-
Sócrates é conhecido por seu método prático baseado belecem entre si) acontece num processo. É uma dinâmica
no diálogo, na dialética que tem como objetivo desenvol- em que se estabelecem confrontos de interesses sociais e
ver um conhecimento seguro sobre as coisas, método que econômicos, que, em grande parte, toca na ganância pela
se dá a partir de dois pontos principais: a ironia e a maiêu- posse de bens materiais ou pela luta da sobrevivência
tica (TOMELIN; SIEGEL, 2013). (KEIM, 2001).
Assim, a ironia é o momento inicial do método socrá- É perante a esse exemplo que a pessoa se encontra
tico e significa reconhecer a própria ignorância. A palavra diante de dois caminhos: optar pela humanização ou negá-
“ironia”, na versão grega, denota a atitude de interroga- -la. A escolha de um dos caminhos, geralmente, é estabele-
ção e questionamento. E maiêutica significa que somente cida por condições históricas e sociais que fazem parte de
quando o indivíduo percebe suas limitações do seu discer- cada indivíduo. Este indivíduo que é um ser em construção,
nimento é que está preparado para reconstruir e desenvol- nunca está acabado e sua construção se dá a partir de suas
ver sua capacidade intelectual (MORREL, 2014). condições sociais (KEIM, 2001).
A desumanização pode ser definida pela negação de
Platão e o mundo das ideias diversas culturas que vão construindo o cotidiano da pes-
Platão é um dos mais citados filósofos da história da soa. É a negação da complexidade e a diversidade que
filosofia ocidental, ele foi o fundador da Academia de Ate- formam continuamente cada indivíduo. A humanidade é
nas. Segundo Marcondes (2010), Platão foi o primeiro a desconfigurada quando se impõe um modelo único de cul-
constituir a filosofia como uma formulação e sistematiza- tura. Em nosso tempo, a desumanização acontece quando
ção clássica. o modo de vida é baseado na competitividade, na explora-

11
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
ção do capital e na ideologia de mercado. Quando as pes- Para Deleuze e Guattari, todo o pensamento é relação
soas ficam submetidas a esses valores, a relação entre as com o caos. O pensamento é o resultado de uma operação
culturas acaba por criar e reproduzir injustiças, exploração que se faz ao caos, é a própria composição do caos. Pensar,
e violência (FREIRE, 2002). é dar consistência ao caos. Deleuze e Guattari definem o
Freire nos explica que: na dinâmica entre oprimido e caos como um virtual que, enquanto velocidade absoluta,
opressor, ambos têm sua humanidade roubada, fato que é nascimento e esvaziamento de todas as formas possíveis.
é determinante e dificulta a ruptura para um sistema social «Definimos o caos menos pela sua desordem do que pela
alternativo. A humanização é uma busca permanente do velocidade infinita com que se dissipa toda a forma que
ser humano, não é um fim em si mesmo, mas um meio para nele se esboça. É um vazio que não é um nada, mas um
alcançar outro objetivo (FREIRE, 2002). virtual, contendo todas as partículas possíveis e adquirindo
todas as formas possíveis que surgem para de imediato
Freire e educação como proposta de humanização desaparecerem, sem consistência nem referência, sem
Uma ideia inicial é que a educação pode reforçar os consequência».   O caos não é o nada, mas um virtual na
mecanismos sociais que viabilizam a desumanização e a medida em que  contém todas as formas possíveis. No
exclusão social. Essa argumentação de Freire, além de con- entanto, em vez de ser um simples momento de atualização
tradizer o discurso oficial e conservador da época, apre- dessas formas, é também o momento da sua dissipação.”
senta a educação não mais como um reflexo da socieda- Deleuze e Guattari começam por definir o
de, mas como uma possibilidade de alteração social. Logo, acontecimento como sendo a  realidade do virtual. No
para Freire, o ato educativo é necessariamente um ato po- entanto, a relação acontecimento/virtual nem sempre é a
lítico (KEIM, 2001). mesma. Ela depende dos três modos de a abordar: o modo
Outra ideia de Freire é a “educação bancária”. O termo científico, o filosófico e o artístico. Segundo Deleuze e
faz uma crítica à postura das escolas como reprodutoras Guattari, a Ciência não se ocupa do acontecimento uma
da ideologia de mercado. Freire identifica algumas carac- vez que se orienta para o mundo empírico, o mundo dos
terísticas comuns na relação entre educação e mercado. O estados de coisas atualizados, com propriedades de coisas
conteúdo é compreendido como “produto”, os alunos são
constituídas. Ora, o acontecimento é imaterial, incorpóreo,
vistos como “clientes”, a vivência e o cotidiano em sala de
não susceptível de ser vivido. O acontecimento é o vapor
aula são vistos como “produção” (KEIM, 2001).
que sai dos estados de coisas, não se confundindo com
A proposta de Freire vê a educação como um proces-
elas. Por outro lado, o acontecimento é da ordem do
so que pretende tornar as pessoas capazes de interpretar
Aiôn, do tempo que excede todas as formas ordenáveis
a realidade, de forma a perceber as relações de opressão e
de tempo (Chronos) e que se apresenta como um imenso
exclusão. Para Freire a educação tem que ser sistêmica, ser
percebida como um jogo de poder que é social, sem intera- tempo vazio. O acontecimento é não da ordem do tempo
ções, envolvendo a ética e os costumes. Este jogo de poder classificável, o tempo cujos instantes se sucedem, mas da
não deve excluir, mas deve acolher os seguintes elementos: ordem do devir, o qual pertence ao tempo da imanência,
a ética, as emoções, os sentimentos, a política em favor da dos entre-tempos que se sobrepõem. «O entre-tempo, o
vida, a solidariedade, a autonomia, e os conhecimentos con- acontecimento, é um tempo morto, aí onde não se passa
textualizados. O que também significa diminuir a competição nada, uma expectativa infinita que é já infinitamente
e afastar o discurso conformista da realidade (KEIM, 2001). passada, expectativa, reserva. Esse tempo morto não vem
Percebemos a importância da abordagem da filosofia depois do que acontece, ele coexiste com o instante ou o
na educação, no sentido que deve haver reflexão constan- tempo do acidente, mas como imensidão do tempo vazio
te sobre os objetivos e uma abordagem dialética, porém, em que o vemos ainda por vir e já chegado». Portanto, o
contextualizada, a fim de proporcionar na práxis a eman- acontecimento não é nem temporal nem espacialmente
cipação do ser humano e permitir que o mesmo interaja ordenável, ou para retomar uma expressão de O que é a
com a sociedade de modo crítico, reflexivo e com atitude Filosofia?: «o acontecimento não se preocupa com o lugar
filosófica. onde está, e não quer saber há quanto tempo existe».
 Ora, segundo Deleuze e Guattari, a Ciência opera por
Filosofia, a arte e as ciências. funções, as quais dizem respeito aos estados de coisas, a
No seu último livro, intitulado O que é a Filosofia?, objetos ou corpos individuados, sejam eles uma nuvem ou
Deleuze e Guattari desenha  uma cartografia do um fluxo, e num tempo classificável. A função pretende
pensamento onde distinguem Filosofia, Ciência e Arte. «isolar variáveis num ou noutro instante, ver quando novas
Neste mapa,  inscrevem as diferenças entre estas três variáveis intervêm a partir de um potencial, em que relações
dimensões do pensamento, mas também a sua  natureza de dependência podem entrar, por que singularidades
complementar. Entre elas não há hierarquia nem passam, que limiares transpõem». Página  148 (nossa
dependência. Deleuze e  Guattari afirmam-no claramente: tradução). A Ciência ocupa-se do caos, tenta compreendê-
«As três vias são específicas, tão diretas umas comoas outras, lo, ordená-lo, extrair dele funções que lhe permitam regular
e distinguem-se pela natureza do plano e do que o ocupa. os estados de coisas ou um sistema atual  e num tempo
Pensar, é pensar por conceitos, ou então por funções, ou entre dois instantes ou tempos entre muitos instantes.
então por sensações, e qualquer um destes pensamentos A Ciência segue um movimento descendente do caos
não é melhor do que o outro, ou mais plenamente, mais virtual aos estados de coisas, isto é, atualiza os estados de
completamente ,mais sinteticamente ‘pensamento’ coisas num corpo, num tempo e num espaço singulares.

12
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
É este movimento descendente do caos virtual às coisas, um acontecimento que sobrevoe qualquer vivido, não
num espaço e num tempo determináveis, que Deleuze e menos do que qualquer estado de coisas».  O conceito
Guattari descrevem como sendo a criação de um plano de diz o acontecimento e não a essência ou a coisa em si. O
referência, próprio da Ciência. conceito de pássaro, para retomar um exemplo de O que
A Filosofia segue o movimento inverso. Ela parte é a Filosofia?, não está no seu género ou na sua espécie,
dos estados de coisas para chegar ao virtual. Agora, o mas na composição das suas posturas, das suas  cores e
acontecimento aparece como sendo a realidade do virtual, dos seus cantos. O pássaro como acontecimento.  «Os
mas do virtual tornado consistente, tornado entidade real conceitos filosóficos têm por consistência acontecimentos,
sobre um plano de imanência, excedendo qualquer função enquanto as funções científicas têm por referências estados
possível e qualquer determinação de um espaço e de um de coisas ou misturas: a filosofia continua incessantemente,
tempo. «O virtual já não é a virtualidade caótica, mas a através de conceitos, a extrair do estado de coisas um
virtualidade tornada consistente, entidade que se forma acontecimento consistente, um sorriso sem gato, de algum
sobre um plano de imanência que corta o caos. É o que modo, enquanto a ciência continua incessantemente,
chamamos Acontecimento, ou a parte que escapa à sua através de funções, a atualizar o acontecimento num estado
própria atualização em tudo o que acontece».  O virtual de coisas, numa coisa ou num corpo referenciáveis».  O
enquanto acontecimento é o que escapa à sua própria conceito é pois única e exclusivamente filosófico, pois ele
atualização, a parte daquilo que acontece que não se é posição não de proposições ou enunciados (como na
atualiza. O acontecimento atualiza-se no estado de coisas, ciência) mas de problemas.
num corpo ou numa vivência, mas enquanto sobrevoo, isto A Ciência, ao querer dar uma referência ao virtual,
é, enquanto entidade da qual uma parte não se atualiza. O envolvendo-o num estado de coisas, trabalha com a parte
acontecimento é real sem ser atual, ideal sem ser abstrato, do acontecimento que se atualiza e se efetiva, enquanto que
imaterial, pura reserva em estado de sobrevoo sobre os a Filosofia, faz o movimento inverso: trabalha com a parte
estados de coisas, entre-tempo ou tempo vazio e morto do virtual do acontecimento que não se atualiza. A Ciência
Aiôn. O acontecimento atualiza-se num estado de coisas atualiza ou efetua o acontecimento, implicando-o num
mas também tem «uma parte sombria e secreta que não estado de coisas. A Filosofia opera uma «contra-efetuação»,
para de se subtrair ou de se juntar à sua atualização». Ora, é ou seja, ela pensa a parte que não se atualiza naquilo que
essa parte sombria que constitui o virtual, que é a realidade acontece, abstraindo-se dos estados de coisas para libertar
do virtual. O acontecimento é portanto um virtual muito deles o conceito. E, nessa medida, torna o virtual consistente.
específico, aquele que, já não sendo caótico, é tornado «É pois sob dois aspectos ligados que o conceito filosófico
consistente ou real sobre o plano de imanência. «Cada e a função científica se distinguem: variações inseparáveis,
componente do acontecimento atualiza-se ou efetua-se variáveis independentes;  acontecimentos num plano de
num instante, e o acontecimento, no tempo que passa imanência, estados de coisas num sistema de referência».
entre esses instantes; mas nada se passa na virtualidade No entanto, Deleuze adverte que o acontecimento
que só tem entre-tempos como componentes, e um  é inseparável do estado de coisas nos quais se atualiza
acontecimento como devir composto». Página 149 (nossa ou efetua, da mesma maneira que o estado de coisas é
tradução).  Nada se passa, e no entanto tudo muda, inseparável do acontecimento, que, no entanto, o excede.
porque no acontecimento tudo entra em devir. Ele é «pura E afirma: «é necessário subir até ao acontecimento que
imanência daquilo que não se atualiza ou daquilo que fica dá a sua consistência virtual ao conceito, e do mesmo
indiferente à actualização». Ele é um virtual enquanto parte modo descer até ao estado de coisas actual que dá as suas
que esquiva, que escapa, que fica indiferente à sua própria referências à função (…). Não é a mesma linha que se sobe
atualização. A realidade do virtual não depende da sua e que se desce, são linhas diferentes mas inseparáveis,
atualização porque ela é pura imanência. cada  uma completa em si mesma (…) e o conceito não
A Filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar reflete sobre a função, tal como a função não se aplica ao
conceitos. E o que é o conceito ? «O conceito define-se pela conceito (…): é por isso que é sempre triste que os cientistas
inseparabilidade de um número finito de componentes façam filosofia sem um meio realmente filosófico, ou que
heterogéneas percorridas por um ponto em sobrevoo os filósofos façam ciência  sem um meio efetivamente
absoluto, a uma  velocidade infinita».  Página 36 (nossa científico».
tradução).  Deleuze e Guattari definem o conceito como Que caminho, entre as duas linhas da Ciência e da
sendo simultaneamente absoluto e relativo. Relativo face Filosofia, pode a arte  seguir ? Ao criar obras de arte, o
às suas próprias componentes, aos outros conceitos, ao artista cria estados de coisas, não para atualizar ou efetivar
plano no qual se delimita, aos problemas que é suposto uma virtualidade, mas para a contra-efetuar, para atingir
resolver. Absoluto pela condensação que opera, pelo e ir ao encontro do virtual, para tornar sensível a parte do
lugar que ocupa no plano, pelas condições que marca ao acontecimento que não se atualiza. A arte  produz obras
problema. «O conceito define-se pela sua consistência, de arte como estados de coisas, não para as ordenar, mas
endo-consistência e exo-consistência, mas não tem para lhes dar caos, para igualar o infinito, para exprimir o
referência : é auto-referencial, põe-se a si próprio e põe o virtual, em suma, para extrair a sua parte  não-efetuável,
seu objeto». O conceito é o que apreende o acontecimento, intemporal, do acontecimento, a sua parte que constitui a
ou o virtual enquanto acontecimento em devir. «O conceito própria realidade do virtual. Podemos portanto dizer que a
não se refere ao vivido, mas consiste em estabelecer arte vai nos dois sentidos ao mesmo tempo. Ela cria o atual

13
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
mas para libertar o virtual, ela trabalha sobre os estados ele será sempre do  lado do virtual, e a arte do lado do
de  coisas mas para fazer surgir acontecimentos. No possível. Este possível não é a atualização de um virtual, ele
entanto, a arte não é uma síntese das duas linhas. «Os três não atualiza o acontecimento. O possível como categoria
pensamentos cruzam-se, entrelaçam-se, mas sem síntese estética, é o  possível como um ser em si, é a afirmação
nem  identificação. A Filosofia faz surgir acontecimentos de uma existência própria do possível, que  se distingue
com os seus conceitos, a Arte compõe monumentos com da existência virtual do acontecimento. O possível dá um
as suas sensações, a Ciência constrói estados de coisas com mundo, um universo ao virtual-acontecimento.
as suas funções». Enquanto que o virtual existe tanto no plano de
A arte é a conservação do acontecimento, ela faz imanência da Filosofia, como no  plano de referência da
do acontecimento uma sensação. A arte, para Deleuze, Ciência, o possível só existe no plano da composição da
conserva e conserva-se em si. Nesta tese de Deleuze há uma Arte, isto é, no  plano estético. O possível pertence ao
consequência: a auto-posição da obra de arte. Toda a obra mundo da sensação, do afeto e do percepto, que excedem
de arte é um ser de sensação que existe em si e por si. A todo o vivido. A possibilidade estética (pitoral, musical ou
arte conserva o acontecimento, ou seja, ela faz do entre- outra) nada tem a ver com a possibilidade física. Ela existe
tempo ou do devir do acontecimento uma sensação e por si mesma, independente quer do material (suporte
portanto um instante. Só que este instante, precisamente tela, pauta, livro), quer do seu modelo, quer do espectador
por ser uma obra de arte, isto é, por ser uma auto-posição e até do seu criador. Por isso, Deleuze e Guattari escrevem:
de si que se conserva em si mesma, tem a condição de um «o afeto não é a passagem de um estado vivido para um
monumento, de um eterno (sem  ser uma eternidade). A outro, mas o devir  não humano do homem (…). É uma
arte faz portanto do acontecimento uma sensação, isto é zona de indeterminação, de indiscernabilidade, como
um universo. se as  coisas, animais e pessoas (…) tivessem atingido
Que estatuto ontológico conferem Deleuze e Guattari em cada caso esse ponto conduzindo ao  infinito que
a este universo? Que realidade tem este universo? Este precede imediatamente a sua diferenciação natural». O
universo não é nem virtual, nem atual, mas «possível». possível estético é a  condução da sensação, pelo plano
Este universo aparece como sendo uma realidade à parte: de composição, a um desenquadramento que a abre e
é um possível  estético. Deleuze e Guattari explicam que fende para o infinito. O possível é então esse momento em
o possível estético não é a atualização de  uma série de que a sensação iguala o infinito.
acontecimentos. Ele é antes a incarnação ou incorporação Enquanto captação do (virtual do) acontecimento,
do  acontecimento numa obra de arte. «O monumento a arte é o plano de composição que  recorta sensações
não atualiza o acontecimento virtual, mas incorpora-o ou do caos. Há portanto um movimento aparentemente
incarno-o: dá-lhe um corpo, uma vida, um universo. contraditório na arte, a qual vai sempre nos dois sentidos
Estes  universos não são nem virtuais nem atuais, são ao mesmo tempo : da sensação composta ao plano
possíveis, o possível como categoria estética (‘deem-me o de composição como corte do caos, como movimento de
possível, senão sufoco’), a existência do possível, enquanto definição determinada (finito); e do plano de composição
os acontecimentos são a realidade do virtual, formas de um à sensação composta como movimento de infinito. Entre
Pensamento-Natureza que sobrevoam todos os universos a sensação e o  plano existe uma estrita coexistência e
possíveis».  A condição ontológica dos universos  criados complementaridade, os dois formam-se e compõem-se ao
pela arte distingue-se portanto da ordem da efetividade do mesmo tempo, correlativamente.
enunciável. Os universos da arte definem-se portanto pela Este duplo movimento da Arte entre o finito e o
sua inatualidade, a sua temporalidade deum entre-tempo, infinito, os quais constituem o plano  de composição
de qualquer coisa que acontece mas que não se atualiza. como corte do caos, é o que sustende a definição da arte
Eles também não são virtuais. Deleuze e Guattari reservam como pensamento.  Segundo Deleuze e Guattari, a arte é
este modo de existência (virtual) aos acontecimentos. um pensamento, a arte pensa tanto quanto a Filosofia ou
Como eles escrevem, os acontecimentos « são a realidade a  Ciência. A Filosofia dá consistência ao acontecimento
do virtual ».  Eles «sobrevoam», enquanto realidade (conceito) e tenta salvar o infinito. A  Ciência, pelo
puramente espiritual, enquanto aquilo que  Deleuze e contrário, renuncia ao infinito. Ela dá-lhe uma referência
Guattari designam como «Pensamento-Natureza», os de modo a transformá-lo numa função, numa coordenada
universos da arte. A arte faz a conversão modal do virtual. determinável (percepto). A arte cria o finito com o infinito
Os universos que compõem cada obra monumento  são e dá ao acontecimento do possível uma vida, um mundo
o efeito de um processo de doação de vida, de doação possível (afeto).
de um corpo ao  acontecimento. O próprio fazer da obra Percebemos assim como, em Deleuze, a teoria da
é o movimento de construção de um universo  onde se modalidade ajuda a pensar a  diferença entre as três
incarna o mundo das realidades virtuais. A arte é a criação dimensões do pensamento. Esquematicamente podemos
de blocos de  sensação como lugar de incarnação, de dizer  que o virtual corresponde à Filosofia e ao plano de
incorporação do acontecimento. A arte faz da sensação um consistência do conceito, o atual corresponde à Ciência e
monumento. Por seu lado, o acontecimento é a realidade ao plano de referência da função, e o possível corresponde
do virtual que sobrevoa os mundos possíveis da arte. Ele à  Arte e ao plano de composição da sensação. Estes
não os precede necessariamente, podendo  mesmo ser diferentes modos de pensar e de  confrontar o caos,
criado ao mesmo tempo que os mundos possíveis. Mas não são mais do que a constatação do caos como uma

14
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
realidade em  si. Pensar, é dar consistência ao caos. Não dade das ações fez com que este escopo se independesse
uma relação de exclusão, mas pelo contrário, de inclusão. dos outros já existentes como lidando com algo visto na
Pensa-se contra o caos, mas também com o caos, uma vez prática e com efetividade comprovada.
que, para  Deleuze, pensar e ser são uma e mesma coisa. A filosofia da ação tem por foco, como visto acima, a
Desde o ser vivo à obra de arte, há uma  autoposição do ação. O que seria agir? Agir seria da ordem do realizar algo
criado. Por isso, recortar o caos, torná-lo consistente, é no mundo sob algum aspecto e destarte seria uma das for-
conferir-lhe uma  realidade própria. É conferir-lhe uma mas de se falar do próprio homem e de relações que este
objetividade e uma autoposição. A Filosofia precisa de uma toma com os objetos (ou outros seres humanos) que o cir-
não-Filosofia, tal como a Ciência e a Arte. O caos torna-se cundam. A ação de acenar a alguém conhecido, de saudar
Pensamento, adquire uma realidade enquanto Pensamento a alguém como o efusivo “oi!” e etc., seriam exemplos de
ou caos mental. A Arte, a Ciência e a Filosofia são portanto ação e teriam em si uma marca tipicamente humana e um
os três Caóides, as três formas de pensamento e as três referência própria, a saber; a linguagem.
formas de recortar e de criar o caos. Sobre cada plano que A ação tem como berço, seja em sua forma de descri-
recorta o caos produz-se uma realidade própria, um anti- ção ou referência, ou ainda a sua forma de comunicação
caos objetivo. Assim, segundo Deleuze e Guattari, sobre o (comunicar a ação de um indivíduo ou feita por um indiví-
plano de  imanência produz-se a Filosofia, sobre o plano duo). Sendo assim toda a ação está desde cedo imiscuída
de consistência, a Ciência e sobre o plano de composição, na linguagem, dentro de seu escopo e convivendo com
a Arte. A junção destes três planos chama-se «cérebro». esta todo o tempo.
Mas Deleuze e Guattari advertem: o cérebro não constitui Ao longo da história da filosofia e também da própria
a unidade entre as três formas de  realidade que são a concepção do senso comum, foi impossível negar que
arte, a Ciência e a Filosofia. O cérebro não é senão a sua existiam ações humanas. As ações eram parte do dia a dia,
conexão, a sua carta, o seu mapa: o cérebro é um Eu, um compunham um vasto campo de domínio e tinham diver-
«Eu concebo» filosófico, um «Eu refiro»  científico, ou um sas formas de serem interpretadas. Desde que foi conden-
«Eu sinto».2 sada por Aristóteles num texto basilar da filosofia, come-
çou a fazer parte das disciplinas filosóficas e chamou ou
voltou chamar atenção com o advento de vários trabalhos
no século XX, dentre eles destacam-se o de J.L. Austin, Do-
nald Davidson, Elizabeth Anscombe, Robert Brandom (já no
3. FILOSOFIA E AÇÃO. século XXI), Wilfrid Sellars, Gilbert Harmann entre outros.
3.1 MORAL, ÉTICA E POLÍTICA. Cada percurso trilhado levavam a domínios diferentes
3.2 FILOSOFIA, ÉTICA E FELICIDADE (PLATÃO, com expectativas difusas sobre o que viria a ser uma ação?
ARISTÓTELES, AGOSTINHO DE HIPONA E Embora pareça uma pergunta relativamente fácil costuma
SPINOZA). adicionar problemas em sua delimitação.
3.3 ÉTICA, AUTONOMIA DA RAZÃO E Na tese davidsoniana, por exemplo, ações seriam obje-
DIGNIDADE (KANT). tos existentes no mundo que são explicáveis em termos da
3.4 CRÍTICA E GENEALOGIA DA MORAL razão* que leva um determinado agente a realizar tal ação
(NIETZSCHE). de tal modo e isto lhe serve de causa à aççao, e estas são
intencionais. Percebam aqui que a própria definição envol-
3.5 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DESSAS
ve conceitos de grande complexidade como “intenção” e
QUESTÕES E PRINCIPAIS ARGUMENTOS. “racionalização” (explicar a ação dando-lhe a razão para
existir). E como estas complexidades extrapolam o próprio
limite da filosofia da ação entrando num campo da lógica,
ontologia e filosofia da mente e linguagem.
Filosofia da ação Estas caracterizações do que venha a ser ação e do que
A filosofia é composta por diversas áreas de concen- viria a ser uma filosofia sobre a ação demonstram a seara
tração e estudos. A metafísica, ética, filosofia política entre ainda a ser perseguida e ainda a ser encarada pela frente
outras, são responsáveis por muitas investigações, debates e o quanto ainda precisa-se admoestar a ser feito. Não é
e consequências de uma filosofia que perdura por aproxi- uma área acabada e plenamente desenvolvida com escopo
madamente 2500 anos de Histórias. esgotado e como conversa com diversas áreas da filosofia,
A filosofia da ação, embora não tão conhecida como pode contribuir para várias concepções que se vinculem
as demais áreas supracitadas, é uma das partes da filosofia com a racionalidade, a comunicação e a filosofia da lingua-
mais antiga e remonta ao berço da Grécia antiga. Aristóte- gem e da mente.
les no livro VII da Ética a Nicômaco teria traçado o que seria
base dentro do racioncínio prático para demonstrar que Ética e moral
ações humanas são racionais. E demonstrando a racionali- Ética e moral são duas vertentes discutidas na Folosofia
2 Fonte: www.consciencia.org/www.estudantesdefilosofia. que é chamada Filosofia Moral. Ética está diretamente
blogspot.com/www.filosofiadocotidiano.org//www.portale- relacionado ao que é ‘bom’. É um conjunto de valores que
ducacao.com.br/www.filosofiacienciaarte.orgRicardo Ernesto apontam o que caracteriza uma vida como sendo boa na
Rose/Cristina Levine Martins Xavier/Catarina Pombo Nabais concepção de um indivíduo ou de uma comunidade em seu

15
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
todo. Já a moral, por sua vez, tem a ver com o que é justo. guir desenvolver em cada criança o seu potencial a fim de
Distingue-se por um conjunto de regras que assimilam que possa executar melhor a sua função. Cada indivíduo,
condições equitativas de convivência, de respeito e de para ele, será livre enquanto estiver cumprindo as leis, cria-
liberdade. das com o intuito de melhor conduzir a cidade.
Ou seja, ambas estão justapostas: ética é o que faz a Ainda no mundo grego, Aristóteles (384 – 322 a.C.) vai
conduta de cada ser - cada qual vive de acordo com sua discordar de Platão. Em Política, Aristóteles pensa que a
ética e todos, em uma comunidade, convivem sob certa cidade ideal de Platão, onde há prioridade daquilo que é
ética. Moral é o que torna possível essas diversas éticas público sobre aquilo que é privado, não funcionaria muito
conviverem entre si, sem se violarem ou se sobreporem.  bem. Para ele, as pessoas dão mais valor ao que pertence
Na área da ética ficam também as noções de felicidade, a si mesmo, do que ao que pertence a todos. Aristóteles se
de caráter e de virtudes. São as decisões que dão propósito preocupou menos com hipóteses de uma sociedade per-
e sentido à vida, ao tipo de pessoa que se é e que se feita e mais em compreender a realidade política de seu
quer vir a ser e que determina qual a melhor maneira tempo, estudando as leis de diferentes cidades e as formas
de enfrentar determinadas situações - como o medo, de governo existentes. A melhor forma de organização po-
a escassez, a solidão, o arrependimento e etc. Tudo que lítica, defendida por ele, é um sistema misto de democracia
envolve estes subtemas relacionados está ligado à ética. e aristocracia, chamado politia, para evitar os conflitos de
E mais: não existem pessoas sem ética; o que é existe é a interesses entre os ricos e pobres. É dele também a ideia de
pessoa antiética, cuja ética pela qual vive se opõe à ética que o homem é um animal político, isto é, que faz parte da
da sociedade. natureza humana se organizar politicamente.
Já na área da moral estão as noções de justiça, de A ideia de que é natural se organizar politicamente
ação, de intenção, de responsabilidade, de limites, de perdurou até o séc. XVII. Thomas Hobbes (1588 – 1679),
dever e de punição. A moral relaciona-se com questões do conhecido por ter escrito Leviatã, propôs a ideia de que a
exercício de até onde vai o direito de um indivíduo que sociedade se organiza a partir de um contrato social. Pen-
não ultrapasse, nem viole os direitos de um outro. A moral sou assim, pois é possível imaginar uma hipótese sobre o
pode ser considerada uma atitude isolada, que caracteriza convívio humano antes da formação das sociedades. Hob-
bes via esse momento como uma guerra de todos contra
se a mesma foi efetivada de acordo com a ética.
todos, onde, em liberdade, cada indivíduo iria apenas pen-
 Em suma: não há convivência sem a moral e a ética.
sar em sua conservação. Deste momento, no qual o ho-
Há quem diga que pessoas que agem moralmente - como,
mem é o lobo do homem, a racionalidade faz o homem
por exemplo, quem evita mentir, roubar, matar, etc - está
perceber que a melhor forma de conservar a sua vida é
agindo sem mérito, porém fazendo sua parte, seu mínimo.
perdendo um pouco de liberdade. É neste instante que os
Já quem age sem moral, deixa de fazer este mínimo e é
homens assinam um contrato fictício de convívio social. A
culpado - e, por isso, pode ser punido - estas, vertentes do partir desta origem da sociedade, Hobbes pensa no melhor
âmbito do Direito. Em contrapartida, quem age com ética governo para evitar o retorno para um estado de natureza
- sendo generoso, corajoso e perseverante, por exemplo - caótico. Com isto, vê a garantia da vida como função vital
está dando o seu máximo e tem mérito. Mas quem age de do Estado, que deve defendê-la mesmo que use de seu
forma antiética, não tem mérito - mas não necessariamente poder para coagir a liberdade dos cidadãos.
será punido. Será mal visto mediante sua sociedade, uma Pensando na ideia de um contrato social, John Locke
vez que sua ética se opõe à da maioria. (1632 – 1704), em seus dois tratados políticos, escreveu
que antes da formação das sociedades os indivíduos não
Filosofia da Política viviam em guerra, pois estavam debaixo de leis naturais.
Entre as diversas questões que a filosofia visa investi- Para ele, é natural a garantia da vida e os homens racionais
gar, pode-se perguntar sobre como é e como deveria ser respeitariam esta lei. A formação das sociedades ocorre
o convívio em sociedade. Se for investigada a palavra po- pela necessidade da garantia da propriedade. O melhor
lítica, que vem do grego, será compreendido que politika governo, para Locke, é aquele que garanta os direitos à
refere-se aos assuntos da cidade (pólis). É neste sentido vida, liberdade, propriedade e de se revoltar contra gover-
que, em filosofia política, pergunta-se sobre a natureza das nos injustos e leis injustas.
leis, a natureza do governo, a origem da organização so- Ainda pensando sobre a noção de contrato, Jean-Jac-
cial e sobre qual seria a melhor forma de convívio entre os ques Rousseau (1712 – 1778) via o homem vivendo antes
indivíduos. Todos estes temas nos levam a pensar sobre o da formação das sociedades de forma bem otimista. Para
espaço público, que é o espaço da política. Rousseau, havia terra e alimento para todos e não haveria
O primeiro filósofo a sistematizar uma ideia política foi motivos para que guerreassem entre si. Via no surgimento
Platão (428-7 – 348-7 a.C.). Ele escreveu sobre o assunto da propriedade o surgimento da desigualdade, de onde
principalmente em dois livros, A república e As leis. Nes- resultam diversos males sociais, como os roubos e os as-
tes livros, apresenta a ideia de que uma sociedade bem sassinatos. Neste sentido, sendo impossível retornar a um
ordenada é aquela onde cada indivíduo desempenha a estado de natureza, o melhor governo é aquele que esteja
função na qual é mais habilidoso. Os hábeis com as mãos de acordo com a vontade da maioria.
deveriam ser artesãos, os fortes devem proteger a cidade A forma de pensar dos contratualistas (Hobbes, Loc-
e os sábios devem governá-la. Platão pensa também sobre ke e Rousseau) foi retomada no século XX por John Ra-
como deve ser a educação nesta cidade ideal, para conse- wls (1921 – 2002). Para ele, a sociedade deve basear-se em

16
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
princípios de justiça escolhidos na fundação da sociedade. Diante desse quadro, a função do soberano seria
Em igualdade, ele pensa, os indivíduos escolheriam dois justamente assegurar o cumprimento do pacto social,
princípios de justiça, o de liberdades iguais para todos e garantindo paz e segurança aos indivíduos. Para tanto,
o de que as desigualdades devem trazer maior benefício HOBBES defende que o mesmo não deve estar subordinado
para os menos favorecidos e serem acessíveis a todos por a quem quer que seja, pois só assim seria capaz de conter
igualdade de oportunidade. os interesses particulares em prol do interesse geral.
Conforme assevera REINALDO DIAS (Ciência Política,
O pensamento político em Maquiavel, Hobbes, Loc- São Paulo, Atlas, 2010, p. 68), “a submissão absoluta é
ke, Montesquieu, Rosseau, Kant, Hegel e Marx o preço que devem pagar os súditos ao soberano por
Na Idade Moderna (1453-1789), destaca-se o pensa- lhes haver salvado de seu destrutivo estado em que se
mento político de NICOLAU MAQUIAVEL (1469-1527), no- encontravam”.
tadamente o contido em O Príncipe, obra escrita em 1513, O pensamento político de THOMAS HOBBES, como
e publicada em 1532, e que sintetiza a sua teoria política. se observa nitidamente, buscava fundamentar o poder
Segundo MAQUIAVEL, o príncipe (termo empregado ge- absoluto do rei. Vale dizer, o resultado institucional do
nericamente, a designar todos os governantes) deveria aludido pacto social seria o Estado Absolutista.
prover estabilidade à cidade, o que deveria ser conseguido
a qualquer custo. Em suma, para o pensador florentino, a John Locke
política podia ser traduzida através da conquista, consoli- O inglês JOHN LOCKE (1632-1704), juntamente com
dação e manutenção do poder e, para tanto, MAQUIAVEL HOBBES e ROUSSEAU, foi um dos principais representantes
discorre sobre os meios necessários, afirmando, inclusive, do Jusnaturalismo (Escola dos Direitos Naturais).   O
que a obediência a princípios morais seriam irrelevantes pensamento político de LOCKE, da mesma forma, deve
nessa empreitada. Afinal, segundo ele, “os fins justificariam ser analisado e compreendido dentro do contexto
os meios”. histórico da época, quando a Inglaterra encontrava-se em
Nesse diapasão, conforme assevera LAIRTON MOACIR grande instabilidade devido à Revolução Gloriosa (1688-
WINTER: 1689), movimento através do qual se operou o colapso
“O que determina se uma atitude é ética é a sua fina- da monarquia absolutista naquele país e sua consequente
lidade política. Neste sentido, os valores morais só podem substituição pela monarquia parlamentar constitucional,
ser compreendidos a partir da vida social. Assim, sublinha além de ter possibilitado a ascensão da burguesia ao poder,
MAQUIAVEL, existem virtudes que podem arruinar o Esta- aspecto fundamental para a ocorrência da futura Revolução
do e vícios que, inversamente, podem salvá-lo. O que do Industrial (séculos XVIII e XIX).
Discorrendo sobre tal quadra, JOSÉ ANTÔNIO
ponto de vista da moral tradicional é plenamente condená-
FERNANDES MAGALHÃES (Ciência Política, Brasília,
vel, na ética política maquiaveliana é perfeitamente aceitá-
Vestcon, 2001, p. 58) explica que:
vel”. (LAIRTON MOACIR WINTER; Revista Tempo de Ciência,
“No século XVIII, a burguesia ascendente já estava
nº 13, 2006, p. 119).
suficientemente fortalecida e poderia prescindir de
Como se pode concluir, MAQUIAVEL propõe uma rup-
governos fortes para solidificar seu domínio sobre a nação.
tura entre política e moral, afastando-se, ademais, da reli-
Os monarcas ingleses da Dinastia STUART pretendiam
gião. Para a teoria maquiaveliana, a política não se caracte-
fundamentar a autoridade real no poder divino, ficando
rizaria por qualquer ideal cristão, mas, sim, pela incessante
o século XVII marcado pelos constantes conflitos entre a
luta pelo poder, onde tudo seria válido. autoridade real, supostamente inata porquanto oriunda da
vontade divina, e a autoridade do Parlamento baseada no
Thomas Hobbes princípio racionalista de representação dos interesses dos
THOMAS HOBBES (1588-1679), pensador inglês e proprietários burgueses”.
integrante da corrente contratualista, afirmava que a As obras mais conhecidas do pensador inglês são Dois
condição humana seria, por natureza, agressiva e egoísta, Tratados sobre o Governo Civil e Ensaio sobre o Entendimento
asseverando, ainda, que o homem, sem um poder forte Humano.
o suficiente para lhe impor limites, atuaria como “lobo do No Primeiro Tratado, LOCKE opõe-se rigorosamente
próprio homem”, prevalecendo, neste estado de guerra, às ideias defendidas por ROBERT FILMER (1588-1653),
a insegurança. Os mais fortes, por sua vez, tenderiam a um pastor anglicano, no livro Patriarca, obra esta na qual
subjugar os mais fracos. Para evitar que isso ocorresse, FILMER, em síntese, aponta e admite a existência de uma
haveria a necessidade da figura de um soberano, a quem natural dominação entre os homens. FILMER assevera,
se conferiria um poder ilimitado. ainda, que tal relação (de dominação, de subordinação)
HOBBES, então, concebe o denominado pacto social seria oriunda da própria Criação; vale dizer, ostentaria
como a única alternativa que permitiria que os indivíduos natureza sagrada. De sua parte, LOCKE rejeitava a teoria do
saíssem do estado de guerra (de todos contra todos) direito divino dos reis (poder absoluto dos reis), procurando,
no qual, segundo a visão hobbesiana, naturalmente se ainda, criar uma doutrina que conjugasse a liberdade dos
encontram. Através de tal pacto haveria a transferência indivíduos e a manutenção da ordem política. JOHN LOCKE
do direito de agir ao soberano, possibilitando, na visão de entendia que a soberania não estaria enfeixada nas mãos
HOBBES, a preservação do homem. do Estado, mas, sim, nas do povo.

17
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
As principais concepções apresentadas nos Dois entre outras abordagens, formula princípios básicos para
Tratados sobre o Governo Civil são: os homens nascem livres evitar governos despóticos, cunhando a denominada
e iguais; o poder do governante funda-se nos poderes tripartição das funções dos Poderes do Estado, teoria que
pertencentes aos indivíduos, os quais são transferidos restou conhecida como sistema de freios e contrapesos
àquele; o estado de natureza não é necessariamente um (checks and balances), verdadeira condição, segundo o
estado belicoso (de todos contra todos); o exercício tirano pensador, para a liberdade:
do poder transferido ao governante anula a legitimidade “Quando numa só pessoa, ou num mesmo corpo de
da autoridade, razão pela qual LOCKE reconhece, no magistratura, o poder legislativo se acha reunido ao poder
seu Segundo Tratado, a possibilidade de derrubada executivo, não poderá existir a liberdade, porque se poderá
do governante pelos indivíduos, notadamente a partir temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado criem
do argumento de que tal medida, a bem da verdade, leis tirânicas para executá-las tiranicamente.
representa a tutela dos direitos naturais, os quais não Não existirá também liberdade quando o poder de
se subordinam à ordem política, ou seja, não foram julgar não se achar separado do poder legislativo e do
conferidos pelo Estado. Ao sinalizar que o fundamento executivo. Se o poder executivo estiver unido ao poder
legal da autoridade governamental reside justamente na legislativo, o poder sobre a vida e a liberdade dos cidadãos
legitimidade, o notável pensador inglês acaba por fornecer seria arbitrário, porque o juiz seria o legislador. E, se estiver
uma justificativa para as ações revolucionárias. unido ao poder executivo, o juiz poderá ter a força de um
Com dito, para LOCKE, pensador da corrente opressor.
contratualista, as pessoas, na sua essência natural, são Tudo então pereceria, se o mesmo homem, ou o
livres e iguais. Nada obstante, são caracterizadas por mesmo corpo dos principais, o dos nobres, ou o do povo,
serem egoístas. A transição do estado da natureza para a exercesse estes três poderes: o de criar leis, o de executar
sociedade civil é assim explicada por REINALDO DIAS: as resoluções públicas e o de julgar os crimes e as questões
“Para este filósofo os homens em estado de natureza dos particulares”. (MONTESQUIEU; O Espírito das Leis, 1748,
têm certos direitos que são fundamentais: a vida, a liberdade p. 133).
e a propriedade. Dado que esses direitos individuais estão  
em constante risco e sem nenhuma segurança, é necessário
um poder capaz de definir os direitos de cada um e Rousseau
sancioná-los mediante a autoridade. Essa autoridade surge JEAN-JACQUES ROUSSEAU (1712-1778), outro
do contrato por meio do qual o homem natural transfere à pensador contratualista, na sua mais famosa obra (Do
comunidade seus direitos como condição essencial ao bem Contrato Social), afirma que os indivíduos, a fim de criar
comum”. (ob. cit., p. 70). uma sociedade, celebram um autêntico contrato social.
Segundo LOCKE, os homens, no estado da natureza, Segundo o pensador, o aludido contrato social seria
viviam em conformidade com a lei natural, sendo uma livre associação de seres humanos inteligentes, que
detentores, entre outros, do direito de propriedade. deliberam e decidem formar uma sociedade, à qual devem
Portanto, na visão de LOCKE, a propriedade, sendo um obedecer por força da chamada vontade geral.
direito natural do indivíduo, é anterior à própria sociedade Diferentemente de HOBBES, ROUSSEAU acreditava
civil, motivo pelo qual não pode ser violado nem mesmo que o homem seria naturalmente bom (estado da
pelo poder político. No que se refere à compreensão natureza), sendo que a vida em sociedade (estado civil) é
acerca dos direitos naturais, LOCKE, novamente, afasta- que tenderia a transformá-lo numa pessoa má. ROUSSEAU,
se de HOBBES. Para este, somente através do soberano é portanto, atribui tal tendência para o mal à vida humana
que o direito existe como realidade. LOCKE, por sua vez, em sociedade.
concebe a lei natural como lei, revestindo-se de todos os Dizia ROUSSEAU, então, que a vida na sociedade civil
atributos daquela editada pelo Estado (a lei positiva). Por é que corromperia o homem, cuja essência, no estado
essa razão, LOCKE afirma que o direito de propriedade, por natural, seria boa e pura, isto é, desprovida de qualquer
se tratar de um direito natural, independe de qualquer ato depravação e/ou corrupção. Nesse aspecto, nota-se que a
de positivação a ser editado pelo ente estatal. concepção política de ROUSSEAU difere da de THOMAS
WEFFORT (Os Clássicos da Política, São Paulo, Ática,
HOBBES, uma vez que o denominado “estado de guerra”,
1989, p. 88) assevera que LOCKE, além de ter fundado
categoria idealizada por HOBBES, estaria presente, na visão
os alicerces do individualismo liberal, apresentou uma
rousseauniana, não na natureza, mas na sociedade civil.
justificação moral, política e ideológica para a Revolução
ROUSSEAU desenha o estado de natureza com tons
Gloriosa e para a monarquia parlamentar de GUILHERME
de absoluta felicidade humana, no qual não haveria
DE ORANGE, tendo, ainda, participado ativamente da luta
desigualdade. Tendo em vista o convívio social, o homem,
pela ascensão da burguesia ao poder político na Inglaterra.
Para tanto, opôs-se à concepção absolutista do poder acreditava ROUSSEAU, adquiriria novas demandas
monárquico e seu respectivo fundamento divino. (necessidades) e, por conseguinte, a vontade de satisfazê-
las, dando margem ao surgimento do fenômeno da
Montesquieu desigualdade, problema que inviabilizaria o alcance
CHARLES-LOUIS DE SECONDAT (1689-1755), o Barão do valor liberdade, uma vez que esta não existiria sem
de MONTESQUIEU, é outro grande pensador político. Na igualdade, e tendo em vista que aquele que se encontra
obra O Espírito das Leis, publicada em 1748, MONTESQUIEU, numa condição superior em relação ao outro ostentaria

18
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
mais poder e, por conseguinte, limitaria o indivíduo que é, ao mesmo tempo, tanto poder como função. No último
estivesse na posição de inferioridade. A instituição pública caso, função política, cujo objetivo é o trato da coisa
(decorrente da celebração do pacto social) seria a única pública, voltada que está para a satisfação do indivíduo,
maneira de se garantir a liberdade humana. socialmente considerado (WELLINGTON TROTTA; O
ROUSSEAU, no Do Contrato Social, afirmava que seria Pensamento Político de Hegel à Luz de sua Filosofia do
o povo (e não mais o monarca absoluto) a origem legítima Direito, Revista de Sociologia e Política, vol. 17, nº 32, 2009,
do poder soberano. Em síntese, ROUSSEAU empreende p. 17).
uma análise acerca da origem, formação e manutenção da HEGEL, na obra Princípios da Filosofia do Direito, analisa
sociedade humana, tida por ele como fruto de um acordo a questão da realização da liberdade através do Estado. Para
(ou contrato) entre os indivíduos. Outrossim, na mencionada o pensador alemão, o Direito efetiva, institucionalmente, a
obra, aduz que o fundamento do Estado dependeria de da liberdade. Conforme explica RIBEIRO:
um elemento fundamental, a chamada vontade geral, que “Para HEGEL, a liberdade verdadeira só se efetiva
não se confundiria com a vontade de todos (a soma dos pela construção de um mundo positivo, de instituições.
interesses particulares). Aquela, a vontade geral, atenderia Contudo, não é mais possível, após a Revolução Francesa,
ao interesse comum, enquanto esta (a vontade de todos) reconstruir o modelo da antiga polis grega. Daí a superação
teria como foco os interesses privados, os quais, por serem da concepção individualista da liberdade, – no resgate da
conflitantes, deveriam ser eliminados, construindo-se, dimensão institucional –, ser enfrentada por HEGEL como
assim, o caminho para o interesse comum. a grande tarefa de seu tempo”. (FERNANDO J. ARMANDO
Com efeito, o Estado, na ótica de ROUSSEAU, seria RIBEIRO; A Constituição do Estado no Pensamento de Hegel,
o objeto de um contrato, sendo criado para proteger e Revista da Faculdade de Direito da UFMG, Belo Horizonte,
preservar os direitos naturais dos indivíduos, devendo nº 55, 2009, p. 19).
eliminar as vontades particulares e expressar a vontade   HEGEL discorda da concepção defendida pelos
geral, esta destinada a assegurar liberdade, igualdade e pensadores contratualistas, notadamente quando tal
justiça. corrente defende que a edificação do Estado seria fruto
A respeito de tal pacto social, afirma ROUSSEAU (Do do denominado contrato social. Para JOAQUIM CARLOS
Contrato Social, 1997, p. 85) que “só a vontade geral pode SALGADO (A Ideia de Justiça em Hegel, São Paulo, Loyola,
dirigir as forças do Estado de acordo com a finalidade 1996, p. 346), “o contrato social, ainda que concebido
de sua instituição, que é o bem comum, porque, se a logicamente (ROUSSEAU e KANT) e não historicamente,
oposição dos interesses particulares tornou necessário faz do Estado um resultado do arbítrio individual, isto é,
o estabelecimento das sociedades, foi o acordo desses privatiza a origem do Estado”.
mesmos interesses que o possibilitou”. ALYSSON LEANDRO MASCARO (Filosofia do Direito,
Não é de se estranhar que os princípios de liberdade e São Paulo, Atlas, 2013, p. 262), no mesmo sentido, explica
igualdade defendidos por ROUSSEAU tenham inspirado a que o Estado, na visão hegeliana, é o elemento processual
Revolução Francesa (1789) e, anteriormente a esta, o mais de organização da própria vida do povo, sendo mesmo
importante movimento liberal democrático do mundo: a uma individualidade com seus próprios interesses e
Revolução Americana (1775-1783), que foi a responsável, necessidades históricas, não sendo, portanto, fruto de
em última análise, pela irradiação dos mencionados um acordo de vontades individuais, como pretendem
princípios para todo o continente europeu. Nitidamente, os autores contratualistas antes visitados. Em suma, a
encontramos no pensamento político de ROUSSEAU concepção hegeliana de Estado supera definitivamente
a noção daquilo que hoje conhecemos como Estado a filosofia política do Jusnaturalismo, segundo BOVERO
Democrático de Direito, no qual a vontade geral é expressa BOBBIO:
por meio da lei. “Com HEGEL, o modelo jusnaturalista chegou à sua
  conclusão. Mas a filosofia de Hegel é não apenas uma
Hegel antítese, mas também uma síntese. Tudo o que a filosofia
GEORG WILHELM FRIEDRICH HEGEL (1770-1831) política do jusnaturalismo criou não é expulso do seu
certamente integra o rol dos grandes pensadores que o sistema, mas incluído e superado”. (BOVERO BOBBIO;
mundo já conheceu. A sua obra Princípios da Filosofia do Direito, Sociedade e Estado na Filosofia Política Moderna, São Paulo,
sem sombra de dúvida, e sem qualquer tom comparativo, Brasiliense, 1991, ps. 96-97).
ocupa o mesmo espaço de outras obras notáveis, tais como  
A República (PLATÃO), Política (ARISTÓTELES), O Príncipe Karl Marx.
(MAQUIAVEL), Leviatã (HOBBES), Os Dois Tratados sobre o Segundo KARL MARX (1818-1883), pensador alemão,
Governo Civil (LOCKE), O Espírito das Leis (MONTESQUIEU), o desenvolvimento da sociedade dá-se por meio da
Do Contrato Social (ROUSSEAU). HEGEL, em Princípios da denominada luta de classes, marcada por um conflito
Filosofia do Direito empreende uma crítica ao Estado e ao envolvendo a classe detentora dos chamados meios de
liberalismo, tratando, ainda, da complexa relação existente produção (classe dominante) e a que fornece a mão de
entre o Direito, a Moral e a Política. obra indispensável para tal sistema (classe trabalhadora).
Assevera que o Estado deve representar a totalidade Assim, para MARX, é justamente através da sociedade que
político-social, de modo a conter o mundo público e o seria possível compreender o aparecimento do Estado.
mundo privado. Para o grande filósofo alemão, o Estado Este, sendo criação daquela, atuaria como uma ferramenta

