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Bruno

Tolentino

OS SAPOS DE ONTEM
Sumário
OS SAPOS DE ONTEM
I. O PRÓLOGO DE UM EPÍLOGO
A FARSA COMO HISTÓRIA
II. O PRINCÍPIO DO FIM
CRANE ANDA PARA TRÁS FEITO CARANGUEJO
CARTA DO SR. AUGUSTO DE CAMPOS
RÉPLICA CHEGOU TARDE AO EDITOR DA SEÇÃO ( NOTA DO SR. JOÃO
MOURA JR., EDITOR, EM CULTURA DE 16/9/94)
AUTOR SE DIZ VÍTIMA DE ATAQUE ORQUESTRADO
AUGUSTO DE CAMPOS REAGE A ARTIGO DE BRUNO TOLENTINO
COMENTÁRIO DE BRUNO TOLENTINO À REAÇÃO DO SR. AUGUSTO DE
CAMPOS PUBLICADO EM CULTURA, AOS 16/9/94
CARTA DO SR. OLAVO DE CARVALHO AO SR. EDITOR DE CULTURA EM
20/9/94
III. A RETIRADA DA LACUNA
A IRADA FLOR DOS CAMPOS, ou
I. CLUBE DA VITÓRIA RÉGIA 1994
II. O RABO DO NIMBÚ
III. A QUARENTENA
IV. O HOMEM QUE NÃO SABIA JAVANÊS
V. SAPO-BOI & REI LEÃO
VI . O REI MENOS O REINO
AVISO AOS NAVEGANTES
POST-MORTEM
PAULICÉIA DESVALIDA
TOTTENLIEBE
O PASSADO DOS MESTRES
A RETIRADA DA LACUNA
MEA CULPA?
O NOVO PRODUTO
LA VIEILLE GARDE
OS IRMÃOS GONCURTOS
SAPOPPELGÄNGER
ARREBOL NA ILHA FISCAL
O CREPÚSCULO DOS ANJOS
TEMPO DI MIGRARE
IN (FUTURAM) MEMORIAM
A HOMÉRICA GARGALHADA
ASSIM FALOU ZARAUGUSTA
(1.) SOMETHING ROTTEN
(1a) ALGO DE PODRE
(2.) SIMPLE, AIN’T IT?
(2a.) SIMPLES, NÃO ACHAM?
(3.) UNSIGNED, FROM THE BEYOND
(3a.) SEM ASSINATURA, DO ALÉM
(4.) OEDIPUS & THE TOAD
(4a.) ÉDIPO & O SAPO
(5.) “LEAFES OF GRAS”
(5a.) “FÔLIAS DE HERVA”
SITTING DUCKS
CORO DOS CEGOS DE TEBAS
INOCENTE INÚTIL
ATA & MINUTA
BINÓCULO PELA CULATRA
CONVITES À FILOSOFIA
EM RETROSPECTO
MUDEZ DE PEDRA
HOMUNCULUS PAULISTANUS
ET CATERVA
SEGREDOS DE IMPRENSA
JOVENS BÁRBAROS CENSORES?
CARTA ABERTA AO JOÃO
CARTA ABERTA A MARLY
IV. RESPONSABILIDADES
AQUI TERMINA OS SAPOS DE ONTEM
INSIDE THE HOUSE OF USHER
GRITARIA NA TOUCEIRA
NOTAS


“ Os principiantes são bem-vindos. Eu também sou um deles, principalmente
após vários anos de prática das disciplinas implícitas neste livro. Nas palavras
de Thomas Merton: ‘Ninguém quer ser principiante; mas convençamo-nos de
que não passaremos nunca disso’. (...) A superficialidade é a maldição do nosso
tempo. O mais urgente hoje não é um número maior de pessoas inteligentes, ou
talentosas, mas de pessoas profundas. As disciplinas da vida do espírito nos
convidam a passar de uma vida à superfície para o viver em profundidade.
Instam conosco a que sejamos a resposta a um mundo vazio.”

( R. J. Foster, Celebration of Discipline )


I. O PRÓLOGO DE UM EPÍLOGO

A FARSA COMO HISTÓRIA

Marx pode ter sido uma Cassandra que não deu certo, mas num ponto
acertou em cheio: a História que se tenta repetir acaba em farsa. O chamado
Concretismo foi uma delas. A idéia mesma de “vanguarda” talvez já não se
preste a outra coisa. Em todo caso, o certo é que estas últimas décadas, enquanto
se agredia a inteligência brasileira por todos os lados, em poesia pretendeu-se
mascarar indigência de inspiração e inabilidade artesanal mediante um exótico
receituário pretensamente “novo”. Não há, nunca houve novidade alguma nos
maneirismos e ludismos das civilizações em crise, como o atestam, entre tantos
sintomas alhures, os jogos florais de romanos e gregos in extremis. Passado o
ápice de cada projeto civilizatório em via de esgotamento, surgiu sempre ao
longo da História uma pletora de esoterismos próprios a entreter uma ilusão de
liberdade enquanto não chegam os bárbaros. Como na obra-prima de Cavafy
sobre o tema, ou na ode de Ricardo Reis sobre os jogadores de xadrez, o que
todos esses estados de transe têm em comum é invariavelmente um mesmo grau
de vacuidade existencial e idolatria esteticista, nascidas do pânico ante o real e
traduzidas em impotência ante a linguagem. O poeta então, sem fala como o
menino ante a nudez da maja, ato contínuo diviniza-a: mais ainda que do desejo
sem meios, é sempre do sacro pavor que nasce a idolatria. O culto da linguagem
é a coisificação totêmica da deusa nua.
Quando a linguagem de uma tribo deixa de ser instrumento natural de
comunicação para tornar-se objeto de manipulação pelo neófito, é que já foi
entronizada como fim em si mesma. Promovida a assunto, não tarda é
proclamada meta suprema do ofício de dizer. Subitamente já não lhe cabe
significar senão a si mesma, e não mais ao ser, à vida, ao mundo. Este, aliás, é o
primeiro que some, como a insignificância que é ante o totem-em-si, a celebrada
e reverenciada “meta linguagem”: o utensílio vira amuleto, o amuleto é
divinizado e o carro solenemente empurrado para adiante dos bois.
Na antologia de 1982, a cura de Vinícius Dantas e da hoje pentita Sra.
Iumna Maria Simon 1 , o Concretismo era a certa altura descrito como “ totem
para seus criadores e tabu para seus leitores ” e o poema como “ verdadeira
utopia ... sem valor de troca”; quanto a seu “consumo” pelo leitor, apelava-se
mais adiante para uma sua “boa vontade lúdica”. Uma vez mais, a coisificação
idólatra da escrita e o espírito de play-ground . Lia-se ainda que “ o poema
deixa de expressar e representar um universo de sentimentos e emoções
exteriores a ele, para presentificar uma realidade viva e autônoma - a
realidade em si do poema (...) a perda de si na linguagem, o desaparecimento
do eu sujeito lírico em benefício da plenitude gráfica e visual, é o modo como
o poema procura sustentar a linguagem nova.” Anos antes, em Teoria da
Poesia Concreta 2 o Sr. Haroldo de Campos, citando Gomringer, explicava: “ O
poema concreto é uma realidade em si, não um poema sobre... E como não está
ligado à comunicação de conteúdos e usa a palavra como material de
composição e não como veículo de interpretações do mundo objetivo, sua
estrutura é seu verdadeiro conteúdo .”
Desde o Renascimento a ideologia vem substituindo o mundo-como-tal
pelo mundo-como-idéia numa variedade inesgotável de fórmulas, mas esta
particular perversão apresenta a vantagem de combinar cacoetes milenares com
um sotaque de “modernidade” todo especial. Com efeito, a fórmula é imbatível,
pois aparece como um solipsismo que abolisse precisamente o eu, retirando-lhe
a subjetividade em favor de uma cobiçada divindade secular: o relativismo
mascarado em objetividade. Esta última, numa súbita espécie de imanência
iluminativa é então atribuida ao novo totem, a linguagem-em-si; o que só os
deuses possuiriam, a apathea da objetividade, o novo ídolo passa a encarnar
neste pobre mundo de incertezas. Por outro lado, a incerteza do fugaz cabe como
uma luva ao monstrengo: ao indizível divinizado corresponde a sinuosidade dos
fenômenos. São incontáveis ao longo das monotonias da História as instâncias
em que se voltou a constatar embasbacado que a àspide da linguagem pode
dançar tão ou mais rápido que as aparências fugitivas, que delícia!
O que aconteceu entre nós com fumos de novidade foi mais uma instância
desse antiquíssimo jogo de aflições adolescentes,3 não passou disto apenas, de
um deslocamento do essencial para o supérfluo, de uma coisificação
divinizatória do meio como fim. Não caberia mais escrever poemas, mas
compor, melhor ainda, propor poéticas. Em vez do bolo pronto, uma infindável
exposição de receitas e ingredientes, todos, aliás, com seu mofo particular
separado do bolor acusatório dos outros em nome de uma suposta superioridade
intrínseca. Foi sempre revelador, de resto, que em tempos de gagueira pânica o
trocadilho vingasse à solta: o “esboço da serpente” ociosa compraz-se em seus
nós mais óbvios. E se o poema, como o todo vivo que é, atreve-se a nada ter a
ver com uma pomposa sugestão de intenções programáticas entre esotéricas e
futuras, é como se não falasse, ou pior ainda, falasse do que, não sendo ele-
mesmo, pertencesse ao odioso reino do real, esse desmantelador incurável de
conjeturas... Passado o susto e expulso o intruso, volta-se à ordem plácida das
prateleiras, o jogo continua. De grão de mostarda de uma fé natural, de ato de
confiança vital no verbo humano, de microcosmo dessa mesma humanidade, o
poema é intimado a tornar-se picadeiro de bolso, tabuleiro de xadrez, tubo de
ensaios de uma ociosidade vazia de sentido. Assim foi, a um certo nível ao
menos, com aquela idolatria paralisante de ordem abstrata e de cunho conceitual-
autoritário que teve incontáveis nomes no crepúsculo da antiguidade clássica e se
chamou por aqui vanguarda, concretismo, praxis, etc.
A um certo nível, digo, porque a um outro nunca passou de vulgar
impostura. Tanto mais óbvia como tal, quanto surgiu paradoxalmente no instante
mesmo em que no Brasil as artes do vernáculo, espécie em poesia, atingiam
enfim a um patamar de universalidade que todas as civilizações em todas as eras
chamaram de clássico. O espantoso, pois, o flagrantemente artificial, não era
apenas que os gaguejos futuristóides de Noigandres nascessem dos ainda
recentes bocejos parnasianísticos e abarrocados de três autores em nada distintos
da pior mediocridade morna da Geração de 45, à qual o trio de fato pertence em
estilo, mentalidade e fôlego; o surpreendente era que erguessem as auto-
excitadas cabeçotas justamente quando Bandeira, Drummond, Cecília, Jorge,
Murilo, e até o jovem Cabral, elevavam nossa lira a cimos que até então
desconhecia.
Tudo isto acontecera e continuaria a acontecer enquanto não havia como
perceber diferença alguma, fosse qualitativa, fosse de dicção, vocabulário,
sintaxe ou sensibilidade, entre a fraternidade de Noigandres e o resto que
fumegava então do pior calibre 45. Atestava-o o estilo penteadeira-de-velha do
Sr. Augusto de Campos por volta de 1953: “em glaromas de amil e penubis /
(...) / com estas mornas flores de oromãs / morigerantes ou cansadas corças”
são, colhidas ao acaso em seus textos pré-“revolucionários”, algumas das
incontáveis pérolas cediças com que se adornava então a musa solteirona do
futuro “ enragé”.. . Cujo ‘salto formal’ (ou gráfico?) não mudaria em nada o teor
do florilégio: “ Ovo novelo / novo no velho (sic) / o filho em folhas / infante em
fonte / feto feito / dentro do centro / (...) / noturna noite (sic) / em torno em
treva sem contorno / morte nó cego / sono do morcego ” e o ideogramicamente
genial: “ entreventres / quando queimando / os seios são / peitos nos dedos” ...
Eram assim todas as erupções salivares e salvativas dos torquemada-
nostradamus da lira “em crise” no Brasil dos anos 50...
Eu sei, parece incrível. Mas veja-se como, pela mesma época, versejava o
irmão mais velho, sempre estravazadamente mais audaz: “Filomela de azul
metamorfoseado / zênite de marfim onde o crispado / anseio se arbitra / (...) /
xadrez de estrelas, salamandras de incêndio / princesa plenilúnio desse reino /
de véus alíseos: o ar. / (...) / astronomia de que são órions de pena / Lusbel
libra-se sobre o abismo...” 4 Nem se imagine que posteriormente o “salto
revolucionário” viria a tornar mais sóbria a ígnea musa sub-45 do savonarola
das Perdizes, pois veja-se como, em Ciropédia: A Educação do Príncipe,
progredira a coisa: “ Ó inferno afélio do langue heliotropo! /(...)/ Núpcias.
Paranúpcias. Pronúpcias. / Congregação de rubís, a puberdade instaura a
missa rubra. / Ele admira as grutas, apalpa as volutas cornucópias, contorna o
maralmíscar das sereias. / A Geometria Plana? Júpiter Tetraedo de quadradas
espáduas? / - Drósera rotundifólia, amálgama de sílabas cardeais. /
Labilíngue ele diz : amor - larva do beijo, ninfa nibelung dum ciclo de
legendas. / Meisterludi: Rigor! / Cobiça as galáxias estrelas, doutora-se em
lânguidas palavras (sic) , licornes libidinosos / e glúteas obsidianas. Luz
purpúrea. / Em Agedor chega-se à idade por uma súbita coloração roxa sob as
unhas...” E, como se vê, o roxo escorre pelos purpúreos versos... Mas notável
mesmo era o decano da banda, Sr. Pignatari, cujo inolvidável refrão: “cansada
cornucópia entre festões de rosas murchas ” efetivamente resumia a tripartite
arte num único verso-emblema. Sim, leitor, os precoces “velhinhos” da caluniada
Geração de 45, bem mais sóbrios, desde então pagam o pato plumoso, mas os
cisneramas de Agedor & Cia. eram pura lantejoula e pailleté. Ninguém parece
haver notado o óbvio, o que é espantoso, mas “ sapos já foram pombos / nas
madrugadas de outrora ”...
Mas enquanto a bruma beletrista espraiava-se rala pelos campos
(sobretudo paulistas...) de 45 e adjacências, aqueles mestres egressos de 22
pairavam cada dia mais longe dela, mais alto. Com a maturidade de cada um
deles nossa Musa ascendia a uma nova medida de grandeza, a par com as mais
altas vozes européias e continentais. Pela primeira vez desde a erupção
romântica (quando alas! corremos atrás de Victor Hugo e Lord Byron,
desdenhosos das lições de Leopardi, Baudelaire e Hoelderlin, para não falar
daquelas, algo mais accessíveis, de Wordsworth ou Keats) tivemos fartamente,
de 1930 a 1960, uma voz poética ao nível do coro universal de nossos
inevitáveis modelos externos. Nada parecia preludiar, menos ainda convidá-lo a
uma “desconstrução”, um abstruso ascetismo no corpus recente - e tão frágil
ainda! - da linguagem de uma raça que se despia enfim de exterioridades e
sentimentalidades para por a nu o próprio estofo da alma. Ao contrário! Com
Claro Enigma (1951) e adjacências, o nervo da interrogação metafísica nos
trópicos abria amplos e profundos espaços para uma verdadeira perquirição do
ser, finalmente possível com a superação da obsessão telúrica e a conquista de
um idioma próprio, a um tempo denso e abrangente, capaz de encasular a
reflexão do universal em suas infinitas possibilidades.
Mestre Bandeira por mais de 30 anos purificara o idioma da modernidade,
universalizara-o e aclimatara-o, interiorizando o olhar que pesa o mundo,
limpando o horizonte emotivo-verbal para que nele se movessem, tanto o gigante
drummundiano da interrogação de Édipo, quanto a reconstituida silhueta de um
Orfeu recobrado à bacante e dado à História. Jorge de Lima emergira dos
telurismos de cromo e vinheta ao gosto do dia, passara pela pia batismal do
versete bíblico e o fora reinventar, ao telúrico que lhe era congênito, nas águas
fundas do mito; Cecília Meireles codificara a tradição mais perene, tornara
límpida sua historicidade e dera-lhe raízes nativas pela primeira vez paralelas às
da metropole da língua, mas enfim livres dela. E Drummond orquestrara tudo
entre o tédio dos fatos e o surto agônico da interrogação metafísica. Tudo se
constelava, surgia de onde não se suspeitara até então andar tão poderosamente a
multiplicidade do real: entre A Rosa do povo (1945), o jorgeano Livro de
Sonetos (1948) e o Romanceiro da Inconfidência (1953) nossa lírica funda
definitivamente a parte da História em solo nosso.
Porque o inventor daquela jóia do mais vivo cromo nativo, a Negra Fulô
parente da Irene-preta-Irene-boa manuelina, fora de repente muito mais longe
ainda: como se não bastasse Miraceli, Jorge reinventara, não tanto ao Orfeu
inflado e semiforme como acabara impresso em 1953, mas ao soneto, esse hai-
cai da música conceitual do Ocidente. O surpreendente alagoano, menos artífice
mas tão grande artista quanto o Bandeira e o Drummond sonetistas, não
dispensara o órfico de pensar em quatorze versos, mas o confrontara à lava
candente da metáfora a um tempo barroca e moderna. E eis que tudo isto
estranhamente escapava à retórica iluminódina do Sr.Haroldo de Campos que,
em artigo no Diário de São Paulo de 5/6/1955 o resumia como “o lirismo
anônimo e anódino, o amor às formas fixas do vago (...) a ‘redescoberta’ do
soneto à guisa de ‘dernier cri’ (...) preguiçoso anseio em prol do domingo das
artes, remanso onde a poesia, codificada em pequeninas regras métricas e
ajustada a um sereno bom tom formal (...) pudesse ficar à margem do processo
cultural”.5 Afortunadamente a lição chegava tarde a mestres e discípulos: ao pé
das sempre crescentes alturas de Bandeira, Drummond e Cecília, João Cabral,
nos Poemas Reunidos de 1954, sobretudo da Fábula de Anfíon ao Cão sem
plumas, mineralisava o indizível, dava-lhe corpo e música longe ainda das
monótonas logofonias do conceito; e Murilo Mendes não deixava por menos: de
Poesia Liberdade (1944) a Tempo Espanhol (1959) densidade, ritmo e espaço
davam-se as mãos para dar asas próprias à linguagem arraigada no dia-a-dia,
aquela mesma que Mário de Andrade tanto havia imaginado sem alcançar.6
Súbito, eis que já não era imprescindível importar: amalgamava-se, senão
sempre com água de fonte ao menos com força de torrente viva, as tabatingas
palpitantes da tribo; Peri e o Timbira tinham enfim sua prole madura, nosso
Guararapes poético triunfava de Pernambuco às Minas Gerais, das Alagoas ao
Morro Cara de Cão. Não, nada pedia ou deixava prever um colapsus linguae a
irromper da compulsão auto-biográfica de alguns iluminados. Norte-sul-leste-
oeste da língua madre, revificada pela ascenção interior da Musa, da Musa local,
a uma tão buscada identidade própria ante o desafio da universalidade, os anos
50, nosso meio do caminho, não pediam um pedra de plástico importada, nem
tinham porque passar a campo de pouso de implumes aves exóticas, no instante
mesmo em que eram enxotados de vez os papagaios, jacarés e cererês do
incorrigível Sr. Cassiano.

