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Como será o futuro do

mercado de trabalho?
ÍNDICE

O que o futuro reserva para o Brasil?.................................... 2

Quais desafios os jovens brasileiros têm pela frente?........... 9

O que podemos esperar do futuro do


mercado de trabalho?........................................................ 14

Como os millenials vão transformar o


mundo do trabalho? ..........................................................19

E se sua profissão não existisse amanhã?...........................24

Como deve ser o líder do futuro?....................................... 28


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F
alar sobre o futuro é sempre Para dar conta dessas análises,
um exercício de adivinhação. conversamos com nomes que vão
Podemos reunir análises de David Baker, um dos principais
históricas, dados, pesquisas, professores da The School of
opiniões de especialistas e, ainda Life, ao ex-ministro da economia
assim, o que teremos diante de nós brasileiro Maílson da Nóbrega,
não vai ser mais que uma previsão, passando por Ronald Heifetz,
uma expectativa. fundador da Kennedy School de
Harvard, e pelo economista Robert
Ainda assim, neste material, é Wood, da unidade de inteligência
isso que buscamos fazer: reunir da The Economist.
os pensamentos de profissionais e
pesquisadores que têm dedicado Além destes, tivemos que recorrer a
suas carreiras a prever o futuro e muitos outros para tentar responder
nos preparar para o que está por vir. ao questionamento complexo deste
material: O que esperar do futuro do
Primeiro, abordamos o futuro mercado de trabalho? Só que esta, no
de um ponto de vista local e de entanto, ainda não é a pergunta certa.
curto prazo, buscando trazer mais
clareza sobre o que os jovens No final das contas, o que você
podem esperar do incerto mercado encontrará aqui é a identificação de
de trabalho brasileiro diante da tendências que já vem se desenhando
delicada situação econômica que o no mundo do trabalho atual, do qual
país atravessa. você faz parte. Deste ponto em diante,
muita coisa ainda pode mudar, e você
Depois, ampliamos nosso olhar também pode mudar muita coisa. A
para uma visão global e de longo grande pergunta então é: O que você
prazo, analisando o que os avanços vai fazer?
tecnológicos e o surgimento de
inteligências artificiais significam
para as profissões como as
conhecemos hoje.

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O que o futuro reserva


para o Brasil?
O que podemos esperar do mercado brasileiro em 2017? A
expectativa é que ano seja mais estável que o anterior, mas o
crescimento de verdade vai ficar para depois. Os jovens devem
aproveitar para estagiar e acumular experiências no currículo!

E
“ u imagino o que se passa na
cabeça do jovem”, diz Renan
Gomes De Pieri, professor do
Insper, em São Paulo. “Ele olha para
o lado e ninguém está conseguindo
emprego, há poucas vagas ou são ruins.
É um desestimulante muito forte.

Há certo grau de consenso entre o que


especialistas e órgãos internacionais
esperam do Brasil no ano que vem:
estagnação. Até a previsão do governo
para o crescimento da economia em
2017, que era de 1,6%, foi rebaixada
para 1% em novembro.Ou seja, piorar
não vai, mas melhorar tampouco.

O Fundo Monetário Internacional


espera metade disso e prevê 0,5%. É
a mesma expectativa do Economist
Intelligence Unit (EIU), braço do grupo
The Economist que oferece análises
econômicas para empresários do
mundo todo.

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O que o futuro reserva


para o Brasil?

Em uma palestra em dezembro, Robert e investidores. E muitas companhias


Wood, vice-diretor de América Latina ainda estão endividadas e aguardando
da EIU, foi direto: “Será um ano melhor condições mais fáceis de crédito”,
que esse, mas isso não significa muita continuou.
coisa”. No mercado, há tanto quem
acredite em desempenho um pouco Além de crédito para pagar as contas,
melhor como em números piores. as empresas estão esperando sinais
positivos do governo. “O empresário não
A crise política do país, que traz sabe quanto vai ter que pagar”, explica
reviravoltas dignas de Alfred Hitchcock Renan. “Então novos investimentos
semanalmente, complica a crise dependem do cenário macroeconômico
econômica. Mesmo em cenários mais e das reformas. Quanto mais tempo isso
estáveis, previsões lidam muito com levar, mais demora para gerar emprego
o erro. Diante da complexidade do e empregar a capacidade ociosa.”
cenário brasileiro, é quase impossível
dizer o que vai acontecer. Mesmo retomando um ritmo saudável de
crescimento econômico, a volta da oferta
Para Wood, o mercado ainda oferece o de emprego ainda é uma reação que
benefício da dúvida ao governo atual e demora um pouco mais para acontecer.
espera suas medidas para responder. Primeiro, o mercado aproveita como pode
“Vimos que as condições ainda são muito quem ainda está empregado, e só depois
fracas, consumidores têm altos níveis de se sentir seguro com a economia é
de endividamento, o crédito não está que começam as contratações.
fazendo seu papel de apoiar a demanda…
Investidores viram que não era o “Infelizmente, [o desemprego] tende a
momento certo”, disse sobre os resultados piorar nos próximos meses”, opina ao Na
decepcionantes do 3º trimestre de 2016, Prática o economista Maílson da Nóbrega,
quando a economia brasileira recuou 0,8%. ex-ministro da Fazenda do governo
Sarney – época em que ele e sua equipe
“Os consumidores vão começar a reagir enfrentaram a hiperinflação, um dos
à inflação e juros mais baixos, mas a mais graves e complicados momentos
retomada precisará vir dos empresários econômicos da história recente do Brasil.

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O que o futuro reserva


para o Brasil?

Para Maria Cristina Cacciamali, “Vamos ter que esperar mais um


professora de economia política pouco por um novo ciclo de geração
da América Latina e de estudos do de empregos. Uma vez que passe a
trabalho e política pública da Faculdade crise, no entanto, jovens que estudam
de Economia, Administração e agora ou se formam em breve vão sair
Contabilidade da Universidade de São na frente e encontrar um mercado um
Paulo (FEA-USP), a recessão também pouco mais fácil”, continua. Ele chama
não vai terminar tão cedo e as chances atenção para uma das consequências
são de estabilidade ou piora no número pouco discutidas da diminuição de
de vagas disponíveis no mercado. jovens no ensino superior para quem
pode continuar na faculdade: um
“Estamos num momento muito mercado com menor concorrência.
explosivo, em que a crise econômica
se sobrepõe à crise política. Até De fato, segundo a Síntese de Indicadores
que as reformas sejam aprovadas, Sociais do IBGE, a porcentagem de
vamos permanecer com baixa jovens que não estudavam e nem
atividade econômica e nenhum tipo trabalhavam em 2015 foi maior que em
de recuperação de investimentos – e, 2014 – cresceu de 20% para 22,5%.
enquanto não vierem, mesmo que
em pequena monta, é muito difícil Quem está procurando emprego
acreditar na melhora”, fala. “A coisa também já percebeu que os salários
está tão ruim que até os trabalhadores estão mais baixos. Pesquisa realizada
estão saindo do mercado.” pela Produtive Carreiras mostra que,
entre maio e novembro de 2016,
“A boa notícia é que a queda abrupta houve queda de 13% na média das
de vagas deve se estabilizar em 2017”, remunerações oferecidas. Isso pode ser
acrescenta Renan, que se preocupa explicado, em partes, pela lei da oferta e
com o número de jovens que deixou o demanda: como muitas pessoas foram
ensino superior para trabalhar e ajudar demitidas com a crise, o mercado
a família ou perdeu financiamento ficou com muita gente disponível e as
dos estudos, aspectos da crise que ele empresas conseguem contratar por
considera especialmente “perversos”. menos.