19
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
destinada a assegurar as bases nas quais a sociedade civil A propósito, segundo MARX, “as classes e as raças,
encontra-se fundada. No Manifesto Comunista (1848), muito fracas para enfrentar as novas condições sociais,
escrita por MARX e FRIEDERICH ENGELS, está dito: “Em devem retirar-se” (KARL MARX; Marx People’s Paper, 16 abr.
sentido próprio, o poder político é poder organizado de 1851), razão pela qual “elas devem perecer no Holocausto
uma classe para opressão de outra”. Revolucionário” (cf. Journal of The History of Ideas, vol. 42,
Com efeito, segundo tal visão, o denominado Estado nº 1, 1981).
Burguês teria a função de assegurar o domínio do capital A partir das doutrinas de MARX e ENGELS, LÊNIN
sobre o trabalho. Assim, na concepção marxista, o Estado estabeleceu as bases ideológicas do primeiro país
seria, simultaneamente, parte integrante das relações comunista do mundo, premissas que, de certo modo,
capitalistas de produção e seu respectivo mecanismo de também inspiraram outro famoso ditador: HITLER, cuja
tutela. comparação com LÊNIN foi feita pelo próprio Ministro
Para MARX, o Estado integra a (por ele) denominada da Propaganda do III Reich, JOSEPH GOEBBELS, que teria
superestrutura destinada a regular a sociedade, sendo ele afirmado que LÊNIN seria o mais ilustre dos homens, atrás
mesmo (o Estado) fruto da luta de classes, quando, na apenas de HITLER.
verdade, deveria estar acima de tal conflito. MARX afirma, KARL POPPER (A Sociedade Aberta e Seus Inimigos,
ainda, que o Estado, enquanto instrumento da classe Belo Horizonte, Itatiaia, 1987, ps. 69-88) afirma que
dirigente, cumpriria o propósito de garantir a hegemonia STALIN teria sido “gerado” por MARX. Na quadra atual,
desta sobre as demais. tal afirmação encontra eco em PIERRE RIGOULOT, Diretor
A respeito de tal característica conferida por MARX ao do Instituto de História Social, Paris, França, o qual, em
Estado, discorre TERRY EAGLETON: artigo (O Totalitarismo Estava em Germe na Obra de MARX)
“MARX nem sempre adotou um ponto de vista tão publicado no Le Figaro, edição de 14 de janeiro de 2016,
vigorosamente instrumentalista do Estado em suas afirma que o pensamento de MARX pode ser entendido como
análises detalhadas de conflitos de classe; mas estava a gênese do totalitarismo. Para tanto, RIGOULOT analisa o
convencido de que sua verdade, por assim dizer, está fora livro de ANDRÉ SENIK, cujo título é O Manifesto do Partido
Comunista aos Olhos da História. Em síntese, no aludido
de si mesma, e além do mais o vê por si só uma forma de
artigo, RIGOULOT anota que:
alienação.  Cada cidadão individual alienou ao Estado parte
  “A obra de MARX, de fato, preconiza conceder o
de seus poderes individuais, que assumem então uma
monopólio do poder político ao Partido Comunista, detentor
força determinante sobre a existência social e econômica
de um conhecimento absoluto sobre a história e conferir
cotidiana, que MARX chama ‘sociedade civil’.  A genuína
ao Estado todos os meios coercitivos necessários para
democracia socialista, em contraste, reuniria estas partes
fazer triunfar suas ideias e controlar todas as atividades
gerais e individuais de nós mesmos, permitindo-nos
econômicas, aspectos que SENIK entende como sendo ‘os
participar de processos políticos gerais como indivíduos
elementos necessários para o estabelecimento de um Estado
concretamente particulares, no local de trabalho, assim totalitário’”.
como na comunidade local, por exemplo, em vez de  
cidadãos abstratos da democracia representativa liberal.  Dentro desse contexto, interessante registrar a perfeita
A visão final de MARX parece assim algo anarquista: a de sintonia existente entre nazismo e comunismo, formas
uma comunidade cooperativa formada pelo que denomina irrefutáveis de totalitarismo, assim retratadas por JOSÉ
‘associações livres’ de trabalhadores, que estenderiam a JOÃO NEVES BARBOSA VICENTE (Totalitarismo, Educação
democracia à esfera econômica enquanto fazem dela uma e Justiça: uma Abordagem Filosófica, Bahia, UFRB Editora,
realidade na esfera política”. (TERRY EAGLETON; Marx e a 2012):
Liberdade, São Paulo, UNESP, 1999, p. 52). “Nazismo e comunismo são classificados em Origens do
  Nota-se que MARX confere ao Estado um viés Totalitarismo como as duas versões de um mesmo fenômeno:
instrumental, arquitetando-o como uma ferramenta à o totalitarismo. […].
disposição da classe dominante, da qual esta se serviria […] o Comunismo não foi diferente do Nazismo que,
para a concretização de seus próprios interesses (e logo de início, fez questão de tirar a máscara. Os dois
não do interesse público). A título de comparação com regimes compartilharam, com efeito, o mesmo modo de
o pensamento de HOBBES, o advento do Estado, na funcionamento totalitário: sozinhos, dominaram o Estado, a
concepção de MARX, não pôs fim ao estado de guerra (luta sociedade civil, as igrejas, o sistema econômico, a vida social,
de todos contra todos) característico da sociedade natural e tomaram o cidadão como indivíduo fundido na massa que
daquele pensador inglês. comunga coletivamente no culto ao Chefe e na obediência e
É importante assinalar que MARX e ENGELS foram sem reservas ao partido. […].
também os predecessores do totalitarismo, ao escreverem, O Comunismo não escravizava, não deportava e nem
em 1849 e 1851, após a chamada Primavera dos Povos executava em nome da força e da raça, mas, escravizava,
(1848), suas teses sobre a necessidade de extermínio das deportava e executava em nome do conceito e da classe.
sociedades primitivas (bascos, bretões, escoceses, sérvios Portanto, […], não havia diferença entre esse regime e
etc.) que, por encontrarem-se dois períodos atrasados na o regime nazista. Repousou sobre uma necessidade:
luta histórica pela revolução, constituíam-se, na ótica de arrancar todas as raízes da ordem existente destruir-lhes
MARX, no “lixo racial” europeu. os fundamentos. Para o comunismo era necessário arrasar

20
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
todos os sustentáculos do mundo antigo, para construir o havia violado todas as regras da revolução socialista e
novo. A morte rondava na revolução marxista a partir do WILSON admitiu que, em termos de democracia, a situação
momento em que sua filosofia da vida transferiu toda a na União Soviética era pior do que na época do Czar”.
energia e toda a astúcia da razão para o lado da destruição  
a fim de chegar ao seu objetivo supremo: uma humanidade Nota-se, portanto, que o nacional-socialismo e o
reconciliada abstratamente consigo mesma sobre os socialismo soviético possuem muito em comum, mormente
cadáveres dos homens reais carregados com indiferença quanto à base ideológica (o marxismo), além de terem,
pelo curso da História”. ambos, sucumbido (enquanto modelo) e deixado milhões
  de vítimas nos anais da história mundial.
A identidade acima pode ser corroborada a partir
de outros dados, tais como: forte propaganda estatal, Kant
implacável perseguição aos opositores do regime, Filósofo alemão do século XVIII, Immanuel Kant foi
extermínio em massa, detenção em campos de uma dos principais pensadores do período moderno da
concentração, xenofobia. Além disso, tanto o marxismo filosofia. Abordando questões que abrangiam desde a mo-
quanto o nazismo pretendiam criar o homem perfeito, ralidade até s natureza do espaço e do tempo, Kant é re-
conforme explica a professora de História Contemporânea conhecido particularmente por promover s reunião concei-
da Universidade de Paris-Sorbonne, FRANÇOISE THOM, tual entre o racionalismo, que tem em Descartes seu maior
para quem ambas as ideologias pretenderam criar um novo expoente, e o empirismo, tal como apresentado por Hume.
homem, travando, para tanto, uma guerra com a própria Desta forma reunindo o potencial da razão humana e a re-
natureza humana: “os nazistas têm uma ideologia baseada levância da experiência no processo de aquisição produção
numa falsa biologia, e o comunismo é baseado numa falsa de conhecimento.
sociologia, mas ambos os sistemas têm a ambição de serem Kant comparou a si mesmo com Copérnico, que re-
científicos, apoiados em bases científicas.” verteu a forma como vemos o sistema solar, na medida
STALIN, fruto do marxismo e um dos vencedores da em que seu trabalho promoveu uma revolução similar na
Segunda Guerra Mundial, é sabidamente um dos maiores
filosofia. Isto ocorreu quando Kant demonstrou como os
criminosos da história. Entre tantas atrocidades cometidas
problemas metafísicos tradicionais poderiam ser supera-
por ele, cabe mencionar o evento que ficou conhecido como
dos pela suposição de que a concordância entre os con-
Holodomor (Fome na Ucrânia), ocorrido em 1932-1933,
ceitos que usamos para conceber a realidade e a própria
quando cerca de 7 milhões de pessoas (correspondentes
realidade surge da conformação desta realidade a mente
a 25% da população local) morreram em decorrência
humana, de modo ativo e de forma que todos os humanos
de fome, fuzilamento, tortura, imigração forçada, entre
possam experimenta-la, e não porque nossos conceitos
outros eficientes e macabros métodos de extermínio
mentais passivamente reflitam a realidade, sem nada adi-
(JANE SPRINGER; Genocide: a Groundwork Guides, Toronto,
Berkeley, 2006, ps. 120-125). cionar. Destarte, para Kant, a experiência era de extrema
Tal dado nos permite afirmar que o Holodomor foi importância, mas a mente humana era a condição de pos-
um dos maiores programas de extermínio em massa da sibilidade para qualquer experiencia. A mente humana é
história mundial, embora o elenco de barbáries cometidas o que nos permite transcender a mera atitude passiva em
por STALIN (e reveladas por NIKITA KHRUSHCHOV, no relação a realidade e termos experiências genuínas.
famoso Discurso Secreto, realizado no XX Congresso Em sua Crítica da Razão Pura, de 1781, Kant leva este
do Partido Comunista da União Soviética, em 1956) seja trabalho a cabo e busca afastar o ceticismo de filósofos
repleto de outras atrocidades, tais como o Grande Expurgo como David Hume, promovendo a dissolução do impasse
(1937-1938), extermínio em massa que causou a morte de entre racionalistas e empiristas. Sua posição não implica
milhões de vítimas (criminosos, membros de comunidades em relativismo da realidade, de fato Kant defende uma
religiosas, kulaks, opositores do regime etc). Em A Verdade realidade objetiva, para a qual cunhou o termo “coisa em
sobre STALIN (2013), JO PIRES-O’BRIEN traça o seguinte si”, porém, se não pelas configurações específicas da men-
panorama a respeito do totalitarismo stalinista: te humana a experiência da coisa em si é impossível, de
  modo que só temos acesso ao resultado de nossos con-
“STALIN introduziu um regime de repressão sem ceitos aplicados sobre s realidade, para o que utilizou o
precedência, caracterizado pela proibição religiosa, prisões termo “fenômeno”. Desta forma, não temos acesso a coisa
arbitrárias, julgamentos de fachada, execuções em massa é si, mas a mente humana não altera s realidade, enquan-
e campos de trabalhos forçados. O exílio de TROTSKY, em to coisa em si, ela altera a nossa experiência da realidade,
1929, foi o primeiro sinal que os ocidentais receberam o fenômeno, em última instância, a mente humana torna
de que as coisas na União Soviética não estavam indo possível a experiência.
conforme o esperado. Refugiados russos que chegavam Devido a estas mesmas configurações, conceitos como
às dezenas na França trouxeram informações frescas sobre espaço e tempo são compartilhados por todas as mentes,
as atrocidades de STALIN. Alguns intelectuais resolveram de modo a tornar possível a comunicação, o conhecimento
ir à União Soviética para checar por si próprios a situação, e a moral.
como o francês ANDRE GIDE e o americano EDMUND Em ética, seu principal legado é o conceito de impera-
WILSON. Quando retornaram, GIDE informou que STALIN tivo categórico, que utilizou para afastar a visão utilitarista.

21
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Em termos de filosofia politica, Kant foi uma expoente acontecia em sua época, ou seja, pensaram sua época e
da ideia de que a Paz Perpétua seria o resultado da história buscaram discuti-la, explicá-la e, sobretudo, apresentar
universal, sendo atingida, em algum momento, e garantida o que era necessário para sobreviver àquele momento,
sem um planejamento racional, mas pela cooperação in- portanto, assim como qualquer um de nós, também os
ternacional. O autor defendeu um estado baseado na lei, filósofos são homens de seu tempo, e para entendê-los
ou uma reunião de indivíduos sob a lei, com um governo é preciso estudar um pouco o momento histórico que
republicano. Kant recusou a democracia direta, pois esta viveram.
oferece risco a liberdade individual, comparando a demo- Aristóteles (384-322 a.C.) é proveniente da Macedônia
cracia com o despotismo, uma vez que esta estabelece um e vem para Atenas, centro intelectual e artístico da Grécia,
poder executivo que pode governar contra a liberdade dos no século IV a.C. para estudar, onde ingressou na Academia
indivíduos que discordam da maioria. Criticou ainda que de Platão. Permaneceu na Academia até a morte de Platão.
a democracia é normalmente identificada com a ideia de
que todos governam, mas de fato o “todo” não é a totali- Felicidade e Santo Agostinho
dade. O autor propunha um governo misto, composto de Santo Agostinho foi primeiro grande pensador que
elementos da democracia, aristocracia e monarquia, o que conseguiu sintetizar de forma sistemática a filosofia grega
deveria servir para evitar as suas formas degeneradas, res- tradicional, especialmente o platonismo e o cristianismo;
pectivamente anarquia, oligarquia e tirania. Ele desenvolveu um pensamento de grande originalidade,
As posições e teorias de Kant continuam a ser estuda- tendo sido influenciado principalmente pela escola cristã
das ativamente, em campos clássicos como a política e a neoplatônica de Alexandria, por meio do neoplatonismo
metafísica, assim como em campos contemporâneos como de Plotino e de Mário Vitorino e dos textos de São Paulo.
a ciência cognitiva e filosofia da psicologia. Entre seus Escreve sobre diversos assuntos como a reminiscência, o
maiores críticos encontramos os filósofos Arthur Schope- dualismo, a natureza do Bem, e a felicidade, mas sempre
nhauer e Johann Georg Hamann. interpretando-os à luz da doutrina cristã.
Aurélio Agostinho nasceu em 354 em Tagaste no norte
Filosofia, ética e felicidade da África, então uma província romana, hoje parte da Ar-
gélia. Mestre de retórica, foi lecionar na Itália e, em Milão,
Partindo de um conceito básico de ética como “saber-
conheceu Santo Ambrósio, então bispo da cidade, cujos ser-
viver, ou a arte de viver” (SAVATER, 2002), pode-se dizer
mões o impressionaram vivamente. Convertido ao cristia-
que os homens tudo fazem para viver e viver bem. É preciso
nismo, Agostinho foi autor de uma extensa obra filosófica e
esclarecer um outro conceito muito importante para a ética
teológica, incluindo comentários exegéticos ao Antigo e ao
– a felicidade.
Novo Testamento, tratados doutrinários como A doutrina
Pode-se afirmar que, para Aristóteles, a felicidade
cristã e A Trindade, além de diálogos de inspiração platônica
é o resultado do saber viver. Entendendo a ética como como Sobre o mestre. Morreu em 430 como bispo de Hipona,
a arte de viver, o resultado desse viver será a felicidade. cidade da região onde nascera, às vésperas da invasão da
Ao discutir o que é felicidade é possível perceber que não África pelos vândalos e pouco antes da queda do Império
há um único conceito e entendimento, mas vários. Assim, Romano.      
vamos buscar entender o que na Antigüidade orientavam Para Agostinho a filosofia pode auxiliar na compreensão
os filósofos Aristóteles e Sêneca aos seus contemporâneos: de passagens obscuras das Sagradas Escrituras, podendo au-
o que fazerem para atingir a virtude, e, portanto, serem xiliar a fé cristã, oferecendo uma explicação racional das teses
felizes. teológicas, como, por exemplo, “a tese da existência de Deus.
A virtude, que segundo Aristóteles, é o que vai garantir A maneira clássica de apresentar essa subordinação consiste
ao homem a felicidade, é “o hábito que torna o homem em dizer que a filosofia é serva da teologia”.
bom e lhe permite cumprir bem a sua tarefa”, a virtude é Santo Agostinho dedica a obra Diálogo Sobre a Felici-
“racional, conforme e constante”. (ARISTÓTELES, 2001) dade ao seu amigo Teodoro e logo no início do texto evoca
Para o Estoicismo, escola filosófica da qual participa a importância dos amigos. O texto se propõe a responder
Sêneca, a felicidade consiste em viver segundo a razão – as perguntas, o que é a felicidade? E como o homem pode
o Logos. Viver segundo a natureza, pois o homem é de ser feliz? O autor classifica em três classes, como que de
natureza racional. Portanto, entendem os estóicos que ser navegantes entre os homens, os quais a filosofia pode es-
virtuoso é viver segundo a razão. colher. A primeira é dos homens que na idade da razão,
A felicidade não é a mesma e única para todos os com um pequeno esforço escolhem a tranquilidade. A se-
filósofos e momentos históricos. No entanto, vamos gunda compreende aqueles que desiludidos pelo aspecto
trabalhar aqui com apenas dois filósofos da Antiguidade, enganador do mar, avançam mesmo assim e escolhem pe-
com concepções e momentos históricos bem diferentes, e regrinar longe da pátria, são aqueles que se justificam com
teremos como norte das discussões a virtude, ou seja, o a afirmativa de que não tem nada para fazer “nenhuma
que ambos apresentam como necessário aos homens na promessa os arranca deste mar de sorriso tão enganador”.
busca do bem viver. A terceira é formada por aqueles que no limiar da adoles-
Vamos buscar o que Aristóteles e Sêneca apresentam cência ou vagueando a muito tempo no mar, contemplam
como referencial para os homens de sua época no sentido os sinais que levam a recordar. Facilmente se deixam levar
de orientá-los em busca da felicidade. Como cada filósofo por seduções, erram durante um longo período e arriscam
apresentou suas idéias em busca de respostas para o que a própria vida.

22
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
As três espécies de navegantes são conduzidas, por Quem procura Deus será feliz, ainda que não possua
diversas maneiras para a região da felicidade, devendo se aquilo que quer. Aquilo que até então parecia simplesmen-
afastar do enorme rochedo que se ergue e causa grandes te impossível, com a crença em Deus se torna possível.
embaraços. Esse rochedo na grande maioria das vezes pos- Agostinho entende que Deus é favorável a quem favo-
sui uma forte luz enganadora e atrativa, que se apresenta rece, e que Deus favorece aquele que o procura. “Portanto,
como se fosse a terra da felicidade, prometendo satisfação quem procura Deus tem-no favorável, e quem quer que
dos desejos, aliciando homens de toda sorte. Os homens tenha Deus favorável é feliz. Logo, mesmo quem O procura
que são seduzidos ficam quase que embriagados e passam é feliz. Mas quem procura ainda não tem o que quer; por
a desprezar os outros navegadores. “Este rochedo não tem isso, quem não tem o que quer é feliz”. Mas não basta ter
qualquer consistência interior nem firmeza: fendendo-se, Deus favorável para ser feliz; “quem já encontrou Deus e
sob os orgulhosos que nele caminham, aquele terreno tão temn’O favorável, é feliz; quem procura Deus, tem-n’O fa-
frágil, enterra-os e engole-os nas trevas medonhas, arreba- vorável mas ainda não é feliz; pelo contrário, quem se afas-
tando-os assim da magnífica pátria que estavam prestes a ta de Deus, por vícios e pecados, não só não é feliz como
alcançar”. não vive com o favor de Deus”.
Esses navegantes têm em comum o desejo de felicida- Não há dúvidas de que o indigente é infeliz, e aqui não
de; seguem rumo ao rochedo porque se permitem enganar se trata do indigente no sentido das necessidades corpo-
facilmente. São homens que buscam uma felicidade fácil rais, mas sim da alma, onde se encontra a vida feliz, afinal a
e rápida, e se esquecem que a felicidade é dom de Deus. alma não sofre a indigência das necessidades corporais. A
Todos os homens guardam em seus corações o desejo alma é perfeita e aquilo que é perfeito não precisa de nada.
da felicidade. Aquele que não tem o que quer é feliz? A maio- O sábio utiliza aquilo que é necessário ao corpo se tiver à
ria das pessoas acredita que quem não tem aquilo que quer mão, mas se isso não acontecer, não sofrerá com sua falta,
não é feliz e acredita que aquele que tem o que quer é feliz. porque aquele que é sábio é forte e não teme.
A nossa mãe disse então: – Se quer bens e os tem, é Evitará portanto a morte e a dor, na medida em que for
feliz; se, por outro lado, quer coisas más, ainda que as tenha possível ou conveniente, e se de nenhum modo as evitar, não
é infeliz. – Mãe, alcançaste por completo o próprio refúgio será infeliz por aquilo que acontece, mas porque podendo
da filosofia – disse eu, sorrindo e cheio de satisfação. – Fal- evitá-las não o quis, o que é sinal evidente de insensatez.
taram-te, é certo, as palavras para te exprimires à maneira Será infeliz não porque as evitou ou suportou pacientemen-
de Túlio, cujas palavras sobre este assunto, escritas na sua te, mas em virtude da sua insensatez. E se não pôde evitá-
obra Hortênsio, composta para elogio e defesa da filosofia, -las, ainda que nisso se tivesse empenhado com todo o zelo
são as seguintes: «Eis que aqueles que precisamente não são e conveniência, não são aquelas contrariedades que o vão
filósofos, mas que, no entanto, se inclinam para as discus- tomar infeliz.
sões, afirmam que quem vive conforme quer é feliz. Mas isto O autor questiona ainda como pode ser infeliz aquele
é seguramente falso; querer o que não convém, isso mesmo que tem suas vontades plenamente realizadas. Nada acon-
é que é a maior infelicidade. Quem não alcança o que quer tece contra a sua vontade “porque aquilo que vê não poder
não é tão infeliz como quem quer alcançar o que não convém. acontecer, não o pode querer. A sua vontade está posta no
Embora seja uma crença muito difundida, que a felici- que é fixo, isto é, tudo aquilo que faz é conforme à regra da
dade se encontra na realização de todos os desejos “nin- virtude e à lei divina da sabedoria, que de modo algum lhe
guém pode ser feliz se não tiver o que quer, mas também podem ser arrancadas”.
não pode ser feliz quem tem tudo o que quer”. Entende que devemos chamar de sabedoria apenas a
O homem acredita que aquele que não é feliz é infeliz sabedoria de Deus e de seu filho que também é Deus. Deus
e que quem não tem o que quer é infeliz. Mas resta a dúvi- é a verdade, aquele sol misterioso que enche de brilho nos-
da: o que o homem precisa adquirir para ser feliz? “Ora, eu sas almas, e é Dele que procede toda a verdade. Assim,
imagino que se deve procurar alcançar aquilo que se ob- a plena saciedade das almas, a vida feliz, consiste em co-
tém quando se quer – todos disseram que isso era eviden- nhecer com perfeita piedade quem nos guia para a verda-
te. – E deve ser algo sempre permanente, não dependendo de, que verdade fruir, e através de quê nos unimos com a
das incertezas da fortuna, nem sujeito às circunstâncias”. suprema medida. Para Agostinho a verdadeira felicidade
Aquilo que é mortal e perecível não pode ser simplesmente consiste em amar, alegrar e louvar Deus e em se empenhar
possuído quando nós queremos ou pelo tempo que gos- no regresso para Deus.
taríamos.
Aqueles que possuem Deus são felizes, e essa afir- Felicidade e Aristóteles
mação goza de certa aceitação entre aqueles que acredi- Aristóteles nasceu no ano de 384 A.C, em Estagira na
tam em Deus. Mas essa mesma afirmação faz surgir uma Macedônia, tendo ido para Atenas estudar filosofia aos 18
outra dúvida: quem possuí Deus? Na obra de Agostinho anos. Foi considerado o discípulo mais brilhante de Platão.
surgem três respostas para esse questionamento; possuí Com a morte de Platão no ano de 348 A. C. afastou-se da
Deus quem faz aquilo que Ele quer; possui Deus quem vive Academia e seguiu seu próprio caminho tornando-se pre-
bem; possui Deus quem não tem espírito impuro. Deus não ceptor de Alexandre, futuro conquistador de um grande
é hostil com o homem que o procura, Deus é favorável e império. No ano de 335 A.C. fundou a sua própria escola,
quem tem Deus favorável é feliz “Que diremos, pois, a estas o Liceu. Aristóteles gostava de ensinar e de discutir com
coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” seus discípulos durante caminhadas; sua filosofia desen-

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
volveu-se de forma contrária à Academia, com forte crítica O homem feliz necessita de uma espécie de prospe-
ao dualismo dos platônicos. Influenciou na formação do ridade, por isso alguns acabam identificando a felicidade
pensamento ocidental, não apenas do ponto de vista filo- com a boa fortuna. Há aqueles que se perguntam se a fe-
sófico, mas também do ponto de vista científico, literário licidade pode ser adquirida pelo aprendizado, pelo hábi-
e político.  to, como um treinamento; há aqueles que pensam que ela
O pensamento aristotélico e o platônico constituíram é conferida por alguma providência divina e aqueles que
de fato as duas grandes vias de desenvolvimento da filoso- acreditam apenas ser um acaso.
fia clássica, principalmente ao longo do período medieval, Ora, se alguma dádiva os homens recebem dos deuses,
quando São Tomás de Aquino se inspira em Aristóteles para é razoável supor que a felicidade seja uma delas, e, dentre
desenvolver seu sistema tomista, assim como Santo Agosti- todas as coisas humanas, a que mais seguramente é uma
nho havia se inspirado em Platão ao elaborar um platonis- dádiva divina, por ser a melhor. Esta questão talvez caiba
mo cristão. A obra de Aristóteles perdeu-se na Antiguidade melhor em outro estudo; no entanto, mesmo que a felicidade
logo após a sua morte, tendo sua escola se dividido em vá- não seja dada pelos deuses, mas, ao contrário, venha como
rias correntes. Posteriormente, seus textos foram em parte um resultado da virtude e de alguma espécie de aprendiza-
recuperados, e o que conhecemos de sua obra resulta de gem ou adestramento, ela parece contar-se entre as coisas
uma edição preparada por Andrônico de Rodes, que reviveu mais divinas; pois aquilo que constitui o prêmio e a finali-
a escola aristotélica em Roma por volta de 50 a.C.   dade da virtude se nos afigura o que de melhor existe no
Aristóteles escreveu sobre diversos assuntos, entre eles mundo, algo de divino e abençoado.
a Felicidade. Na concepção de Aristóteles a felicidade pode A felicidade não recebe o mesmo tratamento que a
ser definida como “certa atividade da alma, realizada em justiça, mas é considerada algo mais divino e melhor, sen-
conformidade com a virtude”. Essa definição inclui a satis- do chamada por alguns como bem-aventurada. A felicida-
fação das necessidades e aspirações mundanas. de é “um fim e algo de final a todos os respeitos”.
Na obra Ética a Nicômaco, Aristóteles realiza uma ex- Para Aristóteles a felicidade é uma atividade da alma,
posição fundamental da moral, discutindo a questão do conforme à virtude perfeita. Se compreendermos bem a
natureza da virtude, seria possível compreender melhor a
bem, que é o fim último de todas as coisas e, portanto, das
natureza da felicidade. A virtude humana deve ser estuda-
ações humanas. O bem supremo é a felicidade. “A felicida-
da com cuidado, “porque humano era o bem e humana
de é a plenitude da realização ativa do homem”. O bem de
a felicidade que buscávamos”. A virtude humana não se
cada coisa é a sua função e Aristóteles se questiona qual a
preocupa com o corpo, mas com a alma, razão pela qual a
função do homem em si. 
felicidade também é chamada de atividade de alma.
As pessoas felizes, segundo Aristóteles, devem possuir as
Aristóteles entendia que a felicidade é algo perma-
três espécies de bens que se podem distinguir, quais sejam,
nente, que não muda com facilidade, ideia essa contrária
os exteriores, os do corpo e os da alma. É verdade que “os
ao pensamento de que seria preciso verificar o fim, para
bens exteriores, assim como qualquer instrumento, têm um só então saber se o homem é ou não feliz, já que os atri-
limite dentro do qual desempenham sua função utilitária de butos que lhe pertencem e são por ele praticados podem
instrumentos, mas além do qual se tornam prejudiciais ou sofrer constantes modificações. Para ele esse pensamen-
inúteis para quem os possui. Os bens espirituais, ao contrá- to de aguardar o fim não era condizente com a ideia de
rio, quanto mais abundantes, mais úteis”. Mas em geral po- felicidade, mas compatível com a roda da fortuna. Alguns
de-se dizer que “cada qual merece a F., na medida da virtude, identificam a boa fortuna com a felicidade, mas acabam se
do tino e da capacidade de bem agir que possui, podendo se esquecendo de que muitas vezes a boa fortuna pode até
tomar como exemplo a divindade, que é feliz e bem-aventu- ser um empecilho.
rada não graças aos bens exteriores, mas por si mesma, por À felicidade nada falta, pois ela é autossuficiente, é de-
aquilo que ela é, por natureza”. A F. é portanto mais acessível sejável em si mesma. As ações virtuosas seguem a mesma
ao sábio que mais facilmente se basta a si mesmo, mas é a regra, porque praticar atos bons e nobres é algo desejável
isso que devem tender todos os homens e as cidades. em si mesmo.
Aristóteles escreve sobre os homens do tipo vulgar que Aristóteles entende que os animais não participam da
costumam confundir o bem ou a felicidade com o prazer felicidade. “Com efeito, enquanto a vida inteira dos deu-
e por isso levam uma vida desregrada e cheia de gozos. O ses é bem-aventurada e a dos homens o é na medida em
autor também trabalha a crença de que o homem que vive que possui algo dessa atividade, nenhum dos outros ani-
bem e age bem é feliz, definindo a felicidade como uma mais é feliz”. Os animais não participam da contemplação
espécie de boa vida e boa ação. A forma como cada pessoa e a felicidade tem os mesmos limites que a contemplação.
identifica a felicidade varia muito; para alguns a identifica- Aqueles que compreendem a contemplação são verdadei-
ção acontece com a sabedoria filosófica, para com a sabe- ramente felizes.
doria prática e para outros com a virtude, ou com o prazer, Para o autor tudo aquilo que se pratica por ignorân-
com ainda com a prosperidade exterior. Há aqueles que cia ou constrangimento é considerado involuntário. Para
identificam a felicidade com uma virtude geral ou com uma que um ato seja voluntário é preciso que o princípio motor
virtude particular “pois que à virtude pertence a atividade que se encontra em cada homem tenha conhecimento das
virtuosa.” Portanto, a felicidade é a melhor e mais nobre circunstâncias do ato praticado. Os atos provocados pela
coisa do mundo. cólera ou pelo apetite devem ser classificados como invo-

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
luntários. O homem temperante se encarrega de evitar os estável, tudo está em permanente mudança. Sua metafí-
prazeres e a vida sem dor, enquanto as crianças e os brutos sica identifica o Ser com o Não-Ser. Se o mundo é devir,
buscam o prazer, no sentido dos prazeres corporais e aos vir-a-ser,  não existe um Ser fixo, estável,  ele está sempre
excessos dos mesmos. se transformando, é sempre impermanente.   Já para Par-
Nem todos os prazeres devem ser objeto de condena- mênides,  as coisas que existem têm múltiplas característi-
ção. Alguns prazeres são bons em absoluto e outros não cas, são pequenas, grandes, coloridas, pesadas, leves, são
são bons. Os prazeres dividem-se em prazeres corporais e diferentes, como homem, animal, água, fogo, etc. Se usar-
prazeres da alma. Os prazeres da alma são o amor à honra mos a intuição e o raciocínio, perceberemos que há uma
e o amor ao estudo, não sendo o corpo afetado de modo propriedade fixa em todas as coisas: elas “são”. Para Par-
algum. Os prazeres corporais implicam em apetite e dor, mênides, o ser é uma propriedade de todas as coisas. Tudo
em excesso, levando o homem a ser tido como intempe- que existe tem “Ser”. O Ser  é fixo, eterno, imutável, infinito.
rante. As faltas infantis também podem ser tidas como in- Dessa forma, as mudanças e transformações que ocorrem
temperantes. na natureza são uma ilusão de nossa percepção, pois algo
A transferência de sentido parece bastante plausível, que é não pode deixar de ser, e algo que não é,  não pode
pois quem deseja aquilo que é vil e que se desenvolve rapi- vir-a-ser, portanto, não há mudança.
damente deve ser refreado a tempo; ora, essas características A primeira é permanente, universal, nunca se modifica,
pertencem acima de tudo ao apetite e à criança, já que na é o mundo das ideias. A segunda,  é o mundo que percebe-
realidade as crianças vivem à mercê dos apetites, e nelas mos por nossos sentidos, mutável e contingente, o mundo
tem mais força o desejo das coisas agradáveis. sensível.  Platão demonstra que o mundo tem uma forma a
Para Aristóteles se as crianças não são obedientes e priori, uma estrutura inteligível.  “Através dos diálogos, Pla-
submissas ao princípio racional cometerão grandes extre- tão vai caracterizando essas causas inteligíveis dos objetos
mos, pois num ser irracional o desejo de prazer não tem físicos que ele chama de ideias ou formas. Elas seriam in-
fim, e experimenta todas as fontes de satisfação. Se não corpóreas e invisíveis – o que significa dizer justamente que
forem obedientes e submissas ao princípio racional, irão não está na matéria a razão de sua inteligibilidade. Seriam
a grandes extremos, pois num ser irracional o desejo do reais, eternas e sempre idênticas a si mesmo, escapando a
prazer é insaciável, embora experimente todas as fontes de corrosão do tempo, que torna perecíveis os objetos físicos.
satisfação. Acresce que o exercício do apetite aumenta-lhe Merecem por isso mesmo, o qualificativo de ‘divinas’ (…). Per-
a força inata, e quando os apetites são fortes e violentos, feitas e imutáveis, as ideias constituiriam os modelos ou para-
chegam ao ponto de excluir a faculdade de raciocinar. digmas dos quais as coisas materiais seriam apenas cópias im-
Todos os homens pensam em certo sentido que cada perfeitas e transitórias. Seriam, pois, tipos ideais, a transcender
um tem o seu caráter desde o momento de nascer, e que o plano mutável dos objetos físicos.” (Pessanha, 1987, XVI-II).
desde o nascimento somos justos, capazes de nos domi- A teoria das ideias de Platão está diretamente ligada
nar, bravos ou possuímos qualquer outra qualidade moral. a sua teoria da alma. Na parte IV , do seu livro “Repúbli-
As crianças e os brutos também têm uma disposição natu- ca”,   Platão concebe o homem como corpo e alma. En-
ral para essas qualidades, mas como agem desacompanha- quanto o corpo modifica-se e envelhece, a alma é imutável,
dos da razão, praticam atos nocivos. eterna e divina. A alma inteligente preso ao corpo um dia
Portanto, para Aristóteles as crianças e os animais não foi livre e contemplou o mundo das ideias, mas as esque-
são felizes porque não possuem consciência da felicidade. ceu. É somente através da busca do conhecimento, através
A felicidade ocupa lugar de destaque na vida do homem e de um processo de recordação, de reminiscência,   o ho-
o equilíbrio é um grande passo para alcança-la. mem pode lembrar-se das ideias que um dia contemplou.  
A realidade sem forma, sem cor, impalpável só pode ser
Felicidade e Platão contemplada pela inteligência, que é o guia da alma.
Platão (428-348 a.C.) foi discípulo de Sócrates e escre- Platão divide a alma em três partes. O lado racional
veu trinta diálogos considerados autênticos. Hoje conhe- está localizado na cabeça, seu objetivo é controlar os dois
cemos a figura de Sócrates graças aos seus diálogos, que outros lados, com ele adquirimos a sabedoria e a prudên-
faziam dele seu personagem principal. Platão fundou a pri- cia. O lado irascível está localizado no coração, seu objetivo
meira escola conhecida no mundo ocidental na cidade de é fazer prevalecer os sentimentos e a impetuosidade, com
Atenas em 387 a.C, chamada Academia, em homenagem ele adquirimos a coragem. Por último, temos o lado concu-
ao herói Grego Academus, que lutou na guerra de Tróia. piscente que está localizado no baixo-ventre, seu objetivo
Seu verdadeiro nome era Aristócles, mas foi apelidado de é satisfazer os desejos e apetites sexuais, com ele adquiri-
Platão devido aos seus ombros largos.   Era um homem rico mos a moderação ou a temperança.  No Mito do Cocheiro,
e fazia parte da aristocracia que governava a Grécia. Seu no diálogo “Fedro”, Platão compara a alma a uma carrua-
pai, Aristão, tinha o rei Codros como seu antepassado e sua gem puxada por dois cavalos, um branco (irascível) e um
mãe, Perictione, foi parente de Sólon. negro (concupiscível). O corpo humano é a carruagem, e
Foi da controvérsia dessas duas filosofias que surgiu a o cocheiro (Razão) conduz através das rédeas (pensamen-
“teoria das idéias”, núcleo central de sua filosofia. O proble- tos) os cavalos (sentimentos).  Cabe ao homem através de
ma que Platão propõe a resolver é o conflito “irreconciliá- seus pensamentos saber conduzir seus sentimentos, pois
vel” entre a teoria da mudança em Heráclito e Parmênides.  somente assim ele poderá se guiar no caminho do bem e
Para Heráclito,   no universo não há nada acabado, fixo e da verdade.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Platão afirma,   que não podemos ser felizes quando Na medida em que o ser humano aumenta seu conatus,
somos dominados pela concupiscência e pela cólera, isso mais similar à Deus se torna. A natureza humana está sempre
porque as paixões sempre nos conduzem por caminhos inclinada ao engano, pelo seu conhecimento limitado do
perigosos e contraditórios e fazem com que os desejos e mundo. Enganamo-nos com a ideia da liberdade pelo fato
impulsos violentos de nosso corpo tirem nosso bom senso.  de não conhecermos as causas de nossas ações.
Já dizia Sócrates que todo vicio é ignorância. Não há nada Nossas ideias são modos do pensamento de Deus,
mais deprimente do que uma pessoa que age por impulsos e nosso corpo é um modo da extensão de Deus. Dessa
e é dominada pelas paixões. Ter autocontrole é essencial forma, todas as nossas ideias existem em Deus, como
para sermos felizes. A felicidade só pode ser alcançada se modificações de seu pensamento, ou seja, participamos
formos capazes de dominar nossos sentimentos pela ra- do intelecto divino (modo infinito do atributo infinito
zão. A moderação é uma virtude,  e ela se realiza quando de pensamento). Assim, se tanto o corpo quanto a ideia
somos capazes de controlar a nossa concupiscência. O in- correspondem a Deus, não há uma separação entre eles,
divíduo moderado é aquele que não cede as suas paixões, mas um paralelismo perfeito, ou seja, são perspectivas
impulsos e prazeres. Da mesma forma,  o indivíduo não se distintas de um mesmo ser.
lançara a luta e a agressão indiscriminadamente, uma vez A opinião e o conhecimento racional são inadequados,
que a razão deve saber discernir o que é bom e mal para pois tendem a perceber as coisas como contingências.
nossa vida, sabendo dominar a nossa alma irascível. Des- Dessa forma, o conhecimento adequado é o intuitivo, que
sa forma, seremos felizes se através da razão soubermos concebe o mundo sob o aspecto da eternidade (sub specie
controlar nossa vida, pois a virtude natural da razão é o aeternitatis), ou seja, como participante da substância
conhecimento. divina. Assim a natureza humana vive um dilema: A razão
inclina-se ao eterno enquanto que as necessidades do
Felicidade e Spinoza mundo nos impulsionam para o temporal.
Na filosofia de Spinoza, a substância (que é Deus) não Como todos os modos são necessidades da substância,
constitui a forma do homem, sendo o homem apenas não há como inferir juízo de valor sobre eles, restando
um modo dos atributos (extensão e pensamento) da apenas o crivo da adequação ou não de certos modos.
substância, de onde decorre sua existência necessária. O Assim, por não ser livre, o homem não pode ser culpado
corpo é um modo do atributo “extensão”, e a ideia é um de nada, em sua condição de necessidade, mas isso não
modo do atributo “pensamento”. Esta afirmação dogmática significa que não seja responsável por seus atos. Adequado
de Espinoza, porém, não remete a um mero determinismo, é tudo o que potencializa o agir, o agir da permanência
uma vez que os “modos” não são uma espécie de “estado (conatus).
transitório” de Deus, mas um ente capaz de independência. As emoções são as modificações do corpo, causadas
Podemos tomar como exemplo uma rosa vermelha: A pelas afecções, pelas quais a potência de agir desse corpo
vermelhidão é um modo de Deus, mas atribuímos a é aumentada ou diminuída, favorecendo ou entravando,
vermelhidão á rosa, e não à Deus, da mesma forma que assim como as ideias dessas modificações. Assim, a
não compreendemos a rosa como propriedade de Deus, emoção não envolve uma relação entre corpo e alma, mas
mas a vermelhidão como propriedade da rosa. simplesmente uma condição corporal, ao mesmo tempo,
chamada Conatus. Essa tendência é a força dos modos a ideia dessa condição. É aquilo que ocorre dentro de
em permanecer em seu ser, ou seja, de resistir a danos, nós quando nosso conatus aumenta ou diminui. Quando
às intempéries da natureza, de se protegerem quando as afecções aumentam nosso conatus sentimos alegria,
sentirem-se ameaçados, etc. Quanto mais conatus tem quando diminuem nosso conatus sentimos dor.
uma coisa, mais ela se torna independente, ou seja, mais Podemos nos assemelhar cada vez mais a Deus se
ela é “em si mesma”. Decorre que não existe modo algum nos ascendermos em nossas ideias, substituindo nossas
isento de forças que o constranjam, isto é, forças contrárias percepções confusas por ideias adequadas (sub specie
à permanência em seu próprio ser, donde conclui-se aeternitatis). Cada ideia na mente corresponde a uma
portanto que somente a substância é livre. Estas forças modificação no corpo, sendo que quanto mais adequada é
constrangedoras são as afecções (ou paixões). a ideia, mais a causa é interna ao sujeito (potência de agir,
No ser humano, todo esforço do corpo é também um conatus). Assim, aquele que faz uso adequado da razão
esforço da mente. O esforço de permanência (conatus) esforça-se por um aumento de sua potência, de modo a
circunscrito na esfera mental, ou seja, na ideia, chama- transformar a paixão em ação e tornar-se mais livre. Essa
se vontade, ao passo que o esforço de permanência aproximação da liberdade, para Espinoza, corresponde à
circunscrito no corpo chama-se apetite. A junção de felicidade.
ambos, ou seja, a consciência do apetite chama-se desejo. Potência é sinônimo de perfeição, sendo que a alegria é
O desejo é o apetite de que se tem consciência. Portanto, é uma afecção que nos impulsiona para a perfeição superior,
evidente que não nos esforçamos em fazer uma coisa que ao passo que a tristeza é uma afecção que nos arrasta para
não queremos, não apetecemos e nem desejamos qualquer o inferior.  Assim, na medida em que buscamos a satisfação
coisa por a considerarmos boa, mas ao contrário, julgamos de nossos desejos, deparamo-nos com situações de alegria
alguma coisa boa porque a desejamos e tendemos para – se estes são satisfeitos – ou situações de insatisfação e
ela. tristeza, caso contrário.  Se mente e corpo são paralelos,

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
então a potência de agir facilita a potência de pensar, e em cuja vontade – e só nela – pode-se encontrar o bem
vice e versa. Uma dor física diminui nossa capacidade de supremo e incondicionado. Desse modo, “nada senão a
concentração, por exemplo. representação da lei em si mesma, que em verdade só no ser
A diminuição da potência física que implica racional se realiza, enquanto é ela, e não o esperado efeito,
necessariamente na diminuição da potencia da mente é que determina a vontade, pode constituir o bem excelente
denominado por Espinoza de escravidão, passividade. Para a que chamamos moral” (KANT, 1995:38).
nos libertar da afecção escravizadora, devemos substituir Nesse sentido, Bielefeldt (2000:74) esclarece a
as afecções que diminuem nossa potência por aquelas que insistência de Kant em desvincular a moral de qualquer
aumentam nossa potência de pensar. resultado ou fator empírico, afirmando que: [...] para
Kant, mais importante que a superação do dogmatismo
Ética, autonomia da razão e dignidade (Kant). racionalista é a superação do empirismo na ética. Não
Antes de analisar a doutrina da dignidade da pessoa só os representantes do hedonismo opõem-se a ele
humana de Kant, faz-se necessária uma prévia explicação como antagonistas, mas, especialmente, as formas sutis
dos elementos conceituais básicos da moralidade, sem de eudemonismo que, por isso mesmo, nem sempre
os quais não seria possível apreender o lugar e o valor são de fácil identificação e negam a incondicionalidade
pessoal do homem. A obra Fundamentação da Metafísica da moralidade no resultado. Não importa a maneira do
dos Costumes (1785), cuja força inspiradora cresce nos dias eudemonismo se apresentar: como utilitarismo materialista
atuais2 , será o norte para essa tarefa. ou como ensino moralsense ou, ainda, como especulação
Não é difícil perceber que o filósofo alemão tem como moral-teológica para atingir a recompensa da salvação
preocupação ética principal a busca e a fixação de um divina – em todos os casos, a vontade moral confunde-
princípio capaz de reger todas as nossas ações. Porém, essa se com a tendência empírica de reduzir-se a uma função
noção merece mais atenção por assumir, aqui, o status de sutil e periférica de interesse próprio, com supressão de
ponto de partida. Confira-se, nesse passo, a observação de sua pretensão incondicional à validade.
Oliveira (1993b:132): Diante disso, é oportuno apresentar o conceito do
A questão de Kant, em relação à filosofia prática é, em dever (Die Pflicht), que aparece como a chave para o
primeiro lugar, sua “fundamentação”: trata-se de tematizar entendimento de outros igualmente relevantes para o
o “princípio de fundamentação” das normas de ação. propósito deste tópico. Duas maneiras são mais utilizadas
As coisas atuam mecanicamente, o homem, ao para “textualizar” o mesmo conceito:
contrário, possui a capacidade de agir segundo normas. (I) dever é a necessidade de uma ação por respeito à
Como justificar essas normas? Como determinar a lei ou
validade dessas normas de ação – eis a questão de Kant. A (II) a necessidade de obediência ao imperativo
filosofia prática de Kant tem, pois, como objetivo tematizar categórico. O dever indica, duplamente, a presença da lei
o princípio de fundamentação das normas, que constitui moral como uma representação compulsiva em nós – que
o homem como ser ético. Sua função é estabelecer pode ser transgredida, mas não negada – e a clivagem que
uma “medida suprema”, a partir da qual possa decidir a essa lei exerce sobre as nossas inclinações. Por isso, o dever
moralidade das normas. inclui em si o conceito de boa vontade.
Kant, na sua fundamentação da moralidade, vai Aquilo que Kant denomina imperativo categórico é
defender a necessidade de se valer unicamente de justamente a fórmula dessa lei, cuja representação, mesmo
princípios a priori, fundados na razão pura, sem qualquer sem tomar em consideração o efeito que dela se espera,
interferência de princípios da experiência. A justificação tem de determinar a vontade para que esta se possa
disso é apresentada pelo referido filósofo logo na Primeira chamar boa, absolutamente e sem restrição. Contudo,
Seção da obra em estudo, reaparecendo, com outras para se compreender a composição de tal fórmula, alguns
palavras, em diversos momentos da sua investigação: esclarecimentos precisam ser feitos. Em primeiro lugar,
A boa vontade não é boa pelos efeitos que se promove deve-se apontar que a vontade – faculdade de desejar –
ou realiza, pela aptidão para alcançar a finalidade proposta, não é determinada apenas pela razão, mas está também
mas tão-somente pelo querer, isto é, em si mesma, e sujeita a condições subjetivas (a certos móbiles) que nem
considerada em si mesma, deve ser avaliada em grau sempre coincidem com as objetivas. Daí decorre a divisão
muito mais alto do que tudo o que possa ser alcançado em dos princípios do querer em máxima e lei prática:
proveito de qualquer inclinação, ou mesmo, se quiser, da A máxima é o princípio subjetivo da ação e tem de se
soma de todas as inclinações (KANT, 1995:32). distinguir do princípio objetivo, quer dizer, da lei prática.
Assim, a ação movida por qualquer fator empírico, seja Aquela contém a regra prática que determina a razão em
ele o mais nobre ou o mais egoísta, não possui valor moral, conformidade com as condições do sujeito (muitas vezes em
porque tal ação sempre terá como fim alcançar qualquer conformidade com a sua ignorância ou as suas inclinações),
coisa que se quer (ou que é possível que se queira); ou e é, portanto, o princípio segundo o qual o sujeito age, a lei,
seja: o valor moral da ação não reside no efeito que dela porém, é o princípio objetivo, válido para todo o ser racional,
se espera nem em qualquer princípio da ação que precise princípio segundo o qual ele deve agir (KANT, 1995:58).
pedir o seu móbil a este efeito esperado, pois todos esses Assim sendo, as ações dos seres racionais só até
efeitos podem também ser alcançados por outras causas, certo ponto são contingentes. Por um lado, não se pode
e não se precisa para tal da vontade de um ser racional, determiná-las com total segurança, visto que a vontade