***
Não obstante, aqui começa a triste história cujo pífio desfecho este ensaio
autopsia e este livro celebra. Porque, face à mais alta plenitude de nosso verso
em quatro séculos, começara a arregimentar-se a legião dos ressentidos. Os
reprovados no vestibular da universalidade contestavam não apenas as regras do
jogo, mas a legitimidade mesma da arte nacional, e isso no instante exato de seu
tão anelado zênite! Os sem papel na História propunham-se refazer a História no
papel, pregavam o golpe de estado que pusesse o mundo-como-idéia no lugar do
real. E a agitação contagiava: arauto da mais recente perversão da sempre
preciosa seita dos cristãos novos do Conceito, Mario Faustino, dos altos de sua
página no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil perdia de vez as
estribeiras.
Tratava-se de um jovem autor cujo único livro, o recém publicado O
homem e sua hora, em seus cerca de 700 decassílabos regulares (quase todos
brancos, exceto por um rimancete e oito sonetos entre as vinte e uma líricas da
coletânea) enxertava a dicção de Jorge de Lima a um lastro discursivo algo
mármoreo, de cunho conceitual-idealista, embora assaz pessoal. Eivado de
exotismos, mais pungente que pujante, seu verso correto, mas pouco dúctil,
afastava-se tanto da fluência do demótico quanto do léxico contemporâneo,
privilegiando a dicção cultista a serviço de uma visão heróica da História. Esta,
em seu cerne um paganismo apeso menos a uma ideologia que a uma nostalgia,
parecia porejar sobretudo de sexual undertones de um cunho francamente
alternativo. Mais imaturo e audaz que propriamente inventivo, havia ainda assim
no irrequieto piauiense precocemente falecido aos 32 anos uma força original
evidente nos melhores momentos de seu Opus 1 e único. Poeta algo excêntrico,
mas de fôlego, tão impresivisível quanto promissor, tornara-se também um
polemista de verve e ampla influência em sua página semanal do Jornal do
Brasil, Poesia-experiência (1956-58). Desafortunadamente, após canibalisar
sobretudo ao Jorge de Invenção de Orfeu, descobrira o caleidoscópio cubista do
velho Ezra (jovem autor, passara uns meses nos EE.UU.) e o começaria a
decalcar em “textos experimentais” em que pouco mais conseguia além de
neologizar seu flórido lexico e introduzir um frisson de fragmentação arbitrária
em seu irresistível pendor gongórico.
Assim armado (ou “couraçado”, como descrevia os “infantes” helenos na
barriga do Cavalo de Tróia) por ocasião da Primeira Exposição Concreta no Rio
de Janeiro já o sanguineo rapaz se havia tornado uma espécie de homérico farol
da vanguarda local, e saudava a chegada da trindade papal à nova avignon
sismática, como quem “slouches towards Bethelhem to be born”... Não, o
aterrador sarcasmo do célebre verso de Yeats talvez não caiba assim tão mal
aqui: com sua inesperada revigoração do mítico pelo coloquial (slouches:
arrasta-se desengonçadamente) pode servir de contraste instrutivo à retórica de
estandarte e poeira de estante que, em lexico como em sintaxe, de fato unia
subrepticiamente o new look do piauiense ao estilo intrínsico dos paulistanos.
Senão vejamos. Aos 22/10/56 Faustino publicava em sua página do SDJB as
ultimas espigas d’oiro de sua nova e epicizante seara: “Cavossonante escudo
nosso / palavra panacéia / ornado de consolos e compensas / no sabuloso mar
na salsa areia /(...) / a fraga estilhaçamos nus sem pele / estrelorientados
rumo-nós / (...) / e em violetas me violentam - frutos / NÃO!: pois inútilbelo
(sic) tenho sido / e do bembelo hei rido / o feiobom ferido / (...) / Foi-se na
espuma - foice de escuma sega / meu pescoço nodoso e pelágicos deuses /
conspiram contra mim, jogam-me em ilhas / que não são minhas...” Não, não
eram mesmo, eram - na melhor das hipóteses - do mesmo Jorge de Lima a
estragar tudo sob a maquiagem do moço, a intrometer-se nos Piauían Cantos lá
de seu além, sorrindo “à margem do processo cultural”...
Pois em artigo de fevereiro de 1957, esta alma fraterna dos glenubis de
amil e oromãs apresentava encomiasticamente a nova leva dos Jaús a insurgir-se
armados da paulicéia um quarto de século após 32, como se de fato se tratasse
do tão esperado Second Coming: “A poesia no Brasil estava precisando,
desesperadamente, de um acontecimento” escrevia o cavossonante bardo...
Note-se que não decorrera um ano da aparição de Duas Águas e Grande Sertão,
e que a tinta mal secara no Itinerário de Pasárgada... Mas nada disso o
comovera ou instruira, e o rapaz tonitruava que nossa lira andava “urgentemente
necessitada de um shake up...” Pouco antes de exigir a milk shake for her (como
na famosa repartida de Bette Davies em All about Eve), comunicava-nos que:
“...um grupo de três rapazes, dois dos quais irmãos... (sabem que) Mallarmé e
Pound (são) mais importantes para o progresso da poesia que Eliot e
Baudelaire”. Não se privava de garantir-nos tampouco que “os três lêem
(direito!) os alemães e outros centro-europeus (e ele, como os leria?) assim
como os americanos (sic) e os ingleses”. A importância disto, a aceitar que
fosse um fato, ficava por conta da “nova estética”: dado que não tínhamos em
casa com quem aprender a escrever poesia em português, importar era preciso...
Marly de Oliveira, Merquior e eu entreolhávamo-nos perplexos: seria
então isto ao que se chamava “revolução” nas pátrias letras?! Talvez não, mas
com semelhantes “chutes” e cosmopolitismos bocós ia-se prenunciando o ainda
incipiente Febeapá letrado. Porque eu, for one, jamais notei em Faustino uma
aptidão linguística tão ampla e fina que lhe permitisse avaliar, menos ainda
avalizar, a alheia, bem ao contrário... É que haviam soltado a Ezra Pound do
hospício e ele záz! mandava-o para cá... Até porque ninguém mais queria em
parte alguma the wretched, tedious man / in the House of Bedlam, segundo a
genial evocação que dele fez La Bishop, em Visits to St. Elizabeth’s (1950). Este
poema, aliás, em tradução de Alfredo Lage e Lota de Macedo Soares, sob tutela
da autora, levei-o eu mesmo a Faustino, que o “aceitou” para sua página em
março de 1957; quinze meses depois, ao trocar sua profética tribuna por um
emprego em Nova Yorque, continuava inédito. Cheguei a contar, durante o
mesmo período, perto de cem referências ao Master of Masters; mas do
devastador retrato que dele fizera a testemunha ocular, um dos dois maiores
poetas americanos do pós-guerra, nada se ficaria sabendo. Nem sequer foi
devolvido o manuscrito. Vanguarda é isso mesmo, tudo, sobretudo a censura,
pela saúde da Causa!
Já por essa época a declinante Geração de 1945 havia mal entendido tudo.
No geral sem o gênio de seus predecessores, sem grande cultura e sem
credencial específica ante a História, aqueles rapazes que raramente acertaram
uma cadência imaginavam trazer de volta à pátria lira uma suposta solenidade
perdida... Curioso, pois que mais haviam feito aqueles mestres?! Quem precisava
de lições de gravitas, de limpidez, de elegância formal? Certamente não os
autores de Belo Belo (1947), Livro de Sonetos (1948) ou Retrato Natural
(1949). Menos ainda o criador de José (1942), da Bruxa (1945), de Luisa Porto
(1947). Não, aqueles rapazes não haviam lido com muita atenção senão os
“sinais dos tempos” a chegar-lhes do hospício poundiano com a data vencida
havia décadas, mas em socorro de seus “festões de penubis e oromãs”... Não é
de espantar que, uma vez evidenciado o mofo na prosódia de seus primeiros
livrecos sem graça e sem eco, nossos Marx Brothers se propusessem como
revide a reinventar a roda. Porque assim foi como, encurralados no naufrágio
geral do Titanic de papel de seus companheiros de primeira viagem - os demais
invertebrados de 45 - três dentre os mesmos, quando o fracasso lhes subiu à
cabeça, julgaram achar no eureka poundiano um salva-vidas: metamorfosearam-
se em fênix de jornal para “salvar a poesia”, proclamando a morte do verso com
a mesma cara de jacarandá com que Nietzsche anunciara a de Deus.
Mas, defuntíssimo Senhor, que verso senão o deles poderia estar morto no
Brasil dos anos 50? De quem senão de Drummond saía A luta corporal de
Ferreira Gullar em 1954? Onde senão à sombra do Orfeu de Jorge espoucava no
ano seguinte O homem e sua hora, o melhor que faria jamais o mesmo Faustino,
em transe ideogrâmico a partir de 56? A que fontes senão às mais castiças bebera
Otávio Mora, o adolescente que nos dava em 1956 Ausência viva, talvez a mais
bela estréia poética desde A cinza das horas? Quem melhor que Cecília
informava a Explicação de Narciso que Marly de Oliveira publicava dois anos
depois? E não só, a lista é tão longa quanto irrespondível. Edmir Domingues
mesmo, 45 ou não, certamente não necessitava de um urgente boca-a-boca para
que seu verso vivesse, livre que nascia de “lusbéis alíseos, morigerantes
glaromas & cansadas cornucópias”. Ele e incontáveis outros, not least a
inclassificável Maria da Saüdade Cortezão, cujo O dançado destino de 1956,
exemplar quase eliotano de clássica limpidez, nem toda uma banda dodecafona
faria dançar com menos elegância ante os educados príncipes de “Agedor”,
wherever that was to be found... A ela devo muito, muitíssimo, como a todos os
acima reverenciados, jovens ainda quando eu começava a ser jovem. Velhos
mesmo, velhos de matusalêmicas e parnasianas canseiras, só nossos
empoeirados sapos de ontem, desde então reafinando em vão seus surrados
realejos em uníssono para, na zoeira, proibir a tudo e a todos de existir. Mas
aludi a uma História que se teria repetido aqui como farsa. Qual foi? Ora, qual
outra senão a idéia de reeditar 22 em 55? 7
Pois examinemos de mais perto aquele solerte mal entendido. Uma
revolução faz-se sempre, e já por etimologia, no sentido de um retorno a algo
perdido, ou descurado. Na arte da poesia ela se faz urgente, e por assim dizer
inevitável, a cada vez que a linguagem poética se afasta perigosamente da língua
corrente. Quando se torna um linguajar, próprio apenas a educar príncipes em
Agedor com filomelas corças murchas; quando resvala num sistema fechado de
signos e convenções, a linguagem profunda de um povo começa a anquilosar-se e
a evaporar-se e faz-se imperativo trazê-la de volta àquela que é sua fonte e
referência: a fala, a língua como de fato se fala. Wordsworth e Coleridge não
tinham outra meta em mente, nem Pound e Eliot um século mais tarde. Cavafy não
foi grande por outra razão. Ungaretti e Montale tampouco. Ou em Espanha a
Generación del 98. Nesse sentido nosso Modernismo, às antípodas do de Dario,
fora um salutar e revolucionário esforço, e por isso mesmo um triunfo. Longe de
São Paulo (em que um Andrade se extratificara a estrofisar um coloquialismo
inexistente e o outro sucumbira às piadinhas do minimalismo mental de
circunstância) 8, o movimento quase que natural, em todo caso em combustão
expontânea a partir de 22, havia restituido a linguagem poética à fala natural da
tribo, revigorado as formas e os ritmos próprios à musicalidade inerente à
língua, sem prejuízo de seu comércio com o sensível, o imediato, o real. Feito
isto, restaurara a balada, o rimance, a cesura, a redondilha, o soneto; e
esplendidamente sobretudo este, que Bandeira, Drummond e Jorge haviam
resgatado ao torniquete parnasiano e, os dois primeiros, devolvido à invenção ao
nível da fala corrente; para além, não para aquém, da qual, o terceiro o levaria a
um rodopio órfico até então inédito em português. Enfim, outra vez tornavam-se
possíveis todas as reinvenções inerentes à riquíssima tradição poética
lusofônica.
Quanto à história da gralha, ou da farsa tentando fazer-se passar como
História, seria apenas uma idéia, uma irrequieta enfrutescência a mais no
mamoeiro marmorizante do Conceito; e a noção era simples, simplória mesmo,
como tudo o que se passa no mundo-da-lua: uma espécie de exame de segunda
época do Modernismo radical de três décadas antes. Eureka! Eureka! Eureka!
repetiam-se as três sápicas graças, já que ninguém gostou dos penubis do
Príncipe, desmaquiemo-lo e salvemos o Modernismo! Mas este havia cumprido
perfeitamente sua função histórica e perdido sua razão de ser ao livrar do colete
o idioma nobre e revigorar o discurso criador reaproximando-o do vigor
coloquial da língua. A “nova” receita, no entanto, para justificar sua
oportunidade (ou seu oportunismo?) negava tudo isso. 9 Propunha um
“movimento revolucionário” pertinente apenas às cabeças de ogiva gótica de
seus arcaisantes e estrangeirados inventores, auto-proclamados cibernéticos em
transe, mas em verdade neo-românticos retardatários em busca de redenção.
Cobra mata-se de uma paulada só; mas a Tricéfala, além de venenosíssima, era
sinuosa e camaleônica, deslizava entre oromãs de amil e passava do roxo
agedórico ao multicorolérico da sacra indignação... Ainda assim, aqui tocamos o
nervo da ruidosa e ruinosa questiúncula, afloramos a decifração do transparente
enigma que faria de Lusdrósio, Glaromil e Cornucópius os três arcanjos
vingadores da modernidade apunhalada por Fulô, José e Totônio Rodrigues.
Aristóteles chamou à tragédia “a purificação de uma paixão perigosa
através de uma libertação veemente”... Trágico só para eles, o edípico dilema
dos moços (basicamente a frustração de haver perdido o pioneiro barco e não
saber nadar por escassez de fôlego lírico, bovarismo de província e forma
mentis retórico-floral), a “revolução” por eles proposta, e quase imposta à força
de bastonadas e embustes, era, além de proto-fascista em sua inspiração e molde,
sobretudo descabida porque abstrata, arbitrária, inútil. Não se propunha a
socorrer uma língua abandonada por sua linguagem profunda, mas a impor uma
linguagem de gabinete, um dialeto gráfico, ao mais sadio e pleno momento da
língua. Que o tenham, esse linguajar, travestido de modernosidades e
excentricidades importadas, e revestido-lhe os penúbicos glaromas de exotismos,
populismos, trocadilhos, truques graficômicos, pedanteria professoral e erudição
de chusma de periódico, em nada o tornou menos cediço ou menos fátuo. E pelo
simples fato de que poesia e língua nunca se haviam dado tão bem entre nós
quanto aos meados deste século.
Este aspecto da farsa, aliás, sempre me impressionou. Que o mais rico e
original instante da poesia no Brasil, os anos de apogeu e refinamento de três
décadas de Modernismo, fosse não apenas ignorado, mas negado e caluniado
pela sápica trindade, parece-me hoje um caso exemplar em favor da tese
bloomiana sobre a “angústia da influência”. 10 Incapazes de resolver esse
tormento pela superação do modelo edípico - já que não tinham, nenhum dos três
rapazes, poesia alguma a fazer, como se viu e se há de ter notado pelos exemplos
transcritos aqui - a aristotélica libertação veemente só se podia manifestar
através do assassinato coletivo do arquétipo; já não mais da identidade, mas da
própria natureza do modelo ante o qual o neófito falira... A fúria contra a
palavra em favor (notem bem) da idéia é reveladora, elle en dit long; no artigo
de 1956 acima referido, o mesmo Sr. Augusto de Campos, inolvidável autor
daqueles “glaromas de amil e penubis” e outras incandescências florais ainda
tão próximas quanto mornas, investia contra nada menos que “a introspecção
debilitante ” (sic) e denunciava “as palavras como meros veículos indiferentes,
sem vida sem personalidade sem história - túmulos-tabus com que a convenção
insiste em sepultar (atenção!) a idéia.” A velha fórmula não falha: quando o
mundo-como-tal desautoriza ou rejeita uma auto-imagem, torna-se insuportável e
faz-se imprescindível sua substituição pelo mundo-como-idéia. Jean Cocteau
dizia que os homens se suicidam porque não conseguem ser poetas; a idéia da
“morte do verso” no momento mesmo de seu apogeu, foi exportada para a nação
pela trindade em pânico como uma indução ao suicídio coletivo: avec nous le
déluge...
Sedutor convite, a julgar pela rapidez com que a arca se encheu de toda
espécie de animais dos campos... So much for that, though, o dilúvio não veio e
a farsa expirou not with a bang, but a whimper, o gemido moribundo da saparia
glaromitomana recauchutada. A História nada teve a ver com isso e o século
afinal acaba melhor do que começou. Porque, como é sempre o caso em tempos
de crassa usurpação e truculência normativa, a poesia se fêz, continuou a ser feita
apesar da ocupação do espaço exterior pelo mais reles espírito de prosa: o
sempre crônico, inevitável prosaísmo das variegadas ditaduras do mundo-como-
idéia. Aos cimos em que se move o espírito, o poeta, o albatroz, o falcão e a
claridade, os miasmas do charco pseudo-conceitual não chegam, lá o esoterismo
programático não pode desvirtuar, poluir ou impedir nada. Foi perfeitamente
possível ao poeta nato, a um Ferreira Gullar, a uma Adélia Prado, a um Alberto
da Cunha Melo, a um Romano de Sant’Anna, a uma Marly de Oliveira, a um
Jairo José Xavier e a muitos outros, ignorar a pseudo-revolucionária “sapiência”
e construir suas obras a partir da grande herança do Modernismo, absorvida no
corpo vivo de uma tradição que nunca andara tão bem de saúde. Tutto sommato,
a farsa não repetiu a História, pensando bem. Tratou de macaqueá-la e, como o
“processo cultural ” todo seu que era, deu-se à margem dela, como se dá um
espetáculo de circo ao largo da vida normal de uma cidade. Afinal, nunca se
conseguiu instalar um charco numa praça central, ou periférica que seja. Ateste-o
o Anhangabaú, que continua seco...