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O que o futuro reserva


para o Brasil?

Por mais que os economistas em criar um ambiente favorável para


prevejam no máximo a estagnação a inovação florescer cria um ciclo
das vagas para 2017, os recrutadores negativo entre baixa competitividade,
das empresas contam outra história. vulnerabilidade macroeconômica e
Segundo relatório do LinkedIn sobre baixa diversificação”, escreveu o
as tendências de recrutamento para Fórum Econômico Mundial em seu
o ano seguinte – feita a partir de 331 ranking global sobre a competitividade
entrevistas com líderes corporativos em dos países. Em 2016, o Brasil, que já
atração de talentos –, 40% dizem que o não estava bem, caiu seis posições
volume de contratações aumentará em naquele relatório anual e está em 81º
2017. O foco, ainda assim, será mais na entre 138 países.
qualidade do que na quantidade.
A Organização Internacional do
Mas, afinal de contas, o que todos esses Trabalho (OIT) vê uma situação
números significam para o jovem hoje? particularmente preocupante para
jovens. Em seu relatório anual sobre
Invista em experiências em sua área tendências de empregabilidade,
“World Employment Social Outlook
Embora potencializada pela intrincada Trends”, destaca que há três vezes mais
situação política que vivemos, a crise desempregados jovens que adultos
brasileira também é influenciada na América Latina e que cerca de 22
por uma série de fatores, como uma milhões de pessoas com entre 15 e 24
economia baseada na exportação de anos não trabalham nem estudam.
commodities que perdeu muito com a
desaceleração do crescimento da China
– principal parceira comercial do país –
e com a queda do preço do petróleo.

“O progresso lento de países


dependentes de commodities em
aumentar sua resiliência através da
diversificação e seu absoluto fracasso

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O que o futuro reserva


para o Brasil?

Gráfico OIT

“A falta de oportunidades de trabalho Para o universitário brasileiro, o grande


decentes disponíveis para esses problema é ter currículo curto em uma
jovens significa que muitos aceitam competição acirrada.
empregos informais ou vulneráveis”,
escreve. A OIT estima que o número “A mão de obra altamente qualificada
de desempregados no mundo suba em não terá problemas de emprego, mas o
quase 4 milhões entre 2016 e 2017 – 700 jovem altamente qualificado tem um
mil deles brasileiros. problema que é a falta de experiência”,
diz Maria Cristina.
Segundo o IBGE, 11,4 milhões de “Digo sempre aos meus alunos para
pessoas já estavam desempregadas no quem se preocupem com estágios e
país em junho de 2016, um índice de experiências profissionais ao longo da
10,4%. Especificamente entre jovens de própria faculdade, criando um conjunto
18 a 24 anos, o índice sobe para 24,1%, que o ajude a entrar no mercado.”
um dos mais altos níveis históricos.

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O que o futuro reserva


para o Brasil?

Num mercado em crise, encontrar as que transforma matérias primas brutas


primeiras oportunidades remuneradas para outras indústrias – e na criação de
fica naturalmente mais difícil. E como valor agregado para os produtos nacionais.
é pouca vaga para muita gente, é
fundamental ter foco para impressionar Para Maílson, em ambiente de alta
recrutadores. competição como o atual se sairão
melhor as empresas – industriais,
“Lidar com isso exige dedicação ao comerciais, de serviços e do agronegócio
estudo e a busca dos melhores cursos, – que se prepararem para conquistar
o que também demanda adequada capacidade de inovar e assim de
preparação. Não dá para contar com a ganhar níveis crescentes de eficiência,
sorte nem com indicações de amigos produtividade e competitividade. “Numa
e parentes para ser competitivo no palavra, uma combinação de boa gestão
mercado de trabalho”, comenta Maílson. com a atração de talentos de elevada
qualificação”, resume o ex-Ministro.
Quais são os setores mais
promissores? São também boas ideias para quem quer
empreender. “Os empreendedores devem
Basta olhar pela janela para saber que o se fixar em setores de alta produtividade
país não está absolutamente parado. Há e fornecimento de serviços que possam
alimentos no supermercado, gasolina aumentar a competitividade dos demais
nos postos, construções barulhentas e setores. Procurem soluções que possam
muita gente trabalhando. “E o setor de impactar no menor custo”, aconselha a
Tecnologia da Informação está indo muito professora.
bem”, fala Maria Cristina citando áreas de
Renan aposta na elaboração de produtos
alta tecnologia, aplicação de software e
voltados para classes específicas levando
produção de jogos como destaques.
em conta a vontade de consumir e as
faixas de renda reduzidas. “Lembra da
Defensora de uma economia com maiores
Havaianas, que era focada em baixa
índices de produtividade e competitividade
renda e remodelou sua marca para focar
internacional, ela diz que é preciso investir
também em público de renda um pouco
na indústria de transformação –
mais alta?”, pergunta.

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O que o futuro reserva


para o Brasil?