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
não é, em si, plenamente conforme à razão, sujeitando- e simultaneamente como fim e nunca simplesmente
se a princípios subjetivos. Por outro lado, como as leis como meio” (KANT, 1995:66). Essa fórmula do imperativo
práticas são objetivamente reconhecidas – ou seja: da moralidade estabelece o objeto principal do presente
validadas por todos –, existe uma expectativa comum. E estudo: a dignidade da pessoa humana. A análise de seus
nisso reside a importância mais clara da moralidade: ela componentes, tarefa a ser realizada na parte subsequente
impõe uma espécie de orientação e de limite para todo o do texto, possibilitará uma ilustração precisa do valor
comportamento racional. pessoal do homem em Kant.
Em segundo lugar, é preciso analisar, mais detidamente, III) a determinação completa de todas as máximas
a fórmula do imperativo. De acordo com Kant, “todos consiste na fórmula da autonomia ou na da liberdade
os imperativos se exprimem pelo verbo dever (sollen), e positiva no reino dos fins: “Age só de tal maneira que a
mostram assim a relação de uma lei objetiva da razão para vontade pela sua máxima se possa considerar a si mesma
uma vontade que, segundo a sua constituição subjetiva, não ao mesmo tempo como legisladora universal” (KANT,
é por ela necessariamente determinada (uma obrigação)”. 1995:71). Deduz-se dessa fórmula que o ser racional é, ao
Ademais, todos os imperativos ordenam ou hipotética mesmo tempo, autor da lei a que se submete. Por conta
ou categoricamente: disso, só deve obedecer às leis que ele próprio legislou,
Como toda a lei prática representa uma ação possível de tal modo que a sua dignidade será ferida se outro
como boa e, por isso, como necessária para um sujeito lhe impuser uma lei. A autonomia (autodeterminação)
praticamente determinável pela razão, todos os imperativos da vontade é, segundo Kant, o princípio supremo da
são fórmulas da determinação da ação que é necessária moralidade.
segundo o princípio de uma vontade boa de qualquer Tudo o que se disse até agora foi com a intenção de
maneira. No caso de a ação ser apenas boa como meio para construir um conhecimento básico acerca da moral kantiana
qualquer outra coisa, o imperativo é hipotético; se a ação para, com isso, ser possível uma melhor compreensão das
é representada como boa em si, por conseguinte, como considerações a serem realizadas.
necessária numa vontade em si conforme à razão como
princípio dessa vontade, então o imperativo é categórico Dignidade da pessoa humana em Kant
(KANT, 1995:52). Numa abordagem do princípio da dignidade da pessoa
Conforme o exposto acima, o imperativo categórico é humana, é plausível a indagação acerca de sua origem. Para
o único capaz de ser fórmula para a moralidade, pois não Kant, como já se foi explorado, a humanidade é a matéria
se relaciona com a matéria da ação e com o que dela deve ou o fim de todas as máximas moldadas pela lei moral.
resultar, mas com a forma e com o princípio do qual ela Por conseguinte, independentemente de normas jurídicas,
mesma deriva; quer dizer: o essencialmente bom na ação de normas religiosas e de normas consuetudinárias, o ser
reside na disposição, seja qual for o resultado. Tal imperativo racional já possui o referido princípio em sua legislação
também pode chamar-se imperativo da moralidade. moral; ou seja: o respeito à humanidade reside, antes de
Uma vez cumpridos os esclarecimentos necessários, tudo, na própria razão.
pode-se agora partir para a análise da composição do Ora, para que então foi a dignidade da pessoa humana
imperativo categórico. Kant apresenta três fórmulas e, incorporada ao ordenamento jurídico positivo? Habermas
consequentemente, três critérios de validade para expressar sustenta que a constituição da forma jurídica torna-se
tal imperativo, a partir da fórmula geral – “Age apenas necessária a fim de compensar déficits da moral, uma vez
segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo que algumas normas de ação, para alcançar ampla eficácia,
querer que ela se torne lei universal ” (KANT, 1995:59): carecem não só de juízos corretos e equitativos da moral,
I) representando a forma de todas as máximas, mas também, de forma complementar, da obrigatoriedade
apresenta-se a fórmula da equiparação da máxima à legitimamente imposta, com o poder de coação, próprio do
universalidade da natureza: “Age como se a máxima da tua Direito10 (cf. HABERMAS, 2004:139- 154). Daí se intui que a
ação se devesse tornar, pela tua vontade, em lei universal positivação do princípio da dignidade da pessoa humana,
da natureza” (KANT, 1995:58). De acordo com essa fórmula, em virtude do valor que esse ostenta, resulta da urgência de
no julgamento das ações, deve, o ser racional, perguntar-se sua plena efetividade, que não pode ser satisfatoriamente
se pode querer que a sua máxima transforme-se, sem se garantida apenas através de um mandamento moral.
contradizer, em lei universal da natureza. Caso a resposta No Brasil, ainda antes de entrar em vigor a atual
seja positiva, a sua ação será, pelo menos, conforme ao Constituição, a melhor doutrina já enfatizava que o
dever . Se for negativa, por a máxima não se sustentar “núcleo essencial dos direitos humanos reside na vida e
numa legislação universal da natureza, então a sua ação na dignidade da pessoa” (COMPARATO, 1989:46). Nessa
será contrária ao dever. perspectiva, Guerra Filho (2005:62-63) destaca a posição
II) a matéria, isto é, o fim de todas as máximas, revela- da dignidade da pessoa humana frente aos princípios
se por meio da fórmula da humanidade, segundo a qual o constitucionais:
ser racional, como fim segundo a sua natureza e, portanto, Os direitos fundamentais, portanto, estariam
como fim em si mesmo, tem de servir a toda a máxima de consagrados objetivamente em “princípios constitucionais
condição restritiva de todos os fins meramente relativos e especiais”, que seriam a “densificação” (Canotilho) ou
arbitrários: “Age de tal maneira que uses a humanidade, “concretização” (embora em nível extremamente abstrato)
tanto na tua, como na pessoa de qualquer outro, sempre daquele “princípio fundamental geral”, de respeito à

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
dignidade humana. Dele, também, se deduziria o já diz o seguinte: “o respeito dirige-se sempre e unicamente a
mencionado “princípio da proporcionalidade”, até como pessoas, jamais a coisas. As últimas podem suscitar em nós
uma necessidade lógica, além de política, pois se os diversos a inclinação e, se forem animais (por exemplo, cavalos, cães,
direitos fundamentais estão, abstratamente, perfeitamente etc), até mesmo o amor, ou também o temor, como o mar,
compatibilizados, concretamente se dariam as “colisões” um vulcão, uma fera, mas nunca o respeito”. Kant (2001:92)
entre eles, quando então, recorrendo a esse princípio, ressalta que “se se examina atentamente o conceito do
se privilegiaria, circunstancialmente, alguns direitos respeito pelas pessoas, perceberse- á que ele se baseia
fundamentais em conflito, mas sem com isso chegar a sempre na consciência de um dever que um exemplo nos
atingir outro dos direitos fundamentais conflitantes em seu apresenta, e que, portanto, o respeito nunca pode ter
conteúdo essencial. nenhum outro fundamento senão um fundamento moral”.
Após essa sucinta visão do princípio da dignidade Ele elucida isso em ocasião anterior, quando acresce, ao
da pessoa humana no âmbito jurídico, deve-se explicar dizer de Fontenelle – na presença de um grande, inclino-me,
o significado dos elementos principais da segunda mas o meu espírito não se inclina –, que [...] diante de um
fórmula do imperativo categórico – “Age de tal maneira homem de classe inferior, um burguês ordinário, no qual
que uses a humanidade, tanto na tua, como na pessoa de percepciono uma retidão de caráter de um grau tal que eu,
qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e no que me toca, não tenho consciência de possuir, o meu
nunca simplesmente como meio”. Qual a diferença entre espírito inclina-se, quer eu queira quer não e por muito que
fim e meio e entre pessoa e coisa? A partir dessa questão, eu levante a cabeça para que não lhe passe despercebida a
outras tantas irão surgir; e o esclarecimento de todas elas superioridade da minha condição (KANT, 2001:92).
possibilitará a visualização do conteúdo, segundo Kant, do Kant (2001:92-93) continua a explicação da seguinte forma:
princípio da dignidade da pessoa humana. O seu exemplo apresenta-me uma lei que confunde
Para Kant (19995:64), [...] aquilo que serve à vontade a minha presunção quando a comparo com a minha
de princípio objetivo da sua autodeterminação é o fim, e conduta e o seu cumprimento, por conseguinte, a sua
este, se é dado pela só razão, tem de ser válido igualmente praticabilidade, vejo-a demonstrada diante de mim através
para todos os seres racionais. O que pelo contrário contém da ação. Ora, posso até estar consciente de haver em mim
apenas o princípio da possibilidade da ação, cujo efeito é um igual grau de honestidade e, não obstante, o respeito
um fim, chama-se meio. permanece. Com efeito, visto que no homem o bem é
Kant (1995:65) também distingue claramente pessoa e sempre imperfeito, a lei tornada concreta através de um
coisa: exemplo, confunde sempre o meu orgulho; e o homem,
Os seres cuja existência depende não em verdade da que vejo diante de mim, cuja imperfeição, a qual o pode
nossa vontade, mas da natureza, têm, contudo, se são ainda afetar não me é tão conhecida como conhecida me
seres irracionais, apenas um valor relativo como meios, e é a minha, aparece-se assim uma medida. O respeito é um
por isso se chamam coisas, ao passo que os seres racionais tributo que não podemos recusar ao mérito que queiramos
se chamam pessoas, porque a sua natureza os distingue ou não; podemos, quando muito, não o manifestar
já como fins em si mesmos, quer dizer, como algo que exteriormente, no entanto, não conseguimos impedir de
não pode ser empregado como simples meio e que, por internamente o sentirmos.
conseguinte, limita nessa medida todo o arbítrio (e é um Para o exame do imperativo categórico atinente à
objeto do respeito). dignidade da pessoa humana, outra questão ainda necessita
Nessa última distinção, reaparece um dos conceitos ser explanada: a distinção entre dignidade e preço. De acordo
morais kantianos (ainda não esclarecido) mais importantes com Kant (1995:71-72), “quando uma coisa tem um preço,
à apreensão do conteúdo do princípio da dignidade da pode pôr-se em vez dela qualquer outra equivalente; mas
pessoa humana: o respeito. O respeito, segundo Kant, é quando uma coisa está acima de todo o preço e, portanto,
o único sentimento cognoscível a priori; quer dizer: não não permite equivalente, então tem ela dignidade”.
é um sentimento recebido por influência sensível, mas um Apenas a pessoa, como se viu, está acima de todo o
sentimento que se produz por si mesmo através de um preço, e somente ela, enquanto capaz de moralidade,
conceito da razão, e assim especificamente se distingue possui dignidade, e, por isso, não pode ser substituível
de todos os sentimentos do primeiro gênero que se ou considerada como objeto em momento algum. Nesse
podem reportar à inclinação ou ao medo. Conforme horizonte, enquanto o ser pessoal deve ser estimado
Oliveira (1993b:152), “trata-se de um sentimento moral, exclusivamente em razão de si mesmo, todo o resto possui
o que, para Kant, significa absolutamente independente mera acepção condicionada e, assim, é passível de uma
da sensibilidade e, portanto, produto da razão prática11 ”. ligação funcional universal. É perfeitamente lícito utilizar
Em suma, para Kant (1995:39), “aquilo que eu reconheço este em função do outro. Todavia, o ser humano, nas
imediatamente como lei para mim, reconheço-o com um palavras de Oliveira (1993b:154), “é autotélico e enquanto
sentimento de respeito que não significa senão a consciência autofinalidade revela-se algo fundamentalmente não-
de subordinação da minha vontade a uma lei, sem intervenção funcionalizável”. Por conta disso, ele nunca pode ser tido
de outras influências sobre a minha sensibilidade”. como meio, mas insuperavelmente exige ser reconhecido
A incidência desse sentimento moral na dignidade da nessa sua autofinalidade. Em outros termos: a humanidade
pessoa humana apresenta-se com mais fulgor ainda na sua só pode ser vista e tratada adequadamente quando
obra Crítica da Razão Prática (1788), na qual Kant (2001:92) efetivada no seu valor intrínseco e incondicional.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Deve-se, ainda, apontar que o imperativo categórico Kant (2003:260) vale-se de uma concepção fundamental
– “Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto de sua filosofia teórica formulada na obra Crítica da Razão
na tua, como na pessoa de qualquer outro, sempre e Pura (1781): o duplo significado dos objetos, enquanto
simultaneamente como fim e nunca simplesmente como fenômenos e enquanto coisas em si12 . Assim, para Kant
meio” – amplia o princípio ético popularmente conhecido (2003:260), quando um ser humano está consciente de
como Regra de Ouro, estabelecido no capítulo 6:31 do um dever para consigo mesmo, “ele vê a si mesmo, como
Evangelho de Lucas: “O que quereis que os homens vos sujeito do dever, sob dois atributos: primeiro, como um ser
façam, fazei-o também a eles” (Quod tibi non vis fieri, alio ne sensível, isto é, como um ser humano (membro de uma das
feceris). O próprio Kant (1995:67) defende, veementemente, espécies animais) e, segundo, como um ser inteligível (não
a não-redução do imperativo categórico à referida Regra: corpóreo)”. Observa-se, entretanto, que “os sentidos não
Não vá pensar-se que aqui o trivial “quod tibi non vis podem atingir este último aspecto de um ser humano, que
fieri” etc. possa servir de diretriz ou princípio. Pois este só é possível conhecer em relações moralmente práticas,
preceito, posto que com várias restrições, só pode derivar nas quais a incompreensível propriedade da liberdade
daquele [do imperativo categórico]; não pode ser uma lei é revelada pela influência da razão sobre a vontade
universal, visto não conter o princípio dos deveres para legisladora” (KANT, 2003:260).
consigo mesmo, nem o dos deveres de caridade para com Kant (2003:260) finaliza a sua explicação sobre
os outros (porque muitos renunciaram de bom grado a a aparente antinomia dos deveres consigo mesmo
que outros lhe fizessem bem se isso os dispensasse de argumentando o seguinte: Ora, o ser humano, como um
eles fazerem bem aos outros), nem mesmo, finalmente, o ser natural possuidor da razão (homo phaenomenon), pode
princípio dos deveres mútuos; porque o criminoso poderia ser determinado por sua razão, como uma causa, às ações
por esta razão argumentar contra os juízes que o punem, no mundo sensível e, até aqui, o conceito de obrigação
etc. não é considerado. Mas o mesmo ser humano pensado em
Dessa ampliação realizada pelo imperativo categórico termos de sua personalidade, ou seja, como um ser dotado
em face do princípio religioso aludido, surge uma questão de liberdade interior (homo noumenon), é considerado
fundamental para este trabalho, qual seja: a dos deveres como um ser que pode ser submetido à obrigação e,
consigo mesmo, tratada por Kant no seu livro A Metafísica com efeito, à obrigação para consigo mesmo (para com a
dos Costumes (1797), mais especificamente na parte humanidade em sua própria pessoa).
dedicada à Doutrina da Virtude. Assim, o ser humano (tomado nestes dois sentidos
Primeiramente, tal questão é problematizada ao se distintos) pode reconhecer um dever consigo mesmo, sem
informar que o conceito de dever consigo mesmo contém, cair em contradição (porque o conceito de ser humano não
pelo menos à primeira vista, uma contradição, porquanto a é pensado em um e mesmo sentido).
proposição que afirma um dever comigo mesmo (eu devo
obrigar a mim mesmo) implica ser obrigado a mim mesmo Crítica e genealogia da moral (Nietzsche)
(uma obrigação passiva que era, ainda no mesmo sentido Esta obra de Friedrich Wilhelm Nietzsche detecta al-
da relação, também uma obrigação ativa). Nesse sentido, guns pontos das origens dos valores morais. O autor res-
segundo Kant (2003:259), pode-se dizer que aquele salta a inversão sofrida por tais valores pelas influências
indivíduo “que impõe a obrigação (auctor obligationis) que se prendem com força. Por isso, quase toda a obra
poderia sempre liberar o submetido à obrigação (subiectum girará em torno da questão do valor: o que é o bom?
obligationis) da obrigação (terminus obligationus), de sorte Como filólogo de formação, Nietzsche aprofunda-se,
que (se ambos são um e o mesmo sujeito) ele seria de justamente, no estudo da palavra bom e, consequente-
modo algum obrigado a um dever que ele colocou sobre mente, da palavra mau. O gênio provocativo de Nietzsche
si mesmo”. traz, assim, um texto com certo teor de sarcasmo. Isso é
Todavia, no entendimento de Kant (2003:260), o ser facilmente verificado já na primeira das três partes da obra.
humano tem deveres para consigo mesmo, pois supondo Todas as questões levantadas pelo homem da época
que não houvesse tais deveres, não haveria deveres de Nietzsche, principalmente os psicólogos ingleses, não
quaisquer que fossem e, assim, tampouco deveres externos, levam a nada, não trazem a origem do bem e do mal. O
posto que posso reconhecer que estou submetido à que importa, na psicologia nietzschiana, é a busca da ver-
obrigação a outros somente na medida em que eu dade de uma forma imparcial, conforme ele mesmo escre-
simultaneamente submeto a mim mesmo à obrigação, uma ve no primeiro ensaio da obra: “(...) desejo que seja exa-
vez que a lei em virtude da qual julgo a mim mesmo como tamente o contrário; desejo que estes investigadores, que
estando submetido à obrigação procede em todos os casos estudam a alma ao microscópio, sejam criaturas generosas
de minha própria razão prática e no ser constrangido por e dignas, que saibam refrear o coração e sacrificar os seus
minha própria razão, sou também aquele que constrange desejos à verdade (...) ainda que simples, suja, repugnante,
a mim mesmo. anticristã e imortal... porque tais verdades existem”. O intui-
A solução dessa aparente antinomia dos deveres para to de Nietzsche, contudo, é a construção de uma História
consigo mesmo talvez demonstre uma parcela considerável da Moral.
da contribuição kantiana para o princípio do respeito à Essa genealogia é uma crítica ao elemento de afirma-
humanidade, que passa a ser estendido ao próprio sujeito ção pelo qual se move o pensamento de Nietzsche. Apre-
da ação. Para resolver a ilusória contradição mencionada, senta um início diferenciado, que vai além de afirmar a per-

30
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
da de um referencial (Deus), mas que chega até a afirmação dos sacerdotes nem tampouco pela classe dos nobres.
de uma diferença que se origina nas forças ativas e nas Contudo, fazendo ainda um estudo psicológico da
forças reativas. genealogia, Nietzsche constata que a verdade quanto ao
Duas aplicações para que a Moral tenha se originado: “bom” e ao “mau” adquire uma nova faceta se olhada pelo
por aquilo que é útil: “as ações altruístas foram louvadas e lado da plebe. Na classe dominada, o conceito de mau se
reputadas boas por aqueles a quem eram ‘úteis’”. Entretan- atribui à nobreza, pois esta, com sua repreensões, castiga,
to, a origem de tais ações acaba por ser esquecida, adqui- maltrata, despreza a classe mais baixa. Desse modo, se for
rindo ações altruístas através do costume da linguagem, perguntado ao escravo quem é o mau, ele apontará para
como se as coisas fossem boas em si mesmas. Essa é a o seu senhor.
segunda aplicação. Para Nietzsche não há nada que seja Tudo isso explica porque o homem só consegue pen-
bom em si mesmo. Dessa maneira, o filósofo faz um corte sar em relação ao pensamento de outros. O bom é aquilo
com os universais, com a metafísica e com o cristianismo. que o homem achou útil para si, vindo do outro. A utili-
O conceito de ‘bom’ se dá por aqueles que, através de dade mesquinha, a referência a outros para pensar e agir
uma prática, consideraram determinada ação como boa. É tornam-se, para Nietzsche, uma origem marcada de uma
contra esse utilitarismo que Nietzsche luta. O utilitarismo inércia duvidosa e de um hábito sem graça. Isso somente
não entra em sua moral. distancia o homem daquilo que é realmente autêntico.
Toda essa conceitualização do ‘bom’ e do ‘mau’, origi- Com sua obra, Nietzsche não só demonstra um gênio
nada na antítese da divisão das classes sociais, nasce, jus- perturbado com as relações dos homens, mas também nos
tamente, do pensamento de que o homem é um ser domi- perturba, levando-nos a questionar os laços relacionais que
nante. Isso está inteiramente intrínseco em seus instintos. todos temos. O intuito da obra é o de despertar o leitor
No instinto de dominação é que a genealogia da moral para uma reflexão e uma ação mais consciente da realida-
encontrou sua real expressão. Para o filósofo, tal “tentativa de. Os valores necessitam ser repensados.
de explicação é errônea, mas sensata e psicológica”. Para repensar os valores, é preciso que encontremos,
Como filólogo que é, Nietzsche faz uma análise mor- agora, conceitos extremamente imparciais, desligando-nos
fológico da palavra alemã schlecht (mau). Em seus estu- de qualquer tipo de moral que aprisione. As morais basea-
dos, ele descobre que esta palavra é idêntica à schlicht das em conceitos metafísicos tendem ao nada. Os valores
(simples). Daí, ele chega ao schlichtsweg (simplesmente) tendem a se deteriorar e surgirem novos valores.
e schlechterding (absolutamente), o que traz, desde suas A proposta nietzschiana de um ideal ascético, um asce-
origens, a função de designar o homem simples, plebeu. ticismo diferente do propagado pelos padres, é aquele que
Tudo isso para provar que as palavras nascem dentro das coloca o homem no centro. A finalidade desse ideal está
circunstâncias. Isso revela que a classe dominante acabou nas ações humanas que se baseiam tão somente nas suas
associando a classe plebeia ao conceito daquilo que é mau, relações, não mais com a ‘vontade divina’. Essa proposta de
o oposto, a antítese da classe nobre. Por isso, os homens Nietzsche é radical. Traz uma mudança essencial das ten-
que se sentem e são privilegiados (classe nobre) é quem dências que nos leva a uma antítese.
espelham o conceito de ‘bom’. A salvação deve ser procurada em outra parte. A obra,
Ainda em sua análise morfológica, Nietzsche, baseado quando já elaborada, não necessita do artista para ser to-
no latim, faz uma outra analogia com a palavra malus, re- mada a sério. Por isso, o filósofo nos leva às origens da
lacionada com melas (negro) e usada para designar o ho- Moral, para, dali, partirmos para novos valores. Sem isso,
mem plebeu, de cor morena e de cabelos pretos (hic niger o homem estará fadado a sempre encontrar o fracasso, os
est). O “bom”, o “nobre”, o “puro” é o de cabelos loiros. Isso valores perdendo seus sentidos (niilismo), já que o ser hu-
faz oposição com o individuo de cabelos negros. Com isso, mano transita entre os valores de acordo com suas neces-
a conceituação ganha um caráter estritamente político, que sidades.
passa para um conceito agora psicológico. Portanto, Nietzsche nos abre os olhos da razão e dos
A psicologia inglesa, empirista, é o que puxa o homem sentimentos para algo mais chão, mais próximo da reali-
para baixo. Por isso, para Nietzsche pouco importa o con- dade humana. Resgatar as origens da moral do homem
teúdo dos comentários dos psicólogos. Eles puxam o ho- é resgatar a ele próprio, colocando-o em sua dignidade
mem para uma passividade do majoritário. de igualdade. As classes existentes apenas distanciam os
Em sua conceituação extremamente humana, colo- homens uns dos outros. Parece até mesmo que Nietzsche
cando o homem no centro das ações, Nietzsche cria teses pressentia, ou intuía, toda a sociedade contemporânea em
totalmente contrárias à dos psicólogos ingleses. Mesmo que vivemos. Dia após dia, o homem vai se tornando mais
no campo da religião, o filósofo faz um ferrenha crítica à solitário, mais fechado em seu mundo individual, perdendo
chamada “casta sacerdotal”. Essa casta cria como que uma valores, esvaziando-se. Nisso tudo, cada vez mais se perde
alienação nos indivíduos, pois é uma classe dominante. A o sentido da vida, a finalidade das coisas. Tudo é efêmero,
casta sacerdotal acaba por dominar até mesmo sobre a transitório. É a humanidade destruindo a própria humani-
classe nobre. Consequentemente, domina também sobre dade.3
a classe plebeia.
3 Fonte e adaptado de:
Contra toda essa dominação, Nietzsche defende que www.infoescola.com/www.reisfriede.wordpress.com/www.filosofan-
a Moral deve nascer imparcialmente. Não há necessidade doehistoriando.blogspot.com/www.filosofonet.wordpress.com/www.
de se levar em consideração os valores trazidos pela classe almirfabiano.blogspot.com/www.filosofiaanalitica.wordpress.com/

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
 Contextualização histórica:
Existe uma profunda ligação entre ética e filosofia: a ética nunca pode deixar de ter como fundamento uma concep-
ção filosófica do homem que nos dá uma visão total deste como um ser social e histórico. Dentre os vários conceitos com
os quais a ética trabalha e que pressupõe um prévio esclarecimento filosófico, como os de liberdade, necessidade, valor,
consciência, vamos dar ênfase ao de sociabilidade, ou seja, como a ética deve estar inserida nas relações humanas em so-
ciedade. Algo que poderíamos representar da seguinte forma:

A ação humana é fruto de uma escolha entre o certo e o errado, e entre o que é bom e o que é mal. O indivíduo pro-
cura se basear em parâmetros socialmente aceitos que lhe permite conviver com as outras pessoas, em outras palavras, ele
busca sempre se guiar pelos conceitos que norteiam a prática dos valores positivos e das qualidades humanas. A ética não
somente serve de base para as relações humanas, mas, trata também das relações sociais dos homens na medida em que
os filósofos consideram a ética como base da justiça ou do direito, e até mesmo das leis que regulam a convivência entre
todos que vivem na sociedade - basta lembrar que um dos princípios constitucionais que regem a Administração Pública
no Brasil é o princípio da moralidade, ou seja, os atos da Administração Pública, direta e indireta, devem ser norteados por
valores que a sociedade considera como moralmente válidos.
 
A Ética como teoria Filosófica e suas implicações para a vida em Sociedade
Primeiramente para entendermos sobre a ética devemos iniciar pelo conceito filosófico. Entender que é a área que
investiga o comportamento humano em suas relações entre si, considerando conceitos utilizados para avaliá-las como:
valor, virtude, justiça, moral, bem, normas morais, dever, liberdade e responsabilidade; promove também reflexões sobre
a busca humana pelas melhores formas de agir, viver e conviver. De forma mais específica, segundo Cotrim (2004, p. 264),
A ética é uma disciplina teórica sobre uma prática humana, que é o comportamento moral... A ética tem também preo-
cupações práticas. Ela orienta-se pelo desejo de unir o saber ao fazer. Como filosofia prática, isto é, disciplina teórica com
preocupações práticas, a ética busca aplicar o conhecimento sobre o ser para construir aquilo que deve ser.
Como teoria filosófica, a ética se caracteriza como estudo das ações individuais dos homens, cuja finalidade consiste
em elaborar uma orientação normativa para as ações humanas que seja estabelecido como bem. Com o filósofo grego
Aristóteles a ética passou a ser a “ciência do moral”, ou seja do caráter e das disposições do espírito. Enfatizamos que a ética
é um conjunto de argumentos que são utilizados pelos indivíduos para justificar suas ações, solucionando com diferentes
problemas em que há o conflito de interesses com bases em argumentos universais. Ou salientamos que a ética é uma
filosofia responsável por estudar a moral, contestando e identificando o que podemos chamar de regras morais vigentes,
as quais são alteradas com o tempo. A Ética como teoria filosófica tem por objetivo estudar o comportamento dos indiví-
duos frente aos apelos morais da sociedade em que este vive. Ela se manifesta de diferentes maneiras conforme a cultura,
costumes e hábitos de determinadas populações.
As reflexões da ética abrangem aspectos da vida pública e das leis estabelecidas no plano social para a existência hu-
mana. Envolvem questões ligadas ao direito, ao poder, a cidadania e a política, e abrange também aspectos da vida privada,
analisando algumas questões morais de foro íntimo ligadas as condutas e escolhas de indivíduos em nosso cotidiano, e são
elas que determinam o modo como cada um convive consigo próprio e com os outros.
As respostas filosóficas para as questões éticas variam no tempo e no espaço, e ainda apresentam uma característica
fundamental que envolve a posição dos indivíduos em relação ao valor e as virtudes que são defendidos em seu meio
cultural. Com isso, os filósofos investigam o que leva diferentes grupos sociais a se indagarem sobre questões e valores
semelhantes, sem ignorar que, os significados atribuídos a eles nem sempre são os mesmos. Há filósofos que concebem
o homem como um ser dotado de um senso moral inato, ou seja, da capacidade natural para avaliar como as coisas são e
como elas deveriam ser. Alguns acreditam que as diversas tendências culturais e individuais atuam sempre sobre a capaci-
dade comum entre os seres humanos e são determinantes da formação do caráter e da personalidade. E há filósofos que
afirmam a existência da liberdade, ressaltando sempre que, apesar da pressão de costumes e leis, nós sempre podemos
refletir sobre as questões éticas e sobre a moral aprendida, e que, segundo eles, há uma possibilidade que nos faz respon-
sáveis por nossas próprias escolhas e que nos permite contribuir para a renovação com as normas com que nos deparamos
no dia a dia. Vejamos agora, em breves linhas, alguns posicionamentos filosóficos de pensadores consagrados ao longo da
História da Filosofia.

www.meuartigo.brasilescola.uol.com.br/mundoeducacao.bol.uol.com.br/www.afilosofia.com.br/www.jus.com.br/Geizilaine Camila da Silva Rezende


Oliveira Nazário/ Bruno Cunha Weyne

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Nos tempos áureos da filosofia grega todas as virtudes Assim como Sócrates e Platão, o bispo, teólogo e fi-
eram políticas e sociais, o que denota uma certa insepa- lósofo do início da Idade Média, Santo Agostinho, foi um
rabilidade entre a ética e política, ou seja, não havia sepa- homem profundamente voltado para a sua interioridade,
ração entre ética e política senão no campo conceitual e uma vez que é nessa interioridade que podemos realizar
estavam relacionadas a conduta do indivíduo e os valores nosso encontro com Deus e nossa verdadeira essência. É
da sociedade. dentro desta perspectiva de uma filosofia introspectiva
No pensamento dos Antigos filósofos a existência hu- que Agostinho agrega uma série de conceitos fundamen-
mana só pode ser pensada em sociedade onde os seres hu- tais. Os filósofos medievais herdaram elementos da tradi-
manos aspiram ao bem e a felicidade, que só pode ser alcan- ção filosófica grega, reconfigurando-se no interior de uma
çada pela conduta virtuosa. Além disso, existe uma preocu- ética cristã e tal como Santo Agostinho, a filosofia de São
pação constante com a busca dos valores morais inscritos no Tomás de Aquino representa uma aproximação entre fé e
interior do próprio homem, como acreditava Sócrates. Dessa razão mas, neste caso, usando o pensamento aristotélico
forma – para ser ético – o homem deveria entrar em contato como base fundamental. Inspirado na filosofia aristotélica
com a sua própria essência, a fim de alcançar a perfeição. e amparado na visão cristã de mundo, Aquino reflete sobre
O homem, como qualquer ser, busca a sua perfeição, que a conduta ética que é aquela na qual o agente sabe o que
acontecerá quando sua essência estiver plenamente realiza- está e o que não está em seu poder realizar, referindo-se,
da.  E como afirma Mondin (1980, p.91), “A ética ou moral... é ao que é possível e desejável para um ser humano. A ética
o estudo da atividade humana com relação a seu fim último tomista também deve ser trabalhada no âmbito da socie-
que é a realização plena da humanidade”. dade. Analisando a natureza humana, resulta que o homem
Sócrates, que se tornou símbolo da própria filosofia, é um animal social (político) e, portanto, forçado a viver em
dedicou atenção especial as questões éticas, sendo que ele sociedade com os outros homens. A primeira forma da so-
julgava o ser humano que era dotado de uma natureza ra- ciedade humana é a família, de que depende a conservação
cional e voltada para o bem. Ele tentava sempre compreen- do gênero humano; a segunda forma é o Estado, de que
der a essência das virtudes e do bem, tal como a justiça, a depende o bem comum dos indivíduos. Sendo que ape-
prudência, a coragem, e entre outras. Sócrates de alguma nas o indivíduo tem realidade substancial e transcendente,
forma procurava saber dos cidadãos atenienses sobre a se compreende como o indivíduo não é um meio para o
virtude, a essência, saber se uma conduta é boa ou não, e Estado, mas o Estado um meio para o indivíduo. Segundo
porque o bem é uma virtude e o mal um erro, e com tudo Tomás de Aquino, o Estado não tem apenas função nega-
isso as perguntas ética-socráticas não estão destinadas so- tiva (repressiva) e material (econômica), mas também po-
mente ao indivíduo, mas também a sociedade. sitiva (organizadora) e espiritual (moral). Embora o Estado
Pode-se resumir a ética dos antigos em pelo menos seja completo em seu gênero, fica, porém, subordinado,
dois aspectos: o agir em conformidade com a razão e a em tudo quanto diz respeito à religião e à moral, à Igreja,
união permanente entre ética (a conduta do indivíduo) e que tem como escopo o bem eterno das almas, ao passo
política (valores da sociedade). A ética é uma maneira de que o Estado tem apenas como escopo o bem temporal
educar o sujeito moral (seu caráter) no intuito de propiciar dos indivíduos.
a harmonia entre o mesmo e os valores coletivos. Mas não foi apenas na antiguidade e na Idade Média
Na Idade Média a Filosofia sofrerá uma forte influência que os filósofos tiveram essa preocupação ética e social.
da tradição cristã. Uma vez, que todos os Filósofos deste Longe de pretender fazer uma análise sistemática das mais
período são teólogos, bispos, abades e padres. Dessa for- diferentes visões filosóficas sobre o assunto vamos apenas
ma a filosofia permanecerá, ao longo de todo período me- ressaltar as duas correntes que já mencionamos no início
dieval, subordinada a teologia, de tal modo, que é impos- do texto. A primeira sobre a qual já falamos, corresponde
sível separar o pensamento filosófico da tradição grega, do às ideias de filósofos como Sócrates e Santo Agostinho que
pensamento teológico cristão. Neste caso a vida ética era acreditam que o ser humano é dotado de um senso moral
definida por sua relação espiritual e interior com Deus e inato, ou seja, da capacidade natural para avaliar como as
pela caridade com o seu próximo, por meio da revelação coisas e como elas deveriam ser e, desta forma, a ques-
divina. A ética cristã se fundamenta no amor, no qual foi tão de como devemos nos comportar e agir em sociedade
colocado como primeiro e maior mandamento: o amor a passa por uma questão de foro íntimo e espiritual, intros-
Deus acima de todas as coisas e o amor ao próximo. É no pectivo, que pode ser resumida na frase: “conhece-te a ti
amor que o cristianismo encontra sua realização espiritual mesmo”. Mas essa visão não é a única e filósofos há que
mais profunda e as bases fundamentais para a vida em so- acreditam que que as diversas tendências culturais são de-
ciedade. terminantes da formação do caráter e da personalidade e
Os primeiros filósofos cristãos procuravam conciliar fé por isso dão uma ênfase maior em como os aspectos so-
e razão como instrumento de análise e reflexão. A partir ciais e culturais são determinantes das relações humanas.
desse pressuposto a filosofia insurge no campo da ética Um exemplo desta perspectiva nós encontramos no
cristã, como tentativa de justificar seus princípios e normas século XIX, com o filósofo alemão Friedrich Hegel, que
de comportamento, se submetendo a lei divina revelada aprofundou de maneira ímpar a perspectiva Homem – Cul-
pelas Sagradas Escrituras implicando uma determinação tura e História, sendo que a ética deve ser determinada
racional do próprio conteúdo sobrenatural da Revelação, pelas relações sociais. Como sujeitos históricos culturais,
mediante uma disciplina específica, a teologia dogmática. nossas ações devem ser determinadas pela harmonia entre

33
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
vontade subjetiva individual e a vontade objetiva cultural. desse contexto percebe-se uma inquietação acerca do sen-
O homem é visto como sujeito histórico-social, e como tal tido da vida e do papel do “ser no mundo”, vindo assim a
sua ação não pode mais ser analisada fora da coletividade, reaparecer com mais força o interesse pelo tema da ética,
por isso a ética ganha um dimensionamento político: uma enquanto coluna vertebral da reflexão sobre a conduta do
ação eticamente boa é politicamente boa, e contribui para ser humano e seus valores. Não é suficiente para o homem
o aumento da justiça e distribuição igualitária do poder comum e contemporâneo superar a crise da ética atual co-
entre os homens. O ideal ético para Hegel estava numa nhecendo o outro e suas necessidades para se chegar a
vida livre dentro de um Estado livre, um Estado de direito, sua convivência harmônica. Não há como superar esta crise
que preservasse os direitos dos homens e lhes cobrasse sem um modelo de ética voltada para uma comunidade,
seus deveres, onde a consciência moral e as leis do direito como na polis grega. Hoje se aposta no individualismo, na
não estivessem nem separadas e nem em contradição. E os competição, na sociedade do espetáculo e do consumo.
grandes problemas éticos se encontram em três momentos Acerca das reflexões sobre o ponto de vista dos filóso-
da eticidade que são a família, a sociedade civil e o Estado, fos, fica claro o entendimento sobre a ética, sendo um ele-
e uma ética concreta não pode ignorá-los (VALLS, 1994). mento imprescindível na sociedade. Somos formados por
Em relação à sociedade civil os problemas atuais con- princípios e valores que estão relacionados a nossa cultura
tinuam os mais urgentes: referem-se ao trabalho e à pro- e esses fatores são essenciais, para a formação do nosso
priedade. Não é um problema ético a falta de trabalho, o caráter no que diz respeito a nossa conduta ética e moral
desemprego, as formas escravizadoras do trabalho, quan- de modo que, irremediavelmente, o que se entende por
do a maioria não recebe as condições mínimas nem de sa- Filosofia e Ética está relacionado ao conhecimento e com-
lário nem de infra estrutura para sobreviver? Em relação ao portamento do indivíduo na sociedade.4
Estado, os problemas, éticos são muito ricos e complexos.
A liberdade do indivíduo só se completa como liberdade
do cidadão de um Estado livre e de direito. As leis, a Consti-
tuição, as declarações de direitos, a definição dos poderes, 4. FILOSOFIA E CONHECIMENTO CIENTÍFICO.
a divisão destes poderes para evitar abusos, e a própria 4.1 RACIONALISMO (DESCARTES) E
prática das eleições periódicas aparecem hoje como ques- EMPIRISMO (BACON).
tões éticas fundamentais. 4.2 FILOSOFIA, CIÊNCIA E TÉCNICA
Uma outra perspectiva de uma moral social encon-
(DESCARTES, BACON).
tramos no sociólogo Émile Durkheim. A comparação que
Durkheim faz da sociedade com um organismo biológico 4.3 FILOSOFIA E CRÍTICA DA TÉCNICA
traz ricas analogias. A sociedade é um imenso corpo social, (HEIDEGGER, BENJAMIN).
como um “organismo biológico” (o conjunto das institui- 4.4 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DESSAS
ções sociais formam este corpo), possuindo vários órgãos QUESTÕES E PRINCIPAIS ARGUMENTOS.
(entre eles: a família, o Estado, a escola, a Igreja), cada qual
com suas funções específicas de modo que a “anatomia
social” será saudável se todos os órgãos funcionarem bem.
Durkheim leva essa analogia ainda mais além quando afir- Filosofia da ciência é a área da filosofia que pergunta
ma que a partir do momento em que um desses órgãos sobre a ciência, de quais ideias parte, qual método usa, so-
deixa de funcionar convenientemente, todo corpo social se bre qual fundamento e acerca de suas implicações. Apesar
ressente e adoece. E o que torna saudável uma sociedade, destes problemas gerais, muitos filósofos escreveram sobre
fazendo com que ela funcione harmoniosamente, é a exis- algumas ciências particulares, como a física e a biologia. Não
tência de uma moral social. Cabe aos indivíduos desenvol- apenas se utiliza a filosofia para pensar sobre a ciência, como
ver planos de ação que possam influir na transformação se utiliza resultados científicos para pensar a filosofia.
dos aspectos deficientes da sociedade a partir de valores Não existe determinada ciência que faça parte dos es-
que possam orientar, efetivamente, a conduta social dos tudos da filosofia da ciência. As ciências naturais (ex.: bio-
indivíduos. Vale destacar aqui, a importância que a ideia logia, química e física), formais (ex.: matemática, lógica e
de solidariedade representa no pensamento do sociólogo teoria dos sistemas), sociais (ex.: sociologia, antropologia e
francês. A solidariedade, dentro do contexto das regras economia) e aplicadas (agronomia, arquitetura e engenha-
morais e sociais, pode e deve contribuir para a harmonia ria) já foram objetos de estudos filosóficos.
da sociedade. Historicamente, já na Grécia Antiga se pensava sobre
Enfim, qual a contribuição que a Filosofia e, por sua a ciência. Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), por exemplo, es-
vez, a Ética, podem oferecer para nós, homens e mulhe- creveu sobre a origem da vida, afirmando a possibilidade
res do século XXI? No momento histórico em que vivemos de existir vida a partir de algo inanimado. A teoria da abio-
existe um problema ético-político grave. O Brasil sempre gênese (geração espontânea) que ele defendia perdurou
quis ser visto o país dos justos, da democracia, da ética aci- por diversos séculos. Além da origem da vida, Aristóteles
ma de tudo, porém não é bem essa a realidade vivida por também se preocupou em elaborar um meio de estudar
todos. Verifica-se uma realidade conflitante fundamentada as espécies, sendo ele o primeiro a propor uma divisão do
em uma crise de sentido e de valores que se apresenta na reino animal em categorias.
vida pessoal e nas relações sociais das pessoas. A partir 4 Fonte: www.sabedoriapolitica.com.br

34
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
No decorrer da história, a figura mais importante para a filosofia da ciência é Francis Bacon (1561-1626), filósofo inglês
responsável pela base da ciência moderna, o método indutivo. A indução, método de a partir de fatos particulares chegar
a conclusões universais, já existia, mas é Bacon o responsável por seu aprimoramento e divulgação.
Após Bacon, muito se pensou e escreveu sobre a ciência, especialmente devido aos avanços e descobertas dos séculos
seguintes. René Descartes desenvolveu seu método, houve as contribuições e discussões de Galileu Galilei, Isaac Newton,
Gottfried Leibniz e outros. Deste aumento considerável de pensadores que detiveram tempo acerca do campo da filosofia
da ciência pode-se escolher alguns para comentar suas importantes ideias. Entre eles, David Hume e Karl Popper.
David Hume (1711-1776), filósofo escocês, criticou fortemente as bases da ciência e da filosofia. A partir do pensamen-
to de John Locke (1632-1704), Hume levou o empirismo, isto é, a ideia de que todo o nosso conhecimento tem origem na
experiência (nos cinco sentidos), até as últimas consequências. Para ele, se nosso conhecimento ocorre após a experiência
significa que não podemos deduzir eventos futuros. Significa dizer que não há nada no mundo que garanta que as leis que
regem o universo hoje serão as mesmas amanhã. Por mais que o homem observe há milênios o sol aparecer todos os dias,
nada garante o seu aparecimento amanhã, e por isso a ciência não pode tomar suas conclusões como verdades absolutas.
No século XX, o filósofo austríaco, Karl Popper (1902-1994) criticou a forma de fazer ciência a partir da indução, o método
defendido por Bacon. Para Popper, o método indutivo não garante a validade de suas conclusões. Afirmou isso, pois não é possível
ter acesso a todos os fatos particulares para ser possível chegar a conclusões. Um cientista pode observar cisnes durante 20 anos e
perceber que todos os cisnes observados são brancos, mas ele não pode concluir que “todos” os cisnes são brancos. Se ele concluir
isto, bastará a existência de apenas um cisne negro para invalidar sua tese. Com isto, Popper defenderá que o papel da ciência é
falsear as suas conclusões a partir do método dedutivo, partindo de conclusões universais para a verificação particular. O papel da
ciência é verificar se suas conclusões são verdadeiras, tentando falseá-las com a experimentação.
Apesar do seu nome simples, o campo é complexo e continua a ser uma área de investigação atual. Filósofos da ciência
estudam ativamente questões como:
• O que é uma lei da natureza? Há alguma em ciências não-físicas, como a biologia e a psicologia?
• Que tipo de dados pode ser usado para distinguir entre as verdadeiras causas e regularidades acidentais?
• Quanta evidência e que tipos de evidência precisamos ter antes de aceitar hipóteses?
• Por que é que os cientistas continuam a confiar em modelos e teorias que sabem ser pelo menos parcialmente
incorretos (como a física de Newton)?
Embora possam parecer elementares, estas questões são na realidade muito difíceis de responder de forma satisfatória.
As opiniões variam muito dentro do campo (e, ocasionalmente, vão contra as opiniões dos próprios cientistas — que usam
o seu tempo mais a fazer ciência do que a analisá-la abstratamente). Apesar dessa diversidade de opinião, os filósofos da
ciência em grande parte concordam num ponto: não há uma maneira única e simples de definir a ciência!