***

E não obstante o estrago foi considerável. É que toda agitação artificial e


estéril confunde, dispersa ou paralisa um elemento indispensável a qualquer
sedimentação cultural: o bom escritor de segundo escalão, de porte mediano,
fruto da excelência do esforço, da dedicação ao estudo, do suor do talento e não
do gênio.11 É ele que, paradoxalmente, sustém as altitudes do gênio de uma raça,
embasa-as à maneira da cordilheira erguendo, sustentando seus cumes. A solidão
destes últimos não pode ser, não tem porque ser total, ela é tática apenas. Sem a
hierarquia de seus pares, o lobo solitário é pouco mais que um desgarrado, por
grande e pungente que seja seu uivo, seu protesto precisamente contra esse
isolamento, sempre anti-natural e, enquanto dure, uma perda para todos. Com
efeito, os momentos decisivos nas grandes culturas do Ocidente foram aqueles
em que toda uma miríade de talentos menores superou a platitude da
mediocridade, que é toda outra coisa, e circundou com naturalidade suas figuras
de proa. A sólida nave de uma cultura é feita do lenho tosco, mas confiável, do
que um povo tem de mais próximo, mais familiar, mais saudável. Os altos
mastros não se erguem do nada, mas de um amplo convés do mesmo lenho.
Navegar é preciso, mas é toda uma raça que o faz, quem à gávea, quem à bússola,
quem à proa e quem à popa - e ao leme, aos cordames, aos remos. A
invisibilidade da tripulação nunca é mais que aparente, sua presença miuda é
condição indispensável ao bom destino da empresa, da aventura.
Pois como imaginar Bandeira sem Ribeiro Couto, Dante Milano, Joaquim
Cardozo, Ronald de Carvalho e muitos mais, na verdade os outros todos! Ou
Graciliano sem Lins do Rego e Marques Rebelo, ou Clarice sem Lúcio Cardoso
e Cornélio Pena? Nem Drummond é pensável sem Mário e Oswald, sem Abgar e
Henriqueta! Nem Jorge de Lima sem Ascenço ou Bopp... Mas os exemplos são
passíveis de confusão. Não se trata de mútua influência, trata-se daquela
participação quase anônima no que em Weimar se chamava Stimmung. E onde se
perceberia melhor essa atmosfera, do que no mundo germânico? Que foi o Sturm
und Dräng senão um estado de espírito entre pares, um stato d’animo antes de
tudo? Tais como Goethe e Schiller, nossos dois gigantes românticos erguem-se
muito bem nos ombros de mais quatro, seis, dez companheiros de jornada; sem
contar, é claro, os hoje esquecidos e então indispensáveis semi-anônimos que
sabiam o que eles sabiam, que o serviam cada um à altura do próprio porte, mas
sem ruptura ou descontinuidade. Em tal contexto, a tentativa de exumação pelos
vanguardistas de dois abortos literários de nosso Romantismo, supostamente
preteridos, é um inesperado aporte da saparia a esta tese, justamente uma sua
irônica ilustração: o voluntarista excêntrico nunca passa de patética aberração. 12
Não teria havido nem mesmo nossa sorridente trindade parnasiana sem a
sociedade de versejadores a que sorria, sólida até mesmo quando emoldurava os
rebeldes. A essa luz, Cruz e Sousa, Alphonsus e até o paraibano de gênio não
eram alheios a um caldo de cultura que alteravam, é certo, mas sem o qual são
inimagináveis. E assim por diante. O que se está buscando dizer é que, qualquer
que seja o nível dos acertos e erros de um seu momento ou outro, uma cultura não
se faz sem que a média daqueles que nela atuam seja capaz de juizo intelectual
responsável e, de acordo ou não quanto à precisa hierarquia dos valores que
acumulou, conheça-os e, reverencie-os ou critique-os, mostre-se à altura de fazê-
lo a partir de um padrão comum de lucidez e participação. A principal condição
da vida do espírito, seu teste sempre renovado, é essa capacidade de servir o
passado com reverência, o presente com audácia e o futuro com fé. Não há nem
pode haver civilização sem esses exercícios em humildade, esse lento avançar
de joelho dobrado e olho aberto. E é bom e é justo que assim seja, pois uma
certa unidade na diversidade ou, se preferem, o reverso dessa fórmula banal,
sempre existiu e serviu de garantia ao amadurecimento de uma arte e de uma
tribo. De que modo dar um sentido mais puro à língua que um só homem, ou
dois, ou mesmo três, falam sozinhos?
Ora, foi nesse sentido que a arregimentação exclusivista, o raio dos Zeuses
do pântano de carteirinha caiu sobre a unidade da raça como uma vassourada no
cérebro. A chuva sobre Danaë foi dourada como a terebentina que dilui as cores.
Sua intenção? Dispersar. Desinformar, desviar, empolar e entortar. Seu efeito? A
tragédia criminosa que é sempre arregimentar os neófitos contra a tribo, contra a
possibilidade, a legitimidade mesma daquela sabedoria sempre embutida (talvez
em banho-maria, mas so what?) na auto-consciência como no subconsciente da
taba. A dose do curare importado, obsessiva e matraqueada como a receita da
salvação, nunca disse do quê exatamente salvava os coitados que a gagarejavam.
A suposta “morte do verso” não salvava ninguém de escrever mal, como se viu
com seus próprios arautos... “Salvava-os”, isto sim, do bom-senso, do consenso,
da humildade de tomar por adquirido o direito (e o dever!) de pensar e sentir e
criar tendo em vista as linhas mestras de uma sensibilidade tornada natural à
força daquelas periódicas “crises de convergência” que fazem o acervo de uma
literatura, de um povo, de uma identidade nacional. Fora exatamente o que fizera
o Modernismo, chegado “de baixo” aos cumes da poesia do pensamento, que
inaugura sua plenitude com o Drummond do pós-guerra, mas que traz em seu
estofo os sonetos de Jorge e os ritmos de Bandeira, o grafismo lírico de Cecília e
as minerações mentais de João Cabral.
Mas não seriam eles, os grandes, os indeformáveis, a pagar a conta. A ave
depenada não é nunca o cisne na hora rósea em que o horizonte e o além o
chamam. É o ganso selvagem, o marreco solto, o patinho feio que ninguém sabe
ainda o que vai ser. Foi o escritor mediano em formação que bebeu a terebentina
e definhou, virou minimalista ou menos ainda. Foi o jovem que Jove alçou às
pretensas alturas do novo Olimpo e largou no charco ideogramático, confuso e
só, patético e arrependido tarde demais. Foi todo um acervo, fulgurante já, mas
incipiente ainda, que, penosamente construido durante a primeira metade de um
século decisivo, viu-se acusado, caluniado, desautorizado, exilado das atenções
como “tradição”, sendo esta, claro está, equacionada com “repressão”... Foi
aquele frágil triunfo em agoniante suspense que os hunos do “make it new”
bombardearam de fora, ao abrigo de qualquer revide pela carapaça de
insensibilidade ao belo e ódio ao real que os enxoviava e resumia.
“O bárbáro” - lembrava-nos, em seu lancinante ensaio Os Bárbaros no
Jardim, o grande poeta polonês Zbigniew Herbert - “é especialmente difícil de
resistir quando se faz passar por homem de cultura”. 13 O massacre do tenro, do
mediano, do ingênuo, foi o legado de Herodes dos “inovadores” a uma cultura
nunca antes tão fértil, porque havia pouco admiravelmente renovada. Não
contentes de vandalizar os flóridos jardins de Agedor, os hunos do concreto
armado propuseram-se demolir, senão o Domus poético nacional, que vai bem,
obrigado, ao menos o pessoal da manutenção, a quem trocavam “os materiais da
vida”... Drummond, que logo o percebeu, caricaturou-o muito bem, como uma
advertência; mas o fiat se fez e, se não desfez tudo o que quis, embaralhou o
quanto se expunha ao cantochão maralmíscar das sereias, as mesmas que J.
Alfred Prufrock sabiamente não quiz ouvir: “Drls? amor em vidrotil, coitos de
modernfold, que a lança interflex nos separe em clavilux, vipax ondalit
camabel camabel o vale ecoa... E pronto - plkx!
E o canibal instala seu banquete de ossos, o sapo engorda, o charco se faz
charcuteria e o verso morre de não nascer, de não poder ou não querer mais
saber se poderia ou não ter nascido, querer nascer. Essa conta, paga ao longo de
quatro décadas pelos desvalidos de uma raça sob agressão num país ocupado, os
bárbaros do DOI-CODI vanguardista devem-na a uma nação hoje amputada. E
amputada não de seus cumes e gênios, mas de algo igualmente vital: de seu
intelectual anônimo, de seu leitor atento, de seus talentos medianos, mas
dedicados, participantes, operosos. O torturado até à paralisia nos porões da
moda foi o aluno esforçado da Musa e do real, o humilde guardião da tradição, o
artezão obscuro dos veios provados, o cultor do tesouro comum de um povo. Ele
é que foi submetido à lavagem de cérebro do marketing ideológico, ele é que
bebeu a terebentina e entrou em coma balbuciante. Ele, logo ele, o ingênuo herói
sem nenhuma culpa, o que serve de base a toda uma cultura e foi amordaçado no
primeiro andar e atirado aos porões de uma poesia que podia ter sido e que não
foi.
Coitado, o editor que me pediu este livrinho, este semi-panfleto, não
esperava mais que um j’accuse jocoso, mas a hora é grave. Penso naqueles meus
irmãos poetas que se deixaram abortar por falta de quem os defendesse, contra si
mesmos, se necessário. Nunca fora tão necessário aos mais velhos, aos
veneráveis vencedores, insugir-se, instruir, afirmar, e ninguém abriu a boca.
Manuel mesmo, o grande Manuel, contentou-se em mostrar que também podia
fazer o novo, caso lhe desse na telha. Drummond lançou suas farpas, como vimos
acima, mas não argumentou, não pensou em público. Dona Cecília tinha “ouvido
falar por alto”, como suas virgens loucas, do desamor, da tristeza do desamor à
vida e à arte, que se travestia em douta baderna, mas limitou-se a suspirar ante
seu cipreste do Cosme Velho: “que te julgue o tempo sábio: / entre os espinhos
a rosa, / entre as palavras teu lábio.” Murilo fizera prudentemente as malas
assim que Jorge juntou-se a Ismael Nery na glória do Senhor, e fora rezar em San
Pietro pelo que já não lhe importava mais, ou nem tanto. Restavam Vinícius e
João Cabral, o que não teria sido pouco, se o primeiro não tivesse emigrado para
dentro de um violão e um copo de scotch, e o outro não se tivesse deixado
subornar pela bajulação batráquia.
Porque, ao contrário do que proclamaram os atrevidos sapos - e passaram
a repetir seus acólitos aprisionados14 na ideologia - João Cabral de Melo Neto
não era nosso maior poeta vivo, menos ainda o guia-mapa da poesia do porvir.
Um título e outro evidentemente cabiam por longevidade de triunfo e nitidez de
estilo a Manuel Bandeira, nosso poeta exemplar; ou então, por tudo isso e muito
mais, a Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior quase que por
antonomásia. O qual, é verdade, já então esmaecia, dedicava-se já então à
crônica, ao faits divers do quotidiano ou ao memorialismo de almanaque, como
o fustigava Mário Faustino. Sim, o fazendeiro do ar mudava-se para o sub-solo,
mas não deixava por isso de ser o primus inter pares, o poeta maior, o modelo,
como afinal ficou sendo. Mas João Cabral de Melo Neto aceitou o galardão
surrupiado pelos sapos, Simplício gostou da piada... Leonizado pelos papas do
pântano, deu-lhes seu ambigüo aval de napoleão de terceira fila. Vestindo a
carapuça sem necessidade - e sem efeito algum aliás - o usurpador do barrote
republicano ajudava a tudo inverter, até mesmo o sentido da imagem de Dante
segundo a qual o eleito ...fece per viltà il gran rifiuto. Sem efeito algum,
entenda-se bem, para nós, para “aqueles poucos que fazem a cultura de uma
época”, como na lisonja que me fez Bonnefoy. Para estes não houve nunca
dúvida alguma de quem fosse de fato il maestro di collor che sanno. Mas para a
vítima confusa do assalto ao verso e à realidade o embuste foi fatal. Este, o
patinho feio de sempre, entrou no espeto made in Perdizes segundo a receita do
hospício de Saint Elizabeth, para virar ora o porrete dos sapos, ora o cetro
usurpado do poeta-diplomata. E foi o que se viu.
Afortunadamente o que hoje se vê são as inglórias ruinas de papelão de um
show que acabou em menos que nada. Com efeito, o “novo” parto da montanha
em revolução intestina resulta apenas no roedor elegíaco das próprias entranhas.
Já há mais de vinte anos, quando do aniversário do cinquentão, à página 215 d'O
Modernismo 15 Affonso Ávila, em nome de tantos mutilés of the esthetic war
(A.A.Alvares), chorava o tramontar do projeto vanguardista tous azimuts: "O
Modernismo não conseguiu evitar que estruturas anacrônicas continuassem a
prevalecer (...) ressurgindo pouco depois numa arte acomodada" (leia-se:
Claro Enigma, Belo Belo, Morte e Vida Serverina, Vidas Secas, Invenção de
Orfeu, Grande Sertão: Veredas, Laços de Família e outras anacrônicas
acomodações...). E o lamento concluía: "Apesar do radicalismo com que
algumas propostas básicas desafiaram o tempo, o movimento não teve força
bastante para impedir que, num estágio subsequente, fosse desenvolvida uma
arte classicizante". Que pena! Enquanto isso, no resto do mundo, de
Responsibilities a Anabase, da Jeune Parque aos Four Quartets, dos Campos
de Castilla aos Sonette an Orpheus, dos Ossi di Sepia ao Lord Weary's Castle,
chegava-se sem lamúrias ao Du Mouvement et de l’Immobilité de Douve de
Yves Bonnefoy, ao The Less Deceived de Philip Larkin, ao King Log de Geoffrey
Hill, à Späte Gedichte de Paul Celan, aos Canti Barrocchi de Lucio Piccolo, à
Elegie Fortinbras de Zbigniew Herbert, aportava-se sem perda de substância ou
forma às aporias da História uma vez mais e sempre clássicas. A diferença é que
no mundo civilizado, sem capitanias gerais, ninguém sonhou "conseguir evitar"
que se fizesse arte nenhuma, nem se lamentou de não ter "força bastante para
impedir que" se desenvolvesse a grande arte classicizante de ontem, de hoje e
de sempre...
Sim, a hora é grave, quae sera tamen. Não importa, a arte tem um tempo
acima e além das cronologias, uma dimensão retroativa que é seu dom peculiar.
Não se perde o passado, é impossível ao artista não redimí-lo, não salvá-lo de
seus escombros meramente circunstanciais. Seferis o diz esplêndidamente,
virgilianamente: “quem quer que não tenha amado amará / na luz.” Luz
histórica e lírica, corpórea e intemporal, “ luz angélica e negra”, ela traz em si
todo o passado como categoria do presente perpétuo a que Paz deu um título
límpido e mais que nunca atual. Nosso poetas abortados, suicidados,
programados e ideogramados, habitam o verso vivo de hoje e de sempre. Assim
como as formas e ritmos naturais à sensibilidade de um povo, assim como o
decassílabo, a redondilha, a cesura, o soneto, assim também o sumo agônico do
gênio de uma raça é impessoal, indestrutível. É possível restaurar a dignidade, a
integridade, a limpa paisagem de uma poesia que poderia ter sido e que não foi,
porque ela não morreu, porque nada a esse nível morre jamais, a morte -
especialmente a “do verso” - não existe. Nunca existiu, diz-nos Yeats no fecho
magistral daquela sua torre, The Tower, que pus em português nos confins do meu
Os Deuses De Hoje16 porque tem tudo a ver conosco, com nosso aqui-e-agora. A
hora é grave e a torre é nossa, indestrutível, towering high sobre o campo e o
horizonte, capaz de retirar ao batráquio veneno até mesmo seu poder de haver
envenenado. A ressurreição do verso não se faz necessária porque sua vida é
contínua, inevitável, esplendorosa e natural como a inteligência musical de uma
raça que pensa. A língua que Camões sagrou e legou-nos, a linguagem que os
mestres de 22 arraigaram na inteligência nacional de uma vez por todas, nunca
teve nada a temer dos falecidos marqueteiros de ontem, sempre de ontem como
tudo o que as Parcas nos fazem ver voltado para o crepúsculo. Arrebol é seu
apelido. Sapo é seu nome. De ontem.