“O caminho que temos que seguir é o E isso tem efeito cascata em toda a
contrário: adaptar produtos para levar em indústria de óleo e gás nacional, de
consideração a concentração de renda, refinarias à gestão ambiental e além.
tanto nas classes A e B quanto C e D.” E com a passagem da polêmica PEC do
Teto pelo Senado, em 13 de dezembro,
Depois de 2017 alguns cenários econômicos otimistas
ganharam força. O Itaú Unibanco, por
Robert Wood, da EIU, destaca que exemplo, estima que dentro desse cenário
a recuperação deve vir do mercado – se tudo caminhar nos conformes –, a
doméstico, mas tranquiliza os brasileiros economia pode crescer 4% em 2018.
em relação aos interesses externos: eles
ainda existem. “Investidores estrangeiros “Não há nenhuma reforma que possa
ainda veem muitas oportunidades e, levantar a economia em curtíssimo
apesar das dificuldades do país, estão prazo. Estamos ajustando as contas para
acompanhando as coisas de perto e poder crescer”, alerta Maria Cristina.
pensando no longo prazo.” “Vejo-as como positivas do ponto de
vista da geração de expectativas do
Ele cita o novo marco para a exploração mercado. Vamos torcer para que os novos
de pré-sal e a nova rodada de concessões investimentos se concretizem.”
de exploração de petróleo, que permitem
que outras empresas além da Petrobras Para Maílson, a recuperação, além de
explorem as riquezas. Assinado pelo lenta, também depende do resultados
presidente Michel Temer em novembro, das próximas eleições. “Creio que a
o marco – de olho em companhias partir do segundo semestre de 2017,
estrangeiras – abre o campo e desobriga veremos uma recuperação continuada
a Petrobras a participar de todas as do mercado de trabalho e do emprego,
atividades do pré-sal. podendo voltar aos níveis de 2013
por volta de 2023”, prevê. “O risco é
“Vimos uma resposta bastante boa na acontecer a eleição de um aventureiro
última rodada de concessões mexicana em 2018, que levaria a economia a
e há razão para acreditar que o cenário outra crise grave de inflação, recessão e
é suficientemente bom para atrair desemprego em poucos anos. Creio que
interesse ao Brasil”, disse Wood. é uma hipótese pouco provável, mas
não impossível”, ele alerta.

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Quais desafios os jovens


brasileiros têm pela frente?
Em tempos de vacas magras, muitos jovens se veem com tempo
nas mãos. Saiba o que fazer para sair da crise com um currículo
mais competitivo e encontrar uma carreira de impacto!

S
essenta emails, trinta inscrições
e dezenas de testes online
rendem meia dúzia de
respostas que não dão em nada –
essa é a experiência frustrante de
muitos jovens brasileiros à procura
de emprego atualmente. A gente
sabe: não está fácil para ninguém.

Para o LinkedIn, no entanto, o


cenário para esse ano promete mais
oportunidades. Embora governo
e economistas estejam receosos
em relação à melhora da situação
econômica do país e ao crescimento
do emprego, de acordo com a pesquisa
da empresa sobre tendências de
recrutamento – feita com líderes
brasileiros especializados em atração
de talentos – 2017 trará um bem vindo
aumento no volume de contratações.

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Quais desafios os jovens


brasileiros têm pela frente?

E há outros insights. “Cada vez se torna “Não é o volume de aplicações e


mais importante encontrar candidatos processos seletivos que vai te levar
que estejam em sincronia com a a conseguir um emprego”, reforça
cultura e os valores da empresa”, fala Anamaíra Spaggiari, coordenadora de
Fernanda Brunsizian, gerente de educação da Fundação Estudar. “É mais
comunicação do LinkedIn. Em tempos importante ser assertivo buscando para
de recursos escassos, como o atual, o que haja um match, uma combinação
entre o que você sabe fazer bem e a
investimento em talentos fica mais em
função daquela vaga e empresa.”
qualidade do que quantidade – assim, a
preocupação em contratar o candidato
Ela também sugere aprofundar a
certo fica maior ainda. Por isso mesmo,
pesquisa para aumentar o leque de
os jovens devem procurar empresas
possibilidades. “Procure empresas
em que acreditam; “cujo propósito que estão crescendo mesmo na crise
combine com a sua forma de ver o ou que acabaram de realizar fusões e
mundo”, nas palavras de Fernanda. aquisições”, fala. Caso você combine
com um estilo de trabalho mais
Para isso, é preciso investir em despojado, considere startups, presença
autoconhecimento e também pesquisar crescente no país – e que seguem
bem o mercado e as oportunidades expandindo e contratando.
profissionais, indo além das
informações básicas como salário e Desafios de um mercado em crise
job description.
Esses são – e continuarão sendo –
os primeiros passos para criar uma
Da mesma forma, ao considerar a
carreira que alinhe impacto e propósito,
cultura e os valores da empresa pela
com ou sem crise. No entanto, diante de
qual se interessa, o candidato faz
um mercado de trabalho desfavorável e
escolhas mais conscientes e aumenta
com menos vagas, a busca por propósito
suas chances de se apresentar bem
e alinhamento de valores pode parecer
para recrutadores, e de se dar bem a um luxo para poucos diante da
longo prazo no local de trabalho. urgência de conseguir um emprego que
pague as contas e agregue experiência
profissional ao currículo.

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Quais desafios os jovens


brasileiros têm pela frente?

As oportunidades de trabalho estão, 2018. “Isto tudo pode acarretar em um


de fato, menores, com demissões desenvolvimento profissional tardio e
em massa e congelamento de vagas mais lento”, continua ela.
em diversas empresas, reflexo da
preocupação em cortar custos. “A crise Há Saídas!
econômica tem criado um cenário No final das contas, o que está em
que coloca em xeque, para muitos, questão é como cada jovem irá
esta nova forma de fazer carreira. A enfrentar esse cenário desfavorável.
escassez de oportunidades representa
uma força contrária, que pode levar Se está complicado conseguir uma vaga,
o que fazer no meio tempo para ganhar
o jovem a abdicar de motivações
experiência? Envolver-se com trabalhos
pessoais para escolher seu emprego
voluntários e projetos paralelos é uma
somente com base nas primeiras
boa ideia, já que ambos desenvolvem
oportunidades que aparecerem”,
competências e habilidades e ainda
explica Anamaíra.
rendem assunto na hora de uma
entrevista de emprego.
Muitos universitários que estão
entrando no mercado de trabalho
Da mesma forma, também vale
sentem medo de não conseguir um
aproveitar o tempo livre para investir
emprego e construir a carreira sonhada. em pós-graduações, cursos online
Só piora essa situação emocional (frequentemente gratuitos!) ou
delicada receber muitos ‘nãos’, ou programas de curta duração que
sequer receber uma resposta depois estimulem habilidades comportamentais,
de enviar um currículo ou fazer uma como os oferecidos pela Fundação
entrevista. Estudar e supervisionados por
Anamaíra – os conceitos trabalhados
“O pior cenário é ficar sem emprego e em cursos como Laboratório, Catálise,
sem experiência”, fala Anamaíra. Com Imersão e Trilha funcionam como
um currículo pouco desenvolvido, o diferenciais competitivos na hora da
jovem corre o risco de concorrer com contratação.
recém-formados quando a economia
melhorar, algo previsto para idos de

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Quais desafios os jovens


brasileiros têm pela frente?

Se resolver a crise está fora do alcance Nesse contexto, um ponto positivo para
dos jovens recém-formados, buscar os profissionais mais novos, por exemplo,
enxergar as oportunidades dentro dessa é que diversas empresas e indústrias
situação adversa é algo que pode (e optam por trocar profissionais mais
deve!) ser feito. Trata-se de um exercício experientes e caros por estagiários e
comum no coaching: identificar o que recém-formados, que representam
está dentro da sua zona de controle, e um custo de folha menor para as
atuar ali. organizações.