Embora o campo seja altamente especializado, algumas ideias chave generalizaram-se. Aqui temos uma explicação
curta de apenas alguns conceitos associados à filosofia da ciência, que você pode (ou não) já ter ouvido.
• Epistemologia — ramo da filosofia que lida com o que é o conhecimento, como aceitamos algumas coisas como
verdadeiras, e como podemos justificar essa aceitação.
• Empiricismo — conjunto de abordagens filosóficas para a construção do conhecimento que enfatizam a
importância da evidência observável provinda do mundo natural.
• Indução — método de raciocínio em que uma generalização é defendida como verdadeira com base em exemplos
individuais que parecem estar conformes à generalização. Por exemplo, depois de observar que as árvores, bactérias,
anémonas do mar, moscas, e os seres humanos possuem células, pode-se inferir por indução que todos os organismos
possuem células.
• Dedução — método de raciocínio em que a conclusão é alcançada logicamente a partir de dadas premissas. Por
exemplo, se conhecemos as posições relativas atuais da lua, do sol e da Terra, e se sabemos exatamente como se movem
uns em relação aos outros, podemos deduzir a data e o local do próximo eclipse solar.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
• Parcimónia/ navalha de Occam — ideia de que, Karl Popper (1924-1994) — Argumentou que a falsifi-
sendo todas as outras condições iguais, devemos preferir cabilidade é o sinal distintivo das teorias científicas e tam-
uma explicação mais simples a uma mais complexa. bém a metodologia adequada para os cientistas usarem.
• Problema da demarcação — o problema de Ele acreditava que os cientistas devem sempre considerar
distinguir com segurança a ciência da não-ciência. Filósofos as suas teorias com um olhar cético, procurando todas as
modernos da ciência concordam em termos gerais que não oportunidades para tentar falsificá-las.
existe um critério único e simples que possa ser usado para Thomas Kuhn (1922-1996) — Historiador e filósofo que
demarcar as fronteiras da ciência. argumentou que a imagem da ciência desenvolvida pelos
• Falsificação — o ponto de vista, associado com empiristas lógicos, como Popper, não se assemelha à his-
o filósofo Karl Popper, que a evidência só pode ser usada tória da ciência. Kuhn estabeleceu a famosa distinção entre
para descartar ideias, e não para as apoiar. Popper propôs ciência normal, onde os cientistas resolvem quebra-cabe-
que as ideias científicas só podem ser testadas através ças dentro de um quadro ou paradigma particular, e a ciên-
de falsificação, nunca através da procura de evidência cia revolucionária, quando o paradigma é substituído.
corroborante. Paul Feyerabend (1924-1994) — Um rebelde dentro da
• Mudanças de paradigma e revoluções filosofia da ciência. Ele argumentou que não há nenhum
científicas — uma visão da ciência, associada com o método científico, ou, nas suas palavras, “vale tudo”. Os
filósofo Thomas Kuhn, que sugere que a história da ciência cientistas fazem o que precisam de fazer sem considera-
pode ser dividida em períodos de ciência normal (quando ção por padrões de racionalidade, de modo a obter novas
os cientistas incrementam, elaboram e trabalham com ideias e persuadir os outros a aceitá-las.
uma teoria científica central, geralmente aceite) e breves Evelyn Fox Keller (1936-) — Física, historiadora e uma
períodos de ciência revolucionária. Kuhn afirmou que das pioneiras da filosofia feminista da ciência, tal como
durante os períodos de ciência revolucionária, anomalias exemplificado no seu estudo de Barbara McClintock e so-
refutando a teoria aceite acumularam-se a tal ponto que bre a história da genética no século XX.
a teoria anterior é rejeitada e uma nova é construída para Elliott Sober — Conhecido pelo seu trabalho sobre par-
cimónia e sobre as bases conceptuais da biologia evolutiva.
tomar o seu lugar, numa assim chamada “mudança de
Ele deu também um importante contributo para a teoria
paradigma”.
biológica da seleção de grupo.
Nancy Cartwright (1944-) — Filósofa da física conhe-
Quem é quem na filosofia da ciência
cida pela sua afirmação de que as leis da física “mentem”
Se estiver interessado em saber mais sobre a filosofia
— isto é, que as leis da física se aplicam apenas em cir-
da ciência, pode querer começar a sua investigação com
cunstâncias altamente idealizados. Ela também trabalhou
alguns dos grandes nomes no campo:
em causação, interpretações da probabilidade e mecânica
Aristóteles (384-322 AC) — Considerado por alguns
quântica, e nas fundações metafísicas da ciência moderna.
como o fundador tanto da ciência como da filosofia da
ciência. Escreveu extensivamente sobre os temas a que Filosofia e ciências da natureza
hoje chamamos física, astronomia, psicologia, biologia e Este conteúdo pretende oferecer uma panorâmica ge-
química, bem como lógica, matemática e epistemologia. ral e introdutória do modo como os filósofos têm encarado
Francis Bacon (1561-1626) — Promoveu um método as ciências da natureza ao longo da história, e apresen-
científico em que os cientistas reúnem muitos factos a par- tar simultaneamente alguns elementos básicos da própria
tir de observações e experiências, para de seguida fazer in- história do desenvolvimento científico. Nestas páginas en-
ferências indutivas sobre os padrões da natureza. contram-se alguns elementos da história da ciência, mas,
René Descartes (1596-1650) — Matemático, cientista sobretudo, da história da filosofia da ciência, assim como
e filósofo que promoveu um método científico que enfati- elementos de história das ideias em geral e de história da
zou a dedução a partir de primeiros princípios. Essas ideias, filosofia em particular; isto é, trata-se em grande parte de
bem como a sua matemática, influenciaram Newton e ou- uma panorâmica do modo como os filósofos têm encarado
tras figuras da Revolução Científica. a ciência ao longo do tempo, e não tanto uma descrição,
Piere Duhem (1861-1916) — Físico e filósofo que de- ainda que geral, do desenvolvimento da própria ciência. Os de-
fendeu uma forma extrema de empirismo. Ele argumentou senvolvimentos científicos surgem apenas como pano de fun-
que não podemos tirar conclusões sobre a existência de do. Procurar ver como ao longo da história a pergunta filosófica
entidades não observáveis conjeturadas pelas nossas teo- “O que é a ciência da natureza?” seria respondida, pareceu-me
rias, tais como átomos e moléculas. uma boa maneira de orientar este texto. Estas páginas incluem,
Carl Hempel (1905-1997) — Desenvolveu teorias in- como ilustração das ideias aqui apresentadas, algumas passa-
fluentes sobre os conceitos de explicação científica e con- gens dos filósofos e cientistas referidos. Apesar de essas passa-
firmação de teorias. Ele argumentou que um fenómeno fica gens serem escolhidas a pensar na facilidade de compreensão
“explicado” quando podemos ver que é a consequência ló- por parte dos alunos, todo o texto pode ser lido passando por
gica de uma lei da natureza. Ele defendia uma descrição cima delas sem que algo de essencial se perca.
hipotético-dedutiva da confirmação, semelhante à maneira Apesar de o termo “ciência” ser muito abrangente,
com que nós caracterizamos “estabelecer um argumento neste texto iremos sobretudo centrar a nossa atenção nas
científico” neste site. ciências da natureza. Pelo facto de as ciências da natureza,

36
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
e em particular a física e a astronomia, se terem desenvol- as explicações míticas e religiosas de um dado povo dão a
vido mais cedo do que as ciências sociais, exerceram e con- esse povo uma importância central na ordem das coisas.
tinuam a exercer uma influência assinalável no modo como E têm ainda outra característica importante: essas explica-
os filósofos encaram a ciência — acontecendo até muitas ções constituem muitas vezes códigos de conduta moral,
vezes que eles usam o termo “ciência” como abreviatura de determinando de uma forma integrada com a origem mí-
“física”. Ao longo do texto irei muitas vezes usar o termo tica do universo, o que se deve e o que não se deve fazer.
“ciência” para falar das ciências da natureza; quando falar As explicações míticas e religiosas foram antepassados
das ciências formais como a geometria ou a matemática da ciência moderna, não por darem importância central
em geral, será suficientemente claro que já não estou a fa- aos seres humanos na ordem das coisas nem por deter-
lar de ciências da natureza. minarem códigos de conduta baseados na ordem cósmi-
ca, mas por ao mesmo tempo oferecerem explicações de
1. Os gregos alguns fenómenos naturais — apesar de essas explicações
não se basearem em métodos adequados de prova nem na
Mitos e deuses observação sistemática da natureza.
Quando surgiu a ciência? Esta parece ser uma pergunta
simples. Contudo, tem frequentemente dado origem a lon- Os primeiros filósofos-cientistas
gas discussões. Discussões que acabam quase sempre por A ciência da natureza é diferente do mito e da religião.
se deslocar para uma outra pergunta mais básica: o que é a A ciência baseia-se em observações sistemáticas, é um es-
ciência? Mais básica, pois a resposta para aquela depende tudo racional e usa métodos adequados de prova. Como é
da solução encontrada para esta. natural, os primeiros passos em direção à ciência não re-
Ora, o termo “ciência” nem sempre foi entendido da velam ainda todas as características da ciência — revelam
mesma maneira e ainda hoje as opiniões acerca do que apenas algumas delas. O primeiro, e tímido, passo na di-
deve ou não ser considerado como científico continuam reção da ciência só foi dado no início do século VI a. C. na
divididas. Uma definição rigorosa e consensual de ciência cidade grega de Mileto, por aquele que é apontado como
é, pois, algo difícil de estabelecer. o primeiro filósofo, Tales de Mileto.
Mas isso não nos deve impedir de avançar. Assim, a Tales de Mileto acreditava em deuses. Só que a res-
melhor maneira de começar talvez seja a de correr o risco posta que ele dá à pergunta acerca da origem ou princípio
de propor uma definição de ciência que, apesar de impre- de tudo o que vemos no mundo já não é mítica; já não se
cisa, nos possa servir como ponto de partida, mesmo que baseia em entidades sobrenaturais.. Dizia Tales que o prin-
venha depois a ser corrigida: a ciência da natureza é o estu- cípio de todas as coisas era algo que por todos podia ser
do sistemático e racional, baseado em métodos adequados diretamente observado na natureza: a água. Tendo obser-
de prova, da natureza e do seu funcionamento. vado que a água tudo fazia crescer e viver, enquanto que
Muitas das perguntas mais elementares que os seres a sua falta levava os seres a secar e morrer; tendo, talvez,
humanos colocam a si próprios desde que são seres hu- reparado que na natureza há mais água do que terra e que
manos são perguntas que podem dar origem a estudos grande parte do próprio corpo humano era formado por
científicos. Eis alguns exemplos dessas perguntas: Porque água; verificando que esse elemento se podia encontrar
é que chove? O que é o trovão? De onde vem o relâmpago? em diferentes estados, o líquido, o sólido e o gasoso, foi
Por que razão crescem as ervas? Por que razão existem os assim levado a concluir que tudo surgiu a partir da água. A
montes? Por que razão tenho fome? Por que razão morrem explicação de Tales ainda não é científica; mas também já
os meus semelhantes? Porque é que cai a noite e a seguir não é inteiramente mítica. Têm características da ciência e
vem o dia de novo? O que são as estrelas? Por que razão características do mito. Não é baseada na observação sis-
voam os pássaros?... temática do mundo, mas também não se baseia em enti-
Mas estas perguntas podem dar origem também a dades míticas. Não recorre a métodos adequados de prova,
outro tipo de respostas que não as científicas; podem dar mas também não recorre à autoridade religiosa e mítica.
origem a respostas de carácter religioso e mítico. Essas res- Este último aspecto é muito importante. Consta que
postas têm a característica de não se basearem nos méto- Tales desafiava aqueles que conheciam as suas ideias a de-
dos mais adequados e de não serem o produto de estudos monstrar que não tinha razão. Esta é uma característica da
sistemáticos. Uma resposta mítica ou religiosa apela à von- ciência — e da filosofia — que se opõe ao mito e à religião.
tade de um Deus ou de deuses e conta uma história da ori- A vontade de discutir racionalmente ideias, ao invés de nos
gem do universo. Essa resposta não se baseia em estudos limitarmos a aceitá-las, é um elemento sem o qual a ciência
sistemáticos da natureza, mas antes na observação diária não se poderia ter desenvolvido. Uma das vantagens da
não sistemática; e não são estudos racionais dado que não discussão aberta de ideias é que os defeitos das nossas
encorajam a crítica, mas antes a aceitação religiosa. Isto ideias são criticamente examinados e trazidos à luz do dia
não quer dizer que as respostas míticas e religiosas não por outras pessoas. Foi talvez por isso que outros pensa-
tivessem qualquer valor. Por exemplo, é óbvio que numa dores da mesma região surgiram apresentando diferentes
altura em que a ciência, com os seus métodos racionais de teorias e, deste modo, se iniciou uma tradição que se foi
prova, ainda não estava desenvolvida, as explicações míti- gradualmente afastando das concepções míticas anterio-
cas e religiosas eram pelo menos uma maneira de respon- res. Assim apareceram na Grécia, entre outros, Anaximan-
der à curiosidade natural dos seres humanos. Além disso, dro (século VI a. C.), Heraclito (século VI/V a. C.), Pitágoras

37
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
(século VI a. C.), Parménides (século VI/V a. C.) e Demócrito árvores, os planetas e estrelas percorrem o céu noturno.
(século V/IV a. C.). Este último viria mesmo a defender que Mas como poderemos nós ter a esperança de conseguir
tudo quanto existia era composto de pequeníssimas par- explicar os fenómenos naturais, se eles estão em perma-
tículas indivisíveis (atomoi), unidas entre si de diferentes nente mudança? Para os gregos, isto representava um pro-
formas, e que na realidade nada mais havia do que átomos blema por alguns dos motivos que já vimos: não tinham
e o vazio onde eles se deslocavam. Foi o primeiro grande instrumentos para medir de forma exata, por exemplo, a
filósofo naturalista, que achava que não havia deuses e que velocidade; e assim a matemática, que constituía o modelo
a natureza tinha as suas próprias leis. básico de pensamento científico, era inútil para estudar a
As ciências da natureza estavam num estado primitivo; natureza. A matemática parecia aplicar-se apenas a domí-
pouco mais eram do que especulações baseadas na ob- nios estáticos e eternos. Como o mundo estava em cons-
servação avulsa. Mas as ciências matemáticas começaram tante mudança, parecia a alguns filósofos que o mundo
também desde cedo a desenvolver-se, e apresentaram não poderia jamais ser objeto de conhecimento científico.
desde o início muitos mais resultados do que as ciências da Era essa a ideia de Platão. Este filósofo recusava a rea-
natureza. Pitágoras, por exemplo, descobriu vários resulta- lidade do mundo dos sentidos; toda a mudança que ob-
dos matemáticos importantes, e o nome dele ainda está servamos diariamente era apenas ilusão, reflexos pálidos
associado ao teorema de Pitágoras da geometria (apesar de uma realidade supra-sensível que poderia ser verdadei-
de não se saber se terá sido realmente ele a descobrir este ramente conhecida. E a geometria, o ramo da matemática
teorema, se um discípulo da sua escola). A escola pitagó- mais desenvolvida do seu tempo, era a ciência fundamen-
rica era profundamente mística; atribuía aos números e às tal para conhecer o domínio supra-sensível. Para Platão, só
suas relações um significado mítico e religioso. Mas os seus podíamos ter conhecimento do domínio supra-sensível, a
estudos matemáticos eram de valor, o que mostra mais que ele chamou o domínio das Ideias ou Formas; do mun-
uma vez como a ciência e a religião estavam misturadas do sensível não podíamos senão ter opiniões, também elas
nos primeiros tempos. Afinal, a sede de conhecimento que em constante fluxo. O domínio do sensível era, para Platão,
leva os seres humanos a fazer ciências, religiões, artes e uma forma de opinião inferior e instável que nunca nos
filosofia é a mesma. levaria à verdade universal, eterna e imutável, já que se a
mesma coisa fosse verdadeira num momento e falsa no
O maior desenvolvimento das ciências matemáticas
momento seguinte, então não poderia ser conhecida.
teve repercussões importantíssimas para o desenvolvimen-
Podemos ver a distinção entre os dois mundos, que
to da ciência, para a filosofia da ciência e para a filosofia
levaria à distinção entre ciência e opinião, na seguinte pas-
em geral. Os resultados matemáticos tinham uma carac-
sagem de um dos seus diálogos:
terística muito diferente das especulações sobre a origem
Há que admitir que existe uma primeira realidade: o que
do universo e de todas as coisas. Ao passo que havia várias
tem uma forma imutável, o que de nenhuma maneira nasce
ideias diferentes quanto à origem das coisas, os resultados nem perece, o que jamais admite em si qualquer elemento
matemáticos eram consensuais. Eram consensuais porque vindo de outra parte, o que nunca se transforma noutra coi-
os métodos de prova usados eram poderosos; dada a de- sa, o que não é perceptível nem pela vista, nem por outro
monstração matemática de um resultado, era praticamente sentido, o que só o entendimento pode contemplar. Há uma
impossível recusá-lo. segunda realidade que tem o mesmo nome: é semelhante
A matemática tornou-se assim um modelo da certeza. à primeira, mas é acessível à experiência dos sentidos, é
Mas este modelo não é apropriado para o estudo da natu- engendrada, está sempre em movimento, nasce num lugar
reza, pois a natureza depende crucialmente da observação. determinado para em seguida desaparecer; é acessível à opi-
Além disso, não se pode aplicar a matemática à natureza nião unida à sensação.
se não tivermos à nossa disposição instrumentos precisos
de quantificação, como o termómetro ou o cronómetro. Platão, Timeu
Assim, o sentimento de alguns filósofos era (e por vezes Conhecer as ideias seria o mesmo que conhecer a ver-
ainda é) o de que só o domínio da matemática era verda- dade última, já que elas seriam os modelos ou causas dos
deiramente “científico” e que só a matemática podia ofere- objetos sensíveis. Como tal, só se poderia falar de ciência
cer realmente a certeza. Só Galileu e Newton, já no século acerca das ideias, sendo que estas não residiam nas coisas.
XVII, viriam a mostrar que a matemática se pode aplicar à Procurar a razão de ser das coisas obrigava a ir para além
natureza e que as ciências da natureza têm de se basear delas; obrigava a ascender a uma outra realidade distinta e
noutro tipo de observação diferente da observação que até superior. A ciência, para Platão não era, pois, uma ciência
aí se fazia. acerca dos objetos que nos rodeiam e que podemos ob-
servar com os nossos sentidos. Neste aspecto fundamental
Platão e Aristóteles é que o principal discípulo de Platão, Aristóteles (384-322
Uma das preocupações de Platão (428-348 a.C.) foi dis- a.C.), viria a discordar do mestre.
tinguir a verdadeira ciência e o verdadeiro conhecimento Aristóteles não aceitou que a realidade captada pelos
da mera opinião ou crença. Um dos problemas que ator- nossos sentidos fosse apenas um mar de aparências sobre
mentaram os filósofos gregos em geral e Platão em parti- as quais nenhum verdadeiro conhecimento se pudesse cons-
cular, foi o problema do fluxo da natureza. Na natureza ve- tituir. Bem pelo contrário, para ele não havia conhecimento
rificamos que muitas coisas estão em mudança constante: sem a intervenção dos sentidos. A ciência, para ele, teria de
as estações sucedem-se, as sementes transformam-se em ser o conhecimento dos objetos da natureza que nos rodeia.

38
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
É verdade que os sentidos só nos davam o particular e sam que a ciência contemporânea descreve o modo como
Aristóteles pensava que não há ciência senão do universal. os fenómenos da natureza ocorrem, mas que não explica
Mas, para ele, e ao contrário do seu mestre, o universal o porquê desses fenómenos; isto é uma ideia errada, que
inferia-se do particular. Aristóteles achava que, para se che- resulta ainda da ideia aristotélica de que só as explicações
gar ao conhecimento, nos devíamos virar para a única rea- finalistas são verdadeiras explicações.
lidade existente, aquela que os sentidos nos apresentavam. Devido a um conjunto de factores, a Grécia não voltou
Sendo assim, o que tínhamos de fazer consistia em a ter pensadores com a dimensão de Platão e Aristóteles.
partir da observação dos casos particulares do mesmo tipo Mesmo assim apareceram ainda, no século III a. C., alguns
e, pondo de parte as características próprias de cada um contributos para a ciência, tais como os Elementos de Geo-
(por um processo de abstração), procurar o elemento que metria de Euclides, as descobertas de Arquimedes na Física
todos eles tinham em comum (o universal). Por exemplo, e, já no século II, Ptolomeu na astronomia.
todas as árvores são diferentes umas das outras, mas, ape-
sar das suas diferenças, todas parecem ter algo em comum. 2. A idade média
Só que não poderíamos saber o que elas têm em comum
se não observássemos cada uma em particular, ou pelo Crer para compreender
menos um elevado número delas. Ao processo que permi- Entretanto, o mundo grego desmoronou-se e o seu
te chegar ao universal através do particular chama-se por lugar cultural viria, em grande parte, a ser ocupado pelo
vezes “indução”. A indução é, pois, o método correto para império romano. Entretanto, surge uma nova religião, ba-
chegar à ciência, tal como escreveu Aristóteles: seada na religião judaica e inspirada por Jesus Cristo, que
É evidente também que a perda de um sentido acar- a pouco e pouco foi ganhando mais adeptos. O próprio
reta necessariamente o desaparecimento de uma ciência, imperador romano, Constantino, converteu-se ao cristia-
que se torna impossível de adquirir. Só aprendemos, com nismo no início do século IV, acabando o cristianismo por
efeito, por indução ou por demonstração. Ora a demons- se tornar a religião oficial do Império Romano. Inicialmente
tração faz-se a partir de princípios universais, e a indução pregada por Cristo e seus apóstolos, a sua doutrina veio
a partir de casos particulares. Mas é impossível adquirir o
também a ser difundida e explicada por muitos outros se-
conhecimento dos universais a não ser pela indução, visto
guidores, estando entre os primeiros S. Paulo e os padres
que até os chamados resultados da abstração não se po-
da igreja dos quais se destacou S. Agostinho (354-430).
dem tornar acessíveis a não ser pela indução. (...) Mas indu-
Tratava-se de uma doutrina que apresentava uma
zir é impossível para quem não tem a sensação: porque é nos
mensagem apoiada na ideia de que este mundo era cria-
casos particulares que se aplica a sensação; e para estes não
do por um Deus único, omnipotente, omnisciente, livre e
pode haver ciência, visto que não se pode tirá-la de univer-
infinitamente bom, tendo sido nós criados à sua imagem e
sais sem indução nem obtê-la por indução sem a sensação”.
semelhança. Sendo assim, tanto os seres humanos como a
Aristóteles, Segundos Analíticos
Aristóteles representa um avanço importante para a própria natureza eram o resultado e manifestação do po-
história da ciência. Além de ter fundado várias disciplinas der, da sabedoria, da vontade e da bondade divinas. Como
científicas (como a taxionomia biológica, a cosmologia, a prova disso, Deus teria enviado o seu filho, o próprio Cris-
meteorologia, a dinâmica e a hidrostática), Aristóteles deu to, e deixado a sua palavra, as Sagradas Escrituras. Por sua
um passo mais na direção da ciência tal como hoje a co- vez, os seres humanos, como criaturas divinas, só poderiam
nhecemos: pela primeira vez encarou a observação da na- encontrar o sentido da sua existência através da fé nas pa-
tureza de um ponto de vista mais sistemático. Ao passo lavras de Cristo e das Escrituras. Uma das diferenças funda-
que para Platão a verdadeira ciência se fazia na contempla- mentais do cristianismo em relação ao judaísmo consistia
ção dos universais, descurando a observação da natureza na crença de que Jesus era um deus incarnado, coisa que o
que é fundamental na ciência, Aristóteles dava grande im- judaísmo sempre recusou e continua a recusar.
portância à observação. A religião cristã acabou por ser a herdeira da civiliza-
Aristóteles desenvolveu teorias engenhosas sobre ção grega e romana. Aquando da derrocada do império
muitas áreas da ciência e da filosofia. A própria filosofia romano, foram os cristãos — e os árabes —, espalhados
da ciência foi pela primeira vez estudada com algum rigor por diversos mosteiros, que preservaram o conhecimento
por ele. Aristóteles achava que havia vários tipos de expli- antigo. Dada a sua formação essencialmente religiosa, ti-
cações, que correspondiam a vários tipos de causas. Um nham tendência para encarar o conhecimento, sobretudo
desses tipos de causas e de explicações era fundamental, o conhecimento da natureza, de uma maneira religiosa. O
segundo Aristóteles: a explicação teleológica ou finalista. nosso destino estava nas mãos de Deus e até a natureza
Para Aristóteles, todas as coisas tendiam naturalmente para nos mostrava os sinais da grandeza divina. Restava-nos co-
um fim (a palavra portuguesa “teleologia” deriva da pala- nhecer a vontade de Deus. Só que, para isso, de nada serve
vra grega para fim: telos), e era esta concepção teleológica a especulação filosófica se ela não for iluminada pela fé. E
da realidade que explicava a natureza de todos os seres. o conhecimento científico não pode negar os dogmas re-
Esta concepção da ciência como algo que teria de ser fun- ligiosos, e deve até fundamentá-los. A ciência e a filosofia
damentalmente teleológica iria perdurar durante muitos ficam assim submetidas à religião; a investigação livre deixa
séculos, e constituir até um obstáculo importante ao de- de ser possível. Esta atitude de totalitarismo religioso irá
senvolvimento da ciência. Ainda hoje muitas pessoas pen- acabar por ter consequências trágicas para Galileu e para

39
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Giordano Bruno (1548-1600), tendo este último sido con- rendo-se para tal dos conceitos da filosofia aristotélica que
denado pela Igreja em função das suas doutrinas científicas se vê, deste modo, cristianizada. Tanto os conceitos meta-
e filosóficas: foi queimado vivo. físicos de Aristóteles — nomeadamente que tudo quanto
As teorias dos antigos filósofos gregos deixaram de existe tem uma causa primeira e um fim último — como a
suscitar o interesse de outrora. A sabedoria encontrava-se sua cosmologia (geocentrismo reformulado por Ptolomeu:
fundamentalmente na Bíblia, pois esta era a palavra divi- o universo é formado por esferas concêntricas, no meio do
na e Deus era o criador de todas as coisas. Quem quises- qual está a Terra imóvel) foram utilizados e adaptados à
se compreender a natureza, teria, então, que procurar tal doutrina cristã da Igreja por S. Tomás. Aristóteles passou
conhecimento não diretamente na própria natureza, mas a ser estudado e comentado nas escolas (que pertenciam
nas Sagradas Escrituras. Elas é que continham o sentido da à Igreja, funcionando nos seus mosteiros) e tornou-se, a
vontade divina e, portanto, o sentido de toda a natureza par das Escrituras, uma autoridade no que diz respeito ao
criada. Era isso que merecia verdadeiramente o nome de conhecimento da natureza.
“ciência”.
Compreender a natureza consistia, no fundo, em in- A alquimia
terpretar a vontade de Deus patente na Bíblia e o proble- Além do que ficou dito, há um aspecto que não pode
ma fundamental da ciência consistia em enquadrar devi- ser desprezado quando se fala da ciência na Idade Média e
damente os fenómenos naturais com o que as Escrituras que é a alquimia. As práticas alquímicas, apesar do manto
diziam. Assim se reduzia a ciência à teologia, tal como é de segredo com que se cobriam, eram muito frequentes
ilustrado na seguinte passagem de S. Boaventura (1217- na Idade Média. O alquimista encarava a natureza como
1274), tirada de um escrito cujo título é, a este respeito, algo de misterioso e fantástico, o que não era estranho ao
elucidativo: espírito medieval, em que tudo estava impregnado de sim-
E assim fica manifesto como a “multiforme sabedoria de bolismo. Cabia-lhe decifrar e utilizar esses símbolos para
Deus”, que aparece claramente na Sagrada Escritura, está descobrir as maravilhas da natureza. Desse modo ele po-
oculta em todo o conhecimento e em toda a natureza. Fica, deria não só penetrar nos seus segredos como também
igualmente, manifesto como todas as ciências estão subordi- manipulá-la e, por exemplo, transformar os metais vis em
metais preciosos. Por tudo isso, os alquimistas foram vis-
nadas à teologia, pelo que esta colhe os exemplos e utiliza a
tos, por muitos, como verdadeiros agentes do demónio.
terminologia pertencente a todo o género de conhecimentos.
O anonimato seria a melhor forma de prosseguir nas suas
Fica, além disso, manifesto como é grande a iluminação di-
práticas, as quais eram consideradas como ilícitas em re-
vina e de que modo no íntimo de tudo quanto se sente ou se
lação aos programas oficiais das escolas da época. Daí a
conhece está latente o próprio Deus.
existência das chamadas sociedades secretas, do ocultismo
S. Boaventura, Redução das Ciências à Teologia
e do esoterismo, onde a própria situação de anonimato ia
Investigações recentes revelaram que, apesar do que a par do mistério que cobre todas as coisas.
atrás se disse, houve mesmo assim algumas contribuições Há quem defenda que tudo isso, ao explorar certos as-
que iriam ter a sua importância no que posteriormente viria pectos da natureza proibidos pelas autoridades religiosas
a pertencer ao domínio da ciência. Mas o mundo medieval deu também o seu contributo à ciência, nomeadamente à
é inequivocamente um mundo teocêntrico e a instituição química, que, na altura, ainda não tinha surgido. Mas esta
que se encarregou de fazer perdurar durante séculos essa tese tem poucos exemplos em que se apoiar e parece até
concepção foi a Igreja. A Igreja alargou a sua influência a que o verdadeiro espírito científico moderno teve de se de-
todos os domínios da vida. Não foi apenas o domínio reli- bater com a resistência dos fantasmas irracionais associa-
gioso, foi também o social, o económico, o artístico e cultu- dos à alquimia e outras práticas do género pouco dadas à
ral, e até o político. Com o poder adquirido, uma das prin- compreensão racional dos fenómenos naturais. A alquimia
cipais preocupações da Igreja passou a ser o de conservar continuou a praticar-se e chegou mesmo a despertar o in-
tal poder, decretando que as suas verdades não estavam teresse de algumas das mais importantes figuras da histó-
sujeitas à crítica e quem se atrevesse sequer a discuti-las ria da ciência, como foi o caso de Newton. O mais conhe-
teria de se confrontar com os guardiães em terra da ver- cido praticante da alquimia foi Paracelso (1493-1541), em
dade divina. pleno período renascentista.

Compreender para crer 3. A ciência moderna


Todavia, começou a surgir, por parte de certos pensa-
dores, a necessidade de dar um fundamento teórico, ou Os precursores
racional, à fé cristã. Era preciso demonstrar as verdades da Não é possível dizer exatamente quando terminou a
fé; demonstrar que a fé não contradiz a razão e vice-versa. Idade Média e começou o período que se lhe seguiu. Há,
Se antes se dizia que era preciso “crer para compreender”, todavia, uma data que é frequentemente apontada como
deveria então juntar-se “compreender para crer”. A fé re- referência simbólica da passagem de uma época à outra.
vela-nos a verdade, a razão demonstra-a. Assim, fé e razão Essa data é 1453, data que marca a queda do Império Ro-
conduzem uma à outra. mano do Oriente.
Foi esta a posição do mais destacado de todos os filó- O início do Renascimento trouxe consigo uma longa
sofos cristãos, S. Tomás de Aquino (1224-1274). S. Tomás série de transformações que seria impossível referir aqui
veio dar ao cristianismo todo um suporte filosófico, socor- na sua totalidade. Algumas dessas transformações mostra-

40
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
ram os seus primeiros indícios ainda no período medieval Seriam Galileu, graças às observações com o seu te-
e tiveram muito que ver com, entre outros factos, o apare- lescópio, e o astrónomo alemão Kepler (1571-1630), ao
cimento de novas classes que já não estavam inseridas na descobrir as célebres leis do movimento dos planetas, a
rígida estrutura feudal, própria do mundo rural medieval. completar aquilo que Copérnico não chegou a fazer: apre-
Essas classes são as dos mercadores e artífices, as quais sentar as provas que davam definitivamente razão à teoria
dependem essencialmente do comércio marítimo. Fora da heliocêntrica, condenando a teoria geocêntrica como falsa.
tradicional hierarquia feudal, muitas pessoas prosperam Nada disto, porém, aconteceu sem uma grande resistên-
nas cidades. Cidades que se desenvolvem e onde come- cia por parte dos “sábios” da altura e da Igreja, tendo esta
ça a surgir também uma indústria, sobretudo ligada à ma- ameaçado e mesmo julgado Galileu por tal heresia.
nufatura de produtos — com a valorização dos artesãos Por outro lado, Bacon propôs na sua obra Novum Or-
— e à construção naval. Isso trouxe consigo um inevitável ganum um novo método para o estudo da natureza que
progresso técnico que viria a colocar novos problemas no viria a tornar-se uma marca distintiva da ciência moderna.
domínio da ciência. Para tal contribuíram, além do comér- Bacon defende a experimentação seguida da indução.
cio naval atrás referido, também os descobrimentos maríti- Mas não vimos atrás que também Aristóteles defendia
mos. Descobrimentos em que Portugal ocupa um lugar de a indução? é verdade que já há cerca de dois mil anos antes
relevo. O mundo fechado do tempo das catedrais começa, Aristóteles propunha a indução como método de conheci-
assim, a abrir-se, com as velhas certezas a ruir e os horizon- mento. Só que, para este, a indução não utilizava a experi-
tes de um “novo universo” a alargar-se. mentação. Se Aristóteles tivesse recorrido à experimenta-
O homem renascentista começou a virar-se mais para ção, facilmente poderia concluir que, ao contrário do que
si do que para os dogmas bíblicos e a interessar-se cada estava convencido, a velocidade da queda dos corpos não
vez mais pelas ideias, durante tantos séculos esquecidas, depende do seu peso. Para Aristóteles, a indução partia da
dos grandes filósofos gregos, de modo a fazer renascer os simples enumeração de casos particulares observados, en-
ideais da cultura clássica — daí o nome de Renascimento. quanto que Bacon falava de uma observação que não era
Esta é uma nova atitude a que se chamou “humanismo”. meramente passiva, até porque o homem de ciência deve-
O protótipo do homem renascentista é Leonardo da Vin- ria estar atento aos obstáculos que se interpõem entre o
ci, pintor, escultor, arquiteto, engenheiro, escritor, etc., a espírito humano e a natureza. Assim, seria necessário elimi-
quem tudo interessa. Muitas verdades intocáveis são revis- nar da observação vulgar as falsas imagens — que tinham
tas e caem do seu pedestal. O que leva, inclusivamente, à diferentes origens e a que Bacon dava o nome de idola — e
contestação da autoridade religiosa do Papa, como acon- pôr essa observação à prova através da experimentação.
tece com Lutero (1483-1546), dando origem ao protestan- A par do que ficou dito, Bacon falava de uma ciência já
tismo e à reforma da Igreja. não contemplativa como a anterior, mas uma ciência “ativa
As mudanças acima apontadas irão estar na base de e operativa” que visava possibilitar aos seres humanos os
um acontecimento de importância capital na história da meios de intervir na natureza e a dominar. Esta ciência dos
ciência: a criação, por Galileu (1564-1642), da ciência mo- efeitos traz consigo o germe da interdependência entre
derna. Com a criação da ciência moderna foi toda uma ciência e tecnologia.
concepção da natureza que se alterou, de tal modo que
se pode dizer que Galileu rompeu radicalmente com a tra- O nascimento da ciência moderna: Galileu
dicional concepção do mundo incontestada durante tantos O que acaba de se referir contribuiu para o apareci-
séculos. mento de uma nova ciência, mas o seu fundador, como
É claro que Galileu não esteve sozinho e podemos começou por se assinalar, foi Galileu.
apontar pelo menos dois nomes que em muito ajudaram Há três tipos de razões que fizeram de Galileu o pai
de uma nova forma de encarar a natureza: em primeiro lu-
a romper com essa tradição e contribuíram de forma evi-
gar, deu autonomia à ciência, fazendo-a sair da sombra da
dente para a criação da ciência moderna: Copérnico (1473-
teologia e da autoridade livresca da tradição aristotélica;
1543) e Francis Bacon (1561-1626).
em segundo lugar, aplicou pela primeira vez o novo mé-
Por um lado, Copérnico com a publicação do seu livro
todo, o método experimental, defendendo-o como o meio
A Revolução das órbitas Celestes veio defender uma teoria
adequado para chegar ao conhecimento; finalmente, deu à
que não só se opunha à doutrina da Igreja, como também
ciência uma nova linguagem, que é a linguagem do rigor, a
ao mais elementar senso comum, enquadrados pela au- linguagem matemática.
toridade da filosofia aristotélica largamente ensinada nas Ao dar autonomia à ciência, Galileu fê-la verdadeira-
universidades da época: essa teoria era o heliocentrismo. mente nascer. Embora na altura se lhe chamasse “filosofia
O heliocentrismo, ao contrário do geocentrismo até da natureza”, era a ciência moderna que estava a dar os
então reinante, veio defender que a Terra não se encontra- seus primeiros passos. Antes disso, a ciência ainda não era
va imóvel no centro do universo com os planetas e o Sol ciência, mas sim teologia ou até metafísica. A verdade acer-
girando à sua volta, mas que era ela que se movia em torno ca das coisas naturais ainda se ia buscar às Escrituras e aos
do Sol. Ao defender esta teoria, Copérnico baseava-se na livros de Aristóteles.
convicção de que a natureza não devia ser tão complicada E não foi fácil a Galileu quebrar essa dependência, ten-
quanto o esforço que era necessário para, à luz do geocen- do que se defender, após a publicação do seu livro Diálogo
trismo aristotélico, compreender o movimento dos plane- dos Grandes Sistemas, das acusações de pôr em causa o
tas, as fases da Lua e as estações do ano. que a Bíblia dizia. Esta carta de Galileu é bem disso exemplo:

41
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Posto isto, parece-me que nas discussões respeitantes escritos por filósofos. Apesar disso, muitas das suas proprie-
aos problemas da natureza, não se deve começar por in- dades (...) não foram observadas nem demonstradas até ao
vocar a autoridade de passagens das Escrituras; é preciso, momento. (...) Com efeito, que eu saiba, ninguém demons-
em primeiro lugar, recorrer à experiência dos sentidos e a trou que o corpo que cai, partindo de uma situação de re-
demonstrações necessárias. Com efeito, a Sagrada Escri- pouso, percorre em tempos iguais, espaços que mantêm
tura e a natureza procedem igualmente do Verbo divino, entre si uma proporção idêntica à que se verifica entre os
sendo aquela ditada pelo Espírito Santo, e esta, uma exe- números ímpares sucessivos começando pela unidade.
cutora perfeitamente fiel das ordens de Deus. Ora, para se
adaptarem às possibilidades de compreensão do maior Galileu, As Duas Novas Ciências
número possível de homens, as Escrituras dizem coisas que A velocidade da queda dos corpos (queda livre), é de
diferem da verdade absoluta, quer na sua expressão, quer tal modo apresentada que pode ser rigorosamente descrita
no sentido literal dos termos; a natureza, pelo contrário, numa fórmula matemática. Não seria possível fazer ciência
conforma-se inexorável e imutavelmente às leis que lhe fo- sem se dominar a linguagem matemática. Metaforicamen-
ram impostas, sem nunca ultrapassar os seus limites e sem te, é através da matemática que a natureza se exprime:
se preocupar em saber se as suas razões ocultas e modos A filosofia está escrita neste grande livro que está sem-
de operar estão dentro das capacidades de compreensão pre aberto diante de nós: refiro-me ao universo; mas não
humana. Daqui resulta que os efeitos naturais e a experiên- pode ser lido antes de termos aprendido a sua linguagem e
cia sensível que se oferece aos nossos olhos, bem como as de nos termos familiarizado com os caracteres em que está
demonstrações necessárias que daí retiramos não devem, escrito. Está escrito em linguagem matemática e as letras
de maneira nenhuma, ser postas em dúvida, nem condena- são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as
das em nome de passagens da Escritura, mesmo quando o quais é humanamente impossível entender uma só palavra.
sentido literal parece contradizê-las.
Galileu, Il Saggiatore
Galileu, Carta a Cristina de Lorena A descrição matemática da realidade, característica da
Foi também Galileu quem, na linha de Bacon, utilizou ciência moderna, trouxe consigo uma ideia importante: co-
pela primeira vez o método experimental, o que lhe permi- nhecer é medir ou quantificar. Nesse caso, os aspectos qua-
tiu chegar a resultados completamente diferentes daqueles litativos não poderiam ser conhecidos. Também as causas
que se podiam encontrar na ciência tradicional. Um exem- primeiras e os fins últimos aristotélicos, pelos quais todas
plo do pioneirismo de Galileu na utilização do método as coisas se explicavam, deixaram de pertencer ao domínio
experimental é o da utilização do famoso plano inclinado, da ciência. Com Galileu a ciência aprende a avançar em pe-
por si construído para observar em condições ideais (ul- quenos passos, explicando coisas simples e avançando do
trapassando os obstáculos da observação direta) o movi- mais simples para o mais complexo. Em lugar de procurar
mento da queda dos corpos. Pôde, desse modo, repetir as explicações muito abrangentes, procurava explicar fenó-
experiências tantas vezes quantas as necessárias e registar menos simples. Em vez de tentar explicar de forma muito
meticulosamente os resultados alcançados. Tais resultados geral o movimento dos corpos, procurava estudar-lhe as
devem-se, ainda, a uma novidade que Galileu acrescentou suas propriedades mais modestas. E foi assim, com peque-
em relação ao método indutivo de Bacon: o raciocínio ma- nos passos, que a ciência alcançou o tipo de explicações
temático. A ciência não poderia mais construir-se e desen- extremamente abrangentes que temos hoje. Inicialmente,
volver-se tendo por base a interpretação dos textos sagra- parecia que a ciência estava mais interessada em explicar
dos; mas também não o poderia fazer por simples dedução o “como” das coisas do que o seu “porquê”; por exemplo,
lógica a partir de dogmas teológicos: parecia que os resultados de Galileu quanto ao movimento
Ao cientista só se deve exigir que prove o que afirma. dos corpos se limitava a explicar o modo como os corpos
(...) Nas disputas dos problemas das ciências naturais, não se caem e não a razão pela qual caem; mas, com a continua-
deve começar pela autoridade dos textos bíblicos, mas sim ção da investigação, este tipo de explicações parcelares
pelas experiências sensatas e pelas demonstrações indispen- acabaram por se revelar fundamentais para se alcançar ex-
sáveis. plicações abrangentes e gerais do porquê das coisas — só
que agora estas explicações gerais estão solidamente an-
Galileu, Audiência com o Papa Urbano VIII coradas na observação e na medição paciente, assim como
Tratava-se de uma ciência cujas verdades deveriam ter na descrição pormenorizada de fenómenos mais simples.
um conteúdo empírico e que podiam ser não só expressas,
mas também demonstradas numa linguagem já não quali- O mecanicismo: Descartes e Newton
tativa mas quantitativa: a linguagem matemática. Foi o que A ciência galilaica lançou as bases para uma nova con-
aconteceu quando Galileu, graças ao referido plano inclina- cepção da natureza que iria ser largamente aceite e desen-
do, pôs em prática o novo método e começou a investigar volvida: o mecanicismo.
o movimento natural dos corpos. O resultado foi formular O mecanicismo, contrariamente ao organicismo ante-
uma lei universal expressa matematicamente, o que torna- riormente reinante que concebia o mundo como um orga-
va também possível fazer previsões. Diz ele: nismo vivo orientado para um fim, via a natureza como um
Não há, talvez, na natureza nada mais velho que o mo- mecanismo cujo funcionamento se regia por leis precisas e
vimento, e não faltam volumosos livros sobre tal assunto, rigorosas. à maneira de uma máquina, o mundo era com-

42
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
posto de peças ligadas entre si que funcionavam de for- uma só se tratasse, de modo a constituir um saber univer-
ma regular e poderiam ser reduzidas às leis da mecânica. sal. Não via mesmo qualquer motivo para que se estudasse
Uma vez conhecido o funcionamento das suas peças, tal cada uma das ciências em separado, visto que a razão em
conhecimento é absolutamente perfeito, embora limitado. que se apoia o estudo de uma ciência é a mesma que está
Um ser persistente e inteligente pode conhecer o funcio- presente no estudo de qualquer outra:
namento de uma máquina tão bem como o seu próprio Todas as ciências não são mais do que sabedoria huma-
construtor e sem ter que o consultar a esse respeito. na, que permanece sempre una e sempre a mesma, por mais
Um dos grandes defensores do mecanicismo foi o filó- diferentes que sejam os objetos aos quais ela se aplica, e que
sofo francês Descartes (1596-1656), que chegou mesmo a não sofre nenhumas alterações por parte desses objetos, da
escrever o seguinte: mesma forma que a luz do Sol não sofre nenhumas modifi-
Eu não sei de nenhuma diferença entre as máquinas que cações por parte das variadíssimas coisas que ilumina.
os artesãos fazem e os diversos corpos que a natureza por si
só compõe, a não ser esta: que os efeitos das máquinas não Descartes, Regras para a Direção do Espírito
dependem de mais nada a não ser da disposição de certos Para atingir tal objetivo seria necessário satisfazer três
tubos, que devendo ter alguma relação com as mãos da- condições: dar a todas as ciências o mesmo método; partir
queles que os fazem, são sempre tão grandes que as suas do mesmo princípio; assentar no mesmo fundamento. Só
figuras e movimentos se podem ver, ao passo que os tubos assim se poderiam unificar as ciências.
ou molas que causam os efeitos dos corpos naturais são or- Quanto ao método, Descartes achava também que só
dinariamente demasiado pequenos para poderem ser per- o rigor matemático poderia fazer as ciências dar frutos. Daí
cepcionados pelos nossos sentidos. Por exemplo, quando um que tivesse dado o nome de mathesis universalis ao seu
relógio marca as horas por meio das rodas de que está feito, projeto de unificação das ciências. A matemática deveria,
isso não lhe é menos natural do que uma árvore a produzir portanto, servir todas as ciências:
os seus frutos. Deve haver uma ciência geral que explica tudo o que
se pode investigar respeitante à ordem e à medida, sem as
Descartes, Princípios da Filosofia aplicar a uma matéria especial: esta ciência designa-se (...)
O mecanicismo é o antecessor do fisicismo, uma dou- pelo vocábulo já antigo e aceite pelo uso de mathesis uni-
trina que hoje em dia está no centro de grande parte da versalis, porque encerra tudo o que fez dar a outras ciências
investigação dos filósofos contemporâneos. Tanto o me-
a denominação de partes das matemáticas.
canicismo como o fisicismo são diferentes formas de re-
ducionismo.
Descartes, Regras para a Direção do Espírito
O que é o reducionismo? O reducionismo é a ideia,
Relativamente à segunda condição, o princípio de que
central no desenvolvimento da ciência e da filosofia, de
todo o conhecimento deveria partir, só poderia ser o pen-
que podemos reduzir alguns fenómenos de um certo tipo
samento ou razão. Descartes queria tomar como princípio
a fenómenos de outro tipo. Do ponto de vista psicológico
e até filosófico, o reducionismo pode ser encarado como do conhecimento alguma verdade que fosse de tal forma
uma vontade de diminuir drasticamente o domínio de fe- segura, que dela não pudéssemos sequer duvidar. E a úni-
nómenos primitivos existentes na natureza. Por exemplo, ca certeza inabalável que, segundo ele, resistia a qualquer
hoje em dia sabemos que todos os fenómenos químicos dúvida só podia ser a evidência do próprio ato de pensar.
são no fundo agregados de fenómenos físicos; isto é, os fe- Finalmente, em relação ao fundamento do conheci-
nómenos químicos são fenómenos que derivam dos físicos mento, este deveria ser encontrado, segundo Descartes,
— daí dizer-se que os fenómenos físicos são primitivos e em Deus. Deus era a única garantia da veracidade dos da-
que os químicos são derivados. Mas o reducionismo é mais dos — racionais e não sensíveis — e, consequentemente,
do que uma vontade de diminuir o domínio de fenómenos da verdade do conhecimento. Sem Deus não poderíamos
primitivos: é um aspecto da tentativa de compreender a ter a certeza de nada. Ele foi o responsável pelas ideias
natureza última da realidade; é um aspecto importante da inatas que há em nós, tornando-se por isso o fundamento
tentativa de saber o que explica os fenómenos. Assim, se metafísico do conhecimento.
os fenómenos químicos são no fundo fenómenos físicos, e Temos, assim, as diversas ciências da época concebidas
se tivermos uma boa explicação e uma boa compreensão como os diferentes ramos de uma mesma árvore, ligados
do que são os fenómenos físicos, então teremos também a um tronco comum e alimentados pelas mesmas raízes.
uma boa explicação e uma boa compreensão dos fenóme- As raízes de que se alimenta a ciência são, como vimos, as
nos químicos, desde que saibamos reduzir a química à físi- ideias inatas colocadas em nós por Deus. Estamos, neste
ca. O mecanicismo foi refutado no século XIX por Maxwell caso, no domínio da metafísica:
(1831-79), que mostrou que a radiação electromagnética Assim toda a filosofia é como uma árvore, cujas raízes
e os campos electromagnéticos não tinham uma natureza são a metafísica, o tronco é a física, e os ramos que saem
mecânica. O mecanicismo é a ideia segundo a qual tudo deste tronco são todas as outras ciências, que se reduzem a
o que acontece se pode explicar em termos de contatos três principais, a saber, a medicina, a mecânica e a moral.
físicos que produzem “empurrões” e “puxões”.
Dado que o mecanicismo é uma forma de reducionis- Descartes, Princípios da Filosofia
mo, não é de admirar que o principal objetivo de Descartes Vale a pena salientar duas importantes diferenças em
tenha sido o de unificar as diferentes ciências como se de relação a Galileu.

43
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
A primeira é a do papel que Descartes atribuiu à ex- namento da grande máquina do universo não havia, pois,
periência. Se o método experimental de Galileu parte da lugar para qualquer outra força exterior ou divina. E, como
observação sensível, o mesmo já não acontece com Des- qualquer máquina, o movimento é o seu estado natural. Por
cartes, cujo ponto de partida é o pensamento, acarretando isso o mecanicismo apresentava uma concepção dinâmica
com isso uma diferença de método. Não é que, para Des- do universo e não estática como pensavam os antigos.
cartes, a experiência não tenha qualquer papel, mas este
é apenas complementar em relação à razão. Reforça-se, Os fundamentos da ciência: Hume e Kant
todavia, a importância da matemática. Entretanto, os resultados proporcionados pela física
A segunda diferença diz respeito ao lugar da metafísi- newtoniana iam fazendo desaparecer as dúvidas que ainda
ca. Enquanto Galileu se demarcou claramente de qualquer poderiam subsistir em relação ao ponto de vista mecanicis-
pressuposto metafísico, Descartes achava que a metafísica ta e determinista da natureza. Os progressos foram imen-
era o fundamento de todo o conhecimento verdadeiro. Mas sos, o que parecia confirmar a justeza de tal ponto de vista.
se Descartes via em Deus o fundamento do conhecimento, A velha questão acerca do que deveria ser a ciência
não achava necessário, todavia, fazer intervir a metafísica estava, portanto, ultrapassada. Interessava, sim, explicar a
na investigação e descrição dos fenómenos naturais. íntima articulação entre matemática e ciência, bem como
Entretanto, a ciência moderna ia dando os seus frutos os fundamentos do método experimental. Mas tais proble-
e a nova concepção do mundo, o mecanicismo, ganhando mas imediatamente iriam dar origem a outro mais profun-
cada vez mais adeptos. Novas ciências surgiram, como é do: se o que caracteriza o conhecimento científico é o facto
o caso da biologia, cuja paternidade se atribuiu a Harvey de produzir verdades universais e necessárias, então em que
(1578-1657), com a descoberta da circulação do sangue. se baseiam a universalidade e necessidade de tais conheci-
E assim se chegou àquele que é uma das maiores figuras mentos?
da história da ciência, que nasceu precisamente no ano em Este problema compreende-se melhor se pensarmos
que Galileu morreu: o inglês Isaac Newton (1642-1727). que a inferência válida que se usa na matemática e na ló-
Ao publicar o seu livro Princípios Matemáticos de Fi- gica tem uma característica fundamental que a diferencia
losofia da Natureza, Newton foi responsável pela grande da inferência que se usa na ciência e a que geralmente se
síntese mecanicista. Este livro tornou-se numa espécie de chama “indução”, apesar de este nome referir muitos tipos
Bíblia da ciência moderna. Aí completou o que restava por diferentes de inferências. Na inferência válida da matemá-
fazer aos seus antecessores e unificou as anteriores des- tica e da lógica, é logicamente impossível que a conclusão
cobertas sob uma única teoria que servia de explicação a seja falsa e as premissas sejam verdadeiras. Mas o mesmo
todos os fenómenos físicos, quer ocorressem na Terra ou não acontece na inferência indutiva: neste caso, podemos
nos céus. Teoria que tem como princípio fundamental a ter uma boa inferência com premissas verdadeiras, mas a
lei da gravitação universal, na qual se afirmava que “cada sua conclusão pode ser falsa. Isto levanta um problema de
corpo, cada partícula de matéria do universo, exerce sobre justificação: como podemos justificar que as conclusões
qualquer outro corpo ou partícula uma força atrativa pro- das inferências são realmente verdadeiras? Na inferência
porcional às respectivas massas e ao inverso do quadrado válida, é logicamente impossível que as premissas sejam
da distância entre ambos”. verdadeiras e a conclusão falsa; mas como podemos justi-
Partindo deste princípio de aplicação geral, todos os ficar que, na boa inferência indutiva seja impossível que as
fenómenos naturais poderiam, recorrendo ao cálculo ma- conclusões sejam falsas se as premissas forem verdadeiras?
temático — o cálculo infinitesimal, também inventado por é que essa impossibilidade não é fácil de compreender,
Newton —, ser derivados. Vejamos o que, a esse propósito, dado que não é uma impossibilidade lógica. E apesar de
escreveu: as ciências da natureza usarem também muitas inferências
Proponho este trabalho como princípios matemáticos da válidas, não podem avançar sem inferências indutivas.
filosofia, já que o principal problema da filosofia parece ser O filósofo empirista escocês David Hume (1711-1776)
este: investigar as forças da natureza a partir dos fenómenos no seu Ensaio sobre o Entendimento Humano defendia que
do movimento, e depois, a partir dessas forças, demonstrar tudo o que sabemos procede da experiência, mas que esta
os outros fenómenos; (...) Gostaria que pudéssemos derivar o só nos mostra como as coisas acontecem e não que é im-
resto dos fenómenos da natureza pela mesma espécie de ra- possível que acontecem de outra maneira. É um facto que
ciocínio a partir de princípios mecânicos, pois sou levado por hoje o Sol nasceu, o que também sucedeu ontem, anteon-
muitas razões a suspeitar que todos eles podem depender de tem e nos outros dias anteriores. Mas isso é tudo o que os
certas forças pelas quais as partículas dos corpos, por causas sentidos nos autorizam a afirmar e não podemos concluir
até aqui desconhecidas, são ou mutuamente impelidas umas daí que é impossível o Sol não nascer amanhã. Ao fazê-lo
para as outras, e convergem em figuras regulares, ou são estaríamos a ir além do que nos é dado pelos sentidos. Os
repelidas, e afastam-se umas das outras. sentidos também não nos permitem formular juízos univer-
sais, mas apenas particulares. Ainda que um aluno só tenha
Newton, Princípios Matemáticos de Filosofia da Natu- tido até agora professores de filosofia excêntricos, ele não
reza pode, mesmo assim, afirmar que todos os professores de
O universo era, portanto, um conjunto de corpos li- filosofia são excêntricos. Nem a mais completa coleção de
gados entre si e regidos por leis rígidas. Massa, posição casos idênticos observados nos permite tirar alguma con-
e extensão, eis os únicos atributos da matéria. No funcio- clusão que possa tomar-se como universal e necessária. O