II. O PRINCÍPIO DO FIM


“ ao mais é
ver-se baixo esta
perse que a
guido o cate
bufa lixeiro goria
lo se que oficial
esconde cheira do
flor de a vate
estufa lixo a
sua mas quem
língua ao como é justo
conde menos se esbate
corada tem assim que se mate
a extingu cheiro o augusto
ir-se ........... busto”

(Poema de Augusto de Campos em 1955)

CRANE ANDA PARA TRÁS FEITO CARANGUEJO


Artigo de Bruno Tolentino, O Estado de São Paulo 3/9/94


Assim não dá! O verso vai bem, muito bem em mãos de muita gente por
este Brasil que cansou de usurpadores. Mas vai mal, muito mal há quatro
décadas com nossa dita “vanguarda”, a mais envelhecida e empoeirada vitrina
terceiro-mundana. Senão vejamos; uma vez mais, na Folha de São Paulo o sr.
Augusto de Campos ocupava, a 7 de agosto, três páginas: ao lado do panegírico
de um nipote sobre sua confessa despoesia, fazia publicar dois retratos seus e um
de um poeta, Hart Crane, que nos pretendia apresentar e se empenhava (?) em
traduzir. Do primeiro e altaneiro desígnio haveria muito, muitíssimo a observar,
mas vá lá; já ninguém sério se altera com o panteão idiossincrático dos nossos
mata-mosquitos culturais. O grave para a saúde do verso em nossa língua não é o
que o ideólogo-ideogramático professa ex catedra sobre os versos de língua
inglesa, que não nos parece ler com muito engenho e cuidado (como soariam
ditos por ele em voz alta, por exemplo?), mas o que o artífice-tradutor faz com as
duas dúzias que formam o talvez mais belo poema de Crane, Praise For An Urn.
Valéry disse da poesia que era um abus du langage, no sentido de uma
sensibilidade obrando aos limites as potencialidades virtuais da língua, o sentido
inverso ao de um abuso da sensibilidade e do senso comum do leitor. E o que nos
brinda o multi-retratado medalhão é um escárnio anêmico a toda a vitalidade
natural do idioma em que Camões padeceu e cantou. Ao exibir aos supostos
pobretões de nosso rincão poético o que fez a Crane (“com exclusividade”,
informa-nos a capa do suplemento), o augusto escriba sucumbe a um sub-
parnasianismo como o autor do original abusado jamais sonhou ler nem sóbrio e
Onestaldo de não-sei-de-quê não comporia nem bêbado! Informa-nos nosso
mestre ourives que sua tradução é “bastante livre, procura manter, além do
sentimento orgânico geral do poema, o staccato e o pique (sic) emotivo-conciso
do original, perdendo alguns detalhes em função da (note-se bem) preservação
do ritmo, mas ganhando coesão estrutural e surpresa poética, inclusive com
acréscimo das rimas (...) de forma a fazer da versão um poema palatável em
português e não o típico vale-tudo das traduções-dublagem”, etc, etc (os grifos
são meus). À parte a curiosa noção de que o poema de Crane com a ajuda do
tradutor sairia “ganhando em coesão estrutural e surpresa poética”, tudo mais de
que nos adverte é perfeitamente óbvio: no verse is free enough for whoever
wishes to do his job well, já observava Eliot. Mas, se por essas bandas não nos
ensinarem o óbvio, ai de nós... Pois bem, anyone for tenis? Cotejemos intenção e
resultado, de antemão apregoados como job well done.
A primeira estrofe

tem de tudo menos de staccato: os versos são rijos, o ritmo vai a reboque
da métrica e bamboleia ao sabor do previsível e do irresponsável, a respiração
natural à fala poética sofre de sufocação metronímica e o Ouvirundum, nosso
orgulho nacional, faz sua entrada desde o verso inicial, na preciosa inversão “do
norte o rosto”... Que “norte” seria este, sem sequer a maiúscula anacronicamente
emprestada ao início de cada verso? Mas não é tudo; “terno” ainda vai rimar
com - surprise! - “eterno”... Entre os “detalhes perdidos”, um erro reiterado de
leitura; surpreende a reincidência, posto que Oswaldino Marques, em sua versão
pioneira do texto (Videntes e Sonâmbulos, Serviço de Documentação do
Minsitério de Educação e Cultura, 1955), já havia lido no verso 2 in such exile
guise (literalmente ao modo do exilado) presumivelmente por the exile’s
disguise (ou seja, disfarce de exilado). À época, Elizabeth Bishop, recém
chegada entre nós, lhe teria feito a mesma observação que nos cabe agora
reiterar ao novo desbravador de clareiras e esplanadas. Note-se não apenas a
ignorância do inglês idiomático, mas a pouco rigorosa atenção ao trabalho de
seus predecessores, tudo valendo ao morto a crassa acusação de “falso exilado”.
Mas nem tudo vai ainda às favas; passam a fina rima toante entre “juntando” e
“Gargântua”, e a gargalhante aliteração, igualmente eficaz.
Mas há pior que mal ler o inglês e ignorar a trajetória de um texto na língua
a que se propõe introduzi-lo, há mal manejar o vernáculo: na segunda estrofe,
igualmente mole, da versão:

aparece logo uma adenda - “insônia” - infelizmente adicionada para rimar
com um dos três bom versos (4, 8 e 9) na geringonça campista, o belo “corcéis
suaves do ciclone”. Mas o pior se avoluma nas estrofes 3 e 4:

as quais abrem promissoramente com uma repetição de obliquidades
felizes, em que pese um “monte”, necessário a métrica e ritmo, que enfim
coincidem; mas só para nos dar o gosto do que não vai mais se ter, ou seja, para
se desjungirem imediatamente e já agora até ao fim do empenho, a culminar no
hilariante verso 11: “Do que ainda vivo o morto abriga” (sic). Com efeito, quase
se poderia dizer desse verso o exato contrário: o peso morto da tradução não
abriga, antes obriga o verso do original a sepultar-se nela... Quanto ao
prometido staccato onde terá ido parar? Questão prenhe de “Questões da alma e
dos instintos”, que é a versão dada ao rico such assessments of the soul, o que
logo nos explica porque os presságios mais acima eram “indistintos”:
precisavam rimar com os “instintos” do tradutor...
E estamos a meio do poema de Crane, que a flor dos Campos já rachou ao
meio com inabilidades de peggior fabbro, para quem o rigor formal se confunde
com o rigor mortis. A métrica ta-ti-tan-ta-ti-tan, em nada inglesa, abafou até
agora a respiração natural da dicção de Crane, enquanto o ritmo, totalmente
ignorado como elemento constitutivo, foi atrelado ao velho metrônomo
oitocentista dos saraus bocejantes; tudo culminando na ontológica dor de barriga
verbal do nunca demais lembrado “do que ainda vivo o morto abriga”,
impagável em sua solene contorção ouvirundumística. Mas do grotesco risível
passa-se ao meramente banal na estrofe 4:

em que se põe a perder irremediavelmente o efeito da sutilíssima ruptura
temporal que o poeta introduz em seu texto: à evocação de um rosto vivaz, de um
corpo delirante e sonhador, Crane dera alternadamente terse rythms e
modulating tensions, fazendo cair os acentos todos ora no inesperado vigor das
combinações medianas, como em Chaucer, ora nos abrupt extremes de Donne ou
Marvell:

kÍn / dÃn / Ór / thÊrn; suchexÍ / leguÍ /se; andÓf / GargÄn /tuanthelÁu /
ghtÊr

Ou ainda em torno do miltoniano “eco dútil”, as hesitações à volta do
iambic pentameter:

histhÖu / ghtsde / lÍ / vËr / edtomÊ... / fromthewhÏ / tecÖ / verlË / tandpÍ
/ llÖw.

Nosso subparnasiano deu a tudo isso duas inversões alla Duque Estrada
mais o direito a um travesseiro insone. Agora, enquanto o autor abre o segundo
movimento de sua sonata fúnebre com o tique-taque de um relógio mortuário,
contrastando a aceleração agônica dos enjambements lógicos à lentidão
discursiva com que evoca a angústia da cena através de um objeto correlato, de
formidável urgência semântico-metafórica, nosso tradittore vai dar à riqueza
estonteante do todo uma nova dose de aspirina, redondinha como a redondilha...
Sem se privar de recheá-las com as rimas mais surradas do rimário oitocentesco
(“remoía” com “dia”), para que moídos de tanta pancada no ouvido todos
durmam bem. Ainda assim, justiça se faça: ante um sarcástico relógio na frieza
de um necrotério poderiam até caber os mecânicos ritmos do tradutor... não se
tivessem já tornado inseparáveis de sua arte, a este ponto irremediavelmente
previsível. Não fosse a monotonia metricográfica que desde o início da necrose
começara por aquela ‘gravata’ e aquele mogadon aplicados a um dos mais
elétricos exórdios ex-abrupto da lírica anglo-saxã. Não, não há aqui device
algum, mas o óbvio intrínseco ao estilo morto. O necrotério nada tem a ver com
ele. Nada de inesperado, pois, tudo como abrantes no quartel dos dantes.
Mas fico pasmo: será que absolutamente tudo o que o grande americano fez
em 140 palavras magistralmente agenciadas escapou a um tão vetusto inspetor de
poesia, inclusive a de língua inglesa? Em todo caso, este consegue fazer da
surpreendente dry directness irrompendo em: as, perched in the crematory
lobby, / the insistent clock commented on, a empertigada flacidez de: “iguais às
que, no crematório, / do alto o relógio remoía”. Daí aquele “obrigatório”, ah,
bom! Mas “remoía” por quê? Por que um relógio viraria a mó na boca de um
camelo? Apenas para rimar? E logo com “dia”?! A semelhante fac totum foi
abandonada a lira nacional, a sabichões desta ordem deram a palma e o espaço e
o silêncio em que operar a lobotomia do verso e do jovem. Macacos me
mordam, mas desde minha infância gente assim se arvora a ensinar-nos to make
it new. E vai-se ver não sabe nem fazer o velho e cansado parnasianismo de
pacotilha das mais ralas versões; das de Guilherme de Almeida, por exemplo,
que, justiça seja feita, jamais resvalaram em paralisias tais. Tais como, para
finalizar esta triste autópsia, as que acometem, por augusta cirurgia vernácula, as
duas últimas estrofes (“enigmáticas” diz-nos o mestre de tantos exoterismos...) de
um dos mais pungentes poemas no rico acervo elegíaco da língua inglesa desde
Herbert, Marvell e Donne. Ei-las, sob a augusta anestesia:


Na penúltima, vertida a um português de amanuense, há uma invertebração
completa, uma banal amputação do nervo rítmico e do tutano lógico-sensorial, e
em favor do quê? Ora, do quê senão do enxerto arbitrário da rima mais frouxa?
Porque em vez do esplêndido largo penseroso dos versos de abertura, ao
pausado solilóquio de

Still, having in mind gold hair,
I cannot see that broken brow,

vai “corresponder” em nossa língua nada menos que: “Mas ao lembrar a
mecha de ouro / já não suporto o rosto baço”... Baço?! Mas não era terno, entre o
Pierrot e o formidável herói de Rabelais? Era, leitor atônito, mas vamos precisar
rimar alguma coisa com um “espaço” que já vem por aí, seu ignorantão! E sim,
leitor, é “a” mecha mesmo, e não “as mechas”, cujo sentimental déjà vu ao menos
teria certa lógica; o que não se fica sabendo é que única mecha e essa... Ah, mas
se fosse tudo! Se ficássemos por aí, sem o “surdo coro” em que vão ser metidos,
para arrematar a penúltima estrofe, os talvez mais ricamente resounding versos
do poema inteiro:

andmÍ / ssthedrÝ / sÓun / dofbÊ / Ês
strÉ / tchinga / crÓss / alÛ / cidsp /ce.

Que custava, que poderia ter custado ao limp-fisted surgeon poupar para
nós o chiaroscuro de uma dor tão esplêndida quanto as vogais alternadamente
abertas e fechadas de Crane são serenas em sua majestosa lentidão? Mas temo
que nosso insosso dublê de Pitanguy literário, não tendo lido nada disso tudo,
sem perceber nenhuma das sutilezas silábicas que sustêm a intensidade
melopaica, não tinha mesmo como não meter o bisturi aparnasianado nelas! E o
belo torso é amputado de sua dor musicalmente perfeita para caber no ramerrão:
pata-ti-pata-tá / pata-tá-pata-ti... Nothing doing! O homem não tem ouvido nem
para o próprio idioma, e faz seu dever de casa como o Bilac de Tarde mandou,
nay!, como o Goulart de Andrade dos sapos do saudoso Manuel de há 75 anos
atrás! Setenta e cinco, leitor, sete décadas e meia de desmoralização do make-it-
old-and-bad e um dos mais vociferantes maestrotes do como fazer e não fazer
faz-nos uma dessas... E com Hart Crane! Enxertando rimas de pau molenga nas
mais ágeis pernas do melhor verse making deste século. Tudo em nome da -
lembra-se? - “surpresa poética”... Assim não dá!
Mas assim, assimzinho mesmo termina de enterrar o poema o nosso mago
d’antanho, com sua promessa cumprida de um ontem pior, muito pior! Observe-
se, vale a pena seguir o
enterro de uma obra-prima em toda sua “poética” minúcia:

Scatter these well-meant idioms
VERSUS
Espalha a cinza deste versos

Into the smoky spring that fills
VERSUS
Pelos subúrbios , no arrebol

The suburbs, where they will be lost.
VERSUS
Onde se perderão, dispersos .

They are no trophies of the sun.
VERSUS
Estes não são troféus do sol.

Isso mesmo, como você o leu: “estes” e não eles; num estapafúrdio
“arrebol” que empata mas desafina como o sol de que não há aqui, diz-nos
expressamente o magnífico verso final, troféu nenhum. E os versos perdem-se
“dispersos”, caso o leitor imagine que se perderiam juntinhos, alivanhados no
cordel do augusto doutor. E a cinza, leitor, a cinza que o Manuel salvou das
horas! Note-se bem o absurdo: por que se meteria aqui essa cinza, a que o poeta
precisamente se esforçou durante tantas estrofes para não mencionar, como parte
do elegíaco louvor que faz à urna, metáfora concreta em que se obstina a ver
keatsianamente o corpo do amado? Isso só Noigandres sabe.
O “detalhe” pelo qual foi trocada essa abstrusa cinza fin de siècle era
apenas uma das mais terríveis ironias de todo o poema; e aqui vai o penúltimo
cachação desfechado no inglês pelo apressadíssimo sábio poliglota: well-meant
idioms quer dizer, significa aqui, a boa intenção, que se sabe falsa, de dizer de
uma dor which passeth all understanding; a escolha altiva, fairly High Church,
deliberadamente anglicizante, de idioms (subentendendo profetic utterances,
versetes bíblicos) sendo a última amargura religiosa de um texto sub species
aeternitatis. Tudo, portanto, podia caber aqui, menos “versos”, e cinza de versos
ainda por cima! Banaliza-se e desvirtua-se de uma penada só.
Mas observe-se como se vai jogar a um texto ilustre, de uma grave e
perturbadora beleza, a derradeira pá de cal após doses e doses de poeira de
estante. Último “deslize” do inglês de Campos: suburbs na língua de
Shakespeare, e certamente já nos tempos de Crane, descreve não os subúrbios
como os temos por cá, periferia dos desvalidos; mas, muito ao contrário, as
áreas verdejantes ao redor da cidade, os affluent quarters onde, fugindo ao
downtown do vale-tudo social, os abastados se refugiam no pardieiro urbano.
Seu correspondente mais próximo seria o que hoje são por cá os luxuosos
condomínios. O uso em português do homógrafo, prenhe do único sentido que
“subúrbios” tem por aqui, é na versão do Sr. Augusto de Campos uma última
estrondosa asneira, reveladora de uma dupla ignorância: da não correspondência
em outra língua de um mero homógrafo, o que é elementar; e, mais grave ainda
para quem vive de dar lições à chusma inculta, uma inescapável demonstração de
que não entendeu absolutamente nada do sentido geral do poema, implícito na
escolha pelo poeta precisamente daquela palavra para figurar sua metáfora
última, resumo do poema e seu fecho dramático. A dupla escorregadela é tanto
mais gritante quanto nesta “enigmática (e pudera!) estrofe” Campos enfia ainda
um “arrebol” neo-romântico e ignora - ou se o sabe desdenha dar-nos a entender
- qual seja precisamente aquela última metáfora. Ainda não a adivinhou, leitor?
Vai ver que anda a ler maus leitores, desses que traduzem antes de entender...
Pois bem: naqueles belos jardins de “subúrbios”, the smoky spring, a pontual e
elegante fonte fumacenta, espécie de gêiser dos ricos, como uma distraida e
inútil elegia coroando os bairros nobres, é a derradeira finura de um texto
construido delas; e exatamente porque, ampliação cósmica do odioso crematório,
corresponde sub-repticiamente à queima das folhas outonais em cada jardim
well-to-do durante a penúltima estação dos americanos... The Fall, como eles
dizem, e Crane não diz para calar mais alto sua conclusiva e contundente revolta
de puritano agnóstico. Mas o jansenismo do senhor tradutor é de outra ordem, é
estilístico. Assim não dá! Ecrasez l’infâme.

CARTA DO SR. AUGUSTO DE CAMPOS

AO SR. JÚLIO DE MESQUITA NETO



O ESTADO DE S.PAULO, 16 de setembro de 1994

Na qualidade de escritor e de ex-colaborador do antigo Suplemento Literário
desse jornal, venho à presença de V.S. para expor e solicitar o seguinte.
O Caderno 2 (suplemento Cultura de sábado, dia 3 do corrente mês,
publicou longa matéria (duas páginas), sob o título Crane Anda Para Trás Feito
Caranguejo, onde, a pretexto de criticar uma tradução de minha autoria do
poema Praise For An Urn, de Hart Crane, o articulista se permite alinhavar um
inaudito enxurro de insultos e grosserias a meu respeito, com a clara intenção de
injuriar-me e de tentar denegrir minha reputação de escritor. A matéria foi
produzida com estardalhaço, objetivando nitidamente escandalizar, estampando
minha fotografia junto a toda sorte de afrontas e com a reprodução, sem consulta
prévia e sem autorização, de meu trabalho literário, ainda inédito em livro e
apenas divulgado, como colaboração especial e exclusiva, em outro periódico.
Como é evidente a orquestração da matéria pelo atual editor do suplemento, Sr.
João Moura Jr., dirijo-me detamente a V.S., para assegurar-me do direito de
resposta, que - não teria guarida nas mãos deste mau jornalista, meu desafeto,
que se vale de sua posição para ofender-me por mãos alheias. Anexo a esta o
teor de minha resposta, que será breve e ocupará pouco espaço, mas que solicito
seja publicada no próximo número do mesmo suplemento e com igual destaque.

Atenciosamente,
Augusto de Campos

RÉPLICA CHEGOU TARDE AO EDITOR DA SEÇÃO ( NOTA


DO SR. JOÃO MOURA JR., EDITOR, EM CULTURA DE
16/9/94)

Como editor do Cultura, devo uma explicação ao leitor pelo fato de uma
resposta datada de 6 de setembro só estar sendo divulgada agora no suplemento.
É que, em vez de enviá-la a mim, o Sr. Augusto de Campos, como o leitor pôde
verificar, preferiu pedir minha cabeça ao diretor do jornal, simplesmente porque
publiquei artigo criticando-o. Isso fez com que a referida resposta só chegasse às
minhas mãos na sexta-feira, dia 9, quando o último número do Cultura já se
encontrava impresso. Ninguém idolatra Pound impunemente. Se o Sr. Augusto de
Campos não aprendeu poesia com o mestre, embora o macaqueie até traduzindo
poetas provençais, em matéria de atitude fascistóide sem dúvida foi mais realista
do que o rei. Pena para ele que o arbítrio autoritário tenha desaparecido do País
com o fim do regime militar, coisa de que parece não se dar conta. Enfim, mais
um anacronismo do Sr. Campos.