Para Anamaíra, tanto quem está “Com funções que seriam exercidas por
empregado quanto quem está à pessoas com mais tempo de carreira,
procura também pode valer-se da isso pode se configurar numa aceleração
crise para desenvolver resiliência e do seu desenvolvimento e uma ótima
outras habilidades. Por exemplo: com oportunidade de crescimento”, explica
o orçamento mais enxuto, as empresas Anamaíra.
tendem a demitir funcionários e,
quem fica, acaba acumulando funções. As promoções podem não vir
Aprender a trabalhar sob pressão, imediatamente, já que o cenário ainda
acumular responsabilidades, ser mais não é de bonança, porém os profissionais
flexível e ter foco em resultados, por que demonstrarem disposição para
exemplo, vão ajudar todos a se ajustarem sobreviver junto a empresa a momentos
melhor ao mercado de trabalho que se difíceis muito provavelmente serão
delineia num futuro próximo. reconhecidos no futuro.

Quem já conquistou um emprego – O futuro


mesmo que não seja o emprego dos
sonhos – também não pode se acomodar, É preciso lembrar, afinal de contas, que a
ficando sempre de olho nas possibilidades crise deve ser passageira, e há um futuro
de desenvolvimento, entregando os depois dela que também vai demandar
melhores resultados possíveis e não preparação e planejamento de carreira.
esquecendo de se preparar e de buscar Sobre esse futuro, o Fórum Econômico
seu objetivo (seja uma futura promoção,
Mundial já consegue vislumbrar, por
uma mudança de área ou a vaga em
exemplo, quais serão as dez habilidades
outra empresa, etc).
mais buscadas em 2020.

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Quais desafios os jovens


brasileiros têm pela frente?

“A mudança não vai esperar por nós: Mas há demanda por habilidades
líderes empresariais, educadores e um pouco mais offline, como análise
governos precisam ser proativos e estatística de dados aplicada à área de
investir em novos treinamentos para que recursos humanos, desenvolvimento
todos possam se beneficiar da Quarta de negócios e gerenciamento de
Revolução Industrial”, escreve o órgão, relacionamentos.
referindo-se ao mundo transformado
pelas mudanças tecnológicas. E por que Manter-se atualizado com as tendências
não aproveitar para ser individualmente do mercado faz com que alguns saiam
proativo também? à frente dos outros, algo ainda mais
interessante durante uma crise ou logo
As habilidades são as seguintes: depois dela. São aquelas pessoas que
resolução de problemas complexos, parecem ter previsto o futuro, como
pensamento crítico, criatividade, designers que se especializaram há
gestão de pessoas, coordenação com anos em interfaces ou experiência do
outros, inteligência emocional, tomada usuário e profissionais de marketing
de decisões, orientação de serviços, que dominaram SEO antes desse
negociação e flexibilidade cognitiva. termo viralizar.

Se estiver à procura de algo mais Assim, refletir sobre o futuro do seu


concreto e a curto prazo, o LinkedIn campo de interesse profissional nunca
também divulgou recentemente quais foi tão importante. Afinal, os avanços
devem ser as habilidades profissionais trazem consigo novas profissões – e novas
mais buscadas no Brasil em 2017. oportunidades. “A característica mais
importante para qualquer profissional
Em sintonia com o momento atual, hoje é a flexibilidade em todas as suas
muitas delas são bastante tecnológicas, direções: disponibilidade para aprender
como desenvolvimento mobile e novos sistemas, para trabalhar com
software de integração e middleware. equipes multidisciplinares, para mudar
de área e de cidade”, conclui Fernanda.
Um novo mundo, de fato.

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O que podemos esperar do


futuro do mercado de trabalho?
De habilidades a estilo de trabalho, passando por áreas e indústrias
que mais vão se transformar, relatório do Fórum Econômico
Mundial analisa as grandes mudanças que ocorrerão no mundo
do trabalho entre 2015 e 2020

N
ada menos que a quarta
Revolução Industrial. É assim
que o Fórum Econômico
Mundial descreve o futuro próximo
em seu novo relatório, “The Future
of Jobs”, enquanto apresenta os
principais componentes sociais,
tecnológicos e econômicos que
atuam sobre o mercado global e como
a força de trabalho atual influenciará
essa transição.

É um olhar imediato, que analisa o


impacto esperado entre 2015 e 2020
e as respostas preparadas por chefes
de recursos humanos e diretores de
estratégia de grandes empresas. Logo
no início, o grupo avisa: é tempo de
ajuste de indústrias, transformações
fundamentais e ritmo sem precedentes
de mudanças.

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O que podemos esperar do


futuro do mercado de trabalho?

Tecnologicamente, avanços em genética, A partir de agora, trabalhadores de todas


inteligência artificial, robótica, energia, as áreas terão a missão de manter suas
nanotecnologia e Internet das Coisas habilidades atualizadas (reskilling) e
estão no centro das mudanças. Uma aprimoradas (upskilling).
enorme população jovem em países
emergentes, assim como uma força de Será um fator crítico para evitar o
trabalho em envelhecimento em países crescimento do desemprego e da
desenvolvidos e desigualdade crescente, desigualdade, e é importantíssimo que
também estão no jogo. empregadores incentivem a educação
contínua e o aprendizado proativo
Oportunidades ilimitadas ou substituições desde agora para não correrem o risco
em massa são os dois extremos da balança de perder a geração atual.
e a mensagem final do relatório é otimista,
mas cautelosa. Se bem administrada, a Dois terços dos entrevistados para
atual transição pode ser a oportunidade o relatório disseram, inclusive, que
que faltava para transformar de vez o investir em reskilling de funcionários
trabalho em um canal através do qual atuais já é uma estratégia em curso.
indivíduos poderão se realizar e usar seus
potenciais ao máximo. Algumas das especialidades mais
buscadas hoje sequer existiam há dez
“São nossas ações hoje que definirão o anos, uma tendência que deve crescer.
que vai acontecer”, conclui. De acordo com o estudo, 65% das
crianças hoje no primário terão tipos
Habilidades do futuro completamente novos de emprego
quando começarem a trabalhar. E
Para descrever melhor o que está por
trabalharão de um jeito diferente.
vir, o relatório apresenta uma nova
medida: a estabilidade de habilidades.

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Quais desafios os jovens


brasileiros têm pela frente?