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
facto de termos visto muitas folhas cair em nada nos auto- não que não possa sê-lo diferentemente. Em primeiro lu-
riza a concluir que todas as folhas caem necessariamente, gar, se encontrarmos uma proposição que apenas se possa
assim como o termos visto o Sol nascer muitas vezes não pensar como necessária, estamos em presença de um juízo
nos garante que ele nasça no dia seguinte, pois isso não a priori (...). Em segundo lugar, a experiência não concede
constitui um facto empírico. Mas não é precisamente isso nunca aos seus juízos uma universalidade verdadeira e ri-
que fazemos quando raciocinamos por indução? E as leis gorosa, apenas universalidade suposta e comparativa (por
científicas não se apoiam nesse tipo de raciocínio ou infe- indução), de tal modo que, em verdade, antes se deveria di-
rência? Logo, se algo de errado se passa com a indução, zer: tanto quanto até agora nos foi dado verificar, não se
algo de errado se passa com a ciência. encontram exceções a esta ou àquela regra. Portanto, se um
Mas se as coisas na natureza sempre aconteceram de juízo é pensado com rigorosa universalidade, quer dizer, de
uma determinada maneira (se o Sol tem nascido todos os tal modo que nenhuma exceção se admite como possível,
dias), não será de esperar que aconteçam do mesmo modo não é derivado da experiência, mas é absolutamente válido
no futuro (que o Sol nasça amanhã)? Para Hume só é pos- a priori. (...)
sível defender tal coisa se introduzirmos uma premissa adi- (...) Pois onde iria a própria experiência buscar a certeza
cional, isto é, se admitirmos que a natureza se comporta se todas as regras, segundo as quais progride, fossem conti-
de maneira uniforme. A crença de que a natureza funciona nuamente empíricas e, portanto, contingentes?
sempre da mesma maneira é conhecida como o “princípio
da uniformidade da natureza”. Mas, interroga-se Hume, em Kant, Crítica da Razão Pura
que se fundamenta por sua vez o princípio da uniformidade Verificando que os conhecimentos científicos se refe-
da natureza? A resposta é que tal princípio se apoia na ob- riam a factos observáveis, mas que se apresentavam de
servação repetida dos mesmos fenómenos, o que nos leva uma forma universal e necessária, Kant caracterizou as ver-
a acreditar que a natureza se irá comportar amanhã como dades científicas como juízos sintéticos a priori. Sintéticos
se comportou hoje, ontem e em todos os dias anteriores. porque não dependiam unicamente da análise de concei-
Mas assim estamos a cair num raciocínio circular que é o tos; a priori porque se fundamentavam, não na experiên-
seguinte: a indução só pode funcionar se tivermos antes cia empírica, mas nas formas a priori do entendimento, as
quais lhes conferiam necessidade e universalidade.
estabelecido o princípio da uniformidade da natureza; mas
Restava, para este filósofo, uma questão: saber se a
estabelecemos o princípio da uniformidade da natureza por
metafísica poderia ser considerada uma ciência. Mas a res-
meio do raciocínio indutivo.
posta foi negativa porque, em metafísica, não era possível
Por que razão insistimos, então, em fazer induções? A
formular juízos sintéticos a priori. As questões metafísicas
razão — ou melhor, o motivo — é inesperadamente sim-
— a existência de Deus e a imortalidade da alma — caíam
ples: porque somos impelidos pelo hábito de observarmos
fora do âmbito da ciência, ao contrário da ciência medieval
muitas vezes a mesma coisa acontecer. Ora, isso não é do em que o estatuto de cada ciência dependia, sobretudo, da
domínio lógico, mas antes do psicológico. dignidade do seu objeto, sendo a teologia e a metafísica as
O que Hume fez foi uma crítica da lógica da indução. mais importantes das ciências.
Esta apoia-se mais na crença do que na lógica do racio- A “solução” de Kant dificilmente é satisfatória. Ao explicar
cínio. O mesmo tipo de crítica levou também Hume a o carácter necessário e universal das leis científicas, Kant tor-
questionar a relação de causa-efeito entre diferentes fenó- nou-as intersubjetivas: algo que resulta da nossa capacidade
menos. Como tal, para Hume, o conhecimento científico, de conhecer e não do mundo em si. Quando um cientista
enquanto conhecimento que produz verdades universais afirma que nenhum objeto pode viajar mais depressa do que
e necessárias, não é logicamente possível, assumindo, por a luz, está para Kant a formular uma proposição necessária e
isso, uma posição céptica. universal, mas que se refere não à natureza íntima do mundo,
Seria o cepticismo de Hume que iria levar Kant (1724- mas antes ao modo como nós, seres humanos, conhecemos
1804) a tentar encontrar uma resposta para tal problema. o mundo. Estavam abertas as portas ao idealismo alemão,
Depois de uma crítica completa, na sua obra Crítica da que teria efeitos terríveis na história da filosofia. Nos anos 70
Razão Pura, à forma como, em nós, se constituía o conheci- do século XX, o filósofo americano Saul Kripke (1940- ) iria
mento, Kant concluiu que aquilo que conferia necessidade apresentar uma solução parcial ao problema levantado por
e universalidade ao conhecimento residia no próprio sujei- Hume que é muito mais satisfatória do que a de Kant. Krip-
to que conhece. Para Kant, o entendimento humano não se ke mostrou, efetivamente, como podemos inferir conclusões
limitava a receber o que os sentidos captavam do exterior; necessárias a partir de premissas empíricas, de modo que a
ele era ativo e continha em si as formas a priori — que não necessidade das leis científicas não deriva do seu carácter
dependem da experiência — às quais todos os dados em- sintético a priori, como Kant dizia, mas antes do seu carácter
píricos se teriam que submeter. necessário a posteriori.
Era, pois, nessas formas a priori do entendimento que
se devia encontrar a necessidade e universalidade do co- 4. O positivismo do século XIX
nhecimento:
Necessitamos agora de um critério pelo qual possamos Comte
distinguir seguramente um conhecimento puro de um co- No século XIX, o ritmo do desenvolvimento científico
nhecimento empírico. É verdade que a experiência nos en- e tecnológico cresceu imenso. Em consequência disso, a
sina que algo é constituído desta ou daquela maneira, mas vida das pessoas sofreu alterações substanciais. Era a ciên-

45
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
cia que dava origem a novas invenções, as quais impul- Comte, Curso de Filosofia Positiva
sionavam uma série de transformações na sociedade. Com Comte prossegue, caracterizando cada um dos esta-
efeito, estabeleceu-se uma relação entre os seres humanos dos, de modo a concluir que os primeiros dois estados fo-
e a ciência, de tal maneira que esta passou a fazer parte das ram necessários apenas como degraus para chegar ao seu
suas próprias vidas. estado perfeito, o estado positivo:
Apareceram muitas outras ciências ao longo do século No estado teológico, o espírito humano, dirigindo es-
XIX, onde se contavam, por exemplo, a psicologia. O cli- sencialmente as suas pesquisas para a natureza íntima dos
ma era de confiança em relação à ciência, na medida em seres, as causas primeiras e finais de todos os fenómenos que
que ela explicava e solucionava cada vez mais problemas. o atingem, numa palavra, para os conhecimentos absolutos,
A física era o exemplo de uma ciência que apresentava concebe os fenómenos como produzidos pela ação direta e
imensos resultados e que nos ajudava a compreender o contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numero-
mundo como nunca antes tinha sido possível. A religião sos, cuja arbitrária intervenção explicaria todas as aparentes
ia, assim, perdendo terreno no domínio do conhecimento anomalias do universo.
e até a própria filosofia era frequentemente acusada de se No estado metafísico, que no fundo não é mais que uma
perder em estéreis discussões metafísicas. A ciência não ti- modificação geral do primeiro, os agentes sobrenaturais são
nha, pois, rival. substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abs-
É neste contexto que surge uma nova filosofia, apre- trações personificadas) inerentes aos diversos seres do mun-
sentada no livro Curso de Filosofia Positiva, com o francês do, e concebidas como capazes de engendrar por si mesmas
Auguste Comte (1798-1857): o positivismo. todos os fenómenos observados, cuja explicação consiste
O positivismo considera a ciência como o estado de então em referir para cada um a entidade correspondente.
desenvolvimento do conhecimento humano que superou, Por último, no estado positivo, o espírito humano, re-
quer o estado das primitivas concepções mítico-religiosas, conhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas,
as quais apelavam à intervenção de seres sobrenaturais, renuncia a procurar a origem e o destino do universo e a
quer o da substituição desses seres por forças abstratas. conhecer as causas íntimas dos fenómenos, para se dedicar
Comte pensa mesmo ter descoberto uma lei fundamen- apenas à descoberta, pelo uso bem combinado do raciocí-
tal acerca do desenvolvimento do conhecimento, seja em nio e da observação, das suas leis efetivas, isto é, das suas
que domínio for. Essa lei é a de que as nossas principais relações invariáveis de sucessão e similitude. A explicação
concepções passam sempre por três estados sucessivos: “o dos factos, reduzida então aos seus termos reais, não é mais,
estado teológico ou fictício, o estado metafísico ou abstrato e a partir daqui, do que a ligação que se estabelece entre os
o estado científico ou positivo”. A cada estado corresponde diversos fenómenos particulares e alguns factos gerais cujo
um método de filosofar próprio. Trata-se, respectivamente, número tende, com os progressos da ciência, a diminuir cada
do método teológico, do método metafísico e do método vez mais. (...)
positivo. Assim, a ciência corresponde ao estado positivo Assim se vê, por este conjunto de considerações, que, se
do conhecimento, que é, para Comte, o seu estado defi- a filosofia positiva é o verdadeiro estado definitivo da inteli-
nitivo: gência humana, aquele para o qual ela sempre, e cada vez
Estudando assim o desenvolvimento total da inteligên- mais, tendeu, nem por isso ela deixou de utilizar necessa-
cia humana nas suas diversas esferas de atividade, desde o riamente, no começo e durante muitos séculos, a filosofia
seu primeiro e mais simples desenvolvimento até aos nossos teológica, quer como método, quer como doutrina provisó-
dias, penso ter descoberto uma grande lei fundamental, à rios; filosofia cujo carácter é ela ser espontânea e, por isso
qual ele se encontra submetido por uma necessidade inva- mesmo, a única que era possível no princípio, assim como
riável, e que me parece poder estabelecer-se solidamente, a única que podia satisfazer os interesses do nosso espíri-
quer pelas provas racionais que o conhecimento da nossa or- to nos seus primeiros tempos. É agora muito fácil ver que,
ganização nos fornece, quer pelas verificações históricas que para passar desta filosofia provisória à filosofia definitiva, o
resultam de um atento exame do passado. Esta lei consiste espírito humano teve, naturalmente, que adoptar, como filo-
em que cada uma das nossas principais concepções, cada sofia transitória, os métodos e as doutrinas metafísicas. Esta
ramo dos nossos conhecimentos, passa sucessivamente por última consideração é indispensável para completar a visão
três estados teóricos diferentes: o estado teológico ou fictício, geral da grande lei que indiquei.
o estado metafísico ou abstrato, o estado científico ou positi- Com efeito, concebe-se facilmente que o nosso entendi-
vo. Noutros termos, o espírito humano, dada a sua natureza, mento, obrigado a percorrer degraus quase insensíveis, não
emprega sucessivamente, em cada uma das suas pesquisas, podia passar bruscamente, e sem intermediários, da filoso-
três métodos de filosofar, de características essencialmente fia teológica para a filosofia positiva. A teologia e a física
diferentes e mesmo radicalmente opostos: primeiro o méto- são profundamente incompatíveis, as suas concepções têm
do teológico, depois o método metafísico e, por fim, o mé- características tão radicalmente opostas que, antes de re-
todo positivo. Donde decorre a existência de três tipos de nunciar a umas para utilizar exclusivamente as outras, a
filosofia ou de sistemas gerais de concepções sobre o conjun- inteligência humana teve de se servir de concepções inter-
to dos fenómenos que mutuamente se excluem: a primeira médias, de características mistas, e por isso mesmo próprias
é o ponto de partida necessário da inteligência humana; a para realizar, gradualmente, a transição. É este o destino
terceira o seu estado fixo e definitivo; a segunda destina-se natural das concepções metafísicas que não têm outra uti-
unicamente a servir de transição. lidade real”.

46
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Comte, Curso de Filosofia Positiva to. A isto se chama determinismo. O determinismo é, en-
O pensamento de Comte, mais do que uma filosofia tão, uma consequência do mecanicismo moderno e teve
original, era uma filosofia que captou um certo espírito do inúmeros defensores, entre os quais se tornou famoso
século XIX e lhe deu uma espécie de justificação. Este tipo Laplace (1749-1827). Escreve ele:
de espírito positivista viria a conhecer uma reação extrema, Devemos considerar o estado presente do universo
anti-positivista: o romantismo e o irracionalismo, que aca- como um efeito do seu estado anterior e como causa da-
bariam por dar o perfil definitivo à filosofia do continente quele que se há-de seguir. Uma inteligência que pudesse
europeu do século XX. Ao passo que o positivismo exaltava compreender todas as forças que animam a natureza e a
a ciência, o romantismo e o irracionalismo deploravam a situação respectiva dos seres que a compõem — uma in-
ciência. Ambas as ideias parecem falsas e exageradas. As teligência suficientemente vasta para submeter todos esses
ideias de Comte são vagas e os argumentos que ele usa dados a uma análise — englobaria na mesma fórmula os
para as sustentar são pouco mais do que sugestões. A movimentos dos maiores corpos do universo e os do mais
própria ideia de ciência que Comte apresenta está errada; pequeno átomo; para ela, nada seria incerto e o futuro, tal
não é verdade que a ciência tenha renunciado a explicar como o passado, seriam presente aos seus olhos.
as causas mais profundas dos fenómenos, nem é verdade
que na história do pensamento tenhamos assistido a uma LAPLACE, Ensaio Filosófico sobre as Probabilidades
passagem de uma fase mais abstrata para uma fase mais Com efeito, a natureza ainda apresenta muitos mis-
concreta ou positiva. Pelo contrário, a ciência apresenta térios, mas apenas porque não temos a capacidade de
um grau de abstração cada vez maior, e a própria filosofia, conhecer integralmente as circunstâncias que a cada mo-
com as suas teorias e argumentos extremamente abstratos, mento se conjugam para o desencadear de todos os fe-
conheceu no século XX um desenvolvimento como nunca nómenos observados. É, contudo, possível prever muitos
antes tinha acontecido. deles.
O positivismo defende que só a ciência pode satisfa- Esta é uma perspectiva que, no fundo, acaba por de-
zer a nossa necessidade de conhecimento, visto que só ela senvolver e sistematizar em termos teóricos a concepção
parte dos factos e aos factos se submete para confirmar as
mecanicista própria da ciência moderna. Concepção essa
suas verdades, tornando possível a obtenção de “noções
que, por sua vez, assenta numa determinada filosofia acer-
absolutas”.
ca da natureza do conhecimento: o realismo crítico. Realis-
Do que dissemos decorre que o traço fundamental da
mo porque defende a existência de uma realidade objetiva
filosofia positiva é considerar todos os fenómenos como
exterior ao sujeito, e crítico porque nem tudo o que é per-
sujeitos a leis naturais invariáveis, sendo o fim de todos os
cepcionado nos fenómenos naturais tem valor objetivo. É
nossos esforços a sua descoberta precisa e a sua redução ao
por isso que o cientista precisa de um método de inves-
menor número possível, e considerando como absolutamen-
tigação que lhe permita eliminar todos os aspectos sub-
te inacessível e vazio de sentido a procura daquilo a que se
chama as causas, sejam primeiras ou finais. É inútil insistir jetivos acerca dos fenómenos estudados e encontrar, por
muito num princípio que se tornou tão familiar a todos os entre as aparências, as propriedades verdadeiramente ob-
que estudaram, com alguma profundidade, as ciências de jetivas. Tal método continua a ser o método experimental.
observação. Com efeito, todos nós sabemos que, nas nossas Os grandes princípios nos quais se apoiava a ciência
explicações positivas, mesmo nas mais perfeitas, não temos pareciam, então, definitivamente assentes. As discussões
a pretensão de expor as causas geradoras dos fenómenos, sobre o estatuto ou os fundamentos do conhecimento
dado que nesse caso não faríamos senão adiar a dificuldade, científico consideravam-se arrumadas e a linguagem uti-
mas apenas de analisar com exatidão as circunstâncias da lizada, a matemática, estava também ela assente em prin-
sua produção e de as ligar umas às outras por normais rela- cípios sólidos. Restava prosseguir com cada vez mais des-
ções de sucessão e similitude. (...) cobertas, de modo a acrescentar ao que já se sabia novos
conhecimentos.
Comte, Curso de Filosofia Positiva Que a ciência desse respostas definitivas às nossas
O pressuposto fundamental é, pois, o de que há uma perguntas, de modo a ampliar cada vez mais o conheci-
regularidade no funcionamento da natureza, cabendo ao mento humano, e que tal conhecimento pudesse ser apli-
homem descobrir com exatidão as “leis naturais invariá- cado na satisfação de necessidades concretas do homem,
veis” a que todos os fenómenos estão submetidos. Essas era o que cada vez mais pessoas esperavam. Assim, a ciên-
leis devem traduzir com todo o rigor as condições em que cia foi conquistando cada vez mais adeptos, tornando-se
determinados factos são produzidos. Para isso tem de se objeto de uma confiança ilimitada. Isto é, surge um ver-
partir da observação dos próprios factos e das relações que dadeiro culto da ciência, o cientismo. O cientismo é, pois,
entre eles se estabelecem de modo a chegar a resultados a ciência transformada em ideologia. Ele assenta, afinal,
universais e objetivos. Qualquer facto observado é o re- numa atitude dogmática perante a ciência, esperando que
sultado necessário de causas bem precisas que é impor- esta consiga responder a todas as perguntas e resolver to-
tante investigar. Até porque as mesmas causas produzem dos os nossos problemas. Em grande medida, o cientismo
sempre os mesmos efeitos, não havendo na natureza lugar resulta de uma compreensão errada da própria ciência. A
para a fantasia e o improviso, tal como, de resto, acontece ciência não é a caricatura que Comte apresentou e que o
com uma máquina que se comporta sempre como previs- cientismo de alguma forma adoptou.

47
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
O sucessor moderno do mecanicismo, como vimos, é o Comte, Curso de Filosofia Positiva
fisicismo. A ideia geral é a de que podemos reduzir todos Mas não é com classificações vagas que se conseguem
os fenómenos a fenómenos físicos. Hoje em dia, uma par- realmente reduzir as ciências à física — esta é a forma erra-
te substancial da investigação em filosofia e em algumas da de colocar o problema. Trata-se, antes, de mostrar que
ciências, procura reduzir fenómenos que à primeira vista os fenómenos estudados pela química ou pela sociologia
não parecem susceptíveis de serem reduzidos: é o caso, ou pela psicologia são, no fundo, fenómenos físicos. Mas
por exemplo, dos fenómenos mentais (de que se ocupa a isto é um projeto que, apesar de alimentar hoje em dia
filosofia da mente e as ciências cognitivas) e dos fenóme- grande parte da investigação científica e filosófica, está
nos semânticos (de que se ocupa a filosofia da linguagem longe de ter alcançado bons resultados. E alguns filósofos
e a linguística). Esta ideia não é nova; já Comte tinha apre- contemporâneos duvidam que tal reducionismo seja pos-
sentado uma classificação das ciências em que, de manei- sível.
ras diferentes, todas as ciências acabavam por se reduzir à A distinção entre ciências da natureza e ciências sociais
física. Até à mais recente das ciências, a sociologia, Comte ou humanas tornou-se, progressivamente, mais importan-
dava o nome de física social. Havia, assim, a física celeste, te. Apesar dos devaneios de Comte, não era fácil ver como
a física terrestre, a física orgânica e a física social nas quais se poderiam reduzir os fenómenos sociais, por exemplo, a
se incluíam as cinco grandes categorias de fenómenos, os fenómenos físicos. A reação contrária a Comte resultou em
fenómenos astronómicos, físicos, químicos, fisiológicos e doutrinas que traçam uma distinção entre os dois tipos de
sociais. ciências, alegando que os fenómenos sociais não podem
Assim, é preciso começar por considerar que os di- ser reduzidos a fenómenos físicos. Dilthey (1833-1911)
ferentes ramos dos nossos conhecimentos não puderam dividia as ciências em ciências do homem, ou do espírito,
percorrer com igual velocidade as três grandes fases do entre as quais se encontravam a história, a psicologia, etc.,
seu desenvolvimento atrás referidas nem, portanto, chegar e as ciências da natureza, como a física, a química, a bio-
simultaneamente ao estado positivo. (...) logia, etc. Aquelas tinham como finalidade compreender os
É impossível determinar com rigor a origem desta re- fenómenos que lhes diziam respeito, enquanto que estas
volução (...). Contudo, dado que é conveniente fixar uma procuravam explicar os seus. Esta forma de encarar a dife-
época para impedir a divagação de ideias, indicarei a do rença entre as ciências humanas e as ciências da natureza
grande movimento imprimido há dois séculos ao espíri- é de algum modo simplista. Mas os grandes filósofos das
to humano pela ação combinada dos preceitos de Bacon, ciências sociais atuais, como Alan Ryan e outros, procuram
das concepções de Descartes e das descobertas de Galileu, ainda encontrar modelos de explicação satisfatórios para
como o momento em que o espírito da filosofia positiva as ciências humanas. Apesar de admitirem que o tipo de
começou a pronunciar-se no mundo, em clara oposição explicação das ciências da natureza é diferente do tipo de
aos espíritos teológico e metafísico. (...) explicação das ciências humanas, o verdadeiro problema é
Eis então a grande mas evidentemente única lacuna saber que tipo de explicação é a explicação fornecido pelas
que é preciso colmatar para se concluir a constituição da ciências humanas.
filosofia positiva. Agora que o espírito humano fundou a As ciências da natureza e as ciências formais do século
física celeste, a física terrestre — quer mecânica quer quí- XIX e XX conheceram desenvolvimentos sem precedentes.
mica —, a física orgânica — quer vegetal quer animal —, Mas porque o espírito científico é um espírito crítico e não
falta-lhe terminar o sistema das ciências de observação dogmático, apesar do enorme desenvolvimento alcança-
fundando a física social. (...) do pela ciência no século XIX, os cientistas continuavam
Uma vez preenchida esta condição, encontrar-se-á fi- a procurar responder a mais e mais perguntas, perguntas
nalmente fundado, no seu conjunto, o sistema filosófico cada vez mais gerais, fundamentais e exatas. E a resposta
dos modernos, pois todos os fenómenos observáveis in- a essas perguntas conduziu a desenvolvimentos científicos
tegrarão uma das cinco grandes categorias desde então que mostraram os limites de algumas leis e princípios antes
estabelecidas: fenómenos astronómicos, físicos, químicos, tomados como verdadeiros. A geometria, durante séculos
fisiológicos e sociais. Tornando-se homogéneas todas as considerada uma ciência acabada e perfeita, foi revista.
nossas concepções fundamentais, a filosofia constituir-se- Apesar de a geometria euclidiana ser a geometria correta
-á definitivamente no estado positivo; não podendo nunca para descrever o espaço não curvo, levantou-se a questão
mudar de carácter, resta-lhe desenvolver-se indefinida- de saber se não poderíamos construir outras geometrias,
mente através das aquisições sempre crescentes que inevi- que dessem conta das relações geométricas em espaços
tavelmente resultarão de novas observações ou de medita- não curvos: nasciam as geometrias não euclidianas. A exis-
ções mais profundas. (...) tência de geometrias não euclidianas conduz à questão de
Com efeito, completando enfim, com a fundação da fí- saber se o nosso universo será euclidiano ou não. E a teoria
sica social, o sistema das ciências naturais, torna-se possí- da relatividade mostra que o espaço é afinal curvo e não
vel, e mesmo necessário, resumir os diversos conhecimentos plano, como antes se pensava.
adquiridos, então chegados a um estado fixo e homogéneo, O desenvolvimento alucinante das ciências dos séculos
para os coordenar, apresentando-os como outros tantos ra- XIX e XX, juntamente com o cientismo provinciano defen-
mos de um único tronco, em vez de continuar a concebê-los dido por Comte, conduziu ao clima anticientífico que ca-
apenas como outros tantos corpos isolados”. racteriza algumas correntes da filosofia do final do século
XX. Mas isso fica para depois.

48
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Filosofia e ciências humanas Racionalismo (razão)
A relação entre as Ciências Humanas e a Filosofia é A partir da Idade Moderna, o Racionalismo obte-
de tal monta que a síntese mais simples e direta ainda ve grande crescimento como corrente filosófica e não se
reside no já clássico conceito humanista, assim formulado pode desvincular essas ideias das aplicações matemáticas.
por Lucien Goldman, precisamente num livro intitulado Tradicionalmente, o Racionalismo era definido pelo racio-
Ciências Humanas e Filosofia, da Editora Difel: cínio como operação mental, discursiva e lógica para ex-
 “Se a Filosofia traz respostas quanto ao ser do Homem trair conclusões. As inovações humanas apresentadas com
no mundo as Ciências Humanas têm de ser obrigatoriamente o advento do Renascimento consolidaram o Racionalismo
filosóficas caso pretendam ser científicas!” com o acréscimo de elaborações e verificações matemáti-
cas. Para o Racionalismo, tudo tem uma causa inteligível,
Nas ciências naturais, hoje em dia há uma concordância mesmo que não possa ser demonstrada empiricamente. O
generalizada com relação aos termos propostos para o Racionalismo foi importante elemento do mundo Moderno
debate (outras eram as condições, por exemplo, na Idade para superar o mundo Medieval, pois privilegia a razão em
Média européia, quando dizer, por exemplo, “A Terra se detrimento das experiências do mundo sensível, ou seja,
Move” ou “A Terra é Redonda!” poderia levar o cientista à o método mítico como se tinha acesso ao conhecimento
incineração!) durante a Idade Média. Assim, o Racionalismo é baseado
Não existe a menor possibilidade de se ministrar na busca da certeza e da demonstração.
aulas “neutras” em Ciências Humanas. O fundamento O Racionalismo se tornou central ao pensamento li-
científico das Humanas reside precisamente em opiniões beral, que, por sua vez, pretende propor e estabelecer
profundamente arraigadas (tanto que, via de regra, sequer caminhos para alcançar determinados fins em nome do
como tal são reconhecidas!). Assemelhar o revolucionário interesse coletivo. Assim, o Racionalismo está na base do
ao criminoso contribui para o pensamento conservador. planejamento da organização econômica e espacial da re-
Por outro lado, anunciar o “pós-modernismo” como “a produção social, abrindo espaço para as soluções racionais
nova cara do velho demônio”, contribui para o humanismo, de problemas econômicos e/ou urbanos com base em so-
as teorias libertárias: nada pior aconteceu com a filosofia
luções técnicas e eficazes.
nas últimas décadas que esta invenção verdadeiramente
diabólica: ressuscitar velhas teorias conservadoras
Empirismo (experiências)
recapeadas com nomes “simpáticos” como “neo” ou “pós”-
O empirismo é a posição filosófica que aceita a expe-
seja-lá-o-que-for.
riência como base para a análise da natureza, procurando
Dizem que os cientistas da área de Naturais quando se
rejeitar as doutrinas dogmáticas. Usado pela primeira vez
encontram, trocam “informações” – “descobri a partícula
pela Escola Empírica, uma escola de praticantes da medici-
x”, “consegui dissecar tal ou qual parte do átomo”, “há
na na antiga Grécia, o termo empirismo deriva da palavra
uma nova equação que permite resolver tal problema”,
etc. Quando cientistas da área de Humanas se encontram, grega empeiría (ἐμπειρία), que designa conhecimento ou
em geral, trocam “insultos” – “Positivista!”, “Marxista!”, habilidade obtida por meio da prática, sendo também a
“Liberal!”, “Comunista!”, etc. Não fujo à regra: daqui da origem da palavra «experiência», por intermédio do termo
esquerda e do humanismo, vejo o irracionalismo de tudo o latino «experientia”.
que recebe os prefixos “neo” e “pós” – neoliberalismo, pós- Empiristas defendem que o conhecimento é primaria-
modernismo, pós-capitalismo e o denuncio onde encontro! mente obtido pela experiência sensorial, alguns empiristas
A exatidão das Ciências Naturais vem sendo questionada radicais vão além afirmando que o conhecimento só é ob-
mais e mais. Hoje se prefere chamá-las simplesmente tido pela experiência sensorial e por nenhuma outra forma.
de “Naturais”.  Como imaginar a matemática como A posição empirista é frequentemente contrastada
uma ciência “exata” se é fundamentada em postulados com o racionalismo, que estabelece a razão como origem
arbitrários e chega a hipercubos e geometria multiplana do conhecimento, independente dos sentidos. O conceito
não existentes em nossa dimensão? Qual a exatidão disso? e a busca de evidências como fonte primária de conheci-
Na física, pior ainda: ao se resolver um problema qualquer mento existiu durante toda a história da filosofia e ciên-
aparece no postulado coisas como: “desprezar a resistência cia, desde a Grécia antiga, mas foi com o surgimento do
do ar” ou “imaginar atrito igual zero”. Mas o ar não oferece chamado Empirismo Britânico, no século XVII, que conso-
resistência? O atrito não existe de fato? Qual a “exatidão” lidou-se como uma posição filosófica especifica, sendo o
de uma ciência que despreza as coisas reais? filósofo John Locke considerado o fundador do empirismo
A Filosofia está na raiz das Ciências Humanas. Entre os como tal.
sociólogos, particularmente os positivistas e weberianos Os principais filósofos do Empirismo Britânico foram
(assumidos ou não...) recomenda-se “afastar sistematica- John Locke, George Berkeley e David Hume.
mente as pré-noções” ou “evitar juízos de valor”, ou seja, as Locke é famoso por sua comparação da mente humana
opiniões. Acontece que são precisamente os juízos de valor com uma folha em branco, tabula rasa, na qual as expe-
que aparecem no início da pesquisa em Ciências Sociais! riências derivadas das impressões dos sentidos são impres-
Em outras palavras, é a partir de uma opinião solidamente sas. Desta forma, haveriam duas formas de surgimento de
formada que se parte em busca de respostas. ideias, pela sensação e pela reflexão, com ideias podendo
ser simples ou complexas.

49
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
As ideias simples não são passíveis de análise, sendo Enquanto as forças produtivas estavam manifesta-
referentes as qualidades primárias e secundárias dos obje- mente ligadas às decisões racionais e às atividades instru-
tos. Sendo as primárias aquelas que definem o que o ob- mentais dos homens produzindo socialmente, podiam-se
jeto é essencialmente, por exemplo, uma mesa tem como considerar estas como o potencial de um poder crescente
qualidade primária o arranjo especifico de sua estrutura de dispor tecnicamente das coisas, sem que pudessem ser
atômica, qualquer outro arranjo faria outro objeto e não confundidas com o quadro institucional em que se inte-
uma mesa. As qualidades secundárias tratam das informa- gravam. Ora o potencial das forças produtivas, com a ins-
ções sensoriais acerca do objeto, definindo seus atributos titucionalização do progresso científico e técnico, tomou
(cor, sabor, espessura, etc). uma forma que faz com que se apague da consciência dos
Ideias complexas combinam ideias simples e consti- homens o dualismo do trabalho e da interação.
tuem substancias, modos e relações. Desta forma, segundo Sem dúvida, os interesses sociais determinam ainda,
Locke, e discordando dos racionalistas, o conhecimento como sempre aconteceu, a direção, as funções e a rapidez
humano acerca dos objetos do mundo é a percepção de do progresso técnico. Mas estes interesses definem o siste-
ideias que estão em concordância ou discordância umas ma social como um todo, coincidindo com o interesse de o
com as outras. Esta hipótese tornou-se a base da posição sistema se manter a si próprio (…).
empirista. É assim que o progresso quase autónomo da ciência e
Preocupado que a posição de Locke levaria ao ateísmo, da técnica, do qual depende efetivamente a variável mais
Berkeley formulou a hipótese de que as coisas só existi- importante do sistema, isto é, o crescimento economico,
riam na medida em que são percebidas. Para além destas, se transforma em variável independente. Resulta daí uma
existiriam as entidades que percebem, tendo sua existência perspectiva segundo a qual a evolução do sistema social
garantida mesmo sem que outro as perceba. Exagerando parece ser determinada pela lógica do progresso científico
a alegoria da tabula rasa, Berkeley defendeu que a ordem e técnico. (…) Uma vez implantada esta ilusão, a propagan-
que vemos na natureza é a escrita de Deus. Por isto, sua da pode invocar o papel da ciência e da técnica para expli-
posição é hoje conhecida como idealismo subjetivo. car e legitimar as razões pelas quais, nas sociedades mo-
dernas, um processo de formação democrática da vontade
Na sequência desta discussão, o filósofo Hume moveu
política, no que se refere às questões da prática, «deve»
a posição empirista na direção do ceticismo. Para Hume, a
necessariamente perder toda a sua função e ceder lugar
recusa de Berkeley se daria pelo fato de que o empirismo
às decisões de natureza plebiscitária (…). É a tese da tecno-
possui implicações que não são aceitas pela maioria dos
cracia, e o discurso científico desenvolveu esta teoria sob
filósofos, devido a convicções pessoais.
diferentes versões. Mas parece-nos mais importante o fato
No campo conceitual, Hume utiliza a distinção de ar-
de esta ilusão poder penetrar também, como ideologia im-
gumentos, proposta por Locke, entre demonstrativos e
plícita, na consciência da população despolitizada e aí ter
prováveis e a expande, dividindo os argumentos em de-
um papel de legitimação. O aspecto particular desta ideo-
monstrações, provas e probabilidades. Sendo as provas, logia é que ela afasta a concepção que a sociedade tem
aqueles argumentos da experiência aos quais não se pode de si mesma do sistema de referências da atividade co-
oferecer oposição. Hume afirma ainda que a razão por si municacional, e subtrai-a aos conceitos de uma interação
mesma não poderia fazer surgir qualquer ideia original, ao mediatizada por símbolos, para a substituir por um modelo
mesmo tempo em que desafia a causalidade, ao afirmar de ordem científica.
que a razão não seria capaz de concluir que a existência de Do mesmo modo, uma certa concepção de si, do mun-
uma causa seja um requisito absoluto. do vivido social, culturalmente determinado, dá lugar a
Derivações posteriores incluem ainda o Empirismo Ló- uma auto-reificação dos homens, que se encontram assim
gico, tendo como expoentes os filósofos Nelson Goodman, submetidos às categorias da atividade racional em relação
W. V. Quine e Hilary Putnam e Karl Popper, e o Pragma- a um fim, o do comportamento adaptativo.»
tismo, desenvolvido especialmente a partir das discussões Ao final do século XIX, a filosofia se entusiasma com as
entre Charles Sanders e William James. ciências e técnicas (Segunda revolução industrial) passan-
do a acreditar totalmente no saber cientifico e na tecnolo-
Filosofia, razão e técnica gia para controlar a Natureza, a sociedade e os indivíduos.
A partir do fim do século XIX (…) verifica-se a cienti- Com alguns fatos históricos ocorridos no inicio do sé-
fização da técnica. (…) O desenvolvimento técnico entrou culo XX como, por exemplo: as duas guerras mundiais, o
numa relação de feed-back com o progresso das ciências bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, os campos de con-
modernas. Com o aparecimento da investigação industrial centração nazistas, as guerras da Coréia, Vietnã, Oriente
em grande escala, a ciência e a técnica (…) surgem integra- Médio, do Afeganistão, as invasões comunistas da Hungria
das num único e mesmo sistema. e da Tchecoslováquia, as ditaduras sangrentas da América
Entretanto, a investigação industrial foi emparelhada Latina, a devastação de mares, florestas e terras, a poluição
com a investigação científica sob o comando do Estado, do ar, os perigos cancerígenos de alimentos e remédios,
que favorece em primeiro lugar o progresso científico e o aumento de distúrbios e sofrimentos mentais, entre ou-
técnico no domínio militar. Por sua vez, as informações re- tros acontecimentos, os filósofos que acreditavam que o
fluem nos domínios da produção civil. É assim que a ciência otimismo é designado pelo fato de se pensar que, na vida,
e a técnica se tornam a força produtiva principal. (…) tudo acaba por se resolver, porque tudo é regulado por

50
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
uma lei que guia para o melhor e não para o pior, começam suspeita: “o menor motivo de dúvida bastará para rejeitas
a desacreditar que as ciências e as técnicas descobertas pe- todas”. Tudo aquilo que é duvidoso é considerado falso.
los homens já não erão mais para o seu próprio bem, e sim Tal procedimento distinguia-se da dúvida natural, em que
para destruição dele. o que é menos duvidoso tende a ser verdadeiro, ou seja,
Surge então a formação da Teoria Critica, na qual dis- quanto mais provável mais o conhecimento está próximo
tingue duas formas da razão: a razão instrumental, na qual da certeza. Descartes seguia o caminho oposto, na medida
a ciência e as técnicas são meios de intimidação, terror, em que aquilo que ele negava era justamente o provável,
medo e desespero para o ser humano e a razão critica, que pois ele considerava que o conhecimento devia ter um cará-
afirma que as mudanças sócias, políticas e culturais só se- ter necessário (assim como as verdades matemáticas). Muitas
rão realizadas com a intenção de emancipação do gênero das opiniões tidas como verdadeiras lhe foram apresentadas
humano e não para domínio técnico-científico. pelos sentidos, os quais já o enganaram algumas vezes; desse
modo, rejeitava toda crença nos conhecimentos provenien-
Descartes tes deles, já que não eram uma fonte inteiramente segura.
O filósofo francês René Descartes é considerado por Descartes negava a objetividade do mundo. Para ele, o
muitos o autor inaugural da modernidade, uma vez que a que é oriundo da percepção perde a objetividade e torna-
filosofia anterior estava preocupada com questões acerca -se uma mera aparência. Mas, ao pôr em dúvida o que vê,
da natureza do mundo. O sujeito não tinha lugar central na não coloca em dúvida a visão; ao colocar em dúvida o que
filosofia; o homem usava o intelecto para conhecer as coi- ouve, não coloca em dúvida a audição; ao duvidar de um
sas, e não ele mesmo. Com Descartes houve uma mudança cheiro, não põe em dúvida o olfato.
de foco: ele jogou a luz no sujeito; não busca mais enten- No fim, ele radicalizou a dúvida e colocou em ques-
der o mundo exterior e, sim, se volta para seu interior, pois tão até mesmo os sentidos, duvidou da gênese da percep-
acredita que nele que está fundada a condição de conhecer ção. Ainda assim, olhando para ele mesmo, percebeu que
o mundo. A modernidade pode, assim, ser entendida como há coisas mais difíceis de serem postas em dúvida pelos
uma série de sistemas que partem do sujeito para conhecer sentidos, como o fato de ele estar onde está, vestido de
o mundo. determinado jeito, agindo de determinada forma. E se tais
Para Descartes, a forma de alcançar o verdadeiro co- coisas não passarem de um sonho? Ou se tudo aquilo que
nhecimento é através da razão; se esta não for capaz de vê – por exemplo, as próprias partes de seu corpo – não
alcançá-lo, isso acontece porque é falha. Em vez de seguir passarem de meras ilusões? Nesse momento ele já não
os conhecimentos recebidos, basta seguir o bom senso, já conseguia mais distinguir o real do ilusório.
que o homem é racional. Nisso vê-se que o racionalismo O procedimento da dúvida consistia em não se fiar na-
está apresentado como uma espécie de naturalismo. Des- quilo que já nos enganou ao menos uma vez. Assim, nossa
cartes considerava a razão como algo natural; além de ser percepção, nossos sentidos são postos em dúvida, uma vez
comum a todos os homens, ela é una. Segundo o filósofo, que todos eles já nos enganaram. Em um primeiro momen-
as ciências exatas são o lugar onde a razão está mais bem to, nossas ideias sobre as coisas é que são postas em dúvi-
expressa; por esse motivo, ele pegou emprestado o mé- da, pois não é certo que elas representem aquilo que elas
todo matemático para aplicá-lo em seu sistema filosófico. representam. Gradualmente vemos que há um alargamen-
Ele acreditava que o rigor da disciplina poderia con- to nos estágios de dúvida: vai dos objetos exteriores até o
duzir o pensamento de forma mais exata. Assim, Descar- sujeito mesmo; depois vai para a própria percepção, que é
tes passou a colocar em dúvida tudo que existe e não seja colocada em dúvida no argumento do sonho, não mais o
claro e distinto – dos objetos simples aos mais compostos, conteúdo da percepção como no primeiro momento (du-
dos objetos mais imediatos até os mais universais. vidar dos conteúdos dos sentidos é fácil, duvidar dos pró-
Descartes entendia que a verdade seria encontrada se prios sentidos é mais difícil). Após esse argumento, o que
o sujeito se voltar para dentro de si e afastado de tudo, ou resta são as ideias. Dessa forma, a dúvida segue crescendo
seja, sem nenhuma ideia preconcebida por mestres e sem e chega ao questionamento sobre a ideia que se tem de
levar em conta os costumes. Vê-se bem o que caracteriza algo corresponder àquele algo na realidade.
o racionalismo: a absoluta falta de contato com o mundo Mesmo assumindo que tudo pode ser falso ou não
externo; nada de fora influencia a razão. passa de um sonho, existem coisas que não podem ser
Na Meditação Primeira, a solidão e a razão são os alia- colocadas em dúvida; são certas qualidades presentes em
dos de Descartes na sua busca pela verdade, pois ele se tais imagens contidas no nosso pensamento, característi-
dá conta que muitas opiniões que considerava verdadeira, cas como figura, quantidade, grandeza, números, tempo
não o eram de fato. Assim, tendo esperado alcançar matu- e espaço, isto é, os objetos da matemática. Coisas que são
ridade suficiente para se desprender de todas as suas an- evidentes por sua própria natureza não seriam abarcadas
tigas opiniões, percebeu que tentar provar a falsidade de pela dúvida, como os princípios lógicos. Nada que repre-
suas crenças, uma por uma, seria uma empresa realmente sente alguma coisa tem evidência, como o conhecimento
extensa, quiçá interminável; encontrou, então, um méto- humano; entretanto, o que se põe como condição de pen-
do mais eficaz: a menor suspeita de incerteza presente em samento não se tem como questionar.
uma delas é suficiente para não aceitar todo o restante. O Já não tendo mais degraus a subir em relação às dú-
que era colocado em questão era o alicerce, os fundamen- vidas no campo empírico, ele chegou à dúvida metafísica.
tos de cada verdade estabelecida. Tudo passou a estar sob Houve uma ruptura. A realidade da matemática não é em-

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
pírica, é algo ideal; sendo assim, ela não pode ser atingida ao que eu tenho fora de mim. E mesmo que minhas ideias
pela dúvida hiperbólica. A dúvida visa à verdade, ela apa- sejam semelhantes ao que está lá fora, se eu não tenho
rece nas Meditações como princípio de reflexão. Foi nessa como comprovar. Para isso, há que ter um fundamento,
incessante busca pela verdade que o filósofo lançou mão uma garantia para a racionalidade. Se Deus for um enga-
da hipótese da existência de um Deus Enganador que ti- nador, perde-se o fundamento da razão. A ideia não pode
vesse o poder de interferir até nas operações matemáticas; ser garantida como correspondência, mas há uma realida-
no entanto, levando em conta a suma bondade de Deus, de objetiva, na medida em que o conteúdo dela tem reali-
julgar que tal Ser fosse causa de uma ação vil seria algo dade própria. Assim é que, na Meditação Terceira, Descartes
antinatural. Em seu lugar Descartes supôs a existência de falou de umas ideias que pareciam ter nascido com ele e
um Gênio Maligno que tenha se dedicado a enganar os de outras que pareciam ter vindo de fora. A despeito dessa
homens, desde as coisas mais prosaicas provenientes dos diferenciação, para Descartes todas elas foram feitas por
sentidos até as operações mais exatas oriundas da Mate- ele, não sendo dependentes dos objetos que representam.
mática. Tomando as duas ideias que tenho do sol, por exemplo
Ao considerar todo o mar de ilusão em que tal ente – uma proveniente dos meus sentidos, como sendo uma
perverso tivesse nos afundado, Descartes encontrou pelo pequena bola amarela, e outra proveniente da Astronomia
menos uma verdade que não podia ser distorcida: justa- – apesar de nenhuma das duas condizer fielmente com o
mente o fato de que ele existe, pois, ao estar pensando em objeto, parece que a ideia colocada em mim pelas razões
algo, por mais equivocado que seja o conteúdo de tal pen- da Astronomia é a mais próxima do sol real. Ideias como
samento, é inegável que tal pensamento esteja sendo pen- a de um Deus soberano, eterno, perfeito, sumamente bom
sado por uma substância pensante – no caso, ele próprio. têm uma realidade maior que as que são as representações
O que diferencia a dúvida metódica da dúvida cética é que tenho das substâncias finitas, pois, uma vez que somos
que, na primeira, quando se coloca algo em dúvida sempre efeitos de Deus, temos em nós marcas daquilo que nos
resta algo, isto é, algo fica de fora, não é abarcado pela causou; afinal, como poderíamos não ser produzidos por
dúvida. O argumento do sonho acaba com tudo que vem coisa alguma, já que, a partir do nada, nada pode ser gera-
do mundo da experiência; para combater o mundo da ex- do? Se eu existo, há que se ter em mim alguma coisa pelo
periência são utilizados elementos do mundo da própria menos daquilo que é causa da minha existência e, além
experiência. Na dúvida metódica, ao duvidar de tudo que disso, isso que é causa de mim deverá ter um grau de per-
venha pelos sentidos – e até mesmo as verdades mate- feição maior, da mesma forma que um quadro não pode
máticas –, não há como ser posta em dúvida a capacidade ser ele mesmo mais perfeito do que aquilo que ele retrata.
de duvidar; assim, ao ter tal consciência, tem-se também Sendo assim, tenho como ideia clara e distinta aque-
a certeza de própria existência. A dúvida metafísica, como la ideia que tenho de mim mesmo: uma vez que é certo
vimos, é a suposição de que existe um Deus Enganador; que penso e, já que penso, existo. As ideias que compõem
desse modo, até coisas tidas como absolutamente certas – substâncias corporais como extensão, figura, lugar estão
como os enunciados matemáticos – podem estar errados. contidas em mim na medida em que é por meio delas que
Dessa forma, toda vez que somo 2  +  2  =  4, posso estar as substâncias corporais me aparecem. Incluindo aí a ideia
sendo vítima de uma ilusão incutida em mim por um Deus de Deus – uma vez que eu, sendo substância finita, não te-
Enganador que me impede de enxergar o resultado verda- ria como conceber a ideia de uma substância infinita, salvo
deiro de tal operação. Assim se chega à universalização da se tal ideia tivesse sido colocada em mim por alguém mais
dúvida. perfeito que eu.
Ao duvidar da matemática, Descartes estava duvidan-
do do conhecimento racional. Como ele podia duvidar de Bacon
algo que lhe parecia tão certo, como a razão? Descartes FRANCIS BACON (1561-1626)
não sabia a origem da razão, algo de que só a existência de Bacon foi para o Trinity College com doze anos e ficou
Deus podia dar conta. Assim Descartes chegou ao cogito três anos. Foi aí que estudou filosofia, adquirindo antipatia
(“Penso, logo existo”), o primeiro princípio lógico-ontoló- e hostilidade pela filosofia precedente. Não identificava
gico e não empírico, de onde tudo vai partir. É a primeira nela fins práticos e achou muitos erros. Critica Aristóteles.
ideia clara e distinta que não pode ser colocada em dúvida Apesar de ter formação escolástica, essa também não lhe
pela razão lógica. Ao negar esse princípio, eu já estou du- agradou. Ele tinha idéias de transformar a filosofia em
vidando, isto é, ao negar o cogito eu o reafirmo. Na terceira uma coisa fértil, iluminada e a favor do bem do homem.
Meditação temos a noção de ideia; apesar de não haver O homem já havia sofrido demais em nome dos dogmas
garantia da veracidade dela, não se duvida de que as pes- religiosos. Era preciso uma filosofia a favor do avanço das
soas tenham ideias. A primeira verdade é afirmação do “eu ciências. Bacon era um entusiasta das novas invenções,
penso” como sujeito. como a bússola, a arma de pólvora e a imprensa.
Todas as coisas que concebemos clara e distintamente Enalteceu a experiência e o método dedutivo. No
são verdadeiras, mas a hipótese do Gênio Maligno coloca entanto, lhe falta à consciência crítica do empirismo
isso em dúvida; é a hipótese da metafísica extrema. O que (mesmo tendo sido considerado seu precursor), que foram
se sabe clara e distintamente é que se têm ideias. As dú- aos poucos conquistando os seus sucessores e discípulos.
vidas são sobre se existem realmente coisas fora de mim, Bacon continua afirmando um mundo transcendente
se as ideias que eu tenho são realmente correspondentes e cristão, considerando a filosofia como esclarecedora

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
da essência da realidade, das formas, base e causa dos para o futuro do ser humano, pensada para além da forma
fenômenos sensíveis. É uma posição filosófica que apela e do sentido como esse ser foi definido no Ocidente. Ao
para a metafísica tradicional, grega e escolástica, aristotélica analisarmos bem, a técnica em si mesma não nos coloca
e tomista, unida histórica e praticamente ao lado da nova nenhuma questão espiritual: ela opera ou não opera,
filosofia, só que de maneira menos elaborada, acabada e funciona ou não funciona. Heidegger rejeita a visão de
consciente de si mesma. Era seu lema que se vivia melhor que o domínio da realidade pela técnica seja a causa para
na vida oculta. Porém, não conseguia chegar a uma nossa situação histórica atual. A estrutura e o sentido da
conclusão sobre se gostava mais da vida contemplativa ou técnica moderna são perdidos se tentarmos suprimir
da ativa; sua esperança era de ser filósofo e estadista, e seu lado ruim e ficarmos apenas com seu lado bom. O
dizia que o conhecimento não aplicado em ação era uma pensamento heideggeriano trata a técnica como o sentido
pálida vaidade acadêmica. Sua mais bela produção literária, de uma nova época para o ser humano, mas que não está
os Ensaios (1597-1623), mostram-no ainda indeciso entre ao alcance de sua vontade, controle ou consciência. Um
dois amores, a política e a filosofia. O único defeito do dos pontos principais desse estado de coisas é o fato de
estilo de Bacon são as intermináveis metáforas aplicadas que a tecnologia moderna se sobrepõe cada vez mais à
em seus textos. ontologia tradicional. A tecnologia é um modo de pensar (o
Tal como Aristóteles, Bacon dá alguns conselhos para ser) planetário, que serve à armação (Gestell) de uma nova
se evitarem revoluções. Uma receita melhor para evitar ordem humana – ordem esta que poderá levar à extinção
as revoluções é uma distribuição eqüitativa da riqueza: completa da humanidade. Houve uma mudança de ordem
“O dinheiro é como o esterco, só é bom se for espalhado”. metafísica após a Idade Média. O homem tornou-se ávido
Mas isso não significa socialismo ou, mesmo, democracia; por sua própria figura e, assim, apoderamo-nos da existência
Bacon não confia no povo, que na sua época praticamente mesma. Antes dessa alteração em nosso modo de ser no
não tinha acesso à educação. O que Bacon quer é primeiro, mundo, a posição do homem no cosmos era diferente,
uma pequena burguesia de proprietários rurais; depois, era uma postura de adequação. Hoje, o mundo se tornou
uma aristocracia para a administração; e acima de todos, uma fonte de recursos, pura e simples, surgida de uma
um rei-filósofo. Entretanto, o que interessa mais a Bacon nova relação com a metafísica tradicional, que Heidegger
não é esta ciência dos princípios comuns, e sim a ciência chamou de ordenamento provocador (Bestellen). A técnica
da natureza, e, portanto, o Novum organum, que deveria não é um plano que projetamos, mas também não é algo
conter precisamente as regras para a construção da ciência que nos projeta – não somos nem senhores, nem escravos;
da natureza. Como é sabido, Bacon reivindica, contra complementamo-nos mutuamente, somos dependentes
Aristóteles e a Escolástica, o método indutivo. Aristóteles um do outro. Para Heidegger, a técnica moderna além
e Tomás de Aquino afirmaram claramente este método, e de ser estranha à linguagem cotidiana, é incapaz de ser
até o reconheceram como único procedimento inicial do medida ou controlada pelo homem – esta talvez nossa
conhecimento humano; entretanto a eles interessavam maior ilusão. Segundo Heidegger, a tecnologia não deve
muito mais as causas do que a experiência, o que transcende ser vista como perigosa, pois assim, seria considerada
a experiência muito mais a metafísica do que a ciência. como possuidora de um sentido instrumental e estaria
submetida ao nosso comando. A técnica está relacionada
Filosofia e técnica diretamente com a história do ser, mas Heidegger só
começa a problematizá-la ao perceber sua conexão com
Heidegger o destino dessa história na era moderna – nesse sentido,
Há algum tempo, a técnica, encarnada tanto no homem a técnica antiga é diferente da técnica moderna. Hoje,
quanto na máquina, é o signo atual de nossa relação com ela é também ideologia, pois seus objetivos participam
o mundo e o modo como a sociedade contemporânea se da própria construção do sistema tecnológico. O homem
articula. passa a ser visto como matéria para qualquer tipo de
Heidegger nos ajuda a esclarecer com o que estamos cálculo e operação. A potência metafísica que os gregos
comprometidos na era da técnica maquinística e os viam na phýsis, nós a vemos – por meio da técnica – no
desafios que devemos enfrentar e vencer, se quisermos homem. Mais tarde, até isso se perderá, se transferirmos
estabelecer uma nova relação com esse fenômeno. Para todo esse poder para a máquina. A técnica passou a ser
ele, tecnologia é o título que conferimos ao ente quando a resposta líquida e certa para os problemas aos quais
este é perpassado não pela técnica, mas sim por sua não meditamos ou sequer formulamos mais. A conversão
essência – e não qualquer uma, mas a que se encontra do mundo em imagem só tornou-se possível graças à
vigente em nosso tempo. A tecnologia seria uma forma tecnologia. Mas essa mudança só aconteceu a partir da
de revelação da existência, um princípio de construção do alteração de paradigma originada no século XVII. A técnica
mundo em determinadas condições – ela é formadora de sempre foi uma maneira de articular a maneira de pensar.
uma época, expressa um modo de ser do mundo pois é Com os gregos, ela era, a princípio, uma extensão da phýsis
a correspondência entre um processo de posicionamento – a phýsis era a essência da técnica. Destarte, a técnica era
da realidade e uma forma de pensamento. Heidegger não muito mais uma maneira de ser do que de pensar. Após
foi um filósofo da técnica, simplesmente. Seu projeto foi o a mudança paradigmática do século XVII (mudança essa
de pensar acerca do problema, ou questão, da técnica. O que foi metafísica, na própria maneira do ser se relacionar
principal ponto a ser descoberto é o que a técnica coloca com o mundo), o matemático – tudo que é visto a partir de