AUTOR SE DIZ VÍTIMA DE ATAQUE ORQUESTRADO

AUGUSTO DE CAMPOS REAGE A ARTIGO DE BRUNO


TOLENTINO



No dia 3 do mês corrente o suplemento Cultura publicou sob o título acima
mencionado (CRANE ANDA PARA TRÁS FEITO CARANGUEJO) longa matéria
(duas páginas) onde, a pretexto de criticar uma tradução de minha autoria do
poema Praise For An Urn, de Hart Crane, o articulista se permite alinhavar um
inaudito enxurro de insultos e grosserias a meu respeito, com a clara intenção de
injuriar-me e de tentar denegrir minha reputação de escritor. A matéria foi
produzida com estardalhaço, objetivando nitidamente escandalizar, estampando
minha fotografia junto a toda sorte de afrontas e com a reprodução, sem consulta
prévia e sem autorização, de meu trabalho literário, ainda inédito em livro e
apenas divulgado, como colaboração especial e exclusiva, em outro periódico.
Nada mais natural e legítimo do que as diferenças de opinião no mundo das
idéias e da literatura. Não se pode confundir, no entanto, divergência com
violência e crítica com coice. Não é dessa forma que se enriquece o debate
cultural. Com mais de 40 anos de atividade poética, e mais de 40 livros
publicados, dois terços dos quais dedicados à tradução de poesia, uma bagagem
literária abismalmente superior à do desprezível e obscuro articulista, meu
gratuito desafeto, e à do seu padrinho, editor deste suplemento, ambos aspirantes
ressentidos a poeta e tradutor, estou certo de que não mereço a infame tentativa
de linchamento intelectual de que fui vítima e me sinto à vontade não só para
repudiar esse injusto tratamento como para recusar-me a trocar argumentos com
um arrivista, um salta-pocinhas internacional, que em vez de ascender por seus
próprios méritos, quer conquistar espaço e notoriedade a tamancadas, fazendo
uso da tática surrada de provocar e difamar os seus pares mais conhecidos.
Sobre a leitura torpe que faz dos meus versos, basta-me dizer com Marcial:
“Quem recitas meus est, o Fidente, libellusmeus est: / sed male cum recitas,
incipit esse tuus.” Ou em tradução sempre livre: “Os versos que citas,
Fedentino, são meus: / mas tão mal os recitas que parecem ser teus”.
Ao divulgarem sem autorização, desrespeitando a boa ética, o meu trabalho
literário, ao lado da mal ajambrada tentativa de versão do poema de Crane pelo
meu antagonista, fizeram-me no entanto, ele e o editor do suplemento, sem o
saber, um favor incomensurável. Pouparam-me de qualquer necessidade de dar
resposta casuística a esse destampatório pedantesco mas imperito, inçado de
solecismos (como o emprego de “posto que” como locução conjuntiva causal em
vez de concessiva - erro crasso em português). É tão risível a incompetência da
tradução do meu detrator, que já na primeira linha converte, grotescamente, o
amigo de Crane em um cachopo lusitano (“nortenho” é o natural ou habitante do
norte de Portugal...) ; é tão risível o seu arremedo, recheado de pés quebrados e
de rimas pobres, frouxo e adiposo a ponto de acrescentar ao texto uma estrofe
inteira inexistente no original, que não é preciso buscar nenhuma pérola de
retórica para retrucar a esse ataque de cólera ao mesmo tempo tolo, doente e
cretino - ou numa só palavra-valise: Tolentino. O leitor que julgue.
Colaborador, por muitos anos, do antigo Suplemento Literário do Estado
de São Paulo, lembro-me com saudade do tempo em que era dirigido por Décio
de Almeida Prado, intelctual digno, de conceitos artísticos diferentes dos meus
sob vários aspectos, e que acolhia liberalmente nas páginas daquele suplemento
as mais diversas opiniões, mas que - estou certo - jamais concordaria com a
publicação de matérias de tão baixo teor ético e estético como aquela com que
fui agredido.
Quanto ao editor de Cultura, João Moura Jr., que escondido no anonimato,
orquestrou essa parada de insultos para atingir-me com mão alheia,
reinaugurando o jornalismo marron em nossas páginas culturais, o episódio só
evidencia que ele não tem nível intelectual nem responsabilidade para ocupar o
posto que ocupa nesse prestigioso jornal. Mostra-se da mesma altura do apagado
esboço de poeta e tradutor (alguém o conhece?) que irremediavelmente é e
sempre será.

COMENTÁRIO DE BRUNO TOLENTINO À REAÇÃO DO SR.


AUGUSTO DE CAMPOS PUBLICADO EM CULTURA, AOS
16/9/94



"Que, posto que em cientes muito cabe,
mais em particular o experto sabe."
(Os Lúsiadas, X: 152)

Caro Sr. Editor,
vê-se que em sua irada "resposta" o autor do texto beletrista que dissequei
para seu jornal não consegue discutir minha análise, prefere esbravejar a
argumentar. Fora de si, o resident parnassian rotula-se um de meus "pares" (?).
Nunca me veio à idéia tal hipótese... Em todo caso, o ronco do Goulart
d'Andrade redivivus é puro arroto balofo, foge do assunto e grunhe como o sapo-
boi do Manuel: "Não foi!" -"Foi!" -"Não foi!". Ei-lo pulling rank para desviar a
atenção de sua pobre leitura do inglês e da sua lirazinha de batráquio 1918;
sorry, mas não se trata de "saber com quem se está falando", mas de saber do
que se está falando. Espécie quando se pretende apresentar e traduzir "com
exclusividade" o que já se sabe e já se fêz. Mas já que a vaidade ferida o levou a
perder momentaneamente o auto-contrôle, fico sabendo não apenas do que falo,
mas também de quem falo: de um vaidoso prepotente, mais um delirante
autoritário num país que se cansou deles. Como poeta, nosso ofendido
vanguardista sempre me pareceu uma nulidade sem graça; hoje estendo meu
desdém à fraude linguística e ao mau jornalista que é.
Sem prestar mais atenção a uma estátua eqüestre nos "subúrbios de
arrebol" de nossas letras (roam-se de inveja os esforçados provincianos, mas in
my exile's guise passei a vida entre os que de fato são meus pares), de visita por
aqui peguei o sábio com a boca na botija, seu ubíquo retrato todo lambusado de
melado sub-parnasiano, gaguejando o inglês e babando regra e "cinza de versos"
em seu boletim semanal às custas de um verdadeiro poeta; pasmo de que o
homem afinal não soubesse javanês, pus os pingos nos ii da escolhinha Berlitz,
that's all! E eis que, à falta de poder defender-se, ofende-se com meus
argumentos e demonstrações. Ante a afronta de um text criticism atreve-se (não
acabo de crê-lo!) a "exigir respeito"! O autoritário d'antanho sabe que não tem o
que dizer à gargalhada que hoje o emoldura do Oiapoque à Marilena Chauí: não
pode, nunca pôde fazer melhor, pouco conhece e nada domina de versificação
nenhuma, muito menos da inglesa, mal sabe inglês e não consegue fazer versos na
própria língua ou encarar-se no espelho da crítica de texto. É natural que
esbraveje, mas dá-me pena. Formalista insosso, sem entender (será o Benedito?)
que a recriação de um poema nada tem a ver com o número de versos, mas com
a devida equivalência dada ao sentido, ao ritmo e à matéria a verter, finge (não
creio que seja o Benedito...) escandalizar-se de me ver "acrescentar ao texto uma
estrofe inteira". Coitado, compreendo-o: incapaz de conseguir uma única, como
lhe deve ter doído aquela estrofe a mais!
Mas há pior: inconformado com a liberdade de imprensa, agride o editor
que ousou faltar à genuflexão ante a vaca sagrada; trata-o de "desafeto" à mera
suspeita de que não o admire; acusa-o de "orquestrar insultos" para atingí-lo (no
Olimpo?) "com mão alheia"; contrasta-o calhordamente a um predecessor ilustre
a quem atribui alma de censor, e investe, ele sim, com "coices" e "injúrias", na
"tentativa de linchamento" de uma reputação de jornalista e autor que não esteve
em questão em toda essa questão. Com sua notória ausência de sense of humour,
agride quem ousa examinar-lhe o sacro texto e quem cumpre sua função de
informar. Não suportando ver-se posto a nu, pomposo e quantitivo cobre-se com
suas quatro dezenas de volumes abismalmente (é ele quem o diz) diferentes dos
meus quatro nos quatro idiomas em que os escrevi, que de fato conheço e nos
quais (são eles, os nativos de lá, que o dizem...) tornei-me ilustre.
Protesta contra um desdém que diz ferí-lo em seus brios profissionais.
Quais? Que "reputação de escritor" é essa, que não suporta começar ou acabar
numa análise de texto? Ou se imagina a salvo de julgamento pelo furibundo
horror que lhe causa saber-se desprezado? Se calhar, o homem não sabe que é
sub-geração de 45, vai ver que se admira mesmo de meu ultraje ante sua audácia
e incompetência... Nesse caso, sinto magoar um desequilibrado, mas que se há de
fazer? Deixar Nabucodonosor pastar à solta? Paste, pasme o ensimesmado
monarca, mas para mim seus textos são impagáveis e seu autor não passa de um
pobre diabo, a comic strip. Trágico, aliás, porque um falsificador inciente do
belo, daquela joy forever que é incapaz de conhecer. Que pena se perdeu mesmo
o tino! Mas não posso, na dúvida se Rubião está ou não em seu juizo, fingir
respeito pelo "imperador", menos ainda pelas sobras de um autoritarismo de que
já vai longe entre nós o “arrebol”... Fiz bem em não afetar um respeito que nunca
tive pelo esperto trabalho de um marqueteiro, e agora é tarde, o reizoca está nu.
E ainda implume, a despeito de 40 anos e 40 cambalhotas para fazer-se passar
por poeta; uma por ano! informa-nos o sargento-mor de nosso último DOI-CODI.
We are not impressed. Se nos ativermos ao vernáculo de tantos fascículos, a
nudez do sapo-rei é apenas cômica. Se nos estendermos à leitura competente das
línguas que anuncia conhecer, a coisa é mais séria, cheira a uma indigente
intrujice que não passaria no exame vestibular de Oxford.
With respect, senhor redator, é tempo de que varram da cena as baleias
auto-encalhadas na praia da História. Louco mesmo, ou só louco de raiva,
écrasez l'infâme!

Seu, cordialmente,

Bruno Tolentino, Rio de Janeiro 9/9/94.


P.S. E Achtung! Se o defunto tentar ressuscitar, disseco seu
Rilkecídio recente e, aí sim, a onça vai beber água naquela
Brunnen-Mund... Mas, pensando bem, são por demais
sensíveis as múmias envoltas nas folhas da moda, pura maldade
acordá-las no mundinho do Mamais! Requiescat.

CARTA DO SR. OLAVO DE CARVALHO AO SR. EDITOR DE


CULTURA EM 20/9/94


A RESPOSTA DO SR. AUGUSTO DE CAMPOS às obser​vações do poeta Bruno
Tolentino acerca de sua tradução de Hart Crane é absolutamente insatisfatória. O
número e o prestígio das assinaturas no manifesto que a secunda só mostram que
um séquito volu​moso de guarda-costas ilustres não serve para dar recheio a uma
argumentação vazia.
Resposta e manifesto concentram-se no tom — considerado insultuoso —
do artigo de Tolentino, passando cautelosamente ao largo do seu conteúdo, que,
naquilo que diz respeito à análise da tradução, é cientificamente exato e
aparentemente irrespon​dível.
Tolentino pode ter infringido as regras do bom-tom, mas uma cultura em
que as regras de bom-tom são mais relevantes do que a veracidade intrínseca dos
argumentos é uma cultura mori​bunda. Uma crítica literária de alto nível pode vi​-
ver bem numa linguagem dura, agressiva, mordaz, como o provam os exemplos
célebres de Jonathan Swift, William Hazlitt, Oscar Wilde, Voltaire, Jo​seph de
Maistre, Julien Benda e inumeráveis ou​tros, entre os quais os nossos Mário e
Oswald de Andrade. Mas ela não sobrevive ao culto das exte​rioridades e ao
dogma da polidez a todo preço, que hoje governa o jornalismo cultural
brasileiro, e que O Estado de S. Paulo, ao publicar o artigo de Tolentino, ousou
contrariar. É da tradição da cri​tica literária, aliás, acender de tempos em tempos
as chamas da mais viva controvérsia, onde a última coisa que importa é medir as
palavras. Os insignes fundadores da crítica nacional, Sílvio Romero e José
Veríssimo, pegaram-se como gato e cachorro num entrevero verbal que, pelo
visto, ofenderia a delicada sensibilidade da corte do sr. Campos. Nas últimas
décadas, como é público e notório, a crítica literária andou desaparecida do
nosso cenário cul​tural, e isto é provavelmente o motivo pelo qual a linguagem
pessoal e desabrida em que se escreve​ram algumas das produções clássicas
desse gênero se tornou destoante no nosso ambiente jornalístico, onde as normas
de impessoalidade e frieza que devem imperar no noticiário acabaram alastrando
sua jurisdição, indevidamente, para as páginas cul​turais e literárias. Nestas
últimas deveria vigorar, em vez disso, a linguagem literária, pessoal no mais
alto grau compatível com a exigência de comunica​bilidade, e que não exclui nem
pode excluir a iro​nia, o sarcasmo, eventualmente até mesmo o insulto, quando
legitimado por motivos intelectuais e morais relevantes e quando dirigido contra
obras, idéias e doutrinas de domínio público e não contra meros comportamentos
pessoais.
O que é realmente inusitado, anormal, aberrante, é responder a uma crítica
literária, feroz e insultu​osa o quanto seja, mediante um manifesto coletivo de
desagravo 17. O desagravo, como o próprio nome diz, é cabível somente em caso
de agravo moral, isto é, de ofensa à honra. Uma das formas de ofensa moral é a
difamação. Mas o nosso Código Penal exclui desta categoria as opiniões
depreciati​vas quanto às qualidades intelectuais da suposta vítima:

“Não ocorre difamação no procedimento de quem se limita a externar
opinião pessoal a res​peito de qualidades psico-intelectuais da preten​dida
vítima” 18 .

Chamar portanto um cidadão de mau filólogo, de tradutor péssimo, de
poeta inepto, não constitui difamação. Será então injúria? Impossível: Não há
crime de injúria em crítica literária, onde, afirma Heleno Fragoso,

“a exclusão do crime deriva do animus criticandi , que exclui o propósito
de ofender e, pois, a con​duta típica” 19 .

Mas se não houve no artigo de Tolentino injúria ou difamação, então não
houve ofensa moral de espécie alguma, e sim o exercício normal de uma das
funções da crítica, que é a de separar o que presta do que não presta. Se
Tolentino acertou ou errou nas suas observações sobre a tradução, é o que os
experts em literatura, Campos, Cabrais, Cos​tas Limas e Wisniks incluídos,
teriam a obrigação de discutir, para esclarecimento do público, e foi
precisamente esse o ponto que eles escamotearam ao exame do leitor, preferindo,
em vez disto, fazer uma exibição deprimente de suscetibilidades mo​rais
inteiramente deslocadas do contexto 20.
Quanto aos argumentos de Tolentino, se não são absolutamente
irrespondíveis, permanecem ao me​nos irrespondidos, graças ao fato de que, nos
seus opositores, o reflexo emocional barato predominou sobre a reação
intelectual séria. Os signatários do manifesto deram uma demonstração coletiva
de imaturidade intelectual, ao julgar que trejeitos de suposta dignidade ofendida
podem proteger o sr. Campos das objeções críticas de Tolentino, as quais, o que
quer que pensemos do linguajar em que se expressam, são, em sua substância,
sérias e pesadas. No futuro esse infeliz documento será encarado como um
testemunho da pobreza cultural deste nosso tempo brasileiro, em que meros
protes​tos e reclamações tendem a fazer as vezes do pen​samento, e no qual o
gênero literário mais assiduamente cultivado é o “manifesto de intelec​tuais”.
No terreno crítico e filológico, que é a esfera própria da discussão iniciada
por Tolentino, o único sinal de um revide por parte do sr. Campos foi sua
observação a respeito do uso que a tradução concorrente da sua faz da palavra
“nortenho”, uso este que o sr. Campos considera indevido, por fu​gir à acepção
consagrada nos dicionários. Mas o que é realmente indevido é um teórico de
poesia renomado como o sr. Campos pretender que a lin​guagem poética deva
ater-se às acepções consagra​das nos dicionários — o que é precisamente o
contrário da definição mesma de poesia, a qual consiste, segundo uma frase que
o sr. Campos ci​tava muito, antigamente, em donner un sens plus pur aux mots de
la tribu, sentido este que só por uma rara exceção coincide plenamente com o
que se encontra nos dicionários.
O sr. Campos também faz, com uma intenção que deve ter lhe parecido
muito filológica, uma censura ao uso da locução conjuntiva “posto que” no texto
de Tolentino — um erro crasso de gramá​tica, no seu entender. A boa retórica não
é incompa​tível com erros crassos de gramática, mas é certamente incompatível
com a falta de sensibili​dade para o contexto verbal, onde uma locução pode se
encaixar às vezes até mesmo com sentido inverso ao usual. O “posto que” está
perfeitamente encaixado no seu posto, sugerindo espontanea​mente o significado
que lhe deu Tolentino, e por​tanto não é erro crasso nenhum.
Tanto o sr. Campos quanto os seus guarda-costas poderiam ter feito melhor.
Estes poderiam ter ofe​recido em defesa do seu protegido argumentos crí​ticos em
vez de recriminações. E o sr. Campos, que já fez boas traduções, poderia ter
posto a salvo a reputação das restantes mediante o simples reco​nhecimento de
que a de Hart Crane, mal lido e mal entendido no original inglês, está mesmo
abismalmente mal feita...

III. A RETIRADA DA LACUNA


“One can no longer go to court,
Because his legs have grown too short;
The other cannot sing a song,
Because his legs have grown too long.”

Nursery Rhyme, cf. T.S.Eliot,
“The Three Voices Of Poetry”

(Um já não pode ir mais à Corte
porque cada perna sua encurtou-se;
o outro quer cantar sem ser capaz:
as pernocas cresceram demais.)

A IRADA FLOR DOS CAMPOS, ou


“Ce qu’on dit au poète à propos de fleurs”

“ O sonho de mel de uma abelha esfuziante
adormentada dentro de um favo. Despertá-la?” (Augusto de Campos, 1953)

I. CLUBE DA VITÓRIA RÉGIA 1994


Nossa! Como anda amparada
a mais murcha flor dos campos!
Enxames de pirilampos,
espectros vindos do nada,
do P.T., da violada,
do arrebol... Com tantos grampos
a tênue trança dos Campos
nunca há de ser destrançada!
Paga o pato a liberdade,
filha ilustre do desdém
que toda cultura tem
pelo embuste e a vaidade...
Senhores, fiz muito bem,
só faltei à caridade!

II. O RABO DO NIMBÚ

Quanto à excelsa flor mais moça,


sapo-boi de poça em poça,
geme, xinga, vira à esquerda
e em seu sotaque da roça
faz lembrar as do Lacerda
sua gritaria insossa.
Gentinha hipócrita e lerda
essas florzitas de louça!
Contestar no mesmo tom,
segundo disse o Drummond
é pregar rabo em nimbú;
mas, ó Piva, onde andas tu
que ainda não lhe pregaste
um bom pontapé na haste?

III. A QUARENTENA

Diz a irada flor: "O fel


que me distilas na orelha,
ó zangão metido a abelha,
não vale o meu ouropel,
meu arrebol cor de mel!
Invejas-me a lira velha!
Terei talvez uma telha
a menos, mas meu corcel
relincha há quarenta anos!
Por concretos oceanos,
por vagalhões de papel,
meu Pégaso de cordel
levou-me a entrar pelos canos
mais ilustres de Babel!"

IV. O HOMEM QUE NÃO SABIA JAVANÊS

Flor de cinza do arrebol,


não sabes nem portunglês,
quanto menos javanês,
toma vergonha! O teu rol
de cupinchas, teu inglês
de suburbano de escol,
teu verso todo em formol,
não te salvam... Desta vez
vá lá, mas se ainda te pego
com tua riminha manca,
com tua bengala branca
de cego guiando cego,
vais ver! Nem Florbela Espanca
como eu te espanco, meu nêgo!

V. SAPO-BOI & REI LEÃO

"Mas se a escolinha Berlitz


deu-me todos os diplomas!
Por quem, ó plebeu, me tomas?
Que a mim se respeite! Imite-se
feito tal: sofrer de artritis,
mas tirar de minhas comas
tantos compêndios de bromas
e de poliomielitis!
Já não terei toda a juba,
mas guardo o rugido e a baba,
e de Pindamonhangaba
a Itaquatatecetuba,
ainda se louva, se gaba
meu inglês e minha tuba!"