Trabalho remoto, flexível ou sob Áreas em crescimento e novos


demanda, assim como espaços de co- papeis
working, equipes virtuais e plataformas
de talento online são alguns dos Entre as áreas que devem contratar
exemplos usados para mostrar as cada vez mais estão computação e
novas fronteiras entre trabalho e vida matemática, arquitetura e engenharia,
pessoal, ainda em formação. gestão, negócios e operações financeiras
e vendas, em ordem decrescente.
Independentemente dos empregadores,
o jovem também precisa se manter Do outro lado, estão áreas como
atento às habilidades e competências instalação e manutenção, construção e
em alta – sejam elas novas ou antigas extração, arte, design, entretenimento,
– e aproveitar as diversas maneiras de esporte e mídia em geral e manufatura
se atualizar que existem hoje, como os e produção. Funções de escritório
cursos gratuitos e online de sites como e administrativas, cada vez mais
Coursera e edX. automatizadas, tem a pior previsão de
queda: quase 5%.

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Quais desafios os jovens


brasileiros têm pela frente?

Há três postos, no entanto, com Diversidade é chave


crescimento praticamente garantido
no mercado do futuro e aparentemente O relatório sugere diversas opções de
aplicáveis em todos os setores: estratégia de adaptação aos recrutadores
(e, portanto, aos jovens profissionais).
1. Analistas de dados Entre elas está revolucionar a função
Em todas as indústrias e países, dos Recursos Humanos, que será cada
haverá demanda por quem conseguir vez mais importante, e a aposta na
transformar o dilúvio de dados (que diversidade.
deve crescer ainda mais) em insights e
informações úteis. Decisões baseadas “É tempo para uma mudança
em dados serão cada vez mais vitais fundamental em relação à questão
em qualquer lugar. do talento e da diversidade, seja de
gênero, idade, étnica ou orientação
2. Agentes de vendas especializados sexual”, escreve os autores. O uso de
Praticamente todas as indústrias dados também pode ser útil aqui para
precisarão ter a habilidade de identificar de maneira objetiva as
comercializar e explicar seus produtos potencialidades de cada um e eliminar
para outros negócios, governos e os preconceitos inconscientes que
clientes. Isso porque muita coisa será existem na hora da contratação.
novidade – e muitos clientes serão tipos
inéditos até então. Com a demanda cada vez maior
por trabalhadores da família STEM
3. Novos tipos de gerentes (Ciências, Tecnologia, Engenharia e
Guiar empresas por grandes Matemática, em inglês), a questão da
transformações de maneira eficaz é igualdade de gêneros ganha contornos
difícil. Quando o caso é de disrupção, ainda mais urgentes.
então, o desafio é ainda maior. Ambos
vão acontecer cada vez mais, e quem Isso porque, na última década, apenas
for bom no cargo terá muitas ofertas. 3% do gender gap econômico global foi
fechado.

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Quais desafios os jovens


brasileiros têm pela frente?

As chances de uma mulher conseguir uma posição de liderança ainda são muito menores
que as dos homens (28%) e apenas 9% dos CEOs do mundo são do sexo feminino.

Mulheres ainda são minoria em tais campos por diversas razões e, se um cuidado extra
não for aplicado pelas empresas na hora de pensar sobre o futuro, há um risco de
dificultar ainda mais o sonho de eliminar o hiato profissional entre homens e mulheres.

O relatório estima que homens perderão cerca de 4 milhões de empregos e ganharão


outro 1,4 milhão – quase um novo posto para cada três perdidos. No caso das mulheres,
já subrepresentadas, a expectativa é de um novo emprego para cada cinco eliminados.

O relatório termina pedindo atenção especial ao tema e sugere uma série de medidas, de
mecanismos de responsabilidade empresarial a programas de tratamento e mentoria.

Um ponto valioso da conclusão é lembrar que a responsabilidade não termina no


escritório. Uma empresa tem a oportunidade de impactar sua cadeia de valores
e tornar-se uma influência externa que garanta neutralidade, inspira meninas e
jovens e desenvolva parcerias com a sociedade civil, entre outras possibilidades.

São ações que podem fazer toda a diferença, agora e no futuro de jovens de todo o mundo.

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Como os millenials vão


transformar o mundo do trabalho?
Pesquisas recentes mostram que os jovens não querem trabalhar
para empresas incompatíveis com seus valores e acreditam que o
sucesso de uma empresa é mais que seus números

U
m novo conjunto de ambições
e desejos vai moldar o século
21. Essa é a conclusão do
relatório “Motivated by Impact”,
escrito em 2016 pela Economist
Intelligence Unit (EIU), braço de
pesquisas do grupo The Economist.

A raiz da mudança são os millennials,


os cerca de 1,8 bilhão de jovens
nascidos entre 1980 e o começo dos
anos 2000.

Estudos indicam que esta é a geração


mais inteligente da história, graças
à nutrição aprimorada e ao acesso
ampliado à educação. Também
deve viver mais que as outras –a
expectativa de vida nunca foi tão alta
– e herdará nas próximas décadas
cerca de US$ 30 trilhões de dólares,
outro recorde histórico.

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Como os millenials vão


transformar o mundo do trabalho?

Segundo a EIU, 56% dos millennials Mais abertos ao diálogo e à troca de


dizem que nunca trabalhariam para ideias e informações, os millennials
uma empresa se não acreditassem em testarão essa capacidade de liderar em
seus valores. Outros 87%, de 29 países breve: estima-se que 40% dos negócios
diferentes, acreditam que sucesso nos familiares troquem de mãos já nos
negócios não é apenas sua performance próximos cinco anos.
financeira. E 93% acreditam que
impacto social é ponto-chave na hora Badr Jafar, membro da segunda geração
de tomar decisões de investimentos. da Crescent Enterprises, uma empresa
dos Emirados Árabes que lida com
Agora adultos e ascendendo em suas óleo, gás natural e mercado financeiro,
carreiras, os millennials trazem consigo disse à EIU que a questão vai além da
a vontade de unir trabalho, valores e transformação estrutural.
propósito – e esse impacto será sentido
tanto no mundo dos negócios quanto “Há uma mudança cultural e geracional
na sociedade como um todo. em relação a entender qual é o maior
propósito de um negócio”, falou. “Acho
Millennials como líderes que agora há uma apreciação mais
autêntica por trás da criação de valor
Não é incomum que, ao assumir uma que vem do foco no impacto social,
liderança, alguém mude processos, além da saúde financeira.”
equipes, filosofias ou ambientes para
que estejam em sincronia com seu Faz sentido. Afinal, escrevem os autores
estilo. do relatório, três quartos dos jovens
acreditam que empresas têm um
Esse é um fator significativo quando impacto social positivo.
se trata da próxima geração de líderes
corporativos: só na Europa e no
Oriente Médio, 80% deles querem ter
um estilo de liderança diferente de
seus antecessores.

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Como os millenials vão


transformar o mundo do trabalho?

