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Anotações acerca de A doença como Metáfora, de Susan Sontag:

- Segundo Susan Sontag, a doença é “a zona noturna da vida”; todos nós estamos
envoltos por essa dupla cidadania, “do reino dos sãos e do reino dos doentes”;
- A intenção da autora, nessa obra, é refletir não sobre a doença física em si, mas os
usos dessas como figura ou metáfora; a ênfase é dada em torno da tuberculose e do
câncer;
- A tese central de Susan Sontag se dá em torno de que doenças como o câncer não
são metáforas, e a melhor forma de lidar com elas é expurgar o pensamento
metafórico e as formas subjetivas advindas com este; a autora dedica a obra à
libertação, por parte dos acometidos por tais doenças, à ruptura de tal jugo; tais
representações geradas por essas metáforas desconsideram os processos de cura e
de ressignificação do corpo.
- As diversas fantasias em torno do câncer dizem respeito a enfermidades que são
consideradas intratáveis e caprichosas; são os ornamentos das metáforas que o
envolvem;
- O câncer é vivenciado como uma “invasão cruel e secreta”, e as variedades de
pavor em torno da doença são inúmeras; a própria palavra, “Câncer”, é tida como
portadora de um “poder mágico” (muitos, inclusive, não a pronunciam);
- “Enquanto essa enfermidade em particular for tratada como um predador
invencível e maligno, e não só como uma doença, a maioria das pessoas com um
câncer se sentirá de fato desmoralizada ao saber que doença tem. A solução não
pode estar em deixar de contar a verdade para pacientes com câncer, mas sim
retificar o conceito da doença, desmistificá-la”.
- “A forma como lidamos atualmente com o câncer dá bem a medida de como se
tornou muito mais difícil lidar com a morte nas sociedades industriais avançadas”
- Um problema cardíaco pode ser tão ou mais sério do que o câncer. Porém, ninguém
pensa em ocultar um problema coronariano da mesma forma como é feito com os
pacientes do câncer. “Mentem para os pacientes de câncer não só porque a
enfermidade é (ou se supõe ser) algo de efetiva gravidade, mas porque é considerada
algo obsceno – no sentido original da palavra -, de mau-agouro, abominável,
repugnante aos sentidos(...)”.
- O câncer pode surgir em qualquer órgão do corpo, e a área de alcance pode
abranger o corpo inteiro. Os sintomas principais são tidos como silenciosos,
praticamente invisíveis. O corpo é tomado algo opaco, não transparente, não-visível
(pelo fato de, em vários casos não serem diagnosticados de imediato). Ao contrário
das metáforas efetuadas em torno da tuberculose (uma doença vinculada ao excesso
dos sentidos, aos arroubos da paixão, sendo mistificada no período histórico do
Romantismo), o câncer é tido como dessexualizador.
- O poder das metáforas, das mistificações criadas em torno do câncer são enormes.
Apesar dos casos se manifestarem em variadas classes sociais, ainda é tomada como
uma doença da vida típica de classe média, dos excessos, ligada à fartura, não é
vinculada à carência ou a falta de recursos. O imaginário popular associa-o aos
países ricos (ondem existem altos índices de pacientes diagnosticados), o alto índice
de casos é associado, em parte, à uma dieta alimentar desequilibrada, das sociedades
urbanas, a hábitos de saúde irregulares, alimentos industrializados, cigarro, dieta
rica em gordura e carboidrato. São os “resíduos tóxicos da economia industrial.
- Trata-se de uma doença material, extremamente vinculada ao corpóreo; não revela
nada de espiritual (ao contrário da tuberculose, por exemplo, tida como “uma
doença da alma), tem-se, apenas, o corpo em sua manifestação máxima material, em
exercício de degradação pelo avanço da patologia.
- As questões vinculadas ao câncer dizem muito respeito ao modo como a ideia de
“doentio” se desenvolveu a partir do século XIX;
- O câncer é compreendido como uma doença que revela constante repressão de
sentimentos, de repressão da paixão; o psicanalista William Reich talvez seja um dos
principais responsáveis por essa vinculação, e por definir o câncer como uma doença
que desencadeia a “resignação emocional”, uma “renúncia da esperança”.
- Há a crença, arraigada no imaginário popular (e que, inevitavelmente, muitas
vezes assume vestígios na subjetividade dos pacientes acometidos pela doença) de
que o câncer vem a ser uma espécie de patologia “punitiva”, que atinge a cada um
individualmente. “Ninguém pergunta ‘por que eu?’ (com o sentido de ‘não é justo’)
quando contrai, por exemplo, cólera ou tifo. Mas, ‘por que eu?’ é uma pergunta que
muitos se fazem quando sabem que estão com câncer”.
- A crença hoje numa personalidade propensa ao câncer “longe de estar restrita ao
quintal da superstição popular, é vista como expressão do pensamento médico mais
avançado. Alguém pouco emotivo, inibido, reprimido, é tomado como uma
personalidade propensa ao câncer”.
- Como qualquer situação extrema, o câncer pode vir a desencadear, do ponto de
vista da personalidade, “o pior e o melhor da pessoa”. Doenças de risco efetivo para
a vida sempre foram vistas como um teste de caráter moral.
- Há uma tendência contemporânea para a psicologização das doenças.
“Psicologizar parece abrir caminho para o controle de experiências e de fatos (como
uma enfermidade grave) sobre os quais as pessoas, na verdade, têm pouco ou
nenhum controle”. A mera ‘psicologização’, segundo Sontag, o modo de
compreender a manifestação da patologia unicamente pelo viés psicológico pode
cercear a “realidade’ de uma doença, levar a uma incompleta interpretação de seus
aspectos físicos.
- Dentre as inúmeras metáforas vinculadas ao câncer, algumas das mais recorrentes
se referem a questões bélicas (como, por exemplo, “Israel é um câncer no mundo
árabe”), sendo uma das metáforas mais comuns a ideia da “invasão” e suas
consequências comparadas com o crescimento de um tumor e suas células
cancerígenas. Para os pacientes, tais metáforas em nada são benéficas,
proporcionam a consolidação da doença enquanto um “mal absoluto”, além de
serem simplistas e grosseiras no entendimento da patologia como um todo.
- A respeito, a autora afirma: “(...) à proporção que a linguagem do tratamento se
deslocar das metáforas militares de espírito bélico agressivo para metáforas que
ponham em destaque as defesas naturais do corpo (o sistema imunológico, como
forma de ruptura com a metáfora militar), o câncer, em parte, pode vir a ser
desmistificado. Será possível, então, comparar algo ao câncer sem implicar nem um
diagnóstico fatalista nem um clamor para lutar, com todos os meios, contra algum
inimigo mortal e traiçoeiro.