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
um ponto de vista da calculabilidade – assume o lugar do de ritualística, ela começa a ser mais exposta. Dessa forma,
ser, e assim, a técnica assume o sentido de cálculo. Através quanto maior for a popularidade da obra – quanto mais ela
dessa reviravolta, o homem deixa seu lugar de pastor do for vista – maior será o seu valor.
ser e torna-se senhor da natureza e sujeito do mundo. O Outro aspecto importante que Walter Benjamin des-
crescente sentimento de vazio da era moderna só acontece taca em suas ideias é a questão da perda aura. Para ele,
porque se esvazia com ela o interesse em perguntar pela estas obras reproduzidas acabam perdendo sua aura, ou
nossa verdade, a verdade do ser humano. Talvez a verdade seja, ocorre a perda da essência do aqui e do agora, do seu
do homem seja apenas perguntar pela verdade. A essência individualismo como obra de arte.
da técnica, conforme Heidegger nos disse em diversas Essa nova era de produção faz a arte ter uma função
ocasiões, não é algo de técnico. Essa essência é o poder social política, em que se quer formar ideias, rompendo,
que nos faz, misteriosamente, calcular e procurar ter assim, com a antiga função religiosa.
controle sobre o movimento da existência – e isso, é uma Indo ainda mais longe, o filósofo da Escola de Frankfurt
característica inerente ao ser humano. diz que, com a industrialização ocorre a construção de uma
Segundo Heidegger, não devemos nos preocupar em segunda natureza. Se antes a magia e a religião educavam
dominar a técnica, mas sim em entender que sua essência o homem para lidar com sua natureza, agora esta outra
remete ao nosso próprio modo de ser e, por causa disso, forma de produzir vai educar os indivíduos para se relacio-
precisaríamos estabelecer uma relação mais livre com ela, narem com um mundo artificial.
abrindo-nos a outros modos de ser. Para Benjamin, tudo isso, visto como algo negativo por
A armação funda um projeto supostamente ilimitado outros filósofos, na verdade tem lá seus pontos positivos.
de domínio do ente, da vida e do mundo, que por mais Mesmo que a reprodução técnica tire da obra sua história
que avance, sempre terá um aspecto ilusório – já que o ser e autenticidade, ela aumenta as possibilidades existentes
pode ser esquecido ou destruído, mas nunca subjugado. de conhecer algo novo e consegue fazer com que detalhes
Entretanto, o fato de que a armação e seu poder tenham novos sejam acrescentadas ao original.
a ver com o homem nos traz uma esperança, qual seja, a Isso ocorreu por conta de que a ideia da reprodutibi-
de deixar-nos livres para o ser e o pensar humanos. Não lidade possibilitou que todos conseguissem produzir sem
podemos suprimir os aspectos que nos tornam dependentes
precisar ser, necessariamente, um profissional, mudando a
da técnica – sempre estaremos sujeitos a ela. Ao atingirmos
relação entre autor e público e diminuindo a distância en-
essa etapa, talvez consigamos entrar em uma espécie de
tre indivíduo e obra de arte. Para Benjamin isso é um dos
“livre relação” com a técnica e suas derivações. É infrutífero
pontos mais importantes da reprodução.
tentarmos voltar a um tempo passado, onde a técnica
(aparentemente) não predominava, da mesma forma que é
Aspectos pontuais na obra e pensamento de Benjamin
inócuo engendrarmos um processo de controle da técnica
por parte da moral – empresa que transcenderia nossa Como dito anteriormente em um dos tópicos que tenta
capacidade. Heidegger não teme a tecnologia, mas sim seu pontuar as ideias de Benjamin, a fotografia foi para o filósofo
predomínio imperialista, sua conversão em único modo de um grande divisor de águas e abriu portas para as grandes
ser e que pode destruir tudo o que nos é mais próprio, a mudanças entre as produções manuais e as técnicas.
saber, o pensar. O desejo de nossa espécie de impor seu Antigamente, as obras eram feitas manualmente, o
domínio sobre o mundo faz parte da velha ilusão moderna que as tornavam únicas. Com a fotografia, isso se perdeu.
segundo a qual tudo pode ser conhecido por meio da Foi com ela que todas as outras coisas começaram a sofrer
ciência positiva e controlado pela tecnologia. Heidegger mudanças.
disse que, enquanto formos humanos, não atingiremos Fotografando, a obra pode ser reproduzida diversas
o ápice absoluto desse processo – a total transformação vezes e alcançar lugares e pessoas bem distintas. Assim,
de todos os entes em máquinas não poderá se completar. tudo podia resumir-se em ver as coisas através do olhar,
Enquanto seres humanos, temos uma relação com a fazendo com que as mãos se tornassem menos importan-
realidade, um modo de ser no mundo – e se perdermos tes agora.
nossa essência, tudo o mais perderá o sentido. Da mesma forma, ocorreu com o cinema e sua impor-
tância. Os aspectos das máquinas e da ocupação dos ho-
Benjamin mens podem ser vistos também com bastante destaque
Walter Benjamin fala, de modo geral, em cada um des- por Walter Benjamin. Se antes os homens serviam às má-
tes tópicos, como o capitalismo e a industrialização afeta- quinas, agora as máquinas serviam aos homens e eles as
ram a cultura e acabaram com algumas tradições. Mas, em manipulavam como quisessem.
determinados momentos, qualifica isso como algo positivo. Benjamin critica e, também, enxerga lados positivos
Antigamente, as obras eram feitas com um sentido na era da reprodutibilidade técnica. A aproximação, o des-
religioso, sendo elas de difícil acesso e consideradas úni- prendimento da função religiosa, a possibilidade de qual-
cas. Elas tinham um valor de eternidade e raridade. Para o quer um ser autor e a forma como as obras poderiam ago-
pensador, com a reprodutibilidade técnica essa ideia sofreu ra chegar a lugares e pessoas diferentes eram aspectos que
grandes mudanças. ele prezava.
Na reprodução técnica ocorre o contrário, a obra é, na Isso tudo serviu para a construção de uma cultura de-
verdade, produzida em série, feita para o consumo rápido mocrática, em que todas as pessoas poderiam ter acesso
e transitório e por não ser mais “dependente” da finalida- àquilo, sem restrições quanto a classes sociais, por exemplo.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Porém, o filósofo também critica. Mesmo a reprodu- É um conhecimento produzido e aprendido por in-
ção ter dado possibilidades revolucionárias, trouxe outras tuição, acidente ou uma observação causal, mas pode ser
formas de se alienar. A reprodução – em especial o cinema também resultado de um esforço deliberado para a solu-
– fez com que um novo culto aparecesse. O culto à perso- ção de um problema. É um conhecimento limitado pois
nalidade. Com isso, ideias fúteis aparecem na sociedade, “não é sistemático, nem eficiente e não permite identificar
transformando experiências em fatores sem importância conhecimentos complexos ou relações abstratas” (Gressler,
ou significado. 2003: 27).
Para Lakatos e Marconi (1986: 18), o senso comum,
 Contextualização histórica: também denominado conhecimento vulgar ou popular, é
A ciência e o conhecimento científico são definidos de um modo corrente e espontâneo de conhecer que “não se
maneiras diferentes pelos diversos autores que se lançam distingue do conhecimento científico nem pela veracidade
à tarefa de refletir sobre eles. Algumas definições são bas- nem pela natureza do objeto conhecido: o que os diferen-
tante semelhantes, outras levantam algumas diferenças. cia é a forma, o modo ou o método e os instrumentos do
Contudo, a maior parte dos que buscam definir a ciência ‘conhecer’”.
concorda que “ao se falar em conhecimento científico, o As autoras destacam as seguintes características do
primeiro passo consiste em diferenciá-lo de outros tipos senso comum: ele é superficial, sensitivo, subjetivo, assis-
de conhecimento existentes” (Lakatos e Marconi, 1986: 17). temático e acrítico (Ibidem: 19). E, mais adiante, levantam
Antes de se apresentar cada uma das formas de conhe- outro conjunto de características dessa forma de conheci-
cimento, convém explicitar o que se entende por conheci- mento: valorativo, reflexivo, assistemático, verificável, falí-
mento e por processo de conhecer: vel e inexato.
“Conhecer é atividade especificamente humana. A caracterização do senso comum como uma forma de
Ultrapassa o mero ‘dar-se conta de’, e significa a apreensão, conhecimento acrítica, que não reflete sobre si mesmo, e assis-
a interpretação. Conhecer supõe a presença de sujeitos; temática, pois não tem a preocupação de uma sistematização
um objeto que suscita sua atenção compreensiva; o uso de e organização de idéias num conjunto coerente, consistindo
instrumentos de apreensão; um trabalho de debruçar-se antes uma série de conhecimentos dispersos e desconexos,
sobre. Como fruto desse trabalho, ao conhecer, cria-se uma também é destacada por Demo, para quem o senso comum:
representação do conhecido - que já não é mais o objeto, “não possui sofisticação. Não problematiza a relação
mas uma construção do sujeito. O conhecimento produz, sujeito/objeto. Acredita no que vê. Não distingue entre
assim, modelos de apreensão - que por sua vez vão instruir fenômeno e essência, entre o que aparece na superfície e o
conhecimentos futuros.” (França, 1994: 140) que existe por baixo. Ao mesmo tempo, assume informações
A autora destaca, assim, os principais elementos en- de terceiros sem as criticar.” (Demo, 1985: 30)
volvidos no processo de conhecer: o sujeito que conhece, Ainda sobre o senso comum, deve-se destacar seu ca-
a “coisa” conhecida (que, uma vez conhecida, torna-se “ob- ráter imediatista, colado às necessidades imediatas, a “dose
jeto”, isto é, a “coisa”, elemento da realidade, da perspectiva comum de conhecimentos, da qual dispomos para nossas
de quem a conhece, para quem se torna “objeto”), o mo- atividades rotineiras” (Demo, 1985: 31) e o fato de ele ser
vimento do sujeito em direção ao objeto (que é o próprio “transmitido de geração para geração por meio da educa-
processo de conhecer) e os instrumentos utilizados neste ção informal e baseado em imitação e experiência pessoal”
processo. Um último elemento é apresentado pela autora, (Lakatos e Marconi, 1986: 17).
o fato de que todo processo de conhecimento se dá no cru- Embora sem métodos críticos e sem sistematização,
zamento de duas dinâmicas opostas, duas atitudes básicas: mas sendo colado às necessidades imediatas e fruto da
“(...) a abertura para o mundo, a cristalização (ou intuição e da experiência, o conhecimento derivado do
enquadramento) do mundo. Conhecer significa voltar-se senso comum existe numa constante tensão entre os pré-
para a realidade, e ‘deixar falar’ o nosso objeto; mas conhecer -conceitos, os modelos consagrados que se transmitem ao
significa também apreender o mundo através de esquemas longo das gerações sem o devido questionamento de sua
já conhecidos, identificar no novo a permanência de algo já validade ou de suas reais relações de causa e efeito, e o
existente ou reconhecível. O predomínio de uma ou outra dinamismo e a espontaneidade que formulam a todo mo-
dessas tendências tem efeitos negativos, e é através de seu mento novas teorias e novos modelos explicativos. Enfim,
equilíbrio que se pode alcançar o conhecimento ao mesmo apresenta as duas dinâmicas de conhecimento: a abertura
tempo atento ao novo e enriquecido pelas experiências e a cristalização.
cognitivas anteriores.” (França, 2001: 43) Uma outra forma de conhecimento destacada por
É a partir destes aspectos (os elementos que compõem diversos autores é o pensamento religioso, que inclusive
o processo de conhecer e as duas dinâmicas envolvidas acompanha a humanidade desde os seus primórdios:
nesse processo) que podem ser distinguidos diferentes ti- “Um dos processos mais antigos e, ao longo dos séculos,
pos ou formas de conhecimento. A primeira forma de co- mais comumente adotado pelo homem, na busca de
nhecimento normalmente identificada pelos autores que conhecimento e verdade, é o do apelo à autoridade ou à
se dedicam à conceituação de ciência é o “senso comum”. tradição e aos costumes. A autoridade estava nas mãos de
Trata-se de uma forma de conhecimento adquirido no co- chefes de tribo, dignatários religiosos, de políticos ou sábios;
tidiano, empírico por excelência, normalmente adquirido a verdade seria o que afirmavam os que detinham o poder.”
por meio da experiência. (Gressler, 2003: 26).

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
O conhecimento religioso ou teológico se caracteriza desde que se faça intervir as três características da expe-
por ser valorativo, inspiracional, sistemático, não verificá- riência estética: a novidade, a totalização e a ritmicidade.
vel, infalível e exato (Lakatos e Marconi, 1986: 21). O princí- Assim, o ato de comer não como aquela refeição normal e
pio da autoridade é fundamental para seu funcionamento, vulgar de todo dia, marcado pela pressa e pela economia,
pois ele se apóia em doutrinas com proposições sagradas, mas como uma prática em que os pratos surpreendem, em
reveladas pelo sobrenatural, que consistem em verdades que há um empenho em recolher daquela experiência um
indiscutíveis já que, na experiência religiosa, “está sempre grande número de elementos, pode se transformar numa
implícita uma atitude de fé perante um conhecimento re- experiência estética.
velado” (Ibidem: 21). Assim, no processo de conhecimento instaurado pela
O conhecimento religioso pressupõe um sujeito que a arte as manifestações artísticas são apresentadas aos su-
tudo conhece e tudo sabe e, portanto, o desafio do conhe- jeitos enquanto “coisas”; na relação com os objetos e pro-
cimento colocado para os sujeitos não é o de conhecer e dutos artísticos cada sujeito vai elaborar sua interpretação,
produzir verdades sobre o mundo, mas sim compreender construindo então “objetos”.
uma verdade que já está pronta, revelada, concedida. O Outros autores costumam destacar ainda uma outra
homem é menos sujeito do conhecimento, na medida em forma de conhecimento, que é o conhecimento filosófi-
que não pratica experimentações ou busca novas formu- co. Lakatos e Marconi o apresentam como um dos quatro
lações, mas apenas busca compreender cada vez mais um tipos de conhecimento, caracterizado por ser valorativo,
corpo de conhecimentos que se lhe apresenta já organiza- racional, sistemático, não verificável, infalível e exato. Con-
do, sistematizado, com regras, hierarquias e leis. tudo, é mais comum encontrar a filosofia não exatamente
Ao mesmo tempo, trata-se de um tipo de conheci- como uma forma de conhecimento da realidade, como as
mento não falseável, isto é, que não permite a verificação outras, mas como uma forma de conhecimento que avalia
porque vem da transcendência. E, exatamente por essa ca- as demais formas de conhecimento, que estuda a natureza
racterística, representa uma forma de conhecimento que e os limites das diferentes manifestações do conhecimento
evolui muito lentamente, tende a ser estacionário. humano: “A filosofia trata das idéias - idéias sobre o mun-
Uma boa demonstração dessa concepção é a frase de do, sobre as pessoas, idéias sobre o viver (...) A filosofia se
Santo Agostinho que diz que “aquilo que a verdade desco- preocupa de modo geral com o modo como sabemos as
brir não pode contrariar aos livros sagrados, quer do An- coisas e com o que podemos saber” (Raeper e Smith, 2001:
tigo quer do Novo Testamento” (Aranha e Martins, 1993: 13).
101). Assim, o conhecimento é entendido, por Santo Agos- Alguns autores ainda identificam, como uma outra
tinho, como ato da iluminação divina (Andery et al., 2004: forma de conhecimento distinta das demais, a ideologia.
145). Ou seja, na experiência religiosa, o sujeito se relaciona É o caso de Demo (1985: 31), que distingue a ideologia
não com “coisas” da realidade que ele vai tentar conhecer, como forma de conhecimento composta de enunciados
mas com “objetos” que surgem a ele já interpretados e ex- que justificam relações de poder. Essa é uma concepção
plicados pela doutrina religiosa. de ideologia oriunda do pensamento marxista, que define
Uma outra forma de conhecimento levantada por al- a ideologia como “a transposição involuntária para o plano
guns autores (França, 1994: 141; Santaella, 2001: 103) é a das idéias de relações sociais muito determinadas” (Chauí,
experiência artística. Diferentemente do senso comum e 1981a: 10). Essa definição de ideologia não destaca tanto
do conhecimento religioso, a arte consiste numa forma de as características do conhecimento ideológico (que pode
conhecimento subjetiva e não objetiva, isto é, não se pro- ser mais ou menos sistematizado, sofisticado, coerente)
põe a ser “a verdade”, não propõe explicações universais mas sim seu “efeito” sobre a realidade e a sociedade, ou
e generalizáveis. Antes, é a forma de conhecimento mais seja, a forma como se dá a inserção desse conhecimento
ciente de que constrói representações da realidade, afirma- nas relações sociais:
ções inexatas, propositalmente imprecisas e indiretas. Ela “Fundamentalmente, a ideologia é um corpo sistemático
possui métodos e técnicas, mas é, por definição (embora de representações e de normas que nos ‘ensinam’ a conhecer
tal característica seja ideal e não ocorra necessariamente e a agir. A sistematicidade e a coerência ideológicas nascem
na maioria das situações) espontânea, dinâmica e aberta. A de uma determinação muito precisa: o discurso ideológico
arte não apresenta discursos fechados e definitivos sobre a é aquele que pretende coincidir com as coisas, anular a
realidade, mas, antes, formula enunciados abertos às dife- diferença entre o pensar, o dizer e o ser e, destarte, engendrar
rentes interpretações, convoca os sujeitos para, com o uso uma lógica de identificação que unifique pensamento,
da imaginação, produzirem diferentes representações da- linguagem e realidade para, através dessa lógica, obter a
quilo que lhes é apresentado. A arte, assim, está muito mais identificação de todos os sujeitos sociais com uma imagem
voltada para a primeira dinâmica do processo de conhecer, particular universalizada, isto é, a imagem da classe
para o “descobrimento” do mundo. dominante.” (Chauí, 1981b: 3)
Barilli (1994: 49-50) argumenta que a experiência esté- Concebida dessa forma, mostra-se mais coerente pen-
tica proporcionada pela arte pode se dar também em ou- sar na ideologia não como uma forma de conhecimento
tros campos. O autor dá, como exemplo, o ato de comer, distinta das demais, mas como uma dimensão do conhe-
que em princípio é um ato da ordem biológico-fisiológica, cimento que pode estar presente em todas as formas de
pertencente à esfera da natureza e não da cultura. Entre- conhecimento. Tanto o senso comum quanto a religião ou
tanto, esse ato pode converte-se em experiência estética a arte podem funcionar como discursos ideológicos em

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
determinados contextos. Assim também a ciência pode se De acordo com outro autor, “a ciência tem as suas ori-
revestir de uma dimensão ideológica, como aliás salientam gens nas necessidades de conhecer e compreender (ou ex-
vários autores. Alves (1987: 11) alerta para o fato da ciência plicar), isto é, nas necessidades cognitivas” (Maslow, 1979:
ter virado um mito e, como tal, induzir o comportamento e 206). De um conhecimento difuso, espalhado, assistemá-
inibir o pensamento. Gressler (2003: 32) também identifica tico e desorganizado, passa-se a um trabalho de arranjo
a possibilidade da ciência se tornar um “produto ideológi- segundo certas relações, de disposição metódica. Esse pro-
co”. E ainda Lacey (1998: 14) critica a idéia de neutralidade cesso é fundamental para a composição de campos espe-
e imparcialidade do conhecimento científico, constatan- cíficos do conhecimento.
do que a ciência não é “livre de valores” e que ela assume Michel Serres (1989), no tratado que organiza sobre a
uma postura ideológica quando busca se legitimar e negar história da ciência, apresenta as principais eras científicas
a legitimidade de conhecimentos alternativos, pelo modo ou do conhecimento, isto é, eras marcadas por uma grande
como transforma a natureza e a sociedade, e quando ocor- sistematização dos conhecimentos: a Matemática no Egito
re desigualdades e dominação pelo modo como o conhe-
Antigo e Mesopotâmia, a Grécia Clássica, a Intermediação
cimento é gerado e estruturado.
Árabe, a Teologia da Idade Média e a Ciência Moderna
 
(que, em sentido estrito, é a única forma de conhecimento
A construção da ciência na era moderna
Torna-se mais fácil compreender a ciência após a deli- que realmente pode ser classificada como “científica”).
mitação das outras formas de conhecimento. Afinal, o co- Embora se possa dizer que “não existe um ‘lugar de
nhecimento científico nasce da proposta de um conheci- nascimento’ daquela realidade histórica complicada que
mento diferente dos demais, porque busca compensar as hoje chamamos de ciência moderna” (Rossi, 2001: 09), uma
limitações do conhecimento religioso, artístico e do senso vez que a nova forma de conhecimento é fruto do trabalho
comum. A busca de um conhecimento mais confiável da de autores de diversas nacionalidades e contextos, existe
realidade está presente desde a pré-história: uma força de agregação do projeto científico que é sua
“Mas, o que é ciência? Quando o homem do paleolítico orientação marcada pelo racionalismo de Descartes e pelo
encontrou um mamute, percebeu imediatamente que empirismo de Bacon e Galilei (Lara, 1986).
não podia enfrentá-lo. Fugiu correndo e, na incoerência O projeto racional proporciona um acúmulo de conhe-
aterrorizada da corrida, caiu e feriu o joelho num sílex. cimentos, teorias e métodos, que vão exigindo separações,
Compreendeu que o sílex era mais duro que o joelho. tratamentos diferenciados, posturas específicas: “Não se
Ora, o homem é o único animal que reuniu essas diversas ‘observa’ do mesmo modo um neutrino, um micróbio, uma
experiências para formular uma hipótese de trabalho (...) cratera sobre a Lua, uma nota de música, um gosto de açú-
[após construir uma arma para enfrentar o mamute, o car ou um pôr-do-sol” (Fourez, 1995: 41). Sob a justificativa
homem] concebera uma hipótese de trabalho e verificara de que objetos diferentes reclamam conceitos de nature-
experimentalmente o seu valor. Era sem dúvida uma zas diferentes, produziram-se cisões e compartimentaliza-
atividade científica.” (Laborit, 1988: 23). ções no conhecimento científico. Tratam-se das disciplinas
Contudo, a maior parte dos autores que definem ciên- científicas. A maior dessas cisões é a que separa as ciências
cia a identificam com um momento específico da história em inorgânicas (que estudam o mundo físico), orgânicas
da humanidade: (que estudam o mundo biológico, isto é, tudo aquilo que
“Um novo tipo de abordagem do problema do conhecimento tem vida) e superorgânicas (que estudam o mundo social).
desenvolveu-se a partir do século XV (...) Já o método de Depois, com a distinção entre objeto material (o fenôme-
investigação difundido por Galileu é mais do que simples no propriamente dito, o que está no mundo, o “ens reale”)
indução ou dedução. Compreende uma série de procedimentos
e objeto formal (o objeto construído, recortado por uma
para testar criticamente e selecionar as melhores hipóteses e
ciência), abre-se caminho para a construção de várias ciên-
teorias para explicar a realidade.” (Gressler, 2003: 27).
cias, já que uma definição científica “é a releitura de um
A necessidade do homem de uma compreensão mais
certo número de elementos do mundo por meio de uma
aprofundada do mundo, bem como a necessidade de pre-
cisão para a troca de informações, acaba levando à ela- teoria» (Fourez, 1995: 46).
boração de sistemas mais estruturados de organização do Contudo, uma análise do processo de fortalecimento
conhecimento. Gérard Fourez destaca que, no início, os das disciplinas que queira ir além da visão da ciência “como
homens se comunicavam a partir de uma linguagem que um processo absoluto e de modo algum histórico” (Fourez,
utilizava um código restrito, em que os objetos do mun- 1995: 59) vai incorporar toda a dimensão política, socioló-
do são descritos sem uma preocupação com o alcance das gica e histórica que levou à consolidação do conhecimento
descrições - não havendo, pois, uma reflexão elaborada. É científico como forma de conhecimento. O ponto de par-
a linguagem do dia-a-dia, “útil na prática e que não leva tida para essa visão é a análise de Rossi, que aponta para
adiante todas as distinções que se poderia fazer para apro- o fato de que as universidades não estiveram no centro da
fundar o meu pensamento” (Fourez, 1995: 18). Mas, com pesquisa científica:
o tempo, passaram a desenvolver um código “elaborado”, “A ciência moderna nasceu fora das universidades,
com o objetivo de tornar as noções mais precisas e siste- muitas vezes em polêmica com elas e, no decorrer do século
matizar os campos de conhecimento. Aqui se tem a origem XVII e mais ainda nos dois séculos sucessivos, transformou-
dos “conceitos”, noção fundamental para a formação dos se em uma atividade social organizada capaz de criar as
campos disciplinares. suas próprias instituições.” (Rossi, 2001: 10)

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
A criação das academias e posteriormente dos institu- observação e apontamentos e na Itália, Galileu Galilei,
tos de pesquisa (p. 337-386) representa não apenas o mo- preocupado em instituir um pensamento baseado na
vimento de “renúncia ao trabalho solitário” (p. 371) como, experimentação, resolveu pôr à prova alguns ensinamentos
principalmente, o fortalecimento do saber científico, com a de Aristóteles.” (Gressler, 2003: 28).
reunião daqueles que partilhavam interesses, conceitos e A fundamentação do projeto de construção do conhe-
métodos, e sua distinção em relação a outros. cimento científico se deu então a partir do trabalho destes
Essa análise é confirmada pela historiografia de Deus três pensadores. Descartes (1596-1650), em obras como “O
(1979, p.12), que analisa a importância da ciência para o discurso do método” e “Meditações”, propôs como ponto
desenvolvimento do capitalismo, desde a astronomia de de partida de todo conhecimento a busca da verdade pri-
Copérnico, que “mina o aparelho espiritual feudal controla- meira que não pudesse ser posta em dúvida. Por isso, con-
do pela Igreja”, passando pelas orientações marítimas para verte a dúvida em método: “Se duvido, penso; se penso,
os comerciantes à procura de novos mercados, chegando à existo” (Cogito, ergo sum). Com isso, Descartes promove
industrialização, quando a ciência torna-se força produtiva, um “questionamento radical do princípio de autoridade
e passa a ser apropriada pelo Estado. Esse processo acon- como forma de conhecimento”, pois sua atitude coloca em
tece com o concurso fundamental do agrupamento dos suspenso as verdades adquiridas por via da tradição e da
cientistas engajados no processo de construção de uma revelação, isto é, do senso comum e da religião (Quinta-
nova forma de apreender o mundo: neiro et al., 1996: 09). Ao mesmo tempo, o pensador fran-
“Os primeiros cientistas eram indivíduos mais ou cês promove a razão, informada pelas regras do método,
menos isolados, profissionais das universidades ou simples à condição de guia supremo do processo de conhecer. Ao
amadores (...). Graças às boas ligações e à maleabilidade teorizar sobre a racionalidade, ele promove uma separação
política, conseguem pouco a pouco agrupar-se em sociedades entre mente e corpo, entre matéria e pensamento, e entre a
científicas e ir ocupando os lugares de controle das velhas razão e as demais formas de conhecimento, nascendo daí a
universidades medievais. (...) A consolidação da ciência, ruptura da ciência com o sensível, a natureza, a imaginação
particularmente marcada do século XVII, significou antes e o sagrado:
de mais nada a consolidação das instituições científicas, a “Para Descartes, o conhecimento sensível (isto é,
criação de comunidades científicas cada vez mais estáveis, sensação, percepção, imaginação, memória e linguagem)
auto-reprodutivas, auto-suficientes.” (Deus, 1979: 15) é a causa do erro e deve ser afastado. O conhecimento
De acordo com Chalmers (1994), a organização de cien- verdadeiro é puramente intelectual, parte das idéias inatas
tistas em comunidades científicas vai ser discutida e anali- e controla (por meio de regras) as investigações filosóficas,
sada por diversos autores, como Imre Lakatos, Karl Popper científicas e técnicas.” (Chauí, 1996: 116)
e Paul Feyerabend, nas décadas de 1960 e 1970, no âmbito Descartes opera uma redução da subjetividade huma-
da filosofia da ciência, a partir de discussões que vêem o na a seus aspectos racionais, o que resultou numa imagem
conhecimento científico como questão política e destacam do cientista como alguém que não pertence a uma coleti-
seu papel ideológico. Deus (1979: 17) destaca também a vidade, que não estabelece relações, como se fosse apenas
contribuição de autores da sociologia da ciência, tais como uma mente pensante, um cérebro - é a idéia do cientista
Robert Mertoon (1979) com sua análise dos imperativos isolado do mundo (Alves, 1987: 10-11). Também é de Des-
institucionais da ciência (entre os quais se destaca o “cep- cartes o mérito de propor, como método científico, a redu-
ticismo organizado”) e de Thomas Kuhn (1975), que analisa ção da complexidade, isto é, separar para estudar, dividir
as comunidades científicas como o suporte material e real o objeto de conhecimento em suas menores unidades e
do saber institucionalizado. estudar cada uma dessas unidades separadamente.
  Já Francis Bacon (1561-1626) tem no “Novum or-
A fundamentação da ciência ganum” uma obra fundamental em que compreende a
Ao apontar o surgimento do método científico no sé- ciência como um novo órgão, um novo sentido do pen-
culo XV, Gressler não descarta que, desde a idade antiga, já samento. Com ele tem início o caráter “prometéico” da
houvesse habilidades e preocupações com uma linguagem ciência: não um saber contemplativo e desinteressado, mas
técnica e uma argumentação lógica fundamentada na ra- um saber instrumental, que possibilite a dominação da na-
zão - como bem demonstra, por exemplo, a geometria de- tureza:
senvolvida pelos gregos. Contudo, a autora particulariza o “Bacon acreditava que o avanço dos conhecimentos e das
projeto científico como uma forma específica de conhecer técnicas, as mudanças sociais e políticas e o desenvolvimento
a realidade desenvolvida com a contribuição de uma série das ciências e da Filosofia propiciariam uma grande reforma
de personagens, destacando-se sobretudo três: do conhecimento humano, que seria também uma grande
“A necessidade de se ter fundamentos sobre o processo reforma na vida humana. Tanto assim que, ao lado de suas
de investigação e sobre a certeza dos resultados despertou obras filosóficas, escreveu uma obra filosófico-política, a
o interesse de pensadores, já no início do século XVI, em Nova Atlântida, na qual descreve e narra uma sociedade
três povos distintos do Ocidente. Na França, René Descartes ideal e perfeita, nascida do conhecimento verdadeiro e do
pautou sua defesa no método dedutivo; na Inglaterra, o desenvolvimento das técnicas.” (Chauí, 1996: 116).
grande teorizador da experimentação, Francis Bacon, deu Bacon propôs uma separação entre a ciência e as hu-
uma configuração doutrinária à indução experimental, manidades (estas preocupadas com a justiça, com as pes-
procurando ensinar alguns métodos rudimentares de soas, com a natureza, com o sagrado) e foi forte propulsor

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
do empiricismo, difundindo a crença de que o ponto de de ordem, a formulação de modelos e leis que explicam o
partida de todo conhecimento deveria ser a observação, a funcionamento dos fenômenos e da natureza, o abandono
descrição fiel da realidade, isenta de julgamentos e inter- dos valores e a busca de um saber objetivo, o uso de hipó-
pretações. teses e de experimentação que permite medir os eventos
Por fim, Galileu Galilei (1564-1642) é reconhecido por com precisão e o rigor do pensamento com a utilização
muitos como o pai do método científico. Seu trabalho é do raciocínio lógico. Alves identifica ainda duas caracterís-
menos filosófico do que o dos dois pensadores citados ticas essenciais. A primeira é a busca por um conhecimento
anteriormente, mas foi sobretudo ele quem enfatizou a geral, universal, aplicável a todos os casos: “Sempre que
atitude empírica na pesquisa científica e, rompendo com passamos do passado para o futuro, ou do particular para
as indicações de Aristóteles que eram tomadas sem ques- o geral, nós ampliamos aquilo que sabemos” (Alves, 1987:
tionamentos por outros pesquisadores, buscou medir os 116). Busca-se tanto as regularidades e uniformidades
fenômenos e fazer observações quantitativas. Dentre suas quanto, também, a possibilidade da previsão. A segunda
diversas contribuições (como a lei da inércia) destaca-se é a falseabilidade, isto é, os enunciados científicos podem
a teoria heliocêntrica, por meio da qual pôde comprovar ser testados para se confirmar se são verdadeiros ou falsos.
as idéias de Copérnico, e pela qual foi submetido a julga- Uma proposição verificável “é aquela sobre a qual, a partir
mento durante a Inquisição em Roma, em 1633. Foi obri- de testes, podemos tomar uma decisão sobre sua verdade
gado a se retratar publicamente do conceito de rotação ou falsidade” (Ibidem: 176).
da Terra em torno do Sol. Nessa ocasião, contudo, após se Entre os objetivos da ciência estão a busca do controle
retratar, teria dito, em voz baixa e olhando para o solo, a prático da natureza, a descrição e compreensão do mundo
frase “eppur si move” (“mas ela se move”), o que se tornou e a possibilidade de predição (Gressler, 2003: 37). Poste-
um dos lemas do pensamento científico. Deve-se a Galileu riormente, ela se alia à técnica - é quando ela realmente
ainda o início do projeto da Mathesis universalis, isto é, a “se destaca” (Ibidem: 24) e passa a resultar numa série de
busca de um ideal matemático. Outra frase sua, “O livro da avanços nos modos de produção da sociedade, tendo seu
natureza está escrito em caracteres matemáticos” (Alves, ápice na Revolução Industrial do século XVIII com grandes
1987: 80), demonstra sua intenção de construir um conhe-
inventos como a lançadeira (1733), o tear mecânico (1738),
cimento em que as relações entre os objetos conhecidos se
a máquina a vapor (1768), a locomotiva (1813), o barco a
expressem em linguagem matemática - o que resultaria na
vapor (1821) e muitas outras que alteraram de forma sig-
produção de um conhecimento exato e preciso.
nificativa as formas de produção e de vida das sociedades.
A ciência, pois, é uma forma de conhecimento que,
Ao mesmo tempo, o conhecimento científico se desenvol-
compreendida num sentido mais específico, surge histo-
ve e busca sua legitimidade a partir de sua institucionaliza-
ricamente no século XVI, dentro do processo da Moderni-
ção nas universidades, conselhos, associações, congressos;
dade de ruptura com o mundo feudal e eclesiástico, em-
institutos, publicações e eventos.
basada filosoficamente pelo Iluminismo e originada com o
Renascimento. “O discurso científico tem a intenção con-  
fessada de produzir conhecimento, numa busca sem fim da A ciência na pós-modernidade
verdade” (Alves, 1987: 170). Para conseguir alcançar esse No século XX a ciência vai ser questionada em vários
conhecimento mais adequado, mais fiel à realidade, a ciên- de seus princípios e suas propostas. De acordo com Santos
cia busca o desejado equilíbrio entre as duas dinâmicas do (1996), o “paradigma dominante”, que é o modelo de ciên-
conhecimento, isto é, a constante renovação e a consolida- cia surgido no século XVI, caracterizado pela luta apaixo-
ção dos conhecimentos já construídos. nada contra todas as formas de dogmatismo e autoridade,
Lakatos e Marconi (1986: 20) identificam como carac- pela busca de leis e da objetividade e pelo uso da mate-
terísticas do conhecimento científico: ser factual (lidar com mática como instrumento privilegiado de análise (apenas
ocorrências e fatos reais), contingente (a veracidade ou o que é quantificável é cientificamente relevante) passa a
falsidade do conhecimento produzido pode ser conheci- sofrer um processo de perda de confiança. Para o autor,
da através da experiência), sistemático (ordenado logica- isso acontece a partir de dois tipos de condições.
mente num sistema de idéias), verificável (o que não pode O primeiro tipo são as condições teóricas, isto é, des-
ser comprovado não é do âmbito da ciência), falível (não é cobertas científicas que colocam em evidências limitações
definitivo, absoluto) e aproximadamente exato (novas des- do modelo tradicional. Entre essas descobertas o autor
cobertas podem reformular o acervo de idéias existentes). destaca as contribuições de Einstein, Heisenberg e Bohr,
Essas características são também levantadas por Al- Gödel, Prigogine e outros que derrubam, entre outros pila-
ves. Para o autor, contudo, não se deve falar em ruptura res do “paradigma dominante”, o mito da objetividade, da
do conhecimento científico com o senso comum. Embora possibilidade de se estudar um objeto sem perturbá-lo, e a
eles sejam “muito diferentes” um do outro (Alves, 1987: 37), idéia de tempo e espaço absolutos.
“existe uma continuidade entre o pensamento científico e O segundo tipo são as condições sociais. Diversas ex-
o senso comum” (Ibidem: 17). Com isso, o autor argumenta periências do século XX, como as duas grandes guerras, as
que a ciência não deve ser vista como uma forma de co- experiências totalitárias, os desastres ecológicos, a submis-
nhecimento completamente distante do fazer humano, do- são da ciência aos interesses militares e econômicos, leva-
tada de autoridade inquestionável. Entre as características ram a uma perda do interesse no conhecimento científico
da ciência, ainda conforme o autor, destacam-se a busca tal como vinha sendo produzido.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Essa foi uma questão amplamente discutida por Ador- Estudos sobre a ciência e o fazer científico
no e Horkheimer (1947/1985) logo após a II Guerra. Os A realização de estudos sobre a produção de conhe-
autores realizam uma extensa análise sobre os processos cimento científico e a necessidade de avaliação do traba-
de dominação na sociedade ocidental contemporânea e lho dos pesquisadores, dos produtos e dos processos de
percebem como a ciência, a partir da razão instrumental, divulgação científica foi um fator condicionante, ao longo
converteu-se em elemento de “mistificação das massas”. do século XX, da evolução de toda uma área do conheci-
Habermas (1989) deu continuidade ao debate buscando mento. Essa área não se desenvolveu de maneira uniforme,
determinar a maneira como a ciência deixou de ser um ele- mas, antes, consistiu na realização de diferentes pesquisas
mento libertador e passou a inserir-se na lógica industrial com várias naturezas, métodos e filiações teóricas. Nela se
da sociedade capitalista. encontram tradições tão diversas como a história da ciên-
Conforme Santos, essas duas condições estariam le- cia, a sociologia da ciência, a teoria do conhecimento e as
vando a uma crise do paradigma dominante e à emergên- preocupações epistemológicas e filosóficas dentro de cada
cia de um novo paradigma. Outros autores têm discutido área específica, entre outras.
a questão. Wersig (1993: 229) percebe a emergência, no Entre os vários campos de estudos dedicados às inves-
século XX, de um novo tipo de ciência, denominada por ele tigações sobre a produção científica, merecem destaque as
“ciência pós-moderna”, voltada não para a compreensão contribuições de dois autores que têm tido um impacto
do modo de funcionamento da natureza, como a ciência fundamental no direcionamento dos estudos contempo-
clássica, mas para a resolução de alguns problemas cau- râneos. O primeiro deles é Bourdieu, cuja importância é
sados pela ciência moderna e suas tecnologias; Morin e salientada a seguir:
LeMoigne apresentam a proposta do pensamento com- “Em artigo bastante conhecido, Pierre Bourdieu introduz
plexo como a forma mais adequada de produção do co- a noção de campo científico, em clara oposição ao conceito de
nhecimento, compreendendo-o como uma evolução da comunidade científica de Kuhn, apesar de incorporar muitos
ciência clássica em vários aspectos como, por exemplo, a dos seus termos. Para Bourdieu, a noção de comunidade
superação da compartimentalização dos saberes (Morin e científica autônoma, insulada e auto-reprodutora, com
cientistas neutros e interessados somente no progresso da sua
LeMoigne, 2000: 199-213); também Capra (1987) percebe
disciplina, esconde, mais que elucida, a dinâmica das práticas
uma grande revolução em todas as ciências com a crise do
científicas na sociedade moderna.” (Hochman, 1994: 208)
modelo cartesiano. Para outros autores, contudo, não se
O autor está se referindo à aplicação, por Bourdieu,
estaria vivendo um momento de crise da ciência. É o caso
de sua teoria dos campos sociais à ciência, definindo esta
de Gomes que alerta para um certo modismo atual de se
como um “campo científico”. Bourdieu (1983) define o cam-
identificar uma “crise dos paradigmas da ciência moderna”:
po social como um espaço configurado pelas relações que
“(...) poder-se-ia detectar tal crise apenas se estivéssemos
ocorrem entre os atores sociais. Nessas relações podem
vivendo uma ruptura revolucionária generalizada. Não me
ser identificadas as posições que os atores ocupam uns em
parece haver qualquer coisa desse tipo no ar. A ciência relação aos outros. Trata-se, na verdade, da retomada dos
contemporânea dedica-se ao labor cotidiano da investigação, princípios marxistas relativos ao conflito e à determinação
discute suas descobertas a partir de categorias comuns, das condições sociais de produção, o que abre caminho
submete-se a discussões com pressupostos comuns, publica para uma abordagem sociológica da ciência que enten-
em periódicos com compreensões comuns de cientificidade... de que “o conhecimento científico, enquanto produto, é
Pode ser que pessoas mais atentas notem algum furor afetado pelas condições de um contexto específico” (Silva,
revolucionário varrendo convicções anteriores; eu consigo 2002: 109) ou, em outros termos, que a verdade científi-
ver um tempo de ciência normal, normal até demais, com ca “reside numa espécie particular de condições sociais de
costumes preguiçosos e arraigados, com distribuição em produção” (Bourdieu, 1983: 122).
formas tradicionais de prestígio e reconhecimento.” (Gomes, Essa compreensão permite entender a ciência como
2003: 319) resultado não propriamente de progressos e questões
De toda forma, percebendo-se um momento de crise “científicas”, mas como resultado dos processos de luta, de
ou apenas um processo de continuidade, o que se pode utilização e busca por recursos e “capital simbólico”, pela
verificar é que a idéia, nascida com a Modernidade, de lógica de “distinção”. Essa distinção pode ser compreen-
ciência como um conhecimento completamente objetivo dida como instâncias de consagração e de prestígio que
(capaz de conhecer um objeto sem qualquer perturbação se relacionam com o grau de aceitação no campo, o que
por parte do sujeito que o conhece), em busca de leis de- implica, entre outras práticas, a aceitação das regras da
finitivas e absolutas, deu lugar a uma compreensão da ati- prática científica:
vidade científica como um “produto social” (Gressler, 2003: “O campo científico exige dos seus participantes um
32), dotado de uma “matriz coletiva” (Alves, 1987: 206), saber prático das leis de funcionamento desse universo, isto
que lida com “objetos construídos” (Demo, 1985: 45). Essa é, um habitus adquirido pela socialização prévia e/ou por
evolução da forma de se encarar a ciência foi possível so- aquela praticada no próprio campo.” (Silva, 2002: 119)
bretudo a partir do momento em que a ciência tornou-se, O habitus, uma das categorias de Bourdieu, diz respeito
também ela, objeto de estudo, a partir da intervenção de àquilo que está introjetado em cada indivíduo, que foi cons-
diferentes disciplinas. truído por suas experiências e história de vida, mas também
  é possível identificar um habitus coletivo ou de grupo.