Novos tipos de negócios Mais de 700 empresas são atualmente


comprometidas com dedicar 1% do
Uma inovação corporativa que ganhou capital, 1% do tempo da equipe e 1% de
força com os millennials são os negócios seus produtos para suas comunidades.
sociais, empreitadas financeiramente
sustentáveis que reinvestem seus Scott Farquhar, cofundador da bilionária
lucros em si mesmas e usam princípios empresa de software Atlassian, foi um
de negócios para resolver problemas criadores da ideia. “O modelo antigo
sociais ou ambientais. de fazer negócios era trabalhar duro a
vida inteira e então fazer algo bom para
Alice Freitas, uma das cofundadoras o mundo”, contou à EIU. “Mas a Geração
da Rede Asta, um e-commerce de Y [millennials que nasceram entre
artesanato feito por mulheres brasileiras 1980 e 1990] quer misturar trabalho e
em projetos sociais, considera seu diversão, quer que tudo aconteça junto,
trabalho um potencial legado para a e o mesmo se aplica à filantropia.”
sociedade e um estilo de vida.
Essa vontade fez com que a adesão ao
“Não faz sentido ganhar setenta vezes movimento se tornasse uma das três
mais que aquela pessoa que você apoia principais razões que atraem jovens
ganha”, resume. “Optamos por uma vida talentos à Atlassian.
simples e por viver com o suficiente.”
“Ter uma ótima cultura empresarial
Do outro lado estão altos executivos do permite que você atraia ótimas
Vale do Silício, jovens extremamente pessoas”, disse ele, que espera que esse
ricos que buscam o lucro (frequentemente tipo de compromisso eventualmente
bilionário) mas não querem abrir mão seja associado aos contratos sociais de
de seus valores no processo. uma empresa desde o começo.

Um exemplo oferecido pelo relatório é


o movimento Pledge 1%, um novo jeito
de enxergar a filantropia corporativa.

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Como os millenials vão


transformar o mundo do trabalho?

Investimentos de impacto Grandes bancos como BlackRock e


Goldman Sachs também já atuam
Empresas que unem grandes lucros nesse mercado – assim como o Vaticano,
e impacto social também existem. que em junho de 2016 organizou sua
A classificação mais famosa é a da segunda Conferência de Investimentos
B Corporation, ou empresas B, que de Impacto.
exige que as firmas passem por
um longo processo de avaliação e No fim de 2015, 156 investidores
comprometimento social e ambiental disseram estar administrando US$ 77,4
antes de ganhar seu selo. bilhões em investimentos de impacto.
E isso é enquanto os trilhões de dólares
Atualmente, mais de 1900 empresas que os millennials herdarão não
de cinquenta países estão cadastradas, chegam. (Quem já dispõe de grandes
entre elas gigantes como Natura, Etsy somas investe principalmente em
e Ben & Jerry’s. Outras, como Unilever, igualdade de gênero, acesso à água,
estão em processo de adequação. meio ambiente e educação.)

Há também fundos de investimento “Cinquenta e oito por cento dos baby


entre elas que praticam uma modalidade boomers [nascidos entre 1946 e 1964]
conhecida como investimentos de dizem que impacto social e ambiental
impacto, que visa ter tanto retornos é importante para seus investimentos”,
financeiros quanto sociais ou explicou Jackie VanderBrug, do banco
ambientais, que podem ser medidos US Trust, ao Financial Times. “Noventa
com diversas ferramentas. e três por cento dos millennials dizem
isso. Na verdade, millennials estão
Dois exemplos bilionários de empresas começando a perguntar: ‘por que você
B são o Generation Investment ainda me faz essa pergunta?’”
Management, do ex-vice presidente
americano e ativista ambiental Al Gore,
e o Capricorn Investment Group, de
Jeffrey Skoll, ex-presidente do eBay.

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Eduardo Vasconcellos, ex-bolsista É empregando o mesmo sentimento


da Fundação Estudar, trabalha no que Thomas Woolf, jovem fundador
Capricorn Investment Group pesquisando da EdAid, uma startup que oferece
oportunidades de investimento aliadas empréstimos estudantis mais baratos
aos processos de sustentabilidade através de um sistema peer-2-peer,
exigidos pela firma, que visa descreve essa grande mudança no jeito
principalmente retorno no longo prazo. de fazer (e encarar) negócios.

“É preciso ter disciplina para comprar “Se você puder ligar para sua mãe e tiver
no preço adequado e entender quando orgulho em contar o que fez a cada dia,
as empresas estão sendo avaliadas então está provavelmente executando
de maneira irreal”, resumiu sobre o um negócio decente.”
trabalho, que exige muito pensamento
estratégico – às vezes sobre mercados
que ainda não existem direito.

David Hutchinson, chefe da ONG


britânica Social Finance, que estrutura
esse tipo de acordo, diz que os
investimentos de impacto atraem
muitas pessoas que já se envolveram
com filantropia antes, mas sentiam
falta de impactos claros e mensuráveis
no papel.

“E notei que alguns investidores que


trabalham com diversas tipos de
investimento falam mais sobre seus
investimentos de impacto”, continuou.
“É do que eles têm mais orgulho.”

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E se sua profissão não


existisse amanhã?
Para David Baker, cofundador da Wired e professor da The School
of Life, você provavelmente amanhecerá sem o seu emprego. E ele
diz o que você deve fazer!

O
“ seu emprego pode não
existir amanhã”. É assim
que o jornalista David Baker
começa sua palestra sobre o futuro
do mercado de trabalho, realizada
hoje (8/10) em São Paulo a partir de
uma parceria da The School of Life,
Insper e Na Prática.

Cofundador da revista de inovação


tecnológica Wired e professor senior da
The School of Life, ele tem pesquisado
as relações entre tecnologia e mercado
de trabalho, e acredita que em breve
robôs vão substituir grande parte das
carreiras que conhecemos hoje.

Em qualquer fábrica de primeiro


mundo, no lugar de operários
agrupando peças e apertando
parafusos, encontraremos diversas
máquinas de última geração —
isso não é surpresa para ninguém.
Ao mesmo tempo, casas inteiras
são construídas em poucas horas
por uma impressora 3D gigante,
envolvendo apenas uma ou duas
pessoas no processo.

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E se sua profissão
não existisse amanhã?

Revolução Tecnológica classificar o conteúdo indesejado de


forma automática e não precisa mais
Segundo David, não são só os de nossa ajuda. Quando sugerimos uma
trabalhos braçais, mecânicos e técnicos tradução melhor ao Google Tradutor,
serão substituídos por máquinas e ela entra para o repertório do programa,
computadores. “Os engravatados também tornando-o mais inteligente.
estão ameaçados”, ele brinca. Se
você ocupa uma posição executiva, “É uma ilusão achar que algumas
estratégica, criativa — os famosos profissões estão seguras, como
trabalhos white collars — e acha que vai medicina, direito e jornalismo”, zomba
passar ileso pela revolução tecnológica, David, ele próprio um jornalista.
está errado. No vídeo abaixo, ele detalha “Nós somos vaidosos e achamos, por
sua visão sobre o mercado de trabalho exemplo, que nenhuma máquina
no futuro: será capaz de escrever de forma tão
elegante e bonita como nós”, diz. Para
ele, nenhuma máquina ainda é capaz
de fazer isso. Em outras palavras, é uma
questão de tempo.