VI . O REI MENOS O REINO

Aracnídeo mutante,
tua baba é perigosa,
teu rugido não: é rosa
de oromã morigerante...
Pode até ser que suplante
o Onestaldo, a tua prosa
metrificada e babosa,
mas quanto a ter o desplante
de trocar Goulart de Andrade
por outro augusto batráquio,
é vil regicídio! E ataque
(o de ira ou o de vaidade)
só coroa um rei de araque:
o rei da mediocridade.

(& UM P.S. )

O meu primo formou-se na USP,
já eu não:
ele mata mosquito no cuspe
e eu na mão.

AVISO AOS NAVEGANTES

Matei, direis, baleias mortas;


digo-vos eu:
se alguém traduz por linhas tortas
é um sub-orfeu,
"falso exilado" batendo às portas
do que mal leu;
todo "arrebol" entre tais hortas
e o engenho meu
vai se dar mal a cada vez,
principalmente
se o enxertarem num portunglês
de asno indigente
por entre as pernas do verso inglês
mais contundente!

POST-MORTEM

Onde já se viu
um rei ficar nu?!
- Olha só o Gugu...
Gruda-que-partiu,
é mesmo verdade!
- Quem diria, né?
É, mas a cidade
protesta de pé ...
- Que cidade nada,
mera paulicéia,
menos desvairada
do que desvalida:
fica uma tetéia
sem os sapos da vida...

PAULICÉIA DESVALIDA

(Para o libretto d e um Réquiem )



Mas que ficou jururu
sem o Gagá e o Gugu,
lá isso ficou! Sem manos,
nossos primos paulistanos
andam tão desinfelizes
que cobrem o reizoca nu
com suplementos inteiros,
choram seus dois mamoeiros
dando banana em Perdizes,
ocos como o Pacaembu!

Tristonha pizza de plástico
entre o pedante e o granfino,
parece que o teu destino
é não dar Drummond, Brennand,
Capitú nem Severino,
até teu museu bombástico
é esmola de nordestino,
obra do Chateaubriand...
Teu mesmo, de genuíno,
apenas o Butantã.

Sofres de ser uma aldeia
sem lirismo e sem paixão
onde a aranha baba a teia
que passa por poesia
porque se afasta do chão;
incapaz de perceber
que te atolaste na idéia,
na géleia do “saber”,
detestas a melodia
que alimenta o coração,
sonhas matá-la e morrer.

Sossega, cidade fria.

TOTTENLIEBE

O canto mortal de Isolda


confundiu tanto Tristão
que de repente ele não
sabia se ela era gorda,


se era de fato um canhão,
ou se era “a revolução”,
a arte pura, a nota solta,
a pauta em vez da canção...

O PASSADO DOS MESTRES

1. À penteadeira

Convido-te, leitor, a alguns exemplos


do que do morto o vivaldino abriga
em seu dourado acervo dos bons tempos;
parece até mentira, mas prossiga,
leia da sapórreia a lira antiga,
como se dava a ler naqueles tempos
em que o rei lhes crescia na barriga:
à penteadeira se espelhavam templos,
os glaromas de amil morigerantes
multiplicavam rosas coruscantes ,
as guirlandas cresciam entre as canetas
e embasbacavam tanto os três patetas,
que escorriam a rodo das estantes
e ornavam d’oiro os pálidos estetas...

2. Os Ofélios

Filomelas de azul metamorfina


“arbitravam” de estrelas o xadrez,
príncepes plenilúnio alguma vez
lá iam dar, vestidos de menina...
Órion de véus alíseos , a cortina
era flébil fumaça, ler inglês
não devia ser fácil quando os três
afinavam no amil a concertina!
Mas ei-los juntos, ó inferno afélio ,
“librando” a Lusbelel o glúteo almíscar ,
que galinho heliotropo quando cisca
se não arrisca o novo faz o velho,
o núbil Jove pentear-lhe a crista,
rotundifólio, drósero e heliocélio.

3. Eu? Reka!!!
Cada arcangélico arrebol -crepúsculo
nascia assim, da incandescente lava,
o sapo empurpurava um novo opúsculo
e o Clube de Poesia o publicava:
já que caimbra é fenômeno do músculo,
a sub-saparia o emasculava...
Assim não dá, né mesmo?E não, não dava,
mas é no mangue que mais dá molusco!
Porque “ fazer o novo ” foi eureka
de batráquio barroco, como lês,
jovem leitor desinformado: os três
que fizeram concreto de muqueca
da nossa inteligência aquela vez,
da tua fazem bunda de peteca!

4. envoi:

Dói-lhes agora o glúteo Tetraedro ,


mas antes não doía... A obsidiana,
rotundifólia, drósera pavana,
apalpava os penubis desde cedo,
volutas cornucópias em segredo
lambiam a labilíngue nibelanga,
maralmíscava a púrpura missanga
em que Agedor fora enfiar o dedo,
e o impúbere pensava: a pluma, o pajem...
Ah, Rigor! Libra, ó língua, a rubra missa
e irisa-me a libélula ! Ó linguagem
que ao beleléu te vais louca e cediça,
como dói ser herói! Vai, vira a página,
camaleoa a augusta maquiagem,

faz o novo, Agedor , enche linguiça!

A RETIRADA DA LACUNA


Com dó do terceiro mundo
dois irmãos inventam a roda:
pedante vira profundo,
pernóstico entra na moda.

Vai-se abrindo uma lacuna
no cérebro nacional
e a poesia vira aluna
de sapos de manual.

A musa proto-fascista
do Pound e de outros malucos
pare batráquios e eunucos,
a onda minimalista

espraia-se das Perdizes
a todos os suplementos

e a castração das raízes
resume os dez mandamentos

segundo três manda-chuvas.
Enquanto isso um país
que sobrevive a sauvas
não sabe mais o que diz

e, sem pensar no que faz,
gasta cuspe e engenho lírico
macaqueando jerico
para publicar no Mais!

A ambição da paulicéia
uma vez mais ressuscita
e cobra caro a visita
do mundinho-como-idéia:

- Assim falou Zaraugusta!
Os ocos do Pacaembu
morrem de rir: se não custa
dar de graça o pátrio cu,

que se entupa de concreto
o nacional orifício,
que o fácil vire difícil
e tudo mais objeto,

que o país se torne um poste
cercado de vira-latas!
“E é possivel que se goste
de molhar de tinta as patas

por tão pouco resultado?!”
É sim, leitor, ou já foi...
Um país seviciado
por resmas de sapo-boi

acordou com uma enxaqueca
intolerável no reto,
uma sensação de seca,
de vagalhões de concreto

entrando pelo conduto
maís intimo de um sujeito,
o reinado absoluto
do sapo-impostor... Bem feito!

Quem manda se enfileirar
para pagar vassalagem
no charco da moda? Pajem
de pagé tem que aguentar...

Transforma-se o amador na...
...coisa amada, e no entanto
a morigerante morna
não tapa apenas o canto

de uma raça em demissão,
tapa-lhe também o resto,
entope-lhe sem protesto
o orifício ao rés-do chão,

quem manda dar o que é seu?
Mas que ninguém mais se assute,

a macacada aprendeu
por onde entra um embuste

e o vento afinal levou
concretos e concretinos
como velhos inquilinos,
urubuzecos de um vôo

que já não sai do quintal;
hoje os pobres bicharocos,
amarrotados e roucos,
trocam socos num jornal

que lhes faz o obituário
com semanal devoção,
mas não adianta não,
o velho receituário

não presta para mais nada,
nem como ajuda em latrina,
e a urubusada, coitada,
melancólica termina

onde começou: nas redes
jornalísticas do esgoto,
que nem gozo de garoto
solitário entre paredes...

Anda a escassear quem goste
de dar o pouco que tem,
não há mais um joão-ninguém
querendo servir de poste

a pausa de vira-lata,
chegou-se enfim a um consenso
(óbvio desde que eu penso)
de que a coisa era tão chata

quanto afinal perigosa.
Se, patético, persiste
algum resíduo, anda triste:
o mote não vale a glosa

e morre dando pinote,
que hoje é muito mais difícil
segurar pelo cangote
doadores de orifício...

II

Mas, imaginem, este caso
de necrofilia crônica
entrou pelo último ocaso
numa cena tragi-cômica,

sob estranha revoada
(a bem dizer gritaria)
em prol de uma saparia
que se presumia alada.

Um certo Doutor Enéas
fez o papel da Chauí,
muita gente o da Dercy
e, entre incontáveis mocréias,


até a suave dondoca
desfilou com um Luis XV
que, se bem que ainda ranzinze,
já não abre mais a boca

senão para confundir
seu sacro terror do eterno
com seu ódio do porvir,
sua ante-visão do inferno.

Sim, mas como? Como foi
que se ajuntou tanto trapo
em torno de um sapo-boi,
e o que tinha feito o sapo?

Um yankey, muito fino
para o engenho suburbano,
ia entrando pelo cano
quando um tal de Tontolino

(que detesta trocadilho
porque respeita o idioma),
pôs o sapo-boi em coma
confiscando-lhe o espartilho

com finuras espartanas...
O raio, ao partir ao meio
os batráquios e os bananas,
fez um deles falar feio

cercado de guarda-costas,
mas todo o disse-me-disse

foi dito sem que se ouvisse
uma só dessas respostas

que vão direto ao assunto...
Hoje o sapo-gralha mente,
grita, jura de pé-junto
que sabe inglês, mas se sente

um certo constrangimento
até mesmo em quem o adora,
e há quem planeje ir-se embora,
ou ler outro suplemento...

Mas o que fizera o bicho
que já não tivesse feito
para baixar no conceito
de um país e virar lixo?

Sapo-gralha perde a pluma
mas não perde um bate-boca,
não tem vergonha nenhuma
e toda vergonha é pouca

quando se é pego em flagrante
sem saber nada de inglês,
ou sem saber o bastante
para pô-lo em português.

Sobre esta simples premissa
baseia-se a história inteira
do conteúdo à maneira,
mas basta de encher linguiça,

passemos logo ao suplício
da saparia indigente,
bicho que fala difícil
para parecer que é gente.

Num arrebol suburbano
os sapos pontificais
enxertavam, ano após ano,
filas de intelectuais

com o sumo da paulicite,
isto é, com traduções
repletas da celulite
dos falsos cirurgiões.

O frankenstein troliglota
faute de mieux conseguia
substituir a poesia
entre o Gianotti e o janota,

segundo um estranho pacto:
quem mal escreve traduz...
Havia um acordo tácito
quanto às transfusões de pus

que a dupla tranqüilamente
injetava no sistema
de artérias do paciente,
presunçosa como a teima

de um moribundo em viver.
Quanto a mim, não vejo como

quem mal consegue escrever
pode dar, tomo após tomo,

lições a ninguém de nada,
mas por lá é um caso sério,
importação transformada
em anjo de cemitério

é um esporte cultural,
que fazer... Fez-se de tudo
na empolada capital,
menos um pequeno estudo

textual da transcrição,
da transformação de um mano
no outro, e dos dois no engano
chamado contrafação,

senão embuste atrevido.
Foi o que fez um sujeito
que não só era bem lido,
mas sabia ler direito

e abaixo veio o mundinho
dos sapos com sua escória.
Eu, que acompanhei a história,
resumi-a sem carinho,

é certo, mas com pesar.
Não quero causar alarme,
mas começo a perguntar-me
como a coisa há de acabar...

III

Recapitulemos, pois,
em ritmo de balada
a lacuna retirada
de um sapo em nome de dois.

De tanto "fazer o novo"
cambaleava o defunto
sem fôlego e sem assunto,
mas Eva ainda via o ovo!

A aranha arranhava a jarra
de Nabucodonosor
quando lhe podaram a garra
e lhe espanaram o bolor...

Êta vidinha cruel!
Nos subúrbios do arrebol,
um sapo tapara o sol
com a “cinza” do Manuel,

e, coitadinho, a peneira
continha ainda mais furos
(de inglês) do que os ex-futuros
ideogramas da zoeira...

Por isso o tal rufião
que sabe ler e escrever
mostrou a toda a nação
um sapo para inglês ver.


Só vendo... Cala! Caluda!
Façam calar esse incauto,
que o sapo de salto alto
foi ao chão! Deus nos acuda!

Mas claro que o Hart Crane
tratou de não mencionar
cinza alguma! Agora azar...
Aboliu-se um coûp solene,

cu de desde priscas eras
mallamerdeando a poesia
e atirando o verso às feras!
Hasard, azar, quem diria,

Golias tinha platéia,
Davi só tinha uma funda,
mas mandou-lhe, ó boa idéia,
uma pedrada na testa...

Que festa! No país todo
o eco de uma pedrada
foi virando gargalhada!
Riu-se à beça, riu-se a rodo

e quem não podia rir
pôs-se a gritar, que remédio?
Morria o arrebol do tédio
nos subúrbios sem porvir

e eis que o augusto batráquio
vai pedir de sapo em sapo
proteção contra um “ataque”
que lhe desinchara o papo!

O velho Matusalém,
irmão do pobre tetrarca,
miando triste do além
ao ver o mano de maca,

o terceiro homem sente
que o sapo já foi ao fundo
e confessa a meio mundo:
- “A pedrada é inteligente,

quando não se tem resposta
de que vale um ti-ti-ti
assinado por Gal Costa
e Marilena Chauí...?”

Assim mesmo o inconsolado
manda chamar do Oiapoque
à Chauí seu semi-gado,
sua tropinha-de-choque,

em vez de estudar inglês!
Quatro décadas depois
está sem emprego e os três
ainda por cima são dois...

Que editor arriscaria
por a corda no pescoço
publicando a despoesia
que intraduz o sapo-moço?

Ou o sapo-velho também,
que do hebreu ao russo, ao grego,
chama urubu de meu nego
e o bicho avoa e não vem...

Xô, xô, urubu ingrato,
bicharoco desalmado
que deixas desempregado
um par de sapos no mato

sem cachorro e sem idéia
de como se há de explicar
à nata da paulicéia
se lhe der de perguntar:

- “Mas nem inglês, meu irmão?!”
Não, nem inglês nem zulu...
Mas a culpa é do urubu,
não é culpa deles não!

Peguem o bicho em pleno vôo,
depenem, apedrejem, matem
o urubu que desertou
von galochen zwei chaten,

porque sapo de galocha
no meio da tradução,
fazendo a coisa nas cocha
não tem remédio ou perdão.

Que fazer? Passar recibo
de inepto e de arrivista

pulando à toa no estribo
da redondilha petista,

ou andar atrás dos gatos
do Eliot, mais gagá
do que os últimos gaiatos
do velho Febeapá?

Não, irmãos, assim não dá!

MEA CULPA?


Em terra de sapo cego
o olho do cu é rei,
e ainda assim, Senhor, não nego,
confesso-Vos que pequei,

que atentei contra a mais nobre
das virtudes de um cristão:
caridade com um irmão...
Mas que o Diabo me cobre

esse pecado mortal,
não vou é deixar que a pata
de um sapeco de jornal
com sua gosma barata

grude a lira brasileira,
prefiro a ira do Cão
a perdoar baboseira
de batráquio de salão!

O NOVO PRODUTO

Poetastros do Brasil,
esqueçam o Fimatosan,
o xarope é o Glaromil,
um ontem para o amanhã!

Misto de cinza senil
com penubis de oromã,
põe até pernas de rã
na barriga de um barril!

Asmático debutante,
se não logras ser poeta
toma a lavagem concreta

que no espaço de um instante
sai-te do reto uma reta
moderna & morigerante.

LA VIEILLE GARDE

Um contorce e o outro inverte,


é o Ouvirundum de ambos:
sob o ritmo mais inerte
os versos viram molambos.

Um já mia, o outro se perde
no arrebol dos pirilampos.
Cambronne diria Merde!
Bastaria dizer Campos.

OS IRMÃOS GONCURTOS
Dois manos morreram juntos
de cachumbas e sarampos,
mas deixaram os dois defuntos
entre os túmulos e os campos

e a dupla agitou às pampas!
Iniciaram vários surtos
de nada e puseram tampas
em tudo, os irmãos goncurtos...

Em manifestos e cartas
mataram o verso mil vezes
e já pousavam de deuses

quando as Musas, mais que fartas,
pegaram os dois animais
e os sepultaram no Mais!

II

Trata-se de um suplemento
de teor assim-assim,
mas que lido até o fim
lobotomiza jumento.

Quanto ao duplo monumento,
passou de mini a mirim
por conta do atrevimento,
da intrujice: de chinfrim


um deles passou a zero
de uma esquerda de arrivista,
já o outro urinou na pista

por conta de um lero-lero
que "traduziu", desta vez,
coitado, do javanês...

III

Pobres dos irmãos germanos!
A ira da Musa faz
como sempre estragos tais
que hão de passar muitos anos

antes que se esquentem os panos
que tentam pôr os jornais
nos ferimentos morais...
São esforços sobre-humanos

nas folhas da capital
para que cada animal
tenha sua morte honrosa,

mas a dor é tão raivosa
e o pânico tão geral
que o mote mal vale a prosa.

SAPOPPELGÄNGER

Quem é o outro e quem é o um


não há mais quem saiba ao certo,
porque apesar do zumzum
ninguém mais quer se ver perto
de animália tão comum
e em qualquer charco deserto
nada, ninguém e nenhum
dão num mesmíssimo enxerto.
Sapo Seca-pimenteira,
Sapo Brabo ou Sapo-Brahma,
é tudo sapo na lama
da sapientíssima asneira,
já não há ninguém que os queira
e até o P.T. já reclama!

ARREBOL NA ILHA FISCAL

Haroldeco, o reizoca, vai nu


e é feio páca!
Logo atrás vai o outro babaca,
o mano Gugu.
A poesia não quer virar vaca,
não quer dar o cu,
e não vai! O caçula ataca-a,
tão nu e cru
quanto o velho vira-casaca
que hoje é barroco.
Onestaldo chega de maca

ao baile choco,
mas quem canta é um B.Lopes rouco
que nem matraca.

O CREPÚSCULO DOS ANJOS

Cornucópius (Cornu, para os de casa),


força é convir, sempre foi mais conciso;
se não fugiu de todo ao Paraíso,
tem buscado poupar a própria asa:

com olhos para ler inglês em Gaza,
recusou-se a assinar sem ser preciso
um cheque em branco ao sapo sem juizo
que este livreco uma vez mais arrasa...