60
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Cientistas estão constantemente em luta por autorida- Em alternativa às categorias de “objetividade” e “verdade”,
de e reconhecimento, traçando variadas estratégias e efe- Foucault busca compreender a ciência como locus de luta
tuando ações em uma ou outra direção para atingir seus entre sistemas competitivos, isto é, como um conhecimen-
objetivos. As lutas se dão em torno da apropriação de um to que possui um suporte institucional, reforçado por prá-
capital específico do campo e/ou pela redefinição daquele ticas sociais, preciso e definido (controlado).
capital. Nesse esforço, criar ou fortalecer novas áreas ou Ainda para Foucault, “um campo discursivo não se ca-
campos de pesquisa (disciplinas) pode ser, em determina- racterizaria pelos objetos que estuda, pelas modalidades de
dos momentos, a atitude mais interessante ou “lucrativa” enunciação, pelos conceitos ou pelas temáticas privilegia-
dentro do “jogo científico”. São contextos específicos de dos, mas sim pela maneira pela qual se formam os seus ob-
reações e contra-reações à estrutura de posições dentro jetos” (Alvarenga, 1994: 256). A formação de objetos de um
de um campo que motivam a criação de novos campos campo discursivo se dá pela demarcação das superfícies
e a migração de alguns cientistas para estes novos cam- primeiras de emergência (que limita o domínio desse cam-
pos, dando assim origem a novas disciplinas que, com o po), pelas instâncias de delimitação (campos institucionais
tempo, vão buscar se legitimar enquanto campos do co- e disciplinas), pelas grades de especificação (relações entre
nhecimento. Nesse processo, é fundamental a formação de instituições e processos sociais) e pela análise das relações
uma “infra-estrutura” de discursos e de uma dinâmica de entre esses planos. Tudo isso nos dá o contexto no qual
institucionalização que garanta a legitimidade dos novos se origina o conhecimento. Os critérios de cientificidade
campos científicos criados. seriam apenas uma das formas, entre outras existentes, e
Do ponto de vista da filosofia da ciência, um dos auto- que, como ela, são histórica e contextualmente dependen-
res mais importantes voltados para a problemática dos dis- tes, de legitimação de saberes e discursos.
cursos científicos e de sua legitimidade é Michel Foucault. Dentro dessa formulação teórica, cumpre destacar que:
Sobre esse autor é importante destacar que: “A arqueologia não descreveria disciplinas, tomando-
“ao considerar a questão da história e da filosofia do se aqui ‘disciplina’ como ‘conjunto de enunciado que
ponto de vista de Foucault, é preciso primeiramente levar empresta sua organização a modelos científicos que tendem
em consideração que seu interesse não diz respeito à ciência à coerência e à demonstratividade e que são recebidos,
propriamente, mas ao saber; não à sua racionalidade institucionalizados, transmitidos e ensinados como ‘ciência’
imanente, mas às condições externas de possibilidade de sua ‘. As disciplinas, segundo o autor, ‘podem servir de iscas para
existência.” (Portocarrero, 1994: 45) a descrição de positividades’.” (Alvarenga, 1996: 256)
Ao utilizar a expressão “saber”, Foucault salienta o fato Ou seja, também em Foucault, a ciência pode ser vista
de que o discurso científico não é formado apenas por como produto do desenvolvimento histórico e social dos
ciência propriamente dita (pelas teorias e conceitos cien- processos de produção de conhecimento, sendo mais um
tíficos), mas por uma quantidade imensa de saberes po- elemento da realidade a ser estudado e descrito do que
líticos, administrativos, institucionais, culturais, literários, uma categoria “científica”. Ao colocar em suspensão a ca-
artísticos, etc. Com isso se abre a possibilidade de análise tegoria de “cientificidade”, o autor passa a compreender a
da ciência para além dos seus próprios critérios de cienti- ciência dentro de um espectro teórico mais amplo e mais
ficidade, pois são exatamente essas condições de “cientifi- crítico.
cidade” ou de “verdade” que vão ser analisadas pelo autor. Outros estudos relevantes são aqueles que se debru-
Compondo esse conjunto de saberes que o autor identifica çam sobre a comunicação científica, isto é, sobre as formas
como estando presentes na prática científica, Foucault vai como os cientistas se comunicam entre si, trocam informa-
então trabalhar com o discurso científico enquanto “forma- ções e referenciam uns aos outros na produção do conhe-
ção discursiva”: cimento científico. Afinal, entre o início da pesquisa e sua
“A caracterização de um conjunto de discurso pertinente publicação (normalmente em artigo de periódico) há várias
a uma vertente específica do saber, vista por Foucault como instâncias de comunicação e divulgação, em diferentes ní-
uma ‘formação discursiva’, é reconhecida e amplamente veis de abrangência e formalidade. O objetivo dos estudos
aceita por estudiosos da área da análise do discurso e acha- nessa área é conhecer essas atividades de comunicação e
se extensamente trabalhada no livro do referido autor.” divulgação que precedem a publicação do artigo - para es-
(Alvarenga, 1996: 255) tudar os periódicos deve-se conhecer a intensa atividade
O livro ao qual a autora se refere é “Arqueologia do de comunicação que o precede.
saber”, cuja primeira edição data de 1969, em que o autor Os estudos “clássicos” em comunicação científica com-
empreende seu grande projeto de buscar as regras de for- preendem os estudos sobre os colégios invisíveis e sobre
mação de discursos dentro de um campo específico de co- o fluxo de informação. Os colégios invisíveis foram estuda-
nhecimento: “a arqueologia pode assim - e eis um de seus dos por Price, Crane, Crawford, Zaltman, Kohler, Gaston e
temas principais - constituir a árvore de derivação de um muitos outros (Mueller, 1994: 310-311), e podem ser de-
discurso” (Foucault, 1972: 181). O método da arqueologia finidos como grupos não formais de cientistas que estão,
do saber busca uma abordagem dialógica entre o “dado” e num dado momento, trabalhando em torno de um mesmo
o “não-dado”, fazendo emergir o que fica oculto, os com- problema ou área de pesquisa e que se comunicam entre
ponentes históricos e contextuais (Alvarenga, 1996: 254). si sobre o andamento de seus trabalhos. Já os estudos so-
Busca-se, com isso, a superação do positivismo, compreen- bre o fluxo da comunicação científica representam esforços
dendo a ciência dentro dos limites do que é possível dizer. para identificar e representar o fluxo total da informação

61
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
científica e foram desenvolvidos por autores como Garvey,
Griffith, Menzel, Paisley e Lipetz (Mueller, 1994: 312-313). A 5. FILOSOFIA E EXPERIÊNCIA ESTÉTICA.
referência comum a toda essa corrente de estudos é a tra- 5.1 ARTE E ABSOLUTO (HEGEL), ARTE E
dição de pesquisa conhecida como Sociologia da ciência, AFIRMAÇÃO DA VIDA (NIETZSCHE).
cujo precursor, ainda em 1957, é Robert K. Merton e que,
5.2 ARTE E SENTIDO (HEIDEGGER E
na década de 60, se desenvolveu com pesquisadores como
GADAMER).
Crane, David, Encel e Storer, e que se preocupa:
“com fatores como: motivação, reconhecimento, 5.3 ARTE E CAPITALISMO (BENJAMIN,
comportamento, visibilidade, criatividade, que afetam ADORNO E HORKHEIMER).
a produtividade dos cientistas, quer no referente às 5.4 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DESSAS
propriedades psicológicas individuais, quer num contexto QUESTÕES E PRINCIPAIS ARGUMENTOS.
institucional e organizacional na pesquisa.” (Mueller, 1994:
8)
Atualmente estão em destaque os “estudos de labora-
tório” de cunho etnográfico iniciados por Latour e Woolgar Estética (do grego αισθητική ou aisthésis: percepção,
(análise do cotidiano da atividade científica, das práticas sensação) é um ramo da filosofia que tem por objecto o
cotidianas, dos ritos, dos “ciclos de credibilidade” e moti- estudo da natureza do belo e dos fundamentos da arte. Ela
vações). No âmbito dos estudos sociológicos sobre a ciên- estuda o julgamento e a percepção do que é considerado
cia, a proposta de Latour e Woolgar, “da macro para a mi- belo, a produção das emoções pelos fenómenos
croanálise da ciência” (Hochman 1994: 214) marca o início estéticos, bem como as diferentes formas de arte e do
de uma linha de estudos influenciada principalmente pelo trabalho artístico; a ideia de obra de arte e de criação; a
interacionismo simbólico e pela etnometodologia. Nessa relação entre matérias e formas nas artes. Por outro lado,
linha se desenvolve uma nova postura: a estética também pode ocupar-se da privação da beleza,
“É preciso rever essas atitudes epistemológicas em ou seja, o que pode ser considerado feio, ou até mesmo
relação à ciência. Então,”vá ao laboratório e veja”, sugerem ridículo.
Latour, Woolgar e Knorr-Cetina, à produção do conhecimento A estética adquiriu autonomia como ciência,
científico. Isto implica uma recusa a qualquer privilégio destacando-se da metafísica, lógica e da ética, com a
epistemológico em face da descrição etnográfica das práticas publicação da obra Aesthetica do educador e filósofo
científicas. Em vez de impor categorias e conceitos estranhos alemão Alexander Gottlieb Baumgarten em dois volumes,
ao mundo dos observados, os autores defendem que o 1750-1758. Baumgarten traz uma nova abordagem ao
fenômeno deve ser analisado contextualmente, tendo em estudo da obra de arte, considerando que os artistas
vista o que os participantes/observados consideram como deliberadamente alteram a Natureza, adicionando
relevante.” (Hochman, 1994: 214) elementos de sentimento a realidade percebida. Assim,
Outros campos atuais de estudo são o “Programa For- o processo criativo está espelhado na própria actividade
te da Sociologia do Conhecimento”, que estuda a relação
artística. Compreendendo então, de outra forma, o
entre o conhecimento científico e o contexto social, tendo
prévio entendimento grego clássico que entendia a arte
em Bloor e Barnes, da Escola de Edimburgo, seus principais
principalmente como mimesis da realidade.
representantes, e a perspectiva construtivista de autores
Na antiguidade – especialmente com Platão,
como Knorr-Cetina, que estuda a ciência a partir da noção
Aristóteles e Plotino – a estética era estudada fundida com
de “arena transepistêmica”.
a lógica e a ética. O belo, o bom e o verdadeiro formavam
Outras temáticas incorporadas ao campo de pesquisa
uma unidade com a obra.
são as relativas aos condicionamentos das pesquisas por
interesses privados políticos e comerciais (Crossen, 1996), à A essência do belo seria alcançada, identificando-a
divulgação científica como atividade de difusão do conhe- com o bom, tendo em conta os valores morais. Na
cimento, partilha social do saber e atividade de reformula- Idade Média surgiu a intenção de estudar a estética
ção discursiva (Zamboni, 2001), à importância do periódi- independente de outros ramos filosóficos.
co científico (Stumpf, 1996; Targino, 1998), bem como os No âmbito do Belo, dois aspectos fundamentais
estudos sobre divulgação científica centrados nos papéis podem ser particularmente destacados: a estética iniciou-
educacional, cívico e de mobilização popular que a ciência se como teoria que se tornava ciência normativa às custas
tem, ou deveria ter (Albagli, 1996: 397), sobre a inserção da lógica e da moral – os valores humanos fundamentais:
da ciência na problemática da “sociedade da informação” o verdadeiro, o bom, o belo. Centrava em certo tipo de
(Takahashi, 2000; Mattelart, 2002) e mesmo sobre os limi- julgamento de valor que enunciaria as normas gerais do
tes epistemológicos do conhecimento científico (Morin, belo; a estética assumiu características também de uma
1987).5 metafísica do belo, que se esforçava para desvendar a
fundamentos.blogspot.com.br/www.pedagogiaaopedaletra.
5 Fonte: www.educacaopublica.rj.gov.br/www.infoescola. com/www.saberciencia.tecnico.ulisboa.pt/www.mundoedu-
com/WillyansMaciel/www.culturabrasil.org/www.criticana- cacao.bol.uol.com.br/www.pepsic.bvsalud.org/Filipe Rangel
rede.com/www.filosofianocarmo.blogs.sapo.pt/www.infoes- Celeti/ Fábio Valenti Possamai/ Aires Almeida/Carlos Alber-
cola.com//www.resumoescolar.com.br/www.entrenumerose- to Ávila Araújo

62
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
fonte original de todas as belezas sensíveis: reflexo do O movimento característico, estrutural da realidade é
inteligível na matéria (Platão), manifestação sensível da ideia triádico, e eles são comumente chamados de tese, antítese
(Hegel) o belo natural e o belo arbitrário (humano), etc. e síntese.
Mas este carácter metafísico e consequentemente 1. 1. Tese – afirmação;
dogmático da estética transformou-se posteriormente 2. 2. Antítese – negação/contradição;
em uma filosofia da Arte, onde se procura descobrir as 3. 3. Síntese – o novo que surge dos opostos.
regras da arte na própria acção criadora (Poética) e em sua Hegel os concebe como um movimento em espiral, ou
recepção, sob o risco de impor construções a priori sobre o seja, um movimento circular que não se fecha, pois cada
que é o belo. Neste caso, a filosofia da arte se tornou uma momento final, que seria a síntese, se torna a tese de um
reflexão sobre os procedimentos técnicos elaborados pelo movimento posterior de caráter mais avançado.
homem, e sobre as condições sociais que fazem um certo Ele explica esse movimento com o exemplo do
tipo de acção ser considerada artística. crescimento da planta, da seguinte maneira:
Para além da obra já referida de Baumgarten – 1 – Inicialmente existe o botão, tese/afirmação;
infelizmente não editada em português, são importantes 2 – depois temos a flor, que é a contradição/antítese
as obras Hípias Maior, O Banquete e Fedro, de Platão, a 3 – da superação da contradição entre esses elementos
Poética, de Aristóteles, a Crítica da Faculdade do Juízo, de temos o fruto, que é a síntese, o novo, mas que contém as
Kant e Cursos de Estética de Hegel. etapas anteriores em sí.

Idealismo Hegeliano Saber Absoluto


O idealismo de Hegel (1770 – 1831) foi o principal Compreender a dialética da realidade, segundo Hegel,
dentro desse movimento da filosofia alemã. Sua obra exige um trabalho árduo da razão, que deve se afastar do
costuma ser apontada, com frequência, como o ponto entendimento comum e se colocar do ponto de vista do
culminante do racionalismo. Talvez, nenhum outro absoluto.
pensador tenha conseguido montar, como ele, um sistema Esse caminho da consciência que se afasta do
filosófico tão completo. Entre suas principais obras estão conhecimento comum e se eleva ao saber absoluto é o
Fenomenologia do Espírito, Princípios da filosofia do objeto de reflexão do autor em sua obra Fenomenologia
direito e Lições sobre a história da filosofia. Para entender do Espírito.
a filosofia de Hegel, é conveniente situar alguns pontos Hegel compreende esse movimento do real, ou do
básicos a partir dos quais se desenvolve a sua reflexão. Espírito que se realiza, como um movimento dialético que
O primeiro desses pontos é o entendimento da se processa em três momentos:
realidade como Espírito. Esse conceito, desenvolvido a 1 – do ser em-si/espírito subjetivo (finito) a
partir da filosofia de Fichte e Schelling, é ampliado ainda consciência que conhece apenas a si mesmo, ou seja, sua
mais em Hegel. Entender a realidade como Espírito, de subjetividade;
acordo com a filosofia de Hegel, é entendê-la não apenas 2 – do ser outro ou fora-de-si/espírito objetivo
como substância, mas também como sujeito. Isso significa que é a oposição ao espírito subjetivo e consciência da
pensar a realidade como processo, como movimento, e coletividade que se realiza na eticidade da vida política e
não somente como coisa (substância). social, nas leis do Estado. É a consciência realizando-se no
O segundo ponto básico da filosofia hegeliana diz mundo da cultura;
respeito justamente a esse movimento da realidade. A 3 – e finalmente o retorno, do ser para-si/espírito
realidade, enquanto Espírito possui uma vida própria, um absoluto (infinito), a consciência voltando-se para si em
movimento dialético. Por movimento dialético, Hegel quer um autocenhecer-se absoluto, compreendendo-se em sua
caracterizar os diversos momentos sucessivos pelos quais realização. É o momento que só pode acontecer com a
determinada realidade se apresenta. Filosofia, mãe de todos os saberes, o único conhecimento
Nesse exemplo, Hegel ressalta que a realidade não é capaz de fazer o espírito ter a absoluta autoconsciência.
estática, mas dinâmica, e em seu movimento apresenta Hegel afirma que a consciência que alcança o saber
momentos que se contradizem entre si, sem, no entanto, absoluto atinge a razão, ou seja, supera o entendimento
perderem a unidade do processo, que leva a um crescente finito e adquire a certeza de ser toda a realidade.
auto-enriquecimento. Desse modo, a Razão alcançaria a consciência da
Esse desenvolvimento, que se faz através do embate e unidade entre ser e pensar, harmonizando a subjetividade
da superação de contradições, Hegel denominou dialética. e a objetividade. É por isso que para Hegel “o real é racional
Embora esse termo apareça já na Antiguidade, com e o racional é real”.
Platão, em Hegel o conceito de dialética se aplica a algo
totalmente distinto: não é um método ou uma forma de O sistema do espírito absoluto em Hegel obedece a
pensar a realidade, mas sim o movimento real da realidade. uma hierarquia composta pelas figuras da arte, da religião
Por isso, para compreender a realidade, o pensamento e da filosofia, respectivamente. Nesse sentido, poderíamos
também deve ser dialético. considerar a inferioridade da arte em relação às duas
A realidade, para Hegel é um contínuo devir, na qual outras figuras do ponto de vista do conteúdo de cada
um momento prepara o outro mas, para que esse outro uma delas, ainda que as três esferas do Espírito Absoluto
momento aconteça, o anterior tem de ser negado. sejam pensadas como automediação da Ideia. Esta é a

63
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
totalidade e determina-se ao longo de um processo que, Dessa forma, o Estado é a condição necessária para
enquanto exterioridade sensível, apreendida pela intuição, que o indivíduo tenha consciência de si como membro
determina o momento da arte; enquanto interioridade, pertencente do todo. Ele é, portanto, anterior ao indivíduo
apreendida pela representação, determina o momento e é somente nele que o homem possui sua liberdade, pois
da religião (que ainda não é a forma mais acabada da é somente através do Estado que o homem cria as leis que
interioridade); e, enquanto conceito, apreendido pelo vão regular as suas relações sociais.
pensamento, determina o momento da filosofia, que é a Para Hegel, não há liberdade sem lei. Ela é a síntese
união da objetividade da arte e da subjetividade da religião. de todos os interesses e é o que possibilitas a vida em
O privilégio da arte está em manifestar-se sob a forma sociedade, ou seja, o indivíduo fazer parte do todo.
da sensibilidade. A interpretação de Márcia Gonçalves O Estado é para Hegel, portanto, a manifestação do
aponta para o fato de que, no contexto da Estética de espírito objetivo na realidade, é a manifestação máxima
Hegel, não existe tal hierarquia e sim uma superação da da razão, a universalidade que está acima de todos os
ideia de inferioridade ou limitação da arte no sistema interesses individuais. O estado hegeliano é um Estado
hegeliano, “por meio da tese de que o conceito hegeliano Absoluto.
de arte possui uma contradição interna ou imanente entre a Todo o pensamento moderno posterior a Hegel pode
definição de seu conteúdo absoluto ou divino, como ideia, ser visto como uma espécie de acerto de contas com o
e a definição de sua forma finita sensível, que só pode ser “totalitarismo racionalista” hegeliano. Os irracionalismos e
experenciada por meio da ‘intuição’ (Anschauung)”. as filosofia antidialéticas posteriores tem todos em comum
a reação contra a razão que Hegel tentou impor em todos
O espírito objetivo que se manifesta na vida social e os níveis de modo absolutista.
cultural, desenvolve-se na história, que é o desdobramento O próprio totalitarismo político teve a pretensão de se
do espírito no tempo. O espírito objetivo é a realização da legitimar na filosofia de Hegel, que fornece, porém, amplo
liberdade humana na sociedade. material para tal abuso.
A história para Hegel não deve ser vista nem contada Apesar dessa deturpação de sua filosofia, Hegel
como momentos estanques, sem conexão, ou mesmo de renasceu no século XX, e muitos aspectos do seu filosofar
constituem intuições formidáveis e pilares de grande
um ponto de vista neutro. Ela é a contínua evolução da
profundidade nos diversos âmbitos da realidade histórica.
ideia de liberdade do ponto de vista da razão, do absoluto.
Desse modo, se tudo faz parte de um plano racional,
Nietzsche e a afirmação da vida
as coisas ruins como guerras e injustiças sociais devem ser
A afirmação da vida é o núcleo do pensamento de
vistas como contradições necessárias que ao se oporem às
Nietzsche, que formulou uma filosofia não esquemática,
teses formam o movimento dialético que criará o novo, ou
não metafísica, porém prática, viva e empolgante:
seja, a síntese, o progresso da humanidade. As grandes influências de Nietzsche surgiram na época
E o ápice final do progresso do espírito no tempo em que ele era estudante na Universidade de Leipzig. Lá
rumo ao Absoluto é o Estado. Para Hegel, toda a história ele descobriu a filosofia de Arthur Schopenhauer (1788-
da humanidade progrediu para que ela pudesse chegar na 1860) e a música de Richard Wagner (1813-1883), de
mais perfeita forma de convivência social que é o Estado quem se tornou amigo mais tarde. Além da filosofia e
moderno onde a liberdade do indivíduo se efetiva. da música, a Antigüidade clássica grega era seu terceiro
Hegel critica a concepção liberal do Estado proposta interesse primordial. Nos três, se encontrava o papel
pelos contratualistas. Para ele, não existe o indivíduo central da experiência estética. Nietzsche via em Wagner
isolado anterior ao Estado que passa posteriormente a o renascimento da grande arte grega. Mais tarde, o
fazer parte da sociedade. filósofo se distanciou do compositor, por considerar que
Pensar o indivíduo isolado é uma ilusão, pois este já ele se curvava ao gosto do público burguês, e da obra de
nasce pertencente a uma comunidade que possui uma Schopenhauer, por ver em seu pessimismo um sintoma de
linguagem, cultura e tradição. O indivíduo é parte orgânica decadência cultural. Na maturidade, Nietzsche analisou
de um todo, que na filosofia hegeliana culmina na formação a origem e a função dos valores na vida e na cultura,
do Estado. concluindo que uma “moral de escravos” se impôs à
O Estado é a síntese de todos os interesses individuais humanidade desde o predomínio da tradição judaico-
de forma que a convivência social e harmônica só pode cristã. Compaixão, humildade, ressentimento e ascetismo
ocorrer nele. Essa superação das vontades individuais se teriam, então, constrangido a vontade de potência, que
processa da seguinte maneira: seria o princípio de toda a vida. Nietzsche, que abominava
1) A família é a síntese entre os interesses de seus o anti-semitismo e o nacionalismo, foi visto durante muito
membros; tempo como inspirador do nazismo por causa da edição
2) A sociedade civil é a síntese que supera os interesses forjada e mal-intencionada que sua irmã, Elizabeth, fez dos
diversos entre as várias famílias. escritos deixados por ele.
3) O Estado é a síntese final, a unidade mais perfeita
que supera todas as contradições inerentes à sociedade. Para Nietzsche, nesse processo criador que é a
É a manifestação do interesse público, o horizonte que vida, o homem deve tornar-se senhor de si12 mesmo
possibilita ao indivíduo a consciência do que venha a ser gradativamente, como partícipe de um processo lento
o bom comum. e paciente para construir a sua própria escultura,

64
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
desprezando, para tanto, todos os moldes previamente Arte e sentido (Heidegger e Gadamer)
concebidos. Mas, rumo a essa tarefa, cumpre perguntar:
como interpretar a vida como obra de arte? Segundo Heidegger
a interpretação nietzschiana, a vida é comparável à arte,   Em Heidegger, a arte é interpretada a partir da sub-
pois ela também possui os desgostos da criação de uma jetividade, mas como instauração do sentido do ser, como
obra, bem como os prazeres; na arte, assim como na linguagem original, poética, na qual o pensar e o poetar se
vida, o processo de construção pode se tornar doloroso, confundem e se fundem numa única manifestação, isto é, a
mas o resultado final é compensatório. Assim, o homem essência da arte consiste na manifestação da verdade.
convertido, a um só tempo, em criador e em criatura, A investigação do fazer-criativo da obra de arte é como
vê-se obrigado a se comportar como um artista, que se por-em-obra a verdade, ou em outras palavras, a essência
permite passar pelos desgostos e sofrimentos em busca da arte é como uma constante origem da eclosão da ver-
da afirmação da vida, entendendo que ela possui não só dade.
graças mais também dissabores. A obra de arte, é assim, um modelo de operacionali-
A inquirição sobre a origem de uma obra concerne aos zação da verdade, um modo de concretizar na criação de
fisiólogos e vivisseccionistas do espírito: jamais absolutamente um novo ente, a possibilidade de a verdade manifestar-
aos seres estéticos, aos artistas! O poeta e criador do -se em ação, em processo, em devir. A noção de arte, para
Parsifal conheceu uma profunda, radical, mesmo terrível Heidegger, não se submete a uma ação fixa e inerte. Ao
identificação e inclinação a conflitos de alma medievais, um contrário, para Heidegger, a arte consiste em pôr-se-em-o-
hostil afastamento de toda elevação, disciplina e severidade bra a verdade. O enigma que é a arte mesma, antes de ser
do espírito, uma espécie de perversidade intelectual (se me resolvido requer ser visto como tal.
permitem a palavra), tanto quanto uma mulher grávida “A instituição da verdade na obra é a produção um
conhece os desgostos e caprichos da gravidez: os quais, como tal ente que não era e não voltará a passar a ser depois. A
disse, devem ser esquecidos, para se desfrutar a criança. produção instala de tal maneira este ente no aberto que o
(NIETZSCHE, 1998, pp. 90-91). que se intenta produzir clareia originalmente a abertura do
A partir dessa citação, cumpre importante ressaltar
aberto em que se ressai. Onde a produção traz expressa-
que os desgostos existentes na vida para a construção de
mente a abertura do ente, a verdade, aí o produzido é uma
valores são necessários, mas também é interessante notar
obra” (op. Cit, p. 50).
que o filósofo de Genealogia da Moral não só prioriza a
Heidegger, explica a arte a partir da verdade, mas não
vivência desses sofrimentos, mas também sugere um
mediante a noção tradicional da verdade que se distingue
certo afastamento da vida “real”, como faz o artista para a
do belo, do bem, (conceitos platônicos). Para Heidegger,
criação, sugerindo que o homem se aproprie, nesta vida e a
se a verdade é a verdade do Ser, a beleza não pode estar
partir dos instintos, de um mundo “irreal”, para o tornar-se
a si mesmo. Como ele mesmo diz: ao lado da verdade. A verdade é o desvelamento do ente
Devemos nos guardar da confusão em que, por contiguity enquanto tal e, nesta perspectiva, o manifestar-se, na obra
[contiguidade] psicológica, para falar como os ingleses, um de arte, é o manifestar-se da própria beleza. A beleza é
artista cai facilmente: como se ele mesmo fosse o que é este aparecer da verdade na obra enquanto obra. O belo,
capaz de representar, conceber, exprimir. Na verdade, se ele pertence, deste modo, a verdade que acontece por si, isto
o fosse, não o poderia representar, conceber, exprimir; um é, acontecimento que tem origem em seu próprio advento.
Homero não teria criado um Aquiles, um Goethe não teria Paradoxalmente, no entanto, desde que há uma coincidên-
criado um Fausto, se Homero tivesse sido um Aquiles, e cia da beleza com a verdade, e desde que o acesso ao real
Goethe um Fausto. (NIETZSCHE, 1998, pp. 90-91). se faz através da ocupação cotidiana, onde a aísthesis (sen-
Afastar-se da realidade dada seria o ideal do artista, que sação) sempre está presente, o pensamento heideggeriano
vive a arte em prol da tonificação da vida, e assim deverá possui um caráter estetizante.
ser o “ideal” do homem criador; a ele cabe se distanciar da A pergunta inicial sobre a essência da arte leva à iden-
moralidade que o cerca, do que é o “real” para ele, de sorte tificação entre arte e Poesia. Identificação essa que se
a construir a sua própria vida como obra de arte, sendo processa através da mediação da verdade. A arte é Poesia
que, nessa criação, a primeira virtude que ele deve buscar como o por-em-operação da verdade. Poesia, no ensaio de
é ousar ser ele mesmo. Heidegger, é tomada em sentido amplo. Engloba todas as
O homem nesse “espetáculo” é singular, único, artes; desde a arquitetura até a própria poesia.
possuindo a sua individualidade aflorada e encorajando- Se a Poesia é a essência da arte, a essência da poesia é
se para uma só lei: afirmar a vida. O homem, nesse papel a instauração da verdade. O filósofo distingue um tríplice
de criador do seu próprio devir, faz-se presente em todo sentido no verbo instaurar: doar, fundar e começar. A cada
os atos de sua existência, ou seja, ele é tanto ator como modo de instaurar corresponde um modo de contemplar.
criador de seus valores, responsável pelas suas ações e Não só a criação é poética. Também a contemplação é
controlador do movimento de seus impulsos; não busca poética. A arte é instauração no terceiro sentido, isto é, de
mais explicações de seus atos metafisicamente, não age provocação da luta da verdade, instauração como começo.
mais porque se vê sob um olhar do outro, mas porque A arte permite o brotar da verdade. A arte brota como a
regula o seu agir como se tratasse de uma obra de arte contemplação que instaura na obra a verdade do ente. In-
em constante criação – e, por esse trilho, em constante sere-se aqui a referência à dimensão histórica. A arte é his-
afirmação da vida. tórica. A pergunta pela origem da obra de arte – pergunta

65
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
que abrange a criação e a contemplação – conduz à arte. é tomada nem como domínio de realização cultural, nem
Isto porque a arte, em sua essência, é uma origem e não como uma das manifestações do espírito, ela pertence
outra coisa: uma maneira extraordinária de chegar a ser a àquilo que olhando, não é visto, e aquilo a partir do qual
verdade e fazer-se histórica. se determina o sentido do ser. O empenho de Heidegger
“Fazemos agora a pergunta sobre a verdade em busca é colocar em primeiro plano a obra de arte, deixá-la ser o
da obra. Para que, todavia, nos possamos familiarizar com que é, libertá-la das ciladas do subjetivismo estreito, a fim
o que está em questão, é necessário tornar de novo visível de que possa por em operação a verdade, onde reside o
o acontecimento da verdade da obra” (op. cit., p. 32). significado ontológico da arte. Porém, a verdade da arte
Mediante tal, se nos apresentam duas questões: o que não é absolutamente primeira, ela se funda na identidade
é a arte? E o que é a verdade em referência à obra de arte? da verdade do ser, ou seja, a arte é uma das maneiras de
A primeira meta é a busca da realidade da obra, visto que exercer a verdade do ser.
a arte se realiza na obra de arte. Na segunda questão, pro- Necessariamente, em Heidegger, a beleza é um modo
põe o filósofo fazer visível novamente o acontecimento da de ser da verdade. Significa que a beleza não pode ser des-
verdade na obra. vinculada da verdade. Se a verdade é a desocultação do
A verdade para se instalar, necessita da luta num ente ente, enquanto ente, o ato de aparecer ou manifestar-se é,
que se produz. Como conseqüência da luta temos uma precisamente beleza. Por isso, o belo faz parte do aconte-
fenda. A fenda propicia o estabelecimento da verdade. cer da verdade: “a partir dele e nele é que ele é devolvido
Outro aspecto a ser sublinhado do ser-criado da obra de a si próprio, para o cumprimento da vocação a que se des-
arte é o testemunho, simples e inequívoco, de que estamos tina” (op. cit., p.32).
diante de algo que foi feito. A indicação do nome do artis-
ta criador é secundária. Talvez seja preferível ignorarmos o Gadamer
nome do artista e as circunstâncias que envolvem o surgi- Para se entender a arte em Gadamer, é preciso primei-
mento da obra. A obra de arte oferece-se ao espectador ramente entender o sentido de verdade na arte. A verdade
em toda a sua pureza como algo que é. É o desdobrar-se não tem no pensamento gadameriano o mesmo sentido
da não-ocultação do ente. Atingimos, destarte, a essência no processo filosófico, pois ele faz um retorno ao sentido
do ser-criado da obra e, com isso, estamos em condições no qual a verdade é vista como experiência ou hermenêu-
de dar um passo decisivo. tica.
Por mais importante que seja a conquista da essência Ele não discute a arte como forma de definição do belo
do ser-criado, a realidade da obra de arte não se exaure ou de conceituar as diferentes formas de arte. Ele quer de-
no ser-criatura. Faz-se mister deixar que uma obra seja o monstrar simplesmente que a arte é uma forma de verdade
que é. Isto nada mais é do que a contemplação. A contem- sobre o mundo e não um estado alterado do sentimento
plação para Heidegger, é tão importante quanto a criação. individual. A arte não é uma diversão inocente ou um de-
Ambas são essenciais ao ser-criatura da obra. Mas não bas- leite, mas sim um ponto crucial de aceso ás verdades fun-
ta qualquer tipo de contemplação. É imprescindível que a damentais sobre o mundo. (LAWN, 2007, p. 117)
contemplação faça justiça à obra. Ou em termos heidegge- Dentre as artes de que Gadamer trata, ele aponta as ar-
rianos, exige-se uma contemplação que corresponda a ver- tes plásticas que permitem uma hermenêutica muito inte-
dade que acontece na obra. “A essência da arte é a Poesia. ressante pelo fato de que o quadro tem uma vida própria,
Mas a essência da Poesia é a instauração da verdade” (op. uma vez que ele permite experimentarmos o passado no
cit., p. 60). qual ele foi pintado dando ao seu observador uma inter-
Mediante o exposto, acreditamos e interpretamos a pretação diferente do que o pintor quis retratar e que pode
atitude de Heidegger, como uma tentativa de superação esconder verdades a serem reveladas a quem o admira “A
da experiência estética, concebida em termos acanhados arte revela verdades sobre nós mesmos que nenhuma pes-
de um conceito formalista de beleza em favor de uma ex- quisa científica jamais conseguiu” (LAWN, 2007, p. 117).
periência mais abrangente acerca da arte. Nesta linha, a No senso comum o quadro é visto como simples obra
obra de arte se afirma como apelo à verdade no sentido de arte que deve ser apreciada pela sua beleza ou pelo
mais amplo e pleno da verdade. Heidegger, no transcorrer fato de seu pintor ser famoso, não se tendo o cuidado de
de todo o seu ensaio (A Origem da Obra de Arte), evita cui- prestar atenção ao que a obra diz em suas cores e contor-
dadosamente o dualismo sujeito-objeto. Mas, ao final, não nos. Em sua grande parte os observadores não dedicam
pode evitar a referência à contemplação. Referência esta sua atenção às afetações proporcionadas pela obra de arte,
que se encaixa em sua concepção de obra de arte. Cabe a pelo fato de estarem mais preocupados em ver a obra do
contemplação deixar que a obra seja o que é. O sujeito, na que entender sua linguagem, linguagem esta que expressa
contemplação, deve render-se à obra. Se a primeira pala- uma vida que gira em torno do quadro e que não é com-
vra cabe a obra é porque na contemplação, o sujeito deve preensível por aqueles que não percebem a vida existente
estar atento à obra. Daí não ser incoerência apresentar a no quadro e que foi retratada pelo pintor, muitas vezes re-
contemplação em igualdade de condições com a criação tratando o cotidiano da vida e remetendo-nos a nós mes-
artística: ambas são essenciais. mos.
Heidegger, formula assim uma ontologia da arte. A O mundo existente dentro da obra de arte é um mun-
meditação daquilo que pode ser a arte é inteira e deci- do diferente que permite a cada um reconhecer o seu
didamente determinada pela questão do ser. A arte não próprio mundo interior naquela tela. Ela fala talvez de um

66
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
passado que está presente no inconsciente ou mesmo no sua expressão própria e essa permite várias interpretações,
consciente e que permite aos observadores sentir alegrias as quais não a mudam “O sujeito da experiência da arte, o
ou angústias como no quadro o Grito de Munch, no qual que fica e persevera, não é a subjetividade de quem a ex-
está expresso o desespero que pode ser interpretado como perimenta, mas a própria obra de arte.” (GADAMER, 1997,
desespero do ser humano frente à realidade que ele en- p. 175)
frenta diariamente. O contexto da obra pode ou não dizer Que jogo é esse da arte? O jogo da arte é aquele no
algo, mas certamente ela dirá da experiência vivida pelo qual o pintor expressa sua condição humana e o observa-
pintor ou de suas esperanças futuras. dor tenta, depois de captá-la na obra, entender o que foi
O pintor, num quadro, pode representar o sofrimento, expresso. Porém não é só isso. O jogo é a própria obra de
querer impressionar com pinturas disformes ou mesmo na- arte em seu modo de ser, que foge de toda subjetividade
tureza morta e isso dizer algo. Mostra-se na natureza mor- provocada pela liberdade de interpretação. Uma mesma
ta a finitude do homem e a deformidade nos contornos obra de arte pode ser vista por várias pessoas e haver di-
lembra que existe uma estética, mas que ela não é tudo. ferentes intepretações, ou pode-se ver a mesma obra di-
O trabalho de arte revela aspectos de um mundo hu- versas vezes sempre encontrando novos pontos a serem
mano e de suas limitações, tanto quanto nós revelamos interpretados.
aspectos do mundo do trabalho de arte (e suas imitações) O significado dos trabalhos de arte é aquilo que é re-
em sua totalidade inquietante, pois está constantemente velado e exposto na oscilação entre o trabalho de arte e o
mudando. (LAWN, 2007, p.126) interprete. O significado do trabalho de arte nunca é final,
Existe na obra de arte uma linguagem que frequen- assim como um jogo nunca atinge sua verdadeira finalida-
temente não é notada pelo admirador da obra, que é a de; o jogo pode sempre ser jogado novamente e os joga-
expressão da obra em si mesma e na qual está expressa dores sempre serão atraídos pelos seus horizontes (LAWN,
a identidade daquela obra fazendo-a diferente de outra. 2007, p. 123)
Mesmo que esta outra obra seja uma reprodução idêntica, Gadamer usa o termo jogo para falar do movimento da
ela não será a obra que transmite a sensibilidade do autor. obra de arte que se revela a quem a observa para que seja
Por isso, ao tentar compreender uma obra de arte o interpretada.
que conseguimos fazer é subjetivá-la, pois o que apreen- Existe no pensamento gadameriano a questão da lin-
demos dela não é o que ela expressa em si mesma, mas o guagem, a qual pode ser vista na conversa como forma
que se consegue entender dela.  Um exemplo disso está no
de comunicação ou no diálogo que acontece entre inter-
sorriso da Monalisa de Da Vinci, que não revela o pensa-
locutores sobre um determinado assunto. Mas Gadamer
mento do autor, mas nos permite infinitas interpretações.
vê também outras possibilidades de linguagem, como é o
“Cada uma das obras da arte plástica pode ser ‘diretamen-
caso da obra de arte, a qual se comunica sem dizer palavra
te’ experienciada por si mesma, isto é, sem que necessite
alguma e exige de seu observador uma abstração, pois ela
de outra intermediação” (GADAMER, 1997, p. 220).
ultrapassa o que seu pintor quis representar “O significado
 Essas interpretações é o que Gadamer vai chamar de
“subjetivação” da arte, na qual a experiência pessoal de da pintura nunca é totalmente revelado, pois é sempre o
cada observador vai indicar qual a afetação que aquela mundo da pintura enquanto se engaja em diálogo com o
obra terá sobre ele. mundo do observador.” (LAWN, 2007, p. 124)
Quando um quadro é pintado, o autor coloca na tela O símbolo na cultura popular contém uma forma de
os seus sentimentos, suas impressões sobre determinado linguagem assim como o quadro, mas ele não é obra de
fato da vida ou sobre uma paisagem que de alguma forma arte, pois existe uma diferença entre a obra de arte e o
o afetou, mas aquele que observa a mesmo quadro pode símbolo. A diferença está na representação, conforme nos
e certamente terá outra visão que não foi a expressa pelo diz Lawn sobre o pensamento de Gadamer: “o trabalho de
pintor e isso é que faz a obra de arte grandiosa, pois fazen- arte, apesar de simbólico, não representa outra coisa, ou
do parte da história, permite a cada um dialogar com ela e ocupa a posição de um significado oculto que precisa ser
tentar entender o que a obra de arte quer dizer. esclarecido ou explicado” (LAWN, 2007, p. 126). Gadamer
O trabalho de arte exibe a si mesmo, mas como um fala do cuidado que se deve ter para que a obra de arte não
símbolo é um veículo para tentativas de auto reconheci- seja transformada num simples símbolo, mas ele fala desse
mento. Nós procuramos nos entender no trabalho de arte; cuidado no sentido de que o símbolo pode ter um código
é por isso que arte captura e intriga tanto, atraindo-nos ao oculto que precisa ser decifrado para ser compreendido. A
seu mundo, por mais remoto e distante que este mundo arte não é somente símbolo, mas pode ser simbólica como
nos pareça inicialmente. (LAWN, 2007, p. 126) a arte sacra. Ela não se reduz ao símbolo, mas vai além
A obra de arte nos permite fazer um jogo no qual se dele. O objetivo da arte sacra enquanto símbolo, exemplo
tenta entendê-la e ela mostra quem somos através dos que utilizamos, é aproximar Deus do homem para que o
questionamentos que nós mesmos levantamos ao obser- homem possa fazer uma experiência de Deus.
vá-la. Este é um jogo hermenêutico no qual a experiência Portanto, como vimos, dentro da obra de arte existe
realizada apontará o resultado, pois a obra de arte deve comunicação e a interpretação dessa comunicação depen-
ter como objetivo causar mudanças nos seus observadores. de do observador, apesar de se ter a consciência de que a
Ademais, é possível pensar que o homem, ao olhar a comunicação feita pelo autor não será a mesma interpre-
obra de arte, se percebe nela enquanto é tocado pelo que tada por ele. A obra transmite uma visão que o autor tem
ela expressa. Mas deve-se ter em mente que a obra tem daquilo que é retratado, é uma interpretação dele sobre o

67
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
que está sendo pintado, mas ela tem um sentido próprio Ainda no artigo A obra de Arte, Benjamin apresenta
por ter vida, girando em torno dela, permitindo várias in- um novo conceito aos estudos da arte, o conceito de
terpretações, pois cada observador será afetado pela obra aura. Segundo ele, a obra de arte possui um caráter
de arte de uma forma e com uma intensidade diferente do extremamente único, a “Aura”, expresso através de dois
outro. advérbios: “O aqui e o agora” (hic et nunc): palavras que
representam a autenticidade artística intimamente ligada
Arte e capitalismo (Benjamin, Adorno e Horkheimer) ao espaço e ao momento histórico na qual a obra está
Compreender o processo de reprodução da obra de inserida.
arte e, aí, o uso da técnica é de fundamental importância Benjamin (1994, p. 170) descreve que a aura “É uma
para se entender o modo como a tecnologia se relaciona figura singular, composta de elementos espaciais e
com o saber científico e cultural. Pensando nisso, este temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais
trabalho propõe uma reflexão sobre alguns aspectos da perto que ela esteja.” Chauí (2005, p.278) dá as seguintes
teoria crítica (Escola de Frankfurt), mais especificamente, explicações sobre o que seria a aura:
das obras dos pensadores Walter Benjamin, Theodor A aura, explica Benjamim, é a absoluta singularidade de
Adorno e Horkheimer. Para tanto, far-se-á um confronto um ser —natural ou artístico —, sua condição de exemplar
de dois artigos, a saber: “A Obra de Arte na Era de Sua único que se oferece num aqui e agora “irrepetível”, sua
Reprodutibilidade Técnica” de Walter Benjamin, e “Indústria qualidade de eternidade e fugacidade simultâneas, seu
Cultural: o Iluminismo como Mistificação das Massas” de pertencimento necessário ao contexto em que se encontra
Theodor Adorno e Max Horkheimer. e sua participação numa tradição que lhe dá sentido. É, no
A obra de arte como forma de conhecimento é caso da obra de arte, sua autenticidade, isto é, o vínculo
reprodutível, seja uma reprodução manual ou técnica. Isso interno entre sua unidade e sua durabilidade. A obra de
é bastante notório até mesmo na origem do vocábulo arte possui aura ou é aurática quando tem as seguintes
arte, que deriva da palavra latina ars que, por sua vez, qualidades: é única, una, irrepetível, duradoura e efêmera,
corresponde ao termo grego tékhne, que significa “toda nova e participante de uma tradição, capaz de tornar
atividade humana submetida a regras em vista da fabricação
distante o que está perto e estranho o que parecia familiar
de alguma coisa”. Sempre presente no decorrer da história
porque transfigura a realidade.
da arte, a reprodução se intensifica após a revolução
Pode-se inferir que a aura é o que dá vida à arte, que
industrial. Com o uso da técnica sua reprodutibilidade
a torna atemporal, irrepetível, capaz de causar emoções
se acentuou, tendo em vista a possibilidade de uma
ímpares ao que está distante e ao que está perto. É possível
reprodução em massa. No artigo “A Obra de Arte” de Walter
constatar que é essa aura que faz a arquitetura diferenciar-
Benjamim, publicado pela primeira vez em 1934, o referido
autor faz um pequeno percurso histórico sobre o processo se de simples edificações, que faz a pintura diferenciar-se
de reprodução da obra de arte, procurando demonstrar o de alguns quadros efêmeros, que faz a literatura distinguir-
progresso proporcionado pela reprodutibilidade: se dos demais usos da linguagem. Enfim, que faz da arte
Conhecemos as gigantescas transformações um elemento único.
provocadas pela imprensa — a reprodução técnica da A reprodutibilidade da obra de arte estaria, justamente,
escrita. [...] A xilogravura, na Idade Média, segue-se a ligada ao declínio da aura3, que, por sua vez, decorre do
estampa em cobre e a água forte, assim como a litografia, desejo ou necessidade de quebrar a distância dos objetos
no inicio do século XX. [...] Dessa forma as artes gráficas artísticos da sociedade, tendo em vista que até o advento
adquiriram os meios de ilustrar a vida cotidiana. Graças à industrial a obra de arte possuía uma existência única e
litografia, elas começaram a situar-se no mesmo nível da que, para contemplá-la, era necessário deslocar-se de sua
imprensa. Mas a litografia ainda estava em seus primórdios, comunidade para o local de apreciação do objeto artístico.
quando foi ultrapassada pela fotografia. Pela primeira vez Essa existência única é transformada em uma existência
no processo de reprodução da imagem, a mão foi liberada serial:
das responsabilidades artísticas mais importantes, que agora o que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da
cabiam unicamente ao olho. (BENJAMIN, 1994, p. 166-167) obra de arte é a sua aura. [...] Generalizando, podemos dizer
Nota-se que ao descrever a evolução da que a técnica da reprodução destaca do domínio da tradição
reprodutibilidade, Benjamin preocupa-se em demonstrar o objeto reproduzido. Na medida em que ela multiplica a
que a reprodução técnica veio contribuir positivamente ao reprodução, substitui a existência única da obra por uma
processo de produção. Pode-se inferir que certo otimismo a existência serial. (BENJAMIN, 1994, p. 168)
esse respeito não era infundado e que muitas dessas técnicas A reprodução, portanto, transformaria o caráter
(porque não dizer todas) trazem mesmo contribuições de ritualista da obra de arte, destacando-o da tradição. Nesse
grande relevância, promovendo principalmente o acesso aspecto, o objeto artístico deixa de ser compreendida
a obras anteriormente inacessíveis à grande parte da como símbolo religioso e transfigura-se em inúmeras
população. A fotografia e a imprensa são exemplos claros cópias tecnicamente reproduzidas.
disso. A imprensa possibilitou a reprodução em massa de Benjamim acreditava que a reprodutibilidade e, por
diversos tipos de literatura e possibilitou o acesso a esse sua vez, o “declínio da aura”, proporcionaria o acesso das
saber até então restrito a poucos grupos. Da mesma forma obras de arte à população, que reprodução técnica seria
a fotografia possibilitou a apreciação de diversas obras instrumento de democratização do saber artístico. Certo
artísticas, pinturas, esculturas, arquitetura, etc. disso, Benjamim (1994, p. 168) afirma que a reprodução

68
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
técnica “pode, principalmente, aproximar o individuo não pelo seu contexto objetivo — que desaparece tão
da obra, seja sob a forma de fotografia, seja do disco. A logo se dirige a faculdade pensante —, mas por meio dos
catedral abandona seu lugar para estalar-se no estúdio de sinais. Toda conexão lógica que exija alento intelectual é
um amador; o coro, executado numa sala ou ao ar livre, escrupulosamente evitada. (ADORNO E HORKHEIMER,
pode ser ouvido num quarto.” 2000, p. 185)
Nota-se facilmente que Benjamin (1994) atribui à Em harmonia com Adorno e Horkheimer, Chauí (2005,
arte e, por sua vez, também à reprodutibilidade, um p. 292) enfatiza que a indústria cultural vende cultura e
caráter político, que poderia facilmente ser chamado de “para vendê-la, deve seduzir e agradar o consumidor. Para
democratizante. De certa forma, não se pode negar, que seduzi-lo e agradá-lo, não pode chocá-lo, provocá-lo,
em algumas situações, tal reprodução age no cumprimento fazê-lo pensar [...]. A “média” é o senso comum cristalizado
desse objetivo. Ela proporcionou a apreciação de grandes que a indústria cultural devolve com cara nova.” Ressalta-
clássicos, antes restrita a uma pequena minoria de se, neste sentido, aquilo que Adorno e Horkheimer (2005)
privilegiados. chamaram de “conteúdos esvaziados.”
Chauí (2005, p. 290) afirma que “o otimismo de Adorno e Horkheimer (2000, p.176) afirmam que
Benjamin não era infundado. Basta para isso levarmos “quando se adapta Mozart não se limita[ndo] a modificá-lo
em consideração os efeitos sociais e políticos do primeiro onde é muito sério e muito difícil” e quando se direciona
grande meio de comunicação de massa, isto é, a invenção para “a tortura do herói ou para a minissaia da atriz principal
da imprensa de Gutenberg, no século XV, para verificarmos no lengalenga do filme de sucesso” a obra de arte perde
sua importância para a democratização”. Benjamim estava suas características em prol do mercado. Endossando essa
contundentemente à frente de seu tempo ao perceber perspectiva Chauí (2005, p. 191) escreve que “ao fazer essa
o poder da técnica sobre a obra de arte. Entretanto, apropriação, a indústria cultural não só vai eliminando os
é necessário perceber outro aspecto do fenômeno aspectos críticos, inovadores e polêmicos das obras, mas
reprodutível, a Indústria Cultural. vai também as transformando em moda, isto é, em algo
passageiro que deve vender muito enquanto é novo e, a
seguir, desaparecer sem deixar rastro.”
A Indústria Cultural
Para se pensar a questão da indústria cultural nos
Diante das observações já realizadas sobre a dupla
deteremos a fazer algumas considerações sobre aqueles
face da reprodução técnica, vale ressaltar a necessidade de
que primeiramente usaram este conceito, Adorno e
se pensar essa questão em descontinuidade. A atribuição
Horkheimer. Os referidos autores apresentam uma
arbitrária de que a técnica sobre a arte tem um caráter
perspectiva que se contrapõe aos ideais benjaminianos.
unicamente alienante não leva em conta toda a dinâmica
No artigo A indústria cultural, que data o ano de 1947,
das relações sociais advindas da reprodutibilidade técnica.
Adorno e Horkheimer introduzem a expressão indústria Com efeito, em diversos casos, a reprodução mecânica
cultural que denota o uso da técnica industrial visando proporcionou às massas o acesso e apreciação da arte. Não se
à comercialização da obra de arte. Nele, apresentam pode, entretanto, negar a existência de uma cultura de massa
uma opinião totalmente pessimista, segundo a qual a alienante, estimulada em prol de objetivos mercadológicos.
reprodutibilidade técnica, que os mesmos chamaram de Assim, o problema não está na reprodutibilidade da
reprodução mecânica, nas mãos da indústria cultural, seria arte, nem mesmo só no fato de que tal reprodução se dê
utilizada como instrumento de dominação e alienação através da indústria, o x da questão está no esvaziamento
econômica e cultural. da obra de arte, que é, com as suas exceções, mutilada
Ainda no mesmo artigo, Adorno e Horkheimer acusam pelos interesses mercantis. Através da apropriação e do
ainda a “sétima arte” de camuflar a realidade e de usar a esvaziamento, a indústria transforma a obra de arte em
técnica na arte para fins econômicos dominantes. Percebe- apenas mais um produto delineado pelos desejos sociais,
se, portanto, um viés de disparidade existente entre os pela moda, pelo capital, tornando-a efêmera.
ideais de Benjamin e as premissas de Adorno e Horkheimer, Pode-se inferir que essa é a principal diferença entre as
enquanto aquele apregoava a libertação e democratização ideias de Benjamin e as de Adorno e Horkheimer: aquele
do saber cultural, estes percebiam a alienação e a prisão idealizou uma sociedade socialista, cujo cinema estaria nas
da arte, na época de sua reprodutibilidade, não mais à mãos do proletariado, o que democratizaria o saber cultural.
tradição, mas aos padrões capitalistas da nossa sociedade. Estes, por sua vez, visualizaram a perspectiva capitalista do
Nesse sentido, a indústria cultural surge como um mesmo fenômeno cultural. Levaram em consideração que
instrumento de alienação cultural e ideológica, preocupada a arte seria administrada por empresas capitalistas que não
em formar consumidores, sem nenhuma obrigação crítica estão preocupadas com a qualidade das reproduções, mas
e sem comprometimento com a qualidade das obras ao contrário, com a sua reprodução modificada de acordo
tecnicamente reproduzidas. Sobre essa indústria, Adorno e com as necessidades do mercado.
Horkheimer enfatizam:
O prazer congela-se no enfado, pois que, para  Contextualização histórica:
permanecer prazer, não deve existir esforço algum, daí que A sensibilidade de quem admira um objeto (qualquer
deva caminhar estreitamente no âmbito das associações ser ou paisagem) Quem é bonito? Quem é feio? O que é
habituais. O espectador não deve trabalhar com a bonito? O que é feio? Qual expressão artística pode ser
própria cabeça; o produto prescreve qualquer reação: considerada bonita, feia, boa ou ruim?

69
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
O certo é que todas as vezes que observamos algo,
sentimos e escutamos qualquer coisa, os nossos órgãos
sensoriais produzem informações para o nosso cérebro
que rapidamente processa e nos proporciona uma inter-
pretação sobre o que nos cerca. Geralmente esta interpre-
tação pode nos levar a um sentimento de prazer, aprova-
ção, reprovação, nojo, beleza, feiúra, etc.
E isso tudo ainda depende de como a nossa sociedade
percebe as coisas e de como nós absorvemos da socieda-
de esses significados. Assim, as ideias de belo, feio, bom,
ruim estão intimamente ligadas à cultura à qual pertence-
mos.
Mas como identificamos ou como escolhemos o nosso
estilo musical, o estilo de pintura, o tipo de filme ou peça
de teatro que gostamos de assistir? Qual o melhor ou pior
estilo? Para tentar responder a estas questões, a Filosofia
possui um ramo de estudo chamado: “Estética”.