Contextualizando: No site da revista


Forbes, notícias sobre mercado já são
redigidas em nanossegundos por um
robô. Existe um software capaz de
Essa substituição, aliás, não é uma diagnosticar pacientes com câncer com
previsão pessimista, e sim algo que já muito mais acerto do que os próprios
está acontecendo. “As máquinas estão médicos. Um programa de computador
usando nosso trabalho para se tornarem acerta 7 a cada 10 decisões da Suprema
boas naquilo que nós fazemos”, ele Corte nos Estados Unidos. Qualquer
explica. Tome como exemplo o Google: trader do mercado financeiro sabe que
ao sinalizarmos manualmente em computadores potentes são capazes
nossos e-mails o conteúdo que é “spam”, de fazer transações mais rápidas e
o programa rapidamente aprende a lucrativas do que eles próprios.

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E se sua profissão
não existisse amanhã?

Para David, esse cenário é apenas o “No mercado de trabalho como é


avanço inicial e tímido de uma curva hoje, grande parte das tarefas é
exponencial que demonstra como os completamente inútil. Eu escrevo
robôs vão substituir os nossos trabalhos. um relatório para alguém, que envia
Ou seja, essa mudança será cada vez esse documento para uma terceira
mais intensa e rápida. pessoa e depois nós três vamos fazer
uma reunião, enquanto uma quarta
A grande questão é: como lidar com isso? pessoa escreve uma nova versão do
relatório”. Esse vai e vem de papelada
Nessa revolução tecnológica, uma seria uma das primeiras práticas a
coisa é certa: pessoas vão perder deixar de existir. Com o ganho de
seus empregos. “Nós construímos tempo, poderíamos exercitar nossa
tecnologias que beneficiam o público curiosidade e buscar aquilo que
amplo, mas ao mesmo tempo destroem realmente amamos fazer.
mais postos de trabalho do que criam”,
explica David. Para ele, esse paradoxo Ainda assim, mesmo com tempo livre
nos força a repensar os nossos próprios para fazer o que gostamos, ainda
trabalhos: O que eu posso oferecer de permanece uma preocupação: Como
único para a sociedade? Qual o meu eu vou conseguir dinheiro se o meu
propósito e como meu trabalho se emprego desaparecer?
relaciona com ele?
A visão otimista é que toda a geração
A vantagem dos robôs de riqueza criada pela automatização
da produção seja distribuída com
“Talvez os robôs nos deem tempo livre relativa igualdade por toda população.
para fazermos aquilo de que realmente David defende que, sem a pressão de
gostamos e fazemos bem”, continua. ganhar dinheiro imediatamente, as
Segundo ele, a primeira parcela do pessoas poderiam escolher melhor o
nosso dia a dia a ser abocanhada que gostariam de fazer como carreira
pelos computadores será aquela mais — seja atuar, abrir um negócio ou
burocrática e com menos sentido. realizar escaladas.

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E se sua profissão
não existisse amanhã?

Mais do que isso: seriam mais


empreendedoras e tomariam mais
riscos. “Se você é capaz de descobrir
aquilo que te torna único, e percebe
uma forma de entregar isso para o
mundo, provavelmente alguém vai te
pagar bastante dinheiro por isso”, diz.
No vídeo a seguir, ele explica como
se preparar para esse novo contexto:

Da mesma forma, ele não hesita


em admitir que também existe uma
leitura pessimista para esse cenário:
um futuro assustador de desemprego
e alta concentração de renda nas
mãos dos detentores das tecnologias.
É exatamente o destino da revolução
tecnológica que está em jogo neste
começo de século.

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Como deve ser o


líder do futuro?
Qual tipo de liderança será capaz de conduzir seus times por todas
essas mudanças? Veja o que pensa o professor de Harvard Ronald
Heifetz. Ele, que já trabalhou com Ban Ki Moon, ex-presidentes e
vencedores do Nobel da Paz, compartilha seus conselhos para os
jovens nesta entrevista exclusiva ao Na Prática.

O
professor Ronald Heifetz
ministra um curso (bastante
disputado) de liderança na
universidade mais reconhecida do
mundo: Harvard. Por essas e outras,
pode ser considerado um expert no
tema.

Foi ele que fundou o Center for Public


Leadership da Universidade de Harvard
nos anos 2000, quando já tinha quase
vinte anos de experiência no assunto
e já havia publicado Leadership
without Easy Answers (sem edição em
português, pode ser traduzido como
Liderança sem respostas fáceis), um
dos 10 livros mais recomendados da
universidade. Desde então, tornou-se
referência na “prática da liderança”,
frase que ele emprega com frequência.

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Como deve ser


o líder do futuro?

Para o professor – que é médico, físico O que um grande líder tem?


e músico – ser um líder não basta. É a Coragem, um profundo senso de propósito
prática contínua, em todo e qualquer e a capacidade de aprender publicamente.
nível organizacional, que faz a liderança Isso significa não ter vergonha de aprender
existir. É esse o raciocínio por trás do em público e entender que o trabalho
conceito de ‘liderança adaptativa’, adaptativo exige tentativa e erro. É como na
de sua autoria. “Fundei o centro para tecnologia: há a versão 1.0, 1.1, 1.2…
aprimorar a qualidade e a quantidade
da liderança praticada ao redor do Precisamos ter autoconfiança suficiente para
mundo para torná-lo melhor”, resumiu. admitir que estamos aprendendo na frente
“Meus cursos são de liderança, não dos outros sem precisar fingir que temos as
apenas sobre liderança.” respostas o tempo todo. É a habilidade de
aprender no trabalho e encorajar outros a
Entre seus muitos ex-alunos estão o fazerem isso também.
secretário-geral da ONU Ban Ki Moon, o
ex-presidente colombiano Juan Manuel O sr. vê isso acontecendo? Se uma figura
Santos, premiado em 2016 com o Nobel pública muda de ideia, a reação dos
da Paz, e Tsakhiagiin Elbegdorj, atual outros costuma ser bastante negativa.
presidente da Mongólia. Um deles, Luiz Acho que você está descrevendo uma grande
Felipe d’Ávila, trouxe a metodologia limitação que impede pessoas em posições de
ao Brasil e implementou o Centro de liderança e autoridade de praticar a liderança.
Liderança Pública, em São Paulo. “É um Há uma pressão enorme para agir sempre
centro maravilhoso – você não precisa como o gorila dominante, que bate no peito e
vir a Boston!”, empolga-se. sempre sabe onde encontrar comida.