Até mesmo um arcanjo sente a idade;
até mesmo cloaca tem saída;
se a nem todo babaca a realidade

logra um dia ensinar pausa e medida,
resta sempre a esperança encanecida
de deixar de voar pela metade.

ii

Lusdrósio não tem jeito, mas tem gatos:
trocou seu dó de peito por um mi
e o mi por um miau; segundo li,
seus bichanos, se bem que correlatos

aos do Eliot, sabem-se tão chatos
ao rés-do-chão que fazem seu xixi
no texto mesmo: é coisa de guri,
mas pelo menos é daqui, dos matos,

são gatos de quintal, não de sofá.
Lusbel cortou-lhe a altíssima voltagem
e trocou-lhe os almíscares do pajem

pelas gatinomias do gagá.
Naturalmente o cara ainda é um chato,
mas já sai pelo menos mais barato!

iii

Quem não tem jeito mesmo é o Glaromil !
A arcangélica flor dos oromãs
quer encher de penubis o Brasil,
sonha morigerantes amanhãs,

túrgidos arrebóis , fofos divãs
em que espalhar a cinza a mais senil:
o rapaz continua tão febril,
que ainda se enrola em mornos astracãs...

Gênio não se improvisa, e quem o finge
acaba acreditando, não na esfinge,
mas, coitadinho, tão somente em si;

só ele se comove, a turma ri:
-“Glaromil, tens um sapo na laringe,
e um sapo de ante-ontem e não daqui !”

TEMPO DI MIGRARE

"Settembre. Andiamo." etc. (D'Annunzio)



Augustoldo e Harolgusto
são proxenetas da Musa
sempre a um altíssimo custo,
mas de maneira profusa.

O público leva um susto,
a coisa é mesmo confusa:
o verso é brocha, mas usa
camisinha até o busto!

Os dois insistem no coito
com rimas que Arrigo Boito
não perdoaria a D'Annunzio

nem os dois a Umberto Saba,
só que por aqui na taba
vale tudo e é tudo anúncio...

IN (FUTURAM) MEMORIAM

"Cão mijando no caos”(CDA)



Augusto Goulart de Andrade
e Haroldo Francisca Júlia
são fatos de que se orgulha
a intertextualidade,

não são mais nada. É possível
que mereçam um rodapé,
um obituário ao nível
literário da ralé,
mas se um caminhão de lixo
passasse em cima dos dois
levando as sobras depois,

bastaria um só esguicho
do cão do Drummond, lavando
o onde, o como e o quando!

A HOMÉRICA GARGALHADA

A ira do velho grego


não se fez ouvir... Talvez
porque Homero sendo cego,
claro, não lê português.

ASSIM FALOU ZARAUGUSTA

-“ Publica aí, meu cupincha,


que esta minha despoesia
é a mais pura alegoria
do vazio quando guincha!”

Assim falou Zaraugusta;
Zaroldrósio falou mais,
disse: - “Miauuu...” Não lhe custa
constranger os animais...



(1.) SOMETHING ROTTEN

Rosencrantz & Guildenstern were born dead;


but they just couldn't lie still,
so they fell on Brazil
like a mattress of lead.

(1a) ALGO DE PODRE

Rosencrantz & Guildenstern nasceram mortos,


mas, sempre mais irrequietos, seus dois corpos
cairam em cima do Brasil de um golpe, juntos,
como um colchão de chumbo!

(2.) SIMPLE, AIN’T IT?

Simple Simon saw the joke,


nobody else ever did;
so he bought for a quid
a ladder, a curtain of smoke,

plus a social-climbing zest
proper to teach any goofer
to sit high on the roof
whereby lie the very best!

Humpty laughed his head off;
yet Simple climbed and climbed,
so high up, his behind
came to be seen bare and lofty!

Humpty whispered (duely bored):
So, there he climbs, one more rogue,
I’ve seen it all before,
every inch a king of frogs!

Then came the fatal fall:
King Simpleton, the Last,
stuttered, stumbled & bit the dust
to the laughter of them all.

Never mind, moaned Simple,
Humpty came tumbling down
through sheer lack of know-how,
I through a bum and a whimper...


(2a.) SIMPLES, NÃO ACHAM?

Simplício achou muita graça,


mas ninguém se ria; então
ele comprou com um tostão
uma escada, uma fumaça

(de cortina) e essa ambição
que anima tanto o empregado
que o faz galgar um telhado
como se fosse o patrão...

Humpty (Homem-Ovo em Alice
no País das Maravilhas)
ria à beça, mas quem disse
que o outro ligava? As pilhas


da ambição super-ligadas,
Simplício subiu tão alto
que suas brilhantes nádegas
eram vistas lá do asfalto!

Humpty, com aquele bocejo
de quem sabe o fim da história,
ria, ria: “Mas que vejo?!
O rei das rãs galga à glória! ”

Foi então que a queda veio:
Rei Simplício, o Derradeiro,
tropeçou no inglês primeiro,
gaguejou e falou feio,

mas se esburrachou no chão...
Eu, tradutor do poema,
opto por sua extensão
para elucidar o tema

embutido em seu final:
Simplício diz-se que o Ovo
caiu de bobo, afinal
nunca quiz “fazer o novo”;

ele, um insígne Homem Oco,
caiu com estilo e garbo,
ou seja, através do rabo...
(Bum ou bang, o cara é louco!)


(3.) UNSIGNED, FROM THE BEYOND

“Dear Mr. Tontolino


(I trust you’ll let it be
If I’ve mispelled, latinos
Have always confused me):

A bag-filling process
In the bush without a dog
Can only end with a frog
Jumping sideways, or less,

What’s all the fuss about?
Who’s been tampering with an ash
I’d so pointedly left out?
Who is this pompous ass?

Or, rather, who was , I’guess...
Though, as death & sex go,
one fares better in Mexico,
thank you all, nevertheless.”

(3a.) SEM ASSINATURA, DO ALÉM


“Caro Senhor Tontolino
(há de perdoar-me, espero,
se errei seu nome, os latinos
sempre me induziram ao erro),

encheção de saco em mato
sem cachorro é coisa vã,
só pode levar a rã
a tentar pular de lado,

mas que balbúrdia é essa aí?
Quem foi remexer na cinza
que eu, na forma a mais precisa,
senti, mas não escrevi?

E o asno, quem é (ou era)?
Em coisas de morte & sexo
eu ainda prefiro o México,
mas obrigado à galera.”

(4.) OEDIPUS & THE TOAD

Toad the King in the middle


of such a sticky muddle?!
Up the creek without a paddle,
Oedipus thought the riddle

an easy pie to translate,
it was not... King Toad
got his English too late,
i.e., too little too old.

(4a.) ÉDIPO & O SAPO

Sapo-rei com um tal estigma,


numa trapalhada dessas?!
Édipo achou mole à beça
traduzir o tal do enigma
e acabou ficando cego;
Saplício aprendeu inglês
tão velho que deu o prego
quando leram o que ele fez...

(5.) “LEAFES OF GRAS”

A toad picked up a blade


of thin, very thin grass,
went straight home and made
a translation thick and crass;

unfortunately, what he did
was done in the open air,
where (to his lasting despair)
hard it is to have a lid

fit well onto one’s mess:
it all blew up on his face...
Lo, poor Toady in disgrace,
trying hard to digress,

counted verses, run amok
and bought himself a Grammar,
an English one... In shock,
he still mumbled: “Next Summer

I’ll be back!” “...back, back...”
went on the echo in a laughter,
as Toady hit the sack,
never to be seen thereafter.

(Now, this is the story in English;
five verses, as you count;
however, toads are ticklish,
for them translations amount

to sheer numerologics;
so, not to still offend,
I acquiesce in the end:
let Saint Arithmetics

add three verses (no more!)
to my own wicked five;
they needen’t be alive,
it’s all to please a bore.)

(5a.) “FÔLIAS DE HERVA”

Com um fiapo de erva fina


(mas fina demais...), Saplício
aplica-se a uma difícil
tradução; quando a termina

publica-a logo, correndo!
Ora, ao ar livre intrujice
é sempre um erro tremendo
e, sem tampa que a encobrisse,

a burrada do batráquio
explodiu-lhe no focinho...
Desesperado, o reizinho
chamou a coisa “um ataque”,

contou, recontou estrofes,
tapou com peneira o sol,
espalhou pelo “arrebol”
“cinza de versos”, os bofes

pela boca, e foi comprar-se
uma gramática inglesa...
Mas o eco é uma beleza!
Sem piedade e sem disfarce

desfiou que nem um trapo
a última frase do mestre:
“É impossível que um rei-sapo
faça algo que não preste!”

“Preste... preste...”, repetia
o eco... “Preste-nos contas!”
completava quem o ouvia,
a um pobre Saplício às tontas.

Desde então silêncio. O afoito
contador calou a boca
porque a coisa é meio louca,
mas as estrofes são oito!

SITTING DUCKS

There wasn’t a thing


in which old Byron
would not excel;
he was never shy,
so, what the hell,
he might as well try!
Undaunted by luck,
he would dare and sing
just about anything,
good old Lord Byron,
unless, it seems,
if it be his dreams,
poor lame duck,
of waltzing, o waltzing
from London to Cairo!
So with our two brothers,
plus a third man;
unlike many others
somewhere in between
twelve and eighteen,
they do what they can,
not to say a bit
of just everything:
come Winter, come Spring,
not ever despairing,
stuffed with the wit
of an old herring,
if only they could
they might, they should,
they ought to do it!

CORO DOS CEGOS DE TEBAS

“Como um rebanho, uma horda,


nós, os abaixo-assinados,
cá estamos, disciplinados
como um boneco de corda.

Mal informados, mal lidos,
somos cãezinhos fiéis
e vimos lamber os pés
de barro dos nossos ídolos.

Não lemos e não gostamos,
e por isso a uma só voz
protestamos, todos nós
penduricalhos em ramos

aos frangalhos desta vez,
talvez, mas não nos importa:
desde quando Inês é morta
beijamos o pé dos reis.

Nosso brio é algo insólito,
vergonha é pra quem tem cara,
nós temos coisa mais rara:
a cara de pau do acólito.

Somos fátuos, mas extremos:
nossa mais cara função
é o público beija-mão
dos deuses a quem nos demos

e hoje ameaçam depor!
Como po-los nus, no entanto?
Nunca tiveram outro manto
senão nós para antepor

ao vácuo em torno de um oco!
Um tóten oco é sagrado,
nu ou não, ao nosso lado
um rei não rui por tão pouco,

se não sabe javanês,
que não nos venham informar!
Que mal pode versejar
constatou-se a cada vez

que andou a reinar em metro,
não chega a ser novidade,
mas é uma barbaridade
contestar o augusto cetro!

Sabemos que lista alguma
faz reviver a donzela
que se atira da janela,
mas nós somos como a bruma,

cobrimos tudo de leve,
revestimos tudo, tudo,
em rapapés de veludo.
Quanto ao que um de nós escreve,

não pode ser discutido,

não pode ser discutido
porque não é lido nem
quer ser lido por ninguém:
pior que um mal entendido,

esperar que a coisa escrita
seja mais que referência
é uma grande impertinência!
Portanto, nossa visita

à hediondez deste momento,
às páginas sacrossantas
de uma folha como tantas,
tem como único intento

tapar a augusta nudez
de uma maneira qualquer.
Que leia quem bem quizer,
nós não sabemos inglês

e nada temos que ler,
somos cortesãos apenas,
os figurantes em cenas
feitas para o bel prazer

de Beemoth e Leviatã,
não para instruir ninguém.
Fazemo-lo muito bem,
deitamo-nos no divã

como um perfeito ato falho,
os Édipos sem Jocasta,
pertencentes a uma casta
de coringas sem baralho

porque o jogo é sempre o mesmo:
nada se tem a perder
com calar. Quanto a escrever
ou ler, fazemo-lo a esmo

quando o fazemos às vezes.
Nossa função é servir
a uma idéia de porvir
que não desagrade aos deuses,

nossos deuses insultados
por análises de texto.
Como matilha em cabresto
protestamos indignados!

Não, não sabemos inglês
nem português muito bem,
mas que importância isso tem?
Digamo-lo de uma vez,

somos como os Homens Ocos
de um poemeto que não lemos:
o que eles sabem, sabemos;
se o não sabem, nós tampouco... ”

INOCENTE INÚTIL
“Sou um bobalhão
que não fede ou cheira,
fui a um beija-mão
por engano e, queira

ou não queira, irmão,
fiz mais uma asneira...
Mas me esquento não,
foi de brincadeira,

eu sempre brinquei
com a vida, com a arte...
Mas respeito a lei

do mais forte, à parte
o rei que beijei,
meu amo é o Sarney!”

ATA & MINUTA

A União Simiesca do Vácuo,


unida em vão,
laureou outra vez um macaco
de estimação:

concedeu-se o troféu 'Puxa Saco
de Salão'
ao Senhor Nelson Asco, um velhaco
trapalhão
que arrancara uma carta ao Candido
e, por que não?,
pendurou-a às orelhas... O bando

deu-lhe razão
e o pilantra saiu ganhando!
Fim da Sessão.

BINÓCULO PELA CULATRA

Uma gralha enfeitada com a pena


de um ancião
se avacalha: um pavão dá pena,
um trapalhão

enrolando-se aos pés de um mecenas
na contra-mão
suja as próprias orelhas apenas,
chateia o chão.

Nosso bobo-da-corte, incapaz
enquanto artista,
já minúsculo, diminui-se mais:

minimalista,
com a epístola o pobre rapaz
some de vista.


CONVITES À FILOSOFIA

O último ataque de sabedoria


da bela doutora Chauí
me deixou perplexo! Um dia
num canteiro de Alexandria
a única flor que eu não colhi
passou horas e horas ali
explicando filosofia
a um cliente da casa... Lili,
se fazia chamar a guria.

No batente contraíra o mal
que não desgruda quando ataca
e a paixão do conceito. Polaca
(uma ex-noviça, por sinal),
escapara ao torrão natal
na valise de um industrial,
mas matara-o de morte macaca
e agora despachava-os de maca
rumo à enfermaria geral!

Sabia tudo de Epicuro,
o seu xodó. Falava bem,
punha qualquer um de pau duro
com as dissertações e o vaivém
das mãos sábias, no claro-escuro
à beira-leito... Jurar não juro,
mas, se não convertia a ninguém,
fascinava o varão maduro
e os mais inespertos também.


Clandestino e errante, eu sabia
que, sem Visto no baixo Egito,
se me pegassem estava frito:
dormia ali durante o dia,
hotel nem morto! O arranjo previa
apenas que o moço bonito
dormisse sozinho e, repito,
eu dormia a manhã toda, ouvia
Lili me explicar o infinito

e Epicuro lá para as duas;
cerca das quatro, quatro e meia,
devolvia o cascalho à bateia
e reganhava o ouro das ruas,
as semi-ninfas semi-nuas
ficavam para trás, a feia
das grandiosas semi-luas
e a estupenda Lili. Cantei-a
de mil maneiras, das mais cruas

às mais cruéis, das mais virís
às mais dúcteis, mas não houve jeito:
epicurava ao pé do leito,
mas de graça não dava! Fiz
o que pude, o malandro perfeito,
mas epicurista aprendiz
é mesmo um pedestre, e bem feito!
Ah, pudesse este meu país
resistir às nativas Lilis,

seus babados e baboseiras,
como a pérola de Alexandria
resistiu-me semanas inteiras!
Manual de filosofia
a noite toda dá em olheiras,
mas é mal incurável, mania
até mesmo de ex-futuras freiras
filosófico-epicureiras
como as há também, quem diria,

neste nosso agreste jardim.
Minha Santa Teresa, eu li
o manual da nossa Lili
de cabo a rabo! É verdade sim,
li tudinho, e ansioso torci
pela guria até ao fim...
Mas uma cena que nunca esqueci,
dentre as lufadas de jasmim
daquela mansão sem jardim

veio a mim como uma chibatada:
vi minha Lili de olhos belos,
de calcinha toda rendada
num florido patamar de escada
como a jovem do poema de Eliot
e sofri! Aquela madrugada
eu voltara mais cedo, os melros
começavam a cantar na estrada:
Lili desatara os cabelos,

largara Epicuro e, à janela,
chorava, chorava... A verdade
chegara muito perto dela,
com a imperdoável crueldade
das horas vazias, aquela
era a hora da verdade. Bela,
descabelada e sem vontade
de iludir-se, dava pena vê-la:
afinal esquecia a vaidade,

desmentia a reputação
de Diótima eslava e selvagem
e soluçava de pé no chão...
Levei comigo aquela imagem
anos a fio, desde então
sinto certa camaradagem
com todas as fêmeas que em vão
pensam que sabem o que não sabem.
Soube que morreu no Sudão

alguns anos depois. De frio.
Esfriara a pérola ardente,
murchara quando um livre docente
desmanchara-lhe fio por fio
a douta cabeleira insciente
aquela noite... Conheci-o,
um professoreco insolente
de Liceu: humilhou friamente
minha flor, e Epicuro, o vadio,

nem se importou, fez-lhe o favor
de abandoná-la nua e crua
à escolástica do inquisidor.
Se a nossa doutora não for
tão sensível, a sorte é sua,
talvez ainda possa dispor
da arte fria de um cliente-instrutor;
recomendo uma noite sem lua
em Alexandria: há uma rua
transversal entre o velho mar,
o Maryût e a Rodovia
dos Ingleses; nela há um solar
que todos conhecem, de dia
a casa é fácil de encontrar;
o tal professor não saía
de lá, com certeza há de estar.
Não ensina filosofia,
ensina as Lilis a acordar.

EM RETROSPECTO

Pobre pequena,
sofreu demais!
Com aquela cena
perdeu a paz,
não se viu mais
feliz, serena,
era só ais...
Já a Marxilena
é um monstro horrendo:
eu fico lendo
Tia Chauí
e me arrependo
do que senti
pela Lili!

MUDEZ DE PEDRA

Deram um jaboti-ti-ti
para uma jabotetéia
das muitas que dão ali
no mundinho-como-idéia:
diante de toda a platéia
o bicho foi com a Chauí!

Se a esperta compôs de cor
ou colou do namorado,
ninguém sabe: o Merquior,
nosso mais lido letrado,
foi desta para a melhor
e o bicho é mudo, coitado...


HOMUNCULUS PAULISTANUS

(vulgo Chatus Rex Brasiliensis)



Fóssil de terceira.
Segundo o arquivo
presume-se vivo,
mas sob a poeira

não se sabe ao certo.
Período mundano.
Ignora-se o ano
em que num deserto

reuniu caretas,
numa companhia
que chamou de letras,
mas como mal lia

acabou o herói
do semi-letrado:
o editor play boy.
Pede-se cuidado,

único exemplar
empalhado em vida!
Favor não tocar.
Foto proibida.

ET CATERVA

Lulu Gosmolima
projeta na Musa
a alminha confusa,
quanto mais a estima
mais o gajo abusa,
mais lhe baba em cima.
Lirinha cafusa
sem ritmo ou rima
quando o entusiasma
como um trem fantasma
excita um pirralho
o estilo cascalho,
de gato com asma,
fica duca mesmo!

Fauna Sucesseira
é outra personagem
que só lê asneira,
adora bobagem!
Deve ser faceira
debulhando vagem,
se fosse rameira
teria a vantagem
de ganhar a vida
de maneira honesta,
mas é precavida,
só lê o que não presta,
flor tão bem nascida
não enruga a testa.