ARTE
Do latim, ars, artis significa: o “ato de fazer”. Para os
Gregos Antigos, a arte significava o domínio do ser hu- “Os Retirantes”, de Portinari. 1944.
mano de uma ou mais técnicas. Deriva daí a ideia de que
saber faze r algo muito bem feito é uma arte, por exemplo: Na religião, a arte serve para a representação do sa-
a arte da guerra, a arte da política, a arte de fazer parto, grado e está a serviço das instituições religiosas e de suas
da medicina, do direito, etc. Deste modo, arte é o ato de crenças. A arte está presente nas pinturas, esculturas, hi-
fazer a obra que será admirada, seja ela uma canção, uma nos e arquitetura dos templos religiosos. A maior repre-
escultura, uma poesia, uma dança, uma arquitetura. A es- sentação de arte sacra está relacionada à Igreja Católica na
tética será, portanto, a disciplina que irá estudar, analisar a forma das imagens e esculturas que representam todas as
relação existente entre a arte e o homem. divindades do cristianismo católico.
Mas o que determinaria o ato de fazer uma obra de
arte? A resposta mais aceita é a personalidade do artista
e o contexto histórico-cultural do qual o artista faz par-
te e todas as influências que ele possa receber. Para Gallo
(1997), o próprio artista é quem determina a funcionalida-
de de sua obra.
Na política, por exemplo, o artista pode retratar uma
injustiça, um problema social, uma ideologia. A obra
“Os  retirantes”, de Cândido Portinari (1903-1962), repre-
senta a vida difícil dos milhares de brasileiros que migram
de cidades do interior para os grandes centros em busca
de melhores condições de vida. A imagem retrata a ma-
greza, a fome, a miséria e o sofrimento das pessoas que se
encontram nesta situação.

Anjo com o cálice da Paixão, na Via Sacra de Congonhas.

Na educação, a arte assume o compromisso com o


lúdico, ou seja, busca, a partir da perspectiva pedagógi-
ca, ensinar as pessoas a compreender o mundo a partir da
criação de obras artísticas.

70
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
todas as manifestações artísticas. Assim, já na Grécia Anti-
ga, outros filósofos já faziam o uso da palavra “estética”
que deriva da palavra grega aesthesis e que significa sensi-
bilidade. Deste modo, no sentido mais estreito do significa-
do, a palavra “estética” significa: “sensibilidade”.
Atualmente, seu significado moderno corresponde a:
“doutrina do conhecimento sensível”. Baumgarten definiu
a estética como sendo uma disciplina que deveria refletir
sobre as emoções produzidas pelos objetos que são admi-
rados pelos seres humanos. O autor ainda afirmava que a
estética deveria ser abordada de forma subjetiva, ou seja,
a partir da consciência da cada indivíduo.
Este filósofo da arte entende que a única forma de se
apreciar uma obra de arte se dá pela sensibilidade do ob-
servador. Ela, a sensibilidade, só é possível quando o obser-
vador se permite contemplar a arte a partir da sua própria
subjetividade.
Na arte naturalista, Gallo (1997), menciona a finalida-
de de retratar a realidade tal como ela é. Podemos assim RELAÇÃO ENTRE ARTE E NATUREZA: são três con-
representar a realidade através de um quadro de natureza cepções.
morta, com uma foto 3×4 ou a pintura de uma paisagem 1. Arte como imitação: arte dependente da natureza.
ou de uma pessoa. Nesta concepção encontramos a inspiração do artista alta-
mente atrelada à cópia de algum elemento pertencente à
Há ainda a arte da técnica formalista, na qual a preocu- própria natureza, que é representado em uma pintura ou
pação central do artista é o emprego correto de uma téc- escultura. Também é conhecida como arte morta.
nica específica para realizar uma obra de arte. Exemplos:
Impressionismo, Expressionismo, Cubismo ou Surrealismo.

Metamorfose de Narciso, de Salvador Dalí.

O conceito moderno de arte estaria contido nos traba-


lhos de Kant. Basicamente, o filósofo fez a seguinte diferen-
ciação: arte e natureza de arte e ciência. Para a primeira,
distingue-se o significado de arte no sentido de haver uma
arte da mecânica, na qual o ser humano teria a capacidade
de fazer algo a partir do seu próprio conhecimento. Para
a segunda, desenvolveu a terminologia de arte estética, “Esporas-bravas”, de Henri Latour. 1892
que tem por finalidade a contemplação do sentimento de
prazer, ou seja, do aprazível, que significa algo agradável e 2. Arte como criação: arte independente da natureza.
alegre. Daí o significado de Belas Artes. A originalidade de uma obra se expressa no próprio senti-
mento do artista, de modo que este é comparado a Deus
ESTÉTICA como o criador da sua obra. O artista busca a perfeição não
Foi o filósofo Alexander Gottlieb Baumgarten (1714- dos traços, mas dos sentimentos expressos. O Romantismo
1831), que utilizou a palavra “estética”, no conceito mo- é um bom exemplo, no qual a criação estética se desvin-
derno, pela primeira vez. Ele tinha o intuito de estabelecer cula da natureza e representa sistematicamente a liberdade
uma disciplina da Filosofia que se encarregaria de estudar criativa do homem.

71
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
religioso. Portanto, é na interseção deste fazer educativo
plurinterdisciplinar que o ensino da filosofia poderá
ressignificar-se para desempenhar a sua tarefa e atingir
os seus fins.É no bojo intersubjetivo e inter-objetivo dos
vários saberes disciplinares e experiências que sua função
poderá dilatar-se e aprofundar-se, elevando os jovens ao
nível dos domínios do saber sistematizado numa dimensão
crítico-reflexiva e transformadora.O caráter emancipatório
da filosofia para a construção do conhecimento crítico-
reflexivo encontra sustentação nas condições reais sociais.
Dessa forma, reconhece as estruturas da sociedade,
na qual os homens estão inseridos e onde são sujeitos
ativos e pensantes, bem como autores da dinâmica que
dialeticamente alteram o curso das coisas em nome de um
fim que é o próprio homem.Uma educação alicerçada na
“Sansão e Dalila”, de Oscar Pereira da Silva. 1893 filosofia, provoca mudanças de comportamento, contribui
para a elevação da autoestima; leva a comunidade escolar
3. Arte como construção: arte condicionada pela na- a ação-reflexão-ação,  o que permite atentar para o
tureza. Nesta perspectiva há uma mistura conceitual entre verdadeiro sentido do que vem a ser educação para o
homem e natureza. O homem cria uma obra artística na pensar, posto que, o ato de formar o ser humano resulta
qual ele conjuga os elementos da natureza e os sentimen- de um ato intencional em que educar compreende acionar
tos do próprio homem. O melhor exemplo desta perspecti- os meios intelectuais de cada educando para que ele possa
va é, sem dúvida, a arte abstrata.6 assumir o uso de suas potencialidades físicas, intelectuais
e morais, sempre atento ao contexto em que está sendo
vivenciado.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino
6. ENSINO DE FILOSOFIA NO ENSINO Médio de Ciências Humanas e suas Tecnologias, destaca
MÉDIO: DETERMINAÇÕES LEGAIS. que a filosofia no Ensino Médio consiste na formação do
7. REFLEXÕES ACERCA DO ENSINO DE aluno enquanto ser social, crítico e humano, tudo isso
FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO. relacionado ao verdadeiro papel da filosofia que é a luz da
7.1 ENSINO DE FILOSOFIA E reflexão crítica, criativa e criteriosa utilizando o pensar que
INTERDISCIPLINARIDADE. será manifesto no falar e nas ações. É necessário entender
7.2 ESTRATÉGIAS DIDÁTICAS E A SELEÇÃO e enxergar a Filosofia no Ensino Médio como uma reflexão
sobre temas em geral, não como uma critica, “o falar
DE CONTEÚDOS.
mal de tudo e todos”. Seu objetivo deve ser estimular a
8. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES investigação dos fatos, elaborando conclusões que criem
PROPOSTAS PELOS PARÂMETROS alternativas, ou seja, soluções significativas para uma
CURRICULARES NACIONAIS DO ENSINO comunidade, levando a uma reconstrução, a um grau de
MÉDIO PARA A DISCIPLINA DE FILOSOFIA. formação cultural. Nesse Sentido é fundamental rever a
prática de ensino, uma vez que a filosofia não é apenas uma
disciplina ela dá alicerce para um pensamento reflexivo de
qualidade capaz de implicar mudanças em um meio. Tal
A base curricular do ensino brasileiro tem passado por capacidade deve ser desenvolvida em sala, mostrando o
diversas mudanças e, dentre elas, o papel da Filosofia no quanto, uma reflexão bem elaborada, tanto escrita como
currículo. externada pode ajudar a resolver problemas ditos como
Vamos aqui analisar um pouco a importância da impossíveis, ajudando a encontrar um equilíbrio entre os
filosofia na educação, como era antes das mudanças e o princípios individuais e os sociais.
que se espera após essas serem implementadas.
A filosofia tem valor especial, principalmente por sua As capacidades de analisar, discutir, interpretar, escla-
grandeza de objetivos e de liberdade proveniente da recer e questionar são comportamentos que desenvolvem
visão rigorosa resultante de sua essência. A importância o “pensar reflexivo”, sem o qual não pode existir um cida-
do saber ou do ensino de filosofia para a construção do dão crítico e autônomo.
conhecimento tem sua partida na compreensão do que o É necessário entender e enxergar a Filosofia no Ensino
conhecimento filosófico é diferente do senso comum e do Médio como uma reflexão sobre temas em geral. Seu ob-
jetivo deve ser estimular a investigação dos fatos, elabo-
6 Fonte:www.filosofiaesociologia.com.br/www.blogdoenem.com.br/
rando conclusões que criem alternativas, ou seja, soluções
www.revistalampejo.apoenafilosofia.or/www.filosofiavivapro.blogs.
sapo.pt/www.pensamentoextemporaneo.com.br/www.periodicos.uern.
significativas para uma comunidade, levando a uma re-
br/Anderson Pinho/Erica Costa Sousa/Vanderley Alves da Silva/Demós- construção, a um grau de formação cultural. Nesse Sentido
tenes Dantas Vieira é fundamental rever a prática de ensino, uma vez que a fi-

72
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
losofia não é apenas uma disciplina ela dá alicerce para um No Ensino Médio, a ampliação e o aprofundamento
pensamento reflexivo de qualidade capaz de implicar mu- dessas questões são possíveis porque, na passagem do
danças em um meio. Tal capacidade deve ser desenvolvida Ensino Fundamental para o Ensino Médio, ocorre não
em sala, mostrando o quanto, uma reflexão bem elabora- somente uma ampliação significativa na capacidade
da, tanto escrita como externada pode ajudar a resolver cognitiva dos jovens, como também de seu repertório
problemas ditos como impossíveis, ajudando a encontrar conceitual e de sua capacidade de articular informações
um equilíbrio entre os princípios individuais e os sociais. e conhecimentos. O desenvolvimento das capacidades
O papel dessa disciplina, por conseguinte, é o de de observação, memória e abstração permite percepções
preencher a lacuna entre o “pensar e o agir”, formando mais acuradas da realidade e raciocínios mais complexos –
cidadãos que saibam ouvir, dialogar ativamente e, acima com base em um número maior de variáveis –, além de um
de tudo, que tomem decisões e realizem julgamentos, os domínio maior sobre diferentes linguagens, o que favorece
quais estejam preparados para colocarem em prática. os processos de simbolização e de abstração.
O ensino da filosofia no ensino médio tem o papel por- Por esse motivo, dentre outros, os jovens intensificam
tanto, de desenvolver no aluno uma “atitude filosófica”, ou os questionamentos sobre si próprios e sobre o mundo
seja, uma atitude investigativa, interrogativa, que pergunte em que vivem, o que lhes possibilita não apenas
o que, como e por que a coisa, a ideia ou o valor é. Con- compreender as temáticas e conceitos utilizados, mas
tudo, se esta coisa, ideia ou valor existe e como é que é, também problematizar categorias, objetos e processos.
então, é preciso questionar o que é pensar, como é pensar Desse modo, podem propor e questionar hipóteses sobre
e porque há o pensar – interrogando sempre a si mesmo, o as ações dos sujeitos e, também, identificar ambiguidades
mundo e as verdades. e contradições presentes tanto nas condutas individuais
como nos processos e estruturas sociais.
Dentro da nova BNCC, a Filosofia deixa de ser uma Além de promover essas aprendizagens no Ensino
disciplina obrigatória e passa aparece diluída na área Médio, a área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas
Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, ficando nesse tem ainda o grande desafio de desenvolver a capacidade
novo formato no ensino médio, a obrigatoriedade
dos estudantes de estabelecer diálogos entre indivíduos,
apenas das disciplinas de Português e Matemática.
grupos sociais e cidadãos de diversas nacionalidades,
Como “estudos e práticas” além da Filosofia, a
saberes e culturas distintas. Para tanto, propõe habilidades
Sociologia, a Educação Física e Artes. Vejamos.
para que os estudantes possam ter o domínio de conceitos
e metodologias próprios dessa área. As operações de
A ÁREA DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS APLICADAS
identificação, seleção, organização, comparação, análise,
A BNCC na área de Ciências Humanas e Sociais interpretação e compreensão de um dado objeto de
Aplicadas – integrada por Filosofia, Geografia, História conhecimento são procedimentos responsáveis pela
e Sociologia – propõe a ampliação e o aprofundamento construção e desconstrução dos significados do que foi
das aprendizagens essenciais desenvolvidas até o 9º selecionado, organizado e conceituado por um determinado
ano do Ensino Fundamental, sempre orientada para sujeito ou grupo social, inserido em um tempo, um lugar e
uma educação ética. Entendendo-se ética como juízo de uma circunstância específicos.
apreciação da conduta humana, necessária para o viver De posse desses instrumentos, os jovens constroem
em sociedade, e em cujas bases destacam-se as ideias de hipóteses e elaboram argumentos com base na seleção e
justiça, solidariedade e livre-arbítrio, essa proposta tem na sistematização de dados, obtidos em fontes confiáveis
como fundamento a compreensão e o reconhecimento e sólidas. A elaboração de uma hipótese é o primeiro
das diferenças, o respeito aos direitos humanos e à passo para o diálogo, que pressupõe sempre o direito ao
interculturalidade, e o combate aos preconceitos. contraditório. É por meio do diálogo que os estudantes
No Ensino Fundamental, a BNCC se concentra no ampliam sua percepção crítica tanto em relação à produção
processo de tomada de consciência do Eu, do Outro e do Nós, científica quanto às informações que circulam nas mídias,
das diferenças em relação ao Outro e das diversas formas colocando em prática a dúvida sistemática, elemento
de organização da família e da sociedade em diferentes essencial para o aprimoramento da conduta humana.
espaços e épocas históricas. Tais relações são pautadas Esse processo, já iniciado no Ensino Fundamental, tem
pelas noções de indivíduo e de sociedade, categorias continuidade no Ensino Médio, de modo a permitir aos jovens
tributárias da noção de philia, amizade, cooperação, de utilizar os diversos meios de comunicação de forma crítica,
um conhecimento de si mesmo e do Outro com vistas a não aceitando como verdade o “fato” veiculado nas diferentes
um saber agir conjunto e ético. Além disso, ao explorar mídias. Desvendar e reconhecer os sujeitos, os sentidos obscuros
variadas problemáticas próprias de Geografia e de História, e silenciados, as razões da construção de uma determinada
prevê que os estudantes explorem diversos conhecimentos informação e os meios utilizados para a sua difusão é tarefa
próprios das Ciências Humanas: noções de temporalidade, básica das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e exercício
espacialidade e diversidade (de gênero, religião, tradições necessário para a formação dos jovens.
étnicas etc.); conhecimentos sobre os modos de organizar Todavia, a identificação de uma questão, a realização de
a sociedade e sobre as relações de produção, trabalho e recortes e a interpretação de fenômenos demandam uma
de poder, sem deixar de lado o processo de transformação organização lógica, coerente e crítica para a elaboração
de cada indivíduo, da escola, da comunidade e do mundo. das hipóteses e para a construção da argumentação em

73
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
torno das categorias selecionadas. Nas Ciências Humanas Se, no Ensino Fundamental, essas categorias estão
e Sociais Aplicadas, analisar, relacionar, comparar e presentes na operacionalização das competências,
compreender contextos e identidades são condições para habilidades e dos objetos de conhecimento, no Ensino
conhecer, problematizar, criticar e tomar posições. Médio elas são explicitadas considerando a capacidade
Nessa direção, é imprescindível que a área dê de abstração e simbolização dos estudantes. Por sua
continuidade, no Ensino Médio, ao desafio de dialogar vez, as competências e habilidades propostas permitem
com as novas tecnologias, iniciado no Ensino Fundamental. ampliar e aprofundar os conhecimentos já sistematizados,
Afinal, essa é uma das marcas mais características de compreendendo- -os em circunstâncias.
nosso tempo, que atinge distintos grupos sociais, mas As categorias de tempo e espaço são problematizadas
que é especialmente intensa entre os jovens estudantes. na análise de contextos mais amplos. Território e fronteira
As tecnologias digitais presentam apelos consumistas e são categorias que estruturam o conceito de espaço em
simbólicos capazes de alterar suas formas de leitura de suas diferentes dimensões, para além da noção de superfície
mundo, práticas de convívio, comunicação, participação terrestre, de país ou de nação. As relações entre sociedade
política e produção de conhecimento, interferindo e natureza em diferentes culturas, sua organização social,
efetivamente no conjunto das relações sociais. Diante desse política e cultural, suas formas de trabalho, suas relações
cenário, é necessário oportunizar o uso e a análise crítica com outras populações e seus conflitos e negociações
das novas tecnologias, explorando suas potencialidades e permitem compreender seus significados, ultrapassando
evidenciando seus limites na configuração do mundo atual. o campo das evidências e caminhando para o campo das
Aprender a indagar, ponto de partida para uma representações abstratas.
reflexão crítica, é uma das contribuições essenciais das Na BNCC de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas do
Ciências Humanas e Sociais Aplicadas para a formação Ensino Médio, a definição de competências e habilidades,
dos estudantes do Ensino Médio. A pergunta bem ao considerar essas categorias, pretende possibilitar o
elaborada e a dúvida sistemática contribuem igualmente acesso a conceitos, dados e informações que permitam
para a construção e apreciação de juízos sobre a conduta aos estudantes atribuir sentidos aos conhecimentos da
humana, passível de diferentes qualificações. Elas também
área e utilizá-los intencionalmente para a compreensão, a
colaboram para o desenvolvimento da autonomia dos
crítica e o enfrentamento ético dos desafios do dia a dia, de
sujeitos diante de suas tomadas de decisão na vida
determinados grupos e de toda a sociedade.
cotidiana, na sociedade em que vivem e no mundo no qual
estão inseridos.
TEMPO E ESPAÇO
Para a promoção de tais aprendizagens, para o
Tempo e espaço explicam os fenômenos nas Ciências
desenvolvimento do protagonismo juvenil e para
Humanas porque permitem identificar contextos, sendo
a construção de uma atitude ética pelos jovens, é
categorias difíceis de dissociar. No Ensino Médio, as
fundamental mobilizar recursos didáticos em diferentes
linguagens (textuais, imagéticas, artísticas, gestuais, análises sobre acontecimentos ocorridos em circunstâncias
digitais, tecnológicas, gráficas, cartográficas etc.), selecionar variadas permitem compreender processos marcados pela
formas de registros, valorizar os trabalhos de campo continuidade, por mudanças e por rupturas.
(entrevistas, observações, consultas a acervos históricos A localização no tempo e no espaço nos permite
etc.) e estimular práticas voltadas para a cooperação. Os identificar circunstâncias, tornando possível compará-las,
materiais e os meios utilizados podem ser variados, mas observar as semelhanças e as diferenças, assim como as
o objetivo central, o eixo da reflexão, deve concentrar-se permanências e as transformações.
no conhecimento do Eu e no reconhecimento do Outro, Nomear o que é semelhante ou diferente em cada
nas formas de enfrentamento das tensões e conflitos, na cultura é relativamente simples. Bem mais complexo é
possibilidade de conciliação e na formulação de propostas explicar as razões e os motivos (materiais e imateriais)
de soluções. responsáveis pela conformação de uma sociedade, de sua
Considerando esses desafios e finalidades no tocante às língua, seus usos e costumes. É simples enunciar a diferença.
aprendizagens a ser garantidas aos jovens, a BNCC da área Complexo é explicar a “lógica” que produz a diversidade.
de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas está organizada Portanto, analisar, comparar e compreender
de modo a tematizar e problematizar, no Ensino Médio, diferentes sociedades, sua cultura material, sua formação
algumas categorias dessa área, fundamentais à formação e desenvolvimento no tempo e no espaço, a natureza de
dos estudantes: tempo e espaço; territórios e fronteiras; suas instituições, as razões das desigualdades, os conflitos,
indivíduo, natureza, sociedade, cultura e ética; e política e em maior ou menor escala, e as relações de poder no
trabalho. interior da sociedade ou no contexto mundial são alguns
Essas categorias são fundantes para a investigação dos principais desafios propostos pela área para o Ensino
e a aprendizagem, não se confundindo com temas ou Médio.
propostas de conteúdos. Definir o que seria o tempo é um desafio sobre o qual
São aquelas cuja tradição nos diferentes campos se debruçaram e se debruçam grandes pensadores de
das Ciências Humanas utiliza para a compreensão das diversas áreas do conhecimento. O tempo é matéria de
ideias, dos fenômenos e dos processos políticos, sociais, reflexão na Filosofia, na Física, na Matemática, na Biologia,
econômicos e culturais. na História, na Sociologia e em outras áreas do saber.

74
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
O tempo na história apresentou significados e festas e o lazer podem aproximar, mas podem também
importância variados. Ao se tratar do tempo, o fundamental, separar, criar grupalidades ou circuitos culturais ou de
como nos lembra Jacques Le Goff, é compreender que poder. As fronteiras culturais são porosas, móveis e, nem
não existe uma única noção de tempo e ele não é nem sempre, circunscritas a um território específico.
homogêneo nem linear, ou seja, ele expressa diferentes Também há fronteiras de saberes, que envolvem, entre
significados. Diante dessas observações, é importante outros elementos, conhecimentos e práticas de diferentes
desenvolver habilidades por meio das quais os estudantes sociedades. Caçar ou pescar, por exemplo, são atividades
possam refletir sobre as diversas noções de tempo e seus que demandam habilidades nem sempre conhecidas
significados. e desenvolvidas por populações das grandes cidades.
Assim, no Ensino Médio, os estudantes precisam Plantar e colher exigem competências e habilidades
desenvolver noções de tempo que ultrapassam a dimensão experimentadas no dia a dia por populações dedicadas ao
cronológica, ganhando diferentes dimensões, tanto simbólicas trabalho agrícola, desenhando fronteiras, frutos de diversas
como abstratas, destacando as noções de tempo em diferentes formas de produção e convívio com a natureza.
sociedades. Na história, o acontecimento, quando narrado, Assim, no Ensino Médio, o estudo dessas categorias
permite-nos ver nele tanto o tempo transcorrido como o deve possibilitar aos estudantes compreender os
tempo constituído na narrativa sobre o narrado. processos identitários marcados por territorialidades e
Por sua vez, a compreensão do espaço contempla fronteiras de diversas naturezas, mobilizar a curiosidade
as dimensões histórica e cultural, ultrapassando suas investigativa sobre o seu lugar no mundo, possibilitando
representações cartográficas. Espaço está associado aos a sua transformação e a do lugar em que vivem, enunciar
arranjos dos objetos de diversas naturezas, mas também aproximações e reconhecer diferenças.
às movimentações das sociedades, nas quais ocorrem
eventos, disputas, conflitos, ocupações (ordenadas ou INDIVÍDUO, NATUREZA, SOCIEDADE, CULTURA E ÉTICA
desordenadas) ou dominações. No espaço (em um lugar) A discussão a respeito dessas categorias, bem como de
se dá a produção, distribuição e consumo de mercadorias. suas relações, marca a constituição das chamadas Ciências
Nele são realizados fluxos de diversas naturezas Humanas. O esclarecimento teórico dessas categorias tem
(pessoas e objetos) e são desenvolvidas relações de como base a resposta à questão que a tradição socrática,
trabalho, com ritmos e velocidade variados. nas origens do pensamento grego, introduziu: O que é o
ser humano?
TERRITÓRIO E FRONTEIRA Na busca da unidade, de uma natureza (physis), os
Na área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas a primeiros pensadores gregos sistematizaram questões
utilização dessas categorias é bastante ampla. e se indagaram sobre as finalidades da existência, sobre
Território é uma categoria usualmente associada o que era comum a todos os seres da mesma espécie,
a uma porção da superfície terrestre sob domínio de produzindo uma visão essencializada e metafísica sobre
um grupo e suporte para nações, estados, países. É os seres humanos. A identificação da condição humana
dele que provêm alimento, segurança, identidade e como animal político – e animal social – significa que,
refúgio. Engloba as noções de lugar, região, fronteira e, independentemente da singularidade de cada um, as pes
especialmente, os limites políticos e administrativos das soas são essencialmente capazes de se organizar para uma
cidades, estados e países, sendo, portanto, esquemas vida em comum e de se governar. Como assinala Florestan
abstratos de organização da realidade. Associa-se a ele Fernandes, os seres humanos têm uma necessidade vital da
também a ideia de poder, jurisdição, administração e convivência coletiva.
soberania, dimensões que expressam a diversidade das Todavia, os humanos têm, também, necessidades
relações sociais e permitem juízos analíticos. Fronteira relacionadas à sua sobrevivência. Nesse sentido, exercem
também é uma categoria construída historicamente. Ao atividades que implicam relações com a natureza,
expressar uma cultura, grupos definem fronteiras, formas agindo sobre ela de maneira deliberada e consciente,
de organização social e, por vezes, áreas de confronto transformando-a. O processo dessa atividade, desse
com outros grupos. A conformação dos impérios coloniais, trabalho, permite ao indivíduo produzir-se como ser social.
a formação dos Estados Nacionais e os processos de A sociedade, da qual faz parte o indivíduo, consiste em
globalização problematizam a discussão sobre limites um grupo humano, ocupante de um território, com uma
culturais e fronteiras nacionais. Os limites, por exemplo, forma de organização baseada em normas de conduta
entre civilização e barbárie geraram, não raro, a destruição responsáveis por sua especificidade cultural. Na construção
daqueles indivíduos considerados bárbaros. Temos aí uma de sua vida em sociedade, o indivíduo estabelece
fronteira sangrenta. Povos com culturas e saberes distintos relações e interações sociais com outros indivíduos,
em muitos casos foram separados ou reagrupados de constrói sua percepção de mundo, atribui significados ao
forma a resolver ou agravar conflitos, facilitar ou dificultar mundo ao seu redor, interfere e transforma a natureza,
deslocamentos humanos, favorecer ou impedir a integração produz conhecimento e saberes, com base em alguns
territorial de populações com identidades semelhantes. procedimentos cognitivos próprios, fruto de suas tradições
Para além das marcações tradicionais do território, tanto físico-materiais como simbólico-culturais. A forma
as cidades são repletas de territorialidades marcadas por como diferentes sociedades estruturam e organizam o
fronteiras econômicas, sociais e culturais. As músicas, as espaço físico-territorial e suas atividades econômicas

75
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
permite, por exemplo, reconhecer os diversos modos participação dos trabalhadores nos diversos setores da
como essas sociedades estabelecem suas relações com a produção, a precarização das relações de trabalho, as
natureza, incluindo-se os problemas ambientais resultantes oscilações de taxas de emprego e desemprego, o uso
dessas interferências. do trabalho intermitente, a pulverização dos locais de
trabalho e o aumento global da concentração de renda e
POLÍTICA E TRABALHO da desigualdade social. Diante desse cenário, a experiência
A política ocupa posição de centralidade nas Ciências do trabalho na contemporaneidade impõe novos desafios
Humanas. As discussões em torno do bem comum, e problematizações formuladas no campo das Ciências
dos regimes políticos e das formas de organização em Humanas, incluindo os impactos das inovações tecnológicas
sociedade, as lógicas de poder estabelecidas em diferentes nas relações de produção e de trabalho.
grupos, a micropolítica, as teorias em torno do Estado e Como apontado, o estudo das categorias Política
suas estratégias de legitimação e a tecnologia interferindo e Trabalho no Ensino Médio permite aos estudantes
nas formas de organização da sociedade são alguns dos compreender e analisar a diversidade de papéis dos
temas que estimulam a produção de saberes nessa área. A múltiplos sujeitos e seus mecanismos de atuação e
política está na origem do pensamento filosófico. Na Grécia identificar os projetos políticos e econômicos em disputa
Antiga, o exercício da argumentação e a discussão sobre os nas diferentes sociedades. Essas categorias contribuem
destinos das cidades e suas leis estimularam a retórica e para que os estudantes possam atuar com vistas à
a abstração como práticas necessárias para o debate em construção da democracia, em meio aos enfrentamentos
torno do bem comum. Esse exercício permitiu ao cidadão gerados nas relações de produção e trabalho.
da pólis compreender a política como produção humana No tratamento dessas categorias no Ensino Médio,
capaz de favorecer as relações entre pessoas e povos e, a heterogeneidade de visões de mundo e a convivência
ao mesmo tempo, desenvolver a crítica a mecanismos com as diferenças favorecem o desenvolvimento da
políticos como a demagogia e a manipulação do interesse sensibilidade, da autocrítica e da criatividade, nas situações
público. A política, em sua origem grega, foi o instrumento da vida, em geral, e nas produções escolares, em particular.
utilizado para combater os autoritarismos, as tiranias, os Essa ampliação da visão de mundo dos estudantes resulta
terrores, as violências e as múltiplas formas de destruição em ganhos éticos relacionados à autonomia das decisões e
da vida pública. ao comprometimento com valores como liberdade, justiça
No mundo contemporâneo, essas questões social, pluralidade, solidariedade e sustentabilidade.
observadas tanto em escala local como global ganham Por fim, para garantir as aprendizagens essenciais
maior visibilidade na Geopolítica, pois ela enuncia os definidas para a área de Ciências Humanas e Sociais
conflitos planetários entre pessoas, grupos, países e blocos Aplicadas, é imprescindível que os jovens aprendam
transnacionais, desafio importante de ser conhecido e a provocar suas consciências para a descoberta da
analisado pelos estudantes. transitoriedade do conhecimento, para a crítica e para a
As discussões sobre formas de organização do Estado, busca constante da ética em toda ação social.
de governo e do poder são temáticas enunciadas no Considerando esses pressupostos, e em articulação com
Ensino Fundamental e aprofundadas no Ensino Médio, as competências gerais da Educação Básica e com as da área
especialmente em sua dimensão formal e como sistemas de Ciências Humanas do Ensino Fundamental, no Ensino
jurídicos complexos. Essas temáticas apresentadas de Médio a área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas deve
forma ampla na BNCC fornecem alguns elementos capazes garantir aos estudantes o desenvolvimento de competências
de agregar diversos temas de ordem econômica, social, específicas. Relacionadas a cada uma delas, são indicadas,
política, cultural e ambiental e permitem, sobretudo, posteriormente, habilidades a ser alcançadas nessa etapa.
a discussão dos conceitos veiculados por diferentes
sociedades e culturas. COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE CIÊNCIAS
A categoria trabalho, por sua vez, comporta diferentes HUMANAS E SOCIAIS APLICADAS PARA O ENSINO
dimensões – filosófica, econômica, sociológica ou histórica: MÉDIO
como virtude; como forma de produzir riqueza, de dominar
e de transformar a natureza; como mercadoria; ou como COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 1
forma de alienação. Ainda, podemos falar do trabalho 1. Analisar processos políticos, econômicos, sociais,
como categoria pensada por diferentes autores: trabalho ambientais e culturais nos âmbitos local, regional, nacional
como valor (Karl Marx); como racionalidade capitalista e mundial em diferentes tempos, a partir de procedimentos
(Max Weber); ou como elemento de interação do indivíduo epistemológicos e científicos, de modo a compreender e
na sociedade em suas dimensões tanto corporativa como posicionar-se criticamente com relação a esses processos e
de integração social (Émile Durkheim). Seja qual for o às possíveis relações entre eles.
caminho ou os caminhos escolhidos para tratar do tema, é Analisar processos políticos, econômicos, sociais,
importante destacar a relação sujeito/trabalho e toda a sua ambientais e culturais nos âmbitos local, regional, nacional
rede de relações sociais. e mundial em diferentes tempos, a partir de procedimentos
Atualmente, as transformações na sociedade são epistemológicos e científicos, de modo a compreender e
grandes, especialmente em razão do uso de novas posicionar-se criticamente com relação a esses processos e
tecnologias. Observamos transformações nas formas de às possíveis relações entre eles.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
Nesta competência específica, pretende-se ampliar as capacidades dos estudantes de elaborar hipóteses e compor
argumentos com base na sistematização de dados (de natureza quantitativa e qualitativa); compreender e utilizar
determinados procedimentos metodológicos para discutir circunstâncias históricas favoráveis à emergência de matrizes
conceituais (modernidade, Ocidente/Oriente, civilização/ barbárie, nomadismo/sedentarismo, tipologias evolutivas,
oposições dicotômicas etc.); e operacionalizar conceitos como temporalidade, memória, identidade, sociedade,
territorialidade, espacialidade etc. e diferentes linguagens e narrativas que expressem conhecimentos, crenças, valores e
práticas que permitem acessar informações, resolver problemas e, especialmente, favorecer o protagonismo necessário
tanto em nível individual como coletivo.
A avaliação dos processos de longa e curta duração, das razões que justificam diversas formas de rupturas, dos
mecanismos de conservação ou transformação e das mudanças de paradigmas, como as decorrentes dos impactos
tecnológicos, oferece material e suporte para uma prática reflexiva e ética.

COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 2
2. Analisar a formação de territórios e fronteiras em diferentes tempos e espaços, mediante a compreensão dos processos
sociais, políticos, econômicos e culturais geradores de conflito e negociação, desigualdade e igualdade, exclusão e inclusão e
de situações que envolvam o exercício arbitrário do poder.
Analisar a formação de territórios e fronteiras em diferentes tempos e espaços, mediante a compreensão dos processos
sociais, políticos, econômicos e culturais geradores de conflito e negociação, desigualdade e igualdade, exclusão e inclusão
e de situações que envolvam o exercício arbitrário do poder. Nesta competência específica, pretende-se comparar e avaliar
a ocupação do espaço, a delimitação de fronteiras e o papel dos agentes responsáveis pelas transformações. Os atores
sociais, na cidade, no campo, nas zonas limítrofes, no interior de uma cidade, região, Estado ou mesmo entre Estados,
produzem diferentes territorialidades que envolvem variados níveis de negociação e conflito, igualdade e desigualdade,
inclusão e exclusão.
Dada essa complexidade de relações, é prioritário levar em conta o raciocínio geográfico e estratégico, bem como o
significado da história e da política na produção do espaço.
Além disso, toda a complexidade dos fluxos populacionais e da circulação de mercadorias, especialmente nas
sociedades contemporâneas, merece ser identificada e analisada por meio de diversos instrumentos e linguagens, com
especial destaque para as novas tecnologias e para o protagonismo juvenil.

77
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia

COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 3
3. Contextualizar, analisar e avaliar criticamente as relações das sociedades com a natureza e seus impactos econômicos
e socioambientais, com vistas à proposição de soluções que respeitem e promovam a consciência e a ética socioambiental e
o consumo responsável em âmbito local, regional, nacional e global.
Contextualizar, analisar e avaliar criticamente as relações das sociedades com a natureza e seus impactos econômicos
e socioambientais, com vistas à proposição de soluções que respeitem e promovam a consciência e a ética socioambiental
e o consumo responsável em âmbito local, regional, nacional e global.
Nesta competência específica, propõe-se analisar os paradigmas que conformam o pensamento e os saberes de
diferentes sociedades e povos, levando em consideração suas formas de apropriação da natureza, extração, transformação
e comercialização de recursos naturais, suas formas de organização social e política, as relações de trabalho, os significados
da produção de sua cultura material e imaterial e suas linguagens.
Considerando a presença, na contemporaneidade, da cultura de massa e das culturas juvenis, é importante compreender
os significados de objetos derivados da indústria cultural, os instrumentos publicitários utilizados, os papéis das novas
tecnologias e os do consumismo.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia

COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 4
4. Analisar as relações de produção, capital e trabalho em diferentes territórios, contextos e culturas, discutindo o papel
dessas relações na construção, consolidação e transformação das sociedades.
Analisar as relações de produção, capital e trabalho em diferentes territórios, contextos e culturas, discutindo o papel
dessas relações na construção, consolidação e transformação das sociedades.
Nesta competência específica, o objetivo é compreender o significado de trabalho em diferentes sociedades, suas
especificidades e os processos de estratificação social presididos por uma maior ou menor desigualdade econômico-social
e participação política.
Os indicadores de emprego, trabalho e renda devem ser avaliados em contextos específicos que favoreçam a
compreensão tanto da sociedade e suas implicações sociais quanto das dinâmicas de mercado delas decorrentes. Já as
transformações técnicas, tecnológicas e informacionais devem ser consideradas com ênfase para as novas formas de
trabalho geradas por elas, bem como seus efeitos em relação aos jovens e às futuras gerações.

79
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 5
5. Reconhecer e combater as diversas formas de desigualdade e violência, adotando princípios éticos, democráticos,
inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos.
Reconhecer e combater as diversas formas de desigualdade e violência, adotando princípios éticos, democráticos,
inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos.
O exercício de reflexão, que preside a construção do pensamento filosófico, permite aos jovens compreender os
fundamentos da ética em diferentes culturas, estimulando o respeito às diferenças (culturais, religiosas, étnico-raciais
etc.), à cidadania e aos Direitos Humanos. Para a realização desse exercício, é fundamental abordar circunstâncias da vida
cotidiana que permitam desnaturalizar condutas, relativizar costumes, perceber a desigualdade e o preconceito presente
em atitudes, gestos e silenciamentos, avaliando as ambiguidades e contradições presentes em políticas públicas tanto de
âmbito nacional como internacional.

COMPETÊNCIA ESPECÍFICA 6
6. Participar, pessoal e coletivamente, do debate público de forma consciente e qualificada, respeitando diferentes posições,
com vistas a possibilitar escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia,
consciência crítica e responsabilidade.
Participar, pessoal e coletivamente, do debate público de forma consciente e qualificada, respeitando diferentes
posições, com vistas a possibilitar escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade,
autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
Nesta competência específica, pretende-se tratar da linguagem política (aristocracia, democracia, república,
autoritarismo, populismo, ditadura, liberalismo, marxismo, fascismo, stalinismo etc.), mostrando como os termos passaram
por mudanças ao longo da história. Portanto, cada uma das palavras precisa ser explicada e interpretada em circunstâncias
históricas específicas.
As interpretações podem ser variadas e o uso de determinadas palavras no cotidiano podem levar a conflitos, em
especial por envolver doutrinas políticas que, não raro, são controvertidas. Diante desse grande desafio, é importante
identificar demandas político- sociais de diferentes sociedades e grupos sociais, destacando questões culturais, em especial
aquelas que dizem respeito às populações indígenas e afrodescendentes.
As formas de violência física e simbólica, o reconhecimento de diferentes níveis de desigualdade e a relação desigual
entre países indicam a importância da ampliação da temática dos Direitos Humanos, relacionada à aquisição de consciência
e responsabilização tanto em nível individual como comunitário, nacional e internacional.7

7 Fonte: www.porvir.org/www.resumos.netsaber.com.br/www.professorpina.com/www.basenacionalcomum.mec.gov.br

80
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
EXERCÍCIOS 03. (Prefeitura de Fortaleza – CE/2016 - Prefeitura
de Fortaleza/CE) No homem surgiu a necessidade
01. (IFB/ 2017 – IFB) Discutir as concepções diversas de conhecer, o conhecimento é uma relação que
de Ciência é uma das atribuições do professor de se estabelece entre o sujeito e o objeto. Existem
filosofia. Entre estas concepções encontramos a de Imre diferentes tipos de conhecimento, por exemplo: o
Lakatos, que “desenvolveu sua descrição da ciência popular, o religioso, o filosófico e o científico. Todos
como uma tentativa de melhorar o falsificacionismo eles apresentam algumas características que os
popperiano e superar as objeções a ele” (CHALMES, p. definem. Qual característica é somente encontrada no
113).  conhecimento científico e é a chave para a pesquisa
Todas as proposições abaixo correspondem ao científica? 
pensamento de Lakatos, EXCETO: a) Racionalidade. 
a) um programa de pesquisa é uma estrutura que b) Sistematização
fornece orientação para demonstrar sua superioridade c) Exatidão. 
sobre o seu rival. d) Empirismo.
b)   os programas de pesquisa serão progressivos ou
degenerescentes, dependendo de sucesso ou fracasso
persistente quando levam à descoberta de fenômenos 04. (FUNCAB/2014 - SEE/AC) A preocupação
novos. com o conhecimento verdadeiro sempre esteve no
c) o núcleo irredutível de um programa de pesquisa é centro do debate filosófico. Acerca do problema do
tornado infalsificável pela “decisão metodológica de seus conhecimento, é correto afirmar que a verdade:
protagonistas”. a) é uma questão de opinião e persuasão, para Sócrates.
d) o trabalho no interior de um único programa de b) não pode ser alcançada senão através das sensações,
pesquisa envolve a expansão e a modificação de seu de acordo com Platão e Aristóteles.
cinturão protetor pela adição e modificações e articulação c) varia de um lugar para outro, sendo estabelecida
de várias hipóteses. apenas por convenção ou costume, de acordo com os
e) os méritos relativos de dois programas de pesquisa sofistas.
somente podem ser decididos “olhando-se para trás”, ou d) só existe no logos divino, não podendo ser
seja, estudando o desenvolvimento de cada um. contemplada pelo homem, sob condição alguma, de
acordo com Santo Agostinho.
02. (Colégio Pedro II/2016 - Colégio Pedro II) Todos e) é inata e só pode ser alcançada por meio do método
compreendem o quanto seja louvável a um príncipe dedutivo ou matemático, segundo Francis Bacon.
manter a palavra dada e viver com integridade e não com
astúcia. Contudo, pela experiência de nossos tempos, 05. (IF-RS/2015 – IF/RS) Assinale a alternativa
vê-se que certos príncipes realizaram coisas notáveis, INCORRETA. De acordo com a teoria de Platão, as ideias
mas tiveram em pouca conta a fé dada e souberam apresentam algumas características básicas, a saber: 
com astúcia manejar a cabeça dos homens. Superaram, a) A corporeidade – a Ideia pertence a uma dimensão
enfim, aqueles que se apoiaram na sinceridade. totalmente diversa do mundo incorpóreo. 
(MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe (Capítulo XVIII). b) A inteligibilidade – a Ideia é, por excelência, objeto
In MARÇAL, Jairo (org.). Antologia de textos filosóficos. da inteligência e só com ela pode ser captada. 
Curitiba: SEED, 2009, p. 457.) c) A imutabilidade – as Ideias são imunes a todo tipo
A partir do trecho selecionado, marque a opção em de mudança e não só ao nascer e ao perecer. 
que se encontra a melhor definição para o pensamento d) A unidade – cada Ideia é uma unidade e unifica a
político maquiaveliano, em relação à filosofia política multiplicidade das coisas que dela participam. 
desenvolvida na Grécia Clássica. e) A perseidade – as Ideias são em si e por si, isto é,
a) Diferentemente do pensamento desenvolvido na absolutamente objetivas.
Grécia Clássica, a obra de Maquiavel revela o realismo
político sob uma análise das ações humanas. 06. (Quadrix/2017 – SEDF) Considera-se que a
b) Diferentemente do pensamento desenvolvido na filosofia surgiu na Grécia Antiga, com os filósofos ditos
Grécia Clássica, a obra de Maquiavel revela o idealismo pré-socráticos. No que se refere aos filósofos pré-
político sob uma análise ideal do Bom Governo. socráticos e a alguns filósofos posteriores, julgue o
c) Semelhante ao pensamento desenvolvido na Grécia item que se segue. 
Clássica, a obra de Maquiavel revela o idealismo político Os pré-socráticos constituíram a filosofia de seu tempo
sob uma análise ideal do Bom Governo. a partir de um processo de afastamento das explicações de
d) Semelhante ao pensamento desenvolvido na Grécia caráter mitológico, comuns no período.
Clássica, a obra de Maquiavel revela o realismo político sob ( ) Certo
uma análise das ações de sua época. ( Errado

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
07. (Colégio Pedro II/2016 - Colégio Pedro II) E é o caráter inconclusivo das respostas que nos con-
“Tudo aquilo que se infere de um tempo de guerra, vida a retomar as questões, a repensá-las, a procurar
em que todo homem é inimigo de todo homem, nossas próprias respostas, fatalmente também incon-
infere-se também do tempo durante o qual os homens clusivas.
vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser
oferecida pela sua própria força e pela sua própria Danilo Marcondes. Para que serve a filosofia?Pre-
invenção. Numa tal condição (...) não há sociedade; e fácio do livro Café Philo:
o que é pior do que tudo, um medo contínuo e perigo As grandes indagações da filosofia.
de morte violenta. E a vida do homem é solitária, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 9 (com adapta-
miserável, sórdida, brutal e curta. ções).
(HOBBES, Leviatã, I, XIII. In: MARÇAL, Jairo (org.).
Antologia de textos filosóficos. Curitiba:SEED,2009.) Tendo esse texto como referência, julgue o item
De acordo com o texto e o pensamento de Hob- seguinte.
bes, é correto afirmar que Em filosofia, o dogmatismo é a perspectiva que sustenta
a) a única saída para defesa da sociedade é a guerra a possibilidade do conhecimento com a probabilidade de
de todos contra todos, embora a vida se torne com isso alcance da certeza.
insustentável e curta. ( ) Certo
b) faz-se necessário o estado político, com o que a ( ) Errado
sociedade se preserva e garante a justiça, isso estabelecido
por contrato. 09. (CESPE/2017 – SEDF) Na Grécia antiga, em meio
c) o homem tem de ser por natureza um animal à intensa vida cultural, política e comercial das poleis,
político, pois no Estado Civil a política é um erro, o nasce a filosofia, uma forma de pensar conceitualmente
contrato insuficiente para inibir a guerra de todos contra o mundo e responder a problemas diversos de modo
todos. racional. Uma vez que a religião, o mito e o senso
d) o homem está fadado irreversivelmente ao comum não mais forneciam respostas satisfatórias,
extermínio, mesmo delegando poder de representação da os primeiros filósofos buscaram uma explicação,
garantia de seu direito à vida a um soberano estabelecendo pautada em critérios claros, demonstrativos e não
o contrato. dogmáticos, para as curiosidades cosmológicas, físicas
e antropológicas do seu tempo. A relação da filosofia
08. (CESPE/2017 – SEDF) A pergunta sobre o que com outros saberes é um dos traços mais fortes de
é e para o que serve a filosofia é inevitável sempre sua história. Na Idade Média, por exemplo, Agostinho
que nos confrontamos pela primeira vez com esse e Tomás de Aquino aproximaram a teologia cristã da
pensamento, que nos causa estranheza e fascínio. Na filosofia; na modernidade, Galileu, Bacon e Newton
verdade, essa pergunta é tão antiga quanto o próprio investigaram na filosofia, na física e na ciência nascente
surgimento da filosofia, mas claramente não possui o método perfeito. As artes também constituem outro
resposta única. ponto de convergência para os interesses filosóficos.
Com os pensadores da teoria crítica, como Benjamin
Sexto Empírico, filósofo cético dos séculos II–III,
e Adorno, vê-se como a produção e a fruição da arte,
foi um dos pensadores que formulou essa questão de
sob o ponto de vista filosófico e histórico, foram
modo mais contundente. Diz ele que em toda inves-
modificadas pelo desenvolvimento de meios técnicos
tigação temos três resultados possíveis: acreditamos
e tecnológicos em um contexto capitalista, a que se
ter encontrado a resposta, acreditamos ser impossível
denomina indústria cultural.
encontrar a resposta, continuamos buscando. No pri-
meiro caso, nos tornamos dogmáticos e a investigação
Silvio Galo. Filosofia: experiência de pensamento.
cessa; no segundo caso, somos também dogmáticos,
São Paulo: Scipione, 2013, p. 9 (com adaptações).
ainda que em um sentido negativo, e a investigação
igualmente cessa; só no terceiro caso, segundo Sexto, A partir da leitura do texto precedente, julgue o
temos a autêntica filosofia, aquela que continua a in- item a seguir.
vestigar, para a qual a busca é mais importante que a A insuficiência dos mitos como elemento de explicação
resposta. da realidade fez que os pensadores da Grécia Antiga
De certo modo, a filosofia moderna incorporou a adotassem a racionalidade como caminho explicativo,
posição cética, passando a considerar que nenhuma abandonando-os por completo. Desse processo surgiu a
teoria, nenhum sistema, nenhum tipo de saber podem filosofia.
pretender ser conclusivos, podem querer ter a pala- ( ) Certo
vra final sobre o que quer que seja. A contribuição da ( ) Errado
filosofia tem sido, portanto, desde o seu nascimento
na Grécia Antiga, a interrogação, o questionamento, a
pergunta. Para a filosofia, não há nada que não possa
ser posto em questão. Deve ser possível discutir tudo.

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CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
Filosofia
10. (CESPE/2013 – SEDUC/CE) A justiça é um GABARITO
dos temas fundamentais da investigação política de
Aristóteles. No capítulo 12 do livro III da Política (1282 1 A
b 14-22), ele afirma: “Uma vez que, em todas as ciências
e em todas as artes, o fim é um bem, mas o bem maior 2 A
e no sentido mais pleno é aquele que serve de fim na 3 E
arte ou ciência é que é a mais soberana de todas, e essa
é a capacidade política, mas o bem político é o justo 4 C
(to dikaion), essa é, portanto, a vantagem comum que 5 A
nos interessa”. Para Aristóteles, a justiça é a ordem
6 Certo
da comunidade política. Aristóteles, nesse contexto
político, vê a justiça como “justiça distributiva”, 7 B
aquela que vigora na relação do todo (polis) com 8 Certo
as partes (cidadãos), tem por princípio permitir e
promover a participação dos cidadãos na promoção 9 Errado
do bem comum da polis ou de forma absolutamente 10 C
igual ou de forma proporcionalmente igual. A justiça
vigora mais propriamente ali onde os homens são
livres e iguais e, entre eles, subsistem relacionamentos
regulados pela lei. Faz parte dessa liberdade os
cidadãos poderem participar de maneira alternada do
governo e das funções públicas, governando não em
favor de si mesmos, mas em favor dos governados. A
justiça na polis, portanto, culmina em uma convivência
pacífica, baseada na philia (amizade em sentido amplo,
solidariedade).
Com relação às ideias apresentadas no texto acima,
assinale a opção correta.
a) Para Aristóteles, justiça é o resultado de um acordo
entre os homens, que estabelece o meio-termo entre fazer
injustiça sem ser penalizado e sofrer injustiça sem poder se
defender ou vingar.
b) Na concepção de Aristóteles, a política não possui
relação com felicidade nem com amizade, mas unicamente
com a justiça.
c) A justiça é o bem comum em devir, como constante
exigência histórica de uma convivência social ordenada
segundo os valores da liberdade e da igualdade.
d) O governo mais justo é aquele em que os
governantes visam ao seu bem em primeiro lugar, e não ao
bem dos governados.
e) Do ponto de vista político, Aristóteles considera a
justiça eminentemente como justiça corretiva, isto é, como
modo de se conseguir que um cidadão seja punido por um
delito que ele tenha cometido.

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Filosofia

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Filosofia

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