Heifetz conversou com o Na Prática Isso funciona belamente em um ecossistema


sobre liderança, natureza, e a crise de estável, mas não num ambiente em evolução
confiança no cenário mundial. Confira onde o gorila não sabe o que fazer. Ele
a entrevista completa a seguir: precisa então mudar o contrato social e as
expectativas dos outros para que eles não
apenas confiem no líder ou na líder por não
saberem, mas por dizerem que não sabem.

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Como deve ser


o líder do futuro?

E isso exige educar as pessoas para que Que características terá o líder do futuro?
apreciem as grandes diferenças entre resolver Há algumas capacidades e habilidades
um problema de rotina e um que exige estáveis: coragem, a capacidade de parar
inovação, descoberta e aprendizado social. para refletir no meio da ação – que exige
disciplina psicológica e emocional – e uma
Então deveríamos ensinar liderança paixão por fazer a diferença no mundo, não
na escola? apenas avançar nele. O que vai mudar serão
Sim, poderíamos começar até no ensino as habilidades de diagnóstico necessárias
fundamental. Queremos que as crianças para avaliar a natureza dos desafios
aprendam não apenas competências sociais adaptativos. Os desafios em si evoluem e as
de comunicação, resolução de conflitos e comunidades também.
negociação, mas também que liderança não
é igual a ser a criança dominante – que é O medo aparece com força em muitas das
possível praticá-la sem isso. Tendemos a mudanças que estamos passando, como
crescer equiparando liderança e autoridade quando se fala das consequências de
e as pessoas que não são dominantes supõe mudanças climáticas. Como ele influencia o
que não é para elas. Assim, muitos cidadãos cenário? O medo, claro, gera suas próprias
ficam esperando outros assumirem a defesas regressivas e temos visto isso nos
liderança. Não acham que é seu trabalho ou EUA em nosso sistema político. Temos um
que são capazes. anseio forte pelo arquétipo primitivo do
homem forte que pode salvar o dia e salvar
A liderança é uma prática e há muitas a nação das mudanças – seja construindo
pessoas em posições de autoridade que não um muro ou insistindo que não precisamos
a praticam e muitas, muitas que a praticam aceitar uma sociedade multicultural.
sem autoridade. Pessoas que não esperam ser
convocadas, eleitas ou indicadas: elas vêem Essas mudanças criam um mercado
um problema e assumem a responsabilidade. para que as pessoas surjam e falhem em
praticar a liderança, mesmo que tenham
tudo sucesso na hora de obter uma
posição de autoridade. E autoridade não
necessariamente significa liderança.

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Como deve ser


o líder do futuro?

É fundamental distinguir entre liderança O trabalho adaptativo, que é diferente da


e autoridade e isso nos dá vantagens para resolução de problemas técnicos, exige a
pensar sobre pessoas em posições altas de inteligência coletiva. E isso significa que
liderança que falham na hora de liderar. autoridades em posições alta devem fazer
as melhores perguntas ao invés de oferecer
Assim podemos explicar porque um papel todas as respostas – e encorajar e proteger
de autoridade lhe dá muito poder e recursos, as pessoas que fizerem as perguntas difíceis
mas também limita a prática de liderança. antes que sejam neutralizadas.
Às vezes é mais fácil liderar sem o trabalho
do chefe: há mais espaço para fazer as O sr. mencionou a importância do
perguntas difíceis e menos pressão. equilíbrio emocional e mental e
temos visto um número crescente de
Podemos também desenvolver pessoas, executivos falarem sobre meditação.
jovens ou não, para que pratiquem a O que acha desse tipo de método?
liderança sem autoridade. Não são apenas Aplico esse e outros métodos. As pessoas
os empreendedores que liderarão ao têm muitos jeitos diferentes de administrar o
começar novas organizações, mas pessoas estresse da liderança e manter sua capacidade
que começarem do lado de dentro ou de fora de distinguir o “eu” do seu papel, de não
para que a mudança suba pela hierarquia e personalizar as coisas mesmo quando estão
se espalhe nas quatro direções. sob ataque. Algumas meditam ou rezam,
outras vão para a academia ou tomam café
Ou seja, um líder precisa empoderar com amigos na mesa da cozinha.
os outros?
Exatamente. Uma das principais fontes Não recomendo nenhuma forma em especial,
da adaptabilidade que vemos na natureza mas acho muito importante ter algum tipo
é a inteligência distribuída. A natureza de santuário e protegê-lo. Se você fosse para
trabalha tendo uma população diversa, que Boston, compraria um casaco de inverno!
aumenta as chances de um membro de sua Então, quando praticar a liderança, precisa
espécie inovar ou começar uma inovação estar preparado para não ser levado pela
que permitirá que a espécie prospere num correnteza e manter um senso de equilíbrio.
novo ambiente.

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Como deve ser


o líder do futuro?

O Brasil ainda passa por uma grande É um grande debate que tenho tido ao longo
crise de representação, em que há dos anos e uma grande razão para preparar
enorme falta de confiança pública em as pessoas para a liderança desde cedo –
figuras de liderança. Como um país para que possam desenvolver as habilidades
pode trabalhar para recuperar essa e se imunizarem contra as muitas tentações
confiança? que acompanham as altas posições de poder
É uma pergunta relevante também nos ou riqueza.
EUA, quando tanto Donald Trump quanto
Hillary Clinton não têm a confiança da Precisamos de pessoas que cheguem ao topo
sociedade. Tive a oportunidade de treinar, e digam: ‘OK, finalmente cheguei aqui e vou
ensinar ou aconselhar diversos políticos e mudar as regras do jogo’. E elas precisam
eles tem o trabalho muito difícil de renovar a ter habilidades para mudar as regras e se
confiança do público. Há enormes tentações manterem vivas politicamente.
relacionadas à corrupção e vivemos num
tempo em que o público não tolera mais
esse tipo de corrupção – e ao mesmo tempo
a alimenta, porque quer tratamento especial
para isso ou aquilo.

Então eliminar a corrupção e se tornar


uma autoridade digna de confiança é uma
das tarefas mais sagradas para líderes nos
próximos 20 anos, e isso é muito difícil.
Conheço pessoas que não são promovidas
no meio político ou corporativo porque não
aceitam ou não permitem propina. Acho que
é criticamente importante se comportar de
maneira íntegra, mas também aconselho as
pessoas a fazerem uma transição gradual de
um conjunto de normas culturais corruptas
para um conjunto mais honesto.

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TEXTO
Ana Pinho
Pedro Gallo
Rafael Carvalho

EDIÇÃO
Rafael Carvalho

DESIGN
Danilo de Paulo
Marcos Torres
Renata Monteiro
Aaron Saiki

FOTOS
Acervo pessoal
Reprodução