SEGREDOS DE IMPRENSA

Caro Alcino Leite Neto:


tem nêgo aí protestando
que nem capanga de bando,
mas no meio do panfleto

há um ou outro indiscreto
que anda dizendo, explicando
que não viu nem o esqueleto
do manifesto nefando;

diz que foi mal informado...
Se faz parte da quadrilha
ou caiu numa armadilha,


a cada desenganado
vai soneto em redondilha;
se os publicar, obrigado.

JOVENS BÁRBAROS CENSORES?

Minha querida Gal Costa,


como entender o seu gesto?
Assinar um manifesto
pro-censura?! Você gosta

só do censor ou de bosta
concreta também? Não presto,
vá lá, mas por que o protesto
em lugar de uma resposta?

Por que recorrer à lei,
e a lei de imprensa?! Porque
ponho a nu um sapo-rei?

Me admiro de você
(que até hoje admirei)
sendo a flor num tal buquê!


II

Os meus parabéns, Betânia!
Não leste e não assinaste!
Não és enxerto de haste
de buquê de coletânea

datée! Aos irmãos arcanos,
à inania verba, a esse traste
lembras que arbítrio e desastre
já nos devem vinte anos!

Tu, que preferes porvir
a "arrebol", vai, salva a pele
do teu mano, viu? Aquele

que fazia a gente rir
de milico, diz a ele
que é proibido proibir...

III

Escutou, Gilberto Gil?
Se um galo canta, o experto
neste matreiro Brasil
vai verificar de perto,

tem sapo neste deserto
que imita tudo! O mais vil,
nostálgico do fuzil,
do bom AI-5, é certo

que imita o Armando Falcão,
canta que nem Passarinho,
um primor de imitação!

Mas velho galo-de-rinha
que não leu linha por linha
não assina nada não!

IV

E agora, cá entre nós,
Caetano Veludoso:
como andas melindroso!
Sacodes com tua voz

os canecões, mas após
tanto discurso estrondoso,
tanta irreverência, a sós
com um sapinho vaidoso,

assinas o mais careta,
o mais pífio manifesto!
Quando a coisa andava preta

era outro o teu protesto,
por que servir de muleta
a um censorzinho molesto?

CARTA ABERTA AO JOÃO

"Só se for na vaga do João Neves."


(J.C.M.N. em 1955)

Deixas claro com quem andas;
pergunto-te eu: quem és?
Quando lá por tuas bandas,
com teus canaviais aos pés,

já fazias rapapés
a nulidades nefandas?
Já adulavas coronéis?
Hoje assinas. Hoje mandas
emboscar velhos amigos
por detrás. Hoje és do bando.
Como os engenhos antigos

que se foram hipotecando:
cassaco virando caco;
velho virando velhaco.

II

Mas não faz mal, o cochilo
cavalar de um cavalheiro
expõe de uma vez o estilo
do medalhão brasileiro:

faz-se o que se faz primeiro;
depois, no tom mais tranqüilo
de quem "nunca disse aquilo",
põe-se a culpa num terceiro...

Há aquilo que um homem diz
e aquilo que não se faz;
há muito gesto infeliz

de rapazote, que os pais
não aprovam, mas que fiz?
Perturbei a santa paz

dos medalhões do país...

CARTA ABERTA A MARLY

"A fonte dessa mágua é uma lanterna..."


( Marly de Oliveira,1959)

Sim, passaram-se quarenta anos,
qualquer coisa como um vendaval
de dispersões, e até de enganos,
inadmissíveis como tal
entre nós, mas a um teu sinal

tudo se recontituía,
voltava ao normal. As esperas
podiam ser pura agonia,
mas eu era fiel e tu eras
a que cercava as primaveras

de ritmos, de imagens exatas,
dos cuidados de uma enfermeira,
de uma irmã... E de repente matas
sem aviso ou razão! Traiçoeira,
estraçalhas uma vida inteira

com uma simples assinatura,
concedida (segundo me dizes)
ao primeiro que te procura
para arrancar pelas raízes
nossas páginas mais felizes!

Uma longa fraternidade
que além de nós dois incluía
bemmais:CarlosDrummond de Andrade,
o Manuel, Ruth Maria
e Dona Cecília, que um dia
(não lembras?) sorrindo nos disse
que era preciso ter cuidado
para que nem sequer Clarice
conseguisse nos pôr um de um lado,
a outra do outro... Esse passado,

que nunca passou para mim,
era belo como a cabeleira
de um outro poeta sem fim,
o nobre Tasso da Silveira,
cuja limpa, gradual cegueira,

via mais, muito mais claro ainda,
que nossos olhos juvenís.
Hoje, eis-me posto na berlinda
diante de todo este país
por ti também, e algo me diz

que não te dói a traição
que me fazes gratuitamente,
como a toda uma vida... A mão
dói-me mais que o punhal, o dente
mais que a mordida: serei doente,

tolo certamente, e cretino
(conheço-me, como duvidá-lo?),
mas não te reconheço! Menino,
vi em ti a silhueta, o halo
de um poeta, e o mais longo intervalo,

a mais estúpida separação,
nunca puderam esmorecer
a força daquela visão.
Por que pões um anoitecer
sem nenhuma razão de ser

- com uma rápida assinatura -
sobre minha total confiança
em ti, na límpida figura
que era minha desde criança?
Por que o coice na esperança

que sustém a infância da vida,
por que em vez da mão a pata
já quase à porta da saída?
Vamos morrer, sabes? A data
pouco importa, importa o que mata

sem ser preciso e, o que é mais triste,
importa o gesto de matar.
Vejo a mão com que me feriste,
a facada sem avisar,
o golpe brutal em lugar

de quatro décadas de amor...
Mas por quê? Era tudo mentira?
Mentes agora? Ou algum mentor
ensinou-te como se vira
tudo ao contrário, tira a tira

rasgou-te a alma de menina,
de poeta? Na casa em que Stella
morreu dando à graça divina
resignação ainda mais bela
que a assinatura ao fim da tela,

a obra-prima que assinou
foi memorável: a agonia
foi fértil como ela, o vôo
elegante como o dia-a-dia
com que amparou uma poesia

e seu poeta-inquisidor.
Em algum lugar dessa casa
que hoje é tua, há algo de amor,
de um anjo bom, daquela asa
que tinha todo o ardor da brasa,

mas nunca queimou, nem de leve,
sequer o leite da coalhada,
que fervia como se deve:
sem distração nem trapalhada!
A mão que nunca assinou nada

de infeliz nem de traiçoeiro,
virou asa, e talvez ande perto...
Se te tocar o travesseiro,
se ainda voltar a esse deserto
que fizeram de seu lar, é certo

que algo terá para ensinar-te.
É possível que seja algo assim
(conheci-a bem...) : "Não há arte
que valha um só gesto ruim,
quando alguém confiou em mim

nunca encontrou fechada a porta..."
Mas talvez seja muito tarde
para entendê-la, Inês é morta,
o vivo sempre mais covarde,
e, sem lareira onde arda, arde

sem brilho ou eco a brasa eterna.
Aprenderás o que aprenderes
deste episódio, a alma hiberna,
mas acorda. A de certas mulheres
será sonâmbula ou, se preferes,

oblíqüa, caprichosa, fria,
talvez, mas podes estás certa
que a tua, sonolenta hoje em dia,
de repente há de se ver desperta
numa enorme casa deserta.

Talvez saibas então quanto custa
o que fazes, Marly, da maneira
mais leviana e mais injusta:
apunhalar (ou foi brincadeira?)
um amigo e uma vida inteira.
IV. RESPONSABILIDADES
Ah, o país dos poetas! Quanto mais
improvável aqui, no pobre agora
dos desastres morais, quanto mais fora
das probabilidades do fugaz,

quanto mais sujo, mais doente, mais
esquecidiço, quanto mais demora
a aparecer esse país, a hora
de defender-lhe as torres ancestrais,

as coisas que fundaram esta linguagem,
ou a replantaram aqui nesta paisagem
insultada, mas certa do que é,

a hora de erigir-se alguma fé
faz-se mais clara e cheia da coragem
que obriga a não ceder, a fincar pé!


William Butler Yeats, não irei
a Pasárgada alguma, ou visitar-te
outra vez em Sligo: minha parte
de réprobo, de autor fora-da-lei,

de degredado de uma raça, eu sei,
era bem divertida, mas a arte
republicana é a da linguagem, e o rei
ou o ditador só morrem de um enfarte:

o que vem da arruaça, quando assume
a graça da poesia, o único estrume
que tapa formigueiro... O vigarista

(foste tu que o disseste) tem no artista
seu pior inimigo: há quem resista
à facada do canto como gume?
Vou ficar por aqui, nesta arruaça,
porque ela se parece ao meu país,
como o teu parecia-se à desgraça,
à fome, à fuzilada... Algo me diz

que por aqui sou mais teu aprendiz,
da tua arte, a arte do que passa,
desmorona-se e serve de raíz.
A raíz da canção, daquela graça

de cantar, de erigir-se cada torre
no lugar do real. Que não socorre
nem seduz, mas insiste e insiste até

fazer da coisa humana o que ela é.
Somos assim aqui também: o porre,
a gritaria, o descalabro... E a fé.


So long! Até um dia destes, Mestre
do ontem e do amanhã, que continua,
que não pode parar. Talvez não preste,
mas se assim for a culpa é minha e tua,

porque culpa é de todos, não da lua,
do eclipse... A minha tribo é mais rupestre
do que a tua, é verdade, sai à rua
nua, a cara pintada à moda agreste

da indiarada abusada pelo resto;
mas não, não quer dizer que não se entenda
ou não perceba a mentirada, a venda

já não presta, anda em tiras. Há um protesto
cantando por aqui, como na lenda
do vilão que, com medo da encomenda

trancou-se a vida inteira do homem honesto...
AQUI TERMINA OS SAPOS DE ONTEM
(TEXTO EXCLUÍDO)

INSIDE THE HOUSE OF USHER

Ele um velhote infeliz,


cortezão de longa data
e mácula do país,
cuja obsessão barata
é ele-mesmo, sempre à cata
do acólito, do aprendiz
que lhe imite a lira chata,
a “anti-lira”, como diz...

Ela, a dondoca de bata,
calculista até a raiz:
fez acrobacias mís
para acabar candidata
a Du Barry do país;
de luxo, nada barata,
fez-se folhear a prata
o ganha-pão em Paris...

House of Usher sure it is!
O mal sempre pede bis
às portas de uma alma ingrata
e a experiência me diz
que onde eles puserem a pata
tudo o mais vira sucata,
só se escapa por um triz:
o que não morrer se mata.

GRITARIA NA TOUCEIRA
“Macaco quanto mais sobe mais se vê o rabo...”
(Dito popular trásmontano)

No país dos antolhos, da vizeira,
não há nada de proibido,
a não ser haver lido
uma asneira:

se for
de vanguarda, convém
calar sobre a gaffe, se bem
que o mais prudente é declarar-lhe amor.

Eu conheci um vendedor de vento
num país parecido ao nosso
que só vendia um troço
nojento:

boato...
Fazia-se pagar
por si mesmo, assumindo o ar
de quem conhece a letra do contrato.

Por aqui, nem falar, tem muita gente
dando-se esse mesmo ar:
o asno oracular,
o doente...

No entanto
ai de quem vir o rabo
do símio quando sobe! Eu acabo
de ver um deles nu, mas meu espanto

no caso,
não foi tanto por conta
do dito rabo, cuja ponta
em cu de deuses deve-se ao acaso,

foi por conta da incrível gritaria
de tanta gente contra mim!
Gente séria e chinfrim,
quem diria!

Séria mesmo, não sei, até então
duvidava, hoje hesito:
marmanjo não ganha no grito,
a razão

é a meta,
mas no caso não era!
É que símio por aqui é fera,
faz tudo quanto quer, faz-se poeta...

NOTAS

1 Poesia Concreta (Literatura Comentada, 1982)
2 Duas Cidades, 1975
3 “A sensibilidade agora presente é mais a de um transeunte enervado que lança seu
testemunho anônimo, mistura de gesto enigmático e de deboche, do que a de um poeta...” (cf. opus cit.)
4 Em nota a esta jóia de seu “Teoria e Prática do Poema”, o imantado versejador que em breve
relegaria Bandeira, Drummond e Jorge de Lima “à margem do processo cultural” informava-nos estar “na
mesma trilha de João Cabral, porém ao avesso” (sic); por si só tal “silogismo” parece-me antológico...
5 Observe-se que até hoje o articulista não se mostrou capaz de um único soneto, não se diga com a
alta voltagem dos que nos deram aqueles três mestres modernistas, mas por vago, anônimo ou anódino que
fosse; mas já se mostrava capaz de decidir por si só o que fosse esse processo cultural, a cuja margem
relegava nossos dois maiores poetas de roldão com a espetacular reinvenção jorgeana da secular forma
toscana.
6 Manuel Bandeira não fugira a esse problema crucial, que acabaria por comprometer
irremediavelmente a realização poética marioandradina; com a aguda clareza do poeta-crítico, diagnosticara-o
lapidarmente como uma deslocação do imaginário, uma fatal falta de chão sob todo o seu projeto lírico:
“linguagem artificial, porque é uma síntese e sistematização literária pessoal de modismos dos quatro
cantos do Brasil ” (à página 134 de Apresentação da Poesia Brasileira, Casa do Estudante do Brasil,
1953).
7 Na introdução à 1a. edição de Teoria da Poesia Concreta.: Textos Críticos e Manifestos (Duas
Cidades, 1975), o trio “revolucionário” gabava-se de haver “retomado o diálogo com 22, interrompido por
uma contra-reforma convencionalizante e floral” (sic). Para além deste curioso ato-falho, a nostálgica
ciumeira dos “morigerantes maralmíscares” não explicava quem dos seis grandes e dos seis estreantes
acima citados teria sido responsável por esse lapso; ficávamos sabendo apenas que a “educação do
príncipe”, aquele fino “operário do azul em Agedor” estivera ameaçada até que os três grandes de
Noigandres varressem para “a margem do processo cultural” as baboseiras contra-reformistas de
Drummond, Bandeira, Cecília, Jorge, Murilo e seus jovens turcos. Ufa!
8 Seria ainda Manuel Bandeira a dar a medida e o nome aos boizinhos sagrados da paulicéia
minimalista. Em sua Apresentação da Poesia Brasileira (cf. nota 5) resumia assim a arte oswaldiana:
“pequenos trechos de prosa que ordena em verso-livre (...) menos por inspiração do que para indicar
novos caminhos (...) versos de um romancista em férias, de um homem muito preocupado com os
problemas de sua terra e do mundo, mas... exprimindo-se ironicamente, como se estivesse a brincar.”
Com efeito, só que a brincadeira não acabara, a ampliação valorativa do mini-mestre de Pau Brasil far-se-ia
indispensável à fabricação de novas miniaturas à la Leminski, entre tantas...
9 “O velho alicerce formal e silogístico-discursivo, fortemente abalado no começo do século,
voltou a servir de escória às ruínas de uma poética comprometida (sic), híbrido anacrônico de
coração atômico e couraça medieval.” cf. Augusto de Campos in Suplemento Dominical do Jornal do
Brasil aos 12/5/56.
10 cf. Harold Bloom, A Ansiedade da Influência (Imago).
11 Será superfluo, mas não é nunca demais lembrar que Machado de Assis, supremo cume do gênio
nacional, não passaria hoje de nota de rodapé em nossa história literária caso tivesse morrido antes dos
quarenta. O gênio é imprevisível, às vezes já lá está, às vezes vem tarde e, se às vezes não vem, convém
aguardá-lo sempre com reverente confiança. Que significaria hoje para nós Manuel Bandeira se a tísica o
tivesse levado à idade de Raul de Leoni? Que se teria tornado, se lhe tivesse sobrevivido, o autor de Luz
Mediterrânea?
12 Vejo neste tipo de episódio, de resto, mais uma instância do ódio visceral que anima os dois manos
contra aquilo que lhes escapa congenitamente, ou seja a arte que jamais souberam fazer. A reunião dos
preciosos espólios de Titio Kilroy & Vovó Sousândrade, respectivamente o Homem Torso e a Mulher
Barbada das sub-letras tropicais, mais que um consolo à solidão da Família Adams do Belletrismo-em-armas,
seria um modo a mais de torpedear a idéia mesma de uma ordem possível no acervo cultural de um povo,
especialmente uma que unisse beleza e verdade como traços da fisionomia nacional.
13 Veja-se como, em Soneterapia, o Sr. Augusto de Campos, trinta anos após seus “morigerantes
penubis e glaromas” receitava à pátria lira seu novo Elixir da Longa Vida, marca 1982: “Drummond perdeu
a pedra: é drummundano / João Cabral entrou pra Academia / custou mas descobriram que Caetano /
era o poeta (como eu já dizia)”. Ao desrespeito ao Poeta Maior, homem que terá sido tudo menos
mundano, soma-se o despeito adolescente à Casa de Machado de Assis. E o elixir é barato, à venda no
Canecão, última Ágora do make it new. O populismo cai como uma luva ao demagogo. O artista falido
detesta a arte, essa ingrata que não o quiz e ele atira com facilidade ao populacho pela mão dos DJs. O
bárbaro no jardim do espírito, com seu ódio ao belo, seu desprezo pelo pensamento e sua aversão à poesia - a
esse indispensável acervo de um povo que é sua linguagem profunda - faz sempre o mesmo itinerário: passa
pelo embuste e vai cair na anarquia. De quatro.
14 Ou aparisionados?
15 (Perspectiva, 1972)
16
Bruno Tolentino, Os Deuses De Hoje, Poemas 1964-94 (Record, 1995)
17 O manifesto, publicado em O Estado de S. Paulo de 16 de setembro de 1994, trazia as
assinaturas de dezenas de intelectuais de prestígio, entre os quais João Cabral de Melo Neto, Marly de
Oliveira, Luís Costa Lima, José Miguel Wisnik, José Lino Grünewald, Marilena Chauí, Gilberto Gil e Caetano
Veloso. Alguns alegaram depois ter assinado em branco, sem saber exatamente o que o Sr.Augusto de
Campos iria colocar acima de seus honrados nomes. É mais seguro assinar em branco notas promissórias do
que manifestos de intelectuais.
18 TACRIM -SP — HC — Relator Juiz Valentim Silva — JUTACRIM 37/86.
19 Heleno C. Fragoso, Lições de Direito Penal, São Paulo, Bushatsky, 1976, p. 225.
20 Suscetibilidades, aliás, hipócritas. Fingir-se de escandalizados por coisa pouca é um truque pueril
com que os políticos do interior dão à platéia caipira uma impressão de pureza. Basta com dizer umas
obviedades, e logo esses santinhos-do-pau-oco sentem um impulso irresistível de mostrar/ocultar suas paixões
vis por meio de afetações de escândalo. Dizem então: “Nossa, como ele tem ódio!”, ou melhor, fazendo
biquinho de velha inglesa: “Como ele tem óóóuuudiu!” — para que o auditório entenda que no coração deles
não existe senão o puro amor. Será que ainda existe quem caia nessa? Pobre Tolentino: trinta anos fora do
Brasil, e um sujeito se esquece de que essas coisas ainda